Você está na página 1de 2

Universidade Federal de Minas Gerais

Conheça a UFMG
Informações institucionais e estrutura administrativa
Cursos
Cursos de Graduação, Pós­graduação, Extensão
Pesquisa
Programas e órgãos vinculados às atividades de pesquisa
Extensão
Programas e órgãos vinculados às atividades extensionistas
EAD
Cursos de ensino à distância
Programas
Programas e projetos especiais coordenados pela Reitoria
Serviços
Serviços oferecidos ao público externo e à comunidade UFMG
Notícias
Fatos e eventos que ocorrem na UFMG
Biblioteca
Sistema de Bibliotecas da UFMG, consultas, reservas, renovação
Vestibular
Informações sobre o vestibular
Mapa
Lista e estrutura de todo o site da UFMG
Inicial
Atalho para a primeira página do site
Contato
Fale com o Núcleo Web, jornalistas e o administrador da rede

Busca no site da UFMG    Procurar

Tese da Fale investiga 'niilismo galhofeiro' na obra de Machado de Assis
sexta­feira, 27 de março de 2015, às 5h49

Seguir @ufmgbr

Curtir 112 mil

A visão de Dostoiévski sobre os niilistas inspira o título do romance Os
demônios, de 1872. Anarquistas e terroristas, os personagens do escritor
russo incendeiam uma cidade, destroem casas e matam pessoas. Em crônica
publicada na Gazeta de Notícias, em 1885, Machado de Assis leva um
revolucionário russo, armado com bombas, a confundir um baile com uma
reunião secreta no Rio de Janeiro, e o personagem termina a noite
dançando.

O filósofo Vitor Cei, que acaba de defender tese na área de estudos
literários, conta essa história para ilustrar a forma como Machado de Assis
tratou o niilismo em sua obra: pessimismo e descrença como filosofia de vida foram motivo de
galhofa na pena do romancista carioca. Para o autor, Machado “conjuga filosofia e literatura de tal
forma que conteúdo filosófico e forma literária tornam­se indissociáveis”.

“Desde o século 19, os críticos acusam Machado, ou sua obra, de niilismo. No entanto, não havia um
estudo mais profundo e sistemático sobre o tema”, afirma Vitor Cei. “Ele tinha consciência aguda da
complexidade desse problema filosófico do século 19 e o discutiu, mas não era, ele próprio, niilista.
Seus personagens que apresentam essa característica nada tinham de exemplares, não inspiravam
respeito ou admiração, eram antes desprezíveis e risíveis.”

O pesquisador ressalta que pensar o niilismo em Nietzsche ou em Dostoiévski não é a mesma coisa
que analisar a questão em Machado de Assis. Ele lembra que o próprio Nietzsche apontou diferenças
entre o niilismo europeu, o russo e o do budismo, por exemplo. “A influência europeia no Brasil não
impediu que o niilismo tivesse características próprias por aqui. Eram realidades diferentes, e as
histórias de Machado refletiram isso”, afirma Vitor Cei.

Ele revela que Machado de Assis faz referência ao pessimismo presente na Bíblia, sobretudo no livro
de Eclesiastes, e que o escritor leu Pascal, filósofo cristão, e Schopenhauer, que para Nietzsche
exerceu grande influência sobre os russos. “Machado mostra como o pessimismo de Pascal leva ao
niilismo e, claramente, não leva o pessimismo de Schopenhauer a sério”, diz o autor da tese.

Metáforas
Vitor Cei analisou cinco romances de Machado de Assis, que dividiu em dois grupos. Quincas Borba
(1891) e Esaú e Jacó (1904), escritos em terceira pessoa, têm em comum a força do contexto, em
tempos de modernização do Rio de Janeiro [em foto de 1899, de autoria de Marc­Ferrez/France
Diplomatie]. O niilismo aparece na forma do esgotamento ou da negação de valores, relacionados ao
fim da sociedade escravista, à passagem para o capitalismo e ao surgimento da divisão de classes, de
acordo com o autor.

Nos outros três romances – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Dom Casmurro (1899) e
Memorial de Aires (1908) –, o  pesquisador encontrou o niilismo nas memórias dos narradores. “No
caso de Bento Santiago, de Dom Casmurro, a característica aparece na forma de ressentimento, da
necessidade de transferir a culpa para o outro. O Conselheiro Aires, do último romance de Machado,
por sua vez, tem poucas relações de amizade e é incapaz de amar, embora seu ascetismo seja bem­
humorado”, explica Vitor Cei.

O pesquisador observa também que, em seus romances, Machado não fala explicitamente em
niilismo. Ele usa e abusa das metáforas. “A voluptuosidade do nada”, que Cei incorporou ao título de
sua tese, está em Memórias póstumas; “o prazer das dores velhas” ajuda a descrever o espírito de
Bentinho; “a vida é um ofício cansativo” traduz à perfeição o caráter do Conselheiro Aires. Em
Quincas Borba, Machado oferece pérolas como “arquitetura de ruínas” e “o naufrágio da existência”.
De Esaú e Jacó, por fim, o autor da tese destaca a passagem “o tempo é um tecido invisível em que se
pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar
nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro”.

Tese: A voluptuosidade do nada: o niilismo na prosa de Machado de Assis 
De Vitor Cei
Orientador: Marcus Vinicius de Freitas 
Defesa: 26 de fevereiro de 2015 
Programa de Pós­graduação em Estudos Literários, da Fale

(Itamar Rigueira Jr./Boletim 1896)