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O MATERIALISMO

HISTÓRICO EM 14

LIÇÕES

L. A. TCKESKISS
1922
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Primeira Edição: O livro sobre o materialismo histórico é


formado por uma serie de preleções proferidas na Universidade
Comunista para as minorias nacionais do Ocidente, no ano letivo
de 1921-1922.
Fonte: Blog do Velho Comunista.
Transcrição e HTML: Fernando A. S. Araújo

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

SUMÁRIO
Introdução ................................................................. 7
Preleção Introdutiva................................................. 11
Lição I - Fenômenos Sociais e Acontecimentos
Históricos ................................................................. 17
Lição II - A Hierarquia das Ciências .......................... 22
Lição III - A Teoria Organicista na Sociologia .......... 25
Lição IV - Os Conceitos Básicos do Idealismo e
Materialismo ............................................................. 34
Lição V - O Materialismo Francês e a Filosofia Crítica
de Kant ..................................................................... 40
Lição VI - A Filosofia Após Kant-Fichte, Hegel e
Feuerbach ................................................................ 44
Lição VII - Os Fundamentos do Materialismo Histórico
................................................................................. 50
Lição VIII - O Papel e a Influência da Técnica na
Evolução da Sociedade ............................................. 56
Lição IX - A Estrutura da Sociedade e a Divisão de
Classes ..................................................................... 66
Lição X - A Luta de Classes Como Força Propulsora da
História e a Formação da Psicologia de Classe.......... 77
Lição XI - Liberdade e Determinismo; Atividade Social
e Causalidade Social ................................................. 84
Lição XII - Direito e Arte do Ponto de Vista
Materialista .............................................................. 95
Lição XIII - A Religião do Ponto de Vista Materialista
............................................................................... 102
Lição XIV ................................................................ 113

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INTRODUÇÃO
O livro sobre o materialismo histórico que ora
apresentamos ao publico é formado por uma serie de
preleções proferidas na Universidade Comunista para as
minorias nacionais do Ocidente, no ano letivo de 1921-
1922.

Nestes últimos anos, a literatura russa enriqueceu-se


com uma série de compêndios sobre o materialismo
histórico, o que facilita imenso a tarefa do professor.

O materialismo histórico foi entre nós introduzido


como matéria de cursos, e por essa razão já conta com
um programa elaborado e aceito. Durante o curso a que
nos referimos ainda não havia compêndios sobre a
matéria. O autor teve, portanto que elaborar um programa
um tanto diferente do atualmente aceito, mas que oferece,
entretanto algum interesse. O mesmo acontece com a
apreciação de alguns fatos.

Não será, portanto demais apontar ligeiramente os


pontos essenciais, que distinguem o nosso trabalho.

O materialismo histórico é ao mesmo tempo uma


filosofia materialista da historia e uma sociologia
materialista. Desvenda as leis estáticas da vida social e as
leis dinâmicas do desenvolvimento social. O seu método é
o cientifico — materialista. Funda-se sobre bases já

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determinadas nas ciências naturais e antropológicas e


forma os alicerces da historia e da vida social como
ciências positivas. Esses conceitos são o fundo deste curso
e determinam o seu desenvolvimento lógico.

O curso pode ser dividido em quatro partes. A


primeira, a metodologia, compreende uma preleção
introdutiva sobre o objeto do materialismo histórico,
subdividida em Quatro lições. A 1ª destas lições explica o
objeto da sociologia e da historia; a 2ª a posição da
sociologia e da historia na escala das ciências (dificuldades
em organizar a ciência da vida social e da historia); a 3ª
as varias teorias sociológicas e a critica da teoria
organicista (spenceriana).

A segunda parte, a filosófica, compreende Três lições:


a 1ª – Materialismo e idealismo e suas relações com a
ciência; a 2ª – O materialismo do século XVIII e a filosofia
critica e seu papel na ciência; a 3ª – O idealismo
de Hegel e a formação do novo materialismo cientifico
(dialético).

A terceira parte, a sociológica, compreende Quatro


lições. A 1ª – Os fundamentos do materialismo histórico;
a 2ª – O papel e a ação da técnica no desenvolvimento da
sociedade; a 3ª – A estrutura da sociedade e a divisão em
classes; a 4ª – A luta das classes como força motriz da
historia na formação da psicologia das classes.

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A quarta parte compreende quatro lições, destinadas


a mostrar como o materialismo histórico investiga e
explica certas questões filosóficas de um lado, e por outro,
como explica complicados fenômenos sociais,
cientificamente, empregando o método materialista. A 1ª
lição estuda a questão da liberdade e da necessidade
(determinismo); a 2ª – o direito do Estado e a arte, do
ponto de vista materialista; a 3ª – a religião do ponto de
vista materialista (cientifico); a 4ª – o papel das grandes
personalidades e de acasos importantes na historia,
sempre do mesmo ponto de vista.

O curso tem o caráter didático. As preleções não


foram taquigrafadas. Foram apontadas por dois
camaradas, alunos do curso, Portnoi e Liberman, que só
anotaram as linhas gerais. Esses apontamentos serviram
como matéria prima que só foi trabalhada pelo autor, mas
não transformada. Isso se sente no estilo e em alguns
enunciados. Se todas as questões abordadas nesse curso
fossem suficientemente desenvolvidas, o nosso trabalho
exigiria não uma brochura, porem, inúmeros volumes,
mas então perderia o caráter de curso.

As preleções contem poucas citações das obras dos


mestres marxistas. O autor julgou que só viriam aumentar
o texto. O curso todo não é senão um ensaio de transmitir,
numa forma sistemática e logicamente concatenada, os
ensinamentos de Marx e Engels. Em algumas passagens
tenta o autor abordar a questão, empregando um método

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de exposição diverso do usado habitualmente, diferindo


também a sua interpretação; terá sido original sem,
contudo alterar o aspecto geral da matéria.

Num curso são permitidas as repetições e liberdades


estilísticas.

Aproveito a oportunidade para externar meus


agradecimentos aos camaradas Portoin e Liberman que,
com seu devotamento, contribuíram para a publicação
deste curso.

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PRELEÇÃO INTRODUTIVA
Que é o materialismo histórico?

O materialismo histórico é parte da concepção geral


marxista. O que é o marxismo e que lugar ocupa o
materialismo histórico na ciência social e particularmente
no marxismo?

Cada época social tem sua concepção da vida que


surge da ciência e da filosofia dominantes em dada
sociedade e que representam os interesses e pontos de
vista das classes dominantes. Assim, a concepção da vida
na antiguidade era diferente do que na época da
escravidão; a concepção burguesa é diversa da feudal e
do mesmo modo a concepção proletária já se distingue
radicalmente da burguesa.

O marxismo é a concepção, isto é, o modo de encarar


a vida, do ponto de vista do proletariado e que permite
esboçar a concepção que terá a sociedade que ele esta
destinado a criar. Esta concepção surgiu algumas décadas
antes de Marx e com Marx ainda não se completou.

Afirmar o contrario seria estar fundamentalmente em


contradição com as bases do materialismo
histórico. Marx e Engels apenas indicaram as linhas
gerais, segundo as quais a concepção proletária se deve
desenvolver e, quando mais se desenvolve o proletariado,

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tanto mais se deve desenvolver a sua concepção sobre a


vida.

O materialismo histórico como parte do marxismo,


estuda as leis da vida social e a tendência do seu
desenvolvimento. A sociedade humana surgiu, por um
lado, de agregados inferiores e por outro, sendo composta
de indivíduos isolados: organismo, cujo desenvolvimento
está subordinado a determinadas leis químicas e
biológicas, as quais por sua vez, estão ligadas a
fenômenos físicos e, por conseguinte, á natureza em
geral.

Realmente, nada existe na natureza que se ache


isolado, que seja independente, que não tenha relação
com alguma outra coisa. O materialismo histórico está,
portanto, estreitamente ligado ao determinismo e á
moderna ciência natural. Ele não se ocupa com o estudo
das leis gerais da natureza; forma, apenas, do resultado
de todas as ciências a sua base concreta, e emprega o
método cientifico para o estudo da vida social e seu
desenvolvimento. O materialismo histórico é, portanto,
uma ciência cujo objeto é o estudo dos fenômenos sociais.

Com relação a estes fenômenos o materialismo


histórico não se preocupa com pormenores, -- estabelece
somente as leis gerais básicas e as tendências do
desenvolvimento da sociedade. Tomando-se, por
exemplo, os fenômenos sociais, tais como o direito, a

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moral, a religião (que são, alias mais antigos que a própria


ciência social, e que, no entanto atéMarx não tinham sido
cientificamente estudados), nota-se que não são os
pormenores desses fenômenos que formam o objeto do
estudo histórico-materialista. Este, somente estabelece
cientificamente seu conteúdo e as leis do seu
desenvolvimento.

Alguns fatos ou pretensas ciências sociais foram


por Marx e Engels analisados e estudados: são aspectos
da historia, da economia política, e as tendências do
sistema capitalista. Outros foram investigados por seus
discípulos, particularmente por Lenine, que melhor
compreendeu e desenvolveu a escola proletário-marxista.

Á pergunta: qual é o objeto do materialismo histórico,


devemos responder que o materialismo histórico estuda
os fenômenos sociais e a historia.

À segunda pergunta: como ele as estuda, a resposta


é: — do ponto de vista marxista.

O materialismo, que antes era somente uma escola


filosófica, torna-se, alem disso, uma filosofia da historia.

O materialismo histórico estuda, portanto


cientificamente as sociedades e a historia.

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Que significa porem estudar cientificamente uma


coisa, e qual é em geral, a finalidade de uma ciência? Que
é a historia? Pode ela construir uma ciência?

A finalidade da ciência é descobrir e estudar as leis


segundo as quais se apresentam os fenômenos. Para isso
deve a ciência descrever e determinar antes de mais nada
os fenômenos que se propõe estudar. A ciência deve,
portanto buscar as causas dos fenômenos dados e, com
isso, também as relações entre aquelas e estes.
Aquecendo a água até certo grau, obtemos vapor. Temos
aqui dois fenômenos; um conseqüência do outro. Existe,
portanto entre eles uma relação constante. Constatada
essa relação entre os dois fenômenos, obtemos uma lei
empírica. O conjunto das leis forma a ciência.

A finalidade de cada ciência é encontrar a relação


constante entre determinados fenômenos, para a previsão
dos mesmos, porque saber quer dizer prever e só
poderemos prever conhecendo as relações constantes
entre os fenômenos, — as leis (causas e efeitos).

Está claro que nem todos os conhecimentos já


alcançaram o verdadeiro grau cientifico, pois muitos
fenômenos da natureza e da vida ainda não foram
estudados cientificamente. Dizemos, portanto, que os
conhecimentos em geral estão ainda imperfeitos e
incompletos; a sua finalidade é, entretanto, o
aperfeiçoamento, isto é, não deixar na natureza nem na

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vida um só fenômeno que não seja cientificamente


estudado.

O materialismo histórico, dizíamos, tem a missão de


estudar cientificamente e pelo método materialista, a
história e a sociedade (dois conceitos intimamente ligados
entre si). Não é, entretanto a ciência da sociedade em si;
indica somente o método e o processo no estudo das leis
da vida social e do seu desenvolvimento. Não se deve
confundir o materialismo histórico com a sociologia. Esta
estuda e determina as leis estáticas e dinâmicas da
sociedade, enquanto que o materialismo histórico indica
somente o meio pelo qual se descobrem estas leis.

Surge aqui uma questão: se cada ciência deve


determinar as relações constantes entre fenômenos
dados, estes fenômenos devem se repetir. Mas a historia
é somente uma substituição de fenômenos que não se
repetem. Então, como pode a historia ser estudada
cientificamente?

Estas dificuldades explicam o fato de não ter,


até Marx, a história existindo com caráter cientifico.
Existia apenas uma filosofia da historia que procurava
encontrar as tendências do desenvolvimento humano e o
materialismo histórico saiu de algum modo, da filosofia da
historia de Hegel.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

O materialismo histórico criou uma base para a


sociologia, mas não é a ciência da sociedade que alias não
pode substituir; por outro lado descobriu as bases gerais
do desenvolvimento social, — do “progresso” humano,
determinando, cientificamente o conteúdo (a razão de ser)
do progresso em si.

O materialismo histórico, não é porem, a história.

O materialismo histórico é o método cientifico e o


estudo da sociologia, base cientifica para a novíssima
filosofia da história.

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LIÇÃO I

FENÔMENOS SOCIAIS E
ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS
Antes de mais nada, ao encetar a construção de uma
ciência, deve-se indicar o seu objeto, determinar o seu
conteúdo, distinguindo os fenômenos que nela vão ser
estudados. Assim se procede em relação a qualquer
ciência e assim também se deve proceder quanto à ciência
social – a sociologia.

É, porem, muito difícil determinar o objeto da ciência


social, por ser difícil determinar a divisão e distinção dos
fenômenos sociais.

De fato, cada fenômeno social tem de estar ligado aos


esforços que forjam a sociedade, isto é, aos homens e os
fenômenos sociais devem, portanto ser o resultado da
atividade humana, que, como tal está relacionado com a
consciência humana.

O fenômeno torna-se então psicológico. Ao mesmo


tempo o fenômeno esta relacionado com todo o organismo
humano, que, por sua vez está submetido a determinadas
leis fisiológicas, químicas e físicas; o fenômeno social é,
portanto, ao mesmo tempo um fenômeno geral da
natureza. Torna-se por isso difícil a sua definição. Isso

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constitui mais um motivo para a complexidade dos


fenômenos sociais, isto é, o fato de constituírem estes
uma serie de vários e distintos momentos, dos quais é
difícil distinguir o momento especificamente social, para
com estes constituir o conjunto de fenômenos cuja relação
se procura determinar e que é a mola da vida social.

Temos por exemplo, o suicídio, como um fenômeno


da vida social. Que vemos? De um lado é um ato da
vontade humana e, por conseguinte ligada ao ser psíquico,
de outro, o resultado de um processo físico constituído
pela lesão que ocasionou a morte. Temos aqui uma serie
de momentos psicológicos, físicos, químicos, fisiológicos,
e também sociais; e ao analisarmos o fenômeno do
suicídio, temos que passar sobre os vários momentos não
sociais para nos determos somente no momento social,
que constitui o objeto de nossa investigação. Os atritos e
movimentos do projétil, se a morte foi produzida por bala,
o jorrar do sangue, a destruição das células e a morte
como tal, não são ainda o momento social e por isso não
os estudaremos em nosso trabalho.

Mas, o que há de social no ato de investigarmos? O


ato do suicida foi executado por certos motivos que o
determinaram, motivos essencialmente individuais: o
homem, por exemplo, foi levado a esse gesto por uma
desilusão, por pessimismo, ou porque se achava em
estado anormal de consciência. Até aqui, poderá parecer
que se trata de um momento psicológico puro, por nos

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parecerem exclusivamente individual as causas


determinantes do ato. De fato, até aqui nada temos de
social. Mas levamos mais adiante a nossa analise, e
formulemos a seguinte pergunta: quais as causas que o
levaram a desilusão, quais os motivos do seu pessimismo
e, seremos forçados a responder que a causa da desilusão
foi o não se terem realizado as suas esperanças na vida;
porque o lugar por ele ocupado na sociedade, isto é, a sua
posição social, não lhe permitiu alcançar aquilo que
desejava, numa palavra, porque as condições existentes,
nas quais se achava, não o podiam satisfazer, e nada o
prendia á vida, ao contrario, tudo o compelia ao ato que
praticou.

Aqui já temos alguma coisa de social.

Desde que tratamos de atos humanos, há de haver


neles sempre algum sentido social. É este fundo social que
teremos de destacar, investigar e analisar.

Preliminarmente devemos investigar se os atos


humanos se realizam obedecendo a leis ou
espontaneamente. Se obedecem a leis devemos procurar
descobri-las, para se poder prever os fenômenos.
Tomemos o mesmo fenômeno do suicídio. Sabemos pelas
estatísticas, que em cada ano se dão um certo numero de
suicídios e, quanto mais desenvolvida é a sociedade, maior
é o seu numero. Já vemos por aí que o fenômeno do
suicídio não é casual, e deve obedecer a leis, isto é, deve

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haver uma relação constante entre o fenômeno e as


causas que o determinam. Como tal deve ser possível a
sua previsão.

Ora, descoberto e determinado o objeto a ser


estudado numa ciência, já se pode encetar a sua
construção.

Em nosso curso teremos que lidar com fenômenos


sociais já destacados e a nossa missão consistirá em
verificar se existem determinadas leis que provocam esses
fenômenos e os regulam, e se entre fenômenos sociais
diversos, existem relações regulares e determinadas por
leis.

