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CONSTRUÇÃO NACIONAL E CIDADANIA

ESTUDOS DE NOSSA ORDEM SOCIAL EM MUDANÇA

REINHARD BEN D IX

Tradução

Mary Amazonas Leite de Barros


8

REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E


MODERNIDADE*

“Modernização” é um termo que ficou em moda após a Segunda Guerra


Mundial. Ele é útil, apesar de vago, pois tende a evocar associações semelhantes
nos ieiíores contemporâneos. Seu primeiro impulso pode ser pensar em “m oderno”
em termos da tecnologia atual, com suas viagens a jato, exploração do espaço e
energia nuclear. Mas o senso comum da palavra “m oderno” engloba toda a era
desde o século XVIII, quando invenções como a m áquina a vapor e a m áquina de
tecer forneceram a base técnica inicial pára a industrialização das sociedades. A
transformação econômica da Inglaterra coincidiu com o movimento de inde­
pendência nas colônias americanas c a criação do Estado-nação na Revolução
Francesa. Conseqüentemente, a palavra “moderno” evoca também associações
com a democratização das sociedades, especialmente a destruição do privilégio
herdado e a declaração de igualdade dos direitos de cidadania.
Essas mudanças do século XVI11 iniciaram uma transformação das sociedades
humanas só comparável com a transformação dos povos nômades em agricultores
sedentários, cerca de 10 mil anos antes. Até 1750, a proporção da população ativa
do mundo empregada na agricultura era provavelmente superior a 80% . Dois
séculos depois, cra de cerca de 60%, e, nos países industrializados do mundo, caiu
abaixo de 50%, atingindo 10 a 20% cm países que já possuíam uma história
relativamente longa de industrialização. Na Grã-Bretanha, país pioneiro nesse

* Uma versão anterior desle ensaio foi publicada em Comparativo Stadics in Socicíy and H isiory, IX,
abr. 1967, pp. 202-346, Cambridge Universily Press.

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REINHARD BE N DIX

aspecto, a proporção da força de trabalho empregada na agricultura baixou para


5% em 1950'.
Onde quer que tenha ocorrido, a modernização das sociedades deu origem a
estruturas sociais m arcadas por desigualdades baseadas em laços de parentesco,
privilégio hereditário e autoridade (freqüentem ente monárquica) estabelecida. Em
virtude de sua ênfase comum na hierarquia de posições herdadas, as sociedades
pré-modernas ou tradicionais têm certos pontos em comum. A destruição dessas
características da velha ordem e o conseqüente surgimento da igualdade são uma
m arca de m odernização; portanto, o último processo mostra certas uniformidades.
Essas m udanças na ordem social e política eram aparentes antes que as conseqüên­
cias totais da Revolução Industrial fossem compreendidas. Como resultado, a
m aioria dos pensadores (se não todos eles) do século XIX

[...] exibem o m esm o ardente senso do súbilo, convulsivo desvio da sociedade de um cam inho
que ela seguira durante m ilênios. T odos m anifestam a mesma profunda intuição do desapareci­
m ento de valores h istó rico s - e, com eles, as seguranças e desigualdades seculares - e do
surgim ento de novos p oderes, novas inseguranças, e novas tiranias. [...]2

E, corno acrescenta o professor Nisbet, “a sociologia na Europa desenvolve­


ra-se quase inteiram ente em torno de temas e antíteses levantados pelas duas
revoluções e de seu impacto sobre a velha ordem”3. Devemos muitos insights a
essa tradição intelectual. Todavia, hoje há indicações de que essa perspectiva
produziu uma visão supersim plificada das sociedades tradicionais, das sociedades
modernas, e da transição de umas para as outras. A supersimplificação resultava
de interpretações ideológicas do. contraste entre tradição e modernidade, e de
generalizações indevidas da experiência européia. Atualmente, uma análise mais
diferenciada e equilibrada da modernização deve ser possível; a discussão que se
segue é apresentada com o uma contribuição nesse sentido.
Sua primeira parte trata de um aspecto da história das idéias. O surgimento
da civilização industrial na Europa engendrou uma nova concepção da sociedade,
contrastes hostis entre tradição e modernidade, e uma teoria de mudança social que

1. Ver Cario M. Cipolla, The Economic History o f World Population, Baltimore, Penguin Books, 1964, pp.
24-28. Focalizando a atenção nos efeitos técnicos e econômicos do processo, Cipolla fornece uma
formulação abrangente do que significa industrialização. Nenhuma clareza pode ser alcançada em relação
à “ modernização” , que é mais inclusiva e se refere, ainda que vagamente, aos múltiplos processos sociais
e políticos que acompanharam a industrialização na maior parte dos países da civilização ocidental. A
discussão que se segue contém contribuições para uma definição de “modernização”.
2. Ver Robert A. Nisbet, Em ite Durkhcim, f-nglewood Cliffs, Prentice-Hall, 1965, p. 20.
3- Idcm , p. 21 n.

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REA VAIJAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

culminou na obra de Karl Marx e, mais recentemente, num revival das teorias de
evolução social. Meu esforço será mostrar como se desenvolveu nosso vocabulário
conceituai nos estudos sobre a modernização. A segunda parte oferece um a crítica
metodológica dessa tradição intelectual e propõe uma conceitualização alternativa
do contraste éntre tradição e modernidade. Na terceira parte tentarei desenvolver
uma abordagem com parativa no estudo da modernização e ilustrá-la pela aplicação
ao campo de estratificação social.

P ersistência e M udança de Id éia s sobre a Sociedade M o d ern a

Uma nova perspectiva

O sentimento de que o final do século XVIII representa um hiato na perspec­


tiva intelectual, bem como um novo início na história da civilização ocidental, é
comum entre estudiosos, do mesmo modo que a conotação afim do termo “moder­
no” entre as pessoas em geral. Antes dos séculos XVII e XVIII, o mundo da natureza
e do homem era concebido como uma emanação da divina providência. Desde
então nosso pensamento foi reestruturado em todos os campos de aprendizagem.
Como a idéia de Deus fundiu-se com a de Natureza, o conceito do universo criado
no início dos tempos foi gradualmente substituído pela idéia de um processo de
evolução infinitamente variado e ativo. A idéia foi ampliada de m aneira paralela à
nossa compreensão do crescimento do conhecimento, para uma nova concepção
de Deus como na obra Natur Philosophie, de Schelling, e para uma interpretação
ética da história mundial, como na opinião de Kant de que “todas as excelentes
faculdades naturais da humanidade permaneceriam imutáveis para sem pre”, se não
fosse pela natureza do homem com sua vontade de discutir, sua vaidade odiosa­
mente competitiva, e seu insaciável desejo de possuir ou de governar4. Este era um
dos muitos esquemas pelos quais os pensadores do fim do século XVIII e início do
século XX vinculavam as qualidades irascíveis dos homens individualm ente ao
conceito de uma reservada regularidade de legitim idade atribuída ao m undo social.
Enquanto Kant usava uma construção teleológica a esse respeito, os economistas
clássicos como Adam Smith afirmavam que a propensão do homem para a permuta,
o intercâmbio, e a troca de uma coisa por outra deu origem a ações que obedeciam

4. Immanuel Kant, “ ldea for a Universal History wilh Cosmopolitan Intent”, em Carl J. Friedrich (ed.),
The Philosophy o f Kant, New York, Random House, 1949, p. 121. Notar a relação dessa opinião com
a tradição intelectual delineada em Arthur Lovejoy, The Grcat Chain ofB cing, New York, H arper &
Bros., , passim.

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R E I N H A R D D EN D IX

a u m a )ei impess.ial de oferta e procura. Por suas ações na sociedade, os indivíduos


se conformam a um a regularidade ou princípio mais alto sem pretender agir assim.
Term os com o o “objetivo da natureza” ou a “mão invisível” pelos quais Kant e
Sm ith se referiam a esse princípio mais elevado podem ser considerados uma
sobrevivência de um a antiga crença na divina providência ou um arauto dos
conceitos posteriores de “sociedade” e “econom ia”. Em todo caso, eles ajudaram
a introduzir num a nova visão do mundo social como uma estrutura impessoal que
possui atributos ou princípios independentes.
A discussão que se segue apresenta um esboço histórico de idéias sobre a
nova sociedade industrial em formação - com especial ênfase nos efeitos dessa
sociedade sobre as diferentes classes sociais. Meu objetivo é mostrar que o
contraste hostil entre tradição e modernidade é o tema principal subjacente a uma
grande diversidade de tópicos e que influencia nossa compreensão da sociedade
m oderna até o presente.
Em seu Essay on theH istory o f Civil Society, publicado pela prim eira vez em
1767, Adam Ferguson atribuía o progresso de um povo à subdivisão de tarefas (a
divisão do trabalho de Adam Smith), que ao m esm o tempo melhora as habilidades
do artesão, cs lucros do fabricante, e o prazer dos consumidores.

C ada oficio pode absorver totalm ente a atenção de um homem, e tem um m istério que
deve ser estudado. [...] N ações de artffices resultaram de membros, que além de seu com ércio
particular, são ignorantes ac todos os negócios hum anos, e que podem contribuir com a
preservação e a am pliação de sua com unidade, sem transform ar seu interesse num objeto de seu
o lh ar ou atenção’.

A discussão de Ferguson formula maneiras de encarar a sociedade moderna


que se tornaram lugares-comuns. A divisão do trabalho restringe necessariamente
a com preensão daqueles que se especializam. Desse modo, ela também aumenta
sua produtividade e a riqueza do país. Portanto, objetivos privados, uma falta de
preocupação consciente com o bem-estar público, e benefícios públicos caminham
juntos. Essa doutrina do laissez-faire coaduna-se, como Marx j á notara, com a
teoria da ação social, pelo menos numa forma rudimentar. Pelo simples compare-
cim ento ao serviço, cada homem é diferenciado por sua chamada e tem um lugar
ao qual sc ajusta. Na visão de Ferguson, as diferenças entre os homens são um
resultado direto dos hábitos que eles adquirem praticando diferentes artes: “Alguns
em pregos são liberais, outros mecânicos. Eles requerem talentos diferentes, e

5. Adam Ferguson. A n litx a y on tkc tlh lo r y o f C ivil Sociei v, 5. cd.,Lom lon,T.C bdetl, 1782, pp. 302-303.

.w
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

inspiram diferentes sentim entos”''. Em sua avaliação desses corolários de especia­


lização, Ferguson com bina a antiga sabedoria convencional com uma compreensão
dos problemas emergentes da sociedade moderna. A antiga divisão da sociedade
numa minoria dirigente desocupada e a massa da população trabalhadora reflete-se
em sua opinião de que o nível social depende do trabalho que os homens fazem.
Os que devem ganhar sua subsistência são degradados pelos “objetivos que
perseguem, e pelos meios que ele emprega para obtê-lo”. Aqueles que pertencem
à classe superior não são limitados por nenhum a tarefa e são livres para seguir a
disposição de sua mente e de seu coração.
Ao mesmo tempo, Ferguson está bem consciente de que a crescente divisão
do trabalho cobra um preço. Os objetivos da sociedade são promovidos mais
adequadamente por artes mecânicas que requerem pouca.capacidade e que flores­
cem melhor “sob uma total supressão de sentimento e razão”7. Outro filósofo
escoces, John Millar, aponta que a arte e a ciência melhoram com a divisão do
trabalho, mas que esta produz no trabalhador, que é empregado numa única
operaçao manual, um “habitual vazio de pensamento, não estimulado por m uitas
perspectivas, mas por [perspectivas] como as que derivam das futuras folgas de
seu trabalho, ou dos agradáveis retornos do repouso corporal e do sono"‘\ O custo
humano do trabalho manual nas modernas condições~ de cred"-™ w, - pvt
— luiuví, UÍH

tema desde as primeiras horas da sociedade industrial.
Argumenta-se que esse custo humano é inevitável. Os custos das classes
trabalhadoras sob as novas condições são simplesmente uma nova forma da antiga
divisão da sociedade em amos e servos. Tentativas de aliviar esses encargos apenas
diminuem a riqueza de um país e, portanto, em última instância, agravam a sorte
dos propnos trabalhadores9. Contudo, essa defesa da ordem hierárquica tradicional
sob novas condições não se equiparou, a longo prazo, ao significado de outro corpo
de opinião, muito mais crítico.

6. làem, pp. 308-309.


7. Idcm, p, 305.
8. Ver John, M illa r“Social Consequenccs of lhe Division o f Labor”, reeditado em Will iam C. Lehmann,
John Millar o fC la sg o w , 1735-ISOI, Cambridge Universily Press, 1960, pp. 380-387 Este volume
comem uma reimpressão do Origin o f ,hc Distinction o f Ranks, de Millar, publicado prim eiramente
em 1771. J
9. BAmnd Burke Thc.ugl.ls and De.ails on Scarcily (1795)”, em Works, Boston, Little, Brow,, & Co
1869 V, pp. 134-135. O próprio Burke usou a doulrina do laissez-faire para suslentar seu argumento.
A lei da oferta e da procura governava os salários pagos ao trabalho, e a interferência com essa lei
simplesmente agravaria a condição do pobre. O Iradicional argumento conlra a injustiça desse sistema
e exemplificado por W illiam Godwin, Enqrnry Conccrning PoUUcal Justice and its Influcncc on M orais
andHappincss, Toronto, Universily c f Toronto Press, 1 9 4 6 ,1, pp. 15-20.

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REINHARD BENDIX

Criticas conservadoras e radicais da indústria

Em m uitas partes da Europa, os homens de letras encaravam as discrepâncias


entre ricos e pobres com alarm e e com um sentimento de que a destituição do povo
representava um novo fenômeno e um a ameaça crescente à ordem social. A s idéias
de um a crescente bifurcação da sociedade em duas classes opostas, bem com o a
doutrina da pauperização, que são familiares aos modernos leitores a partir dos
escritos de Karl Marx, eram de fato crenças expressas por muitos escritores
europeus durante os séculos XVIII e XIX10. Seu senso de crise reflete-se em idéias
acerca de hierarquia social que procuravam levar em conta as mudanças ocorridas
nas sociedades que se industrializavam. Para exemplificar essas idéias, indicar
algum a coisa de sua ubiqüidade, e mostrar o quão fortemente elas influenciaram o
pensam ento social, usarei exemplos da Alemanha, da França e dos Estados Unidos.
E sses juízos sobre as hierarquias sociais num período de transição refletem tanto
a experiência como o senso m oral de homens de níveis sociais diferentes e o senso
m oral com que o próprio escritor encara o papel dos diferentes grupos nessa
transição.
O primeiro exemplo com para uma crítica conservadora com uma crítica
hum anista via comercialízaÇao riu Alemanha 110 fim üo sécuio X víii. jtm i / /ò, o
publicista Justus Mõser queixava-se, num artigo sobre a “propriedade genuína”,
de que naqueles dias a língua alem ã tinha perdido sua capacidade de designar uma
relação inalienável do proprietário com sua propriedade11. Antigamente, o proprie­
tário de terras incluía direitos associados aos de proprietário, como o direito de
caçar, de votar na A ssembléia Nacional, e outros. Esses direitos eram conhecidos
por term os distintivos que davam uma chave aos direitos específicos dos quais um
proprietário gozava vitaliciamente. Ele podia vender ou dispor da própria terra de
outra maneira, mas não podia renunciar a esses direitos, do mesmo modo que um
com prador da terra não podia adquiri-los. A crítica de Mõser da mudança na língua
é, portanto, ao mesmo tempo uma acusação da decadência moral resultante de uma
transferência fácil de propriedade. A relação entre um proprietário e sua proprie­
dade é, em sua opinião, uma fonte de identificação pessoal e estabilidade social.
Estas são garantidas na medida em que a propriedade territorial confere ao proprie­
tário direitos c privilégios que lhe dão status na comunidade e que só podem ser
obtidos por herança, não pela compra.

10. C f. a pesquisa dessas opiniões de R obeit MicheJs, Dic Verelendungsthcoric, Leipzig, Alfred Kroenei,
1928, passim .
I i. Jusius M õser, Sümtliche Werkc, Berlin, Nicolaischc Buchhandiung, 1842, IV, pp. 158-162. Devo essa
referência ao artigo de Karl Maitnheím, citado abaixo.

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REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

A crítica humanista da comercialização parece à prim eiia vista muito sem e­


lhante à de Mõser. O comércio, bem como a propriedade e o cuidado da proprie­
dade, corroem a integridade do indivíduo, porque todos os atos e pensamentos dele
giram em torno de considerações sobre dinheiro e conveniência econômica. O
homem é governado por aquilo que deve estar a seu serviço. Em seu romance
Wilhelm M eisters Lehrjahre (Anos de Aprendizagem de Wilhetm M eister), publi­
cado originalmente em 1796, Goethe expressa sua opinião quando escreve: “De
que me vale fabricar boa ferramenta se meu próprio peito está cheio de impurezas?
Ou com que objetivo deve ser entendida a arte de pôr em ordem propriedades
territoriais, quando meus próprios pensamentos não estão em harmonia?”12.
Mas o herói de Goethe prossegue relacionando sua opinião anticomercial aos
valores pessoais conflitantes do Bürger e do aristocrata. Este, diz ele, tem maneiras
polidas de conformidade com sua alta posição social, m as não cultiva seu coração.'
O Bürger não pode atender a tais pretensões. Para ele, a questão decisiva não é
“quem ele é”, mas que “discernimento, conhecimento, talentos, ou riquezas”
possui. “Ele deve cultivar um certo talento individual, para ser útil, e é bem
conhecido que em sua existência pode não haver harmonia, porque a fim de tornar
um talento útil, ele deve abandonar o exercício de outro qualquer”13. Desse modo,
o herói de Goethe, o aristocrata, tem uma posição social elevada, mas um coração
frio, o Bürger pode obter distinção por suas realizações, mas apenas o artista está
numa posição de perseguir o “cultivo harmonioso de sua natureza”14.
A semelhança entre esses pontos de vista não ultrapassa sua comum rejeição
do comércio. Mõser olha para trás para uma sociedade caracterizada por uma
hierarquia de privilégio e subordinação baseada na terra e nos direitos associados
com a propriedade territorial. Ele atribui àquela sociedade não apenas estabilidade,
mas qualidades intelectuais e sentimentais ideais, de modo que as relações do
homem com seus coetâneos estão em harmonia, e seu trabalho é uma vazão
adequada para suas capacidades. Contra essa mítica imagem do passado, a com er­
cialização da propriedade aparece como uma decadência da civilização. Durante o
século e meio que se seguiu, o louvor feito por Mõser dos consagrados direitos
inalienáveis era associado reiteradamente não só com a benevolência do regime

12. Johann W. Goethe, Wilhelm M eister’s Apprcnticcship, írad. R. Dillon Boytan, London, Beil & Doldy,
1867, p. 268. Ver também Baron Knigge, Practical Philosophy o f Social Life, Lansingburgh, Perriman
& Biiss, iSOS, pp. 307-308.
13. Goethe, op. cit.
14. Ver Werner Wittich, “Der soziaJe Gehatt von Goethes Roman ‘W ilhelm M eisters Lehrjahre’”, em
Melchíor Palyt (ed.), Hauplprobleme derSozsologic, ErinncrangsgabefürM ax Weber, BerJin, D uncker
& Humblot, 1923, U, pp. 278-300. <

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REINHARD BENDIX

p atern alista m as também com o calor das relações pessoais e o senso de pertença
pessoal, possibilitados p o r um a comunidade hierárquica estreitamente ligada.
C ontra essa visão da tradição favorável, o herói de Goethe define sua própria
p osição referindo-se ao cruel coração vazio que acompanha as maneiras polidas
do aristocrata. O homem burguês distingue-se em virtude de suas realizações
individuais, que representam um valor pessoal maior do que a tranqüilidade e a
estabilidade que são um subproduto obtido sem esforço, e portanto, não m erecido,
do privilégio herdado. O B ürger pode não ter boas maneiras, mas pelo m enos seus
pró p rio s feitos estabelecem seu valor pessoal. Todavia, como Ferguson e M illar,
o herói de Goethe deprecia os efeitos estultificantes da especialização. O mérito
da realização é apenas relativo, pois num homem comum ela é o resultado de um
desenvolvim ento unilateral; todas as suas outras capacidades são sacrificadas para
qu e ele possa ser útil. Esse louvor das capacidades multiformes do homem -
descritas aqui como o cultivo unilateral do artista de sua personalidade - foi
associado desde então com a crítica radical da civilização burguesa. Uma ênfase
na realização com o um atributo dessa civilização omite inteiramente essa am bigüi­
dade inerente do valor do esforço individual c da criatividade.
A s duas opiniões da A lem anha no finai do scculo XVIII refletem um cenário
provinciano, no quai a m udança econômica cra lenta, mas no qual os homens
im aginativos t e s t e m u n h a v a m m u d a n ç a s mais rápidas mie ocorriam na Inglaterra e
na França. O clássico docum ento que retrata essa reação é o poema épico de Goethe
H erm ann undD orothea, no qual as rebeliões da Revolução Francesa eram com en­
tadas de longe e num eloqüente contraste com o bem-estar e contentamento de uma
fam ília Bürger média de um a cidadezinha15. Sob essas circunstâncias, as reflexões
sobre os efeitos do com ércio nas classes sociais tendiam a ser abstratas, quer
consistissem de referências nostálgicas ao passado ou de celebrações humanísticas
de valores pessoais.
Com o progresso do com ércio c da indústria durante as primeiras décadas do
século XIX, as reflexões críticas sobre o impacto dessas mudanças continuaram.
Contrastes hostis entre a tradição e a modernidade, e entre a utilidade unilateral e
a criatividade individual, foram elaborados e reiterados, mas com uma atenção mais
direta à natureza do trabalho. Durante um intervalo de mais de duas gerações,

15. Sobre n documentação da vida social e literária do período, cf. W. H. Bruford, Germany ín lhe I8th
C cntury, Cambridge Universily Press, 1939, passim. A resposta literária e filosófica à Revolução
Francesa é analisada em Alfred Stern, Der Einfluss der franzòsischcn Rcvolulion a u f tias dculsclic
G eistcslcbcn, Stuttgart, Coita, 1928, m as não conheço nenhum estudo resumido da resposta alemã à
industrialização inglesa, CF., contudo, Hans Freyer, Dic Bcwcrtung der Wirtschaft im philosophischcn
D enkcn des 19. Jahrhundcrts, Leipzig, W . Engeimann, 1921, para alguns pon tos Teievantes.

