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cidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o


esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo
que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase
uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já
vir assinalado com o carimbo de “perdedor”. Bacana é o ca-
ra que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” no vestibular de Medicina. Aquele “atesta” a excelência dos
Turma: 3ª. Série do Ensino Médio genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar
Tema redacional 10: Sobre o ensino (in)tempestivo quanto no país. Da mesma forma que, supostamente, seria possível
às valorações ético-sociais desde a puerícia até a adultícia. construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos
fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as do-
Meu filho, você não merece nada res inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo
em muitos jovens, uma espécie de “traição” ao futuro o qual
Eliane Brum deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela
crença de que felicidade é um direito, e frustração, um fra-
Ao conviver com os bem mais jovens, com os que se casso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a gera-
tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando ção do “eu mereço”. Basta andar por este mundo para teste-
para virar gente grande, percebo que estamos diante da gera- munhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao desco-
ção mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais desprepa- brir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido.
rada. Preparada do ponto de vista das habilidades; desprepa- Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é
rada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada por- que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilida-
que é capaz de usar as ferramentas da tecnologia; desprepa- des e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar
rada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é tam-
o mundo em viagens protegidas; despreparada porque des- bém ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais bri-
conhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso so- lhante que seja, consegue tudo o que quer. A questão, como
fre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu poderia formular o “filósofo” Garrincha, é: “Estes pais e es-
com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a tes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no pas-
partir da dor. Há uma geração de classe média que estudou sar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído so-
em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o bre fumaça desaparece, deixando nenhum chão. Ninguém
exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria
que teve muito mais que seus pais. Ao mesmo tempo, cres- crescer – esse momento é apenas quando a condição huma-
ceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou de que já nascem na, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com
prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a geni- os muros da realidade. Desde sempre, sofremos. E mais va-
alidade desses petizes. Tenho me deparado com jovens que mos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da
esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de su- tristeza e da confusão. Parece-me que é isso que tem aconte-
as casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe compla- cido em muitas famílias: se a felicidade é um imperativo –
cente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que me- item principal do pacote completo que os pais supostamente
recem seja lá o que queiram. E, quando isso não acontece – teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem-
porque, obviamente, não acontece – sentem-se traídos, re- -sucedidos –, como falar de dor, de medo e da sensação de
voltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste. se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja
Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e ado- da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de
lescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase na- seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento
da de relevante, desconhecem que a vida é construção – e, da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da
para conquistar-se um espaço no mundo, é preciso “ralar” felicidade e da completude. Quando o que não pode ser dito
muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, por-
gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívo-
que anuncia a eles uma nova não muito animadora: viver é cos –, o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medi-
para os insistentes. Por que boa parte dessa nova geração é camentos, e, cada vez mais cedo, o desconforto de crianças
assim? Penso que este é um questionamento importante para que não se comportam segundo o “manual”. Assim, a famí-
quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. lia pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de
Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicida- verdade para ninguém dentro de casa. Se os filhos têm o di-
de é uma espécie de “direito”. Tenho testemunhado a angús- reito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais
tia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. caberia garantir esse direito –, que tipo de relação pais e fi-
Pais que fazem “malabarismos” para dar tudo aos filhos e lhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo
proteger a estes dos “perrengues” – sem esperar alguma res- genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previa-
ponsabilização nem reciprocidade. É como se os filhos nas- mente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilu-
cessem e, imediatamente, os pais já se tornassem devedores. são, só é possível fingir. Aos filhos cabe fingir felicidade –
Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de
Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante tudo, sobretudo coisas materiais, já que estas são as mais fá-
que os filhos compreendam como parte do processo educati- ceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade
vo duas premissas básicas do viver: a frustração e o esforço? de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma
Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pe-
Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com los objetos de consumo que a novela familiar tem se desen-
os limites tanto de sua condição humana como de suas capa- rolado, em que pais fazem de conta que dão o que ninguém

