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a escrita literária em Foucault:

a escrita literária em Foucault:

da transGressão à assimilação

marco antônio sousa alves*

rESumo: Foucault, nos anos sessenta, demonstrou grande entusiasmo pela força transgressiva da escrita literária e suas “experiências de pensamento”. Contudo, a partir dos anos setenta, a literatura passou ser rejeitada como algo assimilado. Neste artigo, gostaria de analisar os motivos que provocaram essa mudança, ligados a uma nova concepção de poder.

PALAVrAS-CHAVE: Foucault; Literatura; Transgressão; Poder; Experiência de pensamento.

* marcofilosofia@yahoo.com.br Doutorando e mestre em Filosofia pela UFMG e bolsista CAPES.

rÉSumÉ: Foucault, dans les années soixante, révélait un grand enthousiasme pour la force transgressive de l’écriture littéraire et ses « expériences de pensée ». mais, à partir des années soixante-dix, la littérature a été refusée, vue comme une expérience assimilée. Dans cet article, je voudrais analyser les raisons qui ont entraîné ce changement, liées surtout à une nouvelle conception de pouvoir.

moTS-CLÉS: Foucault; Littérature; Transgression; Pouvoir; Expérience de pensée.

1. FouCAuLT. Débat sur le roman, p. 367.

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qu’est-ce que c’est que penser, qu’est-ce que c’est que cette expérience ex- traordinaire de la pensée? 1

A literatura pode mudar nossas vidas e nossa maneira de pensar? Qual o poder transgressivo da escrita literária? Seria ela capaz de subverter a ordem e propiciar novas experiências de pensamento? Essas questões tiveram um lugar de desta- que no pensamento de Foucault e receberam um tratamento bem diverso em seu itinerário intelectual. No início dos anos sessenta, a literatura exercia um grande fascínio, servindo- -lhe de contraponto ao marasmo da fala institucionalizada da filosofia universitária. Era na experiência literária que Foucault encontrava novas formas de pensar, propriamente transgressoras e capazes de, nas margens da ordem estabe- lecida, instaurar um “pensamento do lado de fora” (pensée du dehors). Esse entusiasmo, contudo, foi problematizado nos anos setenta, quando Foucault passou a demonstrar grande desinteresse e mesmo rejeição à “escrita institucionalizada sob a forma da literatura”. São os discursos anônimos, to- mados como falas propriamente infames e marginais, que despertarão o interesse de Foucault nessa época.

Neste artigo, pretendo analisar os motivos que provoca- ram essa mudança. Entendo que ela reflete uma nova con- cepção de poder, na qual não há mais espaço para oposições simples, entre discurso/contradiscurso, ordem/transgressão ou dentro/fora. Toda resistência, como foi a experiência

literária em um curto período, assume formas provisórias e regionais, que produzem sem cessar novos procedimen- tos de institucionalização, sendo, mais cedo ou mais tarde, integrada e assimilada. Em suma, este estudo encontra seu lugar no interior desse grande problema que é a relação en- tre literatura e vida, e, mais especificamente, entre a escrita literária e seu poder de transgredir ou de instaurar algo novo capaz de transformar nossas maneiras de pensar. Para tratar (ou tatear) essa questão complexa e multifacetada, gostaria de oferecer uma pequena contribuição, partindo de Foucault e, especialmente, de como se deu no seio de seu pensamen- to uma mudança de perspectiva quanto ao lugar ocupado pela escrita literária como uma experiência transgressora. Acredito que essa análise poderá contribuir para uma com- preensão mais adequada da força e dos limites que a litera- tura possui como um meio de resistência e de produção de novas e radicais experiências de pensamento. 2

O presente artigo está divido em três partes. Primeiro (I), será analisado o interesse que Foucault demonstrava pela escrita literária nos anos sessenta, na tentativa de esclarecer qual o lugar da literatura e o que exatamente entusiasmava Foucault. Em segundo lugar (II), a análise recairá sobre o desinteresse que Foucault passa a demonstrar pela questão da linguagem e da escrita literária a partir dos anos seten- ta, procurando explicitar as razões que o conduziram a essa

2. Convém ressaltar que o foco do presente estudo limita-se ao pensamento de Foucault dos anos sessenta e setenta, deixando de lado os desenvolvimentos posteriores que marcaram o “último

Foucault”. No seio de seus estudos dos anos oitenta sobre

a constituição de si, Foucault dedicou uma nova atenção à

escrita literária, em particular

à chamada “escrita de si”

(diários, confissões, anotações pessoais, etc.). Contudo, mais do que uma “volta”, entendo que há um deslizamento ou desdobramento em seu pensamento sobre a literatura

a partir de outro ângulo, de

modo que permanecem válidas (ao menos parcialmente) sua visão crítica e sua concepção de poder dos anos setenta. Com certeza a análise desse período final do pensamento de Foucault constitui um interessante canteiro de pesquisa, que escapa, contudo, ao modesto objetivo deste artigo.

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mudança de perspectiva. Por fim, na terceira e última parte (III), procurar-se-á abordar, no seio desse desencanto com a literatura, a emergência de um novo e diverso fascínio, dirigido aos “discursos anônimos”, esses textos marginais e não domesticados que servem de contraponto ao mundo das belles lettres.

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é inegável que a linguagem literária é um tema recorren- te nos primeiros textos de Foucault. Entre 1961 e 1970, ou seja, entre história da loucura e a ordem do discurso, há mais de vinte textos de Foucault sobre escritores ou entrevistas que abordam temas literários. é preciso reconhecer, contu- do, que a questão da literatura aparece em diferentes mo- mentos nos textos de Foucault, com múltiplos significados e servindo a fins diversos. Como é característico em Foucault, ele está sempre redimensionando suas análises, sua metodo- logia, seus objetos de investigação e seus pressupostos. Mas, ainda assim, é possível afirmar que o início dos anos sessen- ta é o momento de maior proximidade de Foucault com a literatura.