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KEA VALIAÇÂO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

pode-se comparar o contraste entre Mõser e o herói de Goethe na Alemanha com


o contraste entre De Bonald e Proudhon na França. De acordo com De Bonald, a
indústria aumentou a riqueza material do país, mas também produziu mal-estar
cívico e decadência moral. M embros de famílias empregadas na indústria

[...] trabalham isolados e freqüentem ente em indústrias diferentes. O conhecim ento que
têm de seu s patrões não é m aior do que daquilo que eles ordenam e do pouco que eles pagam .
A in d ú strian ão alim enta todas as idades nem todos os sexos. Na verdade, ela em prega a criança,
m as freqüentem ente às custas de sua educação ou antes que ela seja suficientem ente forte para
tal trabalho. Por outro lado, quando o homem alcança uma idade avançada e não pode m ais
trabalhar, é abandonado e não tem outro sustento a não ser aquele que seus filhos podem
proporcionar ou a caridade pública oferecer [...]

O [trabalhador da indústria] trabalha em condições de ajuntam ento e sedentarism o, vira •


a m anivela, move a lançadeira, enfia a linha. Passa a vida em porões e sótãos. T orna-se ele
m esmo uma m áquina. Exercita seus dedos, m as nunca sua m ente. [,..]T n d o avilta a inteligência
do trabalhador da indústria. [...)“

Nessa crítica da indústria as ênfases nas incapacidades resultantes da espe­


cialização são relacionadas com o trabalhador industrial e sua família. Para ganhar
sua sobrevivência, os membros da família são dispersados, trabalham isolados e
náo têm nenhum relacionamento humano com seu empregador. Além disso, a
indústria, de uma maneira geral, abusa da criança e não cuida dos idosos.
Em todos esses aspectos o trabalho agrícola é superior. N a terra, as classes
diferentes trabalham uma ao lado da outra e nas mesmas tarefas; portanto, não há
isolamento social entre elas. As crianças e os idosos são cuidados e empregados
produtivamente em tarefas adaptadas a suas capacidades. O trabalho agrícola não
só é saudável comparado ao industrial, mas também aumenta a inteligência do
camponês ou do trabalhador agrícola. O cultivo da terra exige atenção nas várias
tarefas, favorece a cooperação prestativa, e através do contato com os processos
naturais eleva o pensamento “àquilo que dota a terra com fertilidade, nos dá as
estações, faz os frutos amadurecerem” 17. Enquanto Mõser sublinha a estabilidade
social e moral, obtida de maneira mais apropriada pelos inalienáveis direitos de

16. M. De Bonald, Ocuvrcs Completes, Paris, J. P. Migne, 1864, II, pp. 238-239.
17. Idem, note-se na passagem que esse contraste entre o trabalho agrícola e industrial é feito em termos
quase idênticos por John Millar, anos antes. A diferença entre o liberalismo de Millar e o conservado­
rismo de De Bonald parece refletir-se apenas na ênfase de Millar no conhecimento do camponês e na
ênfase maior dada por De Bonald em sua religião. Cf. Lehmann, op. cit., pp. 380-382. Como observou
Max Weber, sua ênfase na piedade do camponês é um fenômeno caracteristicamente moderno,
relacionado com os odiosos contrastes entre a cidade e o campo. Ver Max Weber, Economy andSocíety,
op. a í., If, p. 470.

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REINHARD BENDIX

propriedade, De Bonald sublinha que valcres similares são inerentes à natureza do


trabalho agrícola. Para De Bonald como para Mõser, os benefícios materiais do
com ércio e da indústria não valem o preço em valor humano que eles cobram. Para
am bos, a ordem social tradicional representa sociabilidade, relações humanas
significativas, segurança apropriada, cuidado com os jovens e velhos, e oportuni­
dade para que o homem desenvolva plenamente suas capacidades. Em todos esses
aspectos, a indústria é considerada falha; sua única realização é o aumento da
riqueza.
Essa crítica da indústria não é muito diferente em certos pontos do ataque
radical de Proudhon contra a nova ordem industrial (1846). Proudhon também
acredita que a especialização tem um efeito destrutivo no indivíduo. Como De
B onald, ele deplora o desam paro dos trabalhadores industriais e sente que o avanço
da tecnologia transforma os hom ens em m áquinas18. Mas sua crítica comum da
indústria e seu louvor da agricultura mostram que Proudhon e De Bonald vêem os
m esm os fatos em termos inteiramente diferentes. Por exemplo, ambos concordam
que o trabalho agrícola é multiforme, e não unilateral e estupidificante como o
trabalho industrial. Todavia, Proudhon acha isso louvável como o fundam ento do
individualism o, não como D e Bonald com o o fundamento da sociabilidade e
cooperação. Proudhon vê o proprietário agrícola como o homem solitário que
cultiva a terra para sua fam ília e não depende da assistência dos outros; “jam ais se
v iu cam poneses formarem um a sociedade para o cultivo de seus campos; nunca
serão vistos fazendo isto” . Essa habilidade de manter sua família por seus próprios
esforços faz com que o camponês se torne o anarquista ideal. Proudhon, ao
contrário, enfatiza que certas indústrias “requerem o emprego combinado de um
grande número de trabalhadores”-envolvendo subordinação e dependência mútua.
“O produtor não é mais, como nos campos, um pai de família soberano e livre; é
um a coletividade”'1'. Portanto, para Proudhon, a indústria é o lugar de um coleti-
vism o forçado, dependência m útua e subordinação, enquanto a agricultura aum enta
a liberdade e o individualismo. Ele defende a agricultura, porque rejeita a “hierar­
quia de capacidades” como “princípio e lei” da organização social21’. De Bonald,
ao contrário, aceita as desigualdades entre os homens como um fato da natureza
que é m eramente reconhecido pela sociedade. Para ele, a distinção entre a indústria
e a agricultura gira em torno da questão de qual atividade promove a comunidade,

18. P. J. Proudhon, A System o f Econom ic Contradictions or The Philosophy o f Miscry, Boston, B enjam in
R. Tucker, 18 8 8 ,1, p. 138.
19. P. J. Proudhon, G eneral Idca o f thc Hcvolution in lhe I9th Century, London, Freedom Press, 1923, p.
215. Esta obra foi escrita em 1S51.
20. Proudhon, Philosophy o f Miscry, p. 132.

33S
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

não o indivíduo; e nesse aspecto a indústria aumenta o isolamento humano,


enquanto a agricultura promove a solidariedade humana.
Claramente, ambos os escritores estruturam a evidência de maneira a ajus­
tar-se a seus propósitos. Para Proudhon, a assistência da boa vizinhança desaparece
da comunidade agrícola, porque ele procura uma personificação do individualismo,
que é seu ideal; para De Bonald, o rigor da luta do camponês com a natureza, e os
maus-tratos humanos, endêmicos nas estreitas relações de vizinhança, desapare­
cem na imagem rósea da comunidade modelada no padrão familiar. Praticamente
o mesmo é verdadeiro sobre as duas visões da indústria. Para Proudhon, a relativa
liberdade do trabalhador industrial não existe, e ele ignora a subordinação funda­
r ental do trabalhador agrícola na agricultura. De Bonald, por outro lado, vê a
liberdade do trabalhador apenas em seu aspecto negativo,-como isolamento hum a­
no, em contraste com uma afável solidariedade na agricultura. Um homem idealiza
a agricultura como o baluarte da sociedade tradicional; o outro, contudo, erronea­
mente, como o principal meio de nivelar as diferenças sociais, diminuindo a
dependência mútua, e aumentando a liberdade individual. Por seu caráter transpa­
rente, essas construções ideológicas tiveram profunda influência no contraste entre
tradição e modernidade até o presente.
A esses exemplos desejo acrescentar uma bieve icfciêücia a argumentos
semelhantes deste lado do Atlântico. Eles mostraram um pouco da persistência da
tradição intelectual que estou caracterizando, m esm o sob condições totalmente
divergentes. Nos Estados Unidos, as opiniões conservadoras como as de De Bonald
foram abertamente expressas durante as primeiras décadas subseqüentes à D ecla­
ração da Independência. Durante os anos de 1830, as revelações públicas dessas
opiniões tornaram-se politicamente inconvenientes, mesmo entre os conservadores
da Nova Inglaterra21. Ao mesmo tempo, a crença na desigualdade tornou-se uma
matéria de profunda convicção nos Estados do sul. Nesse contexto regional, as
opiniões conservadoras tornaram-se ligadas com um ataque ao industrialismo do
norte, por um lado, e uma defesa da escravidão, do outro. Em sua Sociology fo r the
South, George Fitzhugh denunciava proprietários que são amos sem os sentimentos
e simpatias de amos, empenhados na luta egoísta para melhorar sua condição
pecuniária e, portanto, sem tempo ou inclinação para cultivar o coração ou o
cérebro23. Fitzhugh reitera o tema que já nos é familiar: a divisão do trabalho pode
tornar os homens mais eficientes, mas também confina o trabalhador a algum

21. Cf. Norman Jacobson, The C onccpt ofE quality in theAssu,uptions o f thc Propaganda o f M assachusctt:
Conscrvatives, 1790-1840, lese de doutorado, Universidade de W isconsin, 1951.
22. George Fitzhugh, Sociology fo r thc South, Richmond, A. M orris, 1854, pp. 223, 235.

339
REINHARD BEND1X

em prego m onótono e o torna fácil presa do capitalista, que o considera unicamente


em term os m onetários23. N esse cenário, o argumento padrão contra a divisão do
trabalho, que M arx tanto enfatizou, é usndo num a defesa da escravidão! Pois
Fitzhugh contrasta a destituição moral do trabalhador livre, odiado por seu em pre­
g ador pelas exigências que faz e por seus colegas porque compete pelo emprego,
com as realizações morais e a tranqüilidade doméstica do sul, que se baseiam na
afeição fam iliar dos amos e na obediência ingênua dos escravos24.
Esta opinião é estranham ente repercutida por Orestes A. Brownson, um
clérigo da Nova Inglaterra e cristão radical que se identificou com os trabalhadores
nos anos de 1830, e posteriorm ente se converteu ao catolicismo. Brownson com ­
para a degradação moral im posta tanto sobre os empregadores como sobre os
trabalhadores com as afáveis características do paternalismo:

E ntre o senhor e o escravo, entre o am o e o servo, freqüentem ente se desenvolvem


ag rad áv eis relações e ligações pessoais; há com unicação pessoal, cortesia, afabilidade, proteção
de um lad o , respeito e gratidão de outro, o que com pensa parcialm ente a superioridade de um e
a inferio rid ad e do outro; m as o sistem a m oderno de salários perm ite muito pouco de tudo isso:
o cap italista e o trabalhador pertencem a espécies diferentes, e têm pouca com unicação pessoal.
O a g e n te ou hom em de negócios p ag a ao trabalhador seus salários, e aí teim ina a responsabili­
d ad e d o em pregador. O trabalhador não tem m ais reivindicações sobre ele e pode sofrer
p riv açõ es e m orrer de fom e, ou adoecer e morrer, é assunto dele, com o que o em pregador nada
tem que ver. Portanto, a relação entre as duas classes se torna m ercenária, difícil, e um a questão
de aritm ética25.

Esta linguagem não é essencialmente diferente da utilizada no M anifesto


C om unista; ela culmina nas imagens contrastantes de exploradores e explorados,
de arrogante indiferença, de um lado, e hostilidade ofendida, do outro. Brownson
usa até o símbolo de Marx do trabalhador como um apêndice da máquina, embora
a frase possa ter sido comum entre os críticos sociais de meados do século XIX.
O s exemplos que citei sugerem que, a partir do final do século XVIII, os
hom ens de letras tornaram-se profundamente preocupados com aquilo que consi­
deravam a crise moral nas relações humanas, surgida pelo advento da indústria.
Karl M annheim apontou que críticos como Môser e Goethe, ou De Bonald e
Proudhon, estavam profundamente divididos em suas opiniões políticas mas, não

23. A/cm, pp. 161.


24. Idem , pp. 106-107, 253-254, Uma im portante análise dessa ideologia sulista na perspectiva histórica
encontra-se em W. J. Cash, The M ind o fth c South, Garden City, Doubleday & Co., Í954, passim .
25. O restes A. Brownson, Works, D e tro it,T . Noitrse, Í8S4, V, pp. 116-117. Esta passagem foi escrita em
1857, após a conversão do aufOT a o catolicismo.

340
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

obstante isso, baseavam sua oposição à sociedade industrial eiii fundamentos que
são surpreendentemente muito semelhantes26. A indústria depende da divisão do
trabalho, e à medida que essa divisão progride os homens deixam de ser mestres
das máquinas.quc usam, tornando-se em vez disso suas vítimas. À medida que o
trabalho se torna mais monótono, os trabalhadores são cada vez mais privados da
oportunidade de desenvolver e aplicar suas faculdades humanas. De maneira geral,
o desenvolvimento especializado de uma capacidade no interesse da produtividade
e do sucesso comercial provoca a atrofia de muitas ou da maioria das outras
capacidades. O homem industrial aparece como a contra-imagem do homem da
Renascença, e isto em todos os níveis da estrutura social. Ao mesmo tempo, a
comercialização afrouxa os laços que prendem os homens uns aos outros. A
liberdade em relação ao governo paterno e à hierarquia social é obtida para o.
indivíduo, mas apenas à custa da fraternidade. Os laços entre os homens perdem
sua base no sentimento e no senso de obrigação moral e passam a depender apenas
do interesse econômico. Como iguais, os homens competem mais do que cooperam
uns com os outros e, como empregadores e trabalhadores, eles estabelecem nego­
ciações apenas em termos de vantagem material.
Esses temas foram auxiliares do pensamento social por quase dois séculos27.
Devem seu profundo apelo emocional à odiosa ligação entre a transição para uma
sociedade industriai e o declínio das duas idéias: criatividade individual e frater­
nidade humana. Obviamente, os conservadores atribuem ambos esses valores a
uma ordem hierárquica amplamente simbólica do passado, mas implicitamente (e
por vezes também explicitamente) os críticos radicais da sociedade industrial usam
os mesmos clichês. Por sua incorporação à obra de Karl Marx esses clichês
tornaram-se uma influência dominante no pensamento moderno por causa da
maneira única pela qual Marx combinava o senso da crise moral acima descrita
com sua pretensão de que sua abordagem representava um estudo científico da
sociedade. As reflexões sobre as teorias de Marx são incontáveis; aqui elas serão
feitas apenas na medida em que o leitor puder formar um juízo independente das
diferenças entre a apresentação que se segue e o mais influente tratamento das
classes sociais no processo de modernização.

26. Knrl Mannheim, “ Conservative Thought”, em Essoys in Sociology and Social Psychology, London,
Routledge & Kegan Paul, 1953, pp. 74-164.
27. Osdiferentes sentidos de “ alienação” como o tema comum do sentimento antiíndustrial são exam inados
no ensaio de Lewis Feuer sobre esse conceito em Maurice Stein e A rthur Vidich (eds.), Sociology o/t
Trialt Englewood Cliffs, Prcntice-Hal!, 1963, pp. 127-J47. Os homens de convicções políticas opostas
chegaram a empregar esse conceito como é analisado sociologicamente por René Kõnig, “ Zur
Sozioiogie der Zwanziger Jahre”, em Leonli.trd Reinisch (ed.), D ic Zcit ohnc Eigcnschaftcn, Stuttgart,
W. Kohlhammer, 1961, pp. 82-118.

34}
REINUARD BENDIX

A perspectiva marxista

“A história de todas as sociedades existentes até hoje é a história das lutas de


classes.” O M anifesto Comunista começa com esta frase, embora a obra de Marx
com o um todo não contenha um a análise sustentada das classes sociais. O terceiro
v olum e de sua obra principal, D as Kapitaí, se interrompe depois de quatro pará­
grafos de um capítulo que deveria ser dedicado a esse tópico. O paradoxo foi m uitas
vezes com entado, mas ele é mais aparente do que real. Provavelmente, M arx
dissera o que tinha a dizer sobre as classes sociais, uma vez que não é difícil resum ir
suas opiniões2*.
Para M arx, as classes são apenas os agentes da mudança social, e seu
determ inante final é a organização da produção. Suas razões para essa hipótese
rem ontam a considerações filosóficas anteriores. Hoje elas seriam consideradas
existencialistas, no sentido das inferências derivadas das exigências básicas da
experiência humana. Os hom ens não podem viver sem trabalho; eles também
propagam sua espécie e, portanto, estabelecem relações sociais de família. Os
hom ens usam ferramentas para satisfazer suas necessidades; à medida que as
necessidades são satisfeitas, novas necessidades surgem e técnicas de produção são
anrim oradas. A proliferação das necessidades e as técnicas aprimoradas premiam
a cooperação baseada cm alguma divisão do trabaiho, pois o irabaiho dividido
aum enta a produtividade. A maneira como o trabalho é dividido depende da
organização da produção, especialm ente da distribuição da propriedade nos meios
de produção. É, portanto, a posição que o indivíduo ocupa na organização da
produção que indica a que classe social ele pertence.
No capítulo não concluído Sobre classe social, Marx distingue entre trabalha­
dores assalariados, capitalistas, e senhores de terra, que formam as três grandes
classes da sociedade capitalista, e ele enfatiza as “infinitas distinções de interesse
e posição que a divisão social do trabalho cria entre os trabalhadores como entre
capitalistas c proprietários de terras”3''. Numa sociedade complexa, os indivíduos
distinguem -se uns dos outros de muitas maneiras, mesmo quando pertencem à
m esm a classe. Portanto, os indivíduos que dependem inteiramente do trabalho
assalariado podem ainda diferir muito em termos de renda, padrões de consumo,
realização educacional, ou ocupação. Os esforços para definir a filiação de classe

28. A avaliação que se segue base ia-se em parte na obra de ReinhaTd bendix e Seymour M. Lipset, “ Karl
M arx’sT h eo ry o f Social Classes*', em Chiss, Status and Power, New York, The Free Press, 1966, pp.
6-11.
29. V er Thom as B. Bottomore e M axim ilien Rubel (eds.), Karl Marx, Selected Writings in Sociology and
Socia l Philosophy, London, W atts & Co., 1956, p. 179. Grifos meus.

342
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DL TRADIÇÃO E MODERNIDADE

agrupando pessoas segundo sua participação semelhante na distribuição de bens


materiais, habilidades e símbolos de prestígio produzem apenas artefatos estatísti­
cos, na opinião de Marx. Para ele, “classe” refere-se a um processo de formação
de grupo, no qual as pessoas estão unidas apesar das “infinitas distinções de
interesse e pesição” que as dividem30. Para ser exato, uma posição compartilhada
na organização da produção é a condição necessária de um a classe social. Mas
apenas a experiência adquirida em ganhar o sustento, e especialm ente a experiência
do conflito econômico e político, prepararia trabalhadores, capitalistas, ou proprie­
tários de terras a desenvolver uma consciência de classe e a se tom ar unidos na
ação. M arx especificou algumas condições que facilitariam o processo. Quando a
comunicação de idéias entre os indivíduos na mesma posição de classe é fácil,
repetidos conflitos econômicos levarão ao crescimento da solidariedade e do
sentimento de oportunidades históricas. Insatisfações profundas surgem de umá
inabilidade para controlar a estrutura econômica na qual a classe dirigente diminui
o progresso econômico do grupo e o submete à exploração. Na opinião de Marx,
uma classe social torna-se um agente da mudança histórica quando essas insatis­
fações conduzem à formação de organizações políticas. Uma classe plenamente
desenvolvida é um grupo politicamente organizado, capaz de superar na ação as
distinções de interesse e de classe que a dividem.
Essa interpretação de classe social era baseada em prim eira instância nas
detalhadas observações de Marx do movimento trabalhista inglês que ele mesmo
sistematizou nas seguintes palavras:

A indústria em larga escala reúne num só lugar um a m ultidão de pessoas que são
desconhecidas um as às outras. A com petição divide seus interesses. M as a m anutenção de seus
salários, esse interesse comum que têm contra seu em pregador, reúne-os novam ente na m esm a
idéia de resistência - reunião. Portanto, a reunião tem sem pre um duplo objetivo, o de pôr um
fim à com petição entre eles m esm os, capacitá-los a com petir com o um todo com o capitalista.
Se o objetivo original de resistência fosse o de m anter os salários, na m edida em que os
capitalistas, por sua vez, se unem com o objetivo de m edidas repressivas, as reuniões, de início
isoladas, se tornariam organizadas em grupos, e em face da unidade dos capitalistas, a m anu­
tenção da reunião se torna m ais im portante do que a elevação do nível dos salários. Isto é tão
verdadeiro que o s econom istas ingleses ficaram espantados ao observar que os trabalhadores
sacrificam um a parte substancial de seus salários em favor das associações, que aos olhos dos
econom istas foram estabelecidas apenas para defender os salários. N essa luta - uma verdadeira

30. Cf. a definição de classe de T. H. Marshall como “uma torça que une em grupos pessoas que diferem
umas das outras, anulando as diferenças entre elas”. Ver sua obra Class, C itizcnship and Social
Dcvelopmcnt, G.irden Cily, Doubleday & Co., 1964, p. 164.

343
RElNHARD BENDIX

g u erra civil - todos o s elem entos para uma futura batalha foram reunidos e desenvolvidos. T endo
ch eg a d o a esse p o nto, a associação adquire um caráter político31.

E ssa concepção de classe como um grupo que emerge gradualmente à


autoconsciência e organização política foi ao mesmo tempo análise e projeção.
A nálise, na medida em que M arx sistematizou sua observação dos m ovim entos da
classe operária em ergente na Inglaterra do fim do século XVIII até m eados do
século XIX32. Projeção, n a m edida em que M arx generalizou a partir dessa análise,
tanto em relação à form ação de classes no passado (por exemplo, a da burguesia
so b o feudalism o) com o em relação ao desenvolvimento de uma classe trabalhadora
revolucionária no futuro. As últim as opiniões aplicaram-se não só à Inglaterra mas
a todos os países que passaram por um desenvolvimento capitalista, tal como a
Inglaterra experimentou desde o século XVIII. Devemos entender o que deu a M arx
confiança na previsão de que a luta que ele analisou terminaria numa subversão
revolucionária e na reconstituição da sociedade.

