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A Bíblia que temos hoje é um livro único e completo, porém, para quem não sabe, ela é formada por

vários
livros que foram escritos e colecionados ao logo da história. Mas a questão é: quem escreveu, colecionou e
definiu quais seriam estes livros?

A inspiração da Bíblia
Bom, para saber mais sobre todo este processo, precisamos começar falando sobre a inspiração divina das
Escrituras. Deus, o autor da Bíblia (Js 24.26), se revelou de forma especial para alguns homens durante a
história (Hb 1.1, At 3.21), e os inspirou a escrever o conteúdo bíblico (Dn 9.2,9-10, Is 30.8).

Toda a Bíblia é inspirada por Deus (2Tm 3.16). Mas isso não significa dizer que Deus a ditou, palavra por
palavra. Afinal, pela variedade de gênero, estilo e vocabulário, percebemos que, durante a escrita, os autores
humanos mantiveram sua personalidade (Lc 1.1-4, 1Co 7.12).

Todavia, de forma alguma, os escritores se utilizaram de ideias, conceitos ou opniões próprias, mas foram
inspirados, ou seja, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1.20-21), para utilizarem palavras aprovadas por
Deus (2Sm 23.2, Dt 4.2).

Deus guiou e supervisionou os escritores da Bíblia, para que eles, dentro de suas limitações e circunstâncias,
compusessem e registrassem, sem erros, a mensagem do Criador para a sua criação (1Co 2.13).

A formação da Bíblia
Mas, se os povos antigos não sabiam qual seria o desfecho da história bíblica e não conheciam a Bíblia
como nós conhecemos hoje (Ef 3.5-6), como eles poderiam definir quais livros fariam parte dela ou não?

Bom, este processo é conhecido como a formação do cânon sagrado. E, como não poderia ser diferente,
contou com a providência divina em recrutar homens conscientes e piedosos para identificar e preservar os
livros inspirados (2Rs 23.24, Ne 8.8, 2Cr 17.9).

| 1. O Antigo Testamento
No Antigo Testamento, por exemplo, após a redação de um texto inspirado por parte dos profetas (1Sm
10.25), o povo de Deus reconhecia nessa obra a autoridade divina (Êx 24.3), e colecionava este conteúdo
como literatura sagrada (2Cr 34.30, Dt 31.24-26).

E mesmo antes de apresentar sinais de desgaste, em virtude dos materiais que eram utilizados, como plantas
ou peles de animais, o conteúdo era preservado através de cópias, feitas com extremo cuidado, pelos
escribas (Ed 7.6).

Por volta de 400 a.C., todos os livros do Antigo Testamento já haviam sido escritos, categorizados e
agrupados segundo suas características em comum, formando o cânon hebraico.

| 2. O período Interbíblico
Depois disso, houve um período de 400 anos entre o Antigo e o Novo Testamento, onde vários outros livros
foram escritos. Dentre eles, os livros apócrifos ou deuterocanônicos, que tem sua inspiração divina rejeitada
pelos judeus e cristãos protestantes, mas aceita pelos católicos.

Apesar de serem historicamente autênticos e, inclusive, terem feito parte da Septuaginta (LXX), que foi a
tradução do Antigo Testamento para o grego, estes livros não fazem parte da Bíblia hebraica, pois não
tiveram sua inspiração divina reconhecida pelos judeus.

Verdade é que, por questões históricas e metodológicas, a igreja católica incluiu estes livros em seu cânon
sagrado, enquanto os protestantes permaneceram com o mesmo conteúdo do cânon hebraico.
| 3. O Novo Testamento
Já no caso da formação do Novo Testamento, o processo foi um pouco mais complexo do que no Antigo,
pois a revelação divina se expandiu por diversos povos em diferentes regiões (At 1.8), e já não havia um
povo, zeloso como os judeus (Rm 10.1-2), que fosse responsável por colecionar estes livros.

Contudo, algo que facilitou a identificação do conteúdo inspirado do Novo Testamento, foi que, durante a
maior parte deste processo, aqueles que receberam autoridade divina (Mt 28.18-20, Ef 2.20) e foram
testemunhas oculares da vida e da ressurreição de Cristo (At 10.39-41), estavam vivos.

E foi, principalmente por recomendação dos apóstolos (1Co 11.2, Fp 3.1-2, 2Pe 2.1) que, desde o princípio,
os cristãos tinham a preocupação em identificar, reunir e preservar os escritos inspirados (Cl 4.16, 2Pe 3.1-
2), que, inclusive, serviam como base doutrinária para as igrejas (1Ts 2.13, 1Co 14.37).

Afinal, diversos ensinamentos falsos a respeito de Jesus Cristo, começaram a circular na época (2Ts 2.1-2,
2Co 11.4). Exigindo que os cristãos fossem extremamente cautelosos ao receber ensinamentos e doutrinas
(1Tm 4.1, 2Co 11.12-15, 1Tm 6.3-4).

Sendo assim, antes mesmo da promulgação oficial do cânon do Novo Testamento, em meados do século
IV, os livros inspirados já eram devidamente identificados pelas comunidades cristãs.

A Bíblia completa
Resumindo, a unanimidade no reconhecimento da inspiração divina da Bíblia está em 66 livros, 39 no
Antigo Testamento, escrito em hebraico e com pequenos trechos em aramaico, e 27 no Novo Testamento,
escrito em grego.1

Além da inspiração e do cuidado de Deus em preservar seu conteúdo, a evidência de que a Bíblia que temos
hoje, com começo, meio e fim, é a completa Palavra de Deus, está também em outras três consequências
dessa inspiração: a unidade, a inerrância e a revelação.

