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A geração “nem-nem”

Um em cada cinco brasileiros entre 18 e 25 anos não


trabalha nem estuda. É a chamada “geração nem-nem”, di-
mensionada em estudo da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro. Esses jovens são vítimas de um “desalento estrutu-
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” ral”, como analisou Fernando de Holanda Filho, professor
Turma: 3ª. Série do Ensino Médio da Fundação Getúlio Vargas, ao jornal O Globo. São pesso-
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal as que desistiram de procurar trabalho, porque não têm qua-
Tema redacional 20: Importância psicossocioeconômica à se nenhuma qualificação, tampouco querem voltar a estudar
juventude brasileira quanto ao trabalho e à educação: da pre- porque não se sentem atraídas pela escola. No total, há 5,3
mência de uma ascensão educacional à relevância de um fo- milhões de jovens que não trabalham nem estudam, indica
mento laboral que contribuam para a formação antrópica. a pesquisa coordenada pelo professor Adalberto Cardoso.
Se fossem computados os jovens que ainda procuram algu-
Geração “nem-nem” cresce longe de emprego e escola ma ocupação, o número saltaria para 7,2 milhões. Num país
com cenário de baixo desemprego e economia em expansão
Érica Fraga (em 2010, ano em que os números usados na pesquisa foram
colhidos, o PIB cresceu 7,5%), isso significa que uma parce-
Nem estudando, nem trabalhando. Mais de dois em la importante dos brasileiros não está participando do desen-
cada dez jovens brasileiros entre 18 e 20 anos se encontra- volvimento experimentado nos últimos anos. Uma vez sem
vam nessa espécie de limbo em 2009, à margem da crescen- perspectiva, alguns deles podem cair na criminalidade. As
te inclusão educacional e laboral registrada no país em anos mulheres, sobretudo em razão da maternidade, são a maioria
recentes. Essa geração “nem-nem” (tradução livre do termo nesse grupo – elas somam 3,5 milhões, e os homens, 1,8 mi-
ni-ni – ni estudian ni trabajan – usado em espanhol) repre- lhão –, o que inclui a desigualdade de gênero na equação. O
senta uma parcela crescente dos jovens de 18 a 20 anos. E- impacto também é maior entre os mais pobres. Na parcela
ram 22,5% dessa faixa etária em 2001, e 24,1% em 2009 (o da população com renda per capita de até R$ 77,75, a gera-
equivalente a 2,4 milhões de pessoas). Nesse mesmo perío- ção “nem-nem” chega a 46,2%. E é notável a disparidade
do, a taxa de desemprego no país recuou de 9,3% para 8,4%. regional: no Norte e no Nordeste, a incidência passa dos
Os dados são da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de 25%, contra 13% no Sul e 16,8% no Sudeste. Os países ricos
Domicílios) e foram levantados pelo pesquisador Naércio também têm os seus “nem-nem”, mas o motivo é a recessão
Menezes Filho, do Centro de Políticas Públicas do Insper. persistente, que inexiste no Brasil. Entre os 34 integrantes
Segundo especialistas, essa tendência é resultado de várias da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Eco-
causas. Entre elas, paradoxalmente, o maior aquecimento no nômico (OCDE), a média dos jovens que se encontram nes-
mercado de trabalho – que tem acirrado a competição – e o sa situação é de 15,8% – contabilizando-se os que ainda pro-
aumento significativo de transferências do governo para fa- curam emprego e se considerando que a faixa etária usada
mílias de renda mais baixa. “Há mais vagas sendo criadas, como critério é mais larga, de 15 a 29 anos. A OCDE afirma,
mas a concorrência também é maior e esses jovens têm pou- no entanto, que a situação dos “nem-nem”, na maioria dos
ca ou nenhuma experiência”, diz Menezes. Essa hipótese é países estudados, é transitória, e que os motivos variam de
confirmada por jovens “nem-nem”. “Quem emprega quer a lugar para lugar, incluindo-se questões culturais – o que ex-
experiência. Não há muita oportunidade para jovens da mi- plica, por exemplo, que 77% das jovens mexicanas nem tra-
nha idade”, reclama Cibele Morelis, 20 anos, Ensino Médio balhem fora de casa, nem estudem, preferindo dedicar-se à
completo e desempregada há três meses. À falta de experi- formação da família. As eventuais dificuldades econômicas
ência se soma outro problema: a formação educacional pre- dos países integrantes da OCDE – os quais incluem potênci-
cária. “Temos, hoje, um cenário de jovens com escolaridade as como Estados Unidos e Grã-Bretanha e emergentes como
crescente, mas de péssima qualidade. Nos últimos 15 anos, Turquia e México – não impediram que o investimento em
a política educacional privilegiou o ensino universitário, em educação fosse não apenas mantido, como, em alguns casos,
detrimento do Fundamental e Médio”, diz Cláudio Dedecca, experimentasse sensível ampliação. Como mostra o mais re-
professor de Economia da Unicamp. Quem recruta jovens cente estudo da organização, o Education at a Glance 2012,
faz eco a esse diagnóstico. “O resultado de anos e anos de isso aconteceu com pelo menos 24 dos 34 membros durante
aprovação automática é que jovens com certificado de Ensi- os anos 2008 e 2009, que foram de forte crise e recessão.
