Você está na página 1de 15

Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação”

Turma: 3ª. Série do Ensino Médio


Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal
Tema redacional 13: Importância da família na sociedade
brasileira hodierna: é imprescindível que o Estado legisle a-
cerca de como se deva definir uma “organização familial”?

Família. s.f. (sXIII) 1 grupo de pessoas vivendo sob o mes-


mo teto (esp. o pai, a mãe e os filhos) 2 grupo de pessoas
com ancestralidade comum 3 pessoas ligadas por casamen-
to, filiação ou adoção 3.1 fig. grupo de pessoas unidas por
convicções ou interesses ou provindas de um mesmo lugar
<uma f. espiritual> <a f. mineira> 3.2 grupo de coisas que
apresentam propriedades ou características comuns <porce-
lana chinesa da f. verde> 4 BIO categoria que compreende
um ou mais gêneros, tribos com origem filogenética comum
e distintos doutros gêneros ou tribos por características mar-
cantes 5 GRÁF conjunto de tipos cujo desenho apresenta as
mesmas características básicas 6 QUÍM m.q. grupo f. de
palavras LEX LING grupo de palavras com uma mesma
raiz • f. linguística LING grupo de línguas derivadas de u-
ma mesma protolíngua, cuja origem comum é atestada por
grande número de cognatos e de correspondências sistemá-
ticas e regulares de ordem fonológica e/ou gramatical • f.
natural DIR.CIV família formada pelos pais, ou apenas um
deles, e seus descendentes • f. nuclear o grupo de família
composto de pai, mãe e filhos naturais ou adotados residen-
tes na mesma casa • f. radiativa FÍS.NUC m.q. série radia-
tiva • f. substituta DIR.CIV família estabelecida por ado-
ção, guarda ou tutela • Sagrada ou Santa F. quadro ou outra
representação artística figurando José, a Virgem e o Menino
Jesus • ser f. ser honesto, recatado <nada de abusos, a garo-
ta é f.> ETIM lat. familia,ae “servidores, escravos, séqui-
to, casa, família” SIN/VAR ver sinonímia de linhagem.

(HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicioná-


rio Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objeti-
va, 2009, p. 871).

Família. Aqui só nos interessa registrar o uso lógico e meto-


dológico desse conceito, que é recentíssimo. Uma “família
de conceitos” é um conjunto de conceitos entre os quais se
estabelecem relações diversas que não sejam redutíveis a
um só conceito ou princípio. É, precisamente, o que ocorre
entre os membros duma família humana, os quais nem sem-
pre têm uma única propriedade comum, e, mesmo quando a
têm, ela não resume nem esgota toda a semelhança familiar.
O uso dessa noção implica, portanto, o esforço de procurar
sempre novas relações entre os conceitos, sem que seja ne-
cessário reduzir essas relações a um só tipo. O primeiro a
propor e a empregar essa noção foi Wittgenstein (Philoso-
phical investigations, § 110, ano 1953).

(ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradu-


ção de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,
2014, p. 497)

1
Cunha retoma projeto que proíbe so”. Segundo o peemedebista, “no momento em que se dis-
adoção de criança por casais gays cute preconceito contra homossexuais, acabam criando ou-
tro tipo de discriminação contra heterossexuais e, além dis-
Depois de garantir que não vai colocar em votação so, o estímulo à ‘ideologia gay’ supera todo e qualquer com-
qualquer projeto que trate da legalização do aborto, o presi- bate ao preconceito”. Um outro projeto de Cunha estabelece
dente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também au- que as medidas e políticas antidiscriminatórias atentem para
torizou a criação de uma comissão especial que tem potenci- a questão dos héteros. A proposta prevê, entre outras medi-
al para criar um novo atrito com ativistas ligados aos movi- das, que o governo punirá os estabelecimentos comerciais e
mentos gays e a bancada do PT. Cunha liberou a retomada industriais e demais entidades que, por atos de seus proprie-
da discussão de um projeto patrocinado pela bancada evan- tários ou prepostos, discriminem pessoas em função de sua
gélica que define família apenas como “união entre homem heterossexualidade ou contra elas adotem atos de coação ou
e mulher” e que, na prática, pode proibir adoção de crianças violência. O projeto fixa ainda que os crimes resultantes de
por casais homossexuais. A comissão especial acelera a tra- discriminação contra heterossexuais serão punidos na forma
mitação do projeto, que é intitulado de “Estatuto da Famíli- da lei. O projeto também estabelece que impedir, recusar ou
a”. Ele terá votação final nessa comissão, sem precisar pas- proibir o ingresso ou a permanência em qualquer ambiente
sar por análise doutros quatro colegiados. Essa proposta co- ou estabelecimento público ou privado, aberto ao público,
meçou a ganhar força em 2014, mas acabou travada por ma- será punido com pena de reclusão de um a três anos.
nobras regimentais do PT. O partido é contra vários pontos
da proposta. Ele ainda dificultaria o cumprimento duma das (Folha de S. Paulo, “Poder”, 12.02.2015)
promessas de campanha da presidente Dilma Rousseff, a de
apoiar a criminalização da homofobia. A bancada evangéli- Estatuto das Famílias e da cidadania
ca, com 80 deputados, articula indicações dos partidos para
dominar a formação da comissão. Em discussão, o Estatuto Rodrigo da Cunha Pereira
da Família traz como definição de família “núcleo formado
a partir da união entre homem e mulher, por meio de casa- Pátria e nacionalismo não estão fora de moda. Mas a
mento ou união estável, ou comunidade formada por qual- relação dos indivíduos com a pátria se inverteu. Não são
quer dos pais e seus descendentes”. Os deputados religiosos mais as pessoas que devem servi-la ou sacrificar-se por ela.
defendem que o texto tenha a previsão de que a adoção só É a pátria que deve estar a serviço das pessoas. Por isso, a
poderá ser realizada por adotantes que sejam casados civil- história e a política hoje se escrevem e se inscrevem a partir
mente ou que mantenham união estável, segundo o que de- da vida privada, que, obviamente, começa e termina na fa-
termina o artigo 226 da Constituição. Na prática, a ideia do mília. E, assim, a principal razão política dos Estados demo-
parecer do deputado é proibir adoção de crianças por casais cráticos contemporâneos está na vida privada, e, portanto,
gays. Apesar de tal adoção não estar presente em lei, a Justi- na família. A nostalgia das antigas utopias, da família ideal
ça a tem garantido. O projeto também prevê a possibilidade e patriarcal, noções de “esquerda e direita” aos poucos estão
de internação compulsória para usuários de drogas após a- sendo substituídas pelas noções de “limite entre público e
valiação de um juiz e do Ministério Público, e a inclusão de privado” no mundo globalizado e das redes sociais da inter-
uma disciplina chamada “Educação para a Família” no cur- net. A verdadeira política hoje significa a valorização da fa-
rículo escolar. Evangélico, Cunha se nega a colocar em vo- mília. Não estamos no tempo da família singular; a nova fa-
tação qualquer projeto que trate da legalização do aborto. mília é aberta, plural, fraterna e fundada no amor, na valori-
“O aborto eu não vou pautar (para votação) nem que a vaca zação e dignidade dos sujeitos, para além da forma ou for-
tussa”, disse, em entrevista ao site do jornal O Estado de S. malidade que a cerca ou a constitui. Ainda há milhares de
Paulo. “O último projeto de aborto eu derrubei na Comissão famílias à margem da legislação. Nesse sentido é que se ela-
de Constituição e Justiça. No aborto, sou radical”. A ofensi- borou o “Estatuto das Famílias”, PLS (Projeto de Lei do Se-
va da bancada evangélica também conseguiu retomar a tra- nado) 470/13, apresentado pela senadora Lídice da Mata. A
mitação de outra proposta polêmica que pode dificultar a re- família é da ordem da cultura e não da natureza. Por isso ela
alização do aborto previsto em lei e que cria uma espécie de transcende sua própria historicidade. O único elemento in-
“bolsa” para a mulher vítima de estupro que mantiver a ges- variável é o interdito proibitório do incesto, que está presen-
tação. Apelidado de “Estatuto do Nascituro”, o texto estabe- te em todas as relações familiares e sem o qual não há famí-
lece que devem ser reconhecidos, desde a concepção, “todos lia e nem sociabilidade. E, assim, esse estatuto vem dar am-
os direitos do nascituro, em especial o direito à vida, à saú- paro a todas as famílias conjugais e parentais. Das tradicio-
de, ao desenvolvimento e à integridade física e demais direi- nais às mais inimagináveis até alguns anos atrás, como as
tos da personalidade”. Apesar de não alterar o Código penal homoafetivas. Não é ético, e muito menos cristão, deixar à
a excluir da lei o aborto já permitido no país – em casos de margem do ordenamento jurídico formas de família diferen-
estupro, risco de vida para a mãe ou de fetos com anencefa- tes das tradicionais. É impressionante como os opositores
lia –, o projeto abre brecha para que a interrupção da gesta- desse ousado e grandioso PLS, em nome da moral e de bons
ção nesses casos seja dificultada ou proibida no futuro, ava- costumes, de discurso religioso falso e hipócrita, e premis-
liam alguns parlamentares. Cunha também pede que voltem sas falsas, condenam ao fogo do inferno essa pretensa legis-
às comissões da Casa dois projetos de sua autoria: o que cria lação. E pior, apresentaram na câmara dos deputados um PL
o “Dia do Orgulho Heterossexual” e o que criminaliza o pre- (Projeto de Lei) restringindo e fechando o conceito de famí-
conceito contra heterossexuais. Pela proposta, o “Dia do Or- lia, como no passado, ignorando todas as lutas e os avanços
gulho Hétero” haveria de comemorar-se no terceiro domin- sociais já alcançados. No fundo, mas não muito fundo, esses
go de dezembro. Ao apresentar o projeto, em 2011, Cunha “fariseus” que dizem defender a tradição, família e proprie-
justificou que a proposta “visa a resguardar direitos e garan- dade, estão defendendo o seu medo de terem que olhar para
tias aos heterossexuais de se manifestarem e terem a prerro- si mesmos, de se depararem com o próprio desejo e a arro-
gativa de se orgulharem e não serem discriminados por is- gância de querer impor ao outro uma legislação que diz res-

