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Anais do SEFiM, Porto Alegre, V.02 - n.2, 2016.

H. J. Koellreutter: a música como projeto ético e estético

HJ Koellreutter: music as ethical and aesthetic project

Palavras-chave: Koellreutter; Música; Novo pensamento.


Keywords: Koellreutter; Music; New thinking.

José Eduardo Costa Silva


Universidade Federal do Espírito Santo
zed2004@gmail.com

Apresento uma síntese das principais ideias estéticas de Koellreutter, focalizando sua tese
de que a música é um meio de comunicação, que se serve de uma linguagem para comunicar
à cultura as novidades do pensamento, da qual decorre a proposição estética e ética de unir,
com a interferência da música, Ocidente e Oriente.
A música é um meio de comunicação, que se serve de uma linguagem para comunicar à
cultura as novidades do pensamento porque: 1) há um vínculo essencial entre música e
pensamento, cuja existência é comprovada na correspondência entre as fases históricas
do pensamento – a pré-racionalista; a racionalista; a racionalista-positivista e a relativista
- e os diferentes sistemas de estruturação musical; 2) a sociedade reconhece e acolhe as
novidades do pensamento que a música comunica. (KOELLREUTTER, 1997, p. 71).
O pensamento comunicado pela música interfere na cultura como uma ideologia que me-
dia a compreensão que o homem tem de si mesmo e do mundo. Nesse contexto, a estética
é a ideologia do artista, e é através dela que ele dialoga com seu tempo. O conjunto de
ideias que Koellreutter denomina Estética Relativista do Impreciso e do Paradoxal está em
concordância um conjunto de ideias da física contemporânea denominado relativismo,
que se iniciou no séc. XIX, a partir do pensamento de Bernhard Riemann (1826-1866).
Derivam do relativismo três noções que esfacelam os conceitos da estética tradicional e
estabelecem as bases para a nova estética: a superação do dualismo dos conceitos dos contrá-
rios;a superação dos conceitos de tempo e espaço absolutos e a superação do princípio causal.
(KOELLREUTTER, 1988, 5ª aula).
A primeira noção atende diretamente ao projeto ético de Koellreutter de promover o
encontro entre as culturas do Ocidente e do Oriente, a partir da compreensão de que os
contrários podes ser compreendidos como complementares. Reside aqui a ideia de que
de que as tensões causadas pelos contrários norteiam e estruturam modos de pensar e
perceber. Por exemplo: somente as culturas originárias, por trabalharem a noção dos con-
trários complementares, foram capazes de experimentar a vivência do todo, enquanto que
as culturas edificadas no racionalismo conduzem às vivências fragmentadoras. (KOELL-
REUTTER, 1985, PR.1).
Do princípio fenomenológico de que sujeito e objeto se pertencem mutuamente, Koell-
reutter deduz que não pode haver conceitos absolutos. Assim, Koellreutter adentra no

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relativismo filosófico, que, junto ao relativismo da física, empresta os três adjetivos
pelos quais caracteriza a sua estética: relativista, impreciso e paradoxal. Os dois primeiros
aludem diretamente à concepção de que os conceitos não são absolutos, enquanto que
o paradoxal remete à noção de complementariedade dos opostos. (KOELLREUTTER,
1988, 1ª aula).
A segunda noção versa sobre a superação do conceito de tempo e espaço absolutos. Para
Koellreutter não estamos habituados a perceber o tempo como um fenômeno da percep-
ção. Porém, a física contemporânea ensina, qualquer medida de tempo nada representa
sem um acontecimento que a assinale. Logo, o tempo é simplesmente uma ordem possí-
vel de acontecimentos espaciais, e o espaço, por sua vez, uma ordem possível de objetos
no tempo; trata-se do continum espaço-tempo. Esse continum motiva a sensibilidade inte-
gradora, que demanda que o espaço seja percebido segundo três coordenadas espaciais
num referencial tridimensional e, também, por uma quarta coordenada, que registra as
variações no tempo. (KOELLREUTTER, 1988, 6ª aula).
Segundo o espaço-tempo, uma peça pode vir a apresentar as seguintes possibilidades de
estruturação: a- em primeira dimensão, dada a partir de uma sucessão linear de signos, tal
como no canto gregoriano; b- em segunda dimensão, onde se registra a disposição simul-
tânea dos signos; c- em terceira dimensão, pela qual os signos convergem em direção a um
centro tonal e d- em a-mensão, que suscita uma percepção integrada dos signos, como em
Variações Para Piano, opus 27 de Webern. (KOELLREUTTER, 1988, 5ª aula).
A terceira noção versa sobre a superação do princípio causal. Koellreutter sustenta que a
dedução da causalidade ocorre articulada à percepção que temos das dualidades no tem-
po. Dois eventos, pra que sejam reconhecidos como causa e efeito um de outro, deverão,
primeiramente, estarem esclarecidos em termos de semelhança e diferença, de modo que
sejam significados como antecedente e consequente. Entretanto, a percepção da causa e
efeito implica em um nível de previsibilidade, pois é a confirmação dessa previsibilidade
que assegura a significação. O nexo causal é, segundo Koellreutter, o elemento de redun-
dância da música tonal. Ele traduz a associação entre os conceitos de expectativa e hábito.
Alguma informação que escape a essa lógica será considerada como novidade e tornar-se-á
um elemento relevante na produção de significação e afeto. (KOELLREUTTER, 1988,
5ª aula).
A tomada de consciência de uma nova realidade se traduz em uma música que a comuni-
ca, qual seja: a Música Monótona. Uma música caracterizada pelo alto grau de redundân-
cia, garantido pela repetição das ocorrências que constituem o silêncio, entendido como
meio de expressão. O silêncio é base de monotonia que leva à serenidade e ao equilíbrio
psíquico e emocional, base sobre a qual pode incidir os elementos da composição.A mú-
sica monótona deve possibilitar uma vivência que transcenda a valorização do som, con-
duzindo-nos para a vivência de seus elementos qualitativos. Trabalhar por essa música é
o motor da práxis pedagógica de Koellreutter e expressa seu humanismo orientalizado.
(KOELLREUTTER, 1988, 8ª aula).

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Referências
KOELLREUTTER, H.J. Introdução à estética e à composição musical contemporânea. Tex-
tos Org. por ZAGONEL, Bernadete; CHIAMULERA, Salete M. Porto Alegre: Movi-
mento, 1987.
______. Introdução à estética relativsta do impreciso e do paradoxal, Resumo de Aulas. SP:
Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, 1987/1988.
______. Música de Leste a Oeste, O grande reencontro das culturas musicais do Ocidente
e do Oriente; programas da Rádio MEC. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da
Universidade de São Paulo, 1985.
______. Terminologia de uma nova estética da música. Porto Alegre: Movimento, 1990.
______. “Sobre o Valor e o Desvalor da Obra Musical”. Educação Musical, Cadernos de
Estudo. BH: Atravez/EM-UFMG/FEA, fev. 1987.

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