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A Febre Amarela vista através da Junta Central de Higiene Pública (1851)

ELAINE GONÇALVES DA COSTA*

“E hoje se pode considerar a febre amarela o maior inimigo de


nossas vidas, de nosso comércio, e de nosso futuro.” (Dr.
Francisco de Paula Candido, em 27 de Março de 1851)

O presente artigo pretende considerar as questões acerca da febre amarela.


Influenciado pelos trabalhos já realizados, porém buscando distinção dos mesmos,
tentaremos observar a doença como uma ferramenta analítica. Ressaltamos que não
pretendemos olhar a febre amarela através de seu caráter biológico, mas sim através do seu
caráter social. Neste sentido, concordamos com Charles E. Rosenberg ao afirmar que:

[...] “Quando se cristaliza como uma entidade específica experimentada


por indivíduos, a doença torna-se um fator estruturante em situações
sociais, como um ator social e um mediador.” (ROSENBERG, 1992:312)

Ao compreendermos a febre amarela como um ator social e mediador, buscamos,


principalmente, entender e analisar como a doença se tornou um problema urbano. E para
tanto, analisaremos tal moléstia a partir de dois relatórios da Junta Central de Higiene
Pública, tendo como principal objetivo analisar, através desta fonte, como a doença era
apresentada, o que era feito para combatê-la, quem possuía tal imbuição e como a medicina
e o Império se portaram ante as epidemias.

As questões acerca da história da febre amarela no Brasil foram amplamente


discutidas pela historiografia brasileira. Talvez o interesse e a curiosidade sobre este
assunto decorra do fato dela ter sido uma doença que possivelmente transformou a rotina
na cidade do Rio de Janeiro desde a ocorrência de sua primeira epidemia, em fins de 1849.
As causas desta epidemia eram desconhecidas à época, embora o número de mortes
decorrente da doença tenha sido exorbitante. Estudos mais recentes se propõem a analisar
tal questão através de um olhar cultural ou social. Como exemplo, citamos o historiador
Jaime Larry Benchimol que estudou a febre amarela adotando como ponto de partida o
impacto desta epidemia em cidadãos comuns e analisando todo e qualquer indício que
2

pudesse auxiliar na compreensão de como a medicina a enxergava e o que era esta doença
(BENCHIMOL, 1999).

O impacto causado pela febre amarela na cidade do Rio de Janeiro nos leva a
refletir sobre as mudanças que ocorreram no espaço urbano, social, e na própria medicina,
não como uma resposta à falta de salubridade, à falta de médicos ou à falta de esgoto entre
outras “deficiências” que a historiografia em geral aponta que havia naquela cidade.

O século XIX marcou a capital do Império Brasileiro. A cidade do Rio de Janeiro


era conhecida e considerada referencial na busca pelo progresso e civilidade. Sob a
influência da cultura francesa, a Cidade desenvolvia novos costumes e, a partir de tais
transformações, percebemos mudanças significativas no espaço urbano, no cenário político
e ideológico e nas relações sociais. Entretanto, sob a perspectiva dos médicos da Corte, o
estilo de vida da Capital ainda estava aquém do estilo de vida ideal no que tange às
condições de salubridade. A Cidade tinha problemas estruturais, climáticos, e maus
costumes enraizados em sua população que ainda precisavam ser transformados. No
período em questão, o Rio de Janeiro recebia constantemente imigrantes, “aventureiros” da
Califórnia e africanos, fator que corroborava com o crescimento populacional. Esses
imigrantes viviam aglomerados em hospedarias, albergues e, em muitos casos, já
chegavam na Cidade doentes, “eivados de moléstias graves de toda a espécie” (REGO,
1873:35). Tais “aventureiros” se submetiam ao clima quente, a falta de chuvas, e a
ausência de higiene pública.

Os primeiros focos de febre amarela na cidade do Rio de Janeiro foram encontrados


em Dezembro de 1849, uma vez que, supostamente, a doença era transmitida por meio da
barca norte-americana Navarro. Estudos elaborados nesta época, como os do médico José
Pereira Rego, nos indicam que, em um primeiro momento, houve relutância por parte da
Academia Imperial de Medicina em diagnosticar os casos da doença. Porém, já no inicio
de 1850, percebemos que a doença estava disseminada na Cidade e adquiria caráter
epidêmico. Os motivos e as causas? Conforme já mencionamos acima, eram um mistério
para a medicina da época, o que conduzia os médicos a calorosas discussões na Academia
Imperial de Medicina acerca do contágio ou infecção da febre amarela. Essa epidemia
rapidamente se espalhou e afetou toda a Cidade, fazendo até mesmo com que a medicina se
“modernizasse” (BENCHIMOL, 1990:115) no sentido de buscar soluções para as
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epidemias. Algumas dessas soluções diziam respeito também a mudanças na forma de


viver da população e até mesmo na intervenção de como estava dividido o espaço urbano.

