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AÇÃO DE IMPUGNAÇÃO DE REGISTRO DE CANDIDATURA

1 NOÇÕES INTRODUTÓRIAS

O processo eleitoral brasileiro é composto por uma série de etapas que


estruturam a organização e realização do pleito, abrangendo também o período
anterior e posterior às eleições. A oficialização da candidatura para concorrer a um
cargo eletivo ocorre através do ato de registro, não havendo mais que se falar neste
ponto em “candidato a candidato”, ou seja, ainda que o partido já tenha definido
quem irá concorrer, somente após o deferimento do registro é conferido àquele
indivíduo o status de candidato oficial.
Entretanto, antes mesmo do deferimento do registro, já a partir de seu
requerimento perante o órgão jurisdicional eleitoral competente pelo partido político
interessado, o requerente encontra-se sujeito à Ação de Impugnação de Registro de
Candidatura - AIRC.
A AIRC é uma das mais antigas ações eleitorais, sendo, inclusive, durante os
vinte anos em que permaneceu em vigor a Lei Complementar n.º 5/70, revogada
posteriormente pela Lei Complementar n.º 64/90, que trouxe a Ação de Investigação
Judicial Eleitoral – AIJE, a única ação capaz de impugnar o pedido de registro de
candidatura, antes do pleito eleitoral.
Trata-se da ação judicial cabível no plano eleitoral para impugnar aqueles
candidatos que não preencheram os critérios necessários “dispostos na Constituição
Federal (condições de elegibilidade), na Lei n.º 9.504/97, Lei Complementar n.º
64/90 (candidatos inelegíveis) ou para aqueles que não se desincompatibilizaram de
seus cargos”, nas hipóteses em que é exigida a prévia desincompatibilização.

2 LEGITIMIDADE ATIVA

A legitimidade para figurar no polo ativo da AIRC é concorrente, e se encontra


disposta em rol taxativo (numerus clausus) no art. 3º da LC n.º 64/90, ou seja, as
hipóteses de legitimados se exaurem no dispositivo citado. Desse modo, conforme o
artigo supramencionado, somente podem impugnar o pedido de candidatura por
meio da AIRC os candidatos, o partido político, a coligação e o Ministério Público.
2.1 Candidato

Importante frisar que o candidato a que a lei de se refere é o pré-candidato.


Isto porque durante o período de cabimento da AIRC, quase todos os candidatos
ainda estão com seus respectivos processos de registro em curso na Justiça
Eleitoral, não se exigindo, portanto, que os candidatos já tenham seus registros
deferidos para impugnar.
A única hipótese em que excepcionalmente poderia um candidato cuja
candidatura já foi deferida, impugnar o registro de terceiro é no eventual caso de
registro tardio de candidatura, pela necessidade de substituição. Nesse caso, o
impugnante não mais seria “candidato a candidato”, mas candidato no sentido
formal.
O termo candidato deve ser interpretado aqui de forma ampla, abarcando os
candidatos a qualquer cargo eletivo, proporcional ou majoritário, não importando
quem é o impugnado. Dessa forma, poderá perfeitamente o candidato ao cargo de
deputado federal impugnar o registro de candidatura de um candidato a senador, e
vice-versa, ou de qualquer outro candidato a cargo eletivo a ser preenchido através
daquela eleição.

2.2 Partido Político e Coligações

Os partidos políticos e as coligações são legitimados ativos concorrentes para


impugnar registro de candidatura através da AIRC. Entretanto, é pacífico o
entendimento de que não pode o partido coligado isoladamente propor a ação de
impugnação, pois, desde o momento em que a coligação é constituída funciona
como um só partido perante a Justiça Eleitoral, com representante próprio.
Há, no entanto, uma exceção prevista no art. 6º, §4º da Lei 9.504/97, com
nova redação dada pela Lei n.º 12.034/09, pelo qual o partido coligado poderá
isoladamente propor a AIRC, desde que haja questionado a validade de sua própria
coligação no período entre a convenção partidária e o prazo final para propositura da
ação de impugnação de registro.
Vale destacar que somente os partidos políticos devidamente constituídos em
consonância com a Lei dos Partidos Políticos e representados na Justiça Eleitoral
são legitimados para ingressar com a AIRC. Essa legitimidade não é afastada por
eventual interesse partidário ou mesmo pelo fato de o partido não estar concorrendo
a cargo naquela eleição.

