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Santo Agostinho e

“Babilônia“
5 anos ago
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by Católico Porque...
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Recentemente, eu estava debatendo com um pastor evangélico (Fernando
García Sotomayor, reitor do Seminário Teológico Rhema Internacional, da
Colômbia) e o tema acabou se bifurcando na típica apologia fundamentalista
que acusa a Igreja Católica (e as igrejas evangélicas que participam do
movimento ecumênico) de ser a “prostituta da Babilônia”. Entre os comentários
que o meu amigo pastor suscitou é que tal fato era reconhecido, inclusive,
pelos Padres da Igreja, entre eles Santo Agostinho. Quanto a este
[personagem], informou:

– “Santo Agostinho, em seu livro ‘A Cidade de Deus’, chama Roma de segunda


Babilônia: ‘Babilônia é uma Roma anterior e Roma, uma Babilônia posterior.
Roma é filha da Babilônia'”.

Muito bem: Santo Agostinho realmente enxergava na Roma pagã (não na Roma
cristã) uma segunda Babilônia, como cheguei a observar ao pastor. Em razão
disso, enfatizei a questão e pedi para que ele me dissesse se acreditava mesmo
que, quando Santo Agostinho falava de Roma, estaria se referindo à Igreja
Católica. Entre outras coisas, me respondeu:

– “Quem faz diferença entre Roma pagã e Roma cristã é você, não estes
insígnes homens da fé”.

Apontou, ainda, a seguinte fonte: “Franck M Boyd. ‘A Bíblia ao seu Alcance’. Ed.
Vida, pp. 200-229”.

Neste estudo, farei uma breve análise da obra de Santo Agostinho, “A Cidade
de Deus”, assim como de algumas outras de suas obras, para demonstrar se é
mesmo “coisa minha” e não do insígne Santo Agostinho a diferenciação entre
Roma pagã e Igreja Católica Romana. Isto permitirá conhecer melhor o
pensamento agostiniano e evitará que, futuramente, volte a ser
descontextualizado.
Os texto da obra “A Cidade de Deus” serão tomados a partir do espanhol,
conforme veiculado pelo site protestante
http://www.iglesiareformada.com/Agustin_Ciudad.html

CONTEXTO E FINALIDADE DA OBRA

No Proêmio do Livro I, Santo Agostinho fala da finalidade pela qual escreve. Em


suma, as suas razões são duas:

1) Para defender a glória da cidade de Deus.

A respeito disto, aponta:

– “Nesta obra, que vai dirigida a ti e te é devida mediante a minha palavra,


Marcelino, filho caríssimo, pretendo defender a gloriosa Cidade de Deus”
(Proêmio, Livro I).

2) Para denunciar o destino da cidade terrena:

– “Da mesma forma, tampouco nos silenciaremos acerca da Cidade terrena –


que embora pretenda reinar mais ambiciosamente com despotismo, ainda que
as nações oprimidas pelo seu insuportável jugo já lhe rendam obediência e
vassalagem, o próprio apetite de dominar passa a reinar sobre ela – nada
daquilo que pede a natureza desta obra e que penetro com minhas luzes
intelectuais” (Proêmio, Livro I).

Entretanto, o que eram, para Santo Agostinho, a cidade de Deus e a cidade


terrena? Ele mesmo explica no Livro XV da obra:

– “No entanto, percebo que ficam plenamente satisfeitas e comprovadas as


questões mais árduas, espinhosas e difíceis, que são citadas acerca do princípio
ou fim do mundo ou da alma, ou da própria linhagem humana, a qual
distribuímos em dois gêneros: o primeiro, daqueles que vivem segundo o
homem; o outro, segundo Deus. A isto chamamos também, misticamente, de
‘duas cidades’, isto é, duas sociedades ou congregações de homens, das quais
uma está predestinada a reinar eternamente com Deus e, a outra, a padecer o
eterno tormento com o demônio”.

No pensamento de Agostinho, convivem na terra duas cidades: uma terrena e


outra celeste, que é a Igreja peregrina composta pelos cristãos.
Ele parte daqui para fazer frente aos partidários do Paganismo que atribuíam
aos cristãos e ao nome de Cristo as calamidades que se abatiam sobre Roma.
Santo Agostinho, para quem a Igreja é a cidade de Deus sobre a terra, realiza
esta defesa apologética para combater tais acusações; e, em virtude disso,
intitula o primeiro livro da obra como “A devastação de Roma não foi castigo
dos deuses em razão do Cristianismo”.

