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Universidade Católica do Salvador

Superintendência de Pesquisa e Pós-Graduação


Mestrado em Família na Sociedade Contemporânea

MARCOS RIBEIRO FILGUEIRAS

O ENFRAQUECIMENTO DA FIGURA DO
PAI APÓS O DECLÍNIO DO PATRIARCALISMO

Salvador
2009
MARCOS RIBEIRO FILGUEIRAS

2009
O ENFRAQUECIMENTO DA FIGURA DO
PAI APÓS O DECLÍNIO DO PATRIARCALISMO
MARCOS RIBEIRO FILGUEIRAS

O ENFRAQUECIMENTO DA FIGURA DO PAI


APÓS O DECLÍNIO DO PATRIARCALISMO

Dissertação apresentada ao Mestrado em


Família na Sociedade Contemporânea da
Universidade Católica do Salvador, como
requisito parcial para a obtenção do Grau
de Mestre.

Orientador: Prof. Dr. Gian Carlo Petrini.

Salvador
2009
UCSAL. Sistema de Bibliotecas.
Setor de Cadastramento.

Filgueiras, Marcos Ribeiro.


O enfraquecimento da figura do pai após o declínio do patriarcalismo / Marcos Ribeiro
Filgueiras. - Salvador: UCSal. Superintendência de Pesquisa e Pós-Graduação, 2009.
Paginação

Dissertação apresentada à Universidade Católica do Salvador, como requisito parcial


para a obtenção do grau de Mestre em Família na Sociedade Contemporânea.
Orientador: Prof. Dr. Gian Carlo Petrini.

Inclui bibliografia.

1. Sociologia. 2. Figura do pai. 3. Revisão Bibliográfica. II. Universidade Católica do


Salvador. Superintendência de Pesquisa e Pós-Graduação. III. Título.

CDU
TERMO DE APROVAÇÃO

MARCOS RIBEIRO FILGUEIRAS

O ENFRAQUECIMENTO DA FIGURA DO PAI


APÓS O DECLÍNIO DO PATRIARCALISMO

Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de mestre


em Família na Sociedade Contemporânea da Universidade Católica do Salvador.

Salvador, 22 de Janeiro de 2009.

Banca Examinadora:

____________________________________________
Prof. LUCIANO COSTA SANTOS
Doutor pela PUCRS

____________________________________________
Profª. VANESSA RIBEIRO SIMON CAVALCANTI
Doutora pela UNILEON

____________________________________________
Prof. Gian Carlo Petrini
Orientador
Doutor pela PUC-SP
Ao meu pai, Daniel Filgueiras, in
memoriam, que me ensinou de que a
vida pode ser feita.
A minha Mãe, Eulina, minha irmã,
Lígia, e meus sobrinhos, meus
bálsamos.
Aos meus amigos que me deram a
mão e o apoio neste projeto.
AGRADECIMENTOS

A Deus, luz da minha inteligência, dono da minha vida e co-


autor da minha existência nessa terra dos viventes.

À Universidade Católica do Salvador por me oportunizar esse


valioso saber.

Ao meu Orientador, João Carlos Petrini, um mestre espiritual e


tutor intelectual, por dividir comigo sua valiosa mente e seu
precioso coração de pai e amigo, obrigado por todos os seus
cuidados.

Aos professores e colegas do Mestrado, pela convivência


amável e interação disciplinar.

Aos grandes amigos Mané, Joedson, Jocrédson, Kleber,


Neilson, Pe. Uó, Pe. Kleber, Pe. José Goppinger, Edson
Almeida, Aninha Magalhães, Pe Junior Osmar, Monsenhor
Valter Pinto, Pe. Gilvan Pires, Ana (de Oliveira), Alan Bacelar,
Helena Teixeira, Fernando Miranda... Todos que compõem o
patrimônio dos meus afetos.

À minha amabilíssima mãe, Eulina, e minha querida irmã, Ligia,


com seus filhos amados Bia, Henrique, Dudu, e o que está
chegando, Daniel.

Enfim, a todos que sonharam comigo esse sonho bom de me


ver subir mais um degrau das ciências dos homens, obrigado!
É meu parceiro, companheiro, meu amigo.
Aquele velho que ali está sentado.
Contando caso e histórias da sua vida.
Suas derrotas e vitórias do passado.

Quase sem forças para caminhar sozinho.


Estendo-lhe a mão, pois estarei sempre a seu lado.
Até o dia que esta vida nos separe.
Amigo velho, meu querido Pai Amado.

Por muitas vezes eu não tive paciência.


Causando-lhe certamente grande dor.
Não escutar e não seguir os seus conselhos.
Que com certeza foram dados por amor.

Peço perdão, mas a vida me ensinou.


Que conselho de Pai é por amor.
A tua dor, hoje eu estou sentindo.
Porque meus filhos, também não dão valor.

Jorge Amado
RESUMO

Esta dissertação, seguindo a linha de pesquisa Família e Sociedade, do Mestrado


em Família, tem como objetivo analisar o processo cultural no qual a figura do pai foi
posta após o declínio do patriarcalismo, a partir de uma analise sociológica, para
compreender o conceito resultante de paternidade que se tem na atualidade. O
presente estudo, portanto, pretende, com o recurso metodológico da pesquisa
bibliográfica dos escritos de Gilberto Freyre e de cientistas sociais mais recentes e
igualmente interessados na problematização do patriarcalismo, analisar o
estabelecimento da figura do pai patriarcal, as causas de seu enfraquecimento, as
vigências de sua representação em tempos avessos à autoridade e a sua
sobrevivência em formatos menos rígidos, mas outrossim determinados pelas
carências da época. O que se quer compreender é o que subjaz da figura paterna
exigida outrora pela própria configuração social que hoje se esforça em ações que
lhe declarem independência desse personagem.

Palavras-chave: Pai; Patriarcalismo; Família; Gilberto Freyre.


ABSTRACT

This dissertation, at family mastership, has as objective to analyze the cultural


process in which the figure of the father was rank after the decline of patriarchalism,
from a sociological analysis, to understand the resultant concept of paternity that if
has in the present time. The present study intends, inasmuch as, with the
methodological resource of the bibliographical research of the writings of Gilbert
Freyre and more recent social scientists, also researches of the patriarchalism, to
analyze the establishment of the figure of the patriarchal father, the causes of its
weakness, and the validity of its representation in opposite times the authorities and
its survivals in less rigid formats, but equally determined for the lacks of the time.
What one wants to understand is what remains of the demanded paternal figure long
ago for the proper social conjuncture, that, today, if strengthens in action that
declares independence to it of this personage.

Key-words: Father; Patriarchalism; Family, Gilberto Freyre.


SUMÁRIO

1 - INTRODUÇÃO............................................................................................................. 10
1.1 - O PAI PATRIARCAL.......................................................................................... 14
1.2 - O PROCESSO DE ENFRAQUECIMENTO...................................................... 15

2 - CAPÍTULO I - A DIMENSÃO TEÓRICA................................................................... 19


2.1 - A RELEVÂNCIA DO TEMA ............................................................................. 19
2.2 - ESQUECIMENTO TEÓRICO DO PAI ............................................................. 22
2.3 - A TEMATIZAÇÃO DO PAI PARA O BRASIL................................................ 25

3 - CAPÍTULO II - ESTADO AUSENTE, PAI POTENTE ............................................. 28


3.1 – A REVISÃO ....................................................................................................... 28
2.2 - PATRIARCALISMO BRASILEIRO.................................................................. 31
3.3 - A CASA GRANDE DO BRASIL ...................................................................... 39
3.4 - O PAI E A FAMÍLIA PATRIARCAIS ............................................................... 47
3.5 - PAI ENFRAQUECIDO ...................................................................................... 54

4 - CAPÍTULO III - A DISPENSA DO PAI...................................................................... 56


4.1 PAI FIGURA EM REVISTA.................................................................................. 56
4.2 - DEPOIS DA REVISÃO IDEOLÓGICA DA LEI................................................ 57
4.3 - A DIMINUIÇÃO DO ESPAÇO PATERNO ....................................................... 60

CONCLUSÃO.................................................................................................................... 65

REFERÊNCIAS................................................................................................................. 70
10

1 - INTRODUÇÃO

O objetivo desse estudo é analisar a figura do pai em confronto com sua


relação com o patriarcalismo em processo de declínio devido sua associação a esse
formato de paternidade, atualmente bastante criticado. Nosso intuito é investigar
quais são as características a que o pai, hoje em dia, foi associado por causa da sua
figuração anterior, quais acontecimentos precipitaram esse fato e quais discursos
corroboraram com isso.
Para tanto, tomamos como ponto de partida a obra de Gilberto Freyre, que,
no quesito dos estudos sobre o patriarcado no Brasil, é de fundamental importância
para seu entendimento, com o objetivo de processar uma leitura sistemática e crítica
em busca da caracterização do pai anterior da família patriarcal, com o cuidado,
porém, de associá-la às leituras a favor e contra a esse construto freyriano.
Dentre essas outras leituras complementares, reunidas de acordo com o
critério da tematização do pai, enquanto figura de conflito para a atualidade,
encontram-se teóricos diferentes, de distintas linhas de pesquisa e aportes
igualmente distintos, com o apoio da interdisciplinaridade a que o Mestrado em
Família incentiva, para melhor explorar as dimensões alcançadas pelo patriarcalismo
e as caracterizações mais gerais que o pai recebera em grande parte dos discursos
e estudos sobre os quais se assenta sua atual figuração.
A leitura de autores sociais e de outras correntes de pensamento aqui
apresentadas levou em conta esse objetivo, de modo que agrupamos até com muita
proximidade, no corpo da dissertação, investigações e autores díspares em campos
de atuação e na amplitude e influência de suas obras, para melhor compreendermos
o contexto social e cultural no qual a descaracterização da figura paterna foi
colocada. Para maior enriquecimento dessa pesquisa, também, nos aprofundamos
em investigações acerca das discussões de gênero disponíveis no Núcleo de
Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher, NEIM – UFBA, e, em especial, nos
estudos do DIADORIM – UNEB.
No conjunto dessas leituras, utilizamos textos em idiomas italiano e espanhol,
que tiveram tradução feita para esse estudo, por considerarmos de suma
importância a discussão desenvolvida por aqueles autores. Além disso, também
lançamos mão de outros pesquisadores e pensadores distantes do discurso
11

sociológico, principalmente para entender a modernidade como o tempo no qual a


descaracterização do pai se processara com tamanha rapidez.
De certo, a modernidade se caracteriza como um tempo de mudanças sociais
tão rápidas quanto múltiplas. Sentem-se os efeitos desse fenômeno em áreas
variadas da vida humana e, mesmo que nela seja identificada uma racionalidade a
lhe capitanear as transformações, não se pode também deixar de constatar que tais
fenômenos atingiram espaços fulcrais do tecido social, de modo que se considere
como típica da tendência moderna instrumentalizar tudo aquilo que possa corroborar
seus propósitos.
Assim, a comunidade doméstica, com o advento da modernidade, tornou-se
uma unidade de consumo, devido o lugar que ocupa no dinamismo da economia, a
saber, partícula de unidade produtiva dentro do sistema capitalista, trocando seus
antigos laços afetivos pela dinâmica da produção esvaziada de autoridade
(ARENDT, 1981), substituindo os papéis familiares por funções políticas ou arranjos
econômicos e fragilizando os seus personagens para relativizar as suas funções. É
preciso, no entanto, advertir que essa relação de público e privado a que se refere
Arendt quando analisa o “domus” clássico, isto é, o formato antigo da família grega,
não esgota a questão do patriarcado enquanto produtor de valores, ações e figuras
sociais e culturais capazes de delinear o horizonte da vida dos indivíduos e que os
influencia para além da casa e da família.
No entanto, com a caracterização da função paterna na modernidade
enquanto apenas o provedor (HORKHEIMER, 1992), as relações na família
concentraram-se na legitimação econômica e a distribuição da autoridade tornou-se
dependente das participações financeiras na economia familiar, isto é, para além
das fronteiras da casa. A figura do pai então migra para uma região mais flutuante e
suas faculdades, outrora encimadas na dinâmica do mando e do cuidado, são
transferidas para outras instâncias que, segundo as racionalidades modernas,
seriam mais capazes de exercê-las.
Assim, o Estado e as ciências começam a minar-lhe os espaços e, pouco a
pouco, o personagem paterno, que Freyre (1983) compreende como agente
empreendedor da socialização nos ambientes de recém instalação da vida colonial
brasileira, vai tornando-se obsoleto. Destarte, a unidade política, econômica e social
que esta figura representava e que teve papel fundamental na definição do perfil
12

histórico das nossas famílias, dissolve-se em uma multiplicidade de sujeitos jurídicos


e científicos alheios à sua presença.
Apesar de outros estudos caracterizarem a figura do patriarca como
empecilho ao desenvolvimento político-econômico do Estado brasileiro (HOLANDA,
1976), a família patriarcal, no entanto, não deixou de ser reconhecida como o
elemento mais efetivo do qual dispunha a nascente sociedade do Brasil arcaico,
carente de outros meios que processassem a sua socialização. Duarte (2006), por
exemplo, falará dela como uma organização sócio-política feudal, baseada nas
Sesmarias e nas Capitanias, caracteristicamente portuguesa, particularista,
comunal, mas menos política e irredutível ao Estado, familial, portanto, mais privada
que pública, baseada na família colonial cujas funções procriadoras e políticas se
confundiam.
Esse particularismo, essa propriedade privada e esses individualismos seriam
as marcas da família patriarcal a se acoplar à nossa histórica condição de nação em
formação. Era como se aquele Estado fosse um agrupamento de famílias e o povo
brasileiro, na esfera política, uma casta familial com ligações parentais. (DUARTE,
2006).
Entende-se, portanto, que na identificação dos elementos formadores da
figura do pai na cultura patriarcal, dar-se-á a elucidação do processo de
desconstrução dessa figura na cultura contemporânea e a identificação do lugar no
qual a figura do pai foi posta e como sua simbólica foi configurada na formação da
família brasileira.
Desse modo, ao dimensionar na família atual os efeitos positivos e negativos
dessa mudança de paradigma, analisaremos o perfil da família contemporânea
proveniente da ausência e enfraquecimento da figura paterna, compreenderemos
melhor o lugar atual dos outros componentes da família, mãe e filhos, que, outrora,
possuíam um espaço periférico e passivo na relação com a paternidade patriarcal, e
hoje reclamam autonomia e centralidade.
Além de Gilberto Freyre e de Sergio Buarque de Holanda nos serviremos de
outros autores que na atualidade desenvolveram criticas pertinentes à questão do
patriarcalismo, a exemplo de Therborn, Castells e Bourdieu, que, apesar de fazerem
leituras diferentes dessa temática, são referências sem as quais o estudo do pai e
do masculino se empobreceria. Como nos assegura o próprio Castells (2002, p. 213-
214):
13

A proteção da mulher contra a violência masculina (campanhas anti-estupro,


treinamento em autodefesa, abrigos para mulheres espancadas e
acompanhamento psicológico para as que haviam sofrido abusos) criou a
ligação direta entre os interesses imediatos das mulheres e a crítica
ideológica ao patriarcalismo em curso.

Obviamente que o modelo patriarcal freyriano, caso se queira colocá-lo de


forma totalizante, é inoperante, devido à diversidade empírica das famílias
brasileiras. Mas, nesse estudo, sua produção entra como ponto-de-partida para se
pensar a figuração do personagem do pai na esfera da formação nacional brasileira,
já que o lugar da produção freyriana está em montar um modelo moral (patriarcal)
que transcendeu o empírico de Pernambuco e ainda hoje se apresenta reproduzido
na sociedade, apesar de fortemente abalado pelos valores modernos (Sarti, 2005).
Sobre esse item, em O Casal Igualitário (1983), Salem observa como a
introdução de outras leituras dos papéis familiares pelo ideário da modernidade
confirma, sob o conceito de “casal grávido”, uma mutação na figura paterna, pois, na
estrutura moral dos casais modernos, inscrevem-se outros comportamentos, tais
como a igualdade, que libera entraves funcionais rígidos de outras épocas sobre os
papéis familiares e prescreve uma intensa participação do masculino em áreas
reservadas apenas ao feminino na antiga dinâmica familiar. Além disso, nesses
casais, continua a autora, a maioria pertencente à classe mais letrada da sociedade,
verifica-se que o núcleo conjugal cria suas regras sem nenhuma referência à
biografia dos cônjuges, e esse individualismo chega inclusive à declaração da
independência dos papéis, caso os mesmos precisem se separar.
Essas transformações, intrinsecamente ligadas às mutações dos valores
morais na contemporaneidade, têm uma razão sócio-política anterior: o pai mudou
porque o mundo mudou, e a família agrícola, que necessitava de sua figuração, tal
como foi retratada pela sociologia clássica, urbanizando-se, dispensou-se de seu
formato anterior.
Entretanto, para além de uma análise empírica da desconfiguração do
patriarcalismo, o eixo do estudo produzido por essa investigação concentra-se na
retomada das características daquele pai-patrão e no processo sócio-político,
anterior ao teórico ideológico, que desencadeou seu enfraquecimento e substituição.
14

1.1 - O PAI PATRIARCAL

A família patriarcal, ligada intrinsecamente à figura do pai como personagem


de autoridade, com o advento da modernidade, não desapareceu por completo
(THERBORN, 2000), da mesma forma que os arranjos familiares sob o modelo
nuclear ainda persistem tanto na prática quanto na mentalidade comum. Mas, no
geral, constata-se que, àquela família cuja unidade doméstica correspondia às
figuras do pai, da mãe e das filhas, sucedeu uma outra, mais complexa e mais
dinâmica, por ter abarcado uma série de convenções que se desenvolve com maior
rapidez que a compreensão comum foi capaz de avaliar. Dentre esses fatores,
destaca-se o processo de individualização dos papéis familiares, que distribuem as
relações domésticas indiscriminadamente, e torna mais fluidas as separações das
funções que existem dentro da família. No que se refere ao pai, esse fenômeno
correspondeu a uma caracterização peculiar do seu personagem mais difundido, ou
seja, o pai patriarcal.
Segundo Freyre (2003), o pai da família patriarcal se caracteriza por um tripé
de comportamentos, a saber: o provedor, o dominador e o agregador da empresa
familiar, cujos alicerces de seu poder lhe eram dados pela monocultura, o latifúndio
e a escravidão. Nessa análise, a unidade doméstica aparece como único espaço
autorizado para a constituição da família.
Sendo a família um organismo constituído de laços de parentescos
organizados mediante papéis e um dos mais importantes elementos de composição
da rede social, suas mudanças não correspondem somente a transformações
internas de suas configurações, mas também, e mais fundamentalmente, às
respostas às mutações sociais que a cercam. A elasticidade da família atual tem
ligações com os deslocamentos histórico-sociais produzidos pela modernidade.
No entanto, no universo simbólico das classes menos abastadas, por
exemplo, as variações sofridas no conjunto familiar atual ainda reservam para a
antiga figura da autoridade paterna um lugar de destaque, semelhante àquele que
essa figura possuía no formato patriarcal, pois existe, nesse ambiente social, uma
divisão nas funções familiares que permite diferenciar o ambiente doméstico entre a
casa e a família (SARTI, 2005).
Segundo Sarti, nesse contexto das famílias urbanas pobres da periferia de
São Paulo, a casa é identificada com a mulher, espaço dos afazeres e cuidados
15

femininos, enquanto a família é o espaço do homem. Nessa perspectiva, diga-se de


passagem, bastante contestada pelo discurso feminista, casa e família, como
homem e mulher, constituem um par complementar. Para Sarti, porém, nesse tipo
de arranjo familiar, tão usual nos ambientes urbanos das classes pobres, o pai ainda
é reclamado como um personagem cuja ausência pode causar à família uma
nostálgica sensação de incompletude.
O que se compreende nesse processo é que o patriarcalismo, além de ser
uma das estruturas sobre a qual as sociedades contemporâneas se assentam, está
enraizado nos formatos familiares tanto quanto na reprodução simbólica da
autoridade e na reprodução sócio-biológica da espécie (CASTELLS, 1999). Mas o
que nessas páginas se investiga é a relação entre o modelo patriarcal e a nova
organização do social a partir da interferência histórica da modernidade, que lhe
diminuiu os espaços sobre os quais se estendia e se justificava a sua autoridade.
O que se pretende com isso é mostrar que a maior oportunidade de trabalho
no campo profissional para as mulheres, as transformações científicas e
tecnológicas na área da biologia, da farmácia e da medicina, a legitimação do
discurso feminista e as reivindicações das discussões sobre gênero, principalmente
os movimentos gay e lésbicas, arautos dessa revisão dos papéis sociais na
atualidade, são posteriores àquela mutação da figura do pai patriarcal. Esse, o pai,
como personagem social, modifica-se a partir da interferência de diversas instâncias
que lhe diminuem os espaços de atuação social (THERBORN, 2000).