2.3 Ministério Público

Ainda conforme o art. 3º da LC n.º 64/90, podemos identificar como legitimado


ativo o Ministério Público - MP, que atua na defesa dos interesses difusos de ordem
pública primária, especificamente da plena democracia.
Impende salientar que a impugnação será promovida pelo MP do respectivo
órgão da Justiça Eleitoral. Desse modo, nas hipóteses de eleições municipais, o MP
exercerá suas atribuições através do promotor eleitoral; nas eleições do plano
estadual, a propositura fica a cargo do procurador regional eleitoral; já nas eleições
de âmbito nacional, o MP será representado pelo procurador-geral eleitoral.
O MP é um legitimado especial, pois, ainda nas hipóteses em que não for
autor, tem atuação obrigatória, pois se trata de matéria de ordem pública e
indisponível, devendo, exercer a fiscalização do regime democrático.

3 LEGITIMIDADE PASSIVA

O legitimado passivo por excelência na AIRC é o pré-candidato, ou seja,


aqueles escolhidos em convenção partidária, mas que dependem do deferimento do
registro pela Justiça Eleitoral para adquirir formalmente o status de candidato.
Muito embora haja precedente do Tribunal Superior Eleitoral no sentido de
que não há litisconsórcio passivo necessário entre o candidato e o partido político,
ainda não é pacífico esse entendimento, até porque o partido também sofre os
efeitos do eventual indeferimento da candidatura.

4 PRAZO PARA AJUIZAMENTO E DEFESA


O prazo para ajuizamento da AIRC pelos legitimados ativos, consoante o art.
3º da LC n.º 64/90, será de 05 dias, a serem contabilizados a partir da publicação do
edital relativo ao pedido de registro de candidatura.
Proposta ação, o juiz, então, providenciará a citação do pré-candidato cujo
registro foi impugnado, partido político ou coligação, para que apresente defesa no
prazo de 07 dias, conforme prevê o art. 4º da LC n.º 64/90.

5 PREVISÃO LEGAL

A base legal da ação de impugnação de pedido de registro de candidatura


encontra-se precipuamente nos arts. 3º a 17 da LC n.º 64/90. A complementação da
regulamentação da AIRC se dá por meio de resoluções expedidas pelo Tribunal
Superior Eleitoral a cada eleição.
Vale trazer à baila, ainda, os arts. 10 a 16 da Lei n.º 9.504/97 (Lei das
Eleições), que se ocupa do registro de candidatura, bem como os arts. 82 a 102 do
Código Eleitoral.

6 COMPETÊNCIA

A ação de impugnação de registro de candidatura visa impedir que candidatos


que não reúnam as condições de elegibilidade ou mesmo que estão inseridos em
causas de perda ou suspensão de direitos políticos venham a alcançar os cargos
políticos.
Costa explica (2009, p.279) que a ação de impugnação de registro de
candidatura é uma “incidental à ação de pedido de registro, suscitando a questão
prejudicial da inexistência do direito subjetivo do pré-candidato ao registro, mercê de
sua inelegibilidade ou da ausência de alguns dos documentos exigidos legalmente”
Dentre os juízos competentes para julgar a ação de impugnação de registro
de candidatura, podemos citar:
 O Tribunal Superior Eleitoral, quando tratar de presidente e vice-
presidente da república.
 Os Tribunais Regionais Eleitorais, em relação a candidato a cargo de
senador, governador e vice-governador de Estado e distrito federal,
deputado federal, deputado estadual e distrital.
 Os juízes eleitorais, quando se tratar de candidatos a prefeito, vice e
vereador.

Então, esses são os juízos responsáveis por receber e decidir a ação. A


interposição não necessariamente precisa ser subscrita por um advogado, conforme
jurisprudência do TSE. No entanto, em relação ao recurso dessa decisão a
representação por um advogado se faz necessário.

7 RITO
O procedimento a ser utilizado na ação de impugnação de registro é aquele
pertinente a ação ordinária, aplicando-se as regras do art. 282 do CPC e seguindo
um roteiro prático da lei complementar nº64\1990, arts. 3º a 9º.
Os recursos e acórdãos também possuem medidas especificas na lei,
devendo os tribunais obedecerem como assim a lei prevê.
O prazo para a impugnação são de 5 (cinco) dias, contados da publicação do
registro de candidatura na imprensa, ou da publicação do edital.
A contestação deverá ser realizada no prazo de 7(sete) dias a contar da data
de notificação. Já na audiência de instrução, o juiz esclarecerá como deverá se
apresentar e ocorrer a oitiva de testemunhas.
E finalmente as partes deverão apresentar no prazo de 5 (cinco) dias as
alegações finais, indo os autos conclusos a sentença para que no máximo de 3(três)
dias seja prolatada a decisão.

