Evolução da população mundial 1950/2050 – O caso da Europa

Na História sempre houve regiões mais atraentes para a vida
dos povos e outras que os repeliam, por condicionalismos
diversos. A dimensão da Humanidade e as profundas
desigualdades na sua repartição territorial não se prendem
tanto com as condições de habitabilidade e recursos mas com
o modelo de organização social que as acentua de modo
dramático.

No caso específico da Europa, as desigualdades demográficas
existentes - e que tendem a agravar-se - correspondem ao
fracasso do modelo de convivência e de (ausência) de
solidariedades entre os seus povos.

Sumário

1 - A população mundial é, cada vez, mais asiática ou africana
2 – As áreas geopolíticas da Europa e os seus perfis demográficos
2.1 - Mediterrâneo Oriental
2.2 - Mediterrâneo Ocidental
2.3 - Europa Central
2.4 - Europa Ocidental
2.5 - Europa Oriental
2.6 - Conclusão

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1 - A população mundial é, cada vez, mais asiática ou africana

Procedemos em primeiro lugar, à repartição, muito geral, da população mundial por
continentes, antes de a separar por áreas geopolíticas, construídas em torno da história, das
afinidades culturais, étnicas e económicas; e, posteriormente, aplicando essa mesma
classificação a outras abordagens para cada uma dessas áreas geopolíticas.

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Fonte primária: UNCTAD/CNUCED

Subjacente ao gráfico apresentado temos a sublinhar:

 A população africana é a única cuja representatividade cresce num século, considerando
as previsões para 2050. Essa representativadade passa de 9% para 16.4% em 2016,
admitindo-se uma duplicação da sua população entre 2016 e 2050. Em 2016 a população
africana era mais do quíntuplo da registada em 1950 esperando-se que, num século, se
multiplique por onze. Taxas de fecundidade comparativamente elevadas bem como
ganhos substanciais na esperança de vida justificarão essa evolução.

 A Ásia é sempre o continente mais populoso, com mais de metade dos seres humanos,
passando de 54.3% em 1950 para 59.8% do total em 2016, mantendo-se com indicadores
estáveis naquele patamar desde 1980 e esperando-se um decrescimento do seu peso
relativo em 2050 na sequência do grande crescimento demográfico que se prevê para
África.

 A Europa surge como uma imagem em negativo da África. Com perto de um quarto da
população mundial em 1950 (22.7%) decresce contínuamente, mesmo em termos das
projeções para 2050. O decrescimento é mais abrupto em 2000 uma vez que após o
desmembramento da URSS, as repúblicas asiáticas que a incorporavam passaram a ser
integradas na Ásia e não na Europa, onde estava incorporada em bloco toda a população
da URSS; assim, entre 1990 e 2000 a população da Europa desceu de 790 M para 730 M.
Isso porém, apenas acentua o pendor decrescente do peso da população europeia em
todo o período; o que conduz a uma expectativa de perda em números absolutos para
2050. A muito baixa natalidade não é compensada significativamente com os afluxos
migratórios; uma população que se não reproduz e se vê obrigada a recorrer à imigração
evidencia um sistema político, económico e cultural doente.
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 A população do continente americano atinge um máximo na sua representatividade no
total mundial em 1970 (14%), decrescendo lentamente nos decénios seguintes para
atingir 13.3% em 2016. A projeção para 2050 aponta para uma descida para 12.4% do
total, com uma perda de peso relativo também já referida para a Ásia e a Europa.

 Quanto à Oceania, a sua população é diminuta comparada com os outros continentes –
13 M e 40 M, respetivamente em 1950 e 2016 – apresentando um crescimento idêntico
ao observado para a Ásia. Depois da África é a macro-região onde se prevê um maior
crescimento populacional entre 2016 e 2050 (42%).

 O crescimento médio anual para cada período e em cada continente, revela uma redução
generalizada, com excepções para África no período 1970/2010. Por seu turno, o início do
presente século revela taxas muito mais modestas de crescimento demográfico,
mostrando-se as previsões para 2050 muito mais optimistas, excepto para a Europa.

