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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO

MARXISMO
F. ENGELS, A. TALHEIMER, J. HARARI E L. SEGAL
Traduçaõ: Abguar Bastos e José Zacarias de Carvalho - L. Segal,
Principios de Economia Politica, Ediciones Fuente Cultural,
Mexico.
Fonte: Introdução ao Estudo do Marxismo, Editorial Calvino Ltda,
Rio de Janeiro, 1945.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo.
Direitos de Reprodução: licenciado sob uma Licença
Creative Commons.

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SUMÁRIO
DO SOCIALISMO UTÓPICO AO SOCIALISMO CIENTIFICO ................... 15
Resumo.......................................................................................... 16
I - O Socialismo Utópico ................................................................. 18
II - Dialética .................................................................................... 38
III - O Materialismo Histórico.......................................................... 51
INTRODUÇÃO AO MATERIALISMO DIALÉTICO .................................. 82
CAPÍTULO I..................................................................................... 83
O materialismo dialético, concepção do mundo moderno –
existem uma ou várias concepções do mundo moderno? ........... 83
A unidade do materialismo dialético .......................................... 84
O materialismo dialético em seu desenvolvimento histórico ...... 85
Duas correntes ideológicas fundamentais: a corrente proletária e a
corrente burguesa...................................................................... 87
CAPÍTULO II.................................................................................... 89
A religião.................................................................................... 89
O caráter fundamental da religião. ......................................... 89
Interpretação religiosa e interpretação científica dos fenômenos
da natureza. ........................................................................... 89
Principais fontes da religião. ................................................... 93
A força religiosa dos diferentes regimes sociais. ..................... 94
CAPÍTULO III................................................................................... 98
O papel social da religião............................................................ 98
A religião e suas relações com as formas sociais e de produção.
.............................................................................................. 98
O cristianismo feudal............................................................ 100

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O papel da religião na sociedade capitalista. .........................101
A burguesia revolucionária e a sua luta contra a religião e a
igreja. ....................................................................................103
A religião e a classe camponesa.............................................104
A religião e o proletariado. ....................................................105
A atitude do racionalismo e do materialismo dialético ante a
religião. .................................................................................108
O sucedâneo da religião. .......................................................109
CAPÍTULO IV .................................................................................111
A filosofia materialista na antiguidade ......................................111
Desenvolvimento da concepção do mundo moderno. ...........111
Causas da decadência da religião e do desenvolvimento da
Filosofia e das Ciências Naturais. ..........................................111
Filosofia grega da natureza e desenvolvimento das cidades
comerciais da Ásia Menor. ....................................................113
Tales de Mileto e sua tentativa de explicação materialista do
mundo. .................................................................................114
Anaximandro.........................................................................116
Heráclito. ..............................................................................117
Heráclito e as relações de classe de sua época. .....................119
O atomismo, desenvolvimento lógico do materialismo na
Antiguidade...........................................................................120
CAPÍTULO V ..................................................................................121
A filosofia idealista na antiguidade ............................................121
A filosofia idealista e suas relações com a economia
escravagista. .........................................................................121
Causas da decadência da sociedade. .....................................122

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Os cidadãos pobres, parasitas do Estado. ............................. 123
Desenvolvimento dos antagonismos sociais entre os cidadãos
livres. ................................................................................... 123
Trabalho servil, obstáculo ao progresso técnico.................... 124
Decadência da sociedade grega e sua influência sobre o
pensamento. ........................................................................ 124
CAPÍTULO VI ................................................................................ 128
A lógica e a dialética na antiguidade ......................................... 128
Platão e Aristóteles. ............................................................. 128
Objeto da lógica formal. ....................................................... 129
Importância, para ciência, da lógica formal........................... 129
As duas leis fundamentais da lógica sob o ponto de vista da
dialética. .............................................................................. 130
O princípio de contradição do ponto de vista da dialética. .... 133
A contradição do movimento local. ...................................... 133
Parábola de Aquiles e da tartaruga. ...................................... 134
A dialética do finito e do infinito e do contínuo e descontínuo.
............................................................................................ 135
Solução matemática da parábola de Aquiles e da tartaruga. . 136
Relações entre a lógica formal e a dialética. ......................... 136
A dialética materialista e a dialética idealista. ....................... 137
As raízes da dialética. ........................................................... 137
CAPÍTULO VII ............................................................................... 140
Hegel e Feuerbach ................................................................... 140
A escolástica da Idade Média................................................ 140
A filosofia burguesa moderna como forma de luta contra o
feudalismo. .......................................................................... 141

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Os objetivos principais da filosofia burguesa. ........................142
A filosofia alemã....................................................................143
Hegel e sua época. ................................................................143
Nova descoberta e aperfeiçoamento do método dialético.....144
O idealismo absoluto de Hegel. .............................................144
Negação do desenvolvimento da natureza. ...........................146
Os jovens Hegelianos e sua ruptura aberta com o cristianismo.
.............................................................................................147
O fim do conhecimento suprassensível ou da metafísica. ......148
O caráter incompleto do materialismo de Feuerbach. ...........149
CAPÍTULO VIII ...............................................................................149
Do materialismo formal ao materialismo dialético ....................149
Fontes do materialismo dialético...........................................149
Explicação materialista da história e refutação da religião e da
filosofia. ................................................................................151
A dialética materialista, resultado final do desenvolvimento do
pensamento filosófico. ..........................................................152
Teoria do conhecimento: a existência do mundo externo. .....153
Outras consequências da concepção idealista. ......................154
Relações de ser e de não ser com a consciência. ...................155
Representações subjetivas e representações objetivas. .........156
Materialidade do mundo externo. .........................................157
O pensamento e o cérebro. ...................................................157
CAPÍTULO IX..................................................................................158
A teoria materialista do conhecimento .....................................158
A variedade infinita da matéria e suas funções. .....................158

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Relações do pensamento com a realidade. ........................... 158
O ponto de vista idealista. .................................................... 159
O pensamento estudado como caso particular do sistema geral
de ação e reação recíproca das coisas. ................................. 160
Particularidades dos órgãos dos sentidos dos homens. ......... 160
Limitação dos órgãos sensoriais do homem. ......................... 162
Supressão por meio do pensamento das particularidades e
limitações dos órgãos sensoriais do homem. ........................ 162
Critério da verdade............................................................... 164
A observação e a experimentação como critério da verdade. 165
É possível um conhecimento completo ou absoluto das coisas.
............................................................................................ 166
É possível conhecer o mundo em sua totalidade? ................. 167
Existem ideias inatas? .......................................................... 168
CAPÍTULO X.................................................................................. 170
A dialética ................................................................................ 170
Principais etapas do desenvolvimento da dialética. .............. 170
Definição da dialética. .......................................................... 171
Os três princípios essenciais da dialética............................... 172
A unidade ilimitada ou absoluta e a igualdade das coisas. .... 173
Os obstáculos da dialética. ................................................... 174
A variedade ilimitada ou absoluta do antagonismo das coisas.
............................................................................................ 177
O princípio da penetração dos opostos se encontra em todo
princípio que tenha um conteúdo qualquer. ......................... 178
As fontes da primeira lei fundamental da dialética. .............. 179

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O segundo princípio fundamental da dialética: a lei da negação
da negação. ...........................................................................180
Todas as coisas implicam num processo. ...............................180
A transformação se processa através das coisas. ...................180
A negação constitui o movimento ou transformação das coisas.
.............................................................................................181
A dupla negação na linguagem. Negação e afirmação como
operações intelectuais polares. .............................................181
A aparição de um elemento novo por meio de uma dupla
negação. ...............................................................................182
Tese, antítese e síntese. ........................................................182
Duas alterações da lei da negação da negação. .....................182
Alguns exemplos. ..................................................................184
Relações entre as duas primeiras leis fundamentais da dialética.
.............................................................................................188
A terceira lei fundamental da dialética: transformação da
qualidade em quantidade e da quantidade em qualidade......188
A terceira lei fundamental da dialética não é senão um caso
particular da primeira............................................................191
CAPÍTULO XI..................................................................................193
A concepção materialista da história .........................................193
Importância da concepção materialista da história. ...............193
Diferença fundamental entre a concepção materialista e a
concepção idealista da história..............................................194
A concepção materialista da história e o senso comum. ........194
O que é modo de produção? .................................................196
A produção e a distribuição. ..................................................198

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Diferença existente entre o modo de produção e o gênero de
atividade. ............................................................................. 199
Diferença existente entre o modo de produção e a técnica. . 199
Que causas determinam o desenvolvimento do modo de
produção? ............................................................................ 200
As classes. ............................................................................ 202
CAPÍTULO XII................................................................................ 203
A luta de classes ....................................................................... 203
Divisão do trabalho social e formação das classes................. 203
O antagonismo de classes. ................................................... 204
A luta de classes. .................................................................. 205
Diferentes formas de luta de classes..................................... 206
Os objetivos da luta de classe. .............................................. 209
Consciência de classe e ideologia de classe........................... 209
Consciência de classe, verdadeira e falsa, e ilusões de classe. 210
As classes e demais agrupamentos sociais. ........................... 213
Evolução e revolução............................................................ 213
INTRODUÇÃO À ECONOMIA POLÍTICA ............................................ 216
Nota do Autor .............................................................................. 217
Primeira Parte - Considerações Preliminares ................................ 220
Capítulo I - A Evolução Econômica da Sociedade Humana ........ 221
Recapitulação do Capítulo Anterior ...................................... 226
Perguntas de Controle .......................................................... 227
Capítulo II - As Escolas Econômicas e a Verdade Científica ........ 230
A verdade é imparcial? ......................................................... 230
O caráter classista das escolas econômicas ........................... 232

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Recapitulação do Capítulo Anterior .......................................237
Perguntas de Controle...........................................................238
Capítulo III - A Escola Marxista ..................................................240
O método ..............................................................................240
Recapitulação do Capítulo Anterior .......................................244
Perguntas de Controle...........................................................245
Capítulo IV - A teoria do valor. A mais-valia ...............................247
Teorias sobre o valor .............................................................247
Dificuldade que a Economia Política burguesa tem para resolver
este problema .......................................................................250
Teoria marxista do valor ........................................................250
Análise da mercadoria ...........................................................251
Trabalho simples e trabalho complexo ..................................255
Como se determina o valor?..................................................256
O duplo caráter do trabalho expresso nas mercadorias .........256
Forma relativa e forma equivalente do valor .........................257
Forma desenvolvida de valor .................................................258
Forma geral de valor .............................................................259
A moeda ...............................................................................260
Fetichismo da mercadoria .....................................................261
Funções do dinheiro ..............................................................261
Salário ...................................................................................265
A mais-valia: fonte de lucro ...................................................265
De onde provem o lucro? ......................................................268
Recapitulação do Capítulo Anterior .......................................271
Perguntas de Controle...........................................................273

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Segunda Parte - A distribuição da mais-valia ................................ 275
Capítulo V - O Lucro ................................................................. 276
O Lucro ................................................................................ 276
De onde, se origina o lucro? ................................................. 276
De que depende a quota de lucro? ....................................... 278
A lei da tendência decrescente da quota de lucro ................. 282
A importância dessa lei ........................................................ 283
Recapitulação do Capítulo Anterior ...................................... 283
Perguntas de Controle .......................................................... 284
Capítulo VI - Duas Palavras Sobre o Lucro Comercial ................ 287
Recapitulação do Capítulo Anterior ...................................... 289
Perguntas de Controle.......................................................... 290
Capítulo VII - Os Juros .............................................................. 291
I ........................................................................................... 291
De onde provém o capital dos Bancos? ................................ 291
II .......................................................................................... 298
De onde provém o dinheiro com que se pagam os juros dos
Bancos?................................................................................ 298
Recapitulação do Capítulo Anterior ...................................... 300
Perguntas de Controle .......................................................... 301
Capítulo VIII - A Renda Territorial ............................................. 303
A renda diferencial ............................................................... 305
De onde provém essa diferença?.......................................... 308
Com quem fica esse lucro suplementar, dessa renda territorial
diferencial? .......................................................................... 309
A renda diferencial II ............................................................ 311

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Demonstraremos agora a falsidade dessa pretensa "lei". ......312
De onde se origina a renda diferencial? .................................315
A renda absoluta ...................................................................316
Por que não acontece o mesmo na agricultura? ....................317
A renda territorial e o preço do produto da agricultura .........317
O preço do solo .....................................................................318
Tendência à elevação da renda em relação com o
desenvolvimento capitalista ..................................................319
A renda na pequena exploração camponesa .........................320
A renda diferencial na pequena exploração agrícola. .............321
Existe, nesse caso, renda diferencial? ....................................322
A renda absoluta na pequena agricultura ..............................322
Recapitulação do Capítulo Anterior .......................................323
Perguntas de Controle...........................................................325
Terceira Parte - A Concentração do Capital ...................................327
Capítulo IX - A Concentração do Capital. O Imperialismo ...........328
A concentração nacional do capital .......................................328
Concentração internacional do capital ..................................330
Que significa o imperialismo? ................................................332
Recapitulação do Capítulo Anterior .......................................332
Perguntas de Controle...........................................................333
Quarta Parte - As Crises ................................................................334
Capítulo X - As Teorias das Crises ..............................................335
A que se devem as crises? .....................................................337
Teorias burguesas sobre a crise .............................................337
Teoria da desproporcionalidade ............................................340

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Teoria do "deficit" de consumo ............................................ 340
A teoria marxista sobre as crises .......................................... 341
Por que se verifica periodicamente o fenômeno da
superprodução? ................................................................... 342
A crise geral do capitalismo .................................................. 344
Recapitulação do Capítulo Anterior ...................................... 345
Perguntas de Controle .......................................................... 346
Palavras Finais.......................................................................... 348
O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DA SOCIEDADE ...................... 349
O Desenvolvimento Econômico da Sociedade .............................. 350
Perguntas de Controle .......................................................... 352
1. O Comunismo Primitivo ........................................................... 354
A decomposição do comunismo primitivo ................................ 357
A primeira divisão da sociedade em classes .............................. 358
Perguntas de Controle .......................................................... 362
2. A Escravidão............................................................................. 365
A decadência da escravidão ..................................................... 369
Perguntas de Controle .......................................................... 374
3. O Feudalismo ........................................................................... 377
A decadência do feudalismo..................................................... 381
Perguntas de Controle .......................................................... 384
4. O Capitalismo........................................................................... 388
A contradição entre as forças produtivas e as relações da
produção ................................................................................. 390
Perguntas de Controle .......................................................... 392

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DO SOCIALISMO UTÓPICO AO
SOCIALISMO CIENTIFICO
FRIEDERICH ENGELS

1880

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RESUMO
Entre as melhores explicações do Marxismo escritas por Marx
e Engels. Engels escreveu esta brochura baseado em partes do
Anti-Dúhring com o intuito de prover os trabalhadores com uma
exposição simples e concisa do pensamento Marxista.

Nas três secções da brochura, Engels explica os três


componentes do pensamento Marxista: o Socialismo Francês, A
Filosofia Germânica e a Economia Inglesa. Na primeira parte do
"panfleto" Engels explica que o Socialismo do passado tinha sido
utópico - mantendo a crença em quando numa a sociedade todos
o compreendessem e nele acreditassem, a pareceria uma
sociedade Socialista. Engels escreveu, "... Os Utópicos tentaram
evoluir a partir do cérebro humano. A sociedade apresentaria
apenas erros; eliminá-los erta tarefa da razã. Era então necessário
descobrir um novo e mais perfeito sistema de ordem social e impô-
la à sociedade a partir de fora com propaganda, e, sempre que
possível, pelo exemplo de experiências modelo."

Engels explica em seguida o lento desenvolvimento histórico


da dialética filosófica através de milhares de anos; conhecimento
que culminou no que permitiu a Marx ver e explicar a concepção
materialista da história, a qual Engels explica na terceira parte da
brochura.

Sobre a publicação da edição inglesa da brochura Engels


escreveu:

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A pedido do meu amigo Paul Lafargue, agora representante
de Lille na câmara de deputados francesa, organisei os três
capitulos desta brochura que ele traduziu e publicou em 1880 sob
o titulo "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Cientifico". A partir
deste texto em francês forma preparadas edições em Ppolaco e
espanhol. Em 1883, os nossos amigos alemães devolveram este
texto à lingua original. Desde então, com base no texto alemão,
foram publicadas traduções para Italiano, Russo, Holandês e
Romêno. Desta forma, contando com a presente edição em Inglês,
este pequeno livro circula já em 10 linguas. Não tenho
conhecimento de que qualquer outro trabalho socialista, nem
mesmo o nosso Manifesto Comunista de 1848, ou o Capital de
Marx tenham tido tantas traduções. Em alemão, já houve quatro
edições com um total de cerca de 20 000 cópias.

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I - O SOCIALISMO UTÓPICO
O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu
conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos
antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre
possuidores e despossuidos, capitalistas e operários assalariados,
e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma
teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma
continuação, mais desenvolvida e mais conseqüente, dos princípios
proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII.
Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes
nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às
Idéias existentes.

Os grandes homens que, na França, iluminaram os cérebros


para a revolução que se havia de desencadear, adotaram uma
atitude resolutamente revolucionária. Não reconheciam
autoridade exterior de nenhuma espécie. A religião, a concepção
da natureza, a sociedade, a ordem estatal: tudo eles submetiam à
crítica mais impiedosa; tudo quanto existia devia justificar os títulos
de sua existência ante o foro da razão, ou renunciar a continuar
existindo. A tudo se aplicava como rasoura única a razão pensante.
Era a época em que, segundo Hegel, "o mundo girava sobre a
cabeça" (1), primeiro no sentido de que a cabeça humana e os
princípios estabelecidos por sua especulação reclamavam o direito
de ser acatados como base de todos os atos humanos e toda
relação social, e logo também, no sentido mais amplo de que a
realidade que não se ajustava a essas conclusões se via subvertida,
de fato, desde os alicerces até à cumieira. Todas as formas
anteriores de sociedade e de Estado, todas as leis tradicionais,

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foram atiradas no monturo como irracionais; até então o mundo se
deixara governar por puros preconceitos; todo o passado não
merecia senão comiseração e desprezo, Só agora despontava a
aurora, o reino da razão; daqui por diante a superstição, a injustiça,
o privilégio e a opressão seriam substituídos pela verdade eterna,
pela eterna justiça, pela igualdade baseada na natureza e pelos
direitos Inalienáveis do homem.

Já sabemos, hoje, que esse império da razão não era mais que
o império idealizado pela burguesia; que a justiça eterna tomou
corpo na justiça burguesa; que a igualdade se reduziu à igualdade
burguesa em face da lei; que como um dos direitos mais essenciais
do homem foi proclamada a propriedade burguesa; e que o Estado
da razão, o "contrato social" de Rousseau, pisou e somente podia
pisar o terreno da realidade, convertido na república democrática
burguesa. Os grandes pensadores do século XVIII, como todos os
seus Predecessores, não podiam romper as fronteiras que sua
própria época lhes impunha.

Mas, ao lado do antagonismo entre a nobreza feudal e a


burguesia, que se erigia em representante de todo o resto da
sociedade, mantinha-se de pé o antagonismo geral entre
exploradores e explorados, entre ricos gozadores e pobres que
trabalhavam. E esse fato exatamente é que permitia aos
representantes da burguesia arrogar-se a representação, não de
uma classe determinada, mas de toda a humanidade sofredora.
Mais ainda: desde o momento mesmo em que nasceu, a burguesia
conduzia em suas entranhas sua própria antítese, pois os
capitalistas não podem existir sem os operários assalariados, e na
mesma proporção em que os mestres de ofícios das corporações

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medievais se convertiam em burgueses modernos, os oficiais e os
jornaleiros não agremiados transformavam-se em proletários. E se,
em termos gerais, a burguesia podia arrogar-se o direito de
representar, em suas lutas com a nobreza, além dos seus
Interesses, os das diferentes classes trabalhadoras da época, ao
lado de todo grande movimento burguês que se desatava,
eclodiam movimentos independentes daquela classe que era o
precedente mais ou menos desenvolvido do proletariado
moderno. Tal foi na época da Reforma e das guerras camponesas
na Alemanha. a tendência dos anabatistas e de Thomas Münzer; na
grande Revolução Inglesa, os "levellers"(2), e na Revolução
Francesa, Babeuf. Essas sublevações revolucionárias de uma classe
incipiente são acompanhadas, por sua vez, pelas correspondentes
manifestações teóricas: nos séculos XVI e XVII (3) aparecem as
descrições utópicas de um regime ideal da sociedade; no século
XVIII, teorias já abertamente comunistas, como as de Morelly e
Mably. A reivindicação da igualdade não se limitava aos direitos
políticos, mas se estendia às condições sociais de vida de cada
indivíduo; já não se tratava de abolir os privilégios de classe, mas
de destruir as próprias diferenças de classe. Um comunismo
ascético, ao modo espartano, que renunciava a todos os gozos da
vida: tal foi a primeira forma de manifestação da nova teoria. Mais
tarde vieram os três grandes utopistas: Saint-Simon, em que a
tendência continua ainda a se afirmar, até certo ponto, junto à
tendência proletária; Fourier e Owen, este último, num pais onde
a produção capitalista estava mais desenvolvida e sob a impressão
engendrada por ela, expondo em forma sistemática uma série de
medidas orientadas rio sentido de abolir as diferenças de classe,
em relação direta com o materialismo francês.

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Traço comum aos três é que não atuavam como
representantes dos interesses do proletariado, que entretanto
surgira como um produto histórico. Da mesma maneira que os
enciclopedistas, não se propõem emancipar primeiramente uma
classe determinada, mas, de chofre, toda a humanidade. E assim
como eles, pretendem instaurar o império da razão e da justiça
eterna. Mas entre o seu império e o dos enciclopedistas medeia um
abismo. Também o mundo burguês, instaurado segundo os
princípios dos enciclopedistas, é Injusto e irracional e merece,
portanto, ser jogado entre os trastes inservíveis, tanto quanto o
feudalismo e as formas sociais que o antecederam. Se até agora a
verdadeira razão e a verdadeira justiça não governaram o mundo é
simplesmente porque ninguém soube penetrar devidamente
nelas. Faltava o homem genial, que agora se ergue ante a
humanidade com a verdade, por fim descoberta. O fato de que esse
homem tenha aparecido agora, e não antes, o fato de que a
verdade tenha sido por fim descoberta agora, e não antes, não é,
segundo eles, um acontecimento inevitável, imposto pela
concatenação do desenvolvimento histórico, e sim porque o
simples acaso assim o quis. Poderia ter aparecido quinhentos anos
antes, poupando assim à humanidade quinhentos anos de erros,
de lutas e de sofrimentos.

Vimos como os filósofos franceses do século XVIII, que


abriram o caminho à revolução, apelavam para a razão como o juiz
único de tudo o que existe. Pretendia-se instaurar um Estado
racional, uma sociedade ajustada à razão, e tudo quanto
contradissesse a razão eterna deveria ser rechaçado sem nenhuma
piedade. Vimos também que, em realidade, essa razão não era

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mais que o senso comum do homem idealizado da classe média
que, precisamente então, se convertia em burguês. Por isso,
quando a Revolução Francesa empreendeu a construção dessa
sociedade e desse Estado da razão, redundou que as novas
instituições, por mais racionais que fossem em comparação com as
antigas, distavam bastante da razão absoluta. O Estado da razão
falira completamente. O contrato social de Rousseau tomara corpo
na época do terror, e a burguesia, perdida a fé em sua própria
habilidade política, refugiou-se, primeiro na corrupção do Diretório
e, por último, sob a égide do despotismo napoleônico. A prometida
paz eterna convertera-se numa interminável guerra de conquistas.
Tampouco teve melhor sorte a sociedade da razão. O antagonismo
entre pobres e ricos, longe de dissolver-se no bem-estar geral,
aguçara-se com o desaparecimento dos privilégios das corporações
e outros, que estendiam uma ponte sobre ele, e os
estabelecimentos eclesiásticos de beneficência, que o atenuavam.
A "liberação da propriedade" dos entraves feudais, que agora se
convertia em realidade, vinha a ser para o pequeno burguês e o
pequeno camponês a liberdade de vender a esses mesmos
poderosos senhores sua pequena propriedade, esgotada pela
esmagadora concorrência do grande capital e da grande
propriedade latifundiária; com o que se transformava na
"liberação" do pequeno burguês e do pequeno camponês de toda
propriedade. O ascenso da indústria sobre bases capitalistas
converteu a pobreza e a miséria das massas trabalhadoras em
condição de vida da sociedade. O pagamento à vista transformava-
se, cada vez mais, segundo a expressão de Carlyle, no único elo que
unia a sociedade. A estatística criminal crescia de ano para ano. Os
vícios feudais, que até então eram exibidos impudicamente, à luz

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do dia, não desapareceram, mas se recolheram, por um momento,
um pouco ao fundo do cenário; em troca, floresciam
exuberantemente os vícios burgueses, até então superficialmente
ocultos. O comércio foi degenerando, cada vez mais, em trapaça. A
"fraternidade" do lema revolucionário tomou corpo nas
deslealdades e na inveja da luta de concorrência. A opressão
violenta cedeu lugar à corrupção, e a espada, como principal
alavanca do poder social, foi substituída pelo dinheiro. O direito de
pernada (4) passou do senhor feudal ao fabricante burguês. A
prostituição desenvolveu-se em proporções até então
desconhecidas. O próprio casamento continuou sendo o que já era:
a forma reconhecida pela lei, o manto com que se cobria a
prostituição, completado ademais com uma abundância de
adultérios. Numa palavra, comparadas com as brilhantes
promessas dos pensadores, as Instituições sociais e políticas
instauradas pelo "triunfo da razão" redundaram em tristes e
decepcionantes caricaturas. Faltavam apenas os homens que
pusessem em relevo o desengano, e esses homens surgiram nos
primeiros anos do século XIX. Em 1802, vieram à luz as Cartas de
Genebra de Saint-Simon; em 1808, Fourier publicou a sua primeira
obra, embora as bases de sua teoria datassem já de 1799; a 1.0 de
janeiro de 1800, Robert Owen assumiu a direção da empresa de
New Lanark.

No entanto, naquela época, o modo capitalista de produção,


e com ele o antagonismo entre a burguesia e o proletariado,
achava-se ainda muito pouco desenvolvido. A grande indústria, que
acabava de nascer na Inglaterra, era ainda desconhecida na França.
E só a grande indústria desenvolve, de uma parte, os conflitos que

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 23


transformam numa necessidade Imperiosa a subversão do modo
de produção e a eliminação de seu caráter capitalista - conflitos que
eclodem não só entre as classes engendradas por essa grande
indústria, mas também entre as forças produtivas e as formas de
distribuição por ela criadas - e, de outra parte, desenvolve também
nessas gigantescas forças produtivas os meios para solucionar
esses conflitos. Às vésperas do século XIX, os conflitos que
brotavam da nova ordem social mal começavam a desenvolver-se,
e menos ainda, naturalmente, os meios que levam à sua solução.
Se as massas despossuídas de Paris conseguiram dominar por um
momento o poder durante o regime de terror, e assim levar ao
triunfo a revolução burguesa, Inclusive contra a burguesia, foi só
para demonstrar até que ponto era impossível manter por muito
tempo esse poder nas condições da época. O proletariado, que
apenas começava a destacar-se no seio das massas que nada
possuem, como tronco de uma nova classe, totalmente incapaz
ainda para desenvolver uma ação política própria, não
representava mais que um estrato social oprimido, castigado,
incapaz de valer-se por si mesmo. A ajuda, no melhor dos casos,
tinha que vir de fora, do alto.

Essa situação histórica Informa também as doutrinas dos


fundadores do socialismo. Suas teorias incipientes não fazem mais
do que refletir o estado Incipiente da produção capitalista, a
incipiente condição de classe. Pretendia-se tirar da cabeça a
solução dos problemas sociais, latentes ainda nas condições
econômicas pouco desenvolvidas da época. A sociedade não
encerrava senão males, que a razão pensante era chamada a
remediar.

24 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Tratava-se, por isso, de descobrir um sistema novo e mais
perfeito de ordem social, para implantá-lo na sociedade vindo de
fora, por meio da propaganda e, sendo possível, com o exemplo,
mediante experiências que servissem de modelo. Esses novos
sistemas sociais nasciam condenados a mover-se no reino da
utopia; quanto mais detalhados e minuciosos fossem, mais tinham
que degenerar em puras fantasias.

Assentado isso, não há por que nos determos nem um


momento mais nesse aspecto, já definitivamente incorporado ao
passado. Deixemos que os trapeiros literários revolvam
solenemente nessas fantasias, que parecem hoje provocar o riso,
para ressaltar sobre o fundo desse "cúmulo de disparates" a
superioridade de seu raciocínio sereno. Quanto a nós, admiramos
os germes geniais de idéias e as idéias geniais que brotam por toda
parte sob essa envoltura de fantasia que os filisteus são incapazes
de ver.

Saint-Simon era filho da grande Revolução Francesa, que


estalou quando ele não contava ainda trinta anos. A. Revolução foi
o triunfo do terceiro estado, isto é, da grande massa ativa da nação,
a cujo cargo corriam a produção e o comércio, sobre os estados até
então ociosos e privilegiados da sociedade: a nobreza e o clero.
Mas logo se viu que o triunfo do terceiro estado não era mais que
o triunfo de uma parte multo pequena dele, a conquista do poder
político pelo setor socialmente privilegiado dessa classe: a
burguesia possuidora. Essa burguesia desenvolvia-se rapidamente
já no processo da revolução, especulando com as terras
confiscadas e logo vendidas da aristocracia e da Igreja, e lesando a
nação por meio das verbas destinadas ao exército. Foi

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 25


precisamente o governo desses negocistas que, sob o Diretório,
levou à França e a Revolução à beira da ruína, dando com isso a
Napoleão o pretexto para o golpe de Estado. Por isso, na idéia de
Saint-Simon, o antagonismo entre o terceiro estado e os estados
privilegiados da sociedade tomou a forma de um antagonismo
entre "trabalhadores" e "ociosos". Os "ociosos" eram não só os
antigos privilegiados, mas todos aqueles que viviam de suas rendas,
cem intervir na produção nem no comércio. No conceito de
"trabalhadores" não entravam somente os operários assalariados,
mas também os fabricantes, os comerciantes e os banqueiros. Que
os ociosos haviam perdido a capacidade para dirigir
espiritualmente e governar politicamente era um fato
Indisfarçável, selado em definitivo pela Revolução. E, para Saint-
Simon, as experiências da época do terror haviam demonstrado,
por sua vez, que os descamisados não possuíam tampouco essa
capacidade. Então, quem haveria de dirigir e governar? Segundo
Saint-Simon, a ciência e a indústria, unidas por um novo laço
religioso, um "novo cristianismo", forçosamente místico e
rigorosamente hierárquico, chamado a restaurar a unidade das
idéias religiosas, destruída desde a Reforma. Mas a ciência eram os
sábios acadêmicos; e a indústria eram, em primeiro lugar, os
burgueses ativos, os fabricantes, os comerciantes, os banqueiros. E
embora esses burgueses tivessem de transformar-se numa espécie
de funcionários públicos, de homens da confiança de toda a
sociedade, sempre conservariam frente aos operários uma posição
autoritária e economicamente privilegiada. Os banqueiros seriam
os chamados em primeiro lugar para regular toda a produção social
por meio de uma regulamentação do crédito. Esse modo de
conceber correspondia perfeitamente a uma época em que a

26 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


grande indústria, e com ela o antagonismo entre a burguesia e o
proletariado, mal começava a despontar na França. Mas Saint-
Simon insiste muito especialmente neste ponto: o que o preocupa,
sempre e em primeiro lugar, é a sorte da "classe mais numerosa e
mais pobre" ela sociedade ("la classe la plus nombreuse et la plus
paurre").

Em suas Cartas de Genebra, Saint-Simon formula a tese de


que "todos os homens devem trabalhar". Na mesma obra já se
expressa a Idéia de que o reinado do terror era o governo das
massas despossuídas. "Vede - grita-lhes - o que se passou na França
quando vossos camaradas subiram ao poder: provocaram a fome".
Mas conceber a Revolução Francesa como urna luta de classes, e
não só entre a nobreza e a burguesia, mas entre a nobreza, a
burguesia e os despossuídos, era, em 1802, uma descoberta
verdadeiramente genial.

Em 1816, Saint-Simon declara que a política é a ciência da


produção e prediz já a total absorção da política pela economia. E
se aqui não faz senão aparecer em germe a idéia de que a situação
econômica é a base das instituições políticas, proclama já
claramente a transformação do governo político sobre os homens
numa administração das coisas e na direção dos processos da
produção, que não é senão a idéia da "abolição do Estado", que
tanto alarde levanta ultimamente. E, elevando-se ao mesmo plano
de superioridade sobre os seus contemporâneos, declara, em
1814, imediatamente, depois da entrada das tropas coligadas em
Paris, e reitera em 1815, durante a Guerra dos Cem Dias, que a
aliança da França com a Inglaterra e, em segundo lugar, a destes
países com a Alemanha é a única garantia do desenvolvimento

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 27


próspero e da paz na Europa. A fim de aconselhar aos franceses de
1815 uma aliança com os vencedores de Waterloo era necessário
possuir tanto valentia quanto capacidade para ver longe na
história.

O que em Saint-Simon é amplitude genial de visão, que lhe


permite conter já, em germe, quase todas as Idéias não
estritamente econômicas dos socialistas posteriores, em Fourier é
a critica engenhosa autenticamente francesa, mas nem por isso
menos profunda, das condições sociais existentes. Fourier pega a
burguesia pela palavra, por seus inflamados profetas de antes e
seus Interesseiros aduladores de depois da revolução. Põe a nu,
impiedosamente, a miséria material e moral do mundo burguês, e
a compara com as fascinantes promessas dos velhos
enciclopedistas, com a imagem que eles faziam da sociedade em
que a razão reinaria sozinha, de urna civilização que faria felizes
todos os homens e de uma ilimitada capacidade humana de
perfeição. Desmascara as brilhantes frases dos ideólogos
burgueses da época, demonstra como a essas frases
grandiloqüentes corresponde, por toda parte, a mais cruel das
realidades e derrama sua sátira mordaz sobre esse ruidoso fracasso
da fraseologia. Fourier não é apenas um crítico; seu espírito sempre
jovial faz dele um satírico, um dos maiores satíricos de todos os
tempos. A especulação criminosa desencadeada com o refluxo da
onda revolucionária e o espírito mesquinho do comércio francês
naqueles anos aparecem pintados em suas obras com traços
magistrais e encantadores. Mas é ainda mais magistral nele a crítica
das relações entre os sexos e da posição da mulher na sociedade
burguesa. É ele o primeiro a proclamar que o grau de emancipação

28 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


da mulher numa sociedade é o barômetro natural pelo qual se
mede a emancipação geral. Contudo, onde mais sobressai Fourier
é na maneira como concebe a história da sociedade. Fourier divide
toda a história anterior em quatro fases ou etapas de
desenvolvimento:o selvagismo, a barbárie, o patriarcado e a
civilização, esta última fase coincidindo com o que chamamos hoje
sociedade burguesa, isto é, com o regime social implantado desde
o século XVI, e demonstra que a "ordem civilizada eleva a uma
forma complexa, ambígua, equívoca e hipócrita todos aqueles
vícios que a barbárie praticava em meio à maior simplicidade". Para
ele a civilização move-se num "círculo vicioso", num ciclo de
contradições, que reproduz constantemente sem poder superá-las,
conseguindo sempre precisamente o contrário do que deseja ou
alega querer conseguir. E assim nos encontramos, por exemplo,
com o fato de que "na civilização, a pobreza brota da própria
abundância". Como se vê, Fourier maneja a dialética com a mesma
mestria de seu contemporâneo Hegel. Diante dos que enchem a
boca falando da ilimitada capacidade humana de perfeição, põe em
relevo, com Igual dialética, que toda fase histórica tem sua vertente
ascensional, mas também sua ladeira descendente, e projeta essa
concepção sobre o futuro de toda a humanidade. E assim como
Kant Introduziu na ciência da natureza o desaparecimento futuro
da Terra, Fourier introduz em seu estudo da história a idéia do
futuro desaparecimento da humanidade.

Enquanto o vendaval da revolução varria o solo da França,


desenvolvia-se na Inglaterra um processo revolucionário, mas
tranqüilo, porém nem por isso menos poderoso. O vapor e as
máquinas-ferramenta converteram a manufatura na grande

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 29


indústria moderna, revolucionando com Isso todos os
fundamentos da sociedade burguesa. O ritmo vagaroso do
desenvolvimento do período da manufatura converteu-se num
verdadeiro período de luta e embate da produção. Com uma
velocidade cada vez mais acelerada, ia-se dando a divisão da
sociedade em grandes capitalistas e proletários que nada possuem
e, entre eles, em lugar da antiga classe média tranqüila e estável,
uma massa Instável de artesãos e pequenos comerciantes, a parte
mais flutuante da população, levava unia existência sem nenhuma
segurança. O novo modo de produção apenas começava a galgar a
vertente ascensional; era ainda o modo de produção normal,
regular, o único possível, naquelas circunstâncias. E no entanto deu
origem a toda uma série de graves calamidades sociais:
amontoamento, nos bairros mais sórdidos das grandes cidades, de
uma população arrancada do seu solo; dissolução de todos os laços
tradicionais dos costumes, da submissão patriarcal e da família;
prolongação abusiva do trabalho, que sobretudo entre as mulheres
e as crianças assumia proporções aterradoras; desmoralização em
massa da classe trabalhadora, lançada de súbito a condições de
vida totalmente novas - do campo para a cidade, da agricultura
para a indústria, de uma situação estável para outra
contentemente variável e insegura. Em tais circunstâncias, ergue-
se como reformador um fabricante de 29 anos, um homem cuja
pureza quase infantil tocava às raias do sublime e que era, ao lado
disso, um condutor de homens como poucos. Roberto Owen
assimilara os ensinamentos dos filósofos materialistas do século
XVIII, segundo os quais o caráter do homem é, de um lado, produto
de sua organização Inata e, de outro, fruto das circunstâncias que
envolvem o homem durante. sua vida, sobretudo durante o

30 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


período de seu desenvolvimento. A maioria dos homens de sua
classe não via na revolução industrial senão caos e confusão, uma
ocasião propícia para pescar no rio revolto e enriquecer depressa.
Owen, porém, viu nela o terreno adequado para pôr em prática a
sua tese favorita, Introduzindo ordem no caos. Já em Manchester,
dirigindo uma fábrica de mais de 500 operários, tentara, não sem
êxito, aplicar praticamente a sua teoria. De 1800 a 1829 orientou
no mesmo sentido, embora com maior liberdade de iniciativa e
com um êxito que lhe valeu fama na Europa, a grande fábrica de
fios de algodão de New Lanark, na Escócia, da qual era sócio e
gerente. Uma população operária que foi crescendo
paulatinamente até 2 500 almas, recrutada a principio entre os
elementos mais heterogêneos, a maioria dos quais muito
desmoralizados, converteu-se em suas mãos numa colônia-
modelo, na qual não se conheciam a embriaguez, a policia, os juizes
de paz, os processos, os asilos para pobres nem a beneficência
pública Para Isso bastou, tão somente, colocar seus operários em
condições mais humanas de vida, consagrando um cuidado
especial à educação da prole. Owen foi o criador dos jardins-de-
infância, que funcionaram pela primeira vez em New Lanark. As
crianças eram enviadas às escolas desde os dois anos, e nelas se
sentiam tão bem que só com dificuldade eram levadas para casa.
Enquanto nas fábricas de seus concorrentes os operários
trabalhavam treze e quatorze horas diárias, em New Lanark a
jornada de trabalho era de dez horas e meia. Quando uma crise
algodoeira obrigou o fechamento da fábrica por quatro meses, os
operários de New Lanark, que ficaram sem trabalho, continuaram
recebendo suas diárias Integrais. E contudo a empresa

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 31


incrementara ao dobro o seu valor e rendeu a seus proprietários,
até o último dia, enormes lucros.

Owen, entretanto, não estava satisfeito com o que


conseguira. A existência que se propusera dar a seus operários
distava muito ainda de ser, a seus olhos, uma existência digna de
um ser humano. "Aqueles homens eram meus escravos". As
circunstâncias relativamente favoráveis em que os colocara
estavam ainda muito longe de permitir-lhes desenvolver
racionalmente e em todos os aspectos o caráter e a inteligência, e
muito menos desenvolver livremente suas energias. "E, contudo, a
parte produtora daquela população de 2500 almas dava à
sociedade uma soma de riqueza real que, apenas meio século
antes, teria exigido o trabalho de 600 000 homens juntos. Eu me
perguntava: onde vai parar a diferença entre a riqueza consumida
por essas 2 500 pessoas e a que precisaria ser consumida pelas 600
000?" A resposta era clara: essa diferença era invertida em abonar
os proprietários da empresa com 5 por cento de juros sobre o
capital de instalação, ao qual vinham somar-se mais de 300 000
libras esterlinas de lucros. E o caso de New Lanark era, só que em
proporções maiores, o de todas as fábricas da Inglaterra. "Sem essa
nova fonte de riqueza criada pelas máquinas, teria sido impossível
levar adiante as guerras travadas para derrubar Napoleão e manter
de pé os princípios da sociedade aristocrática. E, no entanto, esse
novo poder era obra da classe operária." (5) A ela deviam pertencer
também, portanto, os seus frutos. As novas e gigantescas forças
produtivas, que até ali só haviam servido para que alguns
enriquecessem e as massas fossem escravizadas, lançavam,
segundo Owen, as bases para uma reconstrução social e estavam

32 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


fadadas a trabalhar somente para o bem-estar coletivo, como
propriedade coletiva de todos os membros da sociedade.

Foi assim, por esse caminho puramente prático - resultado,


por dizê-lo, dos cálculos de um homem de negócios que surgiu o
comunismo oweniano, conservando sempre esse caráter prático
Assim, em 1823, Owen propõe um sistema de colônias comunistas
para combater a miséria reinante na Irlanda e apresenta, em apoio
de sua proposta, um orçamento completo de despesas de
instalação, desembolsos anuais e rendas prováveis. E assim
também em seus planos definitivos da sociedade do futuro, os
detalhes técnicos são calculados com um domínio tal da matéria,
Incluindo até projetos, desenhos de frente, de perfil e do alto que,
uma vez aceito o método oweniano de reforma da sociedade,
pouco se poderia objetar, mesmo um técnico experimentado,
contra os pormenores de sua organização.

O avanço para o comunismo constitui um momento crucial


na vida de Owen. Enquanto se limitara a atuar só como filantropo,
não colhera senão riquezas, aplausos, honra e fama. Era o homem
mais popular da Europa Não só os homens de sua classe e posição
social, mas também os governantes e os príncipes o escutavam e o
aprovavam. No momento, porém, em que formulou suas teorias
comunistas, virou-se a página. Eram precisamente três grandes
obstáculos os que, segundo ele, se erguiam em seu caminho da
reforma social: a propriedade privada, a religião e a forma atual do
casamento. E não ignorava ao que se expunha atacando-os: à
execração de toda a sociedade oficial e à perda de sua posição
social. Mas isso não o deteve em seus ataques implacáveis contra
aquelas instituições, e ocorreu o que ele previa. Desterrado pela

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 33


sociedade oficial, ignorado completamente pela imprensa,
arruinado por suas fracassadas experiências comunistas na
América, às quais sacrificou toda a sua fortuna, dirigiu-se à classe
operária, no seio da qual atuou ainda durante trinta anos. Todos os
movimentos sociais, todos os progressos reais registrados na
Inglaterra em interesse da classe trabalhadora, estão ligados ao
nome de Owen. Assim, em 1819, depois de cinco anos de grandes
esforços, conseguiu que fosse votada a primeira lei limitando o
trabalho da mulher e da criança nas fábricas. Foi ele quem presidiu
o primeiro congresso em que as trade-unions de toda a Inglaterra
fundiram-se numa grande organização sindical única. E foi também
ele quem criou, como medidas de transição, para que a sociedade
pudesse organizar-se de maneira integralmente comunista, de um
lado, as cooperativas de consumo e de produção - que serviram,
pelo menos, para demonstrar na prática que o comerciante e o
fabricante não são Indispensáveis -, e de outro lado, os mercados
operários, estabelecimentos de troca dos produtos do trabalho por
meio de bonus de trabalho e cuja unidade é a hora de trabalho
produzido; esses estabelecimentos tinham necessariamente que
fracassar, mas se antecipam multo aos bancos proudhonianos de
troca, diferenciando-se deles somente em que não pretendem ser
a panacéia universal para todos os males sociais, mas pura e
simplesmente um primeiro passo para uma transformação multo
mais radical da sociedade.

As concepções dos utopistas dominaram durante muito


tempo as idéias socialistas do século XIX, e em parte ainda hoje as
dominam. Rendiam-lhes homenagens, até há muito pouco tempo,
todos os socialistas franceses e Ingleses e a eles se deve também o

34 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


incipiente comunismo alemão, incluindo Weitling. Para todos eles,
o socialismo é a expressão da verdade absoluta, da razão e da
justiça, e é bastante revelá-lo para, graças à sua virtude, conquistar
o mundo. E, como a verdade absoluta não está sujeita a condições
de espaço e de tempo nem ao desenvolvimento histórico da
humanidade, só o acaso pode decidir quando e onde essa
descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade
absoluta, a razão e a justiça variam com os fundadores de cada
escola; e como o caráter específico da verdade absoluta, da razão
e da justiça está condicionado, por sua vez, em cada um deles, pela
Inteligência pessoal, condições de vida, estado de cultura e
disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas
a única solução é que elas vão acomodando-se umas às outras. E,
assim, era inevitável que surgisse uma espécie de socialismo
eclético e medíocre, como o que, com efeito, continua imperando
ainda nas cabeças da maior parte dos operários socialistas da
França e da Inglaterra: uma mistura extraordinariamente variegada
e cheia de matizes, compostas de desabafes críticos, princípios
econômicos e as imagens sociais do futuro menos discutíveis dos
diversos fundadores de seitas, mistura tanto mais fácil de compor
quanto mais os ingredientes individuais iam perdendo, na torrente
da discussão, os seus contornos sutis e agudos, como as pedras
limadas pela corrente de um rio. Para converter o socialismo em
ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da
realidade.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 35


Notas:

(1) É a seguinte a passagem de Hegel referente à Revolução


Francesa: "A Idéia, o conceito de direito, fez-se valer de chofre, sem
que lhe pudesse opor qualquer resistência a velha armação da
Injustiça. Sobre a idéia do direito baseou-se agora, portanto, uma
Constituição, e sobre esse fundamento deve basear-se tudo mais
no futuro. Desde que o Sol ilumina o firmamento e os planetas
giram em torno daquele ninguém havia percebido que o homem se
ergue sobre a cabeça, isto é, sobre a idéia, construindo de acordo
com ela a realidade. Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nus, a
razão, governa o mundo: mas só agora o homem acabou de
compreender que o pensamento deve governar a realidade
espiritual. Era, pois, uma esplêndida aurora Todos os seres
pensantes celebraram a nova época. Uma sublime emoção reinava
naquela época a um entusiasmo do espirito) abalava o mundo,
como se pela primeira vez se conseguisse a reconciliação do mundo
com a divindade". Hegel Philosophie der Geschichte. 1840, pág.
535) [Hegel, Filosofia da História, 1840 pág. 535]. Não terá chegado
o momento de aplicar a essas doutrinas subversivas e atentatórias
à sociedade, do finado professor Hegel, a lei contra os socialistas?
(Nota de Engels) (.)

(2) Leveller (niveladores): nome que se dava aos elementos


plebeus da cidade e do campo que durante a revolução de 1648
apresentavam na Inglaterra as reivindicações democráticas mais
radicais. (N. da E.) (.)

36 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


(3) Engels refere-se aqui às obras dos representantes do
comunismo utópico Tomas Morus (século XVI) e Campanella
(Século XVII). (N. da R.) (.)

(4) "Direito de pernadas: direito que tinha o senhor feudal à


primeira noite com as nubentes do seu feudo. (N. da Ed. Bras.) (.)

(5) De The Revolution In Mind and Practice [A Revolução no


Espírito e na Prática, um memorial dirigido a todos os republicanos
vermelhos. comunistas e socialistas da Europa", e enviado ao
governo provisório francês de 1848. mas também "à rainha Vitória
e seus conselheiros responsáveis". (Nota de Engels) (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 37


II - DIALÉTICA
Entretanto, junto à filosofia francesa do século XVIII, e por
trás dela, surgira a moderna filosofia alemã, cujo ponto culminante
foi Hegel. O principal mérito dessa filosofia é a restauração da
dialética, como forma suprema do pensamento. Os antigos
filósofos gregos eram todos dialéticos inatos, espontâneos, e a
cabeça mais universal de todos eles - Aristóteles - chegara já a
estudar as formas mais substanciais do pensamento dialético. Em
troca, a nova filosofia, embora tendo um ou outro brilhante
defensor da dialética (como por exemplo, Descartes e Spinoza) caía
cada vez mais, sob a influência principalmente dos ingleses, na
chamada maneira metafísica de pensar, que também dominou
quase totalmente entre os franceses do século XVIII, ao menos em
suas obras especificamente filosóficas. Fora do campo
estritamente filosófico, eles criaram também obras-primas de
dialética; como prova, basta citar O Sobrinho de Rameau, de
Diderot, e o estudo de Rousseau sôbre a origem da desigualdade
entre os homens. Resumiremos aqui, sucintamente, os traços mais
essenciais de ambos os métodos discursivos.

Quando nos detemos a pensar sobre a natureza, ou sobre a


história humana, ou sobre nossa própria atividade espiritual,.
deparamo-nos, em primeiro plano, com a imagem de uma trama
infinita de concatenações e Influências recíprocas, em que nada
permanece o que era, nem como e onde era, mas tudo se move e
se transforma, nasce e morre. Vemos, pois, antes de tudo, a
imagem de conjunto, na qual os detalhes passam ainda mais ou
menos para o segundo plano; fixamo-nos mais no movimento, nas
transições, na concatenação, do que no que se move, se

38 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


transforma e se concatena Essa concepção do mundo, primitiva,
ingênua, mas essencialmente exata, é a dos filósofos gregos
antigos, e aparece claramente expressa pela primeira vez em
Heráclito: tudo é e não é, pois tudo flui, tudo se acha sujeito a um
processo constante de transformação, de Incessante nascimento e
caducidade. Mas essa concepção, por mais exatamente que reflita
o caráter geral do quadro que nos é oferecido pelos fenômenos,
não basta para explicar os elementos isolados que formam esse
quadro total; sem conhecê-los a Imagem geral não adquirirá
tampouco um sentido claro. Para penetrar nesses detalhes temos
de despregá-los do seu tronco histórico ou natural e Investigá-los
separadamente, cada qual por si, em seu caráter, causas e efeitos
especiais, etc. Tal é a missão primordial das ciências naturais e da
história, ramos de investigação que os gregos clássicos situavam,
por motivos muito justificados, num plano puramente secundário,
pois primariamente deviam dedicar-se a acumular os materiais
científicos necessários. Enquanto não se reúne uma certa
quantidade de materiais naturais e históricos não se pode proceder
ao exame crítico, à comparação e, consequentemente, a divisão
em classes, ordens e espécies. Por isso, os rudimentos das ciências
naturais exatas não foram desenvolvidos senão a partir dos gregos
do período alexandrino (6) e, mais tarde, na Idade Média, pelos
árabes; a ciência autêntica da natureza data semente da segunda
metade do século XV e, desde então, não fez senão progredir a
ritmo acelerado. A análise da natureza em suas diversas partes, a
classificação dos diversos processos e objetos naturais em
determinadas categorias, a pesquisa interna dos corpos orgânicos
segundo sua diversa estrutura anatômica, foram outras tantas
condições fundamentais a que obedeceram os gigantescos

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 39


progressos realizados, durante os últimos quatrocentos anos, no
conhecimento científico da natureza. Esses métodos de
Investigação, porém, nos transmitiu, ao lado disso, o hábito de
enfocar as coisas e os processos da natureza isoladamente,
subtraídos à concatenação do grande todo; portanto, não em sua
dinâmica, mas estaticamente; não como substancialmente
variáveis, mas como consistências fixas; não em sua vida, mas em
sua morte. Por Isso, esse método de observação, ao transplantar-
se, com Bacon e Locke, das ciências naturais para a filosofia,
determinou a estreiteza específica característica dos últimos
séculos: o método metafísico de especulação.

Para o metafísico, as coisas e suas Imagens no pensamento,


os conceitos, são objetos de Investigação Isolados, fixos, rígidos,
focalizados um após o outro, de per si, como algo dado e perene.
Pensa só em antíteses, sem meio-termo possível; para ele, das duas
uma: sim, sim; não, não; o que for além disso, sobra. Para ele, uma
coisa existe ou não existe; um objeto não pode ser ao mesmo
tempo o que é e outro diferente. O positivo e o negativo se excluem
em absoluto. A causa e o efeito revestem também, a seus olhos, a
forma de uma rígida antítese. À primeira vista, esse método
discursivo parece-nos extremamente razoável, porque é o do
chamado senão comum. Mas o próprio senso comum -
personagem multo respeitável dentro de casa, entre quatro
paredes - vive peripécias verdadeiramente maravilhosas quando se
aventura pelos caminhos amplos da investigação; e o método
metafísico de pensar, pois muito justificado e até necessário que
seja em muitas zonas do pensamento, mais ou menos extensas
segundo a natureza do objeto de que se trate, tropeça sempre,

40 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


cedo ou tarde, com uma barreira, ultrapassada a qual converte-se
num método unilateral, limitado, abstrato, e se perde em
Insolúveis contradições, pois, absorvido pelos objetos concretos,
não consegue perceber sua concatenação; preocupado com sua
existência, não atenta em sua origem nem em sua caducidade;
obcecado pelas árvores, não consegue ver o bosque. Na realidade
de cada dia, sabemos, por exemplo, e podemos dizer com toda
certeza se um animal existe ou não; porém, pesquisando mais
detidamente, verificamos que às vezes o problema se complica
consideravelmente, como sabem muito bem os juristas, que tanto
e tão inutilmente têm-se atormentado por descobrir um limite
racional a partir do qual deva a morte do filho no ventre materno
ser considerada um assassinato; nem é fácil tampouco determinar
rigidamente o momento da morte, uma vez que a fisiologia
demonstrou que a morte não é um fenômeno repentino,
instantâneo, mas um processo muito longo. Do mesmo modo, todo
ser orgânico é, a qualquer instante, ele mesmo e outro; a todo
Instante, assimila matérias absorvidas do exterior e elimina outras
do seu interior; a todo instante, morrem certas células e nascem
outras em seu organismo; e no transcurso de um período mais ou
menos demorado a matéria de que é formado renova-se
totalmente, e novos átomos de matérias vêm ocupar o lugar dos
antigos, por onde todo o seu ser orgânico é, ao mesmo tempo, o
que é e outro diferente. Da mesma maneira, observando as coisas
detidamente, verificamos que os dois polos de uma antítese, o
positivo e o negativo, são tão inseparáveis quanto antitéticos um
do outro e que, apesar de todo o seu antagonismo, se penetram
reciprocamente; e vemos que a causa e o efeito são
representações que somente regem, como tais, em sua aplicação

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 41


ao caso concreto, mas que, examinando o caso concreto em sua
concatenação com a imagem total do universo, se juntam e se
diluem na idéia de uma trama universal de ações e reações, em que
as causas e os efeitos mudam constantemente de lugar e em que
o que agora ou aqui é efeito adquire em seguida ou ali o caráter de
causa, e vice-versa.

Nenhum desses fenômenos e métodos discursivos se encaixa


no quadro das especulações metafísicas. Ao contrário, para a
dialética, que focaliza as coisas e suas Imagens conceituais
substancialmente em suas conexões, em sua concatenação, em sua
dinâmica, em seu processo de nascimento e caducidade,
fenômenos como os expostos não são mais que outras tantas
confirmações de seu modo genuíno de proceder. A natureza é a
pedra de toque da dialética, e as modernas ciências naturais nos
oferecem para essa prova um acervo de dados
extraordinariamente copiosos e enriquecido cada dia que passa,
demonstrando com Isso que a natureza se move, em última
instância, pelos caminhos dialéticos e não pelas veredas
metafísicas, que não se move na eterna monotonia de um ciclo
constantemente repetido, mas percorre uma verdadeira história.
Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar, quem, com sua
prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais,
e entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo
de desenvolvimento de milhões de anos, assestou na concepção
metafísica da natureza o mais rude golpe. Até hoje, porém, os
naturalistas que souberam pensar dialeticamente podem ser
contados com os dedos, e esse conflito entre os resultados
descobertos e o método discursivo tradicional põe a nu a Ilimitada

42 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


confusão que reina presentemente na teoria das ciências naturais
e que constitui o desespero de mestres e discípulos, de autores e
leitores.

Somente seguindo o caminho da dialética, não perdendo


jamais de vista as inumeráveis ações e reações gerais do devenir e
do perecer, das mudanças de avanço e retrocesso, chegamos a
uma concepção exata do universo, do seu desenvolvimento e do
desenvolvimento da humanidade, assim como da imagem
projetada por esse desenvolvimento nas cabeças dos homens. E foi
esse, com efeito, o sentido em que começou a trabalhar, desde o
primeiro momento, a moderna filosofia alemã. Kant iniciou sua
carreira de filósofo dissolvendo o sistema solar estável de Newton
e sua duração eterna - depois de recebido o primeiro impulso - num
processo histórico: no nascimento do Sol e de todos os planetas a
partir de uma massa nebulosa em rotação. Dai, deduziu que essa
origem implicava também, necessariamente, a morte futura do
sistema solar. Meio século depois sua teoria foi confirmada
matematicamente por Laplace e, ao fim de outro meio século, o
espectroscópio veio demonstrar a existência no espaço daquelas
massas igneas de gás, em diferente grau de condensação.

A filosofia alemã moderna encontrou sua culminância no


sistema de Hegel, em que pela primeira vez - e aí está seu grande
mérito - se concebe todo o mundo da natureza, da história e do
espírito como um processo, isto é, em constante movimento,
mudança, transformação e desenvolvimento, tentando além disso
ressaltar a intima conexão que preside esse processo de
movimento e desenvolvimento. Contemplada desse ponto de vista,
a história da humanidade já. não aparecia como um caos inóspito

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 43


de violências absurdas, todas igualmente condenáveis diante do
foro da razão filosófica hoje já madura, e boas para serem
esquecidas quanto antes, mas como o processo de
desenvolvimento da própria humanidade, que cabia agora ao
pensamento acompanhar em suas etapas graduais e através de
todos os desvios, e demonstrar a existência de leis internas que
orientam tudo aquilo que à primeira vista poderia parecer obra do
acaso cego.

Não importava que o sistema de Hegel não resolvesse o


problema que se propunha. Seu mérito, que marca época. consistiu
em tê-lo proposto. Não em vão, trata-se de um problema que
nenhum homem sozinho pôde resolver. E embora fosse Hegel,
como Saint-Simon, a cabeça mais universal. de seu tempo, seu
horizonte achava-se circunscrito, em primeiro lugar, pela limitação
inevitável de seus próprios conhecimentos e, em segundo lugar,
pelos conhecimentos e concepções de sua época, limitados
também em extensão e profundidade. Deve-se acrescentar a isso
uma terceira circunstância. Hegel era idealista; isto é, para ele as
Idéias de sua cabeça não eram imagens mais ou menos abstratas
dos objetos ou fenômenos da realidade, mas essas coisas e seu
desenvolvimento se lhe afiguravam, ao contrário, como projeções
realizadas da "Idéia", que já existia, não se sabe como, antes de
existir o mundo. Assim, foi tudo posto de cabeça para baixo, e a
concatenação real do universal apresentava-se completamente às
avessas. E por mais exatas e mesmo geniais que fossem várias das
conexões concretas concebidas por Hegel, era inevitável, pelos
motivos que acabamos de apontar, que muitos dos seus detalhes
tivessem um caráter amaneirado, artificial, construído; em uma

44 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


palavra, falso. O sistema de Hegel foi um aborto gigantesco, mas o
último de seu gênero. De fato, continuava sofrendo de uma
contradição interna incurável; pois, enquanto de um lado partia
como pressuposto inicial da concepção histórica, segundo a qual a
história humana é um processo de desenvolvimento que não pode,
por sua natureza, encontrar o arremate intelectual na descoberta
disso que chamam verdade absoluta, de outro lado nos é
apresentado exatamente como a soma e a síntese dessa verdade
absoluta. Um sistema universal e definitivamente plasmado do
conhecimento da natureza e da história é incompatível com as leis
fundamentais do pensamento dialético - que não exclui, mas longe
disso implica que o conhecimento sistemático do mundo exterior
em sua totalidade possa progredir gigantescamente de geração em
geração.

A consciência da total inversão em que incorria o Idealismo


alemão levou necessariamente ao materialismo; mas não, veja-se
bem, àquele materialismo puramente metafísico e exclusivamente
mecânico do século XVIII. Em oposição à simples repulsa,
ingenuamente revolucionária, de toda a história anterior, o
materialismo moderno vê na história o processo de
desenvolvimento da humanidade, cujas leis dinâmicas é missão sua
descobrir. Contrariamente à idéia da natureza que imperava entre
os franceses do século XVIII, assim como em Hegel, em que esta era
concebida como um todo permanente e invariável, que se movia
dentro de ciclos estreitos, com corpos celestes eternos, tal como
Newton os representava, e com espécies invariáveis de seres
orgânicos, como ensinara Linneu, o materialismo moderno resume
e compendia os novos progressos das ciências naturais, segundo os

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 45


quais a natureza tem também sua história no tempo, e os mundos,
assim como as espécies orgânicas que em condições propícias os
habitam, nascem e morrem, e os ciclos, no grau em que são
admissíveis, revestem dimensões infinitamente mais grandiosas.
Tanto em um como em outro caso, o materialismo moderno é
substancialmente dialético e já não precisa de uma filosofia
superior às demais ciências. Desde o momento em que cada ciência
tem que prestar contas da posição que ocupa no quadro universal
das coisas e do conhecimento dessas coisas, já não há margem para
uma ciência especialmente consagrada ao estudo das
concatenações universais. Da filosofia anterior, com existência
própria, só permanece de pé a teoria do pensar e de suas leis: a
lógica formal e a dialética. O demais se dissolve na ciência positiva
da natureza e da história.

