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ANÁLISE DA DENTIÇÃO MISTA

INTRODUÇÃO

O período da dentição mista inicia-se por volta dos 6 anos de idade com
a erupção dos primeiros molares permanentes, e termina ao redor dos 12 anos
de idade, com a esfoliação do último dente decíduo, normalmente representado
pelo canino ou segundo molar superior. Como característica marcante desse
período podemos citar a chamada “fase do patinho feio”, onde os incisivos
superiores, por serem maiores que seus predecessores, irrompem inclinados
vestibularmente, produzindo diastemas e sobremordida exagerada. No arco
inferior, a erupção dos incisivos, também maiores que seus predecessores,
acontecem à custa dos espaços interdentais e da distalização dos caninos
decíduos.
Portanto, o período dos 6 aos 12 anos caracteriza-se pela substituição
dos dentes decíduos pelos dentes permanentes, sendo essa transição um
evento bastante dinâmico sob o ponto de vista da cronologia da erupção
dentária. Tal dinâmica faz com que não raro ocorram “colapsos” em algumas
regiões das arcadas, seja em função de uma inerente discrepância entre
volume dos dentes e bases ósseas, seja em função de situações criadas pelo
meio ambiente, tais como perdas precoces ou alterações na cronologia da
erupção dos dentes decíduos, entre outros fatores. Nestes casos, a região
mais comumente afetada é aquela correspondente ao espaço onde
erupcionam os caninos e pré-molares, justamente por serem estes os últimos
dentes decíduos a serem substituídos.
Assim, é essencial que nessa fase o profissional se preocupe em
verificar se a evolução da dentição está ocorrendo de forma satisfatória, e se
há espaço no arco o suficiente para a acomodação de todos os dentes. Essa
análise que prevê a presença ou não de espaço suficiente, trás a possibilidade
de eventuais intervenções que facilitem o estabelecimento de uma oclusão
adequada, e é denominada de Análise da Dentição Mista.
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CONHECIMENTOS NECESSÁRIOS

Sequência de erupção:

A sequência de erupção dos dentes permanentes mais favorável e,


felizmente, a mais comumente encontrada é a seguinte (Moyers):
Mandíbula: 6-1-2-3-4-5-7
Maxila: 6-1-2-4-5-3-7 ou 6-1-2-4-3-5-7
Percebe-se, então, que a região de caninos e pré-molares, por ser a
última em que ocorre a substituição dos dentes é a mais susceptível a
problemas de falta de espaço.

Elementos de diagnóstico:

Os elementos de diagnóstico utilizados na análise da dentição mista são


os modelos de gesso e radiografias. Dentre as radiografias, a mais confiável
para se realizar a análise é a Telerradiografia em 45°, por ser a que apresenta
menor distorção (cerca de 6%) e, portanto mais indicada para se medir o
diâmetro dos dentes. Na impossibilidade de se obter essa radiografia, pode-se
utilizar as radiografias periapicais. Porém, é necessário que se faça uma
avaliação da distorção dessas radiografias para que se possa predizer com
relativa segurança o tamanho dos dentes. Assim, para sabermos o diâmetro de
um dente permanente intra-ósseo basta que se meça o dente decíduo que
esteja presente no modelo e na radiografia, vizinho ao permanente que se quer
medir. A partir desse dente teremos o fator de distorção daquela radiografia,
fazendo uma simples regra de três. Por exemplo:-

X/X’ = Y/Y’ Onde, X = diâmetro do decíduo no modelo


X’ = diâmetro do decíduo na radiografia
Y = diâmetro do permanente real
Y’= diâmetro do permanente na radiografia
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HISTÓRICO