Apesar de ser visível nos textos de Foucault do início dos anos sessenta uma grande atração pela experiência literá- ria, é preciso deixar mais claro o que exatamente interessa Foucault. Mais do que a literatura, como gênero ou forma de

expressão artística, o que atrai Foucault é a experiência de lin- guagem, ou, em outras palavras, as experiências transgressoras de pensamento que transitam nos limites da linguagem. Essas experiências não remetem a algo pessoal e privado, inscrito no domínio da interioridade, mas, ao contrário, colocam a própria unidade do sujeito em questão e o pressionam para fora de si mesmo. Sendo assim, já nesse período, vemos em Foucault um interesse pelas experiências de pensamento que colocam em questão a linguagem e a posição do sujeito.

O interesse por outras formas de pensar acompanha, de certa

maneira, todo percurso foucaultiano. Ele se manifesta, nesse

primeiro momento, como um grande entusiasmo pela escrita literária, assim como por alguns temas tradicionais, quando

se trata de pensar o limite do pensamento, como a loucura e a

morte. Em uma conferência intitulada Literatura e linguagem, proferida em Bruxelas em 1964 (que só veio a ser publicada postumamente), Foucault deixou claro que a transgressão ou a fala transgressiva (parole transgressive) é uma figura exem-

plar e paradigmática daquilo que é a literatura. 3

Outra advertência importante merece ser feita. Essa forma de pensar transgressiva que encontra seu lugar na literatura não deve ser compreendida em termos político-partidários.

é importante ressaltar que o caráter subversivo ou trans-

gressor que Foucault, nos anos sessenta, acredita encontrar na literatura, não está associado a uma escrita engajada,

3. Cf. FouCAuLT. Littérature et langage, p. 86, 104.

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4.

Cf. FouCAuLT. Folie, littérature, société, p. 982-983.

5.

Cf. FouCAuLT. Michel Foucault et Gilles Deleuze veulent rendre à Nietzsche son vrai visage, p. 580.

comprometida diretamente com uma causa revolucioná- ria. O “ato de escrever” (l’acte d’écrire) como uma força de contestação nada tem a ver com a posição política daque- le que escreve. Tal possibilidade seria visível, por exemplo, em Blanchot, cuja postura conservadora de extrema direita nada teria diminuído da força transgressora de sua escrita. Em suma, é a escrita que mantém, em si mesma, a função subversiva. 4

Associado ao interesse pela literatura está o desinteresse que Foucault nutria pela “grande Filosofia”. O que incomo- dava Foucault era a assimilação da filosofia a uma disciplina

universitária que teria deixado de realizar novas experiências de pensamento, perdendo assim sua atitude crítica. Foucault acusa a reflexão filosófica de seu tempo de permanecer presa

a uma linguagem dialética, fenomenológica e antropocêntri-

ca, de modo a perder sua capacidade contestatória e trans-

gressora. Esse desapontamento é a principal razão que fez com que Foucault fosse buscar fora da filosofia, especialmen- te na literatura, outras e novas experiências de pensamen- to. Nessa postura, mais uma vez, a influência nietzschiana

é claramente sentida. Segundo Foucault, Nietzsche serviria

de inspiração para essa nova atividade filosófica, posto que ele teria “multiplicado os gestos filosóficos”, indo buscar a filosofia na literatura, na história ou na política. 5

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Em certo sentido, o interesse pela literatura não deve ser entendido como um desinteresse pela filosofia, posto que essas atividades são (para além de qualquer arbitrária distin- ção institucional) intrinsecamente misturadas. O que está no centro do debate, segundo Pierre Macherey, é o uso transgres- sivo da linguagem, o que pode encontrar seu lugar em uma

“filosofia literária” ou em uma “literatura que pensa”. 6 Levar

a literatura a sério, como teria feito Blanchot e Bataille, é

fazê-la sair da esfera da arte, à qual ela está tradicionalmente

vinculada, fazendo dela uma forma de pensamento por exce- lência. Nesses termos, o interesse de Foucault, quando olha para a experiência literária, permanece sendo propriamente filosófico.

Pode-se dizer que há em Foucault uma espécie de jogo entre a literatura e a filosofia. Nesse jogo, ele se diz, por ve- zes, filósofo (tomando a filosofia em sentido mais amplo, como uma experiência de pensamento), e, outras vezes, ele enfatiza sua distância com relação à filosofia (tomada em sentido estrito, como uma disciplina universitária marca- da pela forma historicista hegemônica na França da época). Ao se relacionar com o grupo tel quel, Foucault, embora ressaltasse frequentemente a extraordinária convergência

e ressonância existente entre eles, não deixava também de

observar a especificidade de sua empreitada, que ele qua- lificava, ironicamente, de “sem talento” (sans talent), e que

6. Cf. mACHErEY. À quoi pense la littérature?.

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9. Cf. FouCAuLT. Folie, littérature, société, p. 975.

consistia, basicamente, em buscar na experiência da lingua- gem novas formas de pensamento. 7 Diante desse grupo de literatos e críticos, Foucault mostrava-se um pouco sem jeito e assumia, geralmente, uma posição de filósofo, mas sempre com certa ironia, dizendo, por exemplo, que era um homem ingênuo e desajeitado com sua “botina pesada de filósofo” (gros sabots de philosophe). 8 Em uma entrevista realizada al- guns anos depois no Japão, Foucault volta a insistir no fato de que seu interesse estaria localizado na prática do filosofar, que ele qualifica então como a realização de certas “escolhas originais” (choix originels), entendidas como um pensamento mais fundamental em nossa cultura. Tais escolhas, segundo Foucault, seriam mais visíveis, em seu tempo, fora da filoso- fia, sobretudo na literatura, na ciência ou na política, o que explica a extensão de seus “gestos filosóficos” para além dos muros tradicionais da disciplina-filosofia. 9

