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O CAPITAL Edigdo resumida por JULIAN BORCHARDT © CAPITAL Fil cem anos era publieado em Harmbares © primeiro volume de uma obra ave xe tor maria no mpenas cliscien, mas até certs ponte lendivia: O Capital, de Karl Marx. © conbeciilo. cromamistn ¢ professor norte. Samerieano PAUL Samum.son, autor ily liven Midatics de Eranomia de maior elneuinese now melox universitivios doa Estados Unidos, de slain reeentemente em sua epluna ne sema~ nario “Newsweek” que O Capital dle Murs € um Ivro que alterou @ cursy du historia, como a Biblia, 0 Corfa, 0 Princia Mathe- matica, de Newton © A Grigem des Repiciex, de Darwin, Mals de um bithin de persons fo cilam come so Gle Mase & D6 ture, Apeanr diso, eontinun Sax Capital & um livyo qne poncos leram, au pelo menos, que pouros leram por inteire, Uma dag muster parn &sce baixo Indice Me leitura de uma obra tao impartante 6, mem dOvida, o fato dela tataliznr munis de duas mil pésinas em trés wlentadns volumes. Por outra ‘ado, sia bem conhesilas ax dite cukindes ¢ os periges dem resumos kia obras famosas. Contudo, © restimo feita par JULIAN Rarcmtarot ¢ publienéo na Alemanba hi c&rca fe 40 mnos marece ter veneido Lovins culos, tendo side tradusido para o francés pela litera “Press Universitaires de F presente traducio fol feita dat alemd nublicada em 1831, Paréee, portanio, hastante aportuna @ Wil a publicagiio desta edigio resumista, prinel palmento quando ela. no proeurau dar umi interpretagio simplificuds cas idéing contidas no livro, maz apenas ordenar esas ddan, evitands as repetigties ane oearrem ne ork ginal, dado que oe dois Witimas vollimen foram publiendas nor Engels, a partir das snota- ches deixadas por Marx. Trutasse, onto, de um) Yesume a maix facil para o Ieitor de Mars. Capital & consideraio uma verdad sintose do pensamento de Marx, tendo dado A Economia Politiea ina dimensie que els nko tivera até ontio. Nile extio exmnatus as prinefpais tearias econdmieas se Mars (valor= trabalho, mais-vatin, ete bem cama 0 Fenultade da leiturn de tila ‘ns lias impor- tantes do Uberalismo elissico na de Smith © Ricardo sobretuda — © da observagio do capitalism, em expanse. Nenhumn obra conseguin influeneiar tanta: cieneims — Histérin, Socioligin, Politica, Filosofia coma © Capital, auc deve ser leitura indixpensavel para todow aqudles que, critics ou partidirios du mar= rule o pensamento siamo, prockram compreender o eapirito do naaws tempo. Justificnse ent, par tanto. o est resumidn que eulocari a obra mestra de Marx xo mera maior de leitores de 0 CAPITAL BIBLIOTECA DE CIENCIAS SOCLAIS KARL MARX © CAPITAL Edicio Nesumida Resume dos tres yolumes por JULIAN BORCHARDT Tradueao de RONALDO ALVES SCHMIDT ZAHAR EDITORE: RIO DE JANEIRO capa de ERICO 1967 Direitas desta tradugio reservados por ZAWAR EDITORES Rus México SL -— Bio Tmpresso uo Brasil rey 10. INDICE OS PNBRACIOS «cj eres oa ll MERCADORIA, PREGO E LUCRO .,,.-..... sepemnee 15 LUCRO E VENDA DE MERCADORIAS .......-.000005 20 VALC2 DE USO FE VALOR DE TROCA — 0 TRABALHO SOCIALMENTE NIECES! a4 COMPRA E VENDA DE FORCA DE TRABALHO ...... 29 COMO SE FORMA A MATS-VALIA oo... ce eee cece ere of CAPITAL CON! TE BE CAPITAL VARIAVEL — CAPI- TAL FIXO E CAPITAL CIRCULANTE (OU LIQUIDO) 42 FORMAGAO DE UMA TAXA DE LUCRO UNIFORME (OU MEDIA) 2.0... 6. css eee ener ee eee 4 METODOS PARA O AUMENTO DA MAIS-VALTA ...... 5d A REVOLUCAO OPERADA PELO CAPITAL NO MOBO DE PRODUGAO . ‘ z » BT a jsaccnopeniieo b) Divisio de trabalho e¢ manufatura .. ¢) As mdquinas e @ grande ineddstria EFEITOS DRESSES EPROGRESSOS NA SITUAGAO DA CLASSE OPERARIA ..... “ 90 a) Trabalfio de mulheres e dove criangas . 90 b) Prolongamenta da jornada de trabalho o4 c) Intensificagdo da traboita ...-. +++ 105 d) Monotonia do trabalho, aumento de acidentes ng e) Luda entre o operdriy © a méquina 16 QUEDA DA TAXA DE LUCRO .......-.-- 132 A ACUMULAGAG DO CAPITAL . 138 a) A cantinvidude da produgao (sepreiieta} 138 b) Aumento da capital pela mais-valia. A siraprindads papa. Co Dec sts coe REE ac Wi 17. 18. 1. 20, 21, 23. pro 25. 26, 27. O CAPITAL O EFEITO DA ACUMULAGAO SOBRE OS OPERARIOS. © EXERCITO INDUSTRIAL DE RESERVA. TEORIA DA PAUPERIZAGAQ oo... seeeesee 7 A CHAMADA ACUMULAGAO PRIMITIVA . A TENDENCIA DA ACUMULAGAOQ CAPITALISTA .... © SALARIO 4} Aspectos gerais b) Salério ¢ muis-valia @) © sabirio por hora ..... d) © salésio por pega ©) Compuragdo entra as nay A MORDA svete O PROG CULAGAO DO CAPITAL ........000.00002 A ROTACAO DO CAPITAL .... a} Retagds ¢ tempo de rotagde , SO DE CIRCULAGAOQ E 0 TEMPO DE CIR- b) Composicao, reposigde, repuragae, seumulag da va- pital fino 16... ¢) A retagdo total ia stittal cinta d) Diferengas de duragiio no periods de produgio ¢ seus ofeitos sdbre o tempo de rotacda A CIRCULACAO DA MAIS-VALIA . a) A réprodugdo simples b} A toumularas ¢ i sopradasts ovepiiade AS CRISES oo. cccec cece eceseueeeeeeeeseeeseeeeveerees O CAPITAL COMERCIAL E O TRABALHO DOS EMPRE- GADOS DO COMERCIO INFLUENCIA DO CAPITAL COMERCIAL SOBRE OS FREGOS saancowmse memes AA eae OBSERVACOES HISTGRICAS SOBRE O CAPITAL CO- MENGIAG ocip i ivisieabar eine ina eee i O JURO E O LUCRO DO EMPREENDEDOR ........ CREDITO FE BANCO ........ A RENDA DA TERRA ......... ween a) Génese histdrica da renda ee terra cope b) Obsereagées preliminares 236 248 248 ‘ana 258 261 267 269 ai7 241 299 INDICE c) A venda diferencial. Generalidades d) Primetra forma da renda diferencial e) Segunda Jorma da renda diferencial f) Arenda de terra absoluta ......... one ©) A renda dos terrenos para construgdo, das minus, do volo se DOS PREFACIOS © fandador do socialismo cientifico é Karl Marx (nascido em 1818, em Tréves; morto em 1883, em Londres). Sua obra principal, O_ Capital, retime as doutrinas fundamentais de socialismo, Conhecer éste Hvro é dever basico de qualquer am que queita compreender ou, com mais razdo ainda, influ- enciar a evalucio de nosso tempo. Dever, todavia, que nao é dos mais ficeis de ser cum. prido. Quem procura ler O Capital defronta com imimeras Gificuldades. Pode-se dizer, mesmo, que para o leigo éle é absolutamente impossivel de ser lido, Ora, a maior parte das pessoas ¢ necessiriamente leiga Surge de inicio o volume da obra. Os trés tomos que o compéem contam mais ou menos 2.200 paginas impressas. Quem podera ler essas 2.200 paginas, a nfo scr para fazer um es- tudo especial sem deixar de lado qualquer ocupagio profissio- nal? A isso acrescenta-se um modo de expresso particular- mente dificil de ser seguido, Um velo excessivo, que queria mostrar sob aspectos favoraveis todos os lados de um grande homem, féz dizer que Mars, escritor, tinha um estilo claro, direto e facil. Isso no & mesmo justo para seus pequenos ar- tigos, redigidos para jornais. Mas afirmé-lo de suas obras de Economia é& simplesmente dizer umu inverdade, Para com- preender scu modo de expresso, € preciso um esférga de pe- netrag¢do cm profundidade, uma grande atengdo, um contato cheio de interésse com a obra, e a condigdo igualmente indispen- sivel de vastos conhecimentos especiais no campo da Econo- tia Politica, A razio dessa dificuldade é bastante facil de ser reconhecida, A obra de Marx representa um imenso tra- balho intelectual. Tudo a que a Ciéncia Econémica tinha realizado antes déle The cra familiar, e éle a enriqueceu enor- memente com as suas perquiess pessoais; todos as problomas de Economia foram reestudados por éle, e foram justamente os mais dificeis entre cles que reecberam solughes novas. Todo oO seu espirito, tada a sua energia, se encontrayam de tal modo absorvidos pela confeida que éle nao dava importancia & forma. Perto da volume de idéias que nao cessavam de o preocupar, a expresséo lhe parecia indiferente. Sem diivida 12 O CAPITAL Ge nao chegava a pereeber que a quantidade de coisas que lhe eram familiares e the pareciam evidentes poderia envolver as maiores dificuldades para os outros, para aquéles que ndo possuiam tao grande eonhecimento, Tanto mais que éle nao sonharia de modo algum em eserever para leigos. Era uma obra de especialista, uma obra de ciéncia que éle queria cs- crever. Mas, seja_o que fér, o certo ¢ que a dificuldade de expresso nfo pode ser superada sendo empregundo-se nela uma soma de tempo ¢ de trabalho da qual o leigo nio po- deria, por definigio, disper. Ao que se acrescenta ainda uma tereeira dificuldade, a mais importante. A obra de Marx, da primeira 4 ultima linha, é de um sé molde; as diferentes partes de sua dontrina dependem tio estreitumente umus dus outras que nenhuma seria bem compreendida sem o conhecimento das demais. Quem quer que inicie a leitura dos primeiros capitulos nao pode naturalmente saber o que contém as ultimos e po- deré entao adquirir uma imagem falsa da doutrina enquanto néo Liver etutlede os tres voli até o fim. Essa dificuldade é ainda acrescida do fato de que Marx nao péde terminar sua obra. Ele redigiu definitivamente ape- nas o primeiro volume de O Cupital, aparecido em 1867. Os dois outros volumes nao foram publicados scniio apés sua morte por seu amigo Friedrich Engels,* Bem, éstes dois ulti- mos Nannie longe de estarem prontas para a impressio, re- ceberam de Engels freqiientemente insergdes nu texto dos es- bocos escritos pelo préprin Marx. Disso resultaram imimeras re- petigoes. O Ieitor desprevenidag — ¢ o leigo o ¢ — vé com surprésa a mesina