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pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou
buscar. Logo, é-se preciso criar nova demanda para manter “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque
o jogo funcionando. O resultado disso é pais e filhos angus- fingir que “está tudo bem” e que “tudo pode” significa dizer
tiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhe- ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que
cem. Assim, estão perdendo uma grande chance. Todos so- o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria
frem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais da existência. É tão ruim quanto ligar a televisão em volume
sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbri-
se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais o doméstico possa ser dito. Agora, se os pais mentiram que
rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela felicidade é um direito e seu filho merece tudo, simplesmen-
que paralisa. Quando converso com esses jovens no para- te, por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar
peito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e ris- ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espa-
cos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de ço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter
realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a nar- a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu de-
rativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é com- sejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não
plicado porque você vai ter competidores com habilidades culpar ninguém porque, eventualmente não deu certo, por-
iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que que, com certeza, vai dar errado muitas vezes. Ou transferir
se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilha- para o outro a responsabilidade pela sua desistência. Crescer
do de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna me-
com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas nor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é me-
é nesse movimento que a gente vira gente grande. Seria mui- lhor não perder tempo se sentindo injustiçado, pois, um dia,
to bacana que pais de hoje entendessem que tão importante ela acaba.
quanto boa escola, curso de línguas ou IPad, é dizer de vez
em quando: “Se vira, meu filho; você sempre poderá contar (Época, “Eliane Brum”, 11.07.2011)
comigo, mas essa briga é sua”. Assim como sentar para jan-
tar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou

Conflito de gerações ter as informações de que precisa para ser uma mãe melhor?
Apenas 4% delas! Por que será? Eu tenho duas hipóteses. A
Rosely Sayão primeira é que o conflito de gerações subiu um degrau: se
antes estava localizado entre os adolescentes e os adultos,
Em uma pesquisa sobre a percepção da sociedade so- hoje ele foi parar na relação dos adultos com os mais velhos.
bre a primeira infância, realizada por iniciativa da Fundação Pode observar: muitos pais de adolescentes não querem sa-
Maria Cecília Souto Vidigal, respostas a duas questões me ber de conflitos com os filhos porque se sentem e se com-
chamaram a atenção. A primeira investigou o que a popula- portam de maneira tão jovem quanto eles. Há pais que aju-
ção, de modo geral, considera importante para o desenvolvi- dam os filhos a falsificar documentos para frequentar locais
mento da criança de zero a três anos; a segunda buscou saber proibidos para menores de 18 anos, frequentam as mesmas
– da mãe – a quem ela recorre para obter as informações que baladas que os filhos, dão festas em casa – e participam de-
considera necessárias para cuidar bem de seu filho com até las – regadas a bebidas alcoólicas para os filhos e seus cole-
três anos e com quem ela esclarece as dúvidas que surgem gas, se vestem do mesmo modo e não negam muitos dos pe-
na lida com a criança. Em tempos de medicalização da vida, didos que recebem para não parecerem “caretas”. Minha se-
em que usamos lógica médica para atender e entender ques- gunda hipótese é a de que a geração de adultos que hoje tem
tões das mais diversas ordens que as crianças – e não apenas filhos (crianças ou adolescentes) recusa, às vezes agressiva-
elas – nos apresentam, não é difícil imaginar que, para am- mente, toda a experiência de seus ascendentes. É como se
bas as perguntas, tanto a população quanto as mães prioriza- seus pais nada soubessem a respeito de como cuidar e edu-
ram a especialidade médica. Para a primeira pergunta, levar car os mais novos, ou se o conhecimento que têm, acumula-
a criança regularmente ao pediatra e dar vacinas necessárias do durante a vida, para nada mais servisse. Isso tem conse-
foi o item considerado mais importante para o desenvolvi- quências bem mais sérias do que os jovens pais imaginam.
mento da criança por 51% da população. Quanto à segunda Primeiramente, porque, ao recusar a ajuda de seus pais e so-
pergunta, 71% das mães recorrem ao pediatra quando têm gros, eles ensinam aos próprios filhos a fazer a mesma coisa.
qualquer tipo de dúvida em relação ao filho, mesmo que ela Como uma criança ou jovem vai confiar em seus pais, se es-
não tenha relação alguma com o aparato neuroanatomofisi- tes não confiam nos deles? Negar aos avós de seus filhos a
ológico. Sabe, caro leitor, qual a porcentagem de mães que possibilidade de interferir nos cuidados e na educação de
procura parentes e família para esclarecer suas dúvidas e ob- seus netos é um ato quase suicida: é mostrar aos filhos que