Sobre essa relação entre filosofia e literatura, é conve- niente mencionar ainda a análise que Foucault realizou de Bataille em um texto intitulado prefácio à transgressão, publi- cado em 1963 na revista critique. Mais do que um escrito so- bre literatura, o ensaio apresenta uma singular interpretação de Bataille como filósofo. Segundo Foucault, Bataille teria pretendido, com sua escrita fragmentária (que transita pelo ensaio, novela, poesia e aforismos), fundar uma heterologia, ou seja, uma ciência da experiência-limite, da transgressão

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dos limites. Em sua leitura, Foucault situa a linguagem filo- sófica de Bataille na “noite ensurdecedora”, no vazio deixa- do pela experiência da finitude e da morte de Deus. é nes- se vazio que a linguagem de Bataille expande-se e perde-se sem nunca cessar de falar. Contrariamente à “filosofia dos nossos dias”, que é descrita por Foucault como um “deserto” e uma “fala embaraçada”, a linguagem de Bataille seria não- -dialética, não-fenomenológica e não-antropocêntrica, res- ponsável por um desmoronamento do sujeito, que, ao invés de expressar-se, vai ao encontro de sua própria finitude, de sua morte. é nesse contexto de desmoronamento e de mor- te que a experiência singular da transgressão encontra seu lugar, como um gesto que concerne o limite e que é regido por uma obstinação, indo em direção a uma linha que recua sempre, um horizonte inalcançável. 10

No coração da reflexão de Foucault sobre a literatura nos anos sessenta está o problema do “ser da linguagem” (être du langage). Essa expressão aparece, pela primeira vez, no texto analisado acima, sobre Bataille, e terá seu apogeu em as palavras e as coisas e no famoso artigo de Foucault sobre Blanchot que apareceu na revista critique com o título de o pensamento do lado de fora, ambos publicados em 1966. O problema do ser da linguagem, ou seja, da linguagem colo- cada em questão por si mesma, emerge no seio da reflexão sobre o pensamento transgressivo, entendido como aquele

7.

Cf. FouCAuLT. Débat sur la poésie, p. 423.

8.

Cf. FouCAuLT. Débat sur le roman, p. 366-367.

10.

Cf. FouCAuLT. Préface à la transgression (en hommage à Georges Bataille), p. 263-265, 269, 277.

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11. Cf. FouCAuLT. Préface à la transgression (en hommage à Georges Bataille), p. 268, 276.

12. Cf. FouCAuLT. La pensée du dehors, p. 554, 565.

13. Cf. rEVEL. La naissance littéraire de la biopolitique, p. 53.

que transita perigosamente nos limites da linguagem. De acordo com Foucault, as formas extremas de linguagem que surgem, por exemplo, em Bataille e Blanchot, atingindo os “pontos mais altos do pensamento” (les sommets de la pensée), devem ser reconhecidas em sua soberania e acolhidas de modo a permitir a libertação de nossa linguagem. 11 Vemos, nesse momento, um Foucault extremamente entusiasmado pelo potencial transgressor da experiência literária e por sua capacidade privilegiada de atingir o ser da linguagem.

Mas que ser da linguagem é esse? Não se trata, em absoluto, de algo fixo, estável, tido como uma essência invariável que a literatura teria sido capaz de captar. Ao invés disso, o ser da linguagem deve ser pensado como um espaço vazio que nunca será preenchido e objetivado, estando sempre em de- vir. No artigo dedicado a Blanchot, Foucault ressalta que o ser da linguagem, que se mostra no “pensamento do lado de fora”, não revela jamais sua essência e nem pode ser tratado como uma presença positiva, iluminadora. 12 Como ressalta Judith Revel, a exterioridade do lado de fora não é uma en- tidade metafísica, mas sim uma experiência. 13 Trata-se mais propriamente de uma ausência que se retira o mais longe possível, sem nunca ser alcançada, um espaço neutro no qual nenhuma existência pode arraigar-se. Blanchot já ressaltava, em o livro por vir, a importância da busca, do movimento que caracteriza a escrita literária como uma experiência que

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não é corretamente captada e designada através da palavra

“literatura”, que não deve ser concebida como uma realidade bem definida ou uma atividade específica. Segundo Blanchot:

“a essência da literatura está em escapar a toda determina- ção essencial, a toda afirmação que a estabiliza ou mesmo

a realiza: ela não é nunca algo dado, mas está sempre a ser encontrada e reinventada”. 14

Contudo, apesar desse caráter mutante, há um traço que

Foucault ressalta insistentemente e que, sem ele, parece im- possível qualquer tratamento do ser da linguagem. Esse tra- ço pode ser entendido como o abandono de uma linguagem da subjetividade em benefício de uma experiência da linguagem em si mesma. é, em grande medida, por causa dessa caracte- rística que a escrita literária radical pode ser considerada um lugar privilegiado de emergência do ser da linguagem. Nela,

a linguagem apareceria em si mesma, justamente em função

dessa experiência na qual o sujeito retira-se, deixando de ser

a consciência fundadora que se vale da linguagem como um

simples meio de representação e de expressão de sua interio- ridade. Segundo Peter Pál Pelbart, apesar da clara inspiração blanchotiana, é importante ressaltar também como Foucault toma posse da idéia do pensamento do lado de fora e confere- -lhe outra dimensão, que aponta, sobretudo, para a questão da experiência da linguagem sem sujeito fundador. 15 Embora Blanchot já falasse no neutro, nesse espaço anônimo sem a

14. BLANCHoT. Le livre à venir, p. 273, tradução minha. No original:

“l’essence de la littérature, c’est d’échapper à toute détermination essentielle, à toute affirmation qui la stabilise ou même la réalise : elle n’est jamais déjà là, elle est toujours à retrouver ou à réinventer”.

