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URBANISMO E RELIGIOSIDADE NA IDADE MEDIA

,

E li a n a Ávi l a S i l vei r a -

Abstract

d evel op m e nt of ur ban soc i e t y of M iddl e Ages . l t ana li ses t h e m ode l s o f sp iritu a lit y

a nd lh e n ew f or m s of soc ial b e h av i o r in th e m ed i e v a l c i t i es .

- Th i s p ape r tries t o es t abl i s h a connect i o n be t wee n th e c h ris ti an it y a n d t h e

o proces so d e orden a m e n to d o m und o urbano n a s f o rm aç ões so-

c

ia is do Ocid e nt e medieval n o d eco rr er do s séculos XII e XIII promo-

v

e u profund as tran s forma ções n as es trutur as mater ia i s e m e nt a is da

so ci e d a de e ur o p é i a . T a i s tr a n s f or m ações s u g erem a po ssibilid a d e d e

s

e p e n s a r a d i n â mi ca hi s t ó ri ca d as re l ações e ntr e urba ni s m o e r e ligi o -

s

id a d e . ' Af in a l , o e spa ço urb a n o n a I da d e M é dia

c e ntrali zo u o s pr i n-

cip ais e quipam e nt os m a teri ais e si mb ó li cos do sa gr a d o, e ri g iu um mund o d e s e ntid os, que de fi ni a o s i ste m a d e mor a l i d a d es r e li g i osas e

o c o mp o rt a m e nt o soc i a l d a co l e t iv id a d e cr i stã:

m e ndic a nt e , a c o nfra ria , o p e dit ório, o a lb e r g u e , o c e m i t é ri o, a pr aça

d e p re g ação, a praça d e c o nd e n ação do Ju í zo d e D e u s , a pr aça d a R e -

d e n ção d o Cri s t o C ru c ificado; e n fi m , o es p aço urb a n o c o n s t i tuiu- se com o p a i sag e m e a mbient ação so ci a l f und a mental par a a pr o li fe r aç ã o

a i g rej a , o c o n ve nt o

* Professo r a n o D e p ar t a ment o

Ca t ó li ca d o

Ri o Gra nd e d o Sul, Porto Al e gr e , RS , Br as il .

O pr ese nt e ar ti go in s ere- s e em um pr o j e t o m a i s a mplo de investi gação ini c i a d o e m

199 7, qu e apres e nta como mar co fund a m e nt a l d e ab o rd a gem o e s tud o d os mod e l os

d e s o ciali zação e du c ati v a n a soc i e dad e u r b a n a d a B a ixa Idad e M é di a h i s p â ni ca .

d e Hi s t ór i a d a P o ntifí c i a Uni v ersid a d e

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Estudos I bero-Americanos, XXIV( 1)

- junho , 1 998

d as manifest ações coletiv as da espiritualid a de cristã. ' E m funç ã o d es-

s a per s pectiva an a l ítica, p a rtimo s dos pressupo s tos d e inv estiga ção assinalados por Dominiqu e Julia no estudo dos movimento s reli g i o - sos. Segu n do es t e enfoque de interpre t ação, deve-se consider a r qu e:

"A an á lise d a articulação entre as espiritualidades , as devoç õ e s e os grupo s considerado s nas relações recíprocas que ele s mant ê m , u n s com os outro s onde elas se desenvolvem permi t e traçar s obr e um e s -

]."3 Port a nto , a

pro p osta central de investigação desse tr a balho situa-se na interpret a - ção das novas formas de expressão da religiosidade medieval que , em conexão com o universo soci a l da cidade contribuíram deci s i va me nte

p a ra inscrever e re f orçar nos espaços urbanos emergentes um c o n -

paço social uma geografia dos entrelaça mentos [

jun t o de instituições , comportamentos e v a l ores espiritu a is destinad o s

ao a j ustam e nto d as práticas co t idi a nas d a pi edade cristã . Trat a -se d e

s ubl i nh ar d uas q u estões importantes que marcaram a const ituiç ã o d o s

movimentos rel i giosos e sociais da Crista n dade Ocidental . Assim , primeiramen te cab e exp l icitar os modelos d e espiritua l idade e de s e n -

sib il idade d esenvolvidos n o processo d e evange l ização e regenera çã o

d o c o m po rt amento socia l das c oletivi d ades urbanas. Em segundo d e-

marc ar os t raços f u n d a m enta i s que t ip if i caram os novos mod e los d e

re p rese n tação d a re l igiosidade franciscana e d ominicana nos proced i-

me n tos d e p regação apostó l ica . Desse modo , as relações estabe l ecid a s entre a espir i tua lid ade m endica n te com as c id ades mediev a is apont am para o am pl o s i g n if i cad o que as m ani f estações do sagrado imprimir am à nova organização dos espaços socia i s , físicos e mentais da socied a - de. Como ob s erva Jacque s Le Goff, o movimento mendicant e n ão escapou a uma rel ação estrita e dinâmica com as cidades m e d i e v a i s . Um dístico proverbial ilustrativo d a espac i alização física e e s pirit u al

2

Os e n fo ques a n a lític os centrad os no es tudo d as r e la ções e ntr e re li g iã o e est r utu r a

soc i a l ap r esent a m u ma plu r a l idade de corrent e s interpr e tativas . D a a n á l i s e soc i o l ó-

g

i ca c l ássica co n d u z i da p or Max Weber, aos estudos a nt r o p oló g icos d e Cli ff o r d

Geert z, t e m o s u m a var i edade de conc e itos

e apor t es m e todoló g icos vo lt a do s a o

estud o das mú l tiplas dimen sões qu e o fe n ô m e n o r e li g i o so co mp o rta . P a r a u m a

sínt ese des sa pr o bl e m á tic a,

ve r : Herm a nn , J ac qu e lin e . " Hi s t ó ri a d as r e l i g i õ es e r e -

l

i g i os id a d e s " .

ln : C a rd oso, C ir o F . & V a in fas , R o n a ld o . D o m í n io s d a h i s t ó r i a: e n -

sai os de teori a e met o d o lo g i a . Ri o d e Jan e iro : Ca mpus , 199 7, p. 329 - 352 .

