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Acorda Alice, Aluga um Filme Pornô – Uma

leitura dos banheiros masculinos da UFBA


Wake up Alice, and R ent a P orn Movie — A reading of male toilets in the UFBA

Helder Thiago Cordeiro Maia1


Universidade Federal da Bahia
helderthiagomaia@hotmail.com

Resumo Abstract

A partir do texto da teórica queer Beatriz Preciado Starting from the text of queer theorist Beatriz
sobre as relações de poder nos banheiros públicos, o Preciado on power relations in public restrooms, this
artigo traça uma leitura dos recados deixados nas article provides a reading on the messages left on the
portas de banheiros masculinos em seis prédios da doors of men's toilets in six buildings of Federal
UFBA. Contrariando o que afirma a teórica, a divisão University of Bahia. Opposite of what this theory
dicotômica entre mictórios e cabines fechadas não é says, the dichotomous division between closed booths
suficiente para dar conta da realidade local, havendo and urinals is not enough to account for the local
um continuum entre esses espaços e não uma divisão reality, with a continuum between these spaces and
estanque. not a tight division.

Palavras – Chave: Teoria queer; banheiros; Keywords: Queer theory; bathrooms; university.
universidade.

Revista Latino-americana de Geografia e Gênero, Ponta Grossa, v. 3, n. 1, p. 30-36, jan. / jul. 2012.
Acorda Alice, Aluga um Filme Pornô – Uma leitura
dos banheiros masculinos da UFBA

Os banheiros públicos, como bem explica Beatriz necessidade de se pensar esses espaços fechados dos
Preciado em seu artigo 'Basura y Género, Mear/Cagar. banheiros masculinos. Desde já, faço pequenas
Masculino/Femenino', são instituições que nasceram delimitações no objeto-banheiro para pensar a
com a burguesia e se generalizaram a partir do século realidade local da nossa universidade.
XIX na Europa. Eles, que foram pensados inicialmente Delimitei, então, como campo de análise, deste
como espaços de gestão de dejetos humanos, logo se artigo, os banheiros públicos masculinos de seis
converteram, no século XX, em cabines de vigilância prédios da Universidade Federal da Bahia, por isso,
de gênero. ficam de fora deste os banheiros exclusivos de
Os corpos reconhecidos exclusivamente dentro de professores e funcionários e também os banheiros
uma lógica dualista/binária, homem e mulher, femininos de forma geral. A partir dessa delimitação,
masculino e feminino, passam a adjetivar o espaço foram fotografadas todas as cabines públicas de
físico banheiro, assim como também os configuram, banheiros desses seis prédios da UFBA no mês de
definindo formas arquitetônicas específicas para cada novembro do ano de 2009.
um dos gêneros. Os banheiros, assim, passam a avaliar Foram selecionados três prédios de circulação
a adequação dos corpos aos códigos vigentes da ampla, ou seja, prédios onde estudantes-funcionários-
masculinidade e da feminilidade sob pena de agressões professores-visitantes de diversos cursos circulam,
verbais e físicas. foram eles: o PAF I, a Biblioteca Central e o PAF III.
O controle dos corpos ocorre antes mesmo de Além disso, foram selecionados e fotografados todos
entrarmos em um banheiro. Já na porta somos os banheiros públicos do Instituto de Biologia, do
questionados sobre o nosso gênero; não nos é Instituto de Letras e do prédio da Faculdade de
perguntado se vamos mijar ou se vamos cagar, somos, Comunicação.
sim, interpelados pelo nosso sexo/gênero: somos Logo após o recolhimento e as primeiras análises
homens ou mulheres? Por isso, como argumenta desses dados, ficou comprovado que essa divisão
Preciado, não entramos nos banheiros somente para mictório-sociabilidade-masculinidade x cabine-
eliminar dejetos, mas para reafirmarmos a adequação experimentação sexual-tentação homossexual não é
dos nossos gêneros. tão rígida como pensa a autora, já que os mictórios
Preciado, a partir dessas questões, faz uma funcionam, muitas vezes, como locais de
arqueologia dos poderes que operam e controlam os experimentação sexual e as cabines, que condenam a
banheiros masculinos e femininos. Para a autora, a experimentação sexual ao espaço privado e distante do
feminilidade se produz a partir da subtração do olhar olhar público, funcionam também como um espaço de
público de todas as funções fisiológicas, entretanto, o sociabilidade e também de diálogo como pretendo
olhar público e a afirmação da feminilidade se demonstrar neste artigo.
realizam nos espelhos que servem, ao mesmo tempo, Uma rápida passada em qualquer um desses
aos retoques de maquiagem e a vigilância dos corpos. banheiros, principalmente nos de ampla circulação,
Os banheiros masculinos, contudo, são diferentes, o nos revela uma infinidade de anúncios, reflexões e
olhar público se realiza nos espelhos, mas também, e, principalmente de diálogos fictícios e também reais.
principalmente, nos mictórios, onde os homens mijam São estes pequenos textos, deixados nas portas desses
uns ao lado dos outros, estando às cabines fechadas banheiros, o objeto deste artigo, cuja finalidade é
destinadas aos dejetos sólidos. Como a autora conclui, comprovar que essas cabines, ao contrário do que
a masculinidade nos banheiros públicos depende de pensa Beatriz Preciado, estão carregadas de
uma separação definitiva entre pênis e ânus, mas, ainda sociabilidade, mas também podem ser vistas como
assim, segundo a autora, ao contrário dos banheiros espaços de afirmação de masculinidade,
femininos, os banheiros masculinos são um espaço principalmente através das mensagens homofóbicas.
propício não só a sociabilidade (nos mictórios), mas Devido à grande quantidade de textos encontrados,
também a experimentação sexual (nas cabines). separei-os em grandes blocos temáticos: homofobia-
Se o ato de mijar em pé com o pênis à vista pública masculinidade, homofobia-religião, diálogos-encontros
afirma a masculinidade e cria uma sociabilidade, o sexuais, desejo-heteronormatividade e outras
ânus, ao contrário, é um potencializador homossexual e mensagens.
por isso está condenado ao âmbito da privacidade,
consequentemente as cabines fechadas. A Homofobia - Masculinidade
performatividade da identidade masculina, nos
mictórios, realiza-se em um jogo de corpo que oscila A masculinidade, entendida como um conjunto de
entre a exibição e o ocultamento do pênis. atributos e condutas que funcionam no campo
A partir dessas reflexões teóricas, surgiu a simbólico, estrutura e modela o que se entende como

