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PSICOLOGIA ARGUMENTO ARTIGO

doi: 10.7213/psicol.argum.32.s01.AO11  ISSN 0103-7013


71 Psicol. Argum., Curitiba, v. 32, n. 79, p. 71-83, Supl 1., 2014

[T]

Construções freudianas acerca do sadismo e do masoquismo:


uma ruptura com a tradição médica
[I]
Freudian constructions about sadism and masochism: a rupture with the medical tradition
[A]
Camila Taiara Perachi , Letícia Royer , Tamara Havana dos Reis Pasqualatto , Michaella Carla Laurindo[d]
[a] [b] [c]

[R]

Resumo
[a]
Graduação em Psicologia pela
Pontifícia Universidade Católica
As práticas perversas sempre foram consideradas pela sociedade como desviantes e até cri-
do Paraná, Toledo, PR – Brasil, minosas. Muitos autores criaram obras relevantes a respeito, como Krafft-Ebing, que define os
e-mail: perversos como “filhos ilegítimos da natureza”, doentes que necessitavam de tratamento. No
camila.perachi@gmail.com
entanto, Sigmund Freud vem romper com a tradição médica e lançar um novo olhar sobre este
[b]
Graduação em Psicologia pela
fenômeno. Neste sentido, o presente artigo de revisão bibliográfica veicula o proposto tema
Pontifícia Universidade Católica – perversão sádica e masoquista no entendimento freudiano – no intuito de mostrar as con-
do Paraná, Toledo, PR – Brasil, tribuições da psicanálise e como Freud foi modificando no decorrer da prática sua teoria. Ao
e-mail: leka_royer@hotmail.com
discorrer sobre o tema, identificamos três momentos significativos na construção da teoria das
[c] pulsões, relativo à perversão. Assim, pode-se mostrar que aquilo que os homens horrorizam
Graduação em Psicologia pela
Pontifícia Universidade Católica nos perversos, na verdade, faz parte de cada um, em maior ou menor grau. A fim de ilustrar
do Paraná, draduação em Filosofia sadismo e masoquismo, foram utilizados excertos das obras de Sade e Sacher-Masoch.[#]
pela Universidade Estadual do
Oeste do Paraná e mestranda
[#][#]
[P]
em Filosofia pela Universidade
Estadual do Oeste do Paraná,
Palavras-chave: Freud. Perversão. Sadismo. Masoquismo.
Toledo, PR – Brasil, e-mail:
tamarapasqualatto@hotmail.com [R]

[d]
Abstract
Especialista em Psicanálise pela
Universidade de Marília, mestre The perverse practices always were considered by society as deviants and even criminals. Many
em Filosofia pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná, authors created relevant works about it, such as Krafft-Ebing, who defines the perverse people as
docente do curso de Psicologia e “stepchildren of nature”. However, Sigmund Freud comes to break up with the medical tradition
coordenadora da Pós Graduação
and to set up a new way of looking at this phenomenon. In this sense, this article of bibliographic
em Psicanálise Clínica – de Freud
a Lacan, Pontifícia Universidade revision conveys the proposed theme – sadism and masochism in perversion – with the intention
Católica do Paraná, Toledo, PR – of showing the contributions of psychoanalysis and the way that Freud had modified, through his
Brasil, e-mail:
practice, the theory about this theme. It was found that there are three significant moments in
michaella.laurindo@pucpr.br
the construction of the instinct theory, concerned to perversion. It was shown that those things
that horrify men about perverse people, in fact, are parts of each man, in higher or lower degree.
Recebido: 06/12/2012 Aiming to illustrate the sadism and the masochism, it had been used excerpts of productions of
Received: 12/06/2012
Sade and Sacher-Masoch.
Aprovado: 30/07/2013 [K]

Approved: 07/30/2013 Keywords: Freud. Perversion. Sadism. Masochism.[#]

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72 Perachi C. T., Royer, L., Pasqualatto T. H. R., & Laurindo M.C.

Introdução Contextualização histórica, social e psiquiátrica da


noção de perversão com ênfase no sadismo e no
A literatura a respeito da perversão evidencia masoquismo
que há uma ruptura entre o discurso psiquiátri-
co e o psicanalítico, justamente no que se refere Antes do século XIX, a sexualidade humana es-
à compreensão do fenômeno perverso. A psiquia- tava sob o julgo da lei e daqueles que respondiam
tria lida com tal fenômeno como se fosse uma do- por ela. Dessa forma, determinadas práticas sexuais
ença, passível de ser tratada e até mesmo curada. como fetichismo, felação, flagelação e masturbação
Freud, por sua vez, percebe nele um traço carac- eram condenadas legalmente. A perversão é um
terístico do ser humano, afirmando que a agres- termo muito antigo, que tem sua origem na teolo-
sividade é inerente ao mal e, portanto, não pode gia moral cristã e significa “inversão do suposto na-
ser curada ou exterminada. A constatação dessa tural, ou seja, refere-se a todas as formas de pecar
divergência impõe uma questão: quais são os as- quanto ao sexo” (FLEIG, 2008, p.16).
pectos da teoria freudiana que permitiram sua Com o advento do referido século, muitas mu-
compreensão ímpar do humano e principalmente danças aconteceram, inclusive na forma de compre-
da perversão? ender e tratar a sexualidade. No entanto, o termo
O intuito de evidenciar a supracitada ruptura com conotação moral e cristã, “perversão”, per-
exige uma breve reconstrução histórica da questão, maneceu. Com a mudança no código penal francês
bem como uma atualização sobre o discurso psi- – que por sua vez influencia todos os países euro-
quiátrico a partir do DSM – IV. Só então é possível peus – as práticas sexuais são laicizadas. A única
passar à teoria freudiana acerca das perversões – condição é que pratiquem sua sexualidade fora do
especificamente sádica e masoquista – que foi aqui alcance dos olhos da sociedade, ou seja, que não se
dividida em três momentos, de acordo com a evolu- exponham, de modo a não ferir a moral pública, e
ção da teoria das pulsões. Cada momento diz respei- que essa prática seja realizada entre adultos com o
to a um período, que contém pelo menos um texto assentimento de ambos. À lei cabe, portanto, pro-
principal sobre a dinâmica pulsional. O primeiro teção aos menores, punir os escândalos e condenar
abrange os anos de 1905 a 1914; o segundo 1915 a abusos e violências contra parceiros não consentâ-
1919; e o terceiro 1920 a 1939. neos. Desse modo, práticas sexuais outrora julgadas
A ênfase no sadismo e no masoquismo se justi- perversas, não são mais passíveis de condenação.
fica pela sua importância literária – desde Krafft- Agora a sexualidade considerada desviante está a
Ebing, foram consideradas perversões cardeais – e cargo da ciência médica (ROUDINESCO, 2008).
teórica: Freud deu específica atenção a elas, afir- Como as práticas sexuais não foram mais julga-
mando que “o sadismo e o masoquismo ocupam das legalmente, foi necessário criar uma distinção
entre as perversões um lugar especial, já que o con- entre o bom perverso e o mau perverso. Entre aque-
traste entre atividade e passividade que jaz em sua les passíveis de serem tratados e curados, capazes
base pertence às características universais da vida de se reintegrar à sociedade, e aqueles considera-
sexual” (FREUD, 1905, p.150). dos provenientes de uma “classe perigosa”. Estes úl-
Apesar de a teoria freudiana constituir um timos, portanto, deveriam ser afastados do convívio
contraponto com o pensamento psiquiátrico e social (ROUDINESCO, 2008).
lançar luz sobre quão exclusivamente humano é Neste contexto, a palavra “perversão”, incorpo-
o fenômeno perverso, as consequências de suas rada pela psiquiatria, toma sentido geral. Torna-se
descobertas ainda estão reduzidas a consultórios o nome genérico de todas as anomalias sexuais e
psicanalíticos, não ressoando em outras áreas. É tem seu primeiro uso médico em 1842, no Oxford
possível perceber que a perversão ainda é vista English Dictionary. Na França, a palavra é inaugura-
como um fenômeno sombrio, marginal, execrável da em 1849, com o psiquiatra Claude-Franadsçois
e patológico. A ausência de estudos atuais sobre a Michéa e é incorporada a todas as línguas euro-
perversão sugere que ela ainda constitui um desa- peias (ROUDINESCO, 2008). Outros grandes nomes
fio para os homens, e por isso é um convite a ser da psiquiatria, responsáveis por criar obras rele-
pensada. vantes sobre as perversões, são Heirinch Kaan e
Krafft-Ebing.

