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colau Sevcenko A CORRIDA PARA O SECULO XXI Copyright © 2001 by Nicolau Sevcenko Projeto grafico e capa: ‘Angelo Venosa Ilustracéo da capa: Detalne do seqiienciamento genético da bactéria Xylelia fastidiosa (amarelinho}, realizado por cientistes brasileiros com apoio da Fapesp Pesquisa iconografica: Giistina Carletti Preparacao: Eliane de Abreu Maturano Santoro Revisao: Ano Maria Barbosa Ana Maria Alvares Dados Inemacionas de Catalogacio na Publica (cr) (GGmnara eal do Livros Bail) Seveonko, Moat ‘A contida para 0 culo XX: no loop da moncanha-ussa / Nicolau Sevcenko ;coordenacio Laura de Mello Souza, Lita ‘Morte Sehucrez.— Sdo Paulo: Companhia das Ltrs, 2001. — (ranco seus; 7) veo 85-350-0002.6 1. Brasil ~ Histia ~ Século 20 2 Grllagio moderna ‘teu 203. Séeulo 21 Souza Laura de Mello @ Schwarz ila Mora. title 01.0352 Indice par ctlogo stom: 1.Ovlizagéocontempordnea Historia 909.82 2004 Todos 05 direitos desta edigo reservados & EDITORA SCHWARCZ LTDA, Rua Bandeira Paulista, 702, ¢-32 (04532-002 — Sao Paulo — sp Telefone: (11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 ‘www.companhiadasletras.com.br Vai com este livro uma homenagem ao Dinwiddie Coloured Quartet, o grupo que, ha exatos cem anos, gravou 0 primeiro disco de musica autenticamente negra, abrindo o caminho para uma mudanca decisiva da sensibilidade no século que passou e prenunciando o sonic boom do XX. se ME LL Copyright © 2001 by Nicolau Sevcenko Projeto grafico e capa: Angelo Venosa Ilustragao da capa: Detalhe do seqiienciamento genético dda bactéria Xylellafastidiosa (amarelinho), realizado por cientistas brasleros com apoio da Fapesp Pesquisa iconogratfica: Cristina Carletti Preparacéo: Eliane de Abreu Maturano Santoro Revisao: Ana Maria Barbosa ‘Ana Maria Alvares Dados intemacionas de Catalogo ma Publicaso (ce) Seveen, Nicola 4 conid para 0 séclo YO no loop da montania-ussa/ Nicolau Sevcenio ;coordenacéo Laura de Mello © Souza, (ia Mort Schurarce.—~ So Paulo :Companhis das Lees, 2001. — (Wcanco secu: 7) 150185.359.00926 1. Bras ~ Histéva ~ Seculo 20 2. Gileagda macerna — ‘Stculo 203, Século 211 Souza,Laura de Melo. Scare ila Mori. To. nS, oroase eo 90982 Incice para catslogo sistema: |.cvlzagao cortemporanes:Hitsia 90982 2004 Todos 0s direitos desta edigao reservados & EDITORA SCHWARCZ LTDA, Rua Bandeira Paulista, 702, j.32 04532-002 — sao Paulo — sp Telefone:(11) 3707-3500 Fax: (11) 3707-3501 werw.companhiadasletras.com.br Vai com este livro uma homenagem ao Dinwiddie Coloured Quartet, 0 grupo que, hd exatos cem anos, gravou 0 primeiro disco de miisica autenticamente negra, abrindo 0 caminho para uma mudanga decisiva da sensibilidade no século que passou e prenunciando o sonic boom do XXI Sumario IraoouAo. Emogées na montanha-russa A cortida do século XX A sindrome do loop e a cr Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios ‘A Segunda Guerra como marco divisor Aera da globalizacao ‘A desmontagem do Estado de bem-estar social Capitalismo sem trabalhadores, sem Estado e sem impostos 0 Adao ea Eva da ordem neoliberal O presentismo e 0 imperativo da responsabilidade CO retorno do colonialismo:a desigualdade se aprofunda OFMI,o Banco Mundial e 0 Terceiro Mundo Critica, luta humanitaria e acao em escala global Maquinas, massas, percepgoes e mentes ‘Mudangas tecnolégicas e transfiguragéo do cotidiano: tempos modernos Dos olhos as mentes: designers do século XX Ainddstria do entretenimento ¢ a sociedade do espetculo Da ditadura publicitaria pop art ‘A Revolucao Microeletronica e 0 Motim de Tompkins Square Meio ambiente, corpos e comunidades O assalto a natureza 0 principio da precaucao ‘Aengenharia genética e 0 pesadelo da eugenia Esportes, corpos e méquinas Da Sagracdo da primavera a consagracao da misica negra Sonic boom e tecnopaganismo O teatro-danca ea revolta sensual Imagolatria: a engenharia do imaginario social declinio das cidades e a espetacular ascensao dos museus A ética e a estética das ruas do século XX! Notas Procedéncia das ilustracdes INTRODUGAO Emogoes na montanha-russa Uma das sensacées mais intensas e per- turbadoras que se pode experimentar, neste nosso mundo atual, é um passeio na monta- nha-russa. SO nao é nem um pouco recomen- davel para quem tenha problemas com os ner- vos OU 0 coragdo, nem para aqueles com o sistema digestivo sensivel. A prépria decisao 1. Ceua De “THis 15 CINERAMA!", De 1952, 0 PRIMEIRO FUME A USAR 0 SISTEMA CComEINAO DE PROEGAO PANORANICA E SOM STEREOFONICO, 12 InTRODUGKO de entrar na brincadeira ja requer alguma coragem, a gente sabe que a emocao pode ser forte até demais e que podem decorrer conse- qiiéncias imprevisiveis. Entra quem quer ou quem se atreve, mas sabe-se também que muita gente entra forcada por amigos e pessoas queridas, meio que contra a vontade, pressionada pela vergonha de manifestar sentimentos de prudéncia ou 0 puro medo. Mas, uma vez que se entra, que se aperta a trava de seguranga e a geringonga se poe em movimento, a situagdo se torna irremedidvel. Bate um frio na barriga, o corpo endurece, as maos cravam nas alcas do banco, a res- Piracao se torna cada vez mais dificil e forcada, o coragao descompas- sa, um calor estranho arde no rosto e nas orelhas, ondas de arrepio descem do pescogo pela espinha abaixo. A primeira fase até que é tranqiiila, a coisa se pde a subir num ritmo controlado, seguro, previsivel. A gente vai se acostumando, o corpo comeca a distender, aos poucos esta gostando, vai achando o maximo ver primeiro 0 parque, depois o bairro, depois a cidade toda de uma perspectiva superior, dominante, se estendendo ao infinito. Aquilo é dtimo, a gente se sente feliz como nunca, poderosa, sobre- voando olimpicamente a multidao de formiguinhas hiperativas se mexendo sem parar l4 embaixo, presas em suas rotinas, ocupacdes movimentos triviais. A subida continua sem parar, no mesmo ritmo consistente, assegurado, forte; descobrimos que o céu aberto é sem limites, bate uma euforia que nos faz rir descontroladamente, nunca haviamos imaginado como é facil abracar 0 mundo; estendemos os bracos, estufamos 0 peito, esticamos 0 pescoco, fazemos bico com os labios para beijar o céu e... +. de repente 0 mundo desaba e leva a gente de cambulhada. E 0 terror mais total. Nao se pode nem pensar em como fazer para sair dali porque o cérebro nao reage mais. 0 panico se incorpora a cada Célula e extravasa por todos os poros da pele. Nao é que nao se consi- ga pensar, ndo se consegue sentir também. Nos transformamos numa IwRopuGho 13 massa energética em espasmo critico, uma sindrome viva de verti- gem e pavor, um torvelinho de torpor e crispacao. E 0 caos, é 0 fim, é o nada. Até que chega o solavanco de uma nova subida, nao mais pre- isa e reconfortante como a primeira, agora mais um tranco que atira a gente para diante e para tras, um safando curto e grosso que ao menos dé a sensacao de um baque de volta a realidade. Tolo engano: novo mergulho fatal, desta vez oscilando para a direita e a esquerda, como se a gente fosse entrar em parafuso. 0 corpo se esmaga contra a barra de seguranca, que a essa altura pare- ce vergar como um galhinho verde e fragil, o mundo ao redor se pre- cipita em avalanche contra nds, se vingando do olhar arrogante com que ainda ha pouco havia sido menosprezado. Suor frio, completo descontrole sobre as secregdes e os fluxos hormonais, lagrimas espon- taneas, baba viscosa que come¢a a espumar nos cantos da boca, os olhos saltam das 6rbitas, todos os pélos do corpo de pé, espetados como agulhas. Mais um tranco seco e uma subida aos solavancos. Nem um ins- tante e jé mergulhamos no precipicio outra vez. Agora o carro chacoa- Iha para os lados e arremete em curvas impossiveis, é total a certeza de que aquilo vai voar dos trilhos, catapultado pelo espaco até se arre- bentar longe dali. Outro baque de subida, nem o tempo de piscar ea queda livre que enche as visceras de vacuo e faz o coracao saltar pela boca. E agora, meu Deus, 0 loop...) Aaaaaaaahhhhhhhh. ! Ro- damos no vazio como um ioid césmico, um brinquedo futil dos ele- mentos, um grao de areia engolfado na poténcia geoldgica de um maremoto. Nada mais nos assusta. Ao chegar ao fim, desfigurados, descompostos, estupefatos, j4 assimilamos a licao da montanha-russa: compreendemos 0 que significa estar exposto as forcas naturais e his- toricas agenciadas pelas tecnologias modemas. Aprendemos os riscos implicados tanto em se arrogar 0 controle dessas forcas, quanto em deixar-se levar de modo apatetado e conformista por elas. que nao 14 tnRoDUGiO IPSUBAR IATA CR 2. "E como UMA ‘coRRIDA De IMONTANEA-RUSSA PARA © ESPIRITO,” Posten ve 1978 po ARTISTA FRANCES FoLON ana o THe New Science Museum oF Miesora | ROMER COASTER nos impede de suspeitar das in- eee THs DIN, tencées de quem inventou essa traquitana diabdlica. A corrida do século XX Essa imagem da montanha- Tussa, com todos os exageros que ela comporta, presta-se bem para indicar algumas das ten- SURE ee cr déncias mais marcantes do nos- so tempo. Para isso dividamos a experiéncia descrita acima em trés partes. A pri- meira éa da ascensao continua, metédica e per- sistente que, na medida mesma em que nos eleva, assegura nossas expectativas mais oti- mistas, nos enche de orgulho pela proeminén- cia que atingimos e de menoscabo pelos nossos semelhantes, que vao se apequenando na exata proporcéio em que nos agigantamos. Essa fase pode nos representar o period que vai, mais ou menos, do século XVI até meados do XIX, quan- do as elites da Europa ocidental entraram nu- ma fase de desenvolvimento tecnolégico que Ihes assequraria o dominio de poderosas forcas naturais, de fontes de energia cada vez mais potentes, de novos meios de transporte e co- municacao, de armamentos e conhecimentos especializados. Essa situacao privilegiada haveria de Ihes garantir a conquista de enormes dimensées do globo terrestre, de suas populacées e recursos, wmropucho 15 permitindo-lhes impor uma hegemonia apoiada na idéia de uma vocacao inata da civilizagao européia para o saber,o poder e a acumu- lacao de riquezas. No século XIX essa conviccao otimista seria expres- sa pela formula “ordem e progresso’ significando que a difusdo e assimilacao paulatina e sistematica dos valores da cultura européia conduziriam 0 mundo a um futuro de abundancia, racionalidade e harmonia. Asegunda é a fase em que num repente nos precipitamos numa queda vertiginosa, perdendo as referéncias do espaco, das circunstan- cias que nos cercam e até o controle das faculdades conscientes. Poderiamos interpretar essa situacao como um novo salto naquele processo de desenvolvimento tecnolégico, em que a incorporacao e aplicagao de novas teorias cientificas propiciaram o dominio e a exploracao de novos potenciais energéticos de escala prodigiosa. sso ocorreu ao redor de 1870, com a chamada Revolucao Cientifico- Tecnolégica, no curso da qual se desenvolveram as aplicacdes da ele- tricidade, com as primeiras usinas hidro e termelétricas, 0 uso dos derivados de petroleo, que dariam origem aos motores de combustao. interna e, portanto, aos veiculos automotores; 0 surgimento das industrias quimicas, de novas técnicas de prospeccdo mineral, dos altos-fornos, das fundicées, usinas siderurgicas e dos primeiros mate- tiais plasticos. No mesmo impulso foram desenvolvidos novos meios de transporte, como os transatlanticos, carros, caminhées, motocicle- tas, trens expressos e avides, além de novos meios de comunica¢ao, como 0 telégrafo com e sem fio, o radio, os gramofones, a fotografia, o cinema. Nunca é demais lembrar que esse foi o momento no qual surgiram os parques de diversdes e sua mais espetacular atracao, a montanha-russa, é claro, Na passagem para o século XX, portanto, o mundo jé era pratica- mente tal como o conhecemos. 0 otimismo, a expansdo das conquis- tas européias e a confianca no progresso pareciam ter atingido o seu 16 1nTRODUGAO ponto mais alto. E entao, num repente inesperado, veio 0 mergulho no. vacuo, 0 espasmo castico e destrutivo, o horror engolfou a historia: a irrupcdo da Grande Guerra descortinou um cendrio que ninguém jamais previra. Gracas aos novos recursos tecnoldgicos produziu-se um efeito de destruicéo em massa; nunca tantos morreram tao rdpi- do e tao atrozmente em tao pouco tempo. Essa escala destrutiva iné- dita s6 seria superada por seu desdobramento historico, a Segunda Guerra Mundial, cujo climax foram os bombardeios aéreos de varre- dura e a bomba atémica. Apés a guerra houve uma retomada do desenvolvimento centifico e tecnolégico, mas ja era patente para ‘todos que ele transcorria a sombra da Guerra Fria, da corrida arma- mentista, dos conflitos localizados nas periferias do mundo desenvol- vido, dos golpes e das ditaduras militares no chamado Terceiro Mun- do. Quaisquer que fossem os avancos,o que prevalecia era a sensa¢ao de um apocalipse iminente. Aterceira fase na nossa imagem da montanha-russa é a do loop, a sincope final e definitiva, o climax da aceleracao precipitada, sob cuja intensidade extrema relaxamos nosso impulso de reagir, entre- gando os pontos entorpecidos, aceitando resignadamente ser condu- zidos até o fim pelo maquinismo titanico. Essa etapa representaria 0 atual perfodo, assinalado por um novo surto dramatico de transfor- macées, a Revolucéo da Microeletronica. A escala das mudangas desencadeadas a partir desse momento é de uma tal magnitude que faz os dois momentos anteriores parecerem projecdes em camara lenta. Aaceleracao das inovagées tecnoldgicas se da agora numa esca- la multiplicativa, uma auténtica reagdo em cadeia, de modo que em curtos intervalos de tempo o conjunto do aparato tecnoldgico vigen- ‘te passa por saltos qualitativos em que a ampliacao, a condensagao e a miniaturizagéo de seus potenciais reconfiguram completamente o universo de possibilidades e expectativas, tornando-o cada vez mais } ItRovugio 17 imprevistvel, irresistivel e incompreensivel. Sendo assim, sentindo- nos incapazes de prever, resistir ou entender o rumo que as coisas tomam, tendemos a adotar a tradicional estratégia de relaxar e gozar. Deixamos para pensar nos prejuizos depois, quando pudermos. Mas 0 problema é exatamente esse:no ritmo em que as mudangas ocorrem, provavelmente nunca teremos tempo para parar € refletir, nem mes- mo para reconhecer 0 momento em que ja for tarde demais. A sindrome do loop e a critica A intengao deste texto € tentar contribuir para que isso néo ocorra, ou seja, para que, aturdidos por esse efeito desorientador de acelera¢ao extrema, nao nos sintamos dispostos a ceder, desistir e nos conformar com o que der e vier. Chamemos esse efeito perverso pelo qual a precipitacdo das transformacées tecnolégicas tende a nos sub- meter a uma anuéncia passiva, cega e irrefletida, de sindrome do loop.Se assim for, digamos que este livro tenta elaborar um programa preventivo a essa perversao tipica da passagem do século XX para 0 XXI. E fato que nao se pode prever 0 curso e o ritmo das inovagbes tecnolégicas, mas a conclusao seguinte — de que também nao pode- mos resistir a elas ou compreendé-las — nao € verdadeira. Podem-se fazer muitas coisas com a técnica, € gracas ao seu incremento é pos- sivel fazer cada vez mais, Mas uma coisa que a técnica nao pode fazer 6 abolir a critica, pela simples razdo de que precisa dela para descor- tinar novos horizontes. Os sistemas politicos que tentaram banir a cri- tica morreram, sintomaticamente, por obsolescéncia tecnoldgica. A critica, portanto, é a contrapartida cultural diante da técnica, € ‘0 modo dea sociedade dialogar com as inovagées, ponderando sobre seu impacto, avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobra- mentos. A técnica, nesse sentido, é socialmente conseqiiente quando dialoga com a critica. O problema, assim, ndo é nem a técnica e nem 18 INTRODUGHO 3. PROTESTO DIANTE OA, SEDE DA COMPANHIA PETROLIFERA SUNCOR, Eu CALGARY, CANADA, DURANTE 0 CoNGRESSO Munoiat oe PeiRoxt0, ut junto D€ 2000. Nos TRaseiRos Dos MANIFESTANTES SE LE & APRESSHO AMOIGUA ""WinopoWER Now" a critica, mas a sindrome do loop, que emudece a voz da critica, tornando a técnica surda a sociedade. Com isso perdem ambas. Como ja falamos um pouco da técnica, vamos conside- rar 0 caso da critica, que 6 também dos mais interessantes. A palavra “critica” deriva do verbo grego krinein, que significa “decidir Seu equivalente em latim é cernere, que, além de “decidir? signi- fica também, como é facil perceber, “discernir’: Outras derivacdes gregas da palavra sao: krités, que significa “juiz"; kritikés (que por sua vez deriva de krités), que se refere 4 pessoa capaz de elaborar juizos ou proceder a julgamentos, concluindo por uma decisao, ou seja, por uma avaliagéo judiciosa destinada a orientar as acdes que dada comunidade deve empreen- der; outra dbvia derivacao do mesmo termo InroDucAo 19 grego é kritérion, que sao os fundamentos relativos aos valores mais elevados de uma sociedade, em nome e em funcao dos quais os juf- 205 € as criticas sao feitos, os julgamentos sdo conduzidos e as deci- s6es sao tomadas. Dai se conclui que uma comunidade que perca sua capacidade critica perde junto sua identidade, vé dissolver-se sua substancia espiritual e extraviar-se seu destino. Curiosamente, outra das derivacées da palavra grega em questao é krisis, significando o vacuo desorientador que se estabelece quando os critérios que orien- tam os juizos, por alguma calamidade historica, politica ou natural, se véem suspensos, abolidos ou anulados. Neste momento tumultuoso, em que a celeridade das mudancas ver sufocando a reflexdo e o didlogo, mais que nunca é imperativo investir nas funcoes judiciosas, corretivas e orientadoras da critica. Para isso é necessario adotar uma estratégia baseada em trés movi- mentos distintos. 