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A cruz e o ego

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Por A. W. Pink May 3, 2018

“Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se
negue, tome a sua cruz, e siga-me” — (Mateus 16:24).

Antes de desenvolver o tema deste verso, comentemos os seus termos. “Se alguém”: o
dever imposto é para todos os que desejam se unir aos seguidores de Cristo e alistar sob a
Sua bandeira. “Se alguém quer”: o grego é muito enfático, significando não somente o
consentimento da vontade, mas o pleno propósito de coração, uma resolução
determinada. “Vir após mim”: como um servo sujeito ao seu Mestre, um estudante ao seu
Professor, um soldado ao seu Capitão. “Negue”: o grego significa “negar totalmente”.
Negar a si mesmo: sua natureza pecaminosa e corrompida. “E tome”: não passivamente
sofra ou suporte, mas assuma voluntariamente, adote ativamente. “Sua cruz”: que é
desprezada pelo mundo, odiada pela carne, mas que é a marca distintiva de um cristão
verdadeiro. “E siga-me”: viva como Cristo viveu — para a glória de Deus.

O contexto imediato é mais solene e impressionante. O Senhor Jesus tinha acabado de


anunciar aos Seus apóstolos, pela primeira vez, a aproximação de Sua morte de
humilhação (v. 21). Pedro se assustou, e disse, “Tem compaixão de Ti, Senhor” (v. 22).
Isto expressou a política da mente carnal. O caminho do mundo é a procura para si mesmo
e a defesa de si mesmo. “Tenha compaixão de ti” é a soma de sua filosofia. Mas a doutrina
de Cristo não é “salva a ti mesmo”, mas sacrifica a ti mesmo. Cristo discerniu no conselho
de Pedro uma tentação de Satanás (v. 23), e imediatamente a rejeitou. Então, voltando-se
para Pedro, disse: Não somente “deve” o Cristo subir à Jerusalém e morrer, mas todo
aquele que desejar ser um seguidor dEle, deve tomar sua cruz (v. 24). O “deve” é tão
imperativo num caso como no outro. Mediatoriamente, a cruz de Cristo permanece
sozinha; mas experiencialmente, ela é compartilhada por todos que entram na vida.

O que é um “cristão”? Alguém que sustenta membresia em alguma igreja terrena? Não.
Alguém que crê num credo ortodoxo? Não. Alguém que adota um certo modo de conduta?
Não. O que, então, é um cristão? Ele é alguém que renunciou a si mesmo e recebeu a
Cristo Jesus como Senhor (Colossenses 2:6). Ele é alguém que toma o jugo de Cristo
sobre si e aprende dEle que é “manso e humilde de coração”. Ele é alguém que foi
“chamado à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (1 Coríntios 1:9):
comunhão em Sua obediência e sofrimento agora, em Sua recompensa e glória no futuro
sem fim. Não há tal coisa como pertencer a Cristo e viver para agradar a si mesmo. Não
cometa engano neste ponto, “E qualquer que não tomar a sua cruz e não vier após mim
não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:27), disse Cristo. E novamente Ele declarou, “Mas
aquele (ao invés de negar a si mesmo) que me negar diante dos homens (não “para” os
homens: é conduta, o caminhar, que está aqui em vista), também eu o negarei diante de
meu Pai, que está nos céus” (Mateus 10:33).

A vida cristã começa com um ato de auto-renúncia, e é continuada pela auto-mortificação


(Romanos 8:13). A primeira pergunta de Saulo de Tarso, quando Cristo o apreendeu, foi,
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“Senhor, que queres que eu faça?”. A vida cristã é comparada com uma “corrida”, e o
corredor é chamado para “deixar todo embaraço e o pecado que tão de perto nos assedia”
(Hebreus 12:1), cujo “pecado” é o amor por si mesmo, o desejo e a determinação de ter o
nosso “próprio caminho” (Isaías 53:6). O grande alvo, fim e tarefa posta diante do Cristão é
seguir a Cristo — seguir o exemplo que Ele nos deixou (1 Pedro 2:21), e Ele “não agradou
a si mesmo” (Romanos 15:3). E há dificuldades no caminho, obstáculos na estrada, dos
quais o principal é o ego. Portanto, este deve ser “negado”. Este é o primeiro passo para se
“seguir” a Cristo.

O que significa para um homem “negar a si mesmo” totalmente? Primeiro, isto significa a
completa repudiação de sua própria bondade. Significa cessar de descansar sobre
quaisquer obras nossas, para nos recomendar a Deus. Significa uma aceitação sem
reservas do veredicto de Deus que “todas as nossas justiças [nossas melhores
performances], são como trapo da imundícia” (Isaías 64:6). Foi neste ponto que Israel
falhou: “Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua
própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus” (Romanos 10:3). Agora, contraste com
a declaração de Paulo: “E seja achado nEle, não tendo justiça própria” (Filipenses 3:9).

Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente sua


própria sabedoria. Ninguém pode entrar no reino dos céus, a menos que tenha se tornado
“como criança” (Mateus 18:3). “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes
em seu próprio conceito!” (Isaías 5:21). “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos”
(Romanos 1:22). Quando o Espírito Santo aplica o Evangelho em poder numa alma, é para
“destruir os conselhos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e
levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). Um moto
sábio para o todo cristão adotar é “não te estribes no teu próprio entendimento”
(Provérbios 3:5).

Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente sua


própria força. É “não confiar na carne” (Filipenses 3:3). É o coração se curvando à
declaração positiva de Cristo: “Sem mim, nada podeis fazer” (João 15:5). Este é o ponto no
qual Pedro falhou: (Mateus 26:33). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito
precede a queda” (Provérbios 16:18). Quão necessário é, então, que prestemos atenção à
1 Coríntios 10:12: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia”! O segredo da
força espiritual reside em reconhecer nossa fraqueza pessoal: (veja Isaías 40:29; 2
Crônicas 12:9). Então, “fortifiquemo-nos na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1).

Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente sua


própria vontade. A linguagem do não-salvo é, “Não queremos que este Homem reine
sobre nós” (Lucas 19:14). A atitude do cristão é, “Para mim, o viver é Cristo” (Filipenses
1:21) — honrá-Lo, agradá-Lo, servi-Lo. Renunciar sua própria vontade significa atender à
exortação de Filipenses 2:5, “Que haja em vós o mesmo sentimento que houve também
em Cristo Jesus”, o qual é definido nos versos que imediatamente seguem como de
abnegação. É o reconhecimento prático de que “não sois de vós mesmos, porque fostes
comprados por bom preço” (1 Coríntios 6:19,20). É dizer com Cristo, “Não seja, porém, o
que eu quero, mas o que tu queres” (Marcos 14:36).

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Para um homem “negar a si mesmo” totalmente, deverá renunciar completamente suas
luxúrias ou desejos carnais. “O ego do homem é um feixe de ídolos” (Thomas Manton,
Puritano), e estes ídolos devem ser repudiados. Os não-cristãos são “amantes de si
mesmos” (2 Timóteo 3:1); mas aquele que foi regenerado pelo Espírito diz com Jó, “Eis
que sou vil” (40:4), “Eu me abomino” (42:6). Dos não-cristãos está escrito, “todos buscam o
que é seu e não o que é de Cristo Jesus” (Filipenses 2:21); mas dos santos de Deus está
registrado,“eles não amaram a sua vida até à morte” (Apocalipse 12:11). A graça de Deus
está “ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas,
vivamos neste presente século sóbria, justa e piamente” (Tito 2:12).

Esta negação do ego que Cristo requer de todos os Seus seguidores deve ser universal.
Não há nenhuma reserva, nenhuma exceção feita: “Nada disponhais para a carne no
tocante às suas concupiscências” (Romanos 13:14). Deve ser constante, não
ocasional: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz
e siga-me” (Lucas 9:23). Deve ser espontânea, não forçada, realizada com satisfação, não
relutantemente: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e
não para homens” (Colossenses 3:23). Ó, quão impiamente o padrão que Deus colocou
diante de nós tem sido rebaixado! Como isso condena a vida acomodada, agradável à
carne e mundana de tantos que professam (mas, de maneira vã) que eles são “cristãos”!

“E tome a sua cruz”. Isto se refere não à cruz como um objeto de fé, mas como uma
experiência na alma. Os benefícios legais do Calvário são recebidos através do crer,
quando a culpa do pecado é cancelada, mas as virtudes experimentais da Cruz de Cristo
são somente desfrutadas à medida que somos, de um modo prático, “conformados com a
Sua morte” (Filipeneses 3:10). É somente à medida que realmente aplicamos a cruz às
nossas vidas diárias, regulamos nossa conduta pelos seus princípios, que ela se torna
eficaz sobre o poder do pecado que habita em nós. Não pode haver ressurreição onde não
há morte, e não pode haver andar prático “em novidade de vida” até que “carreguemos no
corpo o morrer do Senhor Jesus” (2 Coríntios 4:10). A “cruz” é o sinal, a evidência, do
discipulado cristão. É sua “cruz”, e não o seu credo, que distingue um verdadeiro seguidor
de Cristo do mundano religioso.

Agora, no Novo Testamento a “cruz” tem o significado de realidades definidas. Primeiro,


ela expressa o ódio do mundo. O Filho de Deus veio aqui não para julgar, mas par salvar;
não para punir, mas para redimir. Ele veio aqui “cheio de graça e verdade”. Ele sempre
esteve à disposição dos outros: ministrando aos necessitados, alimentando os famintos,
curando os enfermos, libertando os possessos pelo demônio, ressuscitando os mortos. Ele
era cheio de compaixão: gentil como um cordeiro; inteiramente sem pecado. Ele trouxe
com Ele felizes notícias de grande alegria. Ele procurou os perdidos, pregou aos pobres,
todavia, não desdenhou dos ricos; Ele perdoou pecadores. E, como Ele foi recebido? Que
tipo de recepção os homens Lhe deram? Eles O “desprezaram e rejeitaram” (Isaías 53:3).
Ele declarou, “Eles Me odeiam sem uma causa” (João 15:25). Eles tiveram sede de Seu
sangue. Nenhuma morte ordinária os apaziguaria. Eles demandaram que Ele deveria ser
crucificado. A Cruz, então, foi a manifestação do ódio inveterado do mundo pelo Cristo de
Deus.

