Você está na página 1de 11

55

Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

A Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o


fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

Psychology in the institutional care services aiming at


strenghtening family and community ties

La Psicología en los servicios de atención residencial y el


fortalecimiento de los lazos familiares y comunitários

Christie Dinon Lourenço da Silva1

Raquel Cristina Denardi2

Ana Paula Sesti Becker3

Josiane da Silva Delvan4

Resumo
No decorrer dos anos, mudanças vêm acontecendo no que se refere às políticas públicas destinadas às crianças e adolescentes abandonados
ou retirados de seus lares. Entretanto, a dinâmica institucional dos abrigos ainda necessita ser reorganizada, para romper com o modelo de
caráter asilar, massificador e excludente. Assim, esta pesquisa teve como objetivo compreender a importância da atuação do psicólogo no
fortalecimento de vínculos familiares e comunitários com crianças em situação de acolhimento. O estudo caracterizou-se como qualitativo,
utilizando-se para a coleta de dados a entrevista semiestruturada. Os dados foram analisados a partir da análise de conteúdo temático
categorial. Participaram da pesquisa seis psicólogas dos serviços de acolhimento institucional de dez municípios do litoral catarinense.
Aponta-se que as estratégias e atuação do psicólogo com base em ações interdisciplinares e participativas constituem-se caminhos possíveis
para o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários com crianças em situação de acolhimento.

Palavras-chave: Abrigamento institucional; criança; Psicologia; metodologias participativas.

Abstract
Over the years, there have been many changes in public policies focused on children and teenagers abandoned by their families or removed
from their homes. However, the institutional dynamics of the shelters still needs to be reorganized in order to break with the classical asylar

1
Psicóloga, Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI (SC).
2
Psicóloga, Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI (SC).
3
Mestre em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Endereço: anapaulasbc@hotmail.com
4
Doutora em Psicologia. Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI (SC). Endereço: josidelvan@univali.br

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


56
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

model, that has always being massifying and exclusionary.This research aimed to understand the importance of the psychologist professional
in strengthening family and community ties with children institutionalized. The study was characterized as qualitative, using for data
collection by means of semistructured interview. The data were submitted to the analysis of categorical thematic content. The participated in
the survey were six psychologists who worked at institutional hostages of ten municipalities of Santa Catarina coast services. It is pointed out
that the strategies and the psychological care, based on interdisciplinary and participatory actions, constitute possible ways to strengthen
family and community ties to children institutionalized.

Keywords: Sheltering; Child; Psychology; Participatory methodologies..

Resumen
In transcurrir de los años, los cambios están ocurriendo en lo que se refiere a la política pública a los niños y los adolescentes abandonado y
isolado de sus casas. Sin embargo, la dinámica institucional de los refugios todavía necesita ser reconsiderado, romper con el modelo
massificador y exclusión. De este modo, esta investigación había cuando el objetivo comprende la importancia del rendimiento del psicólogo
en la tonificación de familia y bonos de comunidad con niños en la situación de abrigo. El estudio fue calificado de cualitativo, serlo usó el
semiestruturada de entrevista por la recolección de los datos. Los datos fueron analizados empezando del análisis de categorial temático
contento. Participaron en las psicólogos de investigación seis de los servicios de institucionalización de diez distritos municipales del
catarinense de costa. Lo es aparecer que el rendimiento con la base en los movimientos interdisciplinarios y participativas, posible para el
que los caminos son constituidos la tonificación de familia y comunidad de las estrategias y el psicólogo establece lazos afectivos con niños
en la situación de abrigo.

Palabras clave: Abrigo; Niños; Psicología; Metodologías participativas.