As primeiras epidemias de febre amarela foram vistas por muitos, sobretudo pelos
eclesiásticos, como um castigo para a Cidade, devido o estilo de vida profano aos olhos da
Igreja e da sociedade da época, e para amenizar esse mau, procissões eram realizadas e
preces eram enviadas aos céus a fim de apaziguar o sofrimento da população
(CHALHOUB, 1996: 63). Por outro lado, os médicos tentavam explicar que a doença se
tratava de um fenômeno natural, ocasionado, sobretudo, devido ao clima e à geografia da
Cidade.

Nesse momento, já se discutia a questão da insalubridade. Os cortiços e as


habitações irregulares eram considerados como insalubres e pestilentos; a higiene
doméstica também era considerada fator de risco. Dessa forma, os médicos sugeriam que
as casas deveriam ter encanamento próprio para água e esgoto a fim de se “espantar” as
doenças. A desordem urbana também era uma das questões levantadas pelos médicos.
Mediante ao debate apresentado, o historiador Jaime Larry Benchimol afirma que:

[...] “Ao responsabilizar a desordem urbana pela degeneração da saúde


não só física como “moral” da população, a medicina social diagnosticava causas
naturais, relacionadas às peculiaridades geográficas do Rio de Janeiro e,
sobretudo, causas sociais, tanto no nível do funcionamento geral da Cidade como
de suas instituições.” (BENCHIMOL, 1990: 116)

A quantidade de fatores e possíveis causas da doença demonstram que, sem


dúvidas, havia a dificuldade em diagnosticá-la e de definir a sua origem. Portanto, logo foi
associada aos padrões de higiene da Cidade e ao clima quente, propenso aos miasmas.

Com a febre amarela assolando a cidade e com as questões supracitadas, medidas


emergenciais precisaram ser adotadas pelo Império na tentativa de controlar e desvendar a
misteriosa doença. Assim, foi delegada à Academia Imperial de Medicina e aos professores
da Escola de Medicina a responsabilidade de formular um plano para combater esse mal.
Como tentativa de controlar a epidemia foi criada a Comissão Central de Saúde Pública em
fevereiro de 1850, substituída por decreto, de 14 de setembro de 1850, como Junta e
Hygiene Pública (ALMANAK LAEMMERT,1851:244.Supplemento), ocupando sua
presidência os médicos Dr. Francisco de Paula Cândido, Dr. Joaquim Candido Soares de
Meireles, Dr. Antonio Felix Martins, Coronel Antonio José Ramos, Jacintho Rodrigues
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Pereira Reis, e tendo como secretário o Dr. Herculano Augusto Lassance Cunha. Tal
órgão, a partir de um novo decreto de 29 de setembro de 1851, foi regulamentado e
denominado como Junta Central de Hygiene Pública (MARCILIO 1993), cuja
responsabilidade, em suma, era propor medidas que mantivesse estável e equilibrada a
saúde pública e que melhorasse o estado sanitário da Cidade. De acordo com a historiadora
Tânia Salgado Pimenta, a Junta funcionava da seguinte maneira: .

[...] “Para cumprir essas tarefas, a Junta contaria com os seus delegados,
as autoridades judiciárias e policiais e os fiscais da Câmara Municipal.
Contudo, a forma como deveria funcionar só foi detalhada pelo
regulamento de setembro de 1851, a partir do qual passou a ser
denominada Junta Central de Higiene Pública.

Desse modo, algumas funções, antes da alçada da Inspeção de Saúde do


Porto, e muitas outras, incluídas entre as responsabilidades das Câmaras
Municipais, foram centralizadas na Junta, que coordenava, na capital do
Império, as comissões provinciais. Além de constituir uma resposta às
necessidades do momento, a mudança estava em acordo com o processo
de centralização iniciado na década de 1840.” (PIMENTA, 2004)

A criação deste órgão pelo Império demonstra uma discussão levantada por George
Rosen e que está implícita no pensamento do homem do século XIX. Ou seja, à
compreensão de que era imputado ao Estado a responsabilidade de zelar pela saúde e o
bem estar social, combatendo os perigos à vida humana, e em contrapartida era dever da
sociedade zelar pela mesma (ROSEN, 1980:81-82).

