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O FETICHE NA DIFERENÇA: As tentativas de naturalização da discriminação racial no século XIX.

Resumo

Anderson Henrique Lopes Santos.

O ponto em volta das discussões raciais que giravam fortemente no século no XIX, as quais foram alimentadas com vigor e com muito vapor por uma linha de pensadores e cientistas que justificavam o fato da permanência do racismo e as explicações que ponderavam sobre a legalidade da escravidão, alguns casos de implicância da tortura, mutilações e extermínios como uma base aceitável explicada pela eugenia, determinismo, darwinismo social, dentre outros estudos e teses. O choque cultural na linha de tempo foi posto muitas vezes de uma maneira romantizada e cheia de exageros, desde a época das grandes navegações, a situação sobre esse choque foi só agravando-se com a medida da passagem temporal. As práticas racistas do século atual tem uma carga de herança desses pensamentos que se desdobraram há séculos atrás, em especial o XIX.

Palavras-chave:

darwinismo social.

pensadores,

Introdução

permanência,

racismo,

escravidão,

eugenia,

determinismo,

O contexto das vastas locomoções que marcaram a busca de novos territórios para

conquistar e explorar também acentua em especial na história do ocidente uma visualização

das diferenças entre os homens, a proeza em estar presente em novas terras contemplava essa

visão mais adentrada da situação, pois implica o nascimento de novos comportamentos e

posturas por causa das observações lançadas. A época desses grandes desbravamentos

também foi frisada devido as narrativas dessas viagens, um misto de pensamentos fantasiosos

frutos de um imaginário e realidade, onde os homens que não tinham um padrão europeizado

eram taxados de estranhos, exóticos e bizarros.

O século XIX foi intensificado pelas grandes correntes intelectuais e a passagem de

vários pensadores, a modernidade sem dúvidas trouxe avanços consigo para a sociedade, mas

também desconforto e horrores. O termo raça foi inserido nesse contexto, especialmente na

literatura nos princípios do século XIX, o discurso sobre raça emerge como uma nuance do debate sobre cidadania, onde se preocupavam de antemão em julgar e pré-determinar aspectos de acordo com a descendência e afins.

As faces da justificação

Antes de chegar ao ápice das fervuras de pensamentos e teorias, uma das primeiras justificações sobre a inferioridade estava no monogenismo como um dos trilhos centrais sobre essas discussões, essa corrente tinha um forte embasamento bíblico, pois tinha como ponto de partida as descrições de Gênesis onde Adão e Eva foram os primeiros seres feitos a imagem e semelhança de Deus e os demais que viessem seriam apenas variações deformadas do modelo divino, em defesa de que o homem branco europeu era o molde mais próximo do Todo- Poderoso e os demais estavam mais distantes.

A cor da pele foi um fator de suma importância e que marcou a existência da divisão

da espécie humana por raças logo no século XVIII, a divisão de raças é presente na atualidade

e fortalecido até pelos estudos científicos. No século XIX adiciona-se outros marcadores para a separação por base de raças, nesses indicadores estão o formato do nariz, dos lábios, a estrutura craniana e etc.

O estudo dos crânios no século XIX em especial foi posto como um pilar de

sustentação do determinismo biológico por via dos dados com precisão que consistia na análise dos diferentes formatos de crânios que cada formato condizia a uma determinada raça, sendo assim defendia-se, por exemplo, que a inteligência era mantida no cérebro e dotada pelo formato craniano e tamanho, além de outros detalhes, procurou-se a todo custo por via de meios distorcidos que havia uma hierarquia marcada pela diferença que iriam de acordo com as características do crânio, era uma maneira de manter aceso o interesse dos dominantes, o fato foi defendido por alguns cientistas da época.