0 primeiro consiste em conseguirmos despren- der-nos do ritmo acelerado das mudancas atuais, a fim de obter uma posicado de distanciamento a partir da qual possamos articular um discernimento critico que nunca conseguiriamos estabelecer se nos mantivéssemos colados as vicissitudes das proprias transformacoes. O segundo requer que recuperemos o tempo da propria sociedade, ou seja, 0 tempo histdrico, aquele que nos fornece o contexto no inte- rior do qual podemos avaliar a escala,a natureza, a dinamica e os efei- tos das mudancas em curso, bem como quem sao seus beneficidrios e a quem elas prejudicam. O terceiro movimento seria, entao, o de sondar o futuro a partir da critica em perspectiva histérica, ponderan- do como a técnica pode ser posta a servigo de valores humanos, beneficiando 0 maior numero de pessoas. Essa reflexao em trés tempos nao deve se limitar aos interesses das sociedades e das geracées atuais, mas levar em conta a sobrevi- véncia ea qualidade de vida também das geracGes futuras — consi- derando, portanto, valores de longa duracao como participacdo 20 wrRODUGhO 4. A crise munDIAL pe 1941, AEPRESENTADA POR UM SIMBOUSMO SINISTRO PELO CARICATURISTA ALEMAD T. HeIne, democr ica nas discuss6es e decisdes que di- zem respeito a todos, distribuicao eqilitativa dos recursos e oportunidades gerados pelas transformacées tecnolégicas, luta contra todas as formas de injustica, violéncia e discrimina- (a0, € preservacdo dos recursos naturais. Esses 80 08 critérios para que se possa julgar critica- mente o presente, com sentido histdrico e sen- so de responsabilidade em relacao ao futuro. Se a sindrome do loop abole a percepgao do tempo, para enfrenta-la é preciso desdobrélo nos seus trés ambitos: presente, passado e futuro. Ha uma Ultima questao a considerar, par- ticularmente relevante. O surto vertiginoso das transformagées tecnolégicas nao apenas abole lviRopucko. 21 a percepcao do tempo:el le também obscurece as referéncias do espa- ¢0. Foi esse o efeito que levou os técnicos a formular o conceito de globalizacao, implicando que, pela densa conectividade de toda a tede de comunicacées e informagdes envolvendo o conjunto do pla- neta, tudo se tornou uma coisa sé. Algo assim como um tinico e gigantesco palco onde os mesmos atores desempenham os mesmos papéis na tinica peca em que se resume todo o show. Assistindo a esse espetaculo a partir da nossa perspectiva brasileira — entretan- to, com algum senso critico —, podemos concluir que ou a peca é uma comédia tao maluca que nao da para rir, ou é um drama em que nos deram o papel mais ingrato. Porque o fato é que as mudangas tec- noldgicas, embora causem varios desequilibrios nas sociedades mais desenvolvidas que as encabecam, também canalizam para elas os maiores beneficios. As demais sao arrastadas de roldao nessa torren- te, ao custo da desestabilizacao de suas estruturas e instituicdes, da exploracao predatéria de seus recursos naturais e do aprofundamen- to drastico de suas jé graves desigualdades e injusticas. O lado mais perverso da hist6ria, portanto, € que, para um gran- de ntimero de pessoas naquelas sociedades e para uma porgao signi- ficativa de seus sécios e aliados nestas, a sindrome do loop cai como uma béngao di ina, pois Ihes garante toda a excitagéo da correria livrando-os, ao mesmo tempo, da responsabilidade de conjeturar sobre as conseqiiéncias atuais e futuras desencadeadas por esse paradoxal trem da alegria. Como foi do lado de la que ele foi inventa- do, é | também que ficam os controles e o pessoal que o administra. Nos, do lado de ca, temos portanto as maiores e melhores razdes para refletir criticamente sobre os descaminhos da técnica. Talvez com isso venhamos a lucrar todos, restituindo a sociedade a voz com que ela possa declarar os limites da técnica Asituacao parece critica, mas quicd nao seja tarde demais. Segu- re firme na trava da sua vagoneta e tente se concentrar. Afinal, uma 22 INTRODUCAO 5.0 CARIOCA LeoniDas A Suva (1913-93), ‘QUE na Cora bo Munoo be 1938 For cetesRizapo PELOS FRANCESES COMO 0 DIAMANTE NEGRO, CRIOU A JOGADA CONHECIDA COW " BKICLETA VOADORA" ELA PRIMERA VEZ NA HisTéRIA 00 FUTEROL BRASILEIRO, A SELECRO DDESSE ANO NAO SOFREU RESTRICOES QUANTO A, ESCALAGAO DE ATLETAS NeGROS, das vantagens de se estar suspenso no loop é que 0 sangue desce a cabeca, e isso é otimo para pensar. Imagine que vocé é o Homem (ou a Mulher) Morcego, repousando e restaurando as energias pendurado no teto da caverna, pronto para lutar contra as injustigas em meio as trevas da noite. Ou que encontrou a luz numa sesso de ioga, meditando de ponta- cabeca. Ou que esta prestes a marcar um gol preciso de bicicleta, estufando a rede do adver- sario e enchendo 0 cora¢ao da torcida de ale- gria porque, uma vez mais, um ser humano humilde e delicado como Leénidas conseguiu furar uma defesa reforcada por todas as vanta- gens do privilégio. CAPITULO | Aceleraed tecnnligica, midancas eLondmices & desequilibrias A Segunda Guerra como marco divisor O que distinguiu particularmente o sécu- lo XX, em comparagéo com qualquer outro periodo precedente, foi uma tendéncia conti- nua e acelerada de mudanca tecnoldgica, com efeitos multiplicativos e revolucionarios sobre praticamente todos os campos da experiéncia humana e em todos os ambitos da vida no pla- neta. Esse surto de transformacoes constantes pode ser dividido em dois periodos basicos, 1. Vista on CENTRAL NuctEaR € Cruas-Mieysse, EM ARDECHE, HA Franca, ‘Apart a SEGUNDA METADE DO SECULO XX, 0 TEMPO ENTRE & DESCOBERTA CenTiFica & sua aPucacéo INDUSTIEAL TEM sID0 PROGRESSWVAMENTE REDUTIOO: FORA NECESSARIOS 56 ANOS FARA CO TELEFONE € TRES ANOS PARA 0S ORCUITOS INTEGRADOS, POR EXEMPLO. 24 apiTuD| Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios intercalados pela irrupcdo e transcurso da Segunda Guerra Mundial. Na primeira dessas fases, prevaleceu um padrao industrial que repre- sentava o desdobramento das caracteristicas introduzidas pela Revo- lugao Cientifico-Tecnoldgica de fins do século XIX, conforme indicado na Introducao (p.11).' A segunda fase, iniciada apés a guerra, foi mar- cada pela intensificacao das mudancas — imprimindo a base tecno- légica um impacto revelado sobretudo pelo crescimento dos setores de servicos, comunicacoes e informacoes —, 0 que a levou a ser ca- racterizada como perfodo pés-industrial. Para se ter uma idéia da amplitude e densidade dessas mu- dancas tecnolégicas, consideremos alguns dados relativos a0 sécu- lo XX. Se somassemos todas as descobertas cientificas, invengdes e inovagées técnicas realizadas pelos seres humanos desde as ori- gens da nossa espécie até hoje, chegarfamos a espantosa conclusao de que mais de oitenta por cento de todas elas se deram nos tilti- mos cem anos. Dessas, mais de dois tercos ocorreram concentrada- mente apés a Segunda Guerra. Verificariamos também que cerca de setenta por cento de todos os cientistas, engenheiros, técnicos e pesquisadores produzidos pela espécie humana estao ainda vivos atualmente, ou seja, compdem 0 quadro das geragées nascidas depois da Primeira Guerra. A grande maioria deles, ademais, nao apenas ainda vive, como continua contribuindo ativamente para a multiplicagao e difusdo do conhecimento e suas aplicacdes prati- cas. Essa situagao transparece com clareza na taxa de crescimento dos conhecimentos técnicos, que desde o comeco do século XX é de treze por cento ao ano. 0 que significa que ela dobra a cada cinco anos e meio. Alguns tedricos calculam que, em vista das novas pos- sibilidades introduzidas pela Revolucao da Microeletrénica, em ini- cios do século XXI essa taxa tenderd a ser da ordem de mais de qua- renta por cento ao ano, chegando praticamente a dobrar a cada periodo de doze meses.? caring | Aceleracao tecnolégica, mudangas econémicas e desequilibrios 2s Se o primeiro grande impulso para a transformacao dos recursos produtiv©s foi a Revolucao Cientifico-Tecnolégica,o segundo surto foi catalisad © pela corrida voltada para a producao e a sofisticagéo dos equipamentos desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial. Para os dois lados beligerantes, era uma realidade patente que, quem conse- guisse sUPerar 0 oponente na concorréncia tecnoldgica, contaria com uma vantagem decisiva. Foi nessas condigdes que se desenvolveram, por exerplo, 0s radares, a propulsao a jato, novas familias de plasti- cos, polimeros e cadeias orgénicas, a energia nuclear e a cibernética. Com 0 fim da guerra, 0s Estados Unidos se viram numa situagio privilegiada, como a mais forte, coesa e prospera economia mundial. 0 governo americano coordenou um vasto plano de apoio para recu- perar as economias capitalistas da Europa ocidental, ja no contexto da Guerra Fria, concorrendo com o recém-ampliado bloco dos paises socialistaS. As agitacdes revolucionarias na Asia, Africa e América Lati- na forcariam desdobramentos dos investimentos americanos tam- bém para esas reas, O délar americano se tornou a moeda padrao para as relagdes no mercado internacional, a ele se atribuindo uma consistencia e estabilidade que evitasse crises como as dos anos 20 e 30. Beneficiando-se da sua condicao de lideranca, os Estados Unidos patrocinariam tratados multilaterais, destinados a garantir a estabili- dade dos Mercados e a reduzir praticas protecionistas e barreiras alfandegatias, consolidando sua hegemonia. O resultado desse conjunto de medidas foi um crescimento eco- némico séM precedentes das economias industriais. Entre 1953 e 1975, a taxa de produgao industrial cresceu na escala extraordinaria de seis por cento a0 ano, 0 crescimento da riqueza foi de cerca de quatro por cento per capita em todo esse periodo. Mesmo com a crise do petréleo, que atingiu e abateu os mercados entre 1973 e 1980, o crescimento continuo, embora reduzido a cerca de dois e meio por cento ao ano,o que ainda era uma escala notavel. Apos os anos 90 a tendéncia ao cres- 26 captruio! Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilfbrios Postenes oe 1942 oF Jon STEUART CURRY, DF LUMA SERIE DESTINADA A REFORCAR 05 VALORES AMERICANOS PELA PROPAGANDA, LOGO APOS ‘A.EITRADA Dos EstADOS ‘Umipos Na SecunoA Guerra: 2A, “Isto € AMERICA. LUMA Nacho COM MAS (CASAS, MAB CARROS, MAIS TELEFONES — MAS Cconroaros que quauqueR NNacAO DA TERRA, ONDE “TRMBAIHADORES LIVRES © 4 LUVRE EMPRESA ESTO CCONSTRUINDO UNA MUD [MELHOR Fan T00 0 Povo, STA EA SUA AMERICA, Manrenua-a ue!” 2B. "Isro ¢ Awenica ONDE a FaMlLa € una INSMTUIGAO SAGRADA. Onde 0 iuHos ANAM, HOWRANY& RESFEITAM SEUS PAIS... ONDE & CASA DE UM HoMEM £ 0 SEU cASTELO, ESTA EA SUA AMERICA, Mantenta-a uvrel” cimento foi retoma- da, mais sujeita agora as oscilagées volateis causadas pela intro- dugdo das tecnolo- gias microeletronicas ces ons tans no mercado interna- cional. 0 mais signifi- cativo, porém, com relacao a esse periodo de pds-guerra, foi a excepcional expansdo do setor de servicos, que em alguns paises desen- volvidos, como os Estados Unidos, chegou a gerar mais de setenta por cento do Produto Interno Bruto (PIB). Considerado esse conjunto de condicdes favoraveis, o resultado foi que a economia internacional cresceu mais desde 1945 do que em qualquer outro periodo histé- rico anterior. De fato, o PIB mundial chegou a quadruplicar entre 1950 e 1980, saltando de cerca de 2 trilhées para mais de 8 trilhdes de délares. Aera da globalizacao Nos anos 70, em meio as convulsdes cau- sadas pela crise do petréleo, uma série de medidas foi tomada para dar maior dina- mismo ao mercado internacional. Os Estados Unidos decidiram abandonar o padrao-ouro como base do mecanismo de sustentacéo cam- bial, provocando um efei- to de liberalizagao dos controles cambiais que logo se difundiu para as demais economias de- senvolvidas. Essas me- didas geraram novos flu- xos de capital que, ven- do-se agora livres dos controles e restrigdes an- tes exercidas pelos Ban- cos Centrais, se voltaram para novas oportuni- dades de investimento no mercado mundial, superando assim os limites tradicionalmente representados pelas fronteiras nacionais. Os grandes beneficiados com essa nova situagao foram os capitais financeiros — que poderiam agora especular livremente com as oscilacoes de valor entre as moedas fortes do mercado internacional — e as chamadas empresas transnacionais. Essas empresas, que atuavam simultanea- mente em diferentes reas do mundo, existiam desde os fins do século XIX. Casos tipicos delas sao, por exemplo, as grandes casas bancarias, como os Rothschild, com sede em Londres, Viena, Frankfurt e Paris e negdcios nos quatro cantos da Terra, e as companhias petroliferas, prospectando petréleo onde quer que houves- se jazidas e revendendo seus produtos refina- dos por todos os quadrantes do planeta. Seu cavframo! Aceleracéo tecnolégica, mudangas econémicas e desequillbrios 27 3. "CaBEGAS Pana cial nuwo A 53. Aqui veN Owwsuosite!” PROPAGANDA DO MODELO 8B, DA PRIMERA MARCA ‘COMERCMUMENTE eMSUCEDIDA DE [NJTOMOVEIS AMERICANS. O IMAGINARIO DA PROPULSAO A JATD, ATE 1946 associana A TECNOLOGIA DE GUERRA, JA REPRESENTA EM 1953 0 SIMBOUSMO DA CORDA ESPAGAL EM 1957 4 Uno Somrica Lancania (0 SPUTII E, HO AND SEGUINTE, 05 EsTADOS [Umt00s aevibaM 0 FaiTo LaNgAanbo 0 JéPmER-C. 28 capiru.o! Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilf numero, contudo, era ainda limitado, e elas sé comecariam a se mul- tiplicar de fato com os investimentos da reconstrugo européia no pds-guerra e com as politicas de investimento tipicas da Guerra Fria. Mas foi com as medidas de liberalizacao dos anos 70 que elas encon- trariam 0 campo fértil e ideal para a sua difusao sistematica por todo o mundo. € da/ que data o fendmeno que foi propriamente denomi- nado “era da globalizacao” Nesse novo contexto se produziu uma alteracao drastica de todo o quadro da economia mundial. Por um lado, a possibilidade de muk tiplicar filiais de suas empresas nos mais diversos pontos do planeta proporcionou as grandes corporagées um enorme poder de barga- nha, impondo, aos governos interessados em receber seus investi- mentos e respectivos postos de trabalho, um amplo cardapio de van- tagens, favores, isengdes e garantias que praticamente tornava os Estados e as sociedades reféns dos poderosos conglomerados multi- nacionais. Por outro lado, se 0 efeito da liberalizacdo dos fluxos financeiros permitiu a ampliagao dos investimentos por todo 0 mundo, dinami- zando o mercado, a producao e os servi¢os, ela também acabou pro- vocando uma separacao entre as praticas financeiras propriamente ditas e os empreendimentos econdmicos. A especulagéo com moedas e titulos de diferentes naturezas, na esfera ampla do mercado globa- lizado, se tornou por si s6 um atrativo irresistivel para os agentes financeiros. Nesse sentido, eles foram beneficiados nao so pelas medi- das de liberalizacéo e desregulamentacao dos mercados, mas tam- bém pelas conquistas das novas tecnologias microeletrénicas. ‘A multiplicacao, num curtissimo intervalo, de redes de computa- dores, comunicagGes por satelite, cabos de fibras Gpticas e mecanis- mos eletronicos de transferéncia de dados e informacoes em alta velocidade, desencadeou uma revolucdéo nas comunicagées, permi- tindo uma atividade especulativa sem precedentes. A rapidez dos flu- ‘ariruot Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 29 xos nessa rede mundial tornou o papel-moeda praticamente obsoleto, estimulando fluxos continuos de transacoes eletrénicas, que pas- saram a atuar 24 horas, acompanhando o ci- lo dos fusos hordrios, de modo a operar num periodo com os mercados do Oriente — Té- quio, Hong Kong, Cingapura —, depois com a Europa — Londres, Zurique e Frankfurt — e logo apés com a América — Nova York, Chica- go, Toronto —, reiniciando na seqiiéncia como Oriente e assim por diante, non-stop. Cada fragao de segundo em que uma informacéo nova possa ser traduzida pelo sim- ples toque de uma tecla eletronica transfere volumes fabulosos de recursos de uma parte do mundo para outra e de milhares de fontes para as contas de um pequeno punhado de agentes privilegiados. O montante dessas transagoes eletronicas do mercado financeiro mundial ul- 4. "A monte Do DINHEIRO. COMO A ECONOMIA ELETRONICA DESESTABILIZOU 0 MMUHIDO E 0S MERCADOS E CRIOU (CAOS FINANCEIRO.” ‘CAPA DO LVR DE JOEL Kurrawan, 0€ 1994, us 10S PRIMEIROS AUTORES A REIRATAR & ECONOMIA GGLORALZADA: A MAGNITUDE CRESCENTE 00S FLUKOS DE CAPITA —EA DECRESCENTE EFETIVIOADE DAS POLTICAS ECONBMICAS [NACIONASS — CONDUZIOOS arrays 00 ESPACO, CIBERNENCO, POR UMA FEDE QUE REAGE E INTERAGE EM UM CONTEXTO “VIRTUAL, EM QUE DINHEIRO SE TORNA 0ss04eT0, 30 capitvio! Aceleracao tecnol6gica, mudancas econdmicas e desequilibrios trapassa 1 trilhdo de délares por dia. Cerca de noventa por cento desse total nada tem a ver com investimentos reais em Producao, comércio ‘ou servicos, se concentrando no puro jogo especulativo, A desmontagem do Estado de bem-estar social Essa mudan¢a dramatica na base tecnolégica e na organizacao dos negécios, em escala planetaria, ocorreu, no entanto, dada sua rapidez e alcance, de um modo que se esquivou a quaisquer contro- les, fiscalizacées, debates ou avaliaces. Suas fases, operacées, rumos ou conseqiiéncias néo foram discutidos em quaisquer foros interna- cionais, nem sequer pelos governos e pelas sociedades diretamente afetados por elas. Nem essa transformacao foi condicionada por qualquer mudanga nas leis ou regras basicas que regem os sistemas econdmicos ou deu ensejo a que novas normas fossem criadas com © fim de responder aos seus efeitos. Tudo se passou como se os 6rgdos politicos ou as instancias decisorias existentes em nada con- tassem. Esse processo revela que as grandes corporacées ganharam um poder de acao que tende a prevalecer sobre os sistemas politicos, os parlamentos, os tribunais e a opiniao publica. O quadro institucional que definiu a estrutura das sociedades democraticas modernas, ba- seadas na divisdo entre os trés poderes, mais a aco vigilante da opi- niao publica, informada em especial pela atividade fiscalizatoria da imprensa livre, jé nao da conta de controlar um poder econémico que escapa aos seus limites institucionais historicos. Pode-se dizer que desde a Revolucao Cientifico-Tecnoldgica até 0s anos 70, a tendéncia histérica foi que os Estados nacionais contro- lassem a economia e as grandes corporacées, impondo-lhes um sis- tema de taxacao pelo qual transferiam parte dos seus lucros para setores carentes da sociedade, organizando assim uma redistribui- carituo! Aceleragao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 11 Gao de recursos na forma de servicos de satide, educagdo, moradia, infra-estrutura, seguro social, lazer e cultura, o que caracterizou a for- mula mais equilibrada de pratica democratica, chamada “Estado de bem-estar social’ No mesmo sentido, as organizagoes operarias, os sindicatos e as associacdes da sociedade civil atuavam tanto para pressionar as corporacdes a reconhecer os direitos e assegurar as garantias conquistadas pelos trabalhadores, como para pressionar 0 Estado a exercer seu papel de protecao social, amparo as populacoes carentes, redistribuicao de oportunidades e recursos, contencao dos monopodlios e contrapeso ao poder econdmico, Assim, sociedade e Estado se tornaram aliados no exercicio de controle das corporacoes e numa partilha mais equilibrada dos beneficios da prosperidade industrial. Com a globalizacao, porém, essa situacao mudou por completo. As grandes empresas adquiriram um tal poder de mobilidade, redu- G40 de méo-de-obra e capacidade de negociacgao — podendo deslo- car suas plantas para qualquer lugar onde paguem os menores sala- rios, os menores impostos e recebam os maiores incentivos —, que tanto a sociedade como 0 Estado se tornaram seus reféns.O tripé que sustentava a sociedade democratica moderna foi quebrado. A situacéo se reconfigurou assim:se ndo se anularem as garantias sociais e 0 poder de pressao dos sindicatos e associacoes civis, os quais insistem em defender salarios, direitos contratuais, condigdes de tra- balho e cautelas ecoldgicas, a alternativa é a evasao pura e simples das empresas, 0 desemprego e 0 conseqiiente colapso de um Estado so- brecartegado, incapaz tanto de pagar suas dividas como de atender as demandas sociais. As grandes empresas podem, desse modo, obrigar 0 Estado a atuar contra a sociedade, submetendo ambos, Estado e socie- dade, aos seus interesses e ao seu exclusivo beneficio. ‘A excepcional capacidade de mobilidade, de instalacées, recur- sos, pessoal, informacées e transacées é tal, que uma mesma empre- 22 apituio! Acelerago tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios sa pode ter sua sede administrativa onde os impostos séo menores, as unidades de producao onde os salarios sao os mais baixos, os capi- tais onde os juros sdo os mais altos e seus executivos vivendo onde a qualidade de vida é mais elevada. Em todos esses casos, as socieda- des e os Estados por onde se distribuem essas diferentes dimens6es da empresa saem sempre perdendo.£ um jogo desigual, cuja dinami- ca s6 tende a multiplicar desemprego, destituicao, desiqualdade e injustica. A traducao pratica dessa receita é o aumento da marginali- dade, da violéncia, 0 declinio do espaco ptiblico e da convivéncia democratica* Capitalismo sem trabalbadores, sem Estado e sem impostos O professor Ulrich Beck, da Universidade Ludwig-Maxmilian, de Munique, caracteriza a nova situagao da seguinte forma: Os homens de negécio descobriram o mapa do tesouro.A nova for- mula magica &: capitalismo sem trabalhadores mais capitalismo sem impostos. Entre 1989 e 1993, os impostos coletados sobre os lucros das grandes empresas cafram cerca de 18,6 por cento e reduziram-se a cerca de metade do total da renda fiscal dos Esta- dos. [grifos do original] Seu colega André Gorz formula um quadro ainda mais completo e detalhado da nova situacéo: sistema de seguro social tem de ser reorganizado e assentado sobre novas bases. Mas devemos também nos perguntar por que € que parece ter se tornado impossivel financiar essa reconstrucao. Nos tltimos vinte anos, os paises da Unido Européia se tornaram entre cingiienta e setenta por cento mais ricos. A economia cresceu muito mais répido do que a populacao. Ainda assim, a Uniao Euro- piri! Aceleracao tecnoldgica, mudangas econémicas e desequilibrios 33 péia tem agora 20 milhdes de desempre- _ 5. Estacho MABILLON DO METRO DE PARIS. gados, 50 milhées de pessoas vivendo Os CORTES NOS. PROGRAMAS De HABTACKO sem-teto vivendo nas ruas. O que aconte- POPULAR E NOS BENEFICIOS OCIS, SNMDOS 20 DeseaReco, ANA za obtido nese periode? Comparando —suiates ve eunoveus MACULANDO A IMAGEN DAS CIDADES MASS PROSFERAS lé 0 crescimento econdmico enriquece 50 vunoo. abaixo da linha de pobreza e 5 milhées de ceu ento com aquele excedente de rique- com os Estados Unidos, nés sabemos que apenas os dez por cento da populagio que esto no topo da lista da riqueza.Esses dez por cento se apropriaram de 96 por cento de toda a riqueza adicional gerada no perfodo, As coisas nao estdo tao mal assim na Europa, mas também nao estao muito melhores, André Gorz continua: 34 Gpmulo! Aceleragao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios Na Alemanha, desde 1979, 0 lucro das empresas subiu cerca de noventa por cento, mas os salérios apenas seis por cento. Por outro lado, o montante obtido com o imposto de renda dobrou nos tilti- mos dez anos, ao passo que a quantia obtida com 0 imposto sobre o lucro das empresas caiu pela metade. 0 imposto sobre as empre- sas contribui atualmente com meros treze por cento para o total das rendas do Estado, tendo caido em cerca de 25 por cento do que representava em 1980 e em 35 por cento do que foi a sua parcela em 1960. Se ele tivesse permanecido nessa base de 25 por cento,o. Estado teria arrecadado um montante adicional de 86 bilhdes de marcos por ano nas duas ultimas décadas. Situagdes como essa tém se repetido de forma semelhante em outros paises. A maior parte das corporacées transnacionais, como a Siemens ¢ a BMW, nao paga mais taxa alguma em seus paises de origem. A menos que as coisas mudem nesse quadro [...], as pessoas, com toda a nas razio, nao vao mais aceitar cortes nos seus servigos sociai suas pensées e nos seus salarios.* Se essa transformacao drastica ocorreu, como dissemos, sem pro- vocar grandes debates parlamentares, alteracdes na legislacdo ou mudangas institucionais, isso nao quer dizer que passou despercebida ‘ou que se impés sem um discurso politico que a legitimasse. Ao con- trdrio, ela assinalou um abalo decisivo que mudou os rumos das plata- formas politicas no terco final do século XX. Seu impacto provocou uma mudanca profunda nos quadros de valores, dando um vico novo a posicoes que foram tipicas do liberalismo conservador do século anterior. Nos inicios da economia industrial, as teorias de Malthus ins- tilaram panico na elite burguesa, alertando que a tendéncia 4 multipli- cacéo em escala geométrica da populacao operdria, enquanto a pro- duc&o agricola crescia apenas em escala aritmética, levaria a uma inevitavel convulsdo social. Em vista dessa ameaca dramatica, as clas- capituto! Aceleragao tecnolégi |, mudangas econémicas e desequilibrios 1s ses empresariais passaram a considerar especialmente benéficos os baixos salarios, as condicdes insalubres das fabricas, a desnutrigao generalizada e as doencas que dizimavam o operariado, eliminando assim, a0 mesmo tempo, 0 risco de revolucao. A evolucdo do quadro econémico ao longo do século XIX, com sucessivos saltos na producao agricola ocorrendo em paralelo a industrializagao nas cidades, desmentiu as teorias de Malthus. A revo- lucdo, entretanto, haveria de ocorrer, mas por outras causas, de natu- reza social e politica, com a ascensdo de partidos comunistas e socia- listas tanto nos pafses ricos como em dreas periféricas aos centros capitalistas, sobretudo a partir da Revolucao Russa de 1917. Diante desse fato — que representava uma ameaca concreta as suas posi- (Ges e privilégios — é que as camadas dominantes se dispuseram a negociar com os trabalhadores 0 conjunto de direitos e garantias que haveria de constituir o Estado de bem-estar social. A polaridade que no entanto se estabeleceu entre os regimes comunistas € os capitalis- tas, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, ensejaria uma situagao de confronto latente e um duelo de propaganda entre 0s dois blocos em que se dividiu o mundo: a Guerra Fria. O Addo e a Eva da ordem neoliberal Essa situacao de polarizacao forcou uma corrida armamentista e tecnolégica entre os mundos capitalista e comunista e no limite levou a0 esgotamento do bloco soviético, cuja rigidez centralista, acentua- da pela corrupgao crescente e pela intolerancia repressiva da maqui- na partidéria, acabaria por tornar seus quadros dirigentes imensa- mente impopulares. Esse declinio dos regimes comunistas se deu em paralelo a ascensao de dois lideres que avocaram para si os méritos da “vitéria do capitalismo’ Os novos personagens foram o presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, e a primeira-ministra Margaret Thatcher, da Gra-Bretanha. 36 Gpituto! Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios 6. Desrue ve missus Thatcher em especial se tornaria a madri- SOVIETICOS NA PRAGA VERMELHA EM novewazo or 1984, _faléncia da idéia de socialismo, ela pronunciou 0 nha do novo contexto politico. Decretando a Aramin of 1955, que se tornaria a formula basica do novo credo ‘QUANDO SE ToRNOU eee reewcawenre possiva.a -M@OMiberal: “Nao ha e nem nunca houve essa Unio Soverica tancak —-Coisa chamada sociedade, 0 que hd e sempre sss ATONICOS NO TERROR NorrE-avericano, trve tou com uM principio lapidar, de fundo moral, Iniclo UMA CoENsTENCA PACIICA BASEADA EX munarés ve misseis ve —_-SiVa:”A ganancia é um bem” (“greed is good"). haverd sao individuos’Férmula que ela comple- para abencoar 0 espirito da concorréncia agres- TASEA PARE COM fato € que, na sua oportuna alianca com Ronald ENORME POTENCIAL DE pestuicko, acumutanos ~—- Reagan,ao longo dos anos 80, ambos efetuaram FAA MANTER UMA FORK uma mudanga drastica do discurso conservador, DE REPRESALIA, ESTRATEGIA IROMICAMENIE BaTtADA coma MAD, Mutuat Até entéo as posices radicais monopoli- ‘Assuneo Destauction (Destauicao Reciproca Garavmioa). a social, apostando todas as cartas nos princi- invertendo os termos do debate politico. zavam a simbologia da emancipacao e da justi- pios da esperanca e da solidariedade, num mundo coeso por impulsos de liberdade, iqual- pir! Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 37 dade e fraternidade. Aos conservadores restava tachar essa atitude de ilusoria, de lunatica, de chamariz para a implantacdo da tirania totali- taria. A operacao ideolégica construida pelo nexo Reagan-Thatcher mudou completamente a configuracéo do debate politico. Sua maior proeza foi metamorfosear os termos da sua alianca num amélgama cultural de alcance mistico. Fortemente apoiados em tradicées purita- nas exclusivistas e autocentradas da cultura anglo-sax6nica, desloca- ram seus contetidos doutrinarios da esfera religiosa para a politica. O resultado foi o deslizamento, para o proprio sistema capital ta, do conceito de destino manifesto, tao latente nos lideres historicos ingleses e americanos, como Oliver Cromwell, George Washington e Thomas Jefferson — da idéia de uma misséo de lideranca civilizado- 1a atribuida pela Providéncia aos povos anglo-saxées. Diante da obso- lescéncia e do esfarelamento do mundo soviético, acentuado pelo apoio maci¢o dado pelas poténcias capitalistas aos rebeldes afegaos, diante da hegemonia incontestavel da lingua e da cultura anglo- americana, das redes de informagao e comunicacao unificando o pla- neta e da cristalizacdo de um estilo de vida centrado na publicidade, nos apelos hedonistas e na euforia do consumo, ninguém poderia negar a preponderancia do modelo saxénico. A queda do muro de Berlim so confirmou 0 que todos ja pressentiam aquela altura. Foi quando se declarou o “fim da historia” e surgiu a idéia de batizar o século XX como o“século americano.” Mas havia muito mais em curso do que apenas 0 delirio de Rea- gan e Thatcher de encarnarem o Addo e a Eva de um nove mundo em versao wasp. De fato, uma nova era estava surgindo, Tomando como base 0 ano de 1975, quando 0s circuitos integrados alcancgaram 0 pico de 12 mil componentes,a Revolucao Microeletrénica assumiu uma ace- leracdo explosiva. Segundo a Lei de Moore, a tendéncia era que esse numero duplicasse a cada dezoito meses. Ou seja, atingido um limiar maximo de densidade para um circuito integrado, esse equipamento 7.0 ENGENHERO E Hsico-quimico NORTE-AMERICANO Gonbon E. Moore, Que VIRIA A SER UM DOS FUNDADORES DA INTEL ConPorarion, ELABOROU ste GRAFIcO em 1965, PARTINDO DOS DADOS DE 1959, QUANDO st ‘ORIGINARANY 05 CARCUITOS WTEGRADOS, PROJETANDO-O5 ATE 0 No bE 1999. A SCALA HORIZONTAL DE TEMPO E LINEAR (aarimenica), ENQUANTO A SCALA VERTICAL DE NUMERO DE COMPONENTES E Loanriaca (exronencu). A cuava ‘optiot Com & Let DE Moone, consineranoo 0s EFETOS DESSA EXPLOSAD TECNOLOGICA EM WEI SECULG, FOI BATZADA DE ‘Muro ve Moore. 38 amtuos Aceeragio teenoligica, mudangas econémicesedesequiibios era entao utilizado para produzir circuitos mais densos ainda, numa cadeia de transformacoes cumulativas que se alimentam umas as outras. Segundo outra lei classica da engenharia, cada decuplicacao da capacidade de um sistema constitui uma mudanca qualitativa de impacto revoluciondrio. O que significa que desde 75 passamos por algo como dez revolucoes tecno- légicas sucessivas no espaco de duas décadas e meia. Uma escala de mudanga jamais vista na histéria da humanidade.* 1958 1999 nega 10s, 90 nuveRo oe conwonths Pom Tne capitulo! Aceleracso tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios A Singularidade CAPACIDADE ingularidade TEMPO. Ondas exponenciais = cms eee ie inner rain Seton on hadi res —Anaie ase pteticmee — Deano ptico * 0 conjunto hiperexponencial atinge infinitude em tempo finito — A aprocinagio deve qubrar om algun porto * Situagao pés-singularidade dificil de prever O terma "singularidade” design, em astaisica,o centro de umm buraca ‘negro que, px sua vr, &0 caro gavitaional ukvadenso daorrente da exploséo de ume estrela Tudo o que estea 20 alcance dessa forcaestu- pend € atrado © desaparece. Diante dessa “anomalia® as lis da cen, da nio se aphcam. Usada como metéfora pelo matematic e autor de Ios de ficgdo cientfica Verno: Vinge em 1991, a singuardade & o onto em que o progresso radical no & progresso mas 0 fim do mundo como 0 conhecemas; em que novos modelos deve ser apicados, node los que ainda esto slim da nossa capacidade de entensimento 8. ESTA VERSAO DA ‘Sm@uuarioave FOI e1agonapa eM 1994 or Tom McKewore, DA EMPRESA HUGHES AIRCRAFT, PARA 0 ESTUDO DE EFEITOS DA, ACELERAGAO TECNOLOGICA No AMBITO MILTAR. CAA NoVA TECNOLOGIA INCORPORA POTENCIAIS CUMULATIVoS, DANO. LUGAR A UN OVD PARADIGMA EM INTERVALOS DE TEMPO CADA VEZ MewORES,DIFERENTEMENTE DA TEVFORALIDADE LINEAR ba Lal o£ Moore, A PROJEGAO, BASEADA EM INTERVALOS DE TEMPO CADA VEZ MANS CURTOS, TORNA AS Cus “HFEEXPONENCIAS". 40 capiutot Aceleracao tecnolégica, mudancas econémicas e desequilibrios Foi esse contexto fortuito que proporcionou os meios para que Reagan-Thatcher consolidassem a agenda conservadora, retraindo a acao do Estado em favor das grandes corporacées e do livre fluxo de capitais, abalando os sindicatos, disseminando 0 desemprego, rebai- xando a massa salarial e concentrando a renda. Foi a grande epidemia mundial das privatizacdes, das reengenharias, das flexibilizagées e das megafusdes entre grandes empresas. Apoiada na dramatica mu- danga tecnolégica, essa onda foi tao poderosa que acabou forcando a alteracao do discurso das oposigées. Surfando a onda surgiu 0 jovem lider trabalhista Tony Blair, que derrotou os conservadores brandindo um programa resumido em trés palavras: “educacao, educa¢ao, educacao" Era uma proposta clara que tocava a todos. A nova realidade so oferece oportunidades para © trabalho qualificado; portanto, o melhor meio de favorecer a pro- mocao social deve ser necessariamente a educa¢ao. Ademais, na ver- tiginosa corrida tecnolégica que sucedeu a Guerra Fria, somente sociedades que tiverem autonomia tecnolégica poderao garantir sua soberania. Logo, educacao, ciéncia e tecnologia sdo as trés chaves da nova era. Entretanto, o veneno da maga proibida ja havia se infiltrado nas veias dos novos lideres. A idéia nao era mais garantir um bom empre- go para todos, conforme a tradicao socialista, mas disseminar 0 espi- rito da concorréncia agressiva por intermédio de uma nova agenda educacional, de modo que, num mercado cada vez mais concentrado, somente os mais aguerridos, os mais individualistas e os mais expe- dientes prevalecessem, em detrimento dos desfavorecidos em todos 0s quadrantes do planeta. E aqui se insere 0 conceito ampliado de destino manifesto, traduzido no novo dogma chamado “eficiéncia’ Eficiéncia, exceléncia ou eficacia sao principios altamente positi- vos e desejaveis, desde que nao se transformem em panacéias, em fins definidos por si mesmos ou por escalas quantitativas, indiferentes ais mala can ‘ariruo1 Aceleracdo tecnolégica, mudangas econémicas e desequilibrios 1 IT WAS A RACE TO BE FIRST THAT MADE YOU WHO YOU ARE, DON’T LET A FAX/MODEM SLOW YOU NOW. aos contextos em que sao aplicados, as pes- soas € a0s recursos envolvidos ou a critérios qualitativos que mantenham compromissos com valores éticos, sociais ou ambientais. Mas foi assim, com esse sentido equivoco, que eles acabaram se tornando as principais bandeiras em torno das quais se aglutinaram tanto os grupos politicos conservadores como muitos daqueles que pretendiam representar os valo- res radicais, na linha do liberalismo democrati- co, do trabalhismo, da social-democracia ou do socialismo. Engolfados pelas vicissitudes da rapida globalizacéo, que lhes diminui os pode- res de controle e de acao, esses grupos passa- ram a negociar com as novas forcas do merca- do, tentando garantir para si pelo menos algum poder de barganha. Essa situacao inusitada congelou o deba- te politico em funcao de um consenso confor- mista, denominado por seus criticos “o pensa- mento tinico’0 foco da pratica polftica mudou 9. "UMA CORRIDA PARA SER 0 PRIMMEIRO FEZ DE voce 0 QUE voce E. NAO PERMITA QUE UM FAX/MODEM DEDKE Voce DEVAGAR AGORA.” Deraine D& PRoPacanoa, NORTE-AMERICANA DE sortwane, 1994. 42 capitulo! Aceleragao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios substancialmente. Até entao suas metas principais eram a consolida- C40 e o aperfeigoamento do Estado de bem-estar social, a formulacao de politicas fiscais de taxacao progressiva com vistas & melhor distri- buicdo das rendas, definicdo e regulamenta¢ao das garantias de em- prego, satide, educacao, moradia e seguro social, fiscalizacao da for- macao de trustes e cartéis e controle de setores-chave da economia, de forma a estimular o crescimento econdmico e desonerar os servi- Gos essenciais aos setores mais carentes da populacao. 0 pressuposto, muito dbvio, desse conjunto de aces era o de que o vigor de uma sociedade democratica é¢ inversamente proporcional aos seus niveis de desigualdade social. Com o advento do “pensamento tinico” ou das chamadas politi- cas neoliberais, passou a prevalecer, ao contrario, a idéia de que os Estados abandonassem a cena, abrindo suas fronteiras ao livre jogo das forcas do mercado e das financas internacionais, desregulamen- tassem quaisquer mecanismos de protecao a economia nacional ou 4s garantias dos trabalhadores e submergissem junto com toda a sociedade sob uma liberalizacao geral, em beneficio da atuacao mais desinibida das grandes corporacées. Os argumentos em favor desse rearranjo enfatizam o que é caracterizado como seus aspectos positi- vos: a difusao das idéias e informacoes, a atualizacao e transferéncia das tecnologias, o rebaixamento dos custos das mercadorias e a am- pliacao das op¢ées para os consumidores. O presentismo e 0 imperativo da responsabilidade Mas seus aspectos negativos sdo cautelosamente ocultados, dada sua natureza alarmante: a rapida concentragéo de renda, o desemprego em massa, a exploracao e mortalidade infantil, a difusdo da miséria desamparada, o crescimento do trafico de drogas, 0 dade financeira aumento da criminalidade e da violéncia, a instabil crituto! Acelera¢ao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios 43 que torna a ordem mundial cada vez mais volatile insegura. Bastam alguns dados para revelar o rumo turbulento que o mundo vai tomando. 0 Relatério de Desenvolvimento Humano da Organizacdo das NagGes Unidas, na sua edi¢do de 2000, revela que a disparidade de renda entre os paises mais ricos e os mais pobres, que era da ordem de 3 para 1 em 1820, atingiu 44 para 1 em 1973, chegou a 72 para 1 em 1992 e esta atualmente ao redor de 80 para 1.Entre 1990 e 1998 a renda per capita caiu nos cinqiienta paises mais pobres e aumentou nos 28 mais ricos. Cerca de 1,2 bilhao de pessoas, o que equivale a um quinto da populacéo mundial, vivem em nivel de misé- ria absoluta. Cerca de duzentas criangas morrem por hora nos paises do Terceiro Mundo, em conseqiiéncia de desnutricéo e de doencas banais, para as quais a cura seria simples, desde que houvesse recur- sos de atendimento? Dados como esses deixam bem claro quem esta pagando os custos da globalizacao e quao altos eles sao. Esse aumento critico da desigualdade social é sem duvida o legado mais perverso do século XX para o XXI. Segundo o mesmo Relatério de Desenvolvimento Humano da ONU, os duzentos maiores multimilionarios do planeta acumularam juntos uma fortuna de 1,113 trilhao de délares em 2000, © que significa cerca de 100 bilhdes de délares a mais do que pos- suiam no ano anterior. Considerando, por outro lado, toda a popula- G40 somada dos paises do Terceiro Mundo, seu total de renda chega apenas a 146 bilhdes, o que representa menos de dez por cento do montante controlado pelos duzentos maiores biliondrios."° Constatagdes desse teor colocam em evidéncia que o problema mais urgente dos tempos atuais é o da responsabilidade em relacdo ao futuro, que esté sendo configurado por forcas fora de qualquer controle institucional. E essa questéo que o fildsofo Hans Jonas enfrenta no seu livro 0 imperativo da responsabilidade, cujo subtitulo € justamente A busca de uma ética para a era tecnoldgica." Para 0 ## cariruint Aceleracdo tecnolégica, mudancas econémicas e desequilibrios autor, todos aqueles que de alguma forma se beneficiam dos efeitos da globalizacao deveriam refletir a propdsito dos seus efeitos sobre os amplos grupos sociais que sdo ou excluidos oy vitimados por eles, bem como a respeito do seu enorme impacto sobre o meio ambiente. 0 fundamento da critica de Hans Jonas esta numa andlise dos limites que restringiam o alcance do jufzo @tico, tal como formulado desde Socrates e seus discfpulos, nos primérdios da filosofia ociden- tal, até o momento em que se iniciou a grande aceleracao tecnologi- ca, na segunda metade do século XX. Nesse amplo periodo, a ética se orientou por principios que a mantinham restrita a um apego ao pre- sente € a situagdes isoladas. Com o predominio, nessa fase, de condi- G6es tradicionais e de um padrao de baixo potencial tecnolégico, nao se colocava a questo do impacto futuro que viessem a ter as deci- s6es tomadas aqui e agora. Desde que nelas se interpretasse alguma forma de ganho, de vantagem ou de interesses imediatos para as par- tes envolvidas, suas possiveis contrapartidas negativas eram relega- das, sendo consideradas custos inevitaveis de algo que, no seu senti- do geral, era percebido como um progresso, e cujos beneficios eram Maiores que Os riscos ou os prejuizos que se podiam prever. Pode-se dizer, portanto, que durante todo o perfodo que antece- deu a era tecnoldgica, a ética era pensada numa base de relagées de individuo para individuo, completamente centrada numa perspectiva humana, tudo 0 mais que se relacionasse ao mundo externo e natu- tal sendo tratado como elemento neutro e estranho ao mundo moral. O que fazia sentido, uma vez que a capacidade transformadora do homem sobre o ambiente ao seu redor era, entao, muito limitada, e seu alcance futuro era pequeno e relativamente possivel de prever e avaliar. Tudo nesses termos se resumia a acordos ou decisdes pes- soais, de baixo impacto e pequeno alcance, Mas com 0 advento da era tecnolégica, 0 quadro mudou total- mente. A introducao de novas técnicas gerou uma dinamica em que “(i ‘avinuot Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 4s © potencial transformador das sociedades modernas se multiplica numa velocidade muito maior do que a necessaria para que as pes- 0as possam compreender ou refletir sobre seus impactos futuros. Por exemplo, em julho de 2000, cientistas da Universidade de Bergen, na Noruega, anunciaram as conclusdes de um estudo segundo o qual, a prosseguir 0 processo de aquecimento global causado pela emissao continua de diéxido de carbono (CO,) e metano (CH,), gases respon- saveis pelo efeito estufa, o Polo Norte desapareceré por completo a partir de 2050." 