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identidade masculina, tendo tradicionalmente como - 'VIADOS UMA PRAGA!!!'


seus principais eixos: a heterossexualidade, a
dominação, o poder e a ideia do homem como - 'Bando de viado da desgraça'
provedor.
Para teóricos como Woodward, Tadeu da Silva e - 'Todo viado é falso! Sumam viados'
Hall (2007), toda identidade é necessariamente
relacional, sendo a diferença a marcação simbólica - 'Vão se foder todos os viados. A vantagem
relativa à outra identidade. A marcação dessa diferença é que eu como as mulheres que vocês não
é, assim, crucial no processo de construção da pegam'
identidade masculina heterossexual, já que ela depende
da diferença para se afirmar. Ocorrendo dentro de um - 'Gostamos de comer é isso aí das meninas
sistema classificatório e hierárquico, a diferença é (seta apontando para o ânus de uma mulher
construída negativamente por meio da exclusão ou da desenhada na porta). PORRRAAA!!! NÃO
marginalização. DE GAYS'
Como bem explica Butler (2003), todas as
identidades funcionam por meio da exclusão, por meio - 'Esses caras tão por fora, vamos lascar
da construção discursiva de um exterior constitutivo e essas vadias filhinhas de papai que estudam
da produção de sujeitos abjetos e marginalizados, aqui'
aparentemente fora do campo simbólico do
representável. - 'NÃO GOSTAMOS DE GAY PORRAAA!!!
São através desses dualismos que os gays são Só de cuzinho de meninas'
construídos normalmente como os outros, são aquilo
que os homens heterossexuais não são. Dessa forma, - 'ISTO É UMA DEGRADAÇÃO!!!'
de modo geral, o homem heterossexual constrói
posições-de-sujeito para homossexuais tomando a si - 'Só de olhar homem já dá náuseas, e vcs
próprio como referenciais, utilizando a naturalização e querem rola!!! Tomem vergonha, seus
a reificação da heterossexualidade para tornar outros viados discarados'
corpos e práticas abjetos.
É dentro dessa lógica de deslegitimação que - 'Chupar uma buceta! Isso que é bom!'
circulam os discursos e as práticas homofóbicas, pois,
ao afirmar, a primazia da identidade masculina e - 'Porque aqui todos os homens são gays?'
heterossexual coloca-se em oposição os homossexuais
como identidades e práticas desvalorizadas. A - 'Só tem viado nessa por (r) a? Puta que
repetição de práticas e de discursos homofóbicos pariu eu quero xoxota!'
podem, assim, ser tomados como construtores da
masculinidade tradicional. Homofobia - Religião
Dessa forma, contrariando o que imagina Beatriz
Preciado, as cabines de banheiros funcionam através Segundo Hall (2006), as identidades têm sido
dos textos homofóbicos que circulam em suas portas extensamente questionadas e discutidas na teoria social
como um espaço, ainda que fechado ao olhar público, e nas ciências humanas, vivemos o que o autor
construtor da identidade masculina e, denomina de uma crise de identidade. Nesse processo,
consequentemente, da masculinidade. as identidades estão sendo descentradas ou
Transcrevo abaixo alguns desses discursos que fragmentadas. Para o autor, a identidade seria algo
foram encontrados nos banheiros da UFBA: formado, ao longo do tempo, através de processos
conscientes e inconscientes.
- 'os iguais se repelem seus viadinhos' Na contramão de tudo isso está à visão das
religiões de base cristã que através de um discurso
- 'morte aos viados / esses disimadores de histórico e mítico pretende manter posições identitárias
AIDS' inabaláveis, mantendo uma fantasia de identidades
estáveis ancoradas num discurso de fé. Dentro dessa
- 'Homossexual é pior que cavalo, pois pelo lógica, como esclarece Hall, as identidades seriam algo
menos esse animal pensa!!!' existente na consciência dos indivíduos desde o seu
nascimento.
- 'Morte aos gays! Filhos de Hitler' Assim, para a visão religiosa cristã, baseada nas