1.2 - O PROCESSO DE ENFRAQUECIMENTO

A contestação que a família patriarcal recebe na atualidade foi reforçada


pelas releituras teóricas contemporâneas acerca do espaço da mulher, do papel de
gestor do Estado, da revisão jurídica para o estabelecimento de legislações
protecionistas, da crítica aos sistemas ideológicos, religiosos tradicionais, e da
emancipação do aspecto econômico sobre a autoridade parental.

Se o pai é apenas o protetor da mulher e o provedor do sustento da prole,


ele parece de fato ser dispensável na sociedade moderna. A autonomia das
mulheres, sua capacidade comprovada de trabalhar e sustentar sua família,
junto com o crescente apoio do Estado e de instituições, tais como creches,
16

e escolas, tendem a garantir cada vez mais o cuidado com a criança. (LINS
LEITÃO, 1999, p. 35).

O processo de enfraquecimento da figura paterna patriarcal, portanto, está


ligado ao processo de mudança das relações sociais, que incidiram no interior das
relações domésticas e estabeleceram outros parâmetros de juízo sobre a autoridade
(CORDES, 2002).
Segundo Morandé (1996, p. 282), “[...] tudo aquilo que é visível no mundo em
que vivemos torna-se conhecível e amável.”, portanto, essa dispensa da atuação
paterna possui, para alguns estudiosos, outras implicações, como a questão da
invisibilidade do pai nos arranjos familiares modernos e a conseqüente
“desamorização” em torno da sua figura, já que a condição para ser reconhecido é
ser visível.
No âmbito científico, essa invisibilidade se traduziu como rejeição a toda
espécie de tentativa de reviver o antigo personagem gerador de abusos sofridos
pelas mulheres e justificador das discriminações aplicadas, principalmente, sobre as
minorias sexuais. De modo que, àquela família autoritária do sistema patriarcal,
preferiu-se uma outra não tão bem condensada e refém dos cuidados de outras
instâncias que se responsabilizaram em curar as feridas atribuídas àquele pai.

À família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família


mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de
lembranças recalcadas. Ao perder sua auréola de virtude, o pai que
dominava, forneceu então uma imagem invertida de si mesmo, deixando
transparecer um eu descentrado, autobiográfico, individualizado, cuja
grande fratura a psicanálise tentará assumir durante o século XX.
(ROUDINESCO, 2003, p. 21).

A crítica ao pai como figura de autoridade abusiva se aprofunda com o


advento dos movimentos de politização dos gêneros. Os movimento gay e lésbico,
organizados politicamente, atingem, com seu discurso, os nichos mais sagrados do
patriarcalismo, a saber: a repressão sexual e a heterossexualidade compulsória
(CASTELLS, 1999). De fato, os movimentos lesbianos e gay, que não se pretendem
simples movimentos em defesa de direitos humanos fundamentais, como a
liberdade de expressão e a descriminalização das diferenças sexuais, na
modernidade, constituíram-se em poderosas expressões da identidade sexual e,
assim, desafiaram estruturas milenares nas quais a mentalidade comum ocidental se
assentou. Unindo-se ao Feminismo, outro espaço de revisão do papel masculino na
17

sociedade, esses movimentos deflagraram as exigências necessárias para que o


antigo pai, autoritário e repressor, fosse substituído por novas paternidades que
abarcassem, inclusive, o formato da educação familiar solitária, com um dos
cônjuges apenas, ou igualitária, ou homo-afetiva.
Nessa verdadeira revolução cultural, os filhos também se tornaram uma
questão secundária. Segundo Castells (1999), essas mudanças se caracterizaram
como um processo de desvinculação do casamento com a heterossexualidade e dos
filhos propriamente ditos com a família, que pode existir sem a presença de novos
componentes para além do casal, de modo que, quanto ao casamento tradicional,
apenas se reconhece sua manutenção superficial e se lhe anuncia sempre as
debilidades e relativização, em relação a outras formas de constituição familiar
(GIDDENS, 1993).
De acordo com o procedimento interdisciplinar desse estudo, também
buscamos em outras áreas da cultura, outras interpretações desse processo de
enfraquecimento. Risé (2003), aqui será apontado com o objetivo de mostrar como,
numa analítica mais psicológica, as implicações sociológicas da ausência da antiga
figura do pai podem ser compreendidas, já que seus escritos traçam uma
investigação esclarecedora a respeito dos problemas decorrentes desse
enfraquecimento sobre a constituição da personalidade dos filhos e,
conseqüentemente, as fissuras na socialização dos mesmos, diga-se na atualidade,
devido à anulação da figura paterna.
A figura do pai canalizou muitas dessas discussões que procuramos elencar
criticamente nesse trabalho, principalmente porque, sob sua responsabilidade, foi
colocada uma série de efeitos nocivos à individualidade e à liberdade requeridas
nesses tempos da modernidade, já que, além de personagem de arbítrio, o pai
tornara-se também o alvo privilegiado de muitas releituras teóricas da cultura, cujo
objetivo concentra-se na emancipação dos sexos ou na relativização dos costumes.
Sugerido sempre como elemento de conflito, sua dispensa tornou-se
inevitável. Responsabilizada pela culpa freudiana, pelos crimes passionais ou de
família, pela rigidez na formação social dos papéis domésticos e por expressar as
agressividades policiais registradas a partir da legislação de proteção à mulher e à
infância, a autoridade paterna é hoje um espaço delicado quando assumida a
discussão acerca de sua positividade nos arranjos familiares. No entanto, após
décadas de desprestígio, o pai, e não necessariamente o patriarcado, começa a ser
18

reclamado como figura que possa explicar, com seu enfraquecimento e ausência,
outros conflitos que não se pensara existir no cenário das relações familiares e de
gênero em tempos de autoritarismos masculinos da paternidade antiga.
Dividimos, portanto, esse estudo em três capítulos, nos quais,
sistematicamente, analisamos os aspectos teóricos dessa discussão acerca do
enfraquecimento da figura paterna na atualidade. Assim, para melhor compreensão
dessa pesquisa, procedemos da seguinte forma: no capítulo I, procuramos expor a
metodologia assumida na pesquisa. No capítulo II, analisamos as razões sócio-
políticas que formaram a simbólica do pai patriarcal. E, no III capítulo, investigamos
as releituras teóricas e os motivos sociais de sua dispensa. O trabalho termina com
as considerações acerca dos efeitos da queda do patriarcalismo sobre a figura do
pai na atualidade e como tal fato concorreu para a exigência de uma nova
paternidade a preencher esse espaço deixado no vazio pelos discursos
revisionistas.
19

2 - CAPÍTULO I - A DIMENSÃO TEÓRICA

2.1 - A RELEVÂNCIA DO TEMA

Não parecem estar com a razão os


que acusam este ensaio de válido
apenas para a região geográfica
onde desabrochou o sistema
patriarcal.
Freyre, 1983

O patriarcalismo é uma temática de vastas dimensões. Por conta disso, seu


estudo exige maior rigor metodológico, para não incorrer em generalizações
apressadas. Sabe-se, porém, que, para se fazer uma pesquisa cientifica, é preciso
vigilância epistemológica, ou seja, a identificação dos próprios preconceitos, que,
quando não depurados a tempo, podem comprometer o andamento do estudo. Toda
pesquisa necessita, portanto, de uma certa arqueologia do conhecimento, que
determine o lugar do qual se parte para investigar um objeto de ciência, de modo
que se consiga unir o que o vulgo separa e separar o que o comum confunde.
Bourdieu (2002) considera esse ponto como o fundante para se erigir uma
investigação capaz de dar conta de um conceito. Ele acentua, por exemplo, que todo
conhecimento é experimental, ladeado por valores da vida, mas não determinado
apenas por um positivismo causal. Assim, se nossas pré-noções são as
interferências mais perigosas num percurso de estudo desse gênero, só a vigilância
metodológica nos possibilitará estabelecer relações conceituais (e não pessoais)
sobre o problema investigado. Para isso é preciso explicitar, antes de proceder ao
estudo completo, os objetivos que se inscrevem na pesquisa e a identificação do
conceito que será estudado. Une-se a esse procedimento, o cuidado com a
linguagem utilizada, a fuga do enciclopedismo, e a cuidadosa construção do quadro
de referência para evitar generalizações (ECO, 2004).
No caso dessa investigação, cujo objeto é por si já imerso em pré-definições,
muitas das quais apaixonadamente defendidas, a figura do pai, essas
recomendações tornam-se de primeira ordem. Enquanto estudo que integra o
conjunto de outras pesquisas, que entra em contato com uma série de investigações
anteriores, esse trabalho é a apresentação de uma leitura cujo tópico, a figura do pai
20

e seu enfraquecimento, não se encerra nele, pois as discussões desenvolvidas aqui


atingem outras temáticas, com as quais esse processo de enfraquecimento da figura
paterna tradicional está ligado.
Mais do que uma constatação do declínio do paternalismo, o que já fora
completamente divulgado, especialmente pelos discursos vanguardistas de gênero,
a pesquisa aqui desenvolvida visa a ligação entre a efetividade daquela figura
paterna, a um tempo que se lhe exigia as características hoje lidas como abusivas, e
a inoperância de uma análise que exija a exclusão da figura do pai na atualidade
como resposta à sua atuação anterior. Nesse ponto, servimo-nos de autores que
constataram nas suas investigações as razões sócio-políticas desse eclipse da
paternidade, como Cláudio Risé, Paul Josef Cordes e Castells, que nos ofereceram
uma releitura do declínio patriarcal não apenas ligada às críticas ideológicas, mas às
mudanças sócio-políticas e à situação atual dos arranjos familiares após a dispensa
do mesmo. Esses pesquisadores, distintos em modalidades de estudo e extensão
em seus contributos, foram assim elencados devido a proximidade temática que
abordam, o que não significa equiparidade conceitual ou científica. Assim também
procedemos ao longo do trabalho com outros pesquisadores ou pensadores que
trataram da questão da queda do patriarcalismo, tais como Therborn e Bourdieu, ou
que contribuíram para sua caracterização na modernidade, a exemplo dos filósofos
citados.
O procedimento metodológico que assumimos neste estudo é aquele que
Alberto Melucci considerou como próprio da sociologia:

[...] “estudar os procedimentos de argumentação e de escrita, através dos


quais ele [Melucci] construiu e continua a construir o próprio gênero literário
(DAL LAGO, 1995:43)”, sem renunciar a modificá-lo, buscando novas
experimentações e modos de expressão [...] (MELUCCI, 2005, p. 275).

Ainda seguindo as recomendações metodológicas de outro teórico, a saber,


Umberto Eco (2003), o presente estudo assumiu para si, no que se refere à escolha
do tema, a pesquisa mais ampliada dessa questão, entendendo-se para a
interdisciplinaridade, em uma continuidade investigativa para complementar a
temática, tal como se caracterizam, segundo esse autor, as pesquisas
contemporâneas.
21

No que se refere à constituição da família no Brasil, porém, a simbólica do


pai patriarcal, posta nos estudos de Gilberto Freyre, é de capital importância para
qualquer discussão que leve em consideração o papel do patriarcalismo na
formação da identidade familiar brasileira. Sobre isso, se pode afirmar:

Tal família terá papel central na formação do país, pois é, conforme Freyre,
o grande fator colonizador, que toma em suas mãos a tarefa de construir o
país, cultivando o solo, construindo benfeitorias e comprando escravos e
ferramentas para a produção. Esta “força social que se desdobra em
política” (FREYRE, 1994: 19), ocupará o lugar empreendedor e diretor do
Estado, fazendo com que o rei de Portugal quase que reina sem governar.
(ITABORAÍ, 2005, p. 173).

Por isso, nesse estudo, referir-nos-emos, à figura patriarcal, que na atualidade


se apresenta flutuante e em franco processo de mudança quanto à sua simbólica
anterior, haja vista a transformação paradigmática nas famílias dos tempos atuais,
para, com isso, investigarmos a atual configuração da paternidade nos arranjos
familiares modernos.
Partindo das obras de Gilberto Freyre para constatar como se deu a formação
da simbólica na família patriarcal, na qual o pai possuía uma marca autoritária,
investigamos os motivos que, no contexto atual, estão fazendo desaparecer essa
figura de autoridade.
Devido ao fato de sermos devedores desse sistema patriarcal, segundo
Freyre, o estudo da formação de seus personagens e seus componentes é
fundamental para um trabalho que vise compreender as transformações atuais que
vem sofrendo a figura do pai no nosso meio, principalmente no que se refere a um
enfraquecimento da antiga dependência dos indivíduos que compunham aquela
família em suas relações com a autoridade paterna (SAMARA, 1998).
De modo geral, esse estudo pretende analisar, na formação da sociedade
brasileira, segundo as pesquisas de Gilberto Freyre, a identidade do pai patriarcal
como elemento centro-catalizador do núcleo familiar e, consequentemente, para
onde a figura do pai migrou ou está migrando devido às mudanças sociais na
atualidade, já que

[...] o pai que antes transmitia um sangue, uma hereditariedade, um nome


de família, um status social e político, agora parece psicologizar-se,
transferindo um caráter, uma psique, um inconsciente, participando da
estruturação de um ego que se individualiza na extensão e na tensão com
essa figura fundadora do eu. (RAGO, 2002, p. 116).
22

Estuda-se, deste modo, como se davam as relações familiares entre o pai


patriarcal e os demais elementos da sociedade colonial que compunham a família
daquele período, segundo Gilberto Freyre, de modo especial em “Casa Grande e
Senzala” (FREYRE, 1983). Interessa saber e em que sentido nisso pode-se invocar
uma certa “hereditariedade de família” na sociedade atual, para usar uma
terminologia freyriana. Espera-se compreender, nesse trabalho, o tipo de pai que
hoje se tem nas famílias sem núcleo androcêntrico, principalmente as relações entre
essa figura e as noções novas que interferem nos comportamentos familiares, tais
como as novas concepções de liberdade e autonomia, entendendo que:

A incompreensão do fundamento da liberdade está na base da crise atual


da paternidade. Se a conjugalidade perde seu sentido de doação
incondicional e irrevogável da liberdade própria e da liberdade do outro e se
transforma em um contrato que se conclui unilateralmente ou por acordo
mútuo das partes, não é possível vê-la associada a um ato que, como a
procriação, gera um vínculo invisível que acompanhará os progenitores pelo
resto das suas vidas. (MORANDÉ, 1996, p. 258).

Nesse sentido, esta investigação pretende não apenas conhecer o processo


que erigiu o pai patriarcal segundo as pesquisas de Gilberto Freyre, mas também
sua resultante, o pai que hoje gradativamente se encontra em declínio e quiçá em
franca substituição.

2.2 - ESQUECIMENTO TEÓRICO DO PAI

O pai é figura de proa na nossa cultura ocidental para qualquer tentativa de


compreensão acerca da formação da família e da nossa identidade. Desde a
literatura universal às altas esferas da Filosofia, na modernidade, o pai tende a ser
apresentado como um personagem portador de tensões na esfera das relações
familiares. Esse mesmo tratamento o pai recebe de outros campos da cultura, como,
por exemplo, em Shakespeare, nas peças “Rei Lear” e “Hamlet”, e, no mesmo
seguimento de problematização, num plano conceitual diferente do da Literatura, em
Sigmund Freud, que, aliás, centra o processo de formação da identidade na relação
direta com a figura paterna, principalmente por sua função coercitiva, como nos
assegura Mezan (2006, p. 299):
23

A coerção das paixões a que Freud alude em seu artigo – e que compara ao
feito mais elevado de que é capaz um homem – deveria se aplicar, primeiro
e exemplarmente, a ele mesmo. E, nessa coerção, que marca o advento da
humanidade do homem, o pai é chamado a representar um papel primordial.