O primeiro ponto a ser mencionado é a aceitação de Marx e a dramática


elaboração das idéias brevem ente descritas acima. Como Ferguson, M illar, Mõser,
G oethe, D e Bonald, Proudhon, Fitzhugh, Brownson, e um a legião de outros, M arx
estava profundamente impressionado pela crise moral que o capitalismo tinha
~fnrifiHona ‘re.lacão
'- - J ----- A do homem com seus companheiros
» e com seu trabalho. Citar as
opiniões de Marx sobre a alienação a esta altura seria repetir muitas das reflexões
m orais citadas acima (ainda que numa linguagem mais hegeliana), e o que foi
elaborado de mil m aneiras por ciíticos da sociedade moderna até c dia de hoje33.
M as a elaboração de Marx de crenças largamente partilhadas assumiu um signifi­
cado especial. A razão é, creio eu, que para ele a crescente alienação dos homens
era parte de um processo econômico no qual repetidas e severas depressões junto
com as práticas restritivas dos capitalistas criariam uma discrepância cada vez
m aior entre as forças e a organização da produção, ou, numa linguagem mais
sim ples, entre a capacidade da economia de satisfazer as necessidades humanas e

31. Bottom ore e Rubel, op. cit., pp. 186-187.


32. Um recente e sólido estudo de E. K. Thompson, The M aking o f thc English Working Class, N ew York,
Pantheon Books, 1964, passim , habilita-nos a apreciar essa pejspectiva marxista em que descreve os
m ovim entos que Marx observou com o benefício de outra centena de anos de erudição. Contudo, o
autor reproduz fielm ente a piópíin cegueira de M arx em relação aos elementos fortem ente conserva­
dores que eram uma parte permanente da agitação da classe trabalhadora (tratando esses elementos
com o uma fase passageira), bem com o em relação ao crescente gradualism o do movimento trabalhista
(term inando seu estudo nos anos de 1830).
33. Uma compilação conveniente de relevantes citações de Marx encontra-se em Bottomore e Rubel, op.
c i t parte ííí, cap. 4, Q ue eu conheça, a análise mais abrangente desse complexo de idéias é a de Karl
Lõwith, From llc g c í to N iatzsche, New York, Holt, Rinehart & W inston, 1964.

344
RE A VAU AÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

a satisfação de necessidades que é realmente produzida. A análise econômica de


M arx procuia sustentar essa interpretação, e em vista da importância que ele
atribuía a ela, não tinha motivo para sentir que havia negligenciado a análise da
classe social. Sua análise diferencia-se da análise de muitos outros escritores que
desenvolveram temas semelhantes pela crença de que ele provara que a alienação
do homem era um sintoma da fase. final da “pré-história”.
Em segundo lugar, M arx saudava as mudanças técnicas e econômicas que
estavam revolucionando a velha ordem, mas via a diferença entre o passado e o
presente de uma maneira muito especial. Épocas anteriores foram m arcadas por
“graduações múltiplas da hierarquia social”, m as a era moderna tende para um
antagonismo simplificado entre a burguesia e o proletariado. Embora esse prog­
nóstico não tenha resistido ao teste do tempo, ele é idêntico à sua opinião de que
toda a história anterior é pré-história. Nunca antes o rtiundo social tinha sido.
desnudado de todas as suas práticas tradicionais e crenças religiosas; apenas agora
ele se revelara como realmente é, capaz de ser racionalmente ordenado pelos
homens que tinham alcançado o poder de satisfazer todos os seus desejos. Final­
mente, a futura sociedade comunista sem classe estabeleceria tanto a verdadeira
fraternidade entre os homens como, nessa base, um a oportunidade para cada um
desenvolver e aplicar suas capacidades. Embora se recusasse a especular sobre essa
nova ordem, Marx era enfático ao afirmar que a história do mundo estava se
aproximando de seu ponto crítico decisivo. A seu ver, o potencial produtivo do
homem tornara-se tão grande que as privações da desigualdade e, portanto, as
gratificações substitutas das crenças religiosas tom aram -se obsoletas. Pelas m es­
m as razões, as relações humanas tornaram-se transparentes, de modo que a ordem
social é agora capaz de ser “conscientemente regulada por homens associados
livremente de acordo com um plano estabelecido”34. Marx acreditava que essa
sociedade igualitária do futuro provocaria uma ruptura completa com o passado,
levando à cessação das lutas de classe e libertando os homens de ficarem à mercê
de circunstâncias que não fossem de sua escolha. Pela primeira vez na história, os
homens tinham a oportunidade de estabelecer uma sociedade planejada racional­
mente. Para enfrentar esse histórico ponto crítico mundial, Marx devotou a obra
de sua vida a uma análise daquelas condições cumulativas, endêmicas na organi­
zação capitalista de produção, que produziriam a luta revolucionária final.

34. Karl Marx, Capital, New York, The Modem Library, 1936, p. 92. Marx atribuía as crenças religiosas
e ideologias que disfarçam as relações “reais” na sociedade aos conflitos de interesse engendrados por
sua estrutura de classe. Era, portanto, lógico para ele antecipar íjuc o advento da sociedade sem classe
coincidiria com o “fim da ideologia”, uma vez que, então, a '"necessidade” de ideologia desapareceria.
Cf. a discussão anterior no capítulo 2.

345
REINHARD DENDiX

O terceiro ponto a ser notado é o famoso paradoxo do determinismo de Maix.


Por um lado, ele prognosticava que as contradições inerentes ao capitalism o
produziriam inevitavelmente um proletariado com consciência de classe e uma
revolução proletária. Por outro, atribuía à consciência de classé, à ação política, e
à sua própria teoria científica um papel importante na produção do inevitável. O
paradoxo é “resolvido” desde que se lembre que para Marx a revolução final, bem
com o as ações e idéias subjetivas que ajudavam a produzi-la, eram conseqüências
das crescentes contradições entre o potencial para a produtividade e a atualidade
da exploração. Marx “explica” a maturidade política final do proletariado, o papel
construtivo dos “ideólogos burgueses”, bem como sua própria teoria científica,
com o respostas criativas a contradições que eram o produto do capitalismo.
P ara M arx, “todas as sociedades existentes até então” englobam a “pré-his­
tória” das lutas de classe com o sociedades que contrastam com a sociedade sem
classe do futuro. Toda a sua atenção é focalizada na análise da última fase dessa
pré-história. Uma com preensão científica acurada dessa fase é indispensável para
orientar a ação política, mas o capitalism o também prejudica o uso construtivo e
não-distorcido da inteligência. Entre essas duas posições há uma ambivalência
fundam ental. Marx quer conhecer acurada e desapaixonadamente, mas um a vez
que sua própria teoria do fundam ento sócio-histórico do conhecimento lança
dúvida sobre a possibilidade da ciência da sociedade, ele também quer assegurar-se
de que o conhecimento obtido desempenhe um papel construtivo nos negócios
hum anos. A ciência “mostra” que a alienação deve piorar, e quanto pior for a
alienação tanto mais ela funcionará como o catalisador histórico da fé que libertará
os hom ens. Conseqüentemente, a obra de toda a sua vida sobre a teoria econômica,
elaborada num molde científico, e sua visão moral de uma derradeira revolta contra
a alienação sustentam-se m utuamente. A seu ver, uma crise moral e histórico-mun-
dial está em nós porque encaram os a perspectiva da miserabilização (ou em pobre­
cim ento) - privação relativa e a perda de fraternidade e criatividade - exatamente
quando um a era de abundância se tornou possível. A confiança de M arx na
contribuição de sua própria teoria foi amplamente reforçada por essa coincidência
—com o vim os - de uma crise m oral e uma crise histórica. Mas ao mesmo tempo
devem os notar que essa com binação de uma preocupação moral, uma perspectiva
histórico-m undial e uma postura científica reforçou muito o contraste hostil entre
a tradição e a modernidade como o fundamento de uma compreensão científica da
modernização.

346
R EA V A LIA Ç Ã O DOS C O N C E IT O S D E TR A D IÇ Ã O E M O D ER N ID A D E

Crítica de uma tradição intelectual

As interpretações de modernização analisadas por mim estabeleceram uma


tradição intelectual que permaneceu predominante até o presente. Por suas freqüen­
tes reformulações do contraste entre tradição e modernidade, escritores como
Ferdinand Toennies, Em ile Durkheim, e, entre os sociólogos americanos, Charles
Cooley, Robert Park, Robert Redfield e Talcott Parsons reforçaram consideravel­
mente essa tradição. Por toda a sua diversidade, estes escritores e os relacionados
a eles comungam a idéia de que a “sociedade tradicional” e a “sociedade m oderna”
constituem dois sistemas de variáveis inter-relacionadas. A tendência é: 1. tratar
as sociedades como “sistemas naturais”; 2. procurar “variáveis independentes” que
- se inicialmente alteradas - causarão mudanças nas variávéis relacionadas mas-
dependentes no processo de transição de um tipo para o outro; 3. conceber a
transição como uma tradição em declínio e um a modernidade em ascensão e,
finalmente, 4. admitir que a mudança social consiste de um processo que é interno
à mudança da sociedade.

Marx foi provavelmente o mais eminente exposiior dessa abordagem. A


Inglaterra foi o primeiro país a se industrial irar. Na opinião de Marx, ela exempli­
ficava as “leis do desenvolvimento capitalista” que ele analisara no Capital.
Escrevendo em 1867, em seu prefácio à primeira edição daquela obra, Marx
declarou que a Inglaterra era o terreno clássico do modo de produção capitalista.
Ele explicava seu procedimento analítico nos seguintes termos:

O físico o b serv a fe n ô m e n o s físico s o n d e eles o c o rre m em su a fo rm a m ais c a ra c te rís tic a


e m ais livre de in flu ên c ia p e rtu rb a d o ra , o u , sem p re que p o ssív e l, faz e x p e rim e n to s so b c o n d iç õ e s
q u e a ssegu rem a o c o rrê n c ia d esse fe n ô m e n o em sua n o rm a lid a d e . N e sta o b ra , e x am in ei o m o d o
d e pro d u ção c a p ita lista , e as c o n d iç õ e s de p ro d u ç ã o e in te rc â m b io c o rre sp o n d e n te s a esse m odo.
A té o p re sen te , seu te rre n o c lá ss ic o é a In g laterra. E sta é a razão p ela qual a In g la te rra é usada
c o m o a prin c ip a l ilu stra ç ão no d e se n v o lv im e n to de m in h as id éias teó ricas. Se, c o n tu d o , o le ito r
a lem ão e n co lh e o s o m b ro s d ian te das co n d iç õ es dos tra b a lh a d o re s d a in d ú stria e da a g ric u ltu ra
inglesas, ou, de u m a m an eira o tim ista , c o n fo rta -se com o p e n sa m e n to de que na A le m a n h a as
c o isa s não são assim tão ru in s, d ev o d izer-lh e cla ra m en te : “D e te fa b u la n a r ra tu r V ’

In trin se c a m en te , esta n ão é um a q u e stã o d o grau m a io r ou m e n o r de d e se n v o lv im e n to dos


a n ta g o n ism o s s o cia is que resu ltam das leis n atu rais da p ro d u ç ã o c ap italista . É um a q u e stã o
dessas leis em si, d e ssa s te n d ê n cia s que o p eram com n ecessid ad e fé rrea em d ire ç ã o a re s u lta d o s
in ev itáv eis. O p a ís que é m a is d ese n v o lv id o in d u stria lm e n te a p en a s m o stra , ao s m e n o s d e se n ­
volv id o s, a im a g e m de seu p ró p rio fu tu ro 35.

35. ídem, pp. í 2-13 (do prefácio ;i primeira edição).

347
RE1NHARD BENDIX

M arx fez tais prognósticos na presunção de que a mesma organização da


produção gera em toda parte transformações iguais ou semelhantes nas classes
sociais e n a estrutura política. Como proposição empírica, essa hipótese é ilusória
porque trata das sociedades como se elas fossem estruturas inteiramente fechadas,
cada um a evoluindo em termos de determinadas tendências internas. Realmente,
um a vez iniciada a industrialização na Inglaterra, as inovações técnicas e as
instituições do país economicamente avançado podiam ser usadas como um m o­
delo para progredir mais rapidamente do que a Inglaterra o fez, embora m inim i­
zando ou até evitando os problem as encontrados pelo país pioneiro. Considerarei
essa possibilidade mais detalhadam ente abaixo; o próprio Marx também notou-o,
mas não pensou que fosse signific ativo. Em vez disso, declarou que sua análise do
país adiantado podia ajudar a “diminuir as dores de nascimento” de desenvolvi­
m entos semelhantes em outros países. Tornando a mudança social a longo prazo
inteiram ente dependente da estrutura econômica, Marx evitou o reconhecimento
da im portância que a emulação internacional e a iniciativa governamental, o
nacionalism o e a difusão de idéias tinham em países que seguiam na esteira da
industrialização inglesa. E uma medida da insuperável influência da tradição
intelectual e ideológica culminando em Marx o fato de que, basicamente, hipóteses
sem elhantes ainda informam m uitos estudos empíricos recentes do “desenvolvi­
m ento” . A lguns desses estudos serão aqui considerados num breve retrospecto para
consubstanciar essa afirmação.
Estudos sobre mudança social operam tipicamente com um modelo de
“antes-e-depois” da sociedade considerada. A m ais antiga e am ais recente estrutura
social são diferenciadas por duas séries de atributos dicotômicos, e é muito difícil
resistir à opinião de que cada série ôonstitui um sistema generalizável de variáveis
inter-relacionadas. Nessa hipótese, as sociedades podem ser classificadas de acor­
do com o grau com que elas apresentam uma série de atributos de preferência a
outra, resultando numa ordenação hierárquica de países em termos de sua relativa
m odernização. Um exemplo desse procedimento aparece no conhecido estudo de
Daniel Lerner, The Passing o f Traditional Society.
O grande mérito do estudo de Lerner consiste em seu cândido uso da
m odernização ocidental como um modelo de aplicabilidade global. Para Marx, a
Inglaterra, como o país “mais desenvolvido industrialmente”, exemplifica “leis do
desenvolvim ento capitalista” universais; para Lerner, a modernização ocidental
exibe “certos componentes e seqüências cuja relevância é global”3'1. Ele reconhece

36. D aniel Lerner, The Passing o f Traditional Society, New York, The Free Press, 1964, p. 4 6 .0 raciocínio
nesta obra (publicada originalmente em 1058) é semelhanle em muitos pontos aos contidos cm Walt

MS
REA VALIAÇÃP DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

que a “área do Atlântico Norte” desçnvolvcu-se primeiro e, de preferência, de


maneira gradual, enquanto outros países vieram depois e procuraram desenvolver-
se mais rapidamente, mas, como Marx antes dele, descarta isto como uma consi­
deração secundária. Na visão de Lerner, a proposição central é que no processo de
modernização, naquela época como na atual, quatro setores ou dimensões estão
sistematicamente ligados uns aos outros, a saber, urbanização, alfabetização,
participação dos meios de comunicação e participação política37. O autor parece
considerar a seguinte afirmação como central para seu propósito:

O livro procura explicar por que e m ostrar com o os indivíduos e suas instituições se
m odernizam ju n to s. Ele nega um papel único □ “natureza hum ana” ou ao “determ inism o social” .
Com o não é de nosso feitio desenterrar cadáveres, nem m esm o reconhecem os estas com o
questões, m as vam os diretam ente a uma perspectiva “com portam entista” . Isto é: a m udança
social opera através de pessoas e lugares. Ou os indivíduos e seus am bientes se m odernizam
ju n to s ou a m odernização conduz a outra parte não pretendida. Se novas instituições de
com portam ento político, econôm ico, cultural devem mudar de m aneiras com patíveis, então a
coerencia interna deve ser oferecida pela personalidade m atriz que governa o com portam ento
individual. C oncebem os a m odernidade com o um estilo de vida participante; identificam os seu
m ecanism o de personalidade distintiva com o em patia. Indivíduos e instituições em m oderni­
z a ç ã o , c o m o a g a lin h a e o ovo, re p ro d u z e m e sse s tra ç o s um no o u tro 3*.

Esta vigorosa afirmação de uma perspectiva comportamentista rejeita um


determinismo psicológico bem como social, mas é ainda devedora do contraste
convencional entre tradição e modernidade31'.

0 professor Lerner formula a questão de uma forma condicional que é difícil


de conciliar com sua ênfase no comportamentismo. Ele diz, com efeito, que ou as
novas instituições mudam de maneiras compatíveis (significando, presumivelmen­
te, maneiras semelhantes às do modelo ocidental), ou a modernização conduz a
outra parte do que a pretendida (significando, presumivelmente, em direções
diferentes do modelo ocidental). Ele acredita que a alta associação entre urbaniza­
ção, alfabetização, participação da mídia e participação política nas sociedades
modernas aponta para uma coerência sistêmica subjacente (que Lerner chama de

W. Rostow, The Stagcs o f Economic Growth, Cambridge University Press, 1961. Para uma avaliação
critica do último, cf. Walt W. Rosli.w (ed.), The Economics o f Takc-O ff into Sustaincd Growth
(Praccedings o f a Conference by tlie International Economic Association), New York, St. MartirTs
Press, 1963.
37. Lerner, op. cit.y pp. 65-68. Cf. também o prefacio de 1964 à edição em brochura.
38. Idntn, p. 78. G rifos meus.
39. Cf. a discussão do “sistema” de modernidade em idem, pp. 54-55. Ver tnmbém o comentário de David
Riesman na p. 13 de sua introdução.
REINIIARD BENDIX

“o estilo de vida participante”) de tal modo que essas sociedades podem ser ,
classificadas de acordo com seu grau de trauição, transição, ou modernidade.
Todavia, não acredito que haja alguma certeza de que, um a vez iniciado, o
desenvolvim ento econômico será auto-sustentável, ou que novas instituições m u­
darão de “m aneiras com patíveis”. O próprio professor Lerner afirma que “as
sociedades tradicionais exibem padrões “de crescimento” extremamente variados;
algum as são m ais urbanas do que instruídas, outras mais participantes da m ídia do
que urbanas”40. Esses “desvios da linha de regressão” são devidos ao fato de que
o “povo não faz o que, em todo curso racional de comportamento, devia fazer”41 -
posição com portamentista bem pouco consistente. E embora o professor Lerner
reconheça que nas nações em ergentes o povo não fez o que, de acordo com seu
m odelo, devia ter feito, ele ainda considera seu modelo validado pelos aconteci­
m entos42.
N os últim os anos, a obra de Lerner foi acompanhada por um a série de estudos
que com pilam listas de atributos, nas quais os países do mundo são selecionados
pelo grau com que se aproximam das características das sociedades industriais do
O cidente43. Tal abordagem repousa numa aplicação da teoria evolucionista a
períodos de tempo muito curtos, apesar dos avisos anteriores de que isto é altamente
questionável, m esmo do ponio de visiu do evolaciüiiismo44. Se a estrutura social

40. filem , p. 65.


41. Idcm , p. vii, prefácio de 1964.
42. Idcm , pp. vii-x. O fato de Lernei lei resolvido ignorar o que reconhece tão claramente foi explicado ,
por D avid Riesman em sua introdução à edição original pela "crença geral de que devia haver um meio
- um meio fora da pobreza e do constrangimento psíquico dos ‘Tradicionais’- que ligue o autor desle
volume com sua própria tradição nacional. - Mas esta própria crença americana de que há um meio é
um sonho. E o professor Lerner, com o ufn estudante de comunicações, compreende que é um sonho
que inspira não apenas novos desejos, mas novas soluções —bem como gestos violentos para com a
modernidade. O que parece necessário, de sua perspectiva, é um alopático racionamento de sonhos,
suficiente para acender n religião do progresso, du avanço, sem incitamento à agitação” . Ao que
Riesm an acrescenta a observação dc que “ a fluência emocional e política de analfabetos recém-libera-
dos pode ser bastante terrível ’, e que '‘uma imagem cinematográfica da vida na América [...] é uma
‘te o ria ’ radical quando aparece nas telas do Cairo, Ankara ou Teerã”. Idcm , p. 10.
43. Ver Seym our M. Lipset, Political M an, Garden City, Doubleday & Co., 1050, cap. II e as referências
ali citadas. Cf. também Phillips Cutright, “ National Political D evelopm ent”, American Sociological
Revicw, XXV1I1, 1063, pp. 253-264; do mesmo autor, “Political Slructure, Economic Development
and National Security P ro g n m s” , Am erican Journal o f Sociology, LXX, 1065, pp. 537-550; mas
tam bém a contribuição crítica de Stanley H. Udy Ir., “Dynamic Inferences from Static Data”, idcm,
pp. 625-627. Enquanto isso uma grande quantidade de estudos a respeito das mesmas linhas estão sendo
realizados. Ver A. S. Banks e R. R T ex to r,/l Cross-Polity Survcy, Cambridge, Massachusetts Inslítute
o f Technology Press, 1063; e Bruce M. Russctt, Hayward R. A lkeref fl/., World U andbookof Political
and Social Indicators, New Hnven, Yale University Press, 1064.
44. Ver M argaret M ead, ContimtiTies in Cultural Evolution, New Haven, Yale University Press, 1064, p.
7. A autora cila a aceitação de Boas da evolução numa escala planetária, mas lambém sua rejeição da
aplicação dc conceitos evolucionistas a uns poucos séculos, uma vez que mudanças de curto prazo

350
RE A VAL/AÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

anterior e a última constituem dois sistemas generalizáveis de variáveis interliga­


das, pode ser lógico inferir que a transição de uma para outra é caracterizada por
misturas de atributos de ambas, e através do tempo, por um declínio de atributos
da primeira e um surgimento de atributos da segunda. Todavia, listas de atributos
da relativa modernização dos países não evitam facilmente a implicação de que
uma mudança, uma vez iniciada, deve seguir seu curso ao longo das linhas
indicadas pelo “modelo ocidental”, e que na transição para a modernidade todos
os aspectos da estrutura social mudam de alguma maneira mais ou menos integrada
e simultânea. Apenas nessas hipóteses é razoável ignorar o timing e a seqüência de
modernização dos países em seus vários e distintos aspectos.
Exatamente esse timing e a seqüência podem produzir uma diferença crucial
para o sucesso ou o fracasso do esforço de modernização45.. Em sua introdução ao
livro de Lem er, David Riesman observa que o indivíduo de transição é definido
como alguém que atende aos meios de comunicação de massa, mas não sabe ler,
ao que ele acrescenta a perturbadora pergunta: “Que aspecto terá uma sociedade
que é dominada por tais tipos ‘pós-alfabetizados’?”46. Esta pergunta aponta para a
possibilidade de uma “transição” de longa duração, uma contradição em termos,
que se origina nas hipóteses evolucionistas e conduz a uma nomenclatura questio­
nável sobre sociedades “em desenvolvimento” ou “de transição” que podem não
se desenvolver suficientemente para serem chamadas de m odernas. Questões afins
surgem quando esforços para a modernização nos assim chamados países em
desenvolvimento levaram ou estão levando a mudanças de seqüência e timing
quando comparadas com o modelo ocidental. Por exemplo, em muitos países
europeus, o direito de voto foi estendido um tanto lentamente, enquanto em muitos
países recentemente independentes o sufrágio universal foi adotado abruptamen­
te . Essa diferença é ignorada quando os países são sim plesm ente classificados
numa extremidade do tempo em termos do grau com que o direito de voto foi
estendido aos membros adultos de suas populações. O assunto não melhora

podem continuar em qualquer direção - uma posição aceita pelos mais modernos evolucionistas.
45. Apesar dos comentários preventivos, a tendência é substituir uma com pilação “horizontal” pela
dimensão "vertical” da história. CF. Raymond Grew e Sylvia L. Thrupp, “Horizontal History in Search
of Vertical D imensions”, Comparativc Studies in Sociciy a n d tü sto ry , VIII, jan. 1966, pp. 258-264.
46. David Riesman em Lemer, op. cit., p. 14.
47. Nos países da Europa ocidental essa extensão foi relativamente gradual durante o século XIX; o
estabelecimento do sufrágio universal data apenas da Primeira Guerra Mundial ou do início dos anos
20. V erStein Rokkan, “Mass Suffrage, Secret Voting, and Politícal Y w tiá p M m tí^A rchivcsE uropécn-
nesde Sociologia, II, 1961, pp. 132-152. Ao contrário, uma compilação mostra que das 39 nações qiie
se tornaram independentes e se juntaram ás Nações Unidas cnlre 1946 e 1962 apenas 7 não têm sufrágio
universal. As restrições referem-se geralmente a membros das ordens religiosas budistas, cujas regras
não lhes permitem votar, e a membros das forças armadas.

