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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


COLEGIADO DO CURSO DE DIREITO
DISCIPLINA: DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA
PROFESSORA: MARIA HELENA
DATA 14/04/2018
GABRIEL BASONI
FREDERICO
IBERNON ALVES COSTA DOS SANTOS JÚNIOR

CORRELAÇÃO CRÍTICA ENTRE FATORES ECONÔMICOS,


POLÍTICOS, IDEOLÓGICOS, SOCIAIS E CULTURAIS DA
DITADURA E A ATUALIDADE

UMA BREVE INTRODUÇÃO

Muito se discute acerca das reais circunstâncias inerentes ao período


ditatorial brasileiro, como se decorreu o que para alguns historiadores fora o
tempo mais sombrio de nossa história, onde a democracia viu-se cerceada nos
atos arbitrários de um governo despótico e cruel.
Não muito distante, ressurge em nosso ambiente nacional um discurso
conservador, em nova roupagem, alegando, em suma, as benesses que o
período ditatorial teria trazido em prol dos brasileiros, o que seria uma oposição
às diversas obras literárias que versam sobre o tema. Contudo, será esse um
sermão fadado na desinformação de nacionais no ócio à busca dos reais fatos?
Ou teria um “que” de verdade?
É essa uma das perspectivas que trouxemos nesse trabalho a fim de
explanar e correlacionar o período que vai de 1964 a 1985 com as
circunstâncias de nossa atualidade. Assim, sob a ótica comparativa,
traçaremos, conforme dados reais, equiparações e/ou apartamentos dos
fatores deduzidos em epígrafe.

A ECONOMIA DE ONTEM

Sabido por todos, o período entre 1968 e 1973, intitulado “Milagre


Econômico”, foi o interim em que o Brasil alcançou recordes no crescimento de
seu Produto Interno Bruto (PIB), chegando a margem de 10% ao ano. A
indústria brasileira vivenciou um desenvolvimento exponencial sob a tutela dos
militares. Diversas multinacionais encontraram solo fértil para dilatar seus
empreendimentos.
Em 63 a economia brasileira cresceu miseravelmente em 0,6%, aliada a
taxa inflacional anual de 86%. Dessa forma, um dos argumentos do Golpe
Militar foi a da robusta instabilidade econômica perpassada pelas décadas de
50 e 60, e assim apoiaram-se em políticas econômicas inconsequentes para
alcançar as metas e conseguir o apoio de uma parte da população.
O que os mensageiros da excelsa ditadura militar pouco fala é como se
decorreu os supracitados índices e quais foram as suas consequências nos
anos supervenientes. Primeiramente, insta frisar que os métodos empregados
para fomentar o desenvolvimento tupiniquim foram o arrocho salarial e a
grande utilização de capital estrangeiro.
A forte reprimenda estatal aos sindicatos e a outros dispositivos
trabalhistas impuseram falta de condições de negociação entre empregador e
empregado. Este, hipossuficiente, viu-se impossibilitado de requerer melhores
condições laborais e teve o seu salário desatualizado anualmente conforme a
inflação. Desse modo, os empregadores capitalizaram grandes lucros dos
empreendimentos mormente em função dos operários.
Não menos importante, o desenvolvimento regrado pelo dinheiro
estrangeiro trouxe dependência internacional à economia brasileira, tornando-a
fragilizada aos fortuitos externos. Os inúmeros empréstimos realizados pelos
militares acarretaram uma dívida equivalente a 54% do PIB agregados a
“fatura” do governo de redemocratização. Após saírem do poder, deixaram
como “herança” uma inflação de 223% em 1985, o que quatro anos depois se
tornou em 1782%.
E para onde foi o desenvolvimento, fruto de toda essa dívida, que possui
seus resquícios até o dia de hoje? O que aconteceu foi que o “bolo econômico”
criado foi fator gerador de uma grande discrepância social onde apenas os
empresários e aristocracia política foram beneficiados, enquanto os pobres
continuaram na sua mesma condição de marginalização.
A ECONOMIA DE HOJE