2
peito apenas a si mesmos. O amor exige compromisso e res- banho de água fria vem, entretanto, no artigo 2º, em que a “enti-
ponsabilidade. Não responsabilizar o pai que abandonou o dade familiar” é definida como o “núcleo social formado a partir
filho, ou o homem que estabelece uma família paralela é in- da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamen-
centivar o descompromisso parental e estimular a poligami- to ou união estável, ou ainda por comunidade formada por qual-
a. Há novas formas jurídicas de parentalidade que precisam quer dos pais e seus descendentes”. E não paramos aí. O relator
ser respeitadas e protegidas, como a socioafetividade. A fa- do projeto apresentou um substitutivo à proposta original, inse-
mília de Nazaré é o mais emblemático exemplo de que nem rindo no texto um dispositivo, no mínimo, polêmico: a exigên-
sempre são os laços de sangue que determinam a paternida- cia de que as pessoas que queiram adotar sejam casadas civil-
de: José era o pai socioafetivo de Jesus, e ninguém questiona mente ou mantenham união estável, constituída nos termos do
isso. O Estatuto traduz em regras realidades como essas para artigo 226 da Constituição Federal. Como texto constitucional
dar amparo, inclusive, a milhares de crianças que não têm o reconhece explicitamente apenas a união estável entre homem
nome do pai. O texto do Estatuto das Famílias é fruto do a- e mulher como entidade familiar, na prática o substitutivo proí-
madurecimento da comunidade jurídica do Instituto Brasi- be a adoção de crianças por casais homossexuais. Para o relator
leiro de Direito de Família (IBDFAM). Ele vem para forta- do projeto, “a concessão pelos tribunais da adoção homoafetiva
lecer a estrutura familiar, a qual é mais que fundamental: é desconsidera fato de que o tema de pares homossexuais forman-
fundante do sujeito. Sem ela, não há relações sociais ou jurí- do famílias ainda não está pacificado na sociedade”, conside-
dicas e nem Estado. A diferença, hoje, é que privado e priva- rando que “trazer a criança para o meio de um furacão é no mí-
cidade e escolha da forma de se constituir uma família passa nimo desprezo à proteção dos direitos desse menor”. O relator
a ser mais respeitada pelo Estado. A Comissão de Direitos contraria, portanto, decisão do Supremo Tribunal Federal que já
Humanos do Senado, por meio de audiências públicas, abriu reconheceu, em 2011, a união estável homoafetiva como enti-
o saudável debate. Tomara que todos possam contribuir. dade familiar. O STF considerou centralidade da felicidade co-
mo princípio fundamental na construção da estrutura familiar,
(Folha de S. Paulo, “Tendências e debates”, 29.12.2014) formada por indivíduos de sexos distintos ou não. Pelas sábias
palavras do ministro Luiz Fux: “Onde há sociedade, há o direito.
A felicidade por decreto: o medievalismo Se a sociedade evolui, o direito evolui. Os homoafetivos vieram
do “Estatuto da Família” aqui pleitear uma equiparação; que fossem reconhecidos à luz
da comunhão que têm e acima de tudo porque querem erigir um
Marcelo Gruman projeto de vida. A Suprema Corte concederá aos homoafetivos
mais que um projeto de vida; um projeto de felicidade”. Em re-
Nosso filho estuda numa escola em que uma quantidade cente entrevista à revista Época, o deputado Anderson Ferreira
não desprezível de colegas é fruto de uniões que não existem justifica a proposta do projeto de lei porque “uma imensa parce-
mais. Uns dias da semana, o pai busca; em outros, a tarefa cabe la da sociedade brasileira é conservadora. O retrato disso está no
à mãe. O pai de um desses colegas mora numa esquina próxima Congresso. O atual parlamento passou a ter uma bancada con-
da nossa casa e, às vezes, seguimos juntos ao voltarmos da esco- servadora maior. A polêmica enriquece o debate. Não adianta
la. Nosso filho tem consciência de que os pais do colega não partir para agressões verbais, protestos em praça pública ou nos
moram mais juntos e demonstra, de vez em quando, preocupa- cultos evangélicos, como já foi visto recentemente”. O deputa-
ção com o que pode acontecer caso eu e sua mãe venhamos a do esquece que a separação entre Estado e religião foi estabele-
nos separar. Eu lhe explico, pacientemente, que as pessoas, ho- cida, ao menos formalmente, na Constituição Federal de 1891.
mens e mulheres, homens e homens, mulheres e mulheres, se Ademais, numa sociedade democrática o Estado deve zelar pelo
conhecem, se gostam e moram juntas, podendo nascer (ou ser respeito a todos os cidadãos, sejam eles parte de uma “maioria”
adotado) daí um filho ou uma filha. Enquanto houver um deter- ou de uma “minoria”. Talvez seja mais apropriado afirmar que,
minado tipo de amor, o casal permanecerá junto; se o casal pas- numa democracia, o essencial é proteger os direitos dessa(s) mi-
sar a se gostar, ou a não se gostar, de uma maneira que não signi- noria(s), exatamente por não se enquadrarem naquilo que o de-
fica mais querer dormir na mesma casa, na mesma cama, ele se putado qualifica de “padrão”, ou seja, no caso em análise, a uni-
separa. O que não significa, e isto eu deixo bem claro para ele, ão heterossexual. Já dizia Nelson Rodrigues que “toda unanimi-
que ambos deixem de ser pai e mãe dele, que ambos deixem de dade é burra”. O padrão não existe no vácuo, é construído soci-
amá-lo, mas agora cada um reside em locais separados. Nosso almente e pode ser questionado, não descansa em berço esplên-
filho nunca me perguntou sobre casal de pais formados por indi- dido, não é sagrado. O desvio, por sua vez, não é essencialmente
víduos do mesmo sexo, embora já saiba, porque dissemos a ele, um erro, visto que só existe a partir do padrão estabelecido. Ou
que esse arranjo é possível e normal. Eis que o Estado brasileiro seja: seguir nos trilhos do padrão não significa aderir à verdade
decidiu arvorar-se no direito de decidir quais arranjos familiares absoluta, e é aqui que entra o Poder Judiciário na defesa dos di-
são dignos e quais são indignos para a criação de indivíduos psi- reitos de quem se desvia do padrão. Apenas para exemplificar:
cologicamente saudáveis. A ingerência estatal em domínio emi- até 1888, era padrão um ser humano branco com recursos pos-
nentemente privado, uma vez que felicidade não pode ser cons- suir outro ser humano, embora preto de pele; até o fim do regi-
truída baixo decreto presidencial, é flagrante na discussão do me do Apartheid, era padrão considerar crime relações sexuais
chamado “Estatuto da Família”, projeto de lei proposto pelo de- entre brancos e negros; nos anos 1960, era padrão negros sentar-
putado federal Anderson Ferreira, do Partido Republicano. Po- em-se na parte de trás do ônibus em muitas cidades norte-ameri-
de-se dizer, até, que o projeto não começa de todo mal, em seu canas, proibidos de misturarem-se aos brancos, “contaminando-
artigo 1º esclarecendo que o Estatuto dispõe “sobre os direitos -os”; antes de 1930, era padrão mulheres não votarem no Brasil.
da família e as diretrizes das políticas públicas voltadas para a O Estatuto da Família é desumano por desconsiderar a enorme
valorização e apoiamento da entidade familiar”, sendo obriga- quantidade de crianças disponíveis para adoção, submetidas di-
ção do Estado, da sociedade e do Poder Público, de acordo com ariamente ao sofrimento psicológico do abandono afetivo e ma-
o artigo 3º, “assegurar à entidade familiar a efetivação do direito terial, cujo destino poderia ser outro se as definições de
à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao la- “felicidade” e “integridade moral” não estivessem condiciona-
zer, ao trabalho, à cidadania e à convivência comunitária”. O das a uma visão de mundo religiosa, intolerante na sua essência

3
porque exclusiva, pois divide o mundo entre “sagrado” e “pro- ção do PL, o deputado afirma que o apresentou porque “não
fano”, “anjos” e “demônios”, “Deus” e “diabo”, “Céu e infer- há políticas públicas efetivas voltadas especialmente à valo-
no”. Parece-me um ato falho a afirmação do deputado de que “o rização da família”. Mas, na verdade, o deputado não tem
arranjo familiar baseado no amor e no afeto é algo novo em nos- em mente a valorização de todas as formas de família com-
sa sociedade, não é o padrão”. Qual seria o tradicional padrão provadamente existentes, e sim imposição de um só tipo de
de arranjo familiar, então? Baseado em quê? Hipocrisia? Vio- família, em detrimento das demais, não menos válidas. Se,
lência? Indiferença? Ele mesmo fez o papel de advogado do dia- de fato, há necessidade de um estatuto dessa natureza, seria
bo, ironicamente. Reproduzo a questão levantada pelo escritor mais apropriado e condizente com a realidade se tivesse o
português Eduardo Prado Coelho, citado por José Saramago no título de “Estatuto das Famílias”, em consonância ao con-
seu Cadernos de Lanzarote: como conciliar o princípio da cren- ceito que a “Lei Maria da Penha” ofereceu em 2006: “famí-
ça com o princípio da tolerância? Seremos nós capazes de viver lia, compreendida como a comunidade formada por indiví-
em crença, para sermos um pouco mais que coisa nenhuma, e duos que são ou se consideram aparentados, unidos por la-
aceitarmos a pluralidade inconciliável das crenças? Não há con- ços naturais, por afinidade ou por vontade expressa” (art. 5º,
ciliação. Ou o Estado brasileiro se seculariza de fato e de direito, inciso II). Pelo respeito a todas as famílias.
ou sucumbe às trevas da intolerância religiosa.
(Gazeta do Povo, “Opinião”, 30.06.2014)
(Carta Maior, “Direitos Humanos”, 16.03.2015)
Os efeitos da extensão do conceito de família
Pelo respeito a todas as famílias
André Gonçalves Fernandes
Toni Reis
Numa correta compreensão do Estatuto da Família,
Dados do Censo Demográfico de 2010 (IBGE) retra- algumas perguntas, que correspondem a argumentos de ra-
tam a existência da diversidade nos arranjos familiares atu- zões públicas, devem ser respondidas antes de se chegar a
ais: 66,2% são famílias “nucleares” (definidas como um ca- qualquer conclusão serena. O que é mais importante à gêne-
sal com ou sem filhos, ou uma mulher ou um homem com se do tecido social: uma família em que casamento seja do-
filhos); 19% são estendidas (mesmo arranjo anterior, mas tado de complementaridade sexual ou parcerias homossexu-
inclui convivência com parente ou parentes); 2,5% são com- ais? Em qual dessas famílias reside o princípio autoconstitu-
postas (inclui convivência com quem não é parente) e os de- tivo e “genético” da sociedade? Em qual delas, segundo su-
mais 12,3% são pessoas que moram sozinhas. No entanto, as peculiaridades intrínsecas, valores podem ser mais bem
em outubro de 2013, um deputado federal apresentou na Câ- transmitidos à geração sucessiva? Em qual delas os novos
mara dos Deputados o Projeto de Lei (PL) 6583/13, o “Esta- cidadãos crescerão melhor, de modo a estruturar-se e ampli-
tuto da Família”. Nele, o artigo 2.º estabelece que “para os ar, de modo natural, suas próprias personalidades? Em qual
fins desta lei, define-se entidade familiar como o núcleo so- desses modelos se respeita a opção natural da criança em
cial formado a partir da união entre um homem e uma mu- gerar prole quando alcançar a maturidade? Que obrigações
lher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por a sociedade deve assumir em relação a uma e outra família,
comunidade formada por qualquer dos pais e seus descen- e em que grau? Em que medida cada uma delas contribui ao
dentes”. A proposição vem na contramão da realidade infor- incremento do bem comum? A equiparação da família base-
mada pelo Censo e propõe criar, insidiosamente, divisões na ada na relação homossexual não seria um privilégio, afetan-
sociedade que a própria Constituição Federal buscou elimi- do o princípio da igualdade? Discriminar é separar, distin-
nar. Em 05.05.2011 Supremo Tribunal Federal (STF), guar- guir. Continuamente separamos e distinguimos. Diferencia-
dião da Constituição, entendeu, por unanimidade, que o di- mos entre pessoas boas e ruins, livros agradáveis e dessagra-
reito fundamental constitucional da igualdade perante a lei dáveis, comidas palatáveis e não palatáveis. Cada vez que
predomina sobre a redação do seu artigo 226, § 3º, segundo elegemos algo, discriminamos inconscientemente, pois, ao
o qual, “para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a optar por este, descartamos aquele. Discriminar é necessário
união estável entre o homem e a mulher como entidade fa- e inevitável. Apenas é reprovável a discriminação injusta, a-
miliar”, e, com base nesse entendimento, STF equiparou a quela que carece de qualquer fundamento. Assim, chamar
união estável homoafetiva à união estável entre o homem e cada coisa pelo seu devido nome é uma justa discriminação.
a mulher. Mas não seriam apenas as famílias homoafetivas Nessa linha, não me parece que a defesa da noção duma “fa-
que teriam seus direitos violados pelo PL 6583/13. Ele tam- mília tradicional”, no seio do debate sobre o Estatuto da Fa-
bém discrimina e relega à condição de cidadãs de segunda mília, implique uma discriminação, estritamente falando, ou
classe as pessoas cuja maneira de constituir uma família não mesmo negação de direitos a uma minoria. O ponderado fa-
se enquadre na definição estreita colocada no seu artigo 2º. tor de discrímen reside justamente nos elementos objetivos
Em sua justificação, o autor do PL 6583/13, que também foi que o Direito exige para que um fato da vida seja dotado de
relator do projeto de lei da “cura gay” na Comissão de Direi- juridicidade familiar: a dimensão procriadora, os desimpe-
tos Humanos e deu parecer favorável a este, revela mais sua dimentos legais para a constituição dos vínculos familiares,
verdadeira motivação quando afirma que é preciso enfrentar segundo a ordem social (Artigo 1521 do Código Civil), e a
as “questões complexas a que estão submetidas às famílias exterioridade da relação, como as declarações expressas de
num contexto contemporâneo”, entre elas a “desconstrução vontade e a filiação. É necessário refletir sobre a diferença
do conceito de ‘família’, aspecto que aflige as famílias”. En- entre o comportamento homossexual como fenômeno priva-
fim, ao que parece, o que permeia as motivações pela apre- do e como comportamento público, legalmente previsto, a-
sentação da proposição e o seu teor discriminatório são con- provado e convertido numa das instituições do ordenamento
vicções religiosas pessoais do seu autor e o patente desres- jurídico. As leis civis são os princípios que estruturam a vida
peito pela laicidade do Estado, quando esta, constitucional- do homem em sociedade, para o bem ou para o mal, segundo
mente, deveria prevalecer no ato de propor leis. Na justifica- seus fins naturais. As formas de vida e os modelos nelas tra-

