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O QUE É LINGÜÍSTICA APLICADA?

Article · January 2007

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Terezinha Marcondes Diniz Biazi


Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (UNICENTRO)
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Fonte: BIAZI, T. M. D.; DIAS, L. C. F. O que é lingüística aplicada. Anais do
Universidade em foco: o caminho das humanidades. UNICENTRO, agosto, 2007.

O QUE É LINGÜÍSTICA APLICADA?

Terezinha Marcondes Diniz BIAZI (Delet/Guarapuava)


Luciana Cristina Ferreira DIAS (Delet/Guarapuava)

Você já ouviu falar em Lingüística Aplicada? Sabe explicar o que é Lingüística


Aplicada? Qual é o seu foco de atenção? Qual é a contribuição dos estudos da
Lingüística Aplicada para a sociedade? Você encontrará as respostas a seguir.
A Lingüística Aplicada (LA), no novo milênio, é uma ciência que estuda
criticamente os usos da linguagem nos mais variados contextos sociais. Como devemos
entender a linguagem? O que é a linguagem? A linguagem é o meio pelo qual
percebemos as coisas e que nos constituímos. Nós nos constituímos por meio da
linguagem porque ela está em nossa relação com o outro, está no meio social o qual
pertencemos, está em nossa história individual e na história de nosso meio, está nos textos
com os quais já tivemos contato e também nas leituras de mundo que já temos. Pela
linguagem é que construímos nossa realidade, que nos situamos social e historicamente.
A LA entende a linguagem como essencial para mudar o modo como as
pessoas vivem e compreendem a si mesmas e o mundo. A partir dessa consideração,
qual é o foco de atenção da Lingüística Aplicada? O foco da LA é justamente investigar
sobre a relação da linguagem e os contextos de ação humana, como a linguagem é
utilizada nos mais diversos contextos sociais, por exemplo: na sala de aula, na
propaganda comercial e política, no consultório médico, nos tribunais de justiça, nas
lutas ecológicas, pelos adultos não alfabetizados, pelos adolescentes de risco, pelos
estudantes negros, por alunos e professores em escolas carentes, por pessoas em
situações de dificuldades sociais (violência doméstica contra a mulher, na construção
social do preconceito contra o homoerotismo), por populações que não têm poder social
(trabalhadores de fábricas, favelados, indígenas, pobres), etc.
Em outras palavras, a especialidade da LA é estudar como a linguagem acontece
nos mais variados contextos de situação, no mundo real, buscando evidenciar como ela
nos constitui como pessoas em nosso contato com o outro, como usamos a linguagem
para interagir em grupos sociais e que sentidos ela adquire nas mais diversas
circunstâncias de interação. Dessa forma, a LA procura explicitar como, através de
textos orais e escritos, as pessoas produzem, reproduzem, desafiam e/ou alteram as
estruturas sociais onde estão inseridas e como a linguagem contribui para que algumas
pessoas exerçam domínio sobre as outras nas práticas sociais. A LA atua na
conscientização das pessoas sobre o poder e o impacto da linguagem nas práticas
cotidianas.
Toda ciência tem a tarefa de responder às necessidades da sociedade. Então, qual
é a contribuição da ciência Lingüística Aplicada para a sociedade? Afirmamos que a LA
é responsiva à vida social, pois busca falar à vida contemporânea sobre o mundo como
se apresenta e atender às necessidades da sociedade que se relacionam a questões de
linguagem, com o objetivo de melhorar a qualidade dos seus relacionamentos sociais
das pessoas para que passem a desfrutar de uma melhor qualidade de vida. Podemos
dizer que a LA procura dar um retorno à sociedade de duas maneiras:
A LA procura dar um retorno à sociedade quando se centra em identificar,
compreender e interferir em questões de conflito comunicativo em situações concretas
de interação social. Como por exemplo, como a mídia constrói um determinado
entendimento da mascunilidade, fazendo circular certas verdades sobre o que é ser
homem; ou como a mídia e a lei constroem o estupro, os estupradores e as vítimas de
estupro, e de que forma essas verdades influenciam o modo como a sociedade vê os
crimes de violência sexual; ou ainda como a violência doméstica contra a mulher,
veiculada seja pela mídia, pela lei ou pela família, exerce uma forte influencia na forma
como agressores e vítimas são tratados, ou por fim, como os discursos judiciais
constroem e reforçam noções do senso comum sobre as formas corretas e aceitáveis de
comportamento social e sexual das mulheres.
A LA também busca responder às necessidades da sociedade quando auxilia
um profissional, por exemplo, na preparação de um programa ou material de ensino de
língua materna ou estrangeira; na resolução de problemas de bilingüismo (uso de duas
línguas ao mesmo tempo); na investigação sobre o uso de estrangeirismos de origem
inglesa no português do Brasil; na tradução literária e técnica; na tradução e legendagem
de filmes; no trabalho com a linguagem de sinais (Libras); na discussão sobre política e
planejamento educacional; no entendimento dos processos de aquisição de língua; no
desenvolvimento de programas de formação de professores; na elaboração de programas
para combater o analfabetismo; nas questões relativas ao processo de ensino-
aprendizagem de línguas; na elaboração de dicionários e glossários; ou ainda quando
trata de relações profissionais, buscando auxiliar no tratamento verbal na relação
empregador/empregado.
A Lingüística Aplicada, desde sua origem em 1966, no Brasil, passou por várias
fases até atingir maturidade como ciência preocupada com questões de uso da
linguagem nas práticas cotidianas. Veja, abaixo, alguns fatos marcantes da história da
Lingüística Aplicada no Brasil:

TRAJETÓRIA DA LINGÜÍSTICA APLICADA NO BRASIL

Em 1966, Francisco Gomes de Matos institucionaliza a Lingüística Aplicada no país,


com a implantação do Centro de Lingüística Aplicada Yázigi, em São Paulo.