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tradições, os papéis de homens e mulheres estão


definidos segundo uma origem divina. Há, - 'Fora os pederastas sodomitas e
consequentemente, um apelo a uma verdade mítica e afemenados'
biológica amparada em textos religiosos. Essa mesma
tradição se sustenta e se afirma dentro de uma lógica Porém, o discurso de intolerância não é apenas
da heterossexualidade compulsória, ou seja, não dirigido às práticas sexuais consideradas desviantes,
existem possibilidades afetivas-sexuais fora da ele também se volta para outras religiões,
heterossexualidade, sendo consideradas como principalmente as de origem africana, como podemos
desviantes e abjetos qualquer outro tipo de prática fora constatar pela mensagem abaixo:
desse esquema normativo-obrigatório. Nesse discurso,
a heterossexualidade é a norma de origem divina e a - 'Brinque com, Oxossi, Obaloaê, Exú,
homossexualidade é o abjeto que tem relações com o Iemanjá, o Diabo, enfim. Todo esse bando
diabo, com a morte e com a AIDS. de derrotados. Mas não brinquem com
Vale lembrar o que diz Butler (2008, p. 150) sobre Deus.
as relações entre homossexualidade e morte:
Contudo, esses discursos homofóbicos e de
Evidentemente, os discursos homofóbicos intolerância religiosa obtêm respostas de outros
que entendem a AIDS como o resultado da usuários desses banheiros, às vezes em tom de
homossexualidade antes que como o deboche 'Jesus é viado', às vezes em tom de denuncia
resultado do intercambio de fluidos, 'Isto é intolerância religiosa', mas também há a
exploram e fortalecem essa metáfora já contestação dessa ordem religiosa em frases como
circulante da homossexualidade apresentada 'Deus não existe'. O fato de esses discursos serem
como uma espécie de morte social e contestados afirma assim a presença de diálogo entre
psíquica.2 os frequentadores e afirma as cabines como um lugar
de sociabilidade-masculinidade e não só de
experimentação sexual.
Essa situação termina por instaurar, quase sempre,
situações de intolerância, já que questionar os papeis Diálogos - Encontros Sexuais
definidos e estabilizados na tradição acarretariam
necessariamente na perda de prestígio do homem Uma visão dicotômica, como sugere Preciado, não
heterossexual. Ainda que, segundo Halperin (2007), os é suficiente para dar conta das performatividades nos
discursos homofóbicos não tenham um conteúdo banheiros masculinos. Os mictórios, assim como as
estável, a intolerância de base cristã pode ser entendida cabines fechadas, são espaços de experimentação
como a principal fonte desses discursos. sexual e também de afirmação da masculinidade como
Dentro dessa perspectiva é que encontramos uma ficou demonstrado acima.
série de mensagens que apelam para a aberração das Os diálogos encontrados nas portas dos banheiros,
práticas homossexuais, conforme podemos constatar ainda que alguns sejam fictícios, escritos que obtêm
nos textos transcritos abaixo que foram encontrados respostas a posteriori, podem também serem reais,
nos banheiros: ocorrendo encontros quase sempre sexuais nesses
mesmos locais, como ficou relatado em alguns desses
- 'Deus criou o macho e a fêmea. Se vc sente textos.
atração por pessoas do mesmo sexo que o Os diálogos, que transcrevo abaixo, dão conta de
seu (homem com homem) pois estamos no diálogos fictícios que ocorrem nesses banheiros, quase
banheiro masculino (macho). sempre nesses recados existem espaços para serem
CERTAMENTE, você tem um problema' preenchidos com informações de outros usuários que
devem completar os recados para que se realizem os
- 'O dia do juízo está prossimo. Todos irão encontros, assim como há também normas de condutas
prestar conta a Deus, os grandes e os para que se realizem esses encontros, como bater duas
pequenos atos. Jesus estar voltando' ou três vezes na porta. Optei por não transcrever dados
como e-mails e telefones.
- 'E o livre arbítrio Deus deixou ao ser
humano. Para isso, para que ele possa - 'Alguém afim em 2009? Deixe email: 20
escolher qual o caminho quer seguir, o da anos. 19cm. Saradinho. Branco'. No campo
vida ou da morte!!! Pensem nisso!!!' reservado para o e-mail foram deixados três