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A partir desse momento no discurso da medicina ideias e conceitos do psiquiatra alemão, por sua vez,
psiquiátrica do século XIX, é considerado perverso serviram de fundamento às classificações das per-
e, consequentemente, patológico, versões sexuais bem como influenciariam as noções
psicanalíticas sobre perversão.
aquele que escolhe como objeto o mesmo que ele A obra de Richard Von Krafft-Ebing constitui a
(homossexual), ou ainda a parte ou o desejo de um síntese mais rigorosa de todas as correntes da se-
corpo que remete ao seu próprio (o fetichista, o xologia e nela define os perversos como “filhos ile-
coprófilo). (...) aqueles que possuem ou penetram gítimos da natureza” (KRAFFT-EBING, 1965, p.9).
por efração o corpo do outro sem seu consenti- Para ele, os perversos eram mentalmente doentes,
mento (estuprador, o pedófilo), os que destroem tinham a vida sexual invertida e isso representava a
ou devoram ritualmente seus corpos ou o dos vitória da animalidade sobre a civilização. Todavia,
outros (o sádico, o masoquista, o antropófago, o acreditava que a ciência poderia um dia curar esses
autófago, o necrófago, o necrófilo, o escarificador, “desafortunados”. O psiquiatra alemão divide o que
o autor de mutilações), os que travestem seus cor- chamou de “anomalias do instinto sexual” em qua-
pos ou sua identidade (o travesti), os que exibem tro classes: anestesia do instinto sexual, hipereste-
ou apreendem o corpo como objeto de prazer (o sia do instinto sexual, paradoxia do instinto sexual
exibicionista, o voyeurista, o narcísico, o adepto e, por fim, parestesia do instinto sexual.
do autoerotismo). É perverso, enfim, aquele que Desta forma, em parte de sua obra, realiza a des-
desafia a barreira das espécies (o zoófilo) nega crição e a categorização exaustiva das perversões
as leis da filiação e da consanguinidade (o inces- sexuais, por ele denominadas “parestesias do ins-
tuoso) ou ainda contraria a lei da conservação da tinto sexual”, grupo no qual se encontram o sadismo
espécie (o onanista) (ROUDINESCO, 2008, p.82). e o masoquismo, que foram por ele consideradas as
perversões cardeais. Segundo Krafft-Ebing (1965,
A função dessa nova classificação, bem como da p. 53), “Com a oportunidade de satisfazer natural-
criação de novas terminologias para designar as mente o instinto sexual, cada expressão deste que
perversões, é dar um “fundamento antropológico” não corresponda ao propósito da natureza – propa-
ao sexo e ao crime sexual, que permita distinguir a gação – deve ser entendida como perversa”. Ainda
sexualidade dita normal da patológica. Para isso, a divide as parestesias em: sadismo, masoquismo, fe-
semiologia e a taxonomia, a serviço do desejo da eli- tichismo e sexualidade antipática (homossexualida-
te dominante da época, identificavam, rastreavam, de). Diante da importância dos dois primeiros para
mensuravam e controlavam todas as práticas sexu- este estudo, exclusiva ênfase será dada neles e afir-
ais. Mas mesmo os estudiosos, pioneiros da sexolo- ma que o sadismo seria uma associação de cruelda-
gia, tinham dificuldade em chegar a um consenso de e violência ativa com luxúria:
sobre os fundamentos, sobre as causas da perver-
são. Alguns acreditavam que era um fenômeno na- É a experiência de sensações sexuais prazerosas
tural no reino animal. Outros, ao contrário, pensa- (incluindo o orgasmo) produzidas por atos de
vam que as perversões eram adquiridas e exclusivas crueldade, punição corporal infligida a si mesmo
da espécie humana. Havia aqueles, ainda, que sus- ou testemunhada por outros, sejam eles animais
tentavam que era resultado de uma patologia here- ou seres humanos. Pode também consistir de um
ditária transmitida na infância por má educação. desejo inato de humilhar, machucar, ferir ou até
Em 1844, em Leipzig, é publicada a primeira mesmo destruir outros a fim de criar prazer sexual
obra que trata especificamente das psicopatologias para si mesmo (KRAFFT-EBING, 1965, p.53).
sexuais: Psychopathia Sexualis, do psiquiatra russo
Kaan. Quem ressalta a importância dessa obra como O autor ainda percebe que este fenômeno é mais
precursora da noção de perversão é Michel Foucault comum em homens devido à posição ativa que o su-
(2001), em Os anormais. Pelo fato de o estudo de jeito assume, em oposição à posição passiva, repre-
Kaan ter sido publicado em latim e nunca traduzido, sentada pela mulher. O que acontece nos sádicos é
Foucault é a porta de acesso a ela. Em 1886, Krafft- que as forças inibitórias que deveriam emergir e im-
Ebing publica sua Psychopathia Sexualis. Ambos au- pedir um ato de violência extremo e impulsivo são
tores nomeiam suas obras com o mesmo título. As muito fracas (KRAFFT-EBING, 1965).