0 efeito que isso acarretard para 0 equilibrio climati- co e ambiental do planeta é imprevisivel, mas certamente assumira feicoes dramaticas, se nao tragicas. O que explica termos chegado a esse ponto é 0 carater essencial- mente cumulativo das inovacées tecnolégicas. A crescente multiplica~ Gao de conhecimentos, as redes de informacao cada vez mais densas, 0 aumento constante das taxas de produtividade, o desenvolvimento acelerado e encadeado de novos materiais, novos projetos e novas configurag6es de sistemas, todos esses fatores se refletem uns sobre os outros, de tal forma que, num curto intervalo de tempo, as circunstan- cias iniciais de um processo se transformam para além de qualquer das possibilidades previstas nos seus primeiros momentos. Portanto, seus efeitos mais abaladores, suas conseqiiéncias mais desestabiliza- doras, seus impactos mais alarmantes irdo ocorrer em algum ponto do futuro, envolvendo pessoas, circunstancias e regides que nao compar- tilharam das decisées originais, mas que entao sofrerdo plenamente os resultados do processo desencadeado anos antes, por outra gera- (40, a qual, por sua vez, nao estara mais aqui para assumir a responsa- bilidade pelas iniciativas que tomou. Esse processo caracteriza 0 que Hans Jonas considera o mal do “presentismo’ ou seja, assumir decisdes que envolvem grandes riscos No presente, sem considerar suas conseqiiéncias e vitimas futuras.Em meio a tremenda complexidade atingida pelo mundo modermo glo- 46 cnt! Aceleragao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilfbrios balizado, esse mal se manifesta em intimeras outras esferas além da tecnologica. Ele aparece nitidamente na politica, por exemplo, na medida em que os Ifderes dos partidos orientam suas decisées pelas expectativas do eleitorado, buscando atender as reivindicagdes que se traduzam no maior volume de votos e aos lobbies que revertam no maior volume de doagdes para as campanhas eleitorais. Como ambos, eleitores e lobbies, reivindicam 0 atendimento de seus inte- resses imediatos (tal como a reducdo do preco dos combustiveis fos- seis), serao as geragées futuras que terao de arcar com as conseqiién- cias, se isso vier a causar o derretimento das camadas polares. Mas, 6 claro,as geracées futuras nao tem poder de voto nem constituem lob- bies, no podendo, portanto, alterar as decisées tomadas hoje, que reverterdo sobre elas amanha. Esse mesmo mal do presentismo se manifesta no nivel das empresas. Allan Kennedy, que trabalhou a vida toda como consultor gerencial de algumas das mais poderosas companhias americanas, escreveu um livro em que analisa de que maneira, recentemente, a cultura empresarial se tornou prisioneira de expectativas de curtissi- mo prazo.” Segundo ele, desde o inicio do perfodo industrial até os anos 70, houve dois padrées basicos de empresa, primeiro 0 de tipo familiar e, desde meados do século XX, um modelo técnico-gerencial A partir de fins dos anos 70, entretanto, uma nova mentalidade se impés, em virtude da desregulamentacao da area financeira e do incentivo as praticas especulativas, intensificadas na seqliéncia pela Revolucao Microeletronica. Nesse novo contexto, as acdes de uma companhia deixaram de ser um meio para a capitalizacao da empre- sa, para 0 incremento de seus negécios € a qualificacao de seus pro- dutos, passando a ser um fim em si mesmas. Segundo essa mentali- dade, a empresa existe exclusivamente para 0 lucro imediato de seus acionistas. Essa mudanga foi consagrada com a pratica de transformar a direcao e a equipe gerencial em ai nistas, interessados portanto, aviru.o1 Aceleragao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 47 acima de tudo, na valorizagao dos titulos da companhia. Dai os pro- cessos de enxugamento, racionalizagao, reengenharia, fusdo, que catapultam o valor das acées, mas fragilizam ou levam & absorcao da empresa por meio de megafusées em conglomerados maiores. Para ‘0s acionistas pouco importa qual o destino do empreendimento: quando as acées ameacarem entrar em colapso, eles serao os primei- ros a vendé-las, embolsando 0 lucro. Greed is good! Essas distorcées que a mentalidade do presentismo imprimiu nas esferas da politica e das empresas foram ademais potencializadas por dois outros fatores que a transporiam também para os ambitos da cultura, do comportamento e dos valores definidores do status social. Esses fatores foram a publicidade e 0 consumismo, que, forta~ lecidos pela desregulamentacdo dos mercados, pela revolugao nas comunicacées e pela concentracao de renda, se tornaram a ideologia por exceléncia das sociedades neoliberais e o estofo de ilusdes que veio a preencher o vazio do“pensamento tinico” A forca de seducdo das novas técnicas publicitarias explorou até 05 limites as técnicas comunicacionais, intensificando sua capacidade de gerar apelos sensuais e sensoriais, associados a fantasias que en- volver desejos de poder, posse, preponderancia, energia, vitalidade, satide, beleza e juventude eterna. Todas essas projecdes, por mais aberrantes e inverossimeis, a publicidade sugere que podem ser atin- gidas, na proporcao direta do poder de consumo de cada um e na proporcao inversa dos limites de seu crédito bancario. A artista norte- americana Barbara Krugman resumiu brilhantemente esse estado de espirito definidor dos novos tempos, transformando a mais famosa maxima da filosofia ocidental num slogan — tipica técnica publicits- tia — que se tomou 0 credo das camadas emergentes:”Eu consumo, logo existo!” Essas pressdes consumistas, intensificadas pelas estratégias publicitdrias, se tornam assim a forca motriz a multiplicar os anseios 48 opiTuni Aceleragao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios INTERNATIONAL BUY | 10. "Dia INTERNACIONAL DO 1uKo-consumio" — 24 ve woveneRo. SlvBo10 08 CAMPANHA ANAL GHADA EM 1990 PrLA ONG cANADENSE Appustens MEDIA Founoarion, Nessa. DDKTA, OMA SEGUINTE AO DE AcAo De GRacas, (© COMERCIO PROMOVE LUQUIDAGOES COM VAS ‘As compnas De NATAL. presentistas, tanto no plano econdmico como no politico, o que acar- reta uma conver- géncia cada vez CN NOTHING DAY maiorentre os interesses emo- dos de acao das empresas e dos gru- pos politicos, que passam a tratar a sociedade civil sobretudo como mer- cado consumidor de mercadorias e servicos.O que significa que quem pode mais tera mais e do melhor; quem tem menos poder de com- pra e negociacao seré inexoravelmente em- purrado para as margens ou para fora do sis- tema, serd visto como vitima de sua prépria falta de iniciativa, incapacidade produtiva ou inadaptabilidade a vida moderna. Ou seja, a culpa dos que se véem alijados do consumo é lancada sobre eles mesmos. Eles irao compor a imagem negativa do fracasso, a ser despre- zada e evitada com horror, numa sociedade que se representa cada vez mais pelo modelo da jogatina, como sendo composta de ganha- dores e perdedores. E, como ja dizia 0 velho mestre Machado de Assis,"aos vencedores, as batatas" carmuto! Aceleragio tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios 1 | STOF OPE Siam SAD O retorno do colonialismo: a designaldade se aprofunda Contido no 4mago dessa situacao de ava- liagéo_preconceituosa, porém, prevalece um vicio que manifesta um dos aspectos mais per- versos da atitude presentista. Ele consiste em se pretender fazer tabula rasa das circunstan- cias historicas que conduziram a ordem mun- dial ao ponto em que agora se encontra. O pressuposto desse preconceito transformado em principio explicativo é o de que o momen- to atual representa como que um marco inicial, © ponto inaugural de uma nova fase em que estariam zeradas as multiplas circunstancias historicas que condicionaram nao apenas cada pessoa, mas familias, comunidades, grupos sociais e populagées inteiras a situagdes diver- sas, desiguais e hierarquicamente sobrepostas. 0 fato é que podemos estar no inicio de uma nova etapa da configuracao tecnolégica, mas 0 mundo certamente ndo comecou agora. 11. "Pare DE COMPRAR, ‘COMECE A viver, NAO CCOMPRE NADA!” “EMBACADORES ‘CULTURAS" , COMO SE AUTODENOIMNAM OS [MEMBROS DAS INUMERAS ‘ONGs anmiconsuMisTas, DESFILAM HAS RUAS DE SAN Francisco, en 24 oe uoventseo De 2000. Nesse ano, A MANIFESTACAO ANTICONSUNISTA CONTOU COM A ADESAO DE SIMPATIZANTES EM MAIS ‘be TRINTA PAS 50 carituio! Aceleragao tecnolégica, mudancas econémicas e desequilibrios 112, MERCADORES DE manein EM ZANZIBAR, 1880. "A paLaves ‘ane! RESSOAVA NO A, ERA, CCOCHICHADA, SUSPIRADA, Vocts ACHARIAM QUE REZAVAM Pan ELE, UMA PODRIDAO DE RAPACIDADE IMMBECIL SE ESPALHAVA POR TUDO, COMO 0 BAQUE DE FEDOR DE ALGUNS ‘caDAvERES. Por JUPTER! Nunca vt WADA TAO REAL a manna wins" (Josert Conran, O Coracdo os Taevas, 1899). Desde o marco da primeira grande mudanca da base técnica da sociedade européia, por volta dos séculos XIV e XV, por meio da organizacéo do mercado capita- lista, do Renascimento cultural e das grandes navegacées, tanto as suas estruturas internas pas- saram a se compor em classes de proprietarios e despossuidos, burgueses e proletarios, como seus grupos dominantes passaram a subjugar gutras comunidades ao redor do mundo, sub- metidas a sua conquista e reduzidas ao seu domir Os desdobramentos posteriores desse complexo quadro politico, social e econdmico, com a difusao da industrializacdo, dos poten- ciais energéticos da eletricidade e dos novos meios de comunicacao e transporte a partir de fins do século XIX, levaram a uma polarizacéo ainda mais aguda dessas diferencas sociais e culturais. Foi entéo para tentar reequilibrar es- ses antagonismos no interior da sociedade, os quais atingiram limiares revolucionarios e explosivos, que, como vimos anteriormente, os Estados modernos desenvolveram politicas compensatorias e redistributivistas, originan- do 0 Estado de bem-estar social. Mas se esse foi o caminho adotado pelas elites na Europa, nao ocorreu 0 mesmo com suas ex-colénias. Pressionados, os Estados caniTu01 Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios 1 europeus se viram forcados a aban- CUBA NO ES EL CONGO... doné-las, abrindo 0 caminho paraa = bs sua autonomia, em geral como con- Fe seqiiéncia de insurreigoes e rebe- lides nacionalistas e anticoloniais ao longo dos séculos XIX e XX. Mas co- mo efeito legado pela sua presenca, as nacdes recém-emancipadas ado- taram os modelos politicos das suas ex-metropoles, lideradas pelas eli- tes dotadas de educacao européia e que, ato continuo, uma vez declarada a inde- pendéncia, passaram a abusar de suas popula- cOes segundo a formula aprendida do dominio europeu, contando para isso com 0 apoio e a colaboracao militar das antigas metrdpoles. 0 colonialismo de fato nunca foi extinto, so pas- sou de mos estrangeiras para 0 dominio local, continuando a servir aos mesmos propésitos de exploragdo econémica e expropriacdo pre- datéria de recursos naturais. No presente momento, portanto, assiste- se a uma deterioragao no que concerne a esses dois diferentes contextos. No cendrio das po- téncias econdmicas, a tendéncia é a da rdpida desmontagem do Estado de bem-estar social, 0 que significa que aquelas camadas da socie- dade que apresentavam drasticas caréncias, Nos seus estratos mais baixos e entre as co- munidades de trabalhadores imigrantes, serao abandonadas a prépria sorte. 0 que gera um frente al enemigo imperialista no puede haber claudicacién. 13, Paraice Hemery Lumuvea, Liner NACIONALISTA PRIMEIRO-MINISTRO DO ‘ConGo, FoI PREso E [ASSASSINADO EM JANEIRO DE 1961, quawoo ESTARIA SOB A PROTECAO bas NACOES Unoas.. Este € 0 vmTiNo ecistRo be Lumumen, com vipa. Sua monte CAUSOU ESCANDALO NA Arnica & mancou 0 INiclo DE UMA GUERRA VIL DA QUAL CHE Guevara paxticirou, DORGANIZANDO o BaTALHA ParRice Lumumsa. ‘CARTAZ CUBANO DA Comsién ve Onenracion Revowuciowarta oe Ls DireccioN Naciowa De ORI, 52 cartuio! Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios ciclo vicioso no qual aqueles que tiveram menos condigdes de sat- de, educacao, emprego, moradia, estabilidade familiar e promocao social seréo punidos por todas essas deficiéncias, ficando exclufdos das novas oportunidades, perdendo os poucos direitos e servicos de que dispunham e legando aos seus descendentes uma miséria ainda maior do que a sua, No lado das ex-colénias 0 efeito nao é menos perverso, na medi- da em que, diante da realidade da globalizagao, a grande vantagem que se apresenta as elites locais é a possibilidade de oferecer a forca de trabalho de suas populagées e os recursos naturais de seus territo- rios em troca de valores cada vez mais baixos e métodos cada vez mais predatérios de exploracao, na tentativa de atrair as corporacoes todo-poderosas. Um quadro dramatico que nao raro envolve situa- Ges extremas, como a exploracao do trabalho infantil, o “turismo” sexual voltado para criancas e adolescentes, a erosao,a desertificacao. ou 0 envenenamento do meio ambiente. Sao ligdes dolorosas para quem imagina que a histéria 6 movida pelas forcas do progresso e que o futuro sera sempre mais promissor que 0 passado. O FMI, 0 Banco Mundial e o Terceiro Mundo Duas instituicdes se tornaram instrumentos decisivos nesse pro- cesso pelo qual o neoliberalismo impée aos paises do Terceiro Mundo uma submissao incondicional ao neocolonialismo. Esses orgaos sao 0 Fundo Monetério Internacional e 0 Banco Mundial, ambos criados em 1944, com uma dupla finalidade assistencial: financiar a reconstrugao. dos paises arrasados pela guerra e apoiar as nacdes em processo de desenvolvimento ou recém-emancipadas da condicao colonial. Os pai- ses capitalistas europeus e 0 Japao foram de fato generosamente ajuda- dos. Mas para os demais, o apoio foi se tornando uma ladeira sem fim, afundando-os cada vez mais em niveis sufocantes de endividamento. capiruni Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios Essa situacao chegou a um climax entre 0 final dos anos 70 ea primeira metade dos 80, quando, com a crise do petroleo — que mul- tiplicou mais de cinco vezes os precos dos combustivels ¢ forcou altas sem precedentes no valor do délar e dos juros a serem pagos —, as economias dos paises subdesenvolvidos foram fortemente abaladas, mergulhando em crises inflaciondrias ou se contorcendo em espirais de hiperinflacao. Quando recorreram ao FMI e a0 BM em busca de socorro urgente, o que receberam, em vez do alivio ao endividamen- to, foi um grosso pacote de medidas de“reajuste estrutural”: cerca de 115 condigées sine qua non para a ajuda financeira. Esse receituario impunha medidas, como a desregulamentacao da economia e das financas, a derrubada das barreiras alfandegarias e comerciais,a dras- tica redu¢do dos gastos ptiblicos e servicos sociais, a privatizacao das empresas estatais e a eliminacao de garantias e direitos trabalhistas, inclusive com 0 enfraquecimento dos sindicatos, de modo a permitir demissées em massa e tornar 0 mercado de mao-de-obra mais bara- to, mais décil e mais flexivel. Jd era 0 receituario do neoliberalismo se difundindo por todo o mundo. Diante dessa nova realidade, como se vé, nao se configurava uma globalizacao horizontal e unificadora, como reza a mitologia oft- cial, mas um rearranjo vertical, com as poténcias econdmicas no topo ea massa dos miseraveis do Terceiro Mundo na base imensa e esma- gada da pirémide. Em vista dessas medidas liberalizantes, privativis- tas e espoliativas,a questao nao era mais promover o desenvolvimen- to, mas fazer com que grande parte dos bens, dos recursos e dos mecanismos de decisao das ex-coldnias retornasse as antigas metro- poles colonizadoras, em especial na forma de juros pagos ao capital especulativo, em detrimento das necessidades basicas da populacao. Foi desse modo que, por exemplo, uma sociedade de padrao socialista como a da TanzAnia, assim que assinou os termos da “ajuda econémica” com o FMI, viu seu produto interno bruto cair de 309 para 54 Obimua! Aceleracao tecnolégica, mudancas econéi icas e desequil 210 dolares per capita; a taxa de pessoas vivendo abaixo do nivel de Pobreza absoluta subir 51 por cento eo analfabetismo crescer cerca de vinte por cento.Como o pais apresentava um quadro de expanséo da epidemia de AIDS, os técnicos do FMI recomendaram que os hos- Pitais ptiblicos passassem a cobrar taxas de consulta e internacao, o que fez com que a freqiiéncia das pessoas aos hospitais caisse em 53 Por cento. Resultado: o pais tem hoje 1,4 milhdo de pessoas esperan- do para morrer.'