Tomemos ainda o exemplo do suicídio e


perguntemos: é o suicídio um fenômeno constante, cujo
repetição pode ser prevista, ou é ao contrario meramente
casual? Ora, ao investigarmos este fenômeno, veremos
que em sociedades de igual nível de desenvolvimento, a
percentagem anual de suicídios é a mesma e que o
fenômeno, em geral, é regular.

O suicídio é, portanto um fenômeno constante,


obedecendo a leis, que permitem a sua previsão; tem
relações normais com outros fenômenos sociais e é
provocado por estes últimos.

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O mesmo se dá com outro fenômeno, o “casamento”


– relações contratuais entre dois sexos, e mais claramente
no fenômeno do “roubo”. Estes dois últimos são
fenômenos sociais por excelência. São fenômenos
constantes, provocados por causas certas, leis
determinadas e podem ser, portanto investigados
cientificamente.

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LIÇÃO II

A HIERARQUIA DAS CIÊNCIAS


Na lição precedente, estudamos os conceitos de
fenômenos sociais e acontecimentos históricos;
procuramos defini-los, concretizá-los; distinguimos os
momentos físicos, químicos e psicológicos que devem ser
estudados pelas ciências naturais correspondentes e pela
psicologia, detendo-nos somente sobre os momentos
puramente sociais que devem servir de objeto á sociologia
e à historia.

À pergunta: podem esses fenômenos servir de objeto


para uma investigação cientifica rigorosa, responderemos
que, não sendo produto do acaso os fenômenos sociais
puros que destacamos, mas constantes, isto é, que se
repetem e estão relacionados entre si, podem, por isso ser
estudados cientificamente e por conseguinte previstos.

O mesmo sucede também com os acontecimentos


históricos; vimos que, sendo esses fenômenos parte dos
fenômenos sociais em geral, podem igualmente ser
investigados cientificamente. Vimos ao mesmo tempo, em
que consistia a dificuldade do problema da investigação
cientifica dos fenômenos sociais.

Há, entretanto mais uma grande dificuldade sobre a


qual vamos chamar a atenção. Consiste essa dificuldade

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no fato de cada fenômeno social estar relacionado com a


atividade humana que é, antes de tudo, a expressão da
vontade.

Mas o homem supõe que a revelação de sua própria


vontade é um ato livre, que não está sujeito a lei alguma,
e isto ocasiona grande dificuldade ao estudo cientifico do
fenômeno.

O homem selvagem, explica, por exemplo, o trovão


como a revelação da vontade divina. Explica assim os
fenômenos naturais do mesmo modo que os fenômenos
de sua própria vida: sua atividade é o resultado de sua
própria vontade; os fenômenos naturais são para ele o
resultado da vontade divina.

Ora, desde que se empregou semelhante método na


observação dos fenômenos naturais, estes jamais
puderam servir de objeto a uma investigação cientifica. As
ciências naturais por si tiveram que percorrer longo
caminho de desenvolvimento antes de chegarem a se
constituir em verdadeiras ciências, e prepararem assim o
terreno próprio para o aparecimento da ciência social, que
é por isso a mais jovem de todas as ciências.

Mas há ainda uma outra dificuldade; os fenômenos


sociais, conquanto desarticulados, não deixam de ser
fenômenos complexos, ligados a muitos momentos

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estranhos, criando por sua vez mais um obstáculo á


investigação cientifica.(1)

É claro que somente depois que o homem aprendeu a


compreender os fenômenos naturais, e após longo
caminho de experiências, em que se acostumou a
compreendê-los cientificamente, só então pode ele
encetar o estudo cientifico dos fenômenos sociais. Alem
disso, a atividade humana, estando como está,
relacionada com a vida em geral, só pode tornar-se objeto
de ciência quando se começou a investigar as leis da vida
em geral. E tanto assim, que a ciência da vida – a biologia
– é também uma das mais jovens no seu
desenvolvimento. Qual a razão disso? É que os fenômenos
da vida, tomados de um modo geral, tem formas
especiais, singulares (na vida vemos os fenômenos como
resultado de sua própria multiplicação), e para se explicar,
até a bem pouco tempo, procurava-se uma força vital
especial que fosse a causa da vida em si.

Claro está, portanto, que só foi possível explicar


cientificamente os fenômenos da atividade humana,
quando se conseguiu explicar cientificamente os
fenômenos da vida. A ciência que estuda os fenômenos
sociais ocupa, por isso, a última posição na escala das
ciências – na hierarquia das ciências.

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LIÇÃO III

A TEORIA ORGANICISTA NA
SOCIOLOGIA
Na lição anterior estabelecemos a hierarquia das
ciências. Mostramos porque razão as ciências se sucediam
nessa escala e frisamos, aí, os motivos pelos quais deve a
sociologia ser colocada em ultimo lugar. Na presente lição
deter-nos-emos nas principais teorias sociológicas criadas
na época de seus primeiros passos. Veremos como de um
ponto de vista geral foram feitas as primeiras
investigações no sentido de dar á sociologia um caráter
cientifico, e, do ponto de vista particular do materialismo
dialético, em que a colocou Marx.

Augusto Comte procurou lançar as bases da


sociologia como ciência. Spencer levou mais adiante esta
tentativa, que no seu desenvolvimento foi recebendo a
contribuição de uma série de outros cientistas.

As varias teorias mais importantes em sociologia,


tomadas de um modo geral, podem ser classificadas em:
1º) as que procuram as leis gerais da sociologia na
psicologia; 2º) as que vêem essas leis na biologia; 3º) a
teoria marxista.

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Ao estabelecer a hierarquia das ciências, vimos que a


ciência dos organismos, isto é, da vida, é ainda uma
ciência nova; que dela surgiu mais recentemente ainda a
psicologia, ou melhor, a psicofisiologia, que explica até
certo ponto, a atividade individual. E só após esta é que
se pode formar a ciência denominada sociologia — a
ciência da vida humana em sociedade, da atividade social
humana.

Não podemos fazer, aqui, uma ligeira exposição


sequer, das diversas teorias, submetendo-as à critica
marxista (houve cientistas, até, que procuraram as leis da
vida social e as leis da natureza inorgânica nas teorias
de Vico, por exemplo).

É evidente que, sendo a sociologia a mais nova de


todas as ciências (e nisso estão todos de acordo), as leis
de caráter mais geral predominantes nas ciências
anteriores, devem servir-lhe de base, mas as leis de
caráter propriamente social, essas devem ser encontradas
no próprio seio da vida em sociedade. Sem nos determos
nas varias teorias da sociologia, anteriormente
formuladas, analisaremos contudo, antes de passarmos
a Marx, uma das mais importantes — a teoria organicista,
formulada por Kant, desenvolvida porSpencer e levada ás
suas últimas conseqüências por Worms, Lilienfeld e
outros.

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Veremos como essa teoria procura e constrói as suas


leis da vida social; deter-nos-emos no seu nítido sentido
de classe.

Que nos ensina essa teoria? Ela examina a sociedade


como se esta fora um organismo animal, e atribui-lhe
todas as leis que presidem o desenvolvimento dos
organismos individuais. Analisa deste ponto de vista o
organismo social, estuda todas as suas partes
componentes e respectivas funções no seio do organismo
e, partindo de vista biológica, estabelece as leis estáticas
do organismo social, determinando as funções de cada
uma de suas partes separadamente. As relações
harmônicas entre o organismo e seus diversos órgãos,
constituem nesta teoria, a base tanto do organismo
individual como do organismo social.

Segundo esta teoria o organismo social está dividido


numa serie de partes-grupos, ocupando-se cada um
desses grupos ou partes, de um trabalho especial. Uma se
ocupa do comercio, outra com o trabalho físico, uma
terceira com o estudo das ciências, etc. Cada uma dessas
partes ou órgãos da sociedade executa o seu trabalho
próprio, sua função determinada como organismos
individuais.

Deste modo, sucede que existe uma perfeita


correspondência entre os diversos agrupamentos da

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sociedade com as suas funções e os diversos órgãos do


organismo individual.

Assim, o Estado corresponde, por exemplo, ao


sistema nervoso; os sábios ao cérebro; a classe comercial
á circulação do sangue; os camponeses e operários
industriais aos órgãos da nutrição; exercito, policia e a
justiça – aos órgãos de proteção ou defesa.

Todos esses órgãos sociais estão integrados, unidos


ao organismo social, que não pode absolutamente existir
em qualquer deles.

Toda a atividade social se estancaria, se parasse a


função agrícola ou qualquer outra das funções mais
importantes.

Os agrupamentos por si só, estão diferenciados entre


si; cada um tem a sua função determinada e não pode
executar outra.

Como em todo o organismo individual, cada órgão


tem a sua função, também cada agrupamento social com
função própria ocupa um lugar distinto na sociedade e não
pode confundir-se com outro.

A mudança de forma de cada agrupamento social se


opera pela multiplicação e morte de suas diferentes
células-individuos.

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Velamos agora como se desenvolve o organismo


social, segundo essa teoria.

Na opinião dos organistas, dá-se o desenvolvimento


da sociedade – organismo social – da mesma forma que
em todos os organismos individuais: o desenvolvimento
do organismo social, medir-se-á pelo nível de integração
do organismo todo, acompanhado pela diferenciação de
suas diversas partes.

Quanto mais os organismos se desenvolvem, tanto


mais se tornam complexos. O fenômeno de integração
consiste no ajustamento de todas as partes distintas
ligadas e unidas num só organismo ativo. Mas ao mesmo
tempo se torna mais pronunciada a diferenciação entre os
diversos órgãos, isto é, cada órgão se adapta
exclusivamente a determinada função. E, segundo as
mesmas leis de integração e diferenciação, se opera a
dinâmica do organismo social. Este se torna cada vez mais
complexo e integrado; por isso, modernamente, não
temos mais partes estranhas ao organismo social, mas,
membros internos ajustados de um só corpo – a sociedade
humana – e ao mesmo tempo muito diferenciados entre
si.

São essas as leis básicas da estática e da dinâmica


social formuladas pela teoria organicista da sociologia.

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Onde estão os erros científicos desta teoria?


Primeiramente apontaremos um grande erro
metodológico: ao construirmos a hierarquia das ciências,
mostramos que uma ciência nova só pode ser criada
quando no campo da observação surgem fenômenos
novos e mais complexos, que não podem ser explicados
pelas leis das ciências anteriores. Se se pudessem
explicar, por exemplo, os fenômenos da vida, pelas leis
puramente químicas, a biologia não se teria desenvolvido
como ciência à parte e independente. Permaneceria como
parte da química, do mesmo modo que a óptica e a
acústica constituem partes da física. Isso quer dizer que,
se os fenômenos da vida social se realizam e explicam
pelas mesmas leis orgânicas, como os da vida de um
organismo simples (ser vivo), a sociologia não teria então
direito de pretender uma existência á parte e
independente, um lugar distinto na hierarquia das
ciências.

Esse é o primeiro e fundamental erro da teoria


organicista em sociologia.

Observamos, porem, o conteúdo social dessa teoria


que é, de um lado, uma teoria do desenvolvimento em
geral (pois Spencer foi o fundador da teoria da
“Evolução”) e, de outro, uma formula justificativa das
atuais formas de “civilização” da vida social, tendo-as
como normais, determinadas e necessárias.

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Com efeito, essa teoria traça um perfeito paralelo


entre o desenvolvimento do organismo social, tendo-as
como normais, determinadas e necessárias.

Com efeito, essa teoria traça um perfeito paralelo


entre o desenvolvimento do organismo social individual,
desde o estado embrionário ao mais aperfeiçoado e afirma
que toda a historia da humanidade representa um
aperfeiçoamento gradual da sociedade, uma sempre
crescente integração e estabilização de seus diversos
agrupamentos ou órgãos ás suas funções respectivas e ao
organismo todo, e ao mesmo tempo, uma sempre
crescente diferenciação entre esses diversos órgãos. Essa
existência dos diversos órgãos ou agrupamentos, ou
melhor, das classes na sociedade, é, segundo essa teoria,
uma coisa natural e cada tentativa para a modificação das
formas sociais, não passará de uma loucura e resultara
improfícua.

O sentido social de classe, dessa teoria, ressalta á


vista e não carece de comentário algum.(1)

Spencer, como “evolucionista” que era, prediz


também o desenvolvimento futuro da sociedade. Mas
segundo sua opinião a sociedade se desenvolve no sentido
de uma especialização cada vez maior do trabalho, para
uma integração e estabilização cada vez maiores ás suas
funções. O conteúdo de classe nesta perspectiva é ainda
mais acentuado.(2)

31
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Como deve então ser construída a ciência da


sociedade? De um lado não devem ser praticados erros de
método na investigação. A vida da sociedade se realiza
segundo leis que lhe são próprias, leis que se distinguem
das biológicas, como estas se distinguem das leis da
química. Umas leis não contradizem as outras; pelo
contrario, estão entre si em perfeita harmonia; mas as de
caráter geral não podem explicar a diversidade e
complexidade da vida social e de seu desenvolvimento.
Por outro lado deve-se encontrar o caráter
especificamente social nos fenômenos que emanam da
atividade humana e, destarte, descobrir as leis sociais,
estáticas e dinâmicas.

Somente deste modo foi que se construiu a sociologia


marxista.

32
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) Quanto á dinâmica da sociedade, Spencer incide no mesmo


erro metodológico do que quanto á estática. A sociologia,
oriunda da biologia, pode, talvez, ser aplicada para investigação
da vida e desenvolvimento dos seres inferiores. Entretanto a
sociedade humana tem outros aspectos inteiramente novos e
peculiares que não podem ser explicados pelas leis que regem
as sociedades dos animais inferiores. (retornar ao texto)

(2) O publicista russo Mikailowsky, criticando esta teoria do


“pregresso” de Spencer, mostra, muito acertadamente, que ela
não toma em consideração o homem vivente, nem os seus
sentimentos de felicidade, alegria, bem-estar, etc. (retornar ao
texto)

33
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO IV

OS CONCEITOS BÁSICOS DO
IDEALISMO E MATERIALISMO
Afirmamos, numa das nossas lições anteriores, que a
sociologia marxista é materialista, bem como a sua
correspondente filosofia da historia. E por isso toma ela o
nome de materialismo histórico. Em que consiste a parte
materialista do materialismo histórico? Materialismo
histórico e materialismo filosófico, não são a mesma coisa.
É possível ser-se materialista em filosofia e idealista em
historia. Mas o materialismo histórico está intimamente
ligado ao materialismo filosófico e dele extrai sua seiva
histórica. Para compreender o materialismo histórico
deve-se, portanto, ter ao menos uma compreensão geral
do materialismo filosófico.

O materialismo, em geral, se contrapõe ao idealismo;


não se pode realmente compreender o materialismo sem
conhecer o seu oposto — o idealismo. Para se responder
à pergunta, sobre o que vêm a ser materialismo e
idealismo, não colocaremos a questão tão
metafisicamente, do seguinte modo: “qual é a primeira
causa de tudo o que existe, a matéria ou o espírito?”, se
há principio e fim em tudo o que existe. Formularemos a
questão um tanto diferentemente. No mundo em
existência que concebemos, sentimos primeiramente a

34
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

nossa própria existência que se compõe em certo sentido


de duas partes: 1º) vemos a nós mesmos como um corpo:
— nosso corpo material; 2º) sentimos a nós mesmos como
elemento de manifestações internas: — pensar, sentir,
saber. São esses os dois momentos principais que cada
“eu” sente em sua própria existência. Por isso, ao
construirmos uma escola filosófica, temos diante de nós
dois caminhos a seguir: 1º, a escola materialista
afirmando que em todo o existente está a matéria, o
corpo; que tudo na natureza é objeto da percepção dos
nossos sentidos e que o pensamento humano é o
resultado da matéria — o pensar é atributo da matéria,
como todos os outros, ou 2º), a escola idealista que diz
sentirmos primeiramente a existência das nossas
emoções, dos nossos pensamentos e que o corpo, — a
matéria existe tão somente porque o “eu”, o nosso
pensamento concebe. A pedra, por exemplo, que não se
concebe a si própria, não tem existência. Percebemos um
fenômeno com os nossos órgãos, vemo-lo com os nossos
olhos, mas o ato em si de ver, o fato como tal, não é
material, não pode ser visto nem tocado. Esta escola toma
por isto como base o espírito, o pensamento. A matéria é
por ela tomada como um acidente ou como corporificação
do espírito.

A que pode conduzir e a que nos levaram o


materialismo e o idealismo em seu desenvolvimento
histórico?