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Em oposição ao sadista, encontra-se o masoquis- poucas coisas se modificaram. A psiquiatria con-


ta, que é aquele que sente prazer em ser violentado, temporânea, quanto às classificações e compre-
humilhado, em sofrer e sentir dor provocada a ele ensão da perversão, e mais especificamente na
por outra pessoa. O psiquiatra define: compreensão do sadismo e do masoquismo, não
representa grandes avanços em relação à obra de
por masoquismo eu entendo a perversão peculiar 1886. Atualmente, as classificações e descrições
da vida sexual psíquica na qual o individuo afeta- de todos os transtornos mentais são feitas pela
do em sentimento e pensamento sexual, é contro- Associação Americana de Psiquiatria (APA), pu-
lado pela ideia de ser completamente e incondi- blicada no chamado Manual de diagnósticos e es-
cionalmente sujeito à vontade de uma pessoa do tatísticas das perturbações mentais (DSM1), que se
sexo oposto; de ser tratado por esta pessoa como encontra em sua quarta edição.
que por um mestre, humilhado e abusado. Esta As perversões, segundo o Manual diagnóstico e
ideia é reforçada pelo sentimento de luxúria; o estatístico de transtornos mentais – DSM-IV (2002)
masoquista vive em fantasias, nas quais cria situa- são agrupadas sob a denominação de parafilias. São
ções deste tipo e frequentemente tenta realizá-las caracterizadas por anseios, fantasias ou compor-
(...) (KRAFFT-EBING, 1965, p. 86). tamentos sexuais recorrentes e intensos que en-
volvem objetos, atividades ou situações incomuns,
Além das descrições e categorização das perver- objetos não humanos, sofrimento ou humilhação,
sões, ao psiquiatra é atribuído os créditos pela cria- próprios ou do parceiro, crianças ou outras pessoas
ção do neologismo “masoquismo”. Ele o cria basea- sem o seu consentimento.
do na obra de Sacher-Masoch, pois afirma que este Do sadismo sexual, o DSM – IV (2002), afirma
frequentemente fazia desta perversão a base de que consiste na imaginação parafílica posta em
suas obras. Para Krafft-Ebing, Masoch não apenas ação com um parceiro não consentâneo, causan-
descrevia essa perversão, mas sofria dela: era um do-lhe dano. Já o masoquismo é compreendido
masoquista, e, ainda, era um exemplo da influência como ferimentos autoinfligidos sob influencia da
exercida pela vida sexual sobre a formação e dire- imaginação parafílica. Os dois têm em comum o
cionamento da mente do homem. fato de que os relacionamentos sociais e sexuais
Há na obra vários casos de pacientes que sen- podem ser prejudicados caso terceiros conside-
tiam prazer e só conseguiam uma ereção quando rem esse comportamento sexual incomum, ver-
eram maltratados, torturados ou espancados. A gonhoso ou repugnante ou se o parceiro sexual
maioria dos pacientes masoquistas relata possuir do indivíduo recusar-se a cooperar com essas
tal desejo desde a infância, ainda que na época não preferências.
pudessem reconhecer seu cunho sexual. Acredita O DSM – IV aponta que alguns comportamentos
que, tanto o sadismo quando o masoquismo são ou fantasias associadas com essas parafilias podem
patologias congênitas, oriundas de uma má heredi- iniciar na infância ou nos primeiros anos da ado-
tariedade. Considera que essas duas manifestações lescência, mas se intensificam na adolescência ou
sexuais formam um par perfeito, pois, enquanto no idade adulta. O diagnóstico é dado apenas quando
sadismo há um desejo de infligir dor e fazer uso da os sintomas permanecerem por seis meses ou mais,
violência, no masoquismo há um desejo de sofrer e devido ao fato de que só fantasiar de vez em quando
ser sujeitado à violência. Sendo assim, todos os atos ou apresentar comportamentos sexuais incomuns
e situações utilizados pelo sadista no papel ativo não faz de ninguém um parafilico.
tornam-se objeto de desejo do masoquista no papel Como se pode perceber, as únicas diferenças en-
passivo. Assegura ainda que o indivíduo sádico ou tre Psychopathia Sexualis, de 1886 e o DSM – IV, de
masoquista também possa ser um “invertido” se- 2002, são as nomenclaturas utilizadas e a ausência
xualmente, ou seja, homossexual (KRAFFT-EBING, de julgamento moral neste último, que é escrito de
1965). forma imparcial e impessoal.
Esse autor foi um grande expoente des-
sa temática, no entanto, desde a publicação de
Psychopathia Sexualis, que certamente influenciou 1 Sigla do inglês Diagnostic and Statistical Manual of Mental
as concepções e pesquisas sobre esse assunto, Disorders.

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Sadismo e Masoquismo na teoria freudiana No entanto, a pulsão é um conceito que evolui com
a teoria e a prática psicanalítica, por isso segue os
No século XIX, a psicanálise estruturou-se como diferentes momentos da teoria da pulsão em Freud.
uma forma distinta de compreender o psiquismo
humano. Com a sua metapsicologia2, Freud rompeu
com a tradição médica, com paradigmas e precon- O primeiro momento da teoria das pulsões
ceitos acerca da sexualidade humana – que ele fez (1905-1914)
questão de enfatizar: é uma psicossexualidade, ou
seja, ultrapassa o fisiológico e tem suas raízes e re- Com sua primeira tópica formulada, Freud colo-
lações com o psiquismo. A partir desse entendimen- ca em movimento os conceitos de consciente, pré-
to, a perversão então pôde ser vista como um fenô- -consciente e inconsciente e dedica-se demasiada-
meno psíquico e não puramente sexual orgânico. mente às neuroses, principalmente as histéricas,
Aquilo que na perversão constitui objeto de horror, dispensando pouca ou nenhuma atenção às perver-
Freud diz que, na verdade, faz parte de cada homem, sões. Valas (1990) esclarece que no começo de sua
em maior ou menor grau. teoria, o médico austríaco atribuía a perversão à
Como o recorte dessa pesquisa sobre a teoria bestialidade humana, inferindo sobre ela julgamen-
freudiana das perversões é o sadismo e o masoquis- to moral, inclusive localizando a essência das per-
mo, é necessário esclarecer alguns conceitos tais versões nas mulheres, cujos instintos sexuais não
como o de inconsciente, Édipo e também os diferen- teriam sido civilizados suficientemente. Sabendo
tes momentos da elaboração da teoria das pulsões. que Freud foi leitor de Krafft-Ebing, percebemos es-
Percebendo aspectos não conscientes do psiquismo treitas ligações entre essas concepções imaturas do
humano, Freud investiga as relações de fenômenos psicanalista (que vão sendo retificadas a partir de
orgânicos com possíveis causas e desdobramentos 1905) com aquelas do médico alemão.
psíquicos. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade,
O inconsciente – considerado a maior e mais Freud (1905/1996c, v.7) dedica-se ao estudo das
original descoberta freudiana – pode ser entendido aberrações sexuais, da sexualidade infantil e das
como uma cadeia de conteúdos latentes: transformações da puberdade. No primeiro ensaio,
ele situa as perversões no campo das aberrações
O que Freud denominou “inconsciente” apresen- sexuais, considerando-as um desvio em relação ao
tou-se, desde o inicio – desde A interpretação alvo sexual (união dos genitais no coito), porém
dos sonhos –, como uma série de pensamentos também aproxima a sexualidade neurótica da per-
(Gedanken). Uma trama de ideias em estado de versa: “mesmo no processo sexual mais normal
latência, pendentes, sob a fachada do sonho com reconhecem-se os rudimentos daquilo que, se de-
a aparência de um conjunto esparso e contraditó- senvolvido, levaria às aberrações descritas como
rio. Entretanto, e contrariamente as aparências, perversões” (1905/1996c, v.7, p.141). Para o psica-
essa trama que a livre associação revela no curso nalista, as relações com o objeto sexual que antece-
da análise é a expressão material de uma cadeia dem o coito, tal como apalpá-lo, contemplá-lo, bei-
(GODINO-CABAS, 2010, p.32). já-lo, são fatores presentes na “vida sexual normal”
que se desenvolvidos, levaria à perversão. Assim,
Por pressupor uma dissociação da consciência e Freud (1905/1996c, v.7, p.142) conceitua: “as per-
perceber relações entre sintomas fisiológicos e con- versões são ou (a) transgressões anatômicas quan-
teúdos psíquicos, foi necessário encontrar um elo en- to às regiões do corpo destinadas à união sexual, ou
tre esses fenômenos, por isso Freud (1915/1996b, (b) demoras nas relações intermediárias com o ob-
v. 14, p. 127) elaborou a ideia de pulsão: “um concei- jeto sexual que normalmente seriam atravessadas
to situado na fronteira entre o mental e o somático”. com rapidez a caminho do alvo sexual final”.
Essa definição pode ser ilustrada pelo caso 28 de
Krafft-Ebing, em que o alívio da tensão sexual se dá
2 Conceito utilizado por Freud pela primeira vez em por vias consideradas transgressivas:
[1898]1996a, na carta 84, para designar seu modelo psi-
cológico que vai além do estudo da consciência. Por volta de 1860, os habitantes de Leipzig foram