no Médio chegam aqui sem falar bem o português. São es- Segundo a OCDE, tal cenário se explica pela conclusão ge-
pecialistas em Orkut, mas não têm ideia de como usar o Of- neralizada de que apostar em educação traz benefícios tanto
fice”, diz Bruna Barreto, do ISBET (Instituto Brasileiro Pró- para os indivíduos quanto para a sociedade, ainda mais em
-Educação, Trabalho e Desenvolvimento). Em situação ain- tempos de dificuldades econômicas. Em 2008, um homem
da pior está quem nem terminou o Ensino Médio. É o caso com instrução superior em países da OCDE ganhou, em mé-
de Janaína Farias, 18 anos. “Perdi a vaga na escola por ex- dia, 58% mais do que aquele que possuísse apenas nível se-
cesso de faltas. Estava trabalhando como auxiliar de cozi- cundário. Em 2010, esse porcentual subiu para 67%. Tal
nha”. Mas, segundo especialistas, há jovens em situação o- perspectiva é semelhante no Brasil, mas, ao que parece, uma
posta à dela. São os que decidem adiar os planos de traba- parte considerável dos jovens brasileiros não consegue en-
lhar porque a renda da família engordou com transferências xergar tal oportunidade, quer por desinformação, quer por-
do governo. “Jovens de famílias nas quais algum membro que não se sente estimulada a enfrentar a rotina de estudos
recebe transferências do governo acabam incentivados a em escolas de baixa qualidade. Trata-se de um indicativo de
não buscar trabalho”, diz José Camargo, da PUC-RJ. que o crescimento econômico brasileiro pode ter seus pro-
blemas agravados no futuro próximo, porque é essa geração
(Folha de S. Paulo, “Mercado”, 18.10.2010) que terá de enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais

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exigente. Portanto, a escassez de mão de obra com um míni- estudos. Sem trabalhar, vive com a mãe na zona norte do
mo de competência técnica, que é um dos entraves crônicos Rio e conta com a ajuda da avó paterna de seu filho – o pai
do desenvolvimento no Brasil, tende a se acentuar – a não do garoto se recusou a registrar a criança. Ela diz que não
ser que haja uma virada drástica e imediata no sistema edu- se arrepende da escolha. “Vivi a maternidade intensamente,
cacional, de modo a atrair novamente essa massa de jovens estou com meu filho no principal momento de sua forma-
para os estudos e a especialização, fazendo-os perceber que ção, que é até os quatro anos. Claro que tenho vontade de
a educação pode significar um futuro melhor. concluir os meus estudos e trabalhar, mas espero isso para
quando ele já estiver mais crescido”. Determinada, Tatiane
(O Estado de S. Paulo, “Opinião”, 26.09.2012) conta que nunca pensou em não ter a criança. Ela lembra
que sua mãe é fundamental para ela e que um problema de
‘Nem-nem’: legião que não estuda nem trabalha saúde que atravessa agora dificultou a tentativa de retornar
seus sonhos de trabalho e estudo. Mas ela não desiste. “Uma
Fabiana Ribeiro; Cássia Almeida; Henrique Gomes coisa é certa: nunca é tarde para recomeçar”. Para Fernando
de Holanda Barbosa Filho, professor da Fundação Getúlio
O Brasil já aprendeu que lugar de criança é na escola. Vargas, a taxa de matrícula no Brasil é muito baixa. E, com
Tanto que, praticamente, todos os pequenos de 6 a 14 anos isso, boa parte dos jovens que trabalha não tem o nível mé-
estudam (98,2%). O País, contudo, não teve o mesmo suces- dio, o que ajuda a explicar essa condição de desalento estru-
so com jovens e adolescentes. Levantamento do Instituto de tural. “É um problema de longo prazo. Afinal, o que se vê
Estudos Sociais e Políticos da UERJ aponta que quase um são perspectivas menores de emprego para os jovens que
em cada cinco jovens (19,5% dos 27,3 milhões dos jovens não concluem o Ensino Médio. A escola precisa ter qualida-
entre 18 e 25 anos) não estuda, não trabalha, nem procura de”, apontou o professor da FGV. Mas apenas isso não re-
emprego. São os chamados “nem-nem”, representados por tém o jovem. É preciso, segundo ele, tornar a escola mais a-
