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Os direitos fundamentais são as posições jurídicas básicas

reconhecidas pelo direito português, europeu e internacional com vista


à defesa dos valores e interesses mais relevantes que assistem às
pessoas singulares e colectivas em Portugal, independentemente da
nacionalidade que tenham (ou até, no caso dos apátridas, de não terem
qualquer nacionalidade).
O Estado tem a obrigação respeitar os direitos fundamentais e de
tomar medidas para os concretizar, quer através de leis, quer nos
domínios administrativo e judicial. Estão obrigadas a respeitá-los tanto
as entidades privadas quanto as públicas, e tanto os indivíduos quanto
as pessoas colectivas. Mesmo os cidadãos portugueses que residam no
estrangeiro gozam da protecção do Estado para o exercício dos direitos
fundamentais, desde que isso não seja incompatível com a ausência do
país.
À luz da nossa Constituição, existem duas grandes categorias de
direitos fundamentais: os direitos, liberdades e garantias, por um lado,
e os direitos e deveres económicos, sociais e culturais, por outro. Os
primeiros — por ex., o direito à liberdade e à segurança, à integridade
física e moral, à propriedade privada, à participação política e à
liberdade de expressão, a participar na administração da justiça —
correspondem ao núcleo fundamental da vivência numa sociedade
democrática. Independentemente da existência de leis que os protejam,
são sempre invocáveis, beneficiando de um regime constitucional
específico que dificulta a sua restrição ou suspensão.
Em contraste, os direitos económicos, sociais e culturais — por exemplo,
o direito ao trabalho, à habitação, à segurança social, ao ambiente e à
qualidade de vida — são, muitas vezes, de aplicação diferida. Dependem
da existência de condições sociais, económicas ou até políticas para os
efectivar. A sua não concretização não atribui a um cidadão, em
princípio, o poder de obrigar o Estado ou terceiros a agir, nem
o direito de ser indemnizado.
Os deveres são por exemplo: - pagamento de impostos, a colaboração
com a administração da justiça, a obediência às ordens legítimas da
autoridade – são directamente exigíveis, pelo que o seu incumprimento
pode dar origem a sanções previstas na lei. Existem outros deveres,
geralmente de carácter cívico (por ex., votar), cuja falta de cumprimento
não dá lugar a qualquer sanção. Há ainda deveres que se impõem aos
cidadãos em virtude de alguma condição particular. Os magistrados e os
militares, por exemplo, estão sujeitos ao dever de isenção partidária,
enquanto os advogados e os médicos são obrigados ao sigilo
profissional.
O cumprimento dos deveres fundamentais atende, naturalmente, à
situação específica de alguns cidadãos. Por exemplo, as pessoas com
deficiência não são obrigadas ao cumprimento de deveres para que se
encontrem incapacitadas.
Tal como os direitos, é possível repartir os deveres fundamentais em
dois grandes grupos: os de carácter civil e político, e os de carácter
económico, social e cultural. Os primeiros têm como característica
principal serem deveres dos cidadãos para com o Estado: defesa da
pátria, pagamento de impostos, recenseamento eleitoral. Os segundos
visam proteger valores sociais que a Constituição entende como sendo
mais relevantes: promoção da saúde, educação dos filhos, defesa do
ambiente humano e do património cultural.
Não existe uma hierarquia formal que distinga entre direitos
fundamentais com maior ou menor valor, mas há casos óbvios em que
uns prevalecem sobre os outros.
Assim, muito poucas situações constituem justificação legal para
agredir ou matar alguém – apenas em caso de legítima defesa, por
exemplo.
Na maioria das situações, porém, a questão não é tão simples. Quando o
exercício de um direito por parte de um cidadão ameaça o direito de
outro cidadão (por exemplo, o direito de liberdade de imprensa versus o
direito à imagem) ou quando o exercício de um direito fundamental
entra em conflito (direito à liberdade versus direito à segurança), é
necessário avaliar, nas circunstâncias do caso concreto, qual deve
prevalecer. Em última instância, essa avaliação deve ser feita pelos
tribunais.
O exercício dos direitos, liberdades e garantias não pode ser suspenso
pelos órgãos de soberania, excepto em caso de estado de sítio ou de
emergência, declarados pelo Presidente da República. Essa suspensão
deve ser feita por meio de lei em que constem a respectiva extensão,
duração e meios utilizados; deve ser estritamente necessária ao pronto
restabelecimento da normalidade constitucional; e jamais poderá
afectar os direitos à vida, à integridade e à identidade pessoais, à
capacidade civil e à cidadania, bem como a não retroactividade da lei
criminal, o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de consciência e
religião.
Os direitos fundamentais que podem ser restringidos em situações de
emergência são os de expressão, reunião, manifestação, associação e
petição colectiva; a capacidade eleitoral passiva (ou seja, o direito a
candidatar-se e ser eleito para cargos públicos) dos militares e agentes
militarizados dos quadros permanentes e em serviço
efectivo, bem como dos agentes dos serviços e forças de segurança.
Os direitos fundamentais não podem ser extintos, nem mesmo em
eventuais revisões da Constituição.