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tsman em sua coluna.

Um castigo administrado dez, quinze


anos depois de um crime do qual ninguém mais se recorda
tem impacto zero na redução da criminalidade, como de-
monstram inúmeros estudos. Nos estados americanos que a-
boliram a pena capital, os índices de criminalidade não au-
mentaram; naqueles que ainda a mantém, eles não são mais
Disciplina: “Técnicas de Redação e Interpretação” baixos. Agora, analisemos o caso do Brasil. Com um Judici-
Turma: 3ª. Série do Ensino Médio ário desigual e moroso como o nosso, quanto tempo levaria
Responsável: Prof. Adriano Tarra Betassa Tovani Cardeal para que todos os prazos e recursos processuais fossem es-
Tema redacional 17: Pena de morte em território brasílico: gotados? Num país com enorme dificuldade para prender os
caso essa práxis fosse aplicada amplamente, haveria regres- que assaltam os cofres públicos, seria fácil condenar à morte
so ou progresso quanto à violência advinda de criminosos? uma pessoa influente, por mais hediondo que fosse o crime?
O assaltante da periferia que praticasse um latrocínio teria
Pena de morte acesso a advogados com o mesmo preparo técnico do que o
assassino impiedoso bem-nascido? Não é preciso ser cate-
Drauzio Varella drático de Direito Penal para imaginar que o desenlace fatal
levaria muitos anos para ocorrer. Escapariam dele os que ti-
Não me sai da cabeça a imagem dos iranianos enfor- vessem dinheiro para contratar bons criminalistas, capazes
cados em guindastes, que a Folha publicou na primeira pá- de engendrar manobras jurídicas que tornariam os processos
gina duas semanas atrás. Tenho certeza de que, se houvesse intermináveis. Os rigores da lei cairiam exclusivamente so-
um plebiscito, a pena de morte seria implantada também no bre os mais pobres. Não era dessa forma no passado, e não
Brasil. Para a maioria dos eleitores, bandido que tira a vida é assim hoje? Quem tem dinheiro por acaso chega a cumprir
de um ser humano merece o mesmo destino da vítima, sem em regime fechado o número de anos a que foi condenado?
qualquer comiseração. Os mais radicais incluem nessa cate- Em vinte e três anos frequentando cadeias, nunca vi isso.
goria os traficantes e os que assaltam à mão armada. A “lei
do olho por olho” é a saída mágica que a população encontra (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 14.07.2012)
para acabar com a violência que nos assusta nas ruas e nos
aprisiona dentro de casa. É justo manter a sociedade refém Fóssil jurídico
de uma minoria? Para que os cidadãos ordeiros possam vi-
ver em paz, não seria mais fácil eliminar, fisicamente, esses Hélio Schwartsman
poucos que nos infernizam? A morte deles não serviria de
exemplo para os que estão em início de carreira? De fato, há Não sou de dar razão aos iranianos, mas, se um país
situações em que a pena de morte tem grande poder intimi- prevê a pena de morte em sua legislação e a aplica, execu-
datório, caso da execução de desertores em tempo de guerra, ções públicas são a consequência racional. Na verdade, as
do linchamento em pequenas comunidades ou dos assassi- autoridades de Teerã poderiam ser recriminadas por não
natos brutais que acontecem nas cadeias, condições extraju- televisionar em horário nobre os enforcamentos, tão horripi-
diciais em que o direito de defesa nem sequer entra em cogi- lantemente relatados por meu amigo Samy Adghirni na Fo-
tação. Nos três casos citados há um denominador comum: o lha de domingo. Se há uma posição que não faz sentido é a
curto intervalo de tempo existente entre a prática do ato ilí- dos EUA, de utilizar a sanção capital, mas aplicá-la quase
cito e a execução da sentença. O desertor enfrenta o pelotão envergonhadamente, mantendo-a tão asséptica quanto pos-
de fuzilamento assim que é localizado; o estuprador que ma- sível. Para entender melhor o que está em jogo, é preciso
ta a criança na cidadezinha é linchado na hora; o presidiário voltar às duas concepções básicas de “justiça”. A mais anti-
acusado de delatar um plano de fuga morre no mesmo dia. ga é a lei de talião, o “olho por olho, dente por dente” da
Para que a pena de morte tenha caráter educativo, há que ser Bíblia. Tecnicamente, leva o nome de “justiça retributiva”.
aplicada de imediato. Quanto mais tempo decorrer entre o Não difere muito da vingança. Aplica-se a pena porque o
crime cometido e a punição do criminoso, menos didática e réu a “merece”, noção que só faz sentido quando se dispõe
exemplar ela será. A urgência para levar a cabo a execução de Deus ou outra muleta metafísica que sustente uma ideia
sumária, por sua vez, tem um efeito colateral: é obrigatório de justiça perigosamente platônica. Esse conceito começou
fechar os olhos para injustiças eventuais, o que nesses casos a ser questionado no século XVIII por autores como Cesare
significa matar homens e mulheres inocentes. Como, nas so- Beccaria e Jeremy Bentham. A partir daí ganhou força a no-
ciedades civilizadas, a ideia de enforcar alguém é cada vez ção utilitarista de que a pena tem como objetivo não a puni-
menos popular, e a possibilidade de o Estado tirar a vida da ção pela punição, mas a manutenção da ordem. O criminoso
pessoa errada é inaceitável, a pena de morte perdeu adeptos até pode ser isolado da sociedade para não voltar a delinquir,
na maioria dos países. Os que ainda a defendem argumen- mas o propósito da sanção é desencorajar outras pessoas de
tam que bastaria garantir ao acusado amplo direito de defe- imitá-lo. Daí a necessidade de processos públicos. O proble-
sa. É esse direito amplo o ponto crucial da questão, porque ma com a pena capital é que ela não passa de um “fóssil jurí-
são raros os réus-confessos, ainda que todas as evidências dico”. Pesquisas nessa área são um campo minado ideológi-
estejam contra eles. Para assegurar-lhes que não serão sen- co, mas os melhores trabalhos sugerem que seu valor dissu-
tenciados injustamente, é necessário dispor de tempo, teste- asório, se existe, é muito baixo. Quando se considera a pro-
munhas, acareações, advogados de defesa, promotores e juí- babilidade de erros judiciais e irrevogabilidade da morte, o
zes, para não falar nos custos financeiros. Veja-se o caso dos menor lampejo de racionalidade recomenda aboli-la. Essa
norte-americanos, em que o condenado aguarda anos e anos seria proposta interessante de o Governo enviar ao Congres-
nos famigerados corredores da morte, até que, um dia, ve- so, já que, tecnicamente, a pena de morte existe no Brasil.