Analisando alguns relatórios da Junta Central de Higiene Pública, (nome esse o


qual utilizaremos a sigla JCHP como forma de identificação) percebemos o quão elevado
era o grau de preocupação dos médicos autores dos relatórios mediante o problema da
febre amarela na cidade do Rio de Janeiro. Tida como “principal inimiga”, a doença
assolava e interferia no cotidiano da Cidade. Conforme já citamos, o intuito deste trabalho
é considerar, através dos relatórios da JCHP, a maneira como a doença atingia a Cidade,
além de esboçar um pouco do que era na realidade do Rio de Janeiro e como esta deveria
ser na concepção dos médicos que escreviam tais relatórios. 1

1
A idéia de Cidade ideal e Cidade real é inspirada no trabalho de Moretti: CF MORETTI, Franco. Atlas do
Romance Europeu: 1800-1900. São Paulo: Bomtempo Editorial, 2003.
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Tanto a questão da febre amarela quanto o terror que ela causava aos cidadãos se
encaixavam perfeitamente no discurso dos médicos, os quais aconselhavam que tanto as
autoridades responsáveis pela saúde pública da cidade quanto a sociedade buscassem,
através de mudanças estruturais e culturais, uma maneira de resolver o problema da
doença. Em um destes relatórios da JCHP, denominado: Exposição da Junta de Hygiene
Pública sobre o estado sanitário da Capital do Império, e meios de conseguir o seu
melhoramento, assinado pelo Dr. Francisco de Paula Candido em 27 de Março de 1851,
percebemos a tentativa da JCHP de alarmar e conscientizar as autoridades quanto aos
problemas estruturais e de insalubridade enfrentados pela Cidade, mesmo que no começo
deste relatório o autor tente apresentar certo declínio dos afetados pela febre amarela com
relação ao ano anterior, tornando seu estado na Capital como satisfatório e apontando que a
doença não avançou além das embarcações, tendo casos esporádicos no interior da Cidade
(RELATÓRIO DA JCHP, 1851). O número de óbitos confirma esta afirmação: em 1850
foram 4.160 pessoas ; no ano seguinte 445 óbitos; e em 1852, sucumbiram 1943 pessoas.
(FRANCO,1969:43).

Esse relatório elenca algumas dificuldades que precisavam ser sanadas e/ou
minimizadas na Cidade, a qual apresentava um clima propício a pestes e miasmas, e tinha a
insalubridade como marca. A passagem abaixo, descrita por Lourival Ribeiro, apesar de
seu anacronismo e do discurso da “falta”, que refutamos, demonstra alguns dos problemas
enfrentados pela Cidade no início da segunda metade do século XIX.

“Cerca de 300 mil pessoas viviam no Rio de Janeiro em 1850 em


condições sanitárias escassas. Não havia esgotos. Os dejetos humanos
eram retirados das residências por escravos e lançados nas praias, nas
valas, nos terrenos baldios. Os numerosos pântanos, os reservatórios de
água descobertos, nas ruas e nas habitações, favoreciam a criação e o
desenvolvimento dos vetores das moléstias infecto-contagiosas.”
(RIBEIRO, 1992:79)

Dentre as propostas para a Cidade, a melhoria das condições do porto era


considerada essencial, tento em vista o impacto para a economia local através da
importação e exportação, haja vista que era através dele que entravam mercadorias vindas
de outros países, como a França. Acreditava-se também que era através do porto que
muitas doenças, como a febre amarela, entravam no Rio de Janeiro através da vinda de
imigrantes. Tal afirmação nos leva a concordar com a concepção do historiador Sidney
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Challoub acerca da forma pela qual a doença era compreendida no período em questão e
mesmo posteriormente. Para Chalhoub havia uma “interdependência entre o pensamento
médico e ideologias políticas e raciais” (CHALHOUB, 1996:62).

Além dos problemas com o porto o Rio de Janeiro, haviam inúmeras questões
estruturais a serem resolvidas, como, por exemplo, seu sistema de esgoto defasado e de
abastecimento de água e irrigação. Também coexistiam costumes que precisavam ser
transformados, tais como o despejo de dejetos em lugares impróprios, assim como
cadáveres de animais que eram depositados em qualquer lugar. Na concepção dos médicos
da Junta, as questões de insalubridade eram fundamentais na disseminação de doenças e
especialmente da febre amarela, que no período em questão estava associada às questões
de clima e costumes. Logo, com intuito de sanar tais problemas, os médicos da JCHP
idealizaram algumas soluções.