3

J

ul i a

Do mini qu e . " Re l igião ". l n : LE GOFF , Jacques et a I . A nova hist ó ria . Coim -

Urb a ni smo e R e li g i os id a d e n a

Id a d e M é di a

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dos novos enquadramentos da cultura religiosa cristã pode ser obser- vado na segu i nte afirmação : Bernardo amava os vales, Bento as mon - tanhas, Francisco as povoaçõe s , Domingos as cidades populosas . O autor a o en fatizar o movimento acelerado de implantação das nov a s ordens religiosas na cristandade , sublinha a importância do processo de estabelecimento dos conventos mendicantes na organização e ca- racterização da rede urbana da Idade Média . De acordo com Le Goff :

" As ordens parecem assim ter quadriculado todo o espaço urbano

da cristandad e, a tal ponto que o mapa dos conventos mendicantes se confunde com o mapa urbano e que o critério mendicante pode sugerir como melhor meio de referenciar a rede urbana numa época em que o vocabulário urbano é muito incerto e as definições da cidade muito vagas.: " Contudo, nesse trabalho não pretendemos estabelecer um estudo dos equipamentos materiais (arquite t õnicos , artísticos e funcionais) presentes no mundo urbano e no delineamento espacial da religiosi- dad e crist ã . ' Antes t r ata - se de privilegiar, especificamente, o estudo das configurações espirituais expressas nos novos modelos da religio- sidade urbana desenvolvidos ao longo da sociedade medieval .

Movimentos sócio-religiosos da cristandade

O s séculos XII e XIII a s sinalam o crescimento de um processo

sign i ficativo de clivagem espiritual e institucional na história do cris-

tianismo Ocidental . As rupturas operadas no campo religioso, contu- do , não estão d i ssociada s dos deslocamentos efetuados nas bases

co n s t itut i v a s da e strutura social senhorial característica da sociedad e medieval . Contudo nas décadas iniciais do século XII , o cresc i mento

u

r b a no e o dinamismo das relações mercanti s demarcam alguma s

l tera ções importantes na pluralidade dos comportamentos citadinos e na estruturação da vida social . Como observa Jacque s Rossiaud: "A cidade é o centro do desenvolvimento de uma sociedade complexa ,

a

4

5

L e Go l f , Ja c qu es , "As . o rden s m e ndicant es". In: B E RLIOZ , Ja c que s. ( o r g .) Mon ges e r e l ig i os o s na Idad e M é di a . Li s b o a : T e rr a mar , 1994 , p. 22 7. V e r: D uby , G eo r ges ( o r g ) . H is tór ia a r tís ti ca da E uropa. A Id a d e M éd i a . São P aul o: P az e Te rr a , 1 9 9 7, p . 85.

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Estudos Ib e ro-A mer ican os, XXIV (1 ) - junh o, 1998

que se adapta ao sistema senhorial e à su a ideologia, mas que cria as

] o que há de comum entre o mendigo e o

burguês, entre o clérigo e a prostituta, todos citadinos." Sob esse aspecto, os diferentes tipos humanos circunscritos aos novo s espaço s urbanos, advindos em parte do processo de segmentaç ão sócio-

profissional em curso, delinearam formas distintas de convívio social

e de práticas religiosas diversificadas na paisagem citadina. Um as-

pecto peculiar dos novos valores sócio-religiosos da cultura crist ã

nessa sociedade multifacetada foi o desenvolvimento do modelo d e espiritualidade ativa. André Vauchez sublinha o caráter dinâmico do comportamento religioso do laicato no cenário social e cultural d a vida urbana da Cristandade Ocidental . Conforme salienta o autor , a alteração das aspirações espirituais do mundo dos leigos apresentou um significado especial numa sociedade marcada pela expansão do s novos códigos de sociabilidade urbana. Assim, para Vauchez: "Essa

aspiração difusa foi sentida mais vivamente nas cidades, onde o de s - envolvimento do artesanato e do comércio criara um meio leigo dinâ- mico e combativo."' Tal comportamento contrastava com os elementos tradicionais

norte adores das manifestações fundamentais da religiosidade

val configurada, particularmente, no universo das relações sociai s verticalizadas da sociedade senhorial . Assim, um rápido exame da s principais tendências da espiritualidade cristã possibilita a compreen- são das mudanças ocorridas na esfera das práticas religiosas perfil a- das, sobretudo, no processo dinâmico de desenvolvimento da socieda- de urbana .

suas próprias hierarquias [

medie-

O modelo de religiosidade do monaquismo ascético de tradiçã o

beneditina, mesmo em suas diferentes formas de renovação espiritu a l

- cluniacense e cisterciense - estava fundamentalmente embasado n a

idéia de isolamento penitencial e de afastamento das realidades impu- ras do universo mundano. " Portanto, o estado de purificação evangéli - ca almejado nas instituições conventuais ao longo da Idade M é di a , deu lugar a um tipo de experiência espiritual ascética e de recolhi -

(

, Rossiaud, Jacqu e s. " O citadino e a vida n a cid a d e " . In: Le G off , Ja c qu es Co r g.) O homem medi ev al . Lisboa : Editorial Presen ça , 19 8 9 , p. 61 .