O autor que melhor e mais intensamente estudou a dentição mista foi


Hays N. Nance. Dos trabalhos que Nance desenvolveu sobrevive até hoje toda
a filosofia de diagnóstico e tratamento ortodôntico durante a fase de dentição
mista. Todas as análises que envolvem a dentição mista utilizam
conhecimentos introduzidos pelos trabalhos de Nance na década de 40.
Em seus estudos clássicos, Nance analisou casos tratados por ele
durante 26 anos de prática clínica ortodôntica, casos estes iniciados no período
de dentição mista e terminados na dentição permanente. Analisando a
estabilidade desses casos, constatou que movimentos como a distalização de
molares inferiores, expansão das arcadas e projeção vestibular de incisivos
inferiores eram altamente recidivantes na maioria dos casos. Porém, alguns
casos onde movimentos dessa ordem eram realizados, não apresentaram
recidiva. Nance, então, passou a medir os dentes decíduos nos modelos
iniciais e os dentes permanentes nos modelos finais e chegou a conclusão de
que a soma dos diâmetros mésio-distais de caninos e molares decíduos
era maior do que a soma dos diâmetros mésio-distais de caninos e pré-
molares, e que, portanto, havia um encurtamento do arco quando da transição
da dentição mista para a dentição permanente. Essa diferença de diâmetro que
é de 1,8 mm na maxila e 3,4 mm na mandíbula foi chamada de “Leeway
space” ou Espaço Livre de Nance, e é até hoje a base de todos os estudos
envolvendo a dentição mista.
Relacionando seus casos com a medida citada, Nance observou que os
casos de sucesso (não recidiva) tinham um Leeway space favorável antes do
início do tratamento (maior do que 4 mm) e os casos que recidivaram tinham
um Leeway desfavorável (menor do que 3 mm), fazendo com que o autor
concluísse que o espaço para o correto alinhamento dos dentes era
determinado pela discrepância entre o volume dentário e o da base óssea
disponível, e que a tentativa de se obter espaço no arco através de
movimentos dentários como a expansão do arco, projeção de incisivos e
distalização de molares inferiores era uma terapia recidivante.
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PREDIÇÃO DO ESPAÇO

A previsão da sobra ou falta de espaço para o correto alinhamento dos


dentes permanentes é feita pela medição entre o espaço que os dentes
permanentes irão ocupar para estarem alinhados no arco, o qual Nance
denominou de Espaço Requerido, e o espaço disponível para o alinhamento
desses dentes (base óssea disponível), denominado de Espaço Presente.

Espaço Requerido:

Assim, mais detalhadamente podemos definir como espaço requerido, a


somatória do diâmetro mésio-distal dos dentes permanentes erupcionados ou
intra-ósseos, localizados de mesial de primeiro molar permanente de um lado a
mesial desse dente no lado oposto.
Para se obter esse valor nos dentes erupcionados, utiliza-se um
compasso de pontas secas medindo o dente no modelo de gesso ou na própria
boca do paciente. Os dentes intra-ósseos podem ser medidos na radiografia
cefalométrica em 45° ou na radiografia periapical, tomando-se o cuidado de,
nessa última, fazer o cálculo da distorção radiográfica. Os diâmetros dos
dentes são transferidos para uma ficha pautada e depois medidos com uma
régua, resultando em uma medida em milímetros, correspondente ao espaço
requerido pelos dentes para estarem corretamente alinhados.
Outro método utilizado para se obter o espaço requerido é dado pela
Análise de Moyers. Nesse método, mede-se a somatória dos diâmetros mésio-
distais dos incisivos inferiores e consulta-se uma tabela que dará o valor
estimado para a somatória dos diâmetros de caninos e pré-molares. A análise
de Moyers pode ser utilizada quando não se dispõe de radiografias, mas tem
algumas desvantagens, tais como:-
 Considera o paciente como parte de uma amostra, e não
individualmente,
 Não avalia macrodontias ou microdontias,
 As tabelas foram desenvolvidas para a população americana e, portanto,
pode haver uma diferença para as outras raças.
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Espaço presente:

É o perímetro do osso basal compreendido entre a mesial do primeiro


molar de um lado até a mesial do primeiro molar do lado oposto.
Pode-se obter esse valor utilizando-se um fio de latão ou um compasso
de pontas secas. No primeiro método, adapta-se um pedaço de fio de latão
passando sobre os pontos de contato na superfície oclusal e incisal dos dentes.
Retifica-se o fio e mede-se com uma régua milimetrada.
Com o compasso de pontas secas, o espaço presente é medido em 6
seções (3 de cada lado do arco dentário):-

1. Mesial do primeiro molar permanente de um dos lados até a


mesial do primeiro pré-molar (ou primeiro molar decíduo)
2. Mesial do primeiro pré-molar (ou primeiro molar decíduo) até a
distal do incisivo lateral (ou mesial do canino)
3. Mesial do incisivo lateral (ou mesial do canino) até a linha média.