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os pais não têm condições de interferir nas vidas filiais. Já final do processo ficam com a mãe, a empregada ou outra
sabemos que “o mundo é dos jovens” e que juventude não pessoa. Quem tem filhos ouve com frequência a frase “Mãe,
se trata mais de idade, e sim de estilo de vida. É por isso que me traz a toalha?”, separa as roupas que o filho usará depois
crianças e velhos são os excluídos. Portanto, nada faz mais do banho, coloca a toalha para secar e as roupas sujas em
sentido do que uma iniciativa que acontece na cidade de Se- seu devido lugar e... Estamos criando uma geração que não
attle, nos EUA: creche e asilo de idosos no mesmo local. se dá conta de que precisa assumir o processo como um to-
do, ou que toma a parte pelo todo. Volto ao exemplo da a-
(Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 23.06.2015) genda, porque quase todos nós a usamos. De que adianta a-
notar compromissos se não os verificamos depois? De nada,
não é? Pois assim tem sido com os mais novos. E esse estilo
de tomar a parte pelo todo não está circunscrito às responsa-
bilidades: está em tudo, inclusive no lazer e na diversão. Ir
a uma festa de aniversário para eles significa apenas e exata-
mente ir à festa. Providenciar presentes – quando for o caso
–, pagar por eles, pensar na roupa que irá ser usada, no meio
de transporte etc.? São tarefas da mãe, é claro! Mesmo aos
16, 17 anos. Já ouvi muita reclamação de empresários, dire-
tores e gerentes sobre funcionários mais jovens que deixam
de cumprir muitas das responsabilidades exatamente por is-
to: falta de clareza pessoal do processo ao qual seu trabalho
está integrado. Em geral cumprem o que acham que lhes ca-
be – o equivalente a tomar banho, ir à festa etc.– e dão sua
tarefa por terminada. Você percebe, leitor, a relação entre
os exemplos citados e o comportamento no trabalho? Somos
nós que temos ensinado isso a eles, desde muito cedo. Pode-
mos e devemos ensinar-lhes de modo diferente.

(Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 18.08.2015)

Um menino que desobedece

Contardo Calligaris

Lição incompleta Um casal de amigos, que eu não via havia anos, fez
questão de que eu me encontrasse com o filho deles, que co-
Rosely Sayão nheci quando ele era criança e, agora, é um adolescente um
pouco caricatural. Ricky se opõe a quase tudo, direta ou in-
Visitei uma amiga que estava com a neta de nove a- diretamente. Combinam que ele deverá voltar às 23h? Ricky
nos e que recebera da filha, mãe da menina, a incumbência volta de madrugada. Perguntam se ele fez as lições de casa?
de orientar a garota para que ela fizesse todas as tarefas e os Ricky mente que “sim”. Nada dramático, porém a lista das
estudos escolares do dia seguinte durante o período em que queixas é infinita: qualquer ocasião é boa para Ricky com-
ficaria na casa da avó. Solicitada a colaborar, sentei com a prar uma briga com os pais. Será que a desobediência siste-
garota para ajudá-la a se organizar nos estudos. Perguntei o mática de Ricky é um transtorno? Os pais são tentados por
que ela tinha de fazer, e a resposta foi: “Ah, não sei; está tu- essa ideia, mas fogem dela. Afinal, eles mesmos valorizam
do na agenda. Pode ver lá”. Pedi para que ela fizesse isso e a desobediência do filho: o que mais querem é que Ricky se
soube, então, que ela nunca via a agenda, porque era a mãe torne autônomo um dia, e não há como ser autônomo sem
que olhava e dizia a ela o que fazer. “Para que serve sua a- ser rebelde, não é? Argumento final: se eles mesmos não
genda escolar?”, perguntei. “Para minha mãe saber o que eu soubessem desobedecer, se não gostassem de dizer “não”,
preciso fazer, para ela escrever e ler os recados da escola e nunca teriam sido militantes, ativistas, aventureiros. Em su-
para ela saber quando tenho provas. E para eu copiar o que ma, os pais se perguntam se Ricky precisa de uma terapia,
a professora manda”. Muitas escolas usam a agenda com a mas a própria ideia de “curar” a desobediência de Ricky lhes
finalidade de informar aos pais sobre o andamento da vida parece coisa de regime totalitário em que opositor seria con-
escolar do filho, para que eles se responsabilizem por ela. O siderado “doente mental”. Tenho duas perguntas: será que a
problema é que alunos, independentemente da idade, pouco liberdade precisa ser a liberdade de desobedecer? Ou será
se importam com a agenda, já que logo percebem que ela é que, às vezes, a necessidade de desobedecer pode ser uma
um elo de comunicação entre a escola e a sua família. O uso forma de servidão? Ricky parece tão preocupado em afirmar
– ou o não uso – da agenda pelos estudantes é apenas um e- abstratamente sua desobediência que não sei se lhe sobra o
xemplo de como as escolas e as famílias não têm percebido tempo para fazer algo interessante com a liberdade que, su-
a lição que têm deixado de ensinar aos mais novos, relacio- postamente, ele conquistou. Explico. É normal que alguém
nada ao entendimento do que vem a ser um processo. Pense desobedeça quando quer tomar um caminho que lhe está
em uma criança ou em um adolescente que você conheça, sendo barrado. Mas é curioso que alguém deixe de fazer o
caro leitor, em uma situação bem corriqueira: tomar banho. que gosta só para poder desobedecer. Por exemplo, Ricky
Você acha que eles sabem que tomar banho é um processo quer passar o dia na pista de skate, a mãe pede que ele use
que tem um começo, um meio e um fim? Não! A maioria gorro (olhe bem: não capacete, que poderia parecer infantil
pensa que tomar banho é o ato de tomar banho. O início e o – só gorro), Ricky prefere não usar gorro para passar o dia