nham buscá-lo para a cerimônia fúnebre, realizada de forma
secreta e envergonhada, como bem lembrou Hélio Schwar- (Folha de S. Paulo, “Opinião”, 03.07.2012)

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os casos em que ela se justifica, como adultério e homicídio
premeditado. Sobre drogas, nada. O problema na Ásia vai
além dos países islâmicos. O Vietnã é comunista, e Cinga-
pura, ditadura capitalista. Ambos têm leis antidrogas tão du-
ras como as da Indonésia.
FOLHA: Se a democracia supõe prevalência da maioria,
não seria justo aceitar a pena capital na Indonésia, já que sua
população é a favor?
RAPHAËL: Quando usamos ferramentas de medida preci-
sas, percebemos que o apoio é menor do que se imagina. Em
muitos países, ninguém discute se as pessoas querem vin-
gança, reparação ou apenas evitar que crimes se reprodu-
zam. Em Belarus, único país europeu que ainda executa, di-
zia-se que 86% da população eram a favor. Mas, quando fi-
zemos perguntas abertas e mais complexas, percebemos que
a maioria aceitaria prisão perpétua ou moratória sobre pena
de morte. Existe a ideia de que americanos apoiam massiva-
mente a pena de morte, mas esse apoio não para de cair. Na
Califórnia, estado recordista em condenações, esse respaldo
caiu para cerca de 50%. Na França, François Mitterrand a-
boliu a pena de morte em 1981, quando 65% eram a favor
das execuções. Desde então, a criminalidade baixou.
Pena de morte não resolve, diz francês FOLHA: Qual relação entre pena de morte e criminalidade?
de ONG que milita contra a prática RAPHAËL: Os EUA são um bom exemplo de transparên-
cia em dados públicos. Nenhum dos estados americanos que
Samy Adghirni aboliram a pena de morte teve aumento significativo da cri-
minalidade. Entre 1973 e 1977, os EUA decretaram morató-
A pena capital é inútil no esforço para reduzir a cri- ria e deixaram de aplicar a pena. Nem assim houve explosão
minalidade, diz Raphaël Chenuil-Hazan, vice-presidente da do crime. Países europeus aboliram a pena de morte e não
Coalizão Mundial Contra a Pena de Morte, uma das maiores tiveram aumento da criminalidade. Onde houve aumento foi
plataformas globais de militância pela abolição da prática. por causa da maior circulação de armas. No Irã, onde a mai-
Em entrevista à Folha, por telefone, o francês Chenuil-Ha- or parte das execuções é por narcotráfico, a aplicação da pe-
zan, 39, afirma que o caso do brasileiro Marco Acher, exe- na aumenta sem parar, e o problema da droga também. Cadê
cutado na Indonésia, expõe a intransigência de governos a- a eficácia das execuções? No Iraque, há um salto nas execu-
siáticos em relação ao tema. Chenuil-Hazan sustenta que, a- ções de pessoas acusadas de ser da Al Qaeda, mas atentados
pesar da resistência de alguns setores, a prática da pena de continuam. Quanto mais se responde à violência com vio-
morte está em declínio. lência, mais essa violência se torna natural.
FOLHA: Qual a situação da pena de morte no mundo?
FOLHA: Como vê a execução de Marco Archer? RAPHAËL: Há 20 anos, dois terços dos países aplicavam
RAPHAËL CHENUIL-HAZAN: O caso expõe a situação pena de morte. Hoje, dois terços não aplicam. A cada ano,
na Ásia, onde a pena capital ainda é disseminada e governos um país deixa de executar pessoas, em média. Em 2014, foi
dificultam procedimentos diplomáticos e consulares de pra- Madagascar. Europa e América Latina estão perto de ser to-
xe. Dos seis executados, cinco são estrangeiros. A situação talmente abolicionistas. Quanto mais se avança, entretanto,
é ainda mais inadmissível porque autoridades anunciam ao mais difícil o caminho. Muitos dos países que ainda a apli-
brasileiro que ele vai morrer e como vai morrer, mas o dei- cam, como China, Arábia Saudita e Irã, não são democrá-
xam de molho na cadeia por doze anos. Isso é tortura psico- ticos. Mas também há democracias, como Japão e EUA. Es-
lógica. tou seguro de que a Suprema Corte americana irá vetar de
FOLHA: Por que a Indonésia condenou Acher à morte e vez execuções nos próximos anos, e o Texas será o último
deu prisão perpétua ao francês Michael Blanc, preso em estado a aplicá-las. O mundo percebe que a pena capital não
1999 com 4 kg de haxixe, e solto em 2014? resolve nada em lugar nenhum. Além disso, o tema está
RAPHAËL: Blanc foi solto, mas há outro francês condena- sempre atrelado à injustiça social. Em todos os países, os e-
do à morte no país. Depende da dose, do tipo de droga e da xecutados são quase sempre pobres e minorias étnicas e reli-
categoria do acusado: consumidor, carregador ou traficante. giosas. No Irã, curdos, árabes e balúchis. Nos EUA, um ne-
FOLHA: Convenções internacionais exigem a aplicação da gro que mata um branco tem cinco vezes mais chances de
pena só para “crimes mais graves”. O que isso significa? ser executado do que um branco que mata um negro.