8 OBJETO

A ação de impugnação de registro de candidatura tem por objetivo impedir


que o impugnado obtenha o registro de candidatura.
Essa ação possui a natureza jurídica de uma verdadeira ação judicial,
contendo todas as características para impedir o deferimento do registro da
candidatura, seja porque o impugnante não obedeceu a uma ou mais condições de
elegibilidade ou incorreu em uma ou mais causas de inelegibilidade. Além disso, se
o impugnado já obteve o registro da candidatura, a procedência do pedido de
impugnação cancelará esse registro, e se caso já esteja diplomado, quando ocorrer
o trânsito em julgado desse processo, declarará ineficaz o diploma, a eleição e o
registro.
Portanto, a procedência do pedido de impugnação do registro de candidatura
impossibilita o impugnado de iniciar ou até mesmo continuar com o mandato eletivo.
9 HIPÓTESE DE CABIMENTO

O Código Eleitoral, a partir do art. 87, regulamenta o Registro de Candidatura


daqueles indivíduos que ambicionam disputar cargos eletivos neste País, desde que
respeitados os requisitos estabelecidos na legislação em vigor. De modo que,
quando afrontados, caberá a propositura da Ação de Impugnação do Registro de
Candidatura – AIRC.
Com efeito, no que concerne às hipóteses de cabimento da AIRC, o art. 97, §
3º, estabelece que a referida Ação possa ser proposta quando fundada em
inelegibilidade do candidato, incompatibilidade do candidato ou descumprimento das
exigências formais elencadas na Lei das Eleições e no Código Eleitoral.
Nessa seara, leciona o doutrinador Joel Cândido, que diz:
Os motivos que poderão ser alegados nessas
impugnações podem ser resumidos em dois
grandes grupos: 1. ausência, no candidato, de
uma ou mais condições de elegibilidade; e/ou, 2.
ocorrência, nessa candidatura impugnada, de uma
ou mais causas de inelegibilidade. (2010, p. 135).

Cumpre registrar, ainda, que as condições de elegibilidade estão tipificadas


no art. 14 da Constituição da República Federativa do Brasil, a saber: a
nacionalidade brasileira, o pleno exercício dos direitos políticos, o alistamento
eleitoral, o domicílio eleitoral na circunscrição, a filiação partidária e a idade mínima.
Ao passo que, as causas de inelegibilidade restam amparadas no art. 14, §§
4º (analfabetos e inalistáveis), 6º (motivos funcionais) e 7º (inelegibilidade reflexa),
bem como na Lei Complementar 64/1990, com as alterações trazidas pela Lei
Complementar 135/2010 (Lei da Ficha Limpa).

10 CAUSA DE PEDIR
Destaca-se, preliminarmente, o ensinamento do doutrinador Marcos
Ramayana, que diz “a ação eleitoral tutela a normalidade e legitimidade das
eleições, evitando candidaturas ilegais” (2012, p. 417).

Com este objetivo, molda-se a AIRC, tendo em vista a busca pela legalidade
das eleições, sobretudo atribuindo-se tratamento isonômico entre pré-candidatos
com a determinação de critérios objetivos a serem respeitados por todos. De modo
que, não sendo atendido um dos requisitos, nasce a possibilidade de impugnação do
registro de candidatura.
Sendo assim, considerando as normas constitucionais e infraconstitucionais,
podemos consignar que a causa de pedir da AIRC deverá ser lastreada quando da
falta de condição de elegibilidade, existência de causa de inelegibilidade e/ou
descumprimento das formalidades exigidas na Lei das Eleições.

11 PEDIDO

Cumpre registrar o quanto preconizado pelo doutrinador Marcos Ramayana,


que diz:
A finalidade desta ação impugnativa é indeferir o
pedido de registro de candidatos que não
possuam condições de elegibilidade, sejam
inelegíveis ou, ainda, estejam privados
definitivamente ou temporariamente dos direitos
políticos (grifo nosso) (2012, p. 416).

Logo, mostra-se inegavelmente que o pedido a ser pleiteado nesta Ação será
o indeferimento do pedido de registro de candidatura, seu cancelamento ou
declaração de ineficácia do seu diploma, conforme demonstração cristalina do
professor Joel Cândido, vejamos:
(...) é impedir o deferimento do registro de
candidatura do impugnado, o que conseguirá o
autor que demonstrar, com provas em juízo,
garantida a defesa, a inocorrência de uma ou mais
condições de elegibilidade ou a ocorrência de uma
ou mais causas de inelegibilidade na vida do
pretendente ao cargo eletivo. Se já obteve o
registro, a procedência definitiva desta
impugnação cancelará esse registro, e, ainda, se
o impugnado já estiver diplomado quando vier o
trânsito em julgado da ação procedente, se
declarará ineficaz o seu diploma, a eleição e o
registro, impossibilitando o início ou a continuidade
do exercício do mandato. (grifo nosso) (2010, p.
135).