É evidente a queixa dos cidadãos decorrente da crise vivenciada pelo


Brasil há quase uma década, e é nesse cenário que surge os exaltadores do
período militar. O discurso de que “no militarismo os rumos econômicos teriam
sido diferentes”, como já vimos, é falaciosa, e isso é ignorado ou mesmo não
sabido por essa população mais radical.
A atual crise econômica brasileira tem sua origem oriunda de
circunstâncias muito mais complexas, que extrapolam o contexto econômico e
adentram no cenário da também crise política nacional. Indo além, segundo a
revista The Economist, podemos citar os fatores externos, que se mostraram
preponderantes nas circunstâncias agravantes da crise.
Nesse sentido, o infeliz atual quadro econômico do Brasil teve sua
origem no ano de 2014, pela robusta recessão econômica através da queda no
PIB consecutivamente, trazendo inúmeras consequências negativas como o
desemprego e aumento na inflação. Não nos aprofundemos em conteúdos
técnicos de teor unicamente economista, mas analisaremos a economia sob o
prisma do Direito, com o enfoque nas consequências sociais.
Correlacionando ao período ditatorial, o movimento de impeachment
teve dentre seus principais elementos fomentadores a forte crise
experimentado pelo governo Dilma, de outro lado o golpe militar teve como um
de seus fatores a também crise econômica vivida naquele período. Ao que tudo
indica o argumento de instabilidade econômica por vezes deixa de ser
qualificada como patologia a ser sanada e torna-se argumento de manobra
popular para tomada do poder.
Cabe ressaltar que o quadro econômico jamais poderá ser argumento
para atos antidemocráticos. A economia sempre teve seus altos e baixos, a sua
gestão é de responsabilidade de nossos representantes postos por dispositivos
constitucionalmente garantidos.
Nossos compatriotas devem se inteirar acerca das informações que são
postas à mesa, investigar com cautela aquilo que é alegado por terceiros.
Dessa forma evitará o mau uso de suas atribuições como cidadão brasileiro.
CONTEXTO SOCIAL NA DITADURA

Dando continuidade aos estudos sobre a Ditadura Militar no Brasil,


analisemos agora os aspectos sociais que permeavam aquele período.

Economicamente falando, sabe-se que este regime, ocorrido em nosso


país entre 1964 e 1985, foi marcado pelo chamado “milagre econômico”. Em
breves palavras, um grande crescimento na economia do país, que promoveu
avanços estruturais e a criação de milhares de empregos. Mas o que isso tem
a ver com a sociedade da época?

A resposta é que os efeitos deste “milagre” influenciaram fortemente no


meio social. Como consequência deste crescimento, a estratificação social no
Brasil ficou ainda mais consolidada. Ou seja, a renda ficou altamente
concentrada nas classes alta e média, enquanto que a população mais pobre
sofreu com a falta de amparo. Houve, portanto, crescimento, mas sem
qualidade de vida; houve aumento dos postos de trabalho, mas faltou
condições estruturais para permanência destes postos; tinha muito dinheiro nos
cofres dos bancos, especialmente nas poupanças das classes média e alta,
mas milhões de brasileiros morriam de subnutrição. Tudo sob a ótica de que
era necessário “fazer o bolo crescer para depois reparti-lo”.

Diante deste contexto, não é difícil inferir que o avanço na economia,


apesar dos seus pontos positivos, também afetou profundamente o meio social.
Tais características como grande quantidade de crianças mortas por
desnutrição, milhares de municípios brasileiros sem água encanada, falta de
saneamento básico em grande parte do país e tantas outras situações sociais
evidenciaram a falta de planejamento para o desenvolvimento humano do povo
brasileiro.

A Ditatura ocorrida no Brasil teve também como aspecto marcante uma


forte repressão a todas as formas de oposição ao governo. O AI-5 (Ato
Institucional nº 5) foi o ponto mais alto da represália ditatorial e teve, como uma
de suas características, a censura aos meios de comunicação. O cidadão
brasileiro não tinha acesso às informações de forma plena e livre, pois estas
chegavam até si de forma restrita e controlada. Além do mais, era severa a
vigilância contra os movimentos estudantis, e reinava nas grandes cidades um
clima de insegurança devido aos conflitos entre forças opostas: de um lado,
movimentos de guerrilha que atuavam tanto nas zonas urbanas quanto no meio
rural, e de outro, grupos de extrema direita, como por exemplo o CCC
(Comando de Caça aos Comunistas), que executava sequestros e
assassinatos aos opositores do regime. A sociedade, portanto, não tinha o
direito de se expressar livremente, uma vez que toda forma de manifestação
contrária aos detentores do poder político era violentamente repreendida,
correndo o cidadão risco de ser torturado ou até mesmo assassinado, em
nome da falácia do “combate ao Comunismo”.