15. Cf. PELBArT. Da clausura do fora ao fora da clausura, p. 159-160.

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16. Cf. LEVY. A experiência do Fora, p. 38-41, 53, 55, 67.

17. FouCAuLT. Les mots et les choses, p. 59, tradução minha. No original: “l’être du langage brille à nouveau aux limites de la culture occidentale”.

soberania do sujeito, que envolve a passagem da primeira (eu) para a terceira pessoa (ele), a experiência do lado de fora ainda estava ligada, de maneira prioritária, à discussão acer- ca da especificidade do espaço literário. Foi Foucault quem ressaltou, explicitou e aprofundou a relação dessa questão com o problema da fragmentação da unidade subjetiva. De certa forma, como ressalta Tatiana Levy, Foucault tendeu

a tomar o pensamento do lado de fora, em seu traço mais

fundamental, como um pensamento que se mantém fora de

toda subjetividade fundadora. 16

Em as palavras e as coisas, Foucault reserva um lugar espe-

cial a essa questão, conferindo à experiência literária o papel propriamente positivo de pensar o ser da linguagem, algo que

a arqueologia das ciências humanas seria capaz de abordar

apenas de forma negativa. Segundo Foucault, a literatura, a partir do século xIx, manifestaria a reaparição do “ser vivo da linguagem” (l’être vif du langage), de modo que, através dela, “o ser da linguagem brilha de novo nos limites da cul- tura ocidental e em seu coração”. 17 Em suma, a literatura pa- rece guardar uma relação privilegiada com o “ser próprio da linguagem” (être propre du langage) ou com a “linguagem em seu ser bruto” (le langage en son être brut). Foucault observa que, embora a literatura (ou aquilo a que hoje chamamos literatura) possa ser considerada algo muito antigo em nos- sa tradição, que remonta a Homero, o isolamento de uma

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linguagem singular chamada literatura é algo recente, que se inicia no século xIx e caracteriza-se por uma referência ao puro ato da escrita, o que seria visível na revolta romântica e, sobretudo, em Mallarmé. Nessa linha, Foucault ressalta a associação entre literatura e experiência da linguagem, susten- tando uma “intransitividade radical” (intransitivité radicale) que faz com que a literatura torne-se uma “pura e simples manifestação de uma linguagem”. 18

Mallarmé é evocado em as palavras e as coisas para exem-

plificar essa tese de que o ser da linguagem é a visível desa- parição daquele que fala, de modo que quem fala na literatura é a palavra ela mesma, e não um suposto sujeito falante ou autor. Mallarmé é tido por alguém que se apaga a si mes- mo em sua linguagem, a ponto de pensar em um discurso que se compõe a si mesmo, de modo que, juntamente com Nietzsche, eles seriam responsáveis por reconduzir violenta- mente o pensamento em direção à linguagem em si mesma. Essa nova rota assumida pelo pensamento pode ser associada

à tese de fundo de as palavras e as coisas, acerca da invenção recente e do fim próximo do homem. Nietzsche e Mallarmé representam, dentro desse projeto filosófico maior, o marco

a partir do qual podemos recomeçar a pensar “no vazio do homem morto” (dans le vide de l’homme disparu). 19

Mallarmé, aliás, é comumente citado como aquele que enfrentou, talvez de forma pioneira, o problema da

18. Cf. FouCAuLT. Les mots et les choses, p. 134, 313.

19. Cf. FouCAuLT. Les mots et les choses, p. 317, 353.

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20. mALLArmÉ. Crise de vers, p. 366, tradução minha.

21. Cf. mALLArmÉ. Un coup de dés jamais n’abolira le hasard.

22. Nesse sentido, cf. FouCAuLT. Les mots et les choses, p. 316, 394 e FouCAuLT. La pensée du dehors, p. 565.

23. Cf. CASTELo BrANCo. Michel Foucault: a literatura, a arte de viver, p. 321.

despersonalização ou da impessoalidade literária, na qual

o autor renunciaria a qualquer poder ou privilégio autoral,

como vemos na famosa passagem retirada de crise do verso, de 1886, na qual se afirma que “a obra pura implica no desapa- recimento elocutório do poeta (la disparition élocutoire du poè- te), que cede a iniciativa às palavras”. 20 Posteriormente, em um lance de dados jamais abolirá o acaso, de 1897, Mallarmé teria ainda rompido com a própria linearidade tipográfica, em uma radical experiência de linguagem na qual comumen- te se viu a elaboração de uma “máquina de escrever” que des- truiria a expressão e aboliria o autor, afirmando que a escrita

é, sobretudo, fruto do acaso. 21 é nessa linha que Mallarmé é

frequentemente citado por Foucault, justamente para ilus- trar a tese da intransitividade da linguagem. 22 Pode-se di-

zer, seguindo Guilherme Castelo Branco, que Mallarmé é quem melhor sintetiza as teses de Foucault sobre a literatura

e sobre o poder transgressivo de suas experiências com a linguagem. 23

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A partir dos anos setenta (talvez antes, desde 1968), o tema da linguagem e da experiência literária, que ocupava um lugar de destaque nas reflexões de Foucault, praticamen- te desaparece, ou desloca-se radicalmente, assumindo um papel bem diverso. Segundo Judith Revel, o pensamento de Foucault pode ser originalmente concebido sob o signo da