4
çados não somente configuram a vida social exteriormente, mília legitima e legitimava os filhos comuns. O novo código
mas tendem a modificar, nas novas gerações, a correta com- reconhece que a família abrange as unidades familiares for-
preensão e valoração dos comportamentos empiricamente madas pelo casamento civil ou religioso, união estável ou
vividos no seio social. Tal extensão do conceito de “família comunidade formada por qualquer dos pais ou descenden-
natural” – e sua dimensão etnograficamente estável ao lon- tes, ou mãe solteira. O conceito de família passou a ser base-
go dos séculos – para os homossexuais pela via legal estaria ado mais no afeto do que apenas em relações de sangue, pa-
destinada a provocar o obscurecimento da percepção de va- rentesco ou casamento. Já o IBGE, para realizar o Censo em
lores fundamentais e caros para a sociedade, dado que atre- 2010, definiu como família o grupo de pessoas ligadas por
lados à sua própria subsistência. E, ao cabo, provocaria a laços de parentesco que vivem em uma unidade doméstica.
própria autodiscriminação da homossexualidade, ao se pre- Tal unidade doméstica pode ter três tipos: unipessoal (quan-
tender desconhecer a realidade dessa condição. Em suma, do é composta por uma pessoa apenas), de duas pessoas ou
misturar tudo para alegar o novo apenas serve para revelar mais com parentesco, ou de duas pessoas ou mais sem pa-
a verdade dos contornos do velho. rentesco entre elas. O levantamento fez um retrato da
famíli-a brasileira: na maioria das unidades domésticas
(Gazeta do Povo, “Opinião”, 30.06.2014) (87,2%), as famílias são formadas por duas ou mais pessoas
com laços de parentesco. As pessoas que vivem sozinhas
Família: sociedade coloca conceito em disputa representam 12,1% do total, e as pessoas sem parentesco
são 0,7%. Na comparação entre 2000 e 2010, houve um
Andréia Martins crescimento na proporção de pessoas morando sozinhas
(antes, 9,2%) e de famílias tendo a mulher como
Qual é a definição correta de família? Existe um con- responsável (de 22,2% para 37,3%), fato que ocorre,
ceito correto? As definições antigas dão conta da diversida- principalmente, pela emancipação e ingresso da mulher no
de que a sociedade contemporânea possui em suas relações? mercado de trabalho. Especialistas e intelectuais afirmam
Para muitos, essa é uma questão polêmica. No Brasil, o tema que não há um conceito único de fa-mília e que ele
ganhou destaque após o site da Câmara dos Deputados colo- permanece aberto, em construção, e deve a-companhar as
car uma enquete que questiona se você é a favor ou contra mudanças de comportamento, religiosas, eco-nômicas e
o conceito de família como núcleo formado “a partir da uni- socioculturais da sociedade. Alas mais conserva-doras da
ão entre homem e mulher”, prevista no projeto de Lei 6583/ sociedade e de diferentes religiões não comparti-lham dessa
13, do deputado Anderson Ferreira (PR-PE), que cria o Es- visão e mantêm o entendimento de que o fator gerador da
tatuto da Família. O deputado argumenta que “família vem família é o casamento entre homem e mulher, os filhos
sofrendo com rápidas mudanças ocorridas em sociedade” e, gerados dessa união e seus demais parentes. Mas com o
no texto do projeto, apresenta diretrizes de políticas públi- passar do tempo novas combinações e formas de interação
cas voltadas para a entidade familiar e obriga o poder públi- entre os indivíduos passaram a constituir diferentes tipos de
co a garantir as condições mínimas para a “sobrevivência” famílias contemporâneas: a nuclear tradicional (um casal de
desse núcleo. A proposta dele define “família” como núcleo homem e mulher com um ou dois filhos, sendo relação ma-
formado a partir da união entre homem e mulher, por meio trimonial ou não); matrimonial; informal (fruto da união es-
de casamento, união estável ou comunidade formada pelos tável); homoafetiva; adotiva; anaparental (sem a presença
pais e seus descendentes. A família é fenômeno social pre- de um ascendente); monoparental (quando apenas um dos
sente em todas as sociedades e um dos primeiros ambientes pais se responsabiliza pela criação dos filhos); mosaico ou
de socialização do indivíduo, atuando qual mediadora prin- pluriparental (o casal ou um dos dois têm filhos provenien-
cipal dos padrões, modelos e influências culturais; define- tes de um casamento ou relação anterior); extensa ou ampli-
-se em um conjunto de normas, práticas e valores que têm ada (tem parentes próximos com quem o casal e (ou) filhos
seu lugar, seu tempo e uma história. Muitos fatores contri- convivem e mantêm vínculo forte); poliafetiva (na qual três
buem para dar forma ao que reconhecemos como “família”: ou mais pessoas relacionam-se de maneira simultânea); pa-
as normas e ações impostas pelo Estado (quando ele benefi- ralela ou simultânea (concomitância de duas entidades fa-
cia determinado tipo de família em questões legais, previ- miliares), eudemonista (aquela que busca a felicidade indi-
denciárias, acaba legitimando este tipo e desestimulando vidual), entre outras. O principal desafio é reconhecer a legi-
outros), as relações trabalhistas (quando as oportunidades timidade desses novos tipos de famílias, que precisam dessa
no mundo do trabalho moldam as escolhas feitas pelos indi- oficialização para ter seus direitos jurídicos, previdenciári-
víduos na vida pessoal), âmbito de sexualidade e afetos, as os, entre outros, garantidos. Quando o Estado e a sociedade
representações dos papéis sociais de mulheres e homens, da não reconhecem essas famílias como legítimas (por diferen-
infância e das relações entre adultos e crianças, a delimita- tes motivos), devido ao conflito entre os valores antigos e o
ção do que é pessoal e privado por práticas cotidianas, e as estabelecimento de novas relações, acabam estimulando al-
leis. Tudo isso interfere na vida doméstica e molda os papéis guns modos de vida e desestimulando outros. Entretanto, is-
de homens e mulheres dentro e fora de casa. No Brasil, o so acaba oferecendo proteção e vantagens para uns em detri-
conceito de família teve diferentes abordagens. Na Consti- mento de outros. “A ideia de que a família corresponde ao
tuição Federal de 1967, anterior ao regime democrático, o casamento, heterossexualidade e procriação determinou por
artigo 167 descrevia que “a família é constituída pelo casa- muito tempo a fronteira da legitimidade das famílias”, co-
mento”. Promulgada a Constituição Federal de 1988, o con- menta a autora Flávia Biroli no livro Família: novos concei-
ceito de família foi ampliado e passou a ser entendido como tos, ao falar da noção moderna de família. Segundo ela, a
“comunidade formada por qualquer dos pais e seus descen- ruptura, ainda que parcial, dessa idealização do conceito de
dentes”. Pelo Código Civil, instituído em 2003, família dei- “família” é resultado da ação de movimentos sociais, femi-
xou de ser a constituída unicamente pelo casamento formal, nistas e LGBT, e de juristas e políticos que entenderam que
ou seja, composta de marido, mulher e filhos. No Código de os direitos individuais incluem o direito de casar-se e serem
1916, em vigência anteriormente, o casamento definia a fa- beneficiados com as vantagens relacionadas ao casamento