um contingente de 5,3 milhões de pessoas. Tal é um cenário traente. E isso pode implicar até mesmo alterar o currículo
longe de ter um desfecho feliz. Em dois anos, a parcela dos das aulas. “Tornar a escola atraente passa por tornar o seu
jovens entre 15 e 17 anos que estuda caiu de 85,2% em 2009 conteúdo mais apropriado à realidade. Muitos jovens, por e-
para 83,7% em 2011, conforme mostrou a Pesquisa Nacio- xemplo, já viram que a taxa de empregabilidade dos cursos
nal por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. Ou seja, profissionalizantes é baixa. E, com isso, deixam esses cur-
há outro 1,7 milhão de adolescentes dessa faixa etária longe sos”, comentou. Hildete Pereira, professora da UFF, acres-
dos bancos escolares, um contingente que pode ajudar a en- centa que não são apenas a gravidez ou a maternidade os
grossar a geração dos “nem-nem”. Segundo dados do Insti- responsáveis por tirar as jovens da escola. “Não basta ter es-
tuto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a maioria dos cola. É preciso ter escola com qualidade”. Na avaliação de
jovens de 15 a 17 anos mora com os pais. O que surpreende Flavio Comim, professor de Cambridge, a falta de investi-
é que, entre os que têm de 25 a 29 anos e não estudam nem mento na juventude traz impactos econômico-sociais. Com
trabalham, há quase 20% de chefes de família. Não são pou- menos educação, afirma, os jovens ficam mais propensos a
cos os motivos: de evasão escolar a desalento, passando por uma gravidez na adolescência, a maiores índices de violên-
gravidez precoce e envolvimento com crime. Fazer o jovem cia e a vagas trabalhistas de pior qualidade. Mas ele não a-
não abandonar os estudos é, sem dúvida, o maior desafio da credita que a responsabilidade seja unicamente do Governo.
educação brasileira. A taxa de desemprego de adolescentes “A esfera privada, e com isso eu quero dizer a esfera das fa-
de 10 a 17 anos caiu de 20,1% para 19,4%, em dois anos. mílias, dos espaços de trabalho, das comunidades não pode
“A evasão escolar mostra que a escola não está interessante ficar de fora da discussão e da implementação de soluções
o suficiente. É entre mais pobres que encontramos as maio- para resolver o problema. A educação dos filhos deveria ser
res proporções de excluídos, tanto de estudos quanto do tra- a prioridade de todos os pais. Por que não é? Em alguns ca-
balho”, disse Adalberto Cardoso, pesquisador do Instituto sos, simplesmente não existem escolas, mas, em outros, a
de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, acrescen- maioria, o problema é de baixa qualidade da educação. O
tando que mudar esse quadro exige políticas públicas que que os pais deveriam pensar é: o que fazer para melhorar a
busquem, por exemplo, incentivar as famílias carentes para qualidade da educação da escola do meu filho?”. Cardoso,
a manutenção dos jovens na escola e criar espaços acessí- do IESP, acrescentou que, em algum momento, esses jovens
veis e gratuitos de aprendizagem profissional. Pelos dados que não estudam e não trabalham irão tentar entrar no mer-
do IESP, com base no Censo de 2010, o número de moças cado de trabalho. “E parte desses jovens irá se tornar assala-
que não estuda e não trabalha é quase o dobro do número de riada sem carteira assinada”. Em alguns casos, deixar os es-
rapazes: respectivamente, 3,5 milhões e 1,8 milhão. A ma- tudos poderá ser uma opção para jovens quando o mercado
ternidade é a grande explicação para essa distância. Para se de trabalho continuar aquecido, apesar da desaceleração e-
ter ideia, 50% das jovens da geração “nem-nem” têm filhos. conômica no País. Com o desemprego em queda, o jovem
Mas a família não é a única explicação. Há, segundo Cardo- se sente mais atraído a trabalhar, justamente no momento
so, um forte desalento em consequência da qualificação ru- em que o setor de serviços, atual motor da economia, mos-