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contatos de outros usuários. xxxx. 05/11/2007'. Resposta: 'Sou pauzudo e


quero ser mamado'. Resposta: 'Então vamos
- 'Quero comer cu de viado. marcar. xxxx@hotmail.com'. Resposta: 'Só
xxxx@hotmail.com'. Foi deixado um e-mail marcar dia e hora:' Resposta: '14/05/09 às
como resposta ao anúncio. 08:00hs aqui'.

- 'Meu cú é apertadinho. Quero rola. XXXX- - 'Sou moreno, 1,65m, 61kg, cabelos e olhos
XXXX'. Foi deixado um e-mail como pretos, 17cm de pica. Curto uma punheta a
resposta ao anúncio. dois. Estou aqui toda sexta-feira às 18:00
hs. Bata na porta com dois toques'. Foram
- 'Estou aqui toda segunda e quarta. Passo deixados como resposta duas datas e um
por aqui às 17:30hs. Se quiser bater na nome.
porta 2 vezes. Gustavo, 14/04/08'. A
resposta para esse anúncio foi: 'Estive aqui - 'Afim de putaria? Coloca aki o dia e hora
e você não estava. 28/04/08 17:40'. Há e pronto. Toda terça 9:00 às 10:00. Quarta
ainda mais duas outras respostas: 'Vc é 12:00. Tô ai na porta'
mentiroso!!! 18/06/08' e 'Semana que vem
eu volto! Você chupou meu cacete como
uma puta! Safado gostoso!'. Esse último Porém, há textos que também indicam e relatam
recado é também real, já que afirma a esses encontros:
presença de relações sexuais nesse espaço.
- 'Semana que vem eu volto! Você chupou
- '2009.1 Chegou! Quero que vc chupe meu meu cacete como uma puta! Safado
pau! Deixe horário ou contato:' Um telefone gostoso!'.
foi deixado como resposta. Logo em
seguida, encontramos a mensagem 'Só dá - 'Comi um viado e ele cagou no meo pau'.
ocupado', a partir dessa afirmação outros
dois telefones foram deixados. - 'Dei o cú (cu) hoje, fui cagar e saiu
sangue, sou o homem que não foge, de
- 'Sou curioso. Quero dar o cú. Deixem homem com pênis grande. Dr Marcos'.
contato 29/09/09'. Um e-mail foi deixado
como resposta. - 'Alguém chupou minha rola no SMURB.
Lá é massa. Querendo é só marcar. Deixe
- 'Quem quiser ser chupado dia de quinta às tel:'
10:00 hs aqui 2009.2 05/10/09'. A resposta
foi: 'Qual o tel?' Há também nesses locais espaços para pesquisas
informais, como por exemplo:
- 'Moro com amigo aqui perto e topamos
sexo a 3! Mande e-mail: - 'Pesquisa: O que vc (gay) estuda aqui?'
xxxxx@hotmail.com. 02/09/09'. Respostas: 'Letras', 'Química', 'Estatística',
'Comunicação', 'Farmácia'.
- '21 cm de pura delícia.
xxxxx@hotmail.com 14/05/09 aqui às Assim, os diálogos, que tem o corpo quase sempre
8:00hs nesse box lhe espero'. Foi deixado como propulsor, quase sempre em forma de anúncios,
um e-mail como resposta. são uma prova tanto da sociabilidade nesses espaços
quanto da experimentação sexual, o que invalida uma
- 'Vamos movimentar (16/03/09). Marque leitura dicotômica entre mictórios e cabines.
aqui dia e horário que você costuma entrar
nesse box:' e como complemento 'Senha Desejo - Heteronormatividade
bater 3x na porta'. As respostas foram:
'Segunda – 13:30 Quarta - 13:30 (18/03) Na nossa sociedade, a norma compulsória é a
Sexta – 13:30 (27/03/09)'. heterossexualidade, construída e não problematizada
nos discursos, sejam eles médicos, sociológicos ou
- 'Quero mamar num pauzudo. Alan xxxx- religiosos. É, assim, que a heterossexualidade