5
nas nossas sociedades. Além da diversidade de tipos de fa- justificar essas modificações, são evocados princípios reli-
mília no Brasil, ainda precisamos compreender a realidade giosos, como se vivêssemos sob um regime teocrático. Ale-
de outros países e culturas (principalmente não ocidentais), gando que a vida se inicia no momento mesmo da concep-
onde, muitas vezes, um comportamento que é proibido em ção – argumento que contraria as mais elementares evidên-
nosso território é lá permitido. Entre esses comportamentos cias biológicas –, Eduardo Cunha não só se manifestou “ra-
estão a exogamia (união de membros de grupos diferentes, dicalmente contra” o aborto, como ressuscitou projetos que
como japonês com alemã, italiano com africana etc), a endo- ampliam a repressão ao procedimento, tipificando-o como
gamia (união entre parentes ou pessoas com a mesma ascen- crime hediondo (comparável a latrocínio, homicídio qualifi-
dência), a bigamia, o incesto, a poligamia, entre outros. Se cado, genocídio...) e prevendo a prisão por até vinte anos do
voltássemos à Idade Média, veríamos que não eram inco- médico que pratique a cirurgia. Membro da igreja Sara Nos-
muns casos de reis e rainhas europeus que se casavam com sa Terra, Cunha também diz que, do “ponto de vista bíblico”
primos e irmãos para manter unidos seus reinos e fortunas. o casamento homossexual “não é coisa normal”, e, por isso,
No caso da poligamia, um casamento que engloba dois ou defende a votação do Estatuto da Família, de autoria do de-
mais parceiros, trata-se de uma prática que vem de culturas putado Anderson Ferreira (PR-PE), crente da Assembleia de
e religiões antigas, em muitos casos, iniciada pelo fato de e- Deus, redefinindo “núcleo familiar” somente como a união
xistirem mais mulheres do que homens. Na África, por e- entre homem e mulher, contradizendo decisão do Supremo
xemplo, a poligamia para os homens é permitida e reconhe- Tribunal Federal que igualou os direitos dos casais homos-
cida legalmente em muitos países, como Líbia, Marrocos, sexuais aos dos casais heterossexuais. O presidente da Câ-
Quênia, entre outros. Na África do Sul, a poligamia é um di- mara dos Deputados, e segundo na linha de sucessão de Dil-
reito que está na Constituição. Qualquer homem sul-africa- ma Rousseff, responsabilizou-se ainda por acelerar a discus-
no pode ser casado com até quatro mulheres. Todas recebem são do projeto que altera a maioridade penal de 18 para 16
o sobrenome do marido e têm os mesmos direitos perante a anos – proposta que encontrava-se estacionada na Casa des-
lei. No caso da poligamia para mulheres (chamada polian- de 1993. A emenda, elaborada pelo ex-deputado Benedito
dria), por muitos séculos foi praticada no isolado Vale Laha- Domingos, pastor da igreja Assembleia de Deus o qual teve
ul, no Himalaia, Índia. Ali, era muito comum o casamento seus direitos políticos cassados por 10 anos, condenado por
de irmãos com a mesma mulher, por exemplo. Essas famíli- envolvimento em esquema de corrupção, é toda ela baseada
as eram pequenas; como o trabalho não era distante, não ha- não em pressupostos jurídicos, mas em citações do “Velho
via muito contato com outras aldeias. Hoje, com o desenvol- Testamento”. Agora, Cunha acrescentou mais uma bandeira
vimento do local, o crescimento econômico e os avanços à sua cruzada: criou uma comissão especial para debater o
tecnológicos, o vale antes isolado ganhou estradas, telefo- projeto do deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB de
nes, e a população pode se deslocar, trabalhar longe e alme- SC) que revoga o Estatuto do Desarmamento. A proposta,
jar outra vida. As famílias poliândricas começam a desapa- entre outras coisas, diminui de 25 para 21 anos a idade míni-
recer. O mais importante nessa questão é que a diversidade ma para posse de armas de fogo e autoriza seu porte nas ruas
da vida afetiva e familiar seja abordada de maneira que seu – direito hoje limitado a policiais, militares e profissionais
contexto e papel sejam compreendidos antes de serem julga- que precisam da arma para trabalhar –, mesmo por pessoas
dos e que garanta a igualdade dos indivíduos – no acesso a que já estiveram presas ou estejam sendo investigadas por
recursos e ao reconhecimento social, e também na sua auto- crimes violentos. Segundo dados do Instituto de Pesquisa E-
nomia para tomar decisões sobre a própria vida. conômica Aplicada (IPEA), entre 1980 e 2003, ano em que
o Estatuto foi sancionado, o número de homicídios aumen-
(Universo Online, “Atualidades”, 03.02.2015) tou em média 8,36% ao ano – de 6104 para 35576. Em 2013,
quando completou dez anos de vigência da lei, o número de
Mas que Deus é esse?! homicídios alcançou 35.578 – média de 0,53% ao ano. Isso
significa que o crescimento do número de pessoas assassi-
Luiz Ruffato nadas antes do Estatuto era 15 vezes maior que depois de
sua entrada em vigor. Eu não compreendo em nome de que
Enquanto marcham pelas ruas indecisos cordões, os Deus agem Eduardo Cunha e os parlamentares que o apoiam
nossos homens públicos vão descavando estranhas leis que, – bancada que evidentemente não se limita aos evangélicos.
como um rio que corre ao contrário, nos encaminham a um Que Deus é esse que condena à morte milhares de mulheres
mundo nebuloso, regido pela ignorância e pela força. À cri- pobres todos os anos, vítimas de abortos malsucedidos? Que
se institucional, junta-se a brusca desaceleração da econo- Deus é esse que permite que todos os dias um homossexual
mia, cenário que nos torna vulneráveis a discursos salvacio- seja assassinado? Que Deus vingativo é esse que exige o en-
nistas. A História nos ensina: todas as vezes que uma socie- carceramento aos 16 anos de jovens de periferia, em geral
dade abraça soluções messiânicas o resultado é desastroso. afrodescendentes? Que Deus é esse que, ao invés de pregar
E se levarmos em consideração que a tradição política brasi- a paz, sugere que nos armemos até os dentes? Na pequena
leira é a crônica de sucessivas ditaduras, concluiremos que colônia italiana de onde provenho, o Deus que me ensina-
nossa incipiente democracia está em sérios riscos, vergada ram a respeitar era o Deus do amor, do perdão, da tolerância,
sob os ventos reacionários que a açoitam. A atual legislatura da generosidade, da reciprocidade. O mandamento mais im-
deverá entrar para os anais como aquela em que demos lar- portante era: “amai-vos uns aos outros como vos amei” – o
gos passos para trás, rumo à obscuridade. O presidente da nosso comportamento ético decorria dessa primeira asserti-
Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já deixou va. Com certeza, posso dizer que o Deus da minha infância
claro que alguns temas não serão votados enquanto estiver não é o Deus de que fala Eduardo Cunha e seus seguidores.
à frente da Casa, como o direito ao aborto, ao mesmo tempo
em que desenterra projetos que provocam enorme retroces- (El País, “Opinião”, 15.04.2015)
so, como o homofóbico Estatuto da Família ou o que reduz
a maioridade penal de 18 para 16 anos. Curiosamente, para

6
Projeto de Lei 6.583, de 16.10.2013 deste artigo estiver associada ao envolvimento dos mem-
bros da entidade familiar com as drogas e o álcool, a atenção
Deputado Anderson Ferreira, PR-PE a ser prestada pelo sistema público de saúde deverá ser con-
duzida por equipe multidisciplinar e terá preferência no a-
Dispõe sobre o Estatuto da Família e dá outras pro- tendimento. Art. 7º. Todas as famílias têm direito de viver
vidências. O Congresso Nacional decreta: Art. 1º. Esta Lei em um ambiente seguro, sem violência, com garantia da sua
institui o Estatuto da Família e dispõe sobre os direitos da incolumidade física e mental, sendo-lhes asseguradas igual-
família e as diretrizes das políticas públicas voltadas para dade de oportunidades e facilidades para seu aperfeiçoa-
valorização e apoiamento à entidade familiar. Art. 2º. Para mento intelectual, cultural e social enquanto núcleo societá-
os fins desta Lei, define-se entidade familiar como o núcleo rio. Art. 8º. As políticas de segurança pública voltadas para
social formado a partir da união entre um homem e uma mu- proteção da família deverão articular ações da União, dos
lher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por estados, do Distrito Federal e dos Municípios e ações não
comunidade formada por qualquer dos pais e seus descen- governamentais, tendo por diretrizes: I – a integração com
dentes. Art. 3º. É obrigação do Estado, da sociedade e Poder as demais políticas voltadas à família; II – a prevenção e o
Público, em todos os níveis, assegurar à entidade familiar a enfrentamento da violência doméstica; III – a promoção de
efetivação do direito à saúde, à alimentação, à educação, à estudos e pesquisas e a obtenção de estatísticas e informa-
cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania e à con- ções relevantes para subsidiar as ações de segurança pública
vivência comunitária. Art. 4º. Os agentes públicos ou priva- e permitir a avaliação periódica dos impactos das políticas
dos envolvidos com as políticas públicas voltadas para fa- públicas quanto às causas, às consequências e à frequência
mília devem observar as seguintes diretrizes: I – desenvol- da violência entre membros das entidades familiares; IV – a
ver a intersetorialidade das políticas estruturais, programas priorização de ações voltadas para proteção das famílias em
e ações; II – incentivar a participação dos representantes da situação de risco, vulnerabilidade social e que tenham em
família na sua formulação, implementação e avaliação; III seu núcleo membros considerados dependentes químicos; V
– ampliar as alternativas de inserção da família, promoven- – a promoção do acesso efetivo das famílias à Defensoria
do programas que priorizem o seu desenvolvimento integral Pública, considerando as especificidades da condição da en-
e participação ativa nos espaços decisórios; IV – proporcio- tidade familiar. Art. 9º. É assegurada prioridade na tramita-
nar atendimento de acordo com suas especificidades perante ção dos processos e procedimentos e na execução dos atos
os órgãos públicos e privados prestadores de serviços à po- e diligências judiciais, em qualquer instância, em que o inte-
pulação, visando ao gozo de direitos simultaneamente nos resse versado constitua risco à preservação e sobrevivência
campos da saúde, educacional, político, econômico, social, da entidade familiar, devendo a parte interessada justificar
cultural e ambiental; V – garantir meios que asseguram o a- o risco em petição endereçada à autoridade judiciária. Art.
cesso ao atendimento psicossocial da entidade familiar; VI 10. Os currículos dos Ensinos Fundamental e Médio devem
– fortalecer as relações institucionais com os entes federa- ter, em sua base nacional comum, como componente curri-
dos e as redes de órgãos, gestores e conselhos da família; cular obrigatório, a disciplina “Educação para família”, a ser
VII – estabelecer mecanismos que ampliem a gestão de in- especificada, em cada sistema de ensino e estabelecimento
formação e produção de conhecimento sobre a família; VIII escolar, de acordo com as características regionais e locais
– garantir a integração das políticas da família com os Pode- da sociedade, da cultura, da economia e clientela. Art. 11. É
res Legislativo e Judiciário, com o Ministério Público e com garantida a participação efetiva do representante dos inte-
a Defensoria Pública; e IX – zelar pelos direitos da entidade resses da família nos conselhos e instâncias deliberativas de
familiar. Art. 5º. É obrigação do Estado garantir à entidade gestão democrática das escolas. Art. 12. As escolas deverão
familiar as condições mínimas para sua sobrevivência, me- formular e implantar medidas de valorização da família no
diante a efetivação de políticas sociais públicas que permi- ambiente escolar, com a divulgação anual de relatório que
tam a convivência saudável entre seus membros e em condi- especifique a relação dos escolares com as suas famílias.
ções de dignidade. Art. 6º. É assegurada a atenção integral Art. 13. O Dia Nacional de Valorização da Família, que o-
à saúde dos membros da entidade familiar, por intermédio corre no dia 21 de outubro de cada ano, nos termos da Lei
do Sistema Único de Saúde (SUS) e o Programa de Saúde 12647/2012, deve ser celebrado nas escolas públicas e pri-
da Família, garantindo-lhes o acesso em conjunto articulado vadas com a promoção de atividades no âmbito escolar que
e contínuo das ações e serviços, para a prevenção, promo- fomentem as discussões contemporâneas sobre a importân-
ção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção cia da família no meio social. § 1º. Na data a que se refere o
especial ao atendimento psicossocial da unidade familiar. § caput deste artigo, o Ministério Público e as Defensorias Pú-
1º. A prevenção e a manutenção da saúde dos membros da blicas, em todos os níveis, promoverão ações voltadas ao in-
entidade familiar serão efetivadas por meio de: I – cadastra- teresse da família, com a prestação de serviços e orientação
mento da entidade familiar em base territorial; II – núcleos à comunidade. Art. 14. Os conselhos da família são órgãos
de referência, com pessoal especializado na área de psicolo- permanentes e autônomos, não jurisdicionais, encarregados
gia e assistência social; III – atendimento domiciliar, e em de tratar das políticas públicas voltadas à família e da garan-
instituições públicas, filantrópicas ou sem fins lucrativos e, tia do exercício dos direitos da entidade familiar, com os se-
eventualmente, conveniadas com o Poder Público; IV – rea- guintes objetivos: I – auxiliar na elaboração de políticas pú-
bilitação do convívio familiar orientada pelos profissionais blicas voltadas à família que promovam o amplo exercício
especializados. V – assistência prioritária à gravidez na ado- dos direitos dos membros da entidade familiar estabelecidos
lescência. § 2º. Incumbe ao Poder Público assegurar, com a nesta Lei; II – utilizar instrumentos de forma a buscar que o
absoluta prioridade no atendimento e com a disponibiliza- Estado garanta à família o exercício dos seus direitos; III –
ção de profissionais especializados, o acesso dos membros colaborar com os órgãos da administração no planejamento
da entidade familiar a assistentes sociais e psicólogos, sem- e na implementação das políticas voltadas à família; IV –
pre que a unidade da entidade familiar estiver sob ameaça. estudar, analisar, elaborar, discutir e propor a celebração de
§ 3º. Quando a ameaça a que se refere o parágrafo anterior instrumentos de cooperação, visando à elaboração de pro-