RAPHAËL: É uma questão filosófica. Antigamente, muita FOLHA: Após os ataques em Paris, a extrema-direita fran-
gente não via o estupro como crime mais grave. Hoje, o es- cesa quer a volta da pena de morte. A causa abolicionista
tupro é aceito como tal na maior parte das sociedades. Não tem dias difíceis pelo endurecimento geral das ideias?
há definição para “crime grave”. No caso do brasileiro, a si- RAPHAËL: É uma reação epidérmica e irracional, até por-
tuação se complica pela questão religiosa. O islã é uma das que a França ratificou convenções internacionais e precisa-
cinco religiões oficiais da Indonésia, mas é amplamente ma- ria sair da União Europeia para voltar à pena capital. O cida-
joritário. E o islã se abre ao debate sobre pena de morte. O dão que pede vingança acaba se acalmando. Leis não podem
tema aparece no Corão uma única vez, e a escravidão, cen- ser ditadas pela fúria e pelo medo.
tenas. Mesmo assim, os países islâmicos aboliram a escravi-
dão, mas não a pena de morte. O Corão deixa claros quais (Folha de S. Paulo, “Cotidiano”, 17.01.2015)

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Êxodo rias. Hoje, na mira da arma policial está, em maioria, uma
população civil jovem, negra e sem antecedentes criminais.
1. Então falou Deus todas estas palavras, dizendo: O auto de resistência é um entulho da ditadura cuja motiva-
2. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, ção, de política, passou a ter viés social. Em abril de 2008,
da casa da servidão. 3. Não terás outros deuses diante de ao justificar o assassinato de nove pessoas pela Polícia Mili-
mim. 4. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma tar na favela de Vila Cruzeiro (Rio), o coronel Marcus Jar-
semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na dim assim expressou a filosofia que norteia esses assassina-
terra, nem nas águas debaixo da terra. 5. Não te encurvarás tos: “A PM é o melhor inseticida social”. A ideia que legiti-
a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou ma a ação de maus policiais é a de que pobreza, cor da pele
Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até e criminalidade são sinônimos. A sociedade incorporou es-
a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam. 6. E ses preconceitos, ou os preconceitos da sociedade contami-
faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que naram as polícias? O relatório “Segurança: tráfico e milícia
guardam os meus mandamentos. 7. Não tomarás o nome do no Rio de Janeiro” examinou 12560 autos de resistência na
Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por ino- década de 1990 e concluiu: todas as mortes em ações polici-
cente o que tomar o seu nome em vão. 8. Lembra-te do dia ais ocorreram nas favelas; 65% de assassinados levaram pe-
do sábado, para o santificar. 9. Seis dias trabalharás, e farás lo menos um tiro nas costas ou na cabeça, o que nos permite
toda a tua obra. 10. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor concluir que foram sumariamente executados. Esses mortos
teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, foram sentenciados num julgamento em que o policial é o
nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu juiz e o carrasco. De janeiro de 2010 a junho de 2012, 2882
animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas por- pessoas foram mortas pela polícia no Rio, Mato Grosso do
tas. 11. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o Sul, Santa Catarina e São Paulo, numa média de três por dia
mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto – no ano passado, chegou a cinco. Os Estados Unidos, no
abençoou o Senhor o dia do sábado, e o santificou. 12. Hon- mesmo período, tiveram 410 desses casos. Em Nova Iorque,
ra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias a polícia atirou em 24 pessoas e matou nove em 2011. Na-
na terra que o Senhor teu Deus te dá. 13. Não matarás. 14. quele ano, o Rio teve 283 mortos por policiais; em São Pau-
Não adulterarás. 15. Não furtarás. 16. Não dirás falso teste- lo, 242. Em 2012, eu e os deputados Fabio Trad (PMDB-
munho contra o teu próximo. 17. Não cobiçarás a casa do MS), Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) e Miro Teixeira
teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o (Pros-RJ) apresentamos à Câmara o projeto de lei 4471. Ele
seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu ju- acaba com o auto de resistência, obriga a preservação da ce-
mento, nem coisa alguma do teu próximo. 18. E todo o povo na do crime, a perícia imediata e a coleta de provas e define
viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o a abertura de inquérito. Fica vetado o transporte das vítimas
monte fumegando; e o povo, vendo isso, retirou-se e pôs-se em “confronto” com os agentes, que devem chamar socorro
de longe. 19. E disseram a Moisés: fala tu conosco, e ouvire- especializado. O estado de São Paulo, ano passado, tomou
mos: e não fale Deus conosco, para que não morramos. 20. medidas para coibir a violência policial, em resposta à ele-
E disse Moisés ao povo: não temais, Deus veio para vos vação constante de mortes em autos de resistência. Em 2012
provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de o estado registrou 546 mortos, contra 439 em 2011. Relató-
que não pequeis. 21. E o povo estava em pé de longe. Moi- rio da ONG “Human Right Watch” registrou que, em 2012,
sés, porém, se chegou à escuridão, onde Deus estava. 22. 95% das pessoas feridas em confronto e transportadas por
Então disse o Senhor a Moisés: assim dirás aos filhos de Is- policiais morreram no trajeto ou no hospital. No início de
rael: vós tendes visto que, dos céus, eu falei convosco. 23. 2013, o Governo proibiu o registro dos autos de resistência
Não fareis outros deuses comigo; deuses de prata ou deuses e impediu que os policiais socorressem as suas vítimas. Em
de ouro não fareis para vós. 24. Um altar de terra me farás, um ano, foi registrada queda de 39% dessas mortes no esta-
e sobre ele sacrificarás os teus holocaustos, e as tuas ofertas do e 47% na capital. A aprovação do projeto de lei estenderá
pacíficas, as tuas ovelhas, e as tuas vacas; em todo o lugar, as medidas tomadas por São Paulo ao país. Será um tiro de
onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e morte em um dos mais perversos entulhos que o país carrega
te abençoarei. 25. E se me fizeres um altar de pedras, não o da ditadura, a “licença para matar”.