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compulsória funda a heteronormatividade e, - 'Quero um broder bem gostoso,


consequentemente, padrões normativos de malhadinho, bonito, super ativo, bem
performance. Dessa forma, a heteronormatividade macho, do pau bem grosso que queira fuder
pode ser entendida como o padrão de normalidade e de um outro broder bem macho, malhadinho
comportamento legítimo imposto aos indivíduos e aos (surfista), bonito e bem gostoso. Estudo no
corpos, tendo como modelo as relações monogâmicas Instituto de Biologia'.
heterossexuais.
São através desses discursos que se introduzem, no - 'Não afem. gosta de chupa pica. Lig xxxx-
corpo e na performatividade não heterossexual, xxxx. 16.09'
padrões de comportamento com bases heterossexuais,
definindo normas de comportamentos semelhantes ao - 'Procuro rapazes não afeminados,
padrão hetero, cabendo, por exemplo, a um dos discretos, que estejam afim de algo legal...
parceiros a posição de ativo e macho da relação e ao xxxx@bol.com.br'.
outro parceiro a posição de passivo e fêmea.
Os gays não estão dessa forma livres das - 'Sacanagem real com local p/ ativos.
imposições performativas de heteros, ao contrário eles Deixe email:'
assumem quase sempre esse papeis como forma de
repetir padrões aceitos e legitimados socialmente, ou - 'Passiva. Adoro rola. xxxx-xxxx. Carlos'.
seja, a heteronormatividade reintroduz a
homossexualidade na normalidade geral das relações - 'Branco e gato. Chupo e dou o cú para
sociais. machos. Aqui toda sexta depois das 10:00.
A maior parte desses diálogos encontrados nas Deixe recado'.
portas dos banheiros estão dentro dessa lógica
heteronormativa, há uma espécie de encantamento dos A lógica do armário/closet também figura nesses
indivíduos por um corpo que se aproxime do padrão textos, por isso uma grande quantidade deles apela
heterossexual. Através desses anúncios percebemos para uma discrição performativa e também uma
uma valorização excessiva de uma performatividade discrição quanto às experimentações sexuais. Por
masculina tradicional, na qual são valorizadas exemplo:
características como a força e a não afetação,
desvalorizando, em consequência, performatividades - 'Adoro comer cú 18 a 23 anos em segredo.
mais associadas ao feminino, como por exemplo, a Deixe seu recado'.
afetação, entendida como uma certa docilidade
performática. - 'MACHO QUER MACHO. xxxx-xxxx.
São alguns exemplos disso, os textos abaixo: 2009.2'

