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Casos famosos de Vampirismo

A Vingança do Governador Storoženko

Shirlei Massapust

No século XIX a autora ucraniana Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891)


compilou um conto folclórico dos cossacos ucranianos, supostamente baseado
em fatos reais, narrado “por testemunhas aparentemente dignas de crédito”. No
princípio Blavatsky manteve o protagonista anônimo, mas, ao responder uma
missiva de Nadyezhda Andreyevna de Fadeyev, a 19 de julho de 1877, admitiu à
tia que ela havia adivinhado corretamente que o texto fala de Storoženko
(Стороженко), antigo governador de Tchernihiv (Чернігів).1 O referido conto foi
incluso num artigo sobre vampirismo publicado no décimo oitavo capítulo do
livro Isis Unveiled (1877) e na antologia Paginas Ocultistas y Cuentos Macabros
(1919) com tradução e comentários de Mario Roso de Luna.

Por volta do início do século atual, ocorreu na Rússia um dos casos mais
assustadores de vampirismo de que se tem lembrança. O governador da
província de Tchernihiv era um homem de cerca de sessenta anos, de uma
disposição maligna, tirânica, cruel e ciumenta. Dotado de uma autoridade
despótica, ele a exercia sem medida, seguindo os seus instintos brutais.
Enamorou-se da linda filha de um oficial subordinado. Embora a moça estivesse
prometida a um rapaz que ela amava, o tirano forçou o seu pai a consentir em
seu casamento com ela; e a pobre vítima, apesar do seu desespero, tornou-se
sua esposa. O seu caráter ciumento logo se revelou. Ele a surrava, confinava-a
aos seus aposentos por semanas inteiras e proibiu-a de ver quem quer que
fosse em sua ausência. Ele finalmente adoeceu e morreu. Vendo aproximar-se o
seu fim, fez a moça jurar que nunca mais se casaria; e, com imprecações
ameaçadoras, intimidou-a dizendo que, se ela voltasse a se casar, ele retomaria
do túmulo e a mataria. Foi enterrado no cemitério que ficava no outro lado do

1
O original russo da carta de H. P. B. está nos Arquivos de Adyar e a sua tradução inglesa pode
ser encontrada nos volumes dos Collected Writings. (BLAVATSKY, Helena Petrovna. Isis Sem Véu:
Volume II. Trd. Mário Muniz Ferreira & Carlos Alberto Feltre. São Paulo, 1991. Pensamento, p 145,
nota marginal).
rio; e a jovem viúva não experimentou novos aborrecimentos até que, vencendo
a natureza os seus temores, ela deu ouvidos às importunações do seu antigo
amado e eles então se casaram.
Na noite da festa habitual dos esponsais, quando todos já se haviam
retirado, a velha casa foi assaltada por gritos que procediam do quarto da moça.
As portas foram arrombadas e a infeliz mulher foi encontrada desmaiada em seu
leito. Ao mesmo tempo ouviu-se o barulho de rodas de um veículo saindo do
pátio. O seu corpo estava coberto de manchas pretas e azuladas, como se ela
tivesse sido beliscada, e de uma pequena picada em seu pescoço escapavam
gotas de sangue. Recobrando os sentidos, ela declarou que o seu defunto
marido havia entrado repentinamente em seu quarto, surgindo exatamente
como era quando estava vivo, com exceção de um palor terrível; que ele a
reprovara por sua inconstância e que, em seguida, a surrara e a beliscara
cruelmente. Ninguém acreditou em sua história; mas, na manhã seguinte, os
guardas lotados no outro lado da ponte que cruzava o rio contaram que, por
volta da meia-noite, um coche negro puxado por seis cavalos passara por eles
furiosamente, em direção à aldeia, sem responder aos seus apelos.
O novo governador, no entanto, que não acreditara na história da
aparição, tomou a precaução de dobrar a guarda da ponte. Todavia, a mesma
coisa ocorria noite após noite; os soldados declaravam que a barreira do seu
posto próximo à ponte abria-se por si mesma e a equipagem espectral passava
por eles a despeito dos seus esforços de detê-la. Ao mesmo tempo, toda noite o
coche rolava ruidosamente no pátio da casa; os vigias, e inclusive a família da
viúva, e os criados estavam mergulhados num sono profundo; e, a cada manhã,
a jovem vítima era encontrada ferida, sangrando e desfalecida como antes. A
cidade consternou-se. Os médicos não tinham explicação alguma a oferecer;
padres vieram para passar a noite orando, mas, quando se aproximava a meia-
noite, todos eles eram acometidos de uma terrível letargia. Finalmente, o
arcebispo da província veio e realizou em pessoa a cerimônia do exorcismo, mas
na manhã seguinte a viúva do governador foi encontrada pior do que antes. Ela
se encontrava agora às portas da morte.
O governador foi, enfim, levado a tomar as medidas mais severas para
pôr um termo ao pânico sempre crescente na cidade. Postou cinqüenta
cossacos ao longo da ponte, com ordem de parar o coche-espectro a todo
custo. Na hora habitual, ele foi ouvido e visto aproximando-se, vindo da direção
do cemitério. O oficial da guarda e um padre que segurava um crucifixo
plantaram-se diante da barreira e juntos gritaram: “Em nome de Deus e do Czar,
quem vem lá?” Da porta do coche emergiu uma cabeça muito conhecida e uma
voz familiar respondeu: “O Conselheiro Privado de Estado e Governador,
Storoženko!”. No mesmo momento, o oficial, o padre e os soldados foram
atirados para um lado como por um choque elétrico e a equipagem
fantasmagórica passou por eles antes que recobrassem o fôlego.
O arcebispo resolveu então, como último expediente, recorrer ao
procedimento, consagrado pelo tempo, de exumar o corpo e prendê-lo à terra
com uma estaca de carvalho atravessada no seu coração. Isso se fez com um
grande cerimonial na presença de toda a população. A história conta que o
corpo foi encontrado empanturrado de sangue e com as bochechas e os lábios
vermelhos. No momento em que o primeiro golpe foi desferido sobre a estaca,
o cadáver emitiu um gemido e um jato de sangue cruzou o ar. O arcebispo
pronunciou o exorcismo usual, o corpo foi reenterrado e, a partir de então,
nunca mais se ouviu falar do vampiro.
Não podemos dizer o quanto os fatos relativos a este caso possam ter
sido exagerados pela tradição. Mas nós o ouvimos há alguns anos de uma
testemunha ocular; e há famílias hoje na Rússia cujos membros mais velhos se
lembram perfeitamente deste conto terrível.2