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Desde que verificamos ser o corpo, a matéria, o


objetivo, o que realmente existe, devemos estudá-lo antes
de tudo, conhecer suas prioridades e só assim é que
poderemos conhecer o mundo. O materialismo tornou-se
assim um propulsor do desenvolvimento das ciências,
graças ao fato de construir as suas concepções sobre a
matéria.(1)

Os idealistas, ao contrario, diziam que se devia antes


de tudo investigar as manifestações internas, — o espírito,
o fator básico de tudo o que existe; que se pode
apresentar até sob a forma de matéria. Mas o espírito é
algo que não se pode apreender, que não se pode
investigar. O espírito, como tal, não pode estar sujeito a
força alguma, e, pelo seu conteúdo, só pode ser explicado
espiritualmente ou divinamente. O desenvolvimento
histórico dessas duas doutrinas deu-se de tal forma, que
o materialismo cresceu e se desenvolveu ao lado da
ciência, ao passo que o idealismo achava-se quase sempre
ligado á religião, ou se entretinha com a metafísica
especulativa, divagando sempre nas esferas da metafísica
e da teologia.

O materialismo filosófico encontrou em seu percurso


uma série de dificuldades. Porque como escola teve muitos
defeitos. Enquanto, por exemplo, o materialismo afirmava
que a base de tudo o que existe é a matéria e procurava
estudá-la profundamente, foi ele um grande auxiliar do
desenvolvimento das ciências, mas desde que via na

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

matéria um elemento imutável, de formas definitivas e


eternas, tropeçava forçosamente, com o tal ponto de
vista, num entrave á verdadeira concepção da natureza.

Ao materialismo dessa época, era incompreensível o


ponto de vista da evolução, de desenvolvimento, ou, em
outros termos, o conceito de um processus. O idealismo,
ao contrario, tinha neste ponto uma vantagem sobre
aquele. Reconhecendo que tudo é espírito, isto é, algo que
não podemos ver, cujo conteúdo não podemos apreender,
algo que existe e não existe ao mesmo tempo, que cria
sempre novas formas, o idealismo, com esta concepção,
não podia ser estático, tinha, pois, tendências a chegar à
idéia de evolução. O idealismo tentava compreender não
só o que existe, mas também o que vem a existir, não só
o que é, mas também o que vem a ser. Segundo seu
conteúdo o idealismo tinha forçosamente de chegar à idéia
de desenvolvimento, de evolução e de processus; delas no
percurso do desenvolvimento da filosofia, devia-se
forçosamente chegar a uma síntese entre os elementos
fortes do materialismo e dos elementos sólidos do
idealismo. O idealismo tinha seu defeito peculiar, que era
o de não se basear na matéria, — sobre o que existe, e
procurar apenas as leis gerais do pensamento humano.
Ele construía sobre si mesmo, estava longe da
experiência. O materialismo, ao contrario, estava
intimamente ligado ao que existe, — com a natureza e
com experiência. Mas a natureza e a experiência, ele as
compreendia estaticamente, como algo que existisse

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

sempre com a mesma forma, eternamente. As idéias de


criação e de influencia de um fenômeno sobre o outro,
eram-lhe estranhas. O materialismo não possuía asas que
lhe permitissem voar e não podia penetrar o intimo da
natureza. O idealismo, ao contrario, procurava encontrar
e penetrar o intimo da natureza, mas achava-se suspenso
no ar, sem base em que se apoiar.

No transcurso do seu desenvolvimento, essas duas


escolas se reuniram em certa medida e formaram uma
nova filosofia cientifica — o materialismo moderno, que
encerra em si um ponto de vista monista, unitário, visto
que reúne numa concepção única, — espírito e corpo.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) Até mesmo os materialistas, que admitem ter sido a matéria


criada originariamente por uma força sobrenatural pensavam
ter sido criada desde logo com certas propriedades, as quais lhe
deram durante seu desenvolvimento a força de um fator criador
independente. (retornar ao texto)

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO V

O MATERIALISMO FRANCÊS E A
FILOSOFIA CRÍTICA DE KANT
Caracterizamos a diferença entre o idealismo e o
materialismo em sua formação e desenvolvimento
histórico. Apontamos seus defeitos e virtudes; vimos
aonde ambos podiam levar e onde chegaram. Agora deter-
nos-emos no desenvolvimento do materialismo e
idealismo nos últimos tempos: — no materialismo do
século XVIII e no idealismo da filosofia critica de Kant.

Os materialistas do século XVIII, que já estavam mais


ligados à ciência progressista e já tinham atrás de si mais
experiências que os materialistas das gerações passadas,
já se detinham mais no estudo das leis da natureza, e a
idéia de que tudo obedece a leis começou a dominar na
filosofia materialista. As ciências naturais já tinham então
alcançado um certo grau no seu desenvolvimento, e o
materialismo já tinha alguma coisa em que se basear.
Uma vez determinado que todos os fenômenos naturais se
realizam obedecendo a certas leis, o materialismo chegou
à conclusão de que o homem e suas atividades devem
também ser o resultado de outras tantas leis naturais.
Partindo desse principio, o materialismo francês do século
XVIII criticou asperamente a concepção teológica do
mundo, e provocou deste modo uma seria revolução nas

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

idéias das camadas mais intelectuais da sociedade;


tornou-se a filosofia da nova classe, — a burguesia, que
lutava para arrancar o poder das mãos da classe feudal,
sendo esta apoiada pelo clero, ambas as quais
perturbavam o desenvolvimento da ciência.

Firmada assim a idéia, ou principio do determinismo


(obediência as leis), o materialismo procurou estabelecer
as mesmas bases para a vida social, à semelhança do que
observará nos fenômenos naturais.

Para materialistas como Helvetius e Diderot, por


exemplo, a idéia de necessidade histórica já era evidente.
Para eles devia ser formulada uma outra questão: — seria
possível modificar as formas sociais existentes?
Poderemos encontrar os meios de melhorar a vida?

O materialismo que, como vimos, chegou ao ponto de


vista do determinismo, era no entanto ainda um
materialismo naturista. Os materialistas franceses
tomando a natureza e seus fenômenos como necessidade,
entendiam que as leis, segundo as quais se operam os
fenômenos, devem ser eternas, como a própria natureza.
Do mesmo modo, no que concerne à sociedade humana,
entendiam que a vida deve aí realizar-se segundo leis
internas e imutáveis, por suporem imutáveis e eternas as
relações entre os fenômenos aí observados. Quais eram,
porem, essas leis, é que não sabiam.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

A história nos mostra que na vida social sempre se


operam transformações. Mas onde está a causa dessas
transformações e mudanças? E ainda mais: as formas
existentes da vida social, não são por certo as que seriam
de desejar; a sociedade não pode sem deve ficar assim
como está; deve ser modificada! No entanto, foi a questão
formulada deste modo: — como se pode e se deve
modificá-la? Para isso foram dadas duas soluções: a
primeira, diz: — sendo o homem de natureza boa e
aspirando sempre o bem, o desvio do bem caminho, não
é senão o resultado de ter-se o homem afastado de seu
estado natural (J.J. Rousseau), tornando-se “civilizado”.
Deve-se, portanto, fazer voltar o homem aquele estado
natural, para se eliminar essa má organização. A segunda,
afirma: a sociedade humana evolui; portanto, este estado
de coisas pode ser mudado. Mas como? Pela educação. A
sociedade humana é composta de indivíduos e, querendo,
pode-se mudar a sociedade toda. Deve-se, para isso,
educar os indivíduos. O materialismo colocou-se, em tais
condições, num ponto de vista puramente utopista.
Ignorando as leis do desenvolvimento da sociedade, teve
que se conservar nessa atitude. O historiador da
Restauração fez um certo progresso nesse sentido. Tendo
atrás de si a tempestuosa Revolução Francesa, chegou á
questão da atuação das condições externas, a questão do
meio, da qual depende a atividade humana. Mas estando
no ponto de vista de que as variações do meio dependem
da natureza humana ou das opiniões humanas, recaiu o

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

historiador num circulo vicioso. Chegando assim á questão


do meio, não puderam, todavia explicar as variações que
se operam na sociedade.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO VI

A FILOSOFIA APÓS KANT-FICHTE,


HEGEL E FEUERBACH
Na presente lição, tocaremos ligeiramente no
desenvolvimento do idealismo alemão e na formação do
materialismo dialético.

O desenvolvimento das idéias na filosofia, após Kant,


tomou duas direções: por um lado, com Fichte, tomando
o caráter de um idealismo subjetivo, que foi levado à sua
conclusão lógica até o solipsismo (afirmação de que só
existe o “eu” e seu mundo interno) e, por outro,
com Hegel, transformando-se num idealismo objetivo, na
filosofia da idéia absoluta, de Hegel. Na verdade, a
filosofia da “coisa em si” de Kant, nada pode explicar. E
assim como o próprio Kant, em sua critica da razão
pratica, tentou penetrar a “coisa em si” e descobrir seu
segredo, os filósofos seus continuadores colocaram o
dualismo de Kant de lado e voltaram-se para o idealismo
puro, filtrado pelo criticismo.

A filosofia de Hegel deu um grande passo com o fato


de estudar o espírito, de um modo geral: — a idéia
absoluta, — aproximando-se muito, por este meio, da
idéia de evolução. Em sua dialética
desvendou Hegel certas leis da evolução, que até então

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

não haviam sido descobertas. Reconhecia-se então,


apenas o fato da mutabilidade dos fenômenos, mas não
se conheciam as leis de sua evolução. Não se compreendia
o papel das contradições na evolução da natureza, do
homem e da sociedade. Investigando a idéia absoluta e
sua evolução, descobriu Hegel, que ao analisarmos bem
um conceito notamos que este conceito guarda em si o
principio de sua negação — sua contradição —, e assim
esse conceito se desenvolve passando ao seu oposto. Este
conceito da contradição transportamo-lo ao fenômeno,
quando queremos estudá-lo e compreende-lo. Tomando,
por exemplo, o conceito de “ser” ou existência, para
determiná-lo, devemos contrapor-lhe o “não ser”. Em
“ser” já deve estar, portanto, contido também o “não ser”,
por ele compreendido. O oposto dos dois será porem o “vir
a ser”, que contem em si, dum lado, o ser, no sentido de
que o “vir a ser” indica que “será”, e por outro lado, o “não
ser”, porquanto ainda não o é. Assim entendia Hegel a
marcha da evolução, na forma de tese, antítese e síntese.

A que nos levou essa formula, o assim chamado


método dialético? Levou-nos ao seguinte: investigando-se
cada fenômeno como evolução da idéia, deve-se estudá-
lo não só em seu “ser”, mas também em seu “não ser”,
em seu “vir a ser”, em suas novas formas, isto quer dizer
também que os fenômenos na natureza evoluem, segundo
as leis da dialética. Os fenômenos sociais também devem
ser observados segundo esse critério. O
próprio Hegel explica a queda da Lacedemonia pelas suas

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

contradições, isto é, sua lei da transformação da


quantidade em qualidade, deu um golpe de morte no
evolucionismo vulgar e criou uma base cientifica para a
teoria dos “saltos” na natureza e na sociedade. Sua
filosofia, porem, estava de cabeça para baixo. A realidade,
segundo ele, não é mais que a sombra da idéia; não é a
natureza, a vida, que se desenvolve, mas sim, as idéias.
A filosofia em tais condições deveria ser posta sobre os
pés. E isso foi o que fizeram os discípulos de Hegel.

Primeiramente com Feuerbach, o materialismo tentou


novamente ocupar o lugar saliente na filosofia. O
materialismo de Feuerbach é, entretanto, antropológico.
A matéria, segundo ele, é o organismo humano; a idéia —
a propriedade desse organismo, isto é, o pensamento, o
cérebro. O pensar é o reflexo da vida do homem, seus
sofrimentos, sua alegrias, seus receios e esperanças. A
idéia absoluta, de Hegel, transforma-se assim numa idéia
humana. De abstrata, ela se torna concreta. Entretanto,
para Feuerbach, o homem mesmo, era abstrato e
independente de espaço e de tempo. Quer a idéia, quer a
matéria foram para Feuerbach humanizadas. Entretanto,
o homem mesmo, não foi por ele concretizado nem
historicamente compreendido. Seu materialismo não sai
dos limites da filosofia naturista, não se estende pela
historia da humanidade. No materialismo
deFeuerbach não se descobre também a dialética
de Hegel. A grande tarefa, de fazer penetrar no
materialismo, o espírito dialético de Hegel e estendê-lo

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

também á historia da humanidade e á vida social, somente


a puderam realizar Marx e Engels.

Devemos apontar outros merecimentos da filosofia


idealista alemã. Ela esclareceu a questão da contradição
entre a liberdade e a necessidade na vida social. Se a idéia
de determinismo (não há efeito sem causa), de
necessidade lógica, tomou aos poucos lugar nas ciências
naturais, a questão foi muito mais difícil nas ciências
sociais. Aqui tropeçou-se, por um lado, com a questão da
liberdade e, por outro, na de fatalidade.

Sabemos que a questão de necessidade e liberdade


foi formulada pelos materialistas franceses. Mas eles
caiam em um circulo vicioso. A atividade humana é,
segundo eles, o resultado do meio e o meio o resultado
das opiniões. O meio se transforma graças às
modificações que se operam nas opiniões. Tomando por
base as opiniões, a atividade do homem é livre; tomando,
porem, por base o meio, essa atividade deve, então, ser
uma necessidade, isto é, determinada pelo meio. Uma das
tarefas mais difíceis era, pois, a união de dois conceitos:
— necessidade e liberdade. A necessidade (a
determinação por causas) e a liberdade (atividade livre)
não devem opor-se. Ao contrario, uma deve ser
complemento da outra. O socialismo, por exemplo, é
determinado, ele deve chegar; porem, somente virá, pela
atividade humana; contem, portanto a liberdade
(atividade humana).

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

A atividade humana — a liberdade, está


necessariamente contida na determinação histórica . (1)

Como, porem, se formou da tese e da antítese — do


materialismo francês e do idealismo de Hegel, a síntese –
o materialismo dialético?

Nos materialistas anteriores, o meio era a reunião de


todas as opiniões existentes na sociedade. E mesmo
quando deparavam com interesses materiais,
consideravam igualmente a luta entre esses interesses
como o resultado das opiniões. Ficaram sendo, portanto,
idealistas, no sentido de compreender e explicar a historia.
Não descobriram a matéria da vida social. Essa matéria,
isto é, essa realidade, foi descoberta pelo materialismo
histórico. Foi este que deu ao meio um sentido próprio.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) Tocamos aqui, somente de passagem, a questão da


liberdade e determinismo na vida social. Mais detalhadamente,
examinaremos a questão numa das lições seguintes. (retornar
ao texto)

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO VII

OS FUNDAMENTOS DO
MATERIALISMO HISTÓRICO
Vimos na ultima preleção como os materialistas e
historiadores franceses não puderam definir o que é o
“meio”.

Tentemos analisar o meio.

Que vemos nele? — Vemos diante de nós homens que


mantém relações entre si, e perguntamos: — qual será a
causa principal dessas relações e em que consiste este
entrelaçamento de relações ente os homens? Devemos
tomar aqui o sentido mais elementar da vida social e
talvez encontremos aí a matéria de sua evolução.

Para existir, deve o homem desempenhar uma certa


atividade em relação á natureza exterior. Ele deve
adaptar-se á natureza para poder viver e não ser por ela
aniquilado. E essa adaptação se realiza graças á atividade
do homem. Mas só na adaptação não poderemos
encontrar o conteúdo, o característico da vida social
humana. Uma adaptação á natureza encontramos
também nos seres inferiores. Na simples adaptação há,
portanto, pouco de humano, menos ainda de social. Que
é então o que distingue a adaptação humana á natureza?

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Em primeiro lugar a forma social. Essa adaptação se


realiza não em forma individual; o homem se adapta á
natureza, socialmente. Duas formas de atividade humana
estão ligadas á sua adaptação à natureza: 1º, uma
atividade que serve diretamente à satisfação das
necessidades de sua existência (nutrição, reprodução).
Para satisfazer suas necessidades desta natureza precisa
o homem exercer certa atividade (por exemplo, comer,
beber, respirar, manter relações sexuais, etc.), mas essas
atividades são provocadas diretamente pelas proprias
necessidades de momento. 2º, há uma outra atividade
que serve indiretamente á satisfação das necessidades
(cozinhar para comer, puxar água para beber, colher
frutas para comer, etc.). A atividade do homem na
primeira forma, serve-lhe para satisfazer diretamente
suas necessidades, só pode ser útil ao individuo que
exerce essa atividade (não se pode comer por outros). A
atividade da segunda forma (satisfazer indiretamente
suas necessidades) pode ser também útil a outros (pode-
se colher frutas para outros, pode-se trazer água não só
para si, como também para que outros bebam). Essa
atividade do homem, que serve diretamente a satisfazer
suas necessidades, tem uma característica especial, que
consiste na possibilidade de se tornar social. A essa
atividade, em geral, denominamos: trabalho.