12 QUESTÕES PROCESSUAIS IMPORTANTES

A respeito da ação de impugnação de registro de candidatura é importante


ressaltar algumas observações a respeito do seu rito processual.
A princípio, em relação à sua propositura, esta deve ocorrer num prazo de
cinco dias a partir da publicação do pedido de registro do candidato na imprensa,
oficial ou não ou da publicação do edital por afixação na sede da Zona ou Tribunal
Eleitoral. Em havendo uma divergência de datas na publicação, será contado o
prazo da última publicação. Seguindo uma sequência dos fatos, a notificação só
será feita ou ao candidato impugnado ou ao partido político ou coligação a que
esteja vinculado. Esta deve ser feita, porém, ao primeiro destes que seja encontrado,
além do mais, também deve ser notificado o Ministério Público Eleitoral, caso não
atue como parte.
No que diz respeito à defesa do réu no processo, esta será apresentada no
prazo de sete dias, contados da notificação, sendo indicado o rol de seis
testemunhas no máximo. Este rol poderá ser apresentado por iniciativa das partes e
sob a sua responsabilidade, ou por força de notificação judicial. O juiz na fase de
saneamento determinará a forma a partir da qual será trazidas as testemunhas para
o processo. Este instrumento deverá ser feito por parte do impugnado, do seu
partido político ou coligação a que o candidato está vinculado. Pode ocorrer que a
contestação seja apresentada por ambos, desde que possuam o mesmo defensor.
No que tange ao julgamento antecipado da lide, este é viável nos moldes do
artigo 5º, 1ª parte da Lei Complementar 64/1.990 combinado com o artigo 330, II, do
CPC, desde que sejam abordadas questões unicamente de direito.
No bojo do processo, precisamente nos cinco dias subsequentes à fase de
instrução será ainda cabível a produção de outros meios de prova, inclusive de
forma oral. Após esta etapa, será aberto o prazo de cinco dias úteis para as
alegações finais escritas, inclusive para o Ministério Público. A decisão deverá ser
prolatada em três dias.

13 RECURSOS CABÍVEIS

Proferida a sentença ou acórdão que julgar a ação de impugnação de registro


de candidatura, os recursos que forem interpostos deste acórdão e desta sentença
tem seu rito especificado em lei, não cabendo ao órgão colegiado em seus estatutos
disporem de forma diversa quanto à parte processual, que se encontra disciplinado
na Lei Complementar n° 64, de 18 de Maio de 1990 (trata das inelegibilidades).
Após a publicação da referida sentença de impugnação e com os autos em
cartório o prazo é comum de 3 dias para quem recorrer , conforme disposto na LC.
64/90 em seu art. 8°:
Art. 8°. “Nos pedidos de candidatos a eleições municipais, o Juiz eleitoral
apresentará a sentença em cartório 3 dias após a conclusão dos autos, passando a
corres deste momento o prazo de 3 dias para a interposição de recurso para o
Tribunal Regional Eleitoral”
Com a interposição do recurso abre-se igualmente prazo de 3 dias para as
contrarrazões, após ter sido protocolizada a petição do recurso (art. 8°. § 2°, da LC
64/90). Após as contrarazões, os autos serão remetidos imediatamente ao Tribunal
Regional Eleitoral (art.8°. § 2° da LC. 64/90), inclusive por portador, se houver
necessidade de rapidez no prazo, podendo inclusive as despesas com transporte
ser cobradas do Recorrente se o mesmo tiver condições de pagar.
Depois do recebimento do recurso pela Secretaria do Tribunal Regional
Eleitoral, no mesmo dia o Presidente despacha distribuindo a um relator, com ou
sem o parecer do Ministério Público (apresentado em 2 dias), os autos vão para o
relator que tem o prazo de 3 dias para submeter ao plenário. Publicado o acórdão do
recurso da ação de impugnação de registro de candidatura proferido pelo TRE, o
prazo é de 3 dias para Recorrente interpor recurso para o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE), seguindo o aspecto regimental e o art. 12 da LC n° 64/90.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CÂNDIDO, Joel. Direito Eleitoral Brasileiro. 14. ed., rev., atual. e ampliada. Baruaru-São Paulo:
Edipro, 2010.
CERQUEIRA, Thales Tácito. Direito Eleitoral esquematizado. São Paulo: Saraiva, 2011.
RAMAYANA, Marcos. Direito Eleitoral. 13. ed. Rio de Janeiro: Impetus, 2012.