7
gramas, projetos e ações voltados para valorização da famí- pugna duas ideias: o fortalecimento dos laços familiares a
lia; V – promover a realização de estudos relativos à família, partir da união conjugal firmada entre o homem e a mulher,
objetivando subsidiar o planejamento das políticas públicas; ao estabelecer o conceito de “entidade familiar”; a proteção
VI – estudar, analisar, elaborar, discutir e propor políticas e a preservação da unidade familiar, ao estimular a adoção
públicas que permitam e garantam a integração e a partici- de políticas de assistência que levem às residências e às uni-
pação da família nos processos social, econômico, político dades de saúde públicas profissionais capacitados à orienta-
e cultural no respectivo ente federado; VII – propor a cria- ção das famílias. Entre outros temas de interesse da família,
ção de formas de participação da família nos órgãos da ad- o projeto propõe: que a família receba assistência especiali-
ministração pública; VIII – promover e participar de semi- zada para o enfrentamento do problema da droga e do álco-
nários, cursos, congressos e eventos correlatos para o debate ol; que o Estado preste apoio efetivo às adolescentes grávi-
de temas relativos à família; IX – desenvolver outras ativi- das prematuramente; que seja incluída, no currículo escolar,
dades relacionadas às políticas públicas voltadas à valoriza- a disciplina “Educação para Família”; a prioridade na trami-
ção da família. § 1º. A lei, em âmbito federal, estadual, do tação de processos judiciais e administrativos em demandas
Distrito Federal e municipal, disporá sobre a organização, o que ponham em risco a preservação e sobrevivência da enti-
funcionamento e a composição dos conselhos da família, dade familiar; a criação do Conselho da Família no âmbito
observada a participação da sociedade civil mediante crité- dos entes federados; aperfeiçoamento e promoção à inter-
rio, no mínimo, paritário com os representantes do poder disciplinaridade das políticas voltadas ao combate da vio-
público. Art. 15. São atribuições dos conselhos da família: I lência doméstica. Em síntese, esta proposta busca a valori-
– encaminhar ao Ministério Público notícia dalgum fato que zação e o fortalecimento da entidade familiar, por meio da
constitua infração administrativa ou penal contra os direitos implementação de políticas públicas, razão pela qual peço o
da família garantidos na legislação; II – encaminhar à auto- inestimável apoio dos nobres pares.
ridade judiciária os casos de sua competência; III – expedir
notificações; IV – solicitar informações das autoridades pú- Sala das Sessões, 16 de outubro de 2013.
blicas; V – assessorar o Poder Executivo local na elaboração
dos planos, programas, projetos, ações e proposta orçamen- (CÂMARA DOS DEPUTADOS. www.camara.leg.br)
tária das políticas públicas voltadas à família. Art. 16. Esta
lei entra em vigor na data de sua publicação, produzindo e-
feitos a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao de sua
publicação. A família é considerada o primeiro grupo huma-
no organizado num sistema social, funcionando como uma
espécie de unidade-base da sociedade. Daí porque devemos
conferir importância à família e às mudanças que têm altera-
do a sua estrutura no decorrer do tempo. Não é por outra ra-
zão que a Constituição Federal dispensa atenção especial à
família (artigo 226), ao estabelecer que a família é base da
sociedade e deve ter especial proteção do Estado. Conquan-
to a própria Carta Magna tenha previsto que o Estado deve
proteger a família, o fato é que não há políticas públicas efe-
tivas voltadas especialmente à valorização da família e ao
enfrentamento das questões complexas a que estão submeti-
das às famílias num contexto contemporâneo. São diversas
essas questões. Desde a grave epidemia das drogas, que di-
lacera os laços e a harmonia do ambiente familiar, à violên-
cia doméstica, à gravidez na adolescência, à desconstrução
do conceito de “família”, aspecto que aflige as famílias e re-
percute na dinâmica psicossocial do indivíduo. A questão A nova família brasileira
merece aprofundamento e disciplinamento legal. O Estado
não pode fugir à sua responsabilidade, e os legisladores têm Pollyane Lima e Silva; Cecília Ritto
tarefa central nessa discussão. A família vem sofrendo com
as rápidas mudanças ocorridas em nossa sociedade, cabendo Um novo recorte do Censo 2010, divulgado nesta
ao Poder Público enfrentar essa realidade, diante dos novos quarta-feira pelo IBGE, mostra um retrato detalhado da fa-
desafios vivenciados pelas famílias brasileiras. Tenho feito mília brasileira. O estudo confirma características observa-
do meu mandato e da minha atuação parlamentar instrumen- das nos últimos anos, reflexo da mudança estrutural dos gru-
tos de valorização da família. Acredito, firmemente, que a pos familiares, da maior participação da mulher no mercado
felicidade do cidadão está centrada sobretudo na própria fe- de trabalho, das baixas taxas de fecundidade e do envelheci-
licidade dos membros da entidade familiar. Uma família e- mento da população. E detalha aspectos ainda não mensura-
quilibrada, de autoestima valorizada e assistida pelo Estado dos no país, como a maior disposição dos brasileiros para
é sinônimo de uma sociedade mais fraterna e também mais dar início a um novo relacionamento conjugal depois de u-
feliz. Por cultivar essa crença, submeto à apreciação dos no- ma (ou mais) experiências de vida a dois – resultado tam-
bres pares o presente projeto de lei que, em síntese, institui bém da mudança na legislação no mesmo ano do estudo, o
o Estatuto da Família. A proposta que ora ofereço pretende que tornou o divórcio algo possível com uma simples passa-
ser o pontapé inicial de uma discussão mais ampla a ser em- gem pelo cartório. A novidade que emerge do estudo vem
preendida nesta Casa em favor da promoção de políticas pú- da preocupação do IBGE de, pela primeira vez, analisar as
blicas que valorizem a instituição familiar. O Estatuto abor- famílias reconstituídas. Ou seja, “os núcleos constituídos
da questões centrais que envolvem a família. Primeiro, pro- depois da separação ou morte de um dos cônjuges”. Esses

8
grupos representam 16,3% do total de casais que vivem com já viveram em união conjugal e não viviam mais na época
filhos, sendo eles de apenas um dos companheiros ou de am- da pesquisa é generalizado em todas as regiões do país. De
bos. São mais de 4,4 milhões as famílias com essas caracte- 2000 para 2010, o índice de pessoas que terminaram uma
rísticas atualmente – o restante, quase 84%, é formado por união conjugal subiu de 15,6% para 17,5% – o maior por-
casais com filhos do marido e da mulher vivendo juntos no centual do país, cuja média geral é de 14,6%. Mas os maio-
momento da entrevista. A composição de casais com filhos res crescimentos porcentuais foram observados em Rondô-
ainda representa a maioria das famílias brasileiras, apesar nia (33%) e no Mato Grosso (31%), onde ainda se mantém
da queda significativa nessa fatia da população: foi registra- uma tradição maior no que diz respeito ao casamento tradi-
da uma redução de 63,6%, em 2000, para 54,9% em 2010. cional. “Uma das explicações possíveis desse crescimento,
O Censo também mostra que, apesar de os solteiros ainda principalmente na Região Norte do país, é a maior autono-
responderem por mais de metade da população, 55,3%, en- mia que mulheres vêm conquistando, para colocar um fim
tre as pessoas com 10 anos de idade ou mais, foi entre os di- em um relacionamento ruim, por exemplo”, explica o pes-
vorciados o maior aumento observado de uma década para quisador Leonardo Queiroz Athias. Entre os estados, o Rio
outra: o índice quase dobrou do levantamento feito em 2000 de Janeiro é o que aparece como o campeão das separações.
para o atual, passando de 1,7% para 3,1%. Se somados com Cosme Corrêa e Carla Lage moram juntos em Niterói há três
o número de desquitados e separados judicialmente, esse anos. Antes disso cada um foi casado com outra pessoa e ti-
grupo chega a quase 5% dos brasileiros. A mudança que se veram filhos. Hoje, engrossam as estatísticas do IBGE sobre
mostra acentuada na década entre 2000 e 2010 vem sendo famílias reconstituídas. Carla chegou com um filho de dez
construída ao longo da segunda metade do século XX, e está anos. Cosme, com uma menina de cinco. Os dois têm guarda
diretamente ligada ao conceito que se tem de “felicidade”. compartilhada, em alternância de dias. Nas segundas e quar-
Fundadora do atendimento infantil no Serviço de Psicologia tas-feiras, as duas crianças estão na casa deles. O fim de se-
Aplicada da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Ja- mana é intercalado. “Há o fim de semana de sucrilhos e io-
neiro), a psicóloga Lulli Milman vê, no crescimento dos di- gurte, com as crianças, e outro de queijos e vinhos. Temos
vórcios e na consequente elevação das famílias recompostas o nosso tempo e o tempo das crianças”, diz Corrêa, que foi
um sinal de que o matrimônio e a vida conjugal passaram a casado outras duas vezes. Hoje, as duas crianças, de relacio-
atender mais a objetivos pessoais que a formalidades. “Ser namentos passados de Carla e Corrêa, se tratam qual irmãos.
feliz é algo relativamente novo. Antes, vivia-se para viver, A família planeja uma viagem para a Disney no ano que
para honrar o rei, a família. A mudança radical sobre isso, vem. Os pais programam o casamento no papel. O psicólo-
na história, veio com a Revolução Francesa. Nos anos 1950, go Fernando dos Santos Baltazar, de 39 anos, compõe esse
o casamento eterno era o ideal de felicidade. Hoje, ser feliz novo conjunto de famílias. Ele se casou aos 20 anos com a
está ligado a satisfazer a si próprio”, diz Lulli. “A configura- primeira mulher, com quem teve três filhos. Depois de qua-
ção dos relacionamentos faz que se amplie o conceito de fa- se dez anos duma relação “e algumas experiências traumáti-
mília. Em tese, as crianças passam a ter mais gente cuidando cas”, veio a separação. Baltazar se manteve em São Paulo,
delas”, afirma Lulli. Quando observados apenas os estados ela se mudou com os filhos para Minas Gerais. Baltazar en-
conjugais – sem a formalização civil das uniões –, o aumen- trou na Justiça – e ainda briga – para ter o direito de visitá-
to do número de divorciados é ainda maior. Do Censo ante- -los. Dois anos depois do primeiro casamento, veio o mo-
rior para este, houve o acréscimo de 20% no porcentual de mento de recomeçar. Baltazar se casou de novo, com Luíza,
pessoas envolvidas em dissoluções conjugais, passando de que trazia na bagagem também uma união conjugal desfeita,
11,9% para 14,6% em 2010. “Nos dias atuais, a união entre além de dois filhos, hoje de 20 e 18 anos. “Sempre fiz ques-
as pessoas ocorre de forma mais frequente a partir de esco- tão de exercer meu papel de pai. Ajudei a cuidar dos meus
lhas afetivas”, ressalta o estudo. Daí a liberdade em deixar três filhos. Com enteados a relação precisa ser um pouco di-
um relacionamento infeliz. “A legislação facilitou muito o ferente. Situações que você poderia resolver com uma cha-
divórcio. Talvez houvesse, antes, muito casamento mantido mada de atenção mais forte têm de ser tratadas de forma di-
pelos filhos. Hoje em dia, com a efetiva participação pater- ferente”, recorda. Baltazar e a atual esposa engrossam o ín-
na, ficou mais fácil para o casal se separar, porque o pai e a dice de pessoas divorciadas que estão novamente numa uni-
mãe continuam a ter o contato com o filho”, diz o advogado ão conjugal: eles são 6,1% do total de brasileiros, único gru-
Sérgio Arthur Calmon, especializado em Direito de Família. po que registrou aumento (de 1,6 ponto porcentual) do Cen-
O que a legislação estabelecia como condição para dissolu- so de 2000 para 2010. “Isso reforça o aumento das uniões
ção dos casamentos era um misto de satisfação perante a so- reconstituídas no país e da disposição das pessoas em iniciar
ciedade e desvio das condutas aceitáveis a um casal – mais novas relações”, enfatiza o pesquisador do IBGE Leonardo
que a vontade de um ou ambos de não mais conviver como Queiroz Athias. Nesse mesmo período, o tipo de união que
casal. Para se separar, era preciso, até antes da mudança na mais cresceu foi a consensual – oficializada ou não em car-
legislação, ocorrida em 2010, imputar alguma conduta de- tório –, de 28,6% para 34,8%. Na análise do IBGE, esta é a
sonrosa ao outro. Algo como ter um amante, negligenciar o confirmação de uma mudança de valores culturais em todo
lar ou os filhos. “Há uma mudança grande tanto judicial co- o país, pois torna as uniões não formalizadas mais aceitas
mo nas relações. Em um mês, é possível se divorciar. Se an- pela sociedade.
tes era complicado, agora esse processo é tão rápido que tor-
na mais descartáveis as uniões formais”, afirma Calmon. O (Veja, “Brasil”, 17.10.2012)
casamento formal – seja civil, seja religioso – é uma decisão
econômica. E o Censo mostra como o índice de relações for- Estatuto das Famílias
mais cresce à medida que se eleva a renda do extrato estuda-
do: 48,9% das pessoas que ganham até meio salário mínimo Rodrigo da Cunha Pereira
vivem em união conjugal consensual, enquanto 64,2% do
grupo que ganha mais de cinco salários prefere se casar no A Câmara aprovou em dezembro um dos textos nor-
civil e no religioso. O crescimento no índice de pessoas que mativos mais avançados e modernos do mundo em matéria