Helena Petrovna Blavatsky escreveu em 1877, não muito tempo depois da


morte do político ucraniano Oleksa Storoženko (1805-1874), que pode até não
ser o protagonista do conto supracitado, mas tinha o hobby de trabalhar como
antropólogo nas horas vagas, chegando a romancear o conto folclórico
Закоханий чорт (1861) onde um č ort (чёрт) ou espírito maligno chamado
Trutick se transforma em cavalo para servir de montaria ao velho cavaleiro Kirilo
durante cinco anos em troca da ajuda do humano para conquistar o amor da
bruxa Odarka nos cinco anos seguintes.3
No meio de tudo um volkolak (βолколак) – tipo de vampiro derivado do
vrykolakas (βρυκό λακας ) grego – reconhece o č ort como superior hierárquico e

2
BLAVATSKY, Helena Petrovna. Isis Sem Véu: Volume II. Trd. Mário Muniz Ferreira & Carlos
Alberto Feltre. São Paulo, 1991. Pensamento, p 145-146.
3
STOROZHENKO. “The Devil Fallen In Love: A Zaporogian Cossack Legend”. Trd. Florence Randal
LMivesay. Em: LOEB, Louisa. (org) Down Singing Centuries: Folk Literature Of The Ukraine.
Canada, Hyperion Press, 1981, p 71.
salta apertando um cinto vermelho. Na floresta, “vampiros calçando lustrosas
botas alemãs pulavam de galho em galho, saudando-o cortesmente se curvando
à sua chegada”.4
O conto Zakokhanyi chort parece inspirado nas velhas comédias teatrais
cheias de diabos ridículos com chifres, cascos e rabo, que morrem de medo do
sinal da cruz. Há momentos hilários quando Kirilo se depara com uma bruxa
gelada se fazendo de difícil para um diabo fogoso. Ela o faz beijar um sapo e
pari um imp só por ter tocado a mão do pretendente. Mesmo assim pretende
ser real pois quem conta a história é o neto do protagonista. Kirilo conseguiu
ludibriar Trutick e desposar Odarka... Ele viveu até os cem anos e, na velhice,
gostava de contar estórias para as visitas que o cercavam nas noites de inverno.
O conto supracitado foi narrado a Storoženko por um músico, neto de Kirilo,
morador da vila Boberka, que definiu seu avô como “um kharakternick, um
fazedor de feitiços do tipo que só pode ser morto com uma bala de prata”.5

4
STOROZHENKO. Obra citada, p 72.
5
STOROZHENKO. Obra citada, p 65.