im. “A qualificação ruim dos jovens não permite a eles in- tra-se como um dos maiores empregadores do País. E, ao
gressarem no mercado de trabalho, mesmo em plena ativi- contrário do que acontece em países desenvolvidos, o setor
dade. Os pobres são, sem dúvida, os mais afetados”, disse não exige profissionais altamente especializados. Mas nem
Cardoso, acrescentando que, na parcela mais pobre da popu- sempre o jovem que sonha em trabalhar quer largar definiti-
lação brasileira, com renda per capita de até R$ 77,75, quase vamente os estudos. Diogo Chaves, de 23 anos, abandonou
metade dos jovens estava fora da escola e do mercado de o Ensino Médio quando começou a fazer o serviço militar
trabalho. Tatiane Destéfano, 23 anos, teve de optar por dois obrigatório. Hoje, ele tem de correr para retomar seus proje-
sonhos em 2009: continuar os estudos – ela estava ainda no tos: interessado em virar policial, ele vai fazer um curso pre-
2.º ano do Ensino Médio – ou ter o filho, que veio sem haver paratório para concursos e tenta concluir Ensino Médio em
sido planejado. Ela optou pela maternidade e abandonou os supletivo para ser aceito no serviço público. “Realmente, te-

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nho de recuperar o tempo perdido. O problema é que é difí- Geração que não trabalha, não estuda
cil se preparar para concurso e trabalhar. Fiz uma entrevista nem procura emprego diminui no país
de emprego, mas o horário não coincidia. Tentei meio perío-
do em telemarketing, mas também não deu certo”, diz o ca- Com a economia estagnada e a piora do mercado de
rioca, que mora com os avós e a mãe. trabalho, a proporção de jovens “nem-nem-nem” (nem estu-
da, nem trabalha, nem procura emprego) encolheu no Brasil
(O Estado de S. Paulo, “E&N”, 21.10.2012) pela primeira vez em cinco anos. No ano passado, 6,8 mi-
lhões de jovens compunham o contingente “nem-nem-nem”
A geração "nem-nem" e os profissionais “des-des” no país, o que representava 13,9% das pessoas de 15 a 29 a-
nos. No ano anterior, a proporção era de 15%, ou seja, 546
Gilberto Alvarez Giusepone Jr. mil jovens a mais nessa situação. Os dados foram divulga-
dos nesta sexta-feira (4) pelo IBGE e fazem parte da Síntese
Um em cada cinco brasileiros entre 18 e 25 anos não de Indicadores Sociais, que examina aspectos, como condi-
trabalha nem estuda. É o que revelou a pesquisa do Instituto ções de trabalho, moradia e educação da população. Segun-
de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no início do mês. do Cintia Simões Agostinho, pesquisadora do IBGE, o au-
Jovens que não encontram espaço no mercado de trabalho, mento da procura por emprego – e não o retorno ao estudo
não demonstram interesse em procurar emprego e não que- ou a conquista da vaga de trabalho – foi o responsável pela
rem saber de continuar a estudar. Um dado alarman- redução dos “nem-nem-nem” no país em 2014. Naércio Me-
te, que revela o tamanho da bomba-relógio que ameaça o fu- nezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do
turo do Brasil. São 5,3 milhões de jovens desinteressados INSPER, diz que o desemprego começou a crescer no país
– os chamados “nem-nem”, que nem estudam, nem traba- no ano passado, e o avanço da renda perdeu fôlego (alta de
lham, nem procuram emprego. O que mais impressiona é apenas 0,8%, para R$ 1.774). “Quando a renda dos pais a-
pensar que, se fossem computados aqueles que ainda procu- perta, o jovem tem de começar a procurar emprego. Ele não
ram alguma ocupação, o número saltaria para 7,2 milhões. consegue se sustentar mais só pela renda dos pais. Ele preci-
Num cenário de baixo desemprego e de economia em ex- sa de um emprego para comprar o tênis”, diz o professor do
pansão, essa é uma parcela importante de brasileiros que INSPER. Esses jovens, entretanto, encontram dificuldades
não estão participando do desenvolvimento experimentado para ingressar no mercado de trabalho. Primeiro, porque a