* Mais préximo de nds, 0 quadro da América Latina é igualmente desolador. Se observarmos em perspectiva, veremos que nos anos 50, em plena época do desenvolvimentismo, 0 produto interno bruto da tegiao era o maior em relacao ao de todos os outros paises em desen- volvimento, s6 perdendo para as grandes poténcias industriais. Mas segundo o relatério sobre os indicadores econédmicos e sociais da América Latina, divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvi- mento em 5 de maio de 2000, a economia da regido perde hoje para a Europa Oriental, o Oriente Médio e o Leste da Asia, superando ape- has a Africa e alguns dos mais pobres paises asidticos. Além do mais, actescenta 0 relatério, “a regiao tem tido niveis mais altos de concen- tragdo de renda do que qualquer outra regio do mundo. Na América Latina, um quarto da renda nacional vai para cinco por cento da Populacao’® No Brasil, em particular, a situacao é ainda mais drastica. Dentro do quadro geral de estagnacao da América Latina, 0 pais apresenta também os mais altos indices de concentracao de renda. Ou seja, se a América Latina tem as mais altas taxas de concentracao de renda do mundo, o Brasil excede as mais altas taxas de concentracao de rique- 2a da América Latina. Essa situacao foi altamente exacerbada pelos efeitos dos pactos de “ajuda financeira” acertados com 0 FMI eo BM desde inicios dos anos 90. Segundo a Sintese de indicadores sociais de 1999 do IBGE, o um por cento mais rico da populacao detém 13,8 por ariruot Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios ss cento da renda total, enquanto os cingienta por cento mais pobres ficam com 13,5 da renda. Ademais, no nivel de maior pobreza da sociedade brasileira, cerca de vinte por cento das familias vivem com renda per capita ao redor de meio salario minimo (equivalente a qua- renta délares).' Critica, luta bumanitaria e ado em escala global O que nao quer dizer que as forcas historicas sejam inexoraveis e nada mais se possa fazer. Ao contrario, a grande vantagem de estu- dar a histéria consiste justamente na possibilidade, que ela nos propi- cia,de uma compreensao mais articulada das circunstancias por meio das quais chegamos ao ponto em que estamos e,a partir dai,na pos- sibilidade de uma melhor avaliacao das alternativas que se apresen- tam e que podemos vislumbrar gracas 4 ampliagao da perspectiva temporal. Essa estratégia privilegiada nos permite sair dos limites estreitos tanto do presentismo como do conformismo do“pensamen- to unico” Se nos colocamos, portanto, a questo de como enfrentar esse quadro de graves desequilfbrios — introduzidos ou acentuados pela liberalizagao dos agentes econdmicos e financeiros, pelas mudangas tecnolégicas e seus efeitos globalizadores —, algumas alternativas interessantes se apresentam.0 ato inicial, porém, é compreender que nao se coloca mais a possibilidade de retorno a um contexto anterior, situado no passado remoto ou recente, ao qual pudéssemos regres- sar. As mudancas historicas ou tecnolégicas nao sao fatalidades, mas, uma vez desencadeadas, estabelecem novos patamares e configura- Ges de fatos, grupos, processos e circunstancias, exigindo que 0 pen- samento se reformule em adequacdo aos novos termos para poder interagir com eficacia no novo contexto. Nesse sentido, uma das propostas mais oportunas é a que suge- Te o desafio de que os Estados enfraquecidos passem a atuar num 56 caPiulo! Aceleracao tecnolégica, mudancas econdmicas e desequilibrios concerto transnacional, buscando uma nova capacidade reguladora de ambito mundial, compativel com o campo de a¢ao global em que agem atualmente as grandes corporacoes. Complementando essa reformulacao dos Estados nacionais, seria necessario que as respec- tivas sociedades e suas associacées civis atuassem também em coor- denacao internacional, exercendo pressGes como consumidores, ja que essa é agora a forca dominante, para que as empresas sejam transparentes quanto as suas politicas trabalhistas, suas responsabi- lidades sociais, culturais e ecolégicas, sob a pena de boicotes em escala global.” Essa dupla linha de confronto politico, simultaneamente em nivel internacional e local, conduzida por érgaos internacionais, asso- ciagGes civis e organizagées ndo-governamentais (ONGs), deveria exi- gir que as empresas e os Estados redirigissem suas energias e recur- 50s para contrabalancar os efeitos do desemprego, da destituicao e da desagregacao dos servicos basicos, dos mecanismos compensatorios e redistributivos de oportunidades e recursos. Na mesma linha, seria urgente atuar no sentido de deter e reverter a dramatica degradacao das condicées de vida nos paises do Terceiro Mundo, estabelecendo em nivel internacional procedimentos de compensacao e redistribui- ¢40 semelhantes em espirito aos adotados internamente, em relacao aos grupos desfavorecidos, nas poténcias pés-industriais. Arespeito dessa perspectiva de busca de um nivelamento mais equilibrado nas relacdes entre as poténcias capitalistas e os paises do Terceiro Mundo, o ja citado Relatério de Desenvolvimento Humano da ONU assinala algumas proposicGes novas e bastante promissoras. Como resultado justamente de pressoes continuas de associacoes civis, 6rgaos internacionais e ONGs diversas, esse relatorio, cuja edicdo comecou em 1990, pela primeira vez estabeleceu de forma categori- ca que os direitos humanos devem necessariamente incluir direitos econdmicos, sociais e culturais e nao apenas direitos civis e politicos, } capinuio! Aceleragao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios 57 conforme estabelecera a tradicao liberal. 0 que significa que 0 blo- queio sistemético a possibilidades de prosperidade, promocao social ‘ou acesso a educa¢ao, a informagao e aos meios de criacdo e expres- sao cultural constituem violacées de direitos humanos. Esse princ{pio ético-juridico comporta amplas e notdveis conse- qiiéncias. Ele implica que os responsaveis por tais violagées, sejam autoridades locais, grupos econdmicos ou instancias intemacionais, serdio passiveis de julgamento em tribunais internacionais por crimes ] contra a humanidade ou contra 0 meio ambiente. Isso representa uma conquista inovadora e radical, 4 qual s6 se chegou — conforme reconhece Richard Jolly, coordenador do relatorio — em virtude de a desigualdade em ambito global ter atingido “escalas de magnitude fora de comparacao com qualquer outro processo ja vivido ou conhe- cido anteriormente“* A definicéo desse novo conceito ético corresponde muito pro- priamente as expectativas manifestadas pelo filésofo Hans Jonas quanto a criacdo de um necessdrio“imperativo de responsabilidade” Um coro de vozes, cada vez mais denso, composto de associagoes humanitarias ou lideres identificados com os direitos humanos por todo 0 mundo, vem insistindo no enquadramento juridico e penal de individuos, grupos ou instancias cuja atuacao irresponsavel prejudi- que outras criaturas, alheias aos processos decisérios, ou seu meio natural. Esta 6, por exemplo,a posicao do célebre economista John Ken- neth Galbraith, um dos formuladores das propostas que levaram a consolidacao do Estado do bem-estar social no século XX: O desenvolvimento econémico e social que eu mais gostaria de ver no préximo século se baseia firmemente no que vi neste século que esté acabando. Ele se refere a pobreza. [..] As diferencas de rendi- mentos tém de ser diminu(das, particularmente pela melhoria de 58 caphuio! Aceleracao tecnolégica, mudangas econdmicas e desequilibrios condicdes daqueles que vivem em privacao. [...] Pelo mundo afora CAPITULO II hd populagies drasticamente empobrecidas. [..] Temos de reco- | Maguines, Massas, percepcoes f mantes nhecer que o fim do colonialismo deixou alguns paises sem gover- no ou sob regimes cruéis, nefastos ou incompetentes, que ignoram totalmente as expectativas de bem-estar de suas populacdes. Nos proximos anos é preciso criar meios pelos quais uma ONU fortale- ida intervenha na soberania de paises cujos governos estejam destruindo seus povos. Nao podemos, em boa consciéncia, conti- nuar a tolerar décadas e décadas de crueldade [...].'” | Com 0 que concordam os termos do ultimo Relatério de Desen- volvimento Humano da ONU, o qual conclui com uma proposta poli- Mudancas tecnolégicas ¢ iransfiguracao do cotidiano: tica em tom de manifesto: } tempos modernos 1. “EM NOME DA SAUDE USE ELETRICIDADE.” Como vimos Os avangos no século XXI sero conquistados pela luta humanita- 5 no capitulo an- Propaannna Dé 1927 DA Exectwica. DEVELOPMENT ASSOCIATION, COMPANHIA BRITAMICA DE FORNECIMENTO De ENERIA KLETRICA, PARA PROMCVER ©.US0 powéstico DA ELETRCIADE. ALEM DAS tecnolégicas se ¥ TARIFAS AITAS E DA PARCA eR ET EMT ats REDE DE DSTREUICKO QUE tornam um fator HESSMASLSRESTESTE nvr occu an A REssTENCA SUPERSTICSA DA FOPULAGHO, QUE GGeeaLene aTABUIA mo nosso ponto de referéncia mais distante a uauoanes FRITASMAGORICAS A ELETRICIOADE € PRIMLEGIAVA pudemos acompanhar seus desdobramentos 0 uso trancional 0a que,em direcao ao final do século XX, foramse HA EM ARO ria contra os valores que justificam as divisées sociais — e contraa « i oe terior, partir da segunda metade do século XIX e oposicao que essa luta terd de enfrentar por parte de interesses econdmicos e politicos estabelecidos.”” pelo XX afora, as transformacoes cada vez mais de- cisivo na defini- cdo das mudangas historicas. Tomamos co- Revolucao Cientifico-Tecnolégica de 1870 e tornando progressivamente mais acelerados, intensos e dramaticos. Se compusermos um. 0 aPhtuion Maquinas, massas, percepgbes e mentes quadro amplo de como esse efeito atua, verificamos que as mudan- as dos mecanismos e processos técnicos, num primeiro momento e de forma mais direta, ampliam os potenciais produtivos de dado sis- tema econémico, seja aumentando sua capacidade de produgao e consumo, seja multiplicando suas riquezas, representadas pelos flu- xos de recursos humanos, conhecimentos, equipamentos, mercado- rias e capitais. Num segundo momento, essas mudancas irdo alterar a prépria estrutura da sociedade. Isso ocorre na medida em que o surgimento dos novos e grandes complexos industriais — tais como usinas elétri- cas, fundic6es, sidertirgicas, industrias quimicas e refinarias de petro- leo, com sua escala de milhares ou dezenas de milhares de trabalhado- res — promoverd o crescimento e a concentracao dos contingentes de operarios, propiciando um aumento excepcional dos seus poderes de pressdo, barganha e contestacéo, manifestados por intermédio de associacoes, sindicatos e partidos, colocando assim em xeque os meca- nismos tradicionais de controle da sociedade burguesa. Essa situacao, potencialmente explosiva, levaria a criagéo dos primeiros movimentos e partidos com caracteristica operdria ou a for- magio de partidos multicla ‘as, ditos de massa, que representa- riam os interesses de amplas camadas identificadas pela sua condi- Gao de assalariadas ou dependentes da venda de seus conhecimentos especializados (reunindo operarios, técnicos, funcionérios publicos, profissionais liberais, trabalhadores domésticos e auténomos, vende- dores, caixeiros, artesdos, pequenos produtores agricolas e assim por diante). Esses novos partidos alterariam 0 quadro politico, ensejando o surgimento de regimes baseados nas organizacoes operarias ou de massa, em linhas tao diversas como o populismo norte-americano, 0 nazi-fascismo ou o comunismo soviético. Assim como as inovagées tecnoldgicas alteram as estruturas econdmica, social e politica, mudam ao mesmo tempo a condigao de cariruon Maquinas, massas, percepgbes e mentes 61 vida das pessoas e as rotinas do seu cotidiano, 2 Civ oF oa 5 Maquete Wunnnads E den n- ‘As novas demandas de mao-de-obra dos gra Line ee des complexos industriais, associadas a meca- —Manuartan, veseweaDa Gag ividades agricolas, Fito anauiTeTo Wauiact nizagio em massa das ativida gt Tawead ges provocam um éxodo coletivo de grandes cOn- —payuuao va emmnest tingentes da populacao rural em direcao as FoRecenonA DE ENERGIA : LETHICA OA DADE, cidades, dando origem as metrépoles e Mega-—_ConsouioareD EDISON, NA Jopoles modemas. Pela primeira vez as cidades New York Worto’s Farr & 1939. *[..] UMA CabADE com NERVOS novos meios de transporte movidos a eletrici- —_etraicos Paka cONTROLAR podem crescer em escala colossal, pois os SEUS MOVIMENTOS E dade, como os trens, bondes e metrds, ou 0s pee neha veiculos com motor de combustdo interna, —ransawentos [..]", baa 6 © DBCUESO DE i e cami- como motocicletas, carros, 6nibus anaes nhées, podem deslocar rapidamente grandes multidées dos bairros residenciais para as zonas de trabalho e vice-versa. © apituton Maq) 1s, massas, percepsées e mentes Da mesma forma que crescem horizontalmente, as metrdpoles podem expandir-se na vertical, gracas 4 versatilidade dos novos materiais de construcao,como o concreto armado, a¢os especiais, alu- minio e chapas resistentes de vidro, que darao origem aos prédios e arranha-céus. Estes, por sua vez, podem ser facilmente escalados, ape- sar da altura gigantesca, por meio da eletricidade que move os eleva- dores. E, para achar um amigo, basta apertar a campainha e usar 0 interfone. Ah, e convém nao esquecer de acender a luz do hall, pois la dentro nao entra a luz do sol. Toda essa vasta populacdo, portanto, tem sua vida administrada por uma complexa engenharia de fluxos, que controla 0s sistemas de abastecimento de agua corrente, esgotos, fornecimentos de eletrici- dade, gas, telefonia e transportes, além de planejar as vias de comu- nicacdo, transito e sistemas de distribuigéo de géneros alimenticios, de servicos de satide, educacao e seguranca ptiblica. Assim, numa metropole tudo se insere em sistemas de controle, até o passo com que as pessoas se movem nas ruas, dependente da intensidade dos fluxos de pedestres e do transito de veiculos, de forma que se alguém for mais lento do que seus circunstantes, ou sera chutado, acotovela- do e pisado ou, se nao atravessar a via expressa num rabo de foguete, terminara debaixo de algum veiculo desembestado. Esse controle tecnoldgico pleno do ambiente em que vivem as pessoas acaba, por conseqiiéncia, alterando seus comportamentos. Nessa sociedade altamente mecanizada, sao os homens e mulheres que devem se adaptar ao ritmo e a aceleracao das méquinas, e ndo 0 contrario. Um drama que foi representado com singela beleza no clas- sico Tempos modernos, desse herdi da resisténcia humana contra a tira~ nia das maquinas e dos processos de racionaliza¢ao que foi Charles Cha- plin, 0 Carlitos. Nesse filme de 1936, 0 artista expde ndo s6 a maneira como a nova civilizacao tecnolégica deforma os corpos e o comporta- mentos das pessoas, sujeitas a movimentos reflexos incantrolaveis ea caru.ol) Maquinas, massas, percepces e mentes. 6} impulsos neuréticos, como 0 modo pelo qual suas relacdes sociais, seus afetos e sua vida emo- cional sao condicionados por uma ldgica que extrapola as fragilidades e a sensit idade que constituem o limite e a graca da nossa especie. Dos olhos as mentes: designers do século XX Aalteracdo no padrao do comportamen- to das pessoas imposta pela preeminéncia das méaquinas, das engenharias de fluxos e do compasso acelerado do conjunto, como seria inevitavel, acaba também provocando uma mudanca no quadro de valores da sociedade. Afinal, agora 0s individuos nao serao mais ava- liados pelas suas qualidades mais pessoais ou pelas diferencas que tornam Unica a sua perso- nalidade. Nao ha tempo nem espaco para isso. Nessas grandes metrépoles em rapido cresci- mento, todos vieram de algum outro lugar; ‘ 3. Cena ve “Tempos moveRnos”. "A vorACIoADE ENVENENOU A ALMA DOS HOMENS, ENVOLYEU 0 ‘MUNDO NUM CHRCULO De (ODI0 E NOS OBRIGOU A [ENTRAR A PASSO DE GANSO NA MISERIA E NO SANGUE, Mewionou-se A YVELOCIDADE, MAS SOMOS ESCRAVOS DELA. A (MecANtZaGdo, QUE TRAZ A /ABUNDANCIA, LEGOU-NOS 0 DESEO. A NOSSA CIENCIA NOS TORNOU CINICOS. A NOSSA INTEUGENCIA NOS. TORNOU DUROS E BRUTAS.” Dectaracho ual DEO GRANDE DITADOR, FLVE DE Ghapun 0¢ 1940. 64 caPiTuOI| M3quinas, massas, percepcdes e mentes portanto, praticamente ninguém conhece ninguém, cada qual tem uma historia a parte, e sao tantos € estéo todos 0 tempo todo tao ocupa- dos, que a forma pratica de identificar e conhecer os outros é a mais rapida e direta: pela maneira como se vestem, pelos objetos simbdli- cos que exibem, pelo modo e pelo tom com que falam, pelo seu jeito de se comportar. Ou seja,a comunicacao basica, aquela que precede a fala e esta- belece as condicées de aproximacao, é toda ela externa e baseada em simbolos exteriores. Como esses codigos mudam com extrema rapi- dez, exatamente para evitar que alguém possa imitar ou representar caracteristicas e posigao que nao condizem com sua real condicao, estamos ja no império das modas. As pessoas sao aquilo que conso- mem. fundamental da comunicagéo — 0 potencial de atrair e cati- var — ja nao esta mais concentrado nas qualidades humanas da pes- 50a, mas na qualidade das mercadorias que ela ostenta, no capital aplicado nao sé em vestuario, aderecos e objetos pessoais, mas tam- bém nos recursos e no tempo livre empenhados no desenvolvimento na modelagem de seu corpo, na sua educacao e no aperfeicoamen- to de suas habilidades de expressao. Em outras palavras, sua visibili- dade social e seu poder de seducao sao diretamente proporcionais ao seu poder de compra. Esses dois novos fatores associados — a aceleracdo dos ritmos do cotidiano, em consonancia com a invasao dos implementos tecno- légicos, e a ampliacao do papel da visio como fonte de orientacao e interpretacao rapida dos fluxos e das criaturas, humanas e mecanicas, pululando ao redor — irao provocar uma profunda mudanga na sen- sibilidade e nas formas de percepgao sensorial das populacoes metro- politanas. A supervalorizacéo do olhar, logo acentuada e intensificada pela difusao das técnicas publicitarias, incidiria sobretudo no refinamen- to da sua capacidade de captar 0 movimento, em vez de se concentrar, como era 0 habito tradicional, sobre objetos e contextos estaticos. ariraoi Méquinas, massas, percepcdes e mentes. 