Santo Agostinho fala [aqui] de como os pagãos se refugiaram nos sagrados


templos católicos durante a destruição de Roma.

No capítulo 1 do livro I, Santo Agostinho começa falando como estes inimigos


da Igreja Católica deveriam estar agradecidos, já que muitos conseguiram
salvaram suas vidas durante a destruição da cidade por encontrar refúgio nos
templos católicos da cidade de Roma. Por isso, intitula esse primeiro capítulo
assim: “Dos inimigos do nome ‘cristão’ e de como estes foram perdoados pelos
bárbaros por reverência a Cristo, após terem sido vencidos, durante o saque e
destruição da cidade”.

Em relação a isto, escreve:

– “…muitos [pagãos], abjurando seus erros, tornaram-se bons cidadãos; porém,


a maior parte destes manifesta contra ela [=a Igreja] um ódio inexorável e
eficaz, mostrando-se tão ingrata e desconhecedora dos evidentes benefícios do
Redentor; na verdade, não poderiam mover contra ela [=a Igreja] suas línguas
maledicentes, pois [para ela acorreram] quando fugiram, caso contrário
perderiam a vida com que tanto se ensoberbecem em seus sagrados templos.
Por acaso, não perseguem o nome de Cristo os mesmos romanos a quem, por
reverência a este grande Deus, os bárbaros lhes pouparam a vida?
Testemunhas desta verdade são as capelas dos mártires e as basílicas dos
Apóstolos que, durante a devastação de Roma, acolheram em seu interior
aqueles que precipitadamente e temerosos de perder suas vidas puseram suas
esperanças na fuga, entre eles não apenas os gentios, mas também cristãos:
até nestes santos lugares o inimigo executava o seu furor, porém, ali mesmo
amortizava ou apagava o furor de cruel assassino e, por fim, os piedosos
inimigos conduziam a estes lugares sagrados aqueles a quem pouparam as
vidas, mesmo tendo sido encontrados fora dos santos asilos, para que não
caíssem nas mãos daqueles que não exercitavam semelhante piedade. É, aliás,
muito digno de se fazer notar que uma nação tão feroz, que por toda parte se
manifestava cruel e sanguinária, proporcionando cruéis danos, logo que se
aproximou dos templos e capelas, onde era proibida a sua profanação, assim
como exercer as violências que em outras partes era permitido exercitar pelo
direito da guerra, refreava totalmente o ímpeto furioso da sua espada,
desligando-se também do sentimento de cobiça que possuíam, de obter uma
grande presa em cidade tão rica e abastecida. Desta forma, conseguiram
manter suas vidas muitos daqueles que hoje difamam e murmuram contra os
tempos cristãos, imputando a Cristo os trabalhos e penalidades que Roma
padeceu, deixando de atribuir a este grande Deus o incomparável benefício que
conseguiram: de ter suas vidas conservadas em razão de seu Santo Nome”
(Livro I, capítulo 1).

Qualquer pessoa que acredite que Santo Agostinho considerava a Igreja


Católica como “a prostituta” pode achar “curioso” que ele, desde o início da
obra, classifique os templos [católicos], as “capelas dos mártires e basílicas dos
Apóstolos” como “santos lugares”. Mais adiante, continua:

– “Estes vis impugnadores deveriam, pelo mesmo motivo, atribuir aos tempos
em que florescia o dogma católico a graça particular de os bárbaros ter-lhes
feito a mercê de suas vidas e agirem de modo contrário ao estilo observado
durante a guerra – ao que tudo indica, por sua submissão e reverência a Jesus
Cristo – concedendo-lhes este singular favor em qualquer lugar que fossem
encontrados e, em especial, aos que foram acolhidos pelos templos sagrados,
dedicados ao augusto Nome de nosso Deus” (Livro I, capítulo 1).

Veja também “ Sola Scriptura” ou a Igreja?