Até e principalmente nos mitos gregos, o pai aparece como figura


engendradora de identidade conflitiva, como Moore observa, na Odisséia de
Homero, no exemplo de Ulisses1. Sobre essas tensões, outras tantas análises
aparecem na atualidade, centrando-se na figura do pai e no que ela possui de
problemática na relação com os filhos e com o feminino. Durval Muniz de
Albuquerque (2002), por exemplo, em “A Invenção do Falo”, e Eurico Alves (1989),
em “Fidalgos e Vaqueiros”, ambos apresentam o pai como personagem de conflito.
Aliás, a respeito dos efeitos desse tratamento, muito foram apropriados os estudos
de Mitschrlich (PETRINI, 2005), que, em “Verso Una Societeá Senza Padre”, já nos
idos de 1970, interessava-se em pensar o desaparecimento do pai como um dos
efeitos da visão negativa moderna deste personagem.
Lima Filho (2002) também se refere a esse enfraquecimento teórico como
resultante da figuração que o pai recebeu na modernidade, relacionando isso ao
movimento de superação do patriarcado histórico promovido pela ênfase que se deu
na psicologia aos dinamismos capitaneados pelos arquétipos da mãe e da
feminilidade2.

1
No estudo sobre a figura mítica do pai e as tensões decorrentes de sua relação com o processo de
identidade nos filhos, Moore assim se expressa: Uma das mais extraordinárias histórias míticas de
nosso passado coletivo, uma história tão sagrada quanto qualquer outra literatura religiosa, é a que
fala de um homem que tenta resgatar sua paternidade, de uma esposa que anseia por seu marido e
de um filho que está à procura de seu pai desaparecido. No início da Odisséia de Homero, Ulisses
(ou Odisseu) está sentado à beira-mar, no intervalo de suas viagens imprevistas após uma longa e
difícil guerra, desejando estar em casa com seu filho, seu pai e sua esposa. Em seu anseio e
melancolia, faz a famosa pergunta: “Será que alguém sabe quem é seu pai?” é uma pergunta que
muitos homens e mulheres fazem de diversas maneiras. Se meu pai está morto, ou era frio e
ausente, ou era um tirano, ou abusou de mim, ou foi maravilhoso, mas não está agora comigo, então
quem é meu pai agora, onde consigo sentimentos como proteção, autoridade, confiança, sabedoria e
senso prático de que necessito para viver? Como posso evocar um mito paterno de maneira a dar à
minha vida a direção de que ele precisa? (MOORE, 2000, p. 43-44).
2
Para ele, a imagem fantasmática do pai na atualidade trouxe conseqüências profundas não apenas
para a dinâmica econômica dos indivíduos, como também na ordem social. Contudo, nas situações
em que nossas consciências sequer puderam diferenciar o sentido da moralidade em face da falta de
uma interdição paterna estruturante, da ineficácia de uma interdição frouxa, ou da implacabilidade de
uma interdição contundente e excessivamente rígida, ou mesmo lesiva, ficamos à deriva em um mar
de indiscriminações, insuficientes ou tão rigidamente estruturadas que, em quaisquer circunstâncias,
desconhecemos a face iluminada e justa do pai, quem sabe identificado com seu avesso. (LIMA
FILHO, 2002, p. 19).
24

A hipótese que move o estudo aqui desenvolvido, portanto, corresponde a


uma análise dessa figura paterna patriarcal comparada à figura paterna atual, que
aparece fugidia e pouco estável nos nossos dias, isso por quê:

Mesmo para constatar sua ausência, no entanto, o pai é o ponto de partida


de toda narrativa. É o seu nome que dá origem e sentido a toda trajetória
posterior da vida de quem é biografado. O nome do pai ou o não nome do
pai serve de origem a uma identidade de sujeito masculino que se elabora
como sua projeção, como sua continuação ou como distanciamento
doloroso e traumático. (RAGO, 2002, p. 113).

Por ser um elemento constitutivo de identidade, o pai, deste modo, possui um


lugar de destaque em qualquer agrupamento humano, mais ainda talvez na
formação cultural da família brasileira, que durante muito tempo esteve ligada a
essa figura paterna que possuía conotações de força, de segurança, enfim, de lei, o
que, aliás, para Sérgio Buarque de Holanda (1976), foi causa maior do seu atraso
político, mas, para Freyre (1983), foi a razão pela qual se deu o seu
desenvolvimento. O pai, assim, não é elemento qualquer dentro do nosso ou de
outro contexto, como nos assegura Cordes (2002, p. 47):

A imagem que a sociedade tem do pai não é de fato irrelevante para cada
homem e pai em particular, mas repercute profundamente sobre ele. Quem
se esquece disso tem que estar ciente de alguns dados fornecidos pela
experiência, dados que temos em todos os casos, inclusive de refletir sobre
a nossa situação atual.

O processo de desaparecimento ou enfraquecimento não apenas do pai


patriarcal, mas também do pai enquanto tal, o desprestígio dessa figura no olhar
social contemporâneo,a constatação inclusive da sua ausência e o entendimento de
que a figura paterna é responsável por uma boa parte da identidade dos sujeitos
numa família serão as temáticas que acompanharão esse estudo: “Diga o nome de
família e comece a explicar quem você é, fale quem é seu pai e sua identidade
estará assegurada.” (RAGO, 2002, p. 113).
Tomando como ponto de partida os estudos de Freyre, essa análise procurará
compreender como aconteceu o processo de transição de um pai patrão, aquele que
era a lei e a primeira experiência de justiça e a materialização da palavra “não”, para
um pai ausente ou de presença pouco significativa, e, dessa forma, identificar quais
forças concorreram na modernidade para enfraquecer tamanha autoridade,
25

principalmente os porquês dessa mudança paradigmática que parece ter dissociado


a figura do pai de um elemento educador positivo para os filhos3.
A busca da identidade dessa figura que parece não mais possuir aos olhos da
sociedade atual essa essencialidade referida é um potente motriz para esse estudo
e, conseqüentemente, para a compreensão das mudanças que a simbólica paterna
está sofrendo nos nossos dias, principalmente no que se refere a um certo
enfraquecimento, quiçá o seu total eclipse.

Esta [a autoridade paterna] parece começar a perder consistência, a


coatizar-se, a desterritorializar-se, cair na vida, na história. Com o mundo
moderno, outras forças parecem competir com este Pai todo poderoso,
criador do céu e da terra, origem de toda autoridade. O adulto pode, agora,
olhar para a criança que foi e perceber que toda a crueldade do pai exprimia
uma fraqueza crescente. Pais que viam seu poder minguar socialmente. A
história deixando a casa escura e triste, como cemitérios e ruínas mal-
assombradas. A figura imponente do pai minguando, ganhando contornos
lastimáveis. (RAGO, 2002: 114).

2.3 - A TEMATIZAÇÃO DO PAI PARA O BRASIL

Na sociologia de Gilberto Freyre, a vida doméstica patriarcal é descrita nos


seus estudos com o objetivo de verificar quando e como se formou a simbólica
desse pai, forte e potente, mas em processo de diluição, entre nós:

A formação patriarcal do Brasil explica-se tanto nas suas virtudes como nos
seus defeitos, menos em termos de “raça” e de “religião” do que em termos
econômicos, de experiência de cultura e de organização da família, que foi
aqui a verdadeira unidade colonizadora. (FREYRE, 1983, p. 202).

A família como núcleo colonizador, segundo Freyre, encontrava no pai


patriarcal o elemento que catapultava para fora dos âmbitos domésticos um estilo de
3
Scola também analisa essa ruptura com a figura paterna e as conseqüências da negação da
paternidade como elemento necessário para a constituição do ambiente familiar nesses termos: “Por
ser concreto, podemos ilustrar a doença da liberdade fazendo referência a um fenômeno grave e
maciço que limita a vida de nossas famílias e sociedade em geral. Refiro-me à ausência de
paternidade, entendendo como paternidade não apenas aquela decisiva e própria da figura
masculina, mas aquela constituída da atividade educativa primária própria dos pais em geral. Visto
que a paternidade é a fonte e o paradigma de todo fenômeno educativo, a ausência de paternidade
ao mesmo tempo, causa e efeito da doença da liberdade, portanto, ofusca a experiência humana
elementar de relação entre o eu e a realidade, mediante a qual o homem alcança a liberdade. Ele é,
portanto, incapaz de crescer segundo a totalidade de sua potencialidade e é sempre mais
dependente da vertigem do nada. De fato, se existe hoje uma dificuldade no fenômeno educacional,
como tal, é a dificuldade em se reconhecer como filhos e, então, em ser pais (SCOLA, 1996: 340)”.
26

ser, todo um conjunto de valores que justificava, e, para nós, hoje, explica um molde
social que nos foi legado e atualmente é contestado com a mesma veemência com
que foi estabelecido. Gilberto Freyre apresenta a família patriarcal como a maior e
mais importante unidade colonizadora do Brasil, com seu conjunto de sistema de
vida incidindo no macro espaço, da economia à organização política (FREYRE,
1983).
No centro desse fenômeno está a figura patriarcal (rural e escravocrata,
machista e racista), forte o suficiente para criar identidade. O pai foi o nome a partir
do qual os indivíduos tinham nome.
No panorama da sociedade colonial, o pai emergia como uma figura sem a
qual nenhuma ordem seria possível. A distância abismal entre o poder central e os
recônditos perdidos da grande colônia Brasil, a ausência dos cuidados do Estado
para a manutenção da ordem e a vigência das leis, a carência de quaisquer serviços
de socorro policial e social, fizeram com que a família patriarcal se ocupasse da
totalidade de todas as expressões da vida social. O pai ligava-se, então, das
obrigações de genitor à objetividade de garantir tanto a organização econômica
como a civil, isso não apenas no Brasil, mas em outras regiões também colonizadas
nas Américas (PETRINI, 1992).
Ora, essa família baseada na figura patriarcal, por mais potente que tenha
sido, hoje está se desconstruindo e dando lugar a uma outra figura de família e de
paternidade. Logo, vale muito conhecer e compreender esse processo de
substituição para, ao menos em termos de projeções, antecipar-se ao pai e à família
que estão por vir ou já estão entre nós.

O nome do pai, que representava a ordem, a tradição, a autoridade, o ponto


de partida para a reprodução do mesmo, esgarça-se, fragmenta-se. O pai,
agora, diz-se em vários nomes e isto parece desordem, abandono das
tradições, anarquia e crise da autoridade. Nestes discursos biográficos,
estes filhos parecem sentir-se menores. Quando se perde o pai – ou o pai
se perde – todos da família parecem ser tragados para o torvelinho do
social. A proteção que seu poder parecia representar contra a entrada na
história parece se esgotar. Agora, jogados no mundo, todos têm que fazer
suas próprias histórias, descobrem-se menores e abandonados. (RAGO,
2002, p. 115).

De fato, esse pai arcaico, que na obra de Freyre é, ao mesmo tempo, legado
português atingido por certa tolerância dos trópicos, ou seja, um pai multiforme nas
ações, mas erigido monoliticamente, que encontra sua formação num tripé para
27

além de si — o engenho, a escravidão e o latifúndio — é pai hoje negado e


contestado. Certo que dessa figura dominante do pai patriarcal, cheia de contornos
conflitivos e de mão forte, a equilibrar abusos e proteção, atualmente parece emergir
um outro personagem que, para justificar o exercício do papel da paternidade, está
assumindo outros comportamentos que não podiam ser identificados naquele pai
centralizador e machista, o que nos parece evidente acerca dessa metamorfose pela
qual está passando o pai nos nossos dias.
Freyre (1983), porém, principalmente na sua obra maior "Casa Grande e
Senzala", constrói um elaborado estudo sobre a história da formação da sociedade
brasileira a partir de uma minuciosa observação da família patriarcal do Nordeste
colonial, centrando seu olhar justamente nessa figura. Sua obra, portanto, flagra
costumes da família patriarcal de modo a construir um panorama da história íntima e
social da família brasileira, tendo o pai como mote. A compreensão dos elementos
formadores desse pai dar-nos-á uma precisa visão acerca dos motivos de certa
rejeição que sofre na contemporaneidade.
O certo é que a presença da figura paterna no desenvolvimento da criança é
determinante para a elaboração de valores próprios e para a auto-imagem do
indivíduo (MEZAN, 2006). Compreender o processo do seu desaparecimento ou do
seu enfraquecimento é compreender que sociedade é esta, com o pai ausente ou
enfraquecido, ou seja: “A fisionomia que a sociedade (sua personalidade coletiva), e
o individuo (a personalidade subjetiva) assumem em tempos de luta contra a figura
paterna (a revolta contra o pai como chamava Gerard Mendel em 1968).” (RISÉ,
2005, p. 96).
Assim, o objetivo geral desse estudo é investigar as razões do
enfraquecimento da figura do pai, a partir da rejeição do modelo patriarcalista, e da
sua associação com personagens de abuso e vilania dentro do contexto familiar
moderno. São ainda objetivos complementares desta investigação: compreender as
caracterizações atribuídas à figura paterna, provindas de discursos diversos, como o
filosófico e o político, para daí elucidar a resultante dessas investidas, tanto políticas
quanto teóricas, sobre a paternidade atual.
28

3 - CAPÍTULO II - ESTADO AUSENTE, PAI POTENTE

3.1 – A REVISÃO

“Tudo era desequilíbrio,


grandes excessos e grandes
deficiências...”

Freyre, 1983

Associado a uma série de práticas abusivas, o patriarcalismo não deixou de


ser alvo de especulações várias a respeito de seu contributo à submissão feminina e
à tiranização dos indivíduos (BOURDIEU, 2002).
A respeito de sua figuração, origem e desconstrução, Therborn (2006) traça
um diagnostico esclarecedor. Delineando sua face mundial e analisando os
procedimentos legais e atos de resistência à sua supremacia na cultura
androcêntrica ocidental, o autor de Sexo e Poder caracteriza o patriarcado como
uma relação de dominação masculina do pai-marido sobre a mulher-esposa e os
filhos-herdeiros que só viera encontrar rivalidade à altura com o advento do
Feminismo, movimento responsável pelas reconfigurações das relações sócio-
familiares, e com a emergência das legislações modernas protetoras das crianças e
da mulher frente à tirania do homem.
Neste contexto, ele elenca também outros fatores que corroboraram com o
enfraquecimento daquela figura de poder, tais como a Revolução Industrial e a
urbanização, que redefiniram o âmbito do papel paterno e refizeram a geografia do
poder familiar, assentado no tripé obediência, disciplina e deferência, e que,
conjugadas com um movimento de revisão dos discursos religiosos sobre a
sexualidade, desafiaram as bases ideológicas e práticas dos comportamentos
machistas, concluindo então: “O patriarcado, o direito do pai foi o grande perdedor
do século XX” (THERBORN, 2000, p. 115).
Mesmo com tal diagnóstico, porém, a exemplo da insistência freyriana acerca
das sobrevivências do patriarcalismo, Therborn é também do número daqueles que
não consideram o “despatriarcalismo” – termo por ele utilizado para se referir ao
enfraquecimento da figura paterna patriarcal – como o fim do patriarcado, pois,
mesmo após os avanços legais operados pela Revolução Russa na Europa e pela
29

Revolução Mexicana nas Américas, segundo Therborn (2000, p. 162), o


patriarcalismo não sucumbiu por completo.

Apesar de todas as mudanças de natureza secular do século XX terem


marcado época, isso não significou o desaparecimento do patriarcado da
face da terra. Em vastas áreas do mundo, ele está ainda fortemente
entrincheirado. Movimentos neo-patriarcais também despontaram, via de
regra, com argumentação religiosa.

Já para Saffioti, o patriarcalismo não se restringiu aos mecanismos da


distribuição histórica dos poderes familiares das relações homem-mulher, mas deve
ser visto a partir do seu caráter histórico enquanto processo de construção
ideológica de seu formato universal. Contrariando o que Therborn afirma, Saffioti
apresenta uma reflexão nesse ponto para combater a concepção segundo a qual
“[...] todas as sociedades do passado remoto, do passado mais próximo e do
momento atual comportaram/comportam a subordinação das mulheres aos
homens.” (SAFFIOTI, 2004, p. 104).
Bourdieu (2002), que Saffioti utiliza para construir essa reflexão, de fato,
refere-se ao patriarcalismo como um dos construtos históricos da cultura ocidental
mais estabelecidos, mas não atemporal, inscrito, a bem da verdade, ainda para ele,
no rol das violências simbólicas internalizadas pelo senso comum, inclusive nas
próprias mulheres por meio da dominação masculina do pai sobre todos, e,
convencionalmente, aplicado como um hábito social tão reproduzido quanto
justificado. Segundo Bourdieu, principalmente por meio dos três mecanismos sócio-
culturais mais poderosos do Ocidente, a saber, a Igreja, a Família, e o Estado, o
patriarcado encontrou o apoio que precisava pra estabelecer-se como natural e
ordenável.
Na linha dessa mesma caracterização, mas na discussão do conceito mais
que do fato social, Horkheimer também pinta o pai com tintas de autoritarismos e
tiranias. De certo, num de seus textos mais famosos, o pensador alemão associa o
exercício do poder paterno aos abusos de mandos sobre mulheres e crianças, e
apresenta a família nuclear como o lugar mais privilegiado da realização do seu
poder.

A educação da família nuclear constitui a causa da aparente naturalidade do


poder paterno, que resulta da dupla raiz de sua posição econômica e de sua
força física assegurada juridicamente num aprendizado sob essa lente para
30

o comportamento especificamente autoritário nesta sociedade.


(HORKHEIMER, 1992, p. 216).

Como se vê, para ele, da constituição da família como organismo


supostamente ordenado pela natureza para o crescimento das crianças e a
estabilização social, emergiu, na figura do pai, o direito moral de força e de gerência
sobre os indivíduos e toda uma prática abusiva que se mostrará historicamente
ligada ao excesso e à tiranização masculina e paterna.
Giddens (2004), que não é filósofo, mas também se interessa pela
conceituação do pai, também se aproxima dessa descrição, pois, a exemplo dessa
analítica, ele reconhece que, apesar da família ser um ambiente de segurança, ela
também pode ser um amálgama de conflitos terrificantes e grandes abusos:

Para muitas pessoas, a família proporciona uma fonte vital de consolo e


conforto, amor e companheirismo. No entanto, também pode ser um lugar
de exploração, solidão e profunda desigualdade. (GIDDENS, 2004, p. 177).

Na produção freyriana, de certo modo, o ambiente familiar, centrado no


personagem do pai patriarcal, não é também isentado dessas marcas. Tirania,
abusos, excessos, autoritarismos, desmandos, violências, são termos associados
aos escritos de Freyre, desde Casa Grande e Senzala (1983) à Ordem e Progresso
(2004) e, principalmente em Sobrados e Mucambos (2003), mas suas intenções, no
que se refere à caracterização da família eram outras, como podemos ver abaixo:

Ao centrar sua análise na família patriarcal, Freyre forneceu ao estudo da


cultura um suporte sociológico que lhe permitiu nuanças de certa metafísica
de fenômeno cultural presente em algumas de suas influências com
Spengler. Em sua análise da família patriarcal os aspectos materiais do
meio físico e a economia estão sempre presentes. Os processos sócio-
econômicos gerais aparecem mediados pela organização da vida
doméstica, e os conflitos são visualizados no complexo produtivo, mas
também cultural, da casa-grande e da senzala. (LARRETA-GIUCCE, 2007,
p. 425-426).