Consequências da inspiração divina da Bíblia

| 1. Unidade
A inspiração divina faz com que a Bíblia, mesmo que constituída por vários livros e autores diferentes,
forme uma unidade completa (Sl 18.30). Isso jamais seria resultado de uma longa e feliz coincidência e,
certamente, estava fora do alcance dos seus autores humanos (1Pe 1.10-12).

Um exemplo dessa unidade é que, de Gênesis à Apocalipse, a Bíblia aponta um grande e mesmo problema,
que separou o homem de Deus: o pecado (Rm 5.12); e, aos poucos, revela uma única e mesma solução para
este problema: a redenção em Jesus Cristo (Rm 3.21-24, 2Tm 3.15).

A Bíblia toda é a Palavra de Deus (Lc 4.4, Pv 30.5-6), e não apenas trechos isolados. Até mesmo Antigo, e
o Novo Testamento, separados um do outro, não podem ser considerados como a completa Palavra de Deus
(Cl 1.25-27). E a principal implicância disso é que a Bíblia interpreta-se a si mesma.

Toda e qualquer passagem bíblica deve ser analisada à luz de todo o restante da Bíblia (At 17.11), e
nenhuma doutrina cristã deve ser considerada verdadeiramente bíblica, até que se analise tudo o que a Bíblia
inteira diz sobre ela (At 15.14-15, Lc 22.37).

| 2. Inerrância
Outra consequência da inspiração bíblica é a inerrância. Se a Bíblia é inspirada por Deus, e Ele certamente
não erra (Cl 1.28, Tg 1.17), logo, em seus escritos originais, a Bíblia não pode conter erros, de qualquer
natureza (Sl 19.7, Sl 119.160).

Afinal, se existirem erros, sejam pequenos ou grandes (Lc 16.17), como podemos ter certeza de que nosso
entendimento sobre Deus, Jesus Cristo e a vontade divina estão corretos? Negar a veracidade de qualquer
relato bíblico, tornaria todas as outras doutrinas questionáveis (Gl 5.9).

Por que então, muitos encontram supostos erros na Bíblia? Simplesmente, porque não entendem pelo menos
sete pontos que envolvem a literatura bíblica:

1. O primeiro ponto é a utilização de uma linguagem de aparência (Gn 1.16), para descrever certos
fenômenos da natureza, como o levantar do sol ou o cair das estrelas, por exemplo;
2. O seguindo é o uso do antropomorfismo (Gn 6.6 e Nm 23.19) e de parábolas, que são recursos para
que o homem entenda coisas espirituais através da comparação com coisas naturais;
3. O terceiro é que ao citar passagens antigas, a Bíblia utiliza paráfrases (1Co 2.9 e Is 64.4), sem a
intenção de transcrever palavra por palavra;
4. O quarto é que a análise de textos ou passagens bíblicas dependem tanto de seu contexto, como de
uma compreensão global de toda a Bíblia (Lc 24.45, Mc 12.24).
5. O quinto é que ela possui algumas informações de difícil compreensão (2Pe 3.15-16), que na
verdade são fruto da nossa limitação intelectual, para entender algumas verdades espirituais (Jo 3.10-15);
6. O sexto é que, para transmitir a verdade, ela usa várias formas literárias, assim como linguagem
simbólica e figurada (Jl 2.31, Ap 12.3);
7. E o sétimo ponto é que a Bíblia se utiliza de métodos culturais e históricos para relatar coisas como
genealogias, medidas e estatísticas, ao invés de métodos precisos da tecnologia moderna (Mt 1.1-16 e Lc
3.23-38).
Por essa razão, podemos afirmar que absolutamente tudo o que a Bíblia diz, é verdade (Jo 17.17). Não
importa a forma como a Bíblia comunique algo, nos escritos originais, ela sempre o faz corretamente(Sl
12.6, Lc 21.33).

| 3. Revelação
Por fim, por se tratar de um livro inspirado, a Bíblia tem a capacidade de revelar de forma precisa a
existência de Deus (Jo 14.6-10, Mt 11.27). Seus atributos, sua vontade, seu planos e, o mais importante,
sua relação com o ser humano (Jo 3.16, Jo 1.18).

Ainda que nossa consciência acuse a existência de um ser superior (Rm 2.14-15), e as obras da criação
demonstrem que se trata de um Deus poderoso (Sl 19.1-4, Rm 1.18-20), elas não são suficientes para trazer
o conhecimento necessário sobre este Deus (1Co 1.21).

Diante da grande oferta de religiões pelo mundo, e da carência do ser humano por algo que explique sua
existência (Ec 3.11), a possibilidade de se confundir diante de tantos caminhos (Mt 7.13-15), a fim de
encontrar a Deus, é enorme.

A única garantia que temos de conhecer seguramente o Deus verdadeiro (1Jo 5.20), é o fato de que Ele
optou por revelar-se a nós (Jo 12.32), mediante um conteúdo escrito (Mt 5.18, Rm 15.4), do qual Ele mesmo
cuidou para que fosse registrado sem erros e com as palavras corretas (Ap 22.18-19, Hb 4.12).

Conclusão
Nenhum outro meio, nada além da Bíblia, permite que o ser humano encontre verdadeiramente a Deus (Jo
6.68-69), e conheça a salvação que há em Jesus Cristo (1Co 15.3-4, Rm 10.8-10). E, tudo isso só é possível,
pelo fato da Bíblia ser um livro divinamente inspirado (Rm 16.25-27).
1
A divisão da Bíblia em capítulos e versículos, como conhecemos hoje, não fez parte dos escritos originais,
e só ocorreu entre os anos de 1200 e 1600 d.C.