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como ele quer. A desobediência é um transtorno quando de- -saídos da Segunda Guerra e da luta antifascista) não se irri-
sobedecer se torna mais importante do que o próprio com- tavam nem se indignavam facilmente. Para contrariar, real-
portamento em nome do qual alguém desobedece. Ou seja, mente, nossos pais, seria preciso que a gente se declarasse
quando o que importa não é ir para a pista de skate, o que fascista nostálgico. E disso ninguém tinha a menor vontade.
importa é não usar o gorro e irritar a mãe. A neurose é isto: Segundo (e fato curioso), éramos todos, sem exceção, exce-
a obrigação irresistível de repetir experiências afetivas anti- lentes alunos. Todos passamos com médias acima de oito
gas e familiares. Isso, a qualquer custo – inclusive, renunci- no exame de maturidade clássica. Na universidade todos co-
ando ao que a gente deseja. Se fôssemos menos parasitados lecionávamos trinta cum laude nos exames que prestamos
por essas obrigações afetivas, seríamos provavelmente mais antes que a instituição explodisse, em maio de 1968, e o trin-
inteligentes e mais eficientes – seríamos, certamente, mais ta se tornasse uma nota “política”, de praxe para qualquer a-
livres. Ricky, em suma, não desobedece porque é um espíri- luno. Ou seja, éramos rebeldes (nós teríamos preferido dizer
to livre; ao contrário, ele perde a liberdade de passar o dia “revolucionários”, obviamente) a ponto de encarar a polícia
na pista de skate para servir a obrigação de contrariar a mãe. e a direita nas ruas; também éramos rebeldes nas nossas es-
Penso no grupinho de meus amigos mais próximos nos anos colhas concretas de vida (sexo, drogas e rock and roll). Mas
1960 – no fim do secundário e na faculdade. Tínhamos idei- não éramos rebeldes abstratos. Não éramos insubordinados.
as políticas divergentes: havia um ou dois trotskistas, alguns Simplesmente, tínhamos mais o que fazer na vida do que
comunistas do Partido Comunista ou do Manifesto, e havia brigar com nossos pais (ou quem quer que fosse) por causa
militantes de Lotta Continua. Havia até stalinistas declara- de um ou outro gorro.
dos (hoje seria bizarro, mas, na época, não o era). Um pouco
mais tarde um casal anarquista se juntou à gente. Quase nin- (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 08.01.2015)
guém tinha ideias, esperanças e práticas políticas parecidas
com as de seus pais. Mas não havia como pensar que a gente
militasse e manifestasse com o propósito de indignar nossos
pais. Isso, por duas razões. Primeiro, os pais (todos recém-

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