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


57
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

Introdução relatos e relatórios, do desejo e da opinião dos


acolhidos (Bento, 2010).
De acordo com o Plano Nacional de Para realizar tais atribuições, é importante
Promoção, Proteção e Defesa do Direito de que o profissional e os outros técnicos do
Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e acolhimento institucional propiciem a interlocução
Comunitária (Brasil, 2006), o termo acolhimento de saberes, técnicas e olhares multiprofissionais e
institucional tem sido indicado para denominar a interdisciplinares a fim de compreenderem o
medida de abrigo. Segundo o Ministério do acolhimento institucional a partir de todas suas
Desenvolvimento Social e Combate à Fome peculiaridades implicadas sob uma visão ampla e
(MDS), o serviço de acolhimento institucional deve integradora do contexto. Pois, sendo possível um
ser destinado a famílias e/ou indivíduos com trabalho interdisciplinar, torna-se um meio
vínculos familiares rompidos ou fragilizados, a fim facilitador para a implementação das metodologias
de garantir proteção integral, sendo que as unidades participativas no âmbito das medidas
não devem distanciar-se, do ponto de vista socioeducativas e de proteção infanto-juvenil.
geográfico e socioeconômico, da comunidade de Entende-se aqui como metodologias
origem dos acolhidos (Brasil, 2006). participativas ações interventivas que possam
A atuação psicológica em serviços de promover e incentivar a participação dos usuários
acolhimento é um campo amplo e pouco explorado, de diferentes serviços e instituições em políticas
principalmente pelo psicólogo ainda estar se públicas. Conforme Soares, Sarmento & Tomás
apropriando dessa demanda (Silva, 2009); o que (2005), as metodologias participativas constituem-
para tanto é necessário que se ultrapassem as se um espaço intersubjetivo, para onde confluem
tarefas operacionais de suprir as necessidades múltiplas formas pragmáticas, conceituais,
básicas de alimentação e conforto da criança, afim simbólicas e empáticas de conhecimento. Na
de propiciar um ambiente de apoio afetivo e discussão aqui proposta, parte-se da reflexão de que
acolhedor que busque amenizar as marcas da a Psicologia, em consonância com a equipe de
violência trazidas pela sua história de vida (Antoni acolhimento institucional, possa considerar as
& Koller, 2001). crianças e adolescentes abrigados como atores
De acordo com a Norma Operacional sociais significativos e interlocutores potenciais das
Básica de Recursos Humanos do Sistema Único de realidades sociais a que pertencem.
Assistência Social (NOB-RH/SUAS) (Brasil, Levando-se em conta tais aspectos, cabe-
2006), os profissionais que realizam esse trabalho nos uma breve contextualização quanto ao
fazem parte da equipe técnica de acolhimento reconhecimento de direitos e respaldo legal de
institucional, a qual deve ser constituída por, no crianças e adolescentes em situação de
mínimo, um psicólogo e um assistente social. Estes acolhimento. Segundo o Estatuto da Criança e do
devem realizar um trabalho interdisciplinar com as Adolescente (ECA), publicado em 1990,
famílias e a comunidade de origem da criança e ou inaugurou-se um novo olhar e novo tratamento às
adolescente que foi acolhido. O objetivo é a questões da infância, regulamentando a aplicação
reintegração familiar, com vistas a assegurar a essa das medidas socioeducativas e de proteção
criança o retorno ao seu núcleo familiar, com a (Galheigo, 2003).
garantia de seus direitos e proteção, estabelecendo As medidas de proteção do ECA (Brasil,
ainda contato e parcerias com a rede 1990), preveem, em caso de omissão, abuso ou
socioassistencial. Quando o afastamento é impossibilidade da família de cuidar de seus filhos,
inevitável, há de se pensar em como manter a o encaminhamento para famílias substitutas e, na
convivência, seja com a família da qual foram falta destas, para abrigos. Em caso de adoção,
afastados, seja com outras famílias. convém apontar as diretrizes que balizam a Nova
Além de promover o fortalecimento de Lei de Adoção Nacional nº 12.010, tendo vigorado
vínculos familiares e comunitários e de capacitar e a partir de 2009. As reformulações da legislação
instrumentalizar a equipe, o psicólogo que atua em contemplam modificações desde princípios que
acolhimento institucional deve se colocar na devem nortear a intervenção estatal no que se refere
posição de mediador da criança com a instituição, à aplicação das medidas protetivas às crianças e
com a família e também com o Poder Judiciário, adolescentes; assim como, na redução do tempo de
uma vez que os abrigados têm como protagonistas permanência da criança em abrigos, que não poderá
de suas decisões os educadores, a equipe técnica e a exceder a dois anos. Assim, a dinâmica institucional
Justiça. A mediação realizada pelo psicólogo é de dos serviços de acolhimento ainda necessita ser
grande relevância, pois este fará a inclusão, em seus

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


58
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

repensada, para que se rompa efetivamente com o teórico a abordagem bioecológica do


modelo de caráter asilar, massificador e excludente. Desenvolvimento Humano, proposta por Urie
Conforme Moré e Sperancetta (2010), o Bronfenbrenner; a qual permite compreender o
abrigo é uma medida de proteção social que oferece desenvolvimento de modo amplo na delimitação
assistência à criança e ao adolescente que se das interações e transições entre as pessoas em seus
encontram sem os meios necessários à diferentes contextos. Como exemplo, a família,
sobrevivência ou com pais ou responsáveis escola e o abrigo podem exercer influências
incapazes de garantir os direitos desses jovens. diversas no contexto desenvolvimental. Além da
Bento (2010) destaca que, em todos os abordagem enfatizar o ambiente, apresenta como
modelos propostos de acolhimento, fica clara a premissa a interação desse núcleo com outros três:
impossibilidade de crianças e adolescentes o processo, a pessoa e o tempo, ampliando o
expressarem sua singularidade, pois a massificação modelo teórico (Poletto & Koller, 2008).
institucional tende a desconsiderar a herança sócio- Pode-se pensar que o abrigo constitua-se
histórica que traz a possibilidade de pertencimento no ambiente imediato de impacto relevante na
social. Não obstante, separar as crianças das trajetória de vida de crianças e adolescentes
famílias denuncia uma ruptura brusca de vínculos institucionalizados, ou ainda, o microssistema, cujo
afetivos determinada pelo viés do mundo adulto, maior número de atividades são realizadas e as
sendo que uma vez rompidos os laços afetivos relações interpessoais podem assumir diferentes
familiares e comunitários, a trajetória de vida da papéis e funções (Vasconcelos, Yunes & Garcia,
criança tende a passar por maiores transtornos. 2009).
Em vista disto, discute-se sobre a Tendo como pano de fundo a temática
importância do acolhimento institucional se apresentada, esta pesquisa teve como objetivo
constituir em uma fonte de apoio social mais compreender a importância da atuação do psicólogo
próxima e organizada para os acolhidos, no fortalecimento de vínculos familiares e
desempenhando um papel fundamental para o comunitários com crianças em situação de
desenvolvimento psicossocial destes, uma vez que a acolhimento institucional.
rede social de apoio exerce uma profunda
influência na saúde e no bem-estar do indivíduo. As Método
crianças e os adolescentes que não vivem com suas
famílias, têm o mundo social ainda mais expandido
no momento em que deixam o núcleo familiar, pois O presente estudo caracteriza-se como de
nele são incluídos membros não pertencentes à natureza qualitativa e de campo exploratório, uma
família. A relação estabelecida com as pessoas que vez que se propõe a investigar as concepções,
trabalham na instituição desempenha papel central significados e posturas das pessoas, legitimando um
na vida das crianças e dos adolescentes abrigados, espaço mais profundo das relações, dos processos e
na medida em que esses adultos assumem o papel dos fenômenos (Minayo, 1998).
de orientá-los e protegê-los, constituindo-se nos Participantes
seus modelos de identificação (Siqueira, 2006). Participaram deste estudo seis psicólogas
Contextos assim descritos são espaços atuantes na equipe técnica dos serviços de
potenciais para o intercâmbio de intervenções acolhimento institucional de dez municípios do
interdisciplinares e comunitárias, com base nas litoral catarinense. A faixa etária das participantes
metodologias participativas, pois como esclarecem variou entre 26 e 47 anos. Quanto ao tempo de
as diretrizes do ECA (Brasil, 1990), a participação atuação profissional, observou-se certa discrepância
na comunidade é um dos princípios a serem na descrição dos dados, já que uma das
seguidos nos acolhimentos institucionais. Deve-se entrevistadas mantinha-se atuando há 22 anos,
assegurar o direito de acesso dos abrigados às enquanto outra estava atuando há quatro meses.
políticas básicas e aos serviços oferecidos para a Também variou o tempo de atuação nos serviços de
comunidade em geral, bem como por meio da acolhimento, de modo que uma profissional atua
participação das crianças e dos adolescentes em nesse campo há 10 anos, enquanto outra há somente
atividades tais como lazer, esporte, religião e dois meses. Em relação ao vínculo empregatício,
cultura. Isso propicia a convivência comunitária, pode-se destacar que apenas duas psicólogas são
evitando-se alienação e inadequação à vida em concursadas. As outras quatro são contratadas. A
sociedade. fim de melhor visualizar a caracterização das
Levando-se em conta tais aspectos, a participantes, apresenta-se a figura 1.
construção que se faz a seguir tem como aporte