Analisemos mais detidamente o que acabamos de


referir. Trabalho, isto é, não só atividade direta, mas
também indireta, notamos também em certa proporção,

51
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

nos seres inferiores. O que, pois, distingue o trabalho


humano do trabalho dos seres inferiores? Tentou-se
definir o homem como o animal racional (homo sapiens);
mas, sendo a razão no homem, o resultado de um
desenvolvimento muito adiantado, não pode ela servir de
característica para a definição do homem. Muito mais
certo é a definição dada por Franklin: “o homem é um ser
que faz e usa instrumentos”.

O trabalho de fazer e usar instrumentos é sempre


uma atividade indireta. Mais ainda, esse trabalho é uma
condição necessária ao desenvolvimento do próprio
trabalho. Nos seres inferiores, essa atividade não
desempenha, por isso, grande papel. Eles não têm as
possibilidades de se desenvolver. No homem, ao contrario,
a atividade, o trabalho, começa a desempenhar o papel
mais importante em sua vida. O instrumento é, portanto,
o momento principal que distingue a atividade do homem,
seu trabalho, de todos os outros seres vivos. A matéria,
isto é, a base concreta da sociedade, consistirá, portanto,
no trabalho para satisfazer as necessidades humanas, nas
quais o instrumento, como meio de adaptação á natureza,
desempenhará o papel principal.

A totalidade dos instrumentos que o homem cria no


processo de sua adaptação à natureza é chamada técnica.
A técnica pode também ser chamada de meio artificial. O
homem se adapta ao meio natural criando um meio

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

artificial. No meio artificial esta corporificada a matéria da


vida social.

Vejamos agora como se opera o desenvolvimento da


sociedade humana. Os seres inferiores que se adaptam à
natureza pelos seus órgãos naturais, estão em certo
sentido, limitados pela construção esses mesmos órgãos,
pelo seu estado fisiológico. O seu desenvolvimento opera
lentamente levando milhares de anos para apresentar
pequenas modificações, aumentando muito pouco suas
qualidades de adaptação.

Os instrumentos, que podem ser considerados como


órgãos artificiais, têm a grande virtude de terem um
desenvolvimento quase ilimitado. Em todo caso, os
instrumentos se tornam quase independentes do
organismo humano e são de possibilidades quase
ilimitadas, como as forças da natureza. A criação de
instrumentos mais aperfeiçoados depende da
correspondente exploração da natureza, cujas riquezas
são inesgotáveis. Podemos ver, portanto, qual o papel que
deviam e podiam exercer os instrumentos na historia da
humanidade. Os instrumentos tornam possível a
exploração da natureza com menos dispêndio de energias,
conseguindo deste modo resultados mais favoráveis e
assim permitindo ao homem adaptar-se cada vez mais ao
meio.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

A historia nos mostra que com o desenvolvimento do


homem, ele adquire cada vez mais necessidades e novas
qualidades. Surge então a questão: qual a origem dessas
novas necessidades e dessas novas qualidades? Onde
devam ser procuradas as causas do seu aparecimento?
Bem entendido, as causas do aparecimento dessas novas
necessidades cada vez mais diversas não podem ser
encontradas no próprio homem, mas sim fora dele, isto é,
na influencia exercida sobre ele pela natureza que o
circunda, pelo meio. A própria natureza, muda, porem,
muito lentamente. Se a evolução do homem dependesse
somente da mutação do meio natural, no qual ele se
encontra, essa evolução seria tão lenta que se tornaria
quase imperceptível. Nas primeiras etapas do
desenvolvimento humano notamos quão lentamente se
opera essa evolução. O meio natural age pouco sobre o
desenvolvimento das necessidades do homem, sobre o
aperfeiçoamento de suas habilidades, sobre a mudança de
sua natureza.

A causa, por conseguinte, só pode ser encontrada no


meio artificial, que cresce vertiginosamente.

A causa do desenvolvimento humano, deve pois, estar


na adaptação do homem ao meio natural, na atividade
indireta do homem que é o trabalho, na criação de
instrumentos que é a técnica, no meio artificial que cresce
e se expande sem limites.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Estabelecemos, portanto, que o trabalho e a técnica


formam a base da vida social e da evolução humana.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO VIII

O PAPEL E A INFLUÊNCIA DA
TÉCNICA NA EVOLUÇÃO DA
SOCIEDADE
Na lição anterior mostramos o meio artificial que o
homem cria no processo de sua adaptação à natureza. O
conteúdo, isto é, a definição do meio encontramo-lo na
técnica (meio artificial), que é a matéria ou base concreta
da vida social. Devemos ver agora qual o valor da técnica
em relação à sociedade. Qual o papel de seu
desenvolvimento na vida da sociedade e quais as relações
entre os homens, no processo da criação dos
instrumentos. Mas antes, deter-nos-emos em certos
fenômenos ideológicos como a linguagem, por exemplo,
que é uma condição pre-estabelecida para o aparecimento
da ciência da qual depende a técnica e seu
desenvolvimento e que é um dos meios mais importantes
e condição preliminar de quaisquer relações entre os
homens; veremos então, se estes fenômenos importantes
que exercem um papel tão preponderante na evolução da
sociedade, não são como tais, o resultado da evolução da
técnica, isto é, dos instrumentos de trabalho.

Sabemos que a origem da linguagem está relacionada


com o trabalho (trabalho segundo a definição dada na
lição anterior); a linguagem segundo ensina a moderna

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

ciência das línguas (teoria de Noiré) surgiu no processo do


trabalho — das exclamações e vozes do trabalho, etc. O
desenvolvimento da linguagem pode dar-se devido ao
processo de generalização e abstração dos conceitos (são
estes os fundamentos da origem e formação dos idiomas).
O processo, porem, esta intimamente ligado com o
trabalho de criar instrumentos, porque este trabalho é um
trabalho indireto, no qual o homem não vê imediatamente
o fruto de sua atividade, mas como parte distinta,
desempenha um papel preponderante.

O homem, nos primeiros tempos, não destacava a


natureza circundante, de si próprio. Ele não via nela um
objeto e em si um sujeito destacado. Foi necessário, para
isso, um largo caminho de abstração e distinção entre si e
o mundo exterior; um processo de atividade multiforme,
para serem criados no homem esses dois conceitos
abstratos de sujeito e objeto. E nesse processo os
instrumentos deviam ter desempenhado um grande papel.

Os instrumentos, que servem ao homem para agir


sobre a natureza, são na realidade colocados entre esta e
aquele. São arrancados da natureza para sobre ela
agirem. Os instrumentos são assim, um elo entre o
homem e a natureza. E devido a isso pode o homem
formar o conceito de “si” e do mundo exterior.

Vemos, portanto que até a gênese, a raiz de conceito


tão elementar, somos também obrigados a procurar nos

57
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

instrumentos — na técnica. E quando o homem já pode


ter um conceito do “si” e do “não eu”, também pode
formar o conceito de outras coisas distintas e assim
tornou-se possível o continuo desenvolvimento da
linguagem. A linguagem agiu por sua vez sobre o processo
do pensar. Ela quase obrigou o homem a desenvolver o
processo de generalizar e abstrair — a formar conceitos
gerais (seria impossível ao homem dar nomes distintos a
todos os fenômenos da natureza).

Aqui porem devemos deter-nos num outro ponto: a


linguagem, a grafia e a ciência, só podem desenvolver-se
vivendo o homem em sociedade. Se assim não sucedesse,
não precisaria o homem de expressar seus desejos. E não
se desenvolveriam então nem a linguagem, nem a grafia,
nem a ciência. Vemos portanto que os dois momentos —
a técnica e a vida em sociedade desempenham o papel
principal na evolução humana. Isoladamente, nenhum
desses dois fatores pode existir; a técnica se desenvolve
pela divisão do trabalho e paralelamente ao
desenvolvimento da ciência. Porem, esses dois momentos,
quer a divisão do trabalho, quer a ciência, somente podem
existir e se desenvolver na sociedade; por sua vez, uma
vida social sem o desenvolvimento da técnica é
impossível.

Quando falarmos das formas da técnica como base da


sociedade, temos por um lado coisas puramente materiais
relacionadas com as leis físicas, químicas e outras leis da

58
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

matéria; por outro lado desde que essas formas estão


sujeitas á sociedade, elas dependem da própria sociedade,
das relações entabuladas pelos homens entre si, no
processo do trabalho.

Quando, na lição anterior, estabelecemos que um


fenômeno social deve conter em si algo novo, alem dos
caracteres físicos, químicos e biológicos anexos, não
apontamos então esse novo caráter de que se acha
acrescido dito fenômeno. Agora porem já podemos
encontrar o conteúdo desse novo aspecto ou caráter. Esse
caráter especifico, isto é, o conteúdo do fenômeno social
consiste em que, como tal, deve ser a conseqüência das
relações entre os homens que se formam no processo da
atividade indireta, para a satisfação das necessidades
humanas, no trabalho social.

O homem vivendo em sociedade, trabalha (atividade


indireta) para satisfazer suas múltiplas necessidades. No
processo desse trabalho, porquanto é realizado em
sociedade, os homens são levados a manter certas
relações uns com os outros. Essas relações entabuladas
pelos homens, durante o trabalho (atividade indireta, que
por sua natureza pode tornar-se social), formam o
conteúdo ou característico dos fenômenos sociais(1).

Uma vez que desejamos conhecer as leis da sociedade


humana e de sua evolução (estética e dinâmica), devemos
estudar seu caráter próprio, — a técnica; não sua forma

59
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

geral-fisica e morta, — mecânica, etc., mas em sua forma


viva, em seu conteúdo e papel social.

Na base da técnica, nascem certas relações de


produção, que por sua vez provocam varias, multiformes
e complexas relações sociais. Todos os outros fenômenos
sociais nascem destas ultimas relações. Podemos
expressar o mesmo pensamento em outras palavras e
formular por outro modo a idéia principal do materialismo
histórico.

Resumindo: — O homem, para viver, para existir,


deve adaptar-se á natureza; agir sobre ela e adaptá-la a
si mesmo. No processo de adaptação á natureza, forma o
homem um meio artificial. Esse meio artificial é que forma
a base da sociedade humana e de sua evolução. O meio
artificial é por si mesmo uma coisa material (é composto
de elementos da natureza material), mas está impregnado
da atividade humana e como tal se torna a base da vida
social.

O fundamento sobre o qual se constrói toda a vida


social é portanto a atividade social do homem, isto é, o
trabalho humano e as relações entabuladas entre os
homens no processo dessa atividade. A essas relações
chamamos relações econômicas e delas é que nascem
todas as outras relações. Tomando por exemplo uma
sociedade desenvolvida vemos que o trabalho aí é
representado por um processo largamente ramificado; e

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

investigando sua evolução devemos tomar o trabalho em


sua totalidade e em suas variadas formas. Compreende-
se que, quando desejamos conhecer um fenômeno social
complexo, devemos tomar em consideração todas as
diferentes relações existentes na sociedade. Só então
poderemos compreender, por exemplo, uma revolução
que se opera no momento em que forças produtivas
ultrapassam as relações ou formas sociais existentes se
levarmos em conta a totalidade das diferentes relações
existentes na sociedade, e que se acham já desligadas do
processo da produção.(2)

Observamos agora e vejamos como nasce a sociedade


como tal, com todo as suas formas, isto é, procuremos
mostrar de um modo concreto como a evolução da técnica
determina todos esses fenômenos sociais e formas varias
da vida social e como as modifica.

Até aqui observamos as coisas de um modo geral.


Estabelecemos a ligação entre a técnica e as relações
econômicas. Agora devemos concretizar e mostrar como
a estrutura da sociedade, isto é, a sumula das relações
que nascem entre os homens no processo do trabalho
(relações de produção), depende do meio artificial; 1º,
que as varias partes da sociedade e as formas que adquire
têm como sua causa básica a parte material da sociedade
que é o meio natural, (estática); 2º, que a dinâmica da
sociedade, a mudança de sua estrutura também depende
da evolução e da modificação do meio artificial. Numa

61
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

palavra, devemos encarar o estudo do materialismo


histórico, como uma sociologia.(3)

Tratemos de penetrar as formas da sociedade


primitiva. Qual a estrutura que vem de fato nessa
sociedade? Como está ela construída? Desde que não há
nela uma técnica desenvolvida e por isso sobra de
produtos, não há aí lugar para a formação de classes ou
camadas sociais. A sociedade de então abrange pequeno
numero de indivíduos e se existe uma certa divisão é
baseada somente sobre motivos fisiológicos. Existem por
exemplo, crianças ou mulheres grávidas, ou velhos que
não trabalham, etc. Uma tal divisão não nos pode dar
senão uma estrutura social elementar, como também
elementar é a sua técnica.

Tomando a técnica numa fase altamente desenvolvida


da evolução social, — a moderna sociedade de hoje, por
exemplo, notamos a estrutura bastante complexa da
sociedade. E não só no sentido de existirem muitas classes
(a sociedade feudal continha mais camadas ou grupos
sociais), mas na organização da própria sociedade — nas
funções de seus órgãos, nas suas relações e ramificações,
notamos como e até onde cresce a sociedade de hoje. A
complexa e aguda divisão do trabalho em milhares de
partes, devendo manter entre si certas relações, exige
relações sociais fortes e estáveis, com certos direitos, leis
e regulamentações, aparelhos administrativos e de
defesa, etc.; a técnica altamente desenvolvida faz surgir

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

uma estrutura complexa da sociedade e determina seu


conteúdo.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) A atividade indireta foi no inicio, social. A primeira forma de


relações sociais foi a primeira colaboração, tornando-se mais
tarde mais complexa. Surge, então, a divisão do trabalho e a
vida social. (retornar ao texto)

(2) Os “críticos” de Marx ridicularizaram a teoria do


materialismo histórico, mostrando seu paradoxo, no sentido de
que fenômenos tais como filosofia, moral, arte e ciência, são
explicados por simples interesses materiais. Um tal modo de
entender Marx, nada revela senão a ignorância e incapacidade
em compreender o marxismo. Marx não diz que os referidos
fenômenos são explicados exclusivamente pelos interesses
econômicos; diz apenas que a base desses fenômenos, sua
origem, em ultima analise, e as causas de sua evolução, deve
ser procurada na evolução da técnica e das relações sociais que
se criam no processo de trabalho. Sua evolução não é
determinada exclusivamente pelos interesses econômicos;
somente se diz que seu conteúdo e sua forma são causados
pelos fatores acima referidos. Querendo esclarecer e
compreender o porque do aparecimento e da realização de tal
ou qual fenômeno, devemos antes de mais nada travar
conhecimento com os interesses materiais dos homens e com o
estado da técnica antes do aparecimento do fenômeno e
analisando as relações econômicas e sociais devidas a esses
interesses e ao desenvolvimento da técnica e somente então é
que poderemos compreender porque surgiu ou se realizou este
ou aquele fenômeno na sociedade e na vida social. (retornar ao
texto)

(3) Não obstante a escassez de literatura que tenha tratado dos


fenômenos da vida social, como filosofia, direito, arte e religião,
do ponto de vista materialista, podemos no entanto apontar o

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

método certo e como proceder a sua investigação (compreende-


se que por falta de tempo somente poderemos traçar as linhas
gerais da evolução da sociedade detendo-nos sobre a atual
sociedade mais desenvolvida, analisaremos e explicaremos os
fenômenos do nosso ponto de vista. (retornar ao texto)

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO IX
A ESTRUTURA DA SOCIEDADE E A
DIVISÃO DE CLASSES
No final da lição passada apontamos a influencia da
técnica na estrutura social da sociedade, e chegamos á
conclusão de que com o desenvolvimento da técnica
modifica-se a estrutura da sociedade.

Sabemos que o estado da técnica determina sempre


a divisão social do trabalho. Na sociedade primitiva a
divisão social do trabalho é muito rudimentar, — ela se
expressa, na divisão em duas espécies de funções: a
organizadora ou dirigente, e a executiva. Mais tarde
forma-se uma divisão do trabalho cada vez mais
desmembrada e complexa, e no grau mais alto do
desenvolvimento da técnica, que vemos moderna
sociedade capitalista, a divisão do trabalho mais se
alastra, torna-se complexa, se desarticula e sua estrutura
fica também em todos os seus detalhes muito complexa.
Temos famílias, classes, grupos, camadas, agrupamentos
nas próprias classes, varias sociedades, partidos, etc. A
sociedade pode ser comparada a um edifício que tem
alicerces, base, com suas partes principais e sobre si a
superestrutura, os andares, com todo o edifício inteiro.

Se quisermos compreender e explicar a estrutura da


sociedade e também as suas partes principais, teremos

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

antes de mais nada de destacar a base da sociedade, seus


alicerces, e só então, depois de estudada esta,
explicaremos as outras partes do edifício social, toda a
construção social.