Conforme já mencionamos, o porto era um local considerado como pestilento e


insalubre. Como forma de prevenção à disseminação de doenças consideradas epidêmicas
e endêmicas, especialmente da febre amarela, os médicos da JCHP propuseram a
construção de lazaretos, a fim de impedir a entrada de doentes na Cidade. Os enfermos,
dessa maneira, seriam tratados ainda no navio ou no porto. Tal Relatório da Junta ainda
defendia a criação de lazaretos exteriores, construídos fora da cidade, e destinados
exclusivamente a doentes ou possíveis doentes com moléstias contagiosas.

Os problemas de salubridade da Cidade eram de ordem emergencial. Em relação


aos esgotos, os médicos almejavam a construção de uma nova rede. E sobre ela, os
médicos clamavam nos relatórios:

[...] “E proponho o rebaixamento dos leitos de todas as valas


estabelecidas, ou que se estabeleçam em direções e distâncias
convenientes, até se nivelarem com as marés baixas.

D'esta sorte a infiltração, mediante pequenas distancias levará a


essas valas as águas de todo o terreno que lhes ficar sobranceiro,
e as que a corrente não tenha á elas trazido.

Assim com a intermitência das marés nunca permitirá a


excessiva demora, ou o repouso das substancias orgânicas que as
águas acarretarem a estas valas; evitando d'esta sorte a
putrefação, de que são hoje longos focos as valas atuais.”
(RELATÓRIO DA JCHP, 1851:4)
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Essas sugestões indicavam o desejo de que a rede de esgotos fosse rápida e


eficiente, com valas mais amplas e um sistema que fizesse a lavagem dessas valas de
maneira mais ágil.

Outro “incômodo” a ser corrigido era o despejo de dejetos, que era feito por
escravos e em lugares inapropriados. Os médicos da JCHP tinham consciência que tal
prática, além de inadequada, também poluía o ar, tornando-o propenso à inúmeras doenças.
Na tentativa de solucionar essa questão e melhorar o hábito, os médicos da Junta sugeriram
a construção do que eles chamaram de “pontilhões flutuantes”, ou seja pontes que seriam
construídas sobre bóias; o intuito era fazer com que os dejetos fossem despejados com
maior agilidade, não se acumulassem na cidade ou nem sujasse as praias ou rios, sendo
assim despejados em maré vazante. E para evitar o mau cheiro dos dejetos na Cidade, a
sugestão era de que os barris que carregavam fossem construídos de ferro ou madeira e
tapados.

Percebemos por meio dessas sugestões feitas pela JCHP que a qualidade do ar era
de extrema importância nessa sociedade. Um ar com qualidade afastava os miasmas.
Associada a tal questão, também afirmavam que, devido ao clima quente, a Cidade já
estava fadada à doenças (KURY, 1990). Para os médicos, era importante viver numa
cidade em que o ar tivesse qualidade, e o hábito de lançar cadáveres de animais domésticos
em lugares inapropriados, como quintais das casas e ao ar livre, precisava ser modificado.
A decomposição desses animais deixava o ar “pútrido”. Logo, seus corpos deveriam ser
sepultados fora da Cidade, em lugares remotos e não mais deixados ao ar livre ou jogados
nas praias.

A limpeza das praias e a irrigação das ruas tornaram-se grandes preocupações


naquele momento. No caso das praias, os médicos sugeriam a construção de um cais e de
taludes2 verticais em toda a orla ou onde houvesse maior probabilidade de que dejetos
ficassem acumulados. E mesmo que não fossem construídos em todas as praias, que se
fixassem nas que tinham mais necessidade. Por outro lado, a água das praias estando
limpa, poderia servir para irrigar as ruas próximas ao cais e, no caso das ruas da Cidade,
animais seriam utilizados para levar água para sua irrigação, o que diminuiria a poeira que
se acumulava quanto o calor.
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A finalidade desses taludes era conter os dejetos, para que não acumulassem.
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A qualidade e o abastecimento da água também eram motivos de preocupação e