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


59
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

Ano de Tempo de
Tempo de atuação no Tipo de vínculo
Participantes Sexo Idade conclusão da atuação na
Serviço/Acolhimento empregatício
graduação Psicologia
3 anos e 6
P1 F 28 2008 4 meses Concursada
meses
P2 F 26 2010 4 anos 2 anos e 4 meses Contratada

P3 F 27 2011 4 meses 4 meses Concursada

P4 F 27 2009 3 anos 2 meses Contratada

P5 F 47 1991 22 anos 10 anos Contratada

P6 F 46 2007 7 anos 6 anos Contratada


Figura 01: Caracterização das participantes

Coleta de dados Saúde, de 12 de dezembro de 2012. Cientes de que


Utilizou-se como técnica de coleta de os procedimentos adotados são preponderantes para
dados a entrevista semiestruturada, que, conforme o processo, antes da coleta de dados os
Gil (1991), tem como vantagem a possibilidade de responsáveis pela instituição preencheram o Termo
acesso à informação além do que foi delineado, no de Anuência. Já os participantes preencheram o
sentido de aprofundar e esclarecer a complexidade Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que
do fenômeno, expressando o modo de pensar e agir tem a finalidade de esclarecê-los quanto aos
das pessoas sobre a temática. Assim, elaborou-se objetivos da pesquisa, procedimentos e métodos
um roteiro semiestruturado de entrevista composto utilizados, bem como a forma de acesso aos
por vinte perguntas que abordaram aspectos do resultados obtidos. O contato com os participantes
perfil do profissional psicólogo e de suas práticas do estudo foi realizado após a aprovação pelo
nos serviços de acolhimento institucional. Comitê de Ética em Pesquisa de uma Universidade
Análise de dados do Sul do Brasil, sob parecer nº 300.916 de 14 de
Para organizar e interpretar os dados junho de 2013.
levantados, foi utilizada a Análise de Conteúdo
Categorial (Moraes, 1999) delineada em quatro Resultados e discussão
etapas: a da preparação, na qual foram
identificadas as informações que estavam 1. Formação profissional para o campo de
relacionadas aos objetivos da pesquisa e feito o atuação
processo de codificação do elemento principal de De acordo com as entrevistas realizadas
cada amostra. A segunda, a unitalização, incluiu a com as psicólogas que atuam nos serviços de
releitura do material e a definição das unidades de acolhimento, foi possível identificar que é sempre
análise. Na terceira, a categorização, foram necessário buscar uma formação direcionada a essa
agrupados os dados em comum e classificados por área de atuação, uma vez que, conforme a
semelhança ou analogia. A quarta etapa foi a entrevistada P1, ressaltou, “[...] porque a gente sai
descrição, na qual foi produzido um texto síntese, muito cru da faculdade [...]”. Além disso, a
expressando o significado. Emergiram cinco entrevistada P6 destaca que “[...] eu acho que tem
principais categorias temáticas de análise: 1. que tá sempre assim se atualizando assim, porque é
formação profissional para o campo de atuação; 2. um ambiente bem dinâmico, toda hora você se
equipe técnica; 3. desafios à atuação profissional; 4. depara com situações bem diferentes né, e a gente
acolhimento; e 5. serviço de acolhimento × não pode dizer que você tem o preparo pra lidar
Comunidade. com tudo aquilo [...]”.
Procedimentos Segundo Lisboa e Barbosa (2009), há uma
A pesquisa realizada seguiu os princípios grande insatisfação no que se refere à formação do
da Resolução nº 466 do Conselho Nacional de