7

Vauchez, André . A espiritualidad e na Idade M é dia Ocidental _ s éc ulo s Vllf a

X!JJ. Rio de Jan e iro: Zahar , 1995 , p. 107.

Urbanismo e R eligiosidade

na Idade Média

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mento frente aos males e tribulações da vida secular . O ideal mon á sti- co, cuja função religiosa específica insere-se num sistema de esp i ri- tualidade endógena foi marcado basicamente pela tentativ a de supera-

ç ão permanent e da condi ç ão terres tr e. O estilo d e v ida beneditino

colocando-s e como um a "es cola do s enhor " e m op os iç ã o "à e s col a

profan a"," voltou- s e para o de se n v ol v imento de posturas contemplati -

v as e de interiorização dos valore s espirituais. Como evidencia Jac-

ques Berlioz : " Ilha de paz num mundo hostil , o mosteir o é um refúgio para quem desej a ter uma relação absoluta com Deus " . \O A ê nfase num modelo de religiosidade as cética, ritu a lizada e hie-

r a rquizad a pelas n o rma s e s tritas d e comport a mento espiritual d a co-

munid a de mon ás t ic a (obedi ê ncia , ora ç ão , tr a b a lho e celibato) di f undiu nos meios religio so s da cri s tandade atitudes de rejeição perm a nente ao conjunto do s v alores temporai s e carnais presentes na sociedade. Desse modo, o mosteiro , local por e x celência de vivências espirituais

de isolamento e penitência correspondeu historicamente ao amplo movimento de ordenamento social e religios o de um meio b a sica- mente ruralizado e ligado às estruturas vertic a lizada s do sistem a feu-

dal " . Nesse cont ex to , premissas doutrinárias importantes do si s tema de valore s predominantes na soci e dade agrária e localista das primei- ras fases da Id a de Média, tiveram preferencialmente como marco referen c ial fundamental de vida e s piritual o modelo do ascetismo

c

on v ent ua l .

 

E

nt ret a nt o ao longo d os sé cul os X II e XIII , a cid a d e pa ssou a de-

s

emp e nh a r um p a pel catal isa d o r imp o rtante n a v ida so ci a l e espir i tu al

da cri s t a ndade. Um a da s c a racterís tica s centrai s da r e ligio s idad e d e sse período foi a fo r mação do movim e nto de retomada do ideal d e santifi- cação pela via a postólica . A influ ê ncia do modelo de vida apostólica concebid a, ent ã o , como expressão plena da idéia do Cristo pre s ente

no mundo , possibilitou uma altern a ti v a ao s i s tema d e e s piritu a lidad e

9

JA C QU E S , B erl i oz. Mo n ges e re li g io sos n a Idad e Média. Li s b oa: T e r ra m ar, 1994,

p

.6.

10

Id e m , p. 7.

11

S

o b re os di fere nt es tip os d e manif e sta ções d a r e li g i os idad e c rist ã n o f e u da li s m o,

c

a be r eg i s trar a es piritu a l i d a d e be li c i s t a e p e nit e n c i a l das C ru zadas. T a l es pi r itu a-

d e g u e rr a sa n ta, q ue acabou in-

co rp oran do um a a m p l a part i c i pação dos dist in tos segme nt os da n obreza ba r on i a l e

lid ade vo l ta d a ao mu ndo p e r f il o u o cr i stia ni s m o

d as m assas pop ul a r es. Ve r , a r espe i to, R ousset , P. Hi stória das Cruzadas. Ri o de

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Estudos Ibero-Americanos , XX I V( 1) - junh o , 1 998

reclusa dominante nos meios monásticos . O ideal apostólico consi s ti a basicamente num programa de purificação mais abrangente e si s t e - mát i co . Ele visava a renova ç ão de um quadro normativo de v i d a per- filado na imita ç ão das obras de Cristo e do s apó s tolos e, a ssim , impli- cava no e s tabelecimento de um gênero de vid a modelado nos prim ei - ros santos da tradição cristã . Ness e sentido, a s sist i u-s e a um mov i - mento crescente d e revitalização dos princípios evang é licos, que con - tribu i u considerav e lment e para o reord e namento do sistema de valores

. e s pirituais da crist a ndade . Tal persp e ct i va evid e nciava a idéia , muito difundida especialmente nas coletividades urbanas, de uma necessi- dad e imperiosa de renovação da religiosidade , um desejo de vivênc ia profund a dos valores e s piritu a is praticados e difundidos pelos apó s- tolos na Igrej a Primitiva . " O esforço empreendido pelas comunidades leigas incidiu , sobretudo, na constituição de movimentos espirituais destinados a revigorar e afirmar os pressupostos da ordem divina na totalidade do corpo social . Um do s procedimentos mais destacados do novo movimento de purificação da religiosidade na sociedade medie- val foi a difusão dos preceitos cristãos em suas formas de expressão radicalmente evangélicas . Essas aspirações faziam part e de uma ten- dência geral que, de um lado, incorporava as manifestações religiosas das comunidades leigas marcadas fortemente pelo sent i mento de revi- valismo evangélico e , de outro, compreendia também o propósito dos setores reform i stas do clero empenhados na morali z ação das institui - ções eclesiástic as . Toda v ia, o novo f e nômeno relig i oso exerceu uma influência signi f icativa na propagação de crises e dissensõ e s no inte - rior do sistema de cren ç as da espiritualidade crist ã. Os princ i pai s problemas delineados na crise esp i ritual da socied a - de medieval dos séculos XI e XII , concentr a vam-se em torno de al-

