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Revista do Patrimônio

Histórico e Artístico Nacional nº 34 / 2012


História e Patrimônio
Organização: Márcia Chuva
Domi ni que Po u l o t
A r a z ã o p atri mo ni al na Europa

A rtístico N acional
d o século XV III ao XXI

O patrimônio, que se tornou símbolo abolidas desde o final da 2ª Guerra Mundial,

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de elo social, está hoje em toda parte, da recentemente fez recrudescer o sentimento
mobilização dos corpos políticos à instituição de urgência que sempre acompanhou e nutriu
cultural.1 Paralelamente, a realidade do a consciência patrimonial.
turismo internacional, tendo em vista a
importância de suas repercussões econômicas,
torna a interpretação do patrimônio, ou
mesmo sua simulação, um instrumento quase

do
sempre decisivo para o desenvolvimento local

R evista
(Greffe, 2003). O imperativo de conservação
da herança material e, de agora em diante, da
imaterial, impõe-se, portanto, sem discussão
nos países desenvolvidos, bem como no resto
do mundo. A cada dia adquire um caráter mais
geral e de obrigatoriedade, manifestando-
se por meio de dispositivos legais e de 27
regulamentação, cujo âmbito de aplicação se
amplia cada vez mais. Além disso, a realidade
das destruições (iconoclasmos religiosos ou
ideológicos, danos colaterais de conflitos ou
“domicídios” concertados),2 que, sem dúvida,
se tendeu a subestimar ou a considerar
Buda de 55 metros de altura no Vale Bamiyan, Afeganistão
Foto: F. Rivière, Unesco. Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons
(http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tall-Buddha-Bamiyan_F.Riviere.jpg)

1. Ver Beghaim (1998). As recomposições de heranças


materiais na Europa no final do século XX resultaram em uma A manifestação de um ponto de
patrimonialização nostálgica ou não (Boym, 2001; Verdery, vista contrário – uma eventual recusa da
1999), enquanto o ensaísmo cultural multiplicava as análises
do jogo referencial de “segunda mão” à Marjorie Garber patrimonialização ou sua crítica radical
Local do Buda destruído
(2003). Sobre os casos franceses Bensa A. e Fabre D., Une – só pode ser considerada “vândala”, pelos talibãs em 2001 no
histoire à soi, Mission du Patrimoine ethnologique, cahier nº 18, Vale Bamiyan, Afeganistão
Paris, MSH, 2001. estigmatizada como tal, ou, ao menos, Acervo: Wikimedia Foundation/
Wikicommons
2. J. Douglas Porteous e Sandra E. Smith (2001) fornecem a (http://en.wikipedia.org/wiki/

geografia dos empreendimentos deliberados de destruição de


não significativa no debate público. A File:BigBuddha.jpg)

moradias e territórios construídos. emergência de críticas tornou-se, de fato,


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bastante improvável afora a expressão de objeto específico, por ser, ela própria, vítima
divergências sobre a melhor maneira de da diversidade dos campos de intervenção
tratar os monumentos, os objetos e os sítios. e de competência dos serviços aos quais
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Mais que isso, essas preocupações, outrora deve prestar contas. Não raro, ela espelha
estreitamente profissionais, passaram a as partilhas entre disciplinas e histórias
ocupar amplamente o espaço público, especializadas, que resultam em um diálogo
ensejando numerosos colóquios, oficinas ou de surdos, ou mesmo em conflitos implícitos
entrevistas, onde são debatidos os meios e (Poirrier e Vadelorge, 2003). Tanto que,
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os fins, o futuro e os limites eventuais do na França, o patrimônio suscitou apenas,


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fenômeno, em geral, dentro das próprias de maneira geral, um interesse bastante


instituições patrimoniais.3 A perspectiva relativo no campo da pesquisa em história e
“erudita” na matéria assemelha-se, em ciências sociais – à diferença do arquivo,
sobretudo, a um levantamento das expertises a um só tempo objeto e instituição de
feitas de forma contraditória sobre esta ou memória relativamente próximo à primeira
aquela iniciativa da administração, ou sobre vista.5 Contudo, da mesma forma que o
esta ou aquela opção de restauração ou de crescimento da preocupação com a memória
do

intervenção (Bessy e Chateaubriand, 1995). permitira outrora a Pierre Nora pensar os


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Os comentaristas não se furtam em destacar lugares de memória nacionais, a atualidade