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aterrorizados por um homem que costumava ata-


Inicialmente, a satisfação pulsional de um
car moças jovens na rua, perfurando-as no braço
bebê é parcial, ou seja, ela se dá, por exemplo, ora
com uma adaga. Quando finalmente foi preso,
por meio da boca, ora por meio do ânus, e não in-
reconheceram nele um sádico, que ejaculava, no
tegrada em todo o corpo. A agenciadora dos ob-
instante de apunhalar e para quem o ataque às
jetos que satisfazem as pulsões parciais é a mãe.
mulheres era um equivalente do coito (KRAFFT-
Quando ocorre o complexo de Édipo, há o início
-EBING, 2000, p. 36).
da integração das pulsões parciais, ainda com pri-
mazia da zona genital. Por isso, é a primeira vez
Todavia, algumas características perversas po- na vida em que a criança conhece um movimento
dem ser identificadas na infância, reforçando o pa- erótico de todo seu corpo em direção ao corpo do
ralelo entre neurose e perversão. No segundo en- outro, mas um outro especial: o genitor do sexo
saio, dedicado à sexualidade infantil, Freud afirma oposto. Isso configura o desejo incestuoso. A fi-
que é na criança que ocorrem as primeiras relações gura da lei que impede o impulso da criança de se
e manifestações da psicossexualidade. Com as inves- realizar é a função paterna. É o pai que impede o
tigações acerca da sexualidade infantil, conclui que filho de satisfazer seu desejo incestuoso, é o rival
a criança possui uma disposição perversa polimorfa que o ameaça.
em uma fase normal de sua constituição psíquica. Esse acontecimento é o que Freud identificou
como Complexo de Édipo, fazendo referência ao
É instrutivo que a criança, sob a influência da mito do Édipo Rei. Uma das questões do Complexo
sedução, possa tornar-se perversa polimorfa e de Édipo é o temor da castração, por conta da des-
ser induzida a todas as transgressões possíveis. coberta de que nem todas as criaturas do mundo
Isso mostra que traz em sua disposição a apti- possuem um falo. Falo é o representante do dese-
dão para elas; por isso sua execução encontra jo e sua imagem é o pênis. Não o órgão em si, mas
pouca resistência, já que, conforme a idade da sua imagem fantasiada, idealizada. Essas questões
criança, os diques anímicos contra os excessos são de tamanha importância, que irão encaminhar o
sexuais – a vergonha, o asco e a moral – ainda processo do Édipo e posteriormente sua dissolução
não foram erigidos ou estão em processo de e o investimento na vida social e escolar. O comple-
construção. (FREUD, 1905/1996c, v. 7, p. 180). xo de Édipo dará origem à neurose, à psicose ou à
perversão, e também à identificação sexual. O clichê
Por isso, pode-se dizer que um perverso não se mais tradicional do complexo de Édipo é o seguinte:
torna perverso, mas antes permanece perverso, ou o menino está apaixonado pela mãe e quer afastar
seja, sua libido permanece fixada na satisfação vol- o pai.
tada ao próprio corpo e não a um objeto externo. A relação da mãe com seu filho é que desperta
Com essas considerações, a perversão abandona o nele a pulsão sexual:
status de doença ou de um fenômeno abjeto, para O trato da criança com a pessoa que a assiste
ser elevada não só ao patamar de uma forma de é, para ela, uma fonte incessante de excitação
constituição do psiquismo, mas também uma etapa e satisfação sexuais vindas das zonas eróge-
dela, pela qual todos nós passamos. Dessa forma, nas, ainda mais que essa pessoa – usualmente,
tornar-se neurótico é passar pelo processo de recal- a mãe – contempla a criança com os sentimen-
camento. Com excelência, então, Freud conclui que tos derivados de sua própria vida sexual: ela a
“a neurose é, por assim dizer, o negativo da perver- acaricia, beija e embala, e é perfeitamente claro
são” (FREUD, 1905/1996c, v.7, p.157). que a trata como o substituto de um objeto se-
Com essa formulação, e com as relações estabe- xual plenamente legítimo. (...). Ela considera seu
lecidas entre a sexualidade neurótica e perversa, o procedimento como um amor “puro”, assexual, já
psicanalista concretiza sua ruptura com a tradição que evita cuidadosamente levar aos genitais da
psiquiátrica. Com a afirmação de que existem vestí- criança mais excitações do que as inevitáveis no
gios na constituição do psiquismo humano em que cuidado com o corpo. Mas a pulsão sexual, como
se podem observar traços de perversão, é necessá- bem sabemos, não é despertada apenas pela ex-
rio, portanto, elucidar esse processo, que por sua citação da zona genital; aquilo que chamamos
vez, culminará no complexo de Édipo. ternura um dia exercerá seus efeitos, infalivel-

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mente, também sobre as zonas genitais (FREUD,