E finaliza [o capítulo] atirando-lhes na cara como muitos dos que nesse


momento atacavam a Igreja tinham chegado ao ponto extremo de fingir ter
abraçado a fé católica. Porém, uma vez salvos agora, passavam a se comportar
com ingratidão, atacando a Igreja e demonstrando que sua confissão não fôra
de coração:

– “…porque, muitos destes que vês que com tanta liberdade e desacato
escarnecem dos servos de Jesus Cristo só escaparam de sua ruína e morte
porque fingiram ser católicos. Agora, com ingratidão, soberba e sacrílega
demência, com o coração destruído, se opõem àquele Santo Nome que, no
tempo de suas infelicidades, lhes serviu de antemuro. Irritam, deste modo, a
justiça divina e dão razão para que sua ingratidão seja castigada com aquele
abismo de males e dores, que foi preparado perpetuamente para os maus, pois
sua confissão, crença e gratidão não foram de coração, mas só de boca, para
que pudessem desfrutar por mais algum tempo das felicidades momentâneas e
caducas desta vida”.

Posteriormente, no capítulo 3 do mesmo Livro, fala de “quão imprudentes


foram os romanos ao crerem que os deuses Penates, que não puderam
proteger Tróia, seriam propícios a eles”. Questionava, assim, não a Igreja de
Roma – que não foi quem encomendou a cidade aos cuidados dos deuses de
Tróia – mas aos partidários dos romanos pagãos, inimigos da Igreja na cidade.
COMO SANTO AGOSTINHO SE REFERE ÀQUELES QUE ABANDONAM A
IGREJA CATÓLICA

No capítulo 25 do Livro XXI, [Agostinho] fala de como os hereges e heresiarcas


pertinazes que abandonaram a Igreja Católica não se livrariam do tormento
eterno, ainda que tivessem sido batizados nela e recebessem o sacramento da
Eucaristia, uma vez que seu estado de apostasia os tornavam piores que os
infiéis:

– “Por outro lado, tampouco estes – que sabem muito bem que não se deve
comer o Corpo de Cristo quando não se está no Corpo de Cristo – prometem
erroneamente aos que da unidade daquele Corpo caíram em heresia ou na
superstição dos gentios, a libertação do fogo eterno. Primeiramente, porque
devem considerar quão intolerável seja tal coisa e quão extremamente
afastasta e desviada da sã doutrina estão a maioria ou quase todos aqueles que
saíram do grêmio da Igreja Católica, fazendo-se autores de heresias e
tornando-se heresiarcas. Estes não são melhores do que aqueles que nunca
foram católicos ou que caíram sob os seus laços. Pensam tais heresiarcas que
se livrarão do tormento eterno porque foram batizados na Igreja Católica,
tendo sido por ela recepcionados no princípio, estando em união com o
verdadeiro Corpo de Cristo: o sacramento do sacrossanto Corpo de Cristo.
Contudo, não há dúvidas de que é pior aquele que apostatou e abandonou a fé,
e que de apóstata torna-se cruel combatedor da fé, do que aquele que não
deixou ou abandonou o que nunca teve. Em segundo lugar, porque também a
estes apontou o Apóstolo, após ter apresentado as obras da carne, ameaçando-
os com a mesma verdade: ‘os que praticam semelhantes coisas não possuirão o
Reino de Deus'” (Livro XXI, capítulo 25).

Entretanto, no capítulo 2 do Livro XVI, acrescenta que o surgimento de heresias


fortalece a fé católica, já que oferece ocasião para pregar a verdade com maior
vigor e cria oportunidade para o aprendizado:

– “Não obstante tudo isto, vem redundar na utilidade dos proficientes,


conforme a expressão do Apóstolo: ‘Convém que hajam heresias para que os
bons queiram estar entre vós’; e por isso mesmo diz a Escritura: ‘O filho
atribulado e exercitado nas penalidades será sábio, e do imprudente e do mau
se servirá como de ministro e servo’. Porque muitas coisas que pertencem à fé
católica, quando os hereges, com sua cautelosa e astuta inquietude, as
perturbam e desassossegam, ocorrem para que sejam defendidas contra eles,
pois são consideradas com maior escrupulosidade e atenção; percebidas com
maior clareza; e pregadas com maior vigor e constância, para que a dúvida ou
controvérsia que excita em sentido contrário sirva de ocasião propícia para o
aprendizado” (Livro II, capítulo 2).
Por isso, no capítulo 51 do Livro XVIII fala de “Como pelas dissensões dos
hereges se confirma também e corrobora a fé católica”.