as contradições ou as ambiguidades dessa viva da patrimonialização é um convite para
gestão, os limites das políticas públicas e, questionar a construção dessa forma de
com mais frequência, todavia, o peso dos obrigação e de responsabilidade no tocante à
constrangimentos externos para lastimar presença material do passado.6 A atualidade
desvios em relação a uma suposta idade dessa abordagem é evidente: se o arquivo
28 de ouro da preservação, e para reafirmar contou, na antiga configuração dos saberes
a necessidade de uma política sempre históricos, com a vantagem do segredo a ser
respaldada na erudição dos especialistas.4 desvendado – que lhe era constitutivo –,
A perspectiva de uma história da o patrimônio pode contar com a vantagem
administração cultural, por mais que liberta
das argúcias de militantismos contrariados, 5. O arquivo assumiu o caráter de uma metáfora central
no trabalho da teoria cultural depois de Michel Foucault e
não basta tampouco para construir um Jacques Derrida na reflexão epistemológica conduzida por
historiadores e antropólogos sobre a questão da leitura dos
arquivos, assim como em uma série de interpretações da
paisagem, do corpo ou da fotografia (Rosalind Kraus), bem
3. Dos Entretiens du Patrimoine aos encontros Musée-Musées antes de ser objeto de uma (re)apropriação crítica pelos
do Louvre, a atualidade recente francesa é testemunha arquivistas. Tornou-se aos poucos uma figura privilegiada para
de um movimento internacional iniciado no começo da pensar a tecnologia estatal, sobretudo em sua versão imperial
década de 1970, por mim assinalado em Le Débat do século XIX. Em termos foucaultianos, dir-se-ia que o
na ocasião. patrimônio não é a soma dos monumentos conservados nem
4. Tal é, finalmente, o propósito de Françoise Choay em a instituição que os conserva, mas as regras de sua prática, o
L’allégorie du patrimoine (1996). Por outro lado, uma sociologia sistema de seus julgamentos. Para o estado da arte cf. Jean
crítica e o projeto de uma arqueologia geral, concorrente com Boutier, Jean-Louis Fabiani, Jean-Pierre Olivier de Sardan
a história da arte, esboçaram uma denúncia do patrimônio, (1999, 2001).
tido por braço armado desta ou daquela disciplina, ou como o 6. Sobre o caso dos museus ver Ludmilla Jordanova (1989) e
defensor de interesses particulares. Daniel J. Sherman (1989).
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da sua publicidade na nova disposição da herdado e o que é (re)construído, ou entre
história cultural, na qual o explícito é, por ficções sinceras e invenções desonestas, do
sua vez, privilegiado pela investigação. que de questionar a produção e o consumo

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Convém apreender a história dos da própria evidência patrimonial, a um só
patrimônios como conjuntos materiais e, de tempo imaginário e instituição.10
modo indissolúvel, como saberes, valores O patrimônio é como o princípio
e regimes do sentido.7 Dessa forma, será subterrâneo e a manifestação autoproclamada
preservado da teleologia manifestada, por de um trabalho social e intelectual: querer

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exemplo, na criação de séries retrospectivas apreender o gesto patrimonial no seio da

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de episódios tidos a posteriori como história social e cultural é pensar nos recortes
“patrimoniais” e que, presumidamente, e nos “enquadramentos” aos quais ele se
desembocam na legislação contemporânea.8 consagra em uma relação sempre complexa
Evitar-se-á, ainda, a tentação de estabelecer com o que o organiza. A temporalidade
topografias dos patrimônios sob a forma material – segundo a expressão usada por
de inventários de “outro país” sem maiores Bernard Lepetit (1995) para evocar a paisagem
implicações para nós. Ou repertórios que urbana do tempo solidificado – aí adquire

do
enunciam os comportamentos em relação valor em nome de vínculos, de convicções,

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ao passado material segundo uma escala mas também de racionalizações eruditas e
de julgamentos – morais e profissionais de condutas políticas. A relação íntima ou
–, do desprendimento científico ao zelo secreta de um proprietário, de usufrutuários
partidário, de modo a expor falsificações a títulos diversos, de especialistas ou de
e manipulações, desconsiderando a iniciados em determinados objetos, lugares
complexidade do investimento em todo ou monumentos, torna-se pública, quando
processo de patrimonialização.9 Trata-se esses são patrimonializados. Inversamente, 29
menos de distinguir entre o que é de fato como exposto por Simmel, aspectos outrora
públicos da herança partilhada ficam,
certamente, sob a garantia do segredo.11
7. Ver, além dos estudos clássicos de David Freedberg, Ann
Kibbey (1986).
8. Ao assumir a parte de anacronismo que reveste um
intitulado de história do patrimônio para os séculos que 10. Esse breve panorama dos pontos de vista a propósito do
precederam ao nosso, meu projeto se exporia senão à patrimônio, que me disponho a desenvolver ulteriormente,
reprovação de identificar uma “essência” do patrimônio ao remete aos mesmos sistemas de partilha observados em
longo dos séculos. O fenômeno é particularmente evidente outros campos quando se trata de “discutir o indiscutível”,
em uma tradição de compilações legislativas frequente na conforme a demonstração de Alain Desrosières,
Itália por motivos evidentes: Leggi, bandi e provvedimenti per la particularmente na razão estatística e no debate social. A
tutela dei beni artistici e culturali negli antichi stati italiani, 1571- oposição passa, por um lado, entre a descrição e a prescrição
1860, editado por Andrea Emiliani (1996). Sobre os usos do e, por outro lado, na própria linguagem da ciência, entre
anacronismo, ver as reflexões de Nicole Loraux (1993) e G. “posição realista” que fala da “fiabilidade da medida” e o
Didi-Huberman (2000). esforço da história social ou da sociologia construtivista do
9. David Lowenthal propôs, sucessivamente, esses dois conhecimento para examinar os laços entre taxionomia e
tipos de abordagens em duas obras enciclopédicas, The sociedade. Ver Alain Desrosières (1993).
past is foreign country (1985) e em The heritage crusade and 11. Sobre este texto de Simmel, ver Pierre Nora (1976).
the spoils of history (1998), que respondiam a um programa Daniel Fabre desenvolveu a problemática do “viver no
resumido anteriormente em David Lowenthal & Marcus patrimônio” no presente em Domestiquer l’histoire – Ethnologie
Binney (1981). des monuments historiques (2000).
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O patrimônio encarna, em suma, um de objetos e culturas; e, por fim, que engaja
“crescendo em generalidade” de obras e narrativas de acesso, de (re)apropriação, de
objetos singulares, concebido de forma útil fruição, que constroem diversas convenções
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para a ação de conhecimento e de conservação eruditas e populares.