nesse Relatório foi ressaltada a importância do aqueduto construído na Tijuca, que teria
melhorado a limpeza e o abastecimento da água na Cidade. Entretanto, ainda havia
providências a serem adotadas que melhorariam a qualidade da água. As sugestões eram as
seguintes: os chamados “depósitos de precaução”, como os do Catumbi e o da Carioca,
deveriam desaparecer, já que não passavam de focos de putrefação devido à quantidade de
animais que morriam e apodreciam por ali. Do mesmo modo que as lavadeiras deveriam
ter um lugar específico para trabalhar, de preferência extra-muros. E, finalmente, sugeriam
o encanamento das águas vindas do leste, que abasteciam a região da Carioca e a plantação
de arvoredos próximos e ao longo dos encanamentos de água potável para que essa se
mantivesse fresca.

A importância da vegetação no que diz respeito à melhoria da qualidade do ar


também foi citada neste relatório. Como já mencionamos, tal preocupação era evidenciada
devido ao ar pútrido e aos gases que emanavam pela Cidade. Segundo os médicos, a
vegetação seria utilizada como uma ferramenta para equilíbrio do ar, além de refrigerar a
atmosfera das altas temperaturas. E como sugestão, os arvoredos deveriam ser plantados
nas praças, no cais, nos quintais das casas e chácaras, fossem eles ambientes públicos e/ou
privados.

No relatório do ano seguinte, de 15 de abril de 1852, denominado Exposição do


estado sanitário da Capital do Império, apresentado ao Ministério Imperial pelo
Presidente da Junta Central de Hygiene Pública Dr. Francisco de Paula Candido, e
também de autoria do Dr. Francisco de Paula Candido, além de apresentar considerações
sobre a situação da febre amarela nos três primeiros meses daquele ano, complementa o
relatório anterior relatando a situação da doença ao longo do ano de 1851.

O relatório reitera que, com relação à “primeira e horrível explosão de febre


amarela” espalhada pelo litoral do Império e sua Capital, a incidência da doença foi mais
amena em 1851, apresentando casos esporádicos durante os meses mais frios. Ressalta
ainda que na proximidade das estações mais quentes, o número de doentes aumentava
gradativamente nos últimos meses do ano. Destaca ainda que além do aumento do número
de casos, o que intrigava era a violência e rapidez com a qual a doença acometia suas
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vitimas. Ao longo do relatório, percebemos as questões que permeavam os debates entre os


médicos da Academia Imperial de Medicina: Qual era a explicação para a febre amarela?

Diferentemente do relatório que analisamos acima, e que era referente aos


primeiros meses de 1851, neste a JCHP se debruçou, entre outras questões, sobre algo que
há muito intrigava a classe médica: o contágio ou não contágio da febre amarela. Neste
relatório foi ressaltado que, tanto dentro quanto fora do país, médicos renomados
estudavam e debatiam essa doença, e os argumentos dos que defendiam ou não o contágio
eram inúmeros.

Dentre os argumentos dos médicos que defendiam a existência do contágio,


afirmava-se que doença ocorria através da importação. Entendia-se a ocorrência do
contágio ou de causas pré-existentes na Cidade, que juntamente com fatores climáticos
promoviam a disseminação da doença. Essas ideias eram rebatidas por aqueles que eram
contra a teoria do contágio, os quais por sua vez, para fundamentar seu argumento,
apresentavam os casos de outras Cidades, como New Orleans e Havana, que eram afetadas
pela doença e nem por isso ela se espalhava por toda a Cidade. E desse modo, defendiam
que mesmo durante a grande epidemia de 1850, com a incidência de muitos doentes em
determinados bairros, não teria havido a disseminação da doença para outras áreas da
cidade. Estes eram apenas alguns temas de uma ampla discussão estabelecida pelos
médicos da segunda metade do século XIX.

O Dr. Francisco de Paula Cândido, na tentativa de expor sua opinião e solucionar


tal questão, afirmou o seguinte:

[...] “Deixo a descrição dos homens da ciência o avaliar os argumentos e


fatos aglomerados pelos autores, quando uns pretendem estabelecer o
contágio, e outros mostrar a sua futilidade; tomarei porém a liberdade de
apresentar aqui um pequeno contingente para a resolução da questão, a
saber: No Lazareto de Jurujuba trataram-se cerca de 800 pessoas de febre
amarela em 1851, e de 30 empregados que existiam naquele
estabelecimento, nem um só a contraiu: No mesmo Lazareto quando
apenas se tinha tratado este ano 288 doentes; havendo nele o mesmo
número de empregados foram 4 afetados, 2 dos quais muito gravemente”
(RELATÓRIO DA JCHP, 1851:6)

Em sua concepção, a febre amarela não se transmitia de um país para o outro e nem
diretamente de um enfermo para uma pessoa sã, mas sim era disseminada através de
exalações emanadas ou pelo doente ou pelo ambiente infecto. Ou seja, era o contato com
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substancias orgânicas em decomposição e suas emanações que causavam a febre amarela.