351
REINHARD HEND1X

necessariament.e pela adição de outro índice, digamos de alfabetização, porque


esses dados - m esm o que sejam confiáveis - não revelariam o nível de instrução
atingido pela população. D e um modo geral, listas de atributos de modernização
não são passíveis de autorizar uma inferência confiável, se - com relação à
seqüência e ao timing - seus vários itens são interpretados como índices de
aproxim ação ao modelo ocidental4".
Todavia, estudos com parativos sobre modernização confiam necessariam en­
te n a experiência ocidental quando constroem seqüências de desenvolvimento.
Essa prática torna-se perigosa apenas quando a experiência passada é usada para
extrapolar para o futuro de sociedades “em vias de industrialização”. Em seu livro
Industrialism and Industrial M an, Clark Kerr e seus associados enfatizam explici­
tam ente que a “lógica do industrialism o” que construíram envolve abstrações sobre
a hipótese de que a “fase de transição da industrialização” passou. De fato, eles
enfatizam que tendências atingidas dedutivamente (embora por referência ilustra­
tiva à experiência de sociedades “desenvolvidas”) não são passíveis de se realiza­
rem no curso real da história. Todavia, através de todo o volume, são recorrentes
frases que traem um a confusão entre esses dois níveis de análise. Na mesma página,
tendências são alternadamente chamadas de logicamente construídas e inerentes
(pp.'33-34), a ênfase no contraste entre abstração e história é acompanhada pela
afirm ativa de que “o império do industrialismo abarcará o mundo todo” (p. 46), a
industrialização é chamada de um “processo invencível”, embora as incertezas do
futuro sejam relegadas a variações de extensão e dificuldade na transição ou a
vários tipos dü industrializações passadas (pp. 19-20, 47 e ss.). Talvez a caracte­
rística m ais interessante dessa visão determinista do futuro seja a de que o
“industrialism o” do mundo inteiro é previsto, não na organização da produção,
com o em Marx, mas nas ações iniciadoras ou manipuladoras de cinco diferentes
elites, cuja capacidade de “industrializar” as sociedades inteiras é simplesmente
presum ida. Exceções, atrasos e não sei o que mais são considerados como desvios
que “não podem impedir a transformação a longo prazo”4", enquanto não é dada a
devida consideração à possibilidade de fracasso nem a tipos inauditos de industria-
Hzação. Raramente a mudança social foi interpretada de maneira tão administrati­

48, A lgum as vezes, como em estatísticas sobre crescimento econômico e tendências democráticas, os dados
das tendências c o ra n te s de um país são sobrepostos aos dados de tendências passadns de outro país
mais adiantado, mas a semelhança d as tendências correntes com tendências passadas não resolve a
questão de seqüência e timing. O bservar a anílise crítica dessa abordagem de Simon Kuznets,
“ Unãerdeveloped Countries and the Pre-industrial Phase in the Advanced Counlries”, em O tto Feins-
tein (ed.), Two Worlds o f CJtnngc, G arden City, Doubfeday & Co., 1964, pp. 1-21.
49. C lark K e n , John T . Dunlop, Frederick H arbison e Charles A. Myers, Industrialism and Industrial Man,
Cam hridge, Harvard University Press, 1960, p. 49 c passim.

352
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

va, enquanto todas as contingências da ação são tratadas como meras variações
históricas que não podem alterar a “lógica do industrialismo”. Embora o reconhe­
cimento de rotas alternativas da industrialização seja uma melhora evidente em
relação ao evolucionismo unilinear do estudo de Lerner, os autores abandonam o
ganho que obtiyeram ao prognosticar um sistema de industrialismo para todas as
sociedades, quase da mesma maneira com que Marx prognostica o fim das lutas
de classe e da história para a sociedade socialista do futuro.

U ma A bordagem A lternativa à Tradiçao e M o dernidade

Os estudos citados acima podem bastar como exemplos da persistente in­


fluência de um a tradição intelectual que se originou com a emergência da sociedade
industrial na Europa ocidental. Necessariamente, os estudos de mudança social
confiam na experiência histórica. Mas a modernização ocidental foi acompanhada
de ponta a ponta por uma construção intelectual particular dessa experiência,
preparada por impulsos morais ou reformadores muitas vezes apresentados sob a
máscara de generalizações científicas. Teorias de evolução social tiveram uma
influência especialmente importante nesse aspecto por tenderem a usar a experiên­
cia histórica para construir tipos ideais contrastantes de tradição e modernidade, c
então usar esse contraste para fazer generalizações contingentes sobre a transição
de uma para a outra. Nesta seção, volto-me para uma avaliação crítica do evolu­
cionismo e para a proposta de uma alternativa.

Tipos ideais não são generalizações

No mínimo, as considerações de mudança envolvem duas condições term i­


nais, de modo que a palavra “mudança” se refere às diferenças observadas antes e
depois de um dado intervalo de tempo. Sem saber em que aspectos uma estrutura
social posterior difere da anterior, não saberíamos que mudanças procurar e
explicar. Conseqüentemente, somos obrigados a caracterizar a estrutura social
anterior (pré-moderna) e posterior (moderna) por duas listas de atributos m utua­
mente disjuntivas.
A formulação abstrata de tais contrastes pode ser tão enganosa, contudo,
quanto as avaliações morais revistas anteriormente. A questão pode ser ilustrada
usando o contraste de Talcott Parsons entre o universalismo e o particularismo
como atributos da modernidade e tradição, respectivamente. Na Europa, a socie­
dade tradicional, em boraparticularista em muitos aspectos, envolvia um elemento

353
REINHARD BENDIX

de universalism o importante através da fé cristã e das instituições da Igreja católica:


na China, a sociedade tradicional envolvia outros elementos universalistas através
do confucionism o e do sistema de exame; mesmo na índia, onde a religião hindu
e o sistem a de casta alimentavam um particularismo extremo, os temas culturais
básicos desse particularismo se espalharam através de todo o subcontinente.
Evidentem ente, o “particularism o” caracteriza as sociedades tradicionais apenas
em alguns aspectos, enquanto em outros ele é combinado com um “universalismo”
que p ode ser tão diferente com o o catolicismo, o confucionismo, ou as idéias de
reencarnação. Portanto, a caracterização disjuntiva da “tradição” e “modernidade”
por term os abstratos como “particularism o” e “universalismo” exagera ou sim pli­
fica a evidência, como Max W eber apontou rm sua discussão do tipo ideal. Tal
caracterização nada diz acerca da força ou da generalidade com que qualquer
atributo está presente. Tam bém, o uso de um ou de vários termos abstratos para
caracterizar a tradição ou a m odernidade tende a confundir o rotulamento para a
análise, um a vez que aparentemente as sociedades variam não só no grau mas
tam bém no tipo de seu universalismo ou particularismo. N esse nível abstrato, é
bastante provável que nenhum a sociedade esteja isenta de alguns elementos de
am bos os extrem os do continuum, levando alguns escritores a usar frases como “a
m odernidade da tradição'’ ou “a tradição do novo”5".
E sses problem as são complexos quando passamos do contraste entre estru­
turas sociais “antes-e-depois” para uma consideração de mudança de um a para
outra. N esse aspecto, podemos ser guiados pela própria discussão de Max Weber
desse problem a:

S eq ü ên cias de desenvolvim ento tam bém podem ser construídas em tipos ideais, e esses
co n stru to s podem ter um valor heurístico realm ente considerável. M as isso dá origem de m odo
p articu lar ao p erig o de que o tipo ideal e a realidade se confundam um com o outro5'.

Conseqüentemente, construtos ideais típicos de desenvolvimento devem ser


nitidam ente diferenciados da seqüência real de mudança, mas essa distinção é
“inusitadam ente difícil” de manter. Pois ao construir uma seqüência de desenvol­
vim ento usarem os materiais ilustrativos para tornar claro o que queremos dizer e,
portanto, podem os confundir a seqüência de tipos com um curso de eventos.

50. A prim eira frase ocorre várias vezes em Lucian W. Pye e Siüney Verba (eds.), Political Culturc and
P olitical D evelopm ent, Piirceíon, Princeion University Press, 1965, passim . A segunda é o título de
um lívro de H arold Rosenberg.
51. M ax W eber, The Mcthodology o f the Social Sciences, Giencoe, The Free Press, 1949, p. 101.

354
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS D E TRADIÇÃO E MODERNIDADE

A s séries de tipos que resultam dos critérios conceituais selpcionados aparecem então
com o um a seqüência histórica que se desenrola com a necessidade de um a lei. A classificação
lógica de conceitos analíticos de um lado e os arranjos em píricos dos eventos assim conceitua-
lizados em espaço, tempo, e relação causai, do outro, parecem estar tão estreitam ente ligados
que há um a quase irresistível tentação de violentar a realidade a fim de provar a validade real
do construto52.

Os perigos a que se refere Weber não passaram despercebidos. Seguindo a


tradição de Maine, Durkheim e Toennies, Robert Redfield comparou quatro comuni­
dades contemporâneas em Yucatán. Ele enfatizou que seu método não era recomen­
dável àqueles que desejavam questionar se “mudanças em alguma das características
estão relacionadas ou condicionadas a mudanças em alguma das outras e como se
relacionam [...]”. Mas, embora Redfield afirmasse claramente que ele não colocara
tais questões, supunha no entanto que “há alguma relação natural ou interdependência
entre algumas ou entre todas as características nessa mudança pelo fato de que a
mudança relativamente a algumas delas tende a provocar ou acarretar com ela uma
mudança relativamente às outras [—]”53.
Desse modo, vendo seu problema como uma das “relações” causais “entre
variáveis”, Redfield involuntariamente negligencia seu próprio aviso referente à
disjunção entre tipos ideais e seqüências ideais. Devemos tentar entender por que
essa ccnfusão é, como Weber já sugerira, tão difundida.
Operando com um modelo de “antes-e-depois” da sociedade examinada,
temos dificuldade em resistir à opinião de que as duas séries de atributos que
caracterizam a estrutura social anterior e posterior constituem sistem as generali-
záveis de variáveis empiricamente inter-relacionadas. Mas adotando esta visão,
ignoramos inteiramente que a especificação de uma lista de atributos é tipicamente
ideal e, portanto, simplifica e exagera a evidência. Se devemos evitar tipos ideais
enganosos em descrições acuradas, devemos tomar cuidado em tratar os grupos de
atributos como hipoteticamente, não como realmente, relacionados. Precisamos
desses aglomerados para distinguir entre estruturas sociais e os ilustramos com
exemplos históricos, mas estes ainda são abstrações, construtos que devem ser
usados como instrumentos de análise. Redfield, por exemplo, sugeriu que o relativo
isolamento e a homogeneidade ocupacional das comunidades coexistiam em
muitas oportunidades e estavam talvez relacionadas causalmente. Sem dúvida há
muitas comunidades isoladas com relativamente pouca divisão de trabalho, mas o
grau de isolamento e a diferenciação ocupacional têm uma correlação muito

52. Idem, pp. 102-103.


53. Robeit Redfield, The Folkculíure ofYucatany Chicago, U ni versity of Chicago Press, 1941, pp. 343-344,

355
REINHARD BENDIX

im perfeita, e através do tempo as comunidades variaram independentemente em


am bas as dimensões. Se quiserm os escapar do artificialismo de tipos ideais,
podem os visualizar duas distribuições de freqüência sobrepostas nas quais ou o
isolam ento ou a heterogeneidade ocupacional são tratados como variáveis depen­
dentes. T ais distribuições aproximariam mais a realidade histórica, ainda que o tipo
ideal d e um a com unidade isolada e homogênea é melhor empregado como uma
sugestão para a investigação de comunidades isoladas com considerável divisão
de trabalho, ou comunidades não-isoladas que são relativamente homogêneas54.
E ssas precauções são m uitas vezes ignoradas, o que pode ser ilustrado pela
referência a duas linhas de raciocínio relacionadas e bastante comuns. Uma delas
tem que ver com a noção de “pré-requisitos”. A começar com o contraste entre
tradição e m odernidade (em uma de suas muitas versões), o analista considera todos
os traços básicos de m odernidade como pré-requisitos de modernidade, um proce­
dim ento que implica que, indiferente ao tempo e ao lugar, todos os países devem
de certa m aneira criar todas as condições características de modernidade antes que
possam esperar ser bem-sucedidos em seu impulso para a modernização. Mas

O b v ia m e n te , a lg u n s do s fa to re s lista d o s n ão são p ré -re q u is ito s a b so lu tam e n te , m as a n te s


a lg u m a c o is a q u e se d e se n v o iv e u no c u rs o do d e se n v o lv im e n to in d u stria l. A lém d isso , o que
p o d e s e r ra z o a v e lm e n te e n c a ra d o c o m o um p ré -re q u isiio em a ig u n s c a so s h istó ric o s p o d e m u ito
n a tu ra lm e n te s e r v isto c o m o um p ro d u to d e in d u stria liz a çã o em o u tro s. A linha e n tre o q u e é
u m a p re c o n d iç ã o e o q u e é u m a re s p o sta a o d e se n v o lv im e n to in d u stria l p arece, an te s, s e r um a
lin h a fle x ív e l55.

E ssa distinção pode ser feita apenas se os processos específicos de industria­


lização são analisados. Contudo, as causas e conseqüências tendem a se tornar
confusas, se, em vez de um processo uniforme, se assume que os países que
ingressam na industrialização num a época tardia repetirão em todas as coisas
essenciais a industrialização prévia de algum outro país56.
O utra linha de raciocínio envolve uma indevida generalização de uma expe­
riência histórica limitada (em vez de trabalhar retrospectivamente das característi­

54. Cf. a discussão referente a este assunto no ca p. 5.


55. A lexander Gerschenkron, Economic Backwardncss in Hislorical Perspective, New York, Frederick A.
Praeger, 1965, p. 33. Minha dívida com Gerschenkron será evidente do começo ao fim; em vários
aspectos, minha análise representa uma extensão sociológica de pontos sugeridos por mim pela primeira
vez no contexto da história econômica.
56. Idem , p. 40. C f. também a discussão crítica de Gerschenkron a Tespeito de Rostow r.o longo das mesmas
linhas, em Rostow (ed.), The Economics o f Takc-Off, op. cit., pp. 166-167. V er também, sobre uma
discussão afim, Albert O. Hirschman, “ObstacJes to Development”, Economic Dcvelopment and
C ultural Change, X1H, 1965, pp. 385-303.

356
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

cas presentes aos pré-requisitos necessários). Por exemplo, o declínio dos laços de
parentesco e o surgimento concomitante do individualismo foram aspectos da
modernização ocidental. Hoje, estam os aprendendo com o muitos significados e
exceções eram de fato compatíveis com essa tendência global, embora estas sejam
muito apropriadamente ignoradas quando construímos um a seqüência típica ideal.
Mas, em vez de usar essa seqüência como uma ferramenta analítica para mostrar
como e por que os desenvolvimentos históricos reais se desviam dela, nós a usamos
para fazer prognósticos contingentes sobre o futuro de sociedades “em desenvol­
vimento”. Para sermos exatos, ninguém provavelmente diria simplesmente que
essas sociedades se desenvolverão; em vez disso, afirma que elas não se desenvol­
verão a m enos que diminuam os laços de parentesco. Há pelo m enos três coisas
erradas nesse procedimento: a. ele ignora os exageros e simplificações que estavam
implícitos no tipo ideal em primeiro lugar, e portanto, nos ofusca para o papel que
os laços de parentesco e o coletivismo desempenharam na m odernização da Europa
ocidental; b. ele também nos cega para os meios possíveis pelos quais os laços de
parentesco e o coletivismo podem ou poderiam ser tom ados compatíveis com a
modernização de outras áreas (tacitamente usamos de maneira errônea o tipo ideal
como uma generalização), e c. ele desvia a atenção da própria possibilidade real
de que a modernização jamais possa alcançar a modernidade, de modo que termos
como “desenvolvimento” ou “transição” são uma designação incorreta quando
aplicados a sociedades cuja condição futura pode não ser marcadamente diferente
do presente.
Essa consideração crítica não se sustenta por si só. Vários escritores exami­
naram as hipóteses da tradição intelectual que eu caracterizei e que também achei
insuficientes. Elkan e Fallers examinaram desenvolvimentos locais específicos,
como a mobilidade do trabalho assalariado em Uganda, e mostraram em que
aspectos essa experiência difere da mobilização de uma força de trabalho na antiga
Inglaterra industrial57. Em sua discussão das inconstantes tradições de ofícios,
Milton Singer questionou a hipótese de um a recapitulação uniforme do processo
de industrialização, e a tendência a empregar o conceito de “tradição” como uma
generalização, mais do que um tipo idealsií. Questões semelhantes foram levantadas
e sistematizadas por Neil Smelser, que distingue claramente entre construtos ideais
típicos de mudança social e generalizações sobre mudança social, e que enfatiza
que as últimas são difíceis de se realizarem. Mesmo que o “círculo vicioso da

57. Walter Elkan e Lloyd A. Fallers, “The Mobility o f Labor”, em Wilbert E. Moore e A rnold S. Felriman
(eds), Labor Commitment and Social Changc in Devcloping Arcas, New York, Social Science
Research Council, 1960, pp. 238-257.
58. Mílton Singer, “Changing CraftTradiiions in índia”, em Moore e Fcldman (eds.), op. cit., pp. 105-106.

357
REINHARD BENDIX

pobreza” seja rompido, as m udanças subseqüentes da estrutura social variarão com


as condições pré-industriais do país, o ímpeto especial para se desenvoiver, o
cam inho tom ado pela modernização, as diferenças significativas que persistem nas
econom ias desenvolvidas, e finalmente com o impacto e o timing dos eventos
dram áticos59. Com o apontou W ilbert Moore num contexto semelhante:

A m aneira com o a história im pede sua própria réplica cria dificuldades em generalizações
que irão u n ir a experiência histórica e contem porânea e tratar da diversidade que os cam inhos
o p cio n ais da m udança introduzem . [...] Além das seqüências e resultados m ínim os requeridos,
o que é n ecessá rio , e que não está na m aior parte das vezes à mão, é a construção de seqüências
de altern ativ a lim itada ou tipológicas nas quais é inadequada a generalização6".

O bservações desse tipo são, de preferência, recentes, embora Gerschenkron


já as tivesse expresso em 1952. Elas não substituíram a abordagem evolucionista
dom inante do estudo com parativo da modernização.
O ím peto de generalizar, m esm o quando a generalização é imprópria, deriva
não só da tradição intelectual que investiguei anteriormente. Ele também deriva do
desejo de colocar as diretivas políticas numa base “científica”, e da indispensabi-
lidade de tipos ideais em estudos da mudança social. O fato de que o tempo e,
novam ente, a distinção entre a tradição e a modernidade tenham sido supersimpli-
ficados não significa que possamos prescindir inteiramente desse contraste. Estu­
dos da m udança social não são possíveis sem um modelo de “antes-e-depois” da
estrutura social em questão.

A reafirmação do contraste

Os contrastes entre as estruturas sociais pré-modernas e modernas podem ser


form ulados através das várias dimensões que são convencionalmente distinguidas
na análise das estruturas sociais. O problema da inter-relação causai entre essas
dim ensões é um problema de pesquisa empírica que não pode ser substituída por
deduções lógicas, na medida em que os indícios contestam a hipótese de um
processo de modernização uniform e. Tampouco é apropriado transformar as duas

59. Neii J. Sm elser, TheSocíology o f Economic Life, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1963, pp. 105-106.
60. W ilbert M oore, The Impact o f Industry, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1965, p. 19. Cf. também a
m esm a monografia anterior do escritor, Social Changc, Englewood Cliffs, Prentice-Hall, 1963, cap.
V. C ríticas semelhantes do evolticionismo encontram-se nos escritos de S. N. Eisenstadt, especialmente
em dois recentes ensaios “ Social Change, Uifferentiation and Evolution”, American Sociological
Rcview , XXIX, 1964, pp. 375-386; e “ Social Transformation in Modernizatior.”, idem, XXX, 1965,
pp. 659-673.