Portanto, de dentro da Casa-grande ou para dentro dela que, convergindo a


análise de Freyre, os elementos fundadores das relações familiares no solo
brasileiro legaram para um povo sem epopéias toda a carga de um material que lhe
possibilitará desde os comportamentos às mentalidades e não somente uma crítica
corrosiva à figura paterna e à família que o abrigou.
31

2.2 - PATRIARCALISMO BRASILEIRO

O patriarcalismo no Ocidente, conquanto, sendo uma instituição tão antiga


quanto ampla, foi modelado por séculos de exercício do poder masculino e
instrumentalizado pela cultura androcêntrica, e, por isso, tomou formas
diversificadas, perpetuando-se pelo mundo ocidental em todas as regiões cuja
influência européia foi sentida. No caso do Brasil, isso não se deu de forma
diferente.
A partir dos estudos de Gilberto Freyre, é possível mapear uma discussão
acerca do lugar da figura do pai patriarcal na mentalidade tradicional brasileira e,
conseqüentemente, analisar o arranjo familiar mais clássico da família no Brasil: a
família patriarcal. Acentuando a contribuição de Gilberto Freyre no entendimento dos
elementos fundadores da sociedade colonial até a sua dissolução, mas não
desaparecimento, nos fins do século XIX, percorreremos os momentos de suas
obras procurando enfatizar as principais características da família matricial analisada
nas páginas daquele estudo e seu centramento nos valores patriarcais,
acrescentando-lhe outras interpretações a respeito da mesma temática. A obra
central e mais conhecida de Gilberto Freyre é um marco divisor de águas nos
estudos sociológicos no Brasil: Casa Grande e Senzala4.
Esse estudo, o desenvolvido em Casa Grande e Senzala, ao mesmo tempo
em que elevou o seu autor ao campo obrigatório das discussões a respeito da
identidade brasileira, cooperou com o desenvolvimento de uma pesquisa digna de
figurar para além do seu tempo, mas também até hoje divide opiniões.
Se alguns dos seus contemporâneos consideram-na, junto com seu autor,
elevada interpretação da cultura brasileira a partir de elementos outrora
negligenciados ou estigmatizados, outros tantos, na mesma época ou depois, não
apresentam a mesma opinião.

4
A obra Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, teve como objetivo erigir uma visão do Brasil
como uma nação racial culturalmente mestiça, híbrida. É para muitos, a representação de um mito
(LARRETA-GIUSSI, 2007), e o prestigio que suas páginas prestam aos sincretismos culturais do
Brasil chega a ser em demasia nacionalista. No entanto, como discussão de identidade, esse livro, às
vezes interpretado como ufanismo utópico, foi um dos primeiros estudos profundos e modernos sobre
os elementos constituintes da vida nos trópicos sem os arremedos da verificação estrangeira. De
modo que se pode afirmar: “Gilberto Freyre foi o grande idealizador dos modos de vista dos grupos
dominantes no Brasil colonial. O livro Casa Grande e Senzala, clássico de nossa historiografia,
permanece como um dos mais completos indicadores de caminhos a serem escolhidos por
pesquisadores atuais, no que se refere à História (sic) social da Colônia ou, melhor dizendo, da
história do cotidiano e da vida privada no período colonial.” (CASTRO FARIA, 1998, p. 45).
32

Assim, conforme a introdução de Casa Grande e Senzala, na edição de 1983,


José Lins do Rego via Freyre como um prodígio, Otto Lara Resende, Nelson
Rodrigues e Darcy Ribeiro, como fundador do Brasil no plano cultural, mas João
Manoel Cardoso de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Buarque de
Holanda, os seus contrapontos5, contestando não somente essa figuração,
apontando-lhe a carga ideológica contida nos seus escritos, serão discordantes
nesse ponto. Certo que nenhum deles diminuiu a extensão de seu contributo, de
modo que ele é considerado um autor genial porque escreveu Casa Grande e
Senzala e vice-versa. O que se verifica em todas essas críticas são os limites
próprios de quem se situa sociologicamente de um ponto específico, no seu caso da
Casa Grande, e lança o seu olhar sobre realidades mais dinâmicas que aquela
interpretação foi capaz de completar.
O próprio Sérgio Buarque, no entanto, irá apresentar-se com tons iniciais à
sombra da narrativa freyriana, como sugerem Larreta-Giucci (2007, p. 435):

A leitura de Casa Grande e Senzala está claramente presente em Raízes do


Brasil (1936), de Sergio Buarque de Holanda. A primeira edição foi
publicada na “Coleção Documentos Brasileiros” então dirigida por Gilberto
Freyre. O famoso ensaio de Sergio Buarque começa de modo
caracteristicamente freyriano: Todo estudo compreensivo da sociedade
brasileira há de destacar o fato verdadeiramente fundamental de
construirmos o único estado bem sucedido, e em larga escala, de
transplantação da cultura européia para uma zona de clima tropical e
subtropical.

Nascido na cidade do Recife, em 1900, e detentor de um percurso acadêmico


amplo, além da tímida incursão política, sendo deputado estadual por Pernambuco,
pela UDN, a figura de Freyre se confunde com seus estudos a ponto de se observar,
nos seus escritos, o seu modo de escrever como um reflexo do jeito mesmo de ser
do seu autor, daí podendo-se afirma que:

5
Segundo Francisco de Oliveira em “Os Sentidos da democracia, políticas de dessenso e Hegemonia
Global” (1999), a formação da sociedade brasileira passou, necessariamente, pela escrita de seus
“intelectuais demiúrgicos”, de modo especial, inaugurados por Gilberto Freyre, Caio Prado Junior,
Sergio Buarque de Holanda, Celso Furtado e mais, recentemente, Florestan Fernandes. Acrescente-
se a esses, Fernando Henrique Cardoso (1993), que, com sua crítica às caracterizações freyrianas
em “Os Livros que inventaram o Brasil”, também reserva aos demais autores uma analítica que os
rotula de acordo com a corrente ideológica a que seguem para construir a identidade nacional
segundo seus critérios. Eles, mesmo que em lados opostos, seriam os que deram os nomes as
características do povo do Brasil e interpretam à sua visão e perspectiva aquilo que se sabia apenas
dispersa e confusamente. Freyre, nesse grupo de demiurgos foi um dos mais fundamentais,
independentemente das propriedades da verdade ou das ideologias presentes em seus escritos; pela
ousadia do método e formato da tematização, seus estudos cooperaram para estruturar as bases de
um pensamento mais nacional e menos estagmatizado do brasileiro.
33

Há nessa combinação singular de influências e experiências diversos


elementos que o distanciam da maioria dos intelectuais brasileiros de sua
época. São muito poucos os que conhecem os ritos da vida americana tão
diretamente, e que tiveram a oportunidade de ler os ensaístas da vanguarda
e os cientistas sociais americanos. Possui uma formação sólida e uma
amplitude de interesses e leituras excepcionais... Mas ao mesmo tempo,
essa formação não deixa de mostrar fissuras e descontinuidades que serão
depuradas mais tarde (LARRETA-GIUCCI, 2007, p. 216).

Essa aproximação entre obra e autor, comum nas análises da produção de


Freyre, é também apontada como o elemento de distância entre seus estudos e os
dos seus contemporâneos e antecessores, como Alberto de Oliveira e Capistrano de
Abreu.
Seus escritos são de fato o amálgama de pesquisa e leitura com uma
apaixonada exposição de idéias mediadas por uma elegante redação, à qual ele
mesmo atribui o adjetivo de “plástica”, em conformidade com o povo que descreve.
No universo acadêmico, o nome de Gilberto Freyre é exigência obrigatória
para todo e qualquer estudo que se refira à questão da figura patriarcal no ambiente
da formação da cultura brasileira, ou seja, da família como núcleo inicial do processo
de civilização do Brasil, até mesmo quando o que está sendo discutido é a
metamorfose do patriarcalismo colonial em personagem enfraquecido e flutuante:

O que Gilberto Freyre nomeou de “crise da família patriarcal”, que, entre o


final do século XIX e as primeiras décadas do século passado, teria alterado
a estrutura familiar, as relações de gênero inviabilizando formas de ser
masculino e feminino, tornando homens obsoletos, impotentes cujo nome
perdia importância, respeito e autoridade em nível social. (ALBUQUERQUE
Jr, 2002, p. 114).

Num período histórico no qual a mestiçagem está sendo colocada como uma
questão nacional para as autoridades e a intelectualidade na transição entre os
séculos XIX e XX, uma vez que a abolição da escravidão e a inclusão do negro à
sociedade traziam uma nova dinâmica à tentativa de definição de um tipo étnico
brasileiro, a elite intelectual do país apresenta a impossibilidade da igualdade entre
os negros e brancos a partir de um discurso científico marcado pela influência do
darwinismo social, isto é, a aplicação ao plano social, dos pensamentos científicos
de Darwin a respeito da sobrevivência dos mais fortes na natureza, que resultava
em eugenia, ou seja, a eliminação dos considerados inferiores em vista dos
superiores.
34

Assim, numa sociedade recém saída de um regime escravista, não seria tão
estranho que a intelectualidade responsabilizasse a população de cor pelo ‘atraso’
da nação, promovendo a sustentação de secular discriminação racial. Doutrinas
sobre a inferioridade biológica de negros e índios, combatidas por Freyre (1983),
mas esposadas por Nina Rodrigues, pelos influentes críticos Silvio Romero e José
Veríssimo e pelo sociólogo Oliveira Viana, condenavam o país ao fracasso, pois
pregavam que a mestiçagem seria um fator degenerador nocivo à sociedade
brasileira.
As décadas de 20 e 30 do século XX, particularmente, podem ser observadas
como o momento histórico no qual uma série de discursos e práticas conflui para o
tema de nação e da identidade nacional dando corpo a um ideário nacionalista que
procurou estabilizar uma imagem do Brasil e dos brasileiros a partir da profusão de
estudos sobre a História do país (CARDOSO, 1993).
Nesse contexto de efervescência intelectual e de angústia quanto ao destino
da nação, Freyre compõe sua mais célebre obra, Casa Grande e Senzala, na qual
irá romper com as correntes tradicionalistas do pensamento brasileiro em vigor, ao
incluir o negro e o indígena como elementos formadores da nação. Pelas mãos de
Gilberto Freyre, o escravo africano e o bugre indômito transformaram-se no alicerce
em que se fundamenta a sociedade brasileira, artífices de nossa civilização.
Nesse sentido, a grande obra realizada pelo discurso freyriano foi a de definir
a mestiçagem, fruto do cruzamento entre o índio, o branco, e, principalmente, o
negro, como uma espécie de empreendimento que melhorou a população que aqui
viera para a colonização. A concepção de mistura quase harmônica, tão criticável
em Gilberto Freyre, pode ser bem representada em suas próprias palavras, ao se
referir às metades que nos formam como povo híbrido social e nacionalmente:

Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-americano, duas metades


inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o escravo. De modo nenhum.
Somos duas metades confraternizantes que se vêm enriquecendo de
valores e experiências diversas; quando nos completamos num todo, não
será com o sacrifício de um elemento e outro. (FREYRE, 1983, p. 335).

Todavia, segundo a maioria dos seus críticos, Gilberto Freyre teria produzido
um quadro incompleto das categorias sociais envolvidas nesse processo de
formação, já que o escravo, enquanto categoria social fundamental para o
surgimento daquela civilização, de acordo com esses autores, está ausente da
35

análise freyriana. Para eles, essa idéia precisa ser qualificada, pois o escravo estaria
presente no interior da Casa-Grande, aparecendo em função do senhor, ou seja,
com identidade dependente.
Contudo, devemos relativizar as críticas levantadas à produção de Freyre,
porque Casa Grande e Senzala não deve ser vista somente como uma das
primeiras produções a trabalhar o negro e o indígena enquanto personagens
históricos, mas também como uma obra que implementou uma revolução
metodológica na Historiografia brasileira já que, atendo-se ao horizonte cultural,
Freyre constrói uma análise da participação do negro na formação da cultura e da
sociedade brasileiras, abordando temáticas inexploradas pelos estudos realizados
até então.
Certamente influenciado pelas investigações construídas pela escola
francesa dos Annales, corrente dos estudos históricos que passa a abordar o
cotidiano da vida preocupada em apresentar as relações sociais mais íntimas entre
os sujeitos sociais, nessa obra em especial, Freyre procura localizar cada um dos
elementos culturais que foram construídos pelos grupos envolvidos no processo
histórico investigado. Por isso mesmo, nota-se a riqueza das descrições freyrianas
sobre o dia-a-dia das casas-grande e das senzalas, que, na tentativa de elaboração
de uma abordagem descritiva, aproximando-se da antropologia e da etnohistória,
desse conta do maior número possível de situações, comportamentos e posturas
que indicam a atuação em conjunto de todos os sujeitos na formação da cultura
brasileira.
Assim, se a crítica que Freyre recebe por se interessar somente pelas
manifestações culturais dos dominados, por acentuar o sincretismo entre senhores e
escravos, afastando-se da cultura e da sociabilidade negras conservadas em si
mesmas, folclorizando-as, parece retratar um julgamento verdadeiro (CARDOSO,
1993), esta mesma crítica não se constitui enquanto uma afirmação absoluta sobre a
obra do sociólogo pernambucano.
Ao demonstrar que a cultura brasileira é igualmente mestiça, como o é o
sangue da população, Freyre reabilita a posição do negro no imaginário brasileiro,
construindo um espaço no qual o povo africano passou a ser visto como elemento
formador e, portanto, essencial para a formação da nação. Os índios e,
precisamente, os negros, em Freyre, não aparecem apenas como instrumentos do
branco, mas como produtores da sociedade, como sujeitos. Os capítulos sobre a
36

contribuição do negro para a vida sexual e da família do brasileiro revelam que o


autor procurava demonstrar como a cultura brasileira teria se construído a partir da
contribuição negra.
Palco das relações sociais, a casa grande é o solo onde essa mistura
acontecia. Do mesmo modo, a família patriarcal é demonstrada por Freyre como
uma instituição que abriga o multicolorido da sociedade colonial, estendendo suas
ramificações das casas dos senhores até as alcovas das negras nas senzalas. A
família patriarcal desenhada por Gilberto Freyre atualiza a figura do dominador
branco, mas também apresenta a atuação das mucamas negras e sua contribuição
para a reprodução dos valores familiares patriarcais. Na construção da imagem da
família colonial, Freyre estende sua preocupação em dar visibilidade à mistura de
cores, evidencia a participação de negros e negras na sustentação do trabalho
cotidiano e na realização da vida nos primórdios da sociedade brasileira.
A grande inovação da contribuição de Freyre para a construção da chamada
brasilidade resultaria, por fim, no elogio ao hibridismo, à diversidade e à
mestiçagem. A certa altura, no livro Sobrados e Mucambos (2003), Gilberto Freyre
assertiva o depoimento: “ao lado do sistema patriarcal, agrário ou mesmo pastoril,
inteiramente rural ou misto de rural e urbano, desenvolveu-se, às vezes quase como
outro sistema, e sistema rival do dominante, a miscigenação.” (FREYRE, 2003, p.
777).
Essa caracterização do Brasil a partir do brasileiro miscigenado, na época em
que foi estudado esse momento da História brasileira, a saber, a transição da
Monarquia à República, como já vimos, não era muito rara. Preguiça, licenciosidade,
alegria exagerada, desordem social, falta de regras como culpadas de toda condição
de atraso, associadas à má fama “da gente de cor”, pareciam espalhar uma mancha
diante dos olhares do racismo velado dos observadores, assustados com tamanho
intercurso entre os grupos étnicos. O mulato, assim emergia como uma subespécie
a aprofundar o abismo entre atraso e progresso, resultado de uma mesma mistura
que só somaria as piores heranças de cada etnia, que se equacionavam na sua pele
e nos seus traços físicos e psicológicos; tudo isso receberá, nas linhas traçadas a
partir de Casa Grande e Senzala, uma outra leitura e interpretação.
De fato, comparado com outros lugares que também amargaram a
experiência “deletéria” – termo usado por Gilberto Freyre – da escravidão, o Brasil
teve suas particularidades.
37

Sem deixar de reconhecer a tirania e a violência daquele comportamento,


Freyre constrói uma análise que dará aos brasileiros uma identidade sócio-cultural
toda diferente das outras tantas regiões colonizadas nas Américas, e quiçá no
mundo. E sobre essa diferenciação, Freyre (2004, p. 531) recolhe o seguinte
depoimento:

Na edição de 1879 de Brazil and the Brasilians, o reverendo James C.


Fletcher destacava o fato, um tanto escandaloso para anglo-americanos, de,
pela constituição do Império, a cor ou a raça não ser direta nem indireta
base de direitos civis. Daí, uma vez livre o indivíduo preto ou pardo atingia
pela energia ou pelo talento posição a que a sua raça, nos Estados Unidos,
não lhe permitia chegar ou sua virtude.

Por esforço semelhante a estes, que se repetem insistentemente em sua


produção e análise, Freyre é considerado a máxima expressão de um modo de
pensar a cultura do Brasil ligado a uma perspectiva ideologicamente dirigida.
Se Freyre é caracterizado como uma reedição continuada de uma visão
antiga da cultura brasileira, no aspecto da análise da mestiçagem, o fôlego e a
brandura freyriana são ímpar, o que se pode acertadamente afirmar ter Gilberto
Freyre transformado a negatividade do mestiço em positividade e permitido
completar os contornos da identidade nacional que há muito vinha sendo
desenhada.
Sobre isso evoquece-se que, no capítulo VII, de Ordem e Progresso (2003),
Gilberto Freyre recolhe cerca de 90 depoimentos sobre os comportamentos de
algumas famílias tradicionais acerca das convivências no Brasil, e o flagrante é
significativo. De todos os depoimentos, somente 20 não demonstram discriminação
racial. Os outros, apesar de manterem um discurso igualitário, quando interrogados
sobre a possibilidade dos filhos casarem-se com “gente de cor”, mostraram-se
irredutíveis. Freyre não coloca nenhuma apreciação aos posicionamentos, mas só o
fato de os haver reunido em um só capítulo do seu estudo esse flagrante contrapõe-
se à concepção de que sua obra é velada a qualquer crítica social.
No quesito da miscigenação, porém, é obra de Gilberto Freyre o início de uma
visão mais positiva sobre os brasileiros, e, ao analisar o nosso passado patriarcal e
o lugar da vida doméstica nas configurações sociais do Brasil, a casa – e não a rua,
sua rival, como ele dirá em Sobrados e Mucambos (2003) – foi seu atributo mostrar
38

o espaço no qual se desenrolou, em forma de drama, as relações que forjaram um


país:

Daí a fisionomia um tanto severa dos sobrados; seu aspecto quase de


inimigo da rua; os cacos de garrafa dos seus muros; as lanças pontiagudas
dos seus portões e das suas grades de ferro... A grossura de suas paredes;
sua umidade por dentro; seu ar abafado; sua escuridão; o olhar de zangado
das figuras de dragão defendendo a casa, da rua [...] (FREYRE, 2003, p.
518).