g u ma s questõ es fund a mentais , e spec i almente a s de natur ez a institu- ci onal e doutrinári a. De qualquer form a, tai s problemas não estavam

da moral ida-

de r e ligiosa. Nessa perspectiva, floresceram na cr is tandade focos exa- cerbados de ten s õ e s es p i ritua i s e de conflitos sociais sobr e os m a i s

d i f e r e nte s pr o bl e ma s qu e a fli g i a m a v id a interior e a meaçav a m as

pr á tic a s r e lig i o sa s do mu nd o l e igo e e c l es i ás tico . Dentr e o s probl e m as m a rcantes na es fera das concepçõe s r e ligio sas do p e ríodo podem ser

dissociados de solicitações mais exigentes nos domínios

1 2 Duby, Geo r ges (o r g. ) . Hi s t ória ar tís ti c a da E u r op a . A Id a d e M é di a . S ão P a ul o:

Paz e Te rr a , 1 997, p . 88.

Ur ban ismo e R e li g io s idade na I da d e Média

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s ituado s b as i cam e nt e o s seg uint es: as r e l ações con f liti vas e ntr e o po -

d e r e spiritu a l e o t e mpo ra l , o pr o bl e m a d a ritu a li zação excessiva d as

pr á tic a s litúrg icas con ve ntu a i s, a s crític as c o n s t a nt es

m e nto mat e ri a l d a s institui ções e c lesi ás tica s e o afa s t a m e nt o do c l e r o

se cul a r da s a ti v id a des do pro se litismo p as t o r a l .

ao e nr i qu ec i-

De sse m o d o, o mo v im e nt o es piritu a l d e r es taur ação d os prin c ípi os

a p os tólico s d o cri s ti a ni s m o

z iu no se i o d a c ri s tand a d e a pr o lif eração d e m ov im e n tos r e li giosos

n o d e corr e r d os sé cu los X I e X II , pr od u-

m

a r ca do s p o r co nc e p ções d o u tri n árias e po r fo rm as orga ni za t ivas

es

piri t u ais di fer e n c i a da s . D e m a n e ir a gera l , esses m ovi m e nt os est a -

va m ligad os a um proc esso d e indi v idu a li zação c r esce nt e d a ex p eriê n -

c ia religio sa qu e conferia u m papel n ovo e p e culia r ao d ese n volv i-

m e nto da con sc i ê ncia es piritual . Ta i s f en ô m e no s d a r e ligio s id a d e evidenciavam o desejo d e participa ç ão ativ a e diret a do l a icato na s

m a nifestações d e piedade. Alguns , contudo , tomavam fo rm a s con ve n-

cionais e p essoa is de asc e ti s mo eremític o . Ne ss a p e r s p e cti v a , o s seu s

ad e ptos bu s cava m na e x c l u são v olunt á ri a d a v id a so c ia l o i s ol a m e nt o

propício a um a ex istênci a p e nitenci a l d e a prim o r a m e nt o espi r i t u a l .

Outros , por é m , pr oc lam ava m a nece ss id a d e d e cri ação de n ovas o r -

d e n s religio sas d es tinadas ao a p e r f ei ç o a m e nt o da di scipli na ec l esi ásti-

c a. Assim, no d e correr sé culo X I , ocorr e u a e mer gê n c i a d a conc e p ção gre g oriana de renovação da v id a a postóli ca que e s timul o u o trab a lh o dos religioso s para a tar e f a de difus ã o ev angélic a. Ta l é o caso d a criação ness e p e ríodo da ord e m dos côn e go s agostini a n os, s ob a in f lu-

ê ncia da s idé i a s reformistas d o papa Gr egó rio VII .

Por outro l a d o, es s e per ío do de int e n sa e buli ç ã o d a vi d a reli g i osa

m e di ev al pr ovo c o u o impul so ex tr a ordin á ri o do s m ov im ent o s evan -

gé lic os no i nt eri o r da s pr ó pri as comunid ades urb a n as. N esse sen t id o ,

o m ov im e nt o esp iritual pr o m ove u o d ese n vo l v im e nt o d e n ovas for m as

d e r e ligiosid a d e di s soci a d as d as e s trutur as in s ti t uci o n a i s d a igr e ja. A cidade d e Mil ão por exe mpl o, e m 1 1 75, fo i m a rc a d a p e l o ap a r ec i-

m e nto de comunidades es pirituai s d e l ei gos ( " Humilh a d os") , pr eoc u-

pados em viv e nciar experi ê n c i a s ev a n gé li ca s inte g r a i s. De m a n e ir a

geral , es s a s c o munidade s e r a m formad as por g rupo s d e t r a b a lhad o r es urb a nos do s of í c ios t ê xt e i s . Essas comunid a d es es t avam e mp e nh a d as

e m c onju ga r as ta r e f as cotidi a n as do tr a b a lh o, c o m um a v id a r e l ig i osa

r eg r a d a p o r o r açõ e s, p e ni tê n cias e o b ras d e ca rid ade. E m 1 1 84, os

gr up os eva n gé li cos fo r a m exco mun ga d os pe l a ação d i sci plin a d o r a do

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Est u dos I be r o- Americanos , XX I V ( 1 ) - junh o, 1 998

poder e c l e siástico . Muitos integrantes dos H um ilhados já de s env o l- viam um intenso traba l ho de p r ose l itismo pastoral nas cidade s da Lombardi a , e ass i m , acabaram por entrar em conf l ito com as autori- dades c l ericais l ocais . Todavia, foram poste r iormente reintegrados à Igrej a, pela inicia t iva do papa Inocêncio III . Entr e t a nto , o f l orescimento espirit u al do período foi tamb é m acompanhado pelo de se nvolvimento de formas de entendimento r e li-

gioso di s tinta s da ortodoxi a doutrin á ria defendida pelo sistema hierár-

. quico

s a cerdotal da Cúri a Romana.