358
REA VALIAÇÂO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

listas de atributos pelas quais podemos distinguir a tradição da modernidade em


dois sistemas a que são imputadas certas propriedades. Pois dessa maneira uma
série de atributos separados ou separáveis é transformada nas propensões estrutu­
rais de um a entidade coletiva. Tal reificação (ou coisificação) está intimamente
ligada com o moralismo e cientificismo que, como vimos, caracterizaram muitas
reações à industrialização.
Smelser sugeriu o conceito de diferenciação estrutural” como um instrumen­
to analítico básico para o estudo da modernização. Ele vê a transição entre tradição
e modernidade como envolvendo mudanças em várias esferas da vida. Na tecno­
logia, ha uma mudança de simples técnicas à aplicação do conhecimento científico,
e na agricultura, da agricultura de subsistência a produção comercial de produtos
agrícolas. Na indústria, a força humana e animal é substituída pela maquinaria,
motorizada. E com a industrialização a população m uda cada vez mais da fazenda
e da aldeia para a cidade e para as empresas econômicas ali localizadas. Esses
processos de mudança consistem de, ou são acompanhados por, diferenciação
estrutural no sentido de que em cada caso uma estrutura anterior, que combina
várias funções econômicas, e finalmente substituída por uma estrutura posterior,
caracterizada por maior especialização ou por uma maior divisão de trabalho, como
os antigos escritores a chamavam61. Smelser é cuidadoso ao apontar que. embora
esses processos possam ocorrer em conjunto, também é verdade que cada um
ocorreu independentemente dos outros. Ele sublinha que a diferenciação estrutural
em domínios como a família, religião e estratificação não é apenas a conseqüência
da “industrialização”; ela ocorreu em áreas “pré-índustriais”, por exemplo, como
resultado do colonialismo62. Dessa maneira, a “diferenciação estrutural” nos for­
nece uma designação sumária do contraste entre “tradição” e “modernidade” sem
prejulgar o caráter sistêmico de cada termo. A designação nos perm ite investigar
a relação causai entre processos distintos da diferenciação estrutural.
Tais investigações são necessárias, se quisermos em pregar os indispensáveis
contrastes ideais típicos entre “antes” e “depois” sem com unicar uma espúria
simplicidade dedutiva à transição de um para o outro63. Um caso em questão são
as ramificações culturais das mudanças nas instituições econômicas que são
propriamente concebidas como exemplos de diferenciação estrutural. O historiador
alemão Otto Brunner mostrou que nas sociedades pré-modernas da Europa os fatos
da vida econômica eram tipicamente incorporados em tratados sobre a administra-

61. Ver Smelser, op. cít., pp. 101-102, 106.


62. Idcmy p. 112.
63. Cf., por exemplo, a análise das mudanças na organização industriai de H. Freudenberger e F, Rediich,
“The Industrial Development o f Europe: Reality, Symbois, ímages”, Kyklos, XVII, 1964, pp. 372-40!.

359
RE1NHAXD RENDIX

ção do E stado ou doméstica, nos quais as instruções concernentes à agricultura e


à m anutenção de contas ocorriam lado a lado com recomendações sobre a educação
das crianças, as relações maritais, o tratamento adequado dos servidores, e m atérias
afins. Considerações técnicas e econômicas eram em larga medida uma parte da
abordagem m oral das relações humanas. Essa justaposição pertence a um mundo
no qual o dom éstico ou o Estado constituía tipicamente uma unidade de produção,
consum o, e vida social, enquanto a separação da ética e da economia pertence a
um a sociedade na qual a propriedade familiar é caracteristicamente separada do
lugar de trabalho64. Nesse caso, as mudanças nas instituições econômicas e na
perspectiva intelectual podem ser consideradas exemplos afins de “diferenciação
estrutural”, m as deve ficar claro que esse relacionamento é complexo e requer
investigação minuciosa.
Essas investigações podem nos ajudar a evitar as ambigüidades que perm a­
necem no nível abstrato, porque termos como “diferenciação” não são tão neutros
e inequívocos quanto desejaríamos que fossem. Seguindo Durkheim, Smelser
observa que a modernização envolve uma “interação contrapontística” entre a
diferenciação “que é divisora da sociedade estabelecida, e a integração que une
estruturas diferenciadas num a nova base”65. Aqui, algumas cautel as são necessárias
para evitar as implicações de valor do modelo evolucionário. Uma economia
tradicional é caracterizada por pouca diferenciação entre atividades econômicas e
fam iliares dentro de propriedades ou Estados mais ou menos auto-suficientes.
D entro da fam ília e da comunidade, um alto grau de integração existe no sentido,
digam os, de que a autoridade da hierarquia social e a das normas religiosas são
aceitas sem questionamento. Mas devemos tomar cuidado para não com eter o
rom ântico erro tão manifesto na tradição intelectual que eu pesquisei.
Prim eiro, alta integração e falta de diferenciação dentro da família e da
com unidade acompanham a elevada fragmentação entre elas. Segundo, no interior
das fam ílias e das comunidades, a vida cotidiana é de “orgulho e publicidade cruel”,
com o diz H uizinga. Uma vez que todas as atividades ocorrem dentro da família ou
do E stado, a interdependência pessoal não apenas é benigna como também extre­
m am ente coercitiva; ela fom enta apegos sentimentais, mas também os mais inten­
sos ódios pessoais; encoraja a fraternidade mas também a vigilância e a suspeita
m útuas. Quando a diferenciação estrutural divide os negócios familiares estabele­
cidos, não só sua solidariedade de grupo e normas estáveis (integração da sociedade

64. A caracterização dos tratados pré-modernos em economia encontra-se em O tto Brunner, N eue Wcgc
d er Sozialgeschichtc, Gõltingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1956, pp. 33-61. Cf. também a análise de
P eter Laslett, The World We H avc Lost, London, Methuen & Co., 1965, passim.
65. Sm elser, op. c it., p. 110.

360
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

estabelecida) são destrutivas, mas também sua falta de privacidade, suas cruelda­
des e opressões personalizadas, das quais nenhum membro da casa pod e escapar
previamente. Essa ruptura dos negócios familiares como uma form a de integração
acompanha a-integração entre negócios familiares através de crescente interde­
pendência. Ela é também acompanhada por uma crescente diferenciação dentro
dessas estruturas - privacidade e liberdade crescentes da coerção pessoal. Uma
economia moderna é caracterizada, portanto, pela separação da residência fam i­
liar e do lugar de trabalho (diferenciação estrutural) e pela crescente interdepen­
dência entre a fam ília e o mercado ou entre os trabalhadores na fábrica (integração
numa nova base). Somente a atenção constante aos ativos e passivos de cada
estrutura pode evitar as implicações ideológicas do contraste ideal típico entre
tradição e modernidade. Por outro lado, nós simplesmente nutrim os os descon-'
tentes da sociedade industrial contrastando os ativos do presente com os passivos
do passado.
Para evitar essas armadilhas, é útil resumir a discussão precedente em
contraste explícito com as convenções recebidas da sociologia. As estruturas
sociais podem ser distinguidas pelas solidariedades que efetuam. Caracteristica-
mente, as sociedades tradicionais alcançam uma intensa solidariedade em grupos
relativamente pequenos, isolados uns dos outros por uma comunicação falha e uma
tecnologia atrasada. Esses grupos criam para seus participantes individuais uma
intensidade de apego e rejeição emocionais que os homens modernos acham difícil
de apreciar e que provavelmente achariam pessoalmente intolerável. Caractf;risti-
camente, as sociedades modernas alcançam pouca solidariedade em grupos relati­
vamente pequenos, e em virtude de comunicações e de tecnologia avançadas esses
grupos tendem a ser altamente interdependentes a um nível impessoal. Nesse
cenário, participantes individuais experimentam uma intensidade de apego e de
rejeição emocionais em dois níveis que dificilmente existem na sociedade tradi­
cional, nomeadamente na família nuclear em seu melhor e em seu pior aspecto, e
no nível nacional, em que lealdades pessoais se alternam entre serem consideradas
como certas em tempos normais e se elevarem ao auge da exaltação durante as
crises nacionais ou outros confrontos diretos com modos de vida alienígenas.
Considerações análogas se aplicam à hostil personificação da modernidade
e da tradição. Vimos que os efeitos estupidificantcs da divisão do trabalho tom a­
ram-se um tema importante dos filósofos sociais do início da industrialização.
Gerações de escritores reiteraram o tema com diferentes e contrastantes imagens
do homem, que vão do “aristocrata” e do “artífice medieval” às várias versões do
“homem da Renascença”, com capacidades proteanas, que foi um devaneio de
intelectuais, do Wilhelm Meister de Goethe ao dandy de Baudelaire até o “Homem

361
RE1NHARD BENDIX

M ultidim ensional” de M arcuse"’. E ssa romântica utopia de intelectuais numa era


de industrialização deve ser levada realmente a sério, um a vez que as imagens
ideais de um a cultura afetam a estrutura social em mudança. Mas a idéia de
criatividade ilimitada pelo “indivíduo” ou pelo “povo” é tão quimérica como a da
segurança e calor do ventre m aterno nas relações humanas atribuídas a um a época
antiga. Estas são projeções dos descontentamentos de intelectuais com uma civili­
zação que induz neles uma intensa ambivalência entre elitismo e populismo - ponto
ao qual retornarei na discussão que se segue.
O contraste entre tradição e modernidade pode ser reformulado adequada­
mente. É provavelm ente verdade que as sociedades tradicionais são caracterizadas
por norm as culturais universalm ente aceitas. Mas isso se harmoniza com a subser­
viência dos homens de letras à Igreja e aos patronos privados, e com a prevalência
do analfabetism o na população em geral. Não é, portanto, acidental que termos
com o “ideologia” e “intelectuais” tenham se originado na Europa durante o século
XVIII, quando as crenças tradicionais foram desafiadas, homens de letras foram
em ancipados de sua prévia subserviência e a capacidade de ler aumentou junto com
materiais im pressos e um m ercado para produtos literários. As normas culturais
universais da sociedade tradicional também se harmonizam com um baixo nível
dc produtividade c de c o ro u n i c«ç a o c com uma consccjucntc fragmcníaçao da
estrutura social em termos econômicos, jurídicos e políticos. Uma implicação dessa
fragm entação é a prevalênci a da força e da fraude e de disputas jurisdicionais entre
um grande núm ero de grupos solidários que dependem de sua coesão não só nas
norm as com uns, mas também nos imperativos de auto-ajuda e defesa67. Em cada
um desses grupos solidários e na constituição como um todo, a sociedade tende a
ser profundamente dividida entre governantes e governados. Os de sangue azul têm
uma participação desproporcional na riqueza, acesso privilegiado a posições de

66. Ver C esar Grana, Bohcm ian Versus Bourgeois, New York, Basic Books, 1964, passim, sobre uma
simpática análise dessa imagem. A obra de Herbert Marcuse, O ne-Dimensional Man, Boston, The
Beacon Press, 1964, apareceu taTde demais para ser incluída na conclusiva análise de Grana.
67. É bem possível que a ausência atual de um a necessidade de auto-ajuda e d e defesa faça a solidariedade
estreita d e tais grupos parecer opTessiva a um observador moderno, especialmente se ele descontar o
romanti cism o das interpretações passadas. Justamente por isso, talvez seja a ausência dessa necessidade
de auto-ajuda e de defesa que enfraquece a solidariedade de grupos nas sociedades modernas e que
permite o desenvolvim ento do individualismo. O antigo padrão muitas v ezes emerge da imposição de
tributos em troca de privilégios, que necessitavam da organização de comunidades para auto-ajuda e
defesa; M ax W eber discutiu esse dispositivo sob o conceito de “liturgia” . Cf. Max Weber, The Theory
o f Social and Economia Organization, New York, Oxford University Press, 1947, pp. 312-313. Uma
sociedade com o a russa, na qual esse antigo padrão foi preservado até o presente, pode muito bem
engendrar costum es e atitudes marcantemeníc diferentes dnqueles que nos são familiares nos dias de
hoje. Sobre uma discussão esclarecedora desses costumes e atitudes, ver W right W. Miller, Russians
as Pcople, N ew York, R P. Dutton, 1961, cap. 5.

362
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

autoridade formal, desfrutam de sociabilidade, lazer e cultura, enquanto o grosso


da população vive na lida do trabalho físico e na pobreza, sem acesso às primeiras
letras, à cultura ou a posições de influência, e sem meios íeconhecidos de divulgar
suas injustiças. Nesse cenário, o termo “sociedade” dificilmente é aplicado, uma
vez que ó próprio povo vive em subordinação fragmentada, enquanto seus gover­
nantes constituem “a sociedade”, porque são as pessoas notáveis do país. Esses
atributos podem bastar como uma concepção de contraste para a reformulação da
modernidade.
E provavelmente verdade que as sociedades modernas sejam caracterizadas
pelas normas culturais relativamente reduzidas que são universalm ente aceitas, e
isso se harmoniza com uma relativa emancipação dos homens de letras e uma
capacidade para ler quase universal na população em geral. A diferenciação
estrutural na tecnologia e nas comunicações conduziu a altos níveis de produtivi­
dade e a um alto grau de interdependência impessoal. Associados com essa
interdependência são os atributos do Estado-nação que foram observados anterior­
mente. A adjudicação de disputas legais, o recolhimento da renda, o controle da
freqüência à escola, o recrutamento m ilitar, o sistema postal, a construção de
facilidades públicas e outras foram removidos da luta política entre as jurisdições
concorrentes e se tomaiam funções de um governo nacional. Outra característica
afim da sociedade moderna é o processo de democratização fundamental pelo qual
“aquelas classes que antigamente desempenhavam apenas um papel passivo na
vida política” foram postas em açáo“ . A velha divisão entre governantes e gover­
nado já não é nítida, uma vez que o governado tem o voto, e os governantes estão
sujeitos a controles formais em muitos pontos. As distinções de status já não
coincidem com os privilégios hereditários. Nesse cenário, o termo “sociedade” é
apropriadamente aplicado a todas as pessoas num país que constituem essa socie­
dade em virtude de sua interdependência e igualdade como cidadãos.

A discussão precedente tentou “desideologizar” o convencional contraste


entre tradição e modernidade. Nesse nível geral, o contraste confirm a-se no caso
de muitas sociedades que sofreram um processo de modernização. A s “sociedades
mais tradicionais” carecem de meios para uma rápida comunicação, de modo que
o grosso da população vive em enclaves relativamente pequenos, isolados uns dos
outros. Contudo, se vamos além dessas generalidades, somos obrigados também a
ir além do simples contraste aqui discutido. O que é verdade a respeito de todas as
sociedades tradicionais é, justamente por isso, pouco ilustrativo a respeito de

68. Ver Karl Mannheim, Man and Socicty in an A ge o f Reconstruction, New York, Harcourt, Brace &
World, 1941, p. 44.

363
REINHARD BEND1X

qualquer um a delas. Por exemplo, um a característica chave da experiência européia


era a vinculação das normas culturais universais com a organização da Igreja e,
portanto, com u duradouro, ainda que instável equilíbrio das tendências centrali­
zadoras e descentralizadoras do governo que culminaram no desenvolvimento de
instituições representativas6''. Em países como a Rússia e o Japão, as norm as
culturais universais vieram a prevalecer de uma maneira que é totalmente diferente
do padrão europeu ocidental. O estudo da mudança social nessas sociedades
requereria, portanto, uma conceitualização mais específica do contraste entre
tradição e modernidade, para ser analiticamente útil. O contraste geral aqui discu­
tido deve ser apenas o início da análise, embora muitas vezes ele tenha sido errôneo
para a própria análise.
Outra limitação torna-se evidente quando aplicamos esses conceitos às so ­
ciedades coloniais e pós-coloniais. Podemos dizer que alguma sociedade colonial
possui as características da “tradição”? Tem ela normas aceitas universalmente?
E, um a vez que as normas prevalecentes certamente não se aplicam à população
sujeito, em que sentido podem os de fato falar de um a sociedade? Para comparar a
estrutura social passada e presente, devemos levar em conta pelo menos duas
tradições: a tradição nativa e a tradição de uma sociedade dual criada pelo país
colonizador. Análogas questões se aplicam às colônias fronteiriças européias no
exterior, com o nos Estados Unidos, Canada, Australia, e Nova Zelândia, mas nesse
caso as populações nativas não eram suficientemente fortes para criar o problema
de um a sociedade dual, embora a cultura importada dos colonizadores europeus já
representasse um a importante ruptura com a tradição medieval. O essencial desses
com entários é sugerir que vários modelos de mudança são necessários, e são
preferíveis a qualquer tentativa dç forçar todos os tipos de mudança no leito de
Procusto da experiência européia.
O fato de os tipos ideais de mudança social serem de limitada aplicabilidade
torna-os m ais, e não menos, úteis. Uma vez que a precariedade da formulação geral
bem como as limitações do modelo da Europa ocidental são observados, é então
apropriado também reconhecei a utilidade de focalizar a atenção na área em que a
ruptura em relação à modernidade foi atingida em primeiro lugar. A análise que se
segue tenta decifrar as implicações dessa ruptura e interpretar o processo de
m odernização à luz da discussão precedente.

69. Ver Karl M annheim , op. c i t pp. 232-236.

364
REA VAUAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

M odernização num a P erspectiva C om parativa

Orientação teórica

À m edida que as sociedades européias se aproximavam da “ era moderna”, os


homens de letras passaram a pensar em diferenças de hierarquia social com uma
consciência de uma nova sociedade em formação. Embora políticas e ideológicas,
mais do que científicas, essas idéias sobre a sociedade moderna influenciaram
fortemente os conceitos com que os cientistas sociais abordaram o estudo da
modernização. A esta altura, é útil determinar o denominador comum dessa
tradição intelectual em termos de três doutrinas afins.
A . A Revolução Industrial na Inglaterra e a revolução política contemporâ­
nea na França tiveram um profundo impacto cultural, levando freqüentemente os
homens de letras a formular penetrantes e hostis contrastes entre a velha e a nova
ordem social. Conseqüentemente, a “tradição” e a “m odernidade” passaram a ser
concebidas em termos mutuamente excludentes, não só como um a ajuda concei­
tuai, mas também como uma declaração descritiva generalizada sobre os dois tipos
contrastantes de sociedade. Relacionada com essa abordagem está uma concepção
de cada tipo de sociedade como um sistema social, caracterizado pela interdepen­
dência funcional de suas partes componentes e um equilíbrio de forças entie elas.
Portanto, as sociedades “tradicionais” e “modernas” aparecem com o dois tipos de
sociedades, cada uma delas com sua própria tendência em butida em direção à
automanutenção ou ao equilíbrio.
B. D a posição vantajosa da Europa no final do século X V III e início do século
X X , ambas as revoluções e grande parte da mudança social que se seguiram
apareceram como fenômenos que eram internos às sociedades em mudança. Esse
modo de explanação retrocede às influências que emanam de Platão e caracterís­
ticas da filosofia ocidental até o presente7". No fim do século X V III, essa tradição
intelectual refletiu-se em interpretações do crescimento do comércio e da indústria.
Especificamente, muitos escritores do período consideraram a divisão do trabalho
um fator importante na promoção da mudança social. Para um homem como
Ferguson, esse crescimento dependia finalmente da subdivisão de tarefas, que

70. Sobre o elo entre a concepção teológica da emanação com teorias de evolução e funcionalism o sociais,
cf. Arthur Lovejoy, The Grcat Chain o f Bcing, op. cit.\ Karl Loewith, Meaning in H istory, Chicago,
University of Chicago Press, 1949; e o abrangente tratamento histórico em Robert A. N isbet, Social
Change and H istory, New York, Oxford University Press, 1969, passim . A tradição intelectual
discutida nessas obras foi criticada com muita eficácia por Ernest Gellner, Thought a nd Change,
Chicago, University o f Chicago Press, 1964, passim . A análise de Gellner corrobora a presente
discussão em vários pontos.

365
;;e in h a h d b e n d ix

determ ina as idéias e ações dos homens, fnrnece a base para a diferença entre as
classes sociais, e dá origem a ações políticas.
A opinião de que a mudança social é o produto de forças sociais internas tem
um a certa base em fato histórico, ainda que seja difícil separar os fatos das reflexões
sobre eles. A m aior parte dos observadores do início da industrialização pensava
ser a m udança econômica o fator primordial, quer acreditassem, como os radicais,
que as m edidas governamentais refletiam essa mudança, quer julgassem, como os
conservadores, que essas medidas eram necessárias para evitar suas piores conse­
qüências. N a Inglaterra, a obra dos economistas clássicos reforçava esse consenso,
porque a oposição às políticas mercantilistas defendia um controle menor dos
negócios econômicos e, portanto, um papel secundário do governo. Quando os
controles governamentais sobre a economia foram reduzidos, quando os regula­
m entos da guilda foram abandonados, quando a mobilidade do trabalho aumentou
junto com a população, o com ércio e a manufatura, tom ou-se muito plausível
considerar que a sociedade e a economia possuem um momeníum próprio, enquanto
o governo sim plesm ente reage ao impacto das forças sociais. Nessa época, a
m anutenção de um cargo era ainda um a forma de posse de propriedade, de modo
que a idéia de autoridade como um suplemento de propriedade descrevia parcial­
m ente a sociedade. Além disso, a Revolução Industrial ocorreu primeiramente na
Inglaterra; entre os países continentais, a Inglaterra (junto com a Holanda) carecia
de um a tradição absolutista com sua base num exército estável, e ela também era
caracterizada por uma classe alta m ais permeável do que os países da Europa
continental. Foi de fato uma constelação única de circunstâncias que deu nova
ênfase à antiga visão de que a m udança social é interna à sociedade em mudança,
de que a m udança social se origina na divisão do trabalho, e de que, conseqüente­
mente, o governo ou o Estado são produtos da estrutura social. Pode ser sugerido
que essa perspectiva intelectual generaliza indevidamente a partir de uma fase
muito lim itada da experiência inglesa.
Por conseguinte, tanto a tradição intelectual da Europa como a constelação
específica no fim do século XVIII encorajaram explanações da mudança
h is tó ric a
social que enfatizam a continuidade e a interconectividade de mudanças dentro da
sociedade, um a tendência que era reforçada quando o moderno nacionalismo foi
reconhecido. Como resultado disso, uma certalegitimidade foi atribuída à estrutura
social, em bora a relativa autonomia do governo e o impacto de fatores externos
sobre cada sociedade fossem ignorados ou minimizados. Paradoxalmente, essa
perspectiva também prevaleceu durante um período de regimes absolutistas, de
expansão ultram arina européia e um a industrialização de âmbito mundial, quando
as sociedades eram cada vez m ais sujeitas à influência do exterior, em contraste
366
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

com a relativa integridade das sociedades nacionais na Europa ocidental. Esse pano
de fundo cultural e histórico pude ajudar a explicar a predominância de explicações
que atribuem a mudança a uma diferenciação interna da sociedade, como a
crescente divisão do trabalho, uma observação que pode nos alertar para as
limitações dessa perspectiva intelectual sem questionar sua utilidade analítica no
contexto adequado.
C. O terceiro princípio afirma que, finalmente, a industrialização terá os
mesmos efeitos onde quer que ela ocorra. Isso resulta, ou parece resultar, de uma
combinação de hipóteses ligadas um pouco frouxamente aos pontos precedentes.
Sempre que as causas da mudança social são concebidas como intrínsecas a uma
sociedade, considera-se que a industrialização (e, mais vagamente, a moder­
nização) tem certos pré-requisitos necessários e suficientes sem os quais ela não
pode ocorrer. Inversamente, uma vez dados esses pré-requisitos, a industrialização
se toma inevitável. O mesmo raciocínio é aplicado às conseqüências do processo.
Uma vez que a industrialização está a caminho, ela tem certos resultados inevitá­
veis. A longo prazo, a modernidade expulsará a tradição, e as sociedades totalmente
industrializadas se tornarão cada vez mais semelhantes.
Os três princípios aqui mencionados estão estreitamente ligados. Sua base
comum é a concepção da sociedade como uma estrutura que se origina numa série
fixa de precondições e se caracteriza por atributos mutuamente reforçadores que
fazem a mudança da estrutura aparecer como uma modificação inevitável de
variáveis inter-relacionadas. Essa concepção da sociedade está estreitamente liga­
da à teoria da evolução social, embora esta teoria não seja de interesse imediato
nesta discussão. Mas as três hipóteses do sistema social, diferenciação interna e
desenvolvimento inevitável formam uma abordagem coerente ao estudo de indus­
trialização, da qual agora se distinguirá a abordagem a ser discutida abaixo.
A. Contra a opinião de que a tradição e a modernidade são mutuamente
excludentes, quero manter que mesmo as duas revoluções do século XVIII sáo
entendidas mais corretamente como culminações de continuidades européias es­
pecíficas, isto é, que elementos “modernos” eram evidentes muito antes da era
moderna. (Justamente por isso, a tradição européia, e a sociedade inglesa especial­
mente, teve atributos distintivos não encontrados em outras civilizações.) A ques­
tão pode ser ilustrada com respeito às bases da ação social. Laços familiares,
crenças religiosas, associações lingüísticas, comunalismo territorial, e outras são
formas típicas de associação numa ordem social tradicional. Nenhum desses laços
ou associações desapareceram mesmo nas sociedades mais industrializadas; até o
dia de hoje, o relativo declínio de solidariedades “tradicionais” e a relativa ascen­
dência das “modernas” permanecem ou são recorrentes como questões sociais o