Roberto DaMatta, no prefácio à Casa Grande e Senzala, edição de 1983,


também concorda com Freyre quanto à extensão do papel formativo do ambiente
familiar sobre a nação brasileira. Ele assim se expressa em um outro livro de Freyre
que também prefaciou:

A casa é mais que local de moradia. É também, como Gilberto Freyre


demonstra em sua obra, escola, igreja, banco, partido político, hospital, casa
comercial, hospício, local de diversão, parlamento, restaurante, e o que
mais se queira. De certo modo e em larga medida continua sendo – a pesar
dos nossos esforços uma instituição ainda sem rival na sociedade brasileira.
(FREYRE, 2003, p. 18).

A respeito desse lugar social que a casa ocupava e dos papéis definidos que
seus personagens assumiam dentro do contexto de carência e privação, de
desordem e ordenamentos, em um outro ambiente geográfico, mas com
características históricas parecidas com a do povo brasileiro, Petrini (1992, p. 65)
nos traz a seguinte análise dessa perspectiva que aqui está sendo esboçada:

A fazenda constitui ponto sintético e expressivo de um modo de


compreender e viver as relações entre os homens, produzir bens e vida em
sociedade, modelando as relações de poder e todas as manifestações da
sociedade oligárquica. Ela constituiu a primeira forma de ocupação da parte
mais produtiva e acessível do território, instrumento de assentamento de
núcleos populacionais estáveis, ponto de encontro de consolidação das
relações de dominação, e de administração ordinária dos conflitos entre
colonos, os escravos e os indígenas, da estrutura agrária.

Como se vê, foi o núcleo de vida doméstica que modelou, à base da


economia da fazenda, nos ambientes semelhantes aos coloniais latinos, os
comportamentos públicos e privados, quando da ausência de outro órgão
estabilizador do social, ordenando-se como centro agregador e definidor dos papéis
sociais, o que leva Freyre a considerar que:
39

Dentro de uma sociedade patriarcal e até feudal, isto é, com espaços ou


zonas sociais sociologicamente equivalentes ao das sociedades feudais,
como foi o Brasil durante o tempo quase inteiro da escravidão entre nós,
não eram cidadãos nem súditos que aqui se encontravam como elementos
básicos ou decisivos da população, porém famílias e classes. (FREYRE,
2003, p. 473).

Kátia Mattoso, no seu estudo sobre a família baiana, também reconhece essa
função originária do núcleo doméstico para a formação dos costumes e da ordem
social brasileira.

Os conquistadores portugueses tiveram as mãos livres para edificar no


Brasil uma vida econômica baseada em grandes unidades de produções
agrícolas e uma vida social organizada em torno da família. Como em todas
as sociedades, a família se tornou também aqui a base da organização
social. (MATTOSO, 1992, p. 129).

Assim, mesmo que haja muitas variantes interpretativas com relação ao lugar
específico da unidade doméstica patriarcal no desenvolvimento da organização
social brasileira, um consenso se identifica: foi na família que os papéis sociais de
uma nacionalidade ainda em formação se desenharam para além das suas paredes.
Por isso, o enfraquecimento, ou transformação, da figura central dessa dinâmica, o
pai patriarcal, não poderia ser negligenciado, sem com isso concorrer para
obscurecer ainda mais o entendimento adequado de suas atuais apreciações.

3.3 - A CASA GRANDE DO BRASIL

O grande trunfo de Casa Grande e Senzala é dar visibilidade à diversidade de


práticas culturais e sociais que formam o Brasil e informam que este é um dos
elementos mais representativos dessa sociedade. Se o trabalho de Gilberto Freyre
não pode trazer uma compreensão inconteste sobre a formação da sociedade
brasileira, ao menos serve para informar aspectos relevantes sobre a cultura e sobre
uma série de relações sociais que definiram os elementos do Brasil. Se Casa
Grande e Senzala não obteve o êxito de construir uma história completa sobre a
vida brasileira colonial, o que talvez nem tenha sido propósito maior do autor,
certamente ela sugere alguns caminhos na definição da identidade do povo do
Brasil.
40

Na obra de Freyre, a concepção patriarcal é o ponto a partir do qual se


desenhará a forma de ser do povo brasileiro. Em seus livros, especialmente em
Casa Grande e Senzala, mas também em Sobrados e Mucambos e Ordem e
Progresso, Freyre acentua as características da família patriarcal e faz gravitar em
torno de seus personagens uma série de outras figuras que vale a pena recordar.
O livro Casa Grande e Senzala está dividido em cinco partes, cada uma das
quais apresenta as variantes étnicas que formam a identidade mestiça do Brasil e os
seus conseqüentes costumes e modus vivendi, cuja mistura resultou no mosaico
multicor do povo brasileiro, “[...] que explicam muito porque o brasileiro não é
europeu, nem indígena, nem resultado direto da África negra através dos escravos.”
(FREYRE, 1983, p. 211). Mas, em nenhum momento, deixa de se referir ao pai
como gestor desse processo, mesmo quando faz a historiografia dos componentes
formadores do povo brasileiro.
No primeiro instante, a obra centra-se no português; depois no índio, e, em
seguida, apresenta o negro, no que se refere à picante história dos abusos contra
ele cometidos, encerrando com notas explicativas ao capítulo V, sobre a bibliografia
consultada para a composição da obra. A família costura com linhas de autoritarismo
e cuidados, abuso e valentia, todo esse tecido.
Ao falar do português6, Freyre o considera, desde sua formação, povo
cosmopolita e heterogêneo, por isso, apto aos trópicos, disposto à mistura étnica,
ambiguamente conservador, mas pouco afeito ao d’el Rei e, já bem antes de aqui
chegar, inclinado ao desenvolvimento de uma postura menos rígida quanto à
manutenção das estruturas sociais. De uma mobilidade racial e até moral
impressionante, o português, segundo ele, é desenhado, no princípio dos seus
escritos, na direção da concepção que mais tarde será tão criticada na sua obra, a
“democracia racial”.
É, portanto, para ele, o português, um povo predisposto a tomar nas mãos o
empreendimento de construir uma nação a partir do pai rigoroso, da mãe submissa e
dos filhos híbridos, que dessa fusão surgiram. Darcy Ribeiro, no seu livro “O Povo
Brasileiro”, corrobora essa interpretação, afirmando:

6
Sobre o Português, ele afirmou: “De qualquer modo, o certo é que portugueses triunfaram onde
outros europeus falharam: de formação portuguesa é a primeira sociedade constituída nos trópicos
com características nacionais e qualidades de permanência. Qualidades que, no Brasil, madrugaram
em vez de se retardarem, como nas possessões tropicais de ingleses, franceses e holandeses.”
(FREYRE, 1983, p. 12).
41

Não vieram mulheres solteiras, exceto, ao que se sabe, uma escrava


provavelmente moura, que foi objeto de viva disputa. Conseqüentemente,
recém-chegados acasalaram-se com lindas índias, tomando, como era uso
da terra, tantas quantas pudessem, entrando a produzir mais mamelucos.
(RIBEIRO, 1995, p. 89).

Para Freyre, em geral, o português é indeterminado etnicamente, ambíguo


também nos comportamentos, culturalmente adaptável e racionalmente aclimatável,
daí sua grande mobilidade e miscibilidade em se espalhar em continentes afora,
quando das grandes navegações. Igualmente, para outro clássico desse estudo, a
saber, Sérgio Buarque de Holanda, essa mesma figura receberá nesse quesito,
semelhante descrição, inclusive não lhe retirando o aspecto da miscigenação,
amparado por política oficial:

Longe de condenar os casamentos mistos de indígenas e brancos, o


governo português tratou em mais de uma ocasião, de estimulá-los, e é
conhecido o alvará de 1755, determinando que os cônjuges, nesses casos,
“não fiquem com infâmia alguma, antes muito hábeis para cargos dos
lugares onde residirem não menos que seus filhos e descendentes, os
quais, até terão dependência de despesa alguma, ficando outrossim
proibido sob pena de procedimento, dar-se-lhe o nome de caboclo, ou
outros semelhantes, que se possam reputar injuriosos” (HOLANDA, 1976, p.
26).

Em Freyre, o português, altamente sexualizado e ardente, nos trópicos, ao


contrário dos franceses e holandeses, que se limitaram a “arranhar o nosso litoral”,
não deixou de exercer, segundo ele, plenamente esses direitos. Mas, o português,
segundo sua perspectiva, diferente da leitura de Holanda, será o autor de uma
colonização que não se limitou à exploração dos recursos econômicos, mas também
foi às raias da incorporação dos sujeitos autóctones em vista do hibridismo7.
Constituidor de um universo agrícola difícil nas terras brasis, de acordo com
Freyre, esse homem da ponta da Península Ibérica, além de não aplicar aqui uma
dura europeização, enfrentava os rigores do clima da colônia e o espectro da sífilis
com afinco de vitória, incluindo nisso a luta num regime alimentar que, aos poucos,

7
Miscigenação ao lado de sifilização, agricultura latifundiária e escravidão, o tripé produzido pelos
portugueses nas terras da colônia para sairem vitoriosos na sua empresa, segundo, Freyre, isto pode
ser sistematizado na sua melhor expressão, a família rural ou semi-rural, o grande fator responsável
pela colonização das nossas terras brasis: “A família, não o individuo, nem tampouco o Estado, nem
nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador no Brasil, a
unidade produtiva, o capital que desdobrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois,
ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais
poderosa da América” (FREYRE, 1983, p. 19).
42

centrando-se na farinha, roubar-lhe-ia a altura e o corpo: “Foi dentro de condições


adversas que se exerceu o esforço civilizador dos portugueses nos trópicos.”
(FREYRE, 1983, p. 16).
Ainda sobre os portugueses, Freyre afirma que eles foram os primeiros a
implantar um sistema real de colonização nas Américas cuja direção apontava mais
para a criação local de riquezas, por meio do trabalho escravo, que à pura extração
de bens, afastando-se paulatinamente, por exemplo, do recurso de extermínio direto
da população nativa, adotado pelos espanhóis. Diga-se de passagem, tendo isso
feito com quase ausência plena dos braços do Estado, mas com todos os recursos
que dispunham:

[...] os portugueses colonizadores do Brasil foram os primeiros europeus a


verdadeiramente se estabelecerem em colônias, vendendo para esse fim
tudo quanto possuíam em seu país de origem e se transportando com a
família e cabedais para os trópicos. (FREYRE, 1983, p. 18).

Nesse ponto, Holanda e Freyre se encontram, pois ambos reconhecem que,


frente à dureza da vida no início da formação do Brasil e a escassez de socorro e de
recursos, era na formação familiar que se amparava aquela sociedade em formação,
com o pai tirano e poderoso no centro desse processo:

Dos vários setores de nossa sociedade colonial, foi sem dúvida a esfera da
vida doméstica aquela onde o principio de autoridade menos acessível se
mostrou às forças corrosivas que de todos os lados a atacavam. Sempre
imerso em si mesmo, não tolerando nenhuma pressão de fora, o grupo
familiar mantém-se imune a qualquer restrição ou abalo. Em seu isolamento
pode desprezar qualquer principio superior que procure perturbá-lo ou
oprimi-lo. (HOLANDA, 1976, p. 49).

Dono de uma religiosidade licenciosa e disponível ao sincretismo e às


místicas de arroubos sebastianistas, os portugueses firmaram, segundo Freyre, na
família rural, a base de segurança a partir da qual toda modelagem social da colônia
tomaria forma. Até porque comércio aqui não era viável: terra cheia de águas
caudalosas, matos densos e bugres nus; poucos sinais de riquezas intercambiáveis.
Preservaram, porém, eles, um espaço para sua catolicidade de herança, plástica e
pouco conteudísta, como até hoje. Apesar do contributo mourisco e judeu à cultura
portuguesa, era certa, na concepção colonial lusitana, a exigência da condição
católica para que aqui se firmasse o aventureiro, mas sem constituir clericalismo,
43

salienta Freyre, já que, mais tarde, as fazendas engoliram a Igreja e, aqui, “queixar-
se ao bispo” não tinha efeito:

O perigo não estava no estrangeiro ou no indivíduo disgênico ou


cacogênico, mas no herege. Soubesse rezar o pai-nosso e ave-maria, dizer
o credo, fazer o pelo – sinal e o estranho era bem vindo no Brasil colonial.
(FREYRE, 1983, p. 29).

Por conta disso, Freyre chega a caracterizar o catolicismo nesse contexto de


formação do povo, como o “cimento da nossa unidade” e a religião cristã é
apresentada, em certos momentos da obra Casa Grande e Senzala, como um dos
fatores característicos de nossa cultura. E, ao se referir ao catolicismo,
inevitavelmente, Freyre falará do índio catequizado, fundamental para os jesuítas.
Ainda sobre os portugueses, Freyre pinta-lhes um quadro quase
carnavalesco: chama-os de contemporizados, social e racionalmente engendradores
de uma confraternização sexual com raças chamadas por eles mesmos de
inferiores, autores de uma colonização de aristocracia móvel, patriarcal e
escravocrata, que, segundo Freyre, resultou na “maior civilização moderna nos
trópicos.” (FREYRE, 1983, p. 190), mas padecentes de uma nostalgia de tempos
idos, de glórias passadas. O brasileiro proviria da mistura desse povo, sem traço
algum de xenofobia, nem imobilismo ou, tão pouco, de estratificações rígidas.
Não menos direto é Freyre com o índio, já que o caracteriza inferior
culturalmente e, em relação ao negro, apresenta-o menos apto a trabalhos rudes
exigidos na colônia. Aliás, Freyre chega a afirmar que a escravidão foi o único
recurso disponível para tocar a colonização, apesar de ter condenado o nativo e
também as aldeias que alcançou ao completo desaparecimento cultural.
Freyre associa a escravidão à necessidade de braços para o trabalho e de
povoamento de que carecia Portugal quando da aventura de ultramar, e o índio da
“Casa Grande” vem representado, em meio a essa profusão de informações e
interpretações, como a vítima mais atroz desse sistema.
Para Freyre, o índio brasileiro, no contexto do Novo Mundo, formava uma das
populações mais rasteiras do Continente, em comparação com os Incas, Astecas e
Maias. Mas, sendo este paciente de um processo de miscigenação e hibridismo
típico do português, como já fora dito, fora ele atraído quase que magicamente pela
ambição de pertencer àquela “raça superior” (FREYRE, 1983, p. 93).
44

Doador da base física à família brasileira, da qual fora também pai dos
costumes de asseio pessoal e higiene do corpo, atribui-se ao índio as vaidades
típicas do brasileiro, como o enfeite do pente ao óleo no cabelo. Mas ele também
fora co-autor de obras maiores, como o Sertanismo, mas, principalmente, aparece
nas páginas da Casa Grande e Senzala, como o colaborador primeiro no processo
da colonização, pois assim afirma Freyre:

À mulher gentia, temos que considerá-la como base física da família


brasileira, aquela em que se apoiou, robustecendo-se e multiplicando-se, a
energia do reduzido número de povoadores europeus. (FREYRE, 1983, p.
94).

Nas técnicas agrícolas, o índio aparecia quase nulo em contribuição, mas não
na culinária e na língua híbrida, que é o português do Brasil. Segundo as
informações apresentadas na Casa Grande, o índio também fora o responsável por
um variado número de costumes do brasileiro atual, como o simples acocorar
distraído do caboclo do sertão, da rede do nordestino, ao animal domesticado dentro
da casa como mais um da família. Acrescentendo-se a isso o costume do trânsito
sexual entre eles, se compreenderá as dimensões do seu contributo étnico, incluindo
a presença de um tabu de incesto totêmico, unilateral, de grande proveito para o
português, já afeiçoado a um intercurso poligâmico e aqui, a bem da verdade, autor
de uma exploração sexual interesseira e deletéria.
De fato, o europeu, devoto e medroso do pecado, ao “cobrir as vergonhas dos
índios”, os expôs a uma conta grande de doenças de pele e moléstias a atacar-lhes
o sistema respiratório, de modo que, das três matrizes, o índio aparece, no estudo
freyriano, senão como a mais sofrida parte deste processo, ao menos a mais
exposta à descaracterização própria de todo sistema de colonização, daí a firmação:
“O senhor do engenho, parasita do índio.” (FREYRE, 1983, p. 155).
Já o padre europeu, para Freyre, não fora diferente, pois, ao condenar o
sistema de vida indígena, ofereceu-lhes um outro que, já por si, sacrificaria seu
orgulho e sua identidade, e a de seu povo todo e, que, unido ao regime
escravocrata, só realmente lhe ofertaria o trágico fim que se processou:

O sistema escravocrata por um lado, e o missionário por outro, continuariam


a sua obra de devastação da raça nativa, embora mais lenta e menos cruel
do que na América espanhola ou na inglesa. E com aspectos criadores que
se opõem aos destruidores. (FREYRE, 1983, p. 156).
45

Por conta disso, segundo Freyre, todas as exigências da empresa colonial


foram então dirigidas ao negro, condenado a viver e morrer no sistema que havia
dizimado um povo todo, mas diante do qual, o africano criou um numero de
resistências e dele, então, se ainda não saiu vitorioso, não chegou a ser eliminado,
mas, com certeza, vitimado por tal sistema de atrocidades múltiplas, que fez Freyre
(1983, p. 275) considerar:

Claro que daí só poderia resultar o que resultou: de vantajoso o


desenvolvimento da iniciativa particular estimulado nos seus instintos de
posse e de mando; de maléfico, a monocultura desbragada. O mandonismo
dos proprietários de terras e escravos. Os abusos e violências dos
autocratas das Casas- grandes. O exagerado privatismo ou individualismo
das sesmarias.