farás de pedras lavradas; se sobre ele levantares o teu buril,
profaná-lo-ás. 26. Também não subirás ao meu altar por de- PAULO TEIXEIRA, 52, advogado, deputado federal pelo
graus, para que a tua nudez não seja descoberta diante deles. PT de São Paulo

(Bíblia Sagrada, “Êxodo”, 20:1-26) (Folha de S. Paulo, “Opinião”, 28.02.2014)

Fim à pena de morte “Não há pena de morte aqui, mas prisões criam
situações similares”, diz especialista
Paulo Teixeira
Ricardo Senra
A ditadura que sobreveio ao golpe de 1964 produziu
426 mortos e desaparecidos. A maior parte das mortes “ofi- Um em cada três presos brasileiros vive em cadeias
ciais” foi justificada por um artifício do regime militar: uma do estado de São Paulo, segundo o Ministério da Justiça.
medida administrativa designada “auto de resistência”, ou Mais da metade deles foi retirada das ruas sem julgamento.
“resistência seguida de morte”. Era salvo-conduto para que Para a advogada Lucia Nader, 36, diretora da Conectas (or-
policiais matassem opositores: o simples registro de um au- ganização de proteção aos direitos humanos), a justiça bra-
to de resistência relegava uma investigação às gavetas. Cin- sileira erra ao investir nas “prisões em massa” como solução
quenta anos depois, o ato administrativo continua intocado para a violência. “Celas superlotadas não resolvem nada”,
e é considerado legítimo por autoridades policiais e judiciá- afirma. A tese de Lucia, que passou pelo Comitê Brasileiro

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de Direitos Humanos e Política Externa, ganha muita força Aumenta apoio à pena de morte entre
com um vídeo divulgado pela Folha semana passada. Gra- os brasileiros, diz Datafolha
vado na penitenciária de Pedrinhas, em São Luís, o filme
mostra em close as cabeças decapitadas de três homens. En- Pesquisa Datafolha publicada domingo na Folha de
quanto filmam pelo celular, seus assassinos gargalham e co- S. Paulo revela que aumentou o apoio da população à ado-
memoram. ção da pena de morte no Brasil. Segundo o levantamento,
55% dos entrevistados são favoráveis à pena de morte; 40%
FOLHA: O vídeo gravado no Maranhão surpreende? são contra. Na pesquisa anterior, feita em agosto do ano pas-
LUCIA NADER: Em nada. Ele é chocante mas não dá para sado, 51% dos entrevistados disseram “sim” à adoção da pe-
banalizar essas imagens. Mas já tivemos contato com filmes na de morte, e 42%, não. O levantamento atual mostra que
similares. Nossas cadeias viraram um barril de pólvora cul- o apoio à pena de morte voltou ao maior índice histórico fa-
tivado pelo Estado. vorável à prática, registrado em 1993, desde que o Datafo-
FOLHA: A situação em SP é diferente? lha começou a fazer pesquisas sobre o tema, em 1991. O le-
LUCIA NADER: Não. O estado tem um terço dos presos vantamento ouviu 5700 pessoas em 25 estados entre os dias
do país e pratica o encarceramento em massa. Veja: o total 19 e 20 de março. Margem de erro: dois pontos percentuais.
de presos no país cresceu 380% nos últimos 20 anos. A po-
pulação cresceu 30%. (Folha de S. Paulo, “Poder”, 07.04.2007)
FOLHA: Como reduzir a superlotação?
LUCIA NADER: Não dá para sair prendendo, tem que ha- Razão e sensibilidade
ver investigação dos crimes. Só 8% dos homicídios são elu-
cidados no Brasil. Renato Janine Ribeiro
FOLHA: Há médicos suficientes para atendimento em ca-
sos de violência? Escrever sobre o horror em estado puro: assim vivi o
LUCIA NADER: Em São Paulo, há um clínico para cada convite para participar deste número do “Mais!”. É insupor-
2198 presos. Para se ter uma ideia, há 15 ginecologistas no tável pensar no crime cometido contra o menino João Hélio.
país para atender a todas as presas (quatro em São Paulo). E é nisso que mais penso nestes dias. Não me saem da cabe-
FOLHA: Como conter a rivalidade entre facções? ça duas ou três coisas. A primeira é o sofrimento da criança.
LUCIA NADER: Se elas estão nos presídios é porque o es- Se há Deus, e acredito que haja, embora não necessariamen-
tado não cumpre o seu papel. Tem que bloquear sinal. Tem te antropomorfo, como admite Ele esse mal extremo, gratui-
que separar direito os grupos. O governo só promete. to, crudelíssimo? Se a alma ou o espírito tem um destino a-
FOLHA: A reincidência entre presos supera 50% no país. pós a morte, chame-se esse de “juízo eterno” ou de uma séri-
Como reduzi-la? e de “reencarnações”, como poderá esse infeliz menino ser
LUCIA NADER: Com educação e trabalho nos presídios. recompensado pela vida que lhe foi ceifada, não apenas tão
O preso fica anos em puro ócio. E a sociedade tem que acor- cedo, mas, ademais, de modo tão bárbaro? Essas são ques-
dar: quem cumpriu pena não pode levar para sempre um tões religiosas, ou melhor, de fé. E quanto aos assassinos?