9
de Direito de Família. De autoria do deputado Sérgio Barra- ni e David é parecida com a de centenas de casais homosse-
das (PT-BA), o projeto de lei conhecido como “Estatuto das xuais que tentam adotar filhos. Demora, e os processos cos-
Famílias” foi elaborado pelo IBDFAM (Instituto Brasileiro tumam ser mais complicados do que se fosse um casal hete-
de Direito de Família), após longas e democráticas discus- rossexual. Mas esse processo pode ficar ainda mais difícil.
sões entre seus quase 5000 sócios em todo o Brasil. Em sua Se o Projeto de Lei 6583/2013, de autoria do deputado An-
essência e “espírito”, imprime a ética da solidariedade, dig- derson Ferreira (PR), for aprovado, a família de Toni e Da-
nidade, responsabilidade e afetividade. O texto, aprovado vid corre o risco de não ser reconhecida como família pelo
em caráter terminativo na Comissão de Constituição e Justi- Estado. Significa que direitos qual herança, guarda compar-
ça, sob a relatoria do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), tilhada dos filhos no caso de separação do casal, plano de
apesar de ter sofrido várias alterações em seu percurso, mui- saúde corporativo e associação a clubes podem ser simples-
tas delas de conteúdo moral e religioso, traz em linguagem mente negados a eles. O texto, também chamado de “Estatu-
simples a tradução e a regulamentação das novas relações to da Família”, trata de políticas públicas efetivas voltadas,
familiares. Por “novas relações familiares” entendem-se as especialmente, à valorização da família. Mas define como
anunciadas na Constituição de 1988, que considera a famíli- entidade familiar apenas o “núcleo social formado a partir
a como um locus do afeto e da formação da pessoa humana da união entre um homem e uma mulher, por meio de casa-
para muito além de sua função institucional. A família foi, mento ou união estável ou ainda por comunidade formada
é e continuará sendo sempre a celula-mater da sociedade, por qualquer dos pais e seus descendentes”. Ou seja, exclui
em que se inicia a formação dos sujeitos e, portanto, em que por completo a possibilidade de união entre pessoas do mes-
nasce a pátria. Mas ela não é mais constituída somente pelos mo sexo perante a lei. Também propõe modificar o Estatuto
sagrados laços do matrimônio. Essa é apenas uma de suas da Criança e do Adolescente para exigir que as pessoas que
formas de constituição, embora seja paradigmática. O Esta- queiram adotar filhos sejam, necessariamente, casadas civil-
tuto quis dar proteção e direitos a todas as famílias, embora, mente ou que mantenham união estável. O que significa que
por razões religiosas, tenham sido excluídas as famílias ho- casais homossexuais não teriam o direito de adotar um filho,
moafetivas. É inacreditável como se invoca a lei de Deus e como fizeram, depois de anos de luta, Toni e David. “É uma
se cometem tantos pecados ao expropriar e excluir pessoas excrescência”, diz Reis, que também é ex-presidente e atual
do laço social. Lamentáveis, também, as informações equi- secretário de Educação, da Associação Brasileira de Lésbi-
vocadas veiculadas na imprensa sobre as amantes, que con- cas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e
tinuarão como sempre foram, mas não recebem amparo jurí- militante dos direitos gays. “É um projeto que não dá direi-
dico nesse Estatuto. O Estatuto das Famílias, que podería- tos, e sim os tira”. De acordo com Viviane Girardi, advoga-
mos chamar também de “Código das Famílias”, vai bastante da especialista em direito da família, a questão é mais séria.
além de enumerar e de proteger a família conjugal e a famí- Ela define a lei como inconstitucional. “A Constituição diz
lia parental. Ele estabelece regras e princípios processuais que todos são iguais perante a lei”, explica. “Se essa lei for
simplificados, adaptando-se a um Judiciário brasileiro qua- aprovada, deverá ocorrer um bombardeio de ações que vão
se caótico em razão do excessivo volume de processos. Por questionar a constitucionalidade dela”. No ano passado, foi
exemplo, a cobrança da pensão alimentícia fica mais sim- criada uma comissão especial para apreciar o texto do proje-
ples e ágil. Além de pedir a penhora dos bens ou a prisão do to de lei. Segundo a deputada Manuela D’Ávila (PCdoB do
devedor de alimentos, agora pode-se protestá-lo com as ins- RS), todos os 23 deputados membros da comissão são evan-
tituições de crédito, o que facilitará muito mais o recebi- gélicos, exceto ela e mais três deputados petistas. Ela tam-
mento da pensão. Mais que facilitar os procedimentos pro- bém compartilha da opinião de inconstitucionalidade. “Na
cessuais em geral, o Estatuto incentiva a conciliação e a me- nossa opinião, o Estatuto é inconstitucional”, disse. “E nos-
diação como eficazes técnicas de dirimir conflitos, desesti- sa proposta é de que ele seja simplesmente rejeitado [e não
mula a litigiosidade e imprime mais responsabilidades às modificado]”. Questionado sobre a constitucionalidade da
partes envolvidas em processo judicial. Em relação à filia- lei, o presidente da comissão, deputado Leonardo Picciani
ção houve também um grande ganho e avanço. Passou-se a (PMDB), desconversou. “Eu tenho evitado durante o pro-
admitir a “parentalidade socioafetiva”. Isso significa o reco- cesso manifestar a minha posição pessoal até o término do
nhecimento da paternidade e da maternidade como funções processo para que eu possa, com tranquilidade, conduzir a
exercidas. Essa nova categoria, que já vinha sendo reconhe- deliberação da matéria”, disse. “Eu não fiz uma análise a
cida pelos tribunais brasileiros, dá prioridade, cria laços e fundo da questão constitucional da matéria para te dizer so-
consequências jurídicas às pessoas ali envolvidas. Esse Es- bre esse ponto específico”, afirmou. Procurado, o autor do
tatuto, sobretudo, valoriza a família como a verdadeira fonte Estatuto da Família, deputado Anderson Ferreira (PR), não
do amor e da responsabilidade. É um presente da Câmara retornou à ligação da reportagem. A questão é polêmica. Em
dos Deputados a todos os brasileiros. fevereiro deste ano, o site da Câmara criou uma enquete per-
guntando: “Você concorda com a definição de família como
(Folha de S. Paulo, “Tendências e debates”, 14.02.2011) o núcleo formado a partir da união entre homem e mulher,
prevista no projeto que cria o Estatuto da Família?”. Mais
Brasil anda para trás com Estatuto da Família de 4,6 milhões de pessoas responderam, deixando essa co-
mo a enquete mais votada do site até agora. Das respostas,
Marina Rossi 49,98% eram “sim”, e 49,71%, “não”. Embora denote um
país dividido, o que não é surpresa, o resultado não interfere
O educador Toni Reis, de 50 anos, e seu marido Da- na aprovação ou não da PL, que está agendada para ser vota-
vid Harrad demoraram sete anos para adotar Alysson, hoje da pela comissão especial nesta quarta-feira. Porém, a reuni-
com 14 anos. “Foi um processo difícil”, disse Reis. “Tive- ão não ocorreu na data prevista. Tal pauta só deverá ser dis-
mos que recorrer ao Supremo Tribunal Federal”, diz. Hoje, cutida novamente no ano que vem, já que, devido ao recesso
a família é formada por mais dois filhos além de Alysson: parlamentar que se inicia na próxima segunda-feira, não há
Jéssica, de 11 anos, e Felipe, de nove anos. A história de To- mais tempo hábil para esse debate. De qualquer maneira, se