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


60
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

psicólogo, sendo ela vista como deficitária tanto no Os outros quatro serviços de acolhimento
que diz respeito à formação técnica quanto à institucional, além da equipe mínima determinada
formação epistemológico-científica. Além disso, pela NOB-RH/SUAS (Brasil, 2006) e pelas
observa-se uma distância significativa entre a Orientações Técnicas (Brasil, 2009) que é de dois
formação acadêmica, a realidade profissional e as profissionais com nível superior, agregam ao grupo
demandas da sociedade. o profissional da Pedagogia.
Esse fator pode ser fortemente identificado A partir dos dados levantados, fica
na fala da participante P3 que afirmou que “[...] na evidente que, exceto o serviço de acolhimento, que
faculdade, a graduação ela não dá um... Não tem está em fase de reorganização, todos os outros
como pegar todos os campos de atuação e te passar possuem a equipe mínima determinada. A P4,
detalhadamente cada um. Então quando eu entrei, porém, dedica apenas quatro horas semanais ao
eu fiquei um pouco perdida [...]”. serviço, o que está muito abaixo do definido pelo
Scarparo e Guareschi (2007) destacam que SUAS, que são 30 horas semanais.
é imprescindível que a aprendizagem, base da Sobre como realizam os atendimentos, a
formação profissional, se estruture na prática, na fala da P4 é ilustrativa do que é recorrente para
vivência de experiências e no exercício da outros profissionais da Psicologia: “Às vezes em
efetivação de projetos que articulem e transformem equipe e, às vezes, individual. Nas audiências é em
as perspectivas do mundo acadêmico e da equipe, uma vez por semana paro aqui
população numa autêntica produção compartilhada individualmente pra acompanhar as crianças [...]. A
de saberes. P5 complementa: “Nós, uma vez por semana
Dessa forma, é de extrema importância discutimos os casos, quando a equipe se reúne [...].
uma formação continuada para os profissionais que Somente a P6 relata não fazer atendimento
desejam atuar nesse campo de intervenção, visto individual: “[...] No meu caso, eu não faço
que a entrevistada P6 relatou que “[...] eu acho que individualizado porque daí cabe à psicóloga clínica,
a formação ela é necessária, ela é constante, você se né? [...]”.
depara com situações que quando você pensa que Em relação aos documentos oficiais em
eu já vi de tudo, você vê que tem muito mais ainda, que a equipe técnica se apoia para a execução das
e você nunca vai ter visto tudo [...]”. atividades profissionais, houve certa dúvida e
No entanto, Carvalho e Sampaio (1997) imprecisão em algumas respostas, mas foram
afirmam que as reformas curriculares não são destacados o Estatuto da Criança e do Adolescente
suficientes para formar um profissional generalista (Brasil, 1990), as Orientações Técnicas: Serviços
capaz de exercer todas as atividades descritas nas de Acolhimento para Crianças e Adolescentes
diversas áreas de atuação. (Brasil, 2009) e a Tipificação Nacional de Serviços
2. Equipe técnica Socioassistenciais (Brasil, 2009). P2 destaca “[...]
Além dos profissionais que integram a tem também o outro manual de convivência
equipe técnica/equipe de referência do serviço de familiar e comunitária que é bem bom [...]”, P3
acolhimento institucional, no caso, o psicólogo e o acrescenta as “[...] leis, resoluções que saem em
assistente social, conforme prevê as Orientações relação à violência com relação a instituição, abrigo
Técnicas: Serviços de Acolhimento para Crianças e mesmo, adoção, família substituta. Tudo o que é
Adolescentes (Brasil, 2009), determina-se que a material relacionado a esse assunto, a gente busca
equipe técnica seja composta por dois profissionais estar lendo e até traz para a reunião de equipe,
de nível superior com experiência no atendimento a compartilha, isso é uma coisa bem boa.” E P5 inclui
crianças, adolescentes e famílias em situação de a “[...] ética profissional, nosso Código de Ética”.
risco para um número de até 20 crianças e Salienta-se que a equipe técnica está
adolescentes acolhidos. completa na maior parte dos serviços de
Nos serviços de acolhimento que fizeram acolhimento, sendo que esses profissionais têm
parte deste estudo, foi possível identificar que delimitado o que deve ser um atendimento em
apenas uma instituição não apresenta o quadro da equipe e um atendimento individual, e trazem como
equipe técnica formado. P2 justifica que “[...] faz base os mesmos referenciais teóricos.
um mês que eu assumi a coordenação e ainda não 3. Desafios à atuação profissional
veio outro psicólogo”. Já P3 informou que Uma das dificuldades na atuação do
constituem a equipe técnica, profissionais da psicólogo nos serviços de acolhimento diz respeito
Psicologia e do Serviço Social, havendo mais de à questão do trabalho em equipe. De acordo com a
um de cada área em razão da demanda acolhida na entrevistada P1, o desafio é “[...] conseguir ter essa
instituição. dinâmica de trabalho interprofissional [...]”.