Em 1970, Maria Antonieta Alba Celani estabelece o primeiro Programa de Estudos Pós-
Graduados em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem (LAEL) da PUC-SP -
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, no Brasil.

Em 1971, o Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada ao Ensino de


Línguas (LAEL) é reconhecido como centro de excelência pelo CNPq.

Em 1973, a Lingüística Aplicada é entendida estritamente como aplicação de teorias


lingüísticas para perguntas de sala da aula de língua estrangeira (inglês), o que era
demonstrado nos assuntos de dissertações produzidas na época, como por exemplo,
entender um ponto gramatical para conseguir ensiná-lo.

Em 1981, é criado o Departamento de Lingüística Aplicada do Instituto de Estudos da


Linguagem (IEL), na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), em São Paulo.

Em 1984, é criado um Fórum para discussões da Lingüística Aplicada durante o


Congresso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e
Lingüística (ANPOLL).

Em 1983, é publicada a revista semestral - Trabalhos em Lingüística Aplicada, pelo


Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), na Universidade Estadual de Campinas
UNICAMP.

Em 1985, é publicada a revista semestral - Documentação de Estudos em Lingüística


Teórica e Aplicada (D.E.L.T.A.), pela Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e
Estudos da Linguagem (LAEL) da PUC-SP.

Em 1986, é criado o segundo programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada,


iniciou na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Em 1990, é fundada a Associação de Lingüística Aplicada do Brasil (ALAB) Realizou-


se o primeiro Congresso Brasileiro de Lingüística Aplicada (CBLA). A entidade hoje
congrega aproximadamente mil associados em torno da pesquisa aplicada na esfera da
linguagem.
Em 1990, é criado o congresso Intercâmbio de Pesquisas em Lingüística Aplicada -
InPLA, pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Lingüística Aplicada e Estudos
da Linguagem - LAEL/PUC-SP. É o primeiro congresso que dá espaço para a
apresentação de trabalhos de estudantes em pós-graduação.

Na década de 1990, há a inserção da disciplina de Lingüística Aplicada em cursos


universitários de formação de professores nas universidades brasileiras.

Na década de 1990, a Lingüística Aplicada estabelece-se como uma área própria de


conhecimento. Seu campo de estudo passa a tratar, não somente sobre questões de sala
de aula de línguas, mas, principalmente, sobre a linguagem em uso em diversos
contextos sociais, tais como: a linguagem utilizada no trabalho, na mídia, no ambiente
familiar, por grupos marginalizados socialmente (adultos não alfabetizados, indígenas,
mulheres em situação de vulnerabilidade, homens e mulheres homoeróticos, etc.).

Na década de 1990, subáreas da Lingüística Aplicada estabelecem-se em estudos de


programas de pós-graduação, tais como estudos de tradução e educação bilíngüe,
linguagem e gênero, linguagem e novas tecnologias, discurso e identidades, educação a
distância, formação do professor, e educação bi/multilingual.

Em 1996, realiza-se a publicação de livros cujos títulos enfocam a área da Lingüística


Aplicada como, por exemplo, A OFICINA DE LINGÜÍSTICA APLICADA, de Luis
Paulo da Moita Lopes (UFRJ).

Na década de 2000, ocorre o fortalecimento da Lingüística Aplicada como uma área de


estudo que trata de questões de uso da linguagem na interação social e que tem a
responsabilidade social de pensar em alternativas que possam melhorar a qualidade de
interação entre as pessoas.

Em 2006, o Departamento de Lingüística Aplicada da Universidade Estadual de


Campinas (UNICAMP), comemora seus 25 anos, com a publicação do livro
LINGUÍSTICA APLICADA - SUAS FACES E INTERFACES, que traz uma amostra
representativa dos múltiplos e diversificados interesses de pesquisa na área, refletindo
assim uma preocupação do departamento em estudar a linguagem na vida social.

Bibliografia:
CAVALCANTI, M. C. Applied Linguistics - Brazilian perspectives. In S. M. GASS
and S. MAKONI (orgs.) AILA REVIEW,17, (2004), 23-30.
HEBERLE, V. M.; A. C. OSTERMANN e FIGUEIREDO, D. C. (orgs.) Linguagem e
gênero no trabalho e em outros contextos. Florianópolis: Editora da UFSC., 2006.
KLEIMAN, A.; CAVALCANTI, M. (orgs.) Lingüística aplicada - suas faces e
interfaces. São Paulo: Editora Moderna, 2007.
MOITA L. (orgs.) Por uma Lingüística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Editora
Parábola, 2006.

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