10
for aprovada em 2015, por uma nova comissão que deverá cuida de uma “grande” e de uma “pequena” família. Assim,
ser criada, entrará na fila de votação na Câmara. Em tempos por exemplo, o dever de alimentos se estende aos avós e as
de uma bancada cada vez mais conservadora, haveria, em proibições de casamento até o terceiro grau de parentesco.
tese, mais chances de ser aprovada. Em 2011, o Supremo
Tribunal Federal aprovou, por unanimidade, que as uniões A família na constituição: art. 226. Dignidade da pessoa
homoafetivas deveriam ter os mesmos direitos que uniões humana e direito de família: a família eudemonista.
heterossexuais. Desde então, casais homossexuais têm di-
reitos qual herança, benefícios da Previdência, inclusão co- Como interpretar o papel da família na constituição?
mo dependentes em plano de saúde e adoção, entre outros Vejamos os dispositivos: “Art. 226. A família, base da soci-
direitos. Na época, o relator Carlos Ayres Britto argumentou edade, tem especial proteção do Estado. § 1º. O casamento
que “a família é a base da sociedade, e não o casamento”. é civil e gratuita a celebração. § 2º. O casamento religioso
No ano passado, o Superior Tribunal de Justiça deu mais um tem efeito civil, nos termos da lei. § 3º. Para efeito da prote-
passo no avanço dos direitos homossexuais: aprovou a reso- ção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem
lução que obriga todos os cartórios do país a registrar o casa- e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar
mento civil e união estável entre pessoas do mesmo sexo. sua conversão em casamento. § 4º. Entende-se, também, co-
“[Se aprovada], a lei vai superar todo o avanço que a juris- mo entidade familiar à comunidade formada por qualquer
prudência fez até aqui”, diz a advogada Viviane Girardi. Pe- dos pais e seus descendentes. § 5º. Os direitos e deveres re-
la jurisprudência ou exemplos internacionais, a união entre ferentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo
pessoas do mesmo sexo já deveria ser uma questão superada homem e pela mulher. § 6º. O casamento civil pode ser dis-
no Brasil. “Existem, hoje, 36 países que reconhecem a união solvido por divórcio, depois de prévia separação judicial por
entre pessoas do mesmo sexo”, diz Toni Reis. Além disso, mais de um ano nos casos expressos em lei, ou comprovada
segundo autor alemão Petzold, há 196 tipos de família con- separação de fato por mais de dois anos. § 7º. Fundado nos
vivendo na sociedade ocidental. Segundo ele, esse número princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade
classifica variáveis como se os casais são casados legalmen- responsável, o planejamento familiar é livre decisão do ca-
te ou não, se têm filhos biológicos ou adotivos, se comparti- sal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais
lham renda etc. Quer dizer, a união homoafetiva deveria ser e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer
considerada apenas mais uma forma de constituir família, forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou priva-
como outra qualquer. Por isso, ainda que o Estatuto seja a- das. § 8º. O Estado assegurará a assistência à família na pes-
provado pela comissão, depois passe pela Câmara e pelo Se- soa de cada um dos que a integram, criando mecanismos pa-
nado e seja sancionado pela presidenta, ele será questiona- ra coibir a violência no âmbito de suas relações”. O art. 226,
do. “[Se a lei for aprovada], vai dar um bug jurídico no pa- § 8º, determina a proteção dos membros da família na pesso-
ís”, diz Toni Reis. “Há 70000 casais gays no Brasil. Desses, a dos seus membros. Quais as consequências da adoção des-
3721 se casaram só no ano passado. O que vamos fazer com sa visão?
todo esse pessoal que já tem direitos garantidos?”.
Caso: Supremo decide que concubina não tem direito a
(El País, “Brasil”, 17.12.2014) receber a metade da pensão da viúva

Natureza das relações familiares A pensão por morte do fiscal de rendas baiano Val-
demar do Amor Divino Santos deve ser concedida apenas
Para os autores de direito em geral, a Família se apre- para sua esposa – Railda Conceição Santos – e não pode ser
senta como construção social, mas não há investigação mais dividida entre a viúva e a mulher – Joana da Paixão Luz –
profunda sobre por meio de quais elementos essa construção com quem o homem manteve concubinato durante 37 anos.
se origina ou direciona. Por exemplo, vejamos o que diz A decisão foi proferida ontem (3) pela 1ª Turma do STF,
Maria Barenice Dias: “Mesmo sendo a vida aos pares um que deu provimento ao recurso extraordinário interposto na
fato natural, em que os indivíduos se unem por uma química pelo Estado da Bahia. O TJ baiano determinou o rateio da
biológica, a família é um agrupamento cultural. Preexiste ao pensão entre as duas mulheres, por considerar que “havia u-
Estado e está acima do Direito. A família é uma construção ma união estável de Valdemar com Joana, mesmo que para-
social organizada através de regras culturalmente elabora- lela com a de um casamento de papel passado entre Valde-
das que conformam modelos de comportamento. Dispõe de mar e Railda”. O julgado do tribunal estadual considerou
uma estrutura na qual cada um ocupa um lugar, possui uma que Joana e Santos tiveram uma união estável paralela ao
função. (...) É a preservação do lar no seu aspecto mais sig- casamento dele com Conceição. Com esta, ele teve 11 filhos
nificativo: afeto e respeito”. Essa referência, todavia, é com- e com Joana, nove. O relator da ação ministro Marco Auré-
pletamente insuficiente. Em verdade, a origem da família se lio, afirmou em seu voto que a Constituição Federal, no pa-
centra em outros aspectos, todos distintos do acima citado: rágrafo 3º do artigo 226, diz que a família é reconhecida co-
a proibição do incesto; a preservação da integridade da gens, mo a união estável entre homem e mulher, devendo a lei fa-
como consequência da proibição do incesto. cilitar sua conversão em casamento. Para o ministro, a união
entre Valdemar e Joana “não pode ser considerada estável”.
Fundamentos jurídicos das relações familiares O relator lembrou que o artigo 1727 do Código Civil prevê
que relações não eventuais entre o homem e a mulher – im-
Como visto acima, o pensamento civilista atual cen- pedidos de casar – constituem concubinato. Segundo o voto,
tra o afeto como sendo o elemento caracterizador das rela- “a relação entre Valdemar e Joana não se iguala à união es-
ções familiares. Mas será mesmo? Essa ideia poderia, por e- tável, e, pois, não está coberta pela garantia dada pela Cons-
xemplo, ser confrontada com a da responsabilidade social tituição Federal”. Os ministros Carlos Alberto Menezes Di-
especial como fundamento das citadas relações. Isso expli- reito, Cármen Lúcia Antunes Rocha e Ricardo Lewandows-
caria a visão interessante trazida por Schlüter: que o Direito ki acompanharam o relator. Este lembrou que o termo “con-

11
cubinato” – do latim, concubere, significa “compartilhar o vel”, compreendendo tal “esclarecimento” como peça cen-
leito.” Já união estável é “compartilhar a vida”, salientou o tral contra, segundo o texto, “a desconstrução do conceito
ministro. Para a ministra Cármen Lúcia, a Constituição se de família, aspecto que aflige as famílias e repercute nas di-
refere a um núcleo possível de união que possa se converter nâmicas psicossociais do indivíduo”. Se o problema é a des-
em casamento. “A segunda união desestabiliza a primeira”, construção do conceito de família, uma boa sugestão seria
salientou a ministra. O ministro Carlos Ayres Britto votou impedir as essas famílias de lerem Jacques Derrida, ao que
no sentido de manter a decisão do TJ da Bahia. Segundo seu parece, responsável – com as suas pretensamente perigosas
voto, “ao proteger a família, a maternidade e a infância, a propostas de desconstrução, pela aflição e sofrimento social
Constituição Federal, em diversos artigos, não faz distinção de que nossas uniões entre homens e mulheres seriam víti-
quanto a casais formais – que ele chamou de “papel passa- mas. Os que não estão dispostos a seguir tal via surreal de-
do” – e os casais impedidos de contrair matrimônio. Ele ne- veriam perguntar-se quem, afinal, deu ao Estado a prerroga-
gou provimento ao recurso do estado baiano, por entender tiva de decidir o que é uma família e como ela deve ser com-
que “as duas mulheres tiveram a mesma perda, e estariam posta. De onde saiu a ideia de que o Estado deve decidir
sofrendo as mesmas consequências sentimentais e financei- qual relacionamento afetivo está apto a ser visto como famí-
ras”. O procurador do Estado Antonio Ernesto Leite Rodri- lia e qual não está? Há de se insistir que essa não é uma atri-
gues foi o subscritor do recurso extraordinário do estado da buição do Estado. A ele cabe, simplesmente, reconhecer a
Bahia. Você é favorável ao reconhecimento da simultanei- multiplicidade de formas de vínculos afetivos que a socieda-
dade de relações familiares? Quais os valores constitucio- de produz, respeitando a todos eles. Ele não legisla, mas ins-
nais implicados? O conceito de “família” utilizado faz dife- creve simbolicamente e reconhece o que a sociedade pro-
rença? duz. Nesse sentido, precisamos não de mais leis, mas de me-
nos. Quanto mais desregulados forem os aparatos que visam
(NEVES, Gustavo Kloh Müller. “O que é família?”. In: definir a produção afetiva dos sujeitos, menos teremos o ris-
_______. Direito de família. Rio de Janeiro: Fundação Ge- co de acordar com alguém travestido de legislador moral a
túlio Vargas, 2011, p. 5-7) definir como deve ser nossa vida. Faz-se necessário insistir
nesse ponto, pois caminhamos para uma situação singular,
Constituição Federal na qual a vida social dos cidadãos brasileiros tende a ser al-
tamente regulada (por meio de leis que visam restringir a
Capítulo VII configuração da família, do casamento, das identidades de
Da família, da criança, do adolescente, gênero etc.), enquanto sua vida econômica será brutalmente
do jovem e do idoso desregulada e submetida a uma zona onde irá imperar a von-
tade do mais forte. Em suma, enquanto a bancada evangéli-
Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial ca quer decidir por você como devem ser as famílias, seu
proteção do Estado. § 1º. O casamento é civil e gratuita a emprego será destruído por uma lei que visa a acabar com o
celebração. § 2º. O casamento religioso tem efeito civil, nos que entendemos por “emprego formal”, isto é, mínimas ga-
termos da lei. § 3º. Para efeito da proteção do Estado, é reco- rantias trabalhistas de estabilidade. Melhor seria se tivésse-
nhecida a união estável entre o homem e a mulher como en- mos o inverso: forte regulação econômica e baixa regulação
tidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em ca- biopolítica.
samento. § 4º. Entende-se, também, como entidade familiar
a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descen- (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 21.04.2015)
dentes. § 5º. Os direitos e deveres referentes à sociedade
conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mu-
lher. § 6º. O casamento civil pode ser dissolvido pelo divór-
cio. § 7º. Fundado nos princípios da dignidade da pessoa hu-
mana e da paternidade responsável, o planejamento familiar
é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar re-
cursos educacionais e científicos para o exercício desse di-
reito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de institui-
ções oficiais ou privadas. § 8º. O Estado assegurará a assis-
tência à família na pessoa de cada um dos que a integram,
criando mecanismos para coibir a violência no âmbito das
suas relações.