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


61
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

Segundo o Conselho Federal de Psicologia “[...] aqui a dificuldade era minha carga horária pra
(2009), as dificuldades em se desenvolver um fazer um trabalho efetivo [...]”, e a entrevistada P3
trabalho multidisciplinar são relativas às diferenças destaca que “[...] eu não consigo trabalhar como eu
na formação e no tempo de experiência gostaria pela falta de tempo [...]”.
profissional, que se refletem na abordagem e na Outro problema relatado pelas
atuação com a população atendida. Além de entrevistadas foi a rotatividade, tanto de crianças
questões pessoais que podem dificultar o trabalho, institucionalizadas quanto de profissionais em
os desafios se referem à falta de clareza acerca de serviços de acolhimento. Segundo a entrevistada P5
atribuições, contribuições e limites de cada membro acontece “[...] porque muitas vezes você tá
da equipe. trabalhando com uma criança que é uma criança
Todavia, é especialmente nesse contexto, que ainda não concluiu o tratamento e, de repente, o
que se aponta a necessidade de tal competência poder judiciário determina o desligamento dessa
profissional e do desenvolvimento interdisciplinar. criança [...]”.
Pois, permitir a troca de diferentes saberes e Nesse sentido, ressalta-se que as medidas
práticas no acolhimento institucional possibilita a de proteção previstas no Estatuto da Criança e do
amplitude de um olhar integrador sobre os Adolescente (Brasil, 1990) definem que toda
processos psicossociais e desenvolvimentais da criança ou adolescente que estiver inserido em
criança e do adolescente. Por conseguinte, otimiza- programa de acolhimento familiar ou institucional
se o trabalho prestado aos acolhidos e, numa esfera terá sua situação reavaliada, no máximo, a cada seis
mais abrangente, a comunidade e o entorno social. meses, devendo a autoridade judiciária competente
Outro empecilho no desempenho decidir de forma fundamentada pela possibilidade
profissional é a falta de recursos, uma vez que ao de reintegração familiar ou colocação em família
não possuir recursos mínimos, o psicólogo precisa substituta, sempre repassando as informações à
solucionar problemas que não competem à sua equipe técnica da instituição. Além disso, a
atuação profissional, o que dificulta seu trabalho. permanência da criança e do adolescente em
Segundo a entrevistada P4 “[...] outra dificuldade é programa de acolhimento institucional não se
a questão de recurso. Às vezes [...] acabamos dando prolongará por mais de dois anos, salvo
jeito pras coisas, porque tudo tem exigências comprovada necessidade que atenda ao seu superior
mínimas, mas não temos os recursos mínimos [...] interesse, devidamente fundamentada pela
até alimentos precisamos pedir para a Educação”. autoridade judiciária.
Além disso, há a sobrecarga de trabalho, Já a entrevistada P6 ressaltou que: “[...] eu
outro entrave ao desenvolvimento de tarefas. A vejo assim essa rotatividade de profissional
entrevistada P4 afirmou que uma das dificuldades é [...]”como a maior dificuldade. Em relação a isso, o
“[...] a quantidade de coisas que fica pra cada programa no qual a entrevistada está inserida tem,
psicóloga [...]”. Segundo o Conselho Federal de como um dos profissionais, a mãe social e afirmou
Psicologia (2009), em alguns serviços, os que: “[...] toda vez que sai a mãe da casa, a gente
profissionais da Psicologia sentem-se nota que tem uma quebra na harmonia da casa
sobrecarregados com o número de atividades que [...]”.De acordo com a Lei nº 7.644 (Brasil, 1987),
têm de executar para atender à demanda. Além que regulamenta a atividade de mãe social, as
disso, o número insuficiente de profissionais para instituições de utilidade pública de assistência ao
atendimento e ampliação do escopo das ações e a menor abandonado, e que funcionem pelo sistema
falta de projetos para a formação dos profissionais de casas-lares, utilizarão mães sociais visando
envolvidos no trabalho são grandes desafios para a propiciar “ao menor” as condições familiares ideais
prática profissional. ao seu desenvolvimento e à sua reintegração social.
Quanto a isso, Siqueira & Dell’Aglio 4. Acolhimento
(2006) afirmam que nos serviços de acolhimento Segundo Brito (2010), crianças e
são observados problemas funcionais, como o adolescentes possuem direitos como saúde,
número inadequado de funcionários, que ocasiona educação, moradia, liberdade, lazer, cultura,
dificuldade no cumprimento das funções, profissionalização, convivência familiar e
sobrecarga das tarefas e um atendimento pouco comunitária, que devem ser garantidos pelo Estado,
eficaz. pela sociedade e pela família. Quando constatado
No que se refere à carga horária do que a criança ou o adolescente encontra-se em
profissional no serviço de acolhimento, duas situação de maus-tratos, negligência, violência
entrevistadas se referiram a esta como sendo a física, psicológica ou sexual e de trabalho infantil, o
maior dificuldade. A entrevistada P2 ressalta que Conselho Tutelar pode optar pelo acolhimento