idéia reaparecer constuntemente em dife- rentes formas: 10 vézes, 15 vezes © mais ainda, sem que perce- ba a razo disso, Isso explica por que os préprios especialistas se contentam de ordindrio em Jer o primeiro volume, o que os leva a compreender mal a que Marx quis dizer. Acontece mesmo, freqiientemente, que o leigo, que o tra- balhador, por exemplo, apés ter despendido um esférgo talvez considerdvel em suas horas de lazer, para ler alé o fim o primeiro volume, evite prudentemente a leitura do segundo ¢ do terceiro, ‘Tédas essus razics me levaram, desde antes da guerra, a pensar que era urgente o tornar Q Capital possivel de ser lido por aquéles que uspiram a conheeer seu contenido, sem estar mesmo, por assim dizer, sacrificando uma parte de seu traba- tho ¢ de sua vida, Nao se trata evidentemente de popularizar * © volume II em 1885, o volume ITI, em duas partes, em 1994. DOS PREFACIOS 3 a doutrina de Marx, de proceder a uma dessas vulgarizagées que consistem na exposicao livre por outra pessoa, tentando torna-la compreensivel, Tais trabalhos existem em demasia (freqiientemente, alias, Ales padecem do fato de que seu pré- prio autor nao len sen&a o primeiro volume, ndo considerando os outros dois como esscnciais), mas se trata ao contrario de deixar 9 préprio Marx falar, de apresentar sua propria obra, suas préprias palavras. de modo que todos, com um pouco de tempo e trabalho, tenham possibilidade de as compreender. Tal era a tarefa que imaginei durante anos, A guerra ¢ seus lazeres obrigatdrias me proporcionaram o tempo neces- sério, Apresenta scu resultado ao publico e devo ainda expor por quais motivos me considerei capaz de tul trabalho e de que maneira procedi, Ainda algumas palayras sébre o modo pelo qual procurei cumprir a tarefa que me propus. Devia esforgar-me por deixar tanto quanto possivel intactas as proprias palavras de Marx ¢ limitar mninhas atividades a um trabalho de supresséo ¢ de reagrupamento, Come ja afirmei, a dificuldade da obra de Marx reside, para uma grande maioria, no fate de que para compreender convenientemente uma de suas partes seria pre- ciso, em verdade, conhecer tédas as outras, Nao haveria de modo algum exagéro em alirmar que os primeizos capitulos de- vem dar ao leigo, que pela primeira vez se arriscar & sua lei tura, a impressio de screm escritos em chinés, Isso advém justa- mente de que ele nao tem ainda nenhuma idéia do espirito, da maneira de ver particular da obra. Para lhe tornar aces- sivel essa ultima @ preciso conhecer estudcs importantes que nao apareccm senfio no terceira volume, Assim, desde o pri- meiro minuto eu soube com certeza que deveria rever cons- tantemente do inicio ao fim a seqiéncia de idéias ¢ a sua representagao, Muito do que figura no terceiro volume pre- cisou ser colocado no comtgo. Do mesmo mado foi preciso reunir freqiientemente textas cspalhados entre varios eapitulos or VeZes tante longos, ou, ao contrario, separar outros. E, azendo isso, redigir muitas frases de transigao. conservando todavia invariavel, no conjunte, o préprio texto de Marx. isso em si, ja seria bastante proveitoso. Quem se der ao trabaiho de comparar minha edigdo notara, com surprésa, quantos raciocinius, até entio bastante penosos de seguir, tor- raram-se claros ¢ compreeusiveis pela simples modificagio de uma determinada seqiiéncia de idéias. 14 O CAPITAL Os cortes nado foram menos fecundos. Acontoce que de tadas as inumeras repetigies contidas no segundo ¢ terceira volumes nio esta selecionada e inserida senZo uma tmica versao. F além disso meu objetivo naa era absolutamente reproduzir téda a obra em todos os seus detulhes. Era preciso, ao contri- rig, proceder a uma escolha, de modo que © leitor udesse conhecer, através dos préprios térmos de Mars, o encadcamen- to fundamental das idéias, sem ficar todavia assustado ou sobrevarregada pela grande extensio da obra. Qualquer pes- soa, sentindo necessidade, podera, comparando, assegurar-se se falta alguma coisa de essencial, A fim de facilitar ésse con- trdle, indicuei no comeéco de todos os capitulos, e onde pude, as partes do original as quais recorri. Restou um ntimero bastante consideravel de passagens que nio foi possivel manter exatamente como foram redigidas por Marx, scuao permancceriam incompreensiveis; € foi preciso, por assim dizer, “traduzi-las”. ‘Terminarei exprimindo a esperanga de que éste trabulho nao ajudard somente & compreeusio de Marx, mas ainda que sera favordvel ao saber econdémico em geral e podera ser util & cansa do socialismo, Ficarei particularmente feliz se esta minha edicko, acessivel a todos, despertar em alguns leigos © deseja de “dedicar-se em seguida ao estuda do