Você está na página 1de 14

ODONTOLOGIA NA PREVENÇÃO DO AVC:

ATEROMA DE ARTÉRIA CARÓTIDA


Para celebrar o mês de outubro – mês do Cirurgião Dentista – o nosso boletim
informativo terá um tema especial, que ressalta ainda mais a importância do
Cirurgião Dentista como profissional atuante na área da saúde. A Odontologia
pode dar sua parcela de contribuição em uma questão de saúde pública: evitar
os Acidentes Vasculares Cerebrais, AVC, principal causa de morte no Brasil.

DE QUE MODO O CIRURGIÃO DENTISTA


PODE COLABORAR?

O Ateroma de Artéria Carótida é o principal fator responsável pela ocorrência


do AVC e frequentemente, pode ser observado por meio dos exames de
Radiologia Odontológica.
Atualmente, os profissionais da área da saúde trabalham com a filosofia da
prevenção de doenças. Na Odontologia a dentística, por exemplo, estimula a
higiene oral e uma alimentação regrada; a estomatologia trabalha com o
autoexame na prevenção do câncer bucal. Acredita-se que da mesma forma
que aquecimento muscular previne lesões aos atletas, os não fumantes têm
menor probabilidade de desenvolver câncer pulmonar do que os fumantes.
De maneira geral, em todas as áreas da saúde, quanto mais cedo uma
condição patológica for identificada, melhor o prognóstico e, portanto, mais
conservador será o tratamento. Esta é a razão pela qual todo e qualquer
método preventivo é importante. O diagnóstico precoce de lesões contribui
para o aumento da perspectiva de vida dos brasileiros, que está aumentando.
O ateroma desenvolve-se progressiva e silenciosamente. Muitas vezes o
Cirurgião Dentista pode ser o primeiro profissional da área da saúde a se
deparar com um ateroma de carótida. Dentro da nossa área de atuação,
podemos e devemos fazer um link, uma ponte, entre os pacientes mais
propensos ao AVC com os achados imaginológicos, de modo a encaminhar
pacientes de risco para as especialidades médicas, como a Cirurgia Vascular e
a Cardiologia.

ATEROMA DE ARTÉRIA CARÓTIDA


O ateroma nada mais é do que um amontoado de moléculas de gordura
(envolto por um tecido fibroso), que forma uma verdadeira placa, uma barreira,
que obstrui a luz das artérias gradativamente. Se não for identificado
precocemente, um ateroma de artéria carótida pode levar a um AVC.
Secção de uma artéria, mostrando sua luz reduzida em função das placas de
ateroma.
Eis o papel do Cirurgião Dentista: ter em mãos a história médica do seu
paciente e seus antecedentes familiares relatados através de anamnese, de
modo que, ao juntar os fatores de risco com os achados imaginológicos,
possamos encaminhar o paciente às especialidades médicas correspondentes
(Cirurgia Vascular, Cardiologia) evitando um possível AVC. Os fatores de risco
para o desenvolvimento de ateroma são:
-Idade acima de 45 anos
-Hábitos deletérios (tabagismo e/ou etilismo)
-Hipertensão, diabetes mellitus, hipercolesterolemia
-Obesidade
-Histórico pregresso (e familiar) de doenças cardiovasculares/AVE
Um dado interessante: um estudo recente publicado na International Journal of
Cariology mostrou associação do nosso tão estudado Streptococcus mutans
(agente etiológico primário da cárie dental) com a formação de placas de
ateroma, assim como em certas cardiopatias! Não só o S Mutans, mas também
outros patógenos periodontais também estão ligados à formação de placas de
ateroma, uma vez que estas bactérias podem adentrar à corrente sanguínea e
aderirem-se às paredes dos vasos sanguíneos, lesionando-os.
ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL: SUA
IMPORTÂNCIA EPIDEMIOLÓGICA
Segundo a Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares, o Acidente
Vascular Cerebral é a doença que mais mata os brasileiros. O AVC é
caracterizado por um déficit neurológico súbito, decorrente de uma falha no
aporte sanguíneo do encéfalo, quer pelo bloqueio ou pelo rompimento de uma
artéria (AVC do tipo isquêmico ou do tipo hemorrágico, respectivamente). O
AVC isquêmico está diretamente ligado ao acúmulo de ateroma da artéria
carótida.
(fonte: http://www.sbdcv.org.br/publica_avc.asp).
ARTÉRIA CARÓTIDA
As artérias carótidas asseguram a irrigação arterial da cabeça e do pescoço
(juntamente com as artérias vertebrais). A artéria carótida comum bifurca-se
em carótida interna e externa na altura da terceira/quarta vértebra cervical: esta
bifurcação é o local de maior acúmulo de placas de ateroma, que por vezes
mineralizam-se e, portanto, podem ser observados pelos exames de Radiologia
Odontológica.
Destaque em vermelho ilustra a localização da artéria carótida comum.
Fonte: http://www.sih.net/images/services/heart/vascular/carotid-arteries.jpg
RADIOGRAFIAS PANORÂMICAS
Algumas estruturas cervicais são projetadas nas Radiografias Panorâmicas,
pois se localizam num ponto focal da incidência dos Raios X (conhecido por
“Camada de Imagem”). Estas estruturas, pela sua densidade e espessura, são
observadas através das Radiografias Panorâmicas e pela Tomografia
Computadorizada por Feixe Cônico: é o caso de parte da coluna cervical (3), a
cartilagem tireoide (2) (quando há sua mineralização fisiológica) e o próprio
osso hioide (1), por exemplo.
Projeções de estruturas cervicais na Radiografia Panorâmica.
Mova o mouse em direção ao número para verificar a estrutura cervical
correspondente.