Ne s sa perspecti v a , a e xpansão do e v angelismo popular no tecido social d a cri s tandade contribuiu p a ra provocar o ap a recimento de fortes tensões religio s as e o desenvol v imento de conflitos sociais a c ir - rados nas relações entre leigos e c l éricos . O resul t ado imediato dessas

tensões sócio - relig i osas fo i o recru descime n to dos movi m en t os heré- ticos em toda a cristandade . " Em fun ç ão disso , pode-se conceber as heresias medievais como sistemas sócio - rel i gioso s de oposição , nem sempre integrados ou coesos , mas representativos de " ideologi a s de contesta çã o " . " De man e ira geral , o s mo v imentos heréticos medie va i s (valdense, c á taro ou albigens e, por ex emplo) se mostra v am em muitos aspectos refrat á rios ou em oposição frontal aos pressupostos religio -

s os e modos de vida definidos pelo s istema de poder da hierarquia

eclesiástica. A heresia c á tara, por exemplo, configurou um movimento de reação constante aos fundamento s da orto d oxia cr i stã. O ca t arismo apresentou um processo d e c r escimento considerável no decorrer d os séculos XII e XI I I , atingindo vastas áreas d os territórios da cristanda - de . Contudo, o movimento herético foi partic ul a rmente inten s o nas cidades e nos povoados da Itá l ia , França e Suíça . O cat a rismo plas- mou concepções e pr á ticas religios as e xtremamente diferenciadas do s dogmas d a ortodo x ia da Igreja pap a l . O movimento renegava t o tal - mente o Antigo Testam e nto , desconsidera va a institui ç ão sacramental , o ritualismo do culto cristão ortodoxo e a proliferação de igrejas e templos suntuosos. O s integrantes da seita formavam com un idades autônomas perfi l adas em concepções ma niqu eís t as e de ace n tuado purismo espiritua l . Nesse con t exto, o co n tro l e s istemático da Igre j a sobre as comuni d a d es dissidentes atingidas pela influ ê ncia dos movi- mentos heterodoxos l ev ou , por fim , ao emprego da Inquisi ç ão (Con-

1 3 F a lb e l , N a c hm a n. H e r es i a s m e di e va i s. S ão P a ul o : P e r s p ec ti va,

197 7 , p. 6 0 .

Ur b a n ismo e R e l igio sidade na Id ade M é d ia

173

c í li o d e To ul ouse - 1 229) e à fo rm ação d e c ru za d as esp eciais co m o

i n s trumento s co mpl e ment a r es d e r e pr essão aos grupos h er é t i cos. "

D e s se m o d o, n a per s p ect i va d e r eg r esso aos pr i n cí p ios b ásicos d a

re li gios idad e d os t e mpo s d a c omunid a d e a p os t ó lic a pr i m i ti va, o revi- va li s mo e v a n gé li co acab o u pr o mo ve nd o o des loc a m e nt o d as f o rm as

t r a d ici on ais d a es p i ritu a li da d e c ri s t ã. No e n ta nt o,

seg uir , as n ovas p rát icas do eva n ge li s m o revigo r a d o também p ossib i - litara m o d esenvo l vimento de co muni dades relig i osas , cujas estruturas

d e organização foram ca n a l izadas e incorpo r a d as ao s fu n da m entos

i n s titu cio n a i s da orto d ox i a eclesiás t ica .

co m o ve r e m os a

Igreja e pobre za na sociedade urbana

A s Ord e n s M e ndicant es s ur g ida s n o co nt e xto d as tr ansfo rmações

r e li g i osas d a socie dad e m e di ev al , co nfi g u ra d as a p a rti r d as inqui eta - ções es piritu a i s d e S ão D o min gos de G u s m ão ( 11 70 - 1221) e d e São

F r a n c i s c o d e Ass i s (118 1- 1226), d e m a r caram n a hi s t ó ri a d o c r istia -

ni s m o o cid e n ta l um n ovo e n co ntr o d a I g r eja c om a p obreza socia l urb a n a. Ev id e n te m e nt e, o pr o c esso d e cresc im e nt o das ci d a d es da

Cris t a nd a d e , qu a ndo a ssoc i ado ao n ovo fe n ô m e n o soci al e r e l igioso

d o a po st ol a d o m e ndic a nt e, n ão p o d e se r d escr ito co m o o res ult a d o de

da

soc i e dade m e di e v a l . C a b e c o n s id e r a r , n o e ntanto , os e l e ment os de

um a ev olu ção hi s t ó rica l i n ea r da s e st rutur as mat eria i s e m e nt a i s

c

o n ex ã o e s t a b e l ecidos entr e as fo rm as d e es piritu a lid a d e aprese nt adas

p

e l as no vas o rd ens r e li g i osas e os m ov im e nt os din â mi cos da estru t u ra

soc i a l . Um a sé ri e d e e s tud os d e Mich e l Mo ll a t s ob re a h istór i a socia l

d

a Id a d e M é di a s u b linh a o sig ni fica d o re l evan t e d essa p r oblemática

d

e i n vestigação no cam p o de a n á l ise dos m ov im e n tos relig i osos da

cristan d a d e oci d ental . T r ata nd o - se d as relações e nt re a re li giosidade

d ese n vo l v id a n o me i o ur ba n o e a fo r mação das o rd ens me nd ica n tes ,