No entanto, enquanto que essa revolução na concepção da


natureza só se pôde impor na medida em que a pesquisa fornecia
à ciência os materiais positivos correspondentes, já há muito
tempo se haviam revelado certos fatos históricos que imprimiram
uma reviravolta decisiva no modo de focalizar a história. Em 1831,
estala em Lyon a primeira insurreição operária, e de 1838 a 1842
atinge o auge o primeiro movimento operário nacional: o dos
cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a
burguesia passou a ocupar o primeiro plano da história dos países
europeus mais avançados, ao mesmo ritmo em que se desenvolvia
neles, de uni lado, a grande indústria, e de outro lado, a dominação
política recém-conquistada da burguesia. Os fatos refutavam cada
vez mais rotundamente as doutrinas burguesas da identidade de
interesses entre o capital e o trabalho e da harmonia universal e o

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bem-estar geral das nações, como fruto da livre concorrência. Não
havia como passar por alto esses fatos, nem era tampouco possível
ignorar o socialismo francês e inglês, expressão teórica sua, por
mais imperfeita que fosse. Mas a velha concepção idealista da
história, que ainda não havia sido removida, não conhecia lutas de
classes baseadas em interesses materiais, nem conhecia interesses
materiais de qualquer espécie; para ela a produção, bem como
todas as relações econômicas, só existiam acessoriamente, como
um elemento secundário dentro da "história cultural". Os novos
fatos obrigaram à revisão de toda a história anterior, e então se viu
que, com exceção do Estado primitivo, toda a história anterior era
a história das lutas de classes, e que essas classes sociais em luta
entre si eram em todas as épocas fruto das relações de produção e
de troca, isto é, das relações econômicas de sua época; que a
estrutura econômica da sociedade em cada época da história
constitui, portanto, a base real cujas propriedades explicam, em
última análise, toda a superestrutura Integrada pelas instituições
jurídicas e políticas, assim como pela ideologia religiosa, filosófica,
etc., de cada período histórico. Hegel libertara da metafísica a
concepção da história, tornando-a dialética; mas sua interpretação
da história era essencialmente idealista. Agora, o idealismo fora
despejado do seu último reduto: a concepção da história -,
substituída por uma concepção materialista da história, com o que
se abria o caminho para explicar a consciência do homem por sua
existência, e não esta por sua consciência, que era até então o
tradicional.

Desse modo o socialismo já não aparecia como a descoberta


casual de tal ou qual intelecto genial, mas como o produto

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 47


necessário da luta entre as duas classes formadas historicamente:
o proletariado e a burguesia. Sua missão já não era elaborar um
sistema o mais perfeito possível da sociedade, mas investigar o
processo histórico econômico de que, forçosamente, tinham que
brotar essas classes e seu conflito, descobrindo os meios para a
solução desse conflito na situação econômica assim criada. Mas o
socialismo tradicional era incompatível com essa nova concepção
materialista da história, tanto quanto a concepção da natureza do
materialismo francês não podia ajustar-se à dialética e às novas
ciências naturais. Com efeito, o socialismo anterior criticava o
modo de produção capitalista existente e suas conseqüências, mas
não conseguia explicá-lo nem podia, portanto, destrui-lo
ideologicamente; nada mais lhe restava senão repudiá-lo, pura o
simplesmente, como mau. Quanto mais violentamente clamava
contra a exploração da classe operária, inseparável desse modo de
produção, menos estava em condições de indicar claramente em
que consistia e como nascia essa exploração. Mas do que se tratava
era, por um lado, de expor esse modo capitalista de produção em
suas conexões históricas e como necessário para uma determinada
época da história, demonstrando com isso também a necessidade
de sua queda e, por outro lado, pôr a nu o seu caráter interno,
ainda oculto. Isso se tornou evidente com a descoberta da mais-
valia. Descoberta que veio revelar que o regime capitalista de
produção e a exploração do operário, que dele se deriva, tinham
por forma fundamental a apropriação de trabalho não pago; que o
capitalista, mesmo quando compra a força de trabalho de seu
operário por todo o seu valor, por todo o valor que representa
como mercadoria no mercado, dela retira sempre mais valor do
que lhe custa e que essa mais-valia é, em última análise, a soma de

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valor de onde provém a massa cada vez maior do capital
acumulado em mãos das classes possuidoras. O processo da
produção capitalista e o da produção de capital estavam assim
explicados.

Essas duas grandes descobertas - a concepção materialista da


história e a revelação do segredo da produção capitalista através
da mais-valia - nós as devemos a Karl Marx. Graças a elas o
materialismo converte-se em uma ciência, que só nos resta
desenvolver em todos os seus detalhes e concatenações.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 49


Notas:

(6) O período alexandrino de desenvolvimento da ciência


abrange desde o século III antes de nossa era até o século VII de
nossa era, recebendo o seu nome da cidade de Alexandria, no
Egito, um dos mais importantes centros das relações econôm1ca
internacionais daquela época. No período alexandrino adquiriram
grande desenvolvimento várias ciências: as matemáticas (com
Euclides e Arquimedes), a geografia, a astronomia, a anatomia, a
fisiologia, etc. (N. da R.) (.)

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III - O MATERIALISMO HISTÓRICO
A concepção materialista da história parte da tese de que a
produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem
social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a
distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social
dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a
sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus
produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas
as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não
devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que
eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas
transformações operadas no modo de produção e de troca; devem
ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que
se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as
instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a
razão se converteu em insensatez e a bênção em praga (7), isso não
é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas
formas de distribuição produziram-se silenciosamente
transformações com as quais já não concorda a ordem social,
talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E
assim já está dito que nas novas relações de produção têm
forçosamente que conter-se - mais ou menos desenvolvidos - os
meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses
meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça
é que tem de descobrí-los nos fatos materiais da produção, tal e
qual a realidade os oferece.

Qual é, nesse aspecto, a posição do socialismo moderno?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 51


A ordem social vigente - verdade reconhecida hoje por quase
todo o mundo - é obra das classes dominantes dos tempos
modernos, da burguesia. O modo de produção característico da
burguesia, ao qual desde Marx se dá o nome de modo capitalista
de produção, era incompatível com os privilégios locais e dos
estados, como o era com os vínculos interpessoais da ordem
feudal. A burguesia lançou por terra a ordem feudal e levantou
sobre suas ruínas o regime da sociedade burguesa, o império da
livre concorrência, da liberdade de domicílio, da igualdade de
direitos dos possuidores de mercadorias, e tantas outras
maravilhas burguesas. Agora já podia desenvolver-se livremente o
modo capitalista de produção. E ao chegarem o vapor e a nova
maquinaria ferramental, transformando a antiga manufatura na
grande indústria, as forças produtivas criadas e postas em
movimento sob o comando da burguesia desenvolveram-se com
uma velocidade Inaudita e em proporções até então
desconhecidas. Mas, do mesmo modo que em seu tempo a
manufatura e o artesanato, que continuava desenvolvendo-se sob
sua influência, se chocavam com os entraves feudais das
corporações, a grande indústria, ao chegar a um uivei de
desenvolvimento mais alto, já não cabe no estreito marco em que
é contida pelo modo de produção capitalista. As novas forças
produtivas transbordam já da forma burguesa em que são
exploradas, e esse conflito entre as forças produtivas e o modo de
produção não é precisamente nascido na cabeça do homem - algo
assim como o conflito entre o pecado original do homem e a Justiça
divina - mas tem suas raízes nos fatos, na realidade objetiva, fora
de nós, independentemente da vontade ou da atividade dos
próprios homens que o provocaram. O socialismo moderno não é

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mais que o reflexo desse conflito material na consciência, sua
projeção Ideal nas cabeças, a começar pelas da classe que sofre
diretamente suas conseqüências: a classe operária.

Em que consiste esse conflito? Antes de sobrevir a produção


capitalista, isto é, na Idade Média, dominava, com caráter geral, a
pequena Indústria, baseada na propriedade privada do trabalhador
sobre seus meios de produção: no campo, a agricultura corria a
cargo de pequenos lavradores, livres ou vassalos; nas cidades, a
indústria achava-se em mãos dos artesãos. Os meios de trabalho -
a terra, os instrumentos agrícolas, a oficina, as ferramentas - eram
meios de trabalho individual, destinados unicamente ao uso
individual e, portanto, forçosamente, mesquinhos, diminutos,
limitados. - Mas isso mesmo levava a que pertencessem, em geral,
ao próprio produtor. O papel histórico do modo capitalista de
produção e seu portador - a burguesia - consistiu precisamente em
concentrar e desenvolver esses dispersos e mesquinhos meios de
produção, transformando-os nas poderosas alavancas produtoras
dos tempos atuais. Esse processo, que a burguesia vem
desenvolvendo desde o século XV e que passa historicamente pelas
três etapas da cooperação simples, a manufatura e a grande
indústria, é minuciosamente exposto por Marx na seção quarta de
O Capital. Mas a burguesia, como fica também demonstrado nessa
obra, não podia converter aqueles primitivos meios de produção
em poderosas forças produtivas sem transformá-los de meios
individuais de produção em meios sociais, -só manejáveis por uma
coletividade de homens. A roca, O tear manual e o martelo do
ferreiro foram substituídos pela máquina de fiar, pelo tear
mecânico, pelo martelo movido a vapor; a oficina individual deu o

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 53


lugar à fábrica, que impõe a cooperação de centenas e milhares de
operários. E, com os meios de produção, transformou-se a própria
produção, deixando de ser uma cadeia de atos Individuais para
converter-se numa cadeia de atos sociais, e os produtos
transformaram-se de produtos individuais em produtos sociais. O
fio, as telas, os artigos de metal que agora safam da fábrica eram
produto do trabalho coletivo de um grande número de operários,
por cujas mãos tinha que passar sucessivamente para sua
elaboração. Já ninguém podia dizer: isso foi feito por mim, esse
produto é meu.

Mas onde a produção tem por forma principal um regime de-


divisão social do trabalho criado paulatinamente, por impulso
elementar, sem sujeição a plano algum, a produção imprime aos
produtos a forma de mercadoria, cuja troca, compra e venda
permitem aos diferentes produtores Individuais satisfazer suas
diversas necessidades. E Isso era o que acontecia na Idade Média.
O camponês, por exemplo, vendia ao artesão os produtos da terra,
comprando-lhe em troca os artigos elaborados em sua oficina.
Nessa sociedade de produtores Isolados, de produtores de
mercadorias, veio a Introduzir-se mais tarde o novo modo de
produção. Em meio àquela divisão elementar do trabalho, sem
plano nem sistema, que imperava no seio de toda a sociedade, o
novo modo de produção implantou a divisão planificada do
trabalho dentro de cada fábrica; ao lado da produção individual
surgiu a produção social Os produtos de ambas eram vendidos no
mesmo mercado e, portanto, a preços aproximadamente iguais.
Mas a organização planificada podia mais que a divisão elementar
do trabalho; as fábricas em que o trabalho estava organizado

54 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


socialmente elaboravam seus produtos mais baratos que os
pequenos produtores Isolados. A produção Individual foi pouco a
pouco sucumbindo em todos os campos e a produção social
revolucionou todo o antigo modo de produção. Contudo, esse
caráter revolucionário passava despercebido; tão despercebido
que, pelo contrário, se Implantava com a única e exclusiva
finalidade de aumentar e fomentar a produção de mercadorias.
Nasceu diretamente ligada a certos setores de produção e troca de
mercadorias que já vinham funcionando: o capital comercial, a
indústria artesanal e o trabalho assalariado. E já que surgia como
uma nova forma de produção de mercadorias, mantiveram-se em
pleno vigor sob ela as formas de apropriação da produção de
mercadorias.

Na produção de mercadorias, tal como se havia desenvolvido


na Idade Média, não podia surgir o problema de a quem pertencer
os produtos do trabalho. O produtor individual criava-os,
geralmente, com matérias-primas de sua propriedade, produzidas
não poucas vezes por ele mesmo, com seus próprios meios de
trabalho e elaborados com seu próprio trabalho manual ou de sua
família. Não necessitava, portanto, apropriar-se deles, pois já eram
seus pelo simples fato de produzi-los. A propriedade dos produtos
baseava-se, pois, no trabalho pessoal. E mesmo naqueles casos em
que se empregava a ajuda alheia, esta era, em regra, acessória, e
recebia freqüentemente, além do salário, outra compensação: o
aprendiz e o oficial das corporações não trabalhavam menos pelo
salário e pela comida do que para aprender a chegar a ser mestres
algum dia. Sobrevêm a concentração dos meios de produção em
grandes oficinas e manufaturas, sua transformação em meios de

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 55


produção realmente sociais. Entretanto, esses meios de produção
e seus produtos sociais foram considerados como se continuassem
a ser o que eram antes: meios de produção e produtos individuais.
E se até aqui o proprietário dos meios de trabalho se apropriara dos
produtos, porque eram, geralmente, produtos seus e a ajuda
constituía uma exceção, agora o proprietário dos meios de trabalho
continuava apoderando-se do produto, embora já não fosse um
produto seu, mas fruto exclusivo do trabalho alheio. Desse modo,
os produtos, criados agora socialmente, não passavam a ser
propriedade daqueles que haviam posto realmente em marcha os
meios de produção e eram realmente seus criadores, mas do
capitalista. Os meios de produção e a produção foram convertidos
essencialmente em fatores sociais. E, no entanto, viam-se
submetidos a uma forma do apropriação que pressupõe a
produção privada Individual, Isto é, aquela em que cada qual é
dono de seu próprio produto e, como tal, comparece com ele ao
mercado. O modo de produção se vê sujeito a essa forma de
apropriação apesar de destruir o pressuposto sobre o qual repousa
(8)
Nessa contradição, que imprime ao novo modo de produção o
seu caráter capitalista, encerra-se em germe, todo o conflito dos
tempos atuais. E quanto mais o novo modo de produção se impõe
e impera em todos os campos fundamentais da produção e em
todos os países economicamente importantes, afastando a
produção individual, salvo vestígios insignificantes, maior é a
evidência com que se revela a incompatibilidade entre a produção
social e a apropriação capitalista.

Os primeiros capitalistas já se encontraram, como ficou dito,


com a forma do trabalho assalariado. Mas como exceção, como

56 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


ocupação secundária, como simples ajuda, como ponto de
transição. O lavrador que saía de quando em vez para ganhar uma
diária, tinha seus dois palmos de terra própria, graças às quais, em
caso extremo, podia viver. Os regulamentos das corporações
velavam para que os oficiais de hoje se convertessem amanhã em
mestres. Mas, logo que os meios de produção adquiriram um
caráter social e se concentraram em mãos dos capitalistas, as
coisas mudaram. Os meios de produção e os produtos do pequeno
produtor individual foram sendo cada vez mais depreciados, até
que a esse pequeno produtor não ficou outro recurso senão ganhar
um salário pago pelo capitalista. O trabalho assalariado, que era
antes exceção e mera ajuda, passou a ser regra e forma
fundamental de toda a produção, e o que era antes ocupação
acessória se converte em ocupação exclusiva do operário. O
operário assalariado temporário transformou-se em operário
assalariado para toda a vida. Ademais, a multidão desses para
sempre assalariados vê-se engrossada em proporções gigantescas
pela derrocada simultânea da ordem feudal, pela dissolução das
mesnadas (9) dos senhores feudais, a expulsão dos camponeses de
suas terras, etc. Realizara-se o completo divórcio entre os meios de
produção concentrados nas mãos dos capitalistas, de um lado, e,
de outro lado, os produtores que nada possuíam além de sua
própria força de trabalho. A contradição entre a produção social e
a apropriação capitalista reveste a forma de antagonismo entre o
proletariado e a burguesia.

Vimos que o modo de produção capitalista Introduziu-se


numa sociedade de produtores de mercadorias, de produtores
Individuais, cujo vinculo social era o intercâmbio de seus produtos.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 57


Mas toda sociedade baseada na produção de mercadorias
apresenta a particularidade de que nela os produtores perdem o
comando sobre suas próprias relações sociais. Cada qual produz
para si, com os meios de produção de que consegue dispor, e para
as necessidades de seu intercâmbio privado. Ninguém sabe qual a
quantidade de artigos do mesmo tipo que os demais lançam no
mercado, nem da quantidade que o mercado necessita; ninguém
sabe se seu produto Individual corresponde a uma demanda
efetiva, nem se poderá cobrir os gastos, nem sequer, em geral, se
poderá vendê-lo. A anarquia Impera na produção social. Mas a
produção de mercadorias tem, como toda forma de produção, suas
leis características, próprias e Inseparáveis dela; e essas leis abrem
caminho apesar da anarquia, na própria anarquia e através dela.
Tomam corpo na única forma de enlace social que subsiste: na
troca, e se Impõem aos produtores Individuais sob a forma das leis
Imperativas da concorrência. A principio, esses produtores as
Ignoram, e é preciso que uma larga experiência vá revelando-as,
pouco a pouco. Impõem-se, pois, sem os produtores, e mesmo
contra eles, como leis naturais cegas que presidem essa forma de
produção. O produto Impera sobre o produtor.

Na sociedade medieval, e sobretudo em seus primeiros


séculos, a produção destinava-se principalmente ao consumo
próprio, a satisfazer apenas às necessidades do produtor e sua
família. E onde, como acontecia no campo, subsistiam relações
pessoais de vassalagem, contribuía também para satisfazer às
necessidades do senhor feudal. Não se produzia, pois, nenhuma
troca, nem os produtos revestiam, portanto, o caráter de
mercadorias. A família do lavrador produzia quase todos os objetos

58 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


de que necessitava: utensílios, roupas e viveres. Só começou a
produzir mercadorias quando começou a criar um excedente de
produtos, depois de cobrir suas próprias necessidades e os tributos
em espécie que devia pagar ao senhor feudal; esse excedente,
lançado no intercâmbio social, no mercado, para sua venda,
converteu-se em mercadoria. Os artesãos das cidades, por certo,
tiveram que produzir para o mercado desde o primeiro momento.
Mas também elaboravam eles próprios a maior parte dos produtos
de que necessitavam para seu consumo; tinham suas hortas e seus
pequenos campos, apascentavam seu gado nos campos comunais,
que lhes forneciam também madeira e lenha; suas mulheres fiavam
o linho e a lã, etc. A produção para a troca, a produção de
mercadorias, achava-se em seu inicio. Por Isso o intercâmbio era
limitado, o mercado era reduzido, o modo de produção era estável.
Em face do exterior imperava o exclusivismo local; no interior, a
associação local: a Marca no campo, as corporações nas cidades.

Mas ao estender-se a produção de mercadorias e, sobretudo,


ao aparecer o modo capitalista de produção, as leis da produção de
mercadorias, que até aqui haviam apenas dado sinais de vida,
passam a funcionar de maneira aberta e p0-dêrosa. As antigas
associações começam a perder força, as antigas fronteiras vão
caindo por terra, os produtores vão convertendo-se mais e mais em
produtores de mercadorias independentes e isolados. A anarquia
da produção social sai à luz e se aguça cada vez mais. Mas o
instrumento principal com que o modo de produção capitalista
fomenta essa anarquia na produção social é precisamente o
Inverso da anarquia: a crescente organização da produção com
caráter social, dentro de cada estabelecimento de produção. Por

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 59


esse meio, põe fim à velha estabilidade pacifica. Onde se implanta
num ramo industrial, não tolera a seu lado nenhum dos velhos
métodos. Onde se apodera da indústria artesanal, ela a destrói e
aniquila. O terreno de trabalho transforma-se num campo de
batalha. As grandes descobertas geográficas e as empresas de
colonização que as acompanham multiplicam os mercados e
aceleram o processo de transformação de oficina do artesão em
manufatura. E a luta não eclode somente entre os produtores
locais isolados; as contendas locais não adquirem envergadura
nacional, e surgem as guerras comerciais dos séculos XVII e XVIII
(10)
. Até que, por fim, a grande indústria e a implantação do
mercado mundial dão caráter universal à luta, ao mesmo tempo
que lhe imprimem uma inaudita violência. Tanto entre os
capitalistas individuais como entre industriais e países inteiros, a
primazia das condições - natural ou artificialmente criadas - da
produção decide a luta pela existência. O que sucumbe é esmagado
sem piedade. É a luta darwinista da existência individual
transplantada, com redobrada fúria, da natureza para a sociedade.
As condições naturais de vida da besta convertem-se no ponto
culminante do desenvolvimento humano. A contradição entre a
produção social e a apropriação capitalista manifesta-se agora
como antagonismo entre a organização da produção dentro de
cada fábrica e a anarquia da produção no seio de toda a sociedade.

O modo capitalista de produção move-se nessas duas formas


da contradição a ele inerente por suas próprias origens,
descrevendo sem apelação aquele "círculo vicioso" já revelado por
Fourier. Mas o que Fourier não podia ver ainda em sua época é que
esse círculo se vai reduzindo gradualmente, que o movimento se

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desenvolve em espiral e tem de chegar necessariamente ao seu
fira, como o movimento dos planetas. chocando-se com o centro.
É a força propulsora da anarquia social da produção que converte
a Imensa maioria dos homens, cada vez mais marcadamente, em
proletários, e essas massas proletárias serão, por sua vez, as que,
afinal, porão fim à anarquia da produção É a força propulsora da
anarquia social da produção que converte a capacidade infinita de
aperfeiçoamento das máquinas num preceito imperativo, que
obriga todo capitalista industrial a melhorar continuamente a sua
maquinaria, sob pena de perecer. Mas melhorar a maquinaria
equivale a tornar supérflua uma massa de trabalho humano. E
assim como a implantação e o aumento quantitativo da maquinaria
trouxeram consigo a substituição de milhões de operários manuais
por um número reduzido de operários mecânicos, seu
aperfeiçoamento determina a eliminação de um número cada vez
maior de operários das máquinas e, em última instância, a criação
de uma massa de operários disponíveis que ultrapassa a
necessidade média de ocupação do capital, de um verdadeiro
exército industrial de reserva, como eu já o chamara em 1845 (11),
de um exército de trabalhadores disponíveis para as épocas em que
a indústria trabalha a pleno vapor e que logo nas crises que
sobrevêm necessariamente depois desses períodos, é lançado às
ruas, constituindo a todo momento uma grilheta amarrada aos pés
da classe trabalhadora em sua luta pela existência contra o capital
e um regulador para manter os salários no nível baixo
correspondente às necessidades do capitalista. Assim, para dizê-lo
com Marx, a maquinaria converteu-se na mais poderosa arma do
capital contra a classe operária, um meio de trabalho que arranca
constantemente os meios de vida das mãos do operário,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 61


acontecendo que o produto do próprio operário passa a ser o
instrumento de sua escravização. Desse modo, a economia nos
meios de trabalho leva consigo, desde o primeiro momento, o mais
impiedoso desperdício da força de trabalho e a espoliação das
condições normais da função mesma do trabalho. E a maquinaria,
o recurso mais poderoso que se pôde criar para reduzir a jornada
de trabalho, converte-se no mais infalível recurso para converter a
vida inteira do operário e de sua família numa grande jornada
disponível para a valorização do capital; ocorre, assim, que o
excesso de trabalho de uns é a condição determinante da carência
de trabalho de outros, e que a grande indústria, lançando-se pelo
mundo inteiro, em desabalada carreira, à conquista de novos
consumidores, reduz em sua própria casa o consumo das massas a
um mínimo de fome e mina com isso o seu próprio mercado
interno. "A lei que mantém constantemente o excesso relativo de
população ou exército industrial de reserva em equilíbrio com o
volume e a intensidade da acumulação do capital amarra o
operário ao capital com ataduras mais fortes do que as cunhas com
que Vulcano cravou Prometeu no rochedo. Isso dá origem a que a
acumulação do capital corresponda a uma acumulação igual de
miséria. A acumulação de riqueza em um dos polos determina no
polo oposto, no polo da classe que produz o seu próprio produto
como capital, uma acumulação igual de miséria, de tormentos de
trabalho, de escravidão, de ignorância, de embrutecimento e de
degradação moral." (Marx, O Capital, t. 1, cap. XXIII) E esperar do
modo capitalista de produção uma distribuição diferente dos
produtos seria o mesmo que esperar que os dois eletrodos de uma
bateria, enquanto conectados com ela, não decomponham a água

62 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


nem engendrem oxigênio no polo positivo e hidrogênio no polo
negativo.

Vimos que a capacidade de aperfeiçoamento da maquinaria


moderna, levada a seu limite máximo, converte-se, em virtude da
anarquia da produção dentro da sociedade num preceito
imperativo que obriga os capitalistas industriais, cada qual por si, a
melhorar incessantemente a sua maquinaria, a tornar sempre mais
poderosa a sua força de produção. Não menos imperativo é o
preceito em que se converte para ele a mera possibilidade efetiva
de dilatar sua órbita de produção. A enorme força de expansão da
grande indústria, a cujo lado a expansão dos gases é uma
brincadeira de crianças, revela-se hoje diante de nossos olhos
como uma necessidade qualitativa e quantitativa de expansão, que
zomba de todos os obstáculos que se lhe deparam. Esses
obstáculos são os que lhe opõem o consumo, a saída, os mercados
de que os produtos da grande indústria necessitam. Mas a
capacidade extensiva e intensiva de expansão dos mercados
obedece, por sua vez, a leis muito diferentes e que atuam de uma
maneira muito menos enérgica. A expansão dos mercados não
podo desenvolver-se ao mesmo ritmo que a da produção. A colisão
torna-se inevitável, e como é impossível qualquer solução senão
fazendo-se saltar o próprio modo capitalista de produção, essa
colisão torna-se periódica. A produção capitalista engendra um
novo "círculo vicioso".

Com efeito, desde 1825, ano em que estalou a primeira crise


geral, não se passam dez anos seguidos sem que todo o mundo
industrial e comercial, a distribuição e a troca de todos os povos
civilizados e de seu séquito de países mais ou menos bárbaros, saia

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 63


dos eixos. O comércio é paralisado, os mercados são saturados de
mercadorias, os produtos apodrecem nos armazéns abarrotados,
sem encontrar saída; o dinheiro torna-se invisível; o crédito
desaparece; as fábricas param; as massas operárias carecem de
meios de subsistência precisamente por tê-los produzido em
excesso, as bancarrotas e falências se sucedem. O paradeiro dura
anos inteiros, as forças produtivas e os produtos são malbaratados
e destruidos em massa até que, por fim, os estoques de
mercadorias acumuladas, mais ou menos depreciadas, encontram
saida, e a produção e a troca se vão reanimando pouco a pouco.
Paulatinamente, a marcha se acelera, a andadura converte-se em
trote, o trote industrial em galope e, finalmente, em carreira
desenfreada, num steeple-chase (12) da indústria, do comércio, do
crédito, da especulação, para terminar, por fim, depois dos saltos
mais arriscados, na fossa de um crack. E assim, sucessivamente.
Cinco vezes repete-se a mesma história desde 1825, e
presentemente (1877) estamos vivendo-a pela sexta vez. E o
caráter dessas crises é tão nítido e tão marcante que Fourier as
abrangia todas ao descrever a primeira, dizendo que era uma crise
plétorique, uma crise nascida da superabundância.

Nas crises estala em explosões violentas a contradição entre


a produção social e a apropriação capitalista. A circulação de
mercadoria fica, por um momento, paralisada. O meio de
circulação, o dinheiro, converte-se num obstáculo para a
circulação; todas as leis da produção e da circulação das
mercadorias viram pelo avesso. O conflito econômico atinge seu
ponto culminante: o modo de produção rebela-se contra o modo
de distribuição.

64 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O fato de que a organização social da produção dentro das
fábricas se tenha desenvolvido até chegar a um ponto em que
passou a ser inconciliável com a anarquia - coexistente com ela e
acima dela - da produção na sociedade é um rato que se revela
palpavelmente aos próprios capitalistas pela concentração violenta
dos capitais, produzida durante as crises à custa da ruína de
numerosos grandes e, sobretudo, pequenos capitalistas. Todo o
mecanismo do modo de produção falha, esgotado pelas forças
produtivas que ele mesmo engendrou. Já não consegue
transformar em capital essa massa de meios de produção, que
permanecem inativos, e por isso precisamente deve permanecer
também inativo o exército industrial de reserva. Meios de
produção, meios de vida, operários em disponibilidade: todos os
elementos da produção e da riqueza geral existem em excesso.
Mas a "superabundância converte-se em fonte de miséria e de
penúria" (Fourier), já que é ela, exatamente, que impede a
transformação dos meios de produção e de vida em capital, pois na
sociedade capitalista os meios de produção não podem pôr-se em
movimento senão transformando-se previamente em capital, em
meio de exploração da força humana de trabalho. Esse
imprescindível caráter de capital dos meios de produção ergue-se
como um espectro entre eles e a classe operária. É isso o que
impede que se engrenem a alavanca material e a alavanca pessoal
da produção; é o que não permite aos meios de produção
funcionar nem aos operários trabalhar e viver. De um lado, o modo
capitalista de produção revela, pois, sua própria incapacidade para
continuar dirigindo suas forças produtivas. De outro lado, essas
forças produtivas compelem com uma intensidade cada vez maior
no sentido de que resolva a contradição, de que sejam redimidas

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 65


de sua condição de capital, de que seja efetivamente reconhecido
o seu caráter de forças produtivas sociais.

É essa rebelião das forças de produção, cada vez mais


imponentes, contra a sua qualidade de capital, essa necessidade
cada vez mais imperiosa de que se reconheça o seu caráter social,
que obriga a própria classe capitalista a considerá-las cada vez mais
abertamente como forças produtivas sociais, na medida em que é
possível dentro das relações capitalistas. Tanto os períodos de
elevada pressão industrial, com sua desmedida expansão do
crédito, como o próprio crack, com o desmoronamento de grandes
empresas capitalistas, estimulam essa forma de socialização de
grandes massas de meios de produção que encontramos nas
diferentes categorias de sociedades anônimas. Alguns desses
meios de produção e de comunicação já são por si tão gigantescos
que excluem, como ocorre com as ferrovias, qualquer outra forma
de exploração capitalista. Ao chegar a uma determinada fase de
desenvolvimento já não basta tampouco essa forma; os grandes
produtores nacionais de um ramo Industrial unem-se para formar
um truste, um consórcio destinado a regular a produção;
determinam a quantidade total que deve ser produzida, dividem-
na entre eles e impõem, desse modo, um preço de venda de
antemão fixado. Como, porém, esses trustes se desmoronam ao
sobrevirem os primeiros ventos maus nos negócios, conduzem com
isso a uma socialização ainda mais concentrada; todo o ramo
industrial converte-se numa única grande sociedade anônima, e a
concorrência interna dá lugar ao monopólio interno dessa
sociedade única; assim aconteceu já em 1890 com a produção
inglesa de álcalis, que na atualidade, depois da fusão de todas as

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quarenta e oito grandes fábricas do país, é explorada por uma só
sociedade com direção única e um capital de 120 milhões de
marcos.

Nos trustes, a livre concorrência transforma-se em


monopólio e a produção sem plano da sociedade capitalista
capitula ante a produção planificada e organizada da nascente
sociedade socialista. É claro que, no momento, em proveito e
benefício dos capitalistas. Mas aqui a exploração torna-se tão
patente, que tem forçosamente de ser derrubada. Nenhum povo
toleraria uma produção dirigida pelos trustes, uma exploração tão
descarada da coletividade por uma pequena quadrilha de
cortadores de cupões.

De um modo ou de outro, com ou sem trustes, o


representante oficial da sociedade capitalista, o Estado, tem que
acabar tomando a seu cargo o comando da produção (13) A
necessidade a que corresponde essa transformação de certas
empresas em propriedade do Estado começa a manifestar-se nas.
grandes empresas de transportes e comunicações, tais como o
correio, o telégrafo e as ferrovias.

Além da incapacidade da burguesia para continuar dirigindo


as forças produtivas modernas que as crises revelam, a
transformação das grandes empresas de produção e transporte em
sociedades anônimas, trustes e em propriedade do' Estado
demonstra que a burguesia já não é indispensável para o
desempenho dessas funções. Hoje, as funções sociais do capitalista
estão todas a cargo de empregados assalariados, e toda a atividade
social do capitalista se reduz a cobrar suas rendas, cortar seus

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 67


cupões e jogar na bolsa, onde os capitalistas de toda espécie
arrebatam, uns aos outro, os seus capitais. E se antes o modo
capitalista de produção deslocava os operários, agora desloca
também os capitalistas, lançando-os, do mesmo modo que aos
operários, entre a população excedente; embora, por enquanto
ainda não no exército industrial de reserva.

Mas as forças produtivas não perdem sua condição de capital


ao converter-se em propriedade das sociedades anônimas e dos
trustes ou em propriedade do Estado. No que se refere aos trustes
e sociedades anônimas, é palpàvelmente claro. Por sua parte, o
Estado moderno não é tampouco mais que uma organização criada
pela sociedade burguesa para defender as condições exteriores
gerais do modo capitalista de produção contra os atentados, tanto
dos operários como dos capitalistas isolados. O Estado moderno,
qualquer que seja a sua forma, é uma máquina essencialmente
capitalista, é o Estado dos capitalistas, o capitalista coletivo Ideal. E
quanto mais forças produtivas passe à sua propriedade tanto mais
se converterá em capitalista coletivo e tanto maior quantidade de
cidadãos explorará. Os operários continuam sendo operários
assalariados, proletários. A relação capitalista, longe de ser abolida
com essas medidas, se aguça. Mas, ao chegar ao cume, esboroa-se.
A propriedade do Estado sobre as forças produtivas não é solução
do conflito, mas abriga já em seu seio o meio formal, o instrumento
para chegar à solução.

Essa solução só pode residir em ser reconhecido de um modo


efetivo o caráter social das forças produtivas modernas e, portanto,
em harmonizar o modo de produção, de apropriação e de troca
com o caráter social dos meios de produção. Para isso, não há

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senão um caminho: que a sociedade, abertamente e sem rodeios,
tome posse dessas forças produtivas, que já não admitem outra
direção a não ser a sua. Assim procedendo, o caráter social dos
meios de produção e dos produtos, que hoje se volta contra os
próprios produtores, rompendo periodicamente as fronteiras do
modo de produção e de troca, e só pode impor-se com uma força
e eficácia tão destruidoras como o impulso cego das leis naturais,
será posto em vigor com plena consciência pelos produtores e se
converterá, de causa constante de perturbações e cataclismas
periódicos, na alavanca mais poderosa da própria produção.

As forças ativas da sociedade atuam, enquanto não as


conhecemos e contamos com elas, exatamente como as forças da
natureza: de modo cego violento e destruidor. Mas, uma vez
conhecidas, logo que se saiba compreender sua ação, suas
tendências e seus efeitos, está em nossas mãos o sujeitá-las cada
vez mais à nossa vontade e, por meio delas, alcançar os fins
propostos. Tal é o que ocorre, muito especialmente, com as
gigantescas forças modernas da produção. Enquanto resistirmos
obstinadamente a compreender sua natureza e seu caráter - e a
essa compreensão se opõem o modo capitalista de produção e
seus defensores -, essas forças atuarão apesar de nós, e nos
dominarão, como bem ressaltamos. Em troca, assim que
penetramos em sua natureza, essas forças, postas em mãos dos
produtores associados, se converterão de tiranos demoníacos em
servas submissas. É a mesma diferença que há entre o poder
maléfico da eletricidade nos raios da tempestade e o poder
benéfico da força elétrica dominada no telégrafo e no arco voltaico;
a diferença que há entre o fogo destruidor e o fogo posto a serviço

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 69


do homem. O dia em que as forças produtivas da sociedade
moderna se submeterem ao regime congruente com a sua
natureza por fim conhecida, a anarquia social da produção deixará
o seu posto à regulamentação coletiva e organizada da produção,
de acordo com as necessidades da sociedade e do indivíduo. E o
regime capitalista de apropriação, em que o produto escraviza
primeiro quem o cria e, em seguida, a quem dele se apropria, será
substituído pelo regime de apropriação do produto que o caráter
dos modernos meios de produção está reclamando: de um lado,
apropriação diretamente social, como meio para manter e ampliar
a produção; de outro lado, apropriação diretamente individual,
como meio de vida e de proveito.

O modo capitalista de produção, ao converter mais e mais em


proletários a imensa maioria dos indivíduos de cada pais, cria a
força que, se não quiser perecer, está obrigada a fazer essa
revolução. E, ao forçar cada vez mais a conversão dos grandes
meios socializados de produção em propriedade do Estado, já
indica por si mesmo o caminho pelo qual deve produzir-se essa
revolução. O proletariado toma em suas mãos o Poder do Estado e
principia por converter os meios de produção em propriedade do
Estado. Mas, nesse mesmo ato, destrói-se a si próprio como
proletariado, destruindo toda diferença e todo antagonismo de
classes, e com isso o Estado como tal. A sociedade, que se movera
até então entre antagonismos de classe, precisou do Estado, ou
seja, de uma organização da classe exploradora correspondente
para manter as condições externas de produção e, portanto,
particularmente, para manter pela força a classe explorada nas
condições de opressão (a escravidão, a servidão ou a vassalagem e

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o trabalho assalariado), determinadas pelo modo de produção
existente. O Estado era o representante oficial de toda a sociedade,
sua síntese num corpo social visível; mas o era só como Estado que,
em sua época, representava toda a sociedade: na antiguidade era
o Estado dos cidadãos escravistas, na Idade Média o da nobreza
feudal; em nossos tempos, da burguesia. Quando o Estado se
converter, finalmente, em representante efetivo de toda a
sociedade, tornar-se-á por si mesmo supérfluo. Quando já não
existir nenhuma classe social que precise ser submetida; quando
desaparecerem, juntamente com a dominação de classe,
juntamente com a luta pela existência individual, engendrada pela
atual anarquia da produção, os choques e os excessos resultantes
dessa luta, nada mais haverá para reprimir, nem haverá
necessidade, portanto, dessa força especial de repressão que é o
Estado.

O primeiro ato em que o Estado se manifesta efetivamente


como representante de toda a sociedade - a posse dos meios de
produção em nome da sociedade - é ao mesmo tempo o seu último
ato independente como Estado. A intervenção da autoridade do
Estado nas relações sociais tornar-se-á supérflua num campo após
outro da vida social e cessará por si mesma. O governo sobre as
pessoas é substituído pela administração das coisas e pela direção
dos processos de produçâo. O Estado não será "abolido", extingue-
se. É partindo daí que se pode julgar o valor do falado "Estado
popular livre" no que diz respeito à sua justificação provisória como
palavra de ordem de agitação e no que se refere à sua falta de
fundamento científico. É também partindo daí que deve ser

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 71


considerada a exigência dos chamados anarquistas de que o Estado
seja abolido da noite para o dia.

Desde que existe historicamente o modo capitalista de


produção, houve indivíduos e seitas inteiras diante dos quais se
projetou mais ou menos vagamente, como ideal futuro, a
apropriação de todos os meios de produção pela sociedade. Mas,
para que isso fosse realizável, para que se convertesse numa
necessidade histórica, fazia-se preciso que se dessem antes as
condições efetivas para a sua realização. A fim de que esse
progresso, como todos os progressos sociais, seja viável, não basta
ser compreendido pela razão que a existência de classes é
incompatível com os ditames da justiça, da Igualdade, etc.; não
basta a simples vontade de abolir essas classes - mas são
necessárias determinadas condições econômicas novas. A divisão
da sociedade em uma classe exploradora e outra explorada, em
uma classe dominante e outra oprimida, era uma conseqüência
necessária do anterior desenvolvimento incipiente da produção.
Enquanto o trabalho global da sociedade der apenas o
estritamente necessário para cobrir as necessidades mais
elementares de todos, e talvez um pouco mais; enquanto, por isso,
o trabalho absorver todo' o tempo, ou quase todo o tempo, da
imensa maioria dos membros da sociedade, esta se divide,
necessariamente, em classes. Junto à grande maioria constrangida
a não fazer outra coisa senão suportar a carga do trabalho, forma-
se uma classe que se exime do trabalho diretamente produtivo e a
cujo cargo' correm os assuntos gerais da sociedade: a direção dos
trabalhos, os negócios públicos, a justiça, as ciências, as artes, etc.,
É, pois, a lei da divisão do trabalho que serve de base à divisão da

72 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


sociedade em classes. O que não impede que essa divisão da
sociedade em classes se realize por meio da violência e a
espoliação, a astúcia e o logro; nem quer dizer que a classe
dominante, uma vez entronizada, se abstenha de consolidar o seu
poderio à custa da classe trabalhadora, transformando seu papel
social de direção numa maior exploração das massas.

Vemos, pois, que a divisão da sociedade em classes tem sua


razão histórica de ser, mas só dentro de determinados limites de
tempo, sob determinadas condições sociais. Era condicionada pela
insuficiência da produção, e será varrida quando se desenvolverem
plenamente as modernas forças produtivas. Com efeito, a abolição
das classes sociais pressupõe um grau histórico de
desenvolvimento tal que a existência, já não dessa ou daquela
classe dominante concreta, mas de uma classe dominante
qualquer que seja ela, e, portanto, das próprias diferenças de classe
representa um anacronismo. Pressupõe, por conseguinte, um grau
culminante no desen~o1vi-mento da produção em que a
apropriação dos meios de produção e dos produtos e, portanto, do
poder político, do monopólio da cultura e da direção espiritual por
uma determinada classe da sociedade, não só se tornou de fato
supérfluo, mas constitui econômica, política e intelectualmente
uma barreira levantada ante o progresso. Pois bem, já se chegou a
esse ponto. Hoje, a bancarrota política e intelectual da burguesia
não é mais um segredo nem para ela mesma e sua bancarrota
econômica é um fenômeno que se repete periodicamente de dez
em dez anos. Em cada uma dessas crises a sociedade se asfixia,
afogada pela massa de suas próprias forças produtivas e de seus
produtos, aos quais não pode aproveitar e, impotente, vê-se diante

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 73


da absurda contradição de que os seus produtores não tenham o
que consumir, por falta precisamente de consumidores. A força
expansiva dos meios de produção rompe as ataduras com que são
submetidos pelo modo capitalista de produção, Só essa libertação
dos meios de produção é que pode permitir o desenvolvimento
ininterrupto e cada vez mais rápido das forças produtivas e, com
isso, o crescimento praticamente ilimitado da produção. Mas não-
é apenas isso. A apropriação social dos meios de produção não só
elimina os obstáculos artificiais hoje antepostos à produção, mas
põe termo também ao desperdício e à devastação das forças
produtivas e dos produtos, uma das conseqüências inevitáveis da
produção atual e que alcança seu ponto culminante durante as
crises. Ademais, acabando-se com o parvo desperdício do luxo das
classes dominantes e seus representantes políticos, será posta em
circulação para a coletividade toda uma massa de meios de
produção e de produtos. Pela primeira vez, surge agora, e surge de
um modo efetivo, a possibilidade de assegurar a todos os membros
da sociedade, através de um sistema de produção social, uma
existência que, além de satisfazer plenamente e ceda dia mais
abundantemente suas necessidades materiais, lhes assegura o livre
e completo desenvolvimento e exercício de suas capacidades
físicas e intelectuais (14).

Ao apossar-se a sociedade dos meios de produção cessa a


produção de mercadorias e, com ela, o domínio do produto sobre
os produtores. A anarquia reinante no seio da produção social cede
o lugar a uma organização planejada e consciente. Cessa a luta pela
existência individual e, assim, em certo sentido, o homem sal
definitivamente do reino animal e se sobrepõe às condições

74 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


animais de existência, para submeter-se a condições de vida
verdadeiramente humanas. As condições que cerca o homem e até
agora o dominam, colocam-se, a partir desse instante, sob seu
domínio e seu comando e o homem, ao tomar-se dono e senhor de
suas próprias relações sociais, converte-se pela primeira vez em
senhor consciente e efetivo da natureza. As leis de sua própria
atividade social, que até agora se erguiam frente ao homem como
leis naturais, como poderes estranhos que o submetiam a seu
império, são agora aplicadas por ele com pleno conhecimento de
causa e, portanto, submetidas a seu poderio. A própria existência
social do homem, que até aqui era enfrentada como algo imposto
pela natureza e a história, é de agora em diante obra livre sua. Os
poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na
história colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir
de então, ele começa a traçar a sua história com plena consciência
do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por
ele começam a produzir predominantemente, e cada vez em maior
medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da
necessidade para o reino da liberdade.

***

Resumamos, brevemente, para terminar, nossa trajetória de


desenvolvimento:

1. - Sociedade medieval: Pequena produção Individual. Meios


de produção adaptados ao uso individual e, portanto, primitivos,
torpes, mesquinhos, de eficácia mínima. Produção para o consumo
imediato, seja do próprio produtor, seja de seu senhor feudal. Só
nos casos em que fica um excedente de produtos, depois de ser

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 75


coberto aquele consumo, é posto à venda e lançado no mercado
esse excedente. Portanto, a produção de mercadorias acha-se
ainda em seus albores, mas já encerra, em potencial, a anarquia da
produção social

2. - Revolução capitalista: Transformação da indústria,


iniciada por meio da cooperação simples e da manufatura.
Concentração dos meios de produção, até então dispersos, em
grande oficinas, com o que se convertem de meios de produção do
indivíduo em meios de produção sociais, metamorfose que não
afeta, em geral, a forma de troca. Ficam de pé as velhas formas de
apropriação, Aparece o capitalista: em sua qualidade de
proprietário dos meios de produção, apropria-se também dos
produtos e os converte em mercadorias. A produção transforma-
se num ato social; a troca e, com ela, a apropriação continuam
sendo atos individuais: o produto social é apropriado pelo
capitalista individual. Contradição fundamental, da qual se derivam
todas as contradições em que se move a sociedade atual e que a
grande indústria evidencia claramente:

A. Divórcio do produtor com os meios de produção.


Condenação do operário a ser assalariado por toda a vida. Antítese
de burguesia e proletariado.

B. Relevo crescente e eficácia acentuada das leis que


presidem a produção de mercadorias. Concorrência desenfreada.
Contradição entre a organização social dentro de cada fábrica e a
anarquia social na produção total.

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C. De um lado, aperfeiçoamento da maquinaria, que a
concorrência transforma num preceito imperativo para cada
fabricante e que eqüivale a um afastamento cada dia maior de
operários: exército industrial de reserva. De outro lado, extensão
ilimitada da produção, que a concorrência impõe também como
norma incoercível a todos os fabricantes. De ambos os lados, um
desenvolvimento inaudito das forças produtivas, excesso da oferta
sobre a procura, superprodução, abarrotamento dos mercados,
crise cada dez anos, círculo vicioso: superabundância, aqui, de
meios de produção e de produtos e, ali, de operários sem trabalho
e sem meios de vida. Mas essas duas alavancas da produção e do
bem-estar social não podem combinar-se, porque a forma
capitalista da produção impede que as forças produtivas atuem e
os produtos circulem, a não ser que se convertam previamente em
capital, o que lhes é vedado precisamente por sua própria
superabundância. A contradição se aguça até converter-se em
contra-senso: o modo de produção revolta-se contra a forma de
troca. A burguesia revela-se incapaz para continuar dirigindo suas
próprias forças sociais produtivas.

D. Reconhecimento parcial do caráter social das forças


produtivas, arrancado aos próprios capitalistas. Apropriação dos
grandes organismos de produção e de transporte, primeiro por
sociedades anônimas, em seguida pelos trustes, e mais tarde pelo
Estado. A burguesia revela-se uma classe supérflua; todas as suas
funções sociais são executadas agora por empregados assalariados.

3. - Revolução proletária, solução das contradições: o


proletariado toma o poder político e, por meio dele, converte em
propriedade pública os meios sociais de produção, que escapam

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 77


das mãos da burguesia. Com esse ato redime os meios de produção
da condição de capital, que tinham até então, e dá a seu caráter
social plena liberdade para Impor-se, A partir de agora já é possível
uma produção social segundo um plano previamente elaborado. O
desenvolvimento da produção transforma num anacronismo a
sobrevivência de classes sociais diversas. À medida que desaparece
a anarquia da produção social, vai diluindo-se também a
autoridade política do Estado. Os homens, donos por fim de sua
própria existência social, tornam-se senhores da natureza,
senhores de si mesmos, homens livres.

A realização desse ato, que redimirá o mundo, é a missão


histórica do proletariado moderno. E o socialismo científico,
expressão teórica do movimento proletário, destina-se a pesquisar
as condições históricas e, com isso, a natureza mesma desse ato,
infundindo assim à classe chamada a fazer essa revolução, à classe
hoje oprimida, a consciência das condições e da natureza de sua
própria ação.

Notas:

(7) Palavras de Mefistófeles em Fausto de Goethe. (N. da R. )


(.)

(8) Não precisamos explicar que, ainda quando a forma de


apropriação permaneça invariável, o caráter da apropriação sofre
uma revolução pelo processo que descrevemos, em não menor
grau que a própria produção. A apropriação de um produto próprio
e a apropriação de um produto alheio são, evidentemente, duas
formas muito diferentes de apropriação. E advertimos de

78 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


passagem que o trabalho assalariado, no qual se contém já o germe
de todo o modo capitalista de produção, é muito antigo; coexistiu
durante séculos inteiros, em casos isolados e dispersos, com a
escravidão. Contudo, esse germe só pode desenvolver-se até
formar o modo capitalista de produção quando surgiram as
premissas históricas adequadas. (Nota de Engels) (.)

(9) Mesnada: tropas mercenárias que serviam aos senhores


feudais nas guerras. (N. da Ed. Bras.) (.)

(10) Trata-se das guerras travadas entre Portugal, Espanha,


Holanda, França e Inglaterra pela posse do comércio com a Índia e
a América e a colonização desses continentes. Dessas guerras saiu
vencedora a Inglaterra, que teve em suas mãos, até os fina do
século XVIII, o domínio do comércio mundial. (N.da Ed. Bras.) (.)

(11) A Situação da Classe Operária na Inglaterra, pág. 109.


(Nota de Engels) (.)

(12) Corrida de obstáculos. N da R.) (.)

(13) E digo que tem de tomar a seu cargo, pois a


nacionalização só representará um progresso econômico, um
passo adiante para a conquista pela sociedade de todas as forças
produtivas, embora essa medida seja levada a cabo pelo Estado
atual, quando os meios de produção ou de transporte superarem
já efetivamente os marcos diretores de urna sociedade anônima,
quando, portanto, a medida da nacionalização já for
economicamente inevitável. Contudo, recentemente, desde que
Bismarck empreendeu o caminho da nacionalização, surgiu uma
espécie ~e falso socialismo, que degenera de quando em vez num

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 79


tipo especial de socialismo, submisso e servil, que em todo ato de
nacionalização, mesmo nos adotados por Bismarck, vã uma medida
socialista. Se a nacionalização da indústria do fumo fosse
socialismo, seria necessário inclui, Napoleão e Metternich entre os
fundadores do socialismo. Quando o Estado belga, por motivos
políticos e financeiros perfeitamente vulgares decidiu construir por
sua conta as principais linhas térreas do pais, eu quando Bismarck,
sem que nenhuma necessidade econômica o levasse a isso,
nacionalizou as linhas mais importantes da rede ferroviária da
Prússia, pura e simplesmente para assim poder manejá-las e
aproveitá-las melhor em caso de guerra, para converter o pessoal
das ferrovias em gado eleitoral submisso ao Governo e, sobretudo,
para encontrar uma nova fonte de rendas isenta de fiscalização
pelo Parlamento, todas essas medidas não tinham, nem direta nem
Indiretamente, nem consciente nem inconscientemente, nada de
socialistas. De outro modo, seria necessário também classificar
entre as instituições socialistas a Real Companhia de Comércio
Marítimo, a Real Manufatura de Porcelanas e até os alfaiates do
exército, sem esquecer a nacionalização dos prostíbulos, proposta
muito seriamente, ai por volta do ano 34, sob Frederico Guilherme
III, por um homem muito esperto (Nota de Engels) (.)

(14) Algumas cifras darão ao leitor uma noção aproximada da


enorme força expansiva que, mesmo sob a pressão capitalista, os
modernos meios de produção desenvolvem. Segundo os cálculos
de Giffen, a riqueza global da Grã Bretanha e Irlanda ascendia, em
números redondos, a 1814 -. . - 2 200 milhões de libras esterlinas -
44 000 milhões de marcos 1865 - - - - 6 100 milhões de libras
esterlinas - 122 000 milhões de marcos 1875 . . - - 8 500 milhões de

80 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


libras esterlinas -- 170 000 milhões de marcos Para dar uma idéia
do que representa a dilapidação dos meios de produção e de
produtos desperdiçados durante a crise, direi que no segundo
congresso dos industriais alemães, realizado em Berlim, em 21 de
fevereiro de 1878, calculou-se em 455 milhões de marcos as perdas
globais representadas pelo último crack, somente para a indústria
siderúrgica alemã. (Nota de Engels) (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 81


INTRODUÇÃO AO MATERIALISMO
DIALÉTICO
Fundamentos da Teoria Marxista
August Thalheimer

82 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


CAPÍTULO I
O materialismo dialético, concepção do mundo moderno
– existem uma ou várias concepções do mundo
moderno?
Existe uma concepção do mundo moderno, reconhecida
como tal mundialmente, assim como há uma só Física, e uma só
Química? Em todo mundo a Física e a Química se ensinam do
mesmo modo. É claro que nestas ciências existem questões ainda
não resolvidas e que são objetos de controvérsias, mas que não
excedem os limites da ciência e só surgem, finalmente, na
proporção das conquistas realizadas por ela. Tais questões se
resolvem por meio de um método reconhecido por todos os que se
dedicam ao estudo da ciência: a experiência. Temos, por exemplo,
o caso da teoria da Relatividade em Física. Uma questão muito
importante, objeto de controvérsias, é a de saber se existe um éter,
uma matéria que transmita a luz. Problemas dessa ordem se
decidem por meio de experiência e aqueles têm sido estudados
com ajuda de uma larga série de experiências realizadas por
físicos célebres, principalmente pelo americano Michelson. Do
mesmo modo, há uma série de questões outras que derivam,
necessariamente, da primeira, como a aparente irregularidade do
planeta Mercúrio, na marcha de um raio solar que passa perto do
sol, etc. Para resolver todos estes problemas só existe um método:
o da experiência.

Como na Física, também na Química surgem outros


problemas. Ultimamente surgiu o problema de averiguar se o

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 83


chumbo ou mercúrio eram susceptíveis de se transformarem em
ouro. Alguns sábios afirmavam que era possível, mas, certas
experiências minuciosas demonstraram que, pelo menos no
estágio atual da ciência, não é possível tal transformação. Foi
negada também a possibilidade no que diz respeito à composição
atômica. Nesse terreno, a experiência proporcionou numerosos
dados reconhecidos por todos como exatos. Podemos dizer,
portanto, que existe toda uma série de ciências, cujos métodos são
mundialmente conhecidos e ensinados do mesmo modo.

A unidade do materialismo dialético


A questão muda, porém, de aspecto para os problemas que
se apresentam no campo da ilosofia. Não existe uma concepção do
mundo admitida por todos, como existe uma Física, uma Química,
uma Botânica, etc. Pelo contrário, existem numerosas concepções
de mundo, opostas umas às outras e que se combatem
reciprocamente. O que para um é verdade, para outro é falso e
vice-versa. Como comunista adiro à teoria que trata da concepção
do mundo, chamada materialismo dialético. Há outras, porém, que
se opõem violentamente a ela. Em primeiro lugar, aquelas
comumente designadas pelo nome de religiosas. Com efeito, uma
religião é, em certo modo, uma concepção de mundo. Elas são em
grande número e cada uma pretende estar na posse exclusiva da
verdade. Somente essa mostraria aos homens o caminho a seguir
na vida e o meio de alcançar outra vida feliz depois da morte. Ao
lado dessas diversas religiões existe, contudo, um grande número
de concepções do mundo. Poder-se-ia dizer que, tantas
concepções quantos filósofos existem, pretendendo cada qual ser
a única justa, com exclusão de todas as demais. Como sair desta

84 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


espantosa confusão e como chegar à verdadeira concepção do
mundo moderno? É o que agora veremos.

O materialismo dialético em seu desenvolvimento


histórico
Poderíamos ter começado este estudo procurando a
resultante de todas estas diferentes concepções do mundo,
tomando de cada uma delas o que tem de comum e dando este
conjunto como a concepção do mundo moderno. Isto, porém, é
impossível, porque se contradizem a tal ponto, são inspiradas em
princípios tão diferentes que se, caso as misturássemos e do
conjunto quiséssemos separar as contradições encontradas, não
restaria absolutamente nada.

Que fazer, então? A tarefa é tanto mais difícil quanto o leitor


menos iniciado não tem um espírito completamente virgem e, de
um modo mais ou menos consciente, formou um conceito do
mundo, tanto consequência da educação recebida como pelas
influências do meio ambiente (leituras, conferências, etc.).
Portanto, o melhor método a seguir é o de expor o materialismo
dialético, não como coisa definitiva, com normas fixas, mas sua
história, seu desenvolvimento, ensinando como ele, com a ajuda
de certos elementos, chegou a construir uma concepção do mundo
e, finalmente, em face do seu ponto de vista, a crítica das diversas
concepções do mundo que se lhe opõem. Só assim poderemos
cumprir a nossa tarefa.

Por outro lado, este método tem a enorme vantagem de


permitir ao leitor orientar- se, ele próprio, sobre as várias correntes

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 85


intelectuais que a seguir encontrará. É o método que empregava
Kant quando dizia a seus alunos: “O que eu quero não é ensinar-
vos um determinado sistema filosófico e, sim, que aprendais a
filosofar por vós mesmos, a formar uma opinião própria.” E isso
tanto é necessário em Filosofia como em qualquer outro mister. Se
você fizer a alguém uma conferência sobre a arte de fabricar
sapatos, a lição de nada valerá se não lhe não ensinarmos também
a maneira de fabricá-los. Do mesmo modo não se tiraria nenhum
resultado de uma longa conferência sobre o materialismo dialético
se não ensinarmos, ao mesmo tempo, a aplicação desta concepção
do mundo às principais questões da Sociologia, da História, das
Ciências Naturais, da Filosofia, etc. Por esta razão, vou me esforçar
para aplicar o próprio método do materialismo dialético à
exposição que dele vou fazer. Começaremos por travar
conhecimento com duas de suas características principais. Vou
expô-lo como algo que se formou pouco a pouco, isto é, como
fenômeno histórico. É, com efeito, uma característica particular de
o materialismo dialético considerar todas as coisas, na Natureza e
na História, não como fatos acabados e indestrutíveis, mas sim,
como aparecidos e em contínua transformação para desaparecer
um dia. Em seguida, demonstrarei como o materialismo dialético
nasceu de uma ou de várias concepções do mundo que lhe eram
diametralmente opostas, chegando, assim, à aplicação dessa outra
sua característica fundamental: a ideia de que o desenvolvimento
se processa através das contradições e que uma coisa se
desenvolve sempre partindo de sua contrária.

86 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Duas correntes ideológicas fundamentais: a corrente
proletária e a corrente burguesa
Se examinarmos agora, mais de perto, as diversas
concepções do mundo que se acham em contradição, atualmente
veremos que não temos ante nós um conjunto anárquico e, sim,
que poderemos distinguir certos grupos, certas tendências. Se os
examinarmos sob este ponto de vista, poderemos distinguir
imediatamente duas correntes principais, que correspondem
exatamente às duas classes fundamentais da sociedade moderna.
A primeira é a corrente proletária. A esta corrente pertence o
materialismo dialético, chamado também “marxismo”. A outra é a
corrente burguesa, representada pelas diferentes concepções do
mundo, chamadas comumente de “idealistas”. Existe, todavia, uma
terceira corrente intermediária entre as duas primeiras e que se crê
colocada sobre elas, mas que, na realidade, não é senão uma forma
especial da concepção do mundo à maneira burguesa, isto é, a
pequeno- burguesa. Do mesmo que, socialmente, a pequena-
burguesia se acha colocada entre o proletariado e a burguesia,
existe toda uma série de concepções do mundo intermediárias
entre a concepção materialista do proletariado e a concepção
idealista da burguesia. Como, porém, a pequena-burguesia não
pode, na realidade, adotar uma posição neutra, itermedia entre a
burguesia e o proletariado e é, finalmente, obrigada a decidir-se
por uma ou por outra, a fazer uma aliança com uma das duas, esse
conceito do mundo, próprio da pequena-burguesia, não pode ser
colocado acima do materialismo e do idealismo, nem entre os dois.

Tratarei de expor estas correntes fundamentais em seu

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 87


desenvolvimento histórico.

O que nos interessa, neste estudo, não são os pormenores


científicos, os nomes, os dados etc., mas, unicamente, as grandes
linhas gerais da história do pensamento. Desde já será o próprio
materialismo dialético que constituirá o ponto central do nosso
estudo. Examinaremos imediatamente a questão religiosa como a
concepção do mundo mais antiga, origem de todas as demais.
Prosseguiremos, estudando os diferentes sistemas filosóficos da
antiguidade. Logo depois passaremos ao materialismo francês, isto
é, à filosofia que preparou a maior e mais importante revolução
burguesa em fins do século XVIII. Insistiremos particularmente
sobre este materialismo, porque ocupa um lugar preponderante na
história da formação do materialismo dialético. Depois,
indicaremos as etapas mais importantes do desenvolvimento da
Filosofia burguesa na Alemanha, a saber: Hegel e Feuerbach, aos
quais dedicaremos um estudo especial, porque, como o
materialismo francês, eles também contribuíram
consideravelmente para a formação do materialismo dialético. E,
finalmente, analisaremos os princípios fundamentais da dialética e
verificaremos os seus resultados na prática.

88 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


CAPÍTULO II
A religião
O caráter fundamental da religião.
A primeira questão que se nos apresenta é a seguinte: Em
que se diferencia a religião do conceito dialético-materialista do
mundo? Que constitui o caráter particular, fundamental da
religião?

O caráter fundamental da religião pode ser assim definido: é


um produto da fantasia, da inspiração, contrariamente à
concepção do mundo moderno, que é um produto da ciência. Essa
ideia pode igualmente ser expressa do seguinte modo: a religião
baseia-se na crença, enquanto a ciência se baseia no
conhecimento.

Contudo, não é exato dizer que a religião é produto só da


fantasia e não se baseia em nenhuma experiência anterior. A
fantasia religiosa é igual a qualquer outra fantasia. Tem certa base
experimental que interpreta à sua maneira. A ciência, igualmente,
tem a sua base experimental, que é interpretada de um modo
totalmente oposto, não por meio da fantasia, mas por meio da
lógica e da ideia consciente.

Interpretação religiosa e interpretação científica dos fenômenos da


natureza.
Para melhor compreensão dessa diferença de método,
vamos exemplificar a maneira diversa por que a religião e a ciência
tratam o mesmo assunto. Tomemos um fenômeno: a chuva. Esse

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 89


fenômeno tem uma importância extraordinária na vida material do
homem. A sorte dos povos que se dedicam principalmente à
agricultura depende, em parte, da frequência, da abundância e da
distribuição local da chuva. Mas a chuva é um fenômeno
independente da vontade humana. É impossível, portanto,
provocá-la ou impedi-la, conforme se tenha ou não necessidade
dela. Pois bem. Que faz a religião? Que fazem os povos primitivos?
Uma e outros imaginam o fenômeno natural da chuva como
produto da ação de um ser fantástico, que chamam “o deus da
chuva”. Encontramos esse deus e outros análogos em todos os
povos primitivos e sob as formas mais diversas. Para esses povos
primitivos, o problema consiste em influir sobre esses deuses,
donos da chuva, com o auxílio de meios que se sabem, por
experiência, exercerem grande influência sobre seres poderosos:
presentes, sacrifícios, súplicas, ameaças ou atos simbólicos
representados por ações reais, cerimônias, etc. Entre certos povos,
existem especialistas para tal fim: são os “produtores da chuva”,
cuja função é provocá-la por meio de certas cerimônias e fórmulas
mágicas.