%
1970/1950 1990/1970 2010/1990 2016/2010 2050/2016
ÁFRICA 3,0 3,7 3,3 1,0 3,1
ÁSIA 2,6 2,6 1,6 0,4 0,5
EUROPA 1,1 0,6 -0,3 0,0 -0,1
AMÉRICA 2,6 2,0 1,5 0,4 0,6
OCEANIA 2,8 1,9 1,8 0,6 1,2
total 2,3 2,2 1,5 0,5 0,9
Fonte primária: UNCTAD/CNUCED

Este perfil da repartição territorial da população mundial, já em 1950, revelava os enormes
desequilíbrios decorrentes do histórico predomínio da Europa no mundo, num processo
iniciado no século XVI; mas que transitava para os EUA à medida que avançava o processo de
descolonização e a afirmação do dólar. A passagem do ceptro do poder para os EUA conduziu
à criação da OECE, em 1948 apenas com países europeus e a Turquia, para a gestão do Plano
Marshall que se tornaria, sob a designação de OCDE o clube dos países ricos, com a inclusão,
em 1961, 1964 e 1971/73, respetivamente, dos EUA e do Canadá, do Japão e da Austrália e
Nova Zelândia, entre outros países europeus, asiáticos e latino-americanos integrados
posteriormente.

Com o tempo a colonização quase chegou ao fim, embora haja pequenos países, sobretudo
nas Caraíbas e na Oceania cuja independência pouco significado tem, servindo apenas como
interface de parqueamento ou passagem de capitais, em actos de fuga fiscal ou de
branqueamento de atividades mafiosas.

Esse predomínio dos EUA evidenciar-se-ia no âmbito militar, com a NATO (1949) que, de
estrutura construída para uma contenção de um expansionismo soviético passou, depois da
extinção da URSS, a instrumento de intervenção militar ocidental na Ásia Ocidental, na África
do Norte e no Sahel, em nome de uma “luta contra o terrorismo”.

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Essa “luta” aplicável ao Afeganistão tem-se revelado um evidente fracasso – como antes
ocorrera com a Grã-Bretanha, no século XIX e com a URSS, nos anos 80 do século passado. Os
EUA vão mantendo ali uma guerra de contenção que evite uma repetição da humilhação
vietnamita… enquanto chineses e indianos se instalam economicamente. Algum sucesso
apresentaram na contenção na luta contra a Al-Qaeda, mas esta continua activa no Sahel
(AQMI), na Somália (al-Shabaab), no Paquistão e na Líbia. Uma das suas criaturas, o ISIS/Daesh
apresentado como instrumento confessional (sunita) falhou na limitação da influência iraniana
na região e em conduzir a Síria e o Líbano à influência ocidental.

Verifica-se o reforço do papel do Irão, o instável posicionamento geopolítico da Turquia, o low
profile do Egipto de al-Sissi, protagonista de um golpe de estado apoiado por Obama contra o
anterior presidente, Morsi, este, eleito no âmbito dos sagrados princípios da democracia de
mercado. Nesta região, os EUA só podem contar com a sua fortaleza sionista e a monarquia
saudita para desempenhar um papel na região; enquanto a “comunidade internacional” se
cala face à bárbara intervenção das monarquias árabes no Yémen.

A “luta contra o terrorismo”, subsequentemente, vai dando lugar à confrontação direta com
quem os EUA se entendem ameaçados. A ameaça comercial da China é evidente; depois do
surgimento do euro e, gradualmente do yuan, como moedas globais, o dólar tende a reduzir a
sua utilização, fazendo com que muitos países vão retirando o seu ouro depositado em Fort
Knox (Alemanha, Turquia, Holanda, Venezuela..) sabendo-se que não há ali ouro que sustente
a enorme circulação de dólares. Entretanto a China e a Rússia aumentam as suas reservas e o
Irão não aceita dólares nas suas transações, o que está a provocar a reação dos EUA como
antes se verificou contra Saddam ou a Líbia de Kadhafi.