CONTEXTO SOCIAL ATUAL

A chave para a alteração de todo esse momento conturbado na história


brasileira foi a promulgação da Constituição Federal de 1988. Esta trouxe
consigo um caráter social e amplas garantias individuais e coletivas, expressas
em seu art. 5º, além de estabelecer um Estado Democrático de Direito e ter,
entre seus fundamentos, a dignidade da pessoa humana, conforme o art. 1º,
inciso III. Assim sendo, assegurou ao indivíduo a sua liberdade de expressão,
bem como o respeito à sua integridade física e psicológica. Cabe ressaltar
também a liberdade de imprensa, agora sem a interferência do Estado e
garantida pela Carta Magna em seu art. 220, § 1º.
Entretanto, muitas das garantias trazidas pela CF/88 ainda ficam só no
papel. A desigualdade social e econômica persiste, reflexo das políticas
econômicas adotadas no período ditatorial. Segundo pesquisas recentes do
IBGE, no ano de 2017 apenas 10% da população concentrava 43,3% da renda
do país, o que evidencia que a ideia de “repartir o bolo” nunca ocorreu de fato.

Observa-se também que, embora expressa na Constituição a liberdade


de expressão e o respeito à dignidade humana, estas não são plenamente
cumpridas. Ainda prevalece em meio à sociedade brasileira uma intolerância às
minorias, como por exemplo os grupos indígenas e os movimentos LGBT, que
cada vez mais lutam para alcançar seu espaço. Outro ponto importante é o
preconceito racial, que embora implícito, insiste em subsistir: no tocante à
violência e às desigualdades sociais, os negros são, infelizmente, os mais
afetados, vide o recente caso da vereadora Marielle Franco, ativista negra que
lutava pelas causas sociais dos negros, assassinada há um mês.

CONTEXTO CULTURAL DA DITADURA

As expressões culturais se dão, principalmente, por meio da música, do


cinema, do teatro, da dança, entre outros. Entretanto, iremos nos deter a
analisar apenas a música em especial, que foi o ponto forte das manifestações
durante este período histórico do Brasil.
Como já analisado anteriormente, a Ditadura Militar teve como ponto
principal a repressão a todo e qualquer tipo de manifestação que lhe fosse
contrária. Assim sendo, as expressões artísticas, a saber, a música, o teatro, o
cinema, eram mormente voltadas para a crítica à severidade do governo
ditatorial. Mesmo o “pente fino” exercido nesse período pelos militares, como
forma de censurar os repúdios à Ditadura, não impediu o surgimento e
propagação de grandes movimentos culturais, especialmente no âmbito
musical.

O Tropicalismo foi o mais marcante de todos eles. Influenciado pela


cultura pop brasileira e internacional e de correntes de vanguarda como, por
exemplo, o Concretismo, este movimento musical teve como características
não somente protestar contra a reprimenda militar, mas também reunir todas as
tendências, informações, manifestações do pensamento e então expressar a
realidade do artista brasileiro. Trouxe uma inovação ao possibilitar um
sincretismo entre diversos estilos musicais, como o rock, a Bossa Nova, baião,
samba, bolero, entre outros. As letras das músicas que compunham a
Tropicália possuíam um caráter poético, elaborando críticas sociais e
abordando temas do cotidiano de uma forma inovadora e criativa. Teve como
principais nomes Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Gal Costa, Rita Lee e
demais artistas da música brasileira.
Apesar de maior relevância musical, o Tropicalismo também influenciou
outras áreas, entre elas o cinema. O movimento Cinema Novo, tendo como um
dos principais nomes Glauber Rocha, foi um dos que recebeu essa influência.