No mesmo caso, a ciência procede de modo completamente


diverso. Ela não considera a chuva o produto da ação de um deus,
de um demônio ou de um espírito qualquer, mas o resultado de
causas naturais ou de determinadas forças da natureza. Ela
investiga as causas da chuva, não na vontade de seres fantásticos
que se ocultam por detrás do fenômeno, mas no próprio fenômeno
e em suas relações com a natureza em geral. Há uma ciência
especial, a Meteorologia, que se ocupa da chuva, estuda-lhe os
fenômenos e classifica-os segundo esse ponto de vista: quais são a

90 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


causa e o efeito? Que condições são necessárias para que a chuva
caia e em que regiões cai, etc.? Essa ciência não progrediu ainda
bastante para poder prever com exatidão, em cada caso, se
choverá e onde choverá, nem tão pouco para provocar a chuva. Um
feiticeiro australiano sabe aparentemente muito mais do que um
meteorologista moderno, que pode prever aproximadamente a
chuva, mas não pode provocá-la a seu bel prazer. Vê- se por aí o
antagonismo fundamental existente entre a altitude da ciência e a
da religião.

Tomemos outro exemplo: o do trovão. O homem primitivo


acredita na existência de um deus do trovão, que viaja sobre as
nuvens em seu carro. Diversa é a atitude da ciência, que considera
o trovão como um ruído, a consequência de um fenômeno de
descarga elétrica, que é o relâmpago. Ainda não foi possível
produzir artificialmente a quantidade de eletricidade necessária
para provocar o relâmpago e o trovão, mas já se conseguiu, em
laboratórios de física, provocar fenômenos semelhantes, embora
em pequena escala.

Resumindo, diremos que o caráter próprio da religião


consiste em dar uma interpretação fantástica a um grupo de fatos
conhecidos, seja na natureza ou na história, e é assim que
apresenta deuses, espíritos, demônios, etc., como os senhores
possuidores ou produtores dos fenômenos da natureza. Na última
forma da evolução religiosa, isto é, nas religiões chamadas
monoteístas, a natureza não é regida por numerosos espíritos,
deuses ou demônios, mas por um Deus único, um ser fantástico,
que vive fora e para além do mundo, um ser cuja base é
representada pelo próprio homem, cujos poderes são infinitos e

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 91


que possuem esses poderes sem relação alguma com um corpo
determinado. É desnecessário dizer que não existe um só Deus, as
uma família de deuses, composta do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Desde a forma de que se reveste entre os negros da
Austrália até a que tomou com o cristianismo, a religião representa
uma longa série de desenvolvimentos no curso dos quais não varia
na essência. Mesmo hoje, no regime capitalista moderno, existem
formas de religião extraordinariamente refinadas e nas quais a
ideia religiosa se distancia muito, na aparência, das concepções
primitivas dos negros da Austrália. Mas somente na aparência,
porque, se as estudarmos com atenção, imediatamente
verificaremos que essas formas refinadas da religião significam
uma volta às crenças primitivas dos selvagens do interior da África
ou da Austrália.

Diversa é a posição da ciência, que observa e compara os


fatos, classifica-os, decompõe-nos, estuda sucessão dos
fenômenos no tempo e a ação que exercem uns sobre outros, bem
como o modo de se produzirem, etc., e que também estuda o
modo como aparecem e se transformam os fenômenos sociais.
Tomando por base as ciências naturais, ela constrói em seguida a
técnica e sobre a base da ciência social – a política, com a ajuda das
quais e mediante leis conhecidas põe as forças naturais a serviço
do Homem, para a reprodução de valores de uso ou a serviço das
instituições sociais.

Nesse sentido, a religião, tenha o nome que tiver, distingue-


se essencialmente da ciência e da concepção do mundo moderno.

92 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Principais fontes da religião.
Trata-se, agora de saber quais são as principais fontes da
religião. Distinguimos duas, em primeiro lugar. A primeira é o
estado de dependência em que se encontra o Homem em face à
natureza e seu desejo de dominar, no campo da imaginação, por
meio de sacrifícios, orações, cerimônias, etc., as forças naturais que
na realidade não pode dominar. A segunda fonte, não menos
importante, da religião, são as relações dos indivíduos em relação
à sociedade, isto é, o conjunto das relações sociais. A base das
relações sociais tem como origem, por sua vez, o modo de
produção, ou seja, as relações que os homens estabelecem
mutuamente ao produzirem coisas úteis para sua subsistência, ou,
ainda, a forma social de produzirem a vida material.

Analisemos essas duas principais fontes da religião da época


das sociedades primitivas. Comecemos por examinar a
dependência do Homem face à natureza.

É lógico que o Homem tanto mais dependente da natureza


quanto menor é o seu desenvolvimento técnico e econômico. Ele
se acha, portanto, nesse caso, em condições mais propícias para
considerar todos os fenômenos da natureza através da fantasia
religiosa. Recordemos o Homem primitivo, armado somente de um
instrumento rudimentar de pedra, osso, ou de um pedaço de
madeira apenas suficiente para garantir-lhe os objetos necessários
à existência por meio da caça e da pesca. É natural que se tais
relações de dependência com a natureza nasçam as mais diversas
concepções religiosas. Vejamos o lavrador primitivo. Depende ele
estritamente das forças naturais: do sol, do vento, da chuva, do rio

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 93


que corre pelos campos. Enquanto o Homem não puder
compreender esses fenômenos e não puder prevê-los e dominá-
los, em grau maior ou menor, com auxílio da técnica, buscará um
meio para dominá-los com o auxílio da religião. Se examinarmos as
diferentes formas de sociedades e religiões, logo veremos que se
acham sempre em estreita relação com a atitude da sociedade
diante da natureza.

A força religiosa dos diferentes regimes sociais.


A segunda fonte da religião é considerada pelas relações
mútuas dos homens. Vemos por elas que, na sociedade, o indivíduo
depende do conjunto da coletividade, que representa para ele uma
força superior. Nas épocas primitivas a coletividade exerce uma
influência considerável sobre o indivíduo, que se encontra num
extraordinário estado de dependência ante o clã ou a tribo. Os
hábitos, direitos, costumes, etc., as prescrições, em suma, da
coletividade, são para ele imperativos aos quais não pode eximir-
se. Mas, em geral, não compreende o sentido desses mandatos que
influem sobre ele de um modo instintivo e automático. A sociedade
primitiva não é, em si mesma, senão uma espécie de ser natural.
Os mandatos, prescrições, costumes, etc., influem sobre o
indivíduo como forças naturais que ele não chega a compreender.

As sociedades têm, finalmente, com respeito a elas próprias,


a mesma atitude que adotam ante as forças naturais. Esse é o
caráter particular das relações sociais refletidas com clareza
pelas concepções religiosas que constituem o seu fundamento e a
sua sanção. Por esse motivo, encontramos entre os povos
primitivos das ilhas do Oceano Pacífico muitas prescrições tabu,

94 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


isto é, prescrições pelas quais, tal ou qual grupo de homens não
deve caçar tal ou qual animal, ou não deve colher nem comer tal
ou qual planta durante determinado período. Essas prescrições
tinham em sua época uma significação muito clara. Constituíam
simplesmente uma regulamentação das forças produtoras. Tinha
por objeto conseguir determinada divisão do trabalho e certa
regulamentação do consumo. Posteriormente, porém, tornaram-
se incompreensíveis, automáticas, e foram a origem de certas
concepções religiosas, segundo as quais essas regras haviam sido
estabelecidas por tal ou qual espírito ou demônio, que sancionava
por si mesmo a execução ou meios de castigo infligidos a quem as
violasse.

Uma das mais antigas concepções religiosas, talvez a mais


antiga de todas, é o culto aos mortos, aos espíritos ancestrais, que
precisamente nas antigas religiões desempenham um papel
considerável. Os espíritos ancestrais não podem ser explicados
como a encarnação de um fenômeno natural, mais unicamente
como o auxílio das relações sociais. As almas dos mortos, adoradas
pelos descendentes, mantêm – em imaginação naturalmente – os
laços entre as diferentes gerações, assegurando a continuidade da
ordem social tradicional, encarnada no espírito ancestral da família
ou do clã. Encontramos de imediato, fontes muito abundantes de
concepções religiosas, onde os antagonismos de classe surgem na
sociedade. Nesse momento, a religião se converte num meio que
serve de instrumento à classe dominante para manter na
obediência e na submissão a classe explorada. Mas, não é tudo. No
instante em que aparecem os antagonismos de classe, assiste-se à
formação de uma classe ou casta especial, cuja única função

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 95


consiste em ocupar-se dos assuntos religiosos. É a casta dos
sacerdotes, uma casta que está mais ou menos dispensada de
executar trabalho produtivo e que é mantida pelo resto da
coletividade. Para essa casta especial, os conceitos religiosos se
convertem rapidamente num meio de explicar e manter sua
situação privilegiada. Não obstante, seria um erro pensar que os
indivíduos que as integram enganam conscientemente o resto da
coletividade, produtos que são, eles também, das relações sociais.
A religião é, portanto, considerada como uma verdade, seja pela
massa popular, seja pelos próprios sacerdotes. Ela representa a
concepção do mundo adaptada às condições de existência e ao
pensamento primitivo. É preciso também compreender que essa
classe de sacerdotes desempenhou, durante certo tempo, um
papel progressivo. Na época em que os homens, para adquirirem
os meios necessários à existência, precisavam fazer imensos
esforços, os sacerdotes, em conseqüência de sua posição social
particularíssima, que os dispensava de qualquer trabalho
produtivo, encontraram a possibilidade de consagrar-se a uma
série de tarefas sociais, para cujo exercício era indispensável a não
obrigação de participar diretamente da produção.

Vemos, portanto, que os sacerdotes criaram os fundamentos


da ciência, tanto assim que os princípios da Astronomia remontam
às investigações feitas pelos sacerdotes egípcios e babilônios e que
os primeiros elementos da Geometria foram descobertos pelos
sacerdotes, que necessitaram medir a terra, traçar plano para a
construção de templos, prever o aumento ou a diminuição das
águas do Nilo, etc. A casta dos sacerdotes desenvolveu,
igualmente, os primeiros germes do que mais tarde seria a Filosofia

96 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


e as Ciências Naturais - que, um dia, acabarão com a existência dos
sacerdotes e da própria religião.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 97


CAPÍTULO III
O papel social da religião
A religião e suas relações com as formas sociais e de produção.
Vejamos, agora, que relações existem entre a Religião e o
modo de produção. Verificamos a pouco, que, na antiguidade, o
desenvolvimento das concepções religiosas estava estreitamente
ligado ao desenvolvimento das formas sociais. Tomemos como
exemplo, o fenômeno da fusão dos diferentes deuses locais. Do
mesmo modo que as famílias se agrupavam em tribos e
imediatamente as tribos constituíam os povoados, os deuses
primitivos das famílias e aldeias se agrupavam em deuses de tribos,
sendo considerado um deles como o deus supremo da tribo em
apreço. Quando certo número de tribos se agrupava para formar
uma nação, assistimos à criação de um deus nacional e, finalmente,
quando se constituía uma unidade social ainda mais considerável,
um império composto de diversas nacionalidades, o deus nacional
cedia seu lugar ao deus do império. Podemos verificar esse
fenômeno de maneira nítida na China antiga, onde a hierarquia de
deuses, demônios, espíritos, etc., corresponde exatamente à
estrutura social. Temos, em primeiro lugar, os deuses das famílias
e dos clãs, que são os antepassados. Depois temos os deuses de
aldeias os Deuses de povoados e províncias e, por fim, quando, em
consequência da fusão de um grande número de pequenos estados
feudais, a China se torna uma monarquia centralizada, assistimos
igualmente a uma centralização das concepções religiosas. O “Céu”
foi considerado como o deus supremo, e o grande sacerdote do
céu é o imperador. Também no império romano vemos as religiões
primitivas nacionais substituídas pelo cristianismo como religião

98 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


universal.

O ponto de partida do cristianismo, assim considerado, foi a


religião nacional de um pequeno povo da Palestina: os judeus. O
deus nacional judeu foi elevado à dignidade de deus mundial.
Tinha, com efeito, qualidades particulares que o predestinavam a
converter-se no ponto de partida da religião mundial da
antiguidade, porque era o deus de um povo oprimido e,
naturalmente, as classes e povos oprimidos do Império Romano
foram os primeiros crentes desta nova religião.

Algumas palavras mais sobre o cristianismo. As relações do


cristianismo com a estrutura social não se manifestaram
unicamente pela característica de seu deus como deus universal, e
sim também por outro aspecto muito importante. O cristianismo
se constituiu como a religião dos escravos. Estes formavam a classe
mais explorada e oprimida do povo, a que sentia, portanto, mais
necessidade de libertação. Eram conduzidos a Roma, vindos de
todos os países. A opressão comum e a vida em comum fizeram
desaparecer entre eles todas as diferenças de ordem nacional.
Assim, tornaram-se acessíveis à propaganda de uma religião
internacional. Pergunta-se por que, precisamente entre eles, se
incubou a necessidade de uma religião nova e por que não se
fizeram simplesmente materialistas ou ateus. Para isso, é preciso
compreender que uma classe não pode desembaraçar-se da
religião senão quando possui a força de edificar um mundo novo,
uma nova ordem social e econômica superior. E este não era o caso
dos escravos da Antiguidade. A escravidão não tinha nenhuma
saída para uma ordem econômica e social superior. A escravidão
originou a ruína do mundo antigo, das civilizações grega e romana.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 99


Não houve um desenvolvimento novo para uma ordem social
superior até que as tribos germânicas invadiram o Império
Romano, aniquilaram a antiga sociedade e a antiga cultura e
edificaram, sobre suas ruínas, o regime feudal. O sistema de
escravidão não oferece nenhuma solução histórica. Por isso, a
ideologia dos escravos em luta contra o destino que os oprimia não
podia ser senão uma ideologia religiosa. Sua imaginação devia
tomar necessariamente uma forma fantasiosa: um reino dominado
por um redentor do mundo, com um regime de consumo
comunista. Este reino foi primeiramente colocado no mundo e,
depois, no além: no céu. Do mesmo modo, de algumas décadas a
esta parte, temos visto desenvolverem-se sentimentos religiosos
extremados entre os escravos modernos, por exemplo, entre os
das plantações de algodão dos Estados Meridionais da América do
Norte, reagindo contra a terrível opressão a que estavam
submetidos e para a qual não viam solução alguma.

O cristianismo feudal.
Estas mesmas relações entre o regime social e as concepções
religiosas, ainda as encontramos na Idade Média. O cristianismo
dessa época somente na aparência é análogo ao cristianismo da
Antiguidade, porque, do mesmo modo que se transformavam,
então, as relações sociais, se transformou o cristianismo. O Império
Romano foi substituído na Idade Média por um sistema de Estado
Feudal: nasceram os Estados nacionais e europeus modernos. As
relações econômicas locais estreitaram-se, constituiu-se uma
hierarquia nova e esses mesmos sintomas foram se manifestando
na religião. Enquanto o cristianismo primitivo conhecera somente
uma divindade, composta de três pessoas, o cristianismo da Idade

100 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Média conheceu uma série de seres celestes, classificados segundo
uma hierarquia semelhante à feudal, que se organizava da seguinte
maneira: em primeiro lugar, o senhor feudal, vassalo de um conde
ou de um duque, por sua vez submetido à autoridade de um
príncipe ou de um rei. Os príncipes, duques, reis, etc., colocam-se
abaixo do imperador. É exatamente essa mesma hierarquia que
encontramos no cristianismo da Idade Média. Primeiro, temos o
povo com seu santo local; depois as províncias com seus santos
particulares; em seguida as nações com seus santos nacionais.
Acima deles encontramos os anjos divididos em numerosas
categorias; depois, os arcanjos e, finalmente, a Santíssima
Trindade. Tenhamos em mente, portanto, que na Idade Média,
ainda não haviam desaparecido os mais primitivos conceitos
religiosos. As crenças pagãs, tais como a crença em fantasmas, em
gnomos, gigantes e toda espécie de espíritos e demônios, mantém-
se no cristianismo e o completam. A razão é que têm igualmente
sua origem nas condições de existência da sociedade medieval.

O papel da religião na sociedade capitalista.


Vejamos, agora, o papel que desempenha a religião na
sociedade capitalista moderna. Poder-se-ia pensar que nessa
sociedade a religião não tem razão alguma de existir, uma vez que
as relações dessa sociedade com a natureza são muito diversas
das relações das sociedades passadas. Enquanto na Antiguidade e
na Idade Média o Homem se encontra num estado de completa
dependência ante a natureza, na sociedade capitalista moderna,
pelo contrário, a técnica e a ciência permitem-lhe dominá-la e
estender essa dominação ao infinito. Nenhum sábio moderno
apelará para fórmulas mágicas, a fim de resolver os seus

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 101


problemas. O técnico, que deseja construir uma máquina qualquer,
não procederá do mesmo modo que um feiticeiro australiano ou
africano, mas antes se baseará nas propriedades comuns da
matéria. Parece estranho, por isso, que ainda possam existir
concepções religiosas na moderna sociedade capitalista. Mas, aqui,
a fonte da religião não é a natureza, senão a própria sociedade. É
um fato sabido que a classe dominante na sociedade capitalista
conhece perfeitamente o método que lhe permite dominar a
natureza. O que, porém, ela não conhece é um método capaz de
dominar racionalmente a própria sociedade. E, com efeito, o que
caracteriza a sociedade capitalista é o fato de não ser administrada
de um modo racional, vivendo, pelo contrário, em meio a uma
desbragada anarquia. A sociedade capitalista não domina a sua
própria vida econômica e social. Cada indivíduo e a própria
sociedade são dominados por essa vida. Vemos, desse modo, que
a atitude da sociedade capitalista ante a sua própria economia não
se diferencia da atitude do selvagem australiano ante o relâmpago,
o trovão, a chuva, etc. Percebe-se mais claramente essa
característica da sociedade capitalista nas épocas de crise
econômica, de guerra e revolução. Realmente, nos períodos de
crise milhões de fatores econômicos se aniquilam sem que possam
os indivíduos opor qualquer resistência e sem que possam escapar
à sua sorte. A economia capitalista prossegue no seu
desenvolvimento – da paralisação da produção à prosperidade, e
desta à crise – sem poder exercer sobre esse desenvolvimento uma
influência dada e sem poder prever o momento em que irromperá
a crise. Com mais forte razão, não pode evitar as catástrofes, que,
produzindo-se bruscamente na sociedade capitalista, são mais
terríveis ainda nas épocas de guerra, em que milhões de homens e

102 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


imensas riquezas são destruídos sem que a sociedade possa fazer
qualquer coisa para impedi-lo. Muito ao contrário, o nascimento de
tais crises se origina no próprio mecanismo da concorrência
capitalista. Compreende-se, assim, porque em tal sociedade as
concepções religiosas não desapareceram e subsistirão com ela.
Uma característica das correntes religiosas é que aparecem mais
claramente e sob formas mais ou menos estúpidas, entre as classes
dominantes nos momentos de crise, de guerra ou de revoluções.
Essa é a causa de se ter reforçado durante a guerra o movimento
religioso da burguesia europeia. Com as insurreições que
explodiram depois da guerra, correntes análogas apareceram.
Atualmente, nota-se um ressurgimento do espiritismo, isto é, da
crença nos espíritos que, no fundo, em nada se diferencia das
crenças das tribos selvagens da África do Sul. Juntamente com
essas formas rudimentares da religião existem outras mais
refinadas, impossível de distinguir a primeira vista, mas que se
assemelham mais ou menos à concepção dos homens primitivos,
segundo a qual as almas dos mortos possuem uma existência
independente do corpo e exercem influência sobre a vida humana.
Em épocas como a que hoje vivemos, em que a burguesia europeia
se vê colocada ante a ameaça da revolução proletária, a religião é
para ela um meio de tranquilizar os seus temores e um apoio que
a sustém no momento em que o abismo se abre ante seus olhos.

A burguesia revolucionária e a sua luta contra a religião e a igreja.


Houve, sem dúvida, uma época em que a burguesia
sustentou uma luta encarniçada contra a religião e a Igreja. Basta
lembrar o papel desempenhado pelos enciclopedistas e os
materialistas franceses no século XVIII. Era, realmente, a época em

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 103


que a igreja constituía uma parte integrante da classe contra a qual
a burguesia devia fazer sua revolução. A igreja estava
estreitamente ligada ao feudalismo e à monarquia absolutista.
Nesse período, que, por sinal não foi muito duradouro, a burguesia
era antirreligiosa e chamava o povo para lutar contra o feudalismo
e contra a igreja. Quando, porém, chegou ao poder com a ajuda do
povo, imediatamente modificou seu ponto de vista: compreendeu
que a religião seria para ela um meio admirável de firmar sua
dominação política e econômica, um meio excelente de opressão
da grande massa popular. Donde se explica que a burguesia, por
medo ao proletariado, sustenha hoje a mesma igreja que outrora
combatera.

A religião e a classe camponesa.


Examinaremos, agora, o papel que desempenha a religião
entre os camponeses. Na sociedade moderna, o camponês, e
principalmente o pequeno camponês, se caracteriza por uma
situação social e econômica particular, que determina uma atitude
especial frente à natureza. O pequeno camponês não se acha,
como o grande latifundiário capitalista, na posse dos meios
modernos da técnica. Trabalha com instrumentos simples,
relativamente primitivos, uma vez que sua exploração não é
suficientemente importante para permitir-lhe utilizar-se das
conquistas da ciência e da técnica modernas. Por esse motivo,
encontra-se em maior dependência das forças da natureza do que
o fazendeiro capitalista. Sua sorte depende do sol e da chuva, das
características do solo e de mil outras causas de ordem natural e
que não podem ser dominadas e sobre as quais exerce uma
influência muito restrita. Entre os pequenos camponeses a religião

104 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


tem, como vimos, as raízes em sua dependência em face da
natureza, em sua condição social e em sua situação particular de
classe. Uma vez que sua exploração não representa sequer uma
simples economia natural, o camponês é um produtor de
mercadorias. Produz cereais e gado, que leva ao mercado, do qual
depende inteiramente, onde se converterão em dinheiro, estes
cereais e este gado, e onde fixam seu preço de venda. O mercado
é que decidirá se trabalhou grátis, se recebe o valor total do seu
trabalho ou uma parte somente. Não é o próprio camponês que
determina o preço; sua sorte depende desta potência econômica
superior, que é o mercado. Tomemos como exemplo, um
camponês que cultiva o trigo. Se desejar vendê-lo, o preço
mediante o qual poderá encontrar comprador não depende apenas
da quantidade de trabalho desenvolvido para cultivá-lo, e sim
mediante o preço em vigor no mercado determinado pela Bolsa de
Paris, de Londres, de Nova York. E sucede frequentemente que o
camponês fica arruinado por essas leis de mercado, que ele
desconhece e que, mesmo no caso de conhecer, não pode
dominar, nem exercer sobre elas qualquer influência. Está claro
que, devido a este estado de dependência extraordinária em que
vivem os pequenos camponeses frente aos fenômenos da natureza
e também em face das condições do mercado capitalista,
encontremos aqui novas fontes de concepções religiosas. Eis
porque se explica a persistência da religião entre os camponeses
mais pobres e atrasados.

A religião e o proletariado.
A classe da sociedade moderna que, por sua situação tem
maiores possibilidades de desembaraçar-se do jugo religioso, é o

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 105


proletariado. A razão é bem simples: em consequência de sua
situação particular na sociedade capitalista, o proletariado é,
inegavelmente, a classe mais revolucionária desta sociedade. É
como classe revolucionária que percebe perfeitamente até que
ponto os preceitos religiosos são para ela o meio de consolá-la de
sua miséria terrestre, fazendo-a esperar pelas alegrias que obterá
no céu. O proletariado compreende igualmente que a burguesia,
longe de contentar-se com os bens celestes, procura, pelo
contrário, acumular a maior quantidade possível de bens terrenos.
Compreende, enfim, que todas essas promessas feitas pela
burguesia não tem fundamento algum. Juntemos a isso o fato de
que o cristianismo, como religião de escravos, prega um estado de
completa submissão de espírito. Este aspecto do cristianismo é,
evidentemente, precioso para as classes dominantes. Mas,
também, é a razão pela qual os operários o repudiam. Isto explica
porque a burguesia europeia se esforça por propagar o cristianismo
nos países coloniais: Índia, China, África, etc. É extremamente
agradável ao imperialismo que o missionário ensine aos indígenas
a tudo esperar do céu, a serem modestos e obedientes. Enquanto
isso, o capitalista vai à igreja todos os domingos e se esforça,
durante o resto da semana, em aproveitar-se das riquezas
materiais pertencentes às colônias. Assim se explica porque, onde
penetram os capitalistas europeus, levam sempre consigo, além do
álcool, a bíblia e o missionário.

Acrescentaremos àqueles, outros motivos que impulsionam


o operário moderno a pôr a religião de lado para identificar-se com
uma concepção científica do mundo. O operário moderno não
toma ante a natureza a mesma atitude do camponês. Vive próximo

106 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


à máquina, conhece a técnica e, portanto, não lhe ocorrerá atribuir
os fenômenos da natureza à ação de um ser supraterrestre. Graças
à posição que ocupa nos processos de trabalho, o operário adota
uma atitude natural – e não fantástica – em relação aos fenômenos
da natureza.

Por outro lado, no que diz respeito à sua atitude em face das
potências sociais, o proletariado é a classe que melhor
compreendeu o verdadeiro sentido da economia capitalista e sabe
que está chamado historicamente a revolucionar essa sociedade,
que se deixa levar pelo acaso cego das forças naturais, e a substituí-
la pela sociedade socialista, na qual o Homem não somente domina
a natureza como também a vida econômica. Esta atitude peculiar
ao operário moderno é que explica o fato dele poder se libertar
mais fácil e completamente das concepções religiosas. Podemos,
hoje, verificar em todos os países capitalistas modernos, que
unicamente a classe operária se libertou por completo dos
preconceitos religiosos. Naturalmente, ainda existem operários
crentes, mas isso se explica em última análise, pela influência que
a Igreja e a educação burguesa ainda exercem sobre eles, que só
poderão repelir por completo essa influência mercê de seu próprio
esforço. A parte da classe operária que pode levar a cabo essa
emancipação intelectual absoluta nunca passará, na sociedade
capitalista, de uma minoria. Somente quando esta sociedade se
houver transformado completamente é que nascerão as
condições capazes de permitir à classe operária libertar-se
completamente, em sua totalidade, das concepções religiosas.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 107


A atitude do racionalismo e do materialismo dialético ante a
religião.
Já vimos as razões pelas quais se mantém na sociedade
capitalista a influência da religião e como o papel econômico e
social das diferentes classes determina a sua atitude diante dela.
Examinemos, agora, os pontos de vista que se pode adotar nessa
questão. Reduzem-se a dois principais: o primeiro é o do
racionalismo, que considera a religião simplesmente como uma
coisa totalmente irracional. Segundo ele, basta, portanto, uma
educação adequada para libertar-se de sua influência. A palavra
“racionalismo” provém de terem os filósofos franceses do século
XVIII adotado em suas lutas contra a religião e a Igreja o ponto de
vista da “razão”, segundo o qual a religião é apenas um erro
remediável e que se remediará por meio da educação. O que
caracteriza essa corrente ideológica é a sua incompreensão total
da história. Ela não considera a religião como um fenômeno
histórico, destinado à desaparecer um dia como ocorre com os
fenômenos históricos. Se menciono esse ponto de vista é somente
por ser encontrado com frequência no anticlericalismo burguês.
Muito radical na aparência, entretanto, não tem grande eficácia na
luta contra a religião.

O segundo ponto de vista é o do materialismo dialético.


Distingue-se do anterior ao considerar a religião como um
fenômeno histórico, que tem suas raízes na estrutura econômica
da sociedade e que desempenhou inclusive, um papel progressivo
em sua época. Essa concepção combate a religião baseando-se no
fato de que esta se converte, atualmente, num obstáculo para o
desenvolvimento social, sabendo, porém, perfeitamente que ela

108 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


ainda possui na sociedade capitalista fundamentos materiais.
Vemos por aí, na prática, que não basta tratar de suprimir
simplesmente a religião por meios educativos, mas que é
necessário suprimir as causas materiais em que se apoia a religião,
para poder suprimi-la. Para esse objetivo ser atingido, é necessário,
antes de mais nada, substituir a sociedade capitalista pela
sociedade socialista. Essa mudança terá como resultado o
desaparecimento das raízes mais profundas da religião, raízes que
se originam do fato da sociedade capitalista não dominar o seu
próprio destino, mas ser, pelo contrário, dominada por ele. Outro
resultado obtido será a completa modificação da atitude da
sociedade e seus indivíduos ante a natureza. O socialismo repousa
realmente sobre as conquistas que, no campo da técnica, herda do
capitalismo, aumentando-as até o infinito. Por esse motivo, essas
fontes de concepções religiosas não poderão suprimir-se
unicamente por meio da educação, mas somente por meio de uma
completa transformação social. Isso não exclui, de certo, a
necessidade da propaganda antirreligiosa, que constitui por si
mesma um fator importante da revolução. Pelo contrário, contribui
para dar ao papel desempenhado por essa propaganda o seu justo
valor, incorporando-a de modo eficaz ao conjunto do trabalho de
preparação revolucionária.

O sucedâneo da religião.
Cabe, aqui, esta pergunta: “Que substituirá a religião, quando
ela houver desaparecido”? Poderíamos responder como o poeta
alemão Goethe: “Quem tem a Arte e a Ciência tem a Religião.
Quem não tem a Arte nem a Ciência, que tenha a Religião”. Ou, em
outras palavras: a religião se fez para gente inculta. Mas, o que

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 109


Goethe reserva para uma pequena elite será, no futuro, acessível a
todos. Na sociedade burguesa, somente um pequeno número de
privilegiados pode libertar-se intelectualmente. Já na sociedade
socialista todos se libertarão. É necessário, porém, compreender
que se hoje constitui um embaraço para o desenvolvimento social
o fato de só uma pequena parte de privilegiados ter a possibilidade
material de cultivar-se livremente, em épocas anteriores era
impossível, dado a insuficiência das forças de produção, pretender
alcançar o estado de coisas atual, em que ambas as condições,
moral e material, de libertação das grandes massas são possíveis. A
libertação por parte de uma minoria da necessidade de participar
diretamente dos trabalhos produtivos foi uma condição
indispensável para o desenvolvimento das ciências naturais e, por
conseguinte, da técnica, que, uma vez manifestadas as condições
necessárias, cria a possibilidade material do livre desenvolvimento
cultural da coletividade. Isso demonstra que um fenômeno que é
necessário e que constitui um progresso em determinadas
condições, muda por completo de sentido em outras condições
históricas, convertendo-se num obstáculo para o próprio
progresso. O papel desempenhado pela religião em diversas
épocas históricas mostra-nos, com perfeita clareza, a lei geral do
desenvolvimento dessas épocas, isto é, a lei do desenvolvimento
através das contradições. Mais adiante veremos como essa lei não
somente pode ser aplicada ao movimento histórico como a toda
espécie de movimentos.

110 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


CAPÍTULO IV
A filosofia materialista na antiguidade
Desenvolvimento da concepção do mundo moderno.
As lutas das quais nasceu a concepção do mundo moderno
duraram mais de dois mil anos. Essa concepção não se formou em
dias. Através dessas lutas foi que se desenvolveram a Filosofia e as
Ciências Naturais. O materialismo dialético constitui apenas o
último elo da cadeia, o último resultado de lutas que remontam às
épocas mais longínquas da história. O ponto de partida desse
desenvolvimento foi a Grécia Antiga, berço da Filosofia e das
Ciências Naturais, e onde se lançaram os fundamentos da
concepção dom mundo moderno. Por esse motivo, começaremos
pelo estudo da filosofia grega.

Causas da decadência da religião e do desenvolvimento da Filosofia


e das Ciências Naturais.
Vejamos, agora, as condições gerais materiais do
desenvolvimento da Filosofia e das Ciências Naturais, bem como as
da decadência da religião, na Antiguidade. A causa principal de
decomposição das religiões, na Antiguidade, foram principalmente
os progressos realizados no desenvolvimento das forças produtivas
e, portanto, do Homem sobre a Natureza. Os progressos da
primitiva fase comunista coincidem com a extensão da propriedade
privada e da economia mercantil. Nesse sentido, os fatores
preponderantes mais imediatos foram: o desenvolvimento da
agricultura; depois, a aparição do capital comercial e do capital-
moeda, que desempenha um papel de importância progressiva na

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 111


vida econômica e social. Aqui, vemos entrar em cena uma nova
classe, que dispõe de tempo suficiente para desenvolver-se
livremente e consagrar-se à Arte e à Ciência. Na Antiguidade, o
desenvolvimento econômico era conseguido mercê dos
contingentes da sociedade escravagista, na qual toda produção
pesava sobre o trabalho escravo. A base de todo esse
desenvolvimento, no curso do qual a religião antiga começa a
decompor-se e se constituem os primeiros germes da concepção
do mundo moderno, é, por conseguinte, a aparição da economia
escravagista. É esta que permite a formação de uma classe de
indivíduos que dispõem de lazer suficiente para se consagrarem a
uma atividade não produtiva. Como dizia Aristóteles, o ócio é a
condição necessária para o desenvolvimento da Filosofia. Numa
época mais primitiva, antes do desenvolvimento da economia
escravagista haver atingido a sua plenitude, surge uma fase
intermediária, na qual se cria uma classe de camponeses e artesão
livres. É nessa classe social que se apoia, entre os povos gregos, a
dominação dos tiranos. Tão grandes transformações econômicas e
sociais tiveram como resultado uma completa mudança nas
concepções morais e políticas tradicionais. É natural que ao se
produzirem num povo que viveu sem variar de condições durante
centenas e milhares de anos, todos esses problemas tradicionais
sejam novamente trazidos à discussão. Na Grécia, especialmente o
desenvolvimento da Filosofia e das Ciências Naturais estava
estreitamente relacionado com o das cidades comerciais das
costas da Ásia Menor, onde, nos séculos VI e VII antes de Cristo,
assistimos à aparição de uma filosofia materialista dirigida
principalmente contra a classe dos sacerdotes.

112 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Filosofia grega da natureza e desenvolvimento das cidades
comerciais da Ásia Menor.
Examinemos brevemente as condições gerais em que se
formou a filosofia grega da natureza representada pelos filósofos
“jônicos”, assim chamados por pertencerem à região denominada
Jônia. A base principal dessa filosofia é o desenvolvimento das
cidades comerciais gregas das costas da Ásia Menor, cidade entre
as quais se destacavam como as mais importantes as de Mileto e
Éfeso e que se achavam do ponto de vista econômico e cultural,
muito acima do nível geral da Grécia de então. Foi nessas cidades
que se constituiu, pela primeira vez, ao lado da classe sacerdotal,
uma classe de indivíduos que, tendo adquirido grandes riquezas,
encontrou, assim, a possibilidade de consagrar-se ao estudo da
ciência. Esse desenvolvimento foi ainda favorecido pela
circunstância de que o horizonte intelectual dos gregos da Ásia
Menor se ampliara consideravelmente graças aos progressos da
navegação comercial. Os primeiros marujos mercantes gregos
cortavam com seus navios as águas do Mar Mediterrâneo, do Mar
Negro, etc., travando conhecimento com numerosos povos,
religiões, usos e costumes estranhos, o que explica a facilidade com
adotaram uma atitude de crítica relativamente à sua própria
religião, a seus próprios costumes, etc., e aprenderam a julgar essas
matérias de um ponto de vista mais livre. Os progressos da
navegação e do comércio deram também origem a um
desenvolvimento considerável da técnica. Os artesãos gregos
transformavam em seu país as matérias primas que recebiam do
estrangeiro. Nasceram, assim, grandes indústrias: a fiação de lã, a
fabricação de cristais, ornamentos e pedras preciosas, etc.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 113


Ao mesmo tempo, porém, o incremento da importação de
cereais e outros artigos de consumo deu lugar ao empobrecimento
dos proprietários rurais indígenas.

Os camponeses que trabalhavam nos domínios desses


proprietários emigraram para as cidades, a fim de aí trabalhar
como artesãos, constituindo, pouco a pouco, uma nova classe de
artesanato livre, dominada por um tirano, que era geralmente um
rico proprietário rural metido ao mesmo tempo em negócios
comerciais e financeiros. Devido a suas riquezas e à existência de
um grande número de cidadãos livres sem terras e em busca de
ocupação, puderam constituir uma milícia mercenária e obter o
poder pela violência. Foi essa a base material da filosofia grega da
natureza. Os progressos da técnica, da indústria fabril, da
navegação, o aumento dos conhecimentos geográficos, etc.,
criaram condições que permitiram a investigação de uma
explicação natural do mundo, em oposição à explicação fantástica
dadas pelos sacerdotes. Os homens que haviam feito grandes
viagens pelo Mar Mediterrâneo, que se haviam familiarizado com
os elementos da Astronomia, da Geografia, necessários à
navegação, e que haviam travado conhecimento com uma
multidão de povos estrangeiros de costumes diversos, puderam
elaborar uma concepção científica do mundo. Dispunham para isso
de liberdade e de meios suficientes.

Tales de Mileto e sua tentativa de explicação materialista do


mundo.
O primeiro filósofo Jônico, do ponto de vista cronológico, foi
Tales de Mileto, apelidado de “o pai da Filosofia”, originário de

114 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Mileto, naquela época a mais rica de todas as cidades gregas da
Ásia Menor. Essa cidade dispunha de uma grande frota comercial e
estendia o seu domínio por todo um vasto território. O que
sabemos a respeito dos ensinamentos de Tales é muito pouco, e se
relaciona com a sua teoria da formação do mundo. Uma das
questões fundamentais que a religião se esforçava também para
resolver era a seguinte: “Como se formou o mundo?” Tales,
seguindo um rumo oposto ao da religião, procurou dar-lhe uma
explicação natural. “O mundo - dizia ele - tem como origem a água.
Esse é o princípio e a essência de todas as coisas”. Queria dizer com
isso que todos os demais elementos (distinguiam-se, então, quatro
elementos fundamentais: a água, o fogo, o ar e a terra) provinham
da água. Essa explicação baseava-se na crença de que todas as
matérias são iguais e pode, portanto, transformar uma na outra.
Tales não tinha, então, é de ver, a possibilidade de provar essa
afirmação, como faz a Química hoje em dia. Por outro lado, a
explicação de Tales continha igualmente a ideia de que a água era
a origem da vida. Sabemos, hoje, que as ciências naturais declaram
que todos os animais terrestres descendem de animais aquáticos e
que foi no mar que a vida apareceu pela primeira vez. A teoria de
Tales revela, portanto, um pressentimento genial das futuras
descobertas da ciência. O fato de Tales afirmar que a água é a
origem material do mundo se explica facilmente, num povo
comercial, cujas riquezas vêm do mar, com o qual e acha em
contato permanente. Conta-se que Tales costumava visitar os
sacerdotes egípcios, que lhe transmitiam grande parte de seus
conhecimentos. Isso confirma o que anteriormente dissemos, isto
é, que a ciência dos sacerdotes egípcios foi um dos pontos de
partida da Filosofia. Esses sacerdotes tinham motivos particulares

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 115


para desenvolver seus conhecimentos naturais. Toda a vida
econômica e cultural do Egito depende da irrigação artificial do país
por meio das águas do Nilo. Sem essas irrigações, o país seria um
deserto. Para regularizá-las, porém, os sacerdotes deviam prever
as épocas de enchentes e vazantes das águas do Nilo e, para isso,
tinham que estudar as estrelas. A irrigação, do mesmo modo que a
construção dos templos necessitava operações de agrimensura
para ser levada adiante. Assim se explica ter-se desenvolvido entre
os sacerdotes egípcios os primeiros elementos da Geometria, da
Astronomia e das Matemáticas, elementos que foram utilizados,
classificados e desenvolvidos pelos filósofos jônicos.

Anaximandro.
Como Tales, Anaximandro era originário de Mileto, tendo,
porém, vivido numa época mais próxima à nossa. Os seus
ensinamentos eram, em linhas gerais, os seguintes: o mundo
provém de uma matéria amorfa, cujo desenvolvimento se processa
pela separação se seus diversos elementos. Dessa matéria estão
constituídos todos os corpos celestes. Os homens descendem de
animais aquáticos, que penetraram lentamente no interior dos
continentes. A ideia da formação do mundo, dos planetas e dos
seres vivos era ligada por Anaximandro à do fim do mundo. Se a
formação do mundo se deve à divisão da matéria nos elementos
que a constituem, o fim do mundo e a morte dos seres vivos se
produzirão pela dissolução dos elementos que o compõem.
Segundo Anaximandro, a matéria é eterna e indestrutível. A
Filosofia e, por conseguinte, uma filosofia materialista – acrescenta
– baseia-se em causas naturais.

116 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Estudando-os detidamente, esses conceitos assombram pela
sua exatidão, numa época em que ainda não se conheciam os
grandiosos resultados alcançados pelas ciências modernas da
natureza: a Química, a Física, a Astronomia, etc.

Heráclito.
Heráclito, de Éfeso, foi apelidado de “o obscuro” devido à
confusão e à dificuldade de seus escritos. Nasceu em Éfeso, que
era, naquela época, a rival de Mileto, e viveu no século VI antes de
Cristo. A sua importância na história da Filosofia consiste em que
foi ele que descobriu e elaborou as linhas gerais do que mais tarde
havia de chamar-se dialética. Heráclito chegou à sua teoria de
formação do mundo mediante uma generalização das teorias
existentes em sua época sobre esse problema. Todos os filósofos
que o precederam atribuíram ao mundo uma origem diferente.
Tales fazia-o nascer das águas, outros do ar e ainda havia os que
viam sua origem na matéria em geral. Heráclito formulou a teoria
da transformação constante de todas as coisas, exprimindo esse
conceito sob uma forma assombrosa: tudo muda, isto é, tudo está
permanentemente em vias de uma transformação constante, nada
permanece fixo. Essa ideia, ele a exprimiu ainda sob outra forma,
não menos admirável: “É impossível - disse – navegar duas vezes
na mesma corrente”. Com efeito, o rio nunca permanece igual,
transformando-se a cada instante. Essa ideia do rio que se
transforma constantemente serviu a Heráclito para explicar todas
as transformações que se verificam na natureza e na sociedade. Tal
conceito da transformação constante de todas as coisas, é a ideia
fundamental da dialética. De acordo com a concepção de
Heráclito, o mundo em si é eterno, ou seja, ilimitado no tempo, e

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 117


infinito, isto é, ilimitado no espaço. Ele, porém, se transforma
constantemente, nunca permanecendo o mesmo. É preciso,
entretanto, não confundir essa ideia, da transformação constante
de todas as coisas com a teoria moderna da evolução. Segundo a
concepção de Heráclito, a transformação do mundo não continua
progressivamente até o infinito, mas, sim, constitui o que os físicos
e químicos denominam um “ciclo”, quer dizer – uma
transformação constante das coisas que voltam sempre ao ponto
de partida. Senão vejamos: como todos os seus predecessores,
Heráclito distinguia também quatro elementos fundamentais – o
fogo, a água, a terra e o ar. Esses quatro elementos transformam-
se constantemente uns em outros, mas de tal forma, que essa
transformação se verifica sempre no limite desses quatro
elementos fundamentais. Na concepção de Heráclito, essa
transformação das coisas não se processa de um modo arbitrário,
mas em obediência a certas regras determinadas. É uma
transformação sujeita a certas leis. É essa uma ideia nova, rica de
consequências. Para Heráclito, o mundo é um fogo eterno. Na
realidade, ele não pensa que o fogo seja a matéria prima da qual
provém o mundo. Para ele, é apenas a imagem de uma
transformação constante.

Outra ideia fundamental de Heráclito é que essa


transformação das coisas se processa segundo esta lei: o oposto sai
sempre do oposto, isto é, a transformação se verifica sempre
através das contradições. Para essa ideia ele encontrou,
igualmente, uma expressão surpreendente: a luta é a mãe de todas
as coisas. A luta das coisas opostas é a força motriz de toda a
transformação, de todo desenvolvimento. Essa é também uma das

118 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


ideias fundamentais da dialética, que Heráclito aplicou às relações
entre o ser e o não ser. Para ele, o ser e o não ser, estes dois termos
contraditórios no mais alto grau, estão contidos na ideia do vir a
ser. O que virá a ser, é e não é ao mesmo tempo. Ou, dito de outra
maneira: a essência de todas as coisas e de todos os processos
consiste na coexistência dos opostos. Todas as coisas são feitas de
contradições.

Heráclito e as relações de classe de sua época.


Essa doutrina correspondia precisamente às formas de
produção e as relações entre classes de sua época. Heráclito
pertencia à aristocracia da cidade de Éfeso. Vimos, anteriormente,
o papel que essa aristocracia desempenhava nas cidades. Tendo, a
princípio, exercido o governo, logo foi este substituído pela
dominação dos tiranos, apoiados na massa dos pequenos artesãos
e camponeses contra os aristocratas. Heráclito que pertencia a esta
última classe, encontrou-se, então, em oposição ao governo. E,
como o regime existente não beneficiasse a sua classe, esforçava-
se por derrubá-lo. Assim se explica nele a ideia de que há uma lei
geral para que todas as coisas não permaneçam tais como são, mas
que devam transformar-se e inclusive, transformar-se no seu
contrário. A situação que sua pátria atravessava naquela época, o
levou a pensar que a luta é o fator de toda transformação e a
chegar à conclusão de que isso não é verdadeiro somente no que
diz respeito às condições políticas e sociais, mas a todas as coisas
em geral.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 119


O atomismo, desenvolvimento lógico do materialismo na
Antiguidade.
Façamos, agora, uma ligeira digressão sobre a teoria dos
átomos, teoria desenvolvida por numerosos filósofos e que
consistia, em essência, na ideia de que o mundo se compõe de
pequenas partículas iguais de matéria, separadas pelo vácuo.
Segundo esses filósofos, todos os fenômenos da natureza se
explicam pelos diferentes movimentos dessas partículas de
matéria. Essa doutrina forma, hoje, parte integrante da ciência
moderna. Na Antiguidade, constituía o desenvolvimento lógico da
concepção materialista do mundo, tal como os filósofos jônicos a
haviam formulado. E essa teoria dos átomos desempenhou um
papel importante em todas as doutrinas materialistas posteriores.

120 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


CAPÍTULO V
A filosofia idealista na antiguidade
A filosofia idealista e suas relações com a economia escravagista.
A esses filósofos materialistas sucedeu toda uma série de
filósofos idealistas, entre os quais se salientaram Platão e
Aristóteles. Platão nasceu no ano 429 e Aristóteles no ano 384,
ambos antes de Cristo. Pertencendo, portanto, a uma época
posterior à dos filósofos linhas atrás mencionados. Esses dois
filósofos exerceram imensa influência sobre inúmeras gerações,
sobre a filosofia da Idade Média como sobre a da época moderna.
Pode-se dizer, inclusive, que todas as concepções idealistas do
mundo tiraram suas idéias de Platão e Aristóteles.

Examinemos, agora, as razões que explicam essa passagem


da filosofia materialista à filosofia idealista. A principal é o
desenvolvimento da economia escravagista, como base da
sociedade grega e princípios de sua decadência. Essa sociedade,
baseada no trabalho dos escravos, se foi vendo, pouco a pouco,
num beco sem saída. No século VII, o trabalho servil começou a
implantar-se somente nas colônias gregas da Ásia Menor, embora
o comércio de escravos estivesse já em plena prosperidade. Mas,
nos séculos IV e V já o trabalho servil também constituía a base da
vida econômica de Atenas. A economia escravagista constituía,
naquela época, a principal relação de classe e não, como
ordinariamente se acredita, o antagonismo entre a aristocracia e a
democracia, que não era senão um antagonismo na classe
dominante, a dos cidadãos que, ricos ou pobres, viviam, todos, do
trabalho dos escravos, que não tinham direito algum e, nem sequer

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 121


eram considerados como homens, mas, sim, como instrumentos
vivos. Se o povo ateniense pode consagrar-se à política, à arte, à
filosofia, à cultura do corpo e do espírito, foi graças à afluência
abundante e contínua de trabalhadores escravos.

Causas da decadência da sociedade.


A decadência da economia antiga tem a sua explicação nas
contradições em que necessariamente cai toda sociedade que se
apoia no trabalho de escravos. Em primeiro lugar, para manter a
economia escravagista, não basta o aumento natural da população.
Essa é uma experiência comprovada não somente na antiguidade,
mas também nas plantações dos Estados meridionais da América
do Norte, onde o trabalho era feito pelos escravos. Para poder
manter a economia escravagista, é preciso um aumento constante
de escravos. Estes, porém, não podem ser recrutados senão
mediante guerras contínuas, guerras a que se vê obrigado todo
Estado que dependa da economia escravagista e que,
naturalmente, o debilitam. O cidadão que partia para guerra devia
possuir um equipamento, que custava bastante caro, sobretudo se
tinha que pelejar o cavalo. Além disso, devia manter sua família e a
si próprio durante a campanha. O resultado foi que os pequenos
camponeses e industriais que marchavam para a guerra se
empobreciam lentamente. O poder do Estado diminuía e cedo se
viu ameaçado pelo perigo de ser vencido por outro Estado, em que
os camponeses e artesãos não haviam ainda sido reduzidos à
miséria. E ser vencido tinha, então, outra significação que na
atualidade, porquanto a população era passada a fio de espada ou
reduzida por completo ao cativeiro, tanto os homens como as
mulheres e as crianças.

122 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Os cidadãos pobres, parasitas do Estado.
Outra contradição em que necessariamente cai toda
sociedade fundada no trabalho de escravos é a constituída pela
crença natural, no seio dessa sociedade, de que o trabalho é
indigno de um homem livre. Essa ideia domina os cérebros mais
privilegiados da antiguidade. Isso fazia com que os cidadãos pobres
que não podiam ter escravos se convertessem em parasitas,
vivendo exclusivamente a custas do Estado. O cidadão pobre da
antiguidade não tem ponto algum de contato com o proletariado
moderno. Este se sustenta de seu trabalho, enquanto que o
cidadão pobre da antiguidade era mantido pelo Estado a expensas
do trabalho dos escravos. O Estado possuía uma quantidade de
escravos, cujo trabalho lhe proporcionava os recursos necessários
ao sustento de tais cidadãos. Além disso, uma cidade, como Atenas,
tinha sob seu domínio toda uma série de cidades que lhe pagavam
tributo, também aplicado no referido sustento. A existência de uma
cidade como essa se achava, naturalmente, ameaçada. Uma
sociedade que repousava sobre bases tão frágeis devia mergulhar
numa situação cada vez mais difícil.

Desenvolvimento dos antagonismos sociais entre os cidadãos


livres.
Entre os próprios cidadãos livres deviam, finalmente, surgir
uma série de antagonismos cada vez mais violentos e que
ameaçam o equilíbrio da sociedade. Com efeito, enquanto as
grandes fortunas se acumulavam nas mãos de uma minoria, a
massa de artesãos e camponeses ia gradualmente empobrecendo-
se, caindo na mais completa miséria. Agravou-se, desse modo, dia

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 123


a dia, o antagonismo existente entre credores e devedores. Os
laços que uniam os habitantes da cidade se afrouxavam cada vez
mais. Explodiram violentas guerras civis, que abalaram
consideravelmente o poder do Estado, ameaçando pôr termo à sua
existência.

Trabalho servil, obstáculo ao progresso técnico.


Outra consideração digna de nota era que o trabalho servil
constituía um sério obstáculo ao progresso técnico. Isso se torna
evidente se fixarmos nossa atenção no fato de que os escravos
trabalhavam oprimidos e forçados, não se podendo, por isso,
deixar em suas mãos instrumentos delicados. Por esse motivo, o
trabalho dos escravos não podia ser feito senão utilizando os
instrumentos mais grosseiros. Quando a base da sociedade é o
trabalho servil, a técnica e o desenvolvimento das forças produtivas
paralisam-se por completo. Esses sintomas podem ser verificados
mesmo no apogeu da sociedade escravagista.

Decadência da sociedade grega e sua influência sobre o


pensamento.
Naquela época, já não se perguntava, como nos primeiros
tempos da sociedade grega, qual tinha sido a origem do mundo.
Para o primeiro plano haviam passado as questões sociais: Como
deve o Estado organizar-se? Como dirigir a economia? Que são o
bem e o mal? Que deve ser permitido? Que deve ser proibido?

Todas as idéias morais tradicionais começavam a vacilar.

Outra conseqüência importante da decadência da sociedade

124 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


antiga foi a passagem da filosofia materialista à filosofia idealista.
Essa passagem teve Platão como seu primeiro representante.

Segundo Platão, a verdadeira essência das coisas não reside


na matéria, mas num princípio intelectual não material. O mundo
dos sentidos, o mundo da percepção sensível, não é, para Platão, o
mundo real, mas, um mundo aparente e enganoso. Esse mundo
dos fenômenos sensíveis não é senão uma consequência, um
reflexo das ideias eternas, independentes, de suas formas de
expressão material. Assim, a Filosofia de Platão muda por completo
a verdadeira relação das coisas. Na filosofia platoniana, a ideia
suprema é a ideia do Bem. Essas ideias não são somente a
verdadeira essência do mundo, mas constituem o fator
fundamental de todo o desenvolvimento da natureza. Aristóteles
desenvolveu essa filosofia da seguinte maneira: a razão é a essência
e a força motriz da história.

Como se explica esse abandono do materialismo?


Simplesmente porque não existe para a classe dominante nenhum
modo de romper com as contradições por nós anteriormente
referidas. A economia escravagista não dispõe de meios para
passar a uma forma superior de sociedade. Já vimos como a religião
cristã se formou no seio das classes oprimidas. A filosofia idealista
teve sua origem no seio da classe dominante. Na época da
mudança histórica do Estado ateniense, essa filosofia tinha por
objeto idealizara ordem social existente, suprimir as contradições
que continha e, por conseguinte, apresentá-la como eternas. O
primado da Ideia, da Razão fundava-se na opinião de que as
pessoas sensatas e os sábios são os que devem governar os Estado,
entendendo-se por este a classe dominante. Realmente, segundo

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 125


ela, o povo é irracional e só uma pequena minoria (isto é, a classe
dominante) possui o monopódio da razão. Ao ser essa ideia
aplicada ao mundo inteiro, surge a origem da tese
fundamental que constitui a própria essência da filosofia idealista,
ou seja: que são o espírito e a razão que governam o mundo. Essa
filosofia idealista converteu-se, durante os séculos seguintes,
numa das bases principais da dominação de classe. Seria um erro,
entretanto, dizer que a filosofia de Platão e Aristóteles fora, em sua
época, uma filosofia reacionária. A sociedade antiga não conhecia
nenhum caminho que lhe permitisse fugir às contradições que a
ameaçavam. Não compreendia que outra classe poderia indicar-lhe
o rumo para uma forma de sociedade superior. Na questão da
escravidão, as democracias das cidades gregas da antiguidade não
tinha ponto de vista algum diverso da aristocracia, nem podia tê-
lo, uma vez que a sua própria existência dependia dos recursos que
o trabalho dos escravos punha à disposição do Estado. Seria um
grave erro confundir a democracia grega da antiguidade com a
democracia burguesa ou a democracia proletária da nossa época.
O antagonismo entra a democracia grega da antiguidade e a
democracia burguesa moderna é maior ainda que entre esta e a
democracia proletária. As questões fundamentais que se debatiam
na sociedade antiga não eram as questões de democracia ou
aristocracia, que não passavam de questões superficiais de
interesse apenas para as classes dominantes. A questão
fundamental era a da escravidão, a das relações dos escravos com
os cidadãos livres. O aspecto reacionário dessa filosofia manifesta-
se unicamente em sua atitude em face da escravidão, uma vez que
é a filosofia de uma sociedade baseada no trabalho dos escravos, e
aparece como reacionária ante o desenvolvimento que suprimiu a

126 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


escravidão e a substituiu por formas superiores de exploração.
Mas, essa filosofia não tem apenas um caráter reacionário, tem
também um caráter progressivo. É o que vamos ver agora.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 127


CAPÍTULO VI
A lógica e a dialética na antiguidade
Platão e Aristóteles.
O aspecto progressivo da filosofia de Platão e Aristóteles
consiste em que a classe dominante da sociedade ateniense,
daquela época, considerava que o motivo da exploração do
trabalho dos escravos e de sua própria dominação de classe era o
livre desenvolvimento das faculdades humanas e, sobretudo, o
progresso da razão. Isso se explica pelo fato de que a produção
escravagista não era exclusivamente, nem em sua maioria, uma
produção de mercadorias, isto é, uma produção pela mais-valia,
como sucede na produção capitalista, e, sim, uma produção para
consumo direto, ou seja, uma produção de valores de uso. Disto
resultava que a classe dominante não se consagrava à aquisição de
riquezas, aos negócios, mas ao desenvolvimento das Artes e
Ciências. Isso explica também o interesse considerável que
manifestava pelo estudo da razão humana e pelas descobertas das
leis do pensamento. Os gregos desempenharam um papel
importante na história da Filosofia, desenvolvendo (principalmente
Aristóteles) o ensino das formas e leis do pensamento, o que
habitualmente se chama a lógica formal. Além disso, lançaram as
bases da dialética. Mais adiante veremos o que distingue uma coisa
da outra, a ciência das leis do pensamento, a lógica formal,
receberam tal impulso, que só no século XIX é que se pode avaliar
o progresso duradouro e decisivo por elas alcançado.

128 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Objeto da lógica formal.
Que é a lógica formal? A lógica formal é a ciência das leis do
pensamento. Ensina como se formam as ideias e a maneira de
distingui-las entre si. Trata das diversas espécies de sentenças e das
diferentes formas de conclusões. Propõe-se, numa palavra, a
ensinar o modo justo de pensar.

Importância, para ciência, da lógica formal.


Em geral, o homem pensa de um modo natural, sem
necessidade de uma arte especial do pensamento, o que, para a
vida comum, na maioria dos casos, é o suficiente. Ao se
complicarem, porém, as relações e as coisas, e ao surgirem
problemas com consequências que dependem de toda uma série
de condições, tão depressa intervêm grandes raciocínios
desligados da percepção direta como aumenta a possibilidade de
incorrer em erros e se faz necessária a certeza da exatidão do
pensamento. Por isso, a lógica tem, na Ciência, uma importância
considerável. As leis da lógica se dividem em duas, que são
fundamentais e que constituem, por assim dizer, a sua base. A
primeira é o princípio de identidade, que se pode formular do
seguinte modo: A é A, isto é, cada objeto é igual a si mesmo. Um
homem é um homem. Um galo é um galo. Uma batata é uma
batata. A segunda lei é o princípio de contradição, ou melhor, o
princípio da exclusão de um terceiro. Esta pode ser formulada da
maneira seguinte: A é A ou não é A. Não pode ser as duas coisas ao
mesmo tempo. Por exemplo: uma coisa que é preta não pode ao
mesmo tempo ser preta e branca. Uma coisa não pode ser e ao
mesmo tempo não ser uma coisa. Praticamente o resultado é que,
se tirarmos de uma dada premissa certas conclusões e se

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 129


verificarmos imediatamente contradições, é que se produziram
erros no raciocínio ou que a premissa era falsa. Se de uma premissa
justa se chega à conclusão de que 4 é igual a 5, é que, de acordo
com o princípio de contradição a conclusão era falsa. É evidente.
Que haverá de mais claro do que isso: o homem é o homem, o galo
é o galo, uma coisa é uma coisa? E, assim, torna-se evidente que
uma coisa é grande ou pequena, preta ou branca e que não pode
ser ambas a um só tempo.

As duas leis fundamentais da lógica sob o ponto de vista da


dialética.
Vejamos, agora, a questão sob o ponto de vista de um ensino
superior do pensamento, isto é, do ponto de vista da dialética.
Tomemos o primeiro princípio já formulado como sendo a base da
lógica formal, ou seja, o princípio de identidade: A é A, uma coisa é
uma coisa. Recorramos a outro princípio de Heráclito, que todos
conhecemos e que podemos formular assim: tudo passa; não se
pode entrar duas vezes no mesmo rio. Podemos dizer que o rio é
sempre o mesmo? A tese de Heráclito afirma o contrário. Nunca
permanece o mesmo rio. Transforma-se constantemente. Por isso,
não se pode entrar duas vezes ou, mais exatamente, outra vez no
mesmo rio. Por conseguinte, a fórmula A é A não está certa, a
menos que pensemos que as coisas são imutáveis. Mas, se as
considerarmos sempre em movimento, A é A e ao mesmo tempo
outra coisa. E isto, afinal, é certo para todas as coisas. A Ciência
também já demonstrou que o que aparentemente é imutável se
acha, na realidade, prestes a constantes transformações. Exemplo:
consideram-se as rochas, as grandes montanhas, como símbolo de
imutabilidade. Estas rochas, porém, (isto é demonstrado pela

130 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


história da terra) formaram-se em uma época determinada e
desaparecerão um dia. Está claro que tais transformações se
verificam tão lentamente em relação ao que dura uma vida
humana que, à simples vista, são imperceptíveis. São debilitadas
pouco a pouco pelo vento, a umidade, o frio e o calor. Essas
transformações, porém, ocorrem de um modo insensível à vista
humana e apenas são percebidas com grandes intervalos de
tempo. Podemos citar, de preferência, o exemplo das plantas que
se transformam e crescem sem que possamos dar conta disso. Hoje
em dia, com a ajuda do cinema, podemos observar como cresce
uma planta. Sabemos, assim, que as diversas espécies de plantas se
modificam. Sabemos, por exemplo, que o trigo, o centeio, o arroz,
não foram sempre tal como habitualmente os vemos e, sim, que
são produto de uma evolução. O mesmo acontece com todas as
espécies de animais incluindo a espécie humana. Perguntaremos:
O sistema planetário é imutável? Não. A ciência astronômica nos
ensina que também o sistema planetário se formou pouco a pouco
e acabará por desaparecer. Por conseguinte, também aqui existe
transformação. Acreditou-se, igualmente, durante largos anos (e
até a bem pouco tempo) que os corpos químicos simples, nos quais
se podiam decompor todos os demais corpos, eram imutáveis.
Hoje, sabe-se que isto não é certo e que, por exemplo, o rádio é
objeto de uma constante transformação. Atualmente se acredita
que todos os corpos químicos, até então considerados simples, são
compostos de corpos ainda mais simples, dos elétrons,
constituídos sob determinadas condições de temperatura e de
pressão, e que, por sua vez, se dissolverão e se transformarão. Que
resta, então, do famoso princípio, segundo o qual uma coisa é
sempre igual a si mesma? Devemos dizer que esse princípio não é

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 131


absolutamente certo, mas é aplicável somente a períodos limitados
e em sentido abstrato, isto é, considerando as coisas com abstração
de suas transformações constantes e supondo-as iguais a si
mesmas durante certo tempo. Se, porém, generalizarmos e
expusermos este princípio de modo absoluto, sem reserva alguma,
chegaremos a cometer, forçosamente, grandes erros, porque esta
lei da lógica formal não é suficiente e é preciso recorrer à dialética
que demonstra como a igualdade está ligada a desigualdade. Não
se pode, portanto, distinguir em nenhum aspecto, de um modo
absoluto, a igualdade da desigualdade. O objeto permanece o
mesmo em sua constante transformação. Um filósofo burguês
contemporâneo, Bergson, comete o grande erro de esquecer a
igualdade na transformação geral das coisas e chega, assim, à
conclusão de que a razão humana não pode conhecer a verdadeira
essência das coisas, uma vez que a razão não pode atuar senão com
conceitos definidos, imutáveis. Nisto, Bergson comete o erro
oposto ao que se pratica afirmando que o princípio de identidade
das coisas vale de modo absoluto. Se considerarmos a
transformação no seio de uma coisa do ponto de vista de que não
existe igualdade entre dois estados diferentes desta coisa, não se
pode constatar nenhuma transformação nem inclusive dizer que
existem dois estados diferentes de uma só coisa. Para verificar uma
transformação é necessário uma medida comum. Já a simples
distinção numérica de duas coisas, ou de dois estados de uma
coisa, não é possível senão quando existe um estado de
comparação. Se não existe igualdade sem diferença, não existe
diferença sem igualdade.