Baseando-se no seu dispositivo logístico militar (80 bases militares espalhadas pelo mundo) os
EUA pretendem concertar a sua estratégia enfrentando diretamente os seus adversários –
Russia e China - com um cordão que corresponde à fronteira Leste da UE e outro no mar da
China envolvendo sobretudo o Japão e a Coreia do Sul. Como a Rússia e a China entretanto
criaram em 2001 a OCX, há uma disputa, com aproveitamento de inimizidades antigas, em
todo o sul da Ásia.

O binómio Europa-América passa de 36.2% da população global em 1950 e cifra-se em 23.3%
em 2016, mesmo encarado nesta forma agregada – sobretudo a América - com uma
composição que comporta muitas desigualdades. Essa perda de relevância no xadrês
demográfico indica que a sua supremacia, económica, política e militar vai fraquejando, como
se observa nos vários cenários de fricção, na Ásia Ocidental e Oriental ou na Europa; tal como
com as medidas dos EUA de criação de taxas alfandegárias e sanções num total arrepio à
defesa do comércio livre, da concorrência, objetivos que os ocidentais defenderam para
promover o velho GATT em OMC. Os tradicionais valores do capitalismo, dos mercados livres,
da livre concorrência vão cedendo às conveniências dos seus principais defensores das últimas
décadas. A recusa dos grandes tratados ou da relevância das alterações climáticas por parte
dos EUA, constituem uma recusa da globalização capitalista?

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2 – As áreas geopolíticas da Europa e os seus perfis demográficos

A distribuição da população, num espaço temporal mais restrito, tendo em conta as várias
áreas geopolíticas do continente1, apresenta enormes divergências conforme se observa no
gráfico abaixo.

Fonte primária: UNCTAD/CNUCED

No período 1970/1990 há um crescimento regular em todas as áreas, ainda que com algumas
diferenças, não muito pronunciadas mas que se acentuam brutalmente desde então, muito
para além das alterações políticas – desmembramento da URSS e da Checoslováquia para além
do ocorrido na Jugoslávia, na sequência de conflitos, guerra e movimentações massivas de
população.

2.1 - Mediterrâneo Oriental

Neste caso, durante a década de 90, as guerras de desmembramento da Jugoslávia, animadas
inicialmente pela Alemanha e pelo Vaticano e, na parte final pelos bombardeamentos dos
EUA, provocaram uma regressão demográfica que continuou nas décadas seguintes, não
sendo animadoras as perspetivas para 2050, apesar da integração na UE e na NATO de uns
quantos países da região. Como sequela dessas ações, a Bósnia/Herzegovina mantém-se num

1
Europa Central - Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria, Polónia, Rep. Checa, Suiça e Checoslováquia (nos dados
até 1990)
Europa Ocidental – Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Ilhas Faroer, Irlanda, Islândia, Luxemburgo, Noruega,
Reino Unido, Suécia
Europa Oriental – Bielorrússia, Estónia, Federação Russa (a partir de 2000), Finlândia, Letónia, Lituânia, Moldávia,
Roménia, Ucrânia e URSS (nos dados até 1990)
Mediterrâneo Ocidental – Andorra, (a partir de 2010), Espanha, Gibraltar, Itália, Malta, Portugal, S. Marino,
Vaticano
Mediterrâneo Oriental – Albânia, Bósnia/Herzegovina (a partir de 2000), Bulgária, Chipre, Croácia (a partir de 2000)
Eslovénia (a partir de 2000),Grécia, Jugoslávia (até 1990), Macedónia (a partir de 2000), (Montenegro (a partir de
2010), Sérvia (a partir de 2010), Sérvia e Montenegro (2000)
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limbo como unidade compósita; e o Kosovo é algo que se assemelha a uma “coisa” que serve
de terreno para a base americana de Boldsteen - vocacionada para a supervisão militar dos
Balcãs - e ainda como uma plataforma para tráficos mafiosos diversos, recebendo ainda o
essencial apoio financeiro da UE.