crime que já pagou. A outra coisa que não me sai da cabeça é como devem ser
FOLHA: Como você responde à frase “bandido bom é punidos. Esse assunto me faz rever posições que sempre de-
bandido morto”? fendi sobre (na verdade, contra) a pena de morte. Anos atrás,
LUCIA NADER: Não há pena de morte no Brasil, mas as me convidaram a escrever um artigo para uma revista de fi-
prisões criam situações similares. É preciso entender que losofia contra a pena de morte. Perguntei então: mas alguém
quem luta por direitos humanos não quer impunidade. Nós escreverá a favor? E me responderam que era possível, por
protegemos direitos constitucionais. É diferente. que não? Acabei escrevendo meu artigo (contra a pena capi-
tal), mas este caso horrível me faz repensar ou, melhor, não
(Folha de S. Paulo, “São Paulo”, 12.01.2014) pensar, sentir coisas distintas, diferentes. Se não defendo a
pena de morte contra esses assassinos, é apenas porque acho
que é pouco. Não paro de pensar que deveriam ter uma mor-
te hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagi-
no suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em pro-
longar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte. Todo
o discurso que conheço, e que em larga medida sustento, so-
bre o Estado não dever se igualar ao criminoso, não dever
matar pessoas, não dever impor sentenças cruéis nem tortu-
ra – tudo isso entra em xeque, para mim, diante do dado bru-
to que é o assassinato impiedoso. Torço para que, na cadeia,
os assassinos recebam sua paga; torço para que a recebam
de modo demorado e sofrido. Conheci o sr. Masataka Ota,
pequeno empresário cujo filho pequeno foi assassinado. En-
trevistei-o para meu programa de ética na TV Futura (episó-
dio “Justiça versus vingança”). Masataka perdoou os assas-
sinos, isto é, embora pudesse matá-los, não o fez. Quis que
fossem julgados e lamenta que já estejam soltos, poucos a-
nos após o crime hediondo, mas ele é um caso raro – e admi-
rável – em não querer se vingar, em não querer que os assas-
sinos sofram mais que a pena de prisão. Confesso que não
seria a minha reação. Penso – porque ainda consigo pensar,

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em meio a esse turbilhão de sentimentos – também que há há algo que é muito importante no exercício do pensamento:
diferentes modos de impor a pena máxima. A punição com é que atribuamos aos sentimentos que se apoderam de nós o
a morte se justifica ora pela gravidade do crime cometido, seu devido peso e papel. Não posso pensar em dissonância
ora pela descrença de que o criminoso se possa recuperar. completa com o que sinto. A razão, sem dúvida, segura mui-
No caso, as duas razões comparecem. Parecem irrecuperá- tas vezes as paixões desenfreadas. Quantas vezes não nos
veis, e seu crime é hediondo. Não vejo diferença entre eles salvamos do desespero, do desamparo, do ódio e da agressi-
e os nazistas. Creio que só um insensato condenaria as exe- vidade, apenas porque a razão nos acalma, nos contém, nos
cuções decretadas em Nuremberg. Há, hoje, quem debata se projeta o futuro? Que crimes o amor desprezado não causa-
Luís XVI deveria ou não ter sido guilhotinado: dizem alguns ria, não fosse ele contido pela razão? Mas isso vale quando
que o melhor seria reduzir o último rei absoluto da França a a dissonância, insisto, não é completa. Se o que sinto e o que
um cidadão privado, um pouco como a China (curiosamen- digo discordam em demasia, será preciso aproximá-los. Se-
te, campeã em execuções) fez com Pu Yi, seu derradeiro im- rá preciso criticar os sentimentos pela razão – e a razão pelos
perador. Mas Luís era culpado apenas de ser rei. Pessoal- sentimentos, que no fundo são o que sustenta os valores. Va-
mente, era um homem bom. Os nazistas foram culpados do lores não são provados racionalmente, são gerados de outra
que fizeram. Optaram pelo mal. Como esses assassinos. Em forma. Afinal de contas, o que vivemos no assassínio bárba-
países como os Estados Unidos, a demora na execução é ela ro de João Hélio, como meses atrás quando queimaram viva
própria uma parte – talvez involuntária – da pena. Alguém uma criança num carro, não é diferente do nazismo. Dizem
passa 20 anos no corredor da morte, e é executado quando uns que o Brasil está como o Iraque. Parece, pior que isso,
já pouco tem que ver com quem foi. Na Inglaterra, antes de que temos algumas “mini-auschwitzes” espalhadas pelo ter-
ter abolido a pena de morte, era diferente: dois ou três meses ritório nacional.
após o crime, o assassino era enforcado. Nos dois países, a
garantia de todos os direitos de defesa ao réu faz parte, por RENATO JANINE RIBEIRO, professor de “Ética” e “Fi-
curioso que pareça, da engrenagem que diz ao acusado: “vo- losofia Política” na USP e autor de, entre outros, A ética na
cê terá todos os direitos, mas não escapará. No Brasil, é dife- política.
rente. Não temos pena de morte, na lei. A Constituição a
proíbe. Mas, provavelmente, executamos mais gente que o (Folha de S. Paulo, “Ilustrada”, 18.02.2007)
Texas, o Irã ou a China. É que nós o fazemos às escondidas.