4. Carisian Dior, (1905-57), munou os PADRGES DA MODA AO. clan 0 New Look eM 1947; Nova sluUErA FEMIMUNA FORIADA Et CORTES ARROJADOS ‘Fe100s Lumtosos CCONFERIA MODERWIDADE E, ‘AO MESO TEMPO, A AURA MAGICA DOS BALES E EVENTOS ELEGANTES ANITERIORES AS CUAS ‘GUERRAS. A maRcé Dio SE TORNOU SINORIMD DE [ALIA-COSTURA € DE TODOS 05 AcessORIOs IERENTES A LA, Nesse novo mundo em aceleragdo sem- pre crescente, 0 grande ganho adaptativo, em termos sensoriais e culturais, consiste exata- mente em estabelecer nexos imediatos com os fluxos dindmicos. Esse agucamento da percep- ao visual deveria ocorrer tanto no nivel sub- consciente como no da compreensao racional da sistematica das energias e elementos em acdo dindmica. Uma tal readapta¢ao dos senti- dos apresenta, pois, uma dupla vantagem. Por um lado, possibilita evitar os riscos € inconve- nientes intrinsecos a essas forcas e agentes potencializados pela aceleracao (por exemplo, desviar de um carro em alta velocidade), e, por outro, na medida em que as pessoas apren- dem a reagir a eles, Ihes permite compreendé- los melhor e tirar deles 0 maior proveito pos- FAQA SUA CABEGA. De novo, oF Novo DE Novo.” PROFAGANOA NORTE-ANER'CANA DE UM ‘SOFTWARE DE DESENKO crAsico, 1993, Le N CS ah ae Again, Again, And Agal sivel (por exemplo, inventando sistemas pee : de racionalizacao do transito urbano e de seguranga para os pedestres). A sofisti- cagio das habilida- des do olhar, embo- ra decorresse de um treinamento impos- to pela propria reali- dade em rdpida mu- danga, acabava trazendo, por conseqiiéncia, a possibilidade de ampliar os horizontes da ima- ginacdo e de instigar as mentes a vislumbrar modos mais complexos de interacdo com os novos potenciais. Alguns casos exemplares podem ajudar a compreender como ocorre esse processo que envolve mudanca tecnolégica e alteragdo da percepcao e da sensibilidade, com efeitos dire- tos sobre a imaginacao e o entendimento. Foio que se deu com o jovem Albert Einstein. Em fins do século XIX, quando ainda rapagote, ele surpreendeu seu pai ¢ seu tio com uma estra- nha questdo: "Que aparéncia teria o mundo, se visto por alguém que se deslocasse a velocida- de da luz?“A pergunta faz completo sentido, se considerarmos que aquilo que os nossos olhos captam é a luz refletida sobre as superficies, que constituem toda forma de presenga mate- ean apituiot Maquinas, massas, percepcoes e mentes 67 rial no mundo. Se estivermos a velocidade da luz, como veriamos essa luz refletida? Essa mudanga energética dramética na interagéo do nosso olhar com a realidade deveria alterar alguma coisa na nossa perce p¢ao, nao é? Mas, como a idéia de alguém se deslocar a veloci- dade da luz pareceu por si so insensata, pai e tio consideraram des- propositada a pergunta e repreenderam o garoto impertinente. Gra- cas a sua teimosia, entretanto, na busca de esclarecer essa questo, Einstein criaria a teoria da relatividade. Teria sido a genialidade que levou o rapaz a formular aquela questao? Sem duivida Einstein era dotado de uma inteligéncia excep- cional. Mas 0 que forneceu elementos para estimular sua imagina- ao e Seu entendimento foram circunstancias bastante concretas. Seu pai e seu tio eram engenheiros e foram pioneiros na implantagéo de usinas elétricas e redes de transmissao de energia na regido dos Alpes, numa érea em répido desenvolvimento industrial, nas frontei- ras entre a Austria, a Suica e o Norte da Italia. Para possibilitar a co- municacao entre esses pdlos, fortemente dificultada pelos picos ro- chosos das montanhas, foram abertos varios ttineis, permitindo a instala¢do ali de uma complexa malha ferroviaria. Viajando com os tios, 0 jovem Einstein ficava seduzido com a brusca sensacao de aceleracéo experimentada quando dois trens em direcdes opostas se cruzavam. Quando isso ocorria no escuro de um. tunel, 0 garoto via dois fachos de luz apontando um para 0 outro. E se estivéssemos num daqueles fachos, que veriamos? Para os adultos, a luzna frente dos trens servia a um propdsito bem definido:iluminar 0 caminho. Para o jovem, era um potencial aberto a possibilidades ili- mitadas.0 pai e o tio de Einstein foram pioneiros em conceber a solu- cdo de problemas praticos a partir do uso inovador da eletricidade.O menino, ja nascido num mundo movido basicamente pela energia elétrica, vislumbrava 0 seu desdobramento para outras dimensoes ainda nao imaginadas. 6s captuo Maquinas, massas, percepgdes e mentes O modo como a répida mudanca do cenario tecnolégico remo- delava as imaginacées é igualmente nitido no caso do designer fran- és Raymond Loewy, nascido em 1893, No seu livro de memérias ele descreve como as novas invencdes marcaram de forma indelével a sua viséo do mundo: As catorze anos, em Paris, onde nasci, eu ja tinha visto o nasci- mento do telefone, do aviao, do automével, das aplicagdes domés- ticas da eletricidade, do fondgrafo, do cinema, do radio, dos eleva- dores, dos refrigeradores, do raio X, da radioatividade e, nao menos importante, da anestesia.” Depois de atuar como oficial engenheiro na Primeira Guerra Mundial, 0 primeiro conflito bélico travado em termos puramente tecnoldgicos, Loewy migrou para os Estados Unidos, Alli, fascinado com 0 prodigioso desenvolvimento industrial, iria se tornar a figura quintessencial do design moderno. 0 que ele percebeu, em termos pioneiros, foram duas coisas bdsicas. Primeiro, que nao basta aos pro- dutos da indistria serem melhores, mais funcionais e mais faceis de usar, nao basta investir em qualidade, eficiéncia e conforto. Num mundo marcado pela hipertrofia do olhar, 0 fundamental é que os produtos parecam mais modernos, que se tornem eles mesmos mani- festos de propaganda da modernidade que as pessoas anseiam por incorporarem seu cotidiano, pois isso Ihes permite irradiar a autocon- fianca, 0 otimismo e o sentimento de superioridade dos que vao adiante do seu tempo, abrindo o caminho com espirito de aventura e alma de exploradores, para os que os seguem logo atras. ‘A segunda descoberta de Loewy foi que, num mundo submerso sob a avalanche cada vez mais sufocante de mercadorias € produtos industriais nado basta que os artigos sejam bons e baratos para ganhar 0 favor dos consumidores, 0 efeito massivo da producao industrial, ao enfa- ‘armuon Méquinas, massas, percepces e mentes tizar conceitos de quantidade e variedade, opri- _98/ET0s pesenHados me a preeminéncia que recaiu sobre 0 olhar '°*O" os fi 6. CAMERA ForocrAsIA como recurso de orientagao e definicao de pres- yan sem (1837) _ tigio. Dai a necessidade de dotar as mercadorias —_“0#?0 DF SAQUEUITE, Lene De AcRiuco € PRECO acess, identificado com formas, cores, linhas € textu- 7, ceaocina Covosror de um padrao visual homogéneo e inovador, ras apresentadas como um cédigo icnico da SU”t® Sic 1934), AgROOMANICA SeNELNANTE modernidade, por um lado, e, por outro, de todo 4 9 aurowove. um jogo de tensGes, contrastes € ousadias que aS 8. raLnenes para 05 avides DAARtRANCE (c. 1978), sa i DeseNAO0s PLA xadas por associacdo a nodes de pasado, obso- —compasinie o'Estuenique distinguissem das demais,as quais ficavam rebai- lescéncia e mediocridade. 0 que Loewy desco- _'NousTWEILE, FuNpana ror Loewy. briu, em suma, foi o conceito de estilo. Ou seja, a forma de utilizar as mudangas na percepcaoa fim. de capturar a ima- ginagao dos con- sumidores. Caso ainda mais interessan- te é 0 dos artis- tas que criaram a arte moderna no inicio do século XX. Esse grupo, reunido ao redor do pintor Picasso, inclufa, entre outros, 0 mUsico Erik Satie, o poeta Guillaume Apollinaire e o dramaturgo Alfred Jarry, todos artistas decisivos na elabo- ragao da nova estética, que viria a ser chamada de arte moderna. Sendo gente de vida boémia e de poucos recursos, seu modo preferido de se entreter era compartilhar das novas formas de lazer criadas gracas ao advento da eletricidad Rca 70 capiruion Maquinas, massas, percepgdes e mentes o cinema e os parques de diversdes. Diga-se de passagem que, em fins do século XIX, quando essas formas de entretenimento surgiram, eram destinadas especificamente as classes trabalhadoras; as pessoas mais abastadas as consideravam formas grosseiras, vulgares, coletivas e estupidas de diversdo, apropriadas apenas para criangas sem aces- so a educagao e para criaturas ignorantes em geral, sem condicdes de usufruir das belas-artes. No cinema, 0 grupo boémio era fa das comédias dos irmaos Méliés. Nesses filmes, em geral pasteldes, criaturas cafam da janela dos prédios sem que nada Ihes acontecesse, se davam marteladas e picaretadas nas respectivas cabecas e quem amassava era o instru- mento, ou se enchiam uns aos outros com bombas pneumiticas até que um estourava, ou executavam dancas em que, a certa altura, as pernas e os bra¢os do dancarino se separavam do corpo, ou tomavam. um banho e encolhiam a ponto de entrar pelo ralo e circular pelos encanamentos da cidade, e assim por diante. Ou seja,o que encanta va os artistas eram os truques de corte e montagem que o cinema permitia, superando todos os limites humanos e permitindo proezas jamais imaginadas, nem pelas mais ousadas formas de fantasia. Nos parques de diversdo, 0 que os atrafa eram os brinquedos que, ou por submeterem as pessoas a experiéncias extremas de des- locamento e aceleracao ou por lhes propiciarem perspectivas inusita- das, alteravam dramaticamente a percepgao do préprio corpo e do mundo ao redor, Era 0 caso dos trenzinhos expressos, do tira-prosa, da roda-gigante e, claro, da montanha-russa, uma mistura de tudo isso com muito, muito mais emogdes. De tal modo aqueles artistas souberam transpor essas experiéncias para 0 mundo artistico que, quando observamos um quadro tipico do cubismo, a linguagem artistica criada por Picasso, o que vemos é 0 efei- to conjunto dessas técnicas de corte, montagem, multiplicacao de pers- pectivas e fragmentacao da visdo. Os objetos sao vistos simultaneamen- ‘apiruot Méquinas, massas, percepgées e mentes 7 5 Mer Ae ERR AY te por cima, pelos lados, por dentro, por fora, por baixo,em diferentes angulos ao mesmo tempo e num contexto espacial segmentado em milti- plas faces e dimensdes. Embora estejamos dian- te de um objeto estavel, um quadro, o que ele Fepresenta é um dinamismo sensorial em turbi- Iho, como se estivéssemos nos deslocando rapi- damente em diferentes direcdes e vendo a cena pintada de varios angulos e em muitos recortes ao mesmo tempo? O que a nova estéti- ca cubista propée ja nada tem a ver com as tradi- cionais “be- las-artes’, mas 6 uma reflexéo acer- ca dos novos po- tenciais e seu impacto trans- formador sobre a percepcao, a Inwvencdes 00s Meu 9. Cantar 00 esPerAcuto De MAGICA “Le CHATEAU De Mesmen”, 1894, Geonces MEUES comecou SUA CARREIRA COMO \MAsiCo, FAZENDO USO DE PROJECDES DE LUZ PARA DDRAMATIZAR SEUS QUADAOS No TEATRO Das ILUSOES, Ex Ps. Ms TARDE APLICARIA SUAS TECNICAS a Funes, 10, CENA DE “VIAGEM A Lun", 1902. Fate De TNT waNuTOs QUE sas clewnstas, ‘Memos D0 CLuBE DOs ASTRONOWOS, VAO PARA A Lun, sho APRisionapos PELOS SELENITAS, ‘CONSEGUEM ESCAPAR, ‘CAEM DE VOITA NA TERRA SAO FESGATADOS COMO HERO. 7m arity Maquinas, massas, percep¢des e mentes 11. "Sacre-Coeur”, TELA DE 1910 be Georces BRAQUE. 12, Foro DA Basitica DE 'SACRE-COEUR EM ‘Monravantne, Paris. Picasso € BRAQUE, ‘uganos uM AO OUTRO COMO UMA DUPLA DE [ALINISTAS, COMO ELES ‘MESMOS DIAN, LEVARAM AD CUNIE AS NOVAS POSSIBIIDADES NAS ARTES Visuals. BRAQUE ASSIM DEFIVI A UNGUAGEN, VISUAL APELIADA OE cuts: "Novos MEIOS, Novos Temas... 0 OBNENVO NAO € RECONSITURR UM FTO DA VIDA REAL, MAS CCONSTITUR UM FATO PICTORICO... TRABALHAR A PARTIR A NATUREZA SIGNIFICA TER DE IMPROVIEAR.. 05 SENTIDOS DEFORMAM, A MENTE Fora... EU ADMIRO AS EGRAS QUE CORRIGEM AS eMacoes”. imaginagao ea inteligéncia humanas. Nao deve- Mos nos surpreender, portanto, se descobrimos que o cientista que sistematizou a mais ousada revelagao da ciéncia moderna, Niels Bohr, um cavfruot) Méquinas, massas, percepcdes e mentes 7) dos maiores expoentes da fisica quantica, era um colecionador apai- xonado e compulsivo de arte cubista. Quem poderia imaginar quao longe chegariam os efeitos desorientadores da montanha-russa? A indtistria do entretenimento e a sociedade do espetdculo, + Mas a montanha-tussa obviamente nao foi criada com essa intengao de potencializar a imaginacao e nem mesmo o cinema deri- vou de qualquer motivacao dotada desse teor nobre. Sua destinacao desde a origern foi a de proporcionar entretenimento para o maior ntimero pelo menor preco. Corresponde ao que nos Estados Unidos foi chamado de mercado das “emogées baratas’ Como vimos, o répi- do processo de industrializagéo gerou processos de crescimento e concentracao urbana, ensejando o surgimento das metropoles. A for- te organizacao dos trabalhadores e suas |utas constantes pela melho- ria de suas condi¢des de vida e de trabalho acabaram se convertendo (especialmente depois das grandes greves e agitagées revolucioné- rias entre fins do século XIX e inicios do XX) em ganhos salatiais, re- ducao da jornada de trabalho, folgas semanais e férias. Formaram-se assim grandes contingentes com alguns recursos para gastar e algum tempo livre. Como a dpera, o teatro e os saldes de belas-artes eram luxos reservados aos abastados, alguns empresérios vislumbraram a oportunidade de investir nas duas formas baratas de lazer possibilita~ das pelo desenvolvimento da eletricidad: divers6es. cinema e os parques de 0 resultado foi um espantoso sucesso. A montanha-russa foi inventada em 1884 € o cinema dez anos depois, em 1894. £m ambos se fica na fila, se paga, se senta e, por um periodo de tempo determi- nado, se é exposto a emocées mirabolantes. A montanha-russa produz a vertigem no corpo, de tal modo que oblitera os sentidos e mal se pode observar ou apreender o mundo ao redor. No cinema, as luzes se apagam e a tela se irradia com uma hipnotica luz prateada, isolando a 4 GopiTuLoll Maquinas, massas, percepcoes e mentes carituio Maquinas, massas, percep¢es e mentes 75 todos os sentidos e fazendo com que a vertigem nos entre pelos olhos. O que se paga € 0 preco da vertigem, e nao é caro. 0 impacto psicofi- siolégico da experiéncia é, no entanto, de tal forma gratificante, que ninguém resiste a voltar muitas e muitas vezes, fazendo desses atos um ritual obrigatério de todo fim de semana. Eles, literalmente, viciam. / “> — Grandes fortunas se fizeram explorando esse anseio pelas“emo- | cOes baratas” entre as massas urbanas. Era 0 nascimento de um dos tov e Eisenstein, capazes de desafiar as con- 13 138. Lina Pant | empreendimentos mais prosperos do século XX:a industria do entre- vencées da percepcao e abrir novas possibi- AE ANOME a a Cantoes-rostas, tenimento. Em 1897 foi inaugurado em Coney Island, conexa a cidade lidades de compreenséo e interpretacdo dos jyaycueaoo ew 1903, 0 de Nova York, 0 Steeplechase Park, criado por um especulador do fatos e processos.Mas esses experimentos nun- LUNA PARK rol conc:B000, mercado imobilidrio, George Cornelius Tilyou, consolidando a idéia ca conquistaram as multidées.0 modelo norte- eons genial de associar num mesmo ambiente todo um lote de diversoes americano acabou prevalecendo e 0 cinema _&aaowmoo covio elétricas, varios cinemas e uma enorme montanha-russa. 