M o ll a t , p o r exe m p l o , adve rt e pa r a alg u ns as p ec t os importa n tes

n a tu re z a s oc i a l d esses m ovi m e nt os . P ara o a ut o r , p or t a n to:

d a

''[

cia en tr e o pr i n cíp i o

cant es, e as s o li dar i ed a des

par ti c ul a rme nt e

] um d os aspec t os sig nifi ca ti vos

d a f r a t e r n id ade ,

h o ri zo n tai s

e n tr e o s pobres.

e n ovos f oi a c orres p o n dên-

esse n c i al

às Orde n s

do m e i o urb a n o,

Me n d i - ad o t a d as

v erti ca l e h i er á rqui-

A o es quem a

1 74

E s tud o s Ib e ro-Am e ri c anos , XXIV ( 1 ) - j u n ho , 1998

co, tradici o n a l , d a pr egação d o pr e l a d o qu e d esce a t é s u as ove - lh as , subs ti t ui- se p e l o co n tág i o exe mpl a r d a r eciproc id ade d a pa rtilh a cari dosa d a p o br eza .' : "

Ne ss a persp e ctiva , d e ve- se destac a r os traços gerais d as e struturas

p o lític as e s oc ia i s da s c idad es medi eva i s qu e, em grand e medid a, ca-

r

c i a nt es o u , d e o utr a p ar t e, a pr ese nt ava m o s i s t e m a d e aut o rid a d e tr a - dici o nal mant i d o pela s e lite s s enhori a is . Ass im , o quadr o s oci a l de solidariedades h o rizontai s emergente no mundo urbano, c o ngreg a ndo,

s obretud o, o s c o n s elho s municipai s, as guild a s e o s difer e n tes t i po s de

asso cia ções de o f íc i os,

p o br e s , os i mi g r a nte s e, e m muito s c as os , o s própr i os seg m e nt os mé-

di os da s p o pul açõ es cit a dina s. Como a s sinal a Ro s siaud :

a c te rizava m- se

p e l o p o d e r d o no vo patrici a do urban o d os c o m e r-

n a m a i o ri a d as vezes exc luía os h a bitant es

] b e n e fici ar dess a s olid a riedad e co l etiva pressup o nha uma ci-

dad a ni a difícil de c o nqui s t ar; implic ava um a a dm issão , a e xist ê n-

c ia d e um p a dr i nh o , um p e r ío d o d e r e sid ê n c i a muit as vez e s s upe-

ri o r a um an o , a in c lu são num of íci o o u a aqui s içã o d e um imó vel.

Fa zer p a rte d o po vo não e ra fácil e uma m a ioria de h a bita ntes desprovidos d e recursos reve l ava-se i n ca p az de tra n spor as mu- ralhas e rguid a s no int er i o r de uma minoria ociosa " . "

Procur a nd o conter e ord e nar o s d es aju s t es políticos e so ciais pro-

"[

du z ido s p e l as n ovas circunst â ncias hi s tóric as do moment o, os f rade s

m e ndic a nt es bu s caram cri a r um novo cenário público p a utado num

s i s t e ma id e al

c o nduta s r e li g i osas d ese n v ol v id as p e los mendicant e s n a nova s ocie-

d a d e urb a n a a c a b a ram por re o ri e nt a r os proc e dim e ntos tr a dicion a i s de ação da I g r e j a m e di eva l s obr e o conjunto d os fi é i s. A ssim , tendo em conta uma percep ç ão direta d a s nov as circunstâncias sociais g e radas pelo cresciment o desordenado da s cidades da cristandad e, as novas ord e n s rea li z ara m um t ra balh o pastor a l di s tint o , que ultr a pass a v a, em

gr a nde m e dida , o camp o d e a çã o do s e s peci a lista s tr a dicion a is d a fé : o

d e solid a riedade s cri s tãs . Com efeito, o c onjunto de

r e ligio s o s ecular , o padr e e o mong e. De acordo com Moll a t, o s men-

dic a nte s p a rtir a m da formula ç ão de consideraçõ es peculi a r e s e dinâ- mic as s obr e o s i g nific a do d a pa s tor a l na nov a pais a gem s o ci a l:

1 6 M o ll a t, Mi c h e l . Os po b r e s na Ida d e M é d ia . Rio d e J a n e i r o . Ca mpu s, 1 98 9 , p . 1 8 1 . 17 RO S SIAU D, op . c it, p. 1 0 1 .

Ur ba ni s mo e R e ligiosid a d e na Idad e M éd i a

175

"Não fugiram das cidades, onde o progresso da economia d e tro - ca desenvolvia a atração pelo dinheiro . Francisco recusou as re- gras anteriores da vida monástica que a C úria lhe propunh a a f im de não se isolar , como os monges ou brancos e os Cartuxos . D o- mingos , embora conservasse o quadro canonical, deu-lhe o estilo de uma pastoral direta e flexível , metodicamente aberta aos p r o- blemas do momento .?"