Em que consiste o alicerce, isto é, a base da


sociedade? Analisando anteriormente essa questão,
mostramos numa concatenação de idéias que a base
fundamental da vida social é o trabalho social, que por sua
vez se acha estreitamente ligado à técnica. Falando aqui
do trabalho como fator social, — como base da vida social,
não nos interessa a face física ou técnica do trabalho, mas
sua face social, isto é, as relações que surgem entre os
homens no trabalho durante a elaboração de produtos e
durante sua distribuição. A base da vida social é, portanto
a sua economia.

Vendo na sociedade certos agrupamentos ligados á


família que, como esta desempenham grande papel na
visa social, surge então a seguinte pergunta: como se
entrelaçam as varias relações de família com as relações
econômicas? Não dependerão uma das outras?

Ao estudarmos a família historicamente, veremos que


as relações de família não se mantém sempre
estacionarias, no mesmo lugar — elas evoluem; onde, pois
se deve procurar as causas dessas modificações? Sendo
certo que as relações sexuais das quais derivam todas as
outras relações de família não mudam, de uma maneira

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

geral, claro está que não são elas que determinam aquelas
variações. Elas devem ser procuradas noutra parte.
Sabemos porem, que a família é ao mesmo tempo um
entrelaçamento de relações de caráter econômico e
fisiológico. Suas formas mudam, se desenvolvem de
acordo com o desenvolvimento da técnica e das relações
econômicas que por esse meio se elaboram(1).

Tomemos por exemplo as relações de pais e filhos, de


homens e mulheres, irmãos e irmãs, etc. Nas sociedades
de seres inferiores, essas relações mantêm-se sempre as
mesmas e não se modificam. Como relações fisiológicas
não podem estas determinar a vida da família. Somente
na sociedade humana em seu desenvolvimento, essas
relações assumem variadas formas, perdendo seu caráter
puramente fisiológico, e tornam-se complexas devido às
relações econômicas existentes e integradas na
sociedade(2).

Nem relações sexuais nem as de parentesco, podem


servir de base para a anatomia da sociedade humana. Em
que consiste, pois a estrutura da sociedade? Consiste na
sua divisão em certos grupos econômicos, que se
encontram não só em simples relações de cooperação,
mas também em relações opostas de luta.

Sabemos que quanto mais as relações se tornam


complexas, passando de simples cooperação á complexa
divisão de trabalho, tanto mais evidentes começam a

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

surgir em cena certos grupos econômicos que mantém


lutas entre si. Essas relações de luta entre os vários
grupos econômicos em oposição dão à sociedade um
caráter especial, determinam a feição de sua estrutura;
logo, a estrutura da sociedade nasce, isto é, tem as suas
raízes na base econômica.

A divisão em classes, em camadas, que se forma no


inicio devido à divisão do trabalho, se desenvolve cada vez
mais como o próprio desenvolvimento da divisão do
trabalho. E essa estrutura econômica da sociedade,
consistindo na divisão em vários grupos, com diferentes
interesses econômicos, lutando oculta ou abertamente
entre si, desempenha o papel preponderante no
desenvolvimento continuo da sociedade.

Tomando a sociedade no inicio do seu


desenvolvimento devemos constatar que a força
impulsora, era então constituída pelas varias necessidades
econômicas, que obrigavam os homens a lutar contra a
natureza. A multiplicação que devido às formas primitivas
de produção levou à superpopulação obrigava
freqüentemente os homens a alargarem a sua luta contra
a natureza; o resultado disso foi a evolução do trabalho.
Começa aqui a esboçar-se um novo fator que desempenha
um grande papel na evolução da sociedade. Esse novo
fator foi a técnica: — o meio artificial, que é formado pelo
homem em sua luta implacável pela existência, para a
satisfação de suas necessidades vitais. Uma das condições

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

preliminares para o desenvolvimento da técnica foi o


desenvolvimento da sociedade; mas quando a sociedade
cresce, forma-se nela, devido à evolução da técnica, a
divisão em grupos e em diferentes camadas econômicas,
com interesses opostos, mantendo-se em constante
relação de luta. Nasce assim e se desenvolve mais esse
novo fator agindo por sua vez no desenvolvimento
posterior da sociedade, determinando a sua estrutura com
as mutações gradativas da mesma, — a luta de classes.

Devemos lembrar que na sociedade devido à luta


geral pela existência dá-se também a concorrência entre
os indivíduos isolados. Isso porem é um fenômeno geral
da natureza viva e falando-se de luta na sociedade,
subentendemos uma luta de caráter e sentido social. À
qual, só pode corresponder a luta de classes(3).

Os “sociólogos” burgueses acham que, na historia,


outras duas formas de luta entre grupos, desempenharam
o papel preponderante: primeiro, as lutas de raças e
segundo, as lutas nacionais. Eles procuram demonstrar
que a luta de classes desempenha papel menos
importante que as lutas nacionais e que a marcha da
historia é determinada não pelas condições econômicas,
mas por fatores muito diversos.

É bastante porem analisarmos as duas formas de


lutas acima referidas, para vermos que seu conteúdo não
é independente e que ele é determinado pelas condições

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

econômicas em que se encontram as raças ou nações em


luta. A base, sobre a qual nasce a luta nacional ou de raça
é também, sempre econômica. Historicamente surgiu a
luta de raças, (mascarando a luta econômica), antes da
luta de classes, porque esta se origina nas sociedades
diferenciadas, ao passo que a luta de raças e até mesmo
a luta nacional não exigem uma divisão de trabalho social
desenvolvida. E quando no cenário histórico surge a luta
de classes ela não expele a luta de raças ou nacional, mas
complica-as. A luta de classes assume, as vezes, a forma
de luta de raças ou luta nacional, porque para a burguesia
é necessário e útil encobrir a aguda luta de classes com o
véu da luta nacional ou de raças.

Analisemos as lutas nacionais e de raças e veremos


como essas lutas não são senão manifestações ou
variações veladas da luta econômica ou de classes.

Tomemos primeiramente as lutas de raças. Aqui se


pode e se deve antes de mais nada constatar que na
historia não se verifica uma luta constante entre as raças.

Quais raças existentes em geral? Devido à diversidade


do meio geográfico, formaram-se três raças principais: —
negra, amarela e branca. Nos tempos primitivos não se
observam lutas entre essas raças(4).

Agora observemos em certa medida uma luta entre


brancos e negros, nos Estados Unidos. Será porem uma

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

luta característica de raças? Ninguém o dirá. Todos


deverão reconhecer que essa luta tem um caráter
econômico, em conseqüência de terem sido os negros
libertados da escravidão há pouco e se tornarem por isso
uma vitima indefesa da exploração capitalista(5).

Analisaremos agora a luta nacional que é um


fenômeno muito mais freqüente e que em nossos dias
observamos ainda em grande escala e em variadas
formas. Aqui devemos notar: primeiro, se essa luta
nacional, como tal, é uma força propulsora na historia;
segundo, em que consiste em geral o conteúdo da luta
nacional.

Façamos resumidamente uma excursão na historia e


detenhamo-nos no ponto de formação direta das nações.

Se tomarmos a sociedade primitiva na forma de


comunidades, clãs, tribos, notamos desde logo, que cada
tribo não é formada por muitos indivíduos, ligados entre
si por laços de sangue: e que as demais tribos são
consideradas como forças exteriores da natureza, com as
quais é necessário por vezes, lutar, como contra os
animais. Mas, pela união de varias tribos (freqüentemente
consangüíneas), devido ás necessidades econômicas de
defesa é que se formaram as nações. Como cresceu a
nação? Antes de tudo devido ao desenvolvimento da
técnica da sociedade, até quando a luta pela existência
obriga certas tribos a se unirem a outras. Em que consistia

72
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

porem a luta entre as tribos? Lutavam de fato somente


porque representavam tribos diferentes? Não. A luta era
puramente econômica. Os israelitas lutavam contra os
filisteus não como duas tribos e sim como dois organismos
regionais, com interesses econômicos antagônicos, onde
cada qual procurava escravizar o outro, ou conseguir dele
certo tributo. As guerras entre as nações tiveram fins
puramente econômicos e representaram tendência a
expansão; o território tornara-se pequeno para a nação e
ela tinha necessidade de se expandir. Tal nação lutou
contra tal nação, porquanto uma via na outra melhor
objeto de exploração e mais fácil presa ás suas ambições.

Porquanto, as nações surgiram na evolução da


historia juntamente com a evolução do trabalho e da
técnica. Surgem primeiramente sobre a base de laços de
sangue, as uniões de família. Sobre a mesma base,
formaram-se posteriormente o clã, a tribo e a nação. Mas
a causa dessas uniões e sua evolução foi provocada
somente por motivos econômicos, e o conteúdo das lutas
entre elas não é nacional, isto é, não consiste em duas
tribos, com língua e psicologia diversas, lutarem somente
por isso. Por conseguinte, seria extremamente falso, se
disséssemos que a luta nacional é uma força propulsora
na historia; é certo, que a luta nacional é por vezes a
expressão da luta de classes (luta econômica) que é, a
realidade, a força propulsora da historia.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Podemos assim determinar, que a estrutura da


sociedade é a divisão de classes, que surge durante o
processo da divisão do trabalho e se desenvolve com a
evolução da técnica. A luta econômica se dá sobre a base
da divisão de classes, — da divisão em grupos sociais
distintos, com interesses econômicos opostos.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) Que a família é mais que uma união fisiológica, prova-o o


fato de encontrarmos também entre os seres inferiores relações
fisiológicas; não obstante não se nota aí vida familiar definida
como entre os homens em geral, e mudança das formas da
família em particular. É, portanto, um erro supor que a família
é somente a expressão de relações fisiológicas. Para ser possível
uma vida social, deve naturalmente existir o homem como tal.
Dá-se por isso a união fisiológica dos dois sexos para a
procriação que ocupa assim um dos mais importantes papeis na
perpetuação da espécie humana. Porem a forma que se elabora
como conseqüência da união — a família, dependeu sempre da
situação econômica da sociedade. Com efeito, alem das relações
sexuais e das relações que se formam como conseqüência de
vários trabalhos, não notamos nas épocas primitivas outras
relações entre os homens. O conteúdo e a forma das relações
sexuais permanecem, porem, mais ou menos os mesmos, ao
mesmo tempo em que as formas de cooperação modificam-se
rapidamente e se desenvolvem juntamente com a técnica. É
claro, portanto, que essas modificações na técnica, na forma da
cooperação social, provocam por si as modificações
correspondentes na família, porquanto é esta alguma coisa mais
do que um simples convívio sexual. (retornar ao texto)

(2) As relações entre pais e filhos na sociedade humana,


modificam-se constantemente. Nos tempos em que os homens
viviam da caça, freqüentemente matavam-se os velhos porque
não tinham utilidade alguma e porque havia falta de viveres.
Com a evolução posterior, porem, quando a sua experiência se
tornou necessária eles são mais respeitados e havendo maior
abundancia de viveres eles são alimentados, não obstante nada
produzirem. Vemos, portanto, que essas relações são diversas
em diversas épocas. O mesmo se dá em relação a pais e filhos.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

As relações entre eles dependem de varias causas que estão


fora dos laços de parentesco de sangue. (retornar ao texto)

(3) Que, na evolução social, desempenha essa luta papel


importante, já o afirmavam muitos sociólogos, especialmente
Gumplovitch; adotando-se o ponto de vista marxista, usamos
outros métodos no desvendar o papel da luta social. Estudando-
o, veremos que também ele não se desenvolve,
independentemente, mas em combinação com o
desenvolvimento da técnica. (retornar ao texto)

(4) Devemos notar que o anti-semitismo, que traz a cor da luta


de raças (luta contra a raça semita), é pelo seu conteúdo uma
luta econômica mal disfarçada, entre os diversos grupos de uma
mesma classe, ou um meio de desviar a consciência de classe
do proletariado e das massas populares oprimidas, a fim de
enfraquecer a luta de classes. O anti-semitismo é sempre
reacionário, até mesmo quando toma o caráter de um
movimento das camadas oprimidas, porque desvia da luta de
classes. (retornar ao texto)

(5) Fato digno de ser observado é o seguinte: negros capitalistas


convivem muito bem com brancos capitalistas e cultos. E ainda,
que negros proletários vivem pacificamente com proletários
brancos; nem é isso de estranhar. Portanto, a idéia de que o
conteúdo da luta de raças é puramente econômico, não
necessita de comentários. (retornar ao texto)

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO X

A LUTA DE CLASSES COMO FORÇA


PROPULSORA DA HISTÓRIA E A
FORMAÇÃO DA PSICOLOGIA DE
CLASSE
Na lição anterior vimos como estrutura da sociedade,
— a divisão em classes, é resultante da divisão social do
trabalho e conseqüência das relações de produção numa
dada sociedade. As relações em que assentam as classes
em oposição se expressam sob forma de luta, — em
relação de luta.

As outras formas de luta na sociedade como as lutas


de raças, a luta nacional, nascem da luta econômica entre
as classes. A diferença entre luta nacional e luta
econômica consiste somente no fato das lutas
internacionais representarem, a principio, uma luta contra
forças externas; somente com a evolução toma ela um
nítido caráter de luta de classes. Quando a burguesia de
uma nação (já então dividida em classes) não pode mais
satisfazer-se com a exploração do proletário nacional,
procura então estender seu domínio sobre outros povos
atrasados ou concorrentes. O caráter externo de luta entre
nações depende do estado das forças produtivas das
mesmas.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Assim por exemplo a luta entre a Inglaterra e a China,


como luta entre um pais desenvolvido e outro atrasado
(no sentido econômico), traz mais abertamente o caráter
de luta feroz entre o mais forte e o mais fraco, as passo
que a luta entre a Alemanha e a França — luta entre países
igualmente desenvolvidos — é disfarçada, trazendo o
caráter de luta entre duas “civilizações” diferentes, onde
uma é apresentada como justa e “civilizada” e a outra
como bárbara. As formas de luta, de fato, são diversas,
mas o seu conteúdo é sempre o mesmo.

Na historia da evolução social, — na historia da luta


de classes, notamos que a classe oprimida evolui sempre
juntamente com a evolução das forças produtivas. Coube
sempre a ela o papel de força propulsora do progresso e
de todo o bem estar da humanidade.

Com efeito, vejamos em que consistem as forças


produtivas e como as classes estão ligadas a elas.

Falando das forças produtivas da sociedade devemos


tomar em consideração as três espécies seguintes: 1ª, as
forças da natureza, como a terra, os montes, os rios, os
minerais, etc.; 2ª, o meio artificial — a união do trabalho
humano com as forças da natureza em intima ligação
(instrumentos); 3ª, a força do trabalho, a totalidade do
trabalho humano na sociedade. Essas três espécies se
acham intimamente ligadas ente si. Elas são
imprescindíveis à existência e evolução da sociedade

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

humana, que necessita forçosamente do meio natural, do


meio artificial e da força do trabalho humano. Tentai
aniquilar uma só dessas três forças e a sociedade inteira
perecerá.

Analisada separadamente cada uma dessas espécies


de forças, notamos que, quanto à natureza, é ela um fator
constante, que sem a intervenção do homem, por si só,
muito pouco se modifica. Certamente operam-se na
natureza acontecimentos como inundações, erupções
vulcânicas, erosões, terremotos, etc. Mas, de um modo
geral, a natureza permanece ou se apresenta sempre com
o mesmo aspecto, e sua ação sobre o homem, é por isso
também mais ou menos a mesma. As mutações na
natureza (no clima, no mundo dos seres inferiores, dos
vegetais, na flora e fauna) se opera muito lentamente em
relação à historia da humanidade e por isso não podem
ser elas tomadas em consideração.

O meio artificial, — a técnica, ao contrario, se


modifica, evolui e passo a passo com ela desenvolve
também a força do trabalho que a ela está ligada, e é
determinada pela técnica em desenvolvimento. Quanto
mais se desenvolve a técnica, tanto mais diferenciado se
torna o trabalho, dividido socialmente, e ao mesmo tempo
a sociedade é igualmente dividida em classes e grupos
com interesses econômicos opostos.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

A primeira forma de divisão do trabalho aparece no


terreno da distinção entre o trabalho dirigente e o de
execução. Essa divisão traz consigo, desde logo,
desigualdades entre os membros da sociedade.
Desigualdades que se acentuam ao ser criado o instituto
da propriedade privada e cria mais tarde o “domínio” dos
“dirigentes” e a opressão exercida sobre os executores.