0 afluxo de ficou condenado ao efeito montanha-russa— _ST*MUTA EAsado de piiblico foi tao grande, 0s lucros tao estratosféricos, que oempreendi- Gifs ORREUC SHUSCRINGHES GRUB VEE TE Coreen rem Mento nao parou mais de crescer. Em dez anos 0 parque de diversdes infantilizada, mais cheia de frissons, de verti-._ NW"Ave- Em rouco se estendia por uma area de quase um quilémetto quadrado, tornan- gens, de correrias,tiros, bolas‘de fogoie finals pwesien tao) do Coney Island o maior centro de entretenimento do mundo. Era 0 felizes. STEEPLECHASE, DREAMLAND precursor das Disneylandias, dos parques tematicos e das estancias Uma das razdes para esse desfecho estd patted turisticas, que mobilizariam multidées cada vez maiores e investi- na etapa sequinte do desenvolvimento tecno- —_ “AN105 20 pals Eve ToD mentos milionatios, oferecendo sempre a mesma coisa em diferentes légico. As inovacées técnicas ocorridas duran- |?" partes do mundo. tee logo apés a Primeira Guerra assentaram as E interessante considerar como alguns dos mais eminentes pio- bases da eletrénica, multiplicando o potencial neiros da arte moderna, principalmente dentre os surrealistas, se de recursos j4 existentes mas ainda muito li- deram conta do extraordinario potencial artistico do cinema. Assim mitados, como 0 cinema, 0 radio e 0 fonégra- coma os cubistas haviam buscado reproduzir com seus pincéis a fo. Implementos eletrOnicos, além de permiti- mobilidade, a versatilidade, 0 dinamismo e a descontinuidade com rem a transmissao de sinais e sons com grande que a camera de filmar capta e transforma a realidade, havia a op¢ao, precisdo, possibilitaram o aperfeicoamento de muito dbvia, de usar a propria filmadora para repassar versGes sistemas de amplificacao, 0 que os faria passi- “cubistas” do mundo para o grande puiblico dos cinemas. O que foi veis de ser consumidos em mercados de tentado e gerou experiéncias de notavel densidade artistica, em massa. Assim, 0 fondgrafo se tornaria a eletro- especial por cineastas europeus como Abel Gance, Bufiuel, Dziga Ver- la, permitindo que a audiéncia dos discos pas- Mn 76 capituton Maquinas, massas, percep¢des e mentes \ 14. Parque oF DDIVERSOES NO AGO OntARIo, ‘A PARTIR. DO SUCESSO EM MANHATIAN, A CHAMADA Tecnowoain 00 Fanrasnico, usana Pana ENTRETER MANS DE 1 tudo De Pessors pon DIA Nos PARQUES DE DIVERSOES, SE TORNOU -ACESSIVEL MESM LONGE [DAS GRANDES CIDADES, POPULAGOES RURAIS PUDERAM ADOUIRIR, A PREGOS MODICOS, SUA PRIMEIRA E MUITAS VEZES ‘atc expeméncia nA CCONDICAO METROPOUTANA. sasse do ambiente do lar e da familia para os grandes saldes de baile, teatros, music-halls e grandes juke-boxes. O.4adio, em vez de limita- do aos fones de ouvido individuais, soaria au- divel nao s6 para as casas, mas para as ruas, OS cartos, os bares, os restaurantes, as barbearias. O cinema, magica das magicas, além das ima- gens em movimento, apresentava agora 0 som sincronizado com as falas e com as a¢des dos personagens. Porém, mais importante, a partir desse momento o sistema cultural inteiro adquiria uma nova consisténcia, na medida em que a eletronica permitia uma interacao sinérgica entre todos esses recursos. Assim, as radios ‘tocavam as miisicas da indtistria fonografica, que por sua vez haviam sido lancadas pelos fil- mes musicais da industria cinematografica, a qual fornecia o quadro de astros e atrizes, de cantoras e cantores cujas vidas eram escrutina- das pelos populares programas de auditério carina Méquinas, massas, percepgdes e mentes. 71 e sessdes de fofo- cas das radios. Nos intervalos vinham ‘os antincios comer- ciais, cujos produ- tos eram, uma vez mais, associados ao estilo de vida dos protagonistas do cinema, do ra- dio e do disco, Pa- ra completar a ce- na, nos anos 30 se difunde a criatu- ra-chave do sécu- lo XX — a televi- sdo —, ja na sua verso totalmen- te eletrénica, com tubo de raios catédicos de grande definicao visual. Essa conjuncdo emergente configurava um novo fendmeno cultural, que um historia- dor denominou “a revolucao do entretenimen- to” e um outro tedrico anunciou como “a so- ciedade do espetaculo” Ja prenunciado nos grandes parques de diversdes, esse estado fre- nético de disposicao apareceria plenamente representado no editorial de uma revista que se tornaria 0 6rgao oficial dessa mentalidade:a Vanity Fair, de Nova York, |angada precisamente em 1914, no contexto da irrupcao da Primeira 15, "ENIRE A LOURAE A ‘onena", 1iruLo BRASILEIRO DO FILME “THe GANG'S ALL HERE”, DE 1943, pinisIDo PELo ‘COREOGRAFO PREFERIDO bs Houtrwoop oe TAG, Busby BeRKetey. Cow esse Fume, Carlen Minawoa se PROvETOU DEFINITIVANENTE, INTERPRETANDO CcomPostg0es De AR Barnoso, Leow Rusin Haney WARREN, XECUTADAS PELO CCOMUNFO BANDO DA Luk EE PELA ORQUESTIA DE Bray Goooman, 78 aviruon Maquinas, massas, percepcdes e mentes 16. A prieina DEMONSTRAGKO-DE-UM -APARELHO DE TW.SE DEU 4926, eto escocts Jontt Losit Bano, Que BaTZoU SEU nvenTo o€ "TELEVSOR”: ATEUNEA. EM UMA DAS EXTREIMDADES € 4 CARA DE Sot EW OUTRA Guerra. 0 objetivo do nove ma- gazine, segundo seu editor, seria refletir e alimentar 0 estado de espirito que tomava conta da civilizacao industrial:“uma cres- cente devocao ao pra- zer, & felicidade, a dan- ¢a, ao esporte, as delicias do pais, ao riso e a todas as formas de alegria’* Essa atmosfera fremente e desejante, que galvanizava as ima- ginagdes e atravessava as divisdes sociais, se tornaria um imperativo de mercado: 0 que quer que atendesse aos seus apelos seria favo- recido com lucros e sucesso; 0 que a confron- tasse seria punido com prejuizos e desgraca. O pano de fundo dessa revolucao do entre- tenimento, que redefine o padrao cultural das sociedades urbanas do século XX, é a dissolucao da cultura popular tradicional, causada pela migracao em massa dos trabalhadores das areas rurais para as grandes cidades. Essa insergdo de contingentes cada vez maiores de populagoes camponesas nas areas urbanas, onde sao redu- zidas aos imperativos disciplinadores da condi- cao operaria, extirpa as formas de transmisséo da cultura tradicional, todas elas presas as rai- zes locais dos campos e das praticas agricolas, dependentes dos ciclos da natureza e dos seus simbolismos mitico-poéticos milenares. Todo capitulo it Maquinas, massas, percepcées e mentes 79 esse complexo legado cultu- ral € dilufdo num conjunto de formulas padronizadas, de extensdo, duracao e efei- to calculados, para terem preco minimo em fungao de uma ampliacao maxima do seu consumo. Subsistem ainda ele- mentos da cultura popular, que sao metodicamente sele- cionados e incorporados pela industria do entretenimento, mas eles estéo descontextua- lizados, neutralizados e encapsulados em doses modicas, para uso moderado, nas horas apropriadas. Seu fim nao € 0 éxtase espiritual dos rituais populares tradicionais, mas propi- ciar a seres solitarios, exauridos e anénimos, a identificagéo com as sensagdes do momento e com 0s astros, estrelas e personalidades do mundo glamouroso das comunicagoes. Além, & claro, de preencher o vazio de suas vidas emo- cionais e 0 tédio das rotinas mecanicas com a vertigem dos transes sensoriais e experiéncias virtuais de potencializacéo, multiplicagdo e superagao dos limites de tempo e espaco. Tudo calculado, compactado e servido ao custo de um tostao. Segundo a andlise do tedrico Marshall McLuhan, a sociedade tradicional, assentada no ambito rural e na oralidade, estabelecia um 17.05 prineinos -APARELHOS DE TV ‘CUSTAINM TANTO. QUAKTO UM CARO, A PARTIR DE 1949, ronan se TORNANDO CAD VEZ Wats ACESSIVES, COMO ESSE ‘MobELO FEITO DE BAQUeUTE, 0 BUSH TVI2. 80 arituion Maquinas, massas, percepcdes e mentes ambiente cultural de predomindncia actistica, auditiva, em que todas as relacdes sociais eram intensificadas por rituais que acentuavam o presente, a simultaneidade e a riqueza de cada instante. A introducdo da imprensa mecanizada, nascida com os tipos méveis de Gutenberg, consolidou uma cultura centrada na visdo e baseada no primado da sucessao temporal em cadeia linear, enfatizando valores abstratos, racionais, hierarquicos, cumulativos, e 0 anseio pelo futuro. recente advento das técnicas eletro-eletronicas reformulou esse contexto ao atribuir um novo papel ao olhar, nao mais estatico como aquele con- dicionado pela imprensa e pela perspectiva linear do Renascimento, mas um olhar agora onipotente e onipresente, dinamico, versatil, intrusivo, capaz de se desprender dos limites do tempo e do espaco, como aquele da camera de cinema. A esse olhar alucinado, os recur- sos eletro-eletrénicos acrescentaram os potenciais do som amplifica- do e distorcido, repondo ao conjunto os efeitos de simultaneidade, de descontinuidade, da interatividade de fragmentos auténomos, ade- mais da conectividade tactil de um mundo invadido pelas multidées, pelos fluxos e pelas mercadorias.* Como elemento contingente dessas transformagées complexas, a cultura 6 redefinida por um processo de comercializacao, transfor- mada num campo de investimentos, especulacao e consumo como qualquer outro. Seu mecanismo basico de funcionamento é aquele revelado de forma pioneira pela montanha-russa e o cinema. McLu- han, uma vez mais, definiu-o com rigorosa preciséo: Em experimentos nos quais todas as sensacdes externas so blo- queadas, o paciente desencadeia um furioso processo de preenchi- mento ou substituicdo dos sentidos, que é a alucinagao em forma pura.Do mesmo modo, a excitagao de um tinico sentido tendea pro- vocar um efeito de hipnose, equivalente a maneira como a privacio de todos os sentidos tende a produzir visées.* cvituioir Maquinas, massas, percepgdese mentes 11 Portanto, mais que mera diversdo ou 18. Eimpora MoNocROMArica & com TELA PEQUENA, ATV SE ao custo de alguns trocados, sao porces rigo- _tornou um sucesso que SVAZIOU SENSIVELIENTE entretenimento, 0 que essa industria fornece, rosamente quantificadas de fantasia, desejo e As PLATEIAS Dos euforia, para criaturas cujas condigdes de vida cinenas. as tornam carentes e sequiosas delas.Como —Ampistmia CCNEIUATOGRAFICA REAGIU, {XPLORANDO NOVOS se esforca por compensar 0 extremo empo- _ sécursos ce som, FLMAGEM E PROX: CCewaScore, CIeRAMA € nal, arrebatando as pessoas para uma celebra- 3-0, processo Lancado Peta POLAROID Conran, tu 1952, que Excin 0 como imagens, como novidades, como objetos uso ne acutos eseeciass erdticos, como espetaculo, enfim. De rates ae De a OBTER A SENSAGAO DE RES DIMeNscKS. disse outro tedrico, Guy Debord, essa industria brecimento da vida social, cultural e emocio- do permanente das mercadorias, saudadas Entendido na sua totalidade, o espetaculo € tanto o resultado quanto o objetivo do modelo de producao dominante. Nao é algo acrescentado ao mundo real — nao & 2 cpio Maquinas, massas, percepcdes e mentes REVOLUTIONARY NEW FOOD Lada um elemento decora- tivo, por assim dizer. Ao contrario, constitui © proprio coracao da realidade irreal dessa sociedade, Em todas as suas manifestacoes especificas — noti- cias ou propagandas, antincios ou o con- Swanson TV Dinners 2° & sve 19. "DA CAIKA PARA © Foro — 25 minutos DEFOIS, UM PEITO DE PERU PRONTO PARA COMER, EM SUA PROPRIA BANDEIA DE ALUMINIO.” PROPAGANDA NORTE-AMERICANA DE 1953: rereigaio CCONGELADA, A “TENDENCU FEVOLUCIONARIA, SERVIOA HO MESMO RECIENTE EM (QUE E AQUECIDA PARA SER Cconsuonioa pianté DA TV. formas de entreteni- A.complete quick-frozon turkey dinner rendy to hoat and serve — mento —, o espetd- culo concentra 0 mo- do dominante de vida sons + omaua s, wesnasea SOCial. Ele 6 a celebra- ¢40 onipresente de uma escolha jé feita na esfera da produgao € 0 resultado consumado dessa escolha. Tanto na forma como no contetido, 0 espe- téculo serve como justificagao total para as condigées e as metas do sistema existente. Ele ademais assegura a presenca perma- nente dessa justificacao, pois governa prati- camente todo o tempo despendido fora do processo de produgao.S Para uma cultura orgulhosa de se repre- sentar como a herdeira das tradi¢oes civiliza- doras dos gregos e romanos, do humanismo renascentista, do racionalismo da Ilustragao e caruto Maquinas, massas,percepcdes e mentes das instituigdes liberais-democraticas do século XIX, essa meta- morfose tem sido um golpe intolerdvel em sua auto-estima, o que a mantém relutante em aceitar 0 diagnéstico — averséo que a induz a renegar neuroticamente sua condicao, reproduzindo ima- gens alienadas e fantasméaticas de si mesma e recorrendo as fér- mulas mais aberrantes de representacao espetacular. Raramente se ouve a voz de criticos lticidos, como Neil Postman, com seu tom perturbadoramente profético: Quando toda uma populagio ve suas atencées atraidas pelo trivial, quando a vida cultural é redefinida como uma sucessdo perene de entretenimentos, quando toda conversagao puiblica séria se torna um balbucio infantil, quando, em suma, um povo vira platéia e seus negécios puiblicos um nimero de teatro de revista, entio a nacdo se acha em risco: a morte da cultura é uma possibilidade nitida.’ Da ditadura publicitéria a pop art E quantas vezes a cultura do século XX néo morreu, ou melhor, nao foi assassinada, nesse periodo turbulento que o historiador Eric Hobsbawm chamou de “era dos extremos”? Pois foram as instancias de poder que em primeiro lugar se valeram desse pendor contempo-! raneo para a ilusao. Instancias que correspondiam a interacao entre \ 0 Sdlidos interesses econdmicos e os grupos politicos articulados ao redor de plataformas que refiguravam as pessoas como heréis, suas lutas como épicas, os inimigos como deménios e a vitoria final como a liberdade e a felicidade conquistadas num campo de batalha san- grento e fumegante. Nas palavras de Guy Debord, Anegacao absoluta da vida, na forma de um paratso falacioso, no 6 mais projetada nos céus, mas encontra seu lugar no contexto da propria vida material. 0 espetaculo 6 portanto uma versio tecno- #4 cAPiTULON! Maquinas, massas, percepcdes e mentes J" l6aiea do exitio dos poderes humanos num “mundo superior a i este” — ea perfeicao é alcancada gracas a separacao entre os seres humanos* Essa formula basica, que propunha o reino prometido em troca da estigmatizacao, exclusdo, persequicao e até do exterminio de gru- pos humanos especificos, foi a primeira a fazer um uso intenso e siste- matico dos novos recursos eletro-eletrénicos de comunicacao e das técnicas da publicidade moderna. A receita consistia em opor, em duelo mortal, uma grande generalidade passivel de receber represen- tacao épica e herdica — uma “nacao; uma “raca’ uma “cultura uma “tradi¢ao’ uma ‘civilizagéo; uma “filosofia; uma “ciéncia” — que se opu- nha aos segmentos apresentados como egoistas, sectarios, renegados, subversivos, estrangeiros, impuros, contaminadores, degenerados e perversos. Tais grupos poderiam ser representados como uma classe social, uma etnia, uma religido, uma doutrina, uma tara, uma patologia, um arcaismo ou, no melhor dos casos, tudo isso ao mesmo tempo. A utilizacdo coordenada da imprensa, do cinema, de cancées, radio, posteres, slogans, imagens, cores, simbolos, monumentos, per- formances e rituais espetaculares em espacos ptiblicos, propiciou a esses grupos poderes de comunica¢ao, seducao e apoio politico entu- sidstico em escala jamais vista. Nas décadas de 1920, 30 e 40, Estados potencializados por esse virtual monopdlio das novas tecnologias comunicacionais instituiram praticas de politica cultural concebidas como auténticas engenharias de imaginagdes, emocoes, desejos e