Outros nomes também se destacaram nesse período, através das


músicas de protesto. Chico Buarque é um destes, que através da música
“Cálice”, faz alusão à oração de Jesus Cristo dirigida a Deus no Jardim do
Getsêmani: “Pai, afasta de mim este cálice” e explora a sonoridade e o duplo
sentido das palavras “cálice” e “cale-se” para criticar o regime instaurado. E
como não lembrar da belíssima música “Pra Não Dizer que Não Falei das
Flores”, de Geraldo Vandré? Esta música era um verdadeiro apelo ao povo
para se unir e juntos, combaterem e protestarem contra o regime ditatorial.

CONTEXTO CULTURAL ATUAL

Os movimentos culturais e artísticos ocorridos no período da Ditadura


Militar consolidaram no cenário nacional grandes nomes como Caetano Veloso,
Gilberto Gil, Chico Buarque, Rita Lee e tantos outros, que continuam fazendo
sucesso até hoje. Entretanto, suas músicas não possuem mais um caráter tão
crítico como naquele tempo, direcionando o foco para reflexões sobre a vida e
o cotidiano.

Hoje observa-se no Brasil, quanto ao meio musical, uma forte ascensão


do chamado Sertanejo Universitário, que traz em suas canções uma mistura de
romance, paixão, curtição e farra, perfil da juventude de classe média
brasileira. Outro estilo musical sempre em destaque é o funk, que ganhou força
especialmente por ser uma forma de manifestação da realidade das favelas e
periferias. Suas músicas contêm, além de um forte cunho sexual, um desejo de
ostentação que demonstram a vontade de serem aceitos e incluídos na
sociedade capitalista, tão marcada pela desigualdade entre as classes sociais
e onde se vê cada vez mais a ascensão econômica dos mais abastados, em
detrimento do mais pobres e necessitados.

Na seara musical, o papel de criticidade do atual contexto social em que


vivemos fica a cargo do rap, também presente nas periferias. Ao contrário do
funk, que apenas demonstra a realidade, o rap é um meio utilizado pelos seus
cantores para dar voz dos moradores dessas regiões, muitas vezes apontando
a indiferença do governo quanto a essa parte da população. Nomes como
Gabriel o Pensador, MV Bill, Emicida, Projota e Marcelo D2 integram os mais
populares deste gênero musical.

FATORES POLÍTICOS E IDEOLÓGICOS QUE INFLUENCIARAM O GOLPE


DE ESTADO DE 1964 E O DE 2016

Com o surgimento de correntes positivistas, especialmente o positivismo


formalista, o conceito de Estado de Direito sofreu grandes deformações, uma
vez que a ideia de Direito se limitava à lei. Isso provocou sérias consequências,
pois formou-se o pensamento de que todo Estado conduzido por leis,
independentemente de seu conteúdo axiológico, era considerado Estado de
Direito, ainda que seja ditatorial. Isso esteve bastante presente no regime
militar no Brasil a partir da década de 1960. Os usurpadores do poder
utilizaram do produto da atividade legislativa para institucionalizarem e
legalizarem o golpe e outras tantas atrocidades, sob o discurso de estarem
agindo em nome da lei, buscando promover a ordem e o progresso da nação
brasileira.

A partir de uma análise crítica dos contextos históricos do golpe de 1964


e 2016, verifica-se que houve fatores políticos e ideológicos determinantes para
que cada um deles se desencadeasse.

Após a renúncia de Jânio Quadros ao cargo da Presidência da


República em Agosto de 1961, assumiu o governo o Vice-Presidente João
Goulart. Nesse período, o mundo atravessava o momento da Guerra Fria,
marcado pela Polarização entre os Estados Unidos e a União Soviética
comunista. O então Presidente da República João Goulart vinha sendo
acusado pelos setores militares, civis e da imprensa de ser um governo
populista e de estar tentando implantar o comunismo no Brasil, principalmente
depois que anunciou as Reformas de Base, visando promover, assim, a justiça
social. Esse episódio ocorreu em 13 de Março de 1964, poucos dias antes do
Golpe, e foi considerado o estopim rumo à tomada do poder. Era o conhecido
“perigo comunista” que veio ser o argumento utilizado para justificar o episódio
que se aproximava. Diante disso, os EUA temendo o Brasil se tornar
comunista, procurou auxiliar o governo militar. O pensamento vigente na época
era de que o Brasil estava perdido em corrupção, inflação, portanto era preciso
tomar medidas urgentes para restabelecer uma suposta ordem democrática.
No entanto, sabemos que o Golpe de Estado não surgiu de uma hora pra outra,
mas, sim, de visões conflitantes entre a Esquerda e a Direita nos aspectos
econômicos e políticos que já existiam muito antes da alegação da ameaça
comunista que Jango representava.