Projeções de estruturas cervicais na Radiografia Panorâmica.


Mova o mouse em direção ao número para verificar a estrutura cervical
correspondente.
A artéria carótida e seus ramos estão dentro do “foco” das radiografias
panorâmicas, mas pela sua menor densidade e espessura, não são
observadas (quer pelas radiografias panorâmicas quer pela tomografia
computadorizada por feixe cônico). No entanto, as placas de ateroma, quando
mineralizadas, podem ser vistas. A Radiografia Panorâmica a seguir mostra um
Stent instalado na artéria carótida direita delimitando seu trajeto.
ASPECTOS RADIOGRÁFICOS
O ateroma de artéria carótida pode mostrar-se em diferentes aspectos
imaginológicos, tais como: nodular (único ou múltiplo) e tubular, configurando-
se no formato da luz de um vaso sanguíneo. Nas radiografias panorâmicas o
ateroma pode aparecer abaixo do ângulo da mandíbula e adjacente ao osso
hioide e à coluna cervical.

Paciente do gênero masculino, 80 anos.


Imagem radiopaca na região cervical, de aspecto tubular compatível com
ateroma carotídeo, no lado esquerdo (Seta A).
Paciente do gênero masculino, 62 anos.
Seta A – Radiopacidade projetada na região cervical, de aspecto tubular,
compatível com ateroma carotídeo bilateral.
Seta B – Calcificação da Cartilagem Tireóidea (fisiológica).

Paciente do gênero masculino, 56 anos.


Seta – A Radiopacidade tubular projetada na região cervical, compatível com
ateroma carotídeo bilateral.
Seta C – Projeção do Osso Hioide.
Paciente do gênero feminino, 56 anos.
Seta – A Radiopacidade tubular projetada na região cervical, compatível com
ateroma carotídeo, lado esquerdo.
O CD como profissional da saúde, além de atuar dentro do Aparelho
Mastigatório, zela pela integridade sistêmica de seu paciente. Muitas vezes,
achados clínicos podem interferir na intervenção odontológica, desde a cautela
na escolha do componente anestésico em pacientes hipertensos, à prescrição
do antibiótico mais adequado para cada caso e cada paciente; sem mencionar
as manifestações orais de quadros sistêmicos.
Seguindo esta filosofia, a observação de calcificações distróficas na região
cervical, por meio dos exames de Radiologia Odontológica, inspira cautela.
Além do achado radiográfico, qual a probabilidade do paciente estar acometido
pelo ateroma de artéria carótida (seu histórico, seus hábitos)? Tendo em vista
que a circulação sanguínea é fechada, existe também a possibilidade de que
outros vasos sanguíneos podem apresentar ateroma nas suas paredes (as
artérias coronárias, por exemplo).
Eis o modo com o qual a Odontologia pode contribuir com a prevenção do
Acidente Vascular Cerebral e também, em segunda instância, com o Infarto
Agudo do Miocárdio. No nosso país, onde vemos que o aumento da
perspectiva de vida é crescente, insistimos na ideia: devemos encaminhar os
pacientes de risco para as especialidades médicas como a Cirurgia Vascular e
a Cardiologia.
Papaiz Diagnósticos Odontológicos por Imagem
André Simões – Radiologista
Referências Biblígraficas
-Fernandes CP, Oliveira FA, Silva PG. Molecular analysis of oral bacteria in
dental biofilm and atherosclerotic plaques of patients with vascular disease.
International Journal of Cardiology. 2014 Jul 1;174(3):710-2. doi:
10.1016/j.ijcard.2014.04.201. Epub 2014 Apr 26.
-Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares, Acidente Vascular
Cerebral (http://www.sbdcv.org.br/publica_avc.asp.).
Papaiz EG; Capella LRC, Oliveira RJ. Atlas de Tomografia Computadorizada
por Feixe Conico para o Cirurgião-dentista. São Paulo: Editora Santos, 2011
Capítulo 1 (Anatomia Craniofacial) p 2-3.
-Centurion, B, S. Estudo de calcificações em tecidos moles em exames
deTomografia Computadorizada de Feixe Conico e Radiografia Panoramica
Digital. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Odontologia de Bauru.
Universidade de São Paulo, 2011. Capítulo 3 (Pescoço) p 82-100.
-Scarfe WC; Farman AG. Soft Tissue Calcifications in the Neck: Maxillofacial
CBCT Presentation and significance. AADMRT Newsletter, 2010; Spring: 1- 4.
-Ellis H; Logan BM; Dixon AK. Anatomia Humana Seccional: atlas de secções
do corpo humano, imagens por TC e RM. 3. Ed. – São Paulo: Santos, 2010
-Allaredy, Veeratrishul. “Incidental findings on cone beam computed
tomography”.thesis, University of Iowa, 2009. http://ir.edu/etd/457.