Freud entendia que sadismo e masoquismo
1905/1996c, v. 7, p. 210-211).
são dois movimentos inseparáveis do ponto de
vista psíquico. Nos Três Ensaios sobre a Teoria da
Essa relação de ternura e afeto que é muito ex- Sexualidade de Freud (1905/1996c, v. 7, p. 150) ele
citante para o bebê, dá origem às pulsões sexuais. afirma que “o sadismo e o masoquismo ocupam en-
Como há pulsão em uma criança, com certeza, have- tre as perversões um lugar especial [mesma opinião
rá Édipo. Assim, nenhuma criança escapa ao Édipo de Krafft-Ebing], já que o contraste entre atividade e
porque ela não pode escapar das pulsões eróticas passividade que jaz em sua base pertence às carac-
que lhe afluem e porque nenhum adulto pode evi- terísticas universais da vida sexual”, e assinala em
tar ser alvo delas ou tentar bloqueá-las. A passagem nota que é com base na origem das pulsões que ele
pelo Édipo levará a um posicionamento subjetivo atribui ao par de opostos – sadismo-masoquismo
frente à castração, ou seja, frente à lei que impede – esse lugar, destacando-o da série das outras per-
seus desejos de serem realizados. versões. Na mesma obra, ele esclarece que a pulsão
O perverso desmente a possibilidade de cas- sexual está intimamente correlacionada à cruelda-
tração, nega que a mulher – mais precisamente, a de, atribuindo isso à agressão que está mesclada à
mãe – seja castrada, pois admitir isso seria correr o pulsão sexual e também ao fato de que “toda dor
risco de também ser castrado. Isso o leva a ter uma contém em si mesma a possibilidade de uma sen-
relação simbiótica com a mãe, não cabendo a inter- sação prazerosa” (FREUD, 1905/1996c, p. 151).
venção de um terceiro (pai, ou lei). Portanto, a mu- Acrescenta ainda que “a particularidade mais no-
lher para o perverso é uma mulher fálica. Seja por tável dessa perversão reside, porém, em que suas
identificação à mãe ou por se colocar no lugar de formas ativa e passiva costumam encontrar-se jun-
falo, o perverso assume uma posição de negação da tas numa mesma pessoa” (FREUD, 1905/1996c, p.
castração. 151). Então, todo sádico seria, simultaneamente,
Sadismo e masoquismo são duas formas de um masoquista, sendo que a atividade ou a passivi-
exercer a genitalidade dentro desta forma de cons- dade se desenvolveu em um determinado individuo
tituição; são destinos dados à pulsão para obter a com maior ou menor grau de intensidade.
satisfação, são manifestações que só encontram o Para Freud, a forma ativa – o sadismo – tem
prazer por outras vias – somente torturar ou ser sua origem facilmente explicada na sexualida-
torturado causa excitação sexual nestes indivíduos. de normal, que tem vestígios de agressão devido
Sacher-Masoch pode ilustrar isso: a uma condição biológica de vencer a resistência
A sensação de, como adorador de Wanda, ser do objeto sexual. A forma passiva – o masoquis-
maltratado por um rival de melhor sorte é in- mo – também poderia ser explicada por essa lógi-
descritível – eu definhava de vergonha e deses- ca, abrangendo todas as atitudes passivas frente à
pero. E de tudo isso o mais vergonhoso era que vida sexual e ao objeto sexual. Percebe-se aqui que
eu, em tal lamentável situação, sob o chicote de o psicanalista situa sua explicação em um cunho
Apolo e sob o riso cruel de minha Vênus, come- biológico e ontológico para as perversões, diferen-
çava a experimentar uma espécie de prazer fan- temente de Krafft-Ebing, que partia do pressupos-
tástico e ultrassensual, com Apolo a alijar da si- to da ocorrência de uma degeneração moral, como
tuação toda poesia, e, chibatada após chibatada, aponta Ferraz em seu prefácio à Venus das Peles,
na impotência de minha ira, eu só consegui ser- de Masoch (2008).
rar os dentes, em mim desvanecendo o voluptu- Dessa forma, Freud (1905/1996c, v. 7, p. 150)
oso desvario, a mulher e o amor (2008, p.155). entende que o masoquismo é um complemento ao
sadismo: “o masoquismo não é outra coisa senão
Em Sade (2006, p. 322) também se encontram uma continuação do sadismo que se volta contra a
exemplos: “ele lhe amarra ambas as pernas, até uma própria pessoa, que com isso assume, para come-
de suas mãos nas costas, deixa-lhe na outra mão um çar, o lugar de objeto sexual”. No referido texto, o
pequeno bastão para se defender, em seguida; ele autor aponta sua descrença frente à possibilidade
a ataca com duros golpes de espada, infligindo-lhe de existir um masoquismo primário: “em primeiro
várias feridas das carnes e vai esporrar sobre as lugar, pode-se por em dúvida se ele [o masoquis-
chagas”. mo] aparece alguma vez como fenômeno primário,

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78 Perachi C. T., Royer, L., Pasqualatto T. H. R., & Laurindo M.C.

ou seja, pelo contrário, surge regularmente do destinos: transformação no contrário (amor e ódio),
sadismo mediante uma transformação” (Freud, retorno contra a própria pessoa (obsessão ou ma-
1905/1996c, v. 7, p. 150). No entanto, em nota soquismo), o recalque e a sublimação. Diante da im-
acrescentada em 1924, ele retifica essa posição, portância dos dois primeiros destinos para o estudo
afirmando o reconhecimento de um masoquismo do sadismo e do masoquismo, eles serão estudados
primário (erógeno). exclusivamente.
Sobre a transformação de uma pulsão em seu
oposto original, Freud (1915/1996b) afirma que se
O segundo momento da teoria das pulsões transforma em dois processos diferentes: mudança
(1915-1919) de atividade para passividade e uma reversão de
seu conteúdo. A transformação da pulsão no seu
Com Pulsões e suas vicissitudes, Freud contrário afeta apenas as finalidades: a finalidade
(1915/1996b, v. 14) dá início a uma série de artigos ativa se torna passiva. É exemplo do primeiro pro-
sobre a metapsicologia com o intuito de definir con- cesso o par antitético sadismo-masoquismo, e do
ceitos fundamentais utilizados em sua teoria que segundo a transformação do amor em ódio.
até então permaneceram obscuros. A pulsão, como Freud (1915/1996b, p.133) faz um esquema de
citado anteriormente, é um dos conceitos mais im- três fases para melhor elucidar o retorno da pulsão
portantes de sua teoria e é nesta obra que ele a de- em direção ao ego no caso do masoquismo:
fine como sendo:
(a) O sadismo consiste no exercício de violência
um conceito situado na fronteira entre o mental ou poder sobre uma pessoa como objeto. (b) Esse
e o somático, como representante psíquico dos objeto é abandonado e substituído pelo eu do indi-
estímulos que se originam dentro do organismo víduo. Com o retorno em direção ao eu, efetua-se
e alcançam a mente, como uma medida da exi- também a mudança de uma finalidade pulsional
gência feita à mente no sentido de trabalhar em ativa para passiva. (c) Uma pessoa estranha é mais
consequência de sua ligação com o corpo. (Freud, uma vez procurada como objeto: essa pessoa, em
1915/1996b, v. 14, p. 127). consequência da alteração que ocorreu na finali-
dade pulsional, tem de assumir o papel de sujeito.
Um estímulo que provém de dentro do corpo e
atua no psiquismo – em 19153, as pulsões são divi- Aqui, a fase c corresponde ao masoquismo e a fase
didas em dois grupos: as pulsões do ego e as pulsões b corresponde à pulsão sádica na neurose obsessiva.
sexuais. São constituídas por quatro elementos, nas Assim, ele ainda não reconheceu a existência de um
palavras de Freud (1915/1996b, v. 14): pressão, masoquismo primário, uma vez que o masoquismo
objeto, fonte e finalidade. De todos os elementos da seria sempre derivado do sadismo. Nessa época,
pulsão, o único que se manifesta na vida psíquica é todo masoquista era, na origem, sádico: aconteceu
a finalidade (FREUD, 1915/1996b, v. 14, p. 127), ou que aquilo que era voltado para o exterior (causar
seja, a satisfação. dor) retornou para o ego do individuo (necessidade
O movimento pulsional pode ser descrito da se- de ser torturado, de sentir dor). Obviamente, “não é
guinte maneira: há uma excitação na fonte, no ór- a dor em si que é fruída, mas a excitação sexual con-
gão, de uma determinada força e por isso exige uma comitante” (FREUD, 1915/1996b, p.134). Então, no
ação. A pulsão elege um objeto. Uma ação deter- masoquismo, a pulsão sádica sofreria, ao mesmo
minada vai ao encontro desse objeto, que é o meio tempo, reversão ao seu oposto e retorno ao próprio
para atingir o fim do circuito pulsional, diminuindo eu. Freud comenta também que uma criança não
(nunca interrompendo) a excitação na fonte. Freud percebe sua tendência sádica, mas quando esta ten-
isolou essas metamorfoses pulsionais em quatro dência se transforma em masoquista, a dor causa
sensações concomitantes de prazer. A finalidade de
sentir dor pode facilmente transformar-se em cau-
3 Em 1920, com Além do Princípio do Prazer, Freud reformu- sar dor pela identificação masoquista do sujeito ao
la os conceitos de pulsões sexuais e pulsões do ego para objeto sofredor.
pulsões de vida e pulsões de morte.