132 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O princípio de contradição do ponto de vista da dialética.
Examinaremos, agora, o segundo princípio fundamental do
pensamento, ou seja, o princípio de contradição. Segundo ele, uma
coisa não pode ser, ao mesmo tempo, ela e sua contrária.
Determinada figura geométrica é ou redonda ou retangular. Uma
linha é reta ou curva. Muito bem. Se considerarmos o que já
dissemos sobre o princípio de identidade, verificaremos que não
só a contradição não é impossível como também que tudo o que se
transforma deve conter, a todo momento, certas contradições. Já
dissemos antes que uma coisa que se transforma é, ao mesmo
tempo, ela mesma e outra coisa diferente. É a um só tempo, igual
e diferente de si própria, ou, dito de outra maneira, existe, numa
só e mesma coisa, uma contradição. Este princípio é verdadeiro
para todas as coisas em via de transformação.

Examinemos, por exemplo, esta sentença: Uma linha é reta


ou curva? Como a consideram os matemáticos? Consideram a
menor porção de um círculo como uma linha reta, de onde se
deduz, necessariamente, que uma linha reta e uma curva são iguais
dentro de certos limites. Isso permite efetuar cálculos muito mais
precisos do que se diferenciássemos, absolutamente, o reto e o
curvo. Uma figura é redonda ou retangular. Como, porém, os
matemáticos consideram o círculo como sendo formado por uma
quantidade infinita de ângulos, vemos, por conseguinte, que o
redondo e o retângulo são iguais. Toda uma parte da matemática
está baseada neste princípio contraditório.

A contradição do movimento local.


Pelo que ficou explicado, o princípio de contradição,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 133


levantado pela lógica formal, pode ser substituído pelo princípio
oposto, a saber: que toda coisa traz em si uma contradição e se
compõe de contradições. Já vimos isto ao estudarmos a ideia da
transformação geral das coisas. O mesmo veremos estudando o
que diziam os antigos gregos sobre o movimento local.

Os filósofos pirronistas demonstram, com efeito, que todo


movimento local encerra em si uma contradição e é, portanto,
impossível. Tiravam daí a conclusão de que existe o movimento
geral e que este é só aparente. Demonstravam isso com duas
parábolas célebres: a parábola do javali e a parábola de Aquiles e
da tartaruga. O exemplo do javali é o seguinte: Se um javali é solto
num determinado ponto, ele não poderá nunca chegar a outro
ponto mais distante, porque, solto o javali de um ponto, a que
chamaremos A, com o objetivo de alcançar outro ponto B, é natural
que deverá chegar antes a um ponto intermediário, C; por
conseguinte, deverá ir de A a C. Mas, é igualmente certo que antes
de alcançar o ponto C, deverá alcançar um ponto intermediário, D.
Para passar o ponto D, deverá passar pelo ponto E, situado na
trajetória A-D. E assim se pode ir até o infinito. Antes de haver
alcançado um ponto determinado, o javali deverá sempre alcançar
um ponto intermediário, até o infinito. Portanto, não poderá nunca
distanciar-se do ponto A, porque, com o número de distâncias a
percorrer é infinito, nunca poderá, em um tempo limitado,
percorrer a distância de A a B. Por conseguinte, o movimento é
impossível.

Parábola de Aquiles e da tartaruga.


O exemplo de Aquiles e a tartaruga é ainda mais simples.

134 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Aquiles é uma figura lendária da Ilíada. Era considerado o melhor
corredor da Grécia. A tartaruga, pelo contrário, é um animal que
anda vagarosamente. Se a tartaruga levar uma vantagem
determinada sobre ele, Aquiles não poderá nunca alcançá-la. Com
efeito, suponhamos que a tartaruga leve uma vantagem de 100
metros e que Aquiles faça 10 metros por minuto e a tartaruga 1
metro. Qual será o resultado? Enquanto Aquiles percorre, em dez
minutos, a distância que o separa da tartaruga, esta percorre 10
metros mais. Enquanto Aquiles faz 1 metro, a tartaruga avança 1
centímetro. E assim poderíamos continuar até o infinito. Sempre
haverá determinada distância entre eles e, enquanto Aquiles
percorre esta distância, cada vez a tartaruga avança uma distância
dez vezes menor, donde resulta, portanto, que Aquiles não
alcançará nunca a tartaruga.

A dialética do finito e do infinito e do contínuo e descontínuo.


Estas duas parábolas não são pilhérias, como se poderia crer,
mas, pelo contrário, têm um sentido muito profundo. Qual é?
Tanto em um caso como em outro, fica demonstrado que certa
quantia finita pode dividir-se até o infinito, e daí se conclui que por
este motivo uma distância finita não pode compor-se nem dividir-
se em pequenas partes infinitas. O movimento, porém, nos ensina
que se pode compor, com a ajuda de um número infinito de
pequenas distâncias, certa distância finita. O que aqui se nos
apresenta sob essa forma é o princípio dialético que indicamos
mais adiante. Vimos que uma distância pode ser a um só tempo
finito e infinita. Portanto, o javali pode ir de A a B e Aquiles pode
alcançar a tartaruga.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 135


Solução matemática da parábola de Aquiles e da tartaruga.
Tomemos este último exemplo: antes que Aquiles haja
percorrido os 100 metros que a tartaruga leva de vantagem, esta
já fizera mais de 10 metros, etc.; temos, por conseguinte, 100 mais
10 mais 1 mais 1/10 mais 1/100, ou seja, 111 metros e 11
centímetros. A essa distância exata ele alcançará a tartaruga. Na
verdade, Aquiles necessita de 10 segundos para percorrer os 100
primeiros metros, mais 1 segundo para os 10 metros restantes e
mais 1 décimo de segundo para o último metro, ou seja, no total,
onze segundos e um décimo. Fica, assim, resolvido o problema.
Novamente, porém, provamos que o movimento é contraditório.

Relações entre a lógica formal e a dialética.


Vemos pelo que precede, que existe sempre contradições
nas coisas, o que não quer dizer que todas as contradições sejam
justas. Não o são senão quando refletem as transformações das
coisas. Existem, portanto, contradições que têm sentido e as que
não têm. A dialética não é a ciência das contradições absurdas,
mas, sim, das contradições que têm sentido.

Em que consiste, então, a diferença entre a lógica formal e a


dialética? Em que a lógica formal considera as coisas em estado de
repouso e separadas entre si, enquanto a dialética as considera em
movimento e em relações recíprocas. A lógica formal é uma
observação limitada, secundária, das coisas. É admissível na
medida em que as considera em estado de repouso e separadas
uma das outras, cada uma para si. A dialética é uma observação
superior, mais geral, mais exata e mais profunda das coisas. Ao
considerá-las em estado de movimento ou em suas relações

136 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


recíprocas, vê- se que a lógica formal é insuficiente, sendo preciso
recorrer à dialética.

A dialética materialista e a dialética idealista.


É preciso notar ainda que, tanto em Platão como Aristóteles,
a dialética tem um caráter idealista, isto é, ambos pensam que as
contradições que se produzem no cérebro humano constituem o
elemento fundamental. Nos pensamos, pelo contrário, que as
contradições que se produzem no espírito humano não são senão
o reflexo do movimento das coisas. Para nos expressarmos mais
claramente, diremos: a dialética idealista crê que o movimento das
coisas é o resultado das contradições que existem nas idéias. A
dialética materialista diz, pelo contrário, que o movimento das
coisas constitui o elemento primário e as contradições que se
produzem nas idéias são apenas o reflexo do movimento real.

As raízes da dialética.
Vimos as razões pelas quais os primeiros filósofos gregos
formularam as bases do pensamento dialético e como procuraram
uma explicação para a formação do mundo, chegando de modo
natural à ideia do movimento universal e à transformação geral das
coisas. Em Sócrates, Platão e Aristóteles, estas razões foram,
principalmente, a investigação sobre a constituição do Estado,
sobre as relações sociais, etc., as quais os conduziram à ideia de
que toda coisa está em vias de transformação constante. Na vida
pública apareciam, violentamente, as ideias mais opostas. Discutia-
se ininterruptamente sobre o que são o bem e o mal, sobre a forma
de organização do Estado, etc. O que um dizia, outro contradizia.
Desenvolveu-se, por fim, uma arte de conversação, que foi a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 137


origem da dialética. Chamou-se primeiramente “arte de
conversação”, porque nela teve sua origem.

A dialética, tal como foi formulada por Platão e Aristóteles,


não era ainda a dialética moderna, que caracteriza o materialismo
dialético. Era uma dialética limitada, que correspondia às condições
sociais da época. O objetivo desses pensadores da antiguidade,
Platão e Aristóteles, era o de encontrar na transformação dos fatos
sociais e políticos alguma norma fixa, duradoura, permanente, em
uma palavra: criar um Estado ideal, uma sociedade ideal. Não se
propunham fazer a revolução e, sim, pelo contrário, procuravam o
meio de pôr termo à revolução que se realizava na ordem social.
Assim se explica porque Platão idealizou um Estado utópico, que
considerava como Estado ideal. Daí também se explica a forma
limitada, sem desenvolvimento, da dialética na antiguidade.

Distinguem-se nesta dialética duas fases diversas. De um


lado, a dialética da sucessão, tal como foi exposta por Heráclito. De
outro lado, a dialética da coexistência, tal como foi formulada por
Platão e Aristóteles, isto é, a dialética que encontramos na relação
das diferentes partes de um estado de repouso. A mais elevada
forma da dialética é a que compreende duma só vez a dialética da
coexistência e da última abrange, a um só tempo, a lei das
transformações de um estado e as relações entre as diversas partes
de um todo. Assim foi que, em “O Capital”, Marx formulou toda
uma série de leis econômicas que demonstram como o capitalismo
pode existir como um todo e quais as relações que existem entre
as suas várias partes. Demonstrou igualmente como o sistema
capitalista provém de outro sistema, o da simples produção de
mercadorias e, por outro lado, como as leis do modo de produção

138 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


capitalista se transformam, com o correr do tempo, em outras leis
que conduzem além do capitalismo a um sistema oposto: o
socialismo.

Realmente, se a dialética da antiguidade era limitada, é


porque era a dialética de uma classe dominante, de uma classe cuja
existência repousava no trabalho dos escravos. Nem Platão nem
Aristóteles, os pensadores mais notáveis daqueles tempos, podiam
então, imaginar uma transformação das condições sociais, ou seja,
que a escravidão acabasse um dia e que o antagonismo entre
homens livres e escravos fosse suprimido. Por isso, a ideia que eles
faziam da transformação das coisas não podia passar de certo um
limite social, isto é, de que a ideia da escravidão devia ser uma coisa
eterna.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 139


CAPÍTULO VII
Hegel e Feuerbach
A escolástica da Idade Média.
Antes de passarmos ao estudo dos predecessores imediatos
de Marx e Engels, ou seja, Hegel e Feuerbach, é necessário fazer
algumas considerações gerais a propósito do grande intervalo que
separa a filosofia da antiguidade da filosofia moderna. Estende-se
entre as duas o período do feudalismo. A sua expressão ideológica
é a concepção do mundo feudal, que domina toda Idade Média,
isto é, um período de uns mil anos, desde o ano 500 até o de 1500
depois de Cristo, aproximadamente. Todo esse período está
impregnado da influência poderosíssima da Igreja, que era o mais
forte esteio ideológico do modo de produção e da ordem feudal.
Sob a férula da Igreja, a filosofia e as ciências naturais não puderam
desempenhar nenhum papel independente. A filosofia consagrava-
se unicamente a explicar e interpretar os ensinamentos feudais da
Igreja. Era como então se dizia, “a serva da Igreja”. Essa época da
filosofia é denominada em sua história de filosofia escolástica, da
palavra latina Scola, que significa escola. É, portanto, a filosofia das
escolas superiores eclesiásticas da Idade Média, na qual se
formavam os altos dignitários de Igreja. Não é mister que nos
detenhamos longamente nessa filosofia escolástica, que nenhum
papel independente desempenhou e que nenhum progresso digno
de menção realizou. Os progressos realizados pelas ciências
naturais, durante toda a Idade Média, foram igualmente muito
poucos. Mas, a burguesia já se desenvolvia no próprio seio da
sociedade feudal, aparecendo em cena, pela primeira vez, em fins
do século XV. Os fatos principais que caracterizam essa

140 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


transformação histórica são: o descobrimento da América, a
invenção da imprensa e da pólvora, a aplicação geral do compasso
à navegação e muitos outros inventos. O que, porém, caracteriza
mais particularmente essa transformação histórica é o
desenvolvimento do comércio mundial, não somente em
consequência das relações comerciais se haverem estendido ao
continente americano, recentemente descoberto, como também
graças ao desenvolvimento do comércio marítimo com os países do
Oriente, que, precisamente nessa época, fez consideráveis
progressos. Paralelamente a esse desenvolvimento do modo de
produção burguês, inicia-se uma luta geral contra a instituição
suprema da ordem feudal – a Igreja. Exatamente em princípios do
século XVI essa luta começa a tomar formas violentas ao extremo.
É, então, que surge o movimento da Reforma, movimento de luta
contra a Igreja, mas dentro da religião.

A filosofia burguesa moderna como forma de luta contra o


feudalismo.
Mas, a forma generalizada e mais radical da luta dos
intelectuais contra a sociedade feudal em geral e a Igreja em
particular foi a filosofia burguesa. É característico o fato dessa
filosofia ter aparecido primeiramente nos países onde o
desenvolvimento da burguesia mais havia progredido: na
Inglaterra, nos Países Baixos, a seguir na França e, finalmente, na
Alemanha. Os homens ordinariamente considerados como os pais
da filosofia burguesa moderna são os ingleses Bacon e Descartes,
que viveram na primeira metade do século XVII. O
desenvolvimento da filosofia burguesa marchou ao mesmo
compasso do desenvolvimento da luta religiosa. Essa filosofia

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 141


constitui o ponto culminante da luta de classe levada a efeito pela
burguesia contra a concepção do mundo feudal, assim como a
forma bem mais geral do desenvolvimento da consciência de classe
da burguesia.

Os objetivos principais da filosofia burguesa.


Os objetivos principais da filosofia burguesa são os seguintes:

1º Decomposição dos conceitos fundamentais da religião em


geral e da religião cristã em particular; extensão do domínio da
razão até onde havia, então, dominado a fé religiosa.

2º Desenvolvimento das ciências naturais. Essa é uma das


condições principais do desenvolvimento econômico da sociedade
burguesa. As ciências naturais foram uma arma poderosa contra as
crenças religiosas, especialmente as ciências mais desenvolvidas
nos séculos XVII e XVIII, a Mecânica e a Astronomia.

O desenvolvimento dessas ciências exerceu, por sua vez, uma


influência considerável sobre o desenvolvimento da filosofia. No
século XVIII, com o materialismo francês, a aliança das ciências
naturais e a filosofia, para a luta contra a religião e a concepção do
mundo feudal, em geral, encontra a sua mais firme expressão no
materialismo francês. Bastará mencionar, aqui, os dois nomes mais
representativos do materialismo francês. O primeiro é o de
Diderot, o mais inteligente de todos os materialistas franceses. O
segundo é o de Helvécio, que coordenou num sistema único o
materialismo do século XVIII. Os escritores franceses mais notáveis
do referido século, Voltaire e Rousseau, empreenderam também a
luta contra a Igreja e as instituições feudais, embora não fossem

142 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


tão radicais, do ponto de vista filosófico, quanto Helvécio e Diderot.
Por o outro lado, tão pouco eram materialistas, e sim deístas, isto
é, partidários de uma religião da razão. Ambos se esforçavam por
arrancar do cristianismo o seu caráter feudal. Queriam em suma,
um cristianismo burguês.

A filosofia alemã.
Foi na Alemanha que a filosofia burguesa atingiu seu ponto
culminante. O desenvolvimento econômico e político desse país foi
mais lento que os da França e da Inglaterra, e isso explica porque a
revolução burguesa nele se fez numa fase mais avançada de sua
evolução do que nos outros já mencionados e num nível ideológico
maior. Não mencionarei, aqui, senão dois representantes principais
da filosofia alemã, Hegel e Feuerbach, porque ambos têm entre si
relações diretas e por serem os predecessores imediatos do
materialismo dialético de Marx e Engels. Hegel e Feuerbach
desempenharam, entretanto, papéis muito diferentes. O de Hegel
consistiu em levar até o fim o desenvolvimento da filosofia
burguesa e da filosofia em geral, enquanto o de Feuerbach foi o de
atacar, a uma só vez, a religião e a filosofia.

Hegel e sua época.


Em 1806, Hegel terminou a sua obra fundamental, isto é, no
mesmo ano em que Napoleão infligiu uma grave derrota a
Alemanha feudal, na batalha de Lena, em seguida à qual submeteu
a Prússia, dividindo a Alemanha em duas partes: Norte e Sul. Hegel
morreu em 1830, no mesmo ano da revolução francesa de julho e
do Bill da Reforma, na Inglaterra. Hegel representa o fim da filosofia
burguesa e da antiga. Resume e conduz a seu termo o

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 143


desenvolvimento intelectual de vinte e cinco séculos.

Nova descoberta e aperfeiçoamento do método dialético.


O elemento mais importante e mais revolucionário da
filosofia de Hegel foi o método dialético. Pode-se dizer que Hegel
descobriu de novo a dialética, porque a elevou a um nível que
ninguém havia até então alcançado. Constituía isso, de sua parte,
um trabalho revolucionário no mais alto grau. Com efeito, a
dialética é um método revolucionário ao extremo. Ele nos ensina
que nada, nem na realidade nem no cérebro humano, permanece
tal qual é, mas se transforma sem cessar: que toda coisa, toda
instituição tem um princípio e, por consequência, um fim, passando
por uma fase ascendente e uma fase descendente em seu
desenvolvimento. A dialética ensina que toda coisa, toda
instituição, toda ideia morre, transformando-se no seu contrário. A
dialética diante de coisa alguma se detém. Nada há para ela
sagrado ou imutável. Mas, essa força destruidora da dialética é, ao
mesmo tempo, na concepção de Hegel, a força motriz mais
considerável do progresso histórico. Como dizia Goethe: “Tudo o
que existe merece desaparecer”. Podemos acrescentar, então, que
a dialética é a fórmula mais geral da revolução.

O idealismo absoluto de Hegel.


A segunda característica fundamental da filosofia de Hegel é
ser idealista e idealista na mais absoluta forma. Segundo Hegel, o
movimento das ideias constitui o fator primário. A ideia é para ele
o motor e o gerador da realidade material, tanto da natureza como
da história. O movimento das ideias é, numa palavra, o criador do
movimento universal. A ideia é que cria a realidade.

144 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Vejamos um exemplo dessa maneira de conceber a história:
segundo a concepção materialista, o cristianismo é uma religião
que reflete as condições da produção feudal e a relação das classes
da sociedade feudal. As relações de produção da Idade Média
constituíam o elemento fundamental, primário, de onde se
desprendem todas as ideias da Idade Média, da qual o cristianismo
é a expressão ideológica mais geral. Segundo a concepção de
Hegel, o que se verifica é exatamente o contrário. Para ele, o
cristianismo é que constitui o elemento fundamental. Sobre a base
desse cristianismo desenvolveu-se o modo de produção feudal, as
relações entre as classes da Idade Média, as formas políticas do
feudalismo, etc. Por conseguinte, segundo Hegel, o mundo e seu
desenvolvimento dependem do movimento das ideias. Dessa
forma, Hegel mostra uma série de relações universais entre todas
as partes do conjunto social, de sua estrutura intelectual e
material. Ele também ensina (coisa que representa já um
considerável progresso sobre seus predecessores) que as formas
sociais constituem uma escala histórica, uma série de
desenvolvimentos que se processam através de contradições, e
essas contradições internas, que cada forma social contém,
constituem as formas motrizes que fazem a sociedade passar de
um período histórico a outro. Hegel não busca essas contradições
nas condições materiais, mas na expressão ideológica do período
em vista. Hegel fez as maiores descobertas no campo da história,
mostrando, à sua maneira, as relações internas da vida histórica.
Embora a forma de sua filosofia seja defeituosa, o seu conteúdo
representa, apesar de tudo, um imenso progresso científico.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 145


Negação do desenvolvimento da natureza.
Outro traço característico da filosofia de Hegel (e que é uma
lacuna considerável dessa filosofia) é que ele vê desenvolvimento
apenas na história, e nenhum na natureza. De acordo com a
concepção de Hegel, a natureza move-se eternamente pelos
mesmos caminhos. Hegel, nesse ponto, retrocedeu em relação à
Kant, que se esforçara por explicar a formação do novo sistema
planetário por meio de uma teoria mecânica. O mesmo se verifica
no que diz respeito à sua atitude ante a religião. Não se encontra
nele nenhum antagonismo violento entre a religião e a filosofia. A
filosofia de Hegel extrai a religião do íntimo do homem, dando a
todos os seus dogmas um sentido puramente filosófico,
considerando-os da mesma maneira que aos princípios
fundamentais da lógica ou da dialética, de modo que, na realidade,
nada fica restando do que constitui o verdadeiro caráter da
religião. Mas, Hegel não tocou nas formas exteriores desta. Essa
atitude correspondia perfeitamente, por outro lado, à fase da luta
de classes que a Alemanha atravessava naquela época, ou seja, a
fase preparatória da revolução burguesa. A luta franca contra a
Igreja e o regime absolutista não havia ainda começado. Assim se
explica o fato de Hegel ter podido ser professor na principal
universidade do Estado prussiano, do Estado absolutista contra o
qual se dirigia precisamente a revolução burguesa. Assim também
se explica o fato dessa filosofia ser extremamente obscura e
abstrata, do que resultava não ser acessível senão a uma pequena
minoria de homens familiarizados com as especulações filosóficas.
As autoridades do Estado absolutista prussiano não perceberam
que essa filosofia, obscura e abstrata, que Hegel ensinava na
Universidade de Berlim, era uma filosofia altamente revolucionária.

146 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Os jovens Hegelianos e sua ruptura aberta com o cristianismo.
Mas foi, sobretudo, entre os seus discípulos que se
manifestou o caráter revolucionário da filosofia de Hegel. Alguns
deles se opuseram diretamente ao cristianismo, que era, então, a
religião do Estado. Esse ataque contra a religião cristã era,
portanto, também um ataque contra a ordem reinante. O mais
saliente e o mais radical desses discípulos foi Ludwig Feuerbach. Se
Hegel ainda conseguiu ser professor da Universidade de Berlim,
não o conseguiu o seu discípulo Feuerbach, que se esforçou,
durante algum tempo, por dedicar-se ao ensino nas universidades
prussianas, na qualidade de livre docente; tendo, porém,
fracassado, foi obrigado a retirar-se para uma aldeiola, onde
escreveu as suas obras principais.

A filosofia de Feuerbach era tão revolucionária que foi


eliminada das universidades da Prússia absolutista. Feuerbach
rompeu abertamente com a religião, o que Hegel não fez, e é esse
mesmo o caráter do seu livro “Essência do cristianismo”, aparecido
em 1841. Feuerbach não somente rompeu com a religião, como
também com a filosofia como ciência particular, porque, segundo
ele, a filosofia é a última forma de religião. Feuerbach representa a
transição do idealismo ao materialismo. Segundo ele, o conteúdo
da religião é sempre, sob uma ou outra forma, a crença num ser
supraterrestre, fantástico, criador e dirigente do mundo ao mesmo
tempo. É isso que ensina a filosofia, embora de forma diversa. O
espírito absoluto que, segundo Hegel, rege o Universo não é outra
senão o Deus do cristianismo, mas sob outra forma. O segredo que
se oculta por detrás desse Espírito absoluto e que os homens
representam como existindo mais além, fora de suas percepções

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 147


sensíveis, são a razão e a vontade humana. O homem é o
verdadeiro segredo da religião e da filosofia. Ou, para nos
expressarmos em termos mais simples: a religião cristã, como a
judaica, pretende que Deus criou o homem à sua imagem.
Feuerbach diz que não foi Deus que criou o homem à sua imagem,
mas que, pelo contrário, este é que o criou à sua imagem. Essa ideia
é análoga à que exprimia um filósofo grego da antiguidade, o qual
dizia: “Se os bois fabricassem um deus, esse deus seria um boi, e,
se o fabricassem os negros, teriam um deus de nariz chato e lábios
grossos”. Feuerbach não faz senão generalizar essa ideia,
estendendo-a à filosofia, que não é para ele mais do que uma forma
refinada da religião, da crença em Deus.

O fim do conhecimento suprassensível ou da metafísica.


Segundo Feuerbach, o verdadeiro conhecimento não é
possível senão com o conhecimento das coisas materiais, sensíveis.
Não existe o conhecimento suprassensível, segundo afirmam a
religião e a filosofia, conhecimentos sem percepção sensível. O que
comumente se representa como conhecimento suprassensível não
é mais que transformação fantástica do conhecimento sensível. Por
isso, não existe nenhuma filosofia especial capaz de construir o
mundo por meio do cérebro humano. Um conhecimento
verdadeiro do mundo é impossível sem a base da experiência
sensível. Não se pode construir o universo com a ajuda do cérebro,
como acreditam os filósofos. Por isso, é preciso acabar, de uma vez
para sempre, com a filosofia que crê poder construir o mundo com
auxílio das ideias. O pensamento é inseparável da matéria.

148 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O caráter incompleto do materialismo de Feuerbach.
O que há de mais importante na doutrina de Feuerbach é,
antes de tudo, o fato de que põe fim à filosofia como ciência
especial e, em segundo lugar, que põe fim ao idealismo, passando
ao materialismo. Esse trabalho de Feuerbach foi, entretanto, em
parte negativo. Ao contrário de Hegel, faltou a Feuerbach a
dialética. Feuerbach ressentiu-se de uma chave materialista, de um
conhecimento materialista da história. Somente a respeito da
natureza pode ele pensar de modo materialista. Não soube, porém,
explicar a história de forma análoga. O seu materialismo foi, por
conseguinte, incompleto, e esse caráter incompleto do
materialismo de Feuerbach foi uma das causas que impeliram Marx
e Engels a superá-lo, chegando ao materialismo dialético.

CAPÍTULO VIII
Do materialismo formal ao materialismo dialético
Fontes do materialismo dialético.
O progresso decisivo sobre o materialismo de Feuerbach foi
realizado por Marx e Engels, a partir de 1840, isto é, alguns anos
antes da revolução de 48. Feuerbach escrevera, em 1841, o seu
livro sobre a “Essência do cristianismo” e em 1843 os seus
“Pensamentos sobre a filosofia do futuro”. Poucos anos faltavam
para que Marx e Engels pudessem ultrapassar o ponto alcançado
por Feuerbach. Este não era mais do que um filósofo revolucionário
burguês, pertencente à tendência radical mais avançada da
revolução burguesa. Marx e Engels começaram a sua carreira
política também como revolucionários burgueses radicais, para, a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 149


seguir, passarem para as fileiras da classe operária e chegarem a
ser os fundadores do socialismo científico. Somente ao se
converterem em revolucionários socialistas foi que eles puderam
sobrepujar a concepção burguesa radical. Marx e Engels eram
discípulos de Feuerbach. Mas, não foi somente a filosofia alemã
que os levou ao materialismo dialético. Outros fenômenos da
época contribuíram igualmente para isso, sobretudo na luta de
classes que, então, se desenvolvia na Inglaterra. Era a época do
movimento cartista, o primeiro movimento operário moderno de
grande importância. Na Inglaterra, então o país mais desenvolvido
economicamente, podia-se perceber facilmente que a verdadeira
causa, a explicação das lutas políticas era a luta de classes entre a
burguesia e o proletariado. Por outro lado, era evidente, para quem
acompanhasse com atenção a luta de classes na Inglaterra, que ela
era explicada pela situação econômica das classes que se
combatiam. Pelo fato da burguesia ter em sua mão o monopólio de
todos os meios de produção e acumular riquezas encima de
riquezas, enquanto a classe operária, que não possuía referidos
meios, era condenada a vender a sua força de trabalho. Nisso, por
conseguinte, é que se devia buscar a explicação materialista dos
acontecimentos da época. Frederico Engels passou muitos anos de
sua juventude na Inglaterra, interessando-se de perto pelo
movimento operário e recebendo os primeiros estímulos que
pouco a pouco o conduziram ao materialismo histórico. O segundo
elemento que contribuiu para a formação do materialismo
histórico foi o estudo da revolução francesa, o qual influiu
especialmente sobre Marx, então residindo em Paris. Os escritores
burgueses da revolução francesa já haviam compreendido que os

150 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


acontecimentos dessa revolução se explicavam pela luta entre as
diversas classes da sociedade. A concepção da luta de classes como
força motriz da história política fez-se particularmente clara para
Marx, graças ao estudo da história da revolução francesa, enquanto
Engels, por sua vez, via com exatidão a base econômica da luta
entre o proletariado e a burguesia. A reunião desses dois homens,
Marx e Engels, a aplicação que fizeram à história do método
dialético aprendido com Hegel e a passagem que fizeram, com
Feuerbach, do idealismo ao materialismo, tudo isso criou a base da
formação do materialismo histórico, bem como do socialismo
científico.

Explicação materialista da história e refutação da religião e da


filosofia.
Em que, pois, consiste o progresso realizado por Marx e
Engels sobre Feuerbach? Feuerbach encontrou a chave da
explicação materialista da natureza. Marx e Engels encontraram a
chave da explicação materialista da história. E a encontraram
observando a maneira pela qual os homens procuram seus meios
de subsistência. Empregaram para isso a expressão “modo de
produção”. Modo de produção não significa outra coisa senão a
maneira pela qual os homens buscam seus meios de vida, resumida
por Engels nessa fórmula rude: “O homem tem necessidade de
comer e beber antes de filosofar”. Tudo o mais vem depois e
depende do modo pelo qual os homens procuram satisfazer essas
necessidades. Essa verdade simples é a base da explicação
materialista da história, explicação que destrói por completo o
idealismo e o expulsa de seu último refúgio, a concepção idealista

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 151


da história. Feuerbach eliminou Deus da natureza. Marx e Engels o
eliminaram da história.

Conforme a concepção idealista, Deus não reinava sobre o


mundo do modo grosseiro que as velhas religiões o afirmam, isto
é, influindo pessoalmente sobre todos os acontecimentos da
história, mas de um modo muito mais sutil. Não é Deus em pessoa,
mas as idéias que determinam, como se fossem outros tantos
pequenos deuses, os acontecimentos históricos. Do mesmo modo
que, segundo a Bíblia, Deus tirou o mundo do nada, segundo a
concepção idealista foi o Espírito absoluto que o criou. Marx e
Engels romperam completa e radicalmente com essa concepção,
não reconhecendo na história deus algum, grande ou pequeno,
rudimentar ou refinado, e demonstrando, pelo contrário, que tanto
na natureza como na história é a base material que determina a
base intelectual, ou as ideias.

Repeliram, assim, inteiramente a noção de seres ou forças


supraterrestres, refutando, por conseguinte, em absoluto, a
religião e a filosofia como explicações particulares do mundo.

A dialética materialista, resultado final do desenvolvimento do


pensamento filosófico.
Outro progresso fundamental realizado por Marx e Engels
sobre Feuerbach, foi que eles aproveitaram o método dialético
desprezado por Feuerbach, empregando-o, porém, de maneira
diversa de Hegel. A dialética deste é idealista. A de Marx, ao
contrário, é materialista. Marx, com efeito, considera a dialética

152 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


como a soma das leis gerais do movimento do mundo material e
das leis do desenvolvimento do pensamento humano
correspondentes às primeiras. Ou, em outras palavras: o mundo
material é dialético. O seu desenvolvimento obedece a leis da
dialética, que não é senão o reflexo do movimento real das coisas
no pensamento. Estabelecendo essa tese, Marx e Engels chegam
à conclusão de todo o desenvolvimento do pensamento filosófico,
que não é mais, segundo o materialismo dialético, do que uma
simples acumulação de erros. Todo o esforço da filosofia para dar
uma explicação particular do mundo, oposta à explicação
materialista, foi em vão, logrando apenas acumular erros sobre
erros. Mas, a filosofia obteve, apesar de tudo, um resultado
positivo, que foi a compreensão das faculdades intelectuais do
homem. No curso de vinte a trinta séculos, durante os quais o
homem se tem ocupado com os problemas da filosofia, realizou-se
um progresso real, que é a dialética, a teoria do conhecimento e a
lógica. Em Feuerbach, a dialética desapareceu. Em Max e Engels,
pelo contrário, reaparece e se desenvolve, convertendo-se em
dialética materialista.

Teoria do conhecimento: a existência do mundo externo.


Examinemos, agora, a teoria do conhecimento do ponto de
vista do materialismo histórico. A primeira questão a ser
respondida, a questão fundamental, que diferencia a concepção
idealista da concepção materialista, é a das relações do
pensamento com o mundo externo, a questão de saber se o mundo
exterior existe independentemente de nossa consciência. É o que
se chama em filosofia a questão do mundo externo. Essa questão

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 153


encontra imediata resposta no senso comum. Este poste que vejo
diante de mim existe independente de minha vontade e a prova é
que me machucarei se atirar- me contra ele. Do mesmo modo, se
uma pedra cai sobre a minha cabeça, vejo-me obrigado a dar o
testemunho de que ela existe independentemente de minha
consciência. Mas, o senso comum não é o juiz supremo nas
questões da ciência. Os filósofos idealistas fazem-lhe objeções
muito importantes, dizendo que, em última análise, a pedra não cai
fisicamente sobre a cabeça, mas sim, como uma representação,
isto é, não faz senão entrar em minha consciência. Se examino
atentamente o que me sucede, verifico, de acordo com a
concepção idealista, que tudo que sei não é senão uma série de
representações que sucedem em minha consciência. É assim que o
idealismo chega à conclusão de que o mundo não existe
independentemente da consciência humana e que só nela existe.
Nada se pode saber que não seja um fenômeno da consciência. Daí
resulta que a consciência é tudo. Quando creio que existem coisas
fora de mim, é simplesmente um erro que comete o senso comum.
Isso não é verdade somente para a pedra, o poste, etc., como
também para os homens e, no fim de contas, esse ponto de vista
me leva à conclusão de que só existimos, eu e a minha consciência,
e que tudo mais não existe senão em minha consciência. Tal é a
ultima consequência a que nos leva essa concepção idealista do
mundo.

Outras consequências da concepção idealista.


Da afirmação, segundo a qual o mundo não existe senão em
minha consciência, outras consequências interessantes se derivam.

154 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Assim sendo, com efeito, a terra não teria podido existir antes do
homem. Do mesmo modo, ao dormirmos (supondo que não
sonhemos ao dormir), o mundo deve deixar de existir, uma vez que
durante esse tempo nada se passa na consciência. Essas são as
consequências necessárias da concepção idealista. Como refutar
essa afirmação de que nada existe fora da consciência?

Relações de ser e de não ser com a consciência.


Poder-se-ia, talvez, dizer: verifico que esse poste existe
independentemente de minha vontade quando me lanço contra
ele. Mas, a isso vimos que o idealista responde: quando me
despedaço de encontro a um poste não o verifico senão por meio
da minha consciência. A dor que sinto é uma representação, uma
parte de minha consciência. Mas, perguntamos: o que existe em
minha consciência é toda a realidade? Basta levantar essa questão
para nos darmos conta, imediatamente, de que essa consciência
contém no mais profundo de si mesma a certeza de que ela não é
tudo, mas somente uma parte do mundo. Por outro lado, é essa
convicção que permite o pensamento, que sobre ela repousa.

Vamos, portanto, encontrar a solução do problema na


própria consciência. Ela consiste na convicção de que a consciência
não é tudo e que existe um mundo diferente dela. Ou, por outras
palavras: o pensamento é uma parte do ser, e provém do ser, mas
a recíproca não é verdadeira. E assim se resolve a questão,
conforme o senso comum já o havia feito, mas não com os meios
ordinários desse senso comum e, sim, graças ao resultado de um
estudo milenar do pensamento humano, que na realidade constitui
todo o conteúdo da filosofia.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 155


Voltemos ao exemplo do poste: como já disse, existe em
minha consciência. Somente assim posso saber alguma coisa sobre
ele, mas, ao mesmo tempo, me diferencio dele em minha
consciência. Sei que sou uma coisa diversa. Graças unicamente a
essa distinção é que o pensamento resulta possível. Outra pequena
questão se prende a essa. Não existem somente representações
correspondentes às coisas reais, mas também representações
puramente subjetivas. Por exemplo: contemplo o céu durante a
noite e observo em certo ponto a cintilação de uma estrela. Essa
estrela pode existir em realidade, mas também é possível que seja
somente uma ilusão, um erro de meus sentidos. Como, então,
saber se a estrela está na realidade onde eu a vejo ou se sou vítima
de uma ilusão?

Representações subjetivas e representações objetivas.


Darei outro exemplo, afim de que se esclareça melhor a
questão. É sabido que existem enfermos do espírito que
experimentam certas representações errôneas. O doente crê, por
exemplo, ouvir certos rumores, que não existem senão em sua
imaginação. Em que, pois, se distingue um ruído real de outro
imaginário? E como podemos saber se a percepção do ruído
corresponde a um ruído real? A resposta é bem simples:
averiguando se todos os demais homens percebem o que eu
percebo. Esse é o meio decisivo de distinguir os fenômenos
subjetivos dos fenômenos objetivos. As impressões subjetivas
unicamente são percebidas por aqueles que as experimentam,
enquanto eu as impressões objetivas são percebidas por todo
mundo.

156 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Materialidade do mundo externo.
Resta-nos, agora, saber se esse mundo externo que,
conforme provamos existe objetivamente, independentemente de
nossa consciência, é um mundo material, como o materialismo
afirma, ou espiritual, como afirma o idealismo, o de Hegel, por
exemplo, o qual declara que as coisas não existem
independentemente da consciência humana e que as coisas não
tem uma essência material, mas uma essência espiritual (idealismo
subjetivo). O materialismo entende que o mundo externo é de uma
essência material, conforme há muito o provaram as ciências
naturais.

O pensamento e o cérebro.
Se o mundo não é senão a matéria em movimento, que é,
então, o pensamento? A essa pergunta respondemos: verificamos
que o pensamento em si está ligado a uma substância material, o
cérebro humano. É uma função que existe, como a função
muscular, ou glandular, etc. Esse pensamento, porém, não
funciona senão em relação aos corpos materiais, com percepções
sensoriais. Num duplo sentido, o pensamento é igualmente
material. Em geral, a sensação, a mais simples forma da consciência
está ligada à existência do ser vivo. O grau mais desenvolvido da
consciência, ou seja, a inteligência e a razão depende do organismo
humano, de um órgão especial: o cérebro.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 157


CAPÍTULO IX
A teoria materialista do conhecimento
A variedade infinita da matéria e suas funções.
Quanto à matéria, pode-se dizer que é tão infinitamente
variada como infinitamente única. Relativamente à sua unidade,
físicos e químicos cada vez mais se aproximam na atualidade,
graças à decomposição dos diferentes corpos em átomos e do
átomo em diferentes partículas iguais. Vemos, por outro lado, que
essa matéria única se combina de modos infinitos em diferentes
corpos. Não somente a natureza contém uma quantidade ilimitada
de corpos diferentes como o homem lhe acrescenta outros ainda,
fabricando-os com a ajuda da química. O que dizemos para a
matéria poderemos aplicar igualmente ao movimento, que está
indissoluvelmente ligado a ela. Também o movimento é único e
infinitamente variável e múltiplo. Entre o mais simples movimento
local e o pensamento há uma gama infinitamente variada de
formas de atividade da matéria.

Relações do pensamento com a realidade.


Defrontamo-nos, agora, com a seguinte questão
fundamental: a das relações do pensamento com a realidade.
Pode-se colocar a questão do seguinte modo: Percebemos as
coisas como são em si? Podemos captar a “essência” das coisas ou
somente os “fenômenos”? Ou então: Pode-se tocar a realidade? E
nesse caso: Por completo ouso parcialmente? O pensamento é
susceptível de conhecer as coisas de um modo ilimitado, ou
existem limites ao conhecimento das coisas, limites da própria

158 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


natureza do pensamento? Finalmente, surge a seguinte questão,
derivada da primeira: Existem características da realidade das
coisas? Quais são?

O ponto de vista idealista.


Comecemos por expor as objeções opostas pela concepção
idealista à afirmação segundo a qual podemos conhecer as coisas
tais como são na realidade. Segundo a concepção idealista, não
possível conhecer a essência das coisas, uma vez que todo
conhecimento somente se pode verificar mediante o pensamento,
por meio do qual é obtido. Muito bem. O pensamento não toma as
coisas como são em si, mas somente transformadas por ele. O
pensamento é um instrumento e como todo instrumento modifica
a matéria sobre a qual opera. Do mesmo modo que o escultor
transforma o barro com que trabalha, dando-lhe determinada
forma, também o pensamento transforma as coisas que quer
conhecer. A isso poderíamos objetar: nós conheceremos as coisas,
tais como são em si, se fizermos caso omisso da forma que lhes dá
o pensamento. Mas se suprimirmos essa forma, as coisas ficam fora
dele. Por conseguinte, o dilema, a contradição é, na aparência, a
seguinte: ou as coisas ficam fora do pensamento – e nesse caso
não podem ser conhecidas – ou sucedem no pensamento – e,
então, são transformadas por ele, de tal modo que, em caso algum,
poderemos conhecê-las como são na realidade. Esse é o ponto de
vista da concepção idealista.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 159


O pensamento estudado como caso particular do sistema geral de
ação e reação recíproca das coisas.
Responderemos aos idealistas dizendo-lhes que é absurdo e
está em contradição com a natureza das coisas o que pretendem.
Quando o pensamento entra em contato com as coisas, ocorre
geralmente o mesmo que ao se porem em contato duas coisas.
Quando duas coisas entram em contato, atuam reciprocamente
uma sobre a outra. A coisa A tua sobre a coisa B, e reciprocamente.
O Sol exerce uma atração sobre a Terra, que, por sua vez, atua
sobre o Sol. Não há ação sem reação. A natureza própria das coisas
se manifesta em sua ação e reação recíprocas. Pretender suprimir
a ação de uma coisa sobre outra equivale a pretender suprimir a
coisa em si. As coisas atuam sobre o pensamento e este sobre elas.
A relação do pensamento com as coisas corresponde à ação geral
que exercem entre si duas coisas. É absurdo querer que o
pensamento reconheça as coisas sem transformá-las. É pretender
que exista uma ação sem reação. Ao suprimir-se a reação, suprime-
se também a ação e, portanto, a própria coisa e a “essência” dessa
coisa. Essa é uma contradição metafísica e não dialética. É o mesmo
que exigir do estômago a digestão de determinadas matérias que
não chegaram a ele ou sobre ele não atuaram.

Particularidades dos órgãos dos sentidos dos homens.


Alega o idealismo: o homem não pode conhecer a essência
das coisas tais como são em si, porque seus órgãos são de uma
natureza peculiar e captam as coisas de um modo especial
correspondente a sua natureza. Sabemos que determinados
matizes são captados pelo olho humano na cor azul e que uma

160 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


abelha e uma formiga não vêm essa cor como nós a vemos. Os
órgãos sensoriais do homem percebem as coisas de um modo
particular, distinto do modo de outros seres vivos verem essas
mesmas coisas. Vejamos outro exemplo, esse referente ao olfato.
Sabemos que existem certas plantas com determinado cheiro
graças ao qual atraem certos insetos. Existem, por exemplo,
plantas com o cheiro parecido ao da carne em decomposição. Esse
cheiro afasta os homens, mas atraem determinados animais. É
preciso admitir, portanto que esse cheiro atua sobre esses animais
de um modo diverso do que sobre o homem.

Poderíamos citar muitos outros exemplos. Tomemos a


sensibilidade. Pode-se admitir de um modo absoluto que, a uma
determinada temperatura em que o homem experimenta frio, um
animal de sangue frio, um peixe, por exemplo, reage de maneira
diversa. O mesmo se dá no campo dos sons. Está provado que a
sensibilidade dos insetos e dos peixes relativamente aos sons é
diversa da dos homens.

Esses exemplos têm por objetivo demonstrar que os órgãos


dos sentidos do homem, olho, ouvido, etc. são um gênero
particular e se diferenciam dos órgãos dos demais seres vivos no
modo de perceber as coisas. O idealismo deduz dessa afirmação
que o conhecimento humano não percebe as coisas tais como são,
mas transformadas de um modo particular e correspondentes à
natureza especial, não somente do pensamento humano, como
também dos órgãos dos sentidos do homem.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 161


Limitação dos órgãos sensoriais do homem.
Mas, os órgãos dos sentidos do homem não são apenas de
um gênero particular, diferenciando-se dos outros seres vivos.
Esses órgãos sensoriais têm as suas faculdades de percepção
restringidas. Surge, então, o problema de saber se existem coisas,
fenômenos que não são acessíveis totalmente ao sentido do
homem. Sabemos que existem cores que o olho humano não pode
perceber, mas cuja existência pode ser demonstrada e verificada
por outros meios. Essas cores são as que estão situadas no limite
do espectro solar: o infravermelho e a ultravioleta. E isso não é
somente certo para a percepção das cores, como também para os
matizes de claridade. Os animais noturnos como o gato, vêm os
matizes na obscuridade, matizes que o olho humano não pode
captar. O mesmo podemos dizer dos restantes campos de
percepção sensorial. Cada órgão dos sentidos tem seu campo,
limites de percepção superiores e inferiores, limites qualitativos e
quantitativos, do mesmo modo que têm, dentro de seu campo de
percepção, limites quantitativos de diferenciação (e de também de
semelhança).

Supressão por meio do pensamento das particularidades e


limitações dos órgãos sensoriais do homem.
O homem dispõe de um meio bastante simples de superar a
estreiteza e caráter particular de seus órgãos sensoriais. Esse meio
é o pensamento. É possível que o cão possua melhor olfato que o
homem; que a águia tenha um olhar mais agudo e outros animais
possam perceber melhor certas coisas. Não é menos certo, porém,
que a faculdade de conhecimento do homem é muito maior do que

162 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


a de qualquer outro ser vivo, porque tem a possibilidade de elevar-
se por meio do pensamento, sobre as particularidades e limitações
de seus órgãos sensoriais, e não somente graças ao pensamento
como também com a ajuda da mão, dirigida por ele, e com a ajuda
de instrumentos especiais por ele criados. Não é necessário
enumerar os telescópios, microscópios e demais instrumentos e
aparelhos mediante os quais se estendem e se tornam mais
precisos e agudos os seus órgãos sensoriais. O essencial é que o
espírito humano ultrapassa as particularidades dos órgãos
sensoriais do homem. Por exemplo: as cores tais como as vê o físico
devem-se a vibrações de certo órgão material, que não tem relação
direta com olho humano. O físico atribui ainda a vibrações do ar,
os sons e os odores, o que tampouco nada tem a ver com a
percepção direta pelo ouvido. Por conseguinte, a ciência, o
pensamento, pode excluir as particularidades das percepções
sensoriais do homem. Podemos, então, fazer-nos a seguinte
pergunta: Que resta da limitação dos sentidos do homem? Não é
possível que existam certas propriedades das coisas não
perceptíveis pelos sentidos? Já mostramos, anteriormente, que
existem determinadas cores que o homem não pode perceber à
primeira vista: a ultravioleta e a infravermelho. Como ele conhece,
então, essas cores? Como pode percebê-las? Com o auxílio de
certos instrumentos especiais. No fim das contas, todas as
propriedades das coisas são acessíveis ao homem, direta ou
indiretamente, com a ajuda de seus órgãos ou por meio de órgão
artificiais. Vemos, assim, que não existe propriedade nas coisas que
não exerça uma ação qualquer e que as ações exercidas por elas
constituem uma cadeia que se pode seguir de elo em elo. Demos

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 163


outro exemplo: não se pode sentir o calor com a mão, além de
determinada temperatura. Mas, o físico ou o técnico podem medi-
lo com auxílio de um termômetro especial. E como se pode
perceber o calor com o termômetro? Simplesmente: lendo os
graus por ele indicados. Disso resulta que não se percebe o calor
com a mão, mas com a vista. Acrescentemos a isso que a
perceptibilidade ilimitada das coisas se realiza num processo
ilimitado, dentro de limites constantes que se ultrapassam também
constantemente. Esse afastamento incessante dos limites da
perceptibilidade das coisas processa-se de um modo contínuo,
mediante, porém, avanços mais ou menos consideráveis.

Critério da verdade.
A questão, agora, é saber quais são as características do
conhecimento mediante as quais se possa verificar que a
afirmação, uma vez estabelecida corresponde à realidade. Essa
questão é resolvida do seguinte modo: reconhece-se a verdade
pelo fato de não ser contraditória. A contradição é característica do
erro. Há coisa mais clara e mais segura? Mas essa pretensa
característica da verdade não resiste a uma análise detida.
Sabemos, por exemplo, que se atribui ao espaço três dimensões:
comprimento, largura e altura. Se dissermos, porém, que o mundo
tem dez dimensões, essa afirmação não encerra em si nenhuma
contradição e, no entanto, não corresponde à realidade. É sabido
que existem lendas que falam de serpente marinha. Segundo essas
lendas, trata-se de um animal em forma de serpente que vive no
mar e tem uma extensão de 100 a 1.000 metros. Muito bem. A ideia
da serpente marinha não encerra em si nenhuma contradição e, no

164 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


entanto, esse animal não existe. Em certas superstições populares,
figuram dragões, espectros, etc. Essas representações não são em
si contraditórias. Nelas se pode pensar de um modo lógico. A
característica de sua irrealidade não reside, pois, numa contradição
interna, mas em coisa diversa. Por outro lado, vemos que em
matemática há contradições nas quais é impossível distinguir o
verdadeiro do falso e também que pode haver contradições sem
que isso implique em erro.

A observação e a experimentação como critério da verdade.


O critério da verdade não consiste, pois, em comparar entre
si as diferentes noções, mas em compará-la com a realidade. Isso
se faz, primeiro, por meio de observação. É possível que a ideia dos
espectros não encerre em si contradição alguma, mas está,
contudo, em contradição com a experiência geral, por meio da qual
sabemos que as funções espirituais se acham sempre ligadas aos
órgãos corporais. Quanto à ideia do dragão, é possível imaginar um
monstro semelhante, mas ele não existe nem é encontrado na
realidade. Vejamos outro exemplo, referente às criações do
pensamento humano. Sabe-se que a lei do movimento dos
planetas foi estabelecida, pela primeira vez, pelo astrônomo
Kepler. A sua exatidão e o seu grau de precisão podem ser
verificados observando-se a marcha dos planetas. Um dos meios
principais de verificar se reconhecemos as coisas tais como elas são
na realidade é a experimentação. Se quisermos nos certificar de
que a água é realmente composta de por dois elementos, o
oxigênio e o hidrogênio, combinados mediante certas relações de
peso, como verificar se é justa essa afirmação? Por meio da

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 165


experimentação e graças a duas formas diferentes. Primeiro,
combinando oxigênio e hidrogênio em certas condições de
temperatura e pressão e obtendo a água por meio desses
elementos. Segundo, decompondo a água por meio de
determinada reação química em hidrogênio e oxigênio. Graças a
esses dois métodos de experimentação, verifica-se que essa ideia
da água não é uma aparência falsa, mas corresponde, com efeito,
à natureza das coisas. Tais experiências não somente se realizam
na natureza como também na sociedade. A política não é, em
definitivo, senão uma série de experiências efetuadas no terreno
social. Se estabelecermos, por exemplo, a necessidade de ganhar
para a revolução os pequenos camponeses, distribuindo entre eles
as terras dos grandes proprietários, isso pode ser verdadeiro ou
falso. Somente aplicando essa lei de distribuição é que teremos
certeza de que ela é falsa ou verdadeira.

É possível um conhecimento completo ou absoluto das coisas.


Chegamos, por conseguinte, a esta conclusão: a experiência,
a atividade dos homens é a pedra de toque do conhecimento
verdadeiro das coisas e da medida desse conhecimento. Se
podemos fabricar água com o auxílio de oxigênio e hidrogênio é
porque conhecemos de modo exato a natureza da água. Trata-se,
agora, de saber se é possível um conhecimento exato ou absoluto
das coisas. A isso podemos responder: coisa alguma pode ser
reconhecida definitivamente à primeira vista. O processo, tanto
para o conhecimento de uma coisa isolada como para o
conhecimento do Universo, é um processo infinito, a isto é, o
conhecimento completo das coisas não se realiza senão por meio

166 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


de uma série de conhecimentos relativos incompletos. Mas, essa
série contínua representa o conhecimento absoluto ou completo.
Ela nos dá, ao mesmo tempo, a medida de relação entre a noção
do verdadeiro e do falso. Na vida ordinária, essas contradições se
opõem de uma forma clara e absoluta. Assim é que se diz: tal coisa
é verdadeira ou falsa. Não há meio termo. Na realidade, o
conhecimento imediato das coisas contém, em cada momento,
uma parte de verdade, mas também uma parte de erro. Vemos,
assim, que a lei geral que rege o movimento dos planetas em torno
do sol – a lei da gravidade – foi descoberta pelo grande naturalista
inglês Newton, no século XVII, e foi considerada justa até o século
XX, em que Einstein estabeleceu uma teoria mais precisa. Seria,
contudo, uma infantilidade dizer que a lei de Newton é falsa e a de
Einstein verdadeira. Realmente, a lei de Newton contém uma
extraordinária aproximação da verdade e, por outro lado, um
elemento de imprecisão. A lei de Einstein contém um elemento
maior de verdade e outro menos de erro e imprecisão. Uma e outra
contêm, a um só tempo, uma parte de verdade e outra de erro,
mas a de Einstein mais se aproxima da verdade do que a de
Newton.

É possível conhecer o mundo em sua totalidade?


Em estreita relação com a precedente, surge a questão de
saber se é possível conhecer o mundo em sua totalidade ou
somente uma parte desse todo. É possível conhecê-lo em sua
totalidade, mas não de uma vez, porque é demasiado vasto.
Somente pouco a pouco, é possível conhecê-lo em suas deferentes
partes. Para isso, é preciso dominar as diversas ciências.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 167


Finalmente – e à medida que a ciência progride – o conjunto se
torna cada vez mais rico e variado. Reciprocamente, pode-se dizer
que a representação geral do universo é a condição de todas as
ciências. Sem essa condição primordial, a saber, que todas as
ciências constituem um conjunto, não se encontrará um ponto de
partida para elas, que supõe a ciência do mundo geral, e
reciprocamente essa ciência do mundo em geral não se completa
senão por meio das diversas ciências particulares. A concepção
geral do mundo é, porém, assunto do domínio da dialética. Por isso,
podemos dizer: as diversas ciências particulares supõem a dialética,
assim como a dialética supõem as diversas ciências particulares.
Umas e outras se combinam reciprocamente.

Existem ideias inatas?


Durante muito tempo, perguntaram aos filósofos se existem
ideias inatas no espírito humano. O homem, ao vir ao mundo,
possui ideias que não tem necessidade de aprender com a
experiência? A essa pergunta podemos responder: não tem ideia
inata do gato ou do cachorro, do burro, da árvore ou do camelo. O
homem tudo aprende pela experiência. Não existe sequer uma
ideia geral inata, mas uma qualidade inata fundamental do
pensamento, uma propriedade fundamental natural do
pensamento, do mesmo modo que o sal, a água e o ferro têm suas
próprias qualidades especiais. Podemos ainda dizer que essa
propriedade não se confirma senão em relação com a
experiência concreta. Isso se dá tanto com o pensamento como
com os diversos órgãos. Por exemplo: o estômago, que não digere
senão quando tem alguma coisa a digerir. A função fundamental do

168 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


pensamento não se confirma tão pouco senão quando existe um
objeto sobre o qual possa exercer-se.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 169


CAPÍTULO X
A dialética
Principais etapas do desenvolvimento da dialética.
Vimos que a dialética tem uma história bastante antiga e que
tem passado por diferentes etapas de desenvolvimento. Podemos
mesmo assinalar as seguintes fases principais: primeira, a dialética
dos filósofos jônicos, representada, sobretudo, por Heráclito;
segunda, a dialética de Platão e Aristóteles; terceira, a dialética
Hegeliana; quarta, a dialética materialista. A própria dialética
experimenta um desenvolvimento dialético. Mais adiante veremos
o que isso significa.

Heráclito, que representa a primeira fase da dialética,


desenvolveu a dialética da sucessão. Platão e Aristóteles, que
representam a segunda fase, a dialética da coexistência. Essa
segunda fase da dialética está em contradição com a primeira, da
qual é a negação. Hegel reuniu as duas, elevando-as a uma fase
superior e desenvolvendo a um só tempo a dialética da sucessão e
a dialética da coexistência, mas sob uma forma idealista. É uma
dialética histórica idealista.

Na antiguidade, a dialética era limitada ao extremo. A causa,


conforme tivemos ocasião de ver, residia no modo de produção e
nas relações de classes da Grécia antiga e, mais particularmente,
na economia escravagista e nas relações sociais a que essa
economia dava lugar. A dialética materialista suprime
completamente esses entraves: é uma dialética generalizada, a

170 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


dialética dos pensadores que se colocam no ponto de vista da
classe operária e da Revolução Proletária. Com efeito, esse ponto
de vista tende à supressão das classes e, por conseguinte, da
sociedade de classes em geral. Com a supressão das classes e da
sociedade de classes, cai por terra o último obstáculo que se
opunha ao desenvolvimento social e, portanto, à ideia do
desenvolvimento em geral. Para Platão e Aristóteles, bem como
para Hegel, a sociedade de classes era uma forma de sociedade que
não podia ultrapassar a evolução social. A economia escravagista,
para os dois primeiros, e a sociedade burguesa, para o último,
constituíam um verdadeiro obstáculo para levar a cabo o completo
desenvolvimento da dialética. Mas, no materialismo histórico, ou
seja, do ponto de vista da classe operária, a sociedade de classes
nada tem de definitiva em si e não constitui um limite absoluto do
desenvolvimento social. A própria dialética está submetida a um
desenvolvimento dialético e ocupa o seu lugar no conjunto do
desenvolvimento social. Da generalização desse ponto de vista
deriva, naturalmente, a forma generalizada e, ao mesmo tempo,
materialista da dialética.

Definição da dialética.
Pode-se definir a dialética como sendo a ciência das relações
gerais que existem tanto na natureza como na história e no
pensamento. O contrário da dialética é a observação isolada das
coisas unicamente quando se acham em estado de repouso. A
dialética somente considera as coisas em suas relações mais gerais,
de dependência recíproca, não em estado de repouso, mas de
movimento.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 171


Quais são as fontes da dialética? A primeira é a natureza, a
observação dos fenômenos naturais. Foi por esse caminho que
Heráclito chegou à ideia da dialética. A segunda é o estudo da
história humana e as transformações produzidas no curso das
diferentes épocas históricas, transformações no modo de
produção, nas formas sociais e nas ideias derivadas dessas formas
sociais. A terceira, finalmente, é o estudo do pensamento em si.
Surge, agora, outra questão. Como sabemos que as leis do
pensamento dialético, tais como as encontramos em nosso
espírito, concordam com as leis da realidade, com as leis das
transformações que se produzem na natureza e na história? Nisso
nada há de particularmente milagroso, uma vez que o homem não
é senão uma parte da natureza. O pensamento humano é, um
fenômeno natural do mesmo gênero que outro qualquer
fenômeno da natureza. Nada tem, portanto, de assombroso que as
leis do pensamento humano concordem com as da natureza e as
da história. Poderíamos dizer, inclusive, que o assombroso e o
incompreensível seriam exatamente o contrário.

Os três princípios essenciais da dialética.


Examinemos, agora, os três fundamentos principais da
dialética. O primeiro e mais geral – e do qual se derivam os
restantes – é a lei da penetração dos opostos. Essa lei implica
noutra imediatamente. É fato inegável que todas as coisas, todos
os fenômenos, todas as ideias chegam, finalmente a uma unidade
absoluta, ou, dito de outra maneira – é fato não existir nenhuma
contradição nem diferença que não se possa reduzir à unidade. A
segunda lei da dialética – e que é tão absoluta quanto a primeira –

172 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


é que todas as coisas são a uma só vez absolutamente diversas e
opostas como absolutamente iguais entre si. É a lei da unidade
polar de todas as coisas, aplicável tanto para cada coisa isolada,
para cada fenômeno isolado, como para o mundo em geral. Se
considerarmos somente o pensamento e seu método, podemos
formular essa lei também do seguinte modo: o espírito humano
pode agrupar as coisas em unidades, apesar das contradições e
antagonismos mais violentos, e, por outro lado, pode desagregar
ilimitadamente as coisas em antagonismo. O espírito humano pode
verificar essa unidade e essa diferenciação ilimitada das coisas
porque uma e outra se realizam na natureza.

A unidade ilimitada ou absoluta e a igualdade das coisas.


Podemos apresentar mais claramente essa lei com a ajuda de
uns quantos exemplos. Tomemos o exemplo do dia e da noite.
Existe um dia de doze horas e uma noite de doze horas. Um é o
período de luz e outro o período de obscuridade. O dia e a noite
são dois opostos que se excluem entre si. Mas, isso não impede que
o dia e a noite sejam iguais e constituam duas partes de um mesmo
dia de vinte e quatro horas. Por conseguinte, a contradição entre o
dia e a noite se suprime na ideia do dia de vinte e quatro horas.
Vejamos outro antagonismo: o macho e a fêmea. Macho e fêmea
são dois termos contraditórios, o que não impede que o homem e
a mulher constituam uma unidade e concordem como variante da
ideia do homem em geral. Portanto completamente iguais no
sentido de que os dois são aspectos do homem. Vejamos outros
antagonismos: por exemplo, o que existe na natureza entre o
repouso e o movimento. O que está em repouso, está em repouso,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 173


e o que está em movimento, está em movimento. O físico, ao
contrário disso, considera o repouso como uma espécie particular
do movimento e, reciprocamente, pode considerar o movimento
como uma espécie de repouso. Outro antagonismo ainda, que
também parece absoluto, é o que se costuma ver entre a natureza
e a arte. A arte, dizemos, é uma criação do homem, contrária às
criações da natureza. Mas, a arte é igualmente uma parte da
natureza, uma vez que o homem que a produz não é senão uma
parte da mesma natureza.

