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A PEDAGOGIA DOS CARACOIS

Ruben Alves

Os caracóis são moluscos lerdos. Andam muito, muito devagar. Ninguém tomaria os caracóis como
exemplos. Embora suas conchas sejam belas e construídas com precisão matemática, o que chama
a atenção de quem os observa é sua pachorra. Caracóis não tem pressa. Falta-lhes dinamismo, uma
virtude essencial àqueles que vivem no mundo moderno. Quem anda devagar fica para trás.

Quem iria imaginar que um educador, ao observar um caracol, tivesse uma inspiração pedagógica?
Pois foi o que encontrei numa revista italiana que se dedica a pensar os rumos da escola, Cem
Mondialità. A fotografia que ilustra o referido artigo é a de um menino, rosto apoiado na carteira, a
observar tranquilamente um caracol que se arrasta sobre a tampa da carteira. E o título do artigo é
“A pedagogia do caracol”. Caracol tem pedagogia a ensinar? O autor conta o sucedido com uma
menininha que, ao voltar para a casa, queixou-se à mãe: “Mamãe, os professores dizem ‘É preciso
andar rápido, nada de vagareza, para frente, para frente. Mamãe, onde é a frente?” E aí ele passa a
falar sobre a virtude pedagógica da vagareza. Pode ser que “chegar na frente” não seja tão
importante assim! Quem sabe o “estar indo” é mais educativo que chegar! No “estar indo” aprende-
se um jeito de ser. Nietzsche se ria dos turistas que subiam as montanhas como animais, estúpidos
e suados. Não haviam aprendido que há vistas maravilhosas no caminho que sobe… Riobaldo
concordaria e acrescentaria: “O real não está nem na saída e nem na chegada; ele se dispõe para a
gente é no meio da travessia.” O adágio da Sonata ao Luar tocado “presto” seria um horror. As notas
seriam as mesmas. Mas a beleza não se encontra no presto; ela está é na vagareza do “adágio”. Ele
aconselha os professores a estarem com seus alunos no ritmo “adágio”. Sem pressa. A lentidão é
uma virtude a ser aprendida num mundo em que a vida é obrigada a correr ao ritmo das máquinas.
Gastar tempo conversando com os alunos. Saber sobre as suas vidas, os seus sonhos. Que importa
que o programa fique atrasado? A vida é vagarosa. Os processos vitais são vagarosos. Quando a
vida se apressa é porque algo está não vai bem. Adrenalina no sangue, o coração disparado em
fibrilação, diarreia. Observar as nuvens. Conversar sobre as suas formas. A observação das nuvens
faz os pensamentos ficarem tranquilos. As notícias dos jornais são escritas depressa. Por isso têm
curta duração. Mas a poesia se escreve devagar. Por isso ela não envelhece. É sempre nova.
Inventaram essa monstruosidade chamada leitura dinâmica. O que a leitura dinâmica pressupõe é
que um texto é feito com poucas ideias centrais, tudo o mais sendo encheção de linguiça. A técnica
da leitura dinâmica é ir direto às ideias centrais desprezando o resto como lixo. Já imaginaram sexo
dinâmico, sexo que dispensa os “entretantos” e vai direto ao “finalmente”? Essa é uma maneira
canina de fazer amor. Mas não é isso a que os jovens são obrigados quando, ao se preparar para o
vestibular, se põem a ler “resumos” de obras literárias? Um resumo de uma obra literária é o
resultado escrito de uma leitura dinâmica. É preciso ler tendo a lesma como modelo… Devagar. Por
causa do prazer. O prazer anda devagar. Você leu esse artigo dinamicamente ou lesmicamente?