367
RE1NHARD BENDIX

políticas. M as alguns dos velhos vínculos ou associações foram enfraquecidos pela


ascendência do cristianismo, outros pela Renascença e pela Reforma, e outros ainda
no decoirer das lutas entre governantes absolutistas e os Estados. Cabe relembrar
que a obra à qual Max W eber dedicou sua vida documenta a proposição de que a
doutrina cristã e a revivificação do direito romano militam contra os vínculos
fam iliares e com unais como focos de lealdade que competem efetivamente com as
pretensões universais do processo legal e a fé cristã. O universalismo ético dos
puritanos e sua subseqüente secularização foram elos tardios nessa cadeia de
precondições. Por esses desenvolvimentos anteriores na Europa ocidental, os
hom ens foram libertados gradualmente para solidariedades alternativas como as
da fam ília nuclear, classe social e cidadania nacional. Na m inha opinião, havia de
fato um a ruptura para um a nova era histórica, mas isso era o resultado de continui-
dades que rem ontavam à Antiguidade clássica, que atingiram o ponto culminante
num a época e num lugar específicos devido a condições muito especiais da
sociedade inglesa nos séculos XVII e XVIII. Esse elemento de continuidade foi
negligenciado por homens de letras que interpretaram a sociedade industrial
em ergente em termos de um conflito cultural entre tradição e modernidade.
Contudo, em outros aspectos, a continuidade foi enfatizada.
B. Contra a concepção de mudança como intrínseca, desejo manter que,
acom panhando a ruptura na Inglaterra an a França, todos os processos subseqüentes
de m odernização combinaram mudanças intrínsecas com respostas a estímulos
extrínsecos71, e envolveram a intervenção do governo com o uma característica
im portante desse processo. A modernização das sociedades não deve ser entendida
prim ordialm ente como um resultado de mudanças internas nas quais os governos
desem penham , na melhor das hipóteses, um papel secundário. As grandes lacunas
das interpretações aqui opostas são seu fracasso em levar em conta a difusão de
idéias e técnicas, o papel proeminente do governo, e a crescente onda de naciona­
lismo, todos os quais acompanharam todo o processo de industrialização.

O problem a é geral. Todas as sociedades complexas têm uma estrutura interna


e um cenário externo. Do mesmo modo, todas as sociedades complexas possuem
um a estrutura formal de autoridade governamental que difere, e é relativamente
independente de formações de grupo que emergem da organização social e econô­
m ica da sociedade. Para propósitos analíticos, é legítimo separar essas dimensões

71. A ssim , é claro, foi o desenvolvimento inicial da Inglaterra, em virtude de sua dependência da intensa
com petição com a Hoianda. O problema de as estruturas sociais não poderem ser entendidas por atenção
exclusiva aos desenvolvimentos internos é um problema geral. Ver O tto H intze, “Staatsverfassung und
H eeresverfassung”, em Stúãt und Verfassung, Gõttingen, Vandenhoeck & Kuprecht, 1962, pp. 52-83.
O ensaio foi publicado originalmente em 1906.

368
REA VA U AÇÃO DOS CONCEITOS D E TRADIÇÃO E MODERNIDADE

e negligenciar um a ou outra delas, se isso parecer indicado pelo problema consi­


derado. Mas no estudo comparativo de modernização, e especialmente quando ele
focaliza a atenção em problemas de estratificação social, tal negligência parece
inconveniente. A influência da modernização sobre os meios de comunicação é
internacional cm seu escopo, de modo que devemos atentar para os cenários
externos das sociedades, mesmo quando nosso enfoque primário forem as mudan­
ças internas às suas estruturas sociais. Além disso, o papel secundário ou depen­
dente do governo resultou de circunstâncias históricas muito especiais, como
observado anteriormente, e não deve ser considerado uma proposição teórica geral.
O fato é que os intelectuais desempenharam um papel importante ajudando a
transformar a estrutura social de sociedades atrasadas, e agiram desse modo com
mais freqüência em referência a prévios desenvolvimentos econômicos e políticos
no exterior. Do mesmo modo, os funcionários do governo desempenharam um
papel importante no desenvolvimento de recursos econômicos, ou sustentaram e
implementaram uma estrutura institucional na qual tal desenvolvimento se tornou
mais fácil. Para ser exato, estas são possibilidades, não certezas. Mas desprezar o
papel de preferência independente de intelectuais ou de funcionários do governo
no piocesso de modernização é subscrever a opinião marxista de que o cenário
internacional, a estrutura política e o desenvolvimento cultural de um a sociedade
dependem a longo prazo de sua organização de produção.
c. contra o conceito de industrialização como um processo amplamente
uniforme da mudança estrutural, desejo enfatizar a importância da difusão e da
“intervenção” do governo para uma compreensão desse processo. A Inglaterra foi
o primeiro país a se industrializar e, na opinião de Marx, ela exemplificou as “leis
do desenvolvimento capitalista”. Vemos que, em seu prefácio à primeira edição do
Capital, Marx declarou ser a Inglaterra o terreno clássico do m odo de produção
capitalista. A Inglaterra era mais desenvolvida industrialmente do que outros
países. À medida que ingressam no caminho da industrialização, esses outros
países irão submeter-se a desenvolvimentos comparáveis aos da Inglaterra, por
causa das tendências inerentes à organização de produção capitalista. M arx fez esse
prognástico na hipótese de que a mesma organização de produção gera em todas
as partes transformações iguais ou semelhantes das classes sociais e da estrutura
política. Como uma proposição empírica, essa hipótese é equivocada. Uma vez que
a industrialização foi iniciada na Inglaterra, as inovações técnicas e as instituições
do país economicamenie avançado foram usadas como um modelo para avançar
mais rapidamente, do que o fizera a Inglaterra; e também como um a advertência
para mitigar ou até evitar os problemas encontrados pelo país pioneiro. O próprio
Marx notou essa possibilidade, mas não a considerou com seriedade. Ele declarou

369
RE1N11AHD BENDIX

que sua análise do país adiantado não podia ajudar a “diminuir as dores do
nascim ento” de desenvolvim entos semelhantes em outros países-, pois o modo
capitalista de produção é governado pelas mesmas leis ou tendências inevitáveis
onde quer que ocorra.
Aqui, também , o problem a é geral. A propria industrialização intensificou a
com unicação de técnicas e idéias através das fronteiras nacionais. Retiradas do
contexto original, essas técnicas e idéias são adaptadas de modo a satisfazer desejos
e alcançar objetivos no país receptor. Certamente, essa adaptação é afetada em cada
ponto pelos recursos e pela estrutura econômica do país, mas Marx tendeu a
transform ar contingências em necessidades. Ele não deu importância total às
tradições históricas que afetam a estrutura social de todos os países e, com elas, a
capacidade do povo de desenvolver suas oportunidades. Ele tampouco considerou
que essa estrutura é m odificada materialmente pela transmissão internacional de
técnicas e idéias e pelas tentativas de controlar politicamente o processo e as
repercussões da industrialização. Contra a opinião de que a industrialização tem
os m esm os efeitos onde quer que ocorra, desejo manter a importância do timing e
da seqüência com o variáveis cruciais. Uma vez que a industrialização ocorreu em
todas as partes, esse fato isolado altera o ambiente internacional de todas as outras
sociedades. Num certo sentido é verdadeiro dizer que, por causa do timing e da
sccjucncia, a industrialização não pode ocorrer do mesmo modo duas vezes.
Conseqüentemente, os estudos sobre a modernização devem ser guiados por
duas considerações que foram negligenciadas no passado. Em bora seja verdade
que certas conseqüências advêm de um a crescente divisão do trabalho, estas estão
em butidas na transição particular de uma estrutura pré-industrial para uma estru­
tura industrial que distingue uma sociedade de outra. A estrutura social de uma
“fase transitiva” de um país deve,-portanto, ser um foco primordial de análise mais
do que ser posta de lado como uma sobrevivência do passado. Ademais, a m oderni­
zação, um a vez ocorrida em outra parte, altera as condições de todos os esforços
subseqüentes para a modernização de modo que “os retardatários não possam
repetir as seqüências anteriores do desenvolvimento industrial”72. Ambas as con­
siderações, o significado da transição e os efeitos de demonstração de “seqüências
anteriores”, impedem uma interpretação evolucionista do processo de m oder­
nização.
A reorientação que proponho considera a industrialização e a democratização
da Europa ocidental como uma ruptura histórica singular, culminando num desen­
volvim ento secular e especificam ente europeu. Mas a modernização traz à tona

72. Ver M ilton Singer, op. c i t p. 262.

370
RE A VAUAÇAO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

des'' 0ntinuidades especiais em virtude de suas tendências expansivas, de modo que


a relação entre a estrutura intrínseca e o cenário externo das sociedades assume um
significado especial. Portanto, a estrutura interna, desenvolvida historicamente, de
um pais e a emulação induzida por desenvolvimentos econômicos e políticos no
exterior afetam o processo de modernização de cada país.

Rumo a uma definição de modernização

Meu objetivo é definir o termo de m odo a que ele se refira à mudança durante
um período histórico específico. Quero m ostrar que, através do período designado,
o processo de mudança tem certas características globais. Ao mesmo tempo,
enfatizo a distinção entre “modernização” e “modernidade”. M uitos atributos da
modernização como difusão das primeiras letras ou da medicina m oderna apare­
ceram, ou foram adotados, isoladamente de outros atributos de um a sociedade
moderna. Portanto, a modernização em alguma esfera da vida pode ocorrer sem
resultar em “modernidade”. A incerteza referente a seu futuro existiu na história
passada de todos os países atualmente industrializados, tal como existe atualmente
nos assim chamados países em desenvolvimento. O reconhecimento dessa incer­
teza fornece uma base melhor para um estudo comparativo da modernização áo
que a hipótese alternativa de que a industrialização tem os mesmos pré-requisitos
e resultados onde quer que ocorra.
Preferindo, portanto, a incerteza a uma análise sistêmica generalizadora,
lidamos de fato com duas abordagens ao estudo da mudança social. A abordagem
retrospectiva emprega um modelo “antes-e-depois” da sociedade, isto é, uma
espécie de variante do contraste entre tradição e modernidade. Tais modelos são
auxiliares indispensáveis numa análise da mudança social, que pode começar com
um conhecimento das mudanças passadas, embora com as cautelas sugeridas antes.
A abordagem em perspectiva não pode empregar esse modelo diretamente, porque
ele procura lidar com contingências futuras. Essa segunda abordagem pode ainda
empregar os modelos de “antes-e-depois” disponíveis, mas sua ênfase recairá na
diversidade das sociedades modernas na busca de chaves para o processo de
transformação. Esta é a abordagem que adoto no restante desta discussão.
Por “m odernização” refiro-me a um tipo de mudança social que se originou
na Revolução Industrial na Inglaterra, 1760-1830, e na revolução política na
França, 1789-1794. Pode-se colocar o início das mudanças aqui consideradas
diferentemente, e isto é um fato conveniente para certos propósitos. A expansão
da Europa, por exemplo, foi anterior ao final do século XVIII; aiguns aspectos da
modernização, como a difusão de armas modernas, podem ser reconhecidos no

371
RE1NHAUD BENDIX

século XV73. Antecedentes especiais da modernização podem igualmente ser ras-


treados até época bem remota, como no exemplo da imprensa ou de instituições ou
idéias de igualdade representativas, e muitos outros. Contudo, há razões de pro­
porção que tornam conveniente separar as transformações das sociedades euro­
péias e suas repercussões mundiais desde o século XVIII a partir das primeiras
m udanças econômicas e políticas. Referimo-nos anteriormente ao começo da
transform ação maciça da agricultura: as mudanças que conduziram a uma propor­
ção declinante da força de trabalho empregada na produção agrícola foram inicia­
das no século XVIII. Analogamente, o eiitismo fundamental de sociedade antes do
século XVIII foi substituído, ainda que gradualmente, pela “democratização fun­
cional” (M annheim), e essa mudança pode novamente ser encontrada nos inícios
do século XVII!. Também a distinção entre os governantes e governados coincidiu
aproxim adam ente com a distinção entre instruídos e não-instruídos. Essa distinção
estava com eçando a ruir no decorrer do século XVIII com a lenta difusão tanto da
capacidade de ler e escrever como do material impresso74. Essas três transforma­
ções da ordem econômica, política e social podem bastar como uma indicação de
que é útil tratar o século XV1H com o uma ruptura para uma nova era histórica, de
qualquer form a, nos estudos da modernização.
A nintura econômica e política que ocorrei! na Inglaterra e na França r.o fim
do século XVII1colocou todos os outros países do mundo numa posição de “atraso”.
De fato, o m esm o pode ser dito dos dois países pioneiros. A transformação
econômica da Inglaterra forneceu um “modelo” para a França, enquanto a revolu­
ção política da França se tornou instantaneamente um foco importante de debate
político na Inglaterra. A partir daí, o mundo foi dividido em sociedades avançadas
e sociedades seguidoras. Com referência ao século XVIII e início do século XIX, é
apropriado que essa formulação se refira à Inglaterra e à França como os países
“ avançados” e a todos os outros como as sociedades seguidoras, embora mesmo
neste caso a afirmação omrtiria países pioneiros anteriores, como a Holanda e a
Espanha. M as desde essa época o processo se ramificou muito mais. Sociedades
seguidoras do passado como a Rússia ou a China tornaram-se sociedades avança­
das, que são tomadas como modelos pelos paíscs-satélites da Europa ocidental ou
por alguns países africanos c asiáticos que ganharam sua independência desde a
Segunda G uerra Mundial. Cada um dos países que vieram a desempenhar o papel

73. Carl o Cipolla , G uns anã Satls in the Early Phase o f 1'uropcon Expansion, 1400-1700, Lonclon, ColIjns,
1965, passim .
74. As mudanças na alfabetização c a dir.ponibil idade do material impresso são pesquisadas, no que se
refere à Inglalerra, por Raymond W illiams, The Long Rcvofution, London, Chaífo & W indus, 1961,
pp. 156-172.

172
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

de “pioneiro” com relação a alguma sociedade seguidora tem uma história de


mudanças induzidas exiernamente; embora, com o sucesso da modernização, a
ênfase dessa dimensão extrínseca possa tornar-se menos pronunciada do que era
numa época anterior. Conseqüentemente, um elemento básico na definição de
modernização é que ela se refere a um tipo de mudança social desde o século XVIII,
que consiste no avanço econômico ou político de alguma sociedade pioneira e em
mudanças subseqüentes nas sociedades seguidoras75.
Essa distinção implica uma alteração na perspectiva intelectual. A postura
tradicional da teoria sociológica concebe a mudança como lenta, gradual, contínua
e intrínseca às sociedades em mudança. Essa opinião é mais ou menos apropriada
na medida em que nos limitarmos às características duradouras de uma estrutura
social que podem ajudar ou retardar a modernização dà sociedade. Como foi
sugerido anteriormente, é bastante apropriada à interpretação da mudança na
civilização européia, e esta era a intenção da pergunta de Max W eber concernente
à combinação de circunstâncias à qual o racionalismo da civilização ocidental pode
ser atribuído. Contudo, uma vez que as duas revoluções do século XVIII ocorreram,
subseqüentes mudanças sociais foram caracterizadas por um aumento precipitado
na velocidade e intensidade da comunicação. Idéias e técnicas passaram das
sociedades “avançadas” para as “seguidoras”, e em menor grau, das sociedades
“seguidoras” às “avançadas”. Dentro de um período histórico relativamente curto,
há poucas sociedades que permaneceram imunes a esses impactos externos sobre
suas estruturas sociais7''.

A difusão de idéias e de técnicas pode ser um subproduto da expansão pelas


sociedades “avançadas”, mas ela ocorre mesmo na ausência de expansão, por causa
da ruptura econômica e política na Europa do século XVIII. Como Gerschenkron

75. Os termos dessa distinção não são estáveis. Antes do período “ moderno”, a Inglaterra era uma sociedade
“seguidora”, enquanto a Holanda e a Suécia eram “avançadas”, especialmente na produção dc canhões,
Cf. Cipolla, Guns and Sails, op. cit., pp. 36-37, 52-54, 87 n. No século XX, a R evolução Russa, os
regimes fascistas, e a revolução chinesa acrescentaram suas próprias m odificações dessa distinção.
Singer, op. cit., pp. 261-262 refere-se à mesma distinção falando de “primeiros” e “ últim os” adventí-
cios, mas quero enfatizar o sentido de pioneirismo ou de atraso que animou as pessoas nas sociedades
“avançadas” e “seguidoras”. Esses termos referem-se às avaliações dos participantes mais do que à
minha própria avaliação de “progresso” ou “atraso”.
76. Há pessoas que consideram as sociedades sistemas fechados. Elas oporiam a esse argum ento difusio-
nista a alegação de que as sociedades não são recipientes passivos de estím ulos externos, mas
selecionam entre eles de acordo com os ditames de sua estrutura interna. Essa interpretação é uma
extensão do modelo de equilíbrio e como tal uma versão secular da crença teológica origina! na
“harmonia preestabelecida”. Essa visão antiga era tão compatível com a existência d o mal num mundo
criado pela divindade como a interpretação funcionalista é compatível com a existência de conflito e
mudança. Nenhuma das opiniões é compatível com a possibilidade dc um desequilíbrio autoperpetua-
dor,ou uma causalidade cumulativa, como a denominou Myrdal.

373
REINHARD BENDIX

apontou, estratos líderes das sociedades “seguidoras” respondem a essa ruptura


introduzindo a tecnologia m ais moderna, com alto investimento de capital, para
reduzir o “ desnível” o m ais rapidamente possível77. Essa tendência faz parte de um
contexto maior:

[...] um m eio d e d e fin iro grau de atra so é precisam ente em term os de ausência, num país atrasado
[ou so c ied ad e “ seguidora” com o a denom inei aqui] de fatores que num país mais avançado
servem co m o pré-requisitos de desenvolvim ento. C onseqüentem ente, um dos m odos de abordar
o p ro b lem a é indagar que substituições e que padrões de substituições para os fatores em falta
oco rreram n o processo de industrialização em condição de atraso™.

A credita-se que essas substituições representam atalhos à “modernidade” .


Elas fazem parte do esforço para evitar as dificuldades encontradas na m oder­
nização do país “adiantado” . Essa idéia das “vantagens do atraso” não se originou
com Leon Trótski (como algumas vezes se pensou), mas foi expressa já no final
do século XVII™ Todos os aspectos da modernidade estão prontos para adoção
sim ultaneam ente, e ela depende dos recursos disponíveis, do equilíbrio das forças
na sociedade “seguidora”, e da relativa facilidade para transferir os aspectos que
receberão prioridade. O fato de que itens como medicação, material impresso,
inovações educacionais, práticas políticas como o direito de voto sejam mais
facilm ente transferidos do que a tecnologia avançada, que requer alto investimento
de capital, é outro aspecto da divergência dos processos de modernização.
M uitos escritores observaram que no cenário das “sociedades seguidoras” os
governos desempenham, ou tentam desempenhar, um papel decisivo. A utilidade
especial dessa perspectiva para os estudos comparativos da modernização é evi­
dente num a recente análise abrangente da industrialização inglesa, francesa e alemã
desde o século XVIII. Neste contexto, David Landes afirma que, para os governos
da Europa, a “industrialização era, desde o início, um imperativo político”8". Os
governos podem ser mais ou menos bem-sucedidos na consecução dos imperativos
que enfrentam , e suas tentativas serão afetadas inteiramente pelos atributos estru­
turais de suas sociedades. De um modo geral, os governos tentam desempenhar um

77. G erschenkron, op. c i t pp. 26, 44, e passim.


78. Idem , p. 46.
79. C f. a análise desse complexo de idéias na obra de Gottfried W ilheím von Leibniz (1646-1716),
especialm ente os interessantes contatos entre Leibniz e Pedro, o Grande, com relação à modernização
da Rússia, em D ieterG roh, R u ssh n d und das Selbstverstàndniss Europa?, Neuwied, Hermann Luch-
terhand Verlag, 1061, pp. 32-43.
80. David Landes, “Technological Change and Development in W estern Europe, 1750-1914” , em H. J.
Habbakuk e M. Posta n (eds.), The Cambridge Economic History o f Europe; The Industrial Revolution
and A /ter, Cambridge Universily Press, 1965, vol. VI, parte I, p. 3t>6.