Quando penso que, desses infanticidas, os próprios colegas O professor acha que “pena de morte é pouco”
de prisão se livrarão, confesso sentir um consolo. Mas há al-
go hipócrita nisso. Se as pessoas merecem morrer, e se é Elio Gaspari
péssimo o Estado se igualar a quem tira a vida de outro, por
outro lado é uma tremenda hipocrisia deixar à livre iniciati- Num artigo recente, tratando do assassinato do meni-
va dos presos ou aos justiceiros de esquina a tarefa de matar no João Hélio, o doutor Renato Janine Ribeiro, professor ti-
quem não merece viver. Abrimos mão da responsabilidade, tular de Ética da USP, escreveu o seguinte: “Se não defendo
que pode ter uma sociedade, de decidir – no caso, quem de- a pena de morte contra os assassinos, é apenas porque acho
ve viver e quem merece morrer. Tudo isso traz questões adi- que é pouco. [...]. Todo discurso que conheço, e que, em lar-
cionais. É-se humano somente por se nascer com certas ca- ga medida sustento, sobre o Estado não dever se igualar ao
racterísticas? Ou a humanidade se constrói, se conquista – e criminoso, não dever matar pessoas, não dever impor sen-
também se perde? Alguém tem direito, só por ser bípede im- tenças cruéis nem tortura – tudo isso entra em xeque, para
plume, de fazer o que quiser sem perder direitos? A todos mim, diante do dado bruto que é o assassinato impiedoso.
assiste o direito da mais ampla defesa. Mas, garantida esta, Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga;
posso fazer o que quiser sem correr o risco da pena última? torço para que a recebam de modo demorado e sofrido”.
Isto, que relato, põe em questão meu próprio papel como in- Janine é diretor de avaliação da Capes, entidade encarregada
telectual. Intelectual não é apenas quem tem uma certa cul- de julgar a qualidade acadêmica das universidades brasilei-
tura a mais que alguns outros. É quem assina ideias, quem ras. O professor não defende a pena de morte, mas entende
responde por elas. Tive, na Graduação, uma amiga que teve sua lógica. No ano passado uma pesquisa do Datafolha mos-
bloqueio de escrita. Mas, na verdade, ela até fazia trabalhos trou que 51% dos brasileiros desejam uma lei que permita a
– de graça – para outros colegas. Seu bloqueio não era de execução de bandidos. A Corte Suprema dos Estados Uni-
escrita, mas de assinatura. Talvez possa dizer: o cientista es- dos restabeleceu-a em 1976. Admitindo-se que essa penali-
creve, o intelectual assina. O intelectual é público. Só que, dade existisse no Brasil e fosse administrada de acordo com
para ele cumprir seu papel público, é preciso acreditar no os critérios da Justiça americana, é possível que só o moto-
que diz. Ora, quantas vezes o intelectual afirma aquilo em rista do carro que arrastou João Hélio arriscaria perder a vi-
que não acredita? Quantos não foram os marxistas que se da. O bandido de 16 anos, por menor, estaria expressamente
calaram sobre os campos de concentração, que eles sabiam a salvo da pena capital. Toda vez que se organiza uma mesa-
existir? Por isso, o mínimo que devo fazer, se sou instado a -redonda para discutir o sistema penal brasileiro sem a pre-
opinar, é dizer o que realmente penso (ou, então, calar-me). sença de um defensor da pena de morte, exerce-se um piedo-
Sei que a falta de perspectiva ou de futuro é o que mais leva so patrulhamento que mutila o debate e mascara as execu-
pessoas a agirem como os infanticidas. Sei que devemos re- ções feitas por policiais e milicianos. A ética de Janine é as-
formar a sociedade para que todos possam ter um futuro. sustadora quando ele diz que, no caso dos quatro bandidos,
Creio que isso reduzirá a violência. Mas também sei que os a pena de morte “é pouco”, pois torce para que os bandidos
pobres são honestos, mais até que os ricos. A pobreza não é paguem, na cadeia, “de modo demorado e sofrido”. Falta
causa da falta de humanidade. Quer isso dizer que defende- definir “sofrido”, mas não falta conhecer como se sofre nas
rei a pena de morte, a prisão perpétua, a redução da maiori- cadeias brasileiras, comandadas por quadrilhas de bandidos.
dade penal? Não sei. Não consigo, do horror que sinto, de- Cada pessoa disposta a desejar que um delinquente seja sub-
duzir políticas públicas, embora isso fosse desejável. Mas metido aos sofrimentos estipulados pela “Lei da Massa”, ou

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“Lei do Cão” pode escolher uma pena cumulativa, com base no holandês, com adaptações graças à influência de uma po-
na vida real. A escolha é livre. “Eles batiam no senhor? [...] pulação de 87,2% de islamitas. Apesar da humanização do
E esculacharam? Estupraram o senhor?” “Fizeram tudo. Me Direito Penal, o homicídio legal ainda é previsto e aplicado
esculacharam, tiraram minha roupa todinha. Fizeram bestei- em 58 Estados membros das Nações Unidas. Pelo presiden-
ra comigo. [...] Tem um mês que estão me esculachando, e te indonésio, Joko Widodo, não foi invocada a doutrina de
tudo” (Diálogo extraído do trabalho “Oficina do Diabo”, do Tomás de Aquino, mas usado o argumento de nação sobera-
sociólogo Edmundo Campos Coelho.) Admita-se que o es- na para justificar o não acolhimento dos pedidos de clemên-
tupro sistemático de presos faça parte do mundo das peni- cia formulados pela presidenta brasileira, Dilma Rousseff,