original”, Berlim-Lichterfelde, fevereiro de 1931. Jeuras Boretranor 1. MERCADORIA, PRECO E LUCRO® A Economia Politica trata do modo pelo qual os homens procuram os bens dos quais tém necessidade para viver. Nos Estados capitalistas modernos, os homens procuram @sses bens iimicamente pela compra e venda de mereadorias; éles tamam posse delas, comprando-as com dinheiro, que constitu sua renda, TI4 formas bastante diversas de renda, que podem toda- via ser classificadas em trés grupos: o capital rende cada ano ao capitalista um fucro, a terra rende ao proprietirio rural uma renda fundidria, c a férga de trabalho — em condigdes nor- mais © enquanto permaneca util — rende ao operdrio um s4- idrio, Para o capitalista, o capital; bate o proprictario rural, a terra &, para o operario, sua [érga de trabalho, ou mais ainda seu préprio trabalho, aparecem como fontes diferentes de suas rendas: lucro, renda fundidria ¢ salério. E essas rendas lhes aparecem como frutos, para consumir anualmente, de uma ar- vore que nao morre jamais, ou mais evatamente de trés érvo- res; essas rendas constituem as rendas anuais de trés classes: a dos capitalistas, a dos proprietarios rurais e a dos operdrios. E pois do capital, da renda fundidria c do trabalho que pare- cem decorrer, como de trés fontes independentes, os valéres que constituem essas rendas. © montante de renda das trés classes desempenha um pa- pel essencial na determinagao da medida pela qual os homens tém acesso aos bens cconémicos; mas, por outro lado, esta claro que o prego das mereadorias nao é menos essencial. Assim, a questao de saber séhre o que se fixa o montante dos pregos tem, desde o inicio, ocnpado considerivelmente a Eco- nomia Politica. Numa primeira abordagem, essa questio nao parece apre- sentar dificuldade especial. Consideremos um produto indus- trial qualquer; 0 prego é estabelecido pelo fabricante que acres- centa aa prego de custo o lnero habitual de seu ramo. Quer clger que o prego depende do montante do prego de custo é do hucra. * Vol. IIT, caps, 1 ¢ 2. at O CAPITAL No prego de custo o fabricante faz entrar tudo 9 que des- pera para a fabricagao da mercadoria, Fstio em primciro ugar as despesas de matéria-prima e as mattrias auxiliares da fabricag3o (por exemplo, algodao, carvan ete.), depois as despesus rclativas as maquinas, aos a] arelhos, as construgdes; além disso, o que deve pagar em renda fundiaria (por exem- Jo, 0 alugnel) e enfim o salario do trabalho, Pode-se pois River que o preco de custo para o fabricante se divide em trés parcelas: 1) os meios de produgio (matéria-prima, materias auxiliares, maquinas, aparelhos, construgdes ); 2) a renda fundidria a pagar (que entra igualmente em conta mesmo quando a fabrica se acha cons- truida num terreno pertencente ao fabricante); 3) o salario. Mas examinando-se essas trés parcclas um pouco mais de perta, difieuldades insuspeitaveis nao tardam a aparecer. To- memos, para comecar, o salario, Quanto mais baixo on elewado, tanto mais baixo on elevado seré o prego de custo; tanto mais baixo ou elevado sera entZo o prego da mercadoria fabricada, Mas o qne determina o montante do salério? Digamos que é a oferta e a procura da férga de trabalho. A procura da farga de trabalho advém do capital que tem necessidade de operarios para seu empreendimento. Uma, forte demanda de forca de trabalho equivale, pois, a um grande acimulo de capital. Mas de que se compe o capital? De dinheiro e mer- cadorias. Ou meth, sendo o proprio dinheiro (como mostra. remos mais tarde) uma mercadoria, o capital se compora sim- ples ¢ tnicamente de mercadorias. Quanto mais essas merca- dorias tém valor, tanto maior é 0 capital, e tanto maiores a demanda de férca de trabalho ¢ a influéncia dessa demanda sébre o montante do salario, da mesma forma que — em conse- qiéncia — sobre o preco dos produtos fabricados, Mas o que € que determina o valor (on o prego) das mereadorias que constiltuem o capital? O montante do prego de custo, isto ¢, os gustos necessarios para a sua fabricagdo. Ora, entre ésses gastos de fabrieacao figura ja o préprio salirio! F pois, em il tima andlise, explicar 0 montante do salirio... pelo montante do salario, ou o preco das mercadoria... pelo prego das mer- cadorias! Em ontras palavras, nao adianta nada fazer intervir a concorréncia (oferta ¢ procura de fércas de trabalho). A con- eorréncia faz sem divida aumentar ou diminuir os salarios. MERCADORIA, PRECO E LUCRO i Mas suponhamos que a oferta ¢ a procura de forcas de trabalho se equilibrem. Q que pois determinard o salario? Deve-se admitir, ao contrario, que o salirio é determi- nado pelo prego dos meios de subsisténcia dos operdrios. Bs- ses