Os obstáculos da dialética.
Nas condições ordinárias, para coisas simples de
compreender por percepção direta e para aquelas nas quais não
entram em conta poderosos interesses de classe, não se tropeça
com dificuldade alguma para chegar à compreensão de que não
existem contradições que não possam ser reduzidas à unidade.
Mas, os obstáculos para a compreensão dessa ideia começam
precisamente onde os interesses sociais se encontram e se acham
em oposição, e onde não é de ideias próximas que se trata, mas de
ideias afastadas da percepção direta. Eis aqui alguns exemplos:
compreendemos, hoje, perfeitamente, que tanto o proprietário de
escravo como o próprio escravo são homens, embora exista entre
eles o maior antagonismo social que se possa conceber. Mas, se
dissesse ao grego mais culto daquele tempo que o proprietário de
escravos e os escravos são iguais como homens, ele não o admitiria,
e responderia que são completamente opostos e que não pode
haver nenhuma espécie de igualdade entre eles. Tomemos, agora,
uma relação moderna: o capitalista e o proletário, o empregador

174 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


e o operário. Qualquer burguês compreenderá imediatamente que
o capitalista e o operário são diferentes um do outro e, inclusive,
dirá que essa diferença existiu e existirá sempre. Para dar-se conta
de que esse antagonismo é um antagonismo histórico, transitório,
é preciso colocar-se no ponto de vista da classe operária
revolucionária. Vejamos outro exemplo de mais fácil compreensão.
Falamos anteriormente do homem e da mulher. Todo mundo
reconhece que, cientificamente, o homem e a mulher pertencem
a uma mesma espécie, que são iguais como seres humanos, mas
no que diz respeito ao aspecto social imediatamente surgem as
contradições. Para poder compreender que a mulher deve ter os
mesmos direitos humanos que o homem, para poder compreender
isso e levar adiante essa reivindicação, foi preciso uma longa série
de revoluções e, em grande número de países, entre os quais
alguns tidos como os mais avançados, ainda hoje essa igualdade
não se realizou. Em todas essas questões, o homem que não
aprendeu a pensar dialeticamente e que se deixa arrastar por seus
preconceitos sociais afirmará que essas contradições são
absolutas. Somente o homem que sabia pensar dialeticamente
compreenderá, nesse caso, a penetração dos opostos.
Naturalmente, isso depende não só do seu modo de compreender
a dialética, como do ponto de vista social em que se coloca.
Mencionarei ainda outra questão ligada ao assunto. É sabido que
existe nos Estados Unidos da América uma profunda diferença
social entre brancos e homem de cor, como nas colônias entre o
europeu e o indígena.

Pois bem. Para dar-se conta teoricamente e praticamente de


que esses antagonismos não são absolutos, mas se reduzem à ideia

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 175


de humanidade em geral, da qual participam igualmente brancos,
negros e amarelos, é preciso não só ter o pensamento habituado à
dialética como também colocar-se em determinado ponto de vista
de classe. O homem que não está habituado a pensar
dialeticamente encontra também dificuldades quando se trata de
ideias gerais e tanto maiores quanto mais abstratas elas sejam e
mais afastadas se encontrem das percepções e da representação
completa. É fácil compreender que o dia e a noite são partes iguais
do dia de vinte e quatro horas, mas a questão se torna difícil
quando se trata de contradições tais como a verdade e o erro, e
ainda da ideia mais geral, mais vasta e mais pobre, ao mesmo
tempo, do ser e do não ser.

O homem vulgar perguntará: como é possível reunir coisas


tão contraditórias como o ser e o não ser? Uma coisa é ou não é.
Não pode haver meio termo. Já vimos, a propósito de Heráclito,
como efetivamente, em cada coisa em via de transformação, as
ideias de ser ou não ser se penetram reciprocamente e estão
contidas ao mesmo tempo e, igualmente, porque uma coisa em
vias de desenvolvimento é e não é ao mesmo tempo. Um menino,
que está em vias de transformação para converter-se em homem,
é menino e não é ao mesmo tempo. Convertendo-se em homem,
deixa de ser um menino, mas, contudo, não é, todavia, homem,
porque não chegou ainda a essa fase do seu desenvolvimento.
Assim, a ideia de chegar a ser contém a uma só vez as ideias de ser
e de não ser. Tomemos o exemplo do movimento local ordinário,
ou de um corpo que se move de um ponto para outro. Quando se
está deslocando, acha-se num sítio determinado e, ao mesmo
tempo não se acha.

176 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Mencionaremos, finalmente, uma terceira contradição, na
qual tropeça amiúde o pensamento comum, a contradição entre o
material e o espiritual, entre o ser e o pensamento, entre o ser e a
consciência. A razão não cultivada acredita que nada existe de
comum entre esses dois termos contraditórios.

O material não é espiritual, o espiritual não é material. Já


mostramos, entretanto, como esses dois termos contraditórios se
unificam como o pensamento, o espiritual, é uma atividade
material unida, portanto, ao material.

A variedade ilimitada ou absoluta do antagonismo das coisas.


Vejamos, agora, o reverso da questão, o outro aspecto do
princípio da penetração dos opostos. Já vimos que não existe
contradição alguma que não possa ser reduzida a unidade, nem tão
pouco, termos contraditórios entre os quais não exista igualdade
alguma. Veremos, agora, que não há coisas iguais entre as quais
não exista nenhuma diferença ou contradição, ou, para empregar
uma fórmula breve, sucinta: o antagonismo entre as coisas é tão
ilimitado como a sua igualdade. O filósofo alemão Leibnitz, que
viveu no final do século XVII e começo do século XVIII, estabeleceu
o princípio de que não existem no mundo duas coisas iguais. Certo
dia em que passeava com um grupo de cortesãos, esse princípio
veio à baila, tendo alguém proposto observar se numa árvore
plantada à beira do caminho havia duas folhas iguais. Os
cavalheiros e as damas do grupo examinaram atentamente as
folhas e, efetivamente, não encontraram duas folhas que fossem
absolutamente iguais entre si. O mesmo que ocorre na natureza
das coisas sucede na da razão: não há duas coisas iguais. O mesmo

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 177


se pode dizer de duas gotas d’água. Uma nunca será exatamente
igual à outra. E mesmo examinando as menores partículas da
matéria, os elétrons, vemos que não existe duas que se pareçam
em absoluto, coisa que podemos afirmar com toda a segurança,
embora nada se saiba ainda das particularidades individuais de um
elétron (no que diz respeito aos átomos e moléculas, podemos,
pelo menos, determinar algumas classes). Essa afirmação geral
repousa sobre o princípio da penetração dos opostos, princípio que
implica na ideia de que a igualdade das coisas é tão ilimitada quanto
a sua desigualdade. A faculdade do espírito de igualar as coisas tem
uma característica tão ilimitada que o que as distingue e opõe
corresponde tanto a igualdade como à desigualdade ilimitada das
coisas da natureza. Esse é o elemento primário, que se volta a
encontrar quando se comparam entre si as ideias mais gerais, como
o ser ou o não ser, o ser e o pensamento. Já dissemos que o ser e
o não ser existem a uma só vez no vir a ser, o que constituem partes
iguais deste vir a ser, o que não impede que sejam em absoluto
diferentes e contraditórios.

O princípio da penetração dos opostos se encontra em todo


princípio que tenha um conteúdo qualquer.
O princípio da penetração dos opostos surpreende a primeira
vista por ser uma coisa completamente nova e em que ninguém
pensara até agora. À medida, porém, que sobre ele refletimos,
veremos que é impossível exprimir um conceito, qualquer que seja
o seu conteúdo, que não implique nesse princípio. Excetuando
alguns conceitos, tais como um leão é um leão, nos quais o sujeito
e o atributo são iguais – conceito esse que carece de conteúdo –

178 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


em todos os demais se encontra o princípio da penetração dos
opostos. Vejamos, por exemplo, um conceito ordinário: o leão é
um animal selvagem. Nessa sentença, uma coisa A (o leão) é
considerada igual a B (um animal selvagem), mas, ao mesmo
tempo, A se distingue de B, isto é, o leão se distingue do animal
selvagem. O leão é igual a um animal selvagem, mas ao mesmo
tempo se diferencia dele. Generalizando, não se pode formular
nenhuma sentença que não conduza à fórmula A = B. Todas as
sentenças, seja qual for seu conteúdo, tem uma fórmula
determinada pelo princípio da penetração dos opostos.

As fontes da primeira lei fundamental da dialética.


Qual a origem dessa lei fundamental? É uma simples
generalização da experiência, confirmada pela experiência da vida
quotidiana e pela ciência, as quais se ocupam constantemente de
investigar as igualdades e desigualdades das coisas. A experiência
ensina, com efeito, que não existe limite algum imutável para a
descoberta das igualdades e desigualdades das coisas. Se há
limites, são essencialmente mutáveis, relativos, provisórios, que se
suprimem, que se deslocam, suprimindo-se novamente, etc. Por
outro lado, vimos que essa lei da penetração dos opostos se deriva
do estudo do próprio pensamento. É, a um só tempo, uma lei da
natureza e do pensamento. Quanto ao pensamento, essa lei se
baseia na consciência, no sentido de que eu sei que constituo uma
parte do universo, uma parte do ser e, ao mesmo tempo, me
diferencio das demais coisas. A estrutura fundamental do
pensamento é já por si unidade polar, contraditória, e dessa
unidade contraditória se derivam todas as demais leis do

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 179


pensamento.

O segundo princípio fundamental da dialética: a lei da negação da


negação.
A segunda lei fundamental da dialética é a lei da negação da
negação, ou lei do desenvolvimento através das contradições. É a
lei mais geral do movimento do pensamento. Vamos formulá-la, a
seguir, ilustrando-a com exemplos. Mostraremos em que se baseia
e as relações que mantêm com a primeira lei, anteriormente
mencionada, da penetração dos opostos. Essa lei já se pressentia
particularmente em Heráclito. Mas, não se formulara
definitivamente até Hegel.

Todas as coisas implicam num processo.


Essa lei é verdadeira para todo movimento ou transformação
das coisas, tanto para as coisas reais como para seus reflexos no
cérebro, ou seja, as ideias. Assim é que se diz que todas as coisas,
todas as ideias se movem, se transformam e se desenvolvem, isto
é, que todas as coisas são processos. Toda extinção das coisas não
é senão relativa, limitada. O seu movimento, transformação ou
desenvolvimento é, pelo contrário, absoluto, ilimitado. Ao unificar-
se, o movimento absoluto coincide com o repouso absoluto. Ao
tratarmos de Heráclito, vimos alguns exemplos do princípio
segundo o qual todas as coisas constituem um processo. Não vale,
pois, a pena insistir no assunto.

A transformação se processa através das coisas.


A lei da negação da negação tem um conteúdo mais especial

180 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


ainda que a simples afirmação segundo a qual todas as coisas se
transformam constituindo processos. Ela abrange ainda a forma
generalizada dessas transformações, movimentos ou
desenvolvimentos. Diz-se, primeiramente, que todo movimento,
desenvolvimento ou transformação se processa através das
contradições ou mediante a negação de uma coisa. Essa expressão
de negação se refere à transformação das ideias.

A negação constitui o movimento ou transformação das coisas.


O movimento real das coisas surge no cérebro como uma
negação perpétua. Ou, com outras palavras: a negação é a forma
comum do movimento ou da transformação das coisas refletir-se
no cérebro. É a primeira fase do processo. A negação de uma coisa,
ponto de partida da transformação, está em si submetida à lei da
transformação das coisas no seu contrário. A negação é por sua vez,
negada. Por isso a chamamos de negação da negação.

A dupla negação na linguagem. Negação e afirmação como


operações intelectuais polares.
A negação da negação tem alguma coisa de positivo, tanto do
ponto de vista lógico, no pensamento, como na realidade. A
negação e a afirmação são noções polares. A negação da afirmação
implica na negação. A negação da negação implica na afirmação.
Quando se nega alguma coisa diz-se não, primeira negação; mas ao
se repetir a negação, significa sim, uma segunda negação. O
resultado é alguma coisa positiva.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 181


A aparição de um elemento novo por meio de uma dupla negação.
Desse modo, até na linguagem ordinária uma dupla negação
significa uma afirmação. Mas (e esse é o aspecto característico da
coisa) uma dupla negação em dialética não restabelece a afirmação
primitiva, nem conduz simplesmente ao ponto de partida, mas,
sim, tem como resultado uma nova coisa. O processo da dupla
negação faz aparecer propriedades novas. Surge uma nova forma
que suprime e contém ao mesmo tempo as propriedades
primitivas.

Tese, antítese e síntese.


Se a expressão lei da negação da negação parece estranha,
pode ser substituída pela expressão mais simples de lei de
formação do novo com auxílio do antigo. Essa lei foi igualmente
formulada como lei do pensamento, e como tal tem a seguinte
forma: o ponto de partida é a sentença positiva, ou “tese”. O
pensamento começa com uma sentença, uma afirmação qualquer.
Essa sentença se nega ou se transforma em sua contrária. A
sentença que nega a primeira chama-se contradição ou “antítese”
e constitui a segunda fase do processo. Essa segunda sentença, a
antítese, é por sua vez negada, obtendo-se, assim, a terceira
sentença, ou “síntese”, que outra coisa não é senão a negação da
tese e da antítese numa sentença positiva superior, obtida por
meio de uma dupla negação.

Duas alterações da lei da negação da negação.


Para bem compreender essa lei é preciso estar prevenido
contra duas espécies de erro. A sentença e a contradição estão

182 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


unidas dialeticamente na última sentença, na síntese. É preciso não
confundir a união dialética com a simples adição de propriedade de
duas coisas opostas, porque, então, não se teria um
desenvolvimento dialético, mas somente uma simples mistura de
contradições, cujo resultado seria criar obstáculos ao
desenvolvimento. A característica do desenvolvimento dialético é
que se processa através das negações. Sem negação, não temos
processos, desenvolvimento, aparição de novas características.
Socialmente, essa negação se expressa pela luta que suprime o
antigo estado de coisas. A falsa dialética pretende estabelecer
entre o antigo estado de coisas e o novo uma aliança, um
compromisso, esforçando-se por unir o antigo ao novo sem
suprimir aquele. Alega-se que todo o compromisso não implica
necessariamente numa negação da luta. Essa falsa compreensão
da dialética do movimento esquece que a negação constitui um
fator essencial da união. Existe, porém, outro erro: o esquecimento
de que o novo que sai do processo do desenvolvimento, não
somente nega e suprime o antigo, como também o contém. Ao não
se prestar atenção a isso, chega-se a uma alteração da dialética do
desenvolvimento, como sucede, por exemplo, no caso de Bergson.
Neste, o desenvolvimento se converte num processo místico e
incompreensível, no qual as relações entre o antigo e o moderno
são consideradas somente como contrárias, em vez de serem
também como identidades. O erro fundamental de Bergson
consiste precisamente em não ter em conta que o novo, originado
do antigo, por via do desenvolvimento, não somente está em
contradição com o antigo, não somente é a sua negação, como
também, ao mesmo tempo, tem algo de comum com ele. Ao

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 183


acompanhar a marcha do pensamento de Bergson vê-se que ela se
suprime por si própria. Existe somente uma espécie de negação em
que o objeto negado nada tem de comum com o elemento-origem
do desenvolvimento. É a negação completa, absoluta, numa
palavra – o nada. Ao negar completamente uma coisa, ela fica
aniquilada, mas, em tal caso o desenvolvimento fica, por sua vez,
completamente entravado. Ao impelir o próprio desenvolvimento
mais além dos seus limites, como fez Bergson, se o tornarmos
absoluto, transforma-se no seu contrário, num estado de
terminação ou imobilidade do desenvolvimento. A negação que
existe no seio do processo dialético não é uma negação completa,
absoluta, mas tão somente uma negação parcial, relativa. A
dialética não conhece senão a negação concreta. A primeira
alteração da dialética, da qual já falamos, isto é, a que consiste em
subestimar a negação, poderia ser classificada por uma frase
empregada com frequência na política: o desvio oportunista da
dialética. A segunda, da qual acabamos de falar e que consiste no
menosprezo de que o novo tem também algo de comum com o
antigo, poderíamos chamar de desvio anarquista da dialética. Essas
duas espécies de desvios opostos da dialética, tanto o oportunismo
como o anarquismo, conduzem, afinal de contas, ao mesmo
resultado: suprimir o desenvolvimento em si. A primeira, porque
suprime a negação como força motriz do desenvolvimento; a
segunda, porque suprime a relação entre os termos contraditórios,
relação que torna possível sua fusão numa unidade superior.

Alguns exemplos.
Para melhor compreensão dos parágrafos precedentes,

184 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


vamos dar alguns exemplos. Tomemos um grão de trigo. Que
faremos para que esse grão de trigo seja o ponto de partida de um
processo de desenvolvimento? Enterramo-lo. Que sucede, então?
Assistiremos a uma primeira negação do grão de trigo, que
desaparecerá para que nasça a espiga. Primeira negação: o grão de
trigo que desapareceu se transformou numa planta. Segunda fase:
a planta cresce e produz, por sua vez, grãos de trigo, depois morre.
Segunda negação: a planta desapareceu depois de reproduzir o
grão de trigo que a originou e, além disso, não somente o grão de
trigo, mas uma grande quantidade de grãos de trigo, que podem,
inclusive, possuir qualidades novas. Essas pequenas variações de
qualidade são certamente muito pequenas, mas a sua acumulação,
como nos ensina a teoria de Darwin, é a origem de novas espécies.
Esse exemplo demonstra até onde conduz a negação da negação.
A dupla negação restabelece o ponto de vista primitivo de partida,
mas a um nível mais elevado e também em quantidade diferentes.
Na realidade, o desvio bergsoniano da dialética se explica pela
situação atual da burguesia. Com efeito, a dialética mostra que a
burguesia, como todas as demais classes da história, está destinada
a perecer e marcha inevitavelmente para a ruína. Por isso, a
dialética de Bergson suprime a lei histórica e a substitui por pelo
milagre, pelo arbitrário, pelo mistério, nos quais nada é impossível.
O desvio anarquista da dialética consiste em negar uma coisa, de
tal modo que ela não possa desenvolver-se. Por exemplo: em vez
de enterrar o grão para que germine e origine uma planta, o destrói
pura e simplesmente, esmagando-o num pilão. O caráter dessa
negação é tal que impede todo desenvolvimento. Resulta disso que
para cada coisa há uma espécie determinada de negação, adaptada

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 185


ao caráter particular dessa coisa e graças à qual é possível o
processo de desenvolvimento. A segunda espécie de desvio, por
nós chamado de desvio “oportunista” da dialética consiste (já o
vimos) em fazer caso omisso da negação. O indivíduo a quem dou
o grão de trigo pode dizer que esse grão se desenvolverá sozinho
sem seja preciso enterrá-lo e o deixará sobre a mesa. O resultado
é que o grão de trigo não se desenvolverá e acabará por
desaparecer como organismo vivo. Esse exemplo demonstra de um
modo concreto, como esses dois desvios opostos da dialética levam
ao mesmo resultado. Não se produz nenhum desenvolvimento e o
objeto desaparece. Pelo contrário, ao negar de um modo justo, isto
é, de maneira a provocar-se um processo de desenvolvimento, o
objeto desaparece, mas para dar lugar a um novo objeto superior.
Daremos outro exemplo, colhido da evolução das formas sociais
econômicas. Sabemos que o modo de produção mais antigo que se
conhece é o comunismo primitivo, isto é, a posse em comum dos
principais meios de produção por um pequeno grupo de homens.
Esse comunismo primitivo constitui o ponto de partida de todo o
desenvolvimento social, isto é, da “tese”. Esse comunismo
primitivo, a seguir, é negado. A propriedade em comum dos meios
de produção e a produção em comum dão lugar à produção
privada, à economia escravagista, à produção feudal, depois à
simples produção de mercadorias e, finalmente, à produção
capitalista, isto é, à “antítese”. A negação do comunismo primitivo
resulta da produção privada em suas diferentes formas históricas.
A terceira fase é uma negação da produção privada, o
restabelecimento da propriedade e da produção coletivas, ou seja,
o comunismo num grau superior. Graças a essa dupla negação, o

186 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


desenvolvimento volta ao seu ponto de partida, mas dessa vez num
nível superior. A produção socialista e comunista, tal qual se origina
da produção capitalista, já não é comunismo primitivo, mas o
comunismo num grau muito mais desenvolvido, dependendo da
medida em que as conquistas técnicas do capitalismo se achem
contidas nessa fase superior do comunismo. O homem, agora,
domina a natureza que o dominava na fase do comunismo
primitivo. Desse modo as dimensões que a moderna sociedade
comunista pode alcançar são incomparavelmente maiores do que
as dos primitivos agrupamentos comunistas. O comunismo
primitivo podia agrupar como máximo numa só unidade econômica
um pequeno número de famílias, enquanto o socialismo moderno
ou comunismo pode englobar toda a economia mundial. Vemos,
portanto, a grande diferença existente entre o comunismo
moderno e o primitivo. Por outro lado, o comunismo primitivo se
acha contido igualmente no comunismo moderno, no sentido de
que a propriedade coletiva dos meios de produção é inteiramente
restabelecida. O capitalismo é negado, suprimido, no seio do
comunismo. Mas, essa negação não é uma negação absoluta ou
abstrata. É uma negação relativa, concreta, parcial. A técnica
capitalista - do mesmo modo que a cooperação produzida pelo
capitalismo - subsiste na fábrica comunista. Precisamente com esse
exemplo poderemos apontar os dois desvios da dialética dos quais
falamos anteriormente. O primeiro, que não se ocupa da
necessidade de suprimir ou negar o capitalismo para chegar ao
socialismo, é uma concepção designada pelo nome de reformista
ou oportunista. O segundo, que tem por base a destruição
completa do capitalismo e, portanto, dos elementos que auxiliarão

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 187


a edificação do socialismo, é a concepção anarquista. A experiência
histórica ensina que ambos esses desvios conduzem, de fato, ao
mesmo resultado estéril.

Relações entre as duas primeiras leis fundamentais da dialética.


De onde vem a lei da negação da negação? Quais as suas
relações com a lei da penetração dos opostos? É evidente que ela
mantém com esta uma estreita dependência. A primeira lei, ou
seja, a da penetração dos opostos, caracteriza as relações gerais
das coisas em seu estado de repouso, ou seja, do ponto de vista
estático. A segunda lei, a da negação da negação, caracteriza essas
relações das coisas como processo, em estado de movimento, isto
é, do ponto de vista dinâmico. Essas duas leis guardam entre si
estreita dependência. Podem aplicar-se simultaneamente e do
mesmo modo para cada fenômeno, para cada coisa. Penetram-se
reciprocamente, constituindo um mesmo todo. Poderíamos dizer
que a primeira corta transversalmente o mundo, enquanto a
segunda o corta no sentido longitudinal.

A terceira lei fundamental da dialética: transformação da qualidade


em quantidade e da quantidade em qualidade.
Chegamos, agora, à terceira lei fundamental da dialética, isto
é, a lei da transformação da quantidade em qualidade. Essa lei
significa que o simples aumento de uma ou várias coisas tem como
resultado uma transformação da qualidade, das propriedades
desta ou destas coisas e, reciprocamente, que a transformação
qualitativa tem como consequência uma transformação
quantitativa. Vejamos um exemplo, afim de que possamos

188 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


compreender melhor essa lei. Sabemos que, elevando a
temperatura da água até certo grau ela se aquece à medida em que
se eleva a temperatura, e a partir de um limite determinado, se
transforma em vapor. No movimento contrário, quando se faz
descer a temperatura, a água se esfria indefinidamente, mas
somente a partir de um determinado ponto, ela se transforma em
gelo. A água se congela em consequência da diminuição do
movimento das moléculas que a integram. A temperatura não é
outra coisa senão a expressão do movimento de pequenas
partículas de matéria denominadas moléculas. Ao se modificar a
intensidade do movimento molecular, modificam-se até certo
ponto as propriedades da água, que, do estado líquido passa ao
sólido ou ao gasoso. Reciprocamente, não se consegue transformar
o gelo em água e esta em vapor senão modificando a intensidade
do movimento molecular. O estudo dos átomos
proporciona, atualmente, o exemplo mais demonstrativo da lei da
transformação da quantidade em qualidade. As diferentes
qualidades dos átomos nos elementos químicos correspondem às
relações numéricas das suas partículas mais ínfimas, os elétrons.
Daremos outro exemplo colhido na Zoologia e na Botânica, do
estudo dos animais e das plantas. Sabemos que tanto as plantas
como os animais são, em última análise, compostos de pequenas
partes elementares chamadas células. Todas as diferenças
existentes entre os seres vivos se devem a diferente quantidade de
células que o compõem. Se o número delas aumenta, obtêm-se
outros seres vivos com outras qualidades, com estrutura diferente,
etc. Reciprocamente, ao subtrair de um ser vivo certo número de
células, não lhe daremos muito prejuízo. Ele continuará como

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 189


dantes. Mas se lhe tirarmos novas células, ao ultrapassarmos certa
quantidade teremos como resultado uma modificação de sua
qualidade. Por exemplo: não é perigoso cortar o cabelo, mas a coisa
muda de figura quando se trata de cortar um braço ou uma perna.
Semelhante operação terá como resultado não só modificar a
qualidade do paciente como pode colocá-lo em perigo de vida. Do
mesmo modo, tirando-se certa quantidade de sangue de alguém
não se lhe ocasiona grande prejuízo. Passando, porém, de um
limite se lhe ocasionará a morte com toda a segurança, o que
significa que se produziu no seu organismo uma modificação
qualitativa. Finalizaremos com um exemplo colhido na Economia
Política. Esta nos ensina que uma quantidade de dinheiro não pode
constituir um capital senão quando passa de certo limite máximo.
Dez reais, por exemplo, não constituem um capital, nem cem reais
tampouco. Mas cem mil reais podem já, em determinadas
condições, converter-se num capital. Graças, assim, a uma simples
mudança de quantidade, uma soma de dinheiro transforma-se em
capital, adquire propriedade diferente, efeito diverso. Numa
palavra: sua qualidade se transforma. Se esse capital é aumentado
por meio da concentração e da centralização, produz-se uma nova
transformação qualitativa do capital simples em capital
monopolizador. A Economia Política nos ensina que o capital
monopolizador imprime a sua marca a toda uma fase do
desenvolvimento capitalista, a chamada fase imperialista.
Reciprocamente, desde o momento em que o capitalista entra na
fase do capitalismo monopolizador, na qual o capital adquire
qualidades novas, estas se transformam também em certas
relações quantitativas. O capital monopolizador consegue taxas de

190 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


juros maiores que as do capital simples. Os preços do monopólio
são geralmente maiores que sob o regime de livre concorrência.

A terceira lei fundamental da dialética não é senão um caso


particular da primeira.
Se perguntarmos, agora, quais são as relações da terceira lei
fundamental da dialética com as duas primeiras, verificaremos que
a lei da transformação da quantidade em qualidade e vice-versa
não é senão um simples caso particular da lei da penetração dos
opostos. A qualidade e a quantidade são, com efeito, contradições
polares. A qualidade é a quantidade suprimida, e reciprocamente a
quantidade é a qualidade suprimida. Uma maçã, uma pera e uma
cereja possuem qualidades diferentes. É impossível somá-las sem
fazer abstração dessas qualidades diferentes e sem considerá-las
somente como frutas. Por consequência, a qualidade negada é a
quantidade e a quantidade negada é a qualidade. Todas as coisas
contêm essas contradições, porque toda coisa implica numa certa
quantidade e numa certa qualidade ao mesmo tempo. Todas têm,
ao mesmo tempo, uma qualidade e uma quantidade, que se
penetram como opostas, transformando-se uma na outra.

Tais são as três leis fundamentais da dialética. É de ver que


este ensaio não esgota o assunto, porquanto as leis gerais que
esboçamos rapidamente implicam numa série de diferentes leis
que não podemos examinar aqui. O interessante é chegar a
compreender, numa visão de conjunto, o que é a dialética.
Resumindo, diremos que é o estudo das coisas em suas relações
recíprocas, no espaço e no tempo a uma só vez.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 191


Nos capítulos seguintes traremos de aplicá-la no terreno da
história.

192 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


CAPÍTULO XI
A concepção materialista da história
Importância da concepção materialista da história.
A concepção materialista da história não é senão a aplicação
dos princípios do materialismo dialético no campo da história.
Como a dialética, a concepção materialista da história não é um
simples meio de observação, mas um meio de ação. A teoria
revolucionária não é senão um instrumento para a prática da
política revolucionária. O materialismo histórico ou dialético é para
o revolucionário o que o compasso e o sextante são para o
navegador, ou as leis físicas para o técnico. A dialética é o
instrumento universal e a concepção materialista da história o
instrumento especial que permitem compreender as leis do
desenvolvimento da sociedade. Graças tão somente ao
conhecimento das leis do movimento é que se pode chegar a uma
previsão científica do futuro e sobre essa base desenvolver uma
ação revolucionária justa. A importância considerável da
concepção materialista da história está em ser a primeira que nos
permite prever o futuro histórico em suas linhas gerais, exercer
uma influência oportuna sobre ele e mesmo dirigi-lo, em
determinadas condições. Não é, portanto, somente uma
explicação da história, mas, sobretudo, a base teórica da ação
mediante a qual se faz a história. A compreensão das leis da
natureza é indispensável para poder atuar sobre ela. Essa
compreensão abre caminho à liberdade humana. A concepção
materialista da história, isolada da prática revolucionária, é uma
coisa sem vida. Já se disse que aquele que compreende somente a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 193


Química não pode compreender nem mesmo a própria Química.
Quem não se esforçar para compreender o passado de uma
maneira materialista não poderá compreender nem mesmo o
passado.

Diferença fundamental entre a concepção materialista e a


concepção idealista da história.
Já formulamos linhas atrás o princípio fundamental do
materialismo histórico, dizendo que é o modo dos homens
procurarem seus meios de subsistência que determina os demais
aspectos da vida social, principalmente as concepções, ideias ou
representações sociais, numa palavra – o que vulgarmente se
chama a “consciência social”. Dito de outra maneira: a vida material
determina a vida intelectual, ou, para nos valermos de uma
expressão de Marx, o ser social é que determina a consciência
social. O material determina o espiritual, inclusive nos assuntos
sociais. É esse princípio que constitui a essência do materialismo
histórico, que, por sua vez, não é mais do que uma aplicação
particular da dialética materialista às condições sociais em que
vivem os homens.

A concepção materialista da história e o senso comum.


Essa noção aparece bastante clara, logo à primeira vista. É
preciso, entretanto, não esquecer que ela é contrária ao senso
comum. Para este as coisas se apresentam do seguinte modo: toda
ação humana tem seu ponto de partida no cérebro e se inspira nos
fins que o indivíduo tem em mira. Esse indivíduo agirá desta ou
daquela forma, segundo seus objetivos e projetos. Dessa maneira

194 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


podemos dizer que o senso comum é desfavorável à concepção
materialista da história. Se examinarmos, porém, mais de perto a
questão, veremos que essa concepção corrente não vai além da
superfície, nem sequer procura indagar imediatamente qual a
origem dos objetos e representações mediante os quais os homens
atuam. De onde provém tal ou qual conteúdo do pensamento
social? Ou, para empregar um exemplo concreto, qual é a causa do
operário de 1930 pensar de maneira diversa do operário de 1830?
Por que o capitalista tem sobre as greves e os sindicatos um ponto
de vista diferente do operário? Assim que levantamos essas
questões, saímos imediatamente do campo das ideias e nos vemos
forçados a investigar as causas pelas quais há algumas centenas ou
alguns milhares de anos os homens tinham ideias distintas das de
hoje e por que são diferentes os pontos de vista do capitalista e do
operário. Se não explicamos essas diversas concepções senão por
meio de outras concepções na realidade nada explicaremos –
absolutamente nada – e inclusive renunciaremos a qualquer
explicação. Para compreender como desapareceram, no curso da
história, certas concepções sociais, que foram substituídas por
outras, ou como em uma mesma sociedade as diferentes classes
podem ter diferentes pontos de vista sobre o bem e o mal,
devemos nos transportar às causas materiais que explicam esses
pontos de vista divergentes. Isto é, devemos nos transportar da
consciência social ao ser social. O materialismo histórico não exclui
de modo algum o papel do pensamento e da consciência. Não nega
que os homens tenham ideias em seu cérebro ou que atuem
segundo certas concepções determinadas. O que ele faz é explicar
essas concepções e esses fins pela estrutura material da sociedade.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 195


Em oposição a todas as teorias idealistas, o materialismo histórico
não considera a ideia como o elemento essencial primário, mas
como uma coisa secundária, como a consequência de certas
condições materiais.

O que é modo de produção?


Vamos ver, agora, em que consiste o elemento essencial, isto
é, quais são os meios que possui o homem para procurar a sua
própria subsistência, ou seja, ainda, o que é o modo de produção,
como diz Marx.

O que é modo de produção? São as relações existentes entre


os homens quando produzem ou trabalham, explica o materialismo
histórico. São as relações mútuas dos homens no trabalho. A
questão, no fundo, se reduz ao seguinte: Como se agrupam os
homens em torno dos meios de produção? A quem pertence os
meios de produção? Como são empregados?

O meio mais racional de compreender o que se entende por


modo de produção consiste em tomar certa quantidade desses
modos de produção e investigar o que têm de fundamental e
essencial. Tomemos, por exemplo, o modo de produção capitalista,
caracterizado pelos seguintes meios de produção: as máquinas, as
fábricas, as matérias primas, etc., que não pertencem aos que
produzem, aos operários. Temos, pois, de um lado, uma classe de
homens que possuem meios de produção, mas não trabalham e,
de outro lado, outra classe de homens, os operários, que não
possuem meio algum de produção a não ser a sua força de trabalho
e que não podem trabalhar se essa força de trabalho não é posta

196 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


ao serviço dos possuidores dos meios de produção, isto é, os
capitalistas.

A segunda característica do modo de produção capitalista é


que os operários são juridicamente homens livres. A terceira é que
os meios de produção, as máquinas, os instrumentos, as matérias
primas são empregados socialmente, isto é, que sempre trabalha
ao mesmo tempo certo número de operários nas máquinas de uma
fábrica. Comparemos, agora, o modo de produção capitalista com
o regime da simples produção de mercadorias, tal como
encontramos no pequeno artesanato ou nas pequenas e médias
explorações agrícolas. Veremos, então, que as relações mútuas dos
homens são aí diversas das existentes no modo de produção
capitalista. O trabalhador é, ao mesmo tempo, proprietário dos
meios de produção; o camponês o é da terra, dos arados, do gado;
o industrial ou artesão do local onde trabalha, de suas ferramentas
e matérias primas. O que, porém, mais caracteriza esse regime de
simples produção de mercadorias é que não se efetua o trabalho
em comum numa mesma empresa, como sucede no modo de
produção capitalista: ao contrário do que neste se verifica, o
produtor trabalha isolado, utilizando suas próprias ferramentas. Os
meios de produção são de sua propriedade individual e dele se
serve individualmente. Na exploração camponesa ou artesã desse
tipo, o produtor trabalha com os seus próprios instrumentos,
conforme dissemos. O mais característico, porém, desse modo de
produção é que não existe a colaboração direta, metódica, entre os
diversos produtores e que a sociedade se divide numa quantidade
considerável desses produtores, um trabalhando
independentemente do outro. Na produção capitalista, a produção

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 197


constante que uma multidão de homens realiza tem lugar numa
fábrica ou num conjunto de fábricas agrupadas numa só unidade
econômica. Na simples produção de mercadorias, a colaboração
consciente é, em todo caso, a do artesão com um limitado número
de companheiros, ou a do camponês com os membros de sua
família. O terceiro exemplo característico nos é proporcionado
pelo comunismo primitivo. A sociedade comunista primitiva é a
única proprietária dos principais meios de produção. A posse
individual dos meios de produção desempenha um papel muito
restrito. O trabalho é diretamente social. Não é nem o que é na
simples produção de mercadorias, nem o que é na economia
capitalista. São esses alguns exemplos das relações existentes entre
os homens e os meios de produção que caracterizam os modos
diversos por que esta se apresenta.

A produção e a distribuição.
O modo de produção determina igualmente o modo de
distribuição. O modo de produção capitalista confirma claramente
esse conceito. A classe possuidora dos meios de produção possui
também os produtos resultantes do trabalho, isto é, as
mercadorias. Por isso, a classe operária, que não possui os meios
de produção, não tem direito algum sobre os produtos de seu
trabalho, cabendo-lhe somente uma pequena parte da produção.
Os seus meios de subsistência, eles não os recebem das mãos dos
proprietários desses meios de produção senão sob a forma de
salário. Verificamos também que onde não existe propriedade
privada dos meios de produção, isto é, no comunismo primitivo, os
produtos do trabalho pertencem à coletividade e são consumidos

198 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


em comum ou repartidos entre os indivíduos mediante certas
regras. Dessa maneira, o modo de produção determina o modo de
distribuição da sociedade.

Diferença existente entre o modo de produção e o gênero de


atividade.
É preciso não confundir o modo de produção com o ramo de
atividade ou indústria. O modo de produção capitalista, o de
produção feudal, o comunismo primitivo, a economia escravagista,
etc., são formas ou modos de produção porque assentam sobre
certas relações sociais bem determinadas. Não se pode dizer, no
entanto, que a caça, a pesca ou a agricultura sejam modos de
produção. São apenas ramos de atividade ou modos diversos de
conseguir alimento, podendo exercer-se socialmente cada uma
delas de maneira diversa. Temos, assim, a agricultura nas
condições do comunismo primitivo, a agricultura na economia
escravagista, a agricultura na economia feudal na Idade Média e a
agricultura sob o regime capitalista. A pesca, nos tempos
primitivos, era praticada em comum. Já sob o regime de simples
produção de mercadorias, o pescador trabalha individualmente
com seus apetrechos e seu barco. Hoje, a pesca está organizada
como uma indústria capitalista moderna, na qual um capitalista,
proprietário do barco e dos instrumentos de pesca, dá ocupação a
operários que recebem um salário.

Diferença existente entre o modo de produção e a técnica.


Deve-se igualmente distinguir o modo de produção da
técnica, coisas que frequentemente se confundem. O modo de

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 199


produção é uma relação entre os homens, ou seja uma relação
social. A técnica, pelo contrário, é a maneira de que os homens
lançam mão para dominar a natureza. Por isso, certas expressões
como “produção mecânica”, etc., não caracterizam um modo de
produção ou uma relação de produção, mas determinada técnica
de produção. O mesmo acontece quando se fala em idade da
pedra, do cobre, do bronze, do ferro, etc., épocas diversas da pré-
história em que o homem se servia de instrumento de pedra, de
cobre, de bronze, de ferro, divisão essa, porém, que não é imposta
pelo modo de produção, mas pela técnica.

Que causas determinam o desenvolvimento do modo de


produção?
Vimos que o modo de produção determina o caráter e o
desenvolvimento de todas as demais relações sociais, constituindo
a força motriz que faz avançar todo desenvolvimento social. Cabe,
agora, a seguinte pergunta: Que causas determinam, por sua vez,
o desenvolvimento do modo de produção? Por que motivo passa a
sociedade do comunismo primitivo à economia escravagista, desta
ao feudalismo, do feudalismo ao capitalismo e do capitalismo ao
socialismo? A lei geral que rege as transformações de modo de
produção é o desenvolvimento da produtividade do trabalho.
Examinando os diferentes modos de produção pelos quais passou
a humanidade, verificamos que a lei geral que explica a passagem
de um modo de produção a outro é o argumento das forças
produtivas. Cada modo de produção tem por base um nível técnico
determinado. A força motriz que obriga a sociedade a passar de um
a outro modo de produção, que impulsiona para diante todo o

200 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


desenvolvimento, é a contradição existente, no seio do modo de
produção dado, entre este e as forças produtivas, ou seja, as forças
mediante as quais se fabrica certa quantidade de produtos. Cada
modo de produção somente permite o desenvolvimento das
forças produtivas ou do rendimento de trabalho até certo limite,
passado o qual se converte num obstáculo ao desenvolvimento das
forças produtivas, não obstante ter sido, até então, um fator
positivo do referido desenvolvimento. Esse obstáculo é suprimido
pela passagem a um novo modo de produção, superior àquele.
Quando a sociedade está dividida em classe dominante e classe
dominada, essa transição somente pode ser realizada por meio de
uma revolução social. Isso se explica facilmente, com o auxílio de
um exemplo fornecido pelo desenvolvimento da agricultura. Esta,
primitivamente, se praticava em comum. A agricultura primitiva
atravessou uma larga série de fases de desenvolvimento técnico e
econômico até o momento em que o modo de exploração em
comum constituiu um obstáculo ao progresso. Verificou-se, então,
a passagem de uma nova forma de produção, que foi a exploração
camponesa individual, a simples produção de mercadorias. A
propriedade coletiva do solo deu lugar à propriedade individual não
só dele como dos meios de produção agrícola, o que permitiu um
trabalho muito mais intenso e facilitou o aumento das forças
produtivas. Mas, essa classe de economia chegou, por sua vez, ao
limite extremo. No instante em que fazem sua aparição método
superiores e a maquinaria é introduzida na agricultura, o seu atraso
se torna evidente. Nas condições de exploração agrícola individual
da terra, não é possível utilizar a força do vapor, da eletricidade e
demais invenções da técnica moderna, o que já supõe a passagem

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 201


à exploração capitalista, que se desenvolve e alcança os limites
determinados pelas particularidades do modo de produção
capitalista. A etapa seguinte do progresso desse desenvolvimento
é constituída pela passagem à agricultura socialista. Vemos, pois,
que é o desenvolvimento das forças produtivas que regula, tanto
na agricultura como nos outros ramos da produção, a passagem de
um modo de produção a outro. Essa passagem não se efetua por si
mesma, automaticamente, mas é realizada pelo homem e pela
parte ou classe da sociedade para cujo desenvolvimento o modo
de produção existente se converteu num obstáculo e cujo papel na
produção fez com que nascessem nela os germes de um modo de
produção superior.

As classes.
Somos, assim, diretamente levados ao estudo do papel
desempenhado pelas diferentes classes. Estas não existiram, nem
existirão sempre. A divisão da sociedade em classes não surgiu
senão depois de um desenvolvimento relativamente prolongado e
da divisão de trabalho que se manifestou na sociedade primitiva
sem classes. Historicamente, a divisão da sociedade em classes
apareceu em seguida à decomposição do comunismo primitivo e
se acha estreitamente unida à aparição da propriedade privada.
São os meios de produção que determinam a presença dos
homens numa classe. Se examinarmos a sociedade capitalista
atual, que classes principais distinguimos e em que se diferenciam?

1 – Os possuidores dos meios de produção que não


trabalham e põem esses meios de produção em movimento graças
à força de trabalho de outros, isto é, a classe capitalista.

202 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


2 – Os que não possuem nenhum meio de produção e se
veem obrigados a pôr a sua força de trabalho à disposição dos
capitalistas, isto é, os operários.

São essas duas as classes principais da sociedade capitalista


atual.

3 – A classe dos que possuem seus meios de produção, que


eles próprios utilizam: os pequenos camponeses e pequenos
industriais. É uma classe pré-capitalista, mas que ainda se mantém
sob o regime capitalista.

Na antiguidade grega ou romana destacavam-se: de um lado,


os proprietários de escravos, possuidores dos meios de produção e
dos escravos; de outro lado, os escravos, que não possuíam meio
algum de produção, nem sequer sua força de trabalho.

Havia igualmente na antiguidade pequenos artesãos e


camponeses livres, isto é, simples produtores de mercadorias.
Por conseguinte, a existência das classes era, então, como no
regime capitalista, determinada pelas relações existentes entre os
homens e os meios de produção.

CAPÍTULO XII
A luta de classes
Divisão do trabalho social e formação das classes.
Vimos que a formação das classes tem a sua origem na
divisão do trabalho social. Mas, é preciso ter em vista que nem toda

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 203


divisão do trabalho social coincide necessariamente com a
formação das classes. Numa horda australiana existe certa divisão
social do trabalho, mas não existem classes. Numa família de
camponeses que não emprega força de trabalho estranha existe,
igualmente, certa divisão de trabalho, mas essa divisão de trabalho
não tem, de modo algum, um caráter de classe. As classes
aparecem somente quando a divisão de trabalho resulta da
fabricação regular de quantidades de produtos que ultrapassam as
necessidades mínimas e quando um ou vários grupos sociais se
apropriam com regularidade, total ou parcialmente, do excedente
de produção de outro grupo. A exploração econômica de uma
parte da sociedade por outra é a base da formação das classes. A
base da constituição das castas e Estados é igualmente a divisão de
classes, mais aí intervêm outras causas, como herança, o
matrimônio no seio de cada grupo, etc. A formação de classes é, aí,
a base geral, o que não impede, contudo, a existência de castas e
Estados. A divisão em classes fortalece e, por sua vez, assegura a
exploração. Toda formação de classes se cristaliza em torno de dois
polos: dos que produzem o excedente de produção e a mais valia e
dos que se apropriam do excedente sem trabalhar. Para
exprimirmo-nos com brevidade, diremos que o antagonismo de
classes não é senão o antagonismo entre o grupo dos exploradores
e dos explorados.

O antagonismo de classes.
Disso resulta que para falar em classes é preciso falar
também nos antagonismos de classes, isto é, nos antagonismos de
grupos econômicos que têm interesses opostos. Não é necessário

204 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


que uma determinada sociedade de classes se reduza a duas
classes somente: explorada e exploradora. Outras classes podem
existir, e esse é o caso geral. O papel que desempenham, de um
lado, a classe exploradora e, de outro, a classe explorada, exerce
uma influência preponderante em suas relações mútuas. O
antagonismo de classes significa que numa dada sociedade de
classes existem classes que têm interesses econômicos opostos,
isto é, que desempenham funções opostas na produção, na
circulação e em toda vida social em geral. O antagonismo de classes
é, por conseguinte, uma coisa objetiva, real, independente da
consciência, tão objetiva como o antagonismo existente entre a
eletricidade positiva e a eletricidade negativa, o qual independe de
saber se as pequenas partículas elétricas reconhecem, por elas
próprias, se são positivas ou negativas. O antagonismo entre os
homens independe igualmente de saberem estes se dão conta ou
não da existência desse antagonismo.

A luta de classes.
O antagonismo de classes origina necessariamente a luta de
classes mútua, que outra coisa não é que o referido antagonismo
expresso pela ação, ou o antagonismo de classes como processo.
Por conseguinte, a luta de classes é o modo de existência ordinária
de uma sociedade de classes. É impossível imaginar uma sociedade
de classes sem luta de classes, do mesmo modo que não é possível
imaginar a matéria sem movimento ou uma partícula da matéria
sem as vibrações calóricas das moléculas que a compõem. A luta
de classes não é, pois, uma invenção de Karl Marx. Em primeiro
lugar, Marx e Engels não foram os primeiros a descobrir a existência

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 205


das classes e suas lutas na história. Essa descoberta já havia sido
feita por outros antes deles. O que Marx e Engels constataram não
foi a existência das classes nem as lutas que sustentam entre si,
mas a importância preponderante desses fatores na história da
sociedade de classes. Eles viram nas lutas de classes a chave de
toda a história, e essa foi a contribuição original à teoria das classes.
Em segundo lugar, seria simplesmente ridículo supor que não
tivesse havido luta de classes antes de Marx Engels e que foram
eles que as provocaram. Essas lutas existem desde que existe a
sociedade de classes. Existiram milhares de anos antes de Marx e
Engels terem nascido. O que eles descobriram, nesse sentido, o que
eles, nesse particular, transmitiram à classe operária e demais
classes exploradas, foi uma compreensão clara de seus interesses
e do antagonismo desses interesses com os das classes
dominantes. Marx e Engels deram à luta de classes do proletariado
método, consciência, espírito de organização. Quando se fala da
atividade dos comunistas na luta de classes, o que se entende por
isso são certas formas e certos conteúdos da luta de classes, ou
seja, as formas superiores conscientes, organizadas dessa luta, em
oposição a suas formas elementares e desorganizadas.

Diferentes formas de luta de classes.


A luta de classes se apresenta sob as formas mais diversas,
tão diversas quanto as do movimento de uma partícula de matéria.
Tomemos, por exemplo, um pedaço de ferro submetido a uma
baixa temperatura. Obteremos movimentos lentos. Ao elevarmos,
porém, a temperatura, os movimentos das moléculas se tornarão
cada vez mais rápidos. A certo grau de temperatura e pressão, a

206 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


composição molecular do ferro se modifica por completo,
passando ao estado líquido ou ao gasoso.

Além disso, as formas do movimento podem ser muito


diferentes. Há movimentos mecânicos, movimentos calóricos,
movimentos químicos, etc. No movimento mecânico se
distinguem, por sua vez, novos graus diferentes: movimentos mais
ou menos rápidos ou repouso absoluto, etc.

E assim como existem diferentes formas e graus de


movimentos, existem formas diversas de luta de classes, que se
pode apresentar sob os mais distintos aspectos. A mais primitiva
forma foi a da revolta da classe operária contra a opressão que em
seus primeiros tempos o capitalismo exerceu sobre ela: foi a
destruição das máquinas, o movimento dos “ludistas”.2 Ao mesmo
tempo em que destruíram as máquinas, os operários praticavam
as casas dos donos de fábricas. Essa forma primitiva do

movimento cedeu lugar imediatamente a outras formas de


luta, como as greves nas fábricas, em ramos de indústrias, em
indústrias inteiras e a greve de massa política ou econômica, que é
o aspecto mais desenvolvido da greve. Surge, a seguir, a luta de
classe no terreno político: a agitação e a propaganda oral e escrita,
a luta eleitoral, as manifestações de rua. Finalmente, a luta passa
às distintas formas da luta armada: guerras de partidários,
insurreições armadas, guerras revolucionárias, etc. Essas formas
de luta têm, cada qual por sua vez, seus setores, suas fases, seus
aspectos determinados. O fato de se estabelecerem armistícios e
pausas na luta não impede que esta seja um fenômeno

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 207


permanente na sociedade de classes. Uma guerra não deixa de ser
uma guerra pelo fato de se interromperem os combates, ou de se
efetuarem retiradas e reagrupamentos de forças, ou de haver
intervalos de calma ou se combinarem armistícios. O mesmo
sucede na luta de classes. Essa luta não somente se reveste de
formas diferentes e passa por graus diversos, como também é
interrompida pelos armistícios, pausas, etc. Interrupções, convém
notar, que não se referem, entretanto, à luta de classes em geral,
mas somente a certas formas dessa luta. Isso explica não poderem
os reformistas que têm como princípio a colaboração entre a
burguesia e o proletariado, suprimir a luta de classes, esforçando-
se por atenuá-la, reduzi-la ou anulá-la, esforçando-se,
principalmente, por impedir que ela degenere em luta armada pela
conquista do poder. Eles, porém, serão impotentes para suprimi-
la. Não significa, portanto, grande coisa, praticamente, o fato de se
reconhecer ou não a luta de classes. Quanto às formas de luta, nada
tem de arbitrárias e são determinadas pela natureza particular da
classe em luta, pela natureza das classes contra as quais luta e pela
de suas aliadas, ou seja, pelo conjunto das relações de classe e o
grau de amadurecimento de cada uma delas. Vejamos alguns
exemplos: a greve é uma forma natural da luta operária, porque
corresponde, de fato, ao papel particular que a classe operária
desempenha na produção. Mas, a greve não era uma arma possível
para a burguesia quando lutava contra as classes feudais pela
conquista do poder. Na sua luta contra o feudalismo, a burguesia
empregou meios diversos, principalmente a hostilidade aos
impostos, como arma de ataque, utilizando a sua potência
econômica para arrancar ou comprar certos direitos às classes

208 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


feudais ou à monarquia absoluta. Em 1905, na Rússia, e
recentemente na China, vimos certas frações da burguesia utilizar
a greve como arma, o que valia como um sintoma do papel
dirigente assumido na luta pela classe operária, que assim
transmitia a certas frações da burguesia as formas de luta
proletária, donde resulta que as formas de luta das diferentes
classes, longe de serem arbitrárias, mantêm estreita relação com o
papel econômico e social de cada uma dessas classes e suas
relações recíprocas.

Os objetivos da luta de classe.


Tão diversas e diferentes quanto as formas de luta de classes
são os conteúdos ou objetivos dessa luta em si, os quais podem ser
de ordem econômica, política, cultural, etc. A luta pode ter por
objetivo um aumento de salário, a melhoria das condições de
trabalho, isto é, pode ter um caráter econômico. Pode ser também
uma luta eleitoral, isto é, pode ter um caráter político. A luta pela
melhoria e difusão do ensino é uma luta cultural. Vemos, assim,
que a luta de classes pode ter os conteúdos ou objetivos mais
diversos. Além disso, esses objetivos, do mesmo modo que as
formas de luta, são estritamente determinados pela natureza da
classe em questão. Assim, a burguesia, em sua luta contra o
feudalismo, tinha uma finalidade diversa da classe operária em luta
contra a burguesia, ou os camponeses em luta contra o feudalismo.

Consciência de classe e ideologia de classe.


O antagonismo de classe cria a luta de classes. Esta, por sua
vez, cria a ideologia de classe. Que é consciência de classe? É a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 209


consciência: primeiro, da comunidade de interesses dos membros
de uma classe determinada; segundo, a consciência do
antagonismo de interesses desta classe com os da classe com os da
classe adversária. Essa consciência de classe não existe desde logo,
surgindo somente no curso da luta, a princípio conduzida sem
objetivo, instintivamente, sem consciência comum. O
antagonismo de classe cria primeiramente a consciência do
antagonismo que opõe as classes oprimidas às classes dominantes,
e essa à consciência da comunidade de interesses da classe
oprimida. Isso não é de estranhar porque, a princípio, as classes
oprimidas não são dominadas unicamente pela força material, mas
também pela força intelectual, pelas ideias da classe dominante. A
consciência de classe se desenvolve somente no curso da luta e é
nele que aparece mais clara e precisa. Por outro lado, essa
consciência engloba frações cada vez mais consideráveis da classe
em questão. No começo, somente uma pequena minoria
compreende que existem interesses comuns entre os membros da
classe. Mas, pouco a pouco vai despontando a consciência de
classe, e logo se sente a necessidade de possuir órgãos especiais
que a encarnem mais claramente. Dessa necessidade nasce os
partidos políticos, que agrupam os elementos caracterizados por
uma consciência particularmente clara da situação e das tarefas
que esta impõe à sua classe e que conduzem metodicamente,
conscientemente e do modo organizado a luta dessa classe contra
a classe adversária.

Consciência de classe, verdadeira e falsa, e ilusões de classe.


A consciência de classe pode refletir de um modo mais ou

210 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


menos justo os interesses de uma classe determinada. Por essa
razão, se não quisermos nos confundir, devemos distinguir entre
uma consciência de classe em seu estrito sentido e uma
consciência de classe em sentido amplo. Esta engloba a uma só vez
a consciência justa e a consciência falsa dos interesses e da situação
da classe em foco. Para ela emprega-se igualmente a expressão
“ideologia de classe”, o que significa: todas as representações que
uma determinada classe forja de seus interesses, sem ter em conta
a justeza ou a falsidade delas. Por consciência de classe, no seu
sentido estrito, entendemos a consciência justa, a exata
compreensão dos interesses e da situação dessa classe, e é nesse
sentido que a empregamos em relação à classe operária. Quando
se fala em operários mais ou menos conscientes, quer dizer-se com
isso que eles compreendem, de um modo mais ou menos claro, a
solidariedade, a igualdade dos interesses de classe operária e o
antagonismo fundamental que os opõem aos interesses da
burguesia. Por sua vez, a falsa consciência de classe é a resultante
das ilusões que uma classe tem a propósito de seus verdadeiros
interesses e de sua verdadeira situação. Semelhantes ilusões de
classe se produzem frequentemente. Como materialistas
dialéticos, distinguimos entre o que uma classe é e o que pensa ser.
São duas coisas diferentes, entre as quais é preciso fazer uma
severa distinção. Uma das ilusões mais comuns e frequentes é
aquela em que caem as classes exploradora e explorada em luta
contra uma terceira, quando a princípio imaginam não existir entre
elas nenhum antagonismo de interesses. Existem também ilusões
conscientes, isto é, ideias que uma classe põe em circulação com o
fim de enganar ou despistar outra classe. Todas as classes

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 211


dominantes empregaram e ainda empregam certos meios para por
em circulação ideias falsas, com o objetivo de enganar as classes
oprimidas no que diz respeito a seus verdadeiros interesses. A
imprensa, a literatura, o ensino, o cinema, etc., das classes
dominantes não são, afinal de contas, senão meios de difundir
ideias falsas e entorpecer a consciência das classes oprimidas. O
grau mais elevado de consciência de classe reside na compreensão
científica da natureza das classes e das leis de seu
desenvolvimento, tendo por base o materialismo dialético. A
situação da classe determina geralmente a consciência ou ideologia
de classe, bem como as ilusões de classe. Essa lei é aplicável à
grande massa de cada classe. Para compreendê-la melhor, vamos
dar um exemplo tirado da Física. Sabe-se que a teoria dos gases
explica o movimento geral de uma massa gasosa e o movimento
médio de uma partícula gasosa. Não consegue, porém, explicar o
movimento de cada partícula gasosa. O mesmo sucede no terreno
social. A determinação da consciência de classe pela situação de
classe é aplicável à relação entre o termo médio dos membros da
classe para a classe em sua totalidade, o que não impede a
passagem de certos membros dessa para outra classe, cuja
consciência adquirem, ou vice-versa. Tomemos o exemplo de
Marx e Engels, os fundadores do materialismo. Marx e Engels
vinham ambos da classe burguesa e, entretanto, se converteram
nos representantes mais altos da classe operária. Modificaram sua
consciência de classe, elaboraram o socialismo científico e
dirigiram durante várias décadas o movimento da classe operária.
Numa palavra, passaram de uma classe para outra. Temos, pelo
contrário, uma infinidade de casos de operários que passam para a

212 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


burguesia e, por conseguinte, não adquirem uma consciência de
classe proletária e, sim, burguesa, fazendo todos os esforços para
propagá-la. Mas, esses fenômenos isolados não anulam a lei geral,
mas fazem parte dela, do mesmo modo que as exceções fazem
parte integrante da regra. Fenômenos como a passagem de alguns
membros de uma classe outra são frequentes nas épocas de
grandes transformações históricas, quando, por exemplo, uma
revolução burguesa se transforma em revolução proletária. Foi o
que se viu na revolução russa e em todas as demais revoluções.

As classes e demais agrupamentos sociais.


Não constituem as classes o único agrupamento de homens
numa sociedade de classes determinada. Além do grupamento de
classes, existem outros, constituídos sobre a base da profissão, da
religião, do grau de cultura, da raça, da nacionalidade. Entre todos
esses agrupamentos, os últimos, ou seja, as raças e nacionalidades
oferecem uma importância particular e constituíram a base de
certas teorias históricas. Existe, entre outras, uma teoria que
pretende que a raça constitui o fator decisivo da história. O
materialismo histórico não nega que ao lado dos agrupamentos de
classe tenham existido ou ainda existam muitos outros
agrupamentos, mas verifica que o agrupamento de classe exerce
uma influência preponderante na marcha da história da sociedade
de classes, ao passo que os demais agrupamentos não
desempenham senão um papel secundário.

Evolução e revolução.
Mencionaremos, para terminar, duas noções que

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 213


desempenham um papel importante na teoria da história, a saber:
as noções de evolução e revolução. É impossível compreender de
um modo preciso a relação entre essas duas noções se não se
compreende dialeticamente, isto é, no sentido de que a evolução
e a revolução são ao mesmo tempo opostas e unidas entre si.
Entende-se pela revolução a transformação completa das relações
de força das classes, de tal modo que a classe até então dominante
seja derrubada para dar lugar a uma classe até então oprimida.
Toda passagem de um modo de produção a outro se realiza nas
sociedades de classes com a ajuda das revoluções políticas e
sociais. O caráter externo de uma revolução é a forma repentina e
a violência, o que não quer dizer, preste-se bem atenção, que todo
ato repentino ou violento seja um acontecimento revolucionário.
O essencial é a transformação completa das relações de forças. A
revolução consiste na solução violenta das contradições sociais
fundamentais, dos antagonismos de classe, e constitui a força
motriz da história nas sociedades de classes.

Quanto à revolução, ela caracteriza o desenvolvimento social


nos limites de certas relações de classe. A relação entre essas duas
noções na sociedade de classes é a seguinte: a revolução faz o
balanço da evolução que a precedeu, enquanto a evolução prepara
a revolução. Por outro lado, toda revolução, uma vez efetuada,
toda transformação de certa relação de forças se traduz numa nova
evolução. A revolução é a passagem de certa forma de sociedade a
outra que se ache nas condições da sociedade de classes, mas
somente nessas condições. Com efeito, a passagem de uma forma
de sociedade a outra, numa sociedade sem classes, não se efetua
por meio da revolução. Disso resulta: primeiro, que temos uma

214 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


série de formas de sociedade antes da aparição da sociedade de
classes, as quais se sucedem umas às outras sem revolução social;
segundo, que depois da supressão da sociedade de classes,
teremos um desenvolvimento social que não prosseguirá em forma
revolucionária.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 215


INTRODUÇÃO À ECONOMIA POLÍTICA
J. HARARI

216 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


NOTA DO AUTOR
Este trabalho tem como objetivo principal dar ao leitor, de
forma acessível, algumas noções de Economia Política. É muito
mais fácil escrever um livro de centenas de páginas sem a
preocupação de simplificar as noções; mas, nesse caso, é muito
mais difícil fazer com que o leitor não especializado as assimile. É
necessário que o público possua algumas noções desta ciência,
principalmente num país como o nosso, onde, dia a dia, os
problemas econômicos despertam maiores interesses.

O presente estudo deseja ser útil, mostrando as relações


economicas tais como elas existem. Adota a teoria marxista, por ter
sido Karl Marx o maior dos economistas que estudaram a realidade
econômica sem o interesse de disfarçá-la; pelo contrário, o que
mais o caracterizou foi a sua sua paixão pela verdade. Os conceitos
de Marx não são verdadeiros apenas pelo simples fato dele os ter
enunciado, mas simplesmente porque Marx só afirmava um coisa
quando a considerava de acordo com a realidade social, de fácil
comprovação.

A verdade é a mais poderosa arma teórica do proletariado.


Se em certo sentido, pode dizer-se que existe uma ciência burguesa
e uma ciência proletária (no sentido de que está a serviço de uma
ou de outra classe), se tomarmos os conceitos no seu valor exato,
podemos afirmar: existe apenas uma ciência, a que investiga a
realidade, e essa ciência é proletária.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 217


A burguesia e o seu regime possuem privilégios, que os
obrigam a encobrir os fatos. Por que chamar de científica (ainda
que as acompanhemos com o qualificativo de burguesas) às suas
afirmações interessadas?