De modo sintético, registamos as variações populacionais entre as várias entidades nacionais
da área:

 A Albânia atingiu a sua máxima população em 1990, decaindo desde então prevendo-
se que em 2050 atinja a população de… 1980. O conjunto dos países da ex-Jugoslávia
teve um máximo alcançado em 1990, perdeu 16% da população de então, até 2016 e
as perspetivas para 2050 é que a população conjunta se cifre ao mesmo nível de um
século atrás;

 Face a 2000, entre as repúblicas da ex-Jugoslávia, a Bósnia/Herzegovina, a Croácia e a
Sérvia/Montenegro, entretanto autonomizadas, perdem 5 a 7% da sua população em
2016. Somente a Eslovénia e a Macedónia aumentam a sua população no mesmo
período, respetivamente 4.5 e 2.3%. Porém, as perspetivas para 2050 são negativas
para todos os países, com valores extremos para a Croácia (-18%) e a Sérvia (-16%) e
os casos menos dramáticos para a Eslovénia e a Macedónia (-7% em ambos os casos).
No final deste texto, um mapa da Europa contempla a situação global, individualizando
cada país;

 Finalmente, refira-se que Chipre é o único país da região cuja população cresce
uniformemente depois da quebra de 1980, assim como é também o único onde se
prevê, em toda a região europeia do Mediterrâneo Oriental, um crescimento
populacional no horizonte 2050. A Grécia teve um crescimeto populacional em todas
as décadas de 1950 a 2010 mas perde cerca de 240 mil habitantes até 2016, imolados
na salvação do sistema financeiro global; e, claro, para 2050, admite-se uma quebra de
11% face a 2016;

 Se se considerar que a dinâmica populacional é um elemento fulcral para espelhar o
nível de bem-estar de uma comunidade não é excessivo dizer que as guerras nos
Balcãs, o desmoronamento da Jugoslávia, a integração na UE da maioria dos países
balcânicos não foram factor de felicidade dos povos. Povos felizes não reduzem a
natalidade, nem emigram; pelo contrário, confraternizam e fazem filhos.

2.2 - Mediterrâneo Ocidental

Como se poderá ver na descrição da composição das áreas geopolíticas europeias que
acompanham o gráfico, nesta área, há a considerar quatro países e quatro territórios que,
essencialmente são offshores, referindo-se que um destes é um bairro de Roma que funciona
como sede de uma instituição religiosa e um outro é uma colónia inglesa.

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Nesta área, observa-se um crescimento demográfico acima da média global no periodo que
findou em 2010. Na década presente, os efeitos da crise do sistema financeiro recairam
fortemente sobre Espanha, Itália e Portugal, produzindo a saída de imigrantes, nuns casos ou a
entrada de centenas de milhar de imigrantes e refugiados, em Itália; e ainda uma forte
emigração de gente fugida ao desemprego e à degradação da qualidade de vida que se dirigiu
para a Europa Central ou Ocidental. A perspetiva para 2050, com emigração, baixa natalidade,
maior precarização na vida, mais algumas crises financeiras e a óbvia fascização das chamadas
democracias de mercado mostra-se bastante provável; nesta área como nas outras áreas
geopolíticas europeias.

 Os residentes nos offshores crescem no período, excepto em Andorra depois de 2010 e
do Vaticano cuja reduzido número de residentes (não se pode chamar população a um
agregado que não contém mulheres, crianças e famílias) se mantém estável. Para
Gibraltar e S. Marino prevê-se crescimento populacional para 2050. O fluxo de capitais
saidos de Portugal para offshores foi, recentemente, tratado aqui;

 Em todos os países se regista um regular crescimento populacional no período
1950/2010 e que deixa de acontecer em 2010/16 excepto em Malta. Para os quatro
países, naqueles sessenta anos, a população cresceu 67% em Espanha, 28% em Itália,
33% em Malta e 27% em Portugal, neste último caso, como revelador da crescente
periferização e empobrecimento relativo no seio da Península, como observámos
recentemente, aqui e aqui;

 As quebras registadas no último hexénio são de 300 mil pessoas em Itália, 280 mil em
Portugal e 440 mil em Espanha, montantes que, não sendo muito afastados em valores
absolutos, têm um significado diferente em termos relativos – 3% da população para
Portugal e 1% para os outros dois países, em apenas seis anos. Fica evidenciada em
termos demográficos a violência da ação da classe política portuguesa, como
executante das imposições da troika, numa atuação lesta em reduzir o poder de
compra e os direitos da plebe, em amansar os protestos, para salvaguarda dos
interesses do capital financeiro;

 No capítulo das previsões da UNCTAD/CNUCED para 2050 há a considerar quebras
populacionais de 7% para Itália, 13% para Portugal e 4% para Espanha, o que atesta a
regressão demográfica no Mediterrâneo Ocidental com particular ênfase para
Portugal. Na mesma linha, o INE português tem projeções de uma população de 8.6 M
em 2060 e 7.5 M em 2080, embora a distância temporal para essas épocas permita
todas as mudanças políticas, económicas e demográficas.