meios de subsisténcia niio sio senio as préprias mereado- rias; na determinagio de scu prego o salirio desempenha tam- bém um papel. O érro é evidente. Uma segunda parcela, nos elementos do prego de custo, era representada pelos meios de produgio, Nao sao neces- sdrias longas consideragées para mostrar que o algadio, as maquinas, 0 carvado cte. sao gualmente mercedorias as quais se aplica exatamente o que ja foi dito daquelas que consti- tuem os meios de subsisténcia do operdrio ou o capital do capita- lista. A tentativa que consistia em explicar 0 montante da prego a partir do prego de custo fracassou, pois, lamentivelmente. Limita-se simplesmente a explicar 0 montante do prego por éle mesmo, Ao prego de custa o fubricante acrescenta o Incro usual. Aqui sodas as dificuldades parecem afastadas porque o tanto por cento (a taxa) do lucro que élc sc deve alribuir é conhe- cido pelo fabricante, sendo a taxa de uso geral no rama. Na- turalmente isso néo exclui absolutamente que, em consequen- cia de cireunstancias particulares, um fabricante, em certos ca~ sos, ganhe mais ou menos que o Iver habitual, Mas, em média geral, a taxa de lucro ¢ a mesma em todos os negicios do mesmo ramo. Existe pois em cada ramo uma taxa média de luero, Nao sémente isso. As diversas taxas de lucro, nos dife- rentes ramos, se acham estipuladas de acordo com a concor- réneia. N&o pode, com efeito, ocorrer outra coisa, Porque, desde que lucros particularmente altos existam num certo ra- mo, os capitais cm ontros ramos onde éles nko estejam lio favoravelmente colocados se apressam 2 afluir para o ramo favorccido. Ou seja, os capitais que nao cessam de nascer ¢ que procuram aplicagdes vantajosas dirigem-se de preferéne para tais rarnos, particularmente proveitoscs, a producao nesses ramos nfo tardard a desenvolver-se e, para escoar as merea- dorias cujo volume aumcnton considcravelmente, sera preciso reduzir os pregos ¢, conseqtientemente, os lucros. O contririo aconteceria se um ramo qualquer nao desse senio lucros par’ cularmente baixos: os capitais abandonariam ¢sse ramo rapida- mente, a produgae ai decresceria bastante, 0 que acarretaria um aumento dos pregos e dos Incros. 18 Q@ CAPITAL Assim, a concorréneia tende a um equilfbrio geral da taxa de Incro cm todos os ramos, ¢ pode-se falar mesmo de uma taxa média gerul de Iueros, taxa que, em todos os ramos da produgdo, sem ser rigorosamente idéntica é ao menos apro- ximada. Todavia, esta longe de saltar aos olhos de que modo ocorre © equilibrio da taxa de Incro dentro de um mesmo ra- md, visto que nos diversos ramos os gastos gerais, o uso ¢ a manutenc&o das maquinas etc, podem ser extremamente dife- rentes. Para compensar essas diferencas, ovorre que o lucro brute — isto é, 0 tanto por cento cfetivamente acrescido ao prego de cnsto pelo fabricante — seja, em tal ramo, bastante mais elevado ou mais baixo que nas outros. Circunstancia que encobre a verdadcira realidade, Mas, deduzindo-se dos diversos gastos, permanece todavia nos difercntes ramos um Incro liquido aproximadamente idéntico. Existindo, pois, uma taxa média geral de lucro, 0 montan- te do lucro cfctivamente dado por um neyécio depende da importancia de scu capital. Sem divida — como ja foi dito — nao é totalmente indiferente que a emprésa fabrique canhdes ou meias de algodao e qne a taxa de luero varie segundo a se- guranga do emprecadimenta, a facilidade dos transportes etc. Mas essas diferengas nao so tao importantes. Suponhamos que a taxa média geral de Tucro se cleve a 16%; fica claro entio que um capital de 1 milhao de cruzeiros novos deya render dez vezes mais que um capital de 100.000 cruzciros novos (natu- ralmente com a condigio de que a emprésa scja conduzida convenientemente, ressalvando-se acidentes c acasos que po- dem ocorrer num negécio ). Acrascente-sc a isso que nao somente as emprésas indus- triais — as emprésas que preduzem mercadorias — engendram um lucro, mas também as emprésas comerciuis, as quais se li- mitam a transferir o produto do produtor ao consumidor; assim também, os bancos, as emprésas de transportes, as estradas de ferro ete. E em tédas essas emprésas o luero, ressalvando-se que os negdécios scjam ai feitos convenientemente, depende do montante do capital que ali foi colocado. O espantoso é que na consciéucia daqueles que s¢ oeupam priticamente dés- ses negécios sc estaheleca a convicgiio de que o Incro nasce déle mesmo, a partir do capital; éle nasce dai, acredita-se ent&o, como as frutas naseem de uma érvore bem cultivada. © lncro, na medida em que nio € considerado como um dos aspectos naturais do capital, é tido como o fruto do trabulho do capi talista. E