nos últimos anos. Segundo a pesquisa do IPEA, a maioria oferta de vagas ficou mais escassa. Segundo, porque “nem-
deles está inserida em domicílios de renda mais baixa e de- -nem-nem” são, na média, pouco qualificados. Sinal disso é
pende fortemente do apoio familiar. Além disso, a escolari- que mais da metade (58%) deles não tinha completado o
dade foi vista como fator primordial para a participação nas Ensino Médio. Em sua maioria, moram na região Nordeste
atividades econômicas do país, ou seja, quanto maior a esco- (36%), a mais pobre do país. E 62,9% eram pretos ou par-
laridade dos pais, maior a frequência do jovem à escola. Is- dos. Claudio Dedecca, professor da UNICAMP, afirma que,
so explica a falta de interesse, pois o grupo que nem traba- apesar da redução, uma parcela majoritária dos “nem-nem-
lha nem estuda mora com os pais e acaba tendo como refe- -nem” exerce uma função na estrutura familiar que impede
rência alguém que não deu continuidade nos estudos. O fato uma mudança. Pelo fator sexo, 75% dos jovens que não tra-
é que os jovens precisam ser estimulados e orientados. Co- balhavam, não estudavam nem procuravam emprego eram
mo não encontram estímulo em casa, a escola passa a ter o mulheres, das quais 62% tinham filho. E, desses “nem-nem-
papel crucial de ajudá-los nessa busca por um caminho a se- -nem”, 91% se dedicavam aos afazeres domésticos. “Esta-
guir. Acontece que ainda não somos exemplo no quesito “e- mos falando majoritariamente de mulheres que exercem um
ducação”, e o grande referencial da sala de aula é o profes- papel importante na estrutura familiar, cuidando dos filhos.
sor. O professor tem um papel fundamental. É preciso quali- Elas cumprem esse papel porque precisam, porque não há
ficá-lo, dar-lhe condições pedagógicas e melhorar substan- creche ou porque não existe alternativa”, disse o especialis-
cialmente sua remuneração. Um professor bem preparado e ta. Segundo relatório da OIT (Organização Internacional do
motivado é meio caminho andado para despertar no aluno Trabalho), essa proporção de jovens que não trabalha nem
o desejo por aprender, participar da sociedade e exercer seu estuda cresceu em 30 de 40 países analisados – entre 2007
papel de cidadão. Além disso, são necessários investimen- e 2012. Com a economia brasileira em recessão há três tri-
tos maciços em educação pública em geral, desde a primeira mestres e a piora do mercado de trabalho, mais jovens têm
infância, até o Ensino Fundamental e Médio. Temos uma procurado emprego neste ano. No terceiro trimestre de 2015
juventude sedenta por mudança, com enorme potencial para a taxa de desemprego chegou a 8,9% no país. Enquanto os
transformar o país, fazer avançar a democracia e reduzir a “nem-nem-nem” se concentram na parcela pobre da popula-
desigualdade social. Não podemos permitir que ela se imo- ção, outro fenômeno ocorre em um extremo social oposto:
bilize, se sinta desmotivada por não conseguir visualizar o os “cangurus”, jovens adultos que adiam a saída da casa dos
caminho que deve seguir. Caso contrário, os 5,3 milhões de pais. Uma em cada quatro pessoas de 25 a 34 anos no país
jovens “nem-nem” de hoje serão certamente profissionais ainda morava com os pais, segundo o IBGE. Essa proporção
desmotivados e despreparados – “des-des” – de amanhã. cresceu de 21,2% em 2004 para 24,3% no ano passado. Os
jovens adultos “cangurus” são em sua maioria formados por
GILBERTO ALVAREZ GIUSEPONE JR., especialista homens (59%), da região Sudeste (47%) e mais escolariza-
em ENEM, é diretor do Cursinho da Poli (SP), instituição dos (34,9% tinham Ensino Superior). São pessoas que adia-
sem fins lucrativos que trabalha a educação como inclusão ram a saída de casa porque dedicaram mais tempo aos estu-
social. dos, casaram-se mais tarde ou foram afetados pela alta do
custo de vida no país.
(Jornal do Brasil, “Sociedade Aberta”, 27.08.2013)
(Folha de S. Paulo, “Mercado”, 04.12.2015)

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