(CASA CIVIL. Constituição Federal de 1988)

A família do Estado
Estatuto da Criança e do Adolescente
Vladimir Safatle
Seção II
Uma das maiores aberrações que tramitam em um Da família natural
Congresso Nacional pleno de propostas aberrantes é o cha-
mado “Estatuto da Família” (PL 6583/2013). O projeto de Art. 25. Entende-se por família natural a comunidade
lei decide, de forma normativa, o que deve ser o conceito de formada pelos pais ou qualquer deles e seus descendentes.
“família” por meio de uma imposição do Estado. Sua pro- Parágrafo único. Entende-se por família extensa ou amplia-
posta restringe a noção de “família” à “união entre um ho- da aquela que se estende para além da unidade pais e filhos
mem e uma mulher, por meio do casamento ou união está- ou da unidade do casal, formada por parentes próximos com

12
os quais a criança ou adolescente convive e mantém víncu- bem e fielmente desempenhar esse encargo, mediante termo
los de afinidade e afetividade. Art. 26. Os filhos havidos fo- nos autos.
ra do casamento poderão ser reconhecidos pelos pais, con-
junta ou separadamente, no próprio termo de nascimento, (CASA CIVIL. Estatuto da Criança e do Adolescente)
por testamento, mediante escritura ou outro documento pú-
blico, qualquer que seja a origem da filiação. Parágrafo úni- O Estatuto da Família vai assegurar direitos
co. O reconhecimento pode preceder o nascimento do filho
ou suceder-lhe ao falecimento, se deixar descendentes. Art. Anderson Ferreira
27. O reconhecimento do estado de filiação é direito perso-
nalíssimo, indisponível e imprescritível, podendo ser exer- O Projeto de Lei 6583, que institui o Estatuto da Fa-
citado contra os pais ou seus herdeiros, sem qualquer restri- mília, tramita na Câmara dos Deputados com um único ob-
ção, observado o segredo de Justiça. jetivo: garantir que o Estado ofereça políticas públicas que,
hoje, estão mais no papel do que na prática. O Estatuto asse-
Seção III gurará que a Constituição seja cumprida. O Artigo 226 da
Da família substituta Carta Magna estabelece que a família deve ser protegida
Subseção I por ser a base da sociedade e é dever do Estado cuidar dela.
Disposições gerais Os contrários ao projeto se concentram apenas no Artigo 2º.,
onde consta: “Define-se entidade familiar como núcleo so-
Art. 28. A colocação em família substituta far-se-á cial formado a partir da união entre um homem e uma mu-
mediante guarda, tutela ou adoção, independentemente da lher, por meio de casamento ou união estável, ou ainda por
situação jurídica da criança ou adolescente, nos termos des- comunidade formada por qualquer dos pais e seus descen-
ta Lei. § 1o. Sempre que possível, a criança ou o adolescente dentes”. Quem é contra, tenta confundir o cidadão. Afirma
será previamente ouvido por equipe interprofissional, res- que o projeto exclui pais e mães solteiros, separados ou viú-
peitado seu estágio de desenvolvimento e grau de compre- vos que criam seus filhos. Não é verdade. Os contrários afir-
ensão sobre as implicações da medida, e terá sua opinião de- mam se tratar de um projeto homofóbico. Consideram natu-
vidamente considerada. § 2o. Tratando-se de maior de doze rais os arranjos familiares baseados no afeto e no amor. De-
anos de idade, será necessário seu consentimento, colhido fendo o que está na Constituição e nela não consta a união
em audiência. § 3o. Na apreciação do pedido, levar-se-á em entre pessoas do mesmo sexo. Os críticos do projeto se equi-
conta o grau de parentesco e a relação de afinidade ou de a- vocam ao falar de adoção. Quem quiser, poderá acessar, na
fetividade, a fim de evitar ou minorar as consequências de- internet, e ler o que está escrito. Nenhum artigo trata de ado-
correntes da medida. § 4o. Os grupos de irmãos serão colo- ção “O projeto se propõe a assegurar o bem-estar das famíli-
cados sob adoção, tutela ou guarda da mesma família substi- as constituídas legalmente”. A adoção entra nesse contexto.
tuta, ressalvada a comprovada existência de risco de abuso A Justiça vem autorizando casais ho-moafetivos a adotar.
ou outra situação que justifique plenamente a excepcionali- Mas a Constituição não define isso como núcleo familiar.
dade de solução diversa, procurando-se, em qualquer caso, Sou contra. O arranjo familiar baseado no amor e no afeto é
evitar o rompimento definitivo dos vínculos fraternais. § 5o. algo novo em nossa sociedade, não é o padrão. Como estará
A colocação da criança ou adolescente em família substituta a cabeça desse filho adotado daqui a dez, quinze ou vinte a-
será precedida de sua preparação gradativa e acompanha- nos? Um estudo publicado em fevereiro no British Journal
mento posterior, realizados pela equipe interprofissional a of Education, Society and Behavioural Science, do sociólo-
serviço da Justiça da Infância e da Juventude, preferencial- go Donald Simmons, da Universidade Católica da América,
mente com o apoio dos técnicos responsáveis pela execução avaliou mais de 200 mil crianças, sendo 512 filhos adotivos
da política municipal de garantia do direito à convivência de casais homoafetivos. Apontou o seguinte: “Os filhos de
familiar. § 6o. Em se tratando de criança ou adolescente in- pais biológicos apresentam um quarto dos problemas emo-
dígena ou proveniente de comunidade remanescente de qui- cionais identificados entre as crianças criadas por pais do
lombo é ainda obrigatório: I – que sejam consideradas e res- mesmo sexo”. O estudo aponta que pesquisas positivas em
peitadas sua identidade social e cultural, os seus costumes e relação à adoção feita por casais homossexuais começam a
tradições, bem como suas instituições, desde que não sejam ser revistas, principalmente no que se refere ao desenvolvi-
incompatíveis com os direitos fundamentais reconhecidos mento das crianças ao longo do tempo. As famílias hoje es-
por esta Lei e pela Constituição Federal; II – que a coloca- tão à mercê da grave epidemia das drogas e álcool, da vio-
ção familiar ocorra prioritariamente no seio de sua comuni- lência doméstica, da falta de saúde e educação, da gravidez
dade ou junto a membros da mesma etnia; III – a interven- na adolescência. A vulnerabilidade da maioria das famílias
ção e oitiva de representantes do órgão federal responsável brasileiras também está clara no âmbito judicial. É fato que
pela política indigenista, no caso de crianças e adolescentes as classes sociais menos favorecidas são as que mais sofrem
indígenas, e de antropólogos, perante a equipe interprofis- com a conhecida lentidão do Poder Judiciário. Sem dinheiro
sional ou multidisciplinar que irá acompanhar o caso. Art. para pagar bons advogados, os processos se arrastam por a-
29. Não se deferirá colocação em família substituta a pessoa nos. O Estado tem de exercer o papel de protetor. Por isso,
que revele, por qualquer modo, incompatibilidade com a na- tem de fazer as exigências. Em todos os seus 16 artigos, o
tureza da medida ou não ofereça ambiente familiar adequa- projeto estabelece parâmetros a serem seguidos, com o ob-
do. Art. 30. A colocação em família substituta não admitirá jetivo de garantir todas as condições das que a sociedade
transferência da criança ou adolescente a terceiros ou a enti- precisa para ter uma vida melhor. É preciso enfrentar as situ-
dades governamentais ou não governamentais, sem autori- ações complexas às quais as famílias são submetidas no
zação judicial. Art. 31. A colocação em uma família substi- mundo contemporâneo. Uma imensa parcela da sociedade
tuta estrangeira constitui medida excepcional, somente ad- brasileira é conservadora. O retrato disso está no Congresso.
missível na modalidade de adoção. Art. 32. Ao assumir uma O atual Parlamento passou a ter uma bancada conservadora
guarda ou tutela, o responsável prestará o compromisso de maior. A polêmica enriquece esse debate. Não adianta partir

13
para agressões verbais, protestos em praça pública ou cultos mento dessa proposta na Câmara, será necessário mobilizar,
evangélicos, como foi visto recentemente. mais uma vez, o apoio da opinião pública para evitar sua a-
provação. A Constituição já foi interpretada por quem tem
(Época, “Vida”, 09.03.2015) essa responsabilidade: o STF. A decisão histórica da Supre-
ma Corte não se embasou em uma lei que permita o casa-
mento civil homoafetivo, pois essa lei nunca existiu, nem
precisaria existir. Mais ainda: a decisão do STF mostrou que
nenhuma lei que busque suprimir os direitos das pessoas ho-
moafetivas encontrará guarida naquela Corte. O Judiciário
não modificou o conceito de família, incluindo a homoafeti-
va, por um ato unilateral. Isso foi feito porque esse tipo de
família já tem reconhecimento e espaço de convivência na
sociedade brasileira. A leitura do parecer mostra que o rela-
tor do projeto na Câmara o escreveu com as tintas do ódio
homofóbico. Tentou dar foros de constitucionalidade a algo
inconstitucional e atentatório ao sistema legal. É inadmissí-
vel um relatório que afaste os conceitos de “família” e “afe-
to”. O relator tenta justificar o seu preconceito ao sustentar
que: é preferível deixar crianças em abrigos a autorizar sua
adoção pelas famílias homoafetivas; famílias homoafetivas
causam prejuízo ao erário; e afetividade é um tipo de egoís-
mo. O relator buscou levar insegurança jurídica às famílias
homoafetivas, a fim de alimentar um projeto de poder que
pressupõe a hierarquização dos seres humanos e o rompi-
mento da laicidade do Estado. A realidade social brasileira
mudou muito nas últimas décadas. Hoje, pessoas com orien-
tações sexuais das mais diversas não vivem mais nas som-
bras. Atualmente, o conceito de “família” vai muito além do
núcleo homem-mulher-descendentes. Uma parte das crian-
ças convive com ex-cônjuges da mãe ou do pai, tem irmãos
unilaterais, é criada por avós ou tios. O Direito de Família
está em transformação e compete ao legislador reconhecer
mudanças. Quando o legislador se omite, os tribunais ape-
nas reconhecem em suas decisões o que a sociedade já reco-
nheceu. É preciso aprender a conviver na diversidade e no
respeito ao Estado Democrático de Direito. Ao pretender
excluir os inúmeros outros arranjos familiares – pelo menos
11 –, a proposta de “Estatuto da Família” os joga na doída
vala da discriminação. Em uma sociedade heteronormativa
e com tantas marcas homofóbicas, propostas como essa sig-
nificam um escárnio, um acinte, um desdém à dor das víti-
mas da discriminação, à própria democracia e ao avanço ao
direito de ser, de amar e de viver a nossa humanidade de for-
O Estatuto da Família conservador é um atentado ma integral e universal. São proposições que esbofeteiam a
à dignidade e aos direitos humanos democracia e pisoteiam a Constituição. Um retrocesso ina-
ceitável!
Erika Kokay
(Época, “Vida”, 09.03.2015)
A proposta do “Estatuto da Família” (PL 6583/2013)
é uma tentativa de negar a decisão do Supremo Tribunal Fe-
deral (STF) de reconhecer o casamento civil homoafetivo.
O projeto considera família apenas “o núcleo social forma-
do a partir da união entre um homem e uma mulher por meio
de casamento ou união estável, ou ainda formado por qual-
quer dos pais e seus descendentes”. O relator do projeto pre-
tende perenizar essa concepção como modelo único e levá-
-la às escolas. O projeto não apenas nega a diversidade dos
vários arranjos familiares presentes na sociedade, como pro-
põe a criação de um conselho que, por admitir apenas um ti-
po de família, aproxima-se de uma concepção fascista. Em
2014, ao ter pedido vista, seguida por outros parlamentares,
evitei que o parecer fosse aprovado na última reunião da Co-
missão Especial que examinava o tema. Com o desarquiva-

14
15