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


62
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

institucional. Dessa forma, devem ser oferecidos envolvidas. Desse modo, pode-se analisar que as
serviços de assistência integral à criança e ao trocas sociais entre abrigo-escola e, portanto,
adolescente quando a família não assegura o relações entre abrigo-comunidade, caracterizem-se
cumprimento dos direitos destes. como transições ecológicas, o que significa a
Nesse sentido, ao serem questionadas passagem de um ambiente já familiar para outro
sobre o que entendem por acolhimento, as ainda desconhecido, diz respeito ao conjunto de
entrevistadas ressaltaram a questão dos cuidados microssistemas que uma pessoa frequenta e as
que são oferecidos nos serviços. A entrevistada P2 inter-relações estabelecidas neles. Essas transições
destacou que é “[...] tentar fazer o melhor do ecológicas referem-se à passagem do microssistema
possível que eles não tinham na verdade [...]”. para o mesossistema, que, conforme
Afirmou ainda: “[...] Justamente porque eles estão Bronfenbrenner (1996) é ampliado quando uma
aqui, é porque não estavam sendo bem tratados pessoa passa a frequentar um novo ambiente;
como deviam ser [...]”. Para a entrevistada P3 “[...] assim, as construções humanas e sociais que
serviço de acolhimento é isso, a pessoa é retirada operam nos diferentes contextos frequentados são
quando ela tá numa situação de violência e ela fica interdependentes, influenciando-se mutuamente.
num lar que vai oferecer proteção para ela [...]”. Já Em vista das dinâmicas interativas que são
a entrevistada P4 destacou: “[...] é proporcionar estabelecidas, torna-se fundamental considerar a
bem-estar físico, psicológico, escuta atenta, sem participação infantil no que se refere às práticas
julgamentos [...]”. desenvolvidas nos contextos inseridos. Parte-se do
Sendo assim, é possível refletir que o entendimento de que as crianças são atores
serviço de acolhimento tem funcionado como a principais e não meros coadjuvantes de suas
efetivação de políticas públicas com evidentes histórias de vida e da realidade em que estão
vantagens para criança do ponto de vista da sua inseridas. Dessa forma, é favorecida a criação de
segurança e bem-estar, uma vez que oferece, a um metodologias participativas para o público infanto-
só tempo, acolhimento, moradia e cuidados diários juvenil, no sentido de atribuir aos mais jovens o
(Cavalcante, Magalhães & Pontes, 2007). estatuto de sujeitos de conhecimento e não de
4.1. Trabalho com as crianças simples objeto, instituindo formas colaborativas de
O serviço de acolhimento pode ser construção do conhecimento que se articulam com
reconhecido como contexto de desenvolvimento modos de produção do saber empenhados na
para a criança que se encontra institucionalizada, transformação social e na extensão dos direitos
pois materializa as condições reais em que realiza o sociais (Soares et.al., 2005).
seu viver, estabelecendo habilidades e 4.2 Trabalho com as famílias
competências decisivas para a formação de Quando a situação familiar se apresenta
personalidade e sociabilidade próprias (Cavalcante vulnerável, caracterizando-se pela carência de
et al., 2007). recursos materiais, é imprescindível que sejam
Nesse contexto, ao ser questionada sobre realizadas ações no sentido de garantir o amparo
as intervenções que realiza com cada criança no dessa família pelas políticas sociais, sendo que a
serviço de acolhimento, a entrevistada P4 ressaltou: responsabilidade do trabalho com as famílias é
“[...] faço passeios, dinâmica de grupo, rodinha de também das instituições de acolhimento (Brito,
conversa, leitura de livros com conversas, 2010).
brincadeiras [...] Às vezes, algumas atividades que Em relação a isso, identificou-se que
não são da Psicologia, como ajudar nas tarefas da alguns serviços de acolhimento deixam a
escola [...]”. Já a entrevistada P6 afirmou que “[...] responsabilidade da preservação dos vínculos
Se têm uma queixa pra fazer, eu promovo diálogos familiares a encargo de outros programas. A
entre eles [...]”. entrevistada P1 afirmou que “[...] A preservação na
Em relação a isso, a criança verdade quem vai trabalhar mais é o CRAS, né?
institucionalizada deve ser estimulada à interação Porque pra eles terem chego aqui, já quebrou, tanto
com o meio em que está inserida, uma vez que o que muitos chegam aqui e legalmente não podem tá
serviço de acolhimento, como contexto de recebendo visitas [...]”. A entrevistada P2 ressaltou,
desenvolvimento, envolve um campo de relações ainda, que o apoio à reestruturação familiar “[...]
que abre espaço para trocas sociais e afetivas. Para fica a cargo somente do CREAS, a gente faz as
Poletto e Koller (2008), a interação entre diversos visitas e os encaminhamentos que a família precisa
contextos ao longo do ciclo vital pode promover [...]”. Ainda nesse sentido, a entrevistada P4
melhor qualidade de vida e processos de resiliência destacou: “[...] Existe no CREAS, as vistas de
para as pessoas e as sociedades nas quais estão orientação, das condições mínimas que se precisa