Por conta disso, Freyre dá uma atenção especial quando o assunto é o


escravo na sua análise sobre a formação do Brasil. Acentuou-lhe o caráter, as
incidências culturais, mas, de modo especial, a modelagem que o Brasil – e a família
brasileira – recebeu das mãos escuras dessa gente cativa. Diz que não há
brasileiros ou brasileirismos que não tragam, aqui ou acolá, algum traço, no corpo ou
no jeito, de um índio, mas especialmente de um negro. Desse ultimo, diga-se de
passagem, não só influências pueris ou públicas, mas de alcova e da cama, que
Freyre faz questão de registrar, acentuar, exagerar e lhe dedicar dois capítulos de
sua Casa Grande e Senzala.
Até na língua, o africano meteu-se em “dengue”, segundo ele, retirando os “rr”
e os ”ss” excessivamente solenes. Dono de uma exuberância física ausente no
indígena e no português, o negro é, nas páginas dessa obra, descrito como superior
culturalmente ao índio e até ao lusitano, e responsável por boa parte do progresso
econômico do Brasil.

Por todos esses traços de cultura material e moral revelaram-se os


escravos negros, nos estoques mais adiantados, em condições de
concorrer, melhor que os índios, à formação econômica e social do Brasil.
Às vezes melhor que os portugueses. (FREYRE, 1983, p. 286).
46

Freyre, nesse, ponto é assertivo, pois realmente considera a escravidão do


negro pelo branco um abuso, já que vê a estes últimos uma raça não tão elevada e
grande8.
Predisposto à vida nos trópicos, luzidio ao sol, ao invés de desalentado como
o índio e o caboclo, alegre, vivo e extrovertido, sempre para fora, o negro, na obra
Casa Grande e Senzala, é “o maior e mais plástico colaborador do branco na obra
de colonização agrária.” (FREYRE, 1983). Isso também aparecerá nos estudos de
Holanda, pois, sobre o negro, ele assim igualmente se refere, mas sem deixar de
lado a denúncia que lhe é peculiar:

O depoimento dos antropólogos revela- nos no negro, traços de capacidade


mental em nada inferior à das outras raças: “considerável iniciativa pessoal,
talento de organização, poder de imaginação, aptidão técnica e econômica”,
diz-nos o Professor Boas. E outros dos vários setores de nossa sociedade
colonial, foi sem dúvida a esfera da vida doméstica aquela onde o principio
de autoridade menos acessível se mostrou às forças corrosivas de que
todos os lados atacavam. Sempre imerso em si mesmo, não tolerando
nenhuma pressão de fora, o grupo familiar mantém-se imune a qualquer
restrição ou abalo. Em seu isolamento pode desprezar qualquer principio
superior que procure perturbá-lo ou oprimi-lo. (HOLANDA, 1976, p. 49).

Para Freyre, no entanto, o povo africano deve ser julgado antes pela atividade
industrial por ele desenvolvida no ambiente de sua própria cultura com interesse e
entusiasmo pelo trabalho, que pela situação escrava, que por si só, já é deletéria,
não apenas para quem a sofre, mas também para quem a impõe. Por todas essas
razões, é o negro, para Gilberto Freyre, o elemento sem o qual os papéis da
sociedade brasileira não seriam os mesmos, tampouco os da família. Ele será o que,
a custo da própria raça – e mais como vítima, a custo da sua identidade – exercerá o
papel daquele que nutria esse sistema todo com o seu próprio sangue, desde as
senzalas aos interiores mais escondidos das casas- grandes do pai-patrão.

8
Recebedor, então, de grupos africanos mais “evoluídos”, o Brasil teria se beneficiado enormemente
com a chegada das levas da escravidão. Desses escravos, aprendeu técnicas de criação de
animais e de mexer a terra, os metais, as rezas e ate o corpo, mas Freyre discorda da tendência de
considerar o negro a partir da escravidão, erro que identifica nos estudos de Nina Rodrigues. Assim
conclui ele: ”[...] Do mesmo modo parece-nos absurdo julgar a moral do negro no Brasil pela sua
influencia deletéria como escravo. Foi um erro grave que cometeu Nina Rodrigues ao estudar a
influencia do africano no Brasil: o de não ter reconhecido no negro a condição absorvente de
escravo.” (FREYRE, 1983: 315).
47

3.4 - O PAI E A FAMÍLIA PATRIARCAIS

No processo colonizador empregado pelo português, a figura do pai aparece


como aquela sem a qual nenhum progresso seria possível, dadas as circunstâncias
históricas e culturais nas quais se encontrava a colônia. De fato, a diminuição do
poder patriarcal está ligada diretamente à ascensão do Estado e dos mecanismos
políticos modernos que o substituíram na função de policia, de juiz, de gerenciador e
legislador que dispunha, naquele momento, de nulidade dos auspícios estatais
(FREYRE, 2004).
Decerto, a figura do pai patriarcal, potente e extensivo, só foi possível como
resposta a um contexto de ausências sócio-políticas. Uma vez que isso entrou em
decadência, essa mesma figura também começou a perder em importância
(FREYRE, 2003). Assim, a queda do pai patriarcal está relacionada à queda do
Coronel com o advento do Estado moderno, quando a segurança e a ordem deixam
de ser atribuições suas e passam a ser assumidas pelo Estado.
O pai patriarcal era autoritário e abusivo, no entanto, essa leitura sobre o pai
corre o risco de tornar-se simplista, ligada mais a experiências pessoais negativas
que a um estudo objetivo, por não levar em conta o contexto histórico produtor
daquele pai-patrão, que o exigia aqueles moldes.
Assim acentue-se que, na época do apogeu do patriarcalismo até o
desenvolvimento da sociedade, a atividade política era ministrada na família, de
modo que era de praxe que esses poderes se fizessem sentir dentro dela e
repousassem nas mãos do pai. O que Freyre defende a respeito desse ponto é que,
com a mudança de tempo, apesar do poder do pai ter sido abalado, a força paterna
ainda continuou reivindicada, o que também nos asseguram estudos mais recentes
sobre o universo familiar (SAFFIOTI, 2004).
Essa analítica de Gilberto Freyre só é possível, porém, porque ele percebe a
família colonial como um agente empreendedor da socialização brasileira, não
passível de substituições para aquele intuito. Nesse sentido, a família aparece nos
seus estudos como unidade política, econômica e social, que teve como papel
fundamental definir a nossa história. Sua dominação, portanto, seria extensiva no
panorama social do Brasil e reservaria para a figura do pai o lugar onde o seu centro
repousava. Assim, seria essa família, portanto, variada em suas funções sociais e
48

econômicas, indo do mando político ao religioso pelo desenrolar de suas


interferências políticas.
Por conta desse fato, segundo Itaboraí (2005), no que se refere à constituição
da família no Brasil, a simbólica do pai patriarcal, posta de maneira contundente nos
estudos de Gilberto Freyre, é de capital importância para a discussão que leve em
consideração o papel do patriarcalismo na formação da identidade familiar brasileira.
Sobre isto, ela afirma:

[...] Tal família terá papel central na formação do país, pois é, conforme
Freyre, o grande fator colonizador, que toma em suas mãos a tarefa de
construir o país, cultivando o solo, construindo benfeitores e comprando
escravos e ferramentas para a produção. Esta “força social que se desdobra
em política” (FREYRE, 1994: 19), ocupará o lugar empreendedor e diretor
do Estado, fazendo com que “o rei de Portugal quase que reina sem
governar [...] (ITABORAÌ, 2005, p. 173).

Considerando as diversas esferas abrangidas pela família patriarcal, segundo


Freyre, inevitavelmente deixaremos de lado o fato que, basicamente, esse sistema
doméstico constituiu o lugar da autoridade do pai, o espaço de afetos entre os
membros e agregados e o veiculo de socialização disponível. Assim, na ausência do
Estado, a família, na figura do pai, assistia aos seus membros em mandos e
cuidados e, dessa forma, as relações privadas de poder se espraiaram para as
relações públicas de poder. Para Freyre, de fato, a família patriarcal determinou as
relações sociais e políticas do Brasil, diz ele: “[...] numa última demonstração de ser
ainda a lavoura patriarcal e escravocrática (sic) a grande decisiva força do sistema
social brasileiro.” (FREYRE, 2004, p. 55).
Outros autores, como Sérgio Buarque de Holanda, como já vimos, interpretam
esse fenômeno sob um prisma diferente do freyriano. De fato, o pai ocupava esse
lugar de mando, mas sua caracterização em Holanda está diretamente associada às
nossas mazelas sociais, devido aos comportamentos privados no Brasil se
estenderem ao âmbito público:

A família patriarcal fornece assim, o grande modelo por onde se hão de


calcar, na vida política, as relações entre governantes e governados, entre
monarcas e súditos. Uma lei inflexível, superior a todos os cálculos e
vontades dos homens pode regular a boa harmonia do corpo social, e
portanto, deve ser rigorosamente respeitada e cumprida. Esse rígido
paternalismo, e tudo quanto se poderia esperar de mais oposto, não já às
idéias da França revolucionária, esses ópios políticos [...] (HOLANDA, 1976,
p. 53).
49

No entanto, devido ao fato dos brasileiros serem devedores desse sistema


patriarcal, segundo Freyre, o estudo da formação de seus personagens e de seus
componentes é inevitável para se compreender as transformações atuais que a
figura do pai vem sofrendo no nosso meio, principalmente no que se refere a um
enfraquecimento da antiga dependência dos indivíduos que compunham aquela
família e suas relações à autoridade paterna, daí podendo-se considerar:

A família era a base desse sistema mais amplo e, por suas características
quanto à composição e relacionamentos entre seus membros estimulava a
dependência na autoridade paterna e solidariedade entre parentes.
(SAMARA, 1998, p. 10).

Já que o pai, como figura central, era o provedor, o dominador, o agregador e


o gerenciador dessa grande empresa, como mostram Freyre e Holanda, o sistema
social brasileiro, então, delineou-se em torno de um núcleo formador de
comportamentos hierárquicos, a saber: a estrutura patriarcal, que, aliás, possuía
como alicerce a monocultura, o latifúndio e a escravidão e o senhor em torno do qual
este mesmo sistema gravitava. O pai, então, aparece com força de sobreviver até
mesmo à morte, pois um dos valores do patriarca identificáveis nos estudos de
Freyre, especialmente em Sobrados e Mucambos, foi mostrar que o modelo moral
patriarcal transcendeu o empírico nordestino e se apresentou reproduzido em boa
parte das relações ou expectativas familiares e sociais para além da colônia. Sobre
a sobrevivência dessa figura, aliás, para muitos dos espaços do Brasil, ele assim se
refere:

Nossas casas são ainda povoadas por sobrevivências patriarcais. Nossos


(sic) hábitos, ainda tocados por elas. Donde não se pode tentar no Brasil
obra de sociologia genética que não seja um estudo do patriarcalismo ou do
familismo tutelar sob alguma de suas formas. (FREYRE, 2003, p. 100).

A análise de Freyre, de certo, parte de um lugar especifico, a saber: a casa


como o espaço da família. Para ele, a casa desenhava a geografia da dominação
patriarcal e o patriarcalismo organizou os valores e as condições da vida familiar no
Brasil. A sobrevivência do patriarcalismo estaria na sobrevivência da figura simbólica
do “grande pai”, que seria assumida pelo Estado, elemento, aliás, que será apontado
inclusive como responsável por essa transformação que o papel paterno sofreria
50

mais tarde: “Todas as funções que tinha (sic) anteriormente em família encontra
algum tipo de substituto funcional na esfera da sociedade.” (MORANDÉ, 2005, p.
14).
Daí poder dizer que aquela absorção do individuo pela família e a diminuição
das políticas frente ao senhor são legados ainda identificáveis nas relações sociais
brasileiras. Desse modo, o Brasil fundado pelo patriarcalismo resultaria numa nação
cujas relações sociais se caracterizariam por um paradoxo: o protecionismo e o
abuso. Em Sobrados e Mucambos, Freyre nos apresenta o retrato tenso deste velho
patriarca, responsabilizado por tantas mazelas, em vias de substituição, mas não de
total desaparecimento, trazido por ele em tons dramáticos como o seguinte:

Por outro, foi um período de diferenciação profunda – menos patriarcalismo,


menos absorção do filho pelo pai, da mulher pelo homem, do individuo pela
família, da família pelo chefe, do escravo pelo proprietário; e mais
individualismo pela mulher, da mulher, do menino, do negro – ao mesmo
tempo que mais prostituição, mais miséria, mais doença. Mais velhice
desamparada. Período de transição. Patriarcalismo urbanizou-se.
(FREYRE, 2003, p. 126).

Nessa grande casa que, segundo Freyre, haveria de ser a matriz da família
brasileira, encontram-se os personagens e as relações mais diversas. Da gestação
de vários vícios ao nascimento de outras tantas virtudes e figuras típicas do
brasileiro.
Formada arbitrariamente, quase sempre da união artificial entre meninas de
15 anos e senhores muito mais adiantados em idades, a família que a partir dela se
configura, para Freyre, seria um espaço de hibridismo e mistura de todo o tipo de
figura e acontecimentos.
Das freqüentes mortes de senhorinhas devido a pouca capacidade de procriar
à geração de sinhás envelhecidas antes dos 20; das matronas negras de postura
agridoce aos “meninos-diabos”, sádicos; das negrinhas entregues a esses
demoniozinhos como brinquedos a um povo que, hora em vez, é surpreendido
naquele deleite mórbido em ser mau com os inferiores; do pai-patrão, fidalgo rústico,
orgulhoso e malvado, dono das terras, das gentes, das leis e detentor do poder
político, manipulador do religioso, gordo e esnobe como convêm que seja um barão,
com sua palavra de lei, seus costumes incontestes e seu braço, único apoio que, em
hora de doença, de vida e morte, o individuo humilhado, o negro e escravo, iria
encontrar devido à plena e total ausência de outro fator organizador do social.
51

Originalmente estruturada aproveitando-se da gente nativa, principalmente da


mulher índia, repetidora aqui do modelo de relações da família portuguesa,
caracteristicamente rural, unidade produtiva autora de uma certa aristocracia,
centrada na figura do pai, ocupava, essa família patriarcal, os espaços vazios
deixados pelo Estado àquela sociedade em gestação.
No sistema patriarcal brasileiro, no entanto, a família era formada por um
conjunto de papéis bem definidos, mas não incomunicáveis, segundo Freyre.
Corrompida pelo interesse econômico de aumento do número de escravos, isto é,
pelo próprio sistema que a sustentava – o da escravidão – essa família foi o primeiro
elemento decisivo de nossa formação nacional, e, para os que pleiteiam sua total
decadência na atualidade, os contrapontos não deixam de ser postos:

Na verdade, a ascensão capitalista industrial protegeu e reproduziu o


patriarcalismo, no mínimo até a ascensão da empresa corporativa ele não
foi, e ainda não poderia ser, um sistema operando basicamente, e muito
menos unicamente, pela racionalidade do mercado (como ainda é caso em
muitos países). A família patriarcal não era apenas ‘uma pesada âncora
social’, mas um mecanismo essencial de empreendimento econômico.
(HOBSBAWN, 2006, p. 3).

No entanto, essa generalização promovida por Freyre do modelo patriarcal à


família brasileira é também bastante criticada, principalmente porque lhe apontam
tanto a vastidão geográfica do Brasil como as acentuadas diferenças culturais entre
as regiões que, por sua vez, formataram arranjos familiares diferentes. Eni Mesquita
Sâmara compõe uma dessas vozes, quando analisa a família paulista do século
XVIII:

Compondo um quadro geral da família paulista, constatamos que extensas


ou do tipo ‘patriarcal’ eram apenas uma das formas de organização familiar
e não chegavam a representar 26% dos domicílios. Nos demais, ou seja,
74% das casas, predominavam outras formas de composição, o que
significa que as famílias extensas eram representativas apenas de um
segmento da população. (SÂMARA, 1993, p. 17-18).

Mas, sobre esse aspecto, o próprio Freyre já antecipadamente se referira,


quando, a esta apreciação e, nas páginas iniciais de Sobrados e Mucambos, assim
responde aos que já o consideraram generalizante acerca das dimensões do
patriarcalismo. Vejamos:
52

Constelação de áreas – como socialmente o Brasil – o que nos deve


orientar na classificação da sociedade brasileira é o ocorrido nas áreas
econômicas e politicamente decisivas que nem sempre têm sido as mesmas
quanto aos limites de espaços físicos. Essas áreas decisivas ou esses
espaços sociais predominantes moveram-se do norte – de Pernambuco e
da Bahia – para o centro mineiro e, depois, para o sul do café. Moveram-se,
conservando uma constância de características sociais, de forma, ou
psicosociais (sic) de processos e função, que explicam, em grande parte,
unidade brasileira no meio de toda a diversidade que a contraria ou a
dificulta. Dentre tais características e que salienta, como forma ou estilo de
organização social. (FREYRE, 2003, p. 90-91).

Ou ainda, em Ordem e Progresso, sobre a própria família paulistana:

Também os ritos de convivência de senhores com sinhás, de meninos com


sinhamas, de sinhamas com mucamas, de pais patriarcais com filhos, foram
adotados daqueles modelos brasileiros, sedimentados em Pernambuco e na
Bahia, no Rio de Janeiro e no Maranhão, pelos paulistas, neo-aristocrátas,
em conseqüência da superação do açúcar pelo café na ordem econômica
nacional; e sofreram alteração na subárea da aristocracia, em virtude da
maior presença nessa subárea que nasce do açúcar, de governantas
alemãs e de institutrices européias. (FREYRE, 2004, p. 633).

Obviamente, a leitura freyriana compõe o cenário de estudos da família


colonial com muita propriedade, mas isso não significa que outras leituras não
possam ser aplicadas. Com essas assertivas, o que se reclama é o ponto do qual se
parte para pensar a família de hoje prescindindo dos valores, dos sentimentos e das
relações da família de outrora. Além disso, como Freyre já acentuava, a classe
média é muito recente para determinar um modelo de família sobre a patriarcal.

Na variante histórica do funcionalismo, os clássicos de Freyre (1963) e


Candido (1951) que descrevem respectivamente, a família patriarcal e suas
transformações a partir do século XIX, forjam modelos de família que
durante décadas predominaram no pensamento sociológico brasileiro sobre
esse tema e que só recentemente foram relativizados. (BRUSCHINI, 2000,
p. 6).