Vamos agora observar a evolução das forças


produtivas em relação à divisão de classes. Estudando a
historia do desenvolvimento econômico notamos que a
classe dirigente desempenhou durante algum tempo um
papel positivo na vida social e em certo sentido uma
função produtiva, indispensável. Na fase posterior da
evolução, deixa ela, porem, de ter esse papel, para se
converter em elemento parasitário cuja existência deixa
de ser útil à sociedade. Quanto à classe executora, isto é,
a classe produtora, se estiola sob a pressão das classes
dirigentes, sem poder desenvolver-se, a sociedade toda
degenera então, ou é dominada por outra sociedade que
explora, deixando assim aquela de ser independente. Mas
isso não se dá quando a classe dirigente deixa de
desempenhar o seu papel positivo. Esse fato não acarreta
a queda da sociedade toda, porque devido ao
desenvolvimento das forças produtivas nasce outra força
dirigente; os executores destacam a si próprios novo
grupo de dirigentes que assume papel organizador na
sociedade e dá assim oportunidade ás forças produtoras
de continuarem a se desenvolver.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Devido á evolução da sociedade, criam-se, às vezes,


condições tais, que são verdadeiros obstáculos ao
desenvolvimento das classes produtoras ou executoras e
não tendo estas possibilidades de continuar o seu
desenvolvimento, são condenadas a degenerar e a
perecer. E neste caso a sociedade inteira estará
condenada a desaparecer. Um, tal momento encontramos
na historia das sociedades construídas na base de
escravidão. Os escravos eram elementos produtores.
Criou-se porem uma situação tal, que a forma de produção
escravocrata já não podia permitir o desenvolvimento das
forças produtoras e então essa sociedade teve que
desaparecer ou degenerar.

A sociedade feudal foi uma sociedade de organização


feudal da agricultura e os senhores feudais
desempenharam ate certo ponto o necessário papel da
atividade social. Mais tarde porem, quanto mais prossegue
o desenvolvimento de novas forças produtoras na própria
sociedade feudal, não agrícolas, mas industriais, tanto
mais começam os elementos dirigentes da nova indústria,
— a burguesia, a lutar contra a anterior organização feudal
da produção agrícola. E vencem, porquanto a evolução das
forças produtivas e especialmente da técnica e da
indústria, já se acha bastante entravada, pela
regulamentação feudal e o pelo sistema senhorial da
administração tributaria.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

O mesmo também se da com o sistema capitalista. As


condições burguesas na produção e nos transportes, as
relações de propriedade burguesas, numa palavra, a
sociedade burguesa moderna, que criou, como por um
condão mágico, tais meios de produção e transporte,
assemelha-se ao mágico que já não pode sozinho dominar
as forças provocadas com seus próprios passes. A historia
da indústria e do comercio dos últimos tempos pode
resumidamente ser considerada como abalo(1), como uma
revolução das modernas forças produtivas contra as atuais
relações de produção, contra as atuais relações de
propriedade, que são ao mesmo tempo as condições
devida da burguesia e de sua dominação. E isso, porque
as condições dominantes na produção impedem o
crescimento impetuoso das forças produtivas que já
ultrapassaram as formas ou relações econômicas ainda
existentes. A burguesia já não serve á sociedade; ela não
só deixou de organizar a produção e de dirigir o seu
progresso, mas, ao contrario, tornou-se mesmo um
entrave a organização e desenvolvimento das forças
produtivas da sociedade. E desde o momento em que
essas forças produtivas tentam vencer e destruir esses
entraves, imediatamente a burguesia faz um grande
alarme dentro da sociedade burguesa, gritando que
ameaçam a destruição da própria sociedade, quando na
verdade, só é ameaçada a propriedade
burguesa. Marx disse:

82
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

— “a arma com a qual a burguesia


venceu o feudalismo é agora
também aplicada contra ela
própria; mas a burguesia não só
forjou a arma que agora lhe dara
a morte, como também criou os
homens que contra ela
empunharão essas armas – ela
criou a moderna classe proletária
– o operariado”.

83
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO XI

LIBERDADE E DETERMINISMO;
ATIVIDADE SOCIAL E
CAUSALIDADE SOCIAL
Como se transforma a liberdade da atividade da
atividade individual em determinismo social? A bola
rolando, se tivesse noção do ato de rolar, pensaria que
rola por sua própria vontade. Liberdade e livre arbítrio. A
barreira e a fresta pela qual passa a corrente. Como
imaginaria a correnteza o seu atravessar se tivesse
consciência de seu ato. O arbítrio e os motivos. A luta
entre os motivos. O motivo mais forte e a escolha. O
caráter, a educação, as condições são que determinam a
escolha. O determinismo dos atos humanos. Como se
podem prever os atos. Como se podem saber os motivos?
As causas principais da atividade humana. As divisões em
classes e grupos e seus distintos e as vezes opostos
interesses. Os interesses determinam os atos e os
motivos. A sociedade e os interesses dos camponeses e
dos senhores feudais. A sociedade burguesa, os interesses
dos operários e capitalistas. A generalidade dos
interesses-motivos e a semelhança com os atos dos
indivíduos. A psicologia do homem é determinada pelo
trabalho em todas as suas formas, as condições gerais de
vida. Psicologia geral dos camponeses. Nuanças

84
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

psicológicas internas. As psicologias internas. A psicologia


da classe operaria e distintos grupos internos.
Conhecendo a psicologia os interesses duma classe,
podemos predizer os atos dos indivíduos que formam essa
classe. O determinismo e resultado da atividade “livre”.
Determinismo social e fatalismo. O determinismo social é
uma arma da atividade humana; os atos livres são
transformados em determinismo social.

Detivemo-nos na ultima lição na questão da liberdade


e determinismo. O individuo, não obstante a dependência
de sua psicologia de classe ou grupo, sente-se como
homem livre, que tudo faz por sua própria vontade. E
apesar disso, a vida da sociedade que é a soma dos
indivíduos se realiza segundo certas leis determinadas.
Surge portanto a seguinte questão: como se podem
harmonizar liberdade e determinismo, segundo o qual se
operam os fenômenos sociais.

Tentaremos gradualmente responder á pergunta


formulada. Existe o homem com a sua atividade que brota
de sua vontade? Assim pelo menos, explica ele suas
ações. Donde vem esse sentimento de livre arbítrio, e
como encaixá-lo no determinismo e na causalidade social?
Se formularmos deste modo a questão poderemos achar
a gênese da causalidade e do determinismo social.

Tomemos por exemplo uma bola à qual se deu um


impulso e que começa a rolar. Imaginemos que a bola

85
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

ficou rolando, ficou consciente do seu ato de rolar, sem


saber para que foi impulsionada. Ela explicaria o seu rolar
pela sua vontade livre. O mesmo se dá com a vontade livre
do homem. O homem está consciente do ato que realiza,
mas desconhece as causas que provocaram ou
determinaram o ato. Assim responderam a questão,
Hobes, Spinoza, Leibnitz. A resposta porem não é
completa: se a questão fosse somente da consciência do
ato, talvez fosse muito fácil de solucionar. Mas se a
questão da liberdade e determinismo, foi tão palpitante
para os gênios filosóficos do passado e ainda até hoje não
foi, para todos, solucionada, isto quer dizer que existe algo
mais, a espera de solução.

A bola rola e pode ela gritar bem alto que rola por sua
própria vontade mas, ela é obrigada a rolar sem poder
parar. Mas outra coisa se dá com o homem. Este ao
praticar um ato pode perguntar a si próprio: devo ou não
praticar este ato? Já aqui existe um momento de escolha.
A atividade do individuo é dessa forma, dependente de sua
escolha. O homem ao praticar um ato está às vezes diante
de um dilema, pode fazer ou de outro modo. Esse fato de
escolher é fato que não pode ser negado nem evitado.
Devido a este momento de escolha torna-se a questão da
vontade livre mais fácil de resolver.

Continuemos porem a analise. Quando surge a


pergunta: fazer ou não fazer, há naturalmente motivos
para o sim ou para o não. Esse conflito de motivos termina

86
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

pela vitoria de um deles, que determina a vontade do


homem. Assim é que esse fato se dá realmente, na vida.

Tomemos por exemplo uma corrente de água, contra


a qual se constrói uma barreira que detém a corrente. A
água tem por habito correr e faz pressão contra a barreira.
Na barreira, casualmente havia alguns pontos fracos, e
finalmente a água irrompe por uma fresta que se havia
aberto. Imaginemos que, de repente a corrente d’água se
torna consciente não só do trabalho (ação) de correr
(como aconteceu com a bola), mas também das
aspirações de vencer a barreira. Encontrando o obstáculo
desta, e forçando os pontos fracos, está a água diante do
problema de encontrar a saída (a satisfação de seu desejo
ou aspiração) que ela própria pode escolher. A corrente
d’água, que fora dotada de certa consciência, encontrará
na barreira um entrave, um obstáculo de um lado e por
outro há uma vontade, uma aspiração de vencer esse
obstáculo. A corrente de água quer continuar a sua obra
de correr, não obstante o obstáculo encontrado. Trava-se
aqui uma luta entre a corrente consciente com a vontade
de correr e a barreira. A fresta por ela feita na barreira
deixou passar a água. A corrente forçou a barreira toda,
procurando saída em todos os pontos fracos que quis
arrombar, mas somente conseguiu passar pela fresta que
havia arrombado. Aqui tivemos o momento da consciência
e o livre arbítrio.

87
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

A atividade humana é determinada por vários


motivos. A força geral da inércia é a barreira. Os motivos
da atividade são quase representados pela corrente que
impele o homem à atividade. A fresta pela qual irrompe é
este ou outros motivos que vencem. Uma vez que a
corrente forçou todos os pontos e somente irrompeu pelo
mais fraco ou no ponto onde a corrente é mais impetuosa,
temos aqui uma certa escolha — livre arbítrio, quando
todo o processo é iluminado pela consciência. Na realidade
a irrupção é determinada ou pela fraqueza da barreira ou
pela força da corrente em determinado ponto.

O momento de vitoria de um motivo sobre outro


depende de uma serie de causas e a “vontade livre”
desempenha aqui papel de somenos importância. Por
exemplo: se tomamos um esfomeado, que passa diante
de uma vitrine de comestíveis, dar-se-á nele uma luta dos
motivos da fome com os das idéias de justiça: que não se
deve desejar o alheio e do simples medo de furtar, porque
será preso e punido, etc. O resultado dessa luta dependerá
em certo sentido do caráter do homem, de sua educação,
das condições de momento, etc. Nuns, os assim chamados
conceitos morais serão mais fortes, devido à sua
educação, conceitos enraizados, etc., noutros o medo do
castigo é que determinará sua atividade, vencendo
portanto, os outros motivos. Se colocarmos esse homem
numa posição tal que seu ato possa passar despercebidos
para todos, o instinto da fome será mais forte que o do
medo e vencerá o primeiro motivo. Num terceiro pode

88
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

sempre vencer o motivo da fome e ele roubará sem


conflito interior. Vemos de fato que se dá aqui uma luta
entre dois motivos. Vencendo o mais forte. Ao homem,
porem, ao realizar seu ato, parece-lhe agir segundo sua
livre vontade e escolha.

Esses exemplos nos esclarecem que todos os atos


individuais são determinados por certos motivos. A
atividade humana, os atos do homem social, são dessa
forma predeterminados, são provocados por motivos. A
necessidade histórica, isto é, a necessidade da atividade
social humana é por isso chamada determinismo.

Mas se todos os atos são determinados por certos


motivos, surge uma nova pergunta: podem ser previstos
todos esses motivos, suas causas podem ser descobertas
e explicadas?

Aqui teremos que voltar á questão da formação da


psicologia de cada individuo e de distintos grupos. Vimos
que na primeira fase da evolução econômica o homem não
representa um individuo independente, mas é como
membro de um rebanho, psicologicamente semelhante a
todos os outros indivíduos da sociedade inteira. Havia
naturalmente diferenças físicas; e se mais tarde puderam
em certo grau criar-se pequenas diferenciações
psicológicas, essas só puderam evoluir com a evolução da
técnica e com o aparecimento da divisão social do
trabalho. Com o desenvolvimento da técnica e com o

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

aparecimento da divisão social do trabalho surgiram


distintos grupos econômicos, os quais com o tempo
formaram todas as diferenciações e contrastes
psicológicos que mais tarde notamos na sociedade.

Tomemos a sociedade humana. Que notamos aí?


Vemos homens com necessidades, aspirações e paixões e
certas obrigações. Certas necessidades, aspirações e
paixões são comuns a todos os homens, porque não se
pode imaginar, por exemplo, uma sociedade que não
necessite de meios de subsistência, de meios de
procriação etc. Queremos prever a atividade do homem
com exatidão, podemos dizer sem receio de errar que o
homem, em geral, sempre aspirará a satisfazer suas
necessidades vitais e por isso desenvolverá seus meios de
luta contra a natureza — desenvolverá o trabalho e a
atividade social. Mas como e de que modo satisfazem os
homens suas necessidades? Aqui já não há mais
generalidade. Na sociedade feudal, por exemplo, a maioria
da sociedade é de camponeses; os camponeses como tais
terão em qualquer tempo o mesmo modo de adaptação á
natureza, por conseguinte, os mesmos modos de
satisfazer suas necessidades. Todos os camponeses terão
mais ou menos os mesmos interesses (pequenos traços
característicos, não tem aqui importância alguma). A
classe camponesa inteira representará um todo, uma
unidade, com certos e determinados interesses, pelos
quais poderá ser predeterminada a atividade de cada
camponês (aspiração de se libertar do jugo feudal, livre

90
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

locomoção, conseguir uma propriedade em terras, etc.).


Tomando a classe feudal como tal, poderemos segundo
seus interesses mais ou menos singulares também
predizer a aspiração e atividade de cada senhor feudal
(aumentar o seu domínio sobre as terras, ocupar um lugar
superior na hierarquia do poder, limitar o mais que for
possível o poder do rei, escravizar na mesma medida
todos os camponeses, etc.). Tomando a sociedade
contemporânea, também poderemos fazer o mesmo.
Conhecendo os interesses de cada classe e até mesmo de
cada grupo, não é, portanto, difícil predizer e determinar
suas aspirações e suas atividades, bem como a dos
indivíduos a ela pertencentes. A classe operaria como um
todo, porquanto todos os operários se encontram em
condições iguais, no sentido de que todos são obrigados a
vender o seu trabalho, terá interesses gerais cuja
expressão consiste na aspiração de aumentar o salário e
diminuir a exploração. A classe capitalista, não obstante
as divergências internas, também apresentara uma
aspiração geral, como em tudo, determinada por
interesses, que estarão diametralmente opostos aos
interesses da classe [operária] e terá sua expressão na
aspiração de diminuir o salário dos operários e aumentar
a exploração. Nessa direção determinada irá também a
atividade dessas classes na sociedade capitalista.

Vemos, portanto, que podemos predeterminar a


direção que tomará a atividade dos vários grupos sociais.
Porque conhecemos de antemão os motivos de sua

91
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

atividade. Mais ainda, conhecemos as causas pelas quais


os motivos são determinados — conhecemos os
interesses.

Vemos, portanto, que a pergunta: o que determina a


psicologia? Deve ser respondida: o trabalho em todas as
suas formas, que cria finalmente as condições gerais da
vida. Estando a maioria dos camponeses nas mesmas
condições de trabalho terão por isso a mesma psicologia,
embora entre os camponeses possa haver uma certa
diferenciação, isto é, certa parte dos camponeses
começarem a viver em outras condições de trabalho —
isso porem não passará de uma nuança especial na
psicologia dos camponeses. O modo geral da psicologia
camponesa será expressa, por exemplo, no apego à terra,
sentimento de dependência da natureza, amor ao trabalho
e à propriedade, conservantismo de seus costumes e
limitação em seu modo de viver. O camponês diferenciado
(o rico, o kulak) também estará debaixo da psicologia
geral, possuindo, a par disto, uma nuança psicológica,
como o desejo de aumentar suas terras, aspiração a
riqueza, à exploração, etc. O mesmo se dá com a classe
operaria. Também ele terá uma psicologia geral e nuanças
das camadas diferenciadas, como operários aristocratas,
funcionários, especialistas, etc. Quanto mais constatamos,
que a psicologia é determinada pelas condições de vida
(trabalho) de dado individuo e que a generalidade da
psicologia de diversos indivíduos que vivem em condições
econômicas idênticas, forma a psicologia de classe, tanto

92
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

mais podemos prever a atividade desta ou daquela classe


e na maioria dos casos a atividade individual de seus
membros.

Assim, vemos como a questão da liberdade e


determinismo é resolvida graças a termos achado os
motivos da atividade humana, e a chave da previsão
desses motivos. E também, porque conhecemos as causas
dos motivos, a fonte de onde emanaram. Não falamos
aqui, por isso da atividade individual como tal, mas da
necessidade, segundo a qual a maioria duma classe deve
manifestar sua atividade, e somente por isso podemos
prever e adaptar a atividade duma classe ás suas
necessidades.