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literatura, pois foi ela que lhe forneceu os meios para romper com a filosofia universitária dos anos cinquenta, foi ela tam- bém que fez emergir o ato da escrita em si mesmo e, em con- tradição com sua própria maneira de pensar, permitiu evitar um fechamento no discurso estruturalista. Sobre a questão do abandono da literatura nos anos setenta, ressalta Revel:

“mais que de um desaparecimento, é de uma metamorfose que se trata: Foucault não deixa de falar da literatura por- que se desinteressou, mas, ao contrário, porque ele estende a uma esfera de pesquisa bem mais ampla os conceitos de transgressão, resistência e intempestividade”. 24 Ou seja, é em razão de uma nova maneira de pensar o poder (e as formas de resistência) que Foucault será levado a abandonar a tese do privilégio da literatura.

Nos textos do final dos anos sessenta, esse deslocamento já se faz perceber. Porém, a partir de 1970, esse processo fica ainda mais visível e intenso, chegando Foucault a dizer que não dá a menor importância para a instituição literá- ria e que preferiria nem mais falar no assunto. Para ilus- trar essa postura, recordarei algumas entrevistas concedidas por Foucault ao longo dos anos setenta, nas quais o tema da literatura aparece. Foucault chega a pedir a um entrevis- tador (G. Armleder) que não faça questões relacionadas à literatura, à linguística ou à semiologia. Nessa mesma entre- vista, Foucault expressa sua vontade de afastar-se de certas

24. rEVEL. Histoire d’une disparition: Foucault et la littérature, p. 89-90, tradução minha. No original: “plus que d’une disparition, c’est d’une métamorphose qu’il s’agit:

Foucault ne cesse pas de parler de la littérature parce qu’il s’en désintéresse, mais, au contraire, parce qu’il étend à une sphère d’enquête bien plus large les concepts de transgression, de résistance et d’intempestivité”.

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25. Cf. FouCAuLT. Je perçois l’intolérable, p. 1071.

26. Cf. FouCAuLT. De l’archéologie à la dynastique, p. 1280-1281.

27. Cf. FouCAuLT. La fête de l’écriture, p. 1602.

questões abstratas, como a literatura e a história das ciências,

e diz que o deslocamento de seu interesse para o problema

das prisões foi a saída que encontrou ao “cansaço” (lassitude) que sentia com relação à coisa literária. 25

Em outra entrevista, realizada no Japão em 1972, ao ser perguntado sobre seu interesse pela atividade literária na França, Foucault diz que responderá de maneira “brutal e bárbara” (brutale et barbare), confessando ter pouco inte- resse pelos grandes escritores, como Flaubert ou Proust, e afirmando estar cada vez mais desinteressado pela “escrita institucionalizada sob a forma da literatura” (écriture institu-

tionnalisée sous la forme de la littérature) e cada dia mais entu- siasmado pelo discurso anônimo, das palavras recusadas pela instituição literária. Nessa mesma entrevista, espelhando-se na postura de Jean Genet, que decidiu não mais escrever para

o teatro e, passando diante da Comédie-Française em Paris,

disse que estava se lixando, Foucault afirma ter vontade de dizer à instituição literária e a toda a instituição da escrita que ele “não está nem aí” (je m’en fous!). 26

Em uma entrevista concedida em 1975 e curiosamente pu- blicada com o título de “A festa da escrita”, Foucault, ao ser perguntado se costuma ler muitos autores contemporâneos, responde confessando que lê pouco, mas que, antigamente, já tinha lido muito “disso que se chama literatura”. 27 Enfim, em uma entrevista concedida em 1977, o entrevistador japonês

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(S. Hasumi) observa que Foucault costumava falar muito so-

bre literatura no passado, ao que Foucault responde, ironica- mente, dizendo que falava só “um pouquinho” (oh! beaucoup,

beaucoup

a razão disso é que, naquela época, não sabia muito bem do

que estava falando e encontrava-se ainda em busca da lei ou do princípio de seu discurso. 28

Nas poucas vezes em que tocou no tema, com raríssi- mas exceções, foi para criticar e demonstrar seu desinte- resse. Dentre as exceções a esse desinteresse explícito pela literatura, encontra-se a apresentação que Foucault redigiu

para a publicação das obras completas de Bataille em 1970. Entretanto, pode-se ver, nesse curto texto, uma clara falta de entusiasmo pela literatura, ao menos em comparação com outros textos do início da década de sessenta. Foucault, ao elogiar Bataille como “um dos escritores mais importantes de seu século” 29 , não deixa de sugerir que suas palavras fo- ram assimiladas, assumindo um gênero definido e entrando na história da literatura. Embora reconheça que Bataille te- nha feito entrar o pensamento no jogo arriscado do limite

e da transgressão, Foucault mostra-se insatisfeito e ressal- ta a necessidade de irmos além, de “aumentarmos sua obra”

e não ficarmos presos às mesmas experiências (que foram

importantes, mas que talvez tenham perdido seu potencial transgressor). 30 Convém lembrar também que o motivo que

un petit peu!) e, sendo ainda mais irônico, diz que

28. Cf. FouCAuLT. Pouvoir et savoir,

p. 414.

29. FouCAuLT. Présentation, in

Bataille (G.), Œuvres complètes,

p. 893, tradução minha. No

original: “Bataille est un des écrivains les plus importants de son siècle”.

30. Cf. FouCAuLT. Présentation, in

Bataille (G.), Œuvres complètes,

p. 894.