coletiva.12 Nisso, o patrimônio parece Pretendo, pois, desenvolver,
constituir um campo de aplicação privilegiado simultaneamente, três eixos de investigação,
para reexaminar três questões sob o ângulo a saber:
da circulação social: a do olhar erudito sobre
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obras e objetos materiais; a da historicização 1. A


 credibilidade patrimonial
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de uma sociedade e, de forma mais geral, de


sua relação com “regimes de historicidade”;13 Em um momento no qual o simbolismo
e, por fim, a da ética e da estética que do patrimônio desempenha um papel
dela decorrem ou à qual estão ligadas (a tão importante no debate público,
exemplaridade e a adesão,14 mas também a especificamente em recomposições mais ou
emancipação ou a denegação).15 menos voluntaristas de legitimidade cultural,
A partir dessas conquistas, pode-se não se pretende aqui sondar a opacidade
do

adiantar que a evidência do patrimônio se dos seus objetos em uma abordagem


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enuncia nos discursos contemporâneos sob hermenêutica própria à história da arte; nem
forma de uma “razão” específica; que ela estabelecer, paralelamente ao seu interesse
mobiliza sociedades e procedimentos diante artístico, documental, ilustrativo ou erudito,
seu valor de comunicação em nome de
12. O patrimônio pertence em grande parte ao domínio do
“paradigma indiciário” de Carlo Ginzburg, mas, desdobrado,
eventuais disciplinas – museologia, heritologia
se assim se pode dizer, já que a inclusão de um monumento no (Pickstone, 1994). Não se trata, tampouco,
patrimônio remete, por um lado, à sua época histórica e, por
30 outro lado, ao trabalho dos serviços que assim o definiram: ele
de traçar a progressiva elaboração de uma
é, dito de outra forma, o indício e o ícone de duas épocas. Que consciência coletiva, desde os balbucios
as representações escamoteiam as práticas que as organizam é
uma das lições de Michel de Certeau na sua reflexão sobre a dos primeiros arautos até seu coroamento
heterologia e a história. sob uma administração esclarecida; nem
13. “Regime de historicidade” – “[...] podia ser entendido de
duas formas. Em uma acepção restrita, como uma sociedade de escrever a crônica de progressivos
trata seu passado e o utiliza. Em uma acepção ampla, na qual enriquecimentos, no crescendo da proteção
o regime de historicidade serviria para designar a modalidade
de consciência de si de uma comunidade humana” (François aos monumentos e na multiplicação dos
Hartog, 2003:19). Cf. os trabalhos de Gérard Lenclud (1992)
e de J. Revel (1995). Ver também J. Revel e F. Hartog (2001).
museus. A perspectiva é, ao contrário, de
Um ponto de vista sociológico que se interessa pela relação desconstruir as representações de identidade
com a temporalidade é o de Andrew Abbott (2001 e 2003).
14. A sociologia da legitimidade cultural deveria ser convencionadas de um “patrimônio”
integralmente citada aqui. Sobre a história intelectual da para insistir sobre as novas configurações
exemplaridade, assim como a das obras-primas que atravessam
a do patrimônio sem recobri-la exatamente, ver Walter Cahn de seu estatuto, sobre suas incessantes
(1979) e Michel Jeanneret (1998). recontextualizações, sobre as desvalorizações
15. A literatura sobre o conjunto desses assuntos é vastíssima,
mas os escritos mais úteis parecem-me ser Moses I. Finley e as deslegitimizações que o permeiam.
(1990), Arnaldo Momigliano (1998), Peter Burke (1969),
Donald R. Kelley (1997) e seu comentário crítico por Jean-
O discurso patrimonial foi inicialmente
Pierre Cavaillé, George Huppert (1973) e Paul Ricoeur (2003). uma categoria de celebração própria à
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Exemplo de vandalismo ideológico na França: Abadia de Cluny, demolida entre 1798 e 1823, e reconstruída posteriormente. Foto: Patrick Giraud
Acervo: Wikimedia Foundation/Wikicommons. (http://fr.wikipedia.org/wiki/Fichier:Cluny_Tours_et_Clochers.jpg)

literatura artística, sob a forma de “exaltação mais espetaculares decorre – no domínio


a uma cidade ou nação apreendidas em suas do edificado –, ao lado da conservação
tradições e obras”, como André Chastel o stricto sensu, do surgimento de intervenções
resumiu com base em Julius Von Schlosser. que respondem à progressiva instauração 31
A Idade Moderna assistiu à multiplicação das de um academicismo da conservação-
listas de obras e coleções de cidades no campo restauração (Denslagen, 1994; Jokilehto,
da escrita antiquária (Schlosser, 1984).16 Em 1999; Sette, 2001).17 O vínculo da nação
seguida, com a nova configuração cultural com a conservação passa por evidente com
aberta pela Revolução Francesa, o propósito a emergência de “comunidades imaginadas”
se confundiu com a luta contra o vandalismo: (Anderson, 1991): a maioria dos objetos
ele se tornou um compromisso para a “que contam”, e cuja beleza pertence a
manutenção do status quo. No apagamento todos – como Victor Hugo proclamou –
do Antigo Regime nos objetos de memória torna-se a encarnação do “espírito” de uma
e nas suas civilidades, veem-se configurar coletividade particular (Miller, 1998). Eles
novas relações com a coletividade ao longo se inscrevem em um lugar – uma jazida –,
do século XIX. Uma das manifestações que eles ilustram e que os engaja em uma