Está claro que a necessidade histórica não exclui a


“livre” atividade humana, mas ao contrario é ela o
resultado dessa atividade “livre”. É nisso que consiste a
grande diferença entre o determinismo na natureza e o
determinismo na vida social e na historia. O determinismo
na natureza consiste em que vários fenômenos resultantes
de leis naturais (movimento dos planetas, as estações do
ano, eclipses solares, etc.) devem realizar-se na natureza.
A ciência os pode prever, indicar o tempo em que se darão,
mas o homem não tem no desenvolvimento deles
nenhuma participação. Se o que se passa na vida social
fosse um determinismo do mesmo caráter, o
determinismo social se transformaria em fatalismo. Entre
o determinismo social e natural há pois, uma grande

93
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

diferença. Essa diferença consiste em que na natureza


tudo se realiza fora de nossa influencia e atividade, ao
passo que o determinismo social graças à nossa atividade.

As leis do determinismo social são, por isso, também


as leis da atividade humana. O determinismo social
implica a atividade humana como um de seus elementos
necessários. Excluindo esse elemento não haverá
determinismo histórico. Se excluirmos, por exemplo, o
proletariado combativo da sociedade capitalista, não
haverá então determinismo histórico do socialismo. Está
claro que o proletariado não surgiu do nada — é
conseqüência determinada pelo desenvolvimento da
técnica — mas esta ultima também é revelação da
atividade humana.

Todo o determinismo social consiste na atividade


humana; seu material é um tecido de atividades humanas.
A atividade, porem, é determinada, porque, devido as
condições econômicas objetivas, os motivos da atividade
são também determinados; as próprias condições
econômicas são também o resultado do estado da técnica
— da atividade humana condensada. As leis da evolução
social são expressões das leis da atividade humana.
Podendo prever os atos humanos, isto é, a atividade
social, podemos também estabelecer a marcha da
evolução social e agir no sentido em que ela se deve
realizar.

94
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO XII

DIREITO E ARTE DO PONTO DE


VISTA MATERIALISTA
Nas lições anteriores esclarecemos os fundamentos
do materialismo histórico. Agora, tentaremos apontar
como se devem explicar fenômenos sociais complexos,
pelo método materialista. Tomaremos por isso dois
fenômenos sociais diversos, pertencentes ambos à
superestrutura da sociedade, diferindo, porem, quanto ao
seu conteúdo. Tomaremos o direito por um lado, e a arte
por outro, e tentaremos explicá-los segundo o método
materialista. As ligações existentes entre o direito, que é
uma relação social, e as relações de produção dominantes
na sociedade, são evidentes. Estabelecemos, por isso,
somente a dependência entre aquelas e estas, para
apontar como agem umas sobre as outras. A arte parece
estar completamente desligada das relações de produção.
Devemos, portanto, ver como pode a arte ser explicada
materialisticamente.

Sendo o Estado uma organização da classe


dominante, tendo por fim fortalecer e santificar seu poder
está claro que o direito de Estado (direito público) tem
suas raízes nas relações de classe, existentes na
sociedade. Sua dependência das relações de produção e
por sua vez da evolução das forças produtivas é manifesta.

95
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Um pouco mais complexa é a ligação entre o direito civil e


as relações de produção. Explicaremos, portanto, a
questão de um modo concreto.

Tomemos um exemplo concreto do direito: o direito


de sucessão, e analisemo-lo. Vejamos primeiramente se
as formas de sucessão foram sempre as mesmas e se o
conceito de sucessão é inato no homem, se brota
espontaneamente de seu ser, isto é, se o direito de
sucessão nasce de um conceito interno que o homem
possui de que seu filho é a continuação de sua existência,
do seu “eu” (o ponto de vista de direito natural). Neste
caso, se o direito de sucessão tivesse crescido sobre esta
base, seria um fenômeno que sempre existiu e que deve
existir sempre. Ou então, se o conceito de sucessão é um
conceito histórico, isto é, aparecido em certa época e sem
ligação com a idéia de continuação da existência dos pais
pelos filhos. Neste caso, se o direito de sucessão é um
fenômeno histórico, naturalmente não existiu sempre e
nem existira.

Se admitirmos que o conceito de sucessão é inato,


isto é, que esta ligado á natureza do homem, como
poderíamos explicar a diferença entre o direito do
primogênito e o dos demais filhos, entre filhos e filhas, ou,
entre herdar bens moveis e imóveis? Explicar as variações
do direito de sucessão pelas leis internas do espírito
humano (a principio esse espírito julgava que só os filhos
ou os primogênitos podiam herdar; mais tarde chegou a

96
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

admitir que também as filhas podem herdar), seria uma


pura fantasia. O espírito humano deveria então ser tão
multiforme como as próprias formas do direito de
sucessão, entre os vários povos e as varias épocas de sua
vida cultural, devendo mudar constantemente sua forma
de existência. Deve-se procurar então uma solução, para
se compreender o fenômeno do direito de sucessão e suas
modificações.

Em primeiro lugar é evidente que o direito de


sucessão está intimamente ligado ao direito de
propriedade, porque o conteúdo daquele nasce deste
ultimo. O instituto da propriedade aparece numa certa
época da evolução da técnica. Passo a passo com o
desenvolvimento das formas de propriedade se
desenvolve também o direito de sucessão, com todas as
suas modalidades. Se havia, por exemplo, pouca terra,
foi-se obrigado a limitar o direito de sucessão de todos os
filhos, para não desperdiçar a terra. As mulheres que
desempenhavam papel de submissão, sem
independência, dependentes de seu marido, não gozavam
por isso do direito de sucessão. Na sociedade feudal,
quando o senhor feudal era uma espécie de rei em seus
domínios, devia ser destacado o primogênito como
sucessor principal, e se formou assim todo um sistema de
sucessão e uma escala de sucessores.

Cada determinada forma de propriedade, tinha sua


forma estabelecida de sucessão. Na sociedade burguesa,

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

podendo a propriedade ser representada em dinheiro, em


riqueza fluente, sem ligação com a produção, já assume o
direito de sucessão outra forma diversa da sociedade
feudal. Portanto: o direito de sucessão é, antes de tudo,
dependente do direito de propriedade que é como já
sabemos, por sua vez, dependente da evolução da técnica
e das relações de produção, que se estabelecem na
sociedade. É esse método do materialismo histórico ao
observar os múltiplos fenômenos da sociedade. Deve-se
ver primeiramente se o fenômeno é constante, eterno, e
ver então de que é que depende e o que determina sua
própria dependência.

O mesmo acontece quando ás outras formas de


direito e a todo o direito civil e criminal.

Mais difícil será explicar as relações entre a arte e a


evolução das forças produtivas. Deveremos aqui distinguir
primeiramente o lado material da arte e seu conteúdo. As
relações entre o lado material da arte e a técnica são
evidentes: tomando, por exemplo, a musica, notamos que
somente pode existir e se desenvolver sua riqueza e
múltiplas formas com a existência e evolução da técnica
(instrumentos), porque para a musica são necessários
instrumentos musicais; isto quer dizer, em outras
palavras, que a própria arte exige também certa técnica.
Ela se constrói também sobre o trabalho indireto e sobre
a divisão social do trabalho; a forma de trabalho que é
aplicada na criação da arte, não obstante ter por finalidade

98
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

a satisfação das necessidades estéticas do homem, não


esta em contradição com o trabalho da satisfação das
necessidades vitais, porque paralelamente com o
desenvolvimento das necessidades vitais também se
desenvolvem as necessidades estéticas.

A questão, porem, é: em que consiste o conteúdo da


arte e de que depende?

A arte em geral é certa expressão dos sentimentos


humanos - manifestações, aspirações, expressão que
deve ser corporificada em certa forma harmônica (forma
estética)(1).Esta expressão harmônica – pode tomar a
forma de sons, palavras, linhas ou cores – é a arte.

Qual a causa que determina essas expressões


harmônicas?

É claro que essas estão em primeiro lugar ligadas ás


manifestações e aspirações dos próprios homens. A arte
está deste modo intima e profundamente liga á vida, se
assim não fosse, ela não expressaria as manifestações e
as aspirações dos homens.

Numa sociedade mais desenvolvida terão lugar


sentimentos e aspirações diferentes dos de uma sociedade
atrasada. Os sentimentos e as aspirações duma classe
oprimida não são os de uma classe dominante; e desde
que a sociedade deve ser observada como um todo

99
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

formado de grupos e classes, com psicologias diversas e,


consequentemente, com aspirações e sentimentos
diversos, o artista somente transmite os sentimentos e
aspirações dos que lhe estão mais próximos, com os quais
está ligado e convive, ou, em outros termos: dos de seu
grupo ou sua classe, É pois, claro que, em diferentes
épocas, o conteúdo da arte se modifica de acordo com as
mudanças e as alterações das sensações e do papel de
vários grupos sociais.

Há, porém, outro fenômeno importante que também


deve ser acentuado. A arte só pode ser criada numa
sociedade que se acha em certo grau de evolução do
trabalho indireto e da divisão social do trabalho. Os
próprios artistas a principio não poderão sair do meio
daqueles que trabalham sempre para satisfazer suas
necessidades vitais; os artistas por isso são recrutados nas
camadas sociais que dispõe de mais tempo sendo mais
livres e mais despreocupados. Assim, expressarão antes
das manifestações, sentimentos e aspirações daqueles
entre os quais eles se encontram e com os quais eles
convivem e sentem, isto é, da sua camada social. A arte,
por esta razão, será naturalmente por seu conteúdo uma
arte de classe. Alem disso, a arte servirá não só como
expressão harmônica de sentimentos dados na evolução
da humanidade, como também poderá fortalecer certas
formas da vida social ou para sua modificação, ou ainda,
para sua substituição. O conteúdo e caráter da arte ainda
mais se ligará aos interesses e exigências da classe que

100
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

mais se destaca, servindo como meio de fortalecer as


posições e as condições sociais em que se encontra. Duma
arte inconsciente de classe, ou em outros termos, de arte
de certa classe, se transforma ela pela evolução posterior,
em consciente arte de classe, isto é, numa arte que serve
aos interesses de determinada classe.

Desde que a arte é uma forma de expressões


harmônicas, ela terá sempre essa feição, porque sem o
elemento de harmonia nunca haverá arte, mas o conteúdo
da arte corresponderá, de um lado, ao estado geral da
sociedade dada, e, de outro, será ditado pelas condições
e aspirações da classe que a destaca.

101
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO XIII

A RELIGIÃO DO PONTO DE VISTA


MATERIALISTA
Em nossa lição não nos ocuparemos com as questões
sobre a história da religião e sobre as causa das diversas
formas de religiões existentes entre os povos primitivos.
Tentaremos somente explicar a gênese, o conteúdo social
e o papel que a religião desempenhou na história da
humanidade.

A religião é, por um lado, o resultado da necessidade


que teve o homem de compreender e conhecer os
fenômenos da natureza, dos quais ele dependia
inteiramente, por outro lado, de sua inexperiência e
incapacidade em compreendê-los. A influência do homem
primitivo, pouco desenvolvido e inexperiente, sobre a
natureza foi muito limitada — o homem só conhecia a
natureza externa pela sua influência sobre ele. O homem
primitivo sentia a cada passo sua submissão ao mundo
exterior, aos fenômenos do meio em que se achava. A
princípio procurou ele meios de dominá-los, submetê-los
a si. Nasceu então a necessidade de conhecer o mundo
circundante e compreendê-lo. E não fazendo distinção
entre ele próprio e os outros fenômenos da natureza,
humaniza então a natureza, como
diz Feuerbach (animismo).

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Sendo as relações sociais de então, muito estreitas,


limitadas aos ramos de parentesco de sangue, procurou o
homem por meio dessas relações, explicar os fenômenos
da natureza. As faces “más” da natureza, ele as apreciava
como más para ele e os mesmos meios que empregava
para evitar o lado mau nas relações com outros homens,
empregava também para com os “maus” elementos da
natureza. E quando na sociedade surgiu a diferenciação de
seus membros, quando a divisão social do trabalho tornou
possível a certos membros o se destacarem, ocuparem
lugar saliente, começarem a dominar — foi então, que o
homem primitivo começou a “divinizar” os fenômenos
importantes da natureza, submetendo-se a eles. Todos os
fenômenos impressionantes tornaram-se para ele como
revelação de grandes forças “dominadoras”, como
“Deuses”. E cada fenômeno importante que atrai sua
atenção, ele o explica por uma força boa ou má, segundo
sua significação para ele. Desse modo agrupou ele os
fenômenos naturais em deuses grandes, bons e maus, etc.

Nessa tentativa de explicar a natureza e seus


fenômenos é que está a gênese da religião e da ciência.
Dessas explicações começa a nascer a concepção do
mundo, do homem primitivo. A princípio a religião abrange
no círculo de sua influência todos os fenômenos da
natureza. Com a evolução da sociedade começaram a
destacar-se diversos fenômenos, e alguns colocam-se até
em oposição a ela, tornando-se seus adversários e

103
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

provocando sua destruição. Este fenômeno é que deve ser


analisado mais profundamente.

Quando o homem começou a interessar-se por certo


fenômeno, começou ele desde então a observá-lo,
atribuindo-o a uma certa força que está acima do homem
e que o domina. Como o homem primitivo era muito fraco
na luta contra a natureza, considerava ele quase todos os
fenômenos como forças superiores, divinas, que agem
sobre ele e sobre as quais ele não sabe como agir. Nisso
já há uma contradição entre a religião e a ciência na
primeira época do desenvolvimento da religião. Com
efeito, desde que determinado fenômeno atrai a atenção
do homem, ele tem de investigá-lo, mas, por outro lado,
atribuindo a causa desse fenômeno a uma força divina
superior, ele se opõe com isso ao estudo do dado
fenômeno, impedindo desse modo os primeiros passos da
ciência, porque a ciência exige a investigação do
fenômeno, isto é, achar a ligação do fenômeno dado com
outros fenômenos; mas, se a causa do fenômeno é
atribuída a uma força divina, desaparece com isso a
possibilidade de que esteja ligado a outros fenômenos ou
causas.

Temos, portanto, aqui dois momentos: 1º, o


momento de observar e estudar os fenômenos, 2º, o
momento de explicá-los, que impede a investigação. Na
evolução posterior da religião, sai por completo de sua
competência o primeiro momento, ficando somente nela,

104
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

o segundo, isto é, o momento de explicar os fenômenos,


o que já não podia levar a nenhum progresso, mas ao
contrário, impedi-lo.

Esta contradição desenvolvia-se cada vez mais no


decurso do desenvolvimento da ideologia: a observação e
o conhecimento (na fase da experiência), — avançam em
direção à ciência, e a explicação — em direção a religião.
Temos aqui a marcha da evolução, segundo a tríade
de Hegel. A tese, isto é, a explicação dos fenômenos,
atribuindo-os a forças sobrenaturais, sobre as quais o
homem não pode agir; a antítese, isto é a observação, o
conhecimento, e na base da experiência, investigação dos
fenômenos, submetendo-os a si, ou aproveitando-os para
os interesses da humanidade; a síntese, isto é, uma nova
espécie de explicação dos fenômenos que não os atribui
mais a forças sobrenaturais, mas que se baseia na
explicação científica e na experiência. O elemento da fé
existe na síntese, porque, por isso mesmo que se baseia
na ciência, crê que esta deverá abranger com o tempo, no
círculo de suas explicações, todos os fenômenos do
mundo, orgânicos e inorgânicos, e dominá-los. Uma tal fé
é um elemento positivo no progresso da ciência.

Mas a ideologia não se desenvolvia de modo tão


simples, que a tríade se apresentasse tão facilmente. Uma
coisa, como uma ideologia acha-se, em seu
desenvolvimento, intimamente ligada às relações sociais
e torna-se dependente delas. Se assim não fosse, somente

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

como no seu início, — tentativa de acumular experiências


e explicar os fenômenos, e se ela evoluísse somente
segundo essa lógica, haveria já centenas de anos que a
religião teria sido substituída pela ciência. Assim, porem,
não aconteceu e nem poderia ter acontecido. A religião,
em seu desenvolvimento, desligou-se de seu conteúdo
lógico, colocando-se a serviço desta ou daquela classe, ou
camadas, em suas lutas pelo poder e domínio. Diferentes
campos da religião começam a desligar-se e destacar-se
dela, desenvolvendo-se segundo sua própria marcha. Mas
a parte principal e mais influente, ligou-se a este ou aquele
domínio de classe.

Ao ser estudada a história da religião, nota-se, dum


lado, a formação de certos ramos que se desligam aos
poucos da religião e formam a base da ciência, e, por outro
lado, observa-se que a parte explicativa da religião
permanece. A “religião”, no sentido atual da palavra, se
acha ligada á correspondente organização social — a
Igreja, colocando-se a serviço das classes dominantes,
servindo como meio de escravização e de obscurantismo.