O mundo não mudou, não mais do que o etíope pode mudar sua pele ou o leopardo suas
manchas. O mundo e Cristo ainda estão em aberto antagonismo. Por conseguinte, está
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escrito: “Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago
4:4). É impossível andar com Cristo e comungar com Ele, até que tenhamos nos separado
do mundo. Andar com Cristo necessariamente envolve compartilhar Sua humilhação:
“Saiamos, pois, a Ele, fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hebreus 13:13). Isto foi o
que Moisés fez (veja Hebreus 11:24-26). Quanto mais próximo eu andar de Cristo, mais eu
serei mal-entendido (1 João 3:2), ridicularizado (Jó 12:4) e detestado pelo mundo (João
15:19). Não cometa engano aqui: é extremamente impossível continuar com o mundo e ter
comunhão com o Santo Cristo. Portanto, “tomar” minha “cruz” significa, que eu
deliberadamente convido a inimizade do mundo através da minha recusa em ser
“conformado” a ele (Romanos 12:2). Mas, o que importa o olhar carrancudo do mundo, se
estou desfrutando os sorrisos do Salvador?

Tomar minha “cruz” significa uma vida voluntariamente rendida a Deus. Como o ato dos
homens ímpios, a morte de Cristo foi um assassinato; mas como o ato do próprio Cristo, foi
um sacrifício voluntário, oferecendo a Si mesmo a Deus. Foi também um ato de obediência
a Deus. Em João 10:18 Ele disse, “Ninguém a [Sua vida] tira de mim; pelo contrário, eu
espontaneamente a dou”. E por que Ele o fez? Suas próximas palavras nos dizem: “Este
mandato recebi de meu Pai”. A cruz foi a suprema demonstração da obediência de Cristo.
Nesta Ele foi o nosso Exemplo. Uma vez mais citamos Filipenses 2:5: “Que haja em vós o
mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. E nos versos seguintes nós
vemos o Amado do Pai tomando a forma de um Servo, e tornando-Se “obediente até a
morte, e morte de cruz”. Agora, a obediência de Cristo deve ser a obediência do cristão —
voluntária, alegre, sem reservas, contínua. Se esta obediência envolve vergonha e
sofrimento, acusação e perda, não devemos nos acovardar, mas por o nosso rosto “como
um seixo” (Isaías 50:7). A cruz é mais do que o objeto da fé do cristão, ela é o sinal de
discipulado, o princípio pelo qual sua vida deve ser regulada. A “cruz” significa rendição e
dedicação a Deus: “Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis
o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional”
(Romanos 12:1).

A “cruz” significa serviço vicário e sofrimento. Cristo deu a Sua vida pelos outros, e Seus
seguidores são chamados a estarem dispostos para fazerem o mesmo: “Devemos dar
nossa vida pelos irmãos” (1 João 3:16). Esta é a lógica inevitável do Calvário. Somos
chamados para seguir o exemplo de Cristo, para a companhia de Seus sofrimentos, e para
ser participantes em Seu serviço. Assim como Cristo “a si mesmo se esvaziou” (Filipenses
2:7), assim devemos fazer. Assim como Ele “veio para servir, e não para ser servido”
(Mateus 20:28), assim devemos ser. Assim como Ele “não agradou a si mesmo” (Romanos
15:3), assim devemos fazer. Assim como Ele lembrou dos outros, assim devemos lembrar:
“Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos,
como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis os maltratados” (Hebreus 13:3).

“Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha
causa achá-la-á” (Mateus 16:25). Palavras quase idênticas a estas são encontradas
novamente em Mateus 10:39. Marcos 8:35, Lucas 9:24; 17:33, João 12:25. Certamente, tal
repetição mostra a profunda importância de notar e prestar atenção a este dito de Cristo.
Ele morreu para que nós pudéssemos viver (João 12:24), e assim devemos fazer (João
12:25). Como Paulo, devemos ser capazes de dizer “Em nada tenho a minha vida por
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preciosa” (Atos 20:24). A “vida” que é vivida para a gratificação do ego neste mundo, está
“perdida” para eternidade; a vida que é sacrificada para os interesses próprios e rendida a
Cristo, será “achada” novamente, e preservada durante toda a eternidade.

Um jovem universitário graduado, com prospectos brilhantes, respondeu ao chamado de


Cristo para uma vida de serviço a Ele na Índia, entre a casta mais baixa dos nativos. Seus
amigos exclamaram: “Que tragédia! Uma vida lançada fora!” Sim, “perdida”, até onde diz
respeito a este mundo, mas “achada” novamente no mundo porvir!

Por: Arthur W. Pink. © Monergismo. Website: monergismo.com. Todos os direitos


reservados. Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto. Fonte: A cruz e o ego.

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