2.3 - Europa Central

Esta área, a velha Mittel Europa, engloba, grosso modo, além do cofre suiço, os territórios dos
antigos impérios prussiano e austro-húngaro; de modo mais atualizado, temos a Suiça, a
Alemanha e o seu sempre desejado drang nach Osten, como terreno próximo de instalação da
grande indústria alemã, com trabalho a baixo preço, sem a importação de gastarbeiter; um
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processo que se iniciou muito antes da reunificação alemã, tanto na República Federal como
na antiga DDR/RDA.

Como é conhecido, o impacto da crise iniciada em 2008 não foi dramático, como no sul da
Europa e daí que a mesma não se tenha refletido na demografia, uma vez que o afluxo de
imigrantes compensou a baixa natalidade. A população embora estagnada, não recua até
2016, embora as perspetivas futuras sejam de declínio.

 Há uma clara distinção entre o aumento demográfico na Suíça em 1950/2010 (68%) ou
da Polónia (54%) e os restantes, muito mais modestos, com o destaque para a Hungria
(6%) e a Alemanha (16%). Restringindo essa análise ao hexénio findo em 2016 verifica-
se um substancial aumento anual da população na Áustria (0.6% contra 0.35% nos 60
anos inicialmente considerados), pequenas quebras de ritmo na Alemanha e na Suiça e
reduções de população na Polónia e na Hungria;

 Tal como nas outras áreas geopolíticas há grandes diferenças na dinâmica
demográfica, reveladoras de fraturas económicas e sociais nada coincidentes com os
discursos dos mandarins de Bruxelas ou nacionais sobre a coesão europeia. Assim, as
previsões para 2050 apontam para quebras populacionais de 15% para a Hungria e a
Polónia, 9% para a Eslováquia e 3% para a Alemanha, o que talvez sofra alterações
com a política de Angela Merkel em aceitar centenas de milhar de refugiados do
Médio Oriente, indispondo uma grande faixa da população que se rendeu aos
encantos xenófobos do AfD. Somente a Áustria e, sobretudo a Suiça (18%) são objeto
de previsão de aumentos populacionais para 2050.

2.4 - Europa Ocidental

Esta área engloba quase toda a faixa litoral do Atlântico, do Bidasoa ao Ártico, para além da
Suécia e da Islândia. A sua âncora são os antigos impérios coloniais, mormente a França e o
Reino Unido, ainda pouco compenetrados do seu perfil regional, quando disfarçam essa
situação oferecendo-se como damas de honor dos EUA (Líbia, Iraque, Afeganistão, Síria). A
França tenta manter-se no Sahel para esquecer as derrotas na Indochina e na Argélia e a Grã-
Bretanha mantém a política definida por Harold Wilson, de se fixar a oeste do Suez, embora
tenha o planeta bem povoado de offshores, certamente envolvidos nos negócios da City.

Todos apresentam um elevado nível de vida e a Longa Depressão, que vem de 2008, tocou-
lhes de modo muito mais ligeiro do que os países da orla mediterrânica. A sua reletiva
homogeneidade e bem-estar – aliado a algumas políticas de apoio a refugiados e imigrantes –
evidencia o regular e acentuado crescimento populacional em todo o período e ainda nas
expectativas para 2050.