16. Pouco estudados na França, esses campos são, ao contrário,


bastante explorados na Inglaterra: ver Rosemary Sweet (1997, 17. Ver também os estudos de caso reunidos em P. G. Stone e
cap. 1, notadamente sobre o antiquariato). G. Planel (1999).
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reivindicação de autoctonia em um culto da uma profusão de esforços públicos e
transmissão.18 Percorrer os objetos nacionais, privados em benefício de comunidades
tal um proprietário, torna-se, para o cidadão, múltiplas (Penna, 1999 e Clifford, 1997).
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um ato político – uma prova de civismo. Esse Paralelamente, um patrimônio mundial


comércio particular com as “lembranças” marcado por controvérsias pós-coloniais
delineia formas culturais gerais e coloca em notórias abre-se para um retorno reflexivo
ressonância estética e política, do sublime à sobre sua composição e seus usos.20 Se, em
nostalgia, dando lugar a enunciados múltiplos todos esses casos, a perspectiva histórica
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do in situ (Marchand, 1996). A arqueologia, pode ensejar uma tomada de consciência


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em particular, fornece um conjunto de dos silêncios e das falsas evidências, o


demonstrações reinvestidas ao sabor de papel de uma história do patrimônio não se
eventuais revivals.19 confunde com uma profissão de ceticismo
Ao longo do século XX, a noção epistemológico, com a denúncia dos abusos
de conservação engaja claramente uma do passado, ou com a simples inversão do
representação da historicidade: o princípio processo em proveito de objetos esquecidos
de precaução contém uma conservação ou negligenciados.
do

dita “preventiva” definida de forma estrita, O estudo da “vida social dos objetos”
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enquanto as reflexões administrativas não (Appadurai, 1986) – apreendido, em


cessam de afirmar que o patrimônio é “um particular, nos jogos do colecionismo
presente do passado” (Group-Conseil, ou mais geralmente na sua recepção –
2000). Paulatinamente, o patrimônio orienta-se há alguns anos para uma história
assume uma posição crítica sob a forma de suas práticas de admiração estética e
de um aproveitamento positivo e de um de memorização ética, de engajamento
32 julgamento de valor que afirma escolhas. erudito e de apego cívico. Tornou-se, da
Confessa-se marcado por embates políticos, escola de Warburg a Arnaldo Momigliano
econômicos e sociais, que ultrapassam ou Frances Yates, de Paolo Rossi (1993)
largamente as fronteiras disciplinares a Mary Carruthers (2002), ou Caroline
(entre história, filosofia, estética ou Bynum (2001), uma frente pioneira da
história da arte, folclore ou antropologia) história cultural e política. Por meio de
–, assim como o mostrou, ao longo da perspectivas diversas oriundas de tradições
década de 1970, o reconhecimento de culturais e nacionais heterogêneas, ou
“novos patrimônios”. Tal é ainda o caso mesmo de regimes científicos incompatíveis,
da conservação dos recursos intangíveis, esboça-se, contudo, uma imagem. Assim,
ou da conservação cultural definida no Leonard Barkan mostrou a relação entre
início da década de 1980 e que recobre a arqueologia e a emergência da categoria

18. Ver Yan Thomas (1980:425 e 1998) e o trabalho em 20. Ao lado das disputas já antigas sobre restituições de
andamento do Garae sobre a vertente antropológica. obras, Moira G. Simpson (1996) forneceu um quadro dos
19. Dois exemplos muito significativos: John Hutchinson debates atuais sobre a restituição de objetos sacros e de restos
(2001) e J. F. Gossiaux (1995). humanos. Para uma análise exemplar ver Yves Le Fur (1999).
Bem restaurado pós-vandalismo na França, século XIX. Detalhe da fachada da Catedral de Notre-Dame, Paris. Foto: Glória Torrico, 2008

Bem restaurado pós-vandalismo na França, século XIX. Detalhe da fachada da Catedral de Notre-Dame, Paris. Foto: Glória Torrico, 2008
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estética no Renascimento (Barkan, 1999).21 de suas práticas e fruições.26 Gostaria de
Outros estudos procuram relacionar mostrar como são relatados os “achados”,
os objetos, as práticas e os discursos por meio dos inventários, dos percursos
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que gradualmente constituíram o saber e dos intercâmbios; como se elaboram,


da história da arte, do museu ao livro paralelamente, as intrigas, os tipos de
ilustrado e à cátedra (Haskell, 1993).22 inventores e os estilos de patrimônios em
Reexaminando as grandes narrativas do relação com a “ecologia das imagens” e dos
saber antiquário e histórico, da emoção lugares. É essencial aqui a elaboração de
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visual (o deslumbramento, a ressonância23) um sentido visual do passado, das paisagens