- 'Quero um broder malhadinho, gostoso, - 'Procuro passivo discreto e bonito. xxxx-


bonito, super ativo e com um pau bem xxxx. xxxxx@hotmail.com'
grosso. Sou bonito, gostoso, malhado (corpo
bem definido – surfista). Deixa algum Porém, nem todos esses discursos operam dentro
recado aí véi'. A impossibilidade desse de uma lógica exclusivamente heteronormativa, há
corpo e dessa performatividade marcada sempre aqueles que escapam em alguma medida a
por características heterossexuais leva à esses papeis, ainda que sejam poucos, esses recados
resposta que dá título a este artigo: 'Pq vc parecem potencializar os corpos através de práticas
não aluga um FILME PORNÔ? NÃO ACHA sexuais não tradicionais em casais heterossexuais, por
QUE TÁ PEDINDO MUITO NÃO? exemplo:
SONHA, ALICE!!! há há há'.
- 'Curto meter mão em cuzão guloso. Meu
- 'surfista gatinho, olhos verdes, estudante email é: xxxx@hotmail.com. 10.09.09'
de biologia (xxxx@yahoo.com.br). manda
um e-mail logo. só os bonitos, gostosinhos e - 'P/ ativos. Sexo a 3 c/ local e DP!!!
másculos e ativos.' Mandem ou deixem email:
xxxx@hotmail.com'. Por DP entende-se
- 'tel: xxxx-xxxx. Márcio. Versátil e dupla penetração.
tradicional'

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A prática sexual que foge da heteronormatividade, entre desejo e raça, apesar de não terem sido tratadas
não necessariamente foge performativamente dela, aqui, tem presença significativa nesses recados.
como se pode ver na última mensagem. Vale
esclarecer, que o sexo anal, por si só, também é uma __________________________
prática tradicionalmente não associada a
heterossexuais 1 Bolsista do programa PET-LETRAS,
orientando da professora Milena Britto e pesquisador
Outras Mensagens do grupo CUS (Cultura e Sexualidade), vinculado ao
CULT.
Como curiosidade, destaco algumas outras
mensagens que considero importantes para possibilitar
2 Tradução própria a partir do original em
um quadro geral das mensagens encontradas, por espanhol.
exemplo:

- 'ATENÇÃO!!! É TERMINANTEMENTE Referências


PROIBIDO ESCREVER NESTA PORTA!'
Resposta: 'VÁ SE FODER!!!'
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero. Feminismo
- 'Os seguranças daqui deveriam pegar mais e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro:
no pau!' Civilização Brasileira, 2003.

- 'Pq ninguém coloca tel. fixo? Ninguém _______. Cuerpos que importam: sobre los límites
pode tá ligando p/ cel não mermão!' materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires,
Paidós, 2008.
- 'Em terra de passivas, quem tem 1 pau é
Rei!! HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-
Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006.
Fechando a Porta...
HALPERIN, David. San Foucault. Para uma
A partir de tudo o que foi exposto neste artigo, fica hagiografia gay. Buenos Aires: Ediciones Literales,
claro que a divisão dicotomizada entre mictório e 2007.
cabine não é suficiente para dar conta da realidade
local, já que tanto os espaços fechados quanto os PRECIADO, Beatriz. Basura y Género, Mear/Cagar.
espaços abertos ao olhar público são, de formas Masculino/Femenino. Bilbao: Amasté, 2002.
diferentes, espaços de sociabilidade, de afirmação da
masculinidade e também espaços de experimentação WOODWARD, Kathryn; TADEU DA SILVA, Tomaz;
sexual. HALL, Stuart. Identidade e Diferença. Petrópolis:
Porém, ainda que os banheiros se configurem como Vozes, 2007.
espaços marginais de experimentação sexual, onde se
poderiam imaginar práticas mais variadas e quiçá
corpos plurissexualizados, percebe-se fortemente a
potência normativa e regulatória da
heterossexualidade, lei que rege hegemonicamente
corpos, desejos e práticas.
Se para Foucault, como nos lembra Halperin
(2007), a homossexualidade era uma oportunidade
histórica de deslocar novas potencialidades relacionais
e afetivas, o que foi encontrado nesses textos revela
mais uma tentativa de adequação as normas aceitas e
legitimadas socialmente do que uma fuga a essas
estruturas. Recebido em 14 de janeiro de 2011.
Por fim, esclareço que outras leituras devem ser
Aceito em 01 de julho de 2011.
feitas a partir de outras relações, por exemplo, relações

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