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31. Cf. FouCAuLT. Foucault, le philosophe, est en train de parler. Pensez, p. 1293.

levou Foucault a escrever essa apresentação é mais contin- gente e estratégico (parte de um combate político) do que propriamente intelectual. Nesse período, o ministro do in- terior da França recorria com frequência à lei de proteção da juventude para censurar certas publicações e vigiar os edi- tores, de modo que se tornou comum o recurso a “prefácios protetores” (escritos por grandes intelectuais, como já era nessa época Foucault) para viabilizar uma publicação polê- mica, como é o caso das obras completas de Bataille.

Além dessa breve apresentação, outro texto que, esse sim, constitui uma clara exceção nesse período, consiste em alguns fragmentos de uma conferência que foram publicados em 29 de maio de 1973 no Brasil, no jornal estado de minas. No úl- timo fragmento desse texto, aborda-se o lugar da literatura como uma nova forma de pensamento, ressaltando-se que, na escrita literária, o homem desapareceria em benefício da linguagem, ou seja, a obra destruiria o autor, sendo Robbe- Grillet, Borges e Blanchot citados como testemunhas desse desaparecimento. 31 Esse estranho texto fragmentário, com o curioso e soberbo título “Foucault, o filósofo, está falando. Pense”, está em claro descompasso com as teses sustentadas por Foucault nesse período (refletindo mais exatamente suas idéias do início dos anos sessenta), o que me conduz à des- confiança de que, ou Foucault requentou velhas idéias (pro- vavelmente em razão do auditório e das circunstâncias), ou

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talvez tenha sido realizado um recorte deturpado e anacrô- nico daquilo que teria sido dito por Foucault nessa passagem por Belo Horizonte.

De fato, como afirma Roberto Machado, “o tempo do fas- cínio pela literatura tinha efetivamente passado” 32 , o que não significa que Foucault tenha deixado completamente de falar da literatura, mas com certeza parou de lhe conceder um tratamento privilegiado. As questões do ser da linguagem e do pensamento do lado de fora são abandonadas. Em suma, Foucault descarta, já ao final dos anos sessenta, a idéia da li- teratura como lugar privilegiado para a transgressão. Dentre os motivos que teriam levado Foucault a essa mudança, en- tendo que sua nova reflexão sobre o poder, realizada ao longo dos anos setenta, é determinante. Abandonando suas teses anteriores sobre o pensamento do lado de fora, Foucault, ao tratar do lugar de onde fala o louco, afirma enfaticamen- te que “nós estamos sempre no interior. A margem é um mito. A palavra do exterior é um sonho que não cessamos de prolongar”. 33

Segundo Judith Revel, ao invés de um sistema discursi- vo fechado e a suposição de um hipotético lado de fora, o novo problema para Foucault passa a ser a construção de um modelo no qual a distinção dentro/fora ou lei/transgressão desfaz-se. é nesses termos que Revel interpreta a passagem operada por Foucault da transgressão literária à resistência

32. mACHADo. Foucault, a filosofia e a literatura, p. 123.

33. FouCAuLT. L’extension sociale de la norme, p. 77, tradução minha. No original: “on est toujours à l’intérieur. La marge est un mythe. La parole du dehors est un rêve qu’on ne cesse de reconduire”.

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34. Cf. rEVEL. Michel Foucault:

expériences de la pensée, p. 113.

35. KurY. A transgressão da palavra: considerações sobre a análise foucauldiana da linguagem, p. 257.

36. Cf. FouCAuLT. La folie et la société, p. 489-490.

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política, sendo as relações de poder descritas em termos de estratégias e táticas e não mais redutíveis a um esquema dia- lético (dentro/fora e transgressão). 34 Também nessa direção, ressaltando a nova complexidade dos jogos de poder, afirma Ângela kury: “com a genealogia, a linguagem, melhor, a lite- ratura já não é mais um ‘contradiscurso’ ou algo situado nas bordas do poder. Ao contrário, os discursos tanto podem contribuir para aumentar o controle quanto para alargar a resistência”. 35

Pensando em um quadro genealógico, a possibilidade de uma resistência ou subversão deixa de ser tratada nos termos de um contradiscurso. Não há mais, de um lado, um discur- so de poder, interior à ordem estabelecida, e, de outro, um discurso contra o poder tout court, que viria de fora ou tran- sitaria pelas margens. Ao invés disso, os discursos podem tanto intensificar os controles quanto constituir pontos de resistência ou focos de reação. O que está em jogo é uma nova concepção de poder, que não permite mais imaginar uma saída ou transgressão capaz de subverter a ordem e ir além, ao menos não da mesma maneira. Embora seja possível pensar em uma força transgressiva, ela assume a forma de uma re- sistência sempre provisória, regional, que produz sem cessar novos procedimentos de normalização e de institucionaliza- ção. Assim, toda resistência ou transgressão é, mais cedo ou mais tarde, integrada, assimilada e ordenada, de modo que

toda ruptura tem um valor temporário e tende a sempre re- começar, assumindo novas formas. Nesse sentido, Foucault opõe a “dinástica do saber” (dynastique du savoir), entendida como a análise da relação entre os discursos e as condições históricas, econômicas e políticas de sua aparição, à arqueolo- gia do saber, que seria a descrição de um regime de discursivi- dade e sua eventual transgressão. Em suma, a questão deixa de ser como transgredir ou subverter a ordem estabelecida. A genealogia ou dinástica do saber exerce sua função crítica de outra maneira, qual seja, mediante o questionamento das evidências, a indicação das contingências e a produção de um estranhamento. O potencial crítico de vigiar e punir, por exemplo, não envolve um contradiscurso ou uma forma de transgressão ou subversão, mas sim uma compreensão de como nossa maneira de pensar e agir se constituiu, a partir de certas práticas e discursos.