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e da vontade política e social, trata-se aqui monumentais das cidades às do campo, em


de deslocar a perspectiva, de uma genealogia uma relação complexa com a historiografia e
da estética e das disciplinas antiquárias à com os aprendizados eruditos. O estudo do
das convenções patrimoniais como regime patrimônio responde, em sua generalidade,
material e grandeza do passado.24 Dar- aos três princípios de perceptibilidade, de
se-á atenção, em particular, às crises e às especificidade e de singularidade próprios
tensões sociais e políticas; às polêmicas à sociologia da recepção, tal como Jean-
do

e aos conflitos artísticos e culturais;25 às Claude Passeron (1992, cap. IX e XII) o


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desarticulações repentinas ou progressivas explicitou. Cada um dos objetos “que contam”


das relações com o passado e o futuro. Tais é identificado por meio de guias, relatos de
momentos assistem à invenção de poéticas viagem, correspondências, diários, catálogos,
patrimoniais inéditas em suas definições, em função de reproduções em circulação, da
escolhas e exigências. importância das evocações ou das citações das
quais é o pretexto ou o princípio. Dar-se-à
34 2 . A s c i v i l i d a d e s d o p a t r i m ô n i o atenção às articulações desses objetos em
diferentes discursos ou argumentos, eruditos
A história da invenção e da publicização ou familiares, e à encenação de seus “amigos”
do patrimônio, pela exposição e pela – em redes de socialização erudita e artística
escrita, deve ser considerada graças ao e, especificamente, segundo os modelos
estudo dos meios empregados para o seu disponíveis de apostolado patrimonial.27 De
(re)conhecimento; graças à análise de seus fato, morais individuais e éticas coletivas são
modos de identificação e de gestão, jurídicos elaboradas ou adotam novas configurações em
e eruditos; graças, enfim, à abordagem relação a legados mais ou menos reivindicados
e “achados” mais ou menos oportunos.
Assim, conviria interrogar a forma na qual
21. Ver a continuação em Haskell e Penny (1981).
22. Pode ser complementado por Burke (2001).
23. Retomando as formulações gerais propostas por Stephen 26. Para um exemplo de um ponto de vista metodológico ver
Greenblatt e Helga Geyer-Ryan (1990). Sharon Macdonald (1998) e, em especial, Lynne Cooke e Peter
24. Retiro essa perspectiva de Clifford Geertz (1983). Wollen (1998).
25. Ver notadamente sobre a abordagem dos sciences studies e 27. Conviria comparar com a ética da república das letras
suas possíveis adaptações às cenas centrais e locais Jean-Louis considerada por Ann Goldgar (1995) e criticada por
Fabiani (1997). Christian Jouhaud.
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a emulação erudita e a rivalidade na fruição a História, afirmações moralizadoras e
das coisas se exacerbam mutuamente, por enumeração de hierarquias.
exemplo, em proveito da identidade de Uma enorme diversidade de modos

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uma população, de uma memória religiosa de fazer passa a operar. Modos de fazer que
(os Vaudois de Alexis Muston, saudado por devem ser questionados do ponto de vista
Michelet) ou de uma cidade. notadamente do tipo de escrita comum
Os “amigos” dos objetos patrimoniais, encontrada em apontamentos de laboratório,
amadores ou profissionais, polígrafos ou em anotações de pesquisa, cuja riqueza a

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especialistas, militantes e funcionários, etnologia começou a explorar.30 O homem

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constituídos em comunidades de do patrimônio em campo, distinguindo-se do
interpretação, erigem-se em porta-vozes ou homem comum, deve referenciar o objeto
em advogados das inovações, apropriações com suas coordenadas – temporais, espaciais
e atribuições.28 Algumas dessas figuras – o –, para situá-lo em suas ambições, explicá-lo,
antiquário e sua ruína, o conservador e interpretá-lo.31 Esse percurso é sempre mais
seu museu, o folclorista e seu campo – ou menos uma autodidaxia, como, desde o
tornaram-se aos poucos estereótipos quase século XVIII, se afirmava do connoisseurship,