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


63
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

ter de suporte para estas crianças, que são previstas atividades internas da instituição também
no ECA [...]”. proporciona a garantia do direito à convivência
Segundo Brito (2010), é importante comunitária, facilitando o estabelecimento de novos
salientar que embora a convivência familiar seja vínculos e relações, bem como a oxigenação das
valorizada pelo ECA, há poucos relatos, na prática, práticas e rotinas institucionais. Entretanto, as
de programas que estimulem a manutenção da entrevistadas P2 e P4 informaram que não ocorre o
criança ou do adolescente em sua família de incentivo da convivência das crianças
origem, o retorno a ela após a institucionalizadas com outras famílias.
desinstitucionalização ou que incentivem a Nesse sentido a entrevistada P1 ressalvou
colocação e manutenção em famílias substitutas. que “[...] a gente procura inserir eles no máximo
5. Serviço de acolhimento × Comunidade possível das atividades que a comunidade vem a
As Orientações Técnicas: Serviços de oferecer, sempre que a gente julgar que vai ter
Acolhimento para Crianças e Adolescentes (Brasil, algum ganho pra eles ou não, né? [...]”.
2009) preveem que as crianças e os adolescentes Dessa forma, as crianças e os adolescentes
institucionalizados tenham a possibilidade de devem participar da vida diária da comunidade e ter
continuar a frequentar atividades que realizavam a oportunidade de construir laços de afetividade
antes do acolhimento (atividades esportivas, significativos com ela, sendo que os serviços de
culturais, religiosas entre outras). Quanto a isso, a acolhimento devem propiciar sua participação nas
entrevistada P2 ressaltou: “[...] vão no esporte, festividades e demais eventos, além da utilização da
consegui bolsa de estudo no curso de informática rede socioassistencial, de educação, saúde, cultura,
pros maiores e agora eu quero ver se organizo eles esporte e lazer disponíveis na rede pública ou
pra voltar a ir pra igreja, porque tinha uns que iam comunitária (Brasil, 2009).
pra igreja e têm que continuar, porque é a religião A entrevistada P2 destaca que “[...] não é
deles e têm que continuar [...]”. vir aqui por vir, se não tiver nenhum objetivo que
O serviço de acolhimento, em parceria nem venha [...]”. Ressalta ainda que “[...] tão
com a rede local e a comunidade, deverá começando a ter esse contato com a comunidade,
empreender esforços para favorecer a construção de até porque eles têm que ter, né? Não são bichos! Só
vínculos significativos entre crianças, adolescentes essa questão mesmo de vir aqui... a gente
e comunidade (Brasil, 2009). É nesse sentido que a preservava isso enquanto equipe [...]”.Isso
produção de políticas públicas de acolhimento demonstra que, ainda há uma preocupação de
pauta-se para assegurar o exercício da cidadania e alguns profissionais em relação à visita de pessoas
da socialização dos acolhidos. Quanto a isso, a da comunidade no serviço de acolhimento.
entrevistada P6 destacou que “[...] a gente busca Incentivar a participação comunitária nos serviços
atividades, por exemplo, inscrever eles em contra- de acolhimento e vice-versa, remonta a concepção
turnos, ah... vai ter um evento que eles possam de paradigmas preconceituosos e exclusivos ao
participar [...]”. Nesse sentido, a entrevistada P5 passo de contribuir para um olhar que privilegie um
afirmou que “[...] os vizinhos vêm, participam. Nós sujeito integral com potencialidades capaz de
temos a vizinha aqui ao lado que ela sempre tá, transformar seu meio social.
frequentemente ela faz um pão caseiro, ela traz aqui
pras crianças tomar um lanche, ela faz bolo de Considerações finais
cenoura, nega maluca que eles amam, então assim é
bem bacana [...]”. Na busca de compreender a atuação do
É válido ressaltar que a formação de redes psicólogo nos serviços de acolhimento, esta
sociais entre o acolhimento institucional e a pesquisa permitiu concluir que sua contribuição e
participação comunitária pode favorecer o as estratégias usadas para o fortalecimento de
desenvolvimento integral de crianças e jovens vínculos familiares e comunitários com crianças em
institucionalizados, na medida em que possibilitam situação de acolhimento ainda são limitadas, visto
a transição ecológica e o engajamento em diferentes que os principais desafios dos profissionais
ambientes com características culturais entrevistados se referem a questões de trabalho em
diversificadas. Entende-se por rede social a soma equipe, falta de recursos, sobrecarga do trabalho,
de todas as relações que um sujeito identifica como carga horária e rotatividade tanto de crianças
significativas, a partir de um sistema de interação institucionalizadas quanto de profissionais.
entre os seus membros (Bronfenbrenner, 1996). Observou-se que a prática é pautada no
De acordo com Silva e Aquino (2005), a suprimento das necessidades básicas, moradia e
participação de pessoas da comunidade nas

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


64
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

cuidados diários, o que é imprescindível para as de somarem forças em benefício das crianças e
crianças, visto que se estão em uma instituição de adolescentes institucionalizados, os quais poderão
acolhimento significa que não estavam recebendo ser capazes de transformar sua própria história de
os cuidados necessários. Entretanto, não se pode vida e o meio social em que estão inseridos.
negar a questão do apoio afetivo e acolhedor como Nessa perspectiva, aponta-se a importância
uma atribuição necessária do psicólogo nesse em delimitar uma visão integradora e contextual
contexto de atuação. para refletir sobre os processos de atuação
Em relação à atuação do psicólogo no interdisciplinar do psicólogo no acolhimento
fortalecimento de vínculos familiares e institucional e no fortalecimento de vínculos
comunitários, as políticas públicas de acolhimento familiares e comunitários para crianças e
deixam a responsabilidade da preservação dos adolescentes. Assim, é possível refletir que as
vínculos familiares a cargo de outros programas transições ecológicas entre diversos espaços podem
como, o CRAS e o CREAS. No que concerne ao propiciar a formação de relações significativas, as
fortalecimento de vínculos comunitários, analisou- quais se tornam produtoras de sentido e
se que o trabalho das psicólogas entrevistadas aprendizagem, uma vez que são exercitados papéis
promove e estimula o convívio com a comunidade específicos e variados dentro de cada contexto.
local; todavia, ainda há preocupação de alguns Algumas limitações da pesquisa referente
profissionais em relação à visita de pessoas da a esse tema precisam ser ressaltadas, como o acesso
comunidade no serviço de acolhimento, ressaltando ao campo de pesquisa, uma vez que um dos
o preconceito destas como motivo principal dessa serviços de acolhimento foi fechado, além de haver
apreensão. municípios do litoral catarinense que ainda não
Identificou-se também que o trabalho com possuem serviço de acolhimento ou equipe técnica
as crianças institucionalizadas permite o exercício completa.
da coletividade e de metodologias participativas Sugere-se como estudos necessários e
que promovem o engajamento dos acolhidos nas relacionados ao tema pesquisas nos CRAS e nos
atividades propostas, bem como na inserção da CREAS, com o objetivo de identificar como é
comunidade, apesar das dificuldades apontadas. A realizada a interlocução com os serviços de
preocupação em realizar a interação das crianças acolhimento, visto que observou-se que o
em espaços para trocas sociais e afetivas como fortalecimento dos vínculos familiares é deixado a
passeios, dinâmica de grupos, brincadeiras, diálogo encargo desses programas. Indica-se, ainda,
entre as crianças, etc., são estratégias que pesquisas com as crianças e as famílias dos
favorecem a socialização, a afetividade e o acolhidos com a finalidade de compreender como
desenvolvimento de seus membros; contudo, a elas percebem a atuação desses serviços e qual a
dinâmica institucional dos abrigos ainda necessita influência para suas vidas.
ser repensada, para romper efetivamente com o
modelo de caráter asilar, massificador e excludente. REFERÊNCIAS
Quanto à atuação do psicólogo no serviço
de acolhimento, compreende-se que, dentro das
Antoni, C., Koller, S. H. (2001). O psicólogo
possibilidades existentes, o trabalho é desenvolvido
ecológico no contexto institucional: uma
de forma significativa, uma vez que estão sendo
experiência com meninas vítimas de violência.
realizadas intervenções coletivas, comunitárias e
interdisciplinares importantes para o Psicologia: Ciência e Profissão, 21(1), 14-29.
desenvolvimento das crianças e dos adolescentes
institucionalizados, como a promoção do diálogo Bento, R. (2010). A história de vida de crianças e
entre eles, as rodas de conversas e a leitura de livros adolescentes como mediadora da reintegração no
e a discussão de casos e planejamento entre a contexto familiar. Dissertação, Pontifícia
equipe técnica. Universidade Católica de São Paulo – PUCSP –
Salienta-se ainda, que a prática São, Paulo, SP.
interdisciplinar e multiprofissional são pilares
fundamentais dentro das ações em políticas
públicas, especialmente no contexto aqui Brasil. (1990). Estatuto da Criança e do
investigado; uma vez que o intercâmbio dialógico Adolescente – ECA. Nova Lei de Adoção Nacional
entre o psicólogo, assistente social, a “mãe social” e – 12.010/09. Brasília, DF.
demais integrantes da Rede, podem contribuir,
juntos, para um olhar integrativo e sistêmico a fim