Paula Candido acreditava que eram nessas substancias em decomposição que se originava
o miasma que produzia a febre amarela. Desta forma, entendia que sem decomposição não
existia transmissão.

Além da discussão supracitada, o relatório deste ano apresentou medidas sanitárias


propostas, assim como o seu anterior, por meio das quais os médicos acreditavam que se
obteria a melhoria do estado sanitário da Capital. Tais medidas já haviam sido propostas
anteriormente: um sistema de esgoto, local apropriado para o despejo de imundície, a
limpeza de praias, ruas e cais, tratamento de água, sistema irrigação, “matadouro” ou lugar
que recebesse os mortos da cidade, vegetação, plantio de árvores na Cidade.

Entretanto, este Relatório ainda sugeria novas medidas para a melhoria do estado
sanitário da Cidade, como a criação de asilos para os mendigos, tendo em vista que sua
presença nas ruas da Cidade não era bem vista. Também propunha traçar o alinhamento da
cidade, a fim de possibilitar novas construções e reedificações de prédios. Outra medida
seria deslocar para fora da cidade as fábricas, cujo funcionamento comprometia a
salubridade da Cidade. Importante salientar que nesta questão, a JCHP apresentava uma
ressalva, afirmando que a medida deveria ser adotada desde que não se chocasse com
interesses particulares, se não fundados em lei ao menos mantidos pelo direito
consuetudinário, o que nos demonstra que os médicos não tinham interesse em provocar
conflitos com os proprietários de fábricas.

Ainda entre as proposições da JCHP, havia a proposta de dessecamento dos


pântanos ou que os mesmos fossem cobertos com altas vegetações, com o objetivo de
impedir a ocorrência de emanações. Em relação aos cuidados com o Porto, entre as
medidas de proteção sanitária da Cidade, destacava-se a importância de se atentar à saúde
das tripulações e dos colonos. Entre outras sugestões, que embora não tivessem relação
direta com a febre amarela promoveriam o melhoramento das condições de saúde do Rio
de Janeiro, propunham sujeitar todas as amas a inspeção, a fim de evitar desastrosas
consequências; estabelecer a inspeção na educação física dos jovens; inspecionar bi-
semestralmente as meretrizes, tudo buscando impedir a disseminação de doenças.
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Tais preocupações demonstravam a complexidade e os percalços da febre amarela


naquela sociedade, por ocasionar distúrbios sociais e econômicos. No entanto, é através do
conteúdo dos debates promovidos pelos médicos e pelas autoridades sanitárias com o
objetivo de solucionar tal problema que conseguimos visualizar e compreender a febre
amarela como um ator social, tendo em vista a forma pela qual potencialmente podia
interferir nas condições e relações sociais no Rio de Janeiro. Nesse sentido, percebemos
que o impacto causado pela febre amarela àquela sociedade era de tal dimensão que fez
com que os médicos se empenhassem em seu combate, refletissem sobre a causalidade e
buscassem soluções para a incidência.

Como foi constatado nos relatórios da Junta Central de Higiene Pública, as soluções
propostas atingiriam diretamente o espaço urbano. Nesta perspectiva, reforça-se a visão
dos médicos, na época, sobre as doenças, inclusive sobre a febre amarela, especialmente
em relação à influência do clima e da fisiologia humana. Portanto, concluímos que as
novas medidas propostas para o combate à febre amarela na cidade do Rio de Janeiro,
como destacaram os Relatórios apresentados, no que dizia respeito à higiene e à
urbanização da cidade, eram reflexos das concepções e práticas defendidas por médicos em
relação às condições sanitárias da cidade.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGÁFICAS

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• “Exposição da Junta de Hygiene Pública sobre o estado sanitário da Capital do
Império e meios de conseguir o seu melhoramento.” Assinada por: Dr. Francisco de
Paula Candido. Em 27 de Março de 1851.
• “Exposição do estado sanitário da Capital do Império, apresentado ao Ministério
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