Essas considerações, no entanto, não impedem de observar que a figura do


pai, apesar de ter mudado de lugar, revestiu-se de outros papéis, e enfraqueceu-se
no seu poder, mas não deixou de ser reivindicada.
Ainda a respeito dessa continuidade da importância do pai nos arranjos
familiares contemporâneos, Sarti (1983) acentua-lhe a vigência, mesmo
considerando as tensões aplicadas sobre essa figura, provenientes do discurso
feminista e das novas tecnologias, principalmente nas famílias de baixa renda,
supondo inclusive conseqüências quanto à sua ausência ou ao seu
53

enfraquecimento. Segundo ela, diga aqui, o lugar do pai ainda é reivindicado nesses
arranjos familiares, quando se pede, no nome do filho, o nome do pai, e, apesar
dessas famílias se constituírem como redes e não como núcleos, e a queda do
patriarcalismo ser inevitavelmente associada ao abalo que a autoridade masculina
sofreu depois da flutuação do papel de provedor, as mulheres, ”mesmo quando
sustentam economicamente suas unidades domésticas, [elas] podem continuar
designando em algum nível um ‘chefe’ masculino.” (SARTI, 2005, p. 30).
Numa extensão mais ampla, a respeito dessa transformação sofrida na figura
do pai devido às transformações processadas na figura do masculino, a obra A
Transformação da Intimidade, de Giddens (1993) elenca as seguintes causas: a
variedade da vida sexual também para as mulheres, a transvalorização da
virgindade, a positivação da homossexualidade, a apropriação da sexualidade pelos
campos do poder na sociedade capitalista, a liberação da constituição da família dos
laços de parentescos promovida pelo romantismo, a dissociação do sexo da
reprodução, a elevação da paixão sobre o amor, a idéia de romance aplicada às
relações afetivas, o desligamento entre o sexo e o casamento, o alargamento do
papel feminino dentro dos arranjos familiares, a releitura do elemento confiança no
âmbito jurídico nas relações entre homem e mulher, a exigência de sensibilidade e
compreensão para a qualidade dos relacionamentos familiares, a compreensão de
que certos comportamentos paternos podem ser emocionalmente inadequados –
controle, agressão e medo – em favor da declaração da independência emocional
dos filhos com relação aos pais, resultando disso uma desculpabilização do
patriarcalismo frente à imaturidade que perpassa as relações hoje e as tornas ainda
mais problemáticas no que se refere à questão da autoridade:

Atualmente, grande parte da violência sexual masculina provém mais da


insegurança e dos desajustamentos, do que de uma continuação
ininterrupta do domínio patriarcal. A violência é uma reação destrutiva ao
declínio da cumplicidade feminina. (GIDDENS, 1993, p. 138).

Se se pode assim admitir que as famílias atuais transitam no par masculino e


feminino no que se referem à autoridade, ainda segundo Sarti (2005. p. 34), a figura
do pai se vincula ao papel de intermediar a relação da família com o mundo externo
e, a exemplo daquela família patriarcal, “no mundo simbólico dos pobres, a família
tem precedência sobre os indivíduos”.
54

3.5 - PAI ENFRAQUECIDO

Freyre associa o processo de transmutação da figura forte do pai em figura


enfraquecida, a três elementos, a saber: a importância crescente do bacharel
citadino sobre o patrão rural, o desenvolvimento das cidades e o surgimento de
políticas estatais que tomaram das mãos do pai suas atribuições de mando e
cuidado. Sobre esse período, assim ele se expressa:

O absolutismo do pater famílias na vida brasileira – pater famílias que, na


sua maior pureza de traços, foi senhor de casa-grande de engenho ou de
fazenda – foi se desenvolvendo à medida que outras figuras de homens
criaram prestígio na sociedade escravocrata: o médico, por exemplo, o
mestre-régio; o diretor de colégio; o presidente de província; o chefe de
policia; o juiz; o correspondente comercial. À medida que outras instituições
cresceram em torno da casa-grande, diminuindo-a, desprestigiando-a [...]
(FREYRE, 2003, p. 238).

Atualmente, boa parte das nossas relações sociais e até afetivas, é


atravessada por esse processo de enfraquecimento ou transformação da figura do
pai. As investidas do Feminismo remodelaram toda a reprodução da ordem social
em torno dessa questão, mas some-se a isso também as mudanças na legislação,
no Brasil bastante representativas quando do surgimento da Lei Maria da Penha, e
as novas leis de proteção às crianças e às mulheres, a imputar severas punições às
tiranias do pátrio poder.
Diga-se de passagem, a Lei 11.340, sancionada no dia 7 de agosto de 2006,
denominada de “Maria da Penha” em homenagem à mulher homônima que ficara
paraplégica ao receber um tiro do marido, aliás, só punido duas décadas depois do
ato criminoso, significou, no contexto machista brasileiro, um golpe decisivo sobre o
autoritarismo masculino, que, culturalmente, autorizava os homens a exercerem
violências e agressões quase que impunemente sobre suas companheiras, muitas
vezes reduzidas ao silêncio opressor.
Junto a esses fatos, inclua-se igualmente a polarização das classes, a
subordinação do poder do pai ao capital, a industrialização a enfraquecer os
mecanismos de controle paternos sobre a família devido à separação o lugar do
trabalho e o lugar da residência, e os novos arranjos familiares, como fatos
responsáveis do enfraquecimento da figura do pai já apreciado por nós na primeira
parte desse estudo (THERBORN, 2006).
55

De modo que, daquela figura central, de pai-domiciliar, nutrido pelo próprio


sistema que alimentava, sobrevivente às investidas do tempo, e que tinha na casa o
desenho exato de seu poder de organizar valores, fazendo passar por suas mãos os
abusos e os cuidados, restou a figuração de repugnância, quando não de desprezo,
como também a associação de si ao despotismo familiar, à condenada atitude de
vigia sobre o feminino, ao gerador de um regime de excessos que o vincularam a
ódios e ressentimentos, opressões e dominações.
Em um contexto mais amplo que o analisado nessas linhas, como já
observamos, Therborn (2006) chegou a colocar o patriarcalismo, enquanto sistema
de relações familiares, como emblemático para toda História ocidental – “No começo
de nossa história, todas as sociedades importantes eram patriarcais.” (THERBORN,
2006, p. 33). Mas, com isso, não se pretende significar uma plena abrangência
desse modelo de relação doméstica, já que o próprio autor adverte para as
diferenças marcantes dos usos do pátrio poder em culturas e classes distintas. Aqui
se registrou apenas a extensa dimensão em que se inscreve o patriarcalismo, a fim
de se considerar as suas sobrevidas.
Certamente, a postura da família tradicional, baseada sobre o centramento do
pai acende, até hoje, reações não tão amistosas, mas seu estudo goza de certos
amparos: por meio dos escritos e das pesquisas acerca da família patriarcal, aqui no
Brasil devido também a Freyre, sua compreensão ganhou espaço na discussão da
formação cultural das gentes que as modelara, de modo que o patriarcado tornou-se
material obrigatório para se pensar, no caso do Brasil, os próprios elementos,
comportamentos e personagens que se encarregara de fazer surgir. Ao
identificarmos isso, nossa pesquisa pôde tomar uma abrangência maior sobre a
figura do pai tal como caracterizada a partir do estereotipo do pai-patrão, e isso nos
oportunizou a traçar certos paralelos acerca do patriarcalismo de outrora com as
paternidades da atualidade.
56

4 - CAPÍTULO III - A DISPENSA DO PAI

4.1 PAI FIGURA EM REVISTA

O declínio do patriarcado, como instituição


dominante da sociedade brasileira, tornou-se
definitivo e definitiva a sua substituição por
outras instituições.
(Freyre, 2004)

Nos novos arranjos familiares surgidos a partir da revisão da autoridade na


família, a figura do pai foi a que mais sofreu um processo de desgaste, que lhe
exigiu uma retirada dos antigos elementos dos quais tradicionalmente se compunha.
Associado a práticas abusivas do exercício do poder na família, o pai tornou-
se um dos personagens mais criticados na cultura contemporânea. Todas as
caracterizações a ele atribuídas insistentemente evocavam responsabilizações
acerca dos males empregados contra as mulheres, os filhos, enfim, sobre a
economia doméstica tradicional (SAFFIOTI, 1969).
O papel que mais o caracterizava, a saber, o de provedor, foi-lhe apontado
como o instrumento principal a partir do qual seus excessos se assentavam e seus
abusos, à baila da autoridade, encontravam justificativas. Dono, então, de uma
marca nada apreciável, a figura paterna, de modo singular nos últimos cinqüenta
anos, desgastou-se tanto que houve inclusive quem lhe anunciasse seu colapso,
junto com o formato familiar tradicional (PETRINI, 2003).
Sobre o pai se aplicou toda uma série de caracterizações nesse processo de
revisão: responsabilidade pelo desgaste do modelo tradicional da família, culpa
pelos traumas infantis, racionalização da violência sobre os gêneros, afunilamento
das relações afetivas, degeneração do exercício da autoridade em autoritarismo,
supressão de direitos no núcleo familiar, mandos e desmandos injustificados,
mesmo quando o que se evocava era a ordem pública e a educação para lhes
explicar a atuação paterna naqueles moldes.
57

Assim, o mesmo nome do qual por muito tempo a sociedade pré-industrial se


nutriu, tornou-se sinônimo de boa parte daquilo que o mundo contemporâneo rejeita.
Sendo que, na pós-modernidade não existe mais centro como também
identidades monolíticas (BAUMAN, 2007) e como ao pai se atribuía diretamente a
produção e a manutenção desses dois pólos, tê-lo por perto, com a caracterização
de figura forte e centralizadora, era, ao mesmo tempo, corre o risco de reviver a
possibilidade nada sedutora da retomada das práticas (e funções) incompatíveis
com as novas modalidades de se constituir um arranjo familiar e a construção do
indivíduo.
Num mundo marcado pelas relações de poder, sentir-se ou ser dominado
tornou-se tão nocivo quanto dominar os que exigem sua proximidade. Em
contrapartida os afetos começaram a ser determinados também por um efeito
incapaz de manter-se por longos períodos, a saber: a desconfiança.
A caracterização da relação paterna como explícita relação de poder de uma
figura que arbitrariamente reclama para si o que pode ser distribuído equitativamente
entre os pares, figura como denúncia de como as relações de gênero, o processo
educativo e a organização doméstica escondem por detrás de si rivalidades imensas
que, podem se deixar suplantar ideologicamente.

4.2 - DEPOIS DA REVISÃO IDEOLÓGICA DA LEI

Ora, se o pai cuidava, antes do advento dos tempos modernos, era porque
não havia ainda outras instâncias mais capazes de fazê-lo (CASTELLS, 1995). Com
a introdução da mulher no mercado de trabalho e a plena aceitação de sua
igualdade física, social, e intelectual ao antigo macho gestor, os cuidados desse
personagem, então, segundo afirmam os discursos revisionistas, em especial, o
feminista, puderam ser desmascarados como estratégias de dominação
(THERBORN, 2000).
Sendo o Feminismo um movimento sócio-político que luta pela emancipação
da mulher e pela equiparação dessa com os homens quanto aos direitos sociais,
suas relações com as figurações masculinas dentro do tecido social e dentro da
família serão sempre marcadas por uma analítica da suspeita. De fato, um dos
objetivos do Feminismo é o de demonstrar como a concepção de sexo biológico não
58

pode ser evocada para justificar nenhum tipo de distinção entre homens e mulheres,
desde quando essa divisão binária, entre macho/fêmea, segundo o Feminismo, é
culturalmente construída e orientada a partir da concepção vigente de gênero com o
objetivo da submissão feminina.
Assim, após essa releitura, o pai, que é um personagem masculino, figura
agora como o elemento que institucionalmente fora autorizado a aplicar sobre as
mulheres essa série de mandos que lhes impedia maiores alcances sociais, que o
movimento feminista chama de liberação. Essencialmente enraizado na estrutura
familiar e nas reproduções sociais (CASTELLS, 1999), esse sujeito social deve
então ser vigiado para que não ressurja com todos os elementos dos quais dispôs e
se manteve.
O pai patrão, donatário dos bens a ponto de determinar legalmente os direitos
de herança, e distribuidor dos proventos conseguidos por meio da força do seu
trabalho, encontrava, assim, na aurora da modernidade, a desautorização precisa
para enfraquecer-se: a denúncia de que era ideológica a caracterização da mulher
como psicologicamente sub-dependente, fisicamente incompleta, intelectualmente
amena, e menos racional. Daí a extensão de sua influência, denunciada como
abuso, revelando-se enquanto fraqueza e estratégia de bases apenas teóricas, nas
quais o poder masculino se sustentava, mas que se mostrou possível de ser revista.
O que, no entanto, foi um movimento de equiparação para cima, inverteu-se
num processo crescente de diminuição da participação do homem na formação
familiar (PETRINI, 2003). Na manifestação de suas carências, para desmascará-lo
como construção arbitrária, a ideologia masculina deu lugar à flutuação da vida
doméstica amparada agora na sexualidade mais móvel.
Originalmente, o poder paterno era extenso em sua aplicação sobre o
universo familiar. Na Roma antiga, agregava três fundamentais poderes, a saber:
potestas, manus, e dominium. O primeiro incluía o direito sobre a vida dos seus. O
manus, o direito sobre a esposa, aqui também lida no prisma de coisa-pertença, e o
dominium, sobre a propriedade. Essa tríade, nada compatível com os anseios de
liberdade moderna, apesar de não ter sobrevivido no formato e na aplicação ao
distante mundo romano, não deixou de ser evocada como prova da vinculação do
poder do pai com as abusivas formas de se estruturar a família.
Além disso, à figura do pai se vinculou também um outro aspecto igualmente
denunciador: sua ligação com os outros poderes formadores do social. Nessa
59

perspectiva, por ela assim passavam outras tantas relações de juízos, de mandos,
de organizações que fez de sua longa elaboração na cultura ocidental um direto
componente para a naturalização do androcêntrismo (SAFFIOTI, 1969),
especialmente defendido, como já vimos, por instituições vistas como igualmente
dominadoras, a exemplo do Estado, a Igreja e a Escola (BORDIEU, 2002).
Por esse ponto de vista, o pátrio poder apresenta-se aos discursos
revisionistas modernos como um espaço que deve ser regulado até legalmente para
se impedir as suas perigosas reincidências nas famílias contemporâneas, que se
pretendem mais arejadas que aquelas não mantidas sob sua égide. Nesse sentido,
afirma Shorter (1977, p. 220 apud THERBORN, 2000, p. 40) que:

Os poderes do pai e do marido – o patria potestas e o manus mariti –


estavam firmemente institucionalizados, sustentados pela lei da igreja e pelo
ensino religioso, pela lei secular e pelos costumes aldeões, sob a sanção do
ridículo público.

Se outrora ao pai se deveria prestar obediência, disciplina e deferência,


inclusive com a possibilidade de crime no caso de ofensas ou violências, como
figurava no Código Penal Sueco de 1864 (THERBORN, 2006), com o advento das
legislações protetoras à criança e à mulher, o panorama se inverteu.
Na contemporaneidade, as mudanças nas leis e nos costumes se inclinaram
crescentemente para o enfraquecimento do poder paterno, parte por ser este
entendido como o gerador de atos perigosos à família, como espancamentos e
agressões, e parte por se constatar isso quando do surgimento de instâncias
amparadoras da mulher e da criança, como as delegacias especializadas.
No Brasil, todo esse processo foi paulatinamente assimilado. Verificado desde
o surgimento da República (FREYRE, 2005), porém, seu cume se dá na criação da
Lei Maria da Penha, que em definitivo assume o compromisso de defesa da mulher
enquanto vítima dos abusos domésticos empregados pelos homens.
Outros exemplos, porém, podem ser aqui evocados como as Leis nº 11.340,
de 07 de agosto de 2006, que assiste a mulher no caso de descriminação por sua
condição sexual e por seus direitos plenos inerentes à pessoalidade humana, e o
capítulo III, do título III, da Consolidação das Leis Trabalhistas (Decreto-Lei 5.452,
de 1º de maio de 1943), que assegurava os direitos trabalhistas das mulheres sem
60

restrições a serem aplicados devido casamento ou gravidez, pelo contrário, com


obrigações de amparo inclusive por causa dessas mesmas condições.
Sob a força desses mesmos princípios, surgiram outras iniciativas legais de
mesma ordem: A Lei nº. 10.778, de 24 de novembro de 2003, que estabelece
notificação compulsória em caso de violência contra a mulher que for atendida em
serviço público ou privado. A Lei nº 10.886, de 17 de junho de 2004, que tipifica a
violência doméstica. O artigo 51 da Constituição Federal de 1988, que criminaliza a
discriminação sexual feminina. O Decreto-Lei nº 2.848 (Código Penal Brasileiro), de
07 de dezembro de 1940, especialmente nos Artigos 130, 131 e 132, dirigidos
explicitamente ao marido, rezando-lhe as penas caso se prove contaminação
venérea da mulher por parte do esposo; e, no Artigo 147, protegendo-a das
ameaças feitas por parte do mesmo. A Lei nº 10.455, de 13 de maio de 2002, que
determina o afastamento do agressor na prova da violência doméstica. A Lei nº
10.718, de 13 de agosto de 2003, que autoriza o Poder Executivo a disponibilizar,
em dimensão nacional, número telefônico para denúncias à violência contra a
mulher. A Lei nº 10.224, de 15 de maio de 2001, que modifica o Decreto-Lei nº 2.848
(Código Penal Brasileiro), de 07 de dezembro de 1940, para imputar providências
mais rígidas nos casos de assédio sexual no trabalho. O surgimento de Juizados de
Violência Doméstica Familiar contra a mulher, a partir da Lei Maria da Penha. A Lei
nº 11.489, de junho de 2007, que institui o dia 06 de dezembro como o Dia Nacional
de Mobilização Dos Homens pelo fim da violência contra as mulheres.
Enfim, todas essas mudanças repercutiram sobre a figura masculina e, por
extensão, a do pai, como que o responsabilizando enquanto agente da nociva
atmosfera machista sobre a vida doméstica, e pleiteando um novo arranjo familiar
que até lhe prescindisse.