do
antropológicos.29 Observá-los permite tido como um saber apreendido à força

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questionar as identidades construídas pela de “andanças”, ou seja, de viagens e de
reciclagem de imagens, objetos e práticas intercâmbios. Daí em diante, o leque de
deserdadas e simultaneamente “dadas” em curiosidades se abriu, ensejando a coleta
herança. Dir-se-ia que os objetos patrimoniais de grande número de detalhes, de recursos
permitem localizar diferentes configurações complementares ou intermediários, com ares
de um social que se desdobra por meio de furtivos.32 Toda uma economia da arqueologia
suas partilhas e recusas. Esses dependem e esboça-se, por exemplo, das descobertas 35
se conservam a partir de procedimentos, fortuitas no cultivo da terra até sua invenção
de convenções discursivas, de exigências por antiquários locais e seu reconhecimento
materiais ou técnicas. Os guias de estudo
ou os manuais pedagógicos, os documentos 30. Daniel Fabre (1993), Martin de La Sourdière e Claudie
oficiais, e as atas das sociedades eruditas Voisenat (1997) e em outro plano, para figuras de escrita
expostas, sendo algumas patrimonializadas, ver Armando
– e, mais amplamente, os romances Petrucci (1993) e Béatrice Fraenkel (2002).
31. Bonnie Smith (1998) examina a questão de gênero no
familiares dos patrimonializadores e toda trabalho de arquivo e o seminário – particularmente a relação do
a literatura dos apegos aos monumentos trabalho original e da vulgarização, do amador e do profissional
– de uma forma que poderia ser útil aqui para pensar o lugar do
pertinentes – alimentam especulações sobre feminino na elaboração de um corpus patrimonial e sua validação.
as nomenclaturas e interrogações sobre Ver de forma mais geral o dossiê reunido por Luisa Passerini e
Polymeris Voglis, Gender in the production of History.
32. Tomo este termo emprestado à clássica análise de Michel de
28. Os estudos de microssociedades e trocas informais em seu Certeau (1980:36). A uma produção racionalizada, expansionista,
seio multiplicam-se hoje em história moderna e contemporânea. tanto quanto centralizada, ruidosa e espetacular, corresponde uma
Algumas observações bastante sugestivas de Miguel Tamen (2001) outra produção, qualificada de “consumo”: essa é astuta, dispersa, mas
podem, desse ponto de vista, servir de base metodológica. se insinua por toda parte, silenciosa e quase invisível, já que não se
29. Stephen Bann (1984), Donald Preziosi (2003) e minha nota faz notar com produtos próprios, mas pelas maneiras de empregar os
crítica na Revue de l’Art, setembro de 2004. produtos impostos por uma ordem econômica dominante.
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no seio da erudição nacional, economia de dedicar um interesse particular aos princípios
longa duração desde o Antigo Regime até de construção de um corpus, à estratégia do
as redes mais densas da poligrafia do século trabalho em comissão – forma de resposta
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XIX (Woolf, 2003). No distanciamento ou na a crises e/ou a problemas de definição –,


proximidade das peças, na permanência ou e aos modos de inspeção e de inscrição em
na fugacidade de sua exposição, na sedução séries que pressupõem, com frequência, uma
eventual dos processos de sua reprodução cadeia de categorias a serem preenchidas, de
entra em jogo uma publicidade ampliada dos lugares a serem verificados, em resumo, uma
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patrimônios, que tece laços complexos com hierarquia a ser enumerada. A documentação
e
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o comércio de objetos e de imagens baratas, patrimonial, assimilada por Guizot ao gênero


de mais ou menos “bom gosto”, nas franjas do da estatística descritiva alemã, cria algarismos
popular e do pitoresco.33 – o que Eric Brian denomina “inscrição dos
Em todos os casos, as viagens improvisadas signos numéricos em condições particulares de
e as missões planejadas, as visitas e as coletas, as produção”. São algarismos comparados pouco
compilações e as investigações, as intervenções a pouco, de uma nação a outra, para medir
restauradoras e o aprendizado de modos de os “pesos” relativos dos patrimônios, e que
do

fazer elaboram e sancionam procedimentos.34 conviria analisar no âmbito dos intercâmbios


R evista

Os detalhes a serem apreendidos ou, ao entre eruditos, administradores ou


contrário, as partes a serem negligenciadas legisladores, e a opinião pública (Brian, 1994).
respondem a diversos gêneros de inscrição do Ela produz também “coleções efêmeras”,
notório e do pertinente no seio de repertórios torcendo a fórmula de Francis Haskell, que
a construir (Leask, 2002). A tentativa de são outras tantas (re)produções – pela imagem
construir uma história patrimonial da cultura (Mondenard, 2002) e pela escrita – de
36 material exige debruçar-se sobre a erudição e objetos isolados em uma recontextualização
o colecionismo, suas disposições tácitas, suas ad hoc, a da identificação de um Estado em
pequenas ferramentas, suas fruições mudas. um determinado momento do saber e do
Em suma, sobre todos os gestos e saberes que gosto. Ela fornece às gerações seguintes
organizam a percepção e a representação dos representações concorrentes, e em todo caso
objetos em função de hierarquias entre saberes fictícias, de um conjunto imperceptível como
locais, vínculos particularizados e o horizonte tal, salvo se imaginarmos uma cartografia
de conhecimentos gerais de um homem de que se sobreponha ao território.36 Com
sociedade.35 Para além disso, tratar-se-á de frequência, essas imagens não permitem que
se considere o detalhe dos procedimentos
de apresentação e de conhecimento que
33. Rosemary Hill (1997) e mais geralmente uma grande parte
dos artigos da revista Things, como os de Res no campo da levaram a esse último estado. Que se avaliem
antropologia. as incertezas das ofertas, das escolhas e dos
34. Cf. as perspectivas a partir de objetos de ciência abertas
por Eric Brian (1999).
35. Ver Peter Becker e William Clark (2001). Para a oralidade, 36. Thomas DaCosta Kaufmann (2004) fornece um
Françoise Waquet (2003) e para as comparações com a vida de balanço historiográfico que, em certos aspectos, atravessa
laboratório a obra de Bruno Latour. a questão.
A razão pat r i moni al na Europa. . .
meios que marcaram, ou mesmo balizaram, privilegiado (Cardinal, 2001). As histórias
de perto, a realização de um inventário – de vida ou os romances familiares – como
sempre no horizonte do projeto patrimonial. o dos Visconti, conservadores do Vaticano e