do campo de

abrangência das novas ordens na religiosidade cristã contribuíram para conferir uma mudança significativa nos procedimentos da comu- nicação mística , tanto em sua s formas exteriores de manifestação, quanto pelo conteúdo das mensagens evangélicas transmitidas ao novo público citat i no. Nessa perspectiva, uma das funções ma i s im- portantes da nova pastoral dos frades mendicantes foi decorrente da necessidade de moralizar o comportamento da s populações citad i na s ,

dar sentido a um a pedagogi a simpl i ficada das virtudes cr i stãs e , f un- damentalmente, despertar o valor d a consciência caritativa no meio social e econômico produzido pelas novas estruturas emergentes. Os traços que definiram o novo modelo de espiritualidade do s mendicantes no século XIII, traduziram basicamente a ênfase num conjunto de concepções e práticas religiosas abertas ao mundo . As novas ordens religiosas almejaram revitalizar os propósitos d e uma espiritualidade cri stocêntrica expressa nos ideais de restauração da vida apostólica. A vida de Cristo e dos apóstolos revela-se como um dos pontos de centralidade de uma espi r itualidade purificador a e hu- manizante, que rompendo com o i solamento da vida religiosa do

c laustro voltou-se para um projeto de evangelização a brangente desti-

nado a esp i ritualização de todo o corpo social . Assim , atuando de forma d i stinta e rompendo com o isolamento espiritu a l do monasti- cismo tradicional, que situava a instância superior da religiosidad e cristã na vivência do claustro , os irmãos pregadores dirigiram o seu olhar aos homens e à obra d i vina da criação presente no universo . Desse empreendimento apostólico um dos grandes arte s ão s foi Francisco de Assis , que inaugurou o natural i smo religioso e um a nov a sensibilidade espiritual na história do cristianismo . Na pregação fran- ciscana tratava-se, antes de tudo , de uma retomada visceral dos prin- cípios apostólicos da plenitude da fé, como expressão da sensib i lidad e

Assim, os mecanismos de atuação e a amplitude

176

E s tud o s Iber o -Ameri c anos , X X IV ( 1 ) - j unh o, 1 99 8

amorosa ao ou t r o. No c a mpo d a es piritualidade mendic a nte do sécul o

XIII , como assi n a la Georges Duby , "a fé tor n a-se um a questão amor o-

sa , uma questão d e re l ações afetivas" . 1 9 Fra n cisco, o r iundo de um a

famí l ia de ricos mercadores italiano s d a região da Úmbria , e xerceu o

a postolado do des p oj amento materi a l e espiritual , notabilizando- s e

por s u a identificação com o mundo dos deserdados , os " MINOR E S" d a

estrutura s oci a l . E m 1 2 23 , a no va comun i dad e do s irmão s m e nor es f o i

reconhecida oficialmente p e l a Igrej a . Aos dirigentes do c l ero, nota-

da

m ente para Inocêncio I I I (1198-1216) e Gregório IX (122 7 -1241) ,

os

frades menore s indica v am a possibi l id a de de recondução do laic a t o

aos cam i n h os da orto d oxia cató li ca . Nessa a l tura , o tra b a lh o pastoral da comunid a de de Assis já ha v i a

adquirido u m sign i ficado especia l nas rel a ções entre os no v o s r e ligio -

sos e os eleme nt os d a sensibi lid a d e espir i tual d as popu l ações ci t adi-

nas. A dif u são do movi m ento de renovação apostólica baseado em

co n cepções e atitu d es pi a s de benemerênci a social voltav a - s e , s obr e -

t ud o , para o r o m pi m e nt o d os e l os d e um a c a d eia d e in d ife r e n ça moral

e socia l , que o crescimento da economia urban a h a v i a produzido n a

vida socia l d as cidades da cris t a n da d e . Ness a perspectiva , os me n di-

ca nt es r ep r esen ta r am a face r ev i gorada d o m ovimento d e expansão

das comunida d es ev a ngé l ic as p o pulares da s ociedade medieva l . P o r-

ta n to , a nova socie d ade u r bana foi u m terren o d e extrema fecundidade

p a ra a proliferação d os movime n tos popula r es d e prega ç ão apostó l ic a .

A re vi goraç ã o dos prin c ípi os e v angélicos no tecido s ocial urbano

a dquiriu um se n tido religioso vital n u m contexto d e incertezas e an-

gústias co l e t ivas .

Por o u tro lado , a nov a comunid a de do s Irm ã os Preg a dore s , cons-

p o r Domi n gos d e G u s m ão, e m 1215, orde n o u- se junto a um

amp l o progra m a evangé l ico de d icado ao traba l ho de conv e rsão d os

heréticos. Contudo , a nova ordem religiosa não deix o u d e e s tar ligada

às preoc up ações ce nt rais ge rad as p e l o id ea l de mend i cida d e. Em

1205 - 1260 , Domingos, originário de Calarueg a, l ocalidade de Esp a -

nha, fervoroso ade p to da espirit u a l idade apos t ólica, empreendeu os primeiros esforç os n u m programa i n t enso de conversão das popu l a -

çõ es marcad a s pelo catarismo. Domingo s multiplicou o mo v imento de

a ção a postólica atuando especialmente no trab a l h o de convers ã o d a s

com u nid a d es her é t icas d o L a ngue d oc e da Prove n ça.

tituída

U rba n is m o e Re l igiosi d a d e n a I dade M é d ia

177

A ordem dominicana mo s trou-se particul a rmente sen s í v el aos no-

vos espaços urbanos. De maneira geral, os pregadores dominicanos associaram o conceito de urbanidade ao universo das práticas heréti- cas. Nesse sentido, já nos primórdios da comunidade religiosa, Do- mingos estabeleceu algumas premissas importantes para a eficácia da pregação apostólica. A nova ordem estimulou a preparação intelectual dos noviços, enfatizou com rigor os estudos teológicos e o conheci- mento dos métodos de exposição racional das Escrituras, como meios indispensáveis à eficácia da pregação evangélica. A conseqüência dess a s orientações diretivas foi o desenvolvimento de uma ordem de intelectuais - uma ordem de doutores -, dentre os quais destacaram-se no cenário público das universidades medievais as figuras de Alberto Magno e de São Tomas de Aquino. Assim, a presença dos dorninica- nos nas estruturas de ensino das universidades européias contribuiu decisivamente para alargar os horizontes da atuação intelectual e reli- giosa da ordem nas novas instituições culturais da sociedade medie- val . Por outro lado, os dominicanos esforçaram-se, sobretudo, por

promover a dimensão intelectual do ofício da pregação. Já os francis- canos operaram fundamentalmente na dimensão da sensibilidade reli- giosa, como exercício de aproximação afetuosa entre o religioso e o fiel . Porém , nas novas ordens , as formas e os temas da pregação foram ao longo do tempo, sendo pautados sobre esses duplos fundamentos , empregados um após o outro , mas sempre orientados como funções complementares .