tenciárias. Há também a chantagem contra irmãs, mulheres em favor de Marco Archer e de Rodrigo Gularte, este ainda
e mães que vão visitar os cárceres. Em alguns casos, cobra- no chamado “corredor da morte”. Essa posição dura e desu-
-se dinheiro ou serviços para a quadrilha. Em outros, sexo. mana da Presidência da Indonésia não é animadora à luz do
Preso sem dinheiro é obrigado a trabalhar para os outros e a caso do brasileiro Rodrigo Gularte, 43 anos: ele também foi
assumir a responsabilidade por crimes alheios. Vira “robô”. condenado na Indonésia à pena capital por tráfico de cocaí-
Em alguns casos, mata por encomenda. Há casos de “robôs” na (6 quilos). Os defensores, depois do fuzilamento de Mar-
com mais de dez homicídios dentro da prisão. Nas peniten- co Archer, com base na superveniência de doença mental
ciárias controladas pelos comandos, vigoram os códigos das que teria acometido o defendido, pretendem conseguir mu-
quadrilhas, movidos a dinheiro. Mesmo que os assassinos dar o tipo de pena ou obter a suspensão da execução da san-
de João Hélio fossem retalhados vivos, a torcida haveria de ção. Nos trabalhos abolicionistas junto à ONU, capitanea-
se decepcionar. Qualquer que fosse a paga demorada e sofri- dos por Itália e Alemanha com apoio de organizações res-
da, ela nada teria que ver com a indignação dos homens de peitadas, como a Anistia Internacional e Nessuno tocchi Ca-
bem. Seria apenas um gesto destinado a intimidar bandidos ino (“Ninguém toca em Caim), ficou bem clara a resistência
que tumultuam os negócios das quadrilhas e do tráfico. Seri- de Indonésia, Estados Unidos, Irã etc. Esses países resisti-
a uma iniciativa destinada a fortalecer a bandidagem, enfra- ram às propostas idas a duas Assembleias-Gerais da ONU
quecendo a lei. Janine colocou “em xeque” a ideia de que o (2007 e 2014) sobre a moratória (suspensão de aplicação)
Estado não deve torturar o criminoso, mas não propôs a en- da pena de morte. Na última Assembleia, realizada em de-
trega de bandidos à “Lei do Cão”. Fica uma dificuldade: só zembro de 2014, objeto de Resolução, 117 países dos 193
ela inclui a tortura na sua lista de penas. Pelo Código Penal, Estados membros foram a favor da suspensão da pena de
tortura é crime inafiançável. Nosso guia acha que os defen- morte, até ser decidida em Convenção acerca da sua aboli-
sores da redução da maioridade penal acabarão perseguindo ção. A China é o país que mais mata. Os condenados por
fetos. O inferno não está nos outros mas no seu Governo, no tráfico de drogas são enforcados em praça pública, e os cor-
qual um hierarca do Ministério da Educação acha que a pos, pendurados em altas hastes, a fim de ficarem visíveis à
“pena de morte é pouco”. população durante dias. Para outros crimes dá-se um tiro na
nuca, e os órgãos do eliminado são aproveitados em trans-
(Folha de S. Paulo, “Brasil”, 25.02.2007) plantes. Em 2008, a China ocupou o primeiro lugar na lista
de países que mais executam penas capitais, e até 2013 man-
O Brasil e a pena de morte tinha a triste primazia. Diante da moratória, as recomenda-
ções da ONU chegaram a ser atendidas por 35 Estados, ou
Wálter Maierovitch seja, neles a legislação não foi revogada, mas está suspensa
a execução. Entre os 58 países que mantêm a pena de morte
Assim como ao médico é lícito amputar um membro e cumprem sentenças, destacam-se Irã, Arábia Saudita, Es-
infeccionado do paciente para salvar o corpo humano amea- tados Unidos, Paquistão, Iraque (em 2006, Saddam Hussein
çado por risco de perda da vida, deve-se admitir que o “Prín- foi enforcado), Vietnã, Afeganistão, Cuba, Coreia do Norte,
cipe” (Estado) determine o extermínio de pessoas nocivas Egito, Japão, Emirados Árabes Unidos e Índia. Até a Auto-
ao organismo social. Essa era a explicação oferecida como ridade Palestina, que já está com um pé na ONU, mantém a
legitimadora da pena capital pelo dominicano Tomás de A- pena de morte. Na Europa, somente a Bielorrússia ainda e-
quino, doutor da Igreja, filósofo escolástico e santo falecido xecuta as penas capitais impostas. A presidenta Dilma em-
de morte natural em 1274. No Brasil, muitos adeptos dessa penhou-se a fundo para que Marco Archer não fosse execu-
desumana e ultrapassada doutrina aplaudiram o uso na Indo- tado. O mesmo faz a respeito de Gularte. Para ganhar maior
nésia, por crime comum, desse instrumento de vingança pú- autoridade em questões humanitárias e clemências em casos
blica na eliminação física de Marco Archer Cardoso Morei- de pena capital, o Brasil deveria cuidar de abolir a pena de
ra, de 53 anos. Sobre pena de morte o Brasil não está relaci- morte prevista para caso de crime de guerra declarada. Isso
onado entre os 98 Estados membros abolicionistas da ONU. evitaria até uma resposta enviesada, do tipo seguinte: “a so-
Na companhia de Chile, Israel, Peru, Cazaquistão, El Salva- berania brasileira admite a pena de morte em caso de crime
dor e Ilhas Fiji, o Brasil figura entre os Estados que deixam de guerra declarada, e a exceção da Indonésia diz respeito
de sancionar com pena capital os crimes comuns, mas a per- ao tráfico de drogas e outros crimes. Cada qual teria direito
mite constitucionalmente em caso de guerra declarada (art. às suas próprias razões”.