A rtístico N acional
Por fim, o jornalismo patrimonial, se assim se depois do Louvre, no final do século XVIII,
pode chamá-lo, que periodicamente noticia que acompanharam seus objetos ao longo
“invenções” e descobertas, opera regularmente das ocupações e das revoluções – oferecem
para os ajustes entre os sentidos de um a possibilidade de articular singularidade
passado e a consciência do presente.37 Com de comprometimentos particulares e

D om in iqu e Pou lot


isso, contribui, provavelmente, tanto para compartilhamento de valores coletivos.

e
P atrimônio H istórico
normalizar as diferenças como para colocar em
destaque a singularidade de um monumento 3. A
 ciência moral do
ou de uma peça para a inteligência da história e patrimônio
o orgulho coletivo.
Para além de uma geografia, essencial para A fruição do patrimônio, que gerou
a configuração patrimonial, as atividades dos uma abundante literatura, sendo algumas
amigos de objetos delineiam uma economia obras-primas, nutriu-se, sobretudo, de

do
do faro e do acaso, a de serendipity,38 que está argumentos e de convenções, ou mesmo

R evista
na origem de achados bem-apresentados de um legendário, moral e historiográfico.
e, por meio desses, de uma hierarquia Esse alimenta os questionamentos sobre os
dos “patrimonializadores”. Esses últimos estágios da história e as especulações sobre
estabelecem um diálogo complexo com os as primeiras mitologias, mas também as
colecionadores, com os “acumuladores” de afirmações sobre os modelos e os depósitos
objetos “selvagens” ligados ao imaginário de valores. O imaginário social da genealogia
arqueológico ou, ainda, com os atores de marcou profundamente, durante o Antigo 37
folclorismos mais ou menos ligados a uma Regime, a ideia de transmissão. As noções
“performatividade” comemorativa e presentista de boa economia de uma família se unem
(Kirshenblatt-Gimblett, 1989; Myrone & a essas exigências quando a Encyclopédie
Peltz, 1999). Donde a questão do sucesso ou de Diderot e d’Alembert sublinha que
do fracasso dos antiquários, dos colecionadores o curioso desestabiliza a sua fortuna, na
evérgetas ou dos conservadores de museus tradição dos moralistas do Grand Siècle.
eruditos, quando seus conhecimentos ou suas Mas, às vésperas de 1789, o Watelet faz o
paixões são pouco ou malcompartilhados ou, elogio dos gabinetes patrióticos, supondo
ao contrário, quando saudados por um coro um novo ideal do colecionismo basculado
de elogios são objeto de um reconhecimento sobre o presente de uma modernidade
francesa, da qual se começa a vislumbrar as
37. Ver a contribuição de Daniel Woolf a Brendan Dooley e perspectivas.39 Na sequência, a descrição,
Sabrina Baron (2002).
38. Ver sobre esse termo criado por Horace Walpole, em
1754, e seus recursos para uma sociologia e uma antropologia 39. Nesse campo marcado por Colin Bailey (2002), aguarda-
históricas do trabalho erudito Robert K. Merton e Elinor G. se a tese de Charlotte Guichard sobre o amador (EHESS, sob
Barber (1992). minha orientação).
A razão pat r i moni al na Europa. . .
por vezes paródica, das imperfeições e dos regionais. Sem se submeter à geografia
ridículos do colecionador, opostos à moral do artística nesse assunto, a historiografia
museu, marca os dicionários e as fisiologias inglesa está também fortemente ancorada
A rtístico N acional

da primeira metade do século XIX.40 O Grand na sua relação com os colecionadores, por
Dictionnaire Universel de Pierre Larousse, no motivos complexos ligados tanto a uma
final da década de 1860, renuncia a “passar em argumentação patrimonial, quanto ao
revista todas as variedades, todas as audácias, elogio da inteligência da mercadoria, no seu
todas as singularidades da coleciomania”.41 Ele circuito do marchand ao proprietário. Na
D om in iqu e Pou lot

mostra, como Clément de Ris em La curiosité França da segunda metade do século XIX,
e
P atrimônio H istórico

(1864), que o colecionismo está à beira da a atividade de divulgador de um Philippe


doença mental ou, na terminologia da época, de Chennevières e o surgimento de uma
da “medicina experimental”.42 imprensa erudita vinculada ao colecionismo
Uma tradição da história da arte insiste, mostram o elo entre o elogio das coleções,
no entanto, de maneira diferente segundo o esforço de avaliação das escolas regionais,
os países, é verdade, sobre o papel de enfim, a vontade de dispor de uma história
destaque dos colecionadores não apenas nacional. O início das investigações eruditas
do

