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Os 223 Genes (de Sitchin)

Referência atualizada em 14

"À imagem de quem Adão -- o


protótipo dos humanos modernos,
Homo Sapiens -- foi criado?”. É com
essa pergunta que Zecharia Sitchin,
autor do livro O 12o Planeta, nos
introduz a descoberta de genes
“enigmáticos”, parte do anúncio feito
pelo consórcio internacional do projeto
Genoma em fevereiro de 2001.

Em um sumário de suas descobertas


preliminares publicado no periódico
Nature, no meio de 150 páginas
dedicadas ao tema, o projeto
internacional apresentava onze
importantes achados – entre eles o de
que 223 de nossos genes “parecem ter
sido transferidos de uma gama de
espécies bacterianas”, em uma
transferência horizontal na árvore
evolutiva.

Em outras palavras, parte de nosso magnífico genoma não seria fruto de uma contínua
evolução que foi selecionando de nossos ancestrais mais remotos ao lindo bebê Homo
Sapiens à sua frente, mas teria em algum momento de nossa história adentrado direta e
clandestinamente de simples bactérias!

Zecharia Sitchin logo entraria clandestinamente nesta história científica, com sua nota
intitulada:

“O caso dos genes alienígenas de Adão”


Sitchin defende que nós fomos criados através de engenharia genética por seres
extraterrestres, os Anunnaki de Nibiru (o “12o planeta”), e teríamos sido feitos “à sua
semelhança” a partir de hominídeos que habitavam este primitivo planeta quando de sua
visita.

Na nota, ele encaixa os 223 genes em suas histórias, aparentemente sem muitos
problemas. Primeiro, é preciso notar como o cerne desta descoberta seria o de que temos
genes em comum com bactérias. E enquanto os cientistas sugeriram que foram
justamente inseridos por e elas e delas, também teriam notado que “não está claro se a
transferência foi de humanos a bactérias ou de bactérias a humanos”. As bactérias
poderiam ter adquirido os genes de nós. Nesse caso então o quê teria inserido esses
genes? Ou quem? E de onde?

“Leitores de meus livros devem estar sorrindo agora, pois já sabem a resposta”, escreve
Sitchin. Extraterrestres, é claro, os Annunaki. Eles “vieram à Terra há aproximadamente
450.000 anos” em busca de ouro. Depois de 150.000 anos, exaustos, resolveram criar
sua mão-de-obra: “Enki -- o cientista chefe -- iniciou um processo de engenharia
genética, adicionando e combinando genes dos Anunnaki com os dos hominídeos já
existentes”. E o resultado foi nada menos que nós, Homo sapiens, a mão-de-obra
terrestre para os extraterrestres.

“É assim”, ele sugere, “que nós chegamos a possuir estes peculiares genes extras. Foi à
imagem dos Anunnaki, não de bactérias, que Adão e Eva foram criados". O Projeto
Genoma teria descoberto os “genes alienígenas de Adão”, uma “corroboração pela
ciência moderna dos Anunnaki e suas proezas genéticas na Terra”.

Uma busca no Google em março de 2004 mostra que esta nota de Sitchin foi
reproduzida por mais de 4.000 sítios on-line. Infelizmente, está errada.

O caso dos genes bacterianos dos vertebrados


O problema com os “genes alienígenas de Adão” é que os genes discutidos e anunciados
não seriam originais de “Adão”, isto é, não seriam exclusivos ao homem moderno.
Teriam sido inseridos em nossa linhagem evolutiva há centenas de milhões de anos, e
não há 300.000 anos, como Sitchin claramente afirma. Seriam genes presentes em todos
os vertebrados, possivelmente presentes neles há pelo menos 450 milhões de anos atrás.