de fato devemos scmpre supor uma administracao conveniente da emprésa. A competéncia pessoal da geréncia “4 8 MERCADORIA, PREGO E LUCRO 19 da industria é das mais importantes. Se ela falha, o Iuera da emprésa caird f4cilmente abaixo da taxa média geral de lucro, ao passo que uma geréncia eompetente da industria podera faze-lo subir acima daquela média 2. LUCRO E VENDA DE MERCADORIAS* Mes como pode um Iucro nascer de si préprio a partir do capital? Para a produgao de uma mercadoria, o capitalista tem neeessidede de uma ceria soma, digamos 100 eruveiros novos. Esta se:na deve representar tidas as suas despesas em maté- -prima, salirios, manutencio das maquinas, aparelhos, cons- trucdes etc. Ele vende em seguida a mercadoria labricada por 110 cruvefros novos, Admitir que a mereadoria fabrieada vale realmente 110 cruzeiros novos seria admilir que éste valor que ai fei acrescentado no curso da produc&o nasceu do nada. Porgne todas os valdres pages a razio de 100 cruzeiros novos pelo capitalista ja existiam antes da produgao desia mereado- Ha. Ora, tul criagiio do nada repugma ao bom senso, Porque sempre se achou ¢ ainda se acredita que o valor da mercadoria o aumenta durante o curso da producie, mas qne 0 capita- lista upds a fabricagdo da mereadoria continua tendo em maos o mesma valor que antes, ou seja, cm nosso exemplo, 100 cru- zeros novos. De onde provem entio os 10 cruzeiros novos suplementares que éle recebe com a venda da mercadoria? O simples fato de que a mercadoria passe das maos do vendletoe git as do com- predor nip seria suficiente para aumentéla de valor, porque isso seria nma criacdo do nada, Geralmente tentam-se dois métodos para se sair dessa dificuldade, Uns dizem que a mercadoria tem realmente mais lor nas méos do comprador que nas maos do vendedor, por- que cla satisfaz, no comprador, uma necessidade que o ven- dedor nao tem. Outros dizom que, de fato, a mercadoria nfo tem o valor que o comprador deve pagar; a quantia a mais é tomada ao comprader sem compensagio alguma. Consideremaos ambas as explicagdes: © eseritor francés Condillac escreven em 1776 (mam es- tudo sébre o comércia ¢ o Gavérno): “EB falso que se dé, no comércio de mercadorias, 0 mesmo valor para o mesma valor, Ao contréria, um dos dois negeciantes da sempre um valor me- © Vol, IM, caps, 1 ¢ 2; vol, I, cap. 4 LUCRO E VENDA DE MERCADONIAS 21 nor para um valor maior... Se se negociasse sempre com va- Iéres iguais nao haveria lucro algum para nenhum dos nego- ciantes. Mas ¢les ganham, ou, pelo menos, deveriam ambos ganhar. Por qué? O valor das coisas reside tmicamente em sua relagdo com as nossas necessidades, O que para um é impor- tante néo o é para outro e vice-versa... Queremo-nos desfazer de alguma coisa que nos é inutil, a fim de receber por ela uma que nos seja util; queremos dar o menos importante pelo mais portante. ..” Estranho cAleulo, em verdade! Quando duas pessoas ne- gociam qualquer coisa, poderd uma dar 4 outra mais do que aquilo que recebe? Isso significaria que se eu comprasse por 100 cruzciros noves um casaco em men alfuiate, a casaco para éle valeria menos de 100 cruzeiros novos, mas que passaria a valer mais quando fdsse eu o possuidor! Assim, a tentative que consiste em dizer que o valor das coisas reside tinicarnente em sua relagio com nossas necessidades nio faz avangar um passo. Porque (sem falar da confusiio entre o yalor de nso @ 0 valor de troca, aos quais voltaremos mais adiante), sc o casaco é mais itil ao comprador do que o seu dinheiro, o di- nheira é mais itil aa vendedor do que o casaco, Se, ao contrario, admite-se que as mereadorias sejam ven- didas gcralmente por um prego superior a seu valor, decorrcm dai conseqiiéncias ainda mais curiosas. Suponhamas que, de- vido a um inexplicavel privilégio, seja dade ao vendedor vender a mercadoria acima de seu valor, por exemplo, 110 cruzeiros novos. quando ela nfo vale sendo 100, logo com 10% de au- mento no prego, O vendedor actescenta entio uma mais-valia de 10 cruzciros novos, Mas, apos ter sido vencedor, éle torna-se comprador. Um terceiro proprietario de mercadarias se en- contra agora na qualidade de vendedor ¢ gozaré, por sen tur- no, do privilégio de vender sua mercadoria 10% mais cara. Nosso hamem tera ganho 10 cruzciras novos como yendedor ¢ tera perdida 10 cruzeiros novas come comprador, Chegamos entio ao fato de que todos os proprietirios de mercadorias as vendem com 10% a mais do que clas valem, o que seria exata- mente 0 mesmo que éles as vendessem por seu verdadeiro va- lor. © valor monetirio, on, melhor dizendo, o prego das mer- cadorias, aumentaria, mas as relacdes de valor cntre as merca- dorias permanecerium as