Aqui, [Santo Agostinho] fala que esses hereges que abandonam a Igreja
Católica e rejeitam de forma pertinaz a correção, perseverando na heresia, são
causa de descrédito para o nome ‘cristão’. Ainda que se auto-intitulem cristãos
– comenta – e contem com a Escritura e os sacramentos, com suas contínuas
divisões e dissensões são causadores de blasfêmia para o nome de Cristo.

– “Aqueles que na Igreja de Cristo estão imbuídos em algum erro contagioso,


tendo sido corrigidos e advertidos para que saibam o que é são e reto, no
entanto, resistem vigorosamente e não querem se emendar das suas
pestilentas e mortíferas opiniões; antes, com mente obstinada, as defendem,
tornando-se hereges; e, saindo do grêmio da Igreja, são tidos no número dos
inimigos que a exercitam e afligem. Pois, ainda deste modo, através de seu mal,
aproveitam também os verdadeiros católicos, que são membros de Cristo,
tirando Deus o bem ainda que dos maus (…) Em razão deles (=os hereges), se
desacredita e blasfema o nome cristão e católico; este [nome], quanto mais é
amado e estimado por aqueles que querem viver santamente em Cristo, tanto
mais causa dor naqueles que praticam o mal dentro [da Igreja]; estes não
desejam que seja tão amado e apreciado [esse nome], como querem as almas
piedosas. Os mesmos hereges, quando mantêm o nome cristão, os
sacramentos cristãos, as Escrituras e a profissão [de fé], causam grande dor
nos corações dos piedosos porque, para muitos, que também querem ser
cristãos, estas discórdias e dissensões os obriga a duvidar, e muitos
maledicentes encontram também neles matéria conveniente e ocasião para
blasfemar o nome cristão, já que entendem por cristã qualquer denominação a
que pertençam” (Livro XVI, capítulo 1).

Também fala de como os profetas vaticinaram a Cristo e sua Igreja, a qual já


não está cativa, mas que agora todas as pessoas podem buscar a proteção da
fé católica:

– “Resta-nos, pois, três Profetas, dos Doze Menores, que profetizaram nos
últimos anos do cativeiro: Ageu, Zacarias e Malaquias. Entre estes, Ageu, com
toda a clareza, nos vaticina sobre Cristo e sua Igreja nestas breves e
compendiosas palavras: ‘Isto diz o Senhor dos exércitos: dentro de pouco
tempo moverei o céu e a terra, o mar e a terra firme; moverei todas as nações
e virá o que é desejado por todas as gentes’. Esta profecia a vemos cumprida
em parte; e o que falta para cumprir, esperamos que ocorra no fim do mundo,
pois o céu já foi movido com o testemunho dos anjos e estrelas quando Cristo
encarnou; moveu a terra com o estupendo milagre do parto da Virgem; moveu
o mar e a terra firme já que nas ilhas e em todo o mundo já é pregado o nome
de Jesus Cristo; e, assim, vemos que todas as gentes estão vindo se acolher
sob a proteção da fé católica” (Livro XVIII, capítulo 35).
Veja também Conversando com amigos evangélicos sobre o tema
“ Salvação”

ROMA, UMA SEGUNDA BABILÔNIA, DESDE QUE OBSERVADO O SEU


VERDADEIRO CONTEXTO

Em vários pontos da obra, Santo Agostinho se refere à Roma pagã (não-cristã)


como uma segunda Babilônia. Abordemos cada uma delas, para analisarmos o
seu verdadeiro contexto. Uma delas encontra-se no capítulo 17 do Livro XVI:

– “Na Ásia prevaleceu o império e domínio da cidade ímpia, cuja cabeça era
Babilônia, nome muito apropriado para esta cidade terrena, pois Babilônia
significa ‘confusão’. Nela reinava Nino após a morte de seu pai, Belo, que foi o
primeiro que reinou ali por 65 anos. E seu filho Nino, falecido o pai, sucedeu no
reino e reinou 52 anos. Corria o 43º ano de seu reinado quando nasceu Abraão,
por volta do ano 1200, antes da fundação de Roma, que FOI como que uma
segunda Babilônia, mas no Ocidente” (Livro XVI, capítulo 17).

Aqui Agostinho fala de Roma, como uma segunda Babilônia, empregando


tempo “passado”, ou seja, quando esta cidade foi fundada e veio a ser – no
passado – como que uma segunda Babilônia. Observe-se que ele se refere à
Cidade de Roma, não à Igreja cristã que ali se encontra.