Nesses termos, segundo Foucault, poderíamos dizer que a escrita literária exerceu, em um breve período, uma for- ça transgressora. Em uma conferência proferida no Japão em 1970, Foucault situa essa breve experiência da literatura como uma “fala absolutamente anárquica” (parole absolument anarchique), “sem instituição” (sans institution) e “profunda- mente marginal” (profondément marginale), a um curto perío- do do século xIx, quando essa forma de escrita foi desinsti- tucionalizada para ser, em seguida, novamente assimilada. 36

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37. Cf. FouCAuLT. La vie des hommes infâmes, p. 252-253.

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Em outro texto posterior, de 1977, Foucault ressalta que a literatura foi, por um tempo (desde o século xVII, quando ela começa a ser literatura no sentido moderno do termo),

o discurso da infâmia, no qual se dizia o que havia de indizí- vel, de mais secreto, intolerável e vergonhoso. Porém, como também observa Foucault, não devemos esquecer que essa posição singular da literatura decorreu de certo dispositivo de poder que marcou a economia dos discursos da época. 37

Porém, hoje em dia, ela teria sido totalmente assimilada

e desprovida de qualquer eficácia como forma de resistên-

cia. Essa tese da assimilação da literatura e da perda de seu poder subversivo é recorrentemente expressa por Foucault ao longo dos anos setenta. Em uma entrevista publicada no Japão em 1970, Foucault afirma que a literatura tornou-se instituição e foi recuperada pelo sistema, praticando-se hoje nas editoras comerciais e no mundo do jornalismo, sendo sua pretensa capacidade transgressora “uma pura fantasia” (un pur fantasme). A sociedade burguesa seria, inclusive, to- lerante com relação ao que acontece dentro da literatura, sendo suas travessuras sempre perdoadas, uma vez que seu poder subversivo foi digerido e assimilado. Foucault ressal- ta, assim, a necessidade de sairmos da literatura, de a aban- donarmos ao seu “magro destino histórico” (maigre destin historique), definido pela sociedade burguesa à qual pertence, afirmando que a mudança social ocorrerá fora da linguagem,

ou seja, a literatura é vista como uma arma fraca demais para

a força do inimigo a ser combatido. 38

Nesse sentido, em uma entrevista publicada em 1976, é surpreendente perceber como a literatura deixa inclusive de ser considerada uma aliada na luta para desmascarar as re- lações de poder. Mesmo Sade (um de seus escritores prefe- ridos, antes visto como um libertário), é descrito como um “sargento do sexo” (sergent du sexe), um “disciplinador” (disci- plinaire) que formulou o “erotismo próprio a uma sociedade disciplinar” (l’érotisme propre à une société disciplinaire). 39

A assimilação da escrita literária é vista por Foucault como apenas mais uma manifestação de um processo mais amplo de assimilação ou domesticação dos discursos pela ordem estabelecida, o que já teria ocorrido, por exemplo, com a es- crita filosófica. Podemos, em certa medida, aproximar essa desvalorização da literatura, que caracteriza o pensamento de Foucault dos anos setenta, com a depreciação da filosofia feita por ele já desde os anos cinquenta. Ou seja, a crítica que

Foucault fazia à filosofia, que teria deixado de ser o lugar das novas e radicais experiências de pensamento para se tornar um métier ou uma pequena disciplina universitária, estende- -se agora também à escrita literária, que também teria perdi- do sua força transgressora. Sobre esse ponto, em uma entre- vista de 1970, Foucault diz que, se até a literatura, que seria

a forma de escrita menos assimilada à ordem estabelecida,

38. Cf. FouCAuLT. Folie, littérature, société, p. 985-986, 992.

39. Cf. FouCAuLT. Sade, sergent du sexe, p. 1689-1690.

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40. Cf. FouCAuLT. Folie, littérature, société, p. 994.

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perdeu sua força destrutiva, então todas as outras formas de escrita já a perderam há um bom tempo. Foucault confessa que sua dúvida quanto à função subversiva da escrita teria nascido há tempos, concernindo tanto a filosofia quanto a literatura. 40 Embora Foucault diga isso, parece claro que, pri- meiro, ele duvida da filosofia (desde os anos cinquenta) e, apenas posteriormente, estende essa crítica à literatura (em certa medida, no final dos sessenta).

iii

Ao invés da literatura e de seu discurso autoral domesti- cado e assimilado, são, sobretudo, os discursos anônimos que passarão a despertar o interesse de Foucault nos anos se- tenta. Não devemos ver nesse interesse algo absolutamente novo no pensamento de Foucault, pois, desde a história da loucura (1961), ele analisa certos discursos anônimos (dos leprosos, doentes e loucos). Contudo, ao menos até as pa- lavras e as coisas (1966), Foucault ainda atribuía certo privi- légio transgressivo à linguagem literária e tendia a valer-se desse material anônimo e marginal apenas como base para algumas de suas pesquisas históricas. é inegável que, a partir de 1970, Foucault passa a conceder uma importância bem maior aos discursos anônimos, chegando a promover várias publicações desse tipo de material, começando por eu, pierre rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão (1973). Posteriormente, ele propõe a publicação de uma antologia

de textos que terminou por se tornar uma coleção, intitu- lada as vidas paralelas (Les vies parallèles), que incluí o texto de herculine barbin, chamada alexina b. (1978). Depois, com a colaboração de Arlette Farge, Foucault publica ainda a de- sordem das famílias. Lettres de cachet dos arquivos da bastilha

(1982).