Os intelectuais burgueses, principalmente, os economistas


são obrigados, deturpando a verdade matemática, a dizer que dois
mais dois são cinco. Chamaremos a “isso” aritmética burguesa e
diremos que a aritmética proletária afirma que dois mais dois são
quatro? Evidentemente que não. Diremos simplesmente que isso
não é aritmética, mas apenas deformação propositada da mesma.

A ciência “foi” burguesa. Naquela época, como não podia


deixar de ser, a ciência e a verdade favoreciam a burguesia e
prejudicavam os interesses do teologismo feudal. Hoje, a ciência é
“proletária”, porque em todas as suas conclusões favorece o
proletariado(1). Amanhã ela será simplesmente Humana.

Os economistas a serviço dos privilegiados deformam a


“ciência econômica” e procuram complicá-la, afim de afastá-la do
alcance da maioria da população.

Se conseguir fazer o contrário, neste trabalho, terei cumprido


o meu desejo de divulgar a “Economia Política Marxista”.

218 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Notas de rodapé:

(1) Quando dizemos que a ciência é proletária, queremos


dizer que todas as conclusões científicas favorecem às aspirações
históricas dessa classe e não que, atualmente, a “ciência” oficial
dos países burgueses esteja a serviço do proletariado. E, ainda
mais, negamos o direito de intitular-se ciência à deformação
burguesa da mesma. (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 219


PRIMEIRA PARTE - CONSIDERAÇÕES
PRELIMINARES

220 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo I - A Evolução Econômica da Sociedade Humana
Os indivíduos, componentes das sociedades animais, estão
mais ou menos ligados por dependências provocadas pela
necessidade de obter da natureza os elementos materiais
necessários para subsistirem, isto é, alimentos, proteção contra as
forças naturais (calor, frio, chuvas, etc:) e a defesa contra os outros
animais. Numa colmeia, por exemplo, existem certas relações
sociais de produção, circulação, repartição e consumo.

Economia Humana — Entre as espécies animais, existe uma,


a espécie humana, (Homo Sapiens), que conseguiu dominar as
restantes, graças a um elemento diferenciado que facilita a
ofensiva-defensiva (o sistema nervoso), nela desenvolvido em
escala muitíssimo maior do que nas outras.

A evolução da Economia Humana — As relações econômicas,


entre os grupos sociais que compõem essa espécie zoológica
(animal), e entre os indivíduos dentro de cada grupo social, nem
sempre foram as mesmas, desde os tempos mais remotos aos
atuais, nem tampouco o são, num determinado momento
histórico, nas diferentes áreas do planeta. Numa só região, podem
coexistir regimes econômicos diferentes e até antagônicos.

As relações social-econômicas estão no tempo e no espaço


em contínua transformação.

Os grupos humanos passaram por diversas fases de


desenvolvimento econômico desde o seu aparecimento na face da
terra até a época atual. Da luta corpo a corpo com outros animais

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 221


para arrebatar a presa, ou entre si para a disputa por um terreno
fértil, utilizando-se das garras e dentes, até a produção fabril em
cadeia, com dezenas de milhares de operários a produzir, a
sociedade humana passou por diferentes estágios, baseados em
diversos instrumentos de produção e em várias formas de luta pela
existência.

Os homens, em longo nomadismo, foram simples herbívoros


e carnívoros ocasionais, em pleno comunismo primitivo, depois
caçadores e pescadores, para o que usaram instrumentos de pedra
simples, talhada e polida, de cobre, bronze, ferro, etc., e
finalmente, utilizaram o vapor e a eletricidade como força motriz,
etc., com que dominam a natureza.

As lutas dos grupos humanos entre si — Os homens, em


épocas remotas, não lutaram apenas contra a natureza e as outras
espécies de animais, mas também lutaram entre si os diversos
grupos humanos, possivelmente formados por motivos de
conveniência sexual (familiares). Continuavam lutando entre si
fundamentalmente por causas de origem econômica: domínio dos
bosques, lugares de caca abundantes ou de pesca, etc.

Origem da escravidão — Os prisioneiros de guerra, eram


mortos ou serviam de alimento ao grupo vencedor. Por que não
eram utilizados como escravos? Porque os rudimentares
“instrumentos de produção” não possibilitam ao escravo produzir
caça, pesca, etc., além do que era necessário para sua própria
subsistência. Assim, não poderia criar um sobre-produto de seu
trabalho, de que se aproveitaria o seu escravizador.

222 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Mais tarde, com a domesticação de animais e a agricultura o
homem já possuía instrumentos de produção que lhe permitiam
produzir, individualmente, mais do que o necessário para cobrir as
suas necessidades vitais; nasceu então a escravidão. Nasceu desde
aí, a exploração do homem pelo homem, com o surgimento da
propriedade privada, inexistente antes.

Evolução da exploração — A história da exploração do


homem pelo homem, ou, melhor, de grupos humanos por grupos
humanos, através dos séculos, passou pelas etapas da escravidão,
servidão e do sistema burguês do salariado.

Baseadas na exploração do homem pelo homem ergueram-


se as civilizações, a cultura, a arte e a ciência antigos e modernos.

Os gregos foram artistas, filósofos e políticos, porque o


trabalho de seus escravos e o comércio de seus produtos lhes
permitia o ócio necessário para o seu desenvolvimento intelectual.
Foi uma etapa necessária para o progresso humano.

Atualmente, a sociedade mantêm-se baseada nas riquezas


criadas pelo proletariado, o campesinato e os técnicos, mas não
contribui, pelo contrário, entrava o desenvolvimento da sociedade
humana, sob qualquer dos seus aspectos.

A dialética da História — Cada regime econômico cumpre o


seu papel progressista, pois, ao mesmo tempo que se desenvolve,
vai desenvolvendo em seu seio a sua negação, que originará outro
regime econômico superior, e, no desenrolar histórico, se produz
revolucionariamente a síntese: um novo regime econômico e social.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 223


A escravidão cumpriu um papel progressista, porque
permitiu o desenvolvimento das forças produtivas de então. Do
regime escravagista — tese — e sua desagregação — antítese —
surgiu o feudalismo — síntese. Dentro do regime feudal — tese —
o desenvolvimento mercantil deu lugar ao nascimento dos burgos
e da burguesia — antítese. O desenvolvimento, dentro do regime
feudal, do sistema burguês, fez com que rompessem
violentamente os pilares que o sustentavam. O Terceiro e Estado
(burguês) vence os aristocratas possuidores das terras e o alto
Clero; a Revolução Inglesa de 1688, a Revolução Francesa de 1789,
etc.

O progresso do regime burguês e do Terceiro Estado — tese


— vai criando concomitantemente formas econômicas de
organização socialista e uma força humana antitética: o
proletariado, de que resultará o “Quarto Estado” — síntese. Com
efeito, o industrialismo e o maquinismo criam a grande produção
industrial e superam os quadros nacionais da economia.

Os países ricos dominam os mais débeis. Vai-se formando


uma só cadeia econômica mundial, dominada pelos principais
Estados imperialistas. Mas, ao mesmo tempo, o proletariado une-
se internacionalmente. E, assim como o Terceiro Estado rompeu,
na França, a cadeia feudal-absolutista, o proletariado rompeu, na
Rússia, a cadeia imperialista.

★★★

224 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


A evolução — desenvolvimento dialético — não se detêm nem
mesmo no regime socialista. O regime socialista, dirigido pelo
proletariado, evolui. Ao coletivizar a produção, ao resolver as
contradições sociais, ao elevar a cultura, vai destruindo as classes
sociais e, entre elas, o próprio proletariado como classe, criando as
premissas para uma sociedade sem classes, a sociedade comunista,
em que todos serão igualmente trabalhadores, sem distinção de
manuais ou intelectuais. Terminará aí o processo histórico? Não.
Terminarão, sim, as lutas de classes, com o desaparecimento das
mesmas, mas perdurarão as contradições: Forças humanas e
Forças naturais, Ignorância e Ciência, Paixão e Raciocínio, etc.,
continuarão provocando, já agora, numa evolução pacífica, novos
e maiores progressos.

Resolvidos os problemas fundamentais da subsistência, o


homem eleva os seus sentimentos e os seus objetivos. Na
antiguidade e tempos atuais, somente os exploradores podem
contribuir para o progresso das artes e ciências. Numa sociedade
socialista essa oportunidade é estendida a todos, donde o
progresso se acelerar de forma incrivelmente maior.

Velocidade relativa do processo histórico — A evolução


histórica não é uniforme na velocidade de seu progresso. O homem
demorou, talvez, dezenas de milhares de anos, para conseguir
meios com que dominar os animais. Menos 800 anos foram
suficientes para o regime feudal dar origem e ceder seu lugar à
vitória da burguesia. Em menos de 200 anos, a burguesia positivista
e revolucionária forneceu as bases para o nascimento da liberdade
política, despertou a ciência, a filosofia e a arte, dando ao homem

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 225


confiança em suas próprias forças e criando um grau de cultura
infinitamente superior ao do regime feudal.

Hoje, o proletariado, em 20 anos apenas, transformou um


país atrasado econômica e culturalmente, como o antigo Império
Russo, no primeiro país produtor da Europa, possuidor de uma
técnica, uma cultura e um regime jurídico que a colocam na
vanguarda de todos os países civilizados(2), além de capacitá-la a
contribuir principal e decisivamente na vitória bélica contra o nazi-
fascismo, a maior e mais potente força guerreira surgida em
qualquer época da humanidade.

Recapitulação do Capítulo Anterior

As lutas dos grupos humanos entre si são, do ponto de vista


econômico-social, consequências da estruturação precária e falsa
em que se baseava para a conquista de meios necessários para a
sua subsistência. Quando tiver desaparecido a exploração do
homem pelo homem, desaparecerão as lutas de classes (o que
ocorrerá na sociedade comunista), e terá início, então, uma época
na qual os homens se diferenciarão fundamentalmente dos
animais, pela eliminação da violência na conquista de seus meios
de existência. Terminará a pré-história em que estamos vivendo e
começará a verdadeira História da humanidade.

II

226 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


A escravidão cumpriu um papel progressista, pois permitiu o
desenvolvimento das forças produtivas e a passagem da economia
de então para etapa superior. Depois, do regime feudal passamos
a uma outra etapa, burguesa, o sistema capitalista, baseado no
salariado, que atingiu o seu desenvolvimento máximo no
imperialismo. Hoje, numa sexta parte do mundo, já não existe o
capitalismo, pois na URSS o proletariado é dono dos meios de
produção e de todas as riquezas do país, em pleno regime de
socialismo científico, ao qual sucederá 0 regime comunista.

Perguntas de Controle
1. Por que a espécie humana conseguiu dominar os
demais animais?

2. As relações social-econômicas atuais são iguais aos


períodos anteriores em que viveu a humanidade, desde a era em
que surgiu o homo sapiens na face da terra?

3. Por que o primitivo prisioneiro era morto


simplesmente, ou comido, e não escravizado?

4. Por que surgiu a escravidão?

5. Evoluíram ou não as formas de exploração do


homem pelo homem?

6. Os sistemas econômicos são definitivos ou


evoluem?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 227


7. À escravidão sucedeu que regime? Ao sistema
feudal sucedeu que regime? Ao sistema burguês mundial sucederá
que regime? Em que sistema vive a URSS?

8. O sistema socialista será sucedido por algum outro


sistema?

9. No mundo, existirão sempre classes —


trabalhadores e patrões — ou não?

10. Resolvidos os problemas de subsistência, a


humanidade, em conjunto, progredirá moral e intelectualmente,
ou não?

11. Quantos anos foram necessários para a humanidade


passar do comunismo primitivo de trabalho livre para o regime de
escravidão? Deste para o feudal? Deste para o burgues? E deste
para o socialista?

228 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Notas de rodapé:

(2) Vivemos asfixiados pelas calúnias da burguesia


decadente, que defende com amor de mãe a todos os inimigos
declarados do novo mundo que surge e prestigia os traidores, ao
mesmo tempo em que calunia os construtores do novo Estado
Socialista. Por isso, muita gente honesta tem dúvidas quanto ao
progresso quase inacreditável da URSS, e isso é compreensível
pelas dificuldades que se tem de encontrar a verdade sob as
toneladas de papéis caluniadores. (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 229


Capítulo II - As Escolas Econômicas e a Verdade Científica
A verdade é imparcial?
No momento atual, existem relações econômicas que
recebem várias interpretações. Para explicá-las, surgem diversas
doutrinas econômicas. Nem sempre essas doutrinas têm sido
sinceramente realistas e científicas. Pelo contrário, em muitas
delas, notam-se critérios finalistas tendenciosos.

Os fins são bastante diversos. Entre esses, naturalmente, a o


desejo de investigar a verdade, porém, a verdade é imparcial?

Suponhamos um fato econômico. Um ato de compra-e-


venda. O objeto de compra e venda, por exemplo, será a força de
trabalho do operário. O operário, vendedor de sua força procurará
ganhar mais, exagerando ou não as suas qualidades de produtor,
ou o custo de produção dessa força de trabalho (sua subsistência e
da sua família). Dirá, então: “Sou ótimo trabalhador” ou “a vida está
cara”, etc., etc. Por seu lado, o patrão alegará que tem poucos
lucros e possibilidade de contratar outro operário tão bom por um
salário menor, etc., etc.

Chamemos então um ‘"técnico em economia”. Suponhamos


que ele deseje realmente investigar a verdade. Se a verdade é que
o operário sempre produz um excedente de produção (isto é, mais
valor do que recebe para produzi-la), do qual o patrão se apropria,
o simples fato de expressar essa realidade coloca o economista
argumentando a favor do operário. Se a realidade por ele

230 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


encontrada significasse que o operário explorava o patrão, a
“verdade’ argumentaria a favor do patrão.

Entretanto a verdade burguesa não é imparcial, intervem na


contenda e é a arma-teórico-prática mais poderosa que pode
defender uma determinada posição.

O técnico-economista é uma pessoa que está sob a influência


de fatores econômicos. Suponhamos que seja um patrão ou esteja
a soldo de um patrão. Neste caso, se a verdade não convém aos
interesses dos patrões, ela não será dita e será deformada. Pode
acontecer que o economista pertença à classe média, que se sente
ameaçada pelo grande capital absorvente, e, por outro lado, teme
que o proletariado, socializando os meios de produção, destrua
suas esperanças (enfim, somos homens e na maioria ignorantes!)
de tornar-se um grande capitalista. Nosso economista vacilará.
Frente ao patrão, defenderá o direito a um salário “justo”,
pensando, nesse caso, como um futuro proletário. Frente ao
proletariado defenderá a propriedade privada, não querendo
despojar-se de sua ilusão: ser futuramente um capitalista. Dirá,
pois, que a verdade não está nem com o patrão, que deseja pagar
menos, nem com o operário, que não deseja absolutamente ser
explorado. Não. Para ele, a verdade esta no meio termo, como ele
mesmo o está. Esta é a sua verdade. E o economista da classe
média lutará com o sentimentalismo, que se caracteriza pelo
“solidarismo”. Que o patrão seja humano”, “solidário” e que
explore menos, pagando um salário melhor. Que o proletário seja
também decente e aceite uns centavos a mais, deixar-se explorar

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 231


in aeternum, renunciando a seu papel histórico e conformando-se
com a ordem atual.

O caráter classista das escolas econômicas


Partindo desse exemplo, diremos duas palavras sobre cada
uma das escolas econômicas (as principais), para, desenvolver a
exposição geral da escola marxista.

A Escola Liberal resolve o nosso problema desta maneira :

As relações humanas — diz ela — são regidas por leis


naturais, imutáveis, que são as melhores possíveis. O salário
favorece o operário, porque o liberta dos riscos da empresa. Não
nega que o salário é frequentemente insuficiente e é de desejar vê-
lo aumentar, mas, para isso, é necessário que o contrato de
trabalho seja mais livre (isto é, que o Governo não proteja o
operário com salários mínimos). Liberdade de contrato. Laissez
faire, laissez passer(3).

Não é necessário ser marxista para notar que esta teoria


defende os interesses da classe industrial, com argumentos
infantis, principalmente quando diz que os “operários não sofrem
os riscos da empresa” e, embora haja desigualdade social e
econômica, o operário ganha no que se refere à igualdade-jurídica
(Liberdade de contrato).

A Escola Liberal é conservadora e otimista. Conservadora


porque os privilegiados desejam que nada se modifique, que se

232 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


detenha a evolução histórica; é otimista porque não se pode pensar
da mesma maneira dentro de um palácio e dentro de uma cabana.

A Escola Marxista, frente a esse nosso problema, estuda


honesta e corajosamente as leis da produção capitalista.
Demonstra, cientificamente, a existência da exploração do homem
pelo homem. Ao lutar contra a exploração, defende os interesses
classe trabalhadora. Lutando ao mesmo tempo pela abolição
completa do regime do salariado e, portanto, das classes sociais,
defende as aspirações dos não exploradores, isto é, da imensa
maioria de homens, de todos os que não têm interesses anti-
humanos: defende as aspirações de toda a humanidade.

Doutrinas intermediárias — Entre essas duas escolas


encontra-se uma quantidade de doutrinas intermediárias.

O Cristianismo Social pretende resolver o nosso problema


procurando conciliar patrões e operários, mas sob um regime de
privilégios para o patrão. Afirma que o salariado é um estado
normal e até providencial. “Pelo salário, o rico faz o pobre viver” —
dizem eles. Deseja conservar a ordem atual com a propriedade
privada, a herança, o salariado, etc. Esta doutrina procura levar a
classe média à defesa de “corporações de patrões e operários”,
onde, no fim de contas, predominaria o patrão. Além disso, essa
doutrina acalenta o povo na fé de um mundo eterno extra-terreno,
frente ao qual o mundo terreno nada vale, é insignificantemente
reduzido e nele devemos sofrerresignados pois seremos por isso
recompensados no outro mundo. À custa de uma promessa de

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 233


felicidade no outro mundo, exige em troca que nos deixemos
explorar impiedosamente neste mundo.

O Solidarismo resolve o problema do salariado de maneira


característica da classe média: a vacilação, o ecletismo. Deseja a
abolição do salariado e do regime capitalista; mas, por outro lado,
preconiza a conservação da ordem social atual, do individualismo
econômico, pretendendo negar a luta de classes “Uma República
livre, de proprietários iguais”, como disse o bom Rousseau. Tal era
o programa do Partido Radical da França (Congresso de Nancy
1907; art. 15: “Fomentar todas as instituições pelas quais pode
fazer valer seus direitos o proletariado: conseguir o
desaparecimento do salariado e chegar à propriedade individual,
condição mesma de sua liberdade sua dignidade”. ) Hoje, este
partido da classe média, dirigido por líderes, entre os quais já
existem grandes capitalistas, não consegue iludir ninguém.

Estas doutrinas demonstram claramente os interesses de


classes. Mas existem outras, que aparecem devido à luta das
classes dominantes entre si.

Há economistas que sustentam ser a agricultura a única fonte


de riqueza de um país, e os impostos e cargas fiscais deverem recair
sobre a indústria, que nada mais faz senão transformar os produtos
da agricultura. Defende os possuidores de terra contra os
industriais.

Henry George afirma o contrário: que a terra é um dom da


natureza e produz por si mesma, e é injusto que os possuidores de

234 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


terra explorem a sociedade. Preconiza um imposto único sobre a
terra até chegar à nacionalização da mesma e... se se liberte a
indústria de todo e qualquer imposto...

David Ricardo, desejando diminuir os salários, quer diminuir


os preços dos produtos rurais, etc.

Por fim, existe uma categoria de "economistas" salafrários


que semeiam a confusão, pois deformam a doutrina econômica
marxista, usando uma fraseologia marxista, para depois refutá-la
com êxito, etc. Temos aqui os seguintes exemplos:

Stanley Jevons, como sabemos, afirma que as crises são


provocadas pelas manchas do sol. Com que fim usa essa
expressão? Apenas para disfarçar o fato de que provêm do atual
regime de produção capitalista.

Spann deforma a doutrina de Marx. Afirma (como burguês


que é) que o regime capitalista é melhor do que o socialista (pág.
210); que o marxismo contém uma essência diabólica (que horror!)
(pág. 212) e o divino Spann arranja uma solução divina: o regime
corporativo hierárquico (pág. 230 — História das doutrinas
econômicas).

Gustavo Cassell fez um livro de 900 páginas (Economia Social


Teórica), em que ele desenvolve ideias partindo não do valor, mas
da formação do preço.

— E o preço de que depende?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 235


— Do custo de produção.

— Bem! E que é custo de produção? Que é força de trabalho?

— Querer definir isso — grita Cassell indignado — é o


resultado do escolasticismo de um Marx!

A seguir, Cassell escreve capítulos e mais capítulos sobre o


salário, o preço, etc., supondo um regime socialista “puro”. Poderia
impressionar, se, pela sua própria definição, num regime socialista
“puro” (comunismo) existisse preço, salário, etc.

★★★

Mas, por que todo esse interesse? Não há erros de bem


intencionados? Sim, há. Por exemplo, alguns economistas são
sinceros quando preconizam o pagamento de “um salário justo” ou
“do produto integral da produtividade do operário”. Mas os erros,
criando ilusões, favorecem a qualquer setor social, menos à classe
operária.

★★★

Tendo-se uma orientação geral sobre o objetivo político das


escolas econômicas, ser-nos-á fácil orientarmo-nos sobre as
grandes verdades, grandes sofismas, grandes deformações e
estéreis ecleticismos que, em seu conjunto, compõem o estudo da
Economia Política.

236 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Karl Marx estudou cientificamente a realidade. Não se
conformou em explicar o mundo, mas quis colaborar na sua
transformação. Sendo a sua doutrina uma doutrina realista da
Economia Política, estabeleceu, como principal argumento a seu
favor, a realidade econômica. Sendo o marxismo, por sua vez, uma
doutrina dialética, não pretende fornecer verdades eternas e
imutáveis. Mas a doutrina marxista despreza os sofismas e
deformações interessadas, porque considera que os interesses da
classe operária e o futuro da humanidade estão de acordo com a
evolução dialética da realidade econômica, isto é, com a verdade
científica.,

Recapitulação do Capítulo Anterior

Acusam a doutrina marxista de ser “tendenciosa”. Se, com


isso, pretendem afirmar que representa uma tendência, nada se
afirma de extraordinário. Com efeito, é a única doutrina econômica
cujos partidários se contam por dezenas de milhões. Mas se, com
isso, desejam afirmar que deforma a realidade para servir a fins
determinados, isso não passa de uma acusação desprovida de
fundamento, inspirada em profunda ignorância ou interesses
bastardos de uma classe dominante.

O proletariado não precisa deformar a realidade para


demonstrar que é explorado, que existem crises capitalistas,
desocupações, etc. e que o regime socialista supera o capitalista.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 237


Os intelectuais burgueses têm que fazer prodígios de
argumentação falsa para demonstrar o contrario.

Perguntas de Controle
1. Que vende o operário ao patrão?

2. A verdade econômica defendida pelo operário é a


mesma do patrão? É igual à de um intelectual burocrata?

3. Que pretende a escola econômica liberal? A quem


ela serve?

4. Que pretende a escola econômica marxista? A quem


ela beneficia?

5. Que defende o Cristianismo Social? A serviço de


quem ele se encontra?

6. Há deformadores da doutrina econômica marxista?

7. Karl Marx explicou a realidade econômica?


Contentou-se com isso?

8. Os interesses do proletariado confundem-se com os


da humanidade? Por que?

238 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Notas de rodapé:

(3) Deixai fazer, deixai passar. (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 239


Capítulo III - A Escola Marxista
O método
Método é um conjunto de regras, que nos permitem chegar
à compreensão exata da realidade em seu movimento, expressa
por meio do que chamamos de verdade científica.

As verdades não são elementos extramateriais; são


realidades expressas por meio do pensamento.

Em primeiro lugar: Existe uma realidade material exterior (a


natureza) e anterior à nossa consciência?

Marx responde afirmativamente a esta primeira questão. Por


isso, ele é um filósofo materialista. É necessário esclarecer que
algumas pessoas, que ignoram os problemas filosóficos, creditam
que o materialismo é utilitarismo, que despreza o "espiritual", etc.
E essa ignorância é utilizada por certos individuos para confundir o
povo. A verdade é que os materialistas (comunistas) são os mais
extraordinários idealistas (no sentido comum) do mundo.

Em segundo lugar: Essa realidade é cognoscível?

Marx responde numa de suas Teses sobre Feuerbach:

"A gestão de se saber se o pensamento pode conduzir a


uma verdade objetiva não é uma questão teórica, mas, sim,
uma gestão prática. É na prática que se faz necessário provar
a verdade, isto é, a realidade e a força, que se encontram fora
do pensamento. A discussão sobre a realidade ou a irrealidade

240 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


do pensamento, isolada da prática, é simplesmente
escolástica",

Pois bem, essa realidade é constituída de matéria em


movimento, em transformação. Compõe-se de processos.

Qual é a forma desse movimento?

Quando falamos da evolução dos regimes econômicos, vimos


como cada regime, em seu próprio desenvolvimento, vai criando
um regime antagônico que se choca com o anterior, resultando
dessa luta, entrechoque, a superação de ambos. E esse regime
superior cria, em seu movimento evolutivo posterior, outro regime
antitético, voltando a reproduzir-se o processo: tese, donde surge
a antítese, produzindo-se desse conflito a síntese. Tudo isso se
forma num processo ininterrupto do movimento real. Na História,
cada regime econômico dá origem aos agrupamentos humanos, os
quais, nas suas lutas, fazem a História, mas condicionados sempre
às circunstâncias objetivas.

O processo dialético verifica-se em toda a natureza: até as


células são um produto de um processo dialético da natureza, e por
isso se reproduzem pelo desenvolvimento dentro de seu núcleo
bipartido de dois polos antitéticos que, depois da síntese, fusão dos
dois polos, bipartem-se outra vez e passam a presidir a evolução
das novas células formadas.

A dialética tem sido muito mal interpretada. Não exprime


uma simples oposição de dois fenômenos contrários, para se
"sintetizar" um outro fenômeno que não é nem um nem outro, mas

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 241


sim um processo real que parte de uma unidade, dentro da qual se
desenvolvem os contrários.

Compreendendo, pois, que para a investigação dar


resultados deve ser baseada num método que siga o movimento
real da matéria, devemos afastar toda a pretensão de acomodar os
fatos dentro de regras apriorísticas. No exterior há uma tal
quantidade de fatos, que, unindo-os segundo a nossa imaginação,
poderemos "demonstrar" qualquer coisa.

★★★

Marx afirmava:

"É certo que se deverá distinguir formalmente a arte da


exposição do modo de investigação. A investigação deverá
examinar a matéria em seu detalhe, analisar as diferentes
formas de seu desenvolvimento e descobrir o seu enlace
íntimo. Uma vez realizado este trabalho, poderá ser exposto o
correspondente processo real.

Depois de se conseguir isso, ao apresentar a vida da


matéria refletida na nossa consciência, acreditar-se-ia ter em
nossa frente uma construção apriorística".

Expliquemos esse trecho: Uma vez descoberto o processo


dialético na natureza real do movimento material, expressamos a
lei desse processo e dizemos: Tese—Antitese—Síntese, que não
são categorias mentais das quais depende a realidade ou
categorias que acomodamos à realidade aprioristicamente, mas,

242 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


pelo contrário, realidade à qual devemos acomodar o nosso
pensamento.

O método dialético supera o método dedutivo "puro", que se


contradiz quando parte de uma verdade induzida ou quando deriva
em parte de uma concepção pretensamente não-induzida.

Supera também o método indutivo "puro", pois este é


limitado e exclusivamente empírico, pois não chega às leis
científicas que, por sua vez, por dedução, nos guiariam nas
investigações.

Além disso, supera o método dialético, o ecletismo indutivo-


dedutivo da ciência atual, pois este escamoteia a relatividade de
ambos os conceitos. Isto se deve a que supõem existir um abismo
entre o particular e o geral, entre causa e efeito.

Quando eu digo: "Preciso de uma secretária" estou dizendo


que necessito de uma secretária, de modo geral, isto é, de um
móvel do qual existem muitos tipos diferentes., mas que tem um
conjunto de qualidades comuns que nos permite a generalização;
ao mesmo tempo estou afirmando que preciso de uma coisa
concreta e não abstrata como o conceito "secretária"; concreta
como o é uma determinada secretária. Além disso, todo o fato é,
ao mesmo tempo, causa e efeito, pela interdependência que une
um a outro, no desenvolvimento.

Como investigava Marx: Observava a realidade. Conhecendo


o movimento dialético da natureza, procurava na aparente unidade

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 243


das coisas a contradição dialética no seu seio que produz o seu
movimento.

Estudando essa antítese, investiga para que síntese conduz


esse processo.

Partiu, particularmente, da análise da mercadoria. E nela


descobriu a lei econômica e histórica da existência de duas classes
antagônicas e fundamentais (não únicas, como às vezes se afirma):
o capitalismo e o proletariado. Seus interesses irreconciliáveis
produzem a luta de classes que, segundo Marx e os fatos já
comprovaram, leva à ditadura do proletariado, como uma parte do
processo que conduz à síntese, a sociedade sem classes, na qual
desaparecem os dois termos: tese e antítese, porque síntese.

Isto foi explicado por Marx há cerca de 70 anos. Já dissemos


que Marx e o marxismo pretendem ter como principal argumento
a seu favor a realidade histórica. Existe nalgum país a ditadura do
proletariado? Evidentemente que sim.

Para não estender este trabalho não analisaremos sob o


ponto de vista marxista cada um dos métodos empregados na
Economia Política. Entretanto, com o que já dissemos, pode-se
deduzir a posição marxista frente a cada um destes, "dedutivos" ,
"indutivos" ou "ecléticos".

Recapitulação do Capítulo Anterior

244 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Em Economia Política o método é muito importante, até ao
ponto em que as escolas se dividem de acordo com os método que
cada uma sustenta.

O método empregado por Karl Marx é o dialético


materialista. É materialista porque considera que existe uma
realidade material exterior à nossa consciência e anterior a ela;
essa realidade é praticamente cognoscível e a unidade do mundo
reside na sua materialidade. É dialético porque considera essa
realidade em seu movimento como um conjunto de processos.

Temos exemplo do método dialético na análise econômica,


na teoria do valor de Marx, quando este analisa a mercadoria,
conforme veremos no próximo capítulo.

Um exemplo da dialética aplicada à História é apresentado


pela luta entre a burguesia e o proletariado.

Estas duas classes são dois poios de uma unidade, a


sociedade capitalista atual.

Perguntas de Controle
1. Que é o método?

2. Que foi que apareceu primeiro: a matéria ou a


consciência?

3. A natureza é cognoscível?

4. Que é tese? Que é antítese? Que é síntese?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 245


5. Como se desenvolve o processo dialético?

6. Como investigava Marx?

7. Analisando a mercadoria, que descobriu Marx?

8. A sociedade capitalista é uma unidade? Em seu seio


existem contradições?

246 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo IV - A teoria do valor. A mais-valia
A compreensão da teoria do valor é essencial para a
assimilação de toda a doutrina marxista.

Estamos rodeados por coisas que têm valor: a mesa, as


cadeiras, o tinteiro, etc. Dizemos que têm valor porque nos são
úteis e porque podemos trocá-las por outras.

Se pedirmos a um físico que nos diga se estes objetos têm


valor do ponto de vista estritamente científico da natureza (do
ponto de vista físico), o físico analisará os objetos e dirá:

— Por mais que os analise não encontro neles a propriedade


que vocês chamam de "valor". A mesa — continuará — é composta
de madeira, pintura, etc., que são também produtos da natureza,
transformados pelo homem: árvores, resinas, etc. Têm
propriedades físicas que o homem utilizou para construir um
objeto que satisfaz uma de suas necessidades, motivo pelo al
podeis dizer que o conjunto dessas propriedades lhe permitiram
formar um objeto que tem um valor para seu uso.

No que se refere ao valor de troca — concluirá o físico é


determinado pelas relações sociais, que não me cabe examinar.

Teorias sobre o valor


Perguntemos aos economistas: Por que motivo damos valor
a essas coisas?

Teoria da utilidade

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 247


A teoria da utilidade responde: "As coisas têm valor por que
nos são úteis, porque satisfazem as nossas necessidades" De modo
que, segundo esta doutrina, o valor depende de uma apreciação
subjetiva da utilidade objetiva contida nas coisas.

Teoria da utilidade crítica

Um mendigo esfomeado precisa de pão para se alimentar;


sem dúvida nenhuma, o pão tem para ele muito mais utilidade do
que um automóvel.

Portanto, se dermos a um mendigo esfomeado um


automóvel, ele nos responderá:

— Obrigado. Prefiro pão. Para mim, o automóvel não tem


valor.

Isso, entretanto, não acontece na realidade, porque o


mendigo sabe muito bem que pode trocar o automóvel não só por
pão como também por muitas outras coisas úteis.

Compreende-se facilmente que essa teoria não se ajusta à


função social do valor e da noção de troca.

Os doutrinários da teoria da utilidade marginal ou final


defendem mais ou menos a mesma coisa.

O valor — dizem eles — é um fenômeno subjetivo cujo


montante vai diminuindo à medida que satisfazemos nossa
necessidade. Isto é, se temos necessidade de um automóvel, o

248 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


primeiro automóvel que ganhemos nos dará imenso prazer, pois
tem um grande valor por sua utilidade. O segundo automóvel terá
menos valor. E assim sucessivamente até um automóvel que nos
seja completamente inútil e cujo valor seja igual a zero. E, se
continuarem a presentear-nos com automóveis, o seu valor ficaria
abaixo de zero e nos prejudicaria. Se nos dessem 100 automóveis,
nós os recusaríamos indignados, como se, em lugar de nos
oferecerem um copo de água, nos tivessem inundado a casa toda.

Evidentemente, os teóricos dessa doutrina (que é a


representada de uma forma muito mais complicada), não
compreendem o valor de troca (o valor social), por se tratar de uma
teoria subjetivista. Se nos derem 100 automóveis, tanto melhor, os
automóveis têm um valor de troca que nos permite adquirir
muitíssimas coisas úteis e diferentes.

Teoria da raridade — Oferta e procura

Outros economistas defendem a teoria segundo a qual os


objetos têm valor de acordo com a sua raridade e o montante
desse valor é determinado pela lei da oferta e da procura, esses
economistas não observaram ainda que, se o preço dos objetos é
menor do que o custo de produção, os fabricantes restringem a
fabricação, diminuindo assim a oferta, obrigando os preços a
subirem novamente. Quando o preço está muito acima do custo de
produção, a venda desse artigo produz um lucro extraordinário,
novas fábricas se abrem, há maior oferta e o preço diminui.

Teoria do custo de produção

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 249


E... o valor não será determinado pelo custo da produção?
Vejamos. Que significa custo de produção? É a soma dos preços das
mercadorias que são gastos na confecção do artigo: matérias
primas, desgaste de máquinas, salários pagos, etc. Assim, explicar
o valor pelo custo de produção de uma mercadoria é incorrer numa
repetição de princípio, pois precisamos, antes de mais nada,
explicar porque, têm valor as matérias primas compradas pelos
fabricantes, as máquinas, etc. Só assim, indo às fontes originárias,
poderemos verificar o que é o valor.

Dificuldade que a Economia Política burguesa tem para resolver


este problema
Frente a todas essas dificuldades, diz Charles Gide:

— "Por que motivo um quilo de ouro vale mais do que


um quilo de pão? É uma questão terrível que, há mais de um
século, atormenta a todas as gerações de economistas". E
prossegue: "... Poderemos perguntar-nos se não é insolúvel
essa questão", etc. (Curso de Economia Política, pág. 55).

Com isso, Charles Gide apenas confessa sinceramente que a


Economia Política burguesa é impotente para resolver o problema
básico de toda a Economia Política.

Teoria marxista do valor


O problema é perfeitamente solucionável, e a sua solução foi
entrevista, embora não resolvida, desde Aristóteles até Ricardo,
passando por Adam Smith, Barbon, etc.

250 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Vejamos a teoria do valor segundo Karl Marx, que resolveu o
problema.

Análise da mercadoria
Mercadoria é todo o objeto que se produz para a venda.

Karl Marx inicia sua investigação com a análise da mercadoria


e diz:

"A mercadoria é primeiramente um objeto do mundo


exterior, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz uma
necessidade qualquer do homem".

"A utilidade de uma coisa é o que constitui o valor de uso


da mesma."

Mas esta utilidade não flutua no ar.

"Essa utilidade está condicionada pelas propriedades do


corpo componentes da mercadoria, sem o qual não poderia
existir."

Valor de uso. O fato de uma mercadoria ter valor de uso é


independente do maior ou menor trabalho que haja custado ao
homem a sua produção. Isto é, uma coisa tem valor de uso, não
pelo trabalho que custou, mas por sua utilidade, e se realiza pelo
uso ou pelo consumo.

Prossegue Marx:

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 251


"Uma coisa pode ter valor de uso, sem ter um valor de
troca. Tal é o caso quando ela é útil ao homem sem que haja
sido obtida pelo trabalho humano. O ar, por exemplo. Mas
nenhuma coisa pode ter valor de troca sem ter por sua vez seu
valor de uso. (O Capital, primeiro capítulo).

Valor de troca. Além do valor de uso, os objetos podem ser


utilizados para serem trocados uns pelos outros. Isto é, têm um
valor de troca.

Caráter social do valor de troca. Mas é preciso compreender


bem. O valor de troca existe porque existem as pessoas com as
quais se pode trocar as mercadorias.

O valor de troca é produto das relações sociais. Foi por isso


que aquele árabe, encontrando-se esfomeado no deserto, e
pensando encontrar nozes, quando encontrou pérolas, exclamou
decepcionado: Mas, são pérolas!

Se as tivesse encontrado em Beirute, por mais esfomeado


que estivesse, não teria lançado essa exclamação desconsolada,
porque, ali, não estando isolado, poderia obter, pelo valor de troca
das pérolas, grandes quantidades de nozes e muitas coisas mais.

O trabalho humano. Donde provém esse valor que nos


permite trocar as coisas?

Analisemos uma simples relação de troca:

252 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Troquemos, por hipótese, 10 quilos de trigo, por 4 metros de
fazenda.

Observemos:

Que têm de comum os dois termos dessa igualdade?

— O valor de uso?

Não, são completamente diferentes. O trigo destina-se a


necessidades diferentes da fazenda. As utilidades de cada
mercadoria são diferentes.

— A quantidade?

Menos ainda. 10 não é igual a 4. Além disso, não se pode


comparar quantitativamente quilos com metros.

— A utilidade?

Também não, pois sendo diferentes os seus valores de uso


também o serão as suas utilidades.

— Os preços que nos custaram?

E se tivéssemos ganho de presente a fazenda? Neste caso, o


dono do trigo, se o valor dependesse do "preço que nos custou",
não trocaria uma coisa que nada nos custou pelo trigo, que lhe
custou um determinado tempo de trabalho, desgaste de máquinas,
etc.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 253


O que tem de comum os membros dessa igualdade não é
algo que dependa do dono da mercadoria, mas da própria
mercadoria e acontece muitas vezes que o dono da mercadoria a
troca por outra sabendo que o custo da produção de sua
mercadoria é maior que o da mercadoria que recebe em troca.
Existe, entretanto, algo de comum entre essa quantidade de trigo
e a fazenda. É que ambos são produtos de um certo trabalho, ou
melhor, gastos de trabalho.

Trabalho concreto. Observemos que o trabalho do agricultor


é bastante diferente do trabalho do operário têxtil. A igualdade não
está, portanto, no trabalho concreto, criador do valor de uso, mas
no trabalho em geral, produzido por um gasto de energia humana
geral: o trabalho abstrato.

Trabalho abstrato. "Um valor de uso só tem valor de troca


porque nele está objetivado ou materializado um trabalho
humano." (O Capital).

Como se mede a quantidade de trabalho?

Mede-se a quantidade de trabalho pelo tempo que demora


para ser produzida a mercadoria e o tempo computa-se em dias,
horas, minutos.

Suponhamos, entretanto, que um operário é vagaroso,


demora muito mais do que um operário hábil e diligente. A
mercadoria do operário vagaroso valerá mais porque trabalhou
mais tempo? Não. Porque o valor(4), fenômeno social, não é

254 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


determinado pelo trabalho individual de um operário, mas pelo
trabalho médio, socialmente necessário para produzir um artigo.

Trabalho socialmente necessário. Este trabalho socialmente


necessário é determinado pela técnica média da sociedade, das
condições pessoais dos trabalhadores, etc.

"A quantidade de valor de uma mercadoria


permaneceria constante, se o tempo de trabalho exigido para
sua produção fosse também constante, mas este varia pela
mudança da força produtiva do trabalho, que varia
igualmente pelo progresso da técnica, habilidade do operário,
etc." (Marx).

Além disso, a mesma quantidade de trabalho pode produzir


diferentes quantidades de produtos. A mesma quantidade de
trabalho rende maior quantidade de metal, numa jazida rica, do
que numa mina pobre.

Trabalho simples e trabalho complexo


Assim mesmo, um operário classificado pode produzir
quantidades duas vezes maiores de produtos do que um operário
comum. O primeiro fornece um trabalho complexo, produto do
aprendizado e do estudo; o segundo fornece um trabalho mais
simples.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 255


Como se determina o valor?
O valor de uma mercadoria é determinado, pois, pelo
trabalho simples socialmente necessário para criá-la (ou, mais
exatamente) para reproduzi-la, nas condições reais.

O preço das mercadorias que não podem ser criadas


novamente, por exemplo, o preço de uma escultura de Miguel
Ângelo, não depende diretamente de seu valor, pois a sua
produção não pode ser regularizada pela troca.

O duplo caráter do trabalho expresso nas mercadorias


Marx foi o primeiro a expor criticamente e a esclarecer a
dupla natureza do trabalho contido na mercadoria. Como podemos
deduzir, pelo que vimos atrás, é a aplicação da dialética que
permite investigar cientificamente todas as relações econômicas.

Antes de Marx, outros escritores estudaram essas duas


naturezas do valor, mas não chegaram a resolver o problema.

Ricardo, por exemplo,

"ao considerar o trabalho, estabelece a distinção


quando considera o trabalho uma vez qualitativamente e
outra quantitativamente, mas não compreende que a
distinção quantitativa dos trabalhos supõe a sua unidade ou
igualdade qualitativa, por conseguinte, a sua redução a
trabalho humano abstrato." (Marx).

Esclareçamos:

256 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Ricardo não compreende a equação:

10 quilos de trigo = 4 metros de fazenda;

que revela existir uma unidade qualitativa no fato de que


ambos os artigos são produtos de um trabalho humano abstrato.

★★★

Como a compreensão da dupla natureza do trabalho contido


nas mercadorias é o eixo em torno ao qual gira toda a Economia
Política, tiraremos todas as conclusões teóricas da igualdade para
chegar à forma do valor, que é a expressão de uma mercadoria
comparada a outra mercadoria, até à chamada forma de valor:
dinheiro.

Forma relativa e forma equivalente do valor


Temos a igualdade: 10 quilos de trigo = 4 metros de fazenda.

A primeira mercadoria cumpre uma função ativa, a segunda


só nos interessa como equivalente da primeira.

Marx chama a primeira: forma relativa do valor, e a segunda:


forma equivalente. Ambas são dependentes, condicionam-se
reciprocamente, mas são, por sua vez, extremos que se excluem,
termos antitéticos, polos de uma mesma expressão de valor.

O valor do trigo, forma relativa do valor, não pode exprimir-


se por si mesmo. Dizer: 10 quilos de trigo são iguais a 10 quilos de
trigo não é exprimir uma relação de troca.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 257


O mesmo dizemos da forma equivalente: não pode exprimir-
se por si mesma: 4 metros de fazenda igual a 4 metros de fazenda.

Se invertermos a equação e apresentarmos:

4 metros de fazenda = a 10 quilos de trigo,

teremos modificado o mecanismo da relação e a fazenda, de


valor equivalente que era, se converterá em forma relativa, e vice-
versa. Daí se conclui que a mesma mercadoria não pode, na mesma
expressão de valor, figurar em ambas as formas ao mesmo tempo.
É preciso que sejam valores de uso diferentes.

Forma desenvolvida de valor


Já vimos, pois, que na equação

10 quilos de trigo = a 4 metros de fazenda,

a fazenda exprime a forma equivalente do valor da forma de


valor relativo de 10 quilos de trigo.

Mas essa quantidade de trigo pode ser trocada por muitas


outras mercadorias. Assim, há uma infinidade de equivalentes da
forma de valor relativo de 10 quilos de trigo.

258 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Desse modo, poderemos chegar a esta outra fórmula:

a 4 mts. de fazenda ou...

a 8 litros de gasolina, ou...


10 quilos de trigo =
a 10 quilos de açúcar, ou...

a etc., etc.
Chegamos a esta forma, em que se expressa o valor dos 10
quilos de trigo, à sua forma desenvolvida.

Que tem de particular essa nova forma?

É que ela nos permite observar:

que o valor do trigo se expressa em diversos outras


equivalentes, isto é, em quantidades diversas de valores de uso
diferentes, o que esclarece mais ainda o fato de que todos têm em
comum, não um trabalho concreto, mas um trabalho abstrato. que
nos demonstra que é a quantidade de valor da mercadoria trigo
que regula as proporções de sua troca e não a troca que regula a
quantidade de valor das mercadorias.

Forma geral de valor


A mercadoria 10 quilos de trigo tem uma quantidade
indefinida de equivalentes: 4 metros de fazenda, 8 litros de
gasolina 10 quilos de açúcar, etc.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 259


Seria, entretanto, mais simples, para a troca, que houvesse
apenas um equivalente geral de todas as mercadorias.

Se invertêssemos a equação, teríamos:

4 mts. de fazenda,

8 litros de gasolina,
= 10 quilos de trigo
10 quilos de açúcar,

Etc., etc.
O interessante dessa fórmula é que o trigo se converte numa
mercadoria que tem um valor geral, independente de seu valor de
uso. O possuidor de trigo sabe que pode possuir também, pela
troca, um número infinito de mercadorias em quantidades
variáveis.

A moeda
Praticamente o trigo não nos serve como equivalente geral,
por diversas razões: não se pode guardar indefinidamente, pois se
deteriora; não é cômodo para ser posto em circulação, etc. Outras
mercadorias já foram empregadas como equivalente geral: o gado
(pecúlio provém de pecus, que significa gado); o sal (donde provém
a palavra salário); etc.

Atualmente o ouro e a prata são as mercadorias empregadas


como equivalentes gerais.

260 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Fetichismo da mercadoria
Notemos o seguinte:

No regime capitalista, produzem-se fenômenos econômicos


que ninguém deseja, tais como: as crises, a superprodução, a
desocupação, etc. Isso se deve, como veremos adiante, a que a
produção da mais-valia e a anarquia da produção fazem com que
as leis econômicas dominem os homens e não que os homens
dominem às leis econômicas.

Eis por que o dinheiro domina a sociedade e não a sociedade


o dinheiro.

Os homens simples veem no dinheiro um Deus e um Diabo.


O dinheiro é culpado pela imoralidade, pela corrupção e egoísmo
dos homens. E também acontece o contrário: "O dinheiro tudo
pode" é uma frase comum.

Isto acontece porque o ouro, como mercadoria, que cumpre


a função de equivalente geral, resume em si o trabalho acumulado
da sociedade (daí o seu imenso poder), e, numa sociedade em que
uns dependem economicamente de outros, o dinheiro se converte
num fetiche, dono de toda a sociedade...

Funções do dinheiro
O dinheiro é, pois, um equivalente geral, que serve de base
aos preços e facilita a troca.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 261


Permite a acumulação de tesouros que são o
entesouramento de trabalho social acumulado e, por fim, é um
meio de pagamento.

Numa sociedade, portanto, baseada na produção de


mercadorias, o dinheiro é útil e, na sociedade socialista, cumpre
uma função transitória, enquanto persiste o salário.

Valor e preço

Sabemos que o valor é a expressão do trabalho social contido


nos produtos.

Alguns "economistas", defensores do regime atual,


"refutam" Marx, alegando que as mercadorias nem sempre são
vendidas pelo seu valor. Isso é exato. Mas também é exato que
Marx nunca afirmou tal coisa.

Preço e Valor

O preço é a expressão monetária do valor, de parte do valor


ou de uma quantidade de valor maior que o contido numa
determinada mercadoria.

Variação do preço

Tomemos um exemplo:

Três pessoas, em três livrarias diferentes, compram


exemplares de uma mesma obra. E, pelo mesmo livro pelo qual A
pagou Cr$ 1,00, o senhor B pagou Cr$ 1,20 e o senhor C, Cr$ 1,30.

262 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Depois de algum tempo, a edição esgota-se, e o senhor X, por
acaso, encontra a mesma obra numa livraria.

Pede o preço e afirmam-lhe ser Cr$ 10,00.

O senhor X protesta, alegando que não vale tanto, pois que


A, B e C pagaram pelo livro muito menos. O livreiro, então,
responde: "Compre o senhor então onde o adquiriram A, B e C".

O senhor X, que sabe estar a edição esgotada, adquire por


Cr$ 10,00, mas sabe que o pagou por mais do que o seu valor.

Pode também dar-se o caso contrário: que esse livro caia em


desuso ou que a praça fique abarrotada de exemplares, que em
qualquer livraria de livros usados se possa comprá-lo por alguns
centavos. Nesse caso, o livreiro pediria ao Sr. X, Cr$ 0,60 ou Cr$
0,40, etc.... e o teria vendido abaixo de seu valor.

Equilíbrio de preços

Mas é certo que, pelo menos durante um espaço de tempo,


não serão editados esses livros, pois não convêm vendê-los abaixo
de seu valor. Logo veremos que existe um equilíbrio dos preços e
qual é a base do mesmo.

Causas da variação dos preços

Vejamos, então: o livro é sempre o mesmo e, portanto, tem


sempre o mesmo valor. Tem sempre a mesma quantidade de
trabalho social acumulado.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 263


A que se deve essa variação de preços?

Deve-se, principalmente:

1. À desorganização e à anarquia da produção. O


editor publica os livros sem saber exatamente qual será a procura.

2. À oferta e à procura, que fazem com que o preço


aumente ou diminua, além do limite de seu valor.

3. Às variações do valor do ouro, produzidas pela maior


ou menor quantidade de trabalho socialmente necessário para
extrai-lo, ainda que este não seja, de modo algum, o fator principal.

A base do preço

Mas sempre existe uma base, uma linha em torno da qual o


preço oscila. Essa base é o valor da mercadoria, determinado pelo
trabalho simples socialmente necessário para produzi-la.

É absurda, portanto, a tese que afirma que exclusivamente a


lei da oferta e da procura é que determina o preço, pois, como já
vimos, quando o aumento da oferta faz com que os preços fiquem
abaixo de seu valor, ocasionando grandes perdas para os
fabricantes, as fábricas cessam de produzir essas mercadorias, a
oferta diminui, e o preço volta então a equilibrar-se.

Se a procura, entretanto, eleva os preços acima de seu valor,


os fabricantes intensificam a produção, novas fábricas se abrem

264 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


para fabricar o produto, etc., e a oferta aumenta, voltando então o
preço ao seu equilíbrio.

O valor e o preço é que determinam a oferta e a procura, e


não o contrário.

Salário
A força de trabalho do operário é também uma mercadoria
na sociedade capitalista, à qual se dá um preço no mercado de
trabalho. Esse preço é o salário, que é determinado, como todos os
demais preços, pelo valor (o valor da força de trabalho é igual ao
trabalho simples socialmente necessário acumulado nas
mercadorias consumidas pelo operário para poder recuperar a
força de trabalho é a manutenção de sua família, pela oferta e a
procura.

As mercadorias consumidas pelo operário, afim de que este


possa desenvolver a força de trabalho, são os alimentos, a
habitação, roupas, etc. Além disso, dentro do valor dessa força de
trabalho, se inclui tudo o que é necessário para a reprodução dos
próprios operários: a manutenção da sua família. Mas isso
restringe-se cada vez mais quando se verifica a participação da
mulher e da criança proletária na produção.

A mais-valia: fonte de lucro


Todos nós conhecemos pessoas que enriqueceram
rapidamente.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 265


O Sr. Z tem uma fábrica de roupa feita. Paga às suas
costureiras um salário mais ou menos baixo. Depois de certo
tempo, o senhor Z já tem dinheiro para comprar um novo negócio
e continua sempre ganhando dinheiro. De onde provém o lucro do
Sr. Z?

O Sr. Z, por exemplo, vende 10 vestidos num dia. Cobra Cr$


9,00 por vestido, percebendo um total de Cr$ 90,00. Gastou nesse
dia, em salário, materiais, aluguel, etc., Cr$ 50,00. Donde se
originaram os Cr$ 40,00 de lucro?

Outro exemplo:

O comerciante X tem uma soma de dinheiro igual a D.


Compra com esse dinheiro uma certa quantidade de mercadorias
igual a M; vendendo-as obtém uma quantidade de dinheiro igual a
D + a, isto é, o dinheiro anteriormente empregado e mais um lucro.

De onde se originou o lucro a?

A primeira resposta que nos ocorre é que o aumento se


originou dos preços. Ele compra por um preço e vende mais caro,
tirando daí o seu lucro. Isto é o que nos parece à primeira vista,
mas, se estudarmos mais esse problema, e se nos recordarmos de
que o preço oscila acima ou abaixo do valor da mercadoria, e que
a soma do valor cm circulação não pode aumentar pela circulação
desses valores, verificaremos que não acontece o que
superficialmente nos parece.

266 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Se temos entre nós diversos objetos que trocamos, alguns de
nós poderão sair mais ou menos favorecidos, mas a quantidade de
objetos não aumentará. O que beneficia a um, prejudica a outro.
Se a troca produzisse valores, não seria necessário trabalhar.

Além disso, se na troca, na venda, estivesse a razão do lucro


do comerciante, como o comerciante é comprador (do atacadista)
e vendedor (à freguesia) ao mesmo tempo, uma tiraria do outro o
lucro, lucro este, que seria sempre igual. Por mais que se troquem
mercadorias (e o dinheiro é também uma mercadoria), a
quantidade de valor contida em cada uma e no no conjunto delas
não variará.

★★★

Suponhamos que o Sr. Z obrigasse suas costureiras a


produzirem o dobro do trabalho, de maneira que, em vez de 10,
produzissem 20 vestidos por dia.

O Sr. Z receberia agora não só Cr$ 90,00 (10 vestidos a Cr$


9.00 cada um), mas sim Cr$ 180,00 (20 vestidos a Cr$ 9,00 cada
um). As despesas que eram de Cr$ 50,00 aumentariam para Cr§
80,00, pois gastou mais materiais para a confecção. Desse modo,
restaria de lucro ao Sr. Z o seguinte: Cr$ 180,00 — Cr$ 80,00 — Cr$
100,00. Isto é, o fato de fazer trabalhar mais as operárias fez
aumentar os lucros do Sr. Z.

Suponhamos que o pessoal do Sr. Z se declare em greve. O


Sr. Z já não ganhará os Cr$ 100,00 por dia e protestará contra as

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 267


operárias ingratas que se rebelam apesar dele lhes dar trabalho,
"dar-lhes meios para poder viverem".

De onde provem o lucro?


Já vimos que o lucro não provém da troca. Havia uma
maneira de consegui-lo: arranjar uma mercadoria que, sem
trabalho algum, se reproduzisse por si só.

Procuremos essa mercadoria: serão as sementes?

Não. As sementes não se reproduzem por si sós; é preciso


arar a terra, semear e proteger as sementeiras, regar e colher; são
necessários os peões, os instrumentos de trabalho; seria preciso
pagar o arrendamento da terra, etc., etc.

Seria por acaso o gado? Podemos dizer a este respeito o


mesmo que já dissemos sobre as sementes; é necessário cuidar
dele, alimentá-lo, curá-lo, pagar o arrendamento do campo, onde
ele pasta, etc.

Então, de que mercadoria se trata?

Já vimos que existia uma mercadoria "ingrata", que deu um


desgosto ao Sr. Z: a força de trabalho de seus operários, que o Sr. Z
pagou com salário. E vimos que, quando o pessoal do Sr. Z se
declarou em greve, este senhor não recebeu nem Cr$ 50,00 nem
os Cr$ 100,00 de lucros, diários, da mesma forma que não
contribuiu para que ela subsistisse.

268 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


E é precisamente aí que se encontra a fonte de lucros. O Sr.
Z paga aos seus operários o preço de sua força de trabalho, mas
este salário é determinado pelo seu valor, isto é, o custo das
mercadorias necessárias para que o operário reponha suas forças
gastas no trabalho, recupere as suas energias.

Entretanto, o operário produz com a sua força de trabalho


mais valor do que o que recebe para restaurar a sua força de
trabalho, e esse sobre-valor, mais-valia, é aproveitado pelo
capitalista, beneficiando-se este do fato de ser o proprietário dos
meios de produção, propriedade que é garantida pelas leis e pela
sua coação: a força policial, o Estado burguês.

O Sr. Z tem um parceiro. É o comerciante X, que se encarrega


de trazer a clientela e de colocar os produtos do industrial Z.

Além disso, o comerciante paga os produtos fabricados pelo


industrial Z, antes de havê-los vendidos. Por esse motivo, em vez
de cobrar Cr$ 9,00 por vestido, o Sr. Z cobra apenas Cr$ 8,00,
deixando de ganhar Cr$ 20,00 por dia, que são embolsados pelo Sr.
X. Mas já vimos que os Cr$ 80,00 do industrial Z e os Cr$ 20,00 do
comerciante X, são originados do sobre-valor criado pela classe
operária, a mais-valia.

★★★

O Sr. Z quer abrir uma nova fábrica. Pede Cr$ 10.000,00 a um


Banco e este empresta-lhes com 5 % de juros, sobrando, no fim do
ano, Cr$ 10.500,00.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 269


O Banco emprestou essa soma de um Sr. R, a quem deu,
pagando um juro de 5%, a quantidade de Cr$ 10.400,00, no fim do
ano. Assim, o Banco ganhou Cr$ 100,00, o Sr. R ganhou Cr$ 400,00
e tudo foi pago com os Cr$ 500,00 do Sr. Z, cruzeiros esses que são
uma parte do produto da mais-valia obtida de seus operários.

Alguém, entretanto, poderia pensar: "Não, a mais-valia é


obtida pelo senhor Z de seus clientes, que lhe pagam os vestidos".
Mas tal não se dá porque os clientes pagam um vestido que
representa trabalho materializado.

O industrial ou o comerciante podem cobrar mais pelos


vestidos, isto é, preço muito acima de seu valor, mas, neste caso, o
industrial obtém a mais-valia dos operários e ainda um lucro
suplementar, resultante da mistificação que sofreu o consumidor.

Lembremo-nos que o lucro do capitalismo não é


consequente das trocas, porque

"a soma dos valores em circulação não poderia


evidentemente ser modificada por sua repartição, assim
como um judeu não aumentaria à massa de metais preciosos
de um país, vendendo por um guinéo um moeda de cobre do
tempo da rainha Ana. O conjunto da classe capitalista de um
país não pode enganar-se a si mesma". (Carlos Marx, O
Capital, t. l.°, pág. 185).

★★★

270 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O industrial Z não fica com toda a mais-valia obtida de seus
operários. Como não vende a mercadoria diretamente, uma parte
dessa mais-valia (que é o trabalho suplementar não- pago ao
trabalhador) é aproveitada pelo comerciante, uma outra parte pelo
dono do local onde o industrial tem a fábrica e que recebe uma
renda, uma terceira parcela pelo Banco que empresta dinheiro ao
Sr. Z, que paga a sua dívida aumentada com os juros, etc.

Com isso já se pode ter uma ideia de como a mais-valia se


reparte entre toda a classe capitalista.

No próximo capítulo, veremos mais detalhadamente a


distribuição da mais-valia, afim de podermos estudar as suas leis.

Recapitulação do Capítulo Anterior

A teoria do valor tem uma importância primordial, porque


dela dependem as demais análises econômicas.

Os economistas defensores do capitalismo dão como


fundamento do valor muitos outros elementos, excluindo o
fundamental: o trabalho materializado na mercadoria.

II

Na mercadoria, distingue-se o valor de uso (sua utilidade) e o


valor de troca (que é o trabalho materializado numa mercadoria e
que nos permite trocá-la por outra).

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 271


O ar possui um valor de uso, mas não um valor de troca. Um
objeto, entretanto, não pode ter um valor de troca sem ter um
valor de uso.

Muitas vezes observamos um objeto que "sem ter nenhum


valor" (por exemplo, uma bota velha de Napoleão) obtém,
entretanto, um preço elevadíssimo. A vaidade ou o interesse
particular de um estudioso para possuir um objeto que tenha
pertencido a uma personagem histórica pode produzir esse
fenômeno. Neste caso, o objeto possui um valor de uso indireto e
um preço que está muito acima de seu valor de troca.

A água tem uma utilidade muito maior que a do vinho. Seu


valor de uso é muito maior que o valor de uso do vinho: por que.
entretanto, o vinho tem maior valor de troca que a água?

III

A teoria da utilidade afirma que o valor das mercadorias


depende da utilidade. O pão é mais útil que o ouro: então, vale mais
um quilo de ouro do que um quilo de pão?

IV

Já vimos que a moeda dinheiro é uma mercadoria que age


como equivalente geral. O preço é o valor de troca de uma
mercadoria expresso em dinheiro. Mas o preço nem sempre é igual
ao seu valor, oscilando acima e abaixo do mesmo, o que
exprimimos dizendo que "compramos uma mercadoria barata" ou
"pagamos muito caro".

272 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O ar, sendo tão útil, não tem um preço: por que motivo?

O salário é o preço da força de trabalho do operário: de que


depende, pois, o valor da força de trabalho?

VI

A força de trabalho do operário tem um valor que o


capitalista paga bem ou mal, por meio do salário, mas essa força de
trabalho produz um valor sempre maior do que lhe paga o patrão.

A diferença entre o que o capitalista paga ao operário e o que


este produz chama-se mais-valia, É o trabalho suplementar do
operário não pago pelo patrão.

Perguntas de Controle
Que é valor? Valor de uso? Valor de troca? Quais são as
consequências da oferta e da procura? Que é mercadoria? Que é
trabalho? Gastos de trabalho? Que é trabalho concreto? Trabalho
abstrato? Que é trabalho simples? Trabalho socialmente
necessário? Que é forma relativa de valor? Que é forma
equivalente de valor? Que é forma de valor desenvolvida? Que é
forma geral de valor? Que é moeda? Que é dinheiro? Que é preço?
Que é trabalho simples socialmente necessário? Que é salário? Que
é a mais-valia? Que é lucro? Que é sobre-valor? Como se distribui
a mais-valia pela classe capitalista?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 273


Notas de rodapé:

(4) Sempre que estiver escrito apenas valor, refere-se ao


valor de troca. (.)

274 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


SEGUNDA PARTE - A DISTRIBUIÇÃO DA MAIS-
VALIA

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 275


Capítulo V - O Lucro
Já vimos em alguns exemplos anteriores como a mais-valia,
produzida pela classe operária, pelos técnicos, etc., não permanece
integralmente nas mãos do industrial, mas é distribuída por toda a
classe capitalista e outras camadas da população.

Analisaremos agora como se distribui a mais-valia sob a


forma de lucro, lucro comercial e juros, para chegar logo depois ao
estudo da renda territorial.