Outro ponto de extrema relevância foi a mobilização da classe média,


que participou ativamente da Marcha da Família com Deus pela Liberdade,
movimento que reuniu milhares de pessoas que formavam a parcela cristã
conservadora da sociedade, tendo a imprensa brasileira enorme papel nas
manifestações que se sucederam. A finalidade desse movimento foi dar
respaldo popular aos militares juntamente com o apoio dos políticos envolvidos,
numa tentativa dissimulada de dar ao golpe que estava prestes a acontecer o
caráter de legítimo, principalmente por ter o apoio da sociedade organizada.

O anticomunismo, as articulações militares e conspirações de 1964


foram bem sucedidas, e, no mesmo ano, aproveitando-se de uma viagem
interna do Presidente, o Congresso Nacional, de forma dissimulada, declarou
vaga a presidência da República, formalizando, assim, um golpe de Estado.

Naquele período, o movimento foi denominado pelos militares de


revolução (revolução civil-militar), e não um Golpe de Estado. Isso pode ser
explicado por que eles não se separaram da sociedade, pelo contrário,
contavam com o apoio de classes dominantes, até de classes médias e uma
relativa passividade de setores operários, somando-se a isso, ainda, o fato de
João Goulart ter sido deposto pelo Congresso Nacional, numa tentativa de
legitimar juridicamente o golpe.

A partir de então há o início das restrições de direitos e o cerceamento


das liberdades civis e democráticas, principalmente através das promulgações
dos Atos Institucionais, em que foram institucionalizadas medidas como a
extinção dos partidos políticos, a suspensão de direitos políticos por 10 anos, a
cassação de parlamentares, a tortura, a suspensão do habeas corpus em
determinados crimes, intervenções nos municípios, etc., mas todas com o
objetivo de combater a subversão e as ideologias contrárias ao regime.

Destacamos o trecho inicial do primeiro Ato Institucional publicado ainda


em 1964:
“É indispensável fixar o conceito do movimento civil e militar que acaba de abrir
ao Brasil uma nova perspectiva sobre o seu futuro. O que houve e continuará a
haver neste momento, não só no espírito e no comportamento das classes
armadas, como na opinião pública nacional, é uma autêntica revolução… A
revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se
traduz não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade
da Nação… A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder
Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a
forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução
vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma".

Segundo Karl Marx A história se repete, a primeira vez como tragédia e


a segunda como farsa. Entendemos o acontecimento histórico de 1964 como a
tragédia, e o mais recente na história do Brasil como a farsa.

Em se tratando desse movimento mais recente na história do Brasil — o


Impeachment da Presidente da República ocorrido em 2016 — fatores políticos
e ideológicos ajudam a traçar um paralelo com o ocorrido em 1964. Nota-se
que a presidente Dilma Rousseff, assim como João Goulart, possui uma
agenda de Esquerda, e a insatisfação popular com o governo é representada
de forma semelhante, sob influência da mídia e com o pretexto da luta contra a
corrupção e de se restabelecer a “ordem e progresso” e a moralidade pública.
A partir dessa dissimulação, surgem no contexto nacional figuras com a
pretensão de representarem o “governo de salvação nacional”, que no período
da ditadura eram representadas pelos militares.

O anticomunismo daquele período assume novos contornos em 2016. A


ameaça comunista na década de 1960, utilizada pelos setores militares e da
imprensa, é equiparada ao antipetismo atualmente. Ademais, as manifestações
populares favoráveis ao Impeachment revelaram com clareza a associação
feita ao comunismo como um movimento maléfico a toda a sociedade, além de
mostrar a insatisfação das classes sociais mais elevadas com políticas sociais
implementadas pelo governo petista ao logo dos 13 anos em que esteve
governando. “O anticomunismo brasileiro em 1964 logrou sucesso pela
atuação da opinião pública. Podemos dizer o mesmo do antipetismo em 2016”.