 O crescimento demográfico é uma constante para todos os países no período
1950/2010, sendo enorme o dinamismo no caso da Islândia (125%) ou do Luxemburgo
(72%) e mais baixo na Grã-Bretanha (25%) e na Bélgica (30%);

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 A situação é diferente se se considerar apenas os seis anos terminados em 2016. O
Luxemburgo apresenta uma taxa de 2.2% de crescimento populacional anual,
seguindo-se-lhe a Suécia (0.8%), a Grã-Bretanha e a Bélgica (0.65 e 0.64%), a que não
serão estranhas as imigrações de gente proveniente da Europa do Sul, de África e da
Ásia, muitos deles como refugiados. Estes afluxos vieram reforçar a audiência dos
discursos xenófobos de Farage ou Boris Johnson que conduziram ao referendo inglês
que desembocou no Brexit, produzindo derivas idênticas em outros países. As
situações de menor dinamismo demográfico observam-se na Holanda (0.3%) e na
Irlanda;

 Quando se encara um cenário para 2050, as melhores perspetivas de crescimento
demográfico face a 2016 recaem no Luxemburgo (38%), Noruega (29%) e Irlanda (23%)
e as mais baixas na Holanda (3%) e Bélgica ou França (10%).

2.5 - Europa Oriental

Engloba-se aqui, para além da Finlândia, as mais ocidentais das antigas repúblicas soviéticas, a
actual Federação Russa e a Roménia. Em termos demográficos essas antigas repúblicas
soviéticas têm a sua população contida em todos os anos considerados nesta área geopolítica,
isoladamente desde 2000 ou no total da URSS antes daquele ano. A partir de 2000 as antigas
repúblicas soviéticas da Ásia Central e do Cáucaso, integradas na população total da URSS,
deixam de o estar na Federação Russa, justificando assim a grande quebra da população desta
área geopolítica, entre 1990 e 2000; mas, pouco afetando a enorme população do continente
asiático.

A partir de 2010 a sua evolução demográfica é semelhante à verificada e esperada para o
Mediterrâneo Ocidental. Isso revela o acentuar do caráter periférico de toda a bacia
mediterrânica europeia e do Leste, face à faixa ocidental do continente como apontámos com
maior detalhe aqui, aqui e aqui.

 A Finlândia e a Roménia são os únicos casos em que é possível avaliar a evolução
demográfica a partir de 1950; e demonstram um crescimento populacional de 34 e
26% respetivamente. Há, porém, uma diferença notória; a evolução verificada na
Finlândia observa-se em todo o período e, pelo contrário, na Roménia a população
começa a decrescer a partir de 2000 (700 mil pessoas face a dez anos antes), 1.7 M na
década seguinte e 660 mil no hexénio terminado em 2016. A mudança do regime e a
integração na UE não constituiram fatores de bem-estar para os romenos, bem
representados nos destinos de emigração na Europa Ocidental, Central e também no
Mediterrâneo Ocidental:

 Para o período 2000/16 para o qual existem dados compatíveis para todos os países,
todos revelam quebras de população excepto a Finlândia cujo efetivo cresceu 3%. Para
os restantes, há quebras de população no período, que vão de 1% e 2% para a Estónia
e a Federação Russa até 11% nos casos da Letónia e da Lituânia, aderentes da UE em
2004;
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 As projeções para 2050 são muito negativas face a 2016. De novo a Finlândia surge
como o único país com uma previsão de crescimento demografico (7%). Por outro lado
é bastante acentuada a previsão de perdas demográficas para a Letónia (23%) e em
torno dos 17/19% para a Lituânia, a Moldávia, a Roménia e a Ucrânia;

 Finalmente, a própria Federação Russa poderá reduzir em 8% a sua população o que é,
sem dúvida uma fragilidade para uma potência que pretende assumir um
protagonismo na Europa Oriental e na Ásia Central e Ocidental e que não quererá
aumentar o grau de subalternidade face à China, no âmbito do continente euro-
asiático. Recorde-se que nestes dados, não se consideram os 2 M de pessoas que
passaram a integrar a Federação Russa e não a Ucrânia.