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015


65
Silva, Christie Dinon Lourenço; Denardi, Raquel Cristina; Becker, Ana Paula Sesti; Delvan, Josiane da Silva.A
Psicologia nos serviços de acolhimento institucional e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários

Brasil. (2006). Norma Operacional Básica de Poletto, M., & Koller, S. H. (2008). Contextos
Recursos Humanos do SUAS – NOB-RH/SUAS. ecológicos: promotores de resiliência, fatores de
(2006). Ministério do Desenvolvimento Social e risco e de proteção. Estudos de Psicologia, 25(3),
Combate à Fome. Brasília, DF. 405-416.

Brasil. (2009). Conselho Nacional dos Direitos da Scarparo, H. B. K., & Guareschi, N. M. F. (2007).
Criança e do Adolescente e Conselho Nacional de Psicologia social comunitária e formação
Assistência Social. Orientações Técnicas: Serviços profissional. Psicologia & Sociedade, 19(2), 100-
de Acolhimento para Crianças e Adolescentes. 108.
Brasília, DF.
Silva, E. R. A., & Aquino, L. M. C. (2005). Os
Brito, C. O. O processo de reinserção familiar de abrigos para crianças e adolescentes e o direito à
crianças e adolescentes em acolhimento convivência familiar e comunitária. Políticas
institucional. (2010). Dissertação de Pós-Graduação sociais – acompanhamento e análise. Recuperado
em Psicologia – Universidade Federal do Espírito em 14 outubro, 2013, de
Santo – UFES – Vitória, ES. http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDF
s/politicas_sociais/ENSAIO3_Enid11.pdf
Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do
desenvolvimento humano: experimentos naturais e Silva, L. B. (2009). O psicólogo em abrigo – uma
planejados. Porto Alegre: Artes Médicas. compreensão fenomenológico-existencial. Psico-
existencial. Recuperado em 20 outubro, 2012, de
http://www.psicoexistencial.com.br/web/detalhes.as
Carvalho, M. T. M., & Sampaio, J. R. (1997). A p?cod_menu=108&cod_tbl_texto=2031
formação do psicólogo e as áreas emergentes.
Psicologia: Ciência e Profissão, 17(1), 14-19.
Siqueira, A. C. (2006). Instituições de abrigo,
família e redes de apoio social e afetivo em
Galheigo, S. M. (2003). O abrigo para crianças e
transições ecológicas na adolescência. Dissertação
adolescentes: considerações acerca do papel do
de Mestrado – Universidade Federal do Rio Grande
terapeuta ocupacional. Revista de Terapia do Sul – UFRGS – Porto Alegre, RS.
Ocupacional, 14(2), 85-94.

Siqueira, A. C., & Dell’Aglio, D. D. (2006). O


Lisboa, F. S., & Barbosa, A. J. G. (2009). Formação
impacto da institucionalização na infância e na
em Psicologia no Brasil: um perfil dos cursos de
adolescência: uma revisão de literatura. Psicologia
graduação. Psicologia: Ciência e Profissão, 29(4),
& Sociedade, 18(1), 71-80.
718-737.

Soares, N. F., Sarmento, M. J., & Tomás, C. (2005).


Gil, A. C. (1999). Métodos e Técnicas de Pesquisa Investigação da infância e crianças como
Social. 5a ed., São Paulo: Atlas. investigadoras: Metodologias participativas dos
mundos sociais das crianças. Nuance: Estudos
Minayo, M. C. de S. (1998). Pesquisa Social: sobre educação, 12(13), 1-16.
teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes.
Vasconcelos, Q. A., Yunes, M. A. M., & Garcia, N.
Moraes, R. (1999). Análise de Conteúdo. Porto M. (2009). Um estudo ecológico sobre as interações
Alegre: Revista Educação. da família com o abrigo. Paideia, 19(43), 221-229.

Moré, C. L. O. O., & Sperancetta, A. (2010). Recebido em: 10/08/2014


Práticas de pais sociais em instituições de
acolhimento de crianças e adolescentes. Psicologia Reformulado em: 27/03/2015
& Sociedade, 22(3), 519-528.
Aprovado em: 24/06/2015

Pesquisas e Práticas Psicossociais, 10(1), São João del-Rei, janeiro/junho 2015