Esses discursos, dos loucos, dos presos e dos excluídos em geral, distinguem-se da fala institucionalizada e controlada da literatura, da ciência e da filosofia. Os discursos anônimos, justamente por serem marginais e alheios, em certa medida, aos procedimentos de controle dos discursos (apresentan- do um outro regime de escrita, marcado pelo anonimato), seduzem Foucault e são considerados perturbadores e insti- gantes. Mais do que belos ou aprazíveis, são textos que nos deixam perplexos e aturdidos. Em uma entrevista realizada em 1971, Foucault recusa-se a dizer que os textos dos presos possuem “grande beleza” (grande beauté), não por desmerecê- -los, mas porque isso significaria inscrevê-los no “horror da instituição literária” (l’horreur de l’institution littéraire), prefe- rindo dizer apenas que há neles “coisas perturbadoras” (des choses bouleversantes). 41

Em a vida dos homens infames, texto escrito em 1977 como introdução para uma antologia de discursos anônimos, Foucault afirma que essas vidas sem glória nem fala, despre- zadas e perdidas no anonimato, são capazes de tocar-nos mais

41. Cf. FouCAuLT. Je perçois l’intolérable, p. 1073.

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42. Cf. FouCAuLT. La vie des

hommes infâmes, p. 239, 243,

250.

profundamente que as obras literárias. Segundo Foucault, nenhuma personagem ficcional seria tão intensa quanto es- sas figuras reais, sem qualquer grandiosidade (santidade, he- roísmo ou genialidade) e destinadas a passar pelo mundo sem deixar qualquer traço (e que só chegaram até nós por força do acaso). Mais do que escritores libertinos, essas vidas são propriamente infames (infâmes en toute rigueur), ou seja, não suscitam nenhuma admiração nem gozam de glória alguma. Seus textos possuem uma baixeza (bassesse), uma miséria e uma violência que nenhuma literatura poderia acolher. 42

Em vigiar e punir, essa assimilação e pobreza da litera- tura, em comparação à transgressão e riqueza do discurso dos homens infames, fica visível na distinção traçada entre o “discurso do cadafalso” (discours de l’échafaud) e a “literatura do crime” (littérature du crime). O primeiro discurso corres- ponde às últimas palavras do condenado, pronunciadas no seio do grande espetáculo público do suplício, possuindo um caráter transgressor, descontrolado, que permitia a irrupção de uma verdade incômoda. Já o segundo discurso correspon- de à reescrita estética do crime, que o glorifica, embeleza e engrandece. Foucault menciona os casos do poeta-assassino Lacenaire e do famoso personagem, criminoso e gentleman, Arsène Lupin, que estão ligados a uma espécie de arte das classes privilegiadas, na qual a burguesia deleita-se com um prazer novo. Essa literatura policial ou romance criminal,

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segundo Foucault, domestica o potencial transgressivo do discurso do cadafalso, retirando sua força e riqueza ao assi- milá-lo à ordem literária. 43

E na contra-capa de herculine barbin, chamada alexina b. (1978), que corresponde ao primeiro volume da coleção as vidas paralelas, Foucault descreve seu projeto de publica- ção dos discursos anônimos como o inverso daquele levado adiante por Plutarco, das “vidas ilustres”, que teria seu funda- mento na autoridade dos autores antigos. 44 Essa inversão de- clarada por Foucault mostra como ele procura nos discursos anônimos e infames um outro regime de escrita. Podemos ver no homem infame um inverso do autor, ou seja, um “su- jeito” que, desprezado e condenado ao anonimato, não tem qualquer poder sobre sua fala.

conclusão

43. Cf. FouCAuLT. Surveiller et punir, p. 79-82, 332, 335.

44. Cf. FouCAuLT. Présentation, 4e de couverture in Herculine Barbin, dite Alexina B, p. 499.

Voltemos então à questão inicial deste estudo: a literatura é capaz de mudas nossas vidas e nossa maneira de pensar? Podemos atribuir a ela algum poder transgressivo privilegia- do? Seguindo o Foucault dos anos sessenta, a resposta a essas duas perguntas seria um enfático sim. Contudo, a partir dos anos setenta, Foucault retira grande parte do poder antes conferido às experiências com a linguagem perpetradas no seio da escrita literária. Talvez a literatura ainda mantenha alguma capacidade transformadora, crítica, mas não seria

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mais correto atribuir-lhe qualquer tipo de poder transgres- sivo privilegiado.

Como foi visto, Foucault, ao desenvolver nos anos setenta uma nova concepção de poder, tendeu a desinteressar-se pela literatura, que passou a ser vista, essencialmente, como um discurso assimilado, domesticado, tolerado e incapaz de alçar grandes vôos transgressivos. Em busca de armas mais efica- zes, como os discursos anônimos, das vozes perturbadoras que deveriam ter sido silenciadas, Foucault parece deixar de lado a questão da escrita literária para sair em busca de uma munição mais pesada, capaz de, ainda que provisoriamente

e de maneira regional, suscitar a crítica e provocar o estra- nhamento indispensável para mudarmos nossas maneiras de pensar e agir.

O aprofundamento da mudança verificada no pensamen- to de Foucault entre os anos sessenta e setenta com relação

à literatura e seu poder transgressor oferece, creio, uma base

interessante para repensarmos o lugar da literatura e seu po- tencial crítico nos dias atuais. Muitas indagações poderiam ser feitas e, seguindo esta senda, gostaria de terminar este breve estudo deixando algumas questões no ar. A literatura publicada pelas grandes casas editoriais teria sido realmente assimilada e domesticada? E a literatura menor, que circula, sobretudo, pela rede mundial de computadores, nas mar- gens do sistema editorial e das Academias, será que ela faz

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reviver essa escrita transgressiva e perturbadora que tanto teria encantado o Foucault dos anos sessenta? Será que ainda se pode chamar de literatura a essas novas experiências com a linguagem?

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