374
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

papel m aior na m odernização de sociedades relativam ente atrasadas do que nas


relativam ente adiantadas. U m a vez que essa generalização se ap lica às “sociedades
seguidoras” desde o século XVIII, e u m a vez que a m aio ria das sociedades do
m undo estão (o u estiveram ) nesta categoria, a proposição é talvez u m outro aspecto
da m odernização, isto é, da distinção entre os dois tipos de sociedades. A diferença
pode ser a im portância estratégica para a m odernização, u m a v ez q u e as “socieda­
des seguidoras” são, por definição, carentes de alguns dos elem en to s de m o derni­
dade encontrados nas “sociedades adiantadas”"1.
Aqui, novamente, está implícita uma alteração importante na perspectiva
intelectual. A opinião de que o governo é parte integrante da estrutura social, mas
pode ter a capacidade de alterá-la significativamente, não faz parte da corrente
principal da teoria social. Mais comum é a opinião oposta, de que o governo formal
e suas ações são epifenômenos, produto de forças originárias da estrutura social e
econômica da sociedade. Esta opinião relaciona-se com a tradição intelectual
“emanacionista” e “evolucionista”, e foi reforçada, como anteriormente observado,
por uma constelação histórica especial na Europa do início do século XIX. Escri­
tores, de opiniões políticas incompatíveis em outros aspectos, concordam que o
governo é um epifenômeno, e esse acordo incomum ainda influencia o pensamento
social moderno. Todavia, em estudos de modernização é mais útil considerar a
estrutura social e o governo, ou a sociedade e o hstado, como interdependentes,
mas também com o esferas de pensamento e ação relativamente autônomas82.
O abismo criado entre sociedades avançadas e seguidoras e os esforços para
preenchê-lo por uma adoção mais ou menos ad hoc de itens de modernidade
produzem obstáculos que se colocam no caminho da modernização bem-sucedi­
da83. Em sua discussão sobre os “novos Estados”, E. A. Shils caracterizou esses
obstáculos como um a série de rachaduras estruturais internas:

E o abism o entre os poucos m uito ricos e a massa de pobres, entre o instruído e o


não-instruído, entre o homem da cidade e o da aldeia, entre o cosm opolitano ou nacional e o
local, entre o m oderno e o tradicional, entre os governantes e os governados” .

81. Notar a freqüência com que a “unidade política” aparece como um indício de modernidade nas várias
listas de atributos apresentadas em Marius Jansen (ed.), Changing Japanesc A ltitudes towards Mod-
crnization, Princeton, Princeton University Press, 1965, pp. 18-19, 20-24, e passim.
82. Sobre uma discussão desse ponto, ver acima, pp. 46-58.
83. Sobre a “difusão ad hoc” de itens de modernidade, cf. a esclarecedora discussão de Theodore H. von
Laue, “ Imperial Russia at the Turn of the Century”, Comparativc Studics in Socicty and History, III,
1961, pp. 353-367; e Mary C. Wright, “Revolution from Without?”, Comparativa Studics in Socicty
and History, IV, 1962, pp. 247-252.
84. Edward A. Shils, “ Political Development in the New States”, Comparativc Studics in Socicty and
History, II, 1960, p. 281.

375
RE1NHARD BENDIX

E m bora essas tensões existam igualmente nns Estados “avançados”, elas são
m ais pronunciadas não só nos “novos Estados” atuais, mas também nas sociedades
seguidoras do passado que podem ser classificadas, ainda que aproximadamente,
por seu grau de atraso85. Ocasionalmente, a analogia entre estruturas sociais
“atrasadas” ou “subdesenvolvidas” não deve ser forçada demais, uma vez que
países continentais possuíam m uitos atributos culturais e econômicos que eram
relativam ente favoráveis à modernização. Mas também é verdade que, durante o
século XIX, havia dentro da Europa um gradiente de atraso tal que os países
dirigidos para o Leste assemelhavam-se aos “abismos” encontrados nos “novos
Estados” de hoje mais estreitam ente do que os países da Europa ocidental86.

A s analogias ou paralelos aqui observados são especialm ente fechados ao


nível cultural. Pois o “abism o” criado pelas sociedades avançadas prem ia idéias
e técnicas que as sociedades seguidoras podem usar para “sair do atraso” . As
m inorias instruídas são, desse m odo, colocadas num a posição de im portância
estratégica, enquanto o abism o existente entre os instruídos e os não-instruídos
se alarga ainda mais. N um m undo m arcado por graduações de atraso, o estudo
com parativo da m odernização deve atentar para a “sociedade de referência” que
se torna o foco de atenção na sociedade seguidora, especialm ente para a m inoria
in stru ída que procura utilizar as idéias e técnicas avançadas para “se superar”87.
P ode-se ver aqui num relance que o enfoque na distinção entre sociedades
avançadas e seguidoras e nos efeitos de com unicação da m odernização dá
n ecessariam ente prioridade ao papel dos intelectuais e da educação, conside­
rando que as idéias sobre a m udança social que focalizam a divisão interna do
trabalho valorizaram , necessariam ente, as classes sociais padrão, como traba­
lhadores e capitalistas. É tão típico de países atrasados investir pesadam ente na
educação p ara “superar o abism o”, como para a intelligentsia desenvolver um a
intensa b usca de uma saída do atraso de seu país e nela se engajar88. Uma parte
típica dessa busca consiste no trabalho am bivalente de preservar ou fortalecer
o caráter indígena da cultura nativa e tentar ao m esmo tempo preencher a lacuna
criada pelo desenvolvim ento avançado da “sociedade ou das sociedades de
referên cia”81'.

85. G ershenkron, op. cit., pp. 41-44.


86. Cf. Landes, op. cit., pp. 354, 358.
87. O conceito de “sociedade de referência” foi escolhida por analogia aos “ grupos de referência” de Robert
M erton. Cf. Robert Merton, Social Thcory a n d Social Structurc, Glencoe, The Free Press, 1957, pp.
225 e ss.
88. Cf. a avaliação da intelligentsia de Hugh Seton-W atson, Neither War Nor Pcacc, New York, Ftederick
Praeger, 1960, pp. 164-187. Ver acima pp. 223 e ss.
89. A análise m ais sensível dessa bifurcação que encontrei na literatura é o estudo de Joseph Levenson,

376
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Quaíro aspectos do processo de modernização foram distinguidos na discus­


são precedente:
a. Razões de proporção sugerem que, desde o século X V III, a colocação
externa das sociedades, e especialmente o “abismo” criado pela precoce industria­
lização da Inglaterra e pela precoce democratização da França, comunicou ao “grau
de atraso” o significado especial de um “desafio” para a modernização.
b. Em seu esforço para superar esse “abismo”, os estratos líderes das socie­
dades seguidoras procuraram geralmente substitutos para os fatores que eram
condições de desenvolvimento nos países adiantados. Dentro das limitações im­
postas pela natureza e pela história, todos os aspectos da modernidade (como
desenvolvidos no exterior) são adotados simultaneamente, e o problem a é qual dos
itens adotáveis representa o atalho para a modernidade. Uma vez que a consecução
da “modernidade” não é assegurada, faz parte desse processo que a adoção de itens ■
de modernização possa militar contra “a modernidade”, ou ser irrelevante para ela.
c. Este ambiente comum das sociedades seguidoras por sua vez concede
importância especial ao governo. De uma maneira geral, os governos tentam
desempenhar um papel importante na modernização, ao mesmo tem po que procu­
ram superar sua própria instabilidade, que se origina nas tensões especiais criadas
W KJ ULl UiJU .

d. A divisão do mundo em sociedades adiantadas e seguidoras, junto com a


relativa facilidade de comunicação, premiam a educação como um meio de moder­
nização que é mais prontamente disponível do que o capital requerido pela
tecnologia moderna. A educação e as comunicações modernas também encorajam
o desenvolvimento de uma intelligentsia e de um produto cultural que —como
Wilhelm Riehl notava, já em 1850 —excedem aquilo que o país pode usar ou pelo
qual pode p agar'1. Esse fenômeno recorrente reflete-se num rápido crescimento de
esforços para superar o atraso do país por tentativas de reconciliar o fortalecimento
evidenciado pela sociedade adiantada com os valores inerentes às tradições nativas.

Aspectos comparativos da estratificação social

Esta seção conclusiva delineia um programa de estudo comparativo que trata


da estratificação em relação com a modernização. No passado, esse estudo con-

Modern China and its Confucian Pasl, Garden City, Doubieday & Co., 1964, passim . Cf. também
Cipolia, Guns and Sails, op. cit.} pp. 116-126.
90. Cf. a análise dessas tensões em Edward A. Shils, “Política! Development in tne New States”, acima citado.
91. Cf. o capítulo sobre “Die Proletaricr der G cistesarbeit”, em W ilhelm R iehl, D ic bürgerliche
Gcscllschaft, Stuttgart, J. G. Cottasche Biichhandhing, 1930, esp. pp. 312-313.

377
RE1NHARD BENDIX

trastou tradição e modernidade em termos de “preto-ou-branco” e enfatizou mudan­


ças internas na sociedade estudada e determinadas em grande parte pela divisão do
trabalho. A presente análise enfatiza a continuidade da mudança social, na medida
em que o contraste entre um a estrutura social é ocasionalmente um artifício de
conceitualização. Mas a modernização pode ter um efeito destrutivo na mudança de
padrões de estratificação, devido ao hiato entre as sociedades adiantadas e as
seguidoras. A intervenção governamental é outra fonte possível de descontinuidade,
uma vez que as estruturas de autoridade são relativamente autônomas. Em outras
palavras: em bora a mudança social seja um processo contínuo, é muitas vezes
afetada por fatores considerados convencionalmente extrínsecos à estrutura social.
Num processo de modernização, as relações entre os grupos são expostas a essas
influências “extrínsecas”, embora outros aspectos da estrutura social (por exemplo,
a família) possam ser menos afetados dessa maneira. Normalmente, a modernização
das sociedades é acompanhada por uma redefinição de âmbito nacional de direitos
e deveres. Indivíduos e grupos reagem a ações e crenças de outros, mas também a
imagens dessas relações de grupo derivadas de desenvolvimentos prévios em sua
sociedade de referência. A discussão que se segue tenta mostrar que esses probl emas
gerais relacionam-se diretamente com o estudo da estratificação social.
O contraste simplificado entre tradição e modernidade m osua-nos que a
sociedade medieval foi dirigida por um a aristocracia territorial e a sociedade
capitalista por um a burguesia que detém os meios de produção. Se concebermos a
transição da tradição à modernidade com o o declínio de uma série de atributos e o
surgim ento de outros, obteremos o quadro simples de uma aristocracia decadente
e uma burguesia em ascensão. Possivelmente, Marx contribuiu mais do que
ninguém para essa concepção. Sua interpretação da burguesia como o agente
coletivo histórico que “criou” o efeito revolucionário da indústria moderna produ­
ziu uma tendência a fazer retrospectivamente a leitura de uma “burguesia emer­
gente” nos últim os mil anos da história européia®. 0 amplo efeito dessa tendência
foi transformar o s comerciantes da Europa anterior ao século X V I I I em precursores
diretos dos empreendedores industriais do século XIX e imputar-lhes um grau
correspondente de lutas e protesto social, quando de fato eles se ajustam perfeita­
mente à estrutura social da Europa feudal. O efeito é também antedatar o declínio
da aristocracia cm alguns séculos para dar lugar a uma burguesia emergente1'-1. Mas

92. Para um a vigorosa crítica dessa tendência, cf. J - H. Hexter, Rcappraisals in H istory, New York, Harper
& Row, 1963, passim. Notar também os com entários preventivos referentes ao problema da continui­
dade histórica em Gerschc nkron, op. cit., pp. 37-39.
93. Para uma avaliação mais equilibrada da burguesia européia, cf. Otto Brunner, Ncitc Wcgc der
Sozialgc>chichte, pp. 80-115

37S
REA VALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

as mudanças da estratificação social durante a industrialização não apresentam o


simples quadro de uma aristocracia decadente e uma burguesia emergente. Na
maior parte dos países europeus, a predominância de grupos dirigentes pré-indus-
triais continuou, mesmo quando suas fortunas econômicas declinaram, e o papel
social e político subordinado das “classes médias” continuou, mesmo quando suas
fortunas econômicas cresceram. Na Europa, esse padrão se aplica quase sempre ao
período de transição para uma sociedade industrial. Eis como Joseph Schumpeter
aborda o tema com referência à Inglaterra, embora observe que, de maneira
modificada, o mesmo se aplica a outras partes:

O elem ento aristocrático continuou a m andar até o fim do período do intacto e vital
capitalismo. Sem dúvida, esse elem ento - em bora em parte algum a tão efetivam ente com o na
Inglaterra -c o m u m e n te absorveu os cérebros de outros estratos que derivaram para a política;
ele tornou-se o representante dos interesses burgueses e travou as batalhas da burguesia; teve
de renunciar a seus últim os privilégios legais; mas com essas qualificações, e não mais por
m otivos próprios, continuou a m anipular a m áquina política, a adm inistrar o E stado, a governar.
A parte econom icam ente eficiente dos estratos burgueses não ofereceu m uita oposição a isto.
N o todo, esse tipo de divisão do trabalho lhes convinha e cies gostaram dele''4.

Na modernização da Europa, as aristocracias mantiveram o domínio político


muito depois que os fundamentos econômicos de seu status elevado foram enfra­
quecidos e depois que atividades econômicas alternativas e mais produtivas con­
duziram os estratos burgueses à predominância social e econômica. A “capacidade
de governar” variava obviamente entre as diversas aristocracias, do mesmo modo
que o grau com que outros estratos da população tendiam a aceitar sua própria
posição subalterna. N a Europa, esses legados finalmente ruíram, m as apenas depois
que a transição para uma sociedade industrial foi afetada pelo padrão geral ao qual
se refere Schumpeter. Esse padrão de um continuado domínio político por grupos
dirigentes tradicionais, mesmo sob condições de rápida modernização, reflete uma
condição anterior da estrutura social, quando famílias de status social e econômico
elevado tinham acesso privilegiado a cargos oficiais, enquanto aquelas que se
situavam abaixo da linha de nobreza eram excluídas. As sociedades européias

94. Joseph Schumpeter, Capitalism, Socuüism and Dcmocracy, New York, Harpcr & Bros., 1947, pp.
136*137. Ver também pp. 12-13 par,, uma declaração mais generalizada. Substancialmente, as mesmas
observações foram feitas por Friedrich Engels em 1892, mas a primazia política da aristocracia e o
papel secundário d«i burguesia pareciam a ele apenas tlsobrcviventes” que desapareceriam ao final. Ver
Frederic Engels, Socialism, Utopian and Scientific, Chicago, Charles H. Kerr, 1905, pp. xxxü-xxxiv.
Tara um estudo em pírico, cf. W. L. Gutlsman, The British Political Elite, New Y ork, Basic Books
1963. ’

379
REINHARD BENDiX

pré-m odernas caracterizavam -se por um grande número de diferenças de status e


conflitos de interesse de todo tipo, mas apenas por “um corpo de pessoas capazes
de um a ação concertada sobre a área total da sociedade”''5. Ou seja, uma pequena
m inoria de ricos e bem -nascidos era capaz de uma ação concertada e, portanto,
constituía um a classe, enquanto toda a massa de pessoas desorganizadas e, naque­
las condições, inorganizáveis, era excluída pela falta de acesso a posições privile­
giadas que lhes era com um. Conseqüentemente, as sociedades européias
conform aram -se a certa altura a um padrão no qual classe e autoridade eram termos
m ais ou m enos sinônimos, m as essa identidade diminuiu no decorrer da m oderni­
zação e foi substituída finalm ente pelo princípio de separação entre cargo público
e posição fam iliar*.
Esse nivelam ento do acesso ao emprego público é um aspecto da m oderni­
zação que dá sentido às hipóteses que aduzimos a este campo de estudo. Na
sociologia moderna, o cargo de governo não é considerado uma base, ou um
indício, de estratificação social. O emprego público (mesmo em cargos elevados)
é, antes, visto como uma variável dependente, por exemplo, quando examinamos
a distribuição dos funcionários públicos por origem social. Todavia, essa perspec­
tiva pressupõe a separação do cargo oficial das reivindicações que uma família
pude fazer em virtude de sua posição social e econômica. Essas hipóteses aplica­
vam -se m enos na fase anterior das sociedades européias, e atualmente são menos
aplicáveis nas sociedades seguidoras que são economicamente atrasadas. Nestas,
o governo desempenha, ou tenta desempenhar, um papel importante no processo
de m odernização, como vimos. N essas condições, o emprego público fornece uma
das bases principais da m obilidade social, segurança econômica e bem-estar
relativo. D e fato, em países cc.onomicamente atrasados o governo é uma das
principais em presas econômicas. Portanto, funcionários do governo participam do
prestígio de governar, m esmo quando ocupam posições subalternas. E em virtude
do poder à disposição do governo, o acesso ao cargo do governo e a influência no
exercício da autoridade são pontos importantes de contenda - no sentido persona­
lizado característico de sociedades nas quais a interação é orientada pelo parentes­
co''7. Em bora essa importância do emprego no governo esteja associada com o
atraso econômico e a fragilidade dos estratos médios na hierarquia ocupacional,

95. Cf. Peter Laslett, The World Wc Havc Lost, op. cit., p. 22 e passim.
96. Cf. Ernest B arker, The Dcvelopm rnt o f Public Services in Western Europe, 1660-1930, London, Oxford
University Press, Í944, pp. 1-6 e passim .
97. Cf. C üfford Geertz, “The Integra tive Revoíution”, em Geertz (ed.), O ld Societics and N ew States,
G lencoe, T he Free Press, 1963, pp. 105 e ss. Cf. meu artigo “Bureaucracy”, em International
Encyclopcdia o f the Social Sciences, ed. de 1968.

380
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

ela pode também desviar recursos de usos que podem superar essas condições. Na
ausência de alternativas econômicas viáveis, o emprego público em si toma-se uma
base importante de estiatificação sociall,s, embora essas novas políticas freqüente­
mente tenham institucionalizado princípios plebiscitários igualitários na esfera
política. Essa identificação de classe e autoridade difere fundamentalmente do
elitismo das sociedades européias medievais, nas quais somente uma minoria
privilegiada tinha acesso a posições de autoridade.
O esboço precedente sugere várias perspectivas para um estudo comparativo
das classes dirigentes no processo de modernização. Dentro do contexto europeu,
ele centraliza a atenção na importância continuada de grupos dirigentes tradicionais
através de todo o período de modernização. Nesse aspecto, um estudo adicional
teria de diferenciar entre o desenvolvimento relativamente f -omodatício na Ingla­
terra e o desenvolvimento muito mais conflituoso de outras sociedades seguidoras.
A o mesmo tempo, sugeri que a modernização das sociedades ocidentais geralmente
mostra uma separação gradual entre cargo público e posição familiar. A continui­
dade entre tradição e modernidade continua a ser uma característica de mudança
social em toda parte, pois mesmo a crescente diferenciação entre cargo e família
na civilização ocidental revela um a variedade de padrões historicamente condicio­
nados. Não há razão para presumir que desenvolvimentos futuros em outras partes
serão mais uniformes. O estudo comparativo dos grupos dirigentes no processo de
modernização pode, portanto, combinar os três temas acima mencionados: a
continuidade de mudança, o efeito de influências extrínsecas no papel de mudança
dos estratos dirigentes, e a relativa separação entre governo e estrutura social. Os
mesmos temas podem ser combinados no estudo de outros grupos sociais.
Os padrões de ação e reação que caracterizam uma estrutura em mudança da
sociedade emergem mais prontamente quando nos movemos dos níveis superiores
aos inferiores da hierarquia social. Podemos nesse caso usar o contraste simplifi­
cado entre tradição e modernidade como ponto de partida, porque o surgimento da
participação política pelos estratos inferiores é um traço característico da moder­
nização. Na Europa medieval, os estratos inferiores fragmentados em empresas
domésticas de um tipo patriarcal existiam lado a lado com a classe governante,
caracterizada por riqueza, posição social elevada e alto cargo. Karl M arx analisou
com eficácia essa condição relativamente à classe camponesa francesa:

98. Cf., por exemplo, a afirmação que “N o Egito a classe média foi enfraquecida em ntimero e influência,
e os servidores civis encerravam uma grande proporção dela” . Morroe Berger, Burcaucracy andSociety
in Modern Egypt, Princeton, Princeton University Press, 1957, p. 46.

3S1
HE1NHARD BENDIX

Os pequenos cam poneses form am uma vasta m assa, cujos m em bros vivem em condições
sem elh an tes, m as sem en trar em relações diversas um com o outro. Seu modo de produção
iso la-o s uns dos outros, em vez de reuni-los numa relação mútua. O isolam ento é aum entado
p elo s m eios precários de com unicação franceses e peia pobreza dos cam poneses. [...] Cada
fam ília cam ponesa individualm ente é quase auto-suficiente: ela m esma produz diretam ente a
m aio r parte de seu consum o e adquire assim seus m eios de vida m ais por troca com a natureza
tio que por intercâm bio com a sociedade. A pequena propriedade, o cam ponês e sua fam ília;
ju n to dela outra pequena propriedade, outro cam ponês e outra fam ília. [...] Na m edida em que
ex iste sim plesm ente um a interconexão local entre esses pequenos cam poneses, e a identidade
de seu s interesses não produz unidade, união nacional nem organização política, eles não
form am um a classe. C onseqüentem ente, são incapazes de fortalecer seu interesse de classe em
seu próprio n o m e,seja através de um P arlam ento seja através de um a convenção. Eles não podem
rep resen tar a si m esm os, devem ser representados. Seu representante deve ao m esm o tem po
ap arecer com o seu m estre, com o um a autoridade acima deles, com o um poder governam ental
ilim itado, que os proteja contra as ou tras classes e lhes envie do céu a chuva e o sol. A influência
p o lítica dos pequenos cam poneses, portanto, encontra sua expressão final no poder executivo
q ue su b ordina a sociedade a si m esm o ” .