Essas medições são feitas sob a região da base óssea, nos colos
dentários e não nos pontos de contato dentários. Transporta-se para a
ficha a medida dos 6 segmentos, somam-se essas medidas e anota-se o
valor. Essa técnica mede mais a realidade do que o fio de latão.

DISCUSSÃO DA ANÁLISE

Uma vez medidos os valores, obtém-se a discrepância do arco pela


diferença entre espaços presente e o espaço requerido. Essa diferença
(discrepância do arco) pode ter um valor:- positivo, nulo ou negativo.
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Discrepância positiva:

Significa que os dentes têm espaço para um alinhamento espontâneo. A


conduta nesses casos é apenas observar o desenvolvimento da oclusão.

Discrepância nula (ou ligeiramente negativa):

O tamanho ósseo é justo para abrigar os dentes permanentes. A


conduta seria a supervisão do espaço, que significa dirigir os dentes da região
onde falta espaço para a região onde sobra espaço. Normalmente, na região
anterior há falta de espaço, pois os incisivos permanentes são maiores do que
os decíduos. [Assim, pode-se extrair os caninos decíduos e, com a força da
língua e do lábio, haverá um alinhamento espontâneo dos incisivos, que
utilizarão um pouco do espaço para o canino. No momento da erupção dos
caninos, extrai-se o primeiro molar decíduo, fazendo com que os caninos
erupcionem mais para distal, ocupando um pouco o espaço para os primeiros
pré-molares. Quando esses forem erupcionar, faz-se um desgaste (slice) na
face mesial do segundo molar decíduo para proporcionar espaço para correta
erupção]. Quando o segundo pré-molar estiver erupcionando, é necessário se
colocar um arco lingual para evitar a migração do primeiro molar permanente.
Isto nos casos em que os molares estão com degrau mesial. Se por ventura os
molares estiverem em plano terminal reto, se faz necessário o uso do extra-oral
para distalizar o molar superior e conseguir a relação molar de chave de
oclusão, já que o molar inferior estará impedido de migrar mesialmente em
função do arco lingual.

Discrepância negativa:

Significa que não vai haver espaço para os dentes permanentes não
erupcionados. A conduta, nesses casos, é o tratamento ortodôntico com
aparelhagem fixa e extração de 4 pré-molares.
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Conclui-se, então, que a discrepância pode ser: nula, positiva ou


negativa.
A partir do resultado poderemos:-

 Guiar a erupção dos dentes permanentes


 Manter espaços
 Requisitar extrações seriadas (ou extrações planejadas)
 Realizar tratamento ortodôntico precoce
 Não intervir, observando o desenvolvimento da oclusão.

IMPORTÂNCIA CLÍNICA

 Oportunidade de intervenção
 Facilitar as migrações
 Decisão sobre extrações
 Impedir as migrações recuperar pequenos espaços.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

NANCE, NH. The limitations of orthodontic treatment I. Mixed dentition


diagnosis and treatment. Am J Orthod and Oral Surg, 33 (4): 177-223, 1947.

NANCE, NH. The limitations of orthodontic treatment II. Mixed dentition


diagnosis and treatment. Am J Orthod and Oral Surg, 33 (5): 253-301, 1947.

MOYERS, RE. Ortodontia. Guanabara Koogan, 4a. ed. Rio de Janeiro, p. 161.

Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic


Disciplina de Ortodontia - 3° Ano - 5º Período - 2012
26 de Março de 2012
Prof. HÉLIO ALMEIDA DE MORAES
Prof. VALMIR VICENTE GIACON