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Construções freudianas acerca do sadismo e do masoquismo: uma ruptura com a tradição médica 79

No texto Uma criança é espancada, Freud como pulsões de vida, pois direcionam o sujeito à
(1919/1996d, v. 17) discute uma possível gêne- continuidade de si através da reprodução: “as pul-
se das perversões sexuais. Apresenta a fantasia de sões eróticas, que buscam combinar cada vez mais
espancamento que encontrou na análise de alguns substância viva em unidades cada vez maiores, e as
dos seus pacientes para ilustrar a polimorfia per- pulsões de morte, que se opõem a essa tendência e
versa encontrada na infância. A fantasia nas meni- levam o que está vivo de volta a um estado inorgâni-
nas parte de um posicionamento edipiano normal, co” (Freud, 1933/1996f, v. 22, p. 109)
enquanto que nos meninos, a fantasia parte de uma No segundo capitulo de Esboço de Psicanálise,
posição invertida em que os meninos tomam o pai Freud (1940/1996g, v. 23, p. 161) esclarece a fusão
como objeto de amor. Entretanto, é importante as- entre pulsão de vida e de morte, haja vista que as
sinalar que mesmo existindo diferenças entre o pulsões de preservação da espécie ou sexuais, tam-
menino e a menina, a fantasia de espancamento em bém estão ligadas à pulsão agressiva:
ambos remete à ideia de que ser espancado é ser
amado. Isso ratifica o modo como a psicanálise con- Decidimos presumir a existência de apenas duas
cebe a satisfação em ser dominado: trata-se de um pulsões básicas, Eros e a pulsão destrutiva. (O
corpo erogenizado e articulado às representações contraste entre as pulsões de autopreservação e
mentais inconscientes. a preservação da espécie, assim como o contraste
entre o amor do ego e o amor objetal, incide den-
tro de Eros) (Freud, 1940/1996g, v. 23, p. 161).
Terceiro momento da teoria das pulsões (1920 – 1940)
É observável no sadismo e no masoquismo que
Em 1920, Freud deu início a uma formulação de as pulsões de vida e de morte estão amalgamadas.
novos conceitos e mecanismos psíquicos ao ouvir Na obra do Marquês de Sade (2008, pp. 70-71),
na clínica relatos sobre fenômenos como o sadismo identificamos uma apologia aos prazeres do sexo,
e masoquismo. Essa escuta o levou a conceber que no entanto, uma aversão à reprodução: “observa
o homem não anseia apenas o próprio “bem”. Em este preceito, minha querida, pois, afirmo, tenho
Além do Princípio do Prazer (1920/1996e, v. 18), o um tal horror pela propagação que deixaria de ser
psicanalista desvenda o mecanismo de compulsão à tua amiga a partir do instante em que estivesses
repetição afirmando que no psiquismo há uma ten- grávida”.
dência a repetir que está para além do princípio do Freud (1923/1996h, v. 19, p. 59) afirma que “as
prazer. pulsões de morte são, por sua natureza, mudas, e
A título de ilustração, o autor cita os sonhos que que o clamor da vida procede, na maior parte, de
revivem momentos traumáticos, pois não há apa- Eros.” E acrescenta em nota de rodapé: “segundo
rentemente uma satisfação pulsional prazerosa em essa concepção, é mediante a intervenção de Eros
reviver uma situação dolorosa. Também observou que as pulsões destrutivas que são dirigidas para
a brincadeira que denominou de “fort-da”, em que o mundo externo foram desviadas do eu (self)”.
a criança joga um objeto para longe de sua visão e Também afirma que “Só a partir da ligação entre as
depois o recupera com intenso prazer, simulando a duas pulsões, amalgamadas, é que a pulsão de mor-
ausência e o retorno da mãe, entretanto, a ausência te se faz ver, a partir do momento em que direcio-
é simulada muito mais frequentemente do que o re- na a agressividade para o mundo externo”. Assim, é
torno, assim, também não haveria prazer em revi- constatável que, de alguma maneira, o princípio do
ver a ausência materna. prazer seria uma manifestação da pulsão de mor-
Nesse artigo, ele reformula os conceitos de pul- te, visto que o prazer seria a redução das tensões
são do ego (ou de autoconservação) e pulsão sexual, do organismo, ou ainda a inexistência de tensões,
visto haver pulsões ambíguas no ego e as pulsões levando a um estado praticamente inanimado, se-
sexuais também servirem à conservação do sujeito. melhante aos feitos da pulsão de morte.
Assim, as pulsões do ego são entendidas como pul- O conceito de pulsão de morte muda a compre-
sões de morte, uma vez que buscam levar o sujeito ensão do masoquismo, enunciada de maneira tími-
ao mesmo estado inicial inanimado das coisas: a da neste momento. Freud (1920/1996e, v. 18, p. 65)
morte, o inorgânico. As pulsões sexuais funcionam especula:

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80 Perachi C. T., Royer, L., Pasqualatto T. H. R., & Laurindo M.C.

consequentemente – por razões econômicas – ela


As observações clínicas nos conduziram, na- é substituída por uma atitude amorosa para a qual
quela ocasião Três Ensaios sobre a Teoria da existe mais probabilidade de satisfação, isto é, pos-
Sexualidade de Freud (1905/1996c, v. 7; gri- sibilidade de descarga.” (FREUD, 1923,1996h, v. 19,
fo nosso), à concepção de que o masoquismo, a p. 56).
pulsão componente complementar ao sadismo, Por fim, Freud se debruça sobre as relações de
deve ser encarado como um sadismo que se voltou dependência do Ego: de um lado, o Ego está sujei-
para o próprio ego do sujeito. Mas, em princípio, to aos desejos do Id; de outro lado, está submeti-
não existe diferença entre uma pulsão voltar-se do à lei autoritária do Superego, que muitas vezes
do objeto para o ego ou do ego para um objeto, é demonstrada através do sentimento de culpa. Na
que é o novo ponto que se acha em discussão perversão, o superego falha, e o temor é de uma au-
atualmente. O masoquismo, a volta da pulsão para toridade externa: a punição da lei civil, por exemplo,
o próprio ego do sujeito, constituiria, nesse caso, uma vez que o perverso leva a ato suas fantasias:
um retorno a uma fase anterior da história da
pulsão, uma regressão. A descrição anteriormente Eugenie – Pois bem, desculpo a Dolmancé, os seus
fornecida do masoquismo exige uma emenda por pormenores; mas tu, minha doce amiga? Diz-me,
ter sido ampla demais sob um aspecto: pode (gri- peço-te, o que fizeste de mais terrível em tua vida?
fo de Freud) haver um masoquismo primário, Madame – Fui enrabada por quinze homens; fui
possibilidade que naquela época contestei. fodida noventa vezes em vinte e quatro horas, e
Antes de considerar a pulsão de vida e de morte pela frente como por detrás (SADE, 2008, p. 58).
como apresentada acima, era plausível pensar no
masoquismo como unicamente derivado do sadis- Em 1924, Freud escreve O problema econômico
mo. Entretanto, a partir de então, Freud percebe que do masoquismo, um texto em que diferencia o ma-
pode haver um desejo de autodestruição primário, soquismo erógeno, o moral e o feminino. Também
inerente ao indivíduo, abrindo mão da necessidade neste artigo elabora a ideia que apresentou em Além
de a pulsão ser primariamente sádica, para então, do princípio do prazer, (1920/1996e, v. 18) da pos-
se voltar contra o próprio sujeito. sível existência de um masoquismo primário, não
O Ego e o Id (FREUD, 1923/1996h, v. 19) é um dos derivado do sadismo, corrigindo o que afirmara
últimos grandes textos teóricos de Freud, que pode ser nos Três Ensaios (1905/1996c, v. 7). O psicanalista
considerado uma continuação das ideias semeadas começa o artigo já dizendo da impossibilidade, do
em Além do princípio do prazer, de 1920. Nessa obra, ponto de vista econômico, de haver uma tendência
é enunciada claramente a segunda tópica freudiana: masoquista pulsional, uma vez que os processos
os conceitos de Id, Ego e Superego. Freud inicia sua mentais seriam governados pelo princípio do pra-
explanação retomando que existem partes do Ego que zer. Entretanto, observa que também existem ten-
são inconscientes, por isso a necessidade de uma nova sões prazerosas, como a excitação sexual, ainda que
divisão teórica da mente que vai além dos conceitos o princípio do prazer seja a tendência a evitar ou
de consciente, pré-consciente e inconsciente. Assim, diminuir qualquer tensão. Por isso, o autor diferen-
Freud (1923,1996h, v. 19, p.39) define: “o ego repre- cia o princípio de nirvana e o princípio de prazer,
senta o que pode ser chamado de razão e senso co- antes utilizados como sinônimos, em contraposição
mum, em contraste com o Id, que contém as paixões”. ao princípio da realidade: “O princípio de nirvana
Adiante, retoma as duas classes de pulsões – as expressa a tendência da pulsão de morte; o princí-
pulsões de vida e as pulsões de morte – valendo- pio de prazer representa as exigências da libido, e
-se do sadismo como exemplo, para ilustrar a am- a modificação do último princípio, o princípio de
biguidade presente na vida mental. Sugere que o realidade, representa a influência do mundo exter-
componente sádico da pulsão é uma união entre os no” (FREUD, 1924/1996i, v. 19, p. 178). Esses três
aspectos pulsionais de Eros e de morte. Já o sadis- princípios, embora por vezes conflitantes, toleram-
mo enquanto perversão seria uma separação entre -se. Entretanto, Freud enfatiza que é o princípio do
esses aspectos e uma predominância da pulsão de prazer que governa a vida mental.
morte sobre o componente da vida psicossexual: “a O autor retorna ao masoquismo, que pode ser
atitude hostil não tinha probabilidade de satisfação; observado em três formas: masoquismo erógeno,

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Construções freudianas acerca do sadismo e do masoquismo: uma ruptura com a tradição médica 81