Provavelmente, M arx concordaria que essa análise dos camponeses na França


do século XIX aplica-se m utatis mutandis aos pequenos artesãos das cidades, às
propriedades senhoriais, bem como às propriedades alodiais independentes na
E uropa medieval. A empresa fam iliar fragmentava os estratos inferiores em outras
tantas unidades de governo patrim onial patriarcal sobre família, servos e aprendi­
zes. P or outro lado, os chefes de propriedades reuniam-se com outros em guildas,
exerciam autoridade nos cargos públicos, reuniam-se na deliberação das assem­
bléias representativas, e assim constituíam uma “classe” ou “classes” no sentido
de grupos capazes de ação concertada.
N esse cenário, a “dem ocratização fundamental” refere-se a todo o processo
de form ação de classe, pelo qual a fragmentação dos estratos inferiores é gradual­
m ente superada, e não só à importância do direito de voto. A mobilidade geográfica
aum enta, a alfabetização cresce com a difusão dos jornais, o governo patriarcal c
as em presas domésticas declinam, enquanto as condições de trabalho levam a uma
agregação de grandes massas de pessoas em empresas econômicas que oferecem
oportunidades de fácil com unicação1"". Como observou Marx, essas condições
deram origem a sindicatos, organizações políticas e a uma maior consciência de
classe devida aos repetidos conflitos com os empregadores. Ele estava preocupado
dem ais com a “indústria” para notar que outros grupos além dos operários e outros

99. Karl M arx, The ISth Bm m aire o fL o u is Bonaparle, New York, International Publishers, s. d., p. 109.
100. Ver John Stuart Mill, Principies o f Polilical Ectmomy, Boston, Charles C. Líttle & James Brown,
1848, pp. 322-323.

ÍS2
REA VALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

meios de comunicação além do contato direto no local de trabalho pudessem


exercer algum papel11". Ele também estava comprometido demais com uma pers­
pectiva evolucionista com sua ênfase no declínio final da aristocracia para notar a
importância das crenças que sustentavam a legitimidade da “classe dirigente”
tradicional, mesmo numa sociedade em vias de industrialização. Grandes massas
de pessoas ao pé da hierarquia social mantinham sua lealdade à ordem estabelecida,
mesmo diante das privações físicas e psicológicas impostas tão abruptamente sobre
elas102.
Essa lealdade é evidente nas inúmeras referências aos direitos reais e imagi­
nários desfrutados sob a velha ordem. O protesto populista baseado nessas refe­
rências significa, entre outras coisas, a exigência da igualdade da cidadania. Essa
igualdade era proclamada pela ordem jurídica e pelos apelos à solidariedade
nacional numa era de propagandeado poder da construção, mas na prática ela era
negada pela restrição do direito de voto, pela ideologia dominante de relações de
classe, e pela implementação facciosa da lei. A crescente consciência da classe
trabalhadora nesse processo de “democratização fundamental” reflete uma expe­
riência de alienação política, um sentimento de não ter uma posição reconhecida
na comunidade civil de uma sociedade industrial emergente. Durante o século XIX,
o nacionalismo era tão poderoso em parte porque podia apelar diretamente a esse
anseio das pessoas comuns por respeitabilidade civil, um anseio que era intensifi­
cado por uma aguda consciência do desenvolvimento em outros países. Ouando
essa busca era frustrada, e quando idéias de direitos da mão-de-obra se espalharam
durante o século XIX, o povo se voltou para a alternativa socialista de construir
uma nova comunidade civil à qual também pudesse pertencer"13. Essa interpretação
geral da agitação da classe trabalhadora na Europa pode ser contrastada com os
problemas encontrados hoje sob condições de atraso econômico maior e um avanço
maior no exterior1"4.

101. Cf. a análise da crescente consciência de classe entre os trabalhadores em Karl M arx, The Povcriy o f
Philosophy, New York, International Publishers, s. d., pp. 145-146; mas notar também a prova
aduzida por David Milrany, M arx against lhe Peasants, London, Weidenfeid & Nicolson, 1051,
passim
102. Deixar de levar em conta essas crenças porque elas finalmente desapareceram não é mais plausível
do que fazer o papel da aristocracia declinar antes de sua morte final. Cf. a discussão do “ Iradiciona-
lísm oda mão-de-obra” em meu livro Work andAuthority in Iridustry, 2. ed., Berkeley, University of
Califórnia Press, 1974, pp. 34 e ss.
103. Para «m a afirmação mais ampla dessa interpretação, ver idem, pp. 61-74.
104. Como sempre, o contraste não é absoluto. Durante o século XIX, à medida que se ia na direção lesle
na Europa, encontravam-se certos paralelos com a “sindrome do subdesenvolvimenlo” de hoje,
nomeadamenle uma maior importância do governo e uma classe média pouco desenvolvida. Cf. a
esclarecedora declaração de David Landes: "Quanto mais se vai para o leste na Europa, tanto mais a

ÍS.T
REINHARD BENDIX

U tilizando o desenvolvimento ingiês como o protótipo dos desenvolvimentos


posteriores em outros países, M arx confundiu a exceção com a regra, um a consi
deração que se aplica a sua análise de uma classe trabalhadora emergente. Quando
os trabalhadores ingleses atingiram um nível de consciência de grupo no fim do
século XVIII e início do XIX, tornaram -se conscientes da posição de destaque da
Inglaterra como um poder mundial. Nas sociedades seguidoras, os estratos mais
baixos elevam -se a uma consciência do atraso relativo de sua sociedade. Do mesmo
m odo, a agitação inicial da classe trabalhadora na Inglaterra ocorreu num contexto
antim ercantilista que m ilitava contra a legislação protetora durante o período de
transição de privações muito intensas. Nas sociedades seguidoras, a confiança
m aior no governo torna a legislação social um concomitante natural da industria­
lização inicial105. Na Inglaterra, a força de trabalho nas antigas fábricas era efeti­
vam ente separada da terra, e o aumento de população no campo bem com o na
cidade correspondia aproximadamente à crescente demanda por mão-de-obra. Em
m uitas sociedades seguidoras, a força de trabalho retém seus laços familiares e
econôm icos com a terra, e o aumento da população na cidade e no campo está bem
à frente da demanda por m ão-de-obra106.
E sses contrastes variam com o grau de industrialização alcançada localmente
e o grau de controle governamental sobre a migração interna, paia mencionar
apenas duas considerações relevantes. A separação permanente dos trabalhadores
de seus laços com a terra facilita obviamente o crescimento da consciência de classe
e da organização política no sentido marxista da palavra. Por outro lado, uma
continuação desses laços pode resultar num fraco compromisso com a indústria (e,
portanto, uma fraca solidariedade de grupo), e/ou na emergência de alianças
segm entares entre camponês e_ trabalhador na política urbana e nacional. Onde

burguesia assume a aparência de uma excrescência estrangeira na sociedade senhoria!, um grupo à


parte isolado pela nobreza c tem ido ou odiado (ou desconhecido) por um campesinato ainda
pessoalm ente submetido ao seigneur local”. Ver Landes, op. cit,, p. 358.
105. O debate concernente às privações nos inícios da industrialização inglesa continua. Mas seja qual for
sua resolução final, em term os de padrão de vida em mudança, há provavelmente menos desacordo
sobre as repercussões psicológicas. A separação do lar do trabalhador em relação a seu local de
trabalho, a novidade de uma disciplina que fora previamente associada ao asilo para indigentes, a
brutaiização das condições de trabalho para mulheres e crianças com a mera mudança para longe de
casa, e matérias afins constituem a prova circunstancial impressionante. Notar também que o
depoim ento no texto compreende o pior.eirismo da Alemanha no cam po da legislação social como
um atributo de uma sociedade anteriormente dependente.
106. C f. Landes, op. cit., pp. 344-347, para uma análise sumária do problem a do suprimento de mão-de-
obra na Revolução Industrial inglesa em termos do estado de pesquisa corrente. Essas descobertas
podem ser contrastadas prontamente com os materiais comparativos sobre várias sociedades segui­
doras contidos em W ilbert Moore e Arnold Feldman (eds.), Labor Commitment and Social Changc
in D cvcloping Arcas, op. cit., passim.

3S4
RE A VA 11AÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃ O E MODERNIDA DE

existe esta última alternativa, pode-se começar a apreciar o quão importante é


considerar tais fenômenos em si mesmos, mais do que tratá-los com o transições
que se espera irão desaparecer com a crescente modernização. Não sabemos, afinal,
que formas a modernização deverá tomar onde a separação entre cidade e campo
deixar de ocorrer, pelo menos por um considerável período de tem po'"7.
Tendo considerado os estratos dirigentes e inferiores, queio finalmente voltar
a uma breve análise da educação e dos intelectuais, usando novamente os parâme­
tros da discussão precedente. No caso da Inglaterra, a educação fora um privilégio
associado à posição elevada, até que, durante as controvérsias religiosas, vários
grupos sectários instituíram sistemas de escola privada para preservar a integridade
de suas crenças. A idéia de tornar a educação disponível além daqueles estreitos
círculos levantou imediatamente a questão do perigo para a ordem social pelo fato
de trabalhadores e camponeses aprenderem a ler e escrever. E ssa apreensão é
bastante compreensível quando se considera que a linha divisória básica entre
aqueles que oficialmente se classificavam como “cavalheiros” e a vasta maioria do
povo era idêntica à divisão entre os instruídos e os analfabetos. Ademais, a
mobilização social da população devida ao comércio e à indústria m inava a velha
hierarquia social. O esforço para assegurar que o povo m antivesse seu velho
respeito pela hierarquia levou à difusão gradual da educação com um a forte ênfase
na religião. Essa difusão da educação não era diferente do problem a paralelo da
conscrição millitar: ambos eram aspectos de uma “democratização fundamental”
que dava importância política inaudita ao povo que podia ler e - em tempos de
emergência - portava armas Ultí.
Essas questões são transformadas nas sociedades seguidoras, que procuram
alcançar os benefícios de uma sociedade industrial, mas por uma transição mais
rápida e menos custosa do que ocorreu na Inglaterra. Nessas sociedades, a educação
popular e superior parece fornecer o atalho mais fácil para a industrialização. For
esses meios, o nível de habilitação da população é elevado, enquanto os de
educação superior aumentam sua capacidade de aprender técnicas avançadas do

107. Notar que Marx e outros com ele consideravam essa separação como um pré-requisito do desenvol­
vimento capitalista. Cf. a discussão da posição distinta de trabalhadores nos países africanos de Líoyd
A. Fallers, “ Equality, Modernity and Democracy in the New States”, em Geertz (ed.), Old So á c tie s
andN ew States, op. cit.y pp. 187-190. Ver também Richard D. Lambert, “The Im pact o f Urban Society
upon Village Life”, em Roy Turner(ed.), In d ia ’s Urban Future, Berkeley, University of Califórnia
Press, 1962, pp. 117-140.
108. Nesses aspectos, há, é claro, diferenças marcantes entre a França e a Inglaterra que podem ser
consideradas sintomáticas da abordagem radicnl e da abordagem conservadora d a educação e da
conscrição. Sobre um tratamento comparativo dessas questões, cf. Ernest Barker, The Devclopment
of Public Services in Western Europe, op. cit.y caps. 2 e 5.

385
RE1NUARD BEND1X

exterior. Por essas razões, os governos nas sociedades seguidoras usualmente


estim ulam a educação, m esm o que ao fa?cr isso também prejudiquem sua própria
estabilidade política. Eles podem tentar prevenir tais perigos através de restrições
ao direito de voto, censura, controle das associações etc.; pode-se diferenciar entre
as sociedades seguidoras dos séculos XIX e XX em termos de graus e tipos de
controle sobre uma população mobilizada.
Tais contrastes no papel da educação assemelham-se aos contrastes no papel
dos intelectuais. Muitas pessoas instruídas se engajam esporadicamente em ativi­
dades intelectuais, mas o termo “intelectuais” é usualmente (ainda que vagamente)
restrito àquelas pessoas que se dedicam a tais atividades em tempo integral e como
profissionais livres mais do que como “mão-de-obra contratada”1"9. As atividades
intelectuais ocorrem em todas as sociedades complexas, mas os “intelectuais”
com o um grupo social diferenciado emergiram como um concomitante da moder­
nização. Na E uropa ocidental, os homens de letras sofreram um processo de
em ancipação de sua subserviência anterior à Igreja e aos patronos privados, porque
a industrialização criou um público de massa e um mercado para os produtos
intelectuais. T odo o processo foi de grande complexidade, mas ele pode ser
sim plificado para os propósitos atuais. Os intelectuais tenderam a responder à sua
pmancinação por um novo elitismo cultural, e ao novo público de massa por
respostas que vacilavam entre uma identificação populista e uma forte apreensão
concernente à ameaça da cultura de m assa aos valores hum anistas1111. Essas respos­
tas eram totalmente incongruentes com o materialismo dominante das sociedades
industriais adiantadas, de modo que os intelectuais experimentaram um isolamento
social e moral. Durante o século XIX, as grandes conquistas econômicas e políticas
das sociedades européias avançadas antes reforçaram que abrandaram o isolamento
desses intelectuais que não participaram diretamente dessa conquista e que ques­
tionavam o valor cultural e pessoal daqueles que o fizeram. Na medida em que esse

109. A circularidade desse depoimento é inevitável. Num sentido geral, as atividades que utilizam o
intelecto referem -se à criação e m anutenção (transmissão) de valores culturais, m ascada um desses
termos (valores culturais, criaçno, manutenção, transmissão) está sujeito a constante debate, e o
próprio debate é uma importante atividade intelectual. Uma vez que esse debate envolve o uso
pejorativo bem como favorável desses termos, e por esse motivo o esforço dos oradores de “pertencer”
ao lado positivo do processo cultural (ainda que de maneira m arginal), nenhuma série de termos
definidores será totalmente satisfatória. Em virtude dessa dificuldade, a alternativa mais razoável é
estabelecer unia tipologia de atividades intelectuais e deixar o grupo de pessoas chamadas de
“ intelectuais” sem definição. Sobre uma tentativa desse tipo, cf. Theodor Geíger, Atifgaben und
Stcllung der Inteliigenzin der G csclischaft, StuUgart, Fcrdinand Enke Verlag, 1949, pp 1-24,81-101.
110. C f. o estudo de caso desse processo na Inglaterra de Leo Lowenthal e Marjorie Fiske, “The Debate
o ver Ar! and Popular CuUure”, em M in a Komarovsky (ed.), Common Fronticrs o f the Social
Sciences, Glencoe, The Free Press, i957, pp. 33-112.

386
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

alheamento resultava da emancipação e do conseqüente elitismo dos intelectuais,


bem como de sua reação ambivalente ao grande público, ele deve ser considerado
um concomitante da modernização1".
A resposta dos intelectuais, esboçada brevemente aqui, foi em grande parte
interna nas m ais adiantadas sociedades européias. Mas a ruptura realizada pelas
revoluções industrial e política da Inglaterra e da França transformaram outros
países em sociedades seguidoras. O avanço econômico da Inglaterra e os eventos
da Revolução Francesa foram testemunhados de longe por homens que rejeitavam
o atraso e a autocracia de seu próprio país. Sob essas condições, a vida cultural
tende a se tornar polarizada entre aqueles que vêem seu país progredir imitando os
“países mais adiantados”, e aqueles que denunciam esse avanço com o estranho e
maléfico e que enfatizam em vez disso as fontes de energia existentes entre seu
próprio povo e sua cultura nativa. Ambas as reações foram tipificadas pelos
ocidentalistas e eslavófilos da Rússia czarista, mas o padrão geral ocorreu repeti­
damente. Ele foi o motivo principal do nacionalismo e de movim entos pela
independência nacional. Nesse cenário, os intelectuais não permanecem como
testemunhas estranhas do desenvolvimento levado adiante pelos outros; eles ten­
dem a se transformar em líderes do impulso para a modernização112.
Esta discussão procurou fornecer uma estrutura para o estudo comparativo
da modernização e da desigualdade. Tais estudos foram influenciados por muito
tempo por um estereótipo derivado da tradição marxista. De acordo com esse
estereótipo, a história é dividida em épocas, caracterizadas por um modo de
produção predominante e, baseado nele, uma estrutura de classe que consiste de
uma classe dirigente e uma classe oprimida. Cada época é posteriorm ente caracte­
rizada por uma típica seqüência de mudanças nas relações entre as duas principais
classes. Na fase inicial, o modo dominante de produção é estabelecido por uma
classe em seu período de ascendência revolucionária. Por um tempo, essa classe é
progressista. Seus interesses econômicos são idênticos aos progressos técnicos e
ao bem-estar hum ano, e portanto, do lado das idéias e instituições liberadoras.

111. Evito o teim o “ alienação” porque sua utilização abusiva tornou-o sem valor. Sobre um tratamento
científico dessa resposta intelectual à “sociedade burguesa” na Europa do século XIX, cf. Karl
Loewith, From lle g c t to Nietzsche, passim. Cf. também a análise da distância social entre os
“intelectuais” e “os homens práticos”, em Joseph Schumpeter, op. cit., pp. 145-155, bem como a
inusitada aceitação dessa distância por pelo menos um grande artista, WíIIiam Faulkner, que falava
dc escritores “ firmemente empenhados na tentativa de fazer o impossível” enquanto se mantêm “fora
do cam inho das pessoas práticas e ocupadas que carregam o peso da A m érica”, V er o discurso de
Faulkner por ocasião do recebimento do National Book Award, em The N ew York Tim es Book Review,
6.2.1955, p. 2.
112. Ver Edward A. Shils, “Intellectuals, Public Opinion and Economic Development” , W orld Politics,
vol. 10,1958, pp. 232-255.

387
REINHARD BENDIX

Finalm ente, contudo, essa classe ascendente torna-se uma classe governante. De
um campeão do progresso em seu período de ascendência, a classe transformou-se
num campeão da reação em seu período de dominação. A classe dirigente resiste
cada vez mais às m udanças que poriam em perigo sua posição fortificada. Mas
enquanto isso, dentro da estrutura da velha sociedade, a partir das fileiras dos
oprimidos, form ou-se um a nova classe que não tem tais interesses estabelecidos e
que no devido tempo irá subverter aquela velha estrutura para abrir caminho ao
progresso material que se tornou tecnicamente possível. Dentro do contexto
europeu, essa grandiosa simplificação pareceu explicar os poderes feudais de
resistência, a progressiva burguesia ascendente e sua gradual transformação numa
classe governante reacionária, e finalmente a classe do proletariado oprimido que
tem um mundo a conquistar e nada a perder a não ser suas cadeias.
E bem verdade, é claro, que M arx modificou esse esquema para levar em conta
líderes e retardatários na interpretação dos reais desenvolvimentos históricos de sua
época. Todas essas modificações podem ter parecido as mais persuasivas por causa
da apaixonada convicção moral e intelectual com que Marx aderiu às hipóteses
básicas do próprio esquema. Essa convicção, sugeri eu, fazia parte da resposta dos
intelectuais europeus à crise nas relações humanas produzida pelo surgimento de
uma sociedade industrial, um a resposta que sugeria um confronto do tipo “preto-e-
branco” entre tradição e modernidade com suas muitas ramificações.
Uma consciência crítica dessa herança intelectual pode ajudar na reorientação
necessária no estudo comparativo da estratificaçáo. Ela nos prepara para reconhe­
cer que o contraste entre tradição e modernidade é ele mesmo parte da evidência
que devemos considerar. E ssa resposta intelectual ao surgimento da indústria foi
um a ajuda ou um obstáculo (como deve ser o caso) na modernização de cada país,
m arcada tipicamente pela emancipação dos homens de letras e pela maneira como
eles avaliaram o atraso de seu país relativamente aos avanços das suas sociedades
de referência. Uma vez descontados os legados não desejados dessa resposta
intelectual, como tentei fazei neste ensaio, surge uma abordagem um pouco
diferente do estudo da modernização.
A divisão da história em épocas, como a distinção entre tradição e moderni­
dade, é um construto de utilidade definida, mas limitada. Esses construtos variarão
com o propósito da investigação. Embora tenhamos achado útil considerar o final
do século X V I I I europeu como um ponto histórico decisivo, é reconhecido que o
processo de modernização, que atingiu um crescendo desde então, é coextensivo
com a era da expansão européia desde o final do século X V , ou a “era Vasco da
G am a”, como a denominou Cario Cipolla. Se quisermos explicar essa histórica
rup tura na Europa, nossa ênfase recairá na continuidade das mudanças intersociais.

388
REAVALIAÇÃO DOS CONCEITOS DE TRADIÇÃO E MODERNIDADE

Se quisermos incluir em nossa avaliação as repercussões mundiais dessa ruptura


e, portanto, o processo diferencial de modernização, nossa ênfase recairá na
confluência de mudanças intrínsecas e extrínsecas das estruturas sociais. Ambas
as ênfases são relevantes para o estudo comparativo da estratificação.
Dentro desse amplo contexto, o surgimento de novas estruturas sociais como de
inovações técnicas parece um processo multifacetado, não exclusivamente identificá­
vel com qualquer grupo social isolado. Geralmente, os pioneiros da inovação, mais do
que desafiar os grupos dirigentes, procuram sua proteção, contanto, é claro, que esses
grupos existam e possam oferecer proteção. O resultado desse processo varia com a
pressão por inovação e o grau com que determinados grupos dirigentes participam eles
mesmos na inovação ou se sentem prejudicados por ela. Seja como for, a ênfase na
continuidade dos grupos governantes na era da modernização é um primeiro corolário
resultante da rejeição da imagem “preto-ou-branco” da tradição e modernidade.
Um segundo corolário envolve o que Karl Mannheim chamou de a “democra­
tização fundamental” da sociedade moderna. O contraste entre o monopólio do
sistema por uma pequena minoria de notáveis e o princípio do sufrágio universal
nosmodernos Estados-nações é impressionante e inquestionável. Mas o crescimento
da cidadania, que ocorre na transição de um para outro, envolve desenvolvimentos
muito diversos, nos quais os direitos e obrigações relativos das classes sociais são
redefinidos, à medida que o processo político interage (mais ou menos autonoma-
mente) com a organização de produção em mudança. Na era da modernização, essa
interação pode ser compreendida mais corretamente se for dada atenção adequada
ao cenário internacional, bem como à diferenciação interna das estruturas sociais.
No fim, pode parecer - a partir de um ponto de vista de meados do século XX
— que o crescimento da cidadania e do Estado-nação é uma dimensão mais
significativa da modernização do que as desigualdades distributivas subjacentes à
formação das classes sociais. Nessa perspectiva, a teoria marxista das classes
sociais sob o capitalismo parece uma projeção radical de certos padrões temporá­
rios ingleses do início do século XIX. Um argumento de certo peso favorável a essa
conclusão é o crescimento do Estado dc bem-estar nas sociedades industrializadas
do mundo, que de um modo ou de outro fornece um padrão de acomodação entre
os grupos sociais concorrentes, bem como um modelo a ser emulado pelos líderes
políticos e intelectuais das sociedades seguidoras"3. Meu objetivo foi fornecer um
quadro que possa englobar esses desenvolvimentos contemporâneos, bem como os
processos de modernização do passado.

113. Cf. Gaston Rimlinger, Welfarc Policy and lndustrializc.tion in Europc, America and Russia, New
York, John Wiley & Sons, 1971.

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