O dominicano Vicente Ferrer, um dos pregadores populares mais

consagrados da Espanha do século XIV , estabeleceu em seu Tratado de la vida e spiritual alguns procedimentos essenciais nos domínios da oratória sacra. Uma das principais funções dessa espiritualidade apostólica foi o empenho na pregação itinerante, que levou Vicente Ferrer , originário da cidade de Valência , aos mais distantes povoados e centros urbanos da cristandade medieval: Barcelona, Lérida, Mur- cia, Madri , Toledo , Sevilha , Toulouse, Avignon, Paris, Milão, Roma e Nápoles. Os seus sermões, que atraíam contingentes consideráveis das populações citadinas da cristandade, estendiam-se por longos perío- dos de pregação realizados em púlpitos construídos especialmente nos passeios e praças públicas das principais cidades européias. A escolha dos temas e dos locais de pregação eram manifestações de uma vonta- de evidente de moralizar as práticas cri s tã s, de levar os fiéis ao exer- cício das virtudes evangélica s da caridade e, do desejo de persuadir ao

178

Estudos Ib er o-Am e ri c ano s, X XIV ( 1 ) - ju nh o, 1 998

abandono dos pecados mais comuns no meio urbano: a avareza, a usura, a luxúria, o falso testemunho e os comportamentos cismáticos . No entanto, a pregação evangélica deveria corresponder aos anseio s do público ouvinte e, assim, Ferrer assinalou em seus escritos, desti- nados basicamente aos próprios religiosos da ordem , algun s preceito s fundamentais do movimento pastoral . Aos religiosos recomendava :

"En todos Ias semones que en público tuvieres y en Ias pláticas y exhortaciones particulares, usa siempre de lenguaje sencillo , llan o

y casero , para dar a entender Ias obr a s particula res de cad a un o,

]. Mas esta de tal modo

descendiendo a Ias actos singulares [

has de hacer que eche de ver salen tus palavras de pecho no so-

berbio [

] sino de entranãs llenas de caridad y amor patern a l .'?"

Comover e convencer, constituíram-se nos elementos fundamen- tais da comunicação sacra desenvolvida pelas novas ordens mendi- cantes na paisagem urbana. O seu destino: a praça pública , o sermão popular, a universidade, os estudantes e os núcleos de populações de

todos os locais da cristandade e, portanto, o novo apostolado urbano.

O resultado dessas novas atitudes religiosas foi o desenvolvimento de

uma categoria de intelectuais expressivos e, de outra parte, de prega- dores populares identificados com o seu público, capazes de restaurar a autoridade e a moralidade espiritual, a ordem e o equilíbrio social de um cenário humano em mutação .

Considerações finais

Como foi notado no decorrer deste trabalho, uma característica particularmente importante do urbanismo medieval resulta de sua

r ela ç ão estreita com os movimentos de renovação da religiosidade

cr i stã. Ao lado da diversidade funcional que a nova rede urbana da cristandade apresentou no âmbito das relações econômicas e sociais , os espaços citadinos constituíram-se como locais privilegiados para um conjunto de manifestações pias e caritativas da espiritualidade , com vistas ao atendimento dos segmentos populares. Nesse sentido ,

os diferentes modelos de vida religiosa dos séculos XII e XIII a ssin a - laram mutações e clivagens significativas na esfera das práticas devo-

2 0 G a r g ant a, J osé M a ri a & For ca da , Vic e nt e. B i o g rafia y es crit os d e S an V ice nf e

U rba n i sm o e R eligiosi da d e n a Idad e Méd ia

179

cion a is. Assim , em consequencia de um acentuado fervor religio s o nos ideais cristocêntricos da fé apostólica renovada , as populaçõ es urbanas desenvolveram formas mais ativas de participação nas m a ni- festações de piedade. Por outro lado, as idéi a s de benemerência social difundidas pel a s novas ordens mendicant e s serviram de base para a

a firmação do s modelos evang é licos sem contudo , provocar a d í ssoci a -

ção e ntre o núcl e o primitivo das devoções cristãs e o aparelho i nstitu-

c ional da igr e j a . Nesse s entido, as orden s dos irmãos pr e gadore s pro- mo v eram a difu s ão de um pr o cesso de e v angelização v oltado ao en-

caminhamento religioso d as populações citadinas , porém , tendo em

v ist a fundamentalmente os p a drões de moralidade espiritu a l e de coe-

s ã o da ordem social . Portanto, os mendicantes realizaram uma tar e fa

complexa na esfera das práticas e das crenças espirituais cristãs, espe- cialmente ao tentarem unir e dar coesão aos segmentos da alta cultura religiosa formul a da pela hierarquia eclesiástica, com os movimentos evangélicos produzidos na base da estrutura sócio-religio s a da cris- tandade Ocident a l .

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