mesmas, Suponhamos, ao invés disso, que seja privilégio do com- prador comprar mercadorias abaiso de sen valor. Nesse caso, nao valeria a pena imaginar o compredor como vendedor. Ele seria vendedor antes de scr compradur. Como vendedor. éle 4 22 O CAPITAL perdeu 10%, antes de ganhar 10% na qualidade de comprador. Nao hi nada negociado. Pode-se objetar que a compensagéo da perda por um ga- nho posterior nao vale sen&o para os compradores, que reven- dem em seguida, ¢ que, além disso, existem pessnas que nada tém a vender. Os partiddrios conscqiientes di ilusiio segundo a qual a mais-valia nasceria de um acréscimn nominal do pre- ¢o ou, melhor, do privilégio dado go vendedor de yender mais cara sna mercadoria, sup6em uma classe que apenas compra sem vender ¢ que conseqilentemente apenas consome sem pro- duzir, Mas o dinheiro, com o qual tal classe nio © de comprar, deve, sem qualquer troca, advir dos préprias pro- prietarios de mercadorias, gratuitamente, apenas em nome de certs titulos adquiridos por direito ou por violéncia. Vender mereadorias acima de seu valor a esta classe significa apenas exlorquir uma parte do dinheira que The foi dado por nada. Assim, na antignidade, as cidades da Asia Menor pagavam a Roma um tribute anual, Com ésse dinheiro, Koma comprava delas as mercadorias ¢ as pagava bastante caro. Os habitun- tes da Asia Menor roubavam aos romanos, reavendo uma parte do tributo através do comércio, Mas og asidticos nao eram me- nos roubados. Suus mercadarias, tanto antes como depois, Thes eram pagas com seu proprio dinheiro, Este nado é um método de enriquecimento nem de formagiio da mais-valia. Naturalmente nao se quer com isso conicstar que um pro- prietario de mercadorias nado possa enriqueecr fidevidembate pela compra ou pela venda. O proprietario de mercadorias A pode trapaccar com seus colegas B e C, ¢ éstes, apesar de muita ntade, niin Ihe padem fazer o mesmo. A vende a B vinho, no valor de 40 cruzeiros novos, e recebe em troca cereais, no va- lor de 50 cruzeiros novos. A transformou os seus 40 ernzciros novos em $0, éle féz de menos dinheiro mais dinheiro. Mas detenhamo-nos um pouco mais, Antes da troca, tithamos 40 cruzciros novos de vinho, em mios de A, ¢ 50 cruzeirus novos de cercais, em mios de B, ou seja, um valor total de 90 cru- zciros noves. Os valdres negociados ndo foram acrescidos de um tostiio, nao houve senda a troca entre A e B. A mesma re- lagao produzir-se-ia se A scm ter recorrido a uma forma velada de troca tivesse simplesmente roubada 10 cruzeiros novas de B.A soma de valores negociados nao seria evidentemeute acrescida por uma traca, da mesma forma que um judeu ndo aumenta a quantidade de metais preciosos existentes em um pais ven- denda como pega de ouro uma pega de bronze do século XVIIL. A classe capitalista de um pais tomada em seu conjunto nao pode enganar a si propria. LUCRO E VENDA DE MERCADORIAS 33, De qualquer lado que sc tome, o resultado sera sempre o mesmo. Se se trocam valdres iguais nio ha mais-valia, ¢ nao havera mesmo vantagem se se trocam valdres desiguais, A circulagio ou troca de mercadorias niio cria valor. Em todo caso, o aumento de walor que se torna yisivel apds a venda nao pode ser produta dela, fle nfo pode ser expli- cado pelo desnivel entre o prego e o valor das mercadorias. Se 0s precos estio em desnivel real com os valdres, é& pre- ciso de inicin reduzi-los a ésses ultimas, isto é, é preciso en- tender ésse desnivel como um fato devido ao acaso, se nao se quiser ficar confundido pelas circunstancias de ordem contin- gente. Alids essa redugio nfo tem lugar sémente na ciéncia. As oscilagdes constuntes dos pregos de mercado, sua alta ¢ sua baixa, compensam-se mituamente e sé reduzom clas préprias a scu preco médio como uma regra interna. Isso constitui a bissela, por exemple, do comerciante ou do industrial em tado o empreendimento de uma certa duracio. O comerciante, 0 industrial, sabem disso, que, num perfodo bastante longo consi- derado em seu conjunto, as mereadorias nao siio realmente ven- didas, nem acima nem abaixo de scu prego, mas no seu proprio prego medio, Conseqientemente, a formacao do Iucro, o au- mento do valor, devern ser explicados admitindo-se que as mer- cadarias sao vendidas por seu verdadeiro valor, Logo a mais- valia deve ja ser formada na produgio. No momento em que finda a fabricagéo e quando a mercadoria se encontra ainda em mos de scu primeiro vendedor, ela deve valer, pois, tanto quan- to o ultima comprador, o consumidor, paga para adquiri-la. Em outras Tear seu valor deve ultrapassar as despesas do fabricante; logo, é durante a produgio que se deve formar um névo valor. Isso nos conduz & questio de saber come se constitui em geral o valor da mercadoria. 