5º XLVII, alínea “a”). Marco Archer, conhecido pelo apeli-
do de “Curumim”, foi preso na Indonésia, em 2003, sob acu- (Carta Capital, “Política”, 27.01.2015)
sação de transporte para tráfico proibido de cerca de 13 qui-
los de cocaína. Durante a longa tramitação processual, foi A pena de morte é efetiva?
mantido em regime fechado até a execução da pena capital,
consumada, na Indonésia, nos primeiros minutos do domin- Wilbert Rideau
go 18 (Brasília, sábado às 15 horas). Entre os executados,
duas mulheres, dois africanos, um indonésio e um holandês. Londres, Inglaterra, fevereiro de 2011. Quando tinha
A Indonésia foi colônia holandesa, e o seu Direito funda-se 14 anos, meu pai me levou à funerária para negros em Lake

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Charles, Louisiana, para ver o corpo de Robert Lee Sauls, quintal dos fundos de sua casa. Ela sobreviveu e Henderson
executado na cadeira elétrica por ter matado um branco que foi enviado para a prisão, onde morreu vários anos depois.
o encontrara dormindo em um automóvel estacionado fora A dissuasão é um mito com atrativo universal, mas em parte
do caminho, no campo daquele homem. Essa lembrança es- alguma fica melhor ilustrada a mentira do que no mundo do
teve completamente fora da minha mente de adolescente em “mata ou te matam” das gangues e dos traficantes de drogas,
1961 quando uma tarde perdi o ônibus para casa e, desespe- onde a violência e a pena de morte são impostas pela comis-
rado por mudar minha vida no futuro, tomei a precipitada são de transgressões dentro desses grupos. O verdugo encar-
decisão de assaltar o banco do centro comercial onde traba- regado dessas execuções não é um técnico médico da prisão
lhava como porteiro. Minha torpe tentativa estava destinada que introduz a agulha letal no braço do condenado, mas um
a fracassar antes de começar e, quando os fatos saíram do atirador que dispara de dentro de um carro, ou um sicário.
controle, tomado pelo pânico, matei a caixa, Julia Ferguson. De todo modo, a perspectiva de ser assassinado não desesti-
Nunca imaginei, quando caminhava até o banco, a possibili- mula em nada esses aspirantes a gângsteres que esperam o-
dade de machucar alguém e muito menos que poderia matar cupar o lugar do que caiu. De todos os assassinos que encon-
alguém. Passei 12 anos condenado à morte pela decisão de trei durante meus 44 anos na prisão, nenhum havia pensado
um júri integrado apenas por brancos em três sucessivos jul- na pena de morte antes – ou durante – a prática do crime que
gamentos, antes que a Suprema Corte dos Estados Unidos, os mandaram para a prisão ou para o corredor da morte.
em 1972, no processo “Furman versus Georgia”, aboliu a Esse tipo de previsão só tem lugar nas mentes de indivíduos
pena de morte, o que influiu decisivamente na revisão da reflexivos e com sangue frio, para os quais a ideia de casti-
minha sentença. Fui condenado novamente, mas à prisão gar uma pessoa para assustar outras tem sentido. Porém, de
perpétua, em 1973. Consegui um novo julgamento em 2000, modo algum se aplica à maioria dos comportamentos vio-
e em janeiro de 2005 fui condenado por homicídio involun- lentos, registrados em indivíduos presos por um torvelinho
tário, o que implicava sentença máxima de 21 anos. Como de emoções e insensíveis às consequências de suas ações.
já sofrera 44 anos de prisão, fui imediatamente libertado. O
estado da Louisiana é muito duro com os criminosos. Não WILBERT RIDEAU é autor do best-seller intitulado No
só os executa como também encarcera per capita mais pes- lugar da justiça: uma história de presídio e redenção. Du-
soas acusadas de diversos crimes do que qualquer outro rante sua permanência no corredor da morte, dedicou-se ao
estado do país, e as faz sofrer as mais longas penas de prisão Jornalismo e ganhou alguns dos mais destacados prêmios de
do mundo. Se os castigos severos importassem realmente, a jornalismo dos Estados Unidos.
Louisiana seria o estado mais seguro dos Estados Unidos.
Porém, é um dos que sistematicamente têm maior quantida- (Carta Capital, “Internacional”, 02.02.2011)
de de homicídios. Entretanto, os políticos amam a pena de
morte porque lhes permite tratar a questão do crime e da vi- Jornal de Alagoas narrou em detalhes última
olência com rápida e fácil retórica, de modo a levar a um pena de morte executada no Brasil
público temeroso e crédulo a falsa crença de que executando
alguém “envia-se uma mensagem” aos criminosos de que Ricardo Westin
seus atos não serão tolerados e que dessa forma deixarão de
cometer crimes. Isso faz que o público se sinta bem, mas Na edição de 30 de abril de 1876, domingo, o Jornal
não desestimula nem impede os crimes. A dissuasão é o re- do Pilar noticiou com detalhes a execução do escravo Fran-
sultado final de um processo racional. Se pensarmos racio- cisco, ocorrida na sexta-feira anterior. Ele foi condenado à
nalmente, evitaremos comportamentos que possam nos cau- forca por ter matado duas pessoas. A seguir, trechos da re-
sar dor e sofrimento. Mas os crimes mais violentos não são portagem: “À proporção que se aproximava a hora do sacri-
cometidos por pessoas com pensamento racional, e sim por fício, não procurando esconder a enormidade de seu crime,
pessoas que são bombas de tempo devido a frustrações, rai- voltara-se para Deus. Foi assim que o vimos, logo ao seguir
va, desesperança e uma incapacidade para resolver seus pró- caminho do sacrifício, dirigir-se a seu pedido para a Igreja
prios problemas vitais. Inclusive gente que é normalmente do Rosário com o fim, dizia, de ver Nossa Senhora do Pilar.
racional pode perder o controle de suas emoções e matar: há Ali chegando, ajoelhou-se e como que orou. Em todo esse
o marido ciumento que mata sua mulher, o empregado des- trajeto e em diversos pontos, o oficial de Justiça fazia a lei-
contente que volta ao local de trabalho para matar o patrão tura da sentença. O condenado ia vestido com roupa da pri-
ou os colegas, ou a esposa maltratada que não aguenta mais são, de calça e camisa, algemado e de laço no pescoço, as-
apanhar. Mesmo compreendendo que a maior parte dos atos sim como o carrasco o qual, encorrentado, seguia-o alguns
violentos é produto da emoção, de modo algum isso pode li- passos atrás. Assim chegou ao lugar do suplício à 1 ½ hