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ASSOCIAÇÃO ESCOLA DA CIDADE

MARIA PIA FAHHAM

O MUTIRÃO DE AUTOGESTÃO PELA


PERSPECTIVA DA MULHER

SÃO PAULO
2017
RESUMO

Essa pesquisa busca colocar em pauta e evidência a importância da


participação das mulheres no Mutirão de Autogestão. Através da habitação como foco
e com a liderança dos movimentos por moradia, a arquitetura entra nesse processo
como um mero ator político. A inserção das mulheres na política e nos processos
deixam visíveis transformações sociais e refletem também no espaço construído.
Para trazer essa análise foram realizadas entrevistas com participantes de mutirões
realizados e em planejamento pelo MST-Leste 1 e pela assessoria técnica Usina. As
entrevistas além de estruturar uma narrativa histórica, desde seu inicio até hoje,
também servem como referências e dão visibilidade e voz aos seus agentes.
LISTA DE SIGLAS

BNH- Banco Nacional por Habitação


CEB’s- Comunidades Eclesiais de Base
CEBRAP- Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
COHAB-Companhia Metropolitana de Habitação
FAU- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
FGTS- Fundo de Garantia por Tempo e Serviço
FLM- Frente de Luta por Moradia
FMH- Fundo Municipal de Habitação
FNH- Fundo Nacional de Habitação
FNMP- Fundo Nacional de Moradia Popular
FUNACOM- FUNAPS Comunitário
FUNAPS- Fundo de Apoio à População Moradora em Habitação Subnormal
HIS- Habitação de Interesse Social
IAB- Instituto de Arquitetos do Brasil
MDF- Movimento de Defesa dos Favelados
MST- Movimento Sem Terra
MST- Leste 1 - Movimentos Sem Terra Leste 1
PLANAHAP- Plano Nacional de Habitação Popular
PMCMV- Programa Minha Casa, Minha Vida
PSDB- Partido Social Democrata Brasileiro
PT- Partido dos Trabalhadores
SEHAB- Secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de
São Paulo
SFH- Sistema Financeiro Habitacional
SHRU- Seminário de Habitação e Reforma Urbana
TCM- Tribunal de Contas do Município
UMM- União dos Movimentos de Moradia da Grande São Paulo
UNMP- União Nacional por Moradia Popular
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO

O presente estudo busca analisar o mutirão autogerido e seu papel na possível


transformação das mulheres nesse processo. Partindo da sistematização de uma
narrativa histórica, que evidencia as conquistas alcançadas por esse modelo de
produção habitacional e as mudanças que sofreu nas últimas décadas, busca-se uma
aproximação ao objeto de estudo através de entrevistas com mulheres integrantes
desse processo de construção. Esse contato se dará com a participação direta em
momentos-chave de mutirões em planejamento e com a análise de documentos
produzidos nesses encontros.
O tema surgiu através de um estudo na Escola da Cidade- Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo sobre a crítica do trabalho no canteiro de obras
convencional e o reconhecimento do mutirão por autogestão como meio de
transformação trabalhista no sistema da construção civil. A partir de visitas a
diferentes mutirões e de conversas informais com os participantes foi possível
perceber no discurso, principalmente das mulheres, a importância da sua inserção
no movimento para a conquista de direitos, interesses e posições de protagonismo.
A questão de gênero surge de maneira quase que natural nas discussões
internas do movimento e será o foco principal dessa pesquisa. Segundo Evaniza
Rodrigues (201 7), o MST- Leste 1 é um movimento atípico pois em sua organização há
uma maioria de mulheres, enquanto na lógica partidária e nas disputas eleitorais
continuam ainda hoje sendo geralmente protagonizadas por homens. As relações
estabelecidas dentro do movimento e entre as mulheres não são, portanto, baseadas
em disputas de poder, mas sim de ajuda mútua e troca de experiências e
conhecimentos. Não é possível afirmar que o trabalho no Mutirão seja benéfico à
transformação social de todos os envolvidos, mas conforme a maior participação nos
processos e atividades do movimento tornam-se notáveis o surgimento de alguns
questionamentos em relação ao papel das mulheres e a transformação pessoal e
social.
Através de José Baravelli, arquiteto da assessoria técnica Usina, entrei em
contato com os Mutirões Martin Luther King, Dorothy Stang e Jerônimo Alves. Os três
conjuntos habitacionais- com respectivamente, 21 4, 286 e 200 unidades
habitacionais- serão construídos no bairro do Parque São Rafael na Zona Leste de
São Paulo. Atualmente estão em processo de organização das comissões para
começar o trabalho mutirante, mas desde 201 5 os grupos se articulam em busca de
moradia e participam de reuniões, atividades e assembleias. Algumas dessas
atividades tiveram seus resultados documentados pela assessoria e serviram para a
formulação tanto do projeto, quanto do próprio regulamento de obras. Outra atividade
realizada foi “Pensando o Espaço da Moradia a Partir das Relações de Gênero e
Idades”, na qual se estabelecem relações importantes entre os diferentes grupos,
demonstrando como o gênero e a idade influenciam nas perspectivas que cada um
tem da moradia. Esses serão dois pontos fundamentais que permearão essa
pesquisa.
Para exemplificar e aprofundar o estudo do papel da mulher no mutirão de
autogestão pretende-se também demonstrar o protagonismo feminino através de
perspectivas distintas. Para isso foram feitas entrevistas com mulheres com
diferentes idades e graus de envolvimento no movimento por moradia. Evaniza
Rodrigues e Alessandra dos Santos são coordenadoras do MST-Leste 1 e participam
há muitos anos do movimento, já Roseane Queiroz é mutirante do Conjunto Paulo
Freire, construído entre 1 999 e 201 0. Priscila Neves, Mirian da Silva, Cristiane Dantas
e Maiara Francisco representam a segunda geração, pós o Programa Minha, Casa
Minha Vida. Os diferentes contextos em que viveram, a idade e a experiência no
movimento tornam visíveis em seus discursos diferenças e semelhanças que
constroem por si só um panorama do Mutirão por Autogestão e da importância da
participação das mulheres nesse processo.
Essa pesquisa será dividida então em três frentes de trabalho: uma parte
teórica, uma aproximação pessoal dos objetos de estudo e por fim, a articulação e
elaboração do trabalho final. A primeira parte será a pesquisa histórica da moradia
popular, da autogestão e das políticas públicas por moradia no Brasil como forma de
explicar a sua existência, especificidades e potências. Já a segunda parte ocorrerá
através de visitas, conversas e entrevistas, como uma forma de investigação e
aprofundamento do tema.
Para a realização das entrevistas tive o apoio de Luiza Sassi, socióloga e
técnica social da USINA, que me orientou na elaboração das perguntas e em relação
à metodologia utilizada. A partir da análise e relação entre ambas se buscará
estabelecer uma narrativa que atente não só ao mutirão, assunto já amplamente
discutido, mas como a atuação das mulheres pode ser importante nesse processo.
Mostrando que arquitetura pode servir como um agente de transformação social e da
questão de gênero para as mulheres, assim como os espaços também podem ser
transformados através de suas perspectivas.
METODOLOGIA

Em “Como e quando pode um arquiteto virar sociólogo?”, Carlos Nelson


Ferreira dos Santos coloca como foi o desenvolvimento da sua formação como
arquiteto, em busca de ações práticas de arquitetura social, até se tornar
antropólogo. Em 1 969, o grupo QUADRA em parceria com a CODESCO (Companhia
de Desenvolvimento de Comunidade) começou a atuar na reurbanização da favela da
Pina. Em princípio Nelson coloca que sua ação baseava-se nos conceitos aprendidos
na academia, mas conforme a maior aproximação e envolvimento com aquela
população, ele pôde perceber a existência de códigos e necessidades próprias, antes
desconhecidas por ele. Essa atenção pelo detalhe e a preocupação com a ausência de
formação na área, o levou a procurar instrumentos de capacitação e ao
questionamento dos limites entre o arquiteto e o sociólogo. Já que além do
entendimento macro da situação é imprescindível para um bom resultado a
aproximação do arquiteto das peculiaridades da situação. Portanto, não se pretende
nessa pesquisa se colocar na posição de sociólogo, mas sim trazer essas
particularidades das questões da habitação popular e do gênero através da macro
questão que é o Mutirão por Autogestão.
Com o interesse em analisar a inserção das mulheres no movimento por
moradia e no mutirão surgiu a premissa de trazer experiências pessoais das
participantes que servissem como referências para elucidar alguns pontos sobre o
tema. Para orientar o método de abordagem dessa pesquisa, foi utilizado o livro
“Métodos de Pesquisa em Ciências Sociais- Bloco Qualitativo” da CEBRAP (Centro
Brasileiro de Análise e Planejamento), no qual se estabelecem os diferentes métodos
de pesquisa qualitativos como: observação participante, biografias e entrevistas. A
entrevista surge então como o método mais interessante de aproximação do objeto
de estudo e terá seu roteiro estruturado conforme o livro.
A escolha das entrevistadas foi a primeira importante decisão a ser tomada.
Para evitar respostas idealizadas e por motivos de comparação optou-se por
selecionar dois grupos de mulheres: 1 - Aquelas com mais tempo de experiência no
movimento. Representadas por Evaniza Rodrigues, Roseane Queiroz e Alessandra
dos Santos. 2- E Mulheres que começaram a participar do movimento há menos
tempo. Grupo composto por Priscila Neves, Mirian da Silva, Cristiane Dantas e Maiara
Francisco.
Apesar da elaboração de um roteiro de perguntas semiestruturado, durante as
entrevistas optou-se por intervir o mínimo possível durante a fala das entrevistadas.
Introduzindo temáticas a partir da recordação de memórias como, por exemplo:
“Como você chegou no movimento?” e “Como era a relação com seus pais e
irmãos?”, deixando a elaboração da narrativa a priori das participantes. Optou-se
também por realizar entrevistas individuais na sala da administração da creche da
Associação da fazenda da Juta onde estavam sendo realizadas as Assembleias do
Mutirão Parque São Rafael.
Cada entrevista durou cerca de uma hora, tentando assim eliminar o formato
de questionário e diminuir a pressão sobre as respostas dadas. Por ter menos
intervenção do entrevistador, o entrevistado acaba ficando mais confortável em dar
seus relatos, melhorando assim a qualidade dos dados coletados. Apesar disso, esse
é um método que exigiria mais encontros para validar sua confiabilidade tendo sido
necessário a sua adaptação às condições atuais de pesquisa para o seu
prosseguimento.

ROTEIRO DE ENTREVISTA
1 . Infância
Aonde nasceu/ cresceu? como era casa?
Como foi a infância?
Como eram as relações familiares? Irmãos? Pais? Como eram divididas as
tarefas em casa? Existia diferença de tratamento entre filhos/as?
Diferentes expectativas?
Quais valores permeiam as relações? (tradicionais, rurais, progressista)

2. Após entrada no movimento


Como é enxergado o papel da mulher no ambiente familiar, profissional,
pessoal e no mutirão? Por si mesma e por outros?
O que a família acha da participação no movimento/mutirão? Parceiro/a
participa? Problemas com a família por se ausentar para o trabalho no
mutirão? Como foi o processo de aprendizado do trabalho?
Existe situações de machismo no trabalho? Como é a relação de trabalho
no movimento e no trabalho do mutirão? Como é a relação entre
contratados e as mulheres?
Algo mudou após começar a participar?
Algum objetivo alcançado pelo anseio das mulheres como um grupo?

3. Atual
Qual a rotina diária? Como o tempo é gasto e dividido entre diferentes
atividades cotidianas? Qual o papel de cada integrante da família no
trabalho doméstico? Há dependência do marido? - Entender prioridades,
necessidades, dedicação, "papéis".
Quais são as características da vida na periferia? Quais principais
problemas enfrentados? Quais virtudes?

Enquanto isso, a entrevista também entra como uma forma qualitativa de


realizar uma análise da trajetória das envolvidas através dos seus diferentes relatos,
conseguindo assim identificar temas comuns que se conectam a questões estruturais
de ordem mais ampla, como citado por Queiroz:
“A “História oral” é um termo amplo que
recobre uma quantidade de relatos a respeito de
fatos não registrados por outro tipo de
documentação, ou cuja documentação se quer
completar. Colhida por meio de entrevistas de
variada forma, ela registra a experiência de um só
indivíduo ou de diversos indivíduos de uma mesma
coletividade. Neste último caso busca-se uma
convergência de relatos sobre um acontecimento ou
sobre um período do tempo.” (QUEIROZ,1 987)
Com a sistematização das entrevistas em temas principais, dividiu-se os
trechos dela procurando estabelecer uma estrutura única principal de acordo com o
tempo e os temas encontrados. Os principais temas que surgiram durante as
entrevistas foram:

1 - Problemáticas da periferia
2- Moradia ilegal
3- Sonho da casa própria
4- Comunidades Eclesiais de Base
5- Movimento social
6- Minha Casa, Minha Vida
7- Autogestão
8- Educação
9- Formação
1 0- Projeto
1 1 - Machismo no trabalho
1 2- Inserção das mulheres na política
1 3- Valores familiares
1 4- Apoio da família/ marido na participação no movimento e no mutirão
1 5- Relação com o marido
1 6- Apoio entre mulheres
1 7- Transformação/ Libertação

Apesar da divisão em temas é possível a correlação entre trechos, portanto foi


elaborada uma tabela com o intuito de localizar esses possíveis encontros entre
temáticas e facilitar a construção da pesquisa. Com isso feito e com as análises
teóricas realizadas, pretende-se assim elaborar o estudo sobre o Mutirão pela
Perspectiva das Mulheres.
APRESENTAÇÃO ENTREVISTADAS

EVANIZA RODRIGUES
Evaniza Rodrigues é atualmente coordenadora do MST-Leste 1 e da UNMP.
Desde sua infância participava ativamente nas Comunidades Eclesiais de Base, tendo
isso como base em sua formação educacional e política. Cresceu e participou de um
contexto de redemocratização brasileira muito importante, atuando através do PT e
inserindo-se na política através da participação em discussões extremamente
importantes como, por exemplo, a Constituição de 1 988. Estudou serviço social na
PUC (Pontifícia Universidade Católica) e posteriormente realizou mestrado sobre o
tema: ”A Estratégia Fundiária dos Movimentos Populares na Produção
Autogestionária da Moradia” pela FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) que
será fundamental para algumas discussões dessa pesquisa. Nela se discute, através
da perspectiva dos movimentos sociais, a validação de projetos de moradia por
autogestão durante o período de 2004 à 201 3, colocando em pauta questões como o
Crédito Solidário e o Programa Minha Casa, Minha Vida.

Em 1 993, Evaniza começou a trabalhar na coordenação da UNMP e do MST-


Leste 1 e a partir de 2003, durante o primeiro governo de Luís Inácio Lula da Silva,
participou do Fórum de Reforma Urbana e na Constituição do Ministério das Cidades
trabalhando desde sua concepção até sua prática. Já em 201 1 , no governo de Dilma
Rousseff, tornou-se consultora da Caixa Econômica Federal na implantação do
programa Minha Casa, Minha Vida- Entidades e Minha Casa, Minha Vida- Rural.
Evaniza Rodrigues é um exemplo de mulher que se inseriu e se destacou na política e
na luta por moradia, atuando desde a formação dos movimentos sociais até hoje. Não
limitando sua experiência na esfera da luta civil por direitos, mas também através da
atuação em órgãos públicos e buscando sempre o diálogo com o Estado em prol da
Autogestão.
ROSEANE QUEIROZ
Roseane Queiroz é mãe de duas filhas e coordenadora executiva da União dos
Movimentos de Moradia de São Paulo (UMM). Entrou no movimento por moradia
através do grupo de origem Nossa Senhora da Boa Esperança e foi mutirante do
Conjunto Paulo Freire onde mora até hoje. Após entrar no movimento terminou seus
estudos e fez faculdade de serviço social em 201 4. Participou da coordenação do
mutirão na época como auxiliar administrativa, adquirindo todos os conhecimentos
necessários para a gestão e trabalho na obra durante o processo. Trabalhou como
assistente social do Centro de Jovens na Zona Leste e posteriormente no Centro para
Crianças e Adolescentes, programas conquistados através da Associação da União da
Juta.

ALESSANDRA DOS SANTOS


Alessandra dos Santos conheceu o movimento através de seu pai, Jerônimo
Alves, coordenador executivo do MST- Leste 1 na década de 80. Apesar de seu apoio,
Alessandra só passou a ser mais atuante no movimento devido à necessidade de
pleitear a sua própria casa, trazendo de volta a ativa o grupo de origem Jardim Rio
Claro criado por ele. Hoje trabalha na coordenação executiva do movimento e seu
marido participa do Mutirão Jerônimo Alves.

CRISTIANE DE OLIVEIRA DANTAS


Cristiane Dantas entrou no MST- Leste 1 em 201 2 através do grupo de origem
Perseverança e participa hoje do Mutirão ???. Além de coordenar as comissões,
passou também a ser coordenadora executiva do movimento. Desde 201 4 trabalha na
Casa dos Projetos organizando e apoiando as famílias, assim como também
ingressou na Universidade no curso de serviço social.
MIRIAN DA SILVA
Mirian da Silva entrou no movimento em 201 5, assim como duas de suas três
filhas, todas participam atualmente do Mutirão Milton Santos. A falta de
oportunidades e incentivo de sua família aos estudos fez com que ela não finalizasse
o segundo grau para poder trabalhar. De uma família de 1 1 irmãos, seis mulheres e
cinco homens, apenas os homens finalizaram seus estudos e fizeram faculdade. Aos
20 anos se casou pela primeira vez e foi compelida a largar seu emprego. Sete anos
depois se divorciou e casou-se novamente. Após entrar no movimento passou a
trabalhar nas comissões junto com uma de suas filhas. Para ela isso é extremamente
importante como uma forma de aquisição de conhecimento e também de auto
confiança, tendo incentivado até mesmo a voltar a estudar.

PRISCILA DE SOUZA NEVES


Priscila trabalhava como consultora de vendas na P&G quando entrou no
movimento em 201 1 através do grupo Jardim Rio Claro e participa hoje do Mutirão
???. Trabalha desde 201 5 no MST Leste 1 como coordenadora, atendendo as famílias
durante a semana e atua como mutirante nas comissões. Novamente o movimento é
colocado como um agente de oportunidades, tendo incentivado a voltar a buscar seu
sonho de estudar pedagogia.

MAIARA CRISTINA DE SOUZA FRANCISCO


Maiara de Souza Francisco é a mais nova a ser entrevistada, com apenas 21
anos começou a se envolver mais no movimento há apenas quatro meses por
incentivo de suas colegas. Estudou em escola pública e hoje faz faculdade de
Engenharia Química e estagia no laboratório de corrosão da USP. A partir do
momento em que começou a participar na comissão passou a entender como
funciona o processo, levando ao ânimo para lutar pela moradia e participar de
atividades fora do Mutirão.
PANORAMA HISTÓRICO

Devido a crescente industrialização a partir da década de 40, a expansão


urbana passa a ser evidente em 1 970 quando a população urbana ultrapassa a rural
pela primeira vez. A população rural que em 1 940 apresentava 68% da população
total, em 1 970 diminui para 44% (ALVIM, 2009, P. 342). Com as transformações e os
problemas decorrentes desse rápido processo de urbanização, tornou-se necessário
a discussão de diretrizes que buscassem a melhoria da infraestrutura da cidade e o
acesso à moradia digna para toda população. Conforme citado por Débora Sanches
(201 5, P.1 24) foi durante o Seminário de Habitação e Reforma Urbana (SHRU),
realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), em que foram traçados os
primeiros prognósticos sobre as condições habitacionais brasileiras. A desproporção
de renda entre a população e a concentração de terras foram alguns dos fatores
colocados como causas dos problemas habitacionais do país. Com o intuito de
atenuar essas diferenças foram feitas algumas propostas pelos arquitetos
participantes que, segundo Bonduki e Koury (201 0), estabeleceram a habitação como
direito fundamental do homem e também previram a criação de um Fundo Nacional
de Habitação (FNH), determinando como função do Estado a sua participação na
questão da Moradia. Apesar dessas transformações em relação à crítica da lógica
habitacional e urbana brasileira se mostrarem como um prelúdio das importantes
mudanças que viriam a acontecer durante a década de 80, o golpe militar instaurado
em 1 964 acabou por impedir que essas discussões e processos fossem levados
adiante.

O período Militar caracterizado por um regime político de caráter autoritário e


desenvolvimentista perdurou entre 1 964 e 1 985. Apesar de ser um tema já
amplamente discutido é impossível deixar de comentar a produção habitacional
realizada durante a ditadura. Além de ser o período que antecede os primeiros
Mutirões, através de uma breve análise é possível observar alguns tópicos
fundamentais que levaram a esse novo tipo de produção de moradia e também
estabelecer as diferenças em relação ao projeto arquitetônico e urbano entre esses
dois contextos.
Entre as primeiras propostas colocadas em prática nesse governo estão a
criação do Fundo de Garantia por Tempo e Serviço (FGTS) e do Banco Nacional por
Habitação (BNH). A despeito de serem propostas significativas em relação à oferta de
moradia, excluíam a Reforma Urbana de sua agenda e acabavam por favorecer o
financiamento de casas para a classe média. É importante entender como funciona o
tripé Conselho-Fundo-Plano, pois é através dele que ocorre a transferência do fundo
nacional para o fundo municipal. Ao longo do texto, diferentes fundos e planos
surgiram e dependendo da gestão isso afeta irremediavelmente como os programas
de habitação funcionam. Durante o período militar foram criados, por exemplo,
alguns programas devido a reivindicações da população de baixa renda, como é o
caso do MDF (Movimento de Defesa dos Favelados) que lutava por saneamento
básico, luz e moradia nas favelas. Caio Santo Amore (P.1 9, 2004) exemplifica esse
modelo através da PLANAHAP, Plano Nacional de Habitação Popular, que reunia
programas como o PROMORAR (1 979). Por meio deste programa tornava-se
possível a regularização da ocupação do solo, fornecendo a possibilidade de
autoconstrução à população. Segundo ele, os resultados desses programas foram
pouco significativos em relação a outros devido à sua baixa lucratividade,
representando apenas 4,3% do investimento do Sistema Financeiro Habitacional
(SFH).

Essas políticas não buscavam combater o problema de moradia, mas sim


preconizavam a legitimação da favela na cidade de São Paulo. Ao dar instrumentos
para população que reivindicava seus direitos, atenuava-se a situação e agradava
aqueles desfavoráveis à remoção de favelas. Atrelando essas medidas ao
favorecimento de financiamento habitacional para a classe média, no qual houve uma
grande participação do mercado privado. E além da massificação de grandes
conjuntos habitacionais na periferia para a classe baixa, construídos através da
COHAB, empresa estatal responsável pelas obras públicas de habitação em São
Paulo. As políticas realizadas durante o período do BNH são citados por Maricato
(201 1 , SANCHES, 201 5, P.1 23) como contribuintes para o espraiamento da malha
urbana e o surgimento de cidades dormitório na cidade, além de reforçar a
especulação imobiliária e a desigualdade social. A divisão social dentro da cidade é
clara, a segregação urbana é evidenciada por sua paisagem. As áreas onde há a
maior concentração de renda também são os lugares mais providos de
infraestrutura. Enquanto na periferia, apesar de conter o maior número de
equipamentos públicos, estes são insuficientes e carecem de infraestrutura própria
para atender sua população.

Além da ausência de preocupação urbana, a produção arquitetônica produzida


nesse contexto é também passível de diversas críticas. A participação do mercado
privado em programas públicos de habitação por um lado acabaram por impulsionar
a economia da construção civil no Brasil, porém para isso se tornar lucrativo para as
construtoras buscava-se a redução máxima dos custos, produzindo conjuntos
habitacionais massificados com tipologias empobrecidas. É comum relacionar a
planta em H com os projetos construídos na época, pois assim facilitavam a
reprodução do projeto em qualquer local com apenas algumas alterações.

É nesse contexto de restrição de direitos e de ausência de programas estatais


realmente efetivos para a classe de baixa renda que começaram a serem organizados
os primeiros Movimentos Sociais. No Brasil, a partir da década de 70, assim como em
outros países da América Latina, os movimentos começaram a ganhar força como
uma forma de se contrapor aos regimes autoritários vigentes. Com o
enfraquecimento do regime militar e a crise econômica começaram a surgir esses
novos atores políticos, fundamentais à transformação das políticas públicas no Brasil.
Na esfera do trabalho, por exemplo, emerge o sindicalismo; enquanto na esfera da
cidadania surgem os movimentos sociais por moradia. Sua forma de organização teve
uma forte influência das Comunidades de Base da Igreja (CEBs), comunidades
reunidas por proximidade territorial e de necessidades comuns vinculadas à Igreja
Católica, de onde vieram inclusive grandes partes de suas lideranças. Tais
movimentos de base cristã se fundamentavam na Teologia da Libertação, na qual se
busca através de uma análise crítica, social e econômica ajudar a população a lutar
por seus direitos e por sua autolibertação. Evaniza Rodrigues, importante liderança
do MST- Leste 1 , participou desse processo intensamente desde criança
acompanhando as atividades da Pastoral da Juventude, organismo de ação social
católica que buscava manter um diálogo com estudantes e jovens “dando-lhes
instrumentos para uma visão crítica do mundo. As CEBs eram a porta de entrada nos
movimentos sociais urbanos de luta por creches, transportes, postos de saúde,
moradia etc.” (GOHN, 201 1 . P.347).

Os Movimentos Sociais por Moradia dividem-se, portanto dentro do Estado por


duas instâncias: a primeira seria por uma divisão regional do território como, por
exemplo, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1 (MST-Leste 1 ); já a
segunda seria por tipo de reivindicação habitacional. No centro da cidade há, por
exemplo, o Frente de Luta por Moradia (FLM) que luta para que os edifícios vazios
sejam convertidos em habitação social. Enquanto nas zonas rurais, o mais popular, o
Movimento Sem Terra (MST), reivindica terras que não cumpram com a eficiência de
sua exploração. Todas essas lideranças se articulam a um nível estadual através da
União dos Movimentos de Moradia da Grande São Paulo (UMM) e a nível nacional
através da União Nacional por Moradia Popular, a UNMP.

Com o fim da Ditadura Militar e a retomada da democracia brasileira, esses


grupos que já se articulavam desde o final da década de 1 980 começam a ganhar
visibilidade e oportunidades de atuação. O MST- Leste 1 , criado 1 987, pauta-se na luta
pelo direito a terra e moradia na Zona Leste de São Paulo e tem sua primeira
ocupação realizada em 1 988 na região. Já na sua segunda ocupação, Evaniza começa
a participar dando suporte através da Pastoral da Juventude e com essa aproximação
passa a coordenar um grupo de base da região. Além disso, dedicava-se a militância
no Partido dos Trabalhadores (PT), participando ativamente do processo de
redemocratização e do diretório do partido, fazendo companhas eleitorais e
participando do processo Constituinte.

A participação dos Movimentos Sociais e de Entidades na criação da


Constituição de 1 988 foi fundamental para a retomada de discussões travadas no
SRHU em 1 963 em relação ao direito à terra e moradia. A Constituição previa em
primeiro lugar devolver os direitos sociais perdidos durante a ditadura e
institucionalizar os direitos fundamentais do homem; estabelecendo a educação, a
saúde, alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social,
assistência aos desamparados, proteção à maternidade e a infância como princípios
sociais básicos que deveriam ser assegurados pelo Estado (Constituição da República
Federativa do Brasil, 201 7. P.23). Durante os capítulos II e III, do título VIII, no qual é
colocada em questão a ordem econômica e financeira do país, discutem-se as
diretrizes das políticas urbanas e de reforma agrária. O plano diretor é colocado
como obrigatório para as cidades com mais de vinte mil habitantes, assim como a
propriedade urbana e rural deve cumprir sua função social a despeito de possíveis
desapropriações como forma de reduzir as diferenças sociais e levar o direito à
cidade (Henri Lefebvre) para todos. Apesar de a nova Constituição representar
grandes avanços sociais no Brasil, ainda hoje essas medidas são frequentemente
derrotadas juridicamente, demonstrando a importância da pressão política realizada
pelos movimentos sociais que promovem diagnósticos e constroem novas propostas
através de sua organização e resistência.

“A proposta autogestionária de produção


habitacional no Brasil nasce junto com o processo
de redemocratização, com o fim da ditadura militar
incorporando os princípios de construção de poder
popular, descentralização do poder e disseminação
da economia solidária, por meio de um processo de
produção não mercantil que valoriza a moradia
como direito e a cidade como território de
realização de direitos.” (RODRIGUEZ, P.1 99).

Em meio à efervescência de discussões em relação à moradia popular, Luiza


Erundina é eleita prefeita (1 989-1 993), tendo como prioridade o investimento em
habitação de interesse social. Com a ascensão da esquerda na política foi possível o
diálogo com os movimentos e a tomada de professores, assessores e militantes do
Mutirão em cargos da SEHAB (Secretária de Habitação e Desenvolvimento Urbano da
Prefeitura de São Paulo) tornando possíveis iniciativas como o Plano de Ação
Imediata. Segundo Caio Santo Amore o plano baseava-se nos princípios da Reforma
Urbana, no direito à cidadania e pela habitação de qualidade defendida pelos
Movimentos Sociais, dando prioridade pela primeira vez à população de baixa renda
(1 -3 salários mínimos) organizada através de Movimentos por Moradia e instaurando
um processo de construção diferente, no qual há a participação da população em
todas as etapas do processo através do apoio técnico e do acompanhamento social,
educacional e político e o estímulo à criação de cooperativas e associações por
moradia. (AMORE, 2004, P.29).

“Em contraposição à situação de embate


com o Estado autoritário e negador (explícito) de
direitos foi surgindo outra, de relação, negociação,
criação de espaços públicos e institucionais de
participação. O Estado cumpriu, naquele momento,
um papel que até então não lhe era peculiar: o de
fortalecer e apoiar a ação dos Movimentos Sociais,
que apareceram na arena pública, publicizando
carências e instituindo-as como direitos de caráter
coletivo e difuso.” (AMORE, 2004. P.34).

Em 1 991 através da mobilização dos movimentos populares por moradia que é


entregue o primeiro projeto de lei para a criação do Fundo Nacional de Moradia
Popular (FNMP), passando a ser vigente ainda esse ano. É criado também durante
seu governo o FUNACOM (FUNAPS Comunitário), primeiro programa de obtenção de
moradia por Mutirão que utilizava recursos do FUNAPS (Fundo de Apoio à População
Moradora em Habitação Subnormal) através da associação do Movimento por
Moradia, de recursos públicos e o trabalho com assessorias técnicas. Nesse
momento são estabelecidas as regras para a participação do programa, cabendo às
Associações a apresentação da demanda e a contratação de uma assessoria técnica.
Os procedimentos utilizados na época são muito similares aos de hoje, inclusive
sendo necessária a elaboração de um projeto para assim então conseguir seu
financiamento. (AMORE, 2004. P.32).

Esse diálogo entre Estado, Movimento e Assessoria foi essencial para a


concepção dessa nova metodologia de produção habitacional de interesse social. A
partir do momento em que o financiamento da construção da moradia é direcionado
diretamente ao movimento, transformam-se as relações de poder e de trabalho
estabelecidas dentro de uma obra civil convencional. A participação coletiva dos
futuros moradores no processo de trabalho reforça a ideia de inserção e
protagonismo dos mutirantes na luta pela casa própria.

O mutirão é um processo originário de uma forma de fazer popular, no qual há


uma mobilização coletiva para o auxílio de caráter mútuo e gratuito que beneficie um
indivíduo ou uma comunidade. Muito vinculado à produção rural, às colheitas e à
ausência de hierarquia; esse sistema passa a fazer sentido para as famílias da
periferia, a partir do momento que migram da zona rural e aplicam esse método de
construção para a própria casa. Desde o seu início é necessário a organização entre
as pessoas participantes para a sua concretização. O mutirão tem sentido social de
enorme importância na produção habitacional brasileira e enxergar que, antes de
tudo, ele já é um processo de autogestão é um fator extremamente importante. O
trabalho no mutirão tem um sentido que vai além da produção atual através de
políticas públicas. É um processo que tem como base, a transformação das relações
de trabalho em prol do coletivo e evoluiu para o que chamamos hoje de Mutirão de
Autogestão.

“Conceito que pode ser entendido como um


tipo de práxis social histórica que demonstrou a
necessidade não apenas da participação objética
(manual) e subjetiva (intelectual) nos processos de
tomadas de decisão, mas uma forma de
reconciliação entre dimensões de decisão,
planejamento e execução dos processos de
produção da vida social. O que se busca é a
emancipação política e assim, a constituição do
sujeito como agente de transformação social.”
(USINA CTAH, 201 6. P. 1 55).

Apesar da necessidade da moradia ser a pauta principal que leva as pessoas


ao contato com o movimento, o seu intuito vai muito além disso. A luta não se
restringe apenas a questão habitacional, mas estende-se a todos os direitos sociais.
Por isso torna-se necessário trazer outras discussões às famílias participantes,
processo extremamente importante de compartilhamento de saberes, algo que será
mais discutido posteriormente. No momento é importante entender como a
integração e o diálogo entre o movimento, assistências técnicas e população
resultam em transformações das relações sociais, de trabalho e consequentemente
de projeto.

O Mutirão 26 de Julho, o Talara e o Mutirão da Casa Branca foram alguns dos


projetos realizados através do Programa FUNAPS- Comunitário pela assessoria
técnica Usina durante o governo de Luiza Erundina. Em 1 990, a assessoria em
conjunto com a Associação Comunitária 26 de Julho e o MST-Leste 1 começaram a
elaborar o primeiro grande projeto do escritório. Eram 561 unidades habitacionais em
dois tipos de tipologia de sobrado que seriam construídos na Fazenda da Juta, na
Zona Leste de São Paulo. Conforme descrito por Ícaro Vilaça e Paula Constante
(USINA CTAH, 201 6. P. 225) esta acabou se tornando uma experiência de canteiro
experimental em habitação social. Apesar da organização da gestão da obra ter
conseguido estocar material para continuar a construção mesmo após a sua
paralização durante a gestão de Paulo Maluf, ela manteve-se parada durante 1 993 e
1 997, sendo finalizada apenas no ano 2000.

Já o Mutirão Talara teve suas primeiras discussões iniciadas ainda em 1 989


por quatro associações de moradia da Zona Sul (Moradia Zona Sul, Moradores do
Jardim Comercial e Adjacências. Por Moradia do Jardim das Palmas e Pró Moradia
Parque Fernanda) que procuraram a assessoria para a construção de 20 edifícios de
cinco e seis andares. Os projetos de urbanismo e arquitetura já existiam, porém foi
necessária a sua adaptação para métodos construtivos mais fáceis para o trabalho
mutirante. Além disso, surgiram novas demandas dos moradores como o salão
comunitário, a sede das associações e também uma creche; demonstrando o
interesse dos futuros moradores em construir uma habitação que valorizasse a
integração entre os vizinhos, o incentivo às discussões políticas e a preocupação com
a questão da mulher e a família. (USINA CTAH, 201 6. P. 232)

Outro Mutirão que teve suas obras iniciadas pela administração da prefeita
Luiza Erundina e interrompidas durante o governo de Paulo Maluf foi Mutirão Casa
Branca composto por 200 unidades habitacionais. Realizado em Guaianazes em
conjunto com a Associação de Moradores Casa Branca foi pensada em tipologia
assobradada, conjugadas e geminadas feita com alvenaria estrutural com blocos de
cerâmica. A sua construção iniciou-se em 1 992, mas foi parada em 1 993 devido ao
inquérito aberto devido à acusações de irregularidades nas prestações de conta pelo
programa. Apenas após a comprovação de que não havia nenhuma irregularidade, a
obra recebeu aval para sua continuação em 1 993.

“Com relação ao FUNACOM, o mesmo foi


objeto de investigação no Tribunal de Contas do
Município (TCM), o que Maricato descreve como
“perseguição política”. Acusava-se a Prefeitura de
promover o loteamento ilegal com base nas regras
impostas pela lei federal 6.766/79, devido ao início
das obras sem a devida emissão de alvarás – apesar
dessa ser uma prática corrente durante as gestões
anteriores e da lei em questão se referir a
loteamentos privados. Questionavam-se as
parcerias com as ONGs de assessoria jurídica e de
assistência social e, sob a suspeita (depois
confirmada) de má utilização dos recursos em um
dos empreendimentos de construção por mutirão (o
IV Centenário), justificou-se a paralisação de todos
os convênios em andamento (aproximadamente
9.000 unidades habitacionais).” (AMORE, 201 4. P35)

Apesar do governo de Luiza Erundina ser reconhecido como uma fase heroica
para os Mutirões e da relevância desse tipo de ação nas políticas públicas, percebe-
se como a mudança de gestão dificultou a continuação desses projetos. Durante a
administração de Paulo Maluf (1 993-1 996) e Celso Pitta (1 997-2000) a COHAB-SP
assume a continuação das habitações por Mutirão, enquanto o FUNAPS é substituído
pelo Fundo Municipal de Habitação (FMH) (AMORE, 201 4. P36). A mudança de fundos
estabelece diferenças significativas de modos de atuação; enquanto o FUNAPS
incentivava a autogestão através do auxilio financeiro e de fundo perdido, o FMH foca
na construção de Habitações de Interesse Social (HIS) em lotes já urbanizados
através somente de financiamentos. Outra mudança relevante foi o aumento de cinco
até 1 0 salários mínimos da renda permitida para a utilização do programa,
favorecendo a classe média do mesmo modo que o governo militar. (Rossetto, 2003).

Um dos programas de habitação popular que teve mais visibilidade ao longo


dos anos é, sem dúvida, o Cingapura. Isso se deve, inclusive, pelo seu modelo de
urbanização que promovia a remoção das bordas das favelas e a sua substituição por
conjuntos habitacionais. Enquanto a urbanização de fachada funciona como uma
propaganda política, o seu interior revela as desigualdades sociais que resistem.
Ademais o projeto da habitação padronizado representa a falta de preocupação com a
qualidade arquitetônica em prol do lucro das grandes construtoras.

Apesar dessa tensão entre gestões, a luta por moradia não foi sufocada. Com a
inviabilidade de diálogo entre movimentos e o governo foi necessária uma
organização ainda maior dos movimentos que acabaram por criar o Fórum de
Mutirões de São Paulo. A UMM passou a reivindicar junto a COHAB-SP a liberação de
recursos para a continuação das obras, apesar do pouco repasse, essas reuniões
foram fundamentais para a aproximação do movimento e pela manutenção do
programa ao longo das duas gestões. À nível estadual houve também o contato da
UMM com a Companhia de desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) durante o
governo Fleury (1 991 ). A luta da UMM em travar diálogos com gestões contrárias ao
Mutirão resultou também na elaboração do Fundo Nacional de Moradia Popular
(FNMP). (AMORE, 201 4. P.40).

É nesse contexto que surge a Associação Paulo Freire, filiada ao MST- Leste 1
e à UMM, ainda na gestão de Celso Pitta contrária ao sistema de Mutirões e com
parcos repasses ao movimento. Este foi o primeiro movimento a assumir uma obra
com cem apartamentos a serem construídos por autogestão desde o governo de
Luiza Erundina. (USINA CTAH, 201 6. P.1 09). Foram 1 00 famílias de 1 4 grupos de
origem da região da Zona Leste. Apesar dessa vitória, o período entre 1 999 e 2001 foi
marcado pela resistência do governo na liberação do projeto, ocasionando diversas
reivindicações e ocupações a imóveis vazios como forma de manifestação. Roseane
Queiroz, atual moradora do Conjunto Paulo Freire, conta que participou da ocupação
na Vila Prudente e no Banco do Brasil levando suas filhas. “Afinal filho nunca é
problema” diz ela.

Já no final do governo de Celso Pitta as famílias se reuniram para a compra do


material do que seria o barracão para a realização de assembleias e espaço para o
caseiro no terreno. Ainda assim, as famílias faziam vigílias para garantir que nada
fosse roubado ou que fossem despejados. Segundo o texto escrito coletivamente pela
Usina, esse foi um primeiro exercício de autogestão. (USINA CTAH, 201 6. P.1 21 ).

Outra discussão importante entre poder público, movimento e assessoria


técnica foi intenção do governo em realizar no terreno uma obra seguindo o modelo
do Programa Cingapura. O lote que pertencia à Associação localizava-se em meio a
diversos outros deste programa habitacional, a diferença entre os projetos é colocada
então como uma problemática por Luis Henrique (USINA CTAH, 201 6. P.1 1 7),
secretário da habitação da época. Enquanto o projeto do Cingapura tinha 43m², o
projeto proposto pela Usina tinha 56m². Essa diferença poderia causar conflitos entre
os moradores, mas a diferença de tipologias é colocada como algo positivo pelos
arquitetos da assessoria.

Sem avanços durante a gestão de Celso Pitta, é com a ascensão de Marta


Suplicy (2001 -2005) no governo que reascendem as esperanças da continuação do
projeto. Com a demora na aprovação da estrutura metálica e na proposta de
adequação de questões como terraplenagem, o processo de obra acabou sendo
atrasado. Além disso, os principais programas da sua gestão focavam na
regularização urbanística e em obras de melhoria como, por exemplo, o Morar Perto,
Bairro Legal e Construir barato. O que acabou por excluir que novos projetos de
Mutirão fossem aprovados a não ser através de outras formas de financiamento a
níveis estaduais ou nacionais, repassando verba apenas para concluir os
empreendimentos paralisados. (AMORE, 201 4. P.50).

“Segundo a autora, nos quatro anos da


gestão Erundina foram concluídas 27 977 unidades
habitacionais, 5 739 nos oito das gestões Maluf/Pitt
a, número que volta a subir entre 2001 e 2004
atingindo 1 2 075 na gestão Marta, voltando a cair
para 5 297 nas gestões Serra/Kassab, entre 2005 e
2008.” (GODOY, 2008).

Ainda na gestão de Marta Suplicy é criado o Instituto Cidadania, onde se


propõe o Projeto Moradia em busca de uma política integrada de habitação. Segundo
Evaniza Rodrigues (201 3, P.51 ) este foi um espaço que serviu como base para a
criação do Ministério da Cidade, criado em 2003, durante o governo do presidente
Luís Inácio Lula da Silva (2002-201 0).

Devido às crises internacionais, a desvalorização do real, e as deficiências


administrativas do governo (o apagão em 2001 , por exemplo) acabaram por
enfraquecer a popularidade do presidente da época Fernando Henrique Cardoso
(1 994-2002) e seu partido, o PSDB (Partido Social Democrata Brasileiro) levando a
vitória de Luís Inácio Lula da Silva (2002-201 0) do PT em 2002. Com essa mudança na
gestão em âmbito federal ocorreram também mudanças significativas em relação a
políticas de habitação a nível nacional. Evaniza Rodrigues que participou ativamente
na elaboração do Ministério das Cidades através do Fórum de Reforma Urbana conta
que “Na verdade a intenção não era nem criar algo novo, era pegar o acúmulo de luta
dos movimentos e de todo mundo que trabalhou com isso nos últimos anos e levar
como proposta da constituição do Ministério.” (RODRIGUES, 201 7).

Além do Ministério da Cidade foi criado também uma Política Nacional de


Habitação que propunha medidas de melhoria urbana em assentamentos precários, e
a regulamentação do mercado imobiliário para classe média como forma de liberar
os recursos para a construção de habitação popular (RODRIGUES, 201 3. P.51 ). Apesar
disso, em sua primeira gestão não houve a elaboração de nenhum novo programa de
habitação de interesse social. É somente em 2008, em meio a uma nova crise e com a
preocupação com o desemprego que surge um plano para incentivar a construção
civil através do Programa Minha Casa, Minha Vida (RODRIGUES, 201 3. P.54).

É possível dividir o programa em duas fases: a primeira, durante o governo


Lula, de 2009 a 201 0 e a segunda a partir da gestão da presidente Dilma Roussef
(201 0-201 6). Para a elaboração do programa na sua primeira fase foi estabelecido o
diálogo entre grandes empresas e Dilma Roussef que na época era ministra chefe do
Casa Civil. Apesar da apresentação de propostas de movimentos sociais e de outros
segmentos da esfera política municipal e estadual, o programa já estava definido.
Conforme Evaniza o programa é lançado com a bandeira da construção de um milhão
de moradias com o financiamento de 34 milhões de reais, valor inédito até então
(RODRIGUES, 201 3. P.55). Mesmo que o programa represente um marco nas políticas
públicas habitacionais brasileiras, ainda assim ele é baseado na aliança entre
mercado imobiliário privado e financiamento público.

Somente em 201 1 , na segunda etapa do programa, que ele passa a dividir-se


em três modelos de financiamento, entrando pela primeira vez a questão do
Programa Minha Casa, Minha Vida- Entidades e do Minha Casa, Minha Vida- Rural. É
nesse momento que Evaniza Rodrigues é convidada por Jorge Hereda, presidente da
Caixa Federal na época, para ser consultora da presidência na implementação do
MCMV.

“Quando o Hereda me ligou eu fiquei


surpresa e perguntei: “Você ligou pro número
certo? Porque eu sou aquela pessoa que dá pau 24h
por dia na Caixa”. Ele disse: “É isso mesmo que
estou precisando, dessa pessoa que consiga levar
pra Caixa as questões dos movimentos e que
consiga assim, trabalhar com eles.” A caixa é
aquela Instituição vertical e hierarquizada, né?
Então é o seguinte: você vai ser a pessoa que o
presidente mandou fazer isso e como aquela
hierarquia vale, você vai ter aval da presidência pra
ir rompendo tanto as questões de formatação dos
programas, quanto das questões da ponta, né?
Como a proposta da União (UMM) sempre foi um
movimento que incide em política públicas, então
era exatamente o que precisávamos fazer: pegar o
que a gente acumulou de discussão e elaboração de
luta e ir lá batalhar por ela dentro da lógica do
Estado.” (RODRIGUES, 201 7).

O Programa Minha Casa, Minha Vida divide-se em três faixas de renda: 1 - até 3
salários mínimos 2- de 3 a 6 salários mínimos e 3- de 6 a 1 0 salários mínimos.
Durante a primeira etapa do programa tinha-se como meta a construção de 400 mil
unidades para a faixa de salários 1 e 2 e apenas 200 mil unidades para a faixa 3. Já na
administração de Dilma Roussef, o setor de faixa 1 subiu para 1 600 unidades,
enquanto o faixa 2 subiu para 600 mil e o faixa três continuou com 200 mil unidades
(Ministério das Cidades, 201 1 ). Isso significou um importante passo para a categoria
do PMCMV- Entidade já que esta se caracteriza como a primeira faixa de renda. O
programa estabelecia também o pagamento de 1 0% do valor da renda familiar,
porcentagem que caiu para 5% em 201 2 (Decreto 7.795, de 24 de agosto de 201 2)
aumentando ainda mais o seu subsidio.

Essas mudanças só foram realizadas devido à luta dos movimentos populares


que apresentavam propostas de inclusão e reivindicavam a construção de 1 milhão de
moradias por autogestão (RODRIGUES, 201 3. P.72). É possível notar ao longo do
tempo as transformações e avanços conquistados pelos movimentos na esfera
política. Mesmo em gestões contrárias à autogestão, os movimentos buscam sempre
estabelecer diálogos, nunca sem embates é claro, mas conquistando aos poucos
melhorias na esfera da habitação popular e sua inserção no sistema político.

“Na realidade histórica, os movimentos


sempre existiram, e cremos que sempre existirão.
Isso porque representam forças sociais
organizadas, aglutinam as pessoas não como força-
tarefa de ordem numérica, mas como campo de
atividades e experimentação social, e essas
atividades são fontes geradoras de criatividade e
inovações socioculturais. A experiência da qual são
portadores não advém de forças congeladas do
passado – embora este tenha importância crucial ao
criar uma memória que, quando resgatada, dá
sentido às lutas do presente. A experiência recria-
se cotidianamente, na adversidade das situações
que enfrentam. Concordamos com antigas análises
de Touraine, em que afirmava que os movimentos
são o coração, o pulsar da sociedade. Eles
expressam energias de resistência ao velho que
oprime ou de construção do novo que liberte.
Energias sociais antes dispersas são canalizadas e
potencializadas por meio de suas práticas em
“fazeres propositivos”” (GOHN, 201 1 . P.336).

Os movimentos sociais estabelecem diagnósticos da realidade da população e


buscam através da ação conjunta estabelecer propostas para que seus direitos sejam
validados. Na sua forma de ação concreta utilizam estratégias como a denúncia,
mobilizações, marchas, passeatas, variadas formas de ocupação e negociações.
Ademais a sua ideologia acaba por influenciar a sua organização e as relações
criadas dentro do movimento. A luta pela inclusão social e as problemáticas
semelhantes acabam levando aos seus participantes a um sentido de pertencimento
social extremamente importante. Na questão habitacional, por exemplo,

“O Projeto Habitacional significava então,


para muitas famílias, uma oportunidade única de
conquistarem a casa própria. Através da casa, seria
alterado o status do indivíduo favelado para
morador do bairro, ele passaria a ser reconhecido
efetivamente como parte integrante da cidade e,
dessa forma, seria legitimado seu direito de acesso
aos serviços públicos. O próprio processo de
construção física das casas contribuiu para
transformações na vida dos indivíduos, alterando o
significado da moradia para esse grupo e o
relacionamento entre os futuros moradores.” (ASP,
201 4).
Para entender melhor como a atuação dos movimentos por moradia funciona é
preciso analisar a sua constituição. Como já dito anteriormente, os movimentos
sociais foram fortemente influenciadas pelas CEBs. Como o seu intuito sempre foi o
de esclarecer a população através da educação e assim dar instrumentos para que
reivindiquem seus direitos, torna-se crucial falar sobre esse processo de
conscientização. Segundo Maria da Glória Gohn “A relação movimento social e
educação existe a partir das ações práticas de movimentos e grupos sociais. Ocorre
de duas formas: na interação dos movimentos em contato com instituições
educacionais, e no interior do próprio movimento social, dado o caráter educativo de
suas ações.” (GOHN, 201 1 . P.334).

Gohn diferencia também três tipos diferentes de saberes: o saber formal,


aquele que se aprende nas escolas, o não formal realizada através de atividades que
visam uma formação e a informal que ocorre através da socialização de indivíduos
em grupos com interesses comuns. Nos movimentos sociais os três tipos de
educação acabam sendo importantes em diferentes momentos. No Mutirão por
Autogestão a educação informal começa logo nas reuniões dos grupos e base. As
conversas informais entre os participantes, não se restringem somente em torno do
interesse que têm em comum- a moradia- eles podem possibilitar também
transformações nos indivíduos a partir do momento que se reúnem e compartilham
diferentes experiências de vida. Durante a entrevista com Roseane Queiroz, mutirante
do Conjunto Paulo Freire fica claro como isso pode interferir também na vida das
mulheres participantes.

“Uma das coisas boas aqui do movimento é


esse grupo de mulheres, você tá vendo aqui como a
gente se reúne né? (a comissão composta somente
de mulheres entra para tomar café na mesma sala
que conversávamos). Eu comecei a participar com
as mulheres. Eu comecei a ver mães solteiras
trabalhando fora e tomando conta dos filhos e eu
falei: “Por que eu não posso”?” (QUEIROZ, 201 7).
Outro fator interessante é como a horizontalidade permeia as relações entre
as mulheres no Mutirão, não existe espaço para a individualidade ou a busca por um
protagonismo, o apoio entre elas é visível e o favorecimento do coletivo prevalece.

Além disso, a participação em manifestações e passeatas transformam esses


locais também em espaços educativos. A participação direta seja através do
confronto ou do diálogo com o Estado trazem conhecimentos novos. Isso fica notável
na fala das entrevistadas mais novas que colocam as passeatas como o melhor
momento de participação no movimento. Para Maiara Francisco e Cristiane Dantas, a
participação em ações políticas diretas como em manifestações e ocupações são
colocadas com método de garantir seus direitos:

“Eu adoro as atividades, principalmente as


passeatas, é a melhor atividade que tem. Você
chega lá e faz um barulho e o povo tem que te
atender ou então você fica lá. Participei até da
ocupação da Caixa.” (FRANCISCO, 201 7).

“Fui pra Brasília, no dia 24 de maio que teve o


ato. Tinha muita gente, foi uma coisa assim
inexplicável pra mim, foi lindo. A gente fazer parte
da história do nosso país, reivindicando. É
importante porque a gente tem o entendimento: a
gente é pobre, muita gente que vivia na miséria e foi
pra pobreza. Porque hoje o pobre é um pobre que
tem mais condições; tem televisão, tem som, tem
carro, tem isso, tem aquilo, né? Mas continua
pobre. Tem mais condições, mas tem que saber da
onde veio essas condições, quem lutou pra tudo
isso? Ter essa concepção, hoje eu tenho. Essa
concepção politica que eu não tinha. Essa
concepção veio do movimento. (DANTAS, 201 7).
Para Cristiane, a participação direta traz ainda novas elucidações e pode ser
importante para transformação e o protagonismo das mulheres na política:

“Tem uma companheira nossa, Carol,


quando entrou no movimento era submissa, sabe?
Era “amém” pra tudo que o marido falasse. Quando
ela entrou no movimento, ela falou pra ele que
fosse embora, depois disso ele passou a respeitar
ela muito mais. Hoje em dia, ele vem com ela pra
luta. Você vê no ato ela gritando e ele indo pegar
água pra ela. Você vai vendo a transformação das
famílias.” (DANTAS, 201 7)

Enquanto isso o saber não formal é realizado nas atividades e assembleias dos
grupos de origem e do Mutirão. A partir do momento em que os movimentos por
moradia adotam a autogestão como método de organização e construção torna-se
fundamental a discussão com as famílias para o entendimento do processo. A
autogestão é uma prática que se utiliza da participação de seus agentes, sem
hierarquia, nas tomadas de decisões. Conforme descrito no texto da Usina: “O que se
busca é a emancipação política e assim, a constituição do sujeito como agente de
transformação social.” (USINA CTAH, 201 6. P. 1 55).

Para isso é crucial o diálogo entre as famílias, o movimento e as assessorias


técnicas como uma forma de compartilhamento de conhecimentos distintos.
Enquanto o movimento traz discussões pertinentes à esfera política, no momento do
mutirão predominam os saberes técnicos. Nas assembleias apesar do foco ser a
moradia, a política é trazida não só como forma de aquisição de direitos, mas
também com notícias da atualidade, servindo como um meio de divulgação de
informações. Mesmo objetivando sempre o esclarecimento a todas as famílias
participantes, é inegável que a mais notória participação se da através das pessoas
mais envolvidas nos processos, ficando claro na fala de Maiara Francisco:

“Há uns quatro meses eu comecei a me


envolver mais, tô participando das reuniões de
comissão, tô indo mais nos atos. Eu comecei a ir, fui
me interessando. Se você vem aqui só pra
Assembleia, você tem uma visão diferente. Se você
tá na reunião da Comissão, você tem outra. Você
sabe como as coisas se movem. Se você vem só na
Assembleia uma vez por mês, você acha que tudo
demora uma vida pra acontecer. E na reunião da
Comissão, você vê que as coisas demoram
realmente, mas tem uma movimentação mesmo
que mínima. Tem várias coisas pra fazer e por isso
comecei a me interessar.” (FRANCISCO, 201 7).

No discurso de todas as entrevistadas surgem a questão da participação como


estímulo para transformações políticas e sociais. Cristiane Dantas e Roseane Queiroz
colocam como as discussões trazidas pelo movimento geram novos conhecimentos e
o entendimento do processo, sendo fatores determinantes para o incentivo a luta.
Além disso, o movimento oferece diferentes cursos de formação e atividades “extras”
para as famílias com o intuito de fornecer instrumentos de transformação social.

“Temos cursos de formação. A gente sabe


que a gente acaba mexendo na concepção de
algumas pessoas, mas tem outras que não adianta
a gente achar que vai conseguir puxar ela e fazer
ela se politizar. Não vai, mas a gente mexe sim com
a alguma coisa. Nas atividades todo mundo é
convidado a participar. Algumas pessoas vão porque
tem pontuação e outras porque querem mesmo.
Algumas pessoas podem até não participar muito,
mas entendem o processo, já outras vão chegar no
fim da obra e não vai ter entendido. Tem uma
diversidade muito grande de famílias, mas assim, a
semente foi plantada.” (DANTAS, 201 7)
“Aqui não é só a reunião, tem muito curso de
formação, curso de liderança, a gente participou de
todas as reuniões do plano diretor. A gente vai
construindo. Gente que tá há 20 anos no movimento
indica livro e vídeos pra gente. A gente essas
informações e vai soltando e multiplicando também.
É assim que a gente vai trazendo gente pro
movimento.” (DANTAS, 201 7).

Já em relação ao próprio Mutirão, a formação das famílias adquire


outras características relacionadas ao momento de elaboração do projeto e também
de obra. Desde o inicio isso se dá pelas atividades do processo participativo de projeto
realizado em três fases: o reconhecimento dos grupos e de suas possibilidades, o
projeto de arquitetura e o projeto urbano. (USINA CTAH, 201 6. P.1 59). Durante o
Mutirão do Parque São Rafael que representa a segunda geração de mulheres desta
pesquisa foi realizada a atividade “Pensando o Espaço da Moradia a Partir das
Relações de Gênero e Idades”. O conjunto que compõe o Mutirão Parque São Rafael
divide-se em três: Mutirão Martin Luther King, com 21 4 unidades habitacionais, o
Dorothy Stang com 286 e o Jerônimo Alves com 200 unidades habitacionais.
Segundo Marina Medeiros, arquiteta da USINA, em um projeto comum a
equipe se reúne e articula em conjunto uma atividade sobre determinado tema. Para
testa-la aplicam durante a reunião com os coordenadores das comissões e assim
podem aperfeiçoa-la para depois apresentarem às famílias. Por ser um projeto de
grande porte havia certa preocupação por parte da assessoria em relação ao diálogo
efetivo com todos os participantes. Por isso foi necessária a divisão das famílias em
grupos menores e a participação da própria comissão na coordenação das atividades.
Essa adaptação na maneira como o processo era feito fez com que a elaboração
coletiva de consensos entre um grupo tão grande e diverso fosse algo possível e
rápido.
Em um primeiro momento foi incentivado que as famílias compartilhassem
histórias de vida como forma de aproximar as pessoas e identificar similaridades e
diferenças entre elas, além de estimular debates como a Reforma Urbana (USINA
CTAH, 201 6. P.1 59). Já em um segundo momento são distribuídos cartões com
imagens que fomentem o repertório da habitação e tragam o questionamento das
relações sociais e de gênero estabelecidos pelas pessoas em relação aos espaços.

“Neste ponto do trabalho, os maiores


desafios são como problematizar as relações
sociais e familiares que o espaço da moradia
reproduz, de forma a trabalhar com o grupo a ideia
de que a unidade habitacional a ser projetada
questione as relações de gênero hierárquicas ou
verticais, que lutamos contra” (USINA CTAH, 201 6.
P. 1 60).

Neste ponto dividem-se as famílias em quatro grupos: homens adultos,


mulheres adultas, crianças e idosos e passam a discutir as funções e necessidades
da moradia por cada grupo. É assim que conseguem despertar diferentes
experiências de habitação como características de morar rurais e da periferia. Após
isso são estimulados a falar do que esperam dos espaços de morar não apenas das
funções de cada lugar, mas também as relações sociais e afetivas neles
estabelecidos. Ao reunir os grupos novamente são colocados como cada espaço é
visto pelos diferentes grupos, resultando em diferentes perspectivas. Percebendo
essas diferenças surge também a questão do consenso coletivo que precisa ser
criado para atender todas as demandas propostas.
Após esse momento de estimulo criativo, partem para a escala da unidade. A
partir da conformação dos espaços pelo mobiliário, consegue-se não somente criar
opções diferentes de tipologias, mas também introduzir elementos de linguagem
arquitetônica. (USINA CTAH, 201 6. P. 1 61 ). Enquanto isso a aproximação ao projeto
urbano se da pelas primeiras visitas ao terreno, através do reconhecimento da
topografia, cobertura vegetal, relações entre o terreno e o bairro.
“ Usamos aqui perguntas geradoras, no
sentido de questionar as relações sociais dadas
como fatos incontestáveis. Quais são os usos
coletivos esta comunidade deseja ou tem mais
necessidade? Qual é o papel e a importância do
lazer? Faz sentido o trabalho estar incorporado a
moradia? Como? E os equipamentos culturais e
institucionais? Onde a comunidade irá se reunir
futuramente? Qual é a importância disso? Qual é o
espaço do carro? E qual é a porporção entre usos
todos? Se usamos todo o espaço coletivo para os
carros, onde ficarão as crianças, o lazer, o trabalho?
Etc.?” (USINA CTAH, 201 6. P. 1 65)
Dessa maneira os arquitetos conseguem trazer discussões importantes em
relação a políticas de urbanização e romper com o formato de produção habitacional
que ignora as relações externas, ocasionando em locais desfragmentados e
conjuntos deslocados em relação ao seu entorno. Ao estabelecer o diálogo com as
famílias e buscar entender seus interesses e anseios ajudando ao dar instrumentos e
referencias para que formulem opções próprias do local que querem morar,
transformam-se relações entre os arquitetos, o projeto e as famílias.
REFERÊNCIAS

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ANEXOS
ENTREVISTAS

EVANIZA RODRIGUES
Eu sou Evaniza, sou aqui da zona leste mesmo. Minha família é ali da Vila Ema,
veio do interior de São Paulo e migrou pra cá já há bastante tempo. Desde criança fui
militante da igreja católica nas comunidades, justamente no momento em que a
igreja da região leste tava começando um processo de luta e de transformações.
Teologia da libertação, sabe? Eu digo que eu sou muito fruto desse momento do início
da década de 80. Minha família participava da igreja de forma mais tradicional, mais
convencional: ir à missa, ir à catequese, essas coisas. Eu já tive um contato diferente
com a igreja, um contato com uma visão mais de esquerda. Aí, com 1 5 anos, eu
comecei a participar da pastoral da juventude. Quando chegou mais no final da
década de 80 a discussão era essa, de que dentro dessa atuação você deveria ter
ações mais concretas e não só dentro da igreja.
Dentro da região leste tava começando o movimento por moradia, já existia o
MDF(Movimento de Defesa dos Favelados) e a Leste 1 tava sendo criada. Em 1 988
teve a sua primeira ocupação. Ainda em 88 teve sua segunda ocupação e eu comecei
a participar apoiando através da pastoral. A gente ia brincar com as crianças, ajudar
no que precisava e ver o que tava rolando. No final desse ano eu acabei pedindo pra
uma companheira que já era coordenadora de um grupo se eu poderia participar
também. Paralelo a isso, a gente já tinha uma atuação do PT dentro da igreja,
atuávamos primeiro no Diretório Nacional da Vila Prudente e depois fomos para
Sapopemba. Nós fazíamos as campanhas eleitorais, participávamos do processo
constituinte. Toda essa pauta da década de 80 mesmo.

Por isso eu resolvi fazer serviço social, como eu era da pastoral eu tive o apoio
da Arquidiocese e consegui uma bolsa parcial pra poder estudar na PUC. Já no início
da década de 90, quando eu já tinha terminado o curso, fui convidada a atuar de
forma remunerada na pastoral. Até então eu já tinha trabalhado com tudo, né?
Secretária, babá, auxiliar administrativa, tudo. Mas, na época, eu já trabalhava como
assistente social havia dois anos. De1 988 à 1 992, eu participei trabalhando na base
com os grupos de origem e com algumas outras atividades. A partir de 1 992 que eu
fui pra coordenação. Aí sim eu passei a ter uma dedicação mais exclusiva junto ao
movimento de moradia. Comecei a participar da UNMP e do Fórum de Reforma
Urbana. Aí depois, de 1 993 até 1 997, coordenei a Leste 1 e em 2003, no governo Lula,
tive uma participação ativa no Fórum de Reforma Urbana trabalhando na constituição
do Ministério das Cidades. Na verdade a intenção não era nem criar algo novo, era
pegar o acúmulo de luta dos movimentos e de todo mundo que trabalhou com isso
nos últimos anos e levar como proposta da constituição do ministério. Após a sua
fundação, a Raquel Rolnik me chama pra trabalhar nele. Então, nós ficamos no
ministério até 2006 trabalhando com a questão das conferências, com a organização
do Conselho das Cidades e também do Programa Crédito Solidário. Em 201 1 , na
gestão Dilma, o Jorge Hereda que havia sido secretário da habitação vira presidente
da Caixa e me convida pra ser consultora da presidência na implementação do
Programa Minha Casa, Minha Vida- Entidades e do Minha Casa , Minha Vida-Rural.
Quando o Hereda me ligou, eu fiquei surpresa e perguntei: “Você ligou no número
certo? Porque eu sou aquela pessoa que dá pau 24h por dia na Caixa”. Ele respondeu:
“É isso mesmo que estou precisando, dessa pessoa que consiga levar pra Caixa as
questões dos movimentos sociais e que consiga assim, trabalhar com eles.” A caixa é
aquela Instituição vertical e hierarquizada,né? Então é o seguinte: você vai ser a
pessoa que o presidente mandou fazer isso. Então como aquela hierarquia vale, você
vai ter aval da presidência pra ir rompendo tanto as questões de formatação dos
programas, quanto das questões da ponta, né? Como a proposta da união(UNMP)
sempre foi um movimento que incide em política públicas, então era exatamente o
que precisávamos fazer: pegar o que a gente acumulou de discussão e elaboração de
luta e ir lá batalhar por ela dentro da lógica do Estado.

No começo do movimento eu sentia que o machismo dos homens era muito


maior. Ao longo do tempo vejo uma mudança muito grande da forma que as
mulheres hoje se apropriam e exercem a liderança dos processos no movimento.
Embora desde o começo tivessem mulheres muito fortes no movimento, além de
algumas religiosas muito atuantes. De modo geral você via um protagonismo muito
maior dos homens nas tomadas de decisão e na condução dos processos. Eu vejo que
hoje, houve um deslocamento. A Leste 1 é um pouco atípica se você for compará-la
com outros movimentos, a grande maioria das coordenadoras e das lideranças dos
processos são mulheres, mas assim, a maioria esmagadora. Eu acho que isso tem a
ver com a forma que a Leste tem de se organizar porque os espaços externos ao
movimento são mais hostis às mulheres. Nosso movimento é muito caseiro, né? Ele
atua localmente. Os movimentos que são mais permeados por atuação de partido e
de sindicato- e não que nós não sejamos- mas que são mais. Acabam trazendo as
lógicas externas mais fortemente. A gente vai enxergando que as lógicas partidárias e
as disputas eleitorais são geralmente protagonizadas por homens, o que impõe uma
lógica de disputa e atuação muito mais pesada. Eu senti muito isso no começo da
minha militância por ser mulher e ser jovem. Por ser muito jovem havia certa
desconfiança sobre a minha seriedade como liderança. Eu nunca tive esse negócio de
me preocupar com a roupa e nem em ser bonequinha. Não tava preocupada se tava
sentada de perna aberta ou fechada. Usava meu cabelo todo bagunçado e minissaia.
O fato de não ser recatada e discreta, de não falar baixo e não ficar de boca fechada.
De certo modo assustava algumas pessoas, enquanto outras não me levavam a serio.
Teve até uma liderança de outro movimento que insistia que eu era secretária dele.
Então era “Anota aí!”, assim, no meio da reunião. E no começo, você não tem
segurança. Você acaba achando que se você “anotar aí”, você vai estar ajudando no
processo. Até que eu entendi que não, que o “anota aí” dele era o de alguém que
mandava em quem obedecia, era para estabelecer uma hierarquia. Eu custei a
ganhar essa confiança pra poder me colocar mais nos processos. Demorou certo
tempo, né?

Eu não tenho filhos, por exemplo, então todo mundo me pergunta o porquê.
Primeiro vem o olhar de pena: “Você não pode ter filhos?”. “Não, eu posso”. A partir
daí há duas respostas frequentes. Algumas com raiva como se dissessem: “Você está
violando uma lei da natureza porque você resolveu não ter filhos”. Ou então ao
contrário: “Você pode fazer a liderança no movimento, você pode disponibilizar mais
tempo e energia; porque você não tem família, né?” Não é nem filho, é família. Ou
seja, o fato de eu não ter filho ou “família” me coloca a parte das demais mulheres.
Já fazem1 5 anos que estou com meu companheiro, mas até nos não termos uma
relação mais estável. O olhar pra aquela moça meio galinha, também implicava a não
seriedade. Afinal não tinha namorado fixo, saia com um, saia com outro. Isso é um
questionamento que transcende da sexualidade para a identidade da pessoa. E como
as pessoas a enxergam e a tratam.

Eu acho que as coisas mudaram hoje em dia. As meninas mais novas que
chegam no movimento são vistas de outra maneira do que 30 anos atrás. E eu acho
que isso é natural. Embora não tenha acabado totalmente. Porque é isso, né? As
mulheres com filhos pequenos, a primeira cobrança é cuidar dos filhos. Então se
você deu conta de cuidar dos filhos, então você pode fazer sua militância. É aquela
coisa você não vai “largar” seus filhos pra ir à reunião, né? Por mais que um monte
de mulheres tragam seus filhos, poucos homens se dispõem a fazê-lo. A gente brinca
que mulher entra no movimento e sai tudo separada, né? E de fato, diversas
mulheres acabaram reconhecendo o quão abusivas eram suas relações familiares. A
partir do momento em que estão em um ambiente de discussões e novas
informações, quando vão pra casa a situação não combina mais. Eventualmente,
algumas delas resolvem que essa situação não faz mais sentido e não dá mais para
perdurar. Algumas de formas mais tranquilas, outras de formas mais conflituosas.
As pessoas vão se sentindo mais a vontade, com confiança. “Eu tenho sim condições
de assumir essas coisas e não preciso mais aceitar esse abuso no meu cotidiano”. Eu
acredito que isso acaba saindo do espaço só do mutirão para os espaços da vida e
outras ocasiões. O que eu já ouvi algumas companheiras falando, é sobre uma
espécie de pena. De que os companheiros, que elas tem uma relação afetiva,
duradoura e tudo. Não conseguem acompanha-las mais. Algumas até conseguem
trazer o marido. Mas muitas começam a ter atuação fora do movimento como, por
exemplo, um debate na Câmera Municipal sobre privatização. Pô, ela volta e não tem
com quem conversar. Muitas falam sobre isso, sobre a perda da identidade.

“Meu marido não me deixa ir” é uma frase que eu escuto até hoje. Quando tem
acampamento, por exemplo, algumas mulheres não colocam a possibilidade de
dormir fora de casa. Seria a terceira Guerra Mundial. Ou então aquela coisa: “Eu
posso ir na passeata, mas tenho que buscar meu filho as 1 6h” Ou seja, não existe a
hipótese de outra pessoa no mundo poder pegar o filho na escola. É tarefa dela e ela
tem que cumprir essa tarefa. Ela pode fazer outras coisas desde que ela cumpra as
tarefas dadas e de obrigação dela. Afinal, essas são consideradas atribuições da mãe.
Eu vivo questionando e brincando quando tem um caso assim. Quando alguém vem e
diz que não pode fazer algo porque tem que levar o filho no médico, eu pergunto se o
pai não pode fazer isso. A gente ainda consegue interferir um pouco, mas não
conseguimos interferir tanto em questões externas. A gente ainda vê algumas
situações, tipo “Meu marido veio e me viu conversando com outro homem”. Aí vai ver
quem era o outro homem e era o coordenador. Tem algumas mulheres que nem
apresentam como queixa, nem colocam como um problema, elas já dão como fato
essas restrições nas suas vidas. Talvez esse silencioso seja mais difícil de enfrentar
do que quando é explicito. Aquele que chega e fala meu marido não deixou, a gente
manda tomar no cu, manda ele dar uma casa então. A gente até fala de um jeito forte,
porque a gente acha que hoje em dia isso é um absurdo.

Tem um caso que eu adoro lá no São Francisco, um dos primeiros mutirões


nossos. Tinha uma mulher. Ela não era coordenadora, nada disso, só participava e
trabalhava. Era uma pessoa assertiva, forte; não era quieta ou amuada. Só que
alguns momentos, percebíamos que ela tinha sofrido violência em casa. Nessa época
não tinha nem trabalho social, então a gente tentou ver com alguém que fosse mais
próximo dela pra tentar conversar e tal, só que ela não aceitava. Não conversava
sobre isso com ninguém, mas era nítido que de vez em quando algo acontecia. Às
vezes ela ficava sem aparecer, então sabíamos que havia uma situação ali, mas não
tinha nada que a gente pudesse fazer. Durante a obra inteira ela não falou nada, não
abriu a boca. Aí acabou o mutirão e foram fazer as entregas lá. Na hora de pegar a
chave e ela perguntou pra coordenação: “Escuta, a festa vai ser sábado. Domingo eu
posso mudar?”. A maioria das pessoas ainda ia dar uma arrumada no piso, colocar
cortina e tal. Mas pode né? A casa era dela. Aí ela chegou com a mudança e os filhos,
passou uns dois dias e chega o marido lá, emputecido. Acho que foi umas 6h da
manhã e começou a bater na porta e a xingar no meio da rua. Ainda morava pouca
gente no mutirão, aí o pessoal foi ver o que tava acontecendo. Juntou todo mundo na
rua. E ela não abria a porta, não saiu pra rua. Aí uma das vizinhas foi lá falar com ela
e ela falou: “Pode mandar embora, você viu ele carregando um tijolo por aqui?”. Aí os
homens foram lá e colocaram ele pra fora. Aí foi aquela choradeira né? a mulherada
toda foi acudir ela. Ela disse “Enquanto eu não tinha um teto pra colocar meus filhos
embaixo, eu nunca levantei a voz pra ele. Eu entrei no movimento esperando esse dia.
O dia que eu pudesse não depender mais dele e ter um lugar pra colocar meus filhos.
Agora ele não encosta mais a mão em mim”. Essa questão da dependência financeira
e da dependência da casa é muito forte. Ele era o único que trabalhava na casa, eles
moravam de aluguel. Ela iria pra onde? Essa história deixa muito claro o porquê tem
tanta mulher no movimento. É você não depender mais de alguém pra pagar seu
aluguel.

Minha mãe trabalhou desde sempre. Ela começou trabalhando com 1 2 anos e
continua até hoje com 85 anos. Meu pai nunca aceitou isso. Aí meus pais se
separaram e eu nunca tinha entendido o porquê. Meu pai sempre admirou muito
minha mãe, achava ela uma mulher maravilhosa. Ele até teve outros casamentos
depois , mas foi só no último que eu entendi. Ele estava numa situação financeira
muito delicada e mesmo assim ele achava uma derrota a mulher dele ir trabalhar.
Quantos anos depois eu fui entender que lá atrás, minha mãe que era uma mulher
maravilhosa tinha um defeito que era não depender dele. Minha mãe era assim:
“Você tá ganhando bem? Ótimo, então nós ganhamos mais e podemos fazer mais
coisas. Se você tá ganhando mal, ainda temos alguma coisa”. Então era isso, para ele
era uma derrota como homem provedor e com a imagem que ele tinha do que era ser
homem. Então eu acredito que muitos homens, tenham esse orgulho ferido de estar
perdendo o cargo de chefe de família. E, é claro, que em uma sociedade como a
nossa o dinheiro determina as coisas. Uma coisa é “Me dá dinheiro porque eu quero
fazer tal coisa”, outra é “eu tenho o meu dinheiro, eu farei tal coisa.”.
ROSEANE QUEIROZ

Eu sou Pernambucana e vim aqui pra São Paulo quando eu tinha 1 7 anos por
causa dos meus irmãos. Sou a penúltima filha de uma família de nove irmãos. Os
mais velhos já moravam aqui e durante um final de ano, um deles foi passar o Natal
em casa e me trouxe a passeio. Gostei tanto que acabei ficando. Fui para escola, aí
quando fiz 1 8 anos arrumei meu primeiro emprego num escritório farmacêutico. O
escritório acabou mudando para campinas e eu quis ficar, por isso fui trabalhar numa
loja lá na rua direita, fiquei lá durante um ano. Aí foi quando aconteceu a maior
besteira da minha vida. Eu comecei a namorar, noivei, sai do emprego e fui me casar.
Meu marido dizia “Mulher minha não trabalha”. E eu, né? Com 1 8 anos, novinha,
achando que deveria fazer tudo por amor, acabei largando o emprego. Nos casamos e
tivemos duas filhas que hoje estão com 26 e 27 anos. Meu casamento durou quase 25
anos. Quando eu tava com 1 0 anos de casada, eu conheci o movimento. Eu e minhas
filhas estávamos em uma missa na igreja Nossa Senhora da Boa Esperança e um
rapaz representante de um grupo de base se apresentou e convidou quem quisesse
participar da luta por moradia a ir ao grupo de discussão. Eu pensei: “Não tenho nada
a perder, não é?”. Aí eu fui lá e conheci o grupo, eles nos explicaram como era a luta
e eu comecei a participar. As discussões traziam um conhecimento que era novo
para mim e esse conhecimento te dá ferramentas muito importantes para lutar. Aí
você, uma pessoa leiga, que só vê as coisas na televisão e na mídia, começa a se ver
dentro daquilo, dentro da política. Meu marido, logo que eu entrei, falou que aquilo
era uma roubalheira, que só servia pra enganar as pessoas, aí eu disse “Bom, quem
vai nas reuniões sou eu”. E aí, todo domingo à tarde eu pegava minhas filhas e ia. Ele
foi começando a perceber minha transformação. Por exemplo, na eleição eu já tinha
o candidato que eu ia votar, eu já tinha pesquisado sobre ele, já sabia tudo. Aí ele me
veio com o candidato que o patrão mandou votar, acredita? E eu “chega de votar em
quem seu patrão tá dizendo, pelo amor de deus”. Ele não gostou não, começou a
querer me podar, disse que ia me denunciar pro juizado de menores porque eu estava
abandonando minhas filhas em casa por causa de um monte de arruaceiro.

Aí foi quando abriram duas vagas pro Conjunto Paulo Freire e eu fui a segunda
colocada. Eu não podia imaginar que eu seria a segunda, tomei um susto quando a
coordenadora falou. Eu realmente participava muito, ia em todas as atividades com
as minhas duas filhas. Fui em ato e até passei a noite em uma ocupação no Banco do
Brasil da Vila Prudente. Afinal filho nunca é problema. Meu marido se incomodava
com isso, mas eu continuava indo. Quando começou o mutirão e era todo sábado e
domingo, ele não demonstrou interesse em participar, ele achava que eu ia sair sem
nada. Como ele não me apoiava eu tive que pedir ajuda à minha família. Além de
pagar a minha condução, meu irmão ficava com as minhas filhas durante o final de
semana para eu poder trabalhar. Assim ele não poderia mais me denunciar. Até
então eu não tinha terminado o ensino médio. Você sabe a Escola da Família que tem
aqui? São universitários que fazem estágio dando aula na escola aos sábados e
domingos. Então eu trabalhava no sábado e no domingo eu passava o dia inteiro na
escola fazendo meu ensino médio.

No processo de Mutirão tem as comissões e na época, ninguém queria


participar, afinal quem quer perder o seu sábado e domingo trabalhando, né? Aí como
ninguém queria, eu aceitei. A gente fazia reunião à noite na COHAB, participávamos
de todas as negociações, era muito bom . Quando saiu o valor da construção tinham
que escolher quatro pessoas pra trabalhar fixo na coordenação do Mutirão. Tinha o
trabalho no administrativo, no almoxarifado, um contador e na apontadoria- que é o
que a Cris faz: tomar conta da lista de presença, crachá, horário, essas coisas. Aí na
Assembleia que iam escolher quem trabalharia no que, o coordenador da Usina na
época, o Pedro Arantes falou assim pra mim: “Rose, você tem que se candidatar”. E
disse a mesma coisa pra minha companheira, Cris. A gente nem queria, mas o
pessoal escutou isso e colocou nosso nome lá. Aí pronto, eu ganhei como auxiliar
administrativa, Cris como apontadora e outros dois rapazes como almoxarifado e
comprador. Aí sim eu fui ganhar um salário bom, eu nunca pensei que eu fosse
ganhar aquele salário. Eu, Cris e esses dois rapazes que administramos
praticamente obra inteira. O pessoal da Usina ia ensinando a gente como que era.
Tinha uma senhora também, Dona Isabel, que mora aqui na União da Juta. Ela deu
uma aula pra gente sobre como lidar com os fornecedores, como conversar com os
prestadores de serviço, quais tipos de notas que a gente deveria verificar. Olha, foi
uma aula completa. E o pessoal da Usina tava sempre dando um suporte também. O
Pedro, a Bia ou a Helô sempre nos acompanhavam nas reuniões. Aí foi indo, a gente
foi aprendendo, demorou um ano pra gente ir adquirindo confiança, fomos nos
sentindo mais fortes. Aí começamos a perceber, como se fala...o preconceito, comigo
e com a Cris. O rapaz que era comprador saiu e a Cris entrou no lugar dele. Então
nós duas começamos a trabalhar muito juntas. Por exemplo, pra ver a estrutura
metálica, nós viajamos pra Minas e visitamos umas oito empresas. Sempre que o
Pedro tava junto só se dirigiam a ele, eu e Cris éramos ignoradas. Aí Pedro falava
assim: “As donas do dinheiro são elas, elas que são as representantes da Entidade,
eu sou o arquiteto”. Ele falava desse jeito!

As meninas também, as arquitetas. Nós contratamos um cara pra fazer o


corrimão, aí quando o Pedro ia, ele dava a atenção total pro Pedro. Aí quando as
arquitetas iam ele falava pra gente “Ah! Elas não entendem nada de obra.”. Teve um
dia que ele fez um serviço porco lá e a Helô foi chamar a atenção dele. Ele ficou
discutindo com ela, dizendo que ela não sabia nada. Aí nós dissemos: “Quem não
sabe nada é você. Você não fez como ela queria, fez do seu jeito. O que ela te mandou
fazer é o que tá no projeto e o que você fez não está. Nós te autorizamos? Não?“
Então nós demitimos ele. Esse processo foi bom pra gente começar a reconhecer
esses preconceitos.

Na obra nós tivemos uma assistente social que deixava bem claro que o
trabalho leve não seria exclusivo para mulher. Os trabalhos seriam iguais. Por
exemplo, quando tinhamos que carregar aquelas treliças pesadíssimas, os homens
pegavam em dois ou três e nós pegávamos em quatro, mas nós pegávamos! A
fundação fomos nós que fizemos. Hoje em dia não se faz mais, mas na época nós que
fizemos. Cavamos os mesmos buracos que eles, o mesmo trabalho, o mesmo
horário. Mesmo eles rindo da gente e dizendo “Ih, aí não vai acabar nunca”. Nós até
surpreendemos a assessoria. Eles disseram que esse trabalho demoraria uns três
meses porque era pesado demais. Mas nós conseguimos cavar a fundação em
apenas dois meses. Bem na brincadeira mesmo eu acho, conforme eles ficavam lá
tirando barato que nós não íamos terminar. A gente “oh, chinelava!”. Não houve
diferença de trabalho, a gente até encheu laje.
Aí depois me chamaram pra vir trabalhar aqui como assistente técnica do
Centro de Jovens, de 1 5 a 20 anos, na área de qualificação profissional. Mas pra
trabalhar aqui eu teria que entrar na faculdade, então o pessoal me empurrou pra
fazer. Fiz serviço social, aí fiquei um ano como assistente técnica aqui no Centro para
Crianças e Adolescentes. Porque aqui é uma região bem carente, bem carente
mesmo. O tráfico tá muito presente aqui. Então a gente faz uma luta diária pra pegar
essas crianças, transforma-las em cidadãos. Esse centro aqui é do Mutirão da União
da Juta, ele começou com a creche do próprio Mutirão. Quando terminou a obra, o
espaço que era da creche ficou aí. Então eles foram em busca de convênio e
conseguiram pela Educação. Aí depois foram ver de conseguir pela Assistência, aí
conseguimos esse CCA. É um serviço em que as crianças vêm de manha ou a tarde,
passam o período, almoçam e vão direto pra escola ou para casa. Aí temos o sócio
educativo que ensina respeito, educação, política; temos tudo menos reforço escolar.
Aí tem oficina de teatro, percussão, circo, capoeira e diversas outras atividades. Além
disso, faço também trabalho voluntário aqui no movimento e sou representante da
Leste na UMM. Eu nunca abandonei o movimento, fazem 20 anos que eu participo
dessa luta. Quando terminou o mutirão eu pensei “ahh, agora vou poder descansar”,
mas aí o pessoal te convida pra uma reunião, aí já marca a próxima e você nunca sai.
Não consigo mais ficar parada, eu fico impaciente.

E olha uma coisa eu te falo, agora eu sempre insisto pra que as pessoas nunca
desistam do seu ideal, não deixem que ninguém te ponha pra trás. Ahh, eu esqueci do
melhor. Quando o Paulo Freire ficou pronto pra morar. Mudei eu e minhas duas
filhas. Deixei meu marido. Eu disse: “Você nunca acreditou em mim, agora que tá
pronto, não quero mais”. Quem me deu força foram as minhas filhas, eu chegava em
casa e elas tinham lavado a roupa pra me ajudar, eu ficava muito orgulhosa.
Enquanto isso, ele tomava o café e deixava o copo lá. Ele dizia que ia fazer hora extra
e depois eu fui descobrir que ele era viciado em jogo. Eu chegava muito cansada, mas
mesmo assim eu sempre ouvia o que elas tinham pra falar. Eu acompanhava o que
tava acontecendo na escola, apesar de tudo eu nunca fui uma mãe ausente. Hoje
minha filha mais velha é formada em gestão hospitalar e trabalha na área da saúde, a
outra fez RH e agora tá fazendo direito. Elas dizem que pegaram a minha vontade de
nunca ficar parada e seguir em frente. E ele tá lá, sozinho. Então eu sempre falo pras
pessoas não desistirem. Tinham momentos que eu ficava tão triste, eu pensava “meu
deus, eu estou procurando o melhor pra minha família” e eu só escuto as pessoas me
criticando.

Eu acho que antes era muito mais difícil pra mulher antigamente. Eu fui criada
no conservadorismo, sabe? Quando eu era criança eu tinha que ir na missa de véu no
cabelo. Quando me case, minha avó me disse: “Você tem que ser obediente com seu
marido, quando ele chegar do trabalho você tem que estar esperando ele com a casa
arrumada e a comida pronta”. Eu fazia isso e lógico que meu marido adorava. Quando
eu conheci o movimento, minhas filhas já eram grandes. Eu fiquei dez anos, como se
diz? como a “Amélia”, trancada em casa, só saia pra visitar minha família. Primeiro
eu ficava ouvindo as mulheres na porta da escola, conversando coisas que eu não
entendia. Coisas de mulher. “Meu marido não quer nem saber de nada”, falando com
raiva, sabe? E eu ficava: “Nossa, como ela tá falando assim”. Eu fui criada para
obedecer. Minha mãe morreu no parto, ela teve dez filhos. Meu pai era muito ditador,
ele era de dar ordem. Eu cresci nesse ambiente. Quando eu cheguei aqui e eu ouvia
essas mulheres falando daquele jeito sobre o marido, eu jamais falaria daquele jeito.
E a família do meu marido era a mesma coisa, o irmão do meu marido também tirou
a mulher dele do serviço. O meu marido só não se atrevia a encostar a mão em mim e
nas minhas filhas porque eu tinha nove irmãos. Quando eu comecei a conversar com
ele sobre as coisas que eu tava aprendendo, tudo ele falava “Isso é um povo que não
sabe de nada”. E eu, oh, fechei minha boca. Eu pensava: será que eu to falando algo
de errado?

Uma das coisas boas aqui do movimento é esse grupo de mulheres, você tá
vendo aqui como a gente se reúne, né? (a comissão composta somente de mulheres
entra para tomar café na mesma sala que conversávamos). Eu comecei a participar
com as mulheres. Eu comecei a ver mães solteiras trabalhando fora e tomando conta
dos filhos e eu falei “Por que eu não posso?”. Mas aí eu banquei a esperta, fui
deixando meu marido me pisar e segui em frente. Minha família foi me ajudando e eu
fui deixando ele em casa. Porque minhas filhas adoravam o pai, elas não entendiam.
E eu não queria machucar minhas filhas, aí eu deixava ele lá. Quando a gente tava
com 1 5 anos de casados, eu entendi que eu tava sendo usada como mulher e falei
que não queria mais ele, pra ele ir procurar outra. Ele disse que ia sair de casa e eu
disse ótimo! Ele saiu de manhã e voltou à noite. Eu disse “Aqui comigo não dá mais
não. Chega! Você não me apoia em nada, você só me critica, diz que eu abandono o
lar. O que você me deu até hoje? Você me deu uma casa? Você chegou em mim pra
conversar e tentar juntar um dinheiro pra comprar uma casa? O que você tá trazendo
pra dentro de casa? Cadê o seu? Quem tá sustentando aqui? Sou eu que compra
roupa e sapato pra suas filhas. Você tá aqui só de visita? Tá parecendo um
pensionista. Um pensionista não, porque um pensionista paga e você só quer roupa
lavada, comidinha pronta, tudo.” Aí ele nunca mais me falou nada, continuou
morando em casa até o Paulo Freire ficar pronto. Quando meu apartamento ficou
pronto peguei minhas duas filhas e sai de casa com a roupa do corpo e uma mala. Foi
o dia mais feliz da minha vida. Dormimos no chão da NOSSA casa.

Hoje eu sou assistente social, trabalho, ganho bem, sustento minha casa,
ajudo minhas filhas no que precisar. Hoje eu tento criar minhas filhas de um modo
diferente. Eu quero incentivar elas a lutar pelo que querem, quero que busquem o
companheirismo e o respeito num relacionamento. Se não houver isso tem que cair
fora.
ALESSANDRA DOS SANTOS

Eu sou Alessandra, sou aqui de São Paulo mesmo, nascida e criada. Estou no
movimento há quase 20 anos. Entrei no movimento através do meu pai, ele era um
dos coordenadores da executiva da Leste 1 . Na época eu era muito novinha e ainda
era solteira. Então eu ia só pra acompanhar ele mesmo, mas de brincadeira, por
curiosidade. Por ser muito jovem eu ainda não entendia como era o processo. Minha
família sempre teve moradia, então eu nunca pleiteei uma casa. Mas isso mudou
quando eu me casei. No começo continuamos morando com a minha mãe. Aí vieram
os filhos e fomos morar de aluguel, muita coisa aconteceu na minha vida. Meu pai
faleceu 1 1 anos atrás e nesse meio tempo existia um grupo onde eu moro, no bairro
do Jardim Rio Claro, que tava desativado. Algumas pessoas começaram a reivindicar
que ele voltasse e assim foi feito, fomos fazendo algumas reuniões. Fizemos contato
com a Leste de novo e colocamos nosso grupo finalmente na ativa. Esse grupo surgiu
com 380 famílias, logo de cara, e durante esses 1 1 anos o grupo tem funcionado. Já
saíram muitas pessoas pro projeto.

Aí eu: casada, com dois filhos e vivendo de aluguel há cinco anos falei com o
meu marido que a gente precisava de uma casa nossa. Mas a gente não tinha
nenhum dinheiro pra poder comprar e com o salário do meu marido não dava pra
conseguir nenhum outro tipo de financiamento. Aí eu me interessei em uma casa
numa vila da COHAB e negociei meu carro e um pagamento a suaves prestações em
troca dela. Mas a casa não é minha, né? Não tenho documentação, nem nada, foi um
contrato de boca. Agora que tá começando um processo de documentação no bairro
pra quem já quitou suas casas e a mulher que me alugou a casa sumiu. Então, seja o
que Deus quiser, né? Eu digo que ela é uma casa emprestada. Até quando não
sabemos. Como a casa da minha mãe estava no meu nome, coloquei meu marido pra
participar aqui movimento.

Ele está hoje aqui, no São Rafael, no Mutirão Jerônimo Alves, que é o nome do
meu pai. Eu sou muito grata ao meu pai, não tenho nem palavras pra agradecer. Uma
vez chegou uma menina e falou que fez um trabalho sobre a história dele. Essas
coisas me motivam a trabalhar, sabe? Meu pai me apoiava muito, mas eu só levava na
brincadeira. Infelizmente, só fui levar a sério depois que ele faleceu. Então eu tive
muito problema de me levarem a sério movimento. Mas fui levando o grupo à frente,
hoje estou na executiva. Faço apoio em vários grupos. Eu falo que hoje a Leste é
como um filho pra mim, é amor mesmo. Por exemplo, hoje minha família tá em casa
toda reunida e eu tô aqui.

Muitas coisas aconteceram na minha vida quando eu comecei a levar o


movimento a sério. Então o movimento não é só por moradia, é um movimento
transformador. Eu não tenho curso universitário, eu tive que priorizar muitas coisas
antes dos estudos. Eu não tinha muitas condições e depois acabei casando e tendo
filhos. Aí meu marido até chegou a fazer faculdade, mas acabou desistindo. Não sei
se é coisa de mulher, ou coisa minha, mas eu gosto muito de ajudar os outros e
esqueço um pouco de mim. Aí nessa eu preferi dar a chance dele ir estudar e se
preparar. Eu queria ajudar, queria que ele se formasse e acabei priorizando a
educação dele. Então apesar de não ter curso universitário, eu me sinto hoje muito
preparada porque o movimento me ensinou muita coisa. Então eu digo que o
movimento te prepara pra vida. Antes eu era uma pessoa tímida, eu nunca tinha
falado muito em público. Jamais pegaria num microfone e hoje não, é uma coisa
corriqueira. Aprendi também a trabalhar em grupo. As pessoas acham que é fácil,
mas é muito difícil trabalhar com o outro né? Porque eu tenho um modo de pensar,
você tem outro. Eu quero uma coisa e você quer outra, muitas vezes a gente não
chega num consenso e dentro do movimento a gente precisa aprender a chegar num
consenso. Por mais que eu não concorde com o que você fale e com as suas ideias,
temos que aprender a nos respeitar. Afinal o movimento não é só uma pessoa, o
movimento é um coletivo e a gente exerce diariamente o trabalho em mutirão. O
pessoal pensa que o mutirão é só a obra. Não, não é só obra. O mutirão é um
processo que a gente tem no dia a dia, de estar se preocupando e ajudando o outro.
Não tem essa de “É minha parte, é o meu trabalho”. Não, é tudo nosso. Sozinho a
gente não faz nada. Então, eu acho que a minha maior transformação nesse processo
foi como pessoa. E eu levo isso tudo pra dentro de casa e pra minha família. Eu venho
de uma criação muito aberta e muito livre e acho que eu consigo trazer isso pros
meus filhos também. Aqui a gente adquire conhecimentos que só teríamos estudando
na Universidade. Aqui a gente é um pouco projetista, um pouco arquiteto, auxiliar de
escritório, assistente social, peão de obra. E eu não estudei nada disso, mas eu
acabei aprendendo muita coisa aqui. Eu gosto disso, gosto de estar aqui, de conversar
com as pessoas, de ajudar e tal. E também tem o outro lado: quando vamos fazer
nossos cursos fora, viagens, encontros e conferências. Isso enriquece muito a sua
vida. E aí você consegue passar isso pros outros através das suas ações. Então o que
me incentivou inicialmente foi o meu pai e por isso quero honrar o nome dele, mas
hoje estou aqui por amor.

Meu marido também sempre me apoiou. Acho que é uma coisa de família, as
mulheres na minha família são mais agitadas que os homens. Meu marido é bem
caseiro, bem tranquilo. Eu já gosto de ir pra rua, faço tudo, ajeito tudo. Aí depois eu
falo que eu queria um marido que tomasse mais frente nas coisas, mas não é
verdade, eu gosto dele assim. Não existe esse problema de “são 1 1 horas onde você
tava?” ou quando aquando eu viajo uma semana pra conferência também não tem
problema, ele entende. Eu sempre falo, não é uma brincadeira, eu não ganho um real
pra trabalhar, mas eu não largo.

Onde eu moro começou a ter invasão. Tem uma espécie de parque linear logo atrás
da minha casa. Eu, que sou moradora não passo por lá porque é muito perigoso.
Ninguém entra porque sabe que tá dominado pelo tráfico. Já teve até arrastão no
rodoanel e a gente tava de carro e teve que voltar de ré. Eu já acordei com barulho de
tiroteio, era tão forte que parecia que era dentro da minha casa. Esse meu bairro foi
dividido em patamares e aí cada patamar tem seu numero, se você for por nome de
rua você não vai conseguir chegar na casa de ninguém porque é as casas são todas
iguais, aí quem conhece bem o lugar vira uma rota de fuga. Então eu diria que os
principais problemas hoje são esse, a violência e as invasões. Hoje não pode ter um
espaço vazio que as pessoas ocupam. Pode ser praça, parque, tudo. O intuito da
grande maioria dessas invasões, infelizmente, é de ganhar dinheiro. É a minoria que
tá lá porque realmente não tem onde morar. Quando veio o rodoanel, uma área muito
grande foi desapropriada e pagaram para os moradores um valor x. E com esse
negócio de pagar, as pessoas começaram a achar que fazendo isso conseguiriam
receber valor da desapropriação ou o bolsa aluguel e começaram a invadir. Tem
muita gente do meu bairro que vive disso, mas tem casa pra morar. E se você chama
pra participar de um projeto a resposta é: “Não, demora muito. Eu vou esperar a
prefeitura”. É claro que tiveram melhorias por aqui; teve o rodoanel, tem a obra do
monotrilho, o fura fila, tem vários equipamentos públicos. Mas ainda é muito
precário, tem muita violência, trânsito.

Eu vou colocar a estimativa pra bastante tempo porque ainda falta muito pra
gente começar esse projeto nosso, então eu prefiro jogar bem longe pra gente não
ficar sofrendo. Então eu falo assim: Daqui a 1 0 anos eu vou estar no apartamento que
eu escolhi e que eu nunca teria condições de comprar. O apartamento que eu ajudei a
construir, que eu trabalhei e batalhei. Porque a gente perde muita coisa, a gente
deixa família, deixa viagem, deixa amigos, deixa aniversário pra estar aqui. Mas tenho
certeza que vou continuar na luta, assim como hoje estou numa assembleia que não
tem a ver comigo. Eu acho que não tem nada melhor do que você estar dentro da sua
casa. Aqui no Brasil a gente quer duas coisas quando se fala em crescimento
financeiro: que a gente quer ter a sua casa própria e seu carro. Aí você fala: “Tá bom,
tô satisfeita, cheguei onde queria”. É o sonho do brasileiro, não importa se é rico ou
se é pobre, todo mundo quer. Infelizmente poucos têm. Alguns não têm como pagar
e não tem coragem de ir atrás disso. Porque não é só ter o dinheiro, tem que ter
vontade. Nós estamos nesse processo que você tá vendo há dois isso. Isso fora a
participação nos grupos de origem.

O movimento é constituído hoje majoritariamente por mulheres. Mas eu vejo


muito externamente que quando existe mais ação, pra constituir uma chapa ou uma
delegação. Esses homens que participam com a gente e que estão nesses
movimentos também participando na coordenação. Geralmente eles não querem
ceder o espaço deles pras mulheres e a gente tem que ficar lembrando que numa
composição precisa ter metade de mulheres. A mulherada tem que estar inserida,
tem que estar presente. Então, existe sim um machismo por trás, os homens
tentando dominar, existe sim. Mas hoje as mulheres se fazem ouvir mais do que
antigamente. Vivendo dentro do movimento eu vejo a diferença que isso faz na vida
das mulheres. Eu participo do movimento de moradia, do movimento de mulheres da
zona leste, eu participo do grupo afro. Eu vejo que hoje as mulheres descobriram uma
força que elas têm que antes elas não se davam como possibilidade. O grupo de
mulheres é um grupo muito antigo, mais de 20 anos, mas acabou se desarticulando e
voltou agora. Antigamente a mulher sofria calada, ela não trazia pra cá, ela não
compartilhava. Hoje não, ela tem força. Aí você faz amizade comigo, aí você vê que
meu marido é bacana e me respeita, aí você quer igual e eu acabo me tornando uma
referência. Ou então, o homem vem aqui e vê que o negócio é diferente da casa dele.
A mulherada aqui cai em cima se tem um problema. A gente até leva essa discussão
nos grupos porque não dá pra hoje em dia homem aumentar a voz pra você. Ninguém
morre por estar sozinho né? Melhor só do que má acompanhada. É questão de
ensinar mesmo e muitas vezes, nós mulheres que estamos erradas. Porque
ensinamos errado aos nossos filhos. Meu filho, por exemplo, ainda joga pipa, mas
quando tá com os primos quer falar de meninas. Outro dia meu sobrinho soltou “ahh,
aquela menina é uma vagabunda”. Aí você tem que cortar logo e explicar que ele tem
que respeitar as mulheres. O machismo é uma coisa cultura, você foi educado de um
jeito e acaba passando. Mas com o tempo tá mudando. E aqui no grupo as mulheres
se sentem confortáveis pra conversar e começam a aprender, então eu acho que isso
só tende a crescer no movimento. Não só a participação das mulheres, mas também
de emancipação, de ser livre mesmo e fazer o que quer e como pode ser feito.
24/09/2017

CRISTIANE DANTAS

Eu sou Cristiane de Oliveira Dantas, cheguei no movimento em 201 2 por causa


da mãe do meu namorado da época. Ela morava na União da Juta e falou pra gente
fazer a inscrição. Mas pra você ver, eu tinha meu namorado, mas eu fiz uma inscrição
e ele outra. Passaram uns três meses e nós nos separamos, eu continuei na minha
luta e ele na dele. Quando eu entrei no Grupo da Perseverança aqui da Juta, eu vinha
a cada 1 5 dias. A coordenadora falava e falava e eu ficava achando que não ia dar
certo. Eu não via as coisas acontecerem. Aí quando perguntaram quem queria ir nas
reuniões de quinta e ajudar o grupo, eu, né? Levantei a mão. Aí comecei a trabalhar
na coordenação, comecei a entender. Ver que as coisas caminhavam, a gente sempre
tinha alguma coisa pra fazer. Antes eu só reclamava aí o movimento foi abrindo
minha cabeça e mostrando os caminhos que a gente pode reivindicar tudo e não só a
moradia.

Em 201 3 eu passei a ser coordenadora do grupo e em 201 4 um companheiro


nosso achou o terreno do Parque São Rafael. Começamos a fazer as sondagens do
terreno. Nesse momento eu já trabalhava na Executiva da Leste. Aí surgiu a
oportunidade de ir para o Pará para o XI encontro de Moradia, onde foi discutido o
Minha Casa, Minha Vida. Aí minha cabeça fez boom né? Fizemos várias oficinas,
foram quatro dias de aprendizado maravilhosos. Foi assim que eu realmente
caminhei pra militância. Depois disso começaram as primeiras negociações pelo
terreno e já no final de 201 4, 250 famílias foram selecionadas para escolherem entre
o Projeto do Parque São Rafael ou do Milton Santos. Quando saíram os projetos,
também surgiu a proposta para contratar alguém que tocasse. Um trabalho
registrado, uma pessoa pra cada Mutirão. Como eu já fazia parte da coordenação do
Movimento e já tinha experiência com RH me perguntaram se eu não queria entregar
meu currículo, mas aí né? Eu teria que pedir as contas do meu serviço. Como eu já
tava muito ativa, mentia no trabalho pra poder ir nas manifestações, sempre dava um
jeito de tá participando; eu pedi as contas do meu trabalho e fui contratada pelo
Movimento pra trabalhar lá no Milton. A gente alugou a Casa dos Projetos e começou
a funcionar, tô lá desde 201 4 nessa luta. Aí ano passado veio a oportunidade de ir pro
Equador no Habitat III. Fizemos uma oficina numa faculdade de arquitetura do
Equador, fomos falar do nosso trabalho de autogestão pros estudantes. E eu
apresentei viu? Eu falei do Parque São Rafael, pude falar do meu projeto, da minha
vivência, que a autogestão existe e existe muito bem no Brasil, ela funciona e faz
casas e prédios maravilhosos. Se você for pegar esses apartamentos de 42m° da
Cohab e igual o da Juta aqui que é 64m².

Inicialmente eu tava no Jardim Santo André morando com a minha mãe, mas
aí mudei pra São Lucas e tô morando sozinha. Entrei na faculdade agora de novo, to
fazendo serviço social. Aí quando o canteiro começar eu vou ficar trabalhando lá e vão
contratar outra pessoa pro Milton Santos. O projeto foi contratado maio do ano
passado. Eu fui representar as 700 famílias em Brasília pra assinar o projeto com a
Dilma. Foi emocionante, foi a ultima assinatura dela como Presidente e foi uma das
ultimas contratações do MCMV, o Temer não contratou mais nenhuma unidade. Nós
ficamos 1 9 dias acampados na porta da Caixa pra conseguirmos ser selecionados. Eu
dormi lá os 1 9 dias, vinha trabalhar e voltava pra lá.

Em outubro fomos selecionados pra sermos contratados em Maio. Então


assim, tudo nosso é muito demorado. As famílias tão cansadas? Tão. A gente fez a
primeira opção de compra do Parque São Rafael no dia 1 4 de julho de 201 4, tivemos
que renovar essa opção porque em um ano a gente não conseguiu. Tivemos que adiar
várias vezes, porque tiveram várias coisas no terreno que não ia dar. Apareceu uma
nascente no vizinho, aí mudou toda a planta do projeto. Essa nascente pegava mais de
25m do nosso terreno, aí vai ficar um buraco entre o Dorothy e o Martin por conta da
preservação que tem que ter. Aí muda a planta, isso demora mais. Aí pra piorar eram
1 8 proprietários do terreno e uma dessas proprietárias tinha deficiência mental e só
podia vender por uma procuradora. Aí o juiz não aceitou, só fazia a compra do terreno
pra Caixa se tivesse a procuração do juiz que autorizasse a venda do procurador. Uma
loucura. Eu tive que ir em 1 8 cartórios diferentes pra registrar assinatura por
assinatura. E somos nós que fazemos, não é a Caixa que faz esses processos. As
famílias sabem disso, tudo que é do processo é passado pra elas. Nada é fácil. Aí a
gente se pega numas situações que as famílias não entendem que o processo é
nosso, que autogestão não é o governo e nenhum partido que vai fazer, somos nós. A
comissão acaba fazendo as coisas em um grupo menor por que a participação a
gente convida e convida, mas não funciona como deveria funcionar. Mas a gente tá aí
vendo quem tem força e braço e vai pra cima. A gente quer acreditar que pelo menos
algumas pessoas estão entendendo o processo.

Eu posso falar que vai ter uma janela de frente pra cozinha porque eu briguei
com a USINA, na hora de fazer a planta a gente fez seis meses de oficina na Casa de
Projetos com as famílias, pra construir a planta do apartamento como a gente
queria, pra eles verem quais eram as necessidades das famílias. Então inicialmente
não tinha como colocar uma janela de frente pra pia, aí eu: “Vou ficar lavando louça e
olhando o que? Não, vamos fazer uma janela aqui”. Então isso é uma discussão
nossa, se fosse uma construtora era aquilo ali e pronto. No nosso a gente pode
opinar, mas lógico que sabendo as limitações do nosso terreno. Mas a gente pode
falar, pode opinar. Foi uma discussão ótima de entender a composição do prédio. O
que é lâmina, o que é torre. O que é o pé direito da casa. Os quartos que não podem
ficar do lado sul por causa do sol que não bate. Todas essas informações que eu
nunca saberia. Agora teve uma mudança nova que a USINA trouxe, na cozinha vai ter
o cobogó. Todo mundo ficou meio assim né? Mas é lindo, eu fui pesquisar, tem cada
um lindo. São coisas discutidas, coisas passadas. Eles não vão chegar aqui com tudo
pronto sem ter passado por nós. Esse é o processo de autogestão que funciona,
posso dizer porque eu to vivendo.

Quando tem reunião da Caixa, por exemplo, geralmente vai alguém da


comissão. A Mirian já foi em reunião do LEPAC, o seu Antônio foi acompanhar o
técnico na análise do terreno. Temos reuniões de quarta duas vezes por mês e não
vale ponto, nem nada. É mais um organização pra chegar nas assembleias com as
listas, com os informes. Então assim, quem tá participando mais na comissão, acaba
se mobilizando mais pras atividades e reuniões. Pra discutir e trazer os assuntos da
melhor maneira pras famílias. Temos cursos de formação. A gente sabe que a gente
acaba mexendo na concepção de algumas pessoas, mas tem outras que não adianta
a gente achar que vai conseguir puxar ela e fazer ela se politizar. Não vai, mas a
gente mexe sim com a alguma coisa. Nas atividades todo mundo é convidado a
participar. Algumas pessoas vão porque tem pontuação e outras porque querem
mesmo. Algumas pessoas podem até não participar muito, mas entendem o
processo, já outras vai chegar o fim da obra e não vai ter entendido. Tem uma
diversidade muito grande de famílias, mas assim, a semente foi plantada.

A gente acaba criando laços no movimento, a gente vira uma família querendo
ou não. Não tem como ficar alheio aos problemas dos outros, afinal vai ser seu
vizinho, né? As coisas vão tomando uma proporção muito maior do que eu imaginava
e é um desafio pro movimento essas 700 unidades. O outro Mutirão grande assim que
teve foi o São Francisco, mas era um contexto bem diferente né? Não tinham as
burocracias de documentação que tem hoje, esse monte de coisas que a gente tem
que apresentar pra Caixa. E hoje nós estamos fazendo 700 unidades verticalizadas
com Autogestão. As famílias não entendem porque tem comissão de social, por
exemplo, elas não acham importante. Mas elas não sabem como é viver em
condomínio, com 700 pessoas se cruzando toda hora. Saber de seus direitos e
deveres. A maioria das pessoas moram em casas. Eu nunca morei em apartamento,
outro dia eu fui no Copan e me senti sufocada, então vai ser muito diferente pra mim,
vai ser difícil. Mas realizar o sonho da casa própria, realmente faz fazer valer.

Minha família não me apoia até hoje. Minha mãe não acredita que vai dar certo,
toda vez que ela me vê ela me tira: “E aí? O apartamento já tá pronto?”. Nem brigo e
nem confronto, porque é a cultura dela. Minha mãe tem medo, porque eu vou pra rua,
vou pra ocupação. Passei 1 9 dias na praça da Sé, em 201 4 ficamos 1 1 dias no terreno
do Belém. E lá era barro, tive que dormir no barro, peguei uma pneumonia, minha
mãe quis me matar. Mas faz parte né? É a luta, eu adoro. Fui pra Brasília, no dia 24
de maio que teve o ato em Brasília. Tinha muita gente, foi uma coisa assim
inexplicável pra mim, foi lindo. A gente fazer parte da história do nosso país,
reivindicando. É importante porque a gente tem o entendimento: a gente é pobre,
muita gente que vivia na miséria e foi pra pobreza. Porque hoje o pobre é um pobre
que tem mais condições; tem televisão, tem som, tem carro, tem isso, tem aquilo,
né? Mas continua pobre. Tem mais condições, mas tem que saber da onde veio essas
condições, quem lutou pra tudo isso? Ter essa concepção, hoje eu tenho. Essa
concepção politica que eu não tinha. Essa concepção veio do movimento. Aqui não é
só a reunião, tem muito curso de formação, curso de liderança, a gente participou de
todas as reuniões do plano diretor. A gente vai construindo. Gente que tá há 20 anos
no movimento indica livro e vídeos pra gente. A gente essas informações e vai
soltando e multiplicando também. É assim que a gente vai trazendo gente pro
movimento. A Evaniza até briga comigo, porque ela diz que a gente tem que chamar
as pessoas pra vim. Mas eu digo que você tem que motivar, porque as pessoas só vão
aonde elas querem. Você pode motivar, mas elas só vão se quiserem. Ninguém ficou
me puxando “Vem, vem, vem”. Foi falado, eu peguei o que era pra mim e to aqui.
Então você só tá onde você quer. Você vê na Assembleia, ainda nem acabou, mas já
tem gente esperando pra assinar a lista e ir embora, sem nem ter o respeito de
esperar.

Na Casa do Projeto a gente atende famílias pra levar atestado medico, boleto
da contrapartida que a gente entrega quando leva a documentação. Do Parque são
Rafael são 1 8 vezes 50 reais. Aí acabo, parou e a gente voltou a fazer a contribuição
de 7,60 reais por mês. Como o projeto é grande a gente entrega a cada seis meses o
boleto de 45 reais. Pra que é esse dinheiro da contribuição? A gente é dividido assim:
A leste 1 são os grupos de origem e eles recolhem esse dinheiro por mês. Aí metade
fica pra esse grupo se organizar e metade fica na conta da Leste que é pra pagar as
pessoas que trabalham, telefone, internet, bandeira, faixa, tudo. Já esse 1 8,50 é pra
conta do projeto, que é o dinheiro que paga as coisas da Casa dos Projetos, tudo que
é gasto com o projeto e tal. A gente apresenta a prestação de contas pra família
também. Tudo infelizmente é dinheiro, isso não é partido nenhum que paga, nós
somos apartidários, são as famílias que sustentam o movimento. Eu atendo as
famílias pra recalcular boleto que atrasou, recebo atestado, lanço a pontuação,
prestação de contas. Eu também sou da executiva da Leste, nós temos 34 grupos de
origem. Aí toda quinta feira tem reunião com os coordenadores de cada grupo,
passamos as informações pra eles passarem pras famílias nas Assembleias. Aí a
cada dois anos tem eleição pra executiva. Só tem 4 homens na coordenação da
executiva e acho que 1 2 mulheres. A maioria dos homens que tão lá, é só pra ir pra
executiva, mas quem faz as coisas mesmo são as mulheres. Eu participo também do
Conselho Participativo aqui do São Rafael. Além do movimento a gente faz outras
lutas, né? A Evaniza agora é Conselheira Municipal de Habitação, o Edilson é
advogado, a Rose é Assistente Social, a Priscila que nem tinha expectativa de estudar
tinha entrou agora na faculdade. Ficava insistindo pra ela: “Entra na faculdade, você
tem seu marido pra te ajudar. Eu que to sozinha, vou entrar não quero nem saber.”.
Então a gente tá sempre se ajudando assim, colocando a outra pra cima. As mulheres
se empoderam, viu? A maioria que você reparar não abaixa a cabeça pro marido, você
vê são poucos homens na reunião. Tem umas que nem conta pro marido que vem,
pra quando tiver pronto dá um pé. Você vê as histórias, vão aparecendo. No ato, são
as mulheres que vão pra linha de frente. Tem cada história. Tem uma companheira
nossa, Carol, quando entrou no movimento era submissa, sabe? Era “amém” pra tudo
que o marido falasse. Depois que ela entrou no movimento, ela falou pra ele que ele
podia ir embora e ele passou a respeitar ela muito mais. Hoje em dia, ele vem com
ela pra luta. Você vê no ato ela gritando e ele indo pegar água pra ela. Você vai vendo
a transformação das famílias. A Mirian é outra que meu deus. Ela se empoderou de
uma forma que agora todo lugar que vai ela pergunta “O que é isso? Por que não saiu
meu papel ainda? Me explica isso quero aprender“ Então é ótimo você ver essa
transformação nas famílias. As pessoas vão criando autonomia, é muito importante
isso.
MIRIAN DA SILVA

Eu sou Mirian e moro aqui na divisa do São Rafael, sou de São Paulo mesmo.
Entrei no movimento em 201 5 por causa da minha filha. Minha filha ia entrar em
outro movimento, aí ela foi numa reunião e disseram que tinha essa inscrição aqui. Aí
como tinha que vir de madrugada pra pegar a senha, ela pediu pra eu vir com ela.
Mas só ela ia fazer, eu não. Aí era no dia 23 de março, mas a gente errou e veio no dia
23 de fevereiro. A amiga que falou pra ela do movimento passou a data errada. Nós
viemos às quatro e meia da manhã e ficamos até às 8h quando começou a chegar as
pessoas que vinham pro grupo de origem daqui. Aí eu fui perguntar e falaram que era
no mês que vem. Como não eram só nós duas, tinham mais 5 pessoas que vieram no
dia errado, aí nós fizemos amizade, cada um de um lugar, e combinamos todo mundo
de vir junto no mês seguinte. Aí eu e minha filha fizemos a inscrição e dois meses
depois minha outra filha também se inscreveu. Caímos todas no mesmo condomínio,
acredita?

Nós moramos atualmente de favor na casa da minha tia. Todos os meus


irmãos tem segundo grau completo e dois tem faculdade, só eu que parei de estudar.
Parei logo cedo pra trabalhar fora. Minha família era pobre, sou filha de pedreiro. E
eu não tinha noção de estudar, venho de uma família de um pai muito inteligente,
mas minha mãe que tomava conta da gente era semianalfabeta. Ela achava que
homem tinha que estudar e mulher não. Tanto é que as minhas irmãs mais velhas
que tem segundo grau acabaram só depois. E eu segui elas, eu achava que tinha que
ir trabalhar também. Nós somos em 1 1 irmãos, 6 mulheres e 5 homens e eu sou a
filha mais nova. Minha mãe preferia que meus irmãos continuassem estudando. Na
quarta série você já recebia um diploma, então se você falasse em casa que ia
trabalhar era normal deixar de ir pra escola. Nossa vida era difícil e você queria ter as
coisas. Eu queria ter a calça levis, jaqueta de couro e all star. Então eu fui trabalhar
de garçonete, fiquei anos. Depois fui trabalhar num banco como copeira. Aí fiquei
nesses dois serviços até casar.

Namorei com esse meu marido desde os 1 6 anos e a gente casou com 20.
Quando eu era nova, meu marido tinha ciúmes e eu sou filha de pastor, eu achava que
tinha que aguentar tudo porque só podia casar uma vez só, aí eu parei de trabalhar.
Tanto é que quem me largou foi ele. No começo eu sofri muito, tava trabalhando e
cuidando das meninas e com medo de não conseguir criar minhas duas filhinhas
sozinha. Ele só me ajudou com pensão só. Eu não colocava dia de visita porque eu
escolhi ele como pai, então ele não atrapalhando o horário delas ele podia ver o dia
que quiser. Eu escolhi que elas precisavam de um pai. Você concorda que o
desentendimento foi entre eu e ele? Não ele com as filhinhas? Eu não posso pôr
minhas filhas no meio de uma briga minha. Mas ele nunca manteve contato, nunca
ajudou. Quando deu um ano e meio depois, eu vi que eu tava podendo criar minhas
filhas sozinha, aí eu voltei a sair, voltei a viver. Me casei de novo, ele não é ignorante
que nem meu primeiro marido. No começo quando eu me separei, por eu ter tido
duas irmãs que tinham sido mães solteiras e meus pais não colocaram pra fora.
Como eu casei certinho, porque eu seguia muito meu pai, eles acharam que eu ia
ficar casada pra sempre. Aí pra eles doeu o divórcio. Como eu não levava os
problemas que eu tinha dentro de casa pra eles, acho que pegou eles de surpresa.
Então esse meu namoro, demorou pra aceitar, mas aí aceitaram, né? São pais. Se
fosse hoje eu não ia ter engravidado com 20 anos. Minha mãe não era aberta com a
gente. Ela não ensinava nada, a gente aprendia as coisas na rua ou com alguma
amiga. Ensinando minhas filhas, uma engravidou com 1 9 e outra com 20. Eu não sei o
que fazer, elas tiveram acesso a tudo. Terminaram o segundo grau, mas não fizeram
faculdade.

Meu primeiro marido é branco, loiro, muita briga. Eu sou negra, família de
negro, cabelo duro, ofensas. Tirou toda a roupa que eu vestia, eu tinha que usar
camisa e calça larga. Eu aceitava. Aí engordei, aí que era ofensa de tudo. Me chamava
de gorda, de vaca. Ele não gostava que eu trabalhava, mas se eu pedia dinheiro era
humilhante. Tanto que quando eu precisava de alguma coisa eu pedia pro meu pai.
Na gravidez eu mentia pra ele. Eu nunca tinha esses desejos de comida que eu via as
pessoas tendo, mas eu falava “Pai, to com vontade de comer sonho, feijoada, tatu”.
Ele arrumou até tatu pra mim comer, meu pai! Meu marido não fazia nada. Era
impossível sair à noite com minhas duas filhas pequenas, aí ele começou a largar a
gente em casa e sair sozinho com os amigos dele. Aí quando ele foi embora numa
véspera de natal, uma das minhas filhas com seis anos chegou pra mim e falou
assim: “Eu não quero que vocês voltem, vocês brigam muito”. Parei de sofrer? Não.
Eu achava que eu não podia cuidar das minhas filhas sozinha, mas isso foi um basta
pra mim.

Eu casei pela segunda vez e tenho um excelente marido. Mas eu tava muito
presa em casa. Eu só ficava cuidando dos meus filhos e dos meus netos, então eu
tava muito sedentária. O movimento foi uma maravilha pra mim. Ninguém quer vir
aqui pra ajudar, mas eu acordo cedo e venho feliz pra cá. O movimento me trouxe
companheiros. Eu participo, eles me chamam pra ir nos lugares, vou em reunião e
tudo. Eles não tem vergonha de me chamar e eu gosto muito de ir. To aprendendo,
vou voltar a estudar e fazer um supletivo. Agora eu tenho regras, eu marco os dias
que eu vou sair e meu marido fica com as crianças. Eu ainda sou ignorante em
algumas partes. As pessoas falam que a luta delas é conseguir a moradia. Até a Rose
fala que deixava a filha de nove anos em casa sozinha, sabe quando eu vou deixar
meu filho de 1 1 anos em casa sozinho? Nunca. A casa é muito importante pra mim, é
o meu sonho ter a casa própria, mas não chega nem perto do amor que eu tenho pela
minha família. Tem umas coisas que eu sou ignorante. Lembra que eu te perguntei:
“Vai perguntar alguma coisa difícil?” Porque tem palavras que às vezes não vem na
minha mente, mas eu acho que voltando a estudar vai funcionar de novo. E eu não vou
falar que é culpa da minha mãe, porque minhas irmãs voltaram a estudar e eu me
acomodei. Mas agora eu vou voltar a estudar.
PRISCILA NEVES

Meu nome é Priscila. Eu conheci o Movimento numa festa do bairro na frente


da Associação onde se reúne o grupo do Rio Claro. Aí eu vi aquela movimentação,
várias pessoas do bairro, porque a associação é grande né? E no início quando
começou o grupo ele era muito grande, acho que tinham quase 300 pessoas. Aí eu
fiquei curiosa, perguntei pro pessoal que tava na frente da festa o que que tava
acontecendo ali, porque eu nunca tinha visto aquele movimento. Aí eles falaram:
“Tamos nos reunindo pra reuniões de moradia”. E naquela época eu ainda morava na
casa da minha mãe. Eu tava casada, mas eu ainda morava na casa da minha mãe. Só
tinham três cômodos na casa dela. Aí eu falei “Eu vou lá saber”, né? Foi onde eu fui,
assisti a primeira reunião. Assim que acabou a primeira reunião, eu fui procurar
saber mais do que se tratava e já no primeiro dia eu me inscrevi no grupo. Porque
naquela época a gente já podia ir direto pro grupo de origem, ao contrário de agora
que as famílias vem direto no movimento e depois que eles escolhem o grupo de
origem que vão participar.

Eu comecei a participar de reuniões e atividades. Assim, a gente fala que a


gente nunca quer entrar no movimento, mas quando a gente entra não quer sair. Eu
comecei a participar de tudo, mesmo que no meu trabalho meus chefes odiassem e
fossem super contra. Eu trabalhava na P&G como promotora de vendas. Eles falavam
“Se você confia, se acha que dá certo, então pode ir” e eles me liberavam. Aí eu
comecei a participar de todas as atividades que tinham. Quando a gente vai pra rua o
espirito é de mostrar nossa força, a nossa luta. A gente fica pulando, gritando, é
muito bom. Eu tinha uma das maiores pontuações, tava em segundo lugar. Já era pra
eu ter ido pro projeto, pro Florestan Fernandes. Porém eu era casada e a renda
minha e do meu marido juntas ultrapassava e não podia, mas eu continuei indo no
grupo e participando. Aí até por iniciativa do próprio movimento eu sai de casa com
meu marido e fomos morar de aluguel, só que nós dois acabamos ficando
desempregados. Ai foi quando saiu a demanda pro São Rafael, como eu tava
desempregada, eu comecei a participar ainda com mais força no movimento.

Quando foi em 201 5 teve planejamento da Leste 1 e eles falaram que


precisavam de uma pessoa pra vir trabalhar aqui no movimento. Aí me candidatei,
entreguei meu currículo e todas as pessoas ali já me conheciam. Já tô trabalhando
aqui desde março de 201 5. Meu papel aqui é receber as famílias durante a semana,
quem tem dúvida com o movimento, saber de cadastro, responder e-mail, organizar
toda a documentação das famílias que se cadastram no movimento. Eu incluo eles no
sistema, pontuo atividades que eles fazem fora, porque reunião e contribuição quem
pontua é a coordenação. Meu papel no movimento quanto mutirante também é de me
esforçar ao máximo pra contribuir no meu projeto, participar das comissões e nas
assembleias eu sempre tento estar nas três. Mas agora tá difícil que eu voltei a
estudar, então eu acabo participando mais na minha mesmo. Mas quando tem
alguma coisa fora, politica, a gente tá sempre participando.

Eu entrei no movimento em 201 1 . Minha família não apoia, mas também não
critica. Porque a gente sabe que pro Movimento quem mais ajuda a gente é o Partido
dos Trabalhadores, embora muitos não aceitem. E assim meu pai odeia o PT, mas ele
nunca interferiu. O único problema é esse. Mas minha mãe até gosta de participar,
quando eu não posso ir em alguma reunião ela vai me representar. Meu marido não
participa, mas também não interfere. Eu chamo ele pra vir junto ,mas ele não quer.
Não vou dizer que ele não liga, ligar ele liga. Mas eu falo que o Movimento abriu
horizontes e até minha visão. Porque assim, eu tinha um pensamento e hoje eu tenho
outro. Ele fica muito enciumado porque eu participo de tudo, são muitas famílias. Eu
e a Cris somos referência das famílias, todo mundo já conhece a gente e já vem direto
falar com a gente. Mas eu falo pra ele, eu já participava antes e agora é o meu
trabalho. Futuramente vai ser nossa casa e nossos vizinhos, mas é muito difícil. É o
que eu acabei de falar no início: a gente não quer entrar, mas quando entra não quer
sair. Por exemplo, ontem eu participei de manhã da comissão do nosso projeto que
foi a preparação pra Assembleia hoje. E a tarde a gente teve reunião da Executiva,
embora eu não seja da Executiva, como eu trabalho aqui eu preciso saber o que tá
acontecendo. Então ontem eu fiquei o dia em função do Movimento. Hoje tem
assembleia, aí eu tenho que me policiar também né? Eu tenho uma casa, eu tenho
um filho de nove anos. Então eu tenho que me organizar. Mas ele me cobra muito:
“Todo dia tem movimento, todo dia tem uma coisa”. E meu filho participa muito
comigo, ele adora participar. Praticamente a Leste 1 inteira conhece ele, porque
aonde eu posso eu levo ele. Ontem mesmo ele tava aqui comigo nas reuniões. Meu
marido me ajuda com as coisas de casa, ele só não lava e cozinha. Leva na escola,
busca na escola. O horário de trabalho dele é bem diferente do meu, ele trabalha no
final da tarde então dá tempo de levar e buscar meu filho na escola. Meu filho fica
durante a tarde com a minha mãe. Aí quando eu saio do trabalho, vou pra faculdade e
na volta já pego ele na casa da minha mãe.

O movimento me deu mais garra de lutar. Eu terminei meus estudos em 2007


e tive meu filho em 2009. Depois disso eu não pensava mais em estudar. Achava que
do jeito que tá, tá bom. Aí eu vi que não. O movimento dá oportunidade pra muita
gente, é só você querer. Eu achava que pra mim tava bom só ter terminado o Ensino
Médio, mas aí eu comecei a ver que não, precisa de mais. Conhecimento nunca é
demais. Agora tô estudando pedagogia. Meus sonhos de criança era ser professora
ou arquiteta. Mas como arquiteta tá meio longe, por causa da minha realidade
financeira, é muito difícil né? Tá muito difícil essa rotina toda: estudar, trabalhar,
movimento e família. Mas eu vou conseguir.

É o que eu falo pras meninas, às vezes, eu até brinco: “Ah, não sei se até eu
entrar no meu apartamento eu tô casada. Até pelas implicâncias e o ciúmes. E a
gente vê isso, porque muitas mulheres. A própria Rose que tem mais experiência que
a gente falam que eles não apoiam, mas quando a chave chega na mão, eles são os
primeiros a quererem entrar no apartamento. Quando ainda não acontece a
separação, porque fala “Ah, você tá indo atrás de homem né?”. Ainda mais a gente
que tá envolvida diariamente, quase que 24h com o movimento. Eles ficam
enciumados. Mas acho que dentro do movimento já não, porque são poucos homens
que querem ir pra luta.

Eu acho que antigamente era mais difícil, embora toda a nossa dificuldade
financeira e crise. Tanto o trabalho braçal, que hoje a gente faz bem menos do que
elas faziam antigamente. Eles praticamente subiram os apartamentos. O tempo que
demoravam as obras era muito maior, hoje se entrega o apartamento quase pronto.

Os maiores problemas da periferia hoje em dia são a violência, a falta de


moradia, a gente vê o tanto de invasão que tá acontecendo esses dias. Eu sei que tem
muita gente que realmente precisa, mas tem muita gente se aproveitando da
situação.
MAIARA FRANCISCO

Eu sou Maiara, tenho 21 anos e entrei no movimento três anos atrás. Na


verdade quem começou foi a minha mãe, eu só assumi por um problema na Caixa.
Quando veio a vaga, na hora de levar a documentação, os salários dos meus pais
junto ultrapassavam os 1 800 reais e eu tive que assumir o lugar. Aí a gente teve que
mudar o titular da vaga e eu entrei. A gente conheceu o movimento por causa de uma
vizinha que conseguiu um apartamento na Cidade Tiradentes, ela é do Florestan
Fernandes. Aí ela falou e minha mãe veio ver como que era e estamos aí. É bem legal,
há uns quatro meses eu comecei a me envolver mais, tô participando das reuniões de
comissão, tô indo mais nos atos. A primeira parte de ter começado foi porque a Cris
pediu pra gente começar a ir na reunião da Comissão, porque ela precisava que todo
mundo participasse pra descarrega o peso pra eles. Aí eu comecei a ir, fui me
interessando. Se você vem aqui só pra Assembleia, você tem uma visão diferente. Se
você tá na reunião da Comissão, você tem outra. Você sabe como as coisas se
movem. Se você vem só na Assembleia uma vez por mês, você acha que tudo demora
uma vida pra acontecer. E na reunião da Comissão, você vê que as coisas demoram
realmente, mas tem uma movimentação mesmo que mínima. Tem várias coisas pra
fazer e por isso comecei a me interessar.

Minha mãe sempre me apoiou, mas meu pai é meio....eu acho que ele quer ver
o feito e não o processo. Ele não participa muito, ele é o cara que vai morar apenas,
entendeu? Ele não se opõe a nada, mas não ajuda também. Aqui na Leste a maioria é
mulher né? Eu acho que é porque as mulheres tão mais interessadas em ter o seu e
não depender de um homem pra tudo. Elas tão tomando mais iniciativa.

Sempre estudei em escola pública. Hoje estudo Engenharia Química e faço


estágio na USP no laboratório de corrosão. A gente trabalha com peças de alumínio
que fazem avião, navio, essas coisas. Aí a gente faz ensaio de corrosão, é bem legal.
Dá pra aprender bastante coisa, coisas que você imagina que só um homem faria,
você faz e “Nossa, eu posso fazer também!”. Te juro, tipo, soldagem. Você geralmente
vê homens fazendo soldagem, aí eu fui lá e aprendi. É muito fácil, qualquer pessoa
pode fazer, não precisa de um homem pra isso. Quando eu comecei a faculdade, meu
pai sempre falou que engenharia era coisa de homem e que eu nunca ia terminar. Eu
tô no oitavo semestre, tô terminando e ai?

Aí durante a semana eu trabalho e estudo e no final de semana participo das


atividades. Eu adoro as atividades, principalmente as passeatas, é a melhor atividade
que tem. Você chega lá e faz um barulho e o povo tem que te atender ou então você
fica lá. Participei até da ocupação da Caixa. São as mulheres que sempre tomam
frente, até tem alguns homens ativos no movimento, mas é muito pouco. Acho que
por isso não tem tanto machismo dentro do movimento, pelo menos eu nunca
reparei.