Como tentativa de justificar o golpe, os envolvidos afirmam que é um


discurso falacioso, uma vez que todo o rito democrático foi seguido. Porém, o
novo grupo que toma o poder aplica contrarreformas de forma autoritária em
vários setores da sociedade, indo de encontro às propostas do governo
democraticamente eleito, e que dificilmente seriam aprovadas nas eleições
diretas. Reformas como a Trabalhista, a da previdência, o teto dos gastos
públicos, entre outras, restringem e até excluem direitos sociais conquistados
ao longo da história, beneficiando as elites em detrimento dos trabalhadores.
Segundo o professor e político Ciro Gomes “O impeachment é o último recurso
aplicado pela Constituição contra um mandato democraticamente eleito. Não
foi apresentado nenhum crime de responsabilidade dolosamente cometido pela
presidenta, uma vez que as chamadas pedaladas fiscais não passam de
manobras fiscais que, por mais que sejam uma anomalia, não estão previstas
na Constituição como passíveis de crime de responsabilidade. O que se
formou, então, para a garantia da aprovação do impeachment e, portanto, do
golpe, foi um consenso entre Eduardo Cunha com o vice-presidente Michel
Temer e com todo o status quo do PMDB, do PSDB e de outros partidos que
viram no golpe a chance de se livrarem de acusações e assaltarem o poder a
fim de desenvolver seus interesses próprios, mesmo que estes tenham sido
derrotados nas urnas”.

Por fim, mas não menos importante, destaca-se o movimento da Escola


Sem Partido, projeto que ganhou maior destaque a partir de 2015, como um
projeto de lei na Câmara dos Deputados. À época do governo Costa e Silva, foi
editado um decreto, conhecido como AI-5 da educação, em que definia
“infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou
empregados de estabelecimentos de ensino público ou particulares”, pela
prática de condutas consideradas subversivas e contrárias ao regime. O projeto
que tramita na Câmara guarda semelhanças com esse decreto, uma vez que
também é uma forma de controlar o que se ensina nas escolas e de tolher a
liberdade de pensamento do professor, visto, na perspectiva dessa proposta,
como subversivo, repetindo o discurso da ditadura militar. Há que se lembrar
de que a Constituição Federal de 1988 consagrou em seus princípios
fundamentais o pluralismo político e de ideias, sendo, portanto, inconcebível o
cerceamento dessa liberdade fundamental.

CONCLUSÃO

Aufere-se, portanto, a partir do breve exposto acima, que é


completamente infundado enaltecer aspectos favoráveis do período ditatorial
brasileiro, cuja egoísmo cruel e tirânico trouxe benesses à aristocracia daquele
período em detrimento ao seio popular. Deve-se olhar pra frente e buscar uma
política que, acima de tudo, busque representar fielmente os anseios comuns
da sociedade democraticamente, tornando-a mais igualitária, suprida de suas
necessidades básicas, e com a ideologia de um progresso justo.
Referências

DANIEL, Paulo. Economia. A Economia na ditadura. Carta Capital, mar.


2012. Disponível em <https://www.cartacapital.com.br/economia/a-economia-
na-ditadura>. Acesso em: 14 abr. 2018.

SANZ, Beatriz; MEDONÇA, Heloísa. Ditadura Militar Brasileira. O lado


obscuro do “milagre econômico” da ditadura: o boom da desigualdade. El
País, Nov. 2017. Disponível em
<https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/29/economia/
1506721812_344807.html>. Acesso em: 14 abr. 2018.

ALECRIM, Edinei Messias. O SERVIÇO SOCIAL NO CONTEXTO DA


DITADURA MILITAR NO BRASIL. Disponível em:
http://www.ebah.com.br/content/ABAAAfnB0AD/servico-social-no-contexto-
ditadura-militar-no-brasil>. Acesso em: 14 abr. 2018.

10% da população concentrava 43,3% da renda do país em 2017, diz IBGE.


UOL. Disponível em:
<https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2018/04/11/concentracao-renda-
ibge.htm>. Acesso em: 14 abr. 2018.

Manifestações Culturais. Globo Educação. Disponível em:


<http://educacao.globo.com/historia/assunto/ditadura-militar/manifestacoes-
culturais.html>. Acesso em: 15 abr. 2018.