A escala unilinear das raças humanas e seus parentes inferiores, segundo Nott e Gliddon, 1868 mostra o crânio do chimpanzé que aparece incorretamente aumentado, e a mandíbula falsamente distendido para dar a impressão de que os negros poderiam se situar até abaixo dos símios. (GOULD, 2005, p. 19)

O determinismo biológico foi um fundamento que acreditava que o modo de agir

humano, seus atributos intelectuais, características corporais e afins eram transmitida por meio da hereditariedade, o que claramente fortifica a fixação de alguns estereótipos que são presentes até hoje. No século XIX já era um fato que a hierarquia social tinha como um trilho central o homem branco europeu acima, os indígenas abaixo do branco e o homem negro

abaixo de ambos. Logo então a raça branca foi coroada de maneira conjunta superiores aos negros e aos indígenas, por englobarem atributos físicos que vem da hereditariedade que os davam status de beleza, inteligência, capazes de liderar e dominar as demais raças, principalmente a negra que por motivos de ser a mais escura comparada às outras, era dotada de pontos negativos, dessa maneira sujeita aos horrores da condição escrava e da dominação.

Outro ramo determinista que carregava essa natureza racial foi o darwinismo social ou teoria das raças, essa nova linha enxergava com uma carga negativa a mestiçagem, segundo a Lilia Schwarcz: “acreditava que não se transmitiriam caracteres adquiridos, nem mesmo por meio de um processo de evolução social”. O núcleo consistia em engrandecer a existência da raça pura e entender que a miscigenação era um caminho para o desastre tanto racial quanto no campo social.

E houveram teses científicas elaboradas para confrontar e combater a miscigenação

como a eugenia, termo criado pelo cientista Francis Galton, esta foi uma variação avançada

do darwinismo social, este personagem tentava afirmar com provas partindo de estudos estatísticos mesclados a genealogia que a desenvoltura do homem enquanto era por via da hereditariedade. A eugenia era um tanto pavorosa e cruel, pois inserida e aplicada ao ramo científico o seu foco estava em produzir nascimentos vistos como puros e no campo social o impulso aos casamentos entre determinados grupos, havia uma crucificação e desestimulo entre uniões que pudessem futuramente gerar seres mestiços. A grande engrenagem estava ao redor da possibilidade de um progresso onde estava fora do plano a mestiçagem.

Diversas eram as explicações sobre o tema chegando as mais horrendas conclusões, por exemplo, para E. Renan os grupos compostos por negros, amarelos e miscigenados seriam rebaixados e inferiorizados não por serem incivilizados, mas por serem incapazes de absorver qualquer atributo da civilização e dessa maneira jamais conquistando algum tipo de progresso. O Conde de Gobineau reprovava a mescla de raças também, lançava um olhar totalmente demonizado aos mestiços e negros como seres decadentes.

Percebe-se que a visualização da diferença é muito antiga, mas acentuação da naturalização dela é algo não tão distante à idade atual, no século XIX as teorias sobre as diferenças tinha uma ambição de se tornar uma teia universal, verifica-se que certamente e de forma brutal a ciência teve o seu lado o sujo enquanto os impulsos para a concretização de um racismo científico, por se apegar a uma animalização do diferente tendo por cima uma maquiagem em nome do progresso científico, tanto que o contexto também foi marcado por diversas exposições de selo racista, eram verdadeiros zoológicos humanos, em nome desse progresso foi elaborado um fetiche de rebaixar e demonizar quem fugia de um padrão branco ocidental.

Referências

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O Espetáculo das Raças Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

SANTOS, Benedito Souza do. Violência simbólica e a dem(agogia)ocracia cultural:

uma abordagem social nas escolas. São Paulo: Baraúna, 2015.

WESOLOWSKI, Patrick. O Racismo Científico A Falsa Medida do Homem, Geledes, 2014.

MUNANGA, Kabengele. Uma Abordagem Conceitual das Noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia. Palestra proferida no 3º Seminário Nacional Relações Raciais e Educação PENESB-RJ, 05/11/03.