O próprio Sitchin cita a informação, embora de forma habilidosa para que não evidencie
o problema. Enquanto o anúncio original publicado na Nature diz que:

“uma análise mais detalhada feita por computador indicou que pelo menos 113 desses
genes são comuns em bactérias, mas entre eucariontes, parecem estar presentes
apenas em vertebrados” (ênfase inserida)

O autor de O 12o Planeta cita o trecho desta forma:

“A equipe do Consórcio Público, conduzindo uma busca detalhada, descobriu que em


torno de 113 genes (dos 223) ‘são comuns em bactérias’ -- embora estejam
completamente ausentes mesmo em invertebrados” (ênfase inserida)

Ao invés de dizer que os genes estão presentes em vertebrados, e não apenas em


humanos, diz que estão “ausentes mesmo em invertebrados”. Sitchin exibe suas
habilidades literárias.

Nosso talentoso autor também cita várias vezes um artigo publicado no periódico
Science. Curiosamente, não cita que no mesmo artigo podemos ler que “alguns
pesquisadores suspeitam que o genoma vertebrado antigo recebeu genes bacterianos”
(ênfase inserida). Curioso, pois tanto a frase anterior quanto a posterior são citadas.

Os seres vertebrados surgiram há milhões de anos, e nem mesmo Sitchin defende que
foram os Anunnaki a criá-los. Segundo ele, os Anunnaki teriam vindo ao nosso planeta
há “apenas” 450.000 anos, supostamente criando o ser humano há 300.000. Como tais
genes podem ser encontrados também em outros vertebrados, não são “genes de Adão”,
muito menos devem ser alienígenas. O anúncio feito pelo Projeto Genoma sempre se
referiu aos possíveis genes bacterianos dos vertebrados.
E há mais. Ou menos.

O caso dos genes inexistentes


Tais genes bacterianos transmitidos lateralmente aos vertebrados podem mesmo não
existir. Apenas quatro meses depois do anúncio de descobertas preliminares do Projeto
Genoma, a mesma Science publicou um artigo do The Institute for Genomic Research
que pretendia “corrigir o registro”, segundo Steven Salzberg. O novo estudo, centrado
especificamente na questão, reduzia os genes possivelmente adquiridos lateralmente a
pouco mais de 40, “tendendo a zero” à medida que mais genomas e mais buscas fossem
realizadas.

Mais um mês e a própria Nature também publicaria outro estudo feito pela
GlaxoSmithKline que igualmente contrariava a promiscuidade de genes entre bactérias e
vertebrados. Analisando parte dos genes em questão, o estudo defendeu que eles
“podem ser explicados em termos de herança através de origem comum ao invés de um
pulo de bactérias a vertebrados”.

“O relatório publicado na Nature em fevereiro de 2001 tinha o seguinte título geral:


‘Seqüenciamento e análise inicial do genoma humano’. Era um relatório preliminar, que
divulgava genericamente o que se tinha aprendido até aquele momento. E se aprendeu
muito”, disse o bioquímico Jorge H. Petretski em uma lista de discussão sobre ufologia,
a BURN. “Mas alguns meses depois... já se tinha aprendido mais um pouco”,
completou.

Mal para Zecharia Sitchin, que pretende revelar a “verdadeira” história não só da
humanidade, como de seres extraterrestres, datando de centenas de milhares de anos.

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Com agradecimentos a Jorge H. Petretski pela ajuda na correção desta ‘referência’

Leia mais:
- THE CASE OF ADAM’S ALIEN GENES - O relato original de Zecharia Sitchin
sobre os 223 genes
- Got bacterial genes?
- Researchers Challenge Recent Claim That Humans Acquired 223 Bacterial Genes
During Evolution
- Setting the Record Straight

Referências:
- Lander, E.S. et al. Initial sequencing and analysis of the human genome. Nature 409,
860-921 (February 15, 2001).
http://www.nature.com/genomics/human/papers/409860a0_r_4.html
- Salzberg, S.L. et al. Microbial genes in the human genome: lateral transfer or gene
loss? Science 292, 1903-1906 (June 8, 2001). Published online May 17, 2001.
- Stanhope, M.J. et al. Phylogenetic analyses do not support horizontal gene transfers
from bacteria to vertebrates. Nature 411, 940-944 (June 21, 2001).
http://www.nature.com/nature/links/010621/010621-3.html