O Lucro
Suponhamos, por hipótese, um país sem relações
econômicas internacionais e no qual a soma total dos preços de
todas as mercadorias seja igual à soma total do valor das mesmas.

Já sabemos que o preço e o valor são iguais quando a oferta


e a procura estão equilibradas e, quando não estão, o que um
capitalista ganha vendendo a mercadoria acima de seu valor o
outro perde.

De onde, se origina o lucro?


Perguntemos a um capitalista e ele nos responderá:

— "Tenho um capital fixo (composto de máquinas,


terrenos, edifícios, etc.), cujo valor é de Cr$ 7.000,00 e um
capital circulante (composto de matérias primas, dinheiro
para compra de materiais, dinheiro para salários, etc.), de Cr$
3.000,00. No total tenho Cr$ 10.000,00.

276 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


No fim do ano, tendo vendido já toda a mercadoria
produzida e descontado todas as despesas, observo que me
restam Cr$ 12.000,00. Ganhei, portanto, Cr$ 2.000,00, isto é,
20% sobre o meu capital. A quota de lucro foi de 20%".

Por este raciocínio, teríamos a impressão de que o capitalista


obteve um lucro de 20% por ter feito trabalhar o seu capital e não
faltarão economistas que assim o afirmem, justificando os lucros
do capitalista pelos riscos que corre seu capital, porque produzem
"riquezas para o país", "dão trabalho aos operários" e não falta
quem agradeça aos capitalistas: se não fossem eles, o que seria dos
operários!

Na realidade, o capitalista não falou claro.

Em lugar de ter dividido o seu capital fixo e circulante, devia


tê-lo feito de um modo menos artificial: de um lado, os
instrumentos e meios de produção, as máquinas e matérias primas
dos quais não pode tirar diretamente a mais-valia, ainda que sejam
produtos do trabalho, — e a essa parte deveria chamar capital
constante. A outra parte do capital, gasta nos solários, com a qual
ele paga essa mercadoria que se chama "força de trabalho do
operário’, deveria chamar de capital variável. Depois, deveria
calcular o seu lucro de acordo com o capital variável que o fornece.
Mas o capitalista não faz isso porque precisa disfarçar o fato de que
o lucro provém do trabalho do proletário. Não disfarçando, a
exploração a que submete o proletário seria evidente até para os
burgueses pequenos e médios. E o capitalista não o confessa pois
os seus interesses são, neste caso, como em muitos outros,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 277


contrários à verdade. Somente por isso ele mistura salários,
matérias primas, etc., sob a sua rubrica de capital fixo.

De que depende a quota de lucro?


Vejamos primeiramente algumas noções básicas.

Sabemos que a quota de lucro é a percentagem desse lucro


em relação a todo o capital de um determinado capitalista. Em
nosso exemplo era de 20%.

A quota de mais-valia é a percentagem de lucro tomada em


relação apenas ao capital variável (dinheiro pago em salários), o
qual, na realidade, é o que produz a mais-valia.

Por exemplo: se tivéssemos gasto Cr$ 2.000,00 em salários e


o lucro fosse de Cr$ 1.000,00, a quota de mais-valia seria de 50%.
Como vemos, a quota de mais-valia é sempre maior que a quota de
lucro, porque é calculada somente na base de uma parte do capital:
o capital gasto em salários, chamado de capital variável.

Perguntamos atrás de que depende a quota de lucro. Em


primeiro lugar, depende da quota de mais-valia:

1ª conclusão: A quota de lucro cresce na medida em que


cresce a quota de mais-valia.

Quanto menos se pague ao operário, quanto mais


intensamente se o faca produzir, pagando o menos possível, maior
será o lucro do capitalista.

278 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


★★★

Se o capitalista vender toda sua produção, cada seis meses,


ganhando 20%. todas as vezes, no fim do ano a sua quota de lucro
será de 40%.

Dessa forma podemos tirar a

2ª conclusão: A quota de lucro depende da rapidez com que


circule o capital. Chamamos a este processo movimento
circulatório ou rotação do capital.

★★★

Pois bem. Sabemos que o capital é composto de: capital


constante + capital variável.

Chamaremos ao capital, cuja importância maior pertence ao


capital constante (máquinas, edifícios, etc.), de "capital de alta
composição orgânica".

E, quando a importância maior do total do capital é usado


como capital variável (exclusivamente pagamento dos salários),
chama-se ao capital total "capital de baixa composição orgânica".

3.ª conclusão: Como a quota, de lucro depende da quota de


mais-valia, quanto maior for a parte destinada aos pagamentos de
salário em relação ao capital constante, maior será a quota de lucro
e, vice-versa: quanto mais elevada a composição orgânica do
capital (maior importância para o capital constante), menor será a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 279


quota de lucro. Não confundir quota de lucro com a importância
total de lucro de uma empresa.

Por outras palavras, se o capitalista A, que possui Cr$


10.000,00, dos quais paga em salários Cr$ 2.000.00, sendo a quota
de mais-valia de 50%, ganhará Cr$ 1.000.00. Sua quota de lucro
será de 10%.

Mas o capitalista A, que não mantém seu negócio por amor à


humanidade, mas por amor ao lucro, não se conformará em
ganhar, com um mesmo capital, menos lucro que o capitalista B e
procurará trabalhar na indústria deste último, sem dúvida com
maiores possibilidades de lucros.

Ao mesmo tempo, outros capitalistas construirão fábricas na


mesma indústria do capitalista B.

Mas, que acontecerá no mercado? Haverá um excesso dos


artigos produzidos pela indústria do capitalista B e, baixará o preço
e, por conseguinte, a quota de lucro.

Ao mesmo tempo, a indústria abandonada pelo capitalista A


terá diminuída sua produção, a oferta se restringirá e os preços
subirão, aumentando a quota de lucro. Desse modo, as quotas de
lucro se nivelam. Chegamos, assim, à noção da quota média de
lucro.

A quota média de lucro é a percentagem entre toda a mais-


valia produzida e a soma de todos os capitais.

280 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Um exemplo:

Num país, a soma de todos os capitais é igual a Cr$ 1.000.003


00. O total da mais-valia produzida é igual a Cr$ 100.000 00. A
quota média de lucro será de 10%.

O capitalista que ganhe mais de 10 encontrará — logo que os


preços de seus produtos aumentem no mercado — outros
competidores, que o farão rebaixar os preços até que a sua quota
de lucro seja de 10%.

Se a oferta em demasia produz uma quota menor do que 10


alguns capitais se retirarão, invertendo-se noutras indústrias mais
produtivas e a quota voltará a subir até os 10%.

Notemos, pois, que existe uma quota média de lucro que,


somada aos gastos de produção (preço de custo), resulta no preço
de produção.

Vimos que essa quota média de lucro se regulava pela oferta


e a procura no mercado, e a passagem de capitais de uma para
outra indústria. Mas. se a indústria está monopolizada. Nesse caso,
poderão colocar-se os capitais, por maior que seja a quota de lucro.
Nesse caso, os monopolistas obterão uma quota de lucro
extraordinária.

★★★

Nos exemplos anteriores, supusemos uma quota igual de


mais-valia, isto é, de exploração.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 281


Na realidade, isso não sucede assim. As quotas de exploração
diferem. Mas, por um processo parecido ao que usamos para
chegar à quota de lucro, chegamos também à quota média de mais-
valia (por exemplo, se existem poucos mecânicos, estes
conseguem bons salários. Por essa razão, os operários das outras
indústrias estudam mecânica, ou os seus filhos se tornam
aprendizes desse ofício, aumentando assim o número de
mecânicos, fazendo baixar o salário, etc. Tudo isso desde que se
suponha uma "economia livre"). Assim, também, se estabelece a
quota de exploração.

A lei da tendência decrescente da quota de lucro


Ao aumentar a técnica, novas máquinas, etc., aumenta
também a composição orgânica do capital e, portanto, diminui a
quota de lucro(5). Mas isso pode ser evitado, uma vez que sabemos
que o capitalista pode explorar mais ainda os seus operários à custa
do aumento da quota de mais-valia.

Além disso, o fato de diminuir a quota de lucro, não significa


que diminua o total, o montante geral do lucro. Se um capitalista
com Cr$ 10.000,00 e uma quota de lucro de 20% ganha Cr$
2.000,00, e a concorrência e o aparecimento de novas máquinas o
obriguem a aumentar a composição orgânica de seu capital,
chegando a ter Cr$ 20.000,00, a quota de lucro baixará para 15%,
mas ganhará como lucro total Cr$ 3.000,00. Isto é; ganhará mais do
que anteriormente, apesar de ter baixado a quota de lucro.

282 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


A importância dessa lei
A importância dessa lei é, entretanto, enorme, porque é uma
lei que preside o desenvolvimento da produção capitalista, que
torna mais aguda a contradição entre as classes. Essa lei faz com
que se arruíne a classe media, pois é preciso cada dia um capital
maior para a exploração de unia determinada indústria, e só os
capitalistas disporão de tais capitais. A tendência do
desenvolvimento do capitalismo é reduzir as pequena e média
burguesias à situação de proletárias pauperizando-as. Esta a razão
porque a pequena e média burguesias devem unir-se ao
proletariado contra o seu inimigo comum, explorador: o
capitalismo.

Recapitulação do Capítulo Anterior

Marx divide o capital em capital constante (maquinas,


matérias primas, etc.) e capital variável (o que se utiliza
exclusivamente para pagamento dos salários).

A economia burguesa divide-o em capital fixo (máquinas e


outros complementos) e capital circulante (matérias primas e
salários). Por que existe essa diferença na divisão do capital?

II

A quota de lucro é a percentagem do lucro em relação ao


conjunto do capital.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 283


Quando um industrial quer ganhar mais dinheiro procura
intensificar a produção de seus operários, faz o possível para
vender rapidamente as suas mercadorias e volta a efetuar uma
nova produção, etc. De que depende a quota de lucro?

III

Se um industrial adquire novas e mais eficientes máquinas,


ganhará muito dinheiro porque, pagando aos seus operários o
mesmo que os demais capitalistas de seu ramo de indústria, estes
operários, com o auxílio das novas máquinas, produzem mais
mercadorias, de modo que o valor unitário vai diminuindo, mas
cujo preço no mercado continua sendo mais ou menos o mesmo
até que os outros capitalistas adotem as mesmas máquinas.

Mas, quando os demais capitalistas adquirem as mesmas


máquinas, a produção aumenta. Com menos trabalho produz-se a
mesma mercadoria e os preços baixam. Mas, nesse meio tempo,
aumentou a composição orgânica do capital nessa indústria, isto é,
maior se tornou a proporção do capital invertido em máquinas em
relação ao capital que é invertido em salários. Quais as
consequências que advêm daí para os pequenos produtores?

Perguntas de Controle
1. Como se distribui a mais-valia pela classe
capitalista?

2. Que é quota de lucro?

3. Que é quota de mais-valia?

284 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


4. Como cresce a quota de lucro do capitalista?

5. A quota de lucro depende da rapidez com que


circule o capital?

6. Que é capital de alta composição orgânica?

7. Que é capital de baixa composição orgânica?

8. Qual o capital que oferece maior quota de lucro?

9. Que é quota média de lucro?

10. Que é preço de produção?

11. Que é a lei da tendência decrescente da quota de


lucro?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 285


Notas de rodapé:

(5) Isso não acontece aos primeiros capitalistas que


melhoram suas máquinas, porque, como o preço do mercado
depende ainda de uma forma de produção inferior, que requer
maior quantidade de trabalho para produzir o artigo. A máquina
aumenta automaticamente a quota de mais-valia dos operários
que trabalham para o capitalista que iniciou o avanço técnico. (.)

286 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo VI - Duas Palavras Sobre o Lucro Comercial
O capital comercial é o que faz circular as mercadorias.

Sabemos que o trabalho gasto em fazer circular as


mercadorias não cria valor (nem, portanto, mais-valia).

O lucro comercial não é, pois, mais do que a parte de mais-


valia cedida pelo capitalista industrial ao capitalista comerciante,
para que este coloque a mercadoria e por ter o comerciante
adiantado ao industrial o dinheiro da venda: paga a mercadoria
antes de vendê-la ao consumidor.

É explorado o empregado de comércio?

No sentido estrito da palavra não o é, porque não produz com


o seu trabalho novos valores, mercadorias.

Um empregado de comércio, entretanto, que vende Cr$


50,00 por dia — por exemplo — e recebe apenas Cr$ 2,00 diários
sempre produz lucros para o comerciante, porque da soma de
mais-valia arrancada do operário, cedida pelo industrial ao
comerciante, este tira uma parte ridícula para retribuir o trabalho
dos seus empregados para realizarem (venderem) a mercadoria.

(Se assim não fosse, não seria empregado, pois não é mistério
para ninguém que tampouco os comerciantes trabalham por amor
à humanidade ).

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 287


Vê-se claramente que o comerciante se beneficia do trabalho
do empregado, dele tirando um proveito, explorando-o mais ou
menos intensamente.

★★★

Antes de passar a dar algumas noções sobre a teoria dos


juros, devemos esclarecer que, para o marxismo, tanto o industrial,
como o comerciante ou o banqueiro, realizam algum trabalho,
embora excessivamente remunerado, à custa do qual deixam de
pagar ao trabalhador assalariado.

O industrial pode ser um organizador eficiente, pode ser um


técnico. Nesse caso o industrial desempenharia duas funções: a de
técnico, inventor, etc., e a de usufrutuário do trabalho alheio. De
qualquer maneira recebe sempre a mais-valia.

O pequeno comerciante é, de fato, um empregado do grande


comerciante atacadista, é por ele espoliado, assim como o é
algumas vezes pelo Estado, quando este está a serviço dos grandes
capitalistas e dos possuidores de terra.

O banqueiro é o diretor da parte mais parasitária das classes


dominantes. Seus lucros provêm da "exploração" do industrial, do
comerciante, do camponês, do depositante particular, e de seus
próprios empregados.

Este é o ponto central da direção da distribuição da mais-valia


total criada pela classe operária da cidade e do campo, pelos
técnicos, etc..

288 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Recapitulação do Capítulo Anterior

Se não existissem comerciantes e se o industrial vendesse


diretamente os produtos de sua fábrica, ganharia ele mais dinheiro.

Mas o industrial ver-se-ia obrigado a deter a marcha da


fábrica até que tivesse vendido os produtos para resgatar o
dinheiro empregado em salários, matérias primas, etc. ou, então,
deveria dispor de novas somas de dinheiro.

Afim de evitar isso, o industrial vende os seus produtos ao


comerciante por um preço menor do que o preço da mercadoria
alcançado no mercado, ou de seu valor, deixando assim que o
comerciante se aproveite de uma parte da mais-valia produzida
pela classe operária.

O industrial também utiliza parte de seus lucros, produzidos


pelo trabalho não pago dos operários, com a finalidade de
corromper políticos, para que defendam os seus interesses, para
pagar diretamente (ou indiretamente por intermédio dos governos
reacionários) o serviço de certos "intelectuais", etc.

Os empregados de comércio fornecem ao comerciante um


lucro: Em que sentido se pode dizer que o empregado de comércio
é explorado?

II

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 289


O pequeno comerciante depende do atacadista ou do grande
comerciante: Poder-se-ia considerar o pequeno comerciante como
um empregado a soldo do atacadista?

III

O Estado burguês fascista arranca os impostos do pequeno e


do médio comerciante e de todo o povo para pagar os imensos
gastos que requerem a compra de armamentos, o exército, as
aventuras guerreiras, etc.

Mas a guerra só favorece aos fabricantes de armamentos e


aos grandes banqueiros e exportadores de mercadorias: Pode-se
dizer que o Estado fascista explora, além da classe operária e
camponesa, a do pequeno comerciante?

Perguntas de Controle
1. Que é capital comercial?

2. Que é lucro comercial?

3. Um empregado do comércio cria valores?

4. É o empregado do comércio explorado?

5. Que é juro?

6. Que é um pequeno comerciante?

7. Que é um banqueiro?

290 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo VII - Os Juros
Os Bancos emprestam dinheiro e recebem juros. Esta simples
afirmação fornece-nos motivo para colocar diversos problemas:

1. De onde provém o capital dos Bancos e que


necessidade econômica satisfaz o crédito?

2. De onde provém o dinheiro com que são pagos os


juros? Como se determina a quota de juros?

De onde provém o capital dos Bancos?


Um conjunto de grandes capitalistas reúne um capital de Cr$
1.000.000,00 para fundar um Banco.

O Banco empresta dinheiro e recebe um juro: digamos, de


5%. (Os grandes bancos emprestam mais ou menos a 12% ao ano,
mas os pequenos, a 24%, 36% e mais. São verdadeiros salteadores,
embora muito considerados pela sociedade atual...)

O industrial ou o comerciante que pleiteia um empréstimo o


faz, geralmente, para dele tirar um lucro qualquer, que, no nosso
caso, deve ser maior do que 5%, afim de que possa pagar os juros
e ficar com o resto.

À primeira vista, tem-se a impressão de que os banqueiros


realizaram um mau negócio, pois, se tivessem colocado o seu

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 291


capital na indústria ou no comércio teriam obtido um lucro maior
do que 5%.

Mas, na realidade, isso não acontece, porque os banqueiros


não trabalharam apenas com o seu capital, mas empregaram
também dinheiro alheio.

No nosso caso, temos a quantidade de Cr$ 1.000.000,00 de


capital próprio. Suponhamos que o Banco tenha Cr$ 3.000.000,00
de dinheiro em depósitos. O Banco paga, por exemplo, 3% de juros
anuais aos depositantes.

Se os Cr$ 4.000.000,00 de capital total forem emprestados a


5%, veremos que o lucro dos banqueiros será:

Entradas:

Pagos 5% de Cr$ 4.000.000,00 pelos devedores Cr$


200.000,00

Saídas:

Pagos 3% de Cr$ 3.000.000,00 aos depositantes Cr$


90.000,00

Lucro Cr$ 110.000,00

Isto quer dizer que com Cr$ 1.000.000,00 os banqueiros


obtiveram Cr$ 110.000,00 de lucros ou seja, 11%(6).

292 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Mas todo esse processo e a própria existência dos Bancos
estaria comprometida se não existissem estes dois fatores:

1. Um capital disponível para ser depositado.

2. A necessidade econômica do crédito.

O capital disponível para ser depositado, que, em nosso


exemplo, atingia a Cr$ 3.000.000,00, provem:

a. Das economias da população, ou dos depósitos dos


que não querem inverter o seu dinheiro, por conta própria.

b. Dos depósitos de movimento dos industriais.

No cômputo do dinheiro recebido pelas mercadorias


vendidas num ano, o industrial recebe o pagamento do desgaste
das máquinas.

Se estas valem Cr$ 100.000,00 e se podem durar 10 anos, o


capitalista reembolsará Cr$ 10.000,00 nesta categoria, ao fim desse
prazo.

Esse dinheiro não é utilizado imediatamente em novas


máquinas, porque as que possui ainda estão em condições de
trabalho, de onde depositá-lo em bancos. Poderia inverter parte
desse dinheiro para ampliar a produção, empregando as mesmas
máquinas, mas é muito limitado.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 293


Também do chamado capital utilizado para aquisição de
matérias primas e para pagamento de salários sempre há um certo
dinheiro disponível.

O industrial têxtil, por exemplo, produz fazendas de inverno


e mesmo antes de vendê-las tem que começar a fabricar as
fazendas de verão.

Para poder adquirir as matérias primas, pagar salários, etc.,


precisa de uma soma de dinheiro suplementar.

Se consegue, entretanto, vender rapidamente as


mercadorias de inverno, fica ainda com um capital suplementar,
que é agregado à amortização do que ele chama de "capital
circulante", formando uma soma de valores inativos disponíveis.

A tudo isso pode-se somar, como capital disponível, uma


parte da mais-valia obtida pelo industrial, que não é consumida
nçm colocada na produção.

Este capital inativo é colocado nos Bancos onde consegue


cbter juros.

A necessidade econômica do crédito

O segundo fator essencial para a existência dos Bancos é a


necessidade econômica do crédito.

O dinheiro é imprescindível no processo de produção e da


circulação capitalista:

294 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


a) Para o industrial, o ciclo do capital percorre as seguintes
fases:

O industrial que possui um dinheiro (D), com ele adquire


mercadorias (M), estas mercadorias dividem-se em meios de
produção (mP) e forças de trabalho (fT).

Ou melhor:

Logo se detém o processo de circulação do capital e começa


a produção, convertendo as mercadorias (M) em capital produtivo
(Cp), de onde surgem mercadorias diferentes com um valor maior
(M').

As mercadorias voltam ao mercado e por elas se obtém uma


quantidade de dinheiro (D') maior que a quantidade primitiva (D).
(Suponhamos que os meios de produção se desgastem totalmente
no final do ciclo).

O ciclo seria então:

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 295


(As reticências indicam que, nesse momento, se interrompe
o processo de circulação).

A fórmula, portanto, é: Dinheiro inicial, que se utiliza nas


mercadorias (meios de produção em geral e salários); a circulação
se interrompe e, na produção, essas mercadorias se convertem em
capital produtivo, o qual produz novas mercadorias e de maior
valor, que são vendidas por uma quantidade maior que a inicial.

b) Para o comerciante, o ciclo do capital é mais simples:


comprar para vender.

D — M — D’

ou seja: o dinheiro inicial é utilizado para comprar


mercadorias que são vendidas por uma quantidade maior do que a
utilizada inicialmente.

O capitalista banqueiro faz, com o seu negócio, o seguinte


ciclo:

D — D’

Empresta uma quantidade de dinheiro e recebe uma


quantidade maior.

296 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Como vimos, em todos os casos, o dinheiro é um ponto
essencial. Quando falta dinheiro, mesmo que se possua
mercadorias, é preciso solicitá-lo a crédito.

O capital usurário como existia antigamente e como existe hoje

O dinheiro já existia mesmo antes do advento do regime


capitalista.

Já era, então, possível acumulá-lo. A usura, os juros obtidos


por um capital, provinha da exploração do pequeno produtor de
mercadorias, do artesão e do camponês.

O usurário deles tirava o sobrevalor de seu trabalho (o que


lhe sobrava depois de cobrir as necessidades vitais) e até alguma
parte do produto necessário para a sua subsistência.

O usurário emprestava também ao senhor feudal, que


pagava suas dívidas por meio da intensificação da exploração dos
servos.

Este capital usurário ainda existe, mas hoje já não representa


a principal função do capital-dinheiro.

O capital usurário de antigamente converteu-se num fator de


ampliação da produção capitalista. Ontem, ele foi útil; hoje, é
apenas repugnante...

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 297


Nos dias atuais, os Bancos intervém na indústria, compram
ações de sociedades anônimas, controlam empresas comerciais,
etc.

Enquanto o antigo capital ficava com todo o sobre valor do


trabalho suplementar, o atual fica com uma parte da mais-valia; as
outras partes ficam em poder do industrial, do comerciante, etc.

II

De onde provém o dinheiro com que se pagam os juros dos


Bancos?
O dinheiro, com o qual pagam juros aos Bancos os que dele
se utilizam, provém direta ou indiretamente da mais-valia obtida
pelo capital emprestado e por este produzida na produção.

O capitalista industrial que paga, por exemplo, os 5% de


juros, os obteve à custa da exploração do trabalho dos operários
de sua fábrica.

O banqueiro paga 3% de juros aos depositantes dos 5 obtidos


do industrial.

Como se determina a quota de juros?

A quota de lucro do capital-dinheiro, chama-se quota de


juros.

Seu limite superior é determinado pela quota média de


lucros. Em alguns casos extraordinários, pode ultrapassar esse

298 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


limite. Suponhamos que o industrial se decida a pagar juros muito
elevados, ante o perigo que corre a sua fábrica de paralizar por falta
de dinheiro ou diante da possibilidade de que, com esse dinheiro,
obtenha um lucro muito mais elevado do que os próprios juros.
Mas, em geral, o juro é sempre inferior à quota média de lucros,
isto para o capital próprio do Banco, sem incluir os depósitos. Se
assim não fosse, muitos capitais colocados na indústria, dela se
afastariam para serem empregados em Bancos e,
consequentemente, a quota de juros baixaria, pela maior oferta de
empréstimos.

O limite inferior seria igual a zero, caso em que o dinheiro


seria emprestado sem juro algum.

Sua oscilação entre esses limites depende essencialmente da


oferta e da procura.

Assim como a quota média de lucro tende sempre a


decrescer com o desenvolvimento do capitalismo, também a quota
de juros tende a decrescer. A quota de lucros é maior nos países
atrasados do que nos mais desenvolvidos. Do mesmo modo, a
quota de juros é maior nos países em que o capitalismo é menos
desenvolvido do que nos países onde domina uma elevada
composição orgânica do capital.

A quota média de juros é mais facilmente determinada que a


quota média de lucros. A segunda existe como tendência geral,
porque é determinada, na indústria, pela transfusão de capital de
um para outro ramo da produção e pela concorrência. No mercado

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 299


do dinheiro não há ramos diferentes (a mercadoria é uma só: o
dinheiro) e diversas instituições financeiras podem determinar,
com bastante precisão, as relações entre a oferta e a procura do
dinheiro.

Tudo isso contribui para estabelecer uma quota média de


juros, mais ou menos determinada, durante um espaço de tempo,
mais ou menos curto, num mesmo país.

Recapitulação do Capítulo Anterior

Já vimos que no regime capitalista o dinheiro é essencial,


tanto na indústria como no comércio, ou nos Bancos.

Adiante veremos como o papel dos Bancos se torna cada vez


mais preponderante.

Antigamente, o papel dos banqueiros era diferente do atual,


pois não eram um fator de incremento da indústria, mas
exploravam diretamente aos que lhe solicitavam seus serviços:
Desapareceu completamente o capital usurário?

II

Existem muitas teorias que explicam e justificam a origem


dos juros. Quase todas elas são apologéticas, isto é, defensoras do
regime capitalista.

300 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Uma pessoa deposita num Banco Cr$ 1.000,00. Ao retirá-lo,
depois de um ano, recebe Cr$ 1.050,00. De onde proveio esse
aumento?

III

Um banqueiro, apenas excepcionalmente, poderá remunerar


o seu próprio capital com um juro igual à quota média de lucros.
Nesse caso, poucos seriam os industriais que dele emprestariam
dinheiro, pois que nada poderiam obter desse dinheiro, se o
colocassem na produção.

Perguntas de Controle
1. De onde provem o capital dos bancos?

2. Há necessidade econômica do crédito? Por que?

3. Os bancos poderiam existir sem os depósitos


particulares e a necessidade econômica do crédito?

4. Como se realiza o ciclo do capital para o industrial?


para o comerciante? para o banqueiro?

5. Que é capital usurário? Como se realizava?

6. Como se determina a quota de juros?

7. Que é quota média de juros?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 301


Notas de rodapé:

(6) Este exemplo, como todos os outros, foi tomado em sua


maior simplicidade. O nosso objetivo não é dar uma ideia do
funcionamento dos Bancos, mas da distribuição da mais-valia. E
queremos fazê-lo com a maior clareza possível, para que possa
chegar à compreensão de todos. (.)

302 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo VIII - A Renda Territorial
Não é apenas na indústria que existe capital constante e
variável, onde se produz a mais-valia, etc.

Temos outra fonte de mais-valia: o trabalho efetuado na


pecuária e na agricultura.

Em que se diferencia o criador G, que coloca Cr$ 10.000,00


cm gado, salário dos peões, aluguel dos campos, etc. do Sr. I, que
os coloca na indústria?

A diferença está em que:

1. O criador-capitalista tem uma despesa apreciável


para a mantença do seu negócio: o pagamento do aluguel das
pastagens ao proprietário de terras. O industrial deve pagar
também um aluguel, mas a importância dessa despesa, no
conjunto do negócio, é muitíssimo menor.

2. A quantidade de terra é limitada, enquanto que,


pelo menos teoricamente, é ilimitada a quantidade de fábricas que
se podem montar. Existe, pois, um monopólio da propriedade da
terra, algo que se assemelha ao que aconteceria se um governo
qualquer viesse a limitar o numero de fábricas de um determinado
produto. (Isto acontece nos países como o Brasil que, a pretexto de
defender um parque industrial, não permitem que se montem
novas fábricas do mesmo gênero). Estariam essas fábricas numa
situação privilegiada no que se refere à quota de lucro conforme já
vimos ao estudar a quota média de lucro.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 303


★★★

A terra é, por si mesma, como o próprio ar, um elemento


natural, que não teria nenhum valor de troca se não estivesse
monopolizada.

★★★

Um capitalista deseja organizar o cultivo de um terreno que


não é seu.

O proprietário de terras alugará o seu terreno, cobrando-lhe


uma soma determinada.

Essa soma de dinheiro é cobrada por duas razões:

1. O pagamento das benfeitorias que o proprietário


possa ter efetuado, o que constitui um capital colocado no terreno.

2. O direito de usufruir essa terra. Chama-se a essa


segunda parte, renda territorial.

★★★

Analisaremos, agora, o caso do capitalista A, em sua empresa


agrícola-capitalista.

No momento, nos ocuparemos do caso em que a terra é


cultivada pessoalmente por aquele que a aluga, ou explorada pelo
próprio proprietário.

304 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O capitalista aluga um terreno e instala uma empresa
agricola-capitalista:

Será que lhe convém pagar a renda desse terreno ao


proprietário da terra?

Sim, sempre que a sua empresa agrícola lhe forneça um lucro


tal, que, depois de paga a renda, ainda lhe reste, pelo menos, a
quota média de lucro.

Se assim não fosse, o capitalista retiraria o seu capital da


agricultura e o colocaria noutro ramo da produção.

O capitalista-agrário ganha, portanto, a quota média de lucro


e mais a renda que entrega ao dono da terra.

De onde provém essa renda, essa quota de lucro suplementar


que é entregm ao dono da terra?

A renda diferencial
Sabemos que na indústria muitas vezes acontece que um
capitalista ganha uma quota de lucro suplementar superior à quota
média de lucro.

Isso sucede quando a técnica de sua empresa, sendo superior


à técnica média, faz com que o gasto da produção seja inferior ao
gasto médio.

A renda territorial não terá a mesma origem?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 305


Veremos que não. Não é a diferença da técnica humana que
provoca esse fenômeno, mas a diferença da fertilidade da terra,
produzida por fatores naturais, e por outros fatos que
estudaremos.

O trabalho aplicado a uma terra fértil não produz o mesmo


resultado que ó aplicado em uma terra menos fértil.

Consideremos três terrenos de fertilidade diferente.


Suponhamos que com um gasto igual de Cr$ 100,00

o primeiro terreno produza 110 quilos de trigo,

o segundo terreno produza 100 quilos de trigo,

o terceiro terreno produza 90 quilos de trigo.

Suponhamos que, a quota média de lucro seja de 20%. Qual


será, em cada terreno, o preço individual de um quilo de trigo?

306 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Terreno Produção Gasto da Quota Preço Preço de
de trigo produção média total em um kg em
lucro cada cada
terreno terreno

Cr$ Cr$ Cr$ Cr$

1.° 110 kg. 100,00 20,00 120,00 120 ÷110


= 1,09

2.° 100 kg. 100,00 20,00 120,00 120 ÷100


= 1,20

3.° 90 kg. 100,00 20,00 120,00 120 ÷ 90


= 1,33

Totais 300 kg. 300,00 60,00 360,00


Preço médio da produção: Cr$ 360,00 ÷ Cr$ 300,00 = Cr$
1,20.

Qual será o preço social da produção de um quilo de trigo?

Admitamos, um instante somente, que, na agricultura, assim


como na indústria, o preço social seja determinado pelo preço
médio da produção, ou seja: Cr$ 360,00 ÷ Cr$ 300,00 = Cr$ 1,20.

Em nosso caso, esse preço corresponde ao preço individual


do segundo terreno.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 307


Mas o locatário do primeiro terreno obtêm um lucro
suplementar de Cr$ 0,11 por quilo, enquanto o locatário do
terceiro terreno tem um prejuízo de Cr$ 0,13 por quilo.

De onde provém essa diferença?


Do trabalho? Não. Supusemos acima, que o trabalho, a
técnica e o capital são iguais nos três terrenos.

A diferença, portanto, encontra-se na fertilidade dos


terrenos.

Mas, se na agricultura o preço fosse determinado, como


supusemos, o capitalista do terceiro terreno perderia, em relação
ao lucro-médio, Cr$0,13 por cada quilo de trigo de seu terreno. Isto
naturalmente aconteceria se todo o mercado se enchesse com o
produto do primeiro e segundo terrenos. Mas, e se a procura fosse
maior? Naturalmente se elevaria o preço do trigo. Mas não
aumentaria indefinidamente, pois que, então, o capitalista do
terceiro terreno, entra no mercado oferecendo o seu trigo a Cr$
1,33. E por esse preço será vendida toda a produção. (Os outros
capitalistas não venderão o trigo a um preço mais baixo, mesmo
que o possam fazer, se a procura fez com que o preço subisse até
Cr$ 1,33 o quilo).

Se a oferta continua aumentando, entrará ainda o produto


de um quarto terreno, cujo custo de produção seria, por exemplo,
Cr$ 1,50, e o preço do trigo será então vendido a esse preço, e
assim sucessivamente.

308 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O preço será determinado pelo custo de produção do trigo do
terreno menos fértil. Isto acontece porque as terras férteis não são
ilimitadas.

As terras mais férteis produzirão então um lucro suplementar


que compreende toda a diferença entre o custo de produção
individual do terreno menos fértil e o custo de produção individual
dessas terras mais férteis.

Com quem fica esse lucro suplementar, dessa renda territorial


diferencial?
Naturalmente com o dono da terra, pois este não permitirá
que o capitalismo ganhe mais do que a quota média de lucro e
cobrará um aluguel maior pela terra mais fértil.

Em nosso exemplo, o terceiro terreno chega a produzir renda


diferencial quando começa a concorrer com o quarto terreno, cujo
preço de produção individual determina o preço do trigo no
mercado.

Consideramos a renda territorial como provocada apenas


pela fertilidade do terreno.

Podem, entretanto, existir outras causas, como seja a da


distância entre o terreno e o mercado. A economia nos gastos do
transporte beneficiará aos que estejam mais perto do mercado,
pois já vimos que o preço é fixado pelo custo de produção do
terreno que produz o trigo mais caro.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 309


★★★

A renda diferencial provocada pela situação do terreno é


importantíssima nas cidades modernas.

Um terreno situado no centro da cidade, custa muito mais do


que um localizado nos seus arredores.

Nesse caso, é lógico que não depende da fertilidade, mas da


necessidade que o locatário ou comprador têm do terreno
(comerciante, industrial, etc.) de ficar no centro das operações
comerciais.

Mas este já é um fenômeno mercantil-capitalista, produto da


localização da concorrência num ponto da cidade, onde se
concentra também a oferta.

De passagem, podemos ressaltar a utopia das cidades futuras


com arranha-céus de centenas de andares.

Os arranha-céus são produtos dessa renda diferencial, que


aumenta o preço dos terrenos melhor localizados, até milhares de
cruzeiros por metro quadrado.

Numa cidade, em que não haja a propriedade privada da


terra e não exista a concorrência capitalista, não existindo renda
diferencial nem a necessidade de uma concentração forçada dos
negócios no mercado, irá desaparecendo o antagonismo entre a
cidade e o campo, e as habitações dos homens serão mais humanas
e de acordo com um plano racional, porque serão construídas onde

310 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


melhor convierem e não, como acontece atualmente, que somos
obrigados a viver contra a vontade, onde as leis econômicas, que
nos dominam, nos obrigam a viver.

A renda diferencial II
Além das duas causas já citadas e que provocam a renda
diferencial (a fertilidade e a localização das terras), pode ainda
existir uma terceira causa: na mesma terra pode-se colocar,
sucessivamente, maior quantidade de capitais.

Nesse caso aumentará proporcionalmente o rendimento?

Se no primeiro terreno, com Cr$ 100,00 de gastos, obtivemos


no quilos de trigo, com Cr$ 200,00 poderíamos obter 220 quilos,
com Cr$ 300,00, 330, com Cr$ 30.000,00, 33.000, etc.? Não —
dizem alguns economistas — isto é absurdo. Se isso fosse possível,
com uma inversão de centenas de milhares de cruzeiros em só
pequeno terreno, poder-se-ia produzir todo o trigo para suprir as
necessidades de um país. E tiram a seguinte conclusão:

O progresso técnico da agricultura é limitado pela lei


universal do rendimento decrescente do solo. Outros acrescentam:
a técnica só consegue acentuar a decrescente fertilidade do selo.
Não negam o progresso da técnica agrícola, que pode — segundo
demonstram as estatísticas, — aumentar a produção, mas esse
progresso é temporário, enquanto que a "lei do rendimento
decrescente" é uma lei universal.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 311


Lenine (A Questão Agrária) responde a esse argumento,
ironicamente, dizendo:

"Tudo isso não é muito profundo? O progresso é uma


tendência "temporária", enquanto que a lei do esgotamento
progressivo do solo, a lei da diminuição (não sempre) da
utilidade tias inversões suplementares do capital, baseadas
numa técnica paralisada, " tem um alcance universal"! Está no
mesmo caso se disséssemos: As paradas dos trens nas
estações são a lei universal do transporte a vapor, e o
movimento dos trens entre as estações são uma tendência
temporária que paralisa o efeito da lei universal das paradas".

Alguns economistas burgueses agarram-se a essa pretensa


"lei" para demonstrar que certa parte da massa pobre de um país
"superpovoado" se deve à "lei da fertilidade decrescente"; que o
avanço limitado da técnica agrícola no capitalismo se deve a essa
"lei", etc.! Que grande oportunidade para culpar a natureza dos
pecados da economia capitalista! Isso cai ainda mais depressa no
ridículo do que a afirmação de Stanley Jevons que considera as
crises não como uma consequência do regime social-econômico
que existe entre os homens, mas das manchas do sol!

Demonstraremos agora a falsidade dessa pretensa "lei".


Em primeiro lugar, o argumento, de que toda a produção
poderia caber num pequeno terreno caso não existisse essa lei, é
um erro lógico-formal, idêntico ao da utopia das cidades
gigantescas do futuro. Falta-lhe tomar em consideração o fator
movimento, evolução e troca.

312 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Já vimos que, hoje, já há quem acredite em certo progresso
temporário.

Essa sinceridade se deve a que este progresso foi


demonstrado pelas estatísticas.

Charles Gide (pág. 92, ob. cit.), procura atenuar o resultado


dessa estatística e diz que, em 86 anos (1820-1906), o rendimento
do solo só aumentou de 50%.

Mas isso não se deve por acaso ao atual regime de produção?

Vejamos se essa "lei" existe na URSS.

Há 20 anos atrás, era usado o arado de madeira; hoje, os


campos coletivizados possuem mais de 720.000 tratores, com uma
força de mais de 13.280.000 cavalos e, dia a dia ,aumenta o nível
da técnica.

O Governo Soviético custeou numerosas expedições dirigidas


pelo sábio Vavilov, com o objetivo de descobrir novas espécies de
sementes.

Algumas não podiam aclimatar-se na URSS, porque o seu


período vegetativo era demasiado longo. Lissenko submeteu então
os cereais a uma temperatura apropriada antes de semeá-los e a
terra estéril tornou-se fértil.

E as regiões desertas e geladas do norte, tão incultiváveis que


mantiveram os povos que nelas habitam no período primitivo da

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 313


caça e da pesca? Hoje são férteis, graças às novas inversões de
"capital socialista".

O centeio de inverno, a cevada e as plantas oleaginosas


foram levadas até as proximidades do círculo polar; o trigo branco
e o centeio de verão foram até os 65° de latitude norte.

Mas isso acontece num país, no qual, quando "sobra" trigo,


este não é jogado ao mar, mas alimenta os seus habitantes.

★★★

Se a técnica agrícola aumenta, significa que, para o


capitalista-agrícola, "é conveniente" fazer novas inversões de
capital. Se assim não fosse, em vez de comprar máquinas, alugaria
novas terras.

Lenine (pág. 7, ob. cit.) observa que:

"Na realidade, apenas a ideia de "inversões


suplementares" (ou sucessivas) de trabalho e capital, já
implica na modificação dos processos de produção, uma
transformação da técnica.

"Para aumentar consideravelmente o capital invertido


na terra, é necessário inventar novas máquinas, criar novos
sistemas de cultivo, novos sistemas de criação de gado, para
o trans porte de produtos, etc., etc. É certo que, em
quantidades relativamente limitadas, podem-se obter (e se
obtêm) "inversões suplementares de trabalho e de capital",

314 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


mesmo sobre a base do atual nível da técnica, isto é, sem
modificação alguma. Nesse caso, a "lei" da "fertilidade
decrescente do solo" se aplicaria até certo ponto; aplicar-se-
ia no sentido de que o estado estacionário da técnica torna
relativamente pouco fáceis as inversões suplementares de
trabalho e de capital.

"Em lugar de uma lei universal, temos, pois, uma "lei"


bastante relativa, a tal ponto que já não se pode falar de "lei"
alguma..."

Pode-se acrescentar que, nessa suposição da passagem de


terras férteis a menos férteis, não se cumpre exatamente como
parece crer David Ricardo.

Pelo contrário, as terras estéreis convertem-se em férteis,


com adubação química, transformações das sementes, irrigação
artificial, etc.

De onde se origina a renda diferencial?


Já vimos que as condições para a existência da renda
diferencial residiam na fertilidade, situação, etc. Mas temos que
tomar em consideração que as melhores terrassem o trabalho
humano, são absolutamente improdutivas.

A renda diferencial é criada pela diferença de produtividade


da força de trabalho do trabalhador agrícola, numa terra fértil e
numa menos fértil.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 315


O agricultor-capitalista tira da mais-valia a quota média de
lucro e o resto passa para as mãos do proprietário da terra, sob a
forma de renda.

A renda absoluta
Voltemos ao exemplo dos três terrenos. Recordemos que o
terreiro terreno, cujo preço do trigo fixa o preço do mercado, não
produz renda diferencial.

Por esse motivo, o capitalista não poderia pagar a renda, uma


vez que deveria tirá-la de sua quota média de lucro. Como o
possuidor de terra nãe cederá o terreno gratuitamente e o
capitalista. que não obtiver a sua quota média de lucro, passará
para outro ramo o seu capital, o terreno ficará abandonado.

Se aumenta a procura do trigo, o preço do mesmo sobe e o


terceiro terreno começa a produzir renda.

Mesmo as piores terras, desde o momento que são cultiva


das, começam a produzir renda.

Quando a renda é paga sem ter a sua origem; na renda


diferencial é chamada de renda absoluta.

Estudemos a sua origem.

Recordemos que a quota média de lucro é maior quando a


composição orgânica do capital é baixa.

316 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


E como na agricultura a exploração se efetua com menos
máquinas e instrumentos, etc., que na indústria, esse é o motivo
pelo qual oferece maior quota de lucro.

Mas nós sabemos que na indústria o lucro se torna social,


reparte-se entre toda a classe capitalista pelas transfusões de
capital.

Por que não acontece o mesmo na agricultura?


Se a terra não fosse limitada, ou melhor, se não existisse a
propriedade privada do solo, ninguém se oporia. Mas, como isso
não se dá, é o dono das terras quem se apodera desse lucro, sob a
forma de renda absoluta. Todas as terras pagam renda absoluta. As
terras mais férteis a obtêm, e ainda acrescentam a renda
diferencial.

★★★

A terra não é apenas um terreno para ser cultivado ou para


moradia. Contém ainda inúmeras riquezas naturais: hulha, metais,
petróleo, etc., elementos esses indispensáveis para o
desenvolvimento do capitalismo. Todas essas riquezas são fonte de
renda para o possuidor da terra.

A renda territorial e o preço do produto da agricultura


O preço da produção (custo de reprodução e mais a quota
média de lucro) é o ponto de equilíbrio em torno do qual oscilam
os preços das mercadorias.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 317


Na agricultura, pela existência da renda territorial, o preço do
produto agrícola é determinado pelos gastos da produção sobre as
terras menos férteis, mais a quota média de lucro, mais a renda
absoluta.

★★★

A renda absoluta, portanto, aumenta o preço dos produtos


da agricultura.

A renda diferencial não modifica o preço do produto, pois o


preço e fixado precisamente pelos produtos agrícolas das terras
menos férteis, que não produzem renda diferencial.

O preço do solo
O preço do solo não é determinado pelo valor, uma vez que
não é produzido pelo trabalho humano.

O Sr. A quer comprar um terreno do Sr. B.

O Sr. B pede Cr$ 10.000,00 pelo seu terreno. O Sr. A quer


pagar apenas Cr$ 8.000,00.

O dono do terreno dirá:

— Não me convém vendê-lo por Cr$ 8.000,00, pois o campo


me dá, anualmente, Cr$ 500,00 de renda e os Cr$ 8.000,00 postos
num Banco com juros normais, que no momento (por exemplo) é
de 5%, me dariam apenas Cr$ 400,00.

318 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O dono da terra está sendo lógico. O preço do solo é
determinado:

1. — Pelo total de renda que produz.

2. — Pelo juro comum que nesse momento pagam.

Quanto menos juros se pague, mais custara o terreno,


porque é preciso mais capital para obter a mesma renda com um
juro menor.

Tendência à elevação da renda em relação com o desenvolvimento


capitalista
O desenvolvimento capitalista amplia o mercado dos
produtos agrícolas (algodão, linho, trigo, frutas, milho, beterraba,
etc.). Isso eleva os preços e a renda territorial em todas as suas
formas. Os países atrasados entram no mercado internacional com
os seus produtos agrícolas e isso enfraquece o aumento dos
preços.

O aumento, entretanto, da técnica agrícola, ao elevar a


composição orgânica do capital, será que faz diminuir a renda

O aumento, entretanto, da técnica agrícola, ao aumentar a


composição orgânica do capital, será que faz diminuir a renda
absoluta?

No primeiro momento estaremos tentados a dizer: Sim,


evidentemente. Mas, se refletirmos, veremos logo depois que isso
não sucede, porque o aumento da técnica industrial é mais rápido

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 319


e, se, por um lado, a técnica agrícola baixa a renda de 1 ponto, por
outro, a técnica industrial a aumenta de 2, com o seu pedido cada
vez maior de produtos agrícolas, terras para a construção de
fábricas, etc.

O desenvolvimento capitalista é acompanhado de um


aumento sistemático da renda do solo sob todas as suas formas.

A renda na pequena exploração camponesa


Para terminar o assunto da renda territorial, ainda nos falta
explicar um ponto.

Supusemos, em nossas explicações anteriores, relações


capitalistas na agricultura. Falamos do capitalista agricultor, etc.

Em todos os países existem, entretanto, além dessas


relações, outras que são vestígios da economia mercantil e feudal.

No regime feudal, o senhor feudal explorava diretamente


seus servos, fornecendo-lhes terras para serem cultivadas e, em
troca, desles tirava parte da colheita, exigindo-lhes trabalhos
pessoais na terra do próprio feudo, etc.

Esse lucro do senhor feudal era uma renda territorial no


sentido atual da palavra?

Não. A renda capitalista é o excedente da mais-valia recebido


pelo capitalista-locatário que, como excedente da quota média do
lucro, é entregue ao dono da terra, sob a forma de renda.

320 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Ao contrário, a renda pré-capitalista é todo o sobre-valor
criado pelo servo, que é entregue diretamente ao senhor feudal.

Marx distingue três etapas na evolução da renda pré-


capitalista:

1. A renda-trabalho. O camponês trabalha uma parte


de seu tempo na terra que lhe foi emprestada para alimentar a si e
a sua família (trabalho necessário) e outra parte de seu tempo
cultiva gratuitamente a terra do senhor (trabalho suplementar).

2. A renda-produto. O servo a paga com produtos de


seu trabalho. Isso significa um certo aumento de nível da produção,
que não permite ao senhor exercer sobre o servo uma vigilância
eficaz, motivo pelo qual exige produtos.

3. A renda-dinheiro. É uma forma nova da etapa


anterior. Em lugar de entregar os produtos, o camponês os vende
no mercado e entrega ao senhor o dinheiro. Esta é uma, forma de
decomposição da renda pré-capitalista. Seu desenvolvimento leva
à renda capitalista.

A renda diferencial na pequena exploração agrícola.


A pequena exploração agrícola distingue-se da servidão,
porque o camponês é livre e dono do seu solo e de seus meios de
produção.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 321


Existe, nesse caso, renda diferencial?
Indubitavelmente existe um lucro-suplementar, quando a
terra é mais fértil, mas esta não pode ser chamada de renda
diferencial porque não- existe exploração da mão de obra e,
portanto, não existe um lucro-suplementar pela produção da mais-
valia.

Não devemos, porém, esquecer que as relações capitalistas


dominam o mercado. Podemos assim dizer que o pequeno
proprietário agricultor, que cultiva pessoalmente seu terreno, é, ao
mesmo tempo, o seu próprio patrão (capitalista) e o seu próprio
operário. Em segundo lugar, é, ao mesmo tempo, proprietário e
locatário. Ele paga a si mesmo o salário, tira seu lucro de capitalista
e paga a sua renda agrária. Além disso, o seu trigo é uma
mercadoria cujo preço depende do mercado.

Pode-se, pois, dizer, num sentido limitado e convencional,


que o pequeno agricultor percebe uma renda diferencial, porque,
devido às relações do mercado, recebe um excedente de lucro que
não provém exclusivamente do seu trabalho, mas do fato de ser
proprietário do solo e dos meios de produção.

A renda absoluta na pequena agricultura


Não poderíamos, então, falar de renda absoluta
considerando o pequeno agricultor como o dono de seu terreno?

Consideremos a terra menos fértil. Logo notaremos que


devemos responder negativamente, se tomarmos em conta que o

322 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


pequeno agricultor cultiva sua terra para sustentar sua família e
continuará a cultivá-la ainda que não tire a renda absoluta.

Pelo contrário, essa mesma terra, se fosse de um


latifundiário, não seria cultivada se não se obtivesse uma renda,
que seria exclusivamente renda absoluta, pois o terreno nesse caso
seria considerado como o menos fértil.

Daí o motivo pelo qual o pequeno agricultor está sujeito ao


domínio econômico de numerosos intermediários: camponeses
ricos, especuladores, etc., e no fim de contas trabalha para cobrir
suas necessidades e as de sua família, enquanto o restante é
aproveitado por outros participantes da economia capitalista.

Recapitulação do Capítulo Anterior

Os grandes proprietários de terras vivem, sem trabalhar, da


renda que as suas fazendas produzem: De onde provém essa
renda?

II

O locatário de uma terra fértil paga uma renda maior do que


o de uma terra menos fértil, porque o trabalho de seus operários
produz mais. Que é renda diferencial?

III

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 323


Um terreno cultivado próximo a uma cidade paga uma renda
maior do que um outro nas mesmas condições, porém distante da
cidade: A que se deve essa diferença?

IV

Em Nova York existem grandes arranha-céus: Por que a


cidade não cresce em extensão em lugar de aparecerem esses
edifícios?

Chama-se renda diferencial aquela que provém do aumento


da técnica na agricultura.

Alguns economistas afirmam que essa técnica chega, no


máximo, a compensar a fertilidade decrescente do solo: É exata
essa afirmação? E que acontece na URSS a este respeito?

VI

Numa pintura mural de Diego Rivera, que se encontra no


interior do edifício da Secretaria de Educação Pública do México,
existe uma legenda que diz: "Toda a riqueza do mundo provém da
terra". Quais são os erros econômicos que estão implícitos nessa
afirmação?

VII

324 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Como vimos, o preço da terra não é determinado pelo valor
(de troca), devido a que a terra não tem valor por si mesma. Como
é que se determina o preço da terra?

Perguntas de Controle
1. Que é renda territorial?

2. Que é renda diferencial?

3. Como é determinado o preço de venda de um


produto agrícola?

4. Há lucro suplementar na agricultura?

5. Com quem fica o lucro suplementar da renda


territorial diferencial?

6. Quais são as causas da renda diferencial?

7. Que é a lei do rendimento decrescente do solo?

8. Que é renda absoluta?

9. De que forma é determinado o preço do solo?

10. Como se verifica a renda na pequena exploração


camponesa?

11. Existe renda diferencial na pequena exploração


agrícola?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 325


12. Existe a renda absoluta na pequena agricultura?

326 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


TERCEIRA PARTE - A CONCENTRAÇÃO DO CAPITAL

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 327


Capítulo IX - A Concentração do Capital. O Imperialismo
Vimos, no capítulo V, quando tratamos da lei da tendência
decrescente da quota de lucro, que a pequena burguesia se
proletariza, sendo, de fato, assalariada da grande burguesia e
explorada indiretamente por ela.

A concentração nacional e internacional do capital contribui


também para a proletarização da pequena burguesia. Além disso,
essa concentração provoca ainda outras consequências, com
relação aos países menos desenvolvidos economicamente, no que
se refere à crise capitalista, e ainda, no que se refere às
possibilidades de implantação do socialismo.

A concentração nacional do capital


A técnica avança. Novas e custosas máquinas são inventadas
e, logo que usadas por um capitalista, força a todos os demais
concorrentes a tomarem a mesma atitude.

Há alguns anos, com algumas mesas e um torno, poder-se-ia


montar uma padaria. O pão era amassado à mão.

Hoje, para se ter uma padaria que dê lucros, é preciso dispor


de amassadores elétricos e outros instrumentos que exigem um
grande capital necessário para uma indústria panificadora.

Os grandes comerciantes fazem concorrência aos pequenos.

Quem vencerá na luta? O grande comerciante — que


consegue a mercadoria por um preço menor, pode pagar salários,

328 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


fazer propaganda, tem um sortimento completo, etc. — ou o
pequeno comerciante?

A técnica diminui o preço dos produtos da grande indústria e


a manufatura e o artesanato se arruínam.

Além disso, muitas vezes o grande industrial monopoliza as


matérias primas de sua indústria e o artesanato é explorado
indiretamente ao ter de comprar as matérias primas, fornecendo
assim um lucro suplementar ao grande industrial.

As estatísticas, a simples observação da realidade,


demonstram com clareza as nossas explicações. Para que não
desapareça, entretanto, a esperança de tornar-se algum dia
burguesa, esperança essa que mantém a classe média atada aos
interesses conservadores do grande capital, é indispensável que
esses fatos não sejam conhecidos. É necessário que a classe média
não veja no proletariado o seu aliado natural. Existem livros que
pretendem demonstrar que essas afirmações marxistas não são
exatas. Mas os fatos demonstram que o são.

Facilmente se deduz quais são as consequências da


concentração nacional do capital: proletarização da classe média,
aumento da produção socializada das fábricas de propriedade
privada, aumento do proletariado industrial, etc., etc.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 329


Concentração internacional do capital
Com a concentração nacional do capital surgem os
monopólios nacionais. A Standard Oil Company foi fundada em
1900.

Seu capital era de 150 milhões de dólares, que foram


emitidos em 100 milhões de ações ordinárias e 160 milhões de
ações preferenciais. As últimas obtiveram os seguintes dividendos,
em milhões de dólares, nos anos 1900-1907: 48, 48, 45, 44, 36, 40,
40, 40; no total de 367 milhões de dólares.

Os Bancos vão cumprindo um papel cada vez mais decisivo


na economia capitalista. O dinheiro é exportado e alguns capitais
são colocados nos países industrialmente atrazados.

Lenine em 1916, no seu livro O imperialismo, etapa superior


do capitalismo, diz:

"A Inglaterra e a Alemanha, no transcurso dos últimos


25 anos, inverteram na Argentina, Brasil e Uruguai,
aproximadamente 4 bilhões de dólares e desfrutam de 46%
de todo o comércio dos três citados países" (pág. 103, Ed.
argentina).

No México, já no ano de 1910, e apenas nas empresas


petrolíferas e mineiras, havia 635 milhões de dólares invertidos,
dos quais, quase 500 milhões eram de capital americano, 87
milhões de capital inglês e 10 milhões de capital francês. Dos 625
milhões, apenas 29 eram de capital mexicano.

330 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


As empresas entram em entendimentos: as que produzem
petróleo com as que produzem automóveis, etc.

Temos — diz Lenine — dois trustes elétricos mundiais, a AEG


com um capital de 1.500 milhões de marcos e a GE da América do
Norte. Elas se aliam e repartem entre si, o mundo: A GE (General
Electric Co.) fica com os EE.UU. e o Canadá; a AEG fica com a
Alemanha, Áustria, Suíça, Rússia, Holanda, Dinamarca, Turquia e os
Balcans.

Até aqui estamos considerando que os trustes internacionais,


compreendendo que devem repartir o mundo entre si, o fazem
entrando em acordo.

Na realidade, apenas entram em acordo quando não se


podem destruir mutuamente... e o fazem para destruir os
industriais menos poderosos.

Os trustes internacionais têm interesses econômicos e


políticos comuns. Alguns destes ajustam interesses de várias
nações.

Existem, na Europa, alguns governos imperialistas que não


defendem exclusivamente os interesses do seu imperialismo, mas,
às vezes, o deixam em segundo plano e auxiliam os interesses de
outros governos reacionários estrangeiros.

Naturalmente, interessados em conservar o regime


capitalista, interessam-se também na combinação de interesses
econômicos do capital imperialista.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 331


Que significa o imperialismo?
O imperialismo é uma etapa superior do regime capitalista,
isto é, de decomposição desse regime e tem as seguintes
características:

1. — Concentração da produção e do capital. Os


monopólios desempenham um papel decisivo na vida econômica.

2. — O capital bancário funde-se com o capital


industrial, criando o capital financeiro, e a oligarquia financeira.

3. — Baseada na diferença de exportação de


mercadorias, a exportação de capitais adquire uma importância
particular.

4. — Criam-se alianças internacionais de capitalistas


financeiros que repartem o mundo entre si.

5. — Os mercados do mundo são divididos e por êlea


lutam diversos grupos imperialistas, provocando guerras.

6. — Países economicamente desenvolvidos dominam


economicamente os menos desenvolvidos.

Recapitulação do Capítulo Anterior

O capital concentra-se nacional e internacionalmente: Quais


as consequências políticas que essa concentração provoca?

332 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


II

O imperialismo fascista, na sua guerra de rapina na Espanha,


conquistou bases de guerra contra a Inglaterra e a França, bases
essas que prejudicarão a ambos os imperialismos.

Os setores bancários imperialistas desses países apoiaram,


entretanto, essa conquista.

III

Quais são as características da época imperialista?

Perguntas de Controle
1. Que é concentração nacional do capital? Qual o seu
mecanismo?

2. Que é concentração internacional do capital?

3. Que é imperialismo?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 333


QUARTA PARTE - AS CRISES

334 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Capítulo X - As Teorias das Crises
O regime capitalista apoia-se numa contradição básica: A
produção é social e a apropriação dos produtos é individual.

Que significa o fato de ser a produção social?

Significa que as indústrias se especializam num determinado


produto e que

"muitos processos fragmentários de produção


concluem num processo de produção social" (Lenine).

Suponhamos que a apropriação fosse também social. Nesse


caso, a produção não seria determinada pelo lucro privado: as
fábricas produziriam de acordo com um plano geral, determinado
de acordo com a necessidade da população; não haveria
"superprodução", nem crises.

Nesse caso, não mais se verificariam os paradoxos do regime


capitalista: épocas em que se destroem milhares de toneladas de
alimentos, enquanto milhões de famílias passam fome.

O regime capitalista baseado, pois, na contradição que


assinalamos no início, sofre crises periódicas.

Desde 1825 as crises se vêm repetindo nos anos seguintes:


1836, 1847, 1857, 1866, 1873, 1882-84, 1890-93, 1900, 1907,
1913, 1920, 1929-33 e a que começava em 1938 foi superada pela
guerra...

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 335


"Com efeito — diz Engels — desde 1825, ano em que se
verificou a primeira crise geral, apenas passam 10 anos
seguidos sem que todo o mundo industrial e comercial, a
produção e o intercâmbio de todos os povos civilizados e seu
séquito de países mais ou menos bárbaros, percam o juízo. O
comércio paralisa, os mercados ficam superlotados de
mercadorias, os produtos paralisam nos armazéns, sem
encontrar saída; o dinheiro circulante torna-se invisível, o
crédito desaparece, as fábricas fecham, as massas carecem de
meios de vida, precisamente por haverem produzido em
demasia os meios de vida, e por todos os lados vêm-se
falências, insolvências e liquidações. A paralisação dura anos
inteiros, as forças produtivas e os produtos desperdiçam-se e
destroem-se em massa até que, por fim, à força de tanto
depreciar-se, as mercadorias encontram uma saída e a
produção e o intercâmbio vão se reanimando pouco a pouco.
Paulatinamente, a marcha se acelera, o passo de passeio
converte-se em trote, e de trote industrial em galope e,
finalmente, numa desenfreada e vertiginosa carreira
industrial, comercial, bancária e especulativa, para terminar,
depois dos saltos mais arriscados... na fossa de um novo
crack!" (Anti-Dühring, Ed. Calvino Ltda.)

No regime capitalista também se produzem crises parciais


que afetam a determinados ramos da produção, sem se estender
ao resto das relações econômicas.

Apenas nos ocuparemos das que afetam a toda a economia,


as crises gerais.

336 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Deve-se distinguir entre "crise geral da produção capitalista"
e "crise geral do capitalismo". A primeira é a que descrevemos mais
atrás e a segunda é uma etapa da época imperialista.

A que se devem as crises?


Temos, pois, uma crise. Caem os preços, e verificam-se
milhares de falências, a produção baixa, fala-se de
"superprodução", os produtos são destruídos, e aumenta de
milhares o número de desocupados em todo o mundo.

A que se devem as crises? Existem centenas de teorias


burguesas (isto é, teorias que desejam dissimular o fato de que as
crises são consequências do sistema capitalista), que pretendem
responder a essa pergunta. Existe a teoria marxista sobre as crises.

Atualmente, os economistas burgueses, ante o fracasso de


todas as suas teorias, afirmam que para o estudo das crises é
preciso abandonar toda a teoria. (Também renunciam a uma teoria
do valor. Na Filosofia renunciam à razão substituindo-a por
"intuição". Na Arte renunciam ao realismo por não querer dar à
Arte um conteúdo social).

Teorias burguesas sobre a crise


Stanley Jevons diz que a causa das crises está nas manchas do
sol e nas suas influências sobre o nosso planeta. Outros autores
julgam que esteja nas variações atmosféricas.

Cassel diz:

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 337


"As crises nascem de uma escassez aguda de capitais,
isto é, de meios de economia"

apesar da realidade demonstrar que precisamente as crises


se caracterizam por uma abundância relativa de capitais. Continua
Cassel:

"Em todo caso, a velha tese de que as crises se tornarão


cada vez mais assoladoras, está já muito antiquada. Nos países
mais adiantados e de economia nacional melhor disciplinada,
os dados de que dispomos permitem-nos afirmar que as crises
tendem a atenuar-se".

(A "velha tese antiquada", citada por Cassel, é a tese


marxista. O trecho transcrito foi tirado de sua Economia Social
Teórica, publicada em 1927. Em 1929, deu-se a maior crise até
então conhecida pelo capitalismo e começou... nos Estados
Unidos.)