4.3 - A DIMINUIÇÃO DO ESPAÇO PATERNO

Além dos aspectos legais, outros também se somaram ao processo que


culminou no enfraquecimento do pai. A urbanização, a proletarização e a
industrialização são alguns deles.
De fato, nos estudos feitos por Gilberto Freyre, o elemento da urbanização já
era apontado como um dos aspectos da modernidade que cooperaram para a
61

diminuição do pátrio poder (FREYRE, 2003). A industrialização e o proletariado


viriam como complementares a esse processo, já que, pela primeira, a separação do
lugar do trabalho do lugar da moradia dirimia a extensão do controle paterno, e, no
caso da proletarização, ao pai se negava um dos elementos mais tradicionais de
sustentação de sua importância, a saber: a herança (THERBORN, 2000).
Assim, diminuído no seu campo de atuação, o pai viu a desintegração de seu
poder na contemporaneidade ser processada à revelia de sua forte simbólica
anterior. A modernidade, de fato, lhe trouxe desafios em campos múltiplos para que
sua sobrevivência se processasse sem grandes esforços, mas suas relações com os
outros componentes da família foram decisivamente perturbadas quando idéias mais
livres a respeito do amor e do sexo surgiram, desafiando os modos tradicionais de
vida e costumes a adequar-se a modelos comportamentais agora capitaneados por
outros valores, tais como a autonomia, o individualismo e, principalmente, a
alteridade.
Aqui cooperaram para o aceleramento desse panorama movimentos como o
Feminismo e o Socialismo e as campanhas sobre os direitos civis dos gays
(THERBORN, 2006), que não exploraremos de maneira mais direta aqui nesse
trabalho por razões metodológicas. No entanto, isso não nos impede de colocá-los
nesse patamar da discussão, visto terem esses movimentos desafiado
ideologicamente tanto a figura do pai quanto a extensão do masculino, e, nas
discussões de gênero nas quais se inscrevem, obrigaram a cultura a considerar de
maneira mais crítica todo o papel sócio-educativo que não os comportasse.
Assim, de uma figura de apoio, na família tradicional, o pai passou a ser
reconhecido como uma presença carregada de dramas e violências, especialmente
dirigidas aos grupos oprimidos pela centralização do homem, assentada na
importância excessiva do masculino. Desse modo, pode-se considerar então o pai a
figura mais descaracterizada na cultura do século XX.
Esse processo de “despatriarcalização” foi tão extenso que, além dos
movimentos revisionistas de gênero, podemos encontrá-lo também em pensadores
que delinearam decisivamente a cultura contemporânea. No freudismo, por exemplo,
que é uma das escolas reformadoras do pensamento moderno que mais influenciou
campos diversos da atuação social. É consenso considerar que parte das suas
idéias, principalmente num estabelecimento da psicanálise, elege a figura do pai
como o produtor dos traumas que os filhos e filhas haveriam de carregar, reféns que
62

são da infância, para dentro de suas vidas adultas. Mezan (2006, p. 216), a respeito
desse ponto, assim considera:

O poder do pai se exprime assim tanto na esfera econômica quanto na


sexual. Sua lubricidade contamina o elemento feminino que dele depende
para a subsistência, pondo a nu o elemento sexual presente em toda
relação de dominação. A culpabilidade permeia todas as relações desse
tipo... O foco dessa culpabilidade é, naturalmente o pai, o qual se revela
assim como figura por excelência da perversidade do poder.

Decerto, na perspectiva freudiana, a imagem paterna está associada ao


personagem responsável por provocar a cadeia de psicopatologias que sua obra
não se cansará de enumerar em neuroses e paranóias múltiplas em modalidades.
De fato, Freud reconhecerá “[...] na ambivalência dos sentimentos edipianos
[...] os contornos decisivos da figura do pai, não mais apenas como sedutor ou
objeto da fantasia, mas como elemento central da constituição do psiquismo humano.”
(MEZAN, 2006, p. 297); e desdobrará a figura paterna em diferentes personagens
para acentuar a sua dimensão nesse processo, a saber: o pai real, o pai idealizado e
o pai morto. Assim procedendo, o freudismo coopera, de modo fundamental com a
leitura da figura paterna digna de ser dispensada, por ser um elemento originador de
problemas profundos no nível das vigências emocionais dos outros componentes da
família.
Na literatura e na filosofia existencialistas, dois filões de amplas repercussões
sobre o pensamento moderno, o pai também encontrou juízes de peso que lhe
dimensionavam suas reais medidas de abusos e danos. Kafka, por exemplo, na sua
obra “Carta a Meu Pai”, dedica a maestria de sua escrita a enumerar a série de
sentimentos ambíguos e dolorosos que a figura paterna lhe revelava.
Equilibrando-se entre admiração e recusa, suas palavras são dirigidas ao pai
ora acentuando a força fascinante que aquele indivíduo carregava, ora odiando-lhe
como o tirano que, segundo ele, na verdade era. No livro, aliás, o pai é acusado,
defendido e finalmente apontado como a razão da fraqueza do filho, incapaz de
rivalizar com a plenitude paterna sobre a qual pesava toda a responsabilidade de
educação da criança indefesa, mais vítima que beneficiada naquela dinâmica:

Teus processos oratórios especialmente eficazes para a educação e que ao


menos em meu caso não fracassavam jamais, eram: o insulto, ameaça,
ironia, risos malévolos e (coisas estranhas) auto-compaixão. (KAFKA, 2001,
p. 86).
63

Kafka é o emblema de uma época que, desatada das amarras do silêncio


venerável que o pai patriarcal exigia, encontra agora seu direito de elencar para o
mesmo pai, a partir do lugar do filho, todas as suas atitudes que este reprovava
como incapazes de se conciliar com o objetivo no qual o discurso que o justificava
na sua tirania encontrava apoio, a saber, a boa educação.
Um outro nome que também não relutou em pôr em público a tensa relação
que sempre encontrou com a figura do pai é Kierkegaard, considerado o precursor
do existencialismo filosófico.
Portador de uma análise filosófica extremamente densa, Kierkegaard, quando
se refere ao pai, expõe em drama bíblico, tal como sua formação religiosa lhe
possibilita, a figura paterna como responsável por lhe transmitir não somente uma
herança educacional, mas também delinear na sua alma melancólica a impressão
que teria sobre si e sobre o mundo.
Seu pai, Michael Pederson, luterano devotado à fé, condutor da família por
meio de austeridades impressionantes, obsessivo na sua religiosidade, era, para
Kierkegaard, a imagem típica da sombra da vida que, além da existência, lhe
comunicaria sentimentos tão controversos quanto estranhos. Sobre seu pai, ele
assim se referiu:

[...] Criança, recebi uma educação cristã rigorosa e austera que foi, para
perspectivas humanas, uma loucura. Desde a minha mais tenra infância, a
minha confiança na vida quebrou-se pelas impressões a que sucumbira o
próprio velho melancólico que mais tinha imposto: criança, ó loucura!
Adquiri indumentária de um melancólico velho. Terrível situação![...]
(KIERKEGAARD, 1986, p. 72).

No entanto, apesar de marcado na sua infância por tão decisiva presença,


Kierkegaard se revela frente ao pai, e, de modo especial, devido sua concepção de
Indivíduo superior à de Sujeito – como capaz de transcendê-lo e reinventar-se para
fora dele, mediante a Fé e o seu antagônico complemento, a assunção do
Desespero. É uma antecipação da necessidade psicológica da morte do pai, leia-se
superação, que será anunciada pelo freudismo (Mezan, 2006).
Na atualidade, o discurso filosófico ainda insiste na caracterização da figura
paterna como a herdeira do autoritarismo, a exemplo do que aparece na Escola de
64

Frankfurt, de modo singular nas reflexões de Horkeheimer (1992), de maneira que


ao pai não coube outra figuração que aquela ditada pelos seus próprios abusos.
Mesmo com toda postura contrária à possibilidade de retomada do poder
masculino nos arranjos familiares, é inconteste o fato de sua permanência. As
famílias, seja qual formato recebam, são ainda uma instancia de educação
importante para o processo de socialização dos indivíduos. Preocupam-se, dentre
outras coisas, com a reprodução das características humanas que possibilitam a
ordem social. E todo esse processo assenta-se na economia da autoridade (RISÉ,
2003).
Desde tempos remotos, todavia, sempre coube ao núcleo familiar a
competência de, mediante a autoridade reguladora da disciplina, engendrar algum
nível de obediência pública. Quando o poder na família se assentava no patriarcado
poder-se-ia dizer sobre um ordenamento mais linear das famílias, o que nos tempos
atuais não mais se verifica, e seu oposto aparece como um retrato de forças extra-
familiares que cooperam no controle sobre os indivíduos, verificando-se inclusive
seus efeitos sobre a construção conflituosa da personalidade desses (CASTELLS,
1999). A destituição do patriarcado acabou confundindo-se com a destituição da
paternidade e seus efeitos podem ser facilmente sentidos no processo sócio-
educativo atual.
O pai ligou-se, então, na contemporaneidade, a todos os dramas pessoais e
algumas mazelas sociais engendradas pelos vícios de abusos de poder a ele
associados, mas também seu esvaziamento parece ter atingido a todos que antes
nutriam dependência de sua autoridade. No entanto, quando se acompanha o fluxo
dos acontecimentos na prática, o que se observa é que o combate ideológico do
Feminismo sobre o masculino conseguiu vantagens políticas para todos os que
sentiram o peso autoritário da concentração do poder nas mãos de um elemento
apenas da família, a saber, o pai.
65

CONCLUSÃO

Pai, é chegada a hora, glorifica o teu


nome!
João XVII, I.

No estudo desenvolvido nessa investigação, partindo da análise da figura do


pai patriarcal, segundo a obra de Gilberto Freyre, constatamos, dentre outros
aspectos, a caracterização do pai como figura obsoleta nos arranjos familiares
atuais, devido aos valores da sociedade moderna ligados à defesa da liberdade
individual e da flutuação dos papéis familiares.
Na dimensão teórica, verificamos a relevância da tematização do pai como
um dos personagens mais combatidos na cultura atual, por ter sido vinculado à sua
figuração patriarcal. Daí surgira uma distinção incomum entre o declínio do
patriarcalismo com a queda do pai em si, revelados, segundo essas pesquisas, em
patamares distintos. De certo, um fato é a caracterização do patriarca antigo como
um sujeito formado de abusos e repressões e outro ponto é compreendê-lo como
um produto possível dos tempos em que era reclamado. O patriarca, a bem do que
se viu, pertence a um outro mundo que não mais é o único a ser aceito nas
configurações e no modo de vida da atualidade, pois outros espaços, outras
modalidades de vida e outras exigências, com a chegada da modernidade,
permitiram tantos outros formatos nos papéis sociais clássicos das famílias.
Nesse sentido, o estudo das características do pai patriarcal foi igualmente
revelador, demonstrando quais as razões de sua estruturação conforme ocorreu, os
aspectos que mais marcaram sua figuração para as gerações posteriores e os
porquês da rejeição feroz recebida com a chegada das exigências da defesa da
individualidade. Desse modo, o enfraquecimento da figura do pai, ligada ao declínio
do patriarca, pôde ser visto por outro prisma. Não apenas como resultado dos
discursos relativistas da contemporaneidade, como comumente se pensa, mas como
efeito da diminuição dos espaços que a figura paterna ocupara na sociedade
anterior à modernidade.
Assim, se o pai patriarca organizava o horizonte da vida global de seus
dependentes, permitindo ou contrariando alguns afetos, distribuindo crenças e
autorizando valores, engendrando políticas e ações hoje consideradas como
66

coercitivas, o pai da atualidade não encontra mais esses poderes, já que o


desenvolvimento intelectual, emocional e econômico dos filhos e das esposas ou
companheiras não necessariamente passam por ele e tampouco por sua
autorização.
Aquela pretensão patriarcalista de esgotar a totalidade da vida dos seus
membros (Freyre, 1983) entrou em decadência com o advento da urbanização, que
diversificou os pólos de vida dos indivíduos em variadas instâncias independentes,
reconduzindo-os a outros espaços de socialização, de cuidados e de mandos, como
a escola, o hospital, o clube de lazer, os meios de informação mais rápidos, como a
internet, por exemplo, a pluralizarem as fontes de formação dos indivíduos outrora
centralizadas na figura do pai patrão, de modo que sua rejeição confundiu-se com a
anulação de todo e qualquer pai que se aproxime daquele formato.
A importante distinção desses dois pontos, a saber, o patriarcado e a
paternidade em si, e a exigência da efetividade dessa última, fora uma descoberta
relevante nesse estudo, de modo que se compreenda:

[...] quanto a idéia de paternidade [...] reconhecer que ela não era
dado imediato da consciência, como o são as noções de nascimento,
maternidade ou morte, mas sim uma dessas aquisições culturais da
proto-história. (RISÉ, 2008, p. 227).

A exemplo de Risé, nessa mesma linha de pensamento, Dupuis (1989) trás


um outro contributo em acréscimo, principalmente quanto à questão de ser a
paternidade um elemento fundante tanto na formação social quanto na estruturação
pessoal dos indivíduos; apesar de não o ser de forma absoluta, como pretendia o
modelo patriarcal. Assim, para ele, a paternidade, e não necessariamente o
patriarcado, é um divisor de águas entre a história mais organizada, vinda após sua
estruturação, e a vida desorganizada socialmente, anterior a isso.

Quando se admite que a idéia de paternidade é um ganho da cultura (sem


que isso implique um juízo de valor) compreende-se facilmente que a
ressurgência dessa idéia na cronologia histórica é um ganho decisivo para
as sociedades humanas. (DUPUIS, 1989, p. 228).

No entanto, a modernidade, especialmente nos discursos revisionistas e nas


leituras culturais acerca da figura do pai, mostrou-se alheia a esses aspectos,
67

caracterizando a paternidade em consonância com o modelo patriarcal e obrigando-


a a uma dispensa social.
Sobre esse ponto, Bauman (2007) faz uma análise corrosiva da sociedade
moderna, definindo-a como individualista, superficial e produtora de sujeitos fracos e
fragmentados, devido a ausência de um centro de mando. Nesses tempos, nos
quais a autoridade transformara-se em sinonímia negativa, o pai foi eleito o detrator
maior dessa nova ordem de papeis flutuantes. Relacionado ao novo dinamismo, o
personagem pai fora declarado obsoleto, perigoso e abusivo.
Os modelos de costume e de regulação foram, então, abandonados e, junto
com estes, a vigência de um personagem que os sustentava (PETRINI, 2003). A
caracterização da família nuclear como inadequada para o mobilismo
contemporâneo uniu-se à descaracterização do primado do marido no ambiente
moderno e, conseqüentemente, do lugar do pai como dispensável nos arranjos
familiares mais modernos.
Essa nova ordem de comportamentos e valores, vinculada à decadência do
modelo familiar patriarcal que, durante gerações, sustentava a economia doméstica,
não encontrou outro substituto (PETRINI, 2003). A ausência do pai foi sentida
especialmente sobre a formação da personalidade dos indivíduos mais dependentes
dos “modelos de comportamento das figuras primordiais, o pai e a mãe, assumidos e
interiorizados." (CANEVACCI, 1984, p. 237).
De fato, a invisibilidade paterna atual, especialmente sua rejeição sistemática,
não poderia passar despercebida por completo para o processo de desenvolvimento
dos sujeitos sociais, já que estamos falando sobre o desprezo aplicado a uma das
figuras constitutivas da nossa civilização.
Ora, a vida dos homens se desenrola em formas criadas pelo próprio homem.
Na Antiguidade, como vimos em Arendt (1981), a vida humana dependia de um
espaço no qual fosse protegida de modo que sobrevivesse às exigências sociais.
Esse lugar era o “domo”, isto é, a casa, e seu guardião era o pai. Na esfera familiar,
os indivíduos viviam juntos por reconhecerem suas carências e as necessidades que
os cercavam. Na desigualdade que imperava na família, em oposição àquela
igualdade da polis, a vida e a sobrevivência precisavam ser conquistadas e
defendidas, de modo que o público e o privado, nitidamente separados,
asseguravam-lhes os dois ambientes necessários para a socialização completa.
68

Com o advento da modernidade e a dissolução da separação antiga de


público e privado, o sujeito moderno viu-se então num dilema: “A incapacidade de
sentir-se à vontade na sociedade ou de viver completamente fora dela.” (ARENDT,
1981, p. 49).
A rebeldia contra o social, que rivalizava com os interesses individuais,
acentuou-se quando a figura que assegurava o aprendizado da ordem, da lei, do
interdito, começa a ser anulada: o pai.
Assim, quando tirânico e abusivo, o pai era aquele que não permitia que a
desorientação privada escorresse à ordem pública. Ele evitava a desunião da casa e
à desproporção da individualidade ao coletivo para o qual o sujeito se destinara.
Com o desaparecimento do pai como figura canalizadora do ambiente doméstico, a
individuação tornou-se mais lenta e a socialização mais trabalhosa (CASTELLS,
1999).
A verificação desse processo como sócio-cultural foi o intuito dessa pesquisa.
Com esse estudo, procuramos investigar como os ataques à figura do pai, enquanto
personagem de abusos estão mais relacionados à rejeição a um estilo de família
que ao desprezo à paternidade em si. Além disso, vimos também que os críticos do
patriarcalismo não consideram a positividade do pai patriarcal por não associarem a
época à figura criticada, a única possível para o formato daquela sociedade.
O pai é, então, concebido, agora, não no seu estilo clássico, melancólico,
abusivo, mas em outra perspectiva que nos revela a nostalgia da ordem, como
elemento derivado de sua ausência. Mas, disso tudo surge um dilema: com o pai
morto, a competição, a violência e a desintegração se instalam e admitir que só no
equilíbrio das tensões que sua figura engendra, amor e ódio, o caos não se
concretiza por completo e a sociabilidade pode se realizar tornou-se muito custoso
(MEZAN, 2006).
Essa leitura, diga-se de passagem, não se aplica apenas à perspectiva
psicanalítica que vê na presença do pai a oportunidade da instalação do domínio
das forças psíquicas. Ela também pode ser verificada sociologicamente, a partir de
estudos que, investigando os efeitos da invisibilidade paterna na atualidade,
constataram o quanto de frágil se erigiu na sociedade sem pai e quantas profundas
marcas essa ausência produziu no tecido social da atualidade (CASTELLS, 1999).
Falar do pai, destarte, atualmente, é retomar toda essa lógica da distribuição
do poder sobre a qual o masculino lançou mão, mas também é relembrar dramas
69

pessoais catapultados pelos abusos que pulularam nas narrativas pessoais dos que
viveram uma época na qual a casa possuía centro e mando paternos.
É igualmente desafiador, ainda, pelo fato da atualidade exigir do feminino uma
vigilância constante sobre qualquer discurso que signifique uma possível diminuição
dos espaços conquistados pela negativa ao homem, e ao macho, e por tratar-se,
acima de tudo, de um diálogo entre dois matizes do pensamento ocidental que não
se cooperam com muita facilidade, o feminismo e o discurso patriarcal, mas que se
encontram num mesmo ponto: a desconstrução do masculino não significando o
desaparecimento total do pai, mas sua transmutação numa figura que ainda precisa
ser mais clareada pela lente da pesquisa social e antropológica.
70

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