Vimos que a religião em seu inicio foi uma tentativa


para explicar o incompreensível que circundava o homem
primitivo. Essa explicação atribuía aos fenômenos naturais
as relações reinantes na convivência dos homens. Na
sociedade, o homem podia evitar certos atos prejudiciais
a ele pelo suborno do chefe supremo, por exemplo, o
patriarca. Esse fato o homem transportou aos fenômenos

106
O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

da natureza, no sentido de poder evitar também as más


ações da natureza, subornando os deuses. A religião é,
assim, não só uma imagem, uma fé, um estado psicológico
do homem, como também se torna causa da atividade do
homem, em se subordinar à natureza. Cada religião devia
ter, portanto, um culto. A religião primitiva não era uma
crença abstrata, ela exigia atos e atividade. O culto em
diferentes épocas podia adotar formas diferentes, o seu
conteúdo, porem, era sempre a divinização de certas
forças, que exigem, segundo a imaginação humana, uma
certa atividade humana que se expressa em trazer
sacrifícios, preces, ao Deus dominante, para facilitar a vida
do homem, e conseguir as coisas que lhe eram
necessárias. A finalidade do culto é submeter a si as forças
naturais que agem sobre o homem. É por isso que as
forças naturais não existiam para o homem primitivo como
unidade, mas como forças distintas; esforçou-se ele por
subornar cada fenômeno isoladamente, para adaptar-se a
eles e explorá-los. O conteúdo da religião, o culto, pode
por isso ser considerado, do ponto de vista
biossociológico, como uma suposta adaptação do homem
à natureza, que naturalmente nenhum resultado prático
trazia.

É evidente que quanto mais experiências o homem


acumula, tanto mais deixa ele de explicar teologicamente
os fenômenos. Ele começa a interpretar cientificamente os
fenômenos, e aí é que começa o processo histórico de se

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

destacarem diversos campos, que saem do domínio da


religião.

Como se realiza este processo?

Sabemos pela historia da religião que ela esteve


ligada à feitiçaria.

O homem primitivo, por um lado, sofria por certos


fenômenos da natureza externa, os quais atribuía a certos
deuses, mas por outro lado, sentia também as vezes,
dores internas, cuja origem não compreendia, porque não
via sua causa na natureza, e enquanto procurava evitar os
sofrimentos exteriores, subornando a Deus, por meio de
sacrifícios ou preces, procurava ele evitar as dores
interiores por meio de ervas ou passes de mágicos
feiticeiros. Deste modo ficaram ligados os dois momentos.
Os que acumularam mais experiências puderam auxiliar
outros homens, em suas dores; tornam-se os
intermediários entre o homem e as forças da natureza
externa, ou dos deuses, passando a ser dirigentes e
executores do culto. A atividade que está ligada ao culto
se destaca do trabalho comum. O culto pode somente ser
exercido por determinado grupo social. O mágico liga-se
ao sacerdote e se torna o intermediário entre Deus e o
homem.

A religião, em seu inicio e até mesmo em sua evolução


posterior, procura abranger todos os fenômenos da

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

natureza. Porquanto representa o culto, reflete as relações


sociais, torna-se por isso cada vez mais complexa e cresce
juntamente com a evolução social e seu desenvolvimento
assume uma forma especial: isso porque, os fenômenos
simples que podem ser observados e por isso mesmo
estudados, se destacam e são estudados cientificamente.
A religião deixa, por isso, de explicar certos fenômenos
naturais pela vontade de Deus. Se na sociedade patriarcal
a religião abrange a todos os fenômenos naturais e sociais
e suas explicações são demasiadamente simplistas, é
porque a vida é também simples. Ao considerarmos,
porém, a atual religião, notamos que, de um lado,
paralelamente com a complexidade das relações sociais, a
religião também se torna cada vez mais complexa, e, por
outro, se destacam da religião os fenômenos físicos,
químicos e até biológicos, que se tornam objeto de
estudos científicos. Na religião só permanecem os
fenômenos que tem ligação com o espírito humano e os
fenômenos sociais, porque a sociedade burguesa tem
interesse na explicação religiosa (teológica) dos
fenômenos sociais . (1)

Esta é uma marcha geral do desenvolvimento da


religião, que depende, de um lado, do desenvolvimento da
ciência, e, de outro, das relações sociais. Os dois
momentos se entrelaçam intimamente, mas não se pode
fundir, porque seus conteúdos são opostos. O
desenvolvimento da ciência provoca a morte da religião,
os interesses das classes dominantes, exigem o

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

fortalecimento da religião para que as grandes massas


continuem sob seu domínio. Mas apesar disso, uma vez
que a evolução das forças produtivas exige o
desenvolvimento da ciência, já a burguesia não pode
impedir seu desenvolvimento, pode apenas traçar-lhe
certos limites, sendo-lhe impossível detê-la. Desta forma
sucede que, juntamente com o desenvolvimento da
ciência, desenvolve-se a oposição á religião. A religião
surgiu da necessidade de explicar a compreender os
fenômenos naturais; da busca de explicação a esses
fenômenos foi que se constituiu o inicio da ciência. Mas
com o decorrer do tempo, esta ultima abrange cada vez
mais fenômenos, e se torna por isso cada vez mais largo
seu campo e estreito o campo da religião, até que chegara
uma época em que não sobre mais lugar para esta.

Costuma-se até mesmo conscientemente confundir


religiosidade com certas manifestações humanas, como
êxtase e a admiração. Com esta confusão pretende-se
fortalecer a religião.

Do ponto de vista materialista, este fenômeno não


tem nenhuma ligação lógica. Quando o homem se coloca
ante a natureza, da qual ele representa uma partícula
ínfima, quando ele alcança e abrange a infinidade do
universo maravilhoso, forma-se no seu intimo certo êxtase
e certa admiração.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Este estado contemplativo é o resultado de que o


homem pode abranger com seu espírito a grandeza, sem
saber de onde ela vem nem para onde vai. Tal estado de
êxtase existirá, talvez, sempre; o homem sempre
admirará a natureza e essa admiração crescera mesmo,
com o desenvolvimento da ciência, porque esta mostra ao
homem cada vez mais grandezas e infinitos da natureza e
lhe dá de mais em mais possibilidades de submetê-la a si,
aumentando dessa forma seu domínio.

A religião, ao contrario, esta sempre ligada ao culto


em varias formas. Ela se acha ligada á submissão do
homem a uma força superior a ele e que por isso pode ser
a ele submetida. Uma tal crença tem por isso de provocar
um sentimento de impotência e submissão do homem, e
levá-lo rapidamente ao desprezo de si próprio e ao
fatalismo.

A religião devera por isso morrer, juntamente com a


evolução da ciência e com o aniquilamento da sociedade
de classes. Os dominantes do céu serão destronados
juntamente com os dominantes da terra.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

(1) Devemos observar que ultimamente se nota entre a


burguesia uma tendência em manter as massas na ignorância,
rejeitando a explicação científica até mesmo de fenômenos
naturais mais conhecidos para ligá-los à religião... (retornar ao
texto)

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

LIÇÃO XIV
Em nossa última lição analisaremos o papel das
grandes personalidades e das causalidades, na história, do
ponto de vista materialista.

O desenvolvimento da história está ligado a certos


acontecimentos históricos, nos quais certas
personalidades, de um lado, e certas casualidades, por
outro, desempenham geralmente papel importante. É
esse papel que devemos investigar.

Falando dos acontecimentos históricos que reúnem


muitos indivíduos (como revoluções, guerras, etc.), não
trataremos aí de indivíduos, mas de coletividades, e já
sabemos que a psicologia individual está comprometida na
psicologia coletiva. Não podemos deixar de lado o fato de
grandes personalidades desempenharem às vezes papel
importante nesses acontecimentos. Ainda mais: esta ou
aquela personalidade pode deixar de fato sinais de si,
sobre a época em que vive ou atua. Não podemos negar,
por exemplo, queMarx tem na história do movimento
operário um dos mais importantes papeis; que idêntica
influência exerceram em seu tempo, por
exemplo, Napoleão , nos acontecimentos da França
e Lenine no desenvolvimento da Revolução Russa. Surge
então a pergunta: — em que consiste o papel dessas
personalidades e como se explica sua importância e, por
outro lado, se o fato, de desempenharem eles, papel

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

importante não estará em contradição com os


fundamentos do materialismo histórico. Sabemos mais,
que em certos momentos sucedem, na vida da sociedade,
casualmente, devido ao encontro de diversas causas,
grandes e importantes acontecimentos. Este ou aquele
invento pode, de certa maneira, imprimir certa direção ao
desenvolvimento posterior da sociedade (estando alguns
cientistas pesquisando os meios de conseguir alimentos
artificiais, imaginemos que na Rússia, certo cientista
consiga descobrir agora esses meios; um tal
acontecimento viria colocar a Revolução Russa em
caminhos bem diversos e abriria a ela perspectivas
completamente diferentes)[1].

Essa questão do papel das personalidades e


casualidades na história deve ser explicada
cientificamente, pois sendo impossível prever quais as
personalidades que irão nascer e que causalidades irão
acontecer, quer dizer isso que não se poderia de forma
alguma, prever a marcha da evolução.

Para responder com acerto essa questão, deve-se


analisar o fenômeno das personalidades e casualidades e
ver de que elementos são formados e em que consiste sua
ação na história.

Vejamos em que consistia a personalidade


de Napoleão; por que se destacou ele da média de todos
os homens, e em consistia sua superioridade.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Napoleão foi um grande estrategista e, graças à sua


vontade forte e à sua enorme energia, exerceu grande
influência sobre outros homens e pode dirigi-los. Com isso
ele se destacou da massa circulante. Exatamente na época
em que Napoleão aparecia no palco da história, a França
encontrava-se numa situação em que essa extraordinária
habilidade pôde ser aproveitada (se, por
exemplo, Napoleão tivesse existido cinqüenta anos antes,
suas habilidades estratégicas não seriam aproveitadas e
ele não seria “um Napoleão”). Para que seu talento
estratégico pudesse aparecer e ser devidamente
aproveitado, Napoleão teve que viver em certa época
correspondente. Mas a época da Revolução Francesa não
foi por ele criada, antes, ela o criou como tal, e Napoleão,
como personalidade, é por isso um produto de sua época.
Portanto: — para que as grandes personalidades possam
ser aproveitadas, devem elas antes de tudo ter nascido
numa época correspondente. Somente a Revolução
Francesa que colocou no poder a burguesia comercial e
industrial, com suas aspirações naturais e vitais de
expansão, deu lugar a que se manifestasse o talento
de Napoleão. Se não houvesse uma pessoa tão hábil
como Napoleão, não haveria talvez tantas vitórias, mas a
França, com as suas aspirações expansoras de então,
seria tal, com ou sem Napoleão; por outro lado devido à
supremacia técnica da Inglaterra na situação econômica e
política internacional, a França, mesmo com Napoleão,
teve, finalmente, que perder a guerra. Alem disso, deve-

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

se tomar em consideração que Napoleão recebeu certa


educação, teve certas idéias, realizou certas aspirações.
Tudo isso não foi tomado fora da sociedade. Ao contrário,
era o resultado do estado geral da sociedade francesa
daquela época. Dessa forma, acontece que Napoleão se
tornou “Napoleão” devido às condições sociais da época
em que vivia. A própria personalidade é em sua maior
parte o resultado das relações sociais, do meio social, que
são determinadas, em última análise, pelas relações de
produção.

O mesmo se pode dizer de Lenine, que é um dos


maiores estrategistas no campo da luta de classes e que
possui uma vontade férrea e uma energia inquebrantável,
e cuja influência sobre as massas é colossal[2]. O saber
de Lenine e sua estratégia deram-lhe a possibilidade de
manobrar magistralmente entre diversos grupos e classes
sociais, precisar o estado da luta e a combatividade de
cada classe. Sua vontade férrea e sua energia
inquebrantável deram-lhe a possibilidade de constituir um
partido comunista tão forte e conseqüente como o nosso.

Não foi Lenine quem criou a Revolução Russa, mas a


Revolução Russa o criou. Somente alguns aspectos da
revolução Russa é que trazem a marca de Lenine, e se tais
traços individuais emprestam à Revolução certa
fisionomia, sua marcha geral, porem, é determinada pela
atividade das grandes massas operárias e camponesas.
Somente os camponeses descontentes, por um lado, e a

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

forjada combatividade do operariado por outro, e a


guerra, a crise no organismo capitalista, somente esses
três fatores é que puderam ter determinado a
Revolução. Lenine sabia muito bem auscultar o pulso da
Revolução, sabia como manobrar. Em geral, porem, sua
marcha é determinada pela coletividade, pelas grandes
massas e seus interesses. O mesmo podemos dizer do
papel de Marx no movimento operário mundial, sobre o
qual em certo sentido deixou ele sua marca individual.

Também podemos apreciar o papel das grandes


personalidades e outro ponto de vista. Sendo a história
toda, o resultado da atividade humana (“são os homens
que fazem a história”, disse muito bem Engels), acontece
que cada indivíduo desempenha um papel na história, pois
que a atividade coletiva nada mais é do que a soma de
atos individuais. Nesse sentido se diz que com certo ato
ou com a soma de certos atos, começa uma nova época
na história. A diferença entre a atividade (atos) de uma
grande personalidade e a da média dos membros da
sociedade é quantitativa e não qualitativa, mas a
quantidade às vezes se transforma em qualidade e os atos
das grandes personalidades podem se tornar inícios de
grandes modificações ou revoluções, que o trabalho
anterior dos homens médios havia preparado. Os grandes
homens estão como que impregnados da energia dos atos
de milhares e milhões de homens da massa que os
preparam. Tirem-lhes, porem, essa energia potencial e

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

ficam eles (os atos dos grande homens) sem força, e


perdem sua significação.

Se em vez de épocas inteiras tomarmos diferentes


momentos em distintas épocas, veremos que cada
momento tem sua fisionomia. Essa fisionomia é em certa
medida determinada pela atividade de personalidades que
se destacam mais ou menos da média dos homens. A
diferença aqui está somente no âmbito, na grandeza da
atividade desta ou daquela personalidade e na proporção
dos resultados. O papel dos grandes homens no conjunto
dos acontecimentos é, por isso, limitado aos traços e cores
individuais nos acontecimentos dados, e sendo que, na
história, afinal não são os traços e cores individuais que
desempenham o papel mais importante, mas sim o
conteúdo e a própria forma dos acontecimentos, claro está
que o papel de um grande homem é proporcionalmente
pequeno, na história.

Desta forma podemos estabelecer que, segundo o


ponto de vista materialista, não é completamente afastado
e negado o papel de certas grandes e até pequenas
personalidades. O materialismo histórico somente
esclarece em que consiste essa atividade, o que a provoca
e determina. A diferença entre grandes e menores
personalidades está somente na quantidade, mas não na
qualidade, porque as grandes personalidades não criam as
condições gerais, ao contrário elas próprias (os grandes

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

homens) são criadas pelas condições e provocadas


pelos acontecimentos.

O mesmo se deve dizer também dos importantes


acontecimentos casuais. Eles desempenham papel na
história, eles representem um acontecimento histórico
somente quando o terreno social está preparado para que
possam despertar as forças letárgicas e a energia
potencial. Sem isso, eles passam despercebidos na
história. O descobrimento, por exemplo, de certa lei
natural, só se poderá dar quando a ciência o preparou e
só pode tornar-se um fator influente no momento em que
a sociedade pode e deve aproveitá-lo.

O materialismo histórico traz no conjunto de suas


explicações o papel e a influência de grandes
personalidades e de casualidades importantes. Os grandes
acontecimentos nos servem para destacar na história
épocas distintas; as grandes personalidades para
compreender os traços individuais contidos na história. O
materialismo histórico tem sua maior significação em
chamar o homem à atividade. Tendo encontrado as leis da
evolução social, ele vê quais as classes que podem
progredir e lhes dá para al a consciência, — o archote que
iluminará o seu caminho histórico revolucionário.

Até os últimos tempos os filósofos esforçavam-se por


compreender o mundo; agora, porem, apresenta-se
diante da filosofia o problema de reconstruir o mundo,

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

disse Marx. No materialismo histórico sintetizou Marx a


compreensão da evolução da sociedade com a vontade
modificá-la e nos deu o instrumento para essa
modificação. O materialismo histórico tornou-se deste
modo uma filosofia e um instrumento da classe operária e
revolucionária, em sua luta pela libertação e na sua
tentativa de formar um mundo novo.

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O Materialismo Histórico em 14 Lições L.A. Tckeskiss

Notas:

[1] Estas lições foram dadas em 1921 na época da fome na


Rússia. (retornar ao texto)

[2] No presente por ter sido escrito em 1921 e Lenine ter


morrido em 1924. (N.P) (retornar ao texto)

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