Sombart escreve:

"A causa das crises reside na tendência constantemente


reiterada de ascenso que é inerente ao apogeu do capitalismo
e no incremento excessivo da produção, incremento esse que,
até agora, historicamente, mas não por necessidade
intrínseca do sistema, tem se dado, sempre, em certos
setores,.."

A crise de 1857 foi a última catástrofe de grande


envergadura.

338 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Desde então, na vida econômica europeia, destaca-se uma
clara tendência a nivelar, atenuar, fazer desaparecer os
antagonismos"

Em geral, todas as teorias burguesas sobre as crises


defendem o regime capitalista e são aberta ou disfarçadamente
apologéticas.

Um presidente dos EE.UU., Calvin Coolidge, declarou, no dia


4 de dezembro de 1928, em sua mensagem de despedida ao
Parlamento:

"Jamais houve nos Estados Unidos da América, um


Parlamento que, ao analisar a situação da União, tivesse uma
perspectiva mais favorável que hoje. No país reinam a
tranquilidade e o contentamento, uma relação harmônica
entre capitalistas e assalariados, não há lutas pelos salários, e
temos o máximo grau de prosperidade", etc., etc.

(Poucos meses depois começou a crise. A produção de ferro


diminuiu de 70%, a de hulha de 34%. Mais de 2.500 falências por
mês. 14 milhões de desocupados!)

No Congresso de Banqueiros realizado em Colônia, no


outono de 1928, o então chefe da oligarquia financeira alemã,
Jakob Goldschmidt, dizia:

"Enquanto o fim da era capitalista e a substituição da


produção individual pela produção socialista preocupa os
cérebros de espíritos proféticos, continua... avançando com

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 339


mais força, a direção prática da economia, com os métodos
capitalistas... Criou-se um novo sistema de economia, que, se
bem não seja ainda ideal, pelo menos funciona de modo
absolutamente satisfatório."

(Quanto ao "espírito profético", etc., refere-se à


Internacional Comunista, que predizia o fim da estabilidade
capitalista. O poderoso Banco dirigido pelo Sr. J. Goldschmidt, faliu
definitivamente em 1931...)

Teoria da desproporcionalidade
Esta teoria afirma que as crises devem-se a uma
desproporção entre os diversos ramos da produção. "Organizando"
o regime capitalista, se eliminariam as crises.

Teoria do "deficit" de consumo


De acordo com essa teoria, as crises são causadas porque o
consumo é inferior à produção.

Diz Engels:

"Se o deficit de consumo é, portanto, desde há milhares


de anos ,um fenômeno histórico constante, e a paralização
das vendas, que se produz nas crises, não são conhecidas
senão há meio século, é preciso ter a estreiteza econômica
vulgar do Sr. Dühring, para explicar o novo conflito, não por
um novo fenômeno de superprodução, mas pelo deficit de
consumo que tem milhares de anos de existência".

340 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Esta teoria pretende encontrar as causas das crises fora da
produção. Além disso, não explica porque existe esse deficit de
consumo. A teoria marxista reconhece a contradição entre a
produção e o consumo, mas dá-lhe o lugar subordinado que
merece.

A teoria marxista sobre as crises


A produção de mercadorias, isto é, de produtos que são
fabricados para serem vendidos, já traz consigo a possibilidade das
crises.

Se o lavrador não vende o seu trigo, não poderá comprar


sapatos. O sapateiro que não vende os sapatos, não poderá
comprar fazendas, etc. Mas, para que essa possibilidade se
converta em crise, é preciso uma quantidade de fatores
concorrentes.

O dinheiro como meio de pagamento acelera também a


possibilidade de crises. O lavrador compra sapatos e promete pagar
quando vender o seu trigo. O sapateiro compra fazendas e promete
pagar quando receber o dinheiro do lavrador. Se o lavrador não
quer vender o seu trigo por uma razão qualquer, ou o vende a um
preço inferior ao seu custo, não poderá pagar ao sapateiro. O
sapateiro não poderá pagar ao tecelão, o tecelão não pagará ao
fornecedor de algodão, de máquinas, etc.

Esta segunda possibilidade das crises combina-se com a


primeira, tornando-a mais aguda. Mesmo existindo, entretanto,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 341


esses dois fatores (produção de mercadorias e o crédito), nem por
isso as crises terão que produzir-se indefectivelmente.

Essas possibilidades das crises vão aumentando com o


desenvolvimento do capitalismo; as indústrias vão dependendo
cada vez mais umas das outras, o crédito vai tomando cada vez
maiores proporções, etc.

No regime capitalista, desenvolvem-se as possibilidades de


crises já implícitas na circulação simples de mercadorias. Sob o
capitalismo, produz-se a crise de superprodução.

Por que se verifica periodicamente o fenômeno da superprodução?


Em primeiro lugar, esclarecemos que se trata de uma
superprodução relativa, que não toma em conta as necessidades
do povo., mas a solvência dos compradores. Essa "superprodução"
deve-se à contradição entre o caráter social da produção e à
apropriação individual capitalista dos produtos.

A classe operária produz muito mais do que consome. À


medida que progride a técnica e o capitalista utiliza parte da mais-
valia em aumentar o seu capital produtivo, essa contradição torna-
se mais aguda, aparecem grandes massas de desocupados, etc.

O crédito aumenta a possibilidade da produção; os Bancos


põem à disposição dos comerciantes e industriais todo o capital
disponível da sociedade, forçando a produção a ultrapassar os seus
limites. As enormes quantidades de mercadorias produzi- das
precisam ser vendidas. Mas a possibilidade da venda é limitada

342 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


pelo consumo, que, por sua vez, é limitado pela apropriação
capitalista.

Daí resulta que a contradição entre a produção e o consumo


nada mais seja senão uma evidência da contradição fundamental
do regime capitalista: a apropriação privada dos produtos sociais.
Essa contradição evidencia-se também no desenvolvimento mais
rápido dos meios de produção, do que nos artigos de consumo.

★★★

As crises são o ponto de concentração de todas as


contradições do regime capitalista. Não resolvem senão
passageiramente tais contradições e sobre essas contradições não
vencidas surge um novo processo de depressão, ascenso,
conjuntura culminante e... outra vez as crises.

Nesse processo, tem grande importância a forma de


renovação do chamado capital fixo (máquinas, edifícios, etc.) As
máquinas desgastam-se paulatinamente. Mas, além do desgaste
físico, existe um desgaste "moral" — as novas invenções afastam e
desvalorizam as antigas.

"Por outro lado, a concorrência, principalmente nos


momentos de comoção decisiva, obriga a substituir os antigos
meios de trabalho por outros novos, antes de que cheguem
ao seu esgotamento natural. Sobretudo as catástrofes, as
crises, obrigam a renovar prematuramente o maquinário das
indústrias numa larga escala social". (Marx).

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 343


Destruída parte das forças produtivas pelas crises, torna-se
necessário fazer novas inversões de capital para a aquisição dos
meios de produção.

Ao elevar-se a produção de meios de produção, aumenta


também a de artigos de consumo, pela ocupação de novos
operários, o trabalho de indústrias auxiliares, etc.

Ao se reanimarem, por sua vez, as indústrias que produzem


meios de consumo, novas técnicas aparecem e aumentam os
pedidos à indústria pesada. À depressão sucede-se um período
florescente, mas logo surge a " superprodução". Os pedidos são
anulados, as obras paralisam, novas crises se desencadeiam.

A forma de renovação do capital fixo constitui a base material


da periodicidade das crises. E como, ao desenvolver-se o
capitalismo, aumenta a acumulação e concentração do capital,
cresce a composição orgânica do capital, cresce o capital fixo, etc.,
cada crise se desenvolve, pois, com mais intensidade e extensão do
que a anterior.

Diminuem, ao mesmo tempo, os períodos entre uma crise e


outra, ao se tornarem mais agudas as contradições. Até os fins do
século passado, esse período era aproximadamente de 10 anos.
Neste século, tem sido de 7 a 8 anos.

A crise geral do capitalismo


A produção capitalista ultrapassa os quadros da apropriação
capitalista.

344 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Os monopólios nacionais e internacionais socializam ainda
mais a produção e a ruína da classe média torna ainda mais agudo
o fato da apropriação da produção social por um núcleo cada vez
menor de oligarcas financeiros.

Dentro desse panorama, rompe-se a "unidade" da economia


mundial burguesa pela separação de um mercado de 180 milhões
de habitantes, a União Soviética, e aumenta a resistência nas
colônias, semi-colônias e países dependentes contra a exploração
do imperialismo. (A China, com a sua heróica luta armada; a Índia,
com a vitória da unidade popular; o México, que assombrou o
mundo com a expropriação das mais poderosas empresas
imperialistas: os trustes internacionais do petróleo, etc.)

O capitalismo entra em crise geral. Dentro da crise geral do


regime capitalista, sucedem-se os processos cíclicos.

"Enquanto subsista o capitalismo, são inevitáveis as


oscilações cíclicas; estas acompanharão sua agonia, como a
acompanharam em sua juventude e na sua idade madura". (Tese
da I. C., Terceiro Congresso, 1921).

Recapitulação do Capítulo Anterior

Creem algumas pessoas que produção social, em marxismo,


significa que, em cada fábrica capitalista, trabalham centenas de
operários: Na realidade, que significa produção social?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 345


II

As teorias burguesas sobre as crises procuram suas causas


fora da existência do regime capitalista e da sua contradição
fundamental: Qual é essa contradição fundamental?

III

A produção de mercadorias encerra uma possibilidade de


crises. O dinheiro como meio de pagamento e o crédito encerram
também essas possibilidades.

IV

Não há crises na União Soviética e o aumento da produção


redunda em benefício de todo o povo.

O capitalismo está em decadência. Pelas razões que


expusemos, vimos que nos encontramos na época da crise geral do
capitalismo.

Perguntas de Controle
1. Que significa produção social?

2. Que são as crises capitalistas? São periódicas?

3. Há crises parciais e gerais?

4. Quais são as teorias burguesas sobre as crises?

346 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


5. Qual é a teoria marxista sobre as crises?

6. Por que se verifica periodicamente o fenômeno da


superprodução relativa?

7. Por que se dará a crise geral do capitalismo?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 347


Palavras Finais
Resumidamente, analisamos a evolução econômica da
Humanidade do ponto de vista marxista.

Expusemos, ultra sinteticamente, a doutrina de Karl Marx,


que explica a evolução e o desenvolvimento dá Economia,
especialmente da economia, burguesa atual. Vimos o que é o valor,
a mais-valia, a renda territorial e o imperialismo. Analisamos
também as crises capitalistas.

Temos o direito de afirmar que a crise geral do capitalismo


conduz, graças à direção das massas pelo proletariado, a uma nova
época da Humanidade, na qual a solidariedade social substituirá a
exploração do homem pelo homem e o nosso domínio sobre as leis
econômicas e naturais nos proporcionará a liberdade do homem
para o homem e nos despojará de todo o temor ao desconhecido?

A resposta está na realidade social que estamos vivendo. Nós


a encontraremos, se a analisarmos sinceramente, tendo a verdade
científica como guia e condutora.

348 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DA
SOCIEDADE
L. SEGAL

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 349


O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DA
SOCIEDADE
A base de toda vida social são as relações de produção entre
os homens, é o que demonstram os dois economistas e sociólogos
Marx e Engels, descobridores e explicadores das leis do
desenvolvimento da sociedade(1).

Nenhuma sociedade pode viver e desenvolver-se sem


produzir as utilidades necessárias à sua existência. Ora, as
utilidades necessárias à existência não são fornecidas
espontaneamente pela natureza; o homem deve produzi-las com o
seu trabalho. Ao fabricar os objetos de uso, o homem modifica as
substâncias da natureza, transforma-as e adapta-as afim de
satisfazerem as suas necessidades. Nesse sentido, a produção é a
ação do homem sobre a natureza. O homem, porém, existe e
produz não como indivíduo isolado, mas como membro da
sociedade. Assim, pois, o processo de produção supõe uma
determinada relação não apenas entre a sociedade e a natureza
mas também entre os próprios homens.

Tomemos, como exemplo, uma fábrica têxtil. A matéria prima,


o algodão, é transformada com o auxílio de máquinas, que são, da
mesma forma, uma força natural modificada e submetida pelo
homem ao seu domínio. Nessa fábrica observamos determinadas
relações entre os homens: de um lado, estão os operários, que não
são proprietários dos meios de produção, instalados na fábrica, e
de outro, está o capitalista, possuidor desses meios de produção,

350 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


que explora os operários. Consideremos, depois desse exemplo,
uma fábrica têxtil socialista. Nela, o algodão é submetido aos
mesmos processos de transformação com a ajuda de máquinas
semelhantes. Os operários que nela trabalham são tão
especializados quanto os da fábrica capitalista. Mas as relações
entre os homens, no processo de produção, são absolutamente
diferentes. Os meios de produção já não pertencem aos
capitalistas, mas à classe operária em seu conjunto. Não existe,
portanto, a exploração.

O diretor que está à frente da fábrica socialista não é um


proprietário, mas um funcionário do Estado proletário,
encarregado de dirigir a produção, que é realizada de acordo com
um plano prefixado pelo próprio Estado. A organização do trabalho,
na fábrica socialista, é diferente da organização na fábrica
capitalista. A atitude dos operários para com o trabalho é
completamente diferente. Vemos, em consequência, que, no
regime socialista, a forma social de produção, assim como as
relações entre os homens, são completamente diferentes das do
regime capitalista. As relações entre os homens, no processo da
produção social, são chamadas "relações de produção”. No curso do
desenvolvimento histórico da sociedade humana ,as relações de
produção foram modificadas e o foram também as formas sociais
de produção.

As formas sociais de produção desenvolvidas através dos


tempos, historicamente, foram as seguintes: o comunismo
primitivo, a escravidão, o feudalismo e o capitalismo. Atualmente,
eátá se processando, na URSS, a transformação do capitalismo em

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 351


socialismo, iniciada que foi pela Revolução de Outubro de 1917.
Nesse país, o modo de produção exclusivamente capitalista já foi
vencido pelo socialista.

Perguntas de Controle
1. Que importância tem, na vida humana em sociedade, o
trabalho produtivo?

2. Quais as relações criadas pela atividade produtiva do


homem?

3. As relações determinadas por essa atividade produtiva são


sempre iguais sob qualquer regime econômico?

352 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


Notas de rodapé:

(1) Um partido somente pode desempenhar o papel de lutador de


vanguarda se for dotado de uma teoria avançada. (Lenine - Que
fazer?).
A importância da teoria, para a luta de classes do proletariado,
definiu-a Lenine nestes termos: “A teoria revolucionária que
fornece as armas à classe operária; em sua luta para destruir o
capitalismo e edificar a sociedade comunista, é o marxismo-
leninismo.
Para conduzir os povos, a sua vanguarda, e a classe operária, para
a vitória, é necessário conhecer as leis que regem o
desenvolvimento e a decadência do capitalismo e saber quais são
as condições precisas para essa vitória. Da mesma forma que não é
possível dominar as forças da natureza sem tê-las estudado e sem
conhecer as leis da própria natureza, o partido revolucionário do
Proletariado não poderá elaborar nem aplicar uma boa estratégia,
uma boa tática e uma política justa para a derrocada do capitalismo
e a edificação da sociedade socialista, se ignorar as leis que regem
o desenvolvimento da sociedade em geral e do capitalismo em
particular. (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 353


1. O COMUNISMO PRIMITIVO
Essa forma social de produção existiu, durante muitos
milênios, na vida de todos os povos, sendo a mais primitiva etapa
de evolução da sociedade. Foi nesse período mesmo — de
comunismo primitivo — que começou o desenvolvimento da
sociedade. Os homens viviam em estado selvagem. Alimentavam-
se de vegetais, que encontravam ao acaso: legumes, frutas
silvestres, raízes. A descoberta do fogo foi de muita importância,
pois permitiu ampliar as fontes de alimentação.

Os primeiros instrumentos usados pelos homens foram o


machado e pedras toscas sem polimento. A invenção da lança com
ponta de pedra e, logo depois, a do arco e das flechas, permitiu-
lhes procurar novo alimento: a carne dos animais. Paralelamente à
procura de alimentos vegetais e à pesca, tornou-se a caça um novo
meio de subsistência. Posteriormente, deu-se um passo
considerável para a frente, pela introdução de instrumentos de
pedra lascada, que permitiram trabalhar a madeira para construir
habitações.

Por mais importante que tenha sido, através de milênios, o


processo de desenvolvimento, que elevou a humanidade desde a
existência semianimal até o nível dos homens capazes
tecnicamente de construir habitações e fabricar instrumentos de
pedra, os homens eram, no entanto, ainda extremamente débeis
na luta contra as forças da natureza, o que se exprimia, sobretudo,
no seu nomadismo por força da precariedade das fontes de
alimentação. Estavam sujeitos ao azar e não havia nenhuma

354 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


segurança de encontrar sempre caça e produtos vegetais. Não era
possível ainda pensar em armazenar reservas. Os alimentos eram
procurados diariamente e nenhuma provisão era feita para os dias
futuros.

Em tais condições, a população não se aglomerava, mas se


dispersava, pois o alimento que se poderia adquirir num dado
território seria insuficiente para sustentar uma população
relativamente mais densa.

Mais tarde, os homens viveram em tribos, que se compunham


de clãs. Estes compreendiam centenas de pessoas e englobavam
grandes famílias aparentadas entre si. Não havia propriedade
privada dos meios de produção. A vida econômica do clã era
dirigida por todos em comum, coletivamente. Tanto a caça como a
pesca, como a preparação e o consumo dos alimentos, tudo se fazia
em comum. Em seu livro: A Origem da Família, da Propriedade
Privada e do Estado. Engels relata o exemplo dos povos das ilhas do
Pacífico, entre os quais 700 pessoas e algumas vezes tribos inteiras
se abrigavam sob o mesmo teto, numa economia comum.

O regime comunista primitivo foi necessário para a sociedade


humana naquela época de desenvolvimento. Numa vida isolada,
dispersiva, teriam sido impossíveis a invenção e o aperfeiçoamento
das armas e dos instrumentos primitivos. Graças somente à vida
coletiva, os homens primitivos, puderam alcançar seus primeiros
êxitos na luta contra a natureza. A união, no “clã comunista”,
constituiu, nessa época, sua principal força.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 355


Na sociedade comunista primitiva, não existia nem poderia
existir a exploração do homem pelo homem. O trabalho era
dividido entre homens e mulheres. No clã conviviam membros mais
fortes e membros mais fracos, mas não existia a exploração de uns
pelos outros.

Só é possível haver exploração, quando um homem pode


produzir meios de existência não só para si mesmo, mas também
para outros. Unicamente sob tais condições um indivíduo viverá às
custas do trabalho de outro. Entre os homens da sociedade
primitiva, obrigados a conseguir alimentos para o consumo pessoal
de cada dia e incapazes de produzir mais do que o estritamente
necessário, não podia haver lugar para a exploração. Durante a
guerra, os prisioneiros, ou eram mortos (às vezes comidos), ou,
então, admitidos como membros do clã.

O regime comunista primitivo era condicionado pelo nível de


desenvolvimento das forças produtivas da sociedade de então.
Seria um erro imaginar-se que os homens primitivos criaram esse
regime conscientemente, pois ele se formou e se desenvolveu de
maneira natural, alheia à vontade e à consciência dos homens.

"... na produção social para sua existência, os homens


estabelecem entre si relações determinadas, necessárias e
independentes de suas vontades. Essas relações de produção
correspondem a um grau determinado de desenvolvimento
de suas forças produtivas materiais”(2).

356 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


O posterior desenvolvimento das forças produtivas da
sociedade primitiva — o aperfeiçoamento dos instrumentos
existentes e a invenção de outros novos, o aparecimento do
pastoreio e da agricultura, o uso de metais — provocou a mudança
das relações de produção até então vigorantes. O comunismo
primitivo decompôs-se lentamente com o aparecimento de novas
necessidades materiais, as quais determinaram a substituição do
comunismo primitivo por uma sociedade dividida em classes e o
nascimento da propriedade privada.

A decomposição do comunismo primitivo


O fator determinante da decomposição do regime comunista
primitivo foi a domesticação dos animais e a substituição da caça
pela criação, o que aconteceu, em primeiro lugar entre as tribos
acampadas nos territórios mais ricos de pasto (principalmente nas
regiões dos grandes rios da Ásia e das Índias, às margens do Amú-
Baria, do Sy-Daria, do Tigre e do Eufrates). A criação foi para essas
tribos fonte permanente de leite, carne, peles e lã. As tribos
pastoris possuíam dessa forma objetos de uso que faltavam às
outras. A introdução da criação do gado assinalou, assim, a primeira
divisão social do trabalho

Antes dessa primeira etapa, a troca, entre, as diversas tribos,


tinha caráter puramente acidental, não desempenhando nenhum
papel na vida das tribos e dos clãs. A divisão do trabalho, entre as
tribos pastoris e as outras, inaugurou a troca regular entre elas.

Outro passo para a frente, no desenvolvimento das forças


produtivas, foi o aparecimento da agricultura (primeiro a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 357


horticultura e logo depois o cultivo dos cereais), que criou fonte
permanente e estável de alimentos vegetais. A invenção do ofício
de tecelagem, nessa época, permitiu que se confeccionassem
tecidos e roupas de lã. Os homens aprenderam, posteriormente, a
fundir os metais, o cobre, o zinco e o estanho (a utilização do ferro
foi descoberta mais tarde) e a fabricar instrumentos, armas e
utensílios, da liga que se formava, o bronze.

A primeira divisão da sociedade em classes


Como vimos, pelos fatos expostos, aumentou em grande
escala a produtividade do trabalho, crescendo também o domínio
do homem sobre a natureza e sua segurança quanto ao futuro.
Estas novas forças produtivas da sociedade sobrepujaram os
quadros limitados do comunismo primitivo.

"Como consequência do desenvolvimento de todos os ramos


da produção (gado, agricultura, serviços manuais), a força
“trabalho humano” foi se tornando capaz de criar mais
produtos do que os necessários para o sustento de cada
produtor. O desejo de produtividade maior fez com que
aumentassem, ao mesmo tempo, a soma de trabalho
quotidiano que correspondia a cada membro do GENS ou clã,
a cada comunidade doméstica ou família isolada. A ambição
estimulou a procura de novas “forças de trabalho" e a guerra
as forneceu: os prisioneiros foram transformados em
escravos. Aumentando a produtividade do trabalho, por
conseguinte, dando origem à riqueza; estendendo-se o campo
da produção, a primeira grande divisão do trabalho, por força

358 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


mesmo das condições históricas determinaria
necessariamente a escravidão, para fazer face a tal produção.
Do primeira divisão social do trabalho nasceu a primeira
grande divisão da sociedade em duas classes: senhores e
escravos, exploradores e explorados”(3).

Os escravos eram estranhos ao clã e não faziam parte dele. O


desenvolvimento das forças produtivas e o aparecimento da
escravidão permitiram a introdução também da desigualdade
entre os membros do clã e, em primeiro lugar, entre o homem e a
mulher.

"Ganhar para comer foi sempre a ocupação do homem. Os


meios de produção, necessários para isso, eram produzidos
por ele e eram propriedade sua. Os rebanhos constituíam os
novos meios de subsistência. Sua domesticação e seu trato
foram obra do homem. Por esse motivo, o gado lhe pertencia,
assim (omo as mercadorias e os escravos, que recebia em
troca do gado. Todo o lucro, portanto, que, então, fornecia a
produção, pertencia ao homem. A mulher também desfrutava
das utilidades, mas não tinha nenhuma participação na sua
propriedade"(4).

Mais tarde, surgiu a desigualdade entre os chefes das diversas


famílias. O desenvolvimento da troca, consequência da crescente
subdivisão do trabalho, contribuiu para essa situação. O emprego
do ferro aumentou a variedade dos instrumentos e utensílios. A
agricultura estendeu-se, igualmente, graças à introdução do arado

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 359


com grades de metal. Outras culturas vieram juntar-se a dos
cereais, que então já existia.

"Como um mesmo indivíduo não podia mais realizar sozinho


um trabalho tão variado, efetuou-se a segunda grande divisão
do trabalho”. O trabalho manual (artesanato) separou-se da
agricultura(5).

"A diferença entre ricos e pobres surge paralelamente à


diferença criada entre homens livres e escravos. Da segunda
divisão do trabalho resulta uma nova cisão da sociedade em
classes. A desproporção entre os bens dos chefes de famílias
individuais destrói os antigos agrupamentos comunistas em
todos os lugares onde se haviam mantido até então, e, com
eles, desaparece o trabalho em comum, da terra, por conta
das coletividades. O solo próprio para o cultivo é distribuído
entre as famílias particulares, a princípio provisoriamente e
mais tarde para todo o sempre”(6).

Realiza-se, assim, a transição da propriedade coletiva para a


propriedade privada.

A densidade crescente da população, devida à produtividade


do trabalho acrescida ao fortalecimento dos laços entre as
diferentes tribos, conduziu, pouco a pouco, à fusão dos numerosos
clãs e das tribos, dando origem aos povos. Por outro lado, a
desagregação da comunidade primitiva, a crescente desigualdade
entre os seus membros e, sobretudo, a aplicação generalizada do
trabalho do escravo levaram à formação do Estado, organismo de

360 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


manutenção e opressão da classe explorada pela classe
exploradora.

Sob a pressão das forças produtivas que havia engendrado, o


regime comunista primitivo decompôs-se e foi substituído por uma
nova sociedade, dividida em classes

Os adversários do comunismo afirmam que o comunismo


primitivo jamais existiu e a propriedade privada e a divisão da
sociedade em classes existem desde o princípio da vida social.
Esforçam-se por demonstrar que a propriedade privada é
inseparável da própria natureza do homem e não pode existir outra
espécie de propriedade; e que a sociedade esteve sempre dividida
em classes e uma sociedade sem classes é inconcebível.

A burguesia e seus agentes, na sua luta contra o comunismo


moderno, estão interessados em negar o comunismo primitivo.

Já em 1845, Marx e Engels demonstraram (em Ideologia


Alemã) que o comunismo primitivo foi a primeira forma de
sociedade. Trinta e dois anos depois, em 1877,
independentemente das investigações efetuadas por Marx e
Engels, o sábio norte-americano Morgan chegou à mesma
conclusão, depois de estudar detidamente as tribos selvagens e
semisselvagens da América e das Ilhas do Pacífico. Vestígios de
comunismo primitivo subsistem ainda em nossos dias, entre certos
povos, sob a forma de comunismo agrário: as comunidades rurais
possuem terras em comum e distribuem os lotes em caráter
perpetuo, entre seus membros. A existência do comunismo

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 361


primitivo como fase inicial do desenvolvimento de todos os povos,
não pode ser posta em dúvida.

Perguntas de Controle
1. Que se compreende por comunismo primitivo? Quais
foram suas características fundamentais?

2. Teria sido possível a organização do trabalho individual e da


propriedade privada nas etapas primitivas da sociedade?

3. Por que teria sido ou não?

4. Que influência exerce o nível de desenvolvimento das


forças produtivas sobre as formas de organização da sociedade?

5. Poderia perpetuar-se indefinidamente o comunismo


primitivo?

6. Se a evolução da sociedade tendia a modificar a economia


comunista primitiva, dizer qual foi a causa essencial dessa
modificação.

7. Quando e como se iniciou a primeira divisão do trabalho


social?

8. Quais foram os efeitos da primeira divisão do trabalho


social nas relações entre os homens?

9. Quando e como se iniciou a segunda divisão do trabalho


social?

362 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


10. Que efeitos produziu a segunda divisão do trabalho social
no regime da propriedade?

11. Qual foi a primeira divisão da sociedade em classes?

12. No estado atual dos conhecimentos históricos, pode ser


negada a existência do comunismo primitivo?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 363


Notas de rodapé:

(2) Marx — Prefácio à Critica de la Economia Política — Libreria


Bergua — Madri — Pág. 7. (.)

(3) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(4) Obra citada. (.)

(5) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(6) Obra citada. (.)

364 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


2. A ESCRAVIDÃO
O trabalho dos escravos era relativamente pouco empregado
ao iniciar-se o sistema da escravidão. Ao lado das famílias que
utilizavam a mão de obra dos escravos, havia muitas que se
conformavam com a própria força de trabalho do grupo familiar.
Mas, como consequência do desenvolvimento da troca e do
aparecimento do dinheiro, as pequenas explorações foram sendo
absorvidas pelas maiores, que empregavam a mão de obra dos
escravos. Vejamos como se realizou esse processo.

O crescimento da divisão do trabalho e da troca deu origem a


uma classe — comerciantes — que não se ocupava da produção,
mas apenas comprava e vendia as mercadorias, como
intermediários. Era, como diz Engels: uma terceira divisão do
trabalho, de grande importância(7). Os comerciantes aproveitavam-
se do isolamento dos pequenos produtores em relação ao
mercado. Compravam deles as mercadorias a baixos preços,
revendendo-as a preços elevados. Exploravam, dessa maneira, os
produtores e os consumidores. Por outro lado, do crescimento da
produção mercantil e da circulação monetária resultou que, depois
da compra de mercadorias por dinheiro, vieram os empréstimos e,
com eles, os juros e a usura(8).

O capital usurário acorrentou, mediante dívidas, os pequenos


proprietários — camponeses e artesãos — escravisando-os. Na
Grécia antiga e em Roma, a maior parte dos pequenos produtores
caiu, num período relativamente curto, na dependência servil dos

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 365


usurários. A contenda entre os usurários e os devedores foi a
principal forma de luta de classes dentro da população livre.

"A luta de classes do mando antigo toma primordialmente a


forma de uma luta entre credores e devedores e termina com
a derrota dos devedores plebeus, que foram convertidos em
escravos"(9).

Esta luta conduziu os pequenos produtores à ruína e os


transformou em proletários. Mas na Roma antiga não existiam
proletários no sentido moderno do termo. Não eram operários.
Eram, simplesmente, uma multidão de indigentes. As terras dos
camponeses arruinados eram apossadas pelos grandes
proprietários de terras, ricos, os quais, com o auxílio generalizado
do trabalho dos escravos, criavam grandes explorações (chamadas
latifundia), para a criação de animais, agricultura e horticultura.

Nas oficinas dos artesãos, às vezes bastante numerosas, o


trabalho dos escravos era empregado cada vez em maior escala.
Nas minas, nas grandes pedreiras, na construção de estradas, nas
galeras a remo, em todas as partes enfim, trabalhavam os escravos.
A escravidão era a base da produção. O número de escravos
ultrapassava várias vezes o da população livre. Em Atenas, para
cada 90.000 habitantes livres, havia 365.000 escravos e, em
Corinto, os homens livres perfaziam somente 10 por cento do total
de escravos.

"Assim, devido ao desenvolvimento do comércio, fizeram


rápidos progressos a circulação do dinheiro e a usura, a

366 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


propriedade privada territorial e a hipoteca a concentração e
a centralização da fortuna nas mãos de uma classe pouco
numerosa, ao mesmo tempo que se dava o empobrecimento
das massas e o crescimento do número de pobres. A nova
aristocracia da riqueza, em todos os lugares onde não se havia
confundido já com a antiga nobreza de raça acabou por se
ajustar a essa em Atenas, em Roma e entre os germanos. Além
dessa divisão dos homens livres em classes, com base nos seus
bens de fortuna, produziu, principalmente na Grécia, um
aumento enorme do número de escravos, cujo trabalho
forçado constituía a base de todo o edifício social(10).

O escravo era propriedade absoluta do seu amo, que podia


dispor dele como dos seus rebanhos. Os escravos não possuíam os
direitos civis mais elementares e seus donos podiam matá-los
impunemente. É evidente que, em tais condições, era necessário
recorrer à violência aberta, para forçá-los a trabalhar. A exploração
atroz de que eram vitimas acarretava sua inutilização em pouco
tempo. Ao deixarem de ser aptos para o trabalho, eram mortos.
Para substituir os mortos e aumentar a produção, era preciso um
afluxo incessante de escravos, que lhes eram proporcionados pelas
guerras. Os Estados escravocratas sustentavam guerras de forma
quase ininterrupta.

As explorações e opressões exageradas sobre os escravos


provocaram revoltas, das quais, a mais considerável foi a dirigida
por Espártaco, no ano 73 antes de nossa era. Mas todas essas
revoltas acabavam sendo sufocadas.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 367


A escravidão foi uma etapa necessária ao desenvolvimento da
sociedade humana. Sob as condições de decomposição da
comunidade primitiva, a escravidão chegou a ser a única base para
o desenvolvimento social.

"...a implantação da escravidão representou, nas


circunstâncias daquela época, um grande progresso. É
indiscutível que a humanidade se elevou, a partir do estado
primitivo, semianimal e para tanto precisou recorrer,
portanto, a meios bárbaros, quase bestiais, para sair desse
estado de barbárie"(11).

O trabalho manual constituía a base da produção. A grande


produção não era possível sem a utilização, em grande escala, do
trabalho dos escravos. A escravidão tornou possível maior divisão
do trabalho entre a oficina e o campo, permitiu a construção dos
grandes palácios da antiguidade, a realização de grandes feitos de
navegação e o desenvolvimento da indústria de extração. Sem a
etapa da escravidão, não alcançariam as ciências e as artes (a
matemática, a mecânica, a astronomia, a geografia e as belas artes)
o nível relativamente elevado que tiveram no mundo antigo.

O desenvolvimento das forças produtivas no entanto,


beneficiava somente a um pequeno grupo de exploradores. Para a
massa de escravos significava sofrimentos e, privações incríveis.
Mas, em geral, essa é a lei do desenvolvimento das forças
produtivas nas sociedades divididas em classes.

368 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


"Sendo a base da civilização atual a exploração de uma classe
por outra, seu desenvolvimento se faz, constantemente, por
antinomias., Cada progresso na produção significa, ao mesmo
tempo, um retrocesso para a classe oprimida, isto é, para a
maioria da sociedade. Cada benefício para alguns é
forçosamente um prejuízo para os restantes. Cada grau de
emancipação atingido pôr uma classe é um novo elemento de
opressão contra a outra. A prova mais concludente disso dá-
nos o exemplo da introdução do maquinismo, cujos efeitos o
mundo inteiro hoje conhece"(12).

A escravidão foi, numa determinada etapa histórica, forma


social necessária ao desenvolvimento das forças produtivas e o
desenvolvimento das forças produtivas serviu, por sua vez, como
causa determinante do próprio regime escravagista.

A decadência da escravidão
Sob o regime da escravidão, a técnica desenvolveu-se
pouquíssimo. Na civilização grega e romana eram fomentadas,
sobretudo, a produção de objetos de luxo e de armas, bem corno
a construção de palácios, de templos e de estradas para uso militar.
A técnica, porém, de trabalho, principalmente na agricultura, que
era o ramo fundamental da produção daquela época, permaneceu
estacionária. O desenvolvimento da produção tinha como base a
mão de obra barata dos escravos, que deveriam existir em número
cada vez maior. Ora, a fonte principal para se procurar escravos era
a guerra e, com esse propósito, nalguns séculos, Roma conquistou

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 369


quase toda a Europa Ocidental, a Ásia Menor e a costa
mediterrânea da África do Norte.

Os povos conquistados pelos romanos eram submetidos a


uma exploração brutal. Representavam abundante fonte da qual o
Estado Romano extraía impostos. Além disso, os funcionários
romanos, que administravam as províncias, assim como as tropas
que nelas acampavam, saqueavam implacavelmente os bens da
população. A bárbara exploração dos povos conquistados trazia
consigo, numa palavra, a destruição geral das forças produtivas.

Se, na origem e nas primeiras fases, foi a escravidão um fator


do desenvolvimento das forças produtivas, transformou- se, no
entanto, posteriormente, num fator de destruição das próprias
forças produtivas. A decadência dessas forças devia levar, por sua
vez, à ruina o regime econômico vigente e, finalmente, à sua
abolição. Paralelamente ao empobrecimento gerai da população e
ao declínio do comércio, dos manuais e da agricultura, o trabalho
dos escravos deixou gradualmente de ser economicamente
sustentável.

"Havia passado a época da antiga escravidão. Ao campo, com


a agricultura extensiva, e às manufaturas urbanas, não trazia
mais qualquer proveito que valesse a pena manter a
escravidão. Desaparecera o mercado para os seus
produtos"(13).

Com a decadência das grandes explorações baseadas no


trabalho escravo, voltou a ser vantajoso o sistema da pequena

370 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


produção. O número de escravos libertos aumentou sem cessar e,
paralelamente, foi se produzindo a desintegração dos grandes
latifúndios em pequenos terrenos cultivados por “colonos”. O
colono era o trabalhador que recebia as terras, em caráter
perpétuo, e pagava um tributo em dinheiro ou em espécie. Não
era, apesar disso, um camponês livre, pois estava ligado à gleba e
não podia abandoná-la. Podia até ser vendido com seu próprio
terreno. Por outro lado, já não continuava sendo um escravo, pois
não era mais propriedade individual do proprietário do solo e
ninguém podia forçá-lo a realizar este ou aquele trabalho, nem
privá-lo da terra a que estava ligado. Os colonos foram os
antecessores dos servos da Idade Média e a maioria deles era
constituída por antigos escravos. Também alguns homens livres,
ainda que em menor quantidade, passavam à condição de colonos.

Apesar disso, o regime do trabalho baseado no colono não


podia resolver a contradição criada pelo sistema escravagista.

"A escravidão já não produzia tanto quanto custava aos seus


beneficiários e, por isso, acabou por desaparecer. Mas. ao
morrer, deixou em seu lugar um aguilhão envenenado, sob a
forma do preconceito então existente de que o trabalho era
aviltante para um homem livre. Tal preconceito se
transformou num beco sem saída no qual se encontrava o
mundo romano: a escravidão era economicamente impossível
de manter-se e o trabalho dos homens livres estava
preconceituosamente proscrito. A primeira já não podia
continuar e o segundo não podia ainda constituir a base da

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 371


produção social. O único remédio para tal situação seria uma
revolução completa(14).

Na época em que a economia escravagista era forte e estável,


as insurreições de escravos foram vencidas. Mas a situação mudou
completamente com a decadência da economia escravagista e a
desagregação do Império Romano em geral. A partir do século II, as
insurreições de escravos foram tomando caráter mais agudo e — o
que é particularmente importante — foram ganhando o apoio
decidido de algumas camadas pobres da população livre. Por essa
época, verificou-se a invasão do Império Romano pelos bárbaros
germânicos, a qual facilitou o desenvolvimento das insurreições
dos escravos. O conjunto dessas lutas constitui a “revolução dos
escravos”, a qual, por sua vez, contribuiu para a vitória dos
germanos sobre Roma, acelerou o processo de desintegração do
Império Romano, cuja causa fora a própria revolução, que, por sua
vez, apressava também a liquidação da escravidão.

Nos fins do século V, a luta entre germanos e romanos


terminou com a derrota completa de Roma, o que ocasionou a
decomposição do Império. Os povos germânicos, com uma
população de 5 milhões de indivíduos, aproximadamente, viviam
num estágio inferior de evolução. A escravidão existia, entre eles,
ainda em estado embrionário. No decorrer de sua luta secular
contra Roma, os clãs germânicos adquiriram, como traço
característico, o caráter de uma democracia militar. Depois de
terem conquistado Roma, abandonaram o regime dos clãs, que não
lhes permitia administrar um Estado como o que tinham acabado

372 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


de formar, e criaram, por isso, um novo poder político: o chefe
militar adquiriu poder de realeza.

Os conquistadores germânicos tomaram aos romanos duas


terças partes das terras e distribuíram-nas entre os seus clãs e as
famílias. Parte considerável do território conquistado foi,
entretanto, cedido pelos reis aos chefes militares e estes
distribuíram o que lhes coube dessas terras entre os seus
guerreiros, em caráter perpétuo, porém sem o direito, para os
ocupantes, de vendê-las ou cedê-las. Essas terras que ficaram,
assim, submetidas ao poder do rei tomaram o nome de “feudos” e
seus proprietários de “senhores feudais”. Foi uma época de guerras
incessantes em que a pequena produção camponesa não podia
existir sem contar com a proteção dos grandes senhores feudais,
que eram, ao mesmo tempo, os chefes militares. Durante
quatrocentos anos, a partir da queda de Roma, foram os
camponeses passando gradualmente a depender desses senhores
feudais por serem forçados a colocar-se com suas terras sob a
proteção dos mesmos. Isso determinou, finalmente, que os
senhores se transformassem em proprietários dessas terras,
embora não tivessem o direito de vendê-las nem de cedê-las a
outrem. Em troca da proteção que recebiam, os camponeses
comprometiam-se a fornecer produtos alimentícios aos senhores
feudais e aos guerreiros, assim como a servi-los, realizando
diversos trabalhos. Dessa forma, foi se constituindo, até o século
IX, “o regime feudal ou feudalismo”.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 373


Perguntas de Controle
1. No início da economia escravagista houve alguma nova
forma de divisão do trabalho social?

2. Pode-se chamar capital à riqueza, na época da economia


escravagista?

3. Que influência exerceu a riqueza sobre as diversas camadas


sociais daquela época?

4. Houve luta de classes no seio da sociedade escravagista?

5. Qual foi a principal forma de luta de classes?

6. Existiu, na antiguidade, o proletariado?

7. Quais as semelhanças e as diferenças entre o proletariado


antigo e o proletariado moderno?

8. Quais foram as características econômicas e sociais do


escravo?

9. Que direitos civis possuíam os escravos?

10. A escravidão significou um retrocesso ou um progresso


social, na época em que foi estabelecida?

11. Poderia ter-se perpetuado o regime escravagista?

12. Houve fatores econômicos entre os que determinaram a


decomposição do regime escravocrata? Quais foram?

374 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


13. Houve causas determinantes não econômicas na
decadência da economia escravagista?

14. Tanto na época da decadência de Roma como durante a


decomposição do comunismo primitivo, a economia escravagista
teve o mesmo valor histórico?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 375


Notas de rodapé:

(7) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(8) Obra citada. (.)

(9) Marx — O Capital — Tomo I. (.)

(10) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(11) Engels — Anti-Dühring — Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(12) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(13) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(14) Engels — A Origem da Família, da Propriedade Privada e do


Estado, Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

376 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


3. O FEUDALISMO
A base econômica do modo de produção feudal era a de uma
reduzida produção dos camponeses e dos pequenos artesãos
livres. A produção, em conjunto, tinha um caráter essencialmente
natural(15), pois os objetos produzidos não se destinavam à troca.

A exploração feudal do campesinato assumia duas formas


principais:

1. o camponês era obrigado a trabalhar, gratuitamente, parte


da semana nas terras do senhor (corveia);

2. a entregar parte dos produtos produzidos em sua própria


terra (tributos).

Embora não pudessem libertar-se da dependência feudal, os


camponeses tinham o direito de mudar de senhor.

Os artesãos independentes, que habitavam as cidades e


produziam para vender, satisfaziam parte considerável de suas
necessidades com o fruto de seu próprio trabalho, pois possuíam
rezes, horta e, às vezes, campo. A troca era, principalmente, local,
entre a cidade e as aldeias vizinhas. Havia, também, o comércio de
produtos importados de outros países, entre os quais se
encontravam, sobretudo, artigos de luxo, especiarias, etc. Não
existia, porém, comércio entre as diferentes regiões de cada país.
Devido ao "caráter natural" e pouco organizado da produção,
baseada apenas na exploração agrícola, e, também, ao
desenvolvimento raquítico das trocas, à deficiência das estradas e

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 377


a toda a espécie de vias de comunicação, estavam os países
divididos em províncias e regiões autônomas.

As cidades, habitadas principalmente por artesãos e


comerciantes, tinham de sustentar luta violenta e prolongada pela
conquista da própria autonomia. Para isso, possuíam guarnições
militares próprias e mantinham fortificações. Os artesãos
agrupavam-se dentro das cidades, em corporações profissionais.
Essas organizações eram necessárias à manutenção dos depósitos
comuns, ao controle dos preços e da qualidade dos produtos e
também ao fim de evitar a concorrência entre os produtores. Os
comerciantes, por seu lado, tinham suas próprias organizações de
defesa de classe, as guildes. O que favorecia a conservação e o
fortalecimento dessas diversas organizações urbanas era a
necessidade de defenderem sua independência contra os senhores
feudais. O regime feudal na agricultura era completado, portanto,
pelo regime corporativo nas cidades.

Pouco a pouco, com o desenvolvimento do comércio, foi se


acentuando a exploração dos camponeses. À medida que o
comércio se ia generalizando, o senhor feudal podia adquirir maior
quantidade de objetos de luxo e de armas para seus guerreiros e,
em consequência, era levado a espoliar cada vez mais os
camponeses que dele dependiam. Os tributos aumentaram e o
trabalho gratuito (corveia) foi acentuado.

A exploração camponesa agravou-se, além disso, com a


formação dos Estados centralizados, que foram substituindo os
numerosos feudos. A fragmentação dos países em províncias

378 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


independentes/impunha obstáculos ao comércio, pois os senhores
feudais estabeleciam tributos para o trânsito das mercadorias por
seus feudos. Cada um deles tinha também o poder de cunhar sua
própria moeda, além de muitos outros direitos. Por outro lado, o
comércio era uma atividade sujeita a grandes perigos por causa das
frequentes agressões das tropas feudais aos comboios de.
mercadorias. Por consequência, os comerciantes lutavam pela
abolição da autonomia dos senhores feudais e para isso, se
aproveitavam das guerras entre eles, tomando o partido dos mais
fortes para ajudá-los a submeter os demais.

Com a formação dos poderes centralizados, as tropas feudais


foram dissolvidas e substituídas pelos exércitos monárquicos. Além
dos tributos que os camponeses pagavam aos senhores, foram
criados outros, destinados a manter os Estados feudais. A
tributação em dinheiro foi se tornando cada vez mais frequente até
que, finalmente, os tributos em espécie oneraram produtos dos
campos, se converteram em tributos monetários, o que favoreceu
o desenvolvimento da produção mercantil, pois os camponeses
eram obrigados a vender seus produtos nos mercado afim de
conseguir o dinheiro necessário para pagamento de impostos. Os
camponeses foram submetidos, dessa forma, a uma nova servidão,
desta vez em benefício do "açambarcador" e do "usurário".

O recrudescimento da exploração fez com que os camponeses


abandonassem as terras. Para impedir essa tendência, foram eles
obrigatoriamente ligados à terra, à gleba, transformando-se em
"servos". Sua dependência para com o feudo acentuou-se ainda
mais tomando a forma de "servidão".

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 379


A exploração cada vez maior dos camponeses e o
estabelecimento da servidão provocaram grandes revoltas no
campo (a Jacqucrie, na França, durante o século XIV, a Guerra dos
Camponeses, na Alemanha, no século XVI, as revoltas de Bazin e
Pugachev, na Rússia), tendo todas elas fracassado porque os
camponeses não encontravam aliados nas massas urbanas, que
não tinham ainda entre seus componentes o proletariado.

Nas cidades, deram-se mudanças consideráveis. As relações


entre os artesãos entraram em crise e bem assim as deles próprios
com os comerciantes. Durante o primeiro estágio do feudalismo,
os camponeses fugiam, frequentemente, em direção às cidades
autônomas, cujos habitantes desfrutavam de liberdade pessoal.

Assim foi, sobretudo, que cresceu a população urbana. Ao


iniciar-se esse fenômeno, as cidades tiveram vantagens, pois a
força numérica que elas já possuíam se reforçou para a luta contra
os senhores feudais.

Com o crescimento da população urbana, os artesãos


sofreram a ameaça da concorrência entre produtores de artigos
semelhantes, razão pela qual as corporações procuraram limitar a
admissão de novos membros. Foram aumentados os prazos para a
aprendizagem e os "companheiros", de dia para dia foram sendo
mais explorados, tornando-se-lhes mais difícil a conquista do título
de "mestre". Além disso, as corporações tomaram medidas
destinadas a impedir a introdução de novos métodos de produção
e a combater o comércio dos produtos importados. Por isso, entre

380 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


os comerciantes, geralmente importadores, e as corporações
artesanais declarou-se luta aberta.

A decadência do feudalismo
A organização corporativa dos artesãos transformara-se em
obstáculo ao desenvolvimento da produção mercantil, que
progredia com o comércio internacional. Os grandes
descobrimentos geográficos do século XVI (o da rota marítima para
as Índias e o da América) imprimiram vigoroso impulso ao
comércio.

"O comércio extraeuropeu, que até então só se estendia da


Itália até os portos do Levante, foi levado também à América
e às Índias. Para logo, seu volume ultrapassou em importância
o intercâmbio entre os países europeus e o comércio interno
de cada país. O ouro e a prata americana inundaram a Europa
e penetraram, como ácido corrosivo, por todos os poros,
todas as brechas e vazios da sociedade feudal. A produção
arte sanai não bastava mais para cobrir as crescentes.
necessidades do consumo: nas indústrias mais importantes
dos países adiantados o artesanato foi substituído pela
manufatura fabril"(16).

Eis a gênese da industria manufatureira capitalista. As


profissões menores estavam monopolizadas, nas cidades, pelas
corporações. O capital comercial, interessado no desenvolvimento
da produção, procurou, em contraposição, estender suas
atividades para fora dos centros urbanos, estimulando, assim, o
desenvolvimento da produção artesanal, principalmente a

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 381


indústria têxtil, nos campos. Os artesãos, localizados no meio rural
e, portanto, distanciados do mercado, caíram sob a dependência
dos empresários capitalistas. Essa dependência toma, uma a uma,
as seguintes formas: primeiro, os artesãos são obrigados a vender
seus produtos a baixos preços; em seguida, recebem dos
empresários empréstimos em moeda e em matérias primas; e, por
fim, se transformam em operários. Os operários são apenas os
encarregados de transformar em produtos as matérias primas
fornecidas pelos empresários, os quais, para isso, lhes fornecem as
ferramentas de trabalho e lhes dão a ganhar apenas o suficiente
para poderem viver.

Mais tarde, os empresários foram agrupando, num só local, os


artesãos, até então esparramados, e estes passaram, daí por
diante, para a categoria de operários assalariados, não mais
possuindo meios de produção. O capital comercial transformou-se,
assim, em capital industrial. Ao lado da pequena produção,
apareceu a grande produção capitalista: "a manufatureira".

A manufatura industrial era uma força produtiva


completamente nova, superior, em tudo, a dos pequenos
produtores. Empregava muitos operários e cada um destes
executava uma parte determinada da obra. O trabalho em,
conjunto alcançava um rendimento proporcionalmente bastante
superior ao do trabalho disperso dos pequenos produtores. Antes
do aparecimento da manufatura, só existia divisão social ou
trabalho entre os pequenos produtores independentes, ligados
entre si pelo mercado. Desde o aparecimento da manufatura, a
divisão do trabalho realizou-se no interior mesmo de cada fábrica.

382 | ENGELS, TALHEIMER, HARARI E SEGAL


A essa forma de produção corresponderam novas relações
sociais de produção. O capital existia, até então, apenas sob a
forma de capital usurário e comercial. O comerciante e o usurário
exploravam os pequenos produtores, que tinham seus produtos
para vender. Desde que apareceu a manufatura, o operário já não
vende seus produtos, mas "sua força de trabalho". Os meios de
produção pertencem ao capitalista, que é proprietário das
mercadorias fabricadas pelo operário. Este recebe um salário em
pagamento da força de trabalho gasta e produz "mais-valia" para o
capitalista.

Nessa nova forma, o modo de produção é capitalista. Com o


crescimento das forças produtivas, aparecem e desenvolvem-se
novas relações de produção, chamadas, também capitalistas.

Mas o regime ainda feudal impedia o desenvolvimento das


novas forças produtivas e das correspondentes relações de
produção. Nas cidades, o obstáculo era constituído pelo sistema
corporativo, parte integrante do regime feudal, enquanto que, no
campo, a dependência dos servos privava os capitalistas de mão de
obra barata, embora não servil.

O feudalismo, que, ao nascer, correspondera ao nível de


evolução das forças produtivas da sociedade de então, pôs-se
depois em contradição com as novas forças produtivas que se
criavam com a evolução do capitalismo comercial e usurário para
capitalismo industrial e sua supressão tornou-se uma necessidade
histórica.

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 383


Quando a operação dos camponeses e das massas urbanas
pequeno-burguesas e operárias pelo Estado feudal adquiriu forma
demasiado aguda, irromperam as revoluções burguesas,
pretendendo atingir dois objetivos fundamentais: abolir o regime
feudal e abrir caminho para o desenvolvimento do capitalismo.
Estas revoluções irromperam, na Inglaterra, no século XVII e, na
França, nos fins do século XVIII(17).

"... as novas forças produtivas postas em movimento pela


burguesia — em primeiro lugar, a divisão do trabalho e o
agrupamento numa só fábrica de grande número de operários
— assim como as novas condições e necessidades de
comércio criadas por tais forças, tornaram-se incompatíveis
com o regime de produção existente até então, que fora
transmitido pela história e consagrado pela lei, isto é,
tornaram-se incompatíveis com os privilégios corporativos e
os inúmeros privilégios pessoais e locais da organização social
do feudalismo (que constituíam os muitos obstáculos para as
ordens ou classes não privilegiadas). As forças produtivas,
representadas pela burguesia, rebelaram-se contra o regime
de produção representado pelos proprietários dos latifúndios
feudais e pelos donos de corporações"(18).

Perguntas de Controle
1. Quais as principais características da economia feudal?

2. Que se entende por economia natural?

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3. Qual era a situação da classe camponesa sob o regime
feudal?

4. Eram os camponeses donos de suas terras durante o


feudalismo?

5. A economia natural predominou no regime feudal?

6. Por que motivo os camponeses abandonaram as terras no


começo do feudalismo?

7. Paralelamente à economia natural existiram outras formas


de relações econômicas e de trabalho social no regime feudal? Se
existiram, dizer quais foram.

8. Que novas classes sociais surgiram da economia do tipo


feudal?

9. Depois de estudar esse capítulo sobre a sociedade feudal,


dê sua opinião sobre os seguintes problemas: a) com relação ao
regime escravagista o feudalismo significa progresso ou
retrocesso? b) a situação dos trabalhadores era melhor sob o
regime da sociedade escravagista ou da sociedade feudal?

10. Houve luta de classes no seio da sociedade feudal? Quais


foram suas principais manifestações?

11. Na etapa da decadência do feudalismo, as relações sociais


do tipo feudal correspondiam ao desenvolvimento das forças
produtivas da época?

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 385


12. O comércio influiu na decadência do feudalismo? Por que?

13. Que classe social dirigiu a revolução que destruiu a


economia feudal?

14. No período inicial da sociedade capitalista, a burguesia era


uma classe progressista, conservadora ou reacionária?

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Notas de rodapé:

(15) A expressão economia natural é empregada muitas vezes no


decorrer deste livro. Para tornar clara a expressão, lembramos seu
significado: é o sistema de produção em que a técnica é rudimentar
e os produtos se destinam ao consumo dos próprios produtores,
não havendo mercado organizado. (N.T.) (.)

(16) Engels — Anti-Dühring — Editorial Calvino Limitada — Rio. (.)

(17) Nos países onde o capitalismo se desenvolveu só muito mais


tarde e nos quais a revolução teve lugar quando o proletariado já
estava formado, como. por exemplo, na Alemanha, em 1848, e,
principalmente, na Rússia, em 1905, a burguesia aliou-se ao Estado
feudal, contra a revolução, que também a ela beneficiava! (.)

(18) Marx-Engel-Lewis — Introduccion a la Filosofia y Materialismo


Dialético — Ediciones Frente Cultural — Pág. 209. (.)

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 387


4. O CAPITALISMO
O capitalismo desenvolveu-se economicamente, ao surgir a
produção mercantil, em substituição à economia natural do
sistema feudal. Sob os regimes da escravidão e do feudalismo, de
fato, existiu a troca de produtos, o dinheiro e o comércio, em geral.
Mas a maior parte dos produtos não era destinada ao mercado. Sob
o capitalismo é que a produção mercantil se converteu num modo
de produção generalizado e dominante. O capitalismo fez
desenvolver-se amplamente a divisão social do trabalho. Da
manufatura capitalista, na qual o trabalho manual constituía a base
da produção, surgiu a fábrica capitalista, pro- vida de maquinismos
potentes.

A produtividade do trabalho aumentou consideravelmente.


Surgiram novas mercadorias e cresceu o número de indústrias. O
capitalismo destruiu parte dos antigos modos de produção e o
restante foi incorporado ao seu próprio mecanismo. Promoveu o
desenvolvimento dos meios de comunicação, penetrou em todos
os rincões do globo e criou um mercado e uma economia capitalista
de caráter mundial.

No regime capitalista, a produção não tem como objetivo


satisfazer necessidades sociais. Seu móvel é o enriquecimento dos
capitalistas. A caça aos lucros é sua força motriz. Para alcançar a
maior vantagem possível, cada capitalista, submetido às leis do
mercado, trata de aumentar sua produção, de intensificar a
exploração de seus operários e de introduzir novas e mais perfeitas

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máquinas, afim de diminuir o custo da produção e aumentar seu
lucro.

Já citamos as palavras de Engels quando diz que, numa


sociedade dividida em classes,

"cada passo para a frente, na produção, é ao mesmo tempo,


um passo para trás na situação da classe oprimida, ou seja, da
grande maioria".

O capitalismo agrava intensamente essa contradição, própria,


aliás, de qualquer sociedade dividida em classes.

"Como produtor, à custa do esforço alheio, espoliador da


"mais-valia" e explorador da "força de trabalho", o capitalismo
ultrapassa em energia, exagero e eficiência a todos os
sistemas de produção que o precederam — o escravagista e o
feudal — baseados diretamente no trabalho forçado"(19).

As desenvolver as forças produtivas da sociedade, o


capitalismo revela-se, cada vez mais, incapaz de dominá-las. As
crises, que enfraquecem periodicamente o sistema capitalista e
destroem parte de suas forças produtivas, são bastante eloquentes
na demonstração desse fenômeno de descontrole e anarquia.

O capitalismo torna-se agora um obstáculo ao


desenvolvimento das forças produtivas geradas por ele próprio.
Torna-se uma necessidade histórica a supressão do capitalismo
pelo processo revolucionário e sua substituição pelo comunismo,

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MARXISMO | 389


isto é, pela sociedade sem classes, na qual os meios de produção
sejam de propriedade coletiva.

O desenvolvimento do capitalismo cria as condições materiais


e técnicas necessárias à edificação da sociedade comunista. Ao
mesmo tempo, gera a força que é destinada a derrubá-lo : a classe
operária revolucionária. A situação social desta classe agrava-se
com o desenvolvimento do capitalismo e não tem outra saída
senão a de destruí-lo e construir, a seguir, a sociedade comunista.

A contradição entre as forças produtivas e as relações da


produção
A visão rápida, que acabamos de dar sobre o desenvolvimento
da sociedade, mostra que a passagem de um modo de produção
para outro não é resultado do acaso, mas consequência do
desenvolvimento da contradição que se gera entre as forças
produtivas e as relações de produção. Vejamos como Marx expõe
essa lei da evolução histórica:

"...na produção social para sua existência, os homens entram


em relações determinadas, necessárias e independentes de
silas vontades. Essas relações de produção correspondem a
uma etapa determinada de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais... Durante o curso de seu
desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram
em contradição com as relações de produção que, nessa
época, existem, ou, o que não é mais que sua expressão
jurídica, entram em contradição com as relações de

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propriedade dentro das quais se tinham movimentado até
então. As relações, que eram, antes, formas evolutivas das
forças de produção, se convertem em empecilhos... Então,
uma era de revolução social se inaugura"(20).

Cada sistema de relações de produção ou cada. agrupamento


social (comunismo primitivo, escravidão, feudalismo, capitalismo,
comunismo), cada um tem suas particularidades. Mas, se
considerarmos os três modos, de produção que se seguiram ao
comunismo primitivo, descobrimos um traço comum a todos: as
relações de produção são relações de classes, todos esses sistemas
se caracterizam pelo antagonismo entre as classes. A luta de classes
é o traço fundamental que caracteriza toda a vida social. O
capitalismo é a última sociedade antagônica, a última sociedade
dividida em classes. O seu lugar será ocupado pela sociedade
socialista, sem classes. Esta é a primeira fase do comunismo e sua
edificação inicia-se com a vitória da classe operária, ou, seja, com a
instauração da ditadura do proletariado.

Todas as revoluções anteriores se limitavam à mudança de um


regime de exploração por outro, enquanto que a revolução
proletária suprime toda forma de exploração.

"Só a Revolução Soviética, a Revolução de Outubro, conseguiu


solucionar o problema de não substituir um grupo de
exploradores por outro, de não substituir uma forma de
exploração por outra, mas o de acabar com toda exploração,
suprimir todos os exploradores, ricos e opressores, antigos ou
novos"(21).

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Nas sociedades divididas em classes, o domínio do homem
sobre a natureza realiza-se através da dominação da imensa
maioria da sociedade por um ínfimo punhado de exploradores.
Assim, cada passo para a frente, na produção, constitui um
retrocesso na situação dos trabalhadores, como já o
demonstramos. A revolução proletária, pelo contrário, inaugura
uma nova era, na qual um passo ascendente da produção significa
,ao mesmo tempo, um passo progressista na situação social dos
trabalhadores. Pela primeira vez, a sociedade é dona da natureza.
Pela primeira vez, as forças produtivas podem desenvolver-se com
um ritmo tal, que não seria alcançado por nenhuma sociedade
baseada na exploração de uma classe por outra. O rápido
crescimento das forças produtivas e a vitória do socialismo, na
URSS, são a prova mais evidente desse fato.

Perguntas de Controle
1. O capitalismo existiu nos tempos antigos?

2. Por que somente a economia contemporânea recebe o


nome de Economia capitalista?

3. O capitalismo foi útil ou não ao desenvolvimento das forças


produtivas e à economia em geral?

4. O capitalismo representou um progresso em relação ao


feudalismo?

5. Que novas classes sociais foram engendradas pela


economia capitalista?

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6. As relações econômicas do tipo capitalista aproximam entre
si as classes sociais? Agravam as contradições entre elas? Explique
com argumentos sua opinião sobre esse particular.

7. Qual é a exploração mais eficiente: a feudal ou a capitalista?

8. O capitalismo é capaz de dominar e dirigir as forças


econômicas contemporâneas?

9. O capitalismo de nossos tempos desempenha algum papel


revolucionário?

10. Tem o mesmo papel histórico que na etapa imediatamente


posterior ao feudalismo? Diga quais as razões que o levam a
responder afirmativa ou negativamente.

11. Na sociedade dividida em classes, quais são os beneficiados


pela dominação da natureza?

12. Que diferença existe entre as sociedades divididas em


classes e a sociedade socialista ou sem classes, no que se refere às
relações entre o homem e a natureza?

(Ao Professor — Explique, cientificamente, o conteúdo de


uma classe social e quais as causas econômicas que determinam a
divisão da sociedade, em classes ou a não existência das mesmas.)

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Notas de rodapé:

(19) Marx — O Capital — Tomo I. (.)

(20) Marx — Prefácio à Crítica da Economia Política. (.)

(21) Stalin — No Caminho Certo (Dans la Bonne Voie) — Bureau


D’Editions — Paris — Pág. 12. (.)

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