2.6 – Conclusão

O que atrás vem sendo referido, no capítulo das expectativas para 2050 pode ser visto,
graficamente a seguir:
Evolução da população europeia em 2050 face a 2016

Do ponto de vista político revela-se um continente onde o pendor anti-democrático que vigora
na UE, ao formar um centro e várias periferias, promove enormes desigualdades, acentua
xenofobias e fica muito longe de um projeto internacionalista e solidário como uma união dos
povos da Europa2 que, obviamente, as classes políticas e as oligarquias do capital não

2
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subscrevem. O declínio geopolítico de uma Europa fragmentada, política, económica e
socialmente, com enormes áreas de pobreza, tende a torná-la, no contexto global, numa
península asiática de um espaço tricontinental, como um regresso da Gondwana, onde o papel
da China, com o seu poder económico e demográfico se irá impor. Será, no futuro, Roterdão
apenas a estação final da linha ferroviária de uma Rota da Seda, protagonizada pela China?

Essa fragmentação, como o Brexit demonstra, corresponde ao exacerbar da lógica mais radical
que vive no seio da NATO, de vinculação à deriva imperial e fascizante dos EUA, por parte de
países da orla atlântica, como a Noruega, a Holanda e Portugal, para além da já capturada Grã-
Bretanha; ou ainda, na Europa de Leste, onde a fobia anti-russa é evidente, nos paises bálticos
ou na Polónia, felizes por albergarem tropas da NATO nas suas fronteiras.

Uma Europa solidária corresponde à desaparição dos estados-nação, arraigados às suas
fronteiras e a histórias de heróis, como se estas se não esvaissem no tempo. Em vez da
destruição e construção de estados-nação que nos recorda um enorme caudal de guerras e
inimizades, não seria mais interessante uma rede de entidades regionais auto-geridas e
articuladas para a prossecução de projetos comuns de interesse mútuo? Precisa-se, com
caráter de urgência uma movimentação social alargada que constitua uma rede de entidades
regionais com estruturas autónomas e soberanas, sem submissão a instâncias oligárquicas
superiores, com membros escolhidos pelos seus habitantes, sem prerrogativas de perenidade
como as que as atuais classes políticas se arrogam, com rotação assegurada, sem privilégios,
com funções a qualquer momento cessadas por vontade popular, num contexto de total
transparência quando a processos de decisão e dos seus conteúdos.

No caso específico da CEE/UE, observe-se, de modo agregado, a evolução da população (em
milhões) dos países integrantes, em vários momentos a partir da época anterior à sua criação:

1950 1970 1980 1990 2000 2010 2016 2050
Fundadores 178,2 207,2 214,5 220,2 226,9 233,9 237,3 238,6
A 65,0 66,1 68,4 73,7 76,5 12,1
B 59,5 62,4 68,9 67,9 63,4
C 22,1 23,2 24,1 26,4
D 89,6 88,5 74,1
E 27,8 26,9 21,8
F 4,2 3,5
Total 178,2 207,2 279,5 345,8 379,8 517,2 521,1 436,3
Fundadores – Alemanha, Bélgica, França, Holanda, Itália e Luxemburgo
A - Dinamarca, Grã-Bretanha e Irlanda, com a GB excluida em 2050
B - Espanha, Grécia e Portugal
C -Áustria, Finlândia, Suécia
D - Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia, Rep. Checa
E - Bulgária, Roménia
F – Croácia

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 Observam-se aumentos populacionais generalizados aos vários grupos de países
integrados até 2010. A crise da chamada Longa Depressão revela-se em 2016 mas, de
modo assimétrico, atingindo os países periféricos, nas orlas mediterrânicas e no Leste,
que perdem população (grupos B, D, E e F). Poupando, precisamente, os mais ricos,
que souberam imputar aos restantes os custos da deriva financeira e das
incapacidades do modelo capitalista global

 Quanto a 2050 apenas se registam aumentos populacionais entre os fundadores, o
núcleo duro e, nos países ricos do segundo alargamento (C). São de salientar
previsíveis grandes reduções da população – 16 a 19% - nos países do Mediterrâneo
Oriental e do Leste, protagonistas dos três últimos alargamentos. Quanto aos países
do segundo alargamento – Espanha, Grécia e Portugal – considera-se uma eventual
redução de 7% da população no período 2016/2050. Finalmente, a saída da Grã-
Bretanha, para além do seu significado político, tem um peso significativo no total, a
redução demográfica admissível.

(continua)

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