na constituição de patrimônios coletivos sobre os colecionadores do passado


R evista

e na elaboração de um corpus de saberes. mantém, entretanto, uma relação ambígua


Mas, ainda, como artistas ou protagonistas com a cultura material contemporânea.
de revivals,43 na configuração de um gosto O historiador da literatura Brian Rigby
nacional. Tanto isso é verdade que um sublinha o quanto, nos grandes romances do
patrimônio de mau gosto só é imaginável em século XIX, a descrição da vida dos bibelôs
determinadas condições.44 Esse legendário – acompanha-se “de uma resistência complexa,
38 no sentido empregado por Michel de Certeau estética e moral, aos objetos” – como
– pretende convencer sobre a inteligência, a em Flaubert.
perspicácia e a generosidade do colecionador. Considerando os diferentes graus de
O que se verificou em particular na intimidade social com o passado material, a
história da arte italiana, na qual numerosos distribuição desigual de “grandezas” – entre
colecionadores foram objeto de monografias coleções e museus (Wright, 1996:229-39
elogiosas, relacionadas com um “espírito de e Coombes, 1988) – tentar-se-á mostrar
campanário” nutrido da tradição de escolas se e como o antigo regime dos objetos de
memória e de suas civilidades saiu de cena
40. Ver os trabalhos clássicos de Krzysztof Pomian (1987 em proveito de novas referências e de novas
e 2003) sobre o léxico, a semiologia e a história dos partilhas (Herzfeld, 1997). Pois muitos dos
colecionadores e do colecionismo; e um balanço por Françoise
Hamon (2001). amigos de objetos parecem, ao longo dos
41. Verbete “coleção”, t. VI, 1868. séculos XVIII e XIX, ter sido desapossados,
42. Ver as figuras do colecionador, do excêntrico e do esteta
descritos por Dominique Pety (2003). tanto material como simbolicamente, de
43. Sobre esse aspecto, a seleção feita por Giulio Carlo Argan
(1974) permanece sugestiva.
suas disposições individuais pela experiência
44. Ver a demonstração sugestiva de Lionel Gossman (2002). histórica, quando se elabora um movimento
A razão pat r i moni al na Europa. . .
coletivo dedicado ao “patrimônio” e à social e cultural. Esse é um campo de
história nacional.45 Mais tarde, as disposições investigação que se situa entre epistemologia,
da conservação articulam-se de modo estética e ética ou teoria política, que se pode

A rtístico N acional
cada vez mais visível às vicissitudes dos apenas assinalar aqui.
estereótipos nacionais, à construção de Agrupando esses três eixos sob uma
narrativas identitárias e à massificação perspectiva de investigação unificada pela
dos públicos, notadamente por meio das atenção dedicada aos mundos do patrimônio –
mutações da cenografia histórica ou da para retomar uma fórmula doravante clássica

D om in iqu e Pou lot


museografia internacional (Duncan, 1995). de Howard Becker –, trata-se de contribuir

e
P atrimônio H istórico
Ao menos, a abertura de museus públicos para a análise histórica de um fenômeno social
enseja novas tomadas de posição diante e de uma instituição, de categorias de saber
de potenciais objetos afetivos, quer sejam e de gosto, enfim de práticas e recepções.
nacionais ou exóticos, a contrapelo de uma Pretendo dar continuidade, a propósito
instrumentalização unívoca (Preziosi, 2003; desse objeto, ao diálogo entre a história e
Plato, 2001; Baker e Richardson, 1997; as ciências sociais engajado, desde os meus
Conn, 1998; Thomas, 1991). A proliferação primeiros trabalhos, e aprofundado com a

do
de objetos patrimonializados que se usufruem vinculação a um novo laboratório colocado

R evista
e para os quais se luta – ou não – põe sob a influência do trabalho antropológico. O
novamente em questão a adesão dos cidadãos meu engajamento na equipe do Laboratoire
a um depósito de valores, a um common interest d’Anthropologie et d’Histoire de l’Institution
da imaginação e da arte, mas que é também de la Culture (Lahic) me proporcionou não
uma figura da alteridade.46 Tudo isso compõe tanto os “recursos” que a antropologia oferece
o que se poderia chamar de “moralidade” à história, mas sim a crítica que a antropologia
do patrimônio nas representações coletivas, faz a certa tendência da história de tratar 39
moralidade que pode tomar a forma ora de exaustivamente as fontes ou de necessitar
um programa de emancipação, até mesmo de que as mesmas expressem as ideias ou
subversão, ora o partido de um conformismo representações de um grupo social significativo
e não somente de indivíduos isolados.
45. Para o espaço alemão de autorrepresentação dispõe-se Resta considerar, em seguida, as
de Bénédicte Savoy (2003), que permite compreender sua
construção em torno de 1800 “graças” ao deslocamento construções patrimoniais como outros
francês. Susan A. Crane (2000) defende a tese da perda das
capacidades individuais da experiência histórica à medida
tantos “modos apropriados” de tratar o
que se fundem os interesses pessoais de colecionadores e passado, como outros tantos estilos – o
de amadores de história no seio de um movimento coletivo
dedicado ao “patrimônio” e à história alemães. Em outro plano, estilo encarnando uma “noção de perspectiva
H. Glenn Penny (2001) esboça um quadro bastante semelhante histórica” (Guinzburg, 1998:120), segundo
dos efeitos da publicidade museal sobre a natureza dos objetos
colecionados e sobre os discursos que lhes dão vida. Para um a formulação luminosa de Carlo Ginzburg.
estudo de caso, ver Alon Confino (1997). Exposições recentes consagradas, ora a atores
46. Remeto às análises sobre as bibliotecas, os livros e
os leitores conduzidas por Roger Chartier como outros da patrimonialização monumental – para
tantos modelos a serem testados para tal abordagem das
representações de patrimônios, de suas implicações políticas
além dos grandes iniciadores Mérimée e
e apropriações. Viollet-le-Duc, que são casos de escola –,
A razão pat r i moni al na Europa. . .
ora a fundadores de museus, ora, por fim, a Boym, Svetlana. The future of nostalgia. Nova York: Basic
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inventores de sítios arqueológicos, mostram
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