E no capítulo 2 do Livro XVIII:

– “Porém, os assuntos que deveríamos inserir nesta obra, para comparar


ambas as Cidades entre si, ou seja, a terrena e a celeste, o faremos melhor que
os gregos e os latinos, entre os quais se encontra a própria Roma, como que a
segunda Babilônia” (Livro XVIII, capítulo2).

E novamente no capítulo 22 do Livro XVIII:

– “Para não me deter demasiadamente, direi que a CIDADE de Roma FOI


FUNDADA como que uma segunda Babilônia; e como filha da primera Babilônia,
Deus foi servido pela conquista de todo o âmbito da terra, que foi pacificada,
reduzindo-se tudo ao governo de uma só república e sob as mesmas leis” (Livro
XVIII, capítulo 22).

Nestas três ocasiões, Santo Agostinho nada fala da Igreja [romana], mas da
cidade que logo após a sua fundação chegou a ser uma segunda Babilônia. Em
todos estes textos faz referência à Roma pagã e não à Roma cristã. Isto
concorda perfeitamente com a interpretação tradicional católica, de que a Roma
pagã perseguidora e opressora dos cristãos representava o mesmo que em
outros tempos a [antiga] Babilônia representou para o povo judeu. Nós,
católicos, cremos inclusive que, quando São Pedro em sua Epístola saúda a
partir da “Babilônia”, o faz em código para indicar que se achava em Roma.
Maior absurdo seria crer que a Igreja de Roma fosse “a prostituta”, sendo que
o próprio São Paulo não economiza elogios [para esta igreja] em suas Epístolas.

É por isso que assumir incautamente [a idéia] de que Santo Agostinho


simplesmente estaria se referindo à Igreja de Roma [como “a prostituta”],
ignorando o contexto, resultará numa imensa descontextualização de seu
pensamento. Se se conhecesse um pouco [o pensamento de Santo Agostinho]
poder-se-ia deduzir que tal raciocínio [contrário à Igreja de Roma] não é
coerente, nem faz sentido. Porém, para nos aprofundarmos um pouco mais
sobre isso, passemos para o próximo ponto.

QUAL ERA A POSIÇÃO DE SANTO AGOSTINHO ACERCA DA IGREJA DE


ROMA?

Para Santo Agostinho, em Roma encontrava-se a Sé de Pedro, confirmada pela


sucessão dos bispos; por isso, se refere a ela freqüentemente como “a Sé
Apostólica”. Assim, aos maniqueus que tinham se afastado da Igreja Católica,
escreve:

– “Ainda prescindindo da sincera e genuína sabedoria (…), que em vossa


opinião não se encontra na Igreja Católica, muitas outras razões me fazem
manter-me em seu seio: o consentimento dos povos e das gentes; a autoridade,
erigida com milagres, nutrida com a esperança, incrementada com a caridade,
confirmada pela antigüidade; a sucessão dos bispos a partir da própria sé do
apóstolo Pedro, a quem o Senhor confiou, após a ressurreição, o
apascentamento de Suas ovelhas, até o atual episcopado; e, enfim, o próprio
apelativo de ‘católica’, que não sem razão somente a Igreja alcançou (…) Estes
vínculos do nome cristão – tantos, grandiosos e dulcíssimos – mantêm o fiel no
seio da Igreja Católica, apesar de a verdade ainda não se apresentar em razão
da torpeza da nossa mente e indignidade da nossa vida” (C. ep. Man. IV,5).

E em sua Epístola 53 escreve:

– “Se a sucessão dos bispos é considerada, quanto mais certa e beneficiosa a


Igreja que reconhecemos chegar até o próprio Pedro, aquele que portou a
figura da Igreja inteira, a quem o Senhor disse: ‘Sobre esta pedra edificarei a
minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’! O sucessor de
Pedro foi Lino; e seus sucessores, em ordem de sucessão ininterrupta, foram
estes: Clemente, Anacleto, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Aniceto,
Pio, Sótero, Eleutério, Victor, Zeferino, Calisto, Urbano, Ponciano, Antero,
Fabiano, Cornélio, Lúcio, Estêvão, Sisto, Dionísio, Félix, Eutiquiano, Caio,
Marcelino, Marcelo, Eusébio, Milcíades, Silvestre, Marcos, Júlio, Libério, Dâmaso
e Sirício, cujo sucessor é, presentemente, o bispo Anastácio. Nesta ordem de
sucessão nenhum bispo donatista é encontrado” (Ep. 53,2)

Nesta epístola, Santo Agostinho é particularmente claro porque, referindo-se à


Igreja de Roma, a assinala como a que chega até o próprio Pedro e menciona,
um a um, os bispos de Roma.