masoquismo feminino e masoquismo moral. O ma- de Nero em corpo de Prina, não o posso conce-
soquismo erógeno tem traços biológicos e constitu- ber sem uma pele (SACHER-MASOCH, 2008, p.
cionais e seria o pano de fundo para os outros dois 61).
tipos. No masoquismo erógeno primário, parte da
pulsão de morte, que é destruidora, não pôde ser Assim, é possível verificar que tanto o sádico
desviada para o exterior (sadismo) e permaneceu quanto o masoquista possuem um objeto fetiche: a
presa, ou seja, a pulsão retornou ao próprio eu, com dor. Torturar ou ser torturado têm valor de fetiche
o auxilio da excitação sexual, demonstrando que para eles. Freud (1927/1996j, v. 21) elucida que o
ocorre uma fusão entre as duas classes de pulsão. O fetiche é um objeto eleito pelo perverso para subs-
masoquismo feminino possui fantasias de ser amor- tituir o falo. O objeto fetiche garante a satisfação,
daçado, espancado, amarrado, etc. Essas fantasias atesta que o gozo pleno é possível, uma vez que ele é
demonstram que o masoquista deseja ser tratado a encarnação do objeto que preenche a falta consti-
como uma criança travessa, mas também como uma tucional do Sujeito. Com este artigo de 1927 acerca
mulher (ser castrado, ser copulado, dar à luz). do fetichismo, pode-se entender como concluídas as
Freud escreve mais um artigo importante para a principais ideias freudianas sobre as perversões.
compreensão das perversões em 1927, no qual re-
flete sobre o fetichismo e conclui que o fetiche é um
substituto para o pênis feminino, em especial o da Considerações finais
mãe:
A necessidade de dizer o que é a perversão mo-
é como se a última impressão antes da estranha e tivou muitos autores a pesquisarem e teorizarem
traumática fosse retida como fetiche. Assim, o pé sobre ela. Como vimos, a psiquiatria foi uma das en-
ou o sapato devem sua preferência como fetiche – carregadas de estudar, classificar, e até mesmo de
ou parte dela – à circunstância de o menino inqui- curar a perversão, embora sem êxito. Roudinesco
sitivo espiar os órgãos genitais da mulher a partir (2008) reflete que não há nada mais perverso do
de baixo, das pernas para cima; peles e veludo – que aquela moral que visa domesticar as paixões
como por longo tempo se suspeitou – constituem humanas, sugerindo que o discurso que pretendia
uma fixação da visão dos pelos púbicos, que deve- exterminar a perversão não era menos perverso do
ria ter sido seguida pela ansiada visão do membro que ela.
feminino; peças de roupa interior, que tão frequen- Tanto a psiquiatria clássica quanto a contem-
temente são escolhidas como fetiche cristalizam o porânea parecem não apresentar grandes avanços
momento de se despir, o último momento em que na compreensão e entendimento do fenômeno.
a mulher ainda podia ser encarada como fálica Percebe-se que, em relação ao Psychopathia Sexualis
(FREUD, 1927/1996j, v. 21, p. 157-158). de Krafft-Ebing, o DSM – IV, apresentam poucas
evoluções nos esclarecimentos sobre o sadismo e
Podem-se tomar como exemplo as peles usadas masoquismo.
pela personagem Wanda, na obra A Vênus das Peles, Assim, ao percorrer o estudo do sadismo e do
de Masoch, que causavam verdadeira excitação em masoquismo, foi possível compreender que quem
Severin: “é dessa forma que eu esclareço também o reabilitou a presença da perversão – enquanto face
significado simbólico da pele como atributo do po- humana do mal incontornável4 – à civilização foi
der e da beleza” Sigmund Freud. Para ele, a agressividade não deve-
Mais adiante, o personagem Severin fala de seu ria ser exterminada, e nem poderia5.
peculiar desejo:

Eu já lhe disse diversas vezes que o sofrimento


4 O termo “mal” é compreendido por Freud como uma força
exerce em mim uma atração peculiar. Nada me
pulsional, por isso é incontornável.
é mais passível de intensificar a paixão do que a 5 “os homens não são criaturas gentis que desejam ser ama-
tirania, a crueldade, e sobretudo a infidelidade das (…), pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes
de uma bela mulher. E sobretudo essa mulher, instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de
esse ideal raro advindo da estética do feio, alma agressividade” (Freud, 1930/1996k, v. 21, p. 116)

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82 Perachi C. T., Royer, L., Pasqualatto T. H. R., & Laurindo M.C.

Assim sendo, a psicanálise parece ser o único Referências bibliográficas


discurso e corpo teórico-prático que superou a
American Psychiatric Association (2002). Manual
concepção de horror envolvida no tema, bem como
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 4.
as tentativas de cura e adestramento. Enfatiza que
ed. Porto Alegre: Artes Médicas.
características consideradas perversas são consti-
tuintes do ser humano, presente desde seu nasci- Fleig, M. (2008). O desejo do perverso. Porto Alegre: CMC.
mento até a morte, podendo-se dizer que um su-
Foucault, M. (2001). Os anormais: curso no Collège de
jeito não se torna perverso, mas antes permanece
France. São Paulo: Martins Fontes.
perverso, ou seja, há uma fixação na satisfação
autoerótica, que não se enlaça a um objeto exter- Freud, S. (1996a). Carta 84 (1898). In S. Freud. Edição
no como ocorre posteriormente nos indivíduos standard brasileira das obras psicológicas completas
neuróticos. de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
Com Freud, podemos compreender que a per-
Freud, S. (1996b). Os instintos e suas vicissitudes (1915).
versão é uma ocorrência exclusivamente humana.
In S. Freud. Edição standard brasileira das obras psi-
Pois o corpo, como explica a psicanálise, é material,
cológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
mas também pulsional, ou seja, estritamente rela-
Imago.
cionado com o psiquismo. Por isso, pode-se com-
preender a afirmação “ser espancado é ser amado”, Freud, S. (1996c). Três Ensaios sobre a Teoria da
afinal, o corpo agredido é marcado por uma eroge- Sexualidade (1905). In S. Freud. Edição standard bra-
nização e articulado às representações mentais in- sileira das obras psicológicas completas de Sigmund
conscientes, possibilitando a relação existente entre Freud. Rio de Janeiro: Imago.
prazer e dor.
Freud, S. (1996d). Uma criança é espancada (1919). In S.
Sadismo e masoquismo são exemplos da relação
Freud. Edição standard brasileira das obras psicológi-
entre prazer e dor. Freud compreendia, dentro da
cas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
dinâmica pulsional prevista em 1915, que o maso-
quismo só existia e relação ao sadismo, que ele era Freud, S. (1996e). Além do princípio do prazer (1920). In S.
um complemento a ele. Com o desenvolvimento de Freud. Edição standard brasileira das obras psicológicas
suas investigações, em 1920 ele retifica essa posi- completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
ção, por mudar a compreensão da dinâmica pul-
Freud, S. (1996f). Novas conferências introdutórias sobre
sional, podendo assim identificar um masoquismo
Psicanálise: Conferência XXXII (1933). In S. Freud.
primário, não derivado do sadismo.
Edição standard brasileira das obras psicológicas
Porém, como aponta Roudinesco (2008), pre-
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
dominantemente, a perversão foi sempre – e ainda
é – sinônimo de perversidade, ou seja, de maldade, Freud, S. (1996g). Esboço de Psicanálise (1940). In S.
apontanto para uma espécie de aniquilação, desu- FREUD. Edição standard brasileira das obras psicológi-
manização, ódio, destruição, domínio, crueldade e cas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
gozo.
Freud, S. (1996h). O ego e o Id (1923). In S. Freud. Edição
A utilização de excertos das obras de Sade e
standard brasileira das obras psicológicas completas
Masoch foi imprescindível para ilustrar este traba-
de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.
lho. Esses autores adornaram a presente pesquisa
com suas obras imponentes e provocantes, que fo- Freud, S. (1996i). O problema econômico do masoquismo
ram na contramão da sociedade da época em que fo- (1924). In S. Freud, Sigmund. Edição standard bra-
ram produzidas. Observa-se, no entanto, que essas sileira das obras psicológicas completas de Sigmund
obras não deixaram de pertencer ao campo do proi- Freud. Rio de Janeiro: Imago.
bido e do não moral, apesar de séculos transcorri-
Freud, S. (1996j). Fetichismo (1927). In S. Freud,
dos até a atualidade. Dessa forma, notam-se poucos
Sigmund. Edição standard brasileira das obras psico-
avanços quanto aos tabus que a civilização carrega
lógicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
a respeito da perversão.
Imago.

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Construções freudianas acerca do sadismo e do masoquismo: uma ruptura com a tradição médica 83

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