3. VALOR DE USO E VALOR DE TROCA — O TRABALIIO SOCIALMENTE NECESSARIO* A mercadoria ¢ de inicio um objeto externo, uma coisa que satisfaz para scus proprictarios uma necessidade humana qual- quer. Téda a coisa util, tal como o ferro, o papel cte., deve ser considerada scb um duplo aspecto: a qualidade e a quan- tidade, Cada uma é um conjunto de qualidades numerosas e pode ser Util As mais diversas finalidades, E a utilidade de uma coisa que the dé um valor de uso. Mas essa utilidade nia surge no ar. I, delerminada pelas propriedades fisicas das mer- cadorias ¢ nao existe sem isso. A mercadoria em si, tal como o terro, a trigo, o diamante ete., ¢, pois, um valor de uso, um bem. 0 valor de troca aparece de inicio como a relagio quanti- tativa pela qual as valores de uso de uma especie se trocam pelos valdres de usa de outra. Uma quantidade tal de mer- cadoria troca-se regularmente por oulra tal quantidade de outra mereadoria: é scu valor de troca — relagdo que varia com tem- po c lugar. O valor de troca parece pois ser alguma coisa acidental ¢ puramente relativo, isto 6 (coma escrevia Condillac), parece “residir lmicamente na relagio das mercadorias com mossas necessidades”. Um valor de troca imanente, intrinseco, & mereadoria parece scr entao uma contradicao. Examincmos a coisa mais ie perta. Ima mercadoria qualquer, um quintal de trige, pode ser trocada. por excinplo, por tal quaatidade de graxa, de séda ou de ouro ete., enfim, por quaisquer mereadarias, nas proporgdes as mats diversas, © trigo tem entéo miltiplos valdres de troca. Mas como essas quantidades determinadas de graxa, de séda, de oure ete, representam respectivamente o valor de troca de um quintal de trigo, devem representar iguais valdres de troca. Scaue-se pois, em primciro lugar, que os valdres de troca, vi- lidos pura a mesma mereadoria, exprimem a mesma grandeza. Em segundo lugar, atrds do valor de troca deve existir um contcidn de que éle 6 a expressio. *® Vol. I, caps. 12. VALOR DE USO E VALOR DE TROCA BB Tomemos ainda duas mereadorias; por exemplo, o trigo ¢ o ferro. Qualquer que scja sua relagdo de troca, podemos sem- pre representa-la por uma igualdade, na qual uma dada quan- tidade de trige equivale a uma certa quantidade de ferro. Um quintal de trigo equivale a dois quintais de ferro. Q que signifies essa igualdade? oe um clemento comum de igual grandeza existe em dois objetos diferentes, num quintal de triga ¢, do mesmo modo, em dois quintais de ferro. O: dois objetos sio, pais, iguais a uma terceira quantidade que ndo é cla propria, nem um nem outro. Cada um dos dois objets enquanto valor de troca, deve ser redutivel a essa terceira quantidade. Esse elemento comum niio poderia ser propriedade natural das mercadorias. As propricdades fisicas nao entram er conta senfio na medida em que tornam as mercadorias utiliziveis ¢ facam delas conseqiientcmente valdres de uso. Ora, em sua re- lacio de troca faz-se, manifestamente, abstragao do valor de uso das mereadorias. Na troca, um valor de uso, seja éle qual for, tem exatamente tanto valor quanto outro qualgner, levan- do-se cm conta ai uma proporgao conveniente. Ou, coma diz o velhor Barbon (1696): “Uma cspécie qualquer de mereadoria vale outra no momento em que o seu valor de troca ¢ o mes- mo, Nao se poderia estabelecer distingao nem diferenciagao entre coisas de igual valor de troca... 100 cruzeiros noves de chumbo ou de ferro representam o mesmo valor de troca que 100 cruzciros novas de prata ou de ouro.” Como valéres de uso, as mercadorias tem antes de mais nada qualidades diferentes; como yaléres de toca, nao podem diferir sendo pela quantidade. Se se faz abstracdo de seu valor de uso, as mercadorias nao conservam mais do que uma propricdade, a de produtas de tra- balho, mas, pot essa abstragao, 0 préprio produto de trabalho também ja est& modificado, Se ibainas Ee lado seu valor de uso fazemos igualmente abstragao dos elementos materiais ¢ das formas que lhe dao um valor de uso. Nao é mais uma mesa, uma casa, um fio, nem um objeto GH] qualquer. Todas as suas propriedades sensiveis ficam esquecidas, Nao é¢ mesmo mais o produto do trabalho do marceneira, do pedreira, do fiandeiro ete. nem de outro trabalho produtive determinado. Nao é mais que © produto de trabalho humano em geral, um trabalho hu- mano abstrato, isto €, 0 produto do esforga do trabalho humano, independente da forma désse esférgo, independente do fato de ane a tratamento foi feito por um marceneiro, um pedreiro, um iandeiro etc, Os objetos que sao produtos désse trabalho ates- tam unicamente que para sua produc&o foi necessério um €s-