Porém, se ainda restam dúvidas sobre o pensamento de Agostinho, nada mais


claro que as seguintes palavras:

– “Não é possivel crer que guardais a fé católica se não ensinais que se deve
guardar a fé romana” (Serm.120,13).

Para Santo Agostinho, a primazia da catédra apostólica residiu sempre na Igreja


de Roma:

– “…viram que Ceciliano estava unido por cartas de comunhão à Igreja romana,
na qual sempre residiu a primazia da cátedra apostólica…” (Ep 43,3,7).

Além disto, não devemos deixar passar em branco que nos conflitos com os
pelagianos, Santo Agostinho recorre à autoridade da Sé Apostólica (Roma) para
confirmar os Concílios de Cartago e Milevi (411, 412 e 416), condenando o
Pelagianismo. Eis um extrato da carta enviada por 61 bispos – inclusive Santo
Agostinho – ao papa Inocêncio:

– “Visto que Deus, por um dom especial de Sua graça, vos colocou na Sé
Apostólica e nos deu, em nossos tempos, alguém como vós, para que melhor
seja imputada a nós como falta de negliência se falhamos em mostrar a Vossa
Reverência o que se sugere à Igreja, porque podeis receber as mesmas com
desprezo ou negligência, rogamo-vos que envolvas vossa diligência pastoral
neste grande perigo para os membros débeis de Cristo (…) Ao insinuarmos
estas coisas ao vosso peito apostólico, não precisamos dizer muito e amontoar
palavras acerca desta impiedade, já que sem dúvida vos movereis com tal
sabedoria que não podereis vos abster de corrigí-las, para que não possam se
infiltrar ainda mais (…) Dizem que os autores desta perniciosa heresia são
Pelágio e Celestino que, na verdade, deveriam preferir ser curados com a Igreja
ao invés de serem desnecessariamente separados da Igreja. Dizem que um
deles, Celestino, inclusive alcançou o sacerdócio na Ásia. Sua Santidade foi
melhor informada pelo Concílio de Cartago acerca do que foi feito contra ele há
alguns anos. Pelágio – nos informam as cartas de alguns de nossos irmãos –
encontra-se em Jerusalém e dizem que vem enganando a muitos ali. Porém,
muitos mais, que puderam examinar melhor os seus pontos de vista, o estão
combatendo em nome da Fé Católica, em especial vosso santo filho, nosso
irmão e companheiro sacerdote, Jerônimo. Contudo, consideramos que com a
ajuda da misericórdia de nosso Deus, a quem rezamos para que vos aconselhe
e escute vossas preces, aqueles que mantêm estas perversas e banais opiniões
cederão mais facilmente diante da autoridade de Sua Santidade, que
recebestes a autoridade a partir das Santas Escrituras (auctoritati sanctitatis
tuae, de sanctarum scripturarum auctoritate depromptae facilius….esse
cessuros), para que possamos nos regozijar com sua correção ao invés de nos
entristecermos pela sua destruição. Porém, escolhendo eles mesmos o que
quiserem, Vossa Reverência deve considerar ao menos a necessidade de se
cuidar destes muitos que podem ser enredados por suas redes, caso não se
submetam honradamente. Escrevemos isto a Sua Santidade a partir do Concílio
da Numídia, imitando nossos companheiros bispos da Igreja e província de
Cartago, que escreveram acerca desta questão à Sé Apostólica que Sua Graça
adorna” (Epístola do Concílio de Milevi ao papa Inocêncio I).

Veja também Jesus disse que o adultério é fundamento para o


divórcio?

E assim o papa Inocêncio I confirmou as decisões dos concílios, reservando-se


o dever de citar Pelágio e Celestino, para reformar, se fosse necessário, a
sentença de Dióspolis, que condenara a doutrina incriminada em uma carta
conhecida como “In requirendis”, dirigida aos bispos que se reuniram em
Cartago e Milevi.

Santo Agostinho então escreveu para dar por finalizada a questão, já que a “Sé
Apostólica” havia se pronunciado:

– “Iam de hac causa duo concilia missa sunt ad sedem apostolicam: inde etiam
rescripta venerunt. Causa finita est, utinam aliquando finiatur error”

Que pode ser assim traduzido:

– “Por este motivo foram enviadas duas cartas à Sé Apostólica e dali vieram
dois rescritos. A causa foi encerrada, para que finalmente o erro seja encerrado”
(Sermo 131,10,10; Ep 150,7).

CONCLUSÃO

Qualquer vestígio de senso comum deveria perguntar aos fundamentalistas


partidários desse argumento: como poderia ser possível que Santo Agostinho,
se considerasse a Igreja de Roma como “Babilônia”, fosse apelar justamente a
ela em questões de fé tão importantes? Estaria talvez louco? Como então
afirma que sobre a Igreja de Roma sempre residiu o principado da cátedra
apostólica e que não guarda a fé católica quem não guarda a fé romana?
Estaria, por acaso, recomendando que se guardasse a fé babilônica e se
abraçasse o Paganismo? Por que não apenas ele, mas todos os demais bispos
dos Concílios africanos, apelaram para o Papa com uma linguagem tão
submissa e obediente? Por que escreveu aos donatistas convidando-os a
retornar à Igreja Católica, como vemos a seguir?

– “Venham, irmãos donatistas, se desejam se unir à videira. É penoso quando


vos vemos assim cortados. Numerem os sacerdotes, inclusive a partir da sé de
Pedro. E, nessa ordem, verifiquem quem os sucedeu. Essa é a pedra, a qual as
portas do inferno não podem conquistar. Todos os que se regozijam na paz
apenas julgam verdadeiramente” (Salmo contra a Cerimônia Donatista 2; ano
393; in GILES, 182)

Por que logo depois que os decretos da Igreja de Roma sobre os pelagianos
foram emitidos Santo Agostinho não perdia a oportunidade de relembrar aos
pelagianos e aos fiéis os decretos emanados por essa autoridade?

– “[Celéstio] deveria manter seu assentimento ao decreto da Sé Apostólica, o


qual foi publicado por seu predecessor de sagrada memória. O acusado, no
entanto, rejeitou condenar as objeções feitas pelo diácono; contudo, ele não se
atreveu a sustentar abertamente a carta do bendito papa Inocêncio” (Do
Pecado Origninal; ano 418; in NPNF1,V:239).

– “…ele contestou que consentiu às cartas do papa Inocêncio, de bendita


memória, pelo qual toda a dúvida acerca desta matéria foi removida” (Contra
as Duas Cartas dos Pelagianos 3,5; ano 420; in NPNF1, V:393).

Por que as cartas do papa Inocêncio, segundo Santo Agostinho, removeram


toda dúvida entre os hereges, quando estes já haviam sido condenados por
diversos Concílios africanos cheios de bispos? Se Santo Agostinho via a Igreja
Romana como Babilônia, será que teriam mais autoridade os decretos da
Babilônia que os de todos os bispos reunidos nos Concílios de Cartago e Milevi?

– “As palavras do venerável bispo Inocêncio ao Concílio de Cartago referentes a


essa matéria: o que poderia ser mais claro ou manifesto que o juízo da Sé
Apostólica?” (Contra as Duas Cartas dos Pelagianos 3,5; ano 420; in NPNF1,
V:394).

Eis aí as interrogações que devem responder honestamente aqueles que não


pretendem dar o seu braço a torcer.
Espero, com estas breves reflexões, ter contribuído para dar a conhecer o
verdadeiro contexto das palavras de Santo Agostinho e demonstrar que quando
se referia a Roma como “segunda Babilônia” estava, na verdade, se referindo à
cidade de Roma (a Roma pagã) e não à Igreja Católica Romana. Apresentar
fragmentos isolados do seu pensamento, sem o texto em seu contexto, para
insinuar que tinha posturas que jamais teve, não pode ser caracterizado senão
de desonesto.

No entanto, apesar de ter apresentado estas provas ao pastor mencionado, ele


não quis reconhecer o seu erro e ainda escutei o seguinte:

– “Se a minha resposta sobre Santo Agostinho e sua obra não te satisfez,
desculpe-me. Por isso é que sou especializado em Bíblia e não em Patrística,
porque não baseio a minha fé no que outros eminentes cristãos disseram”.

Com isto, não há como resistir à tentação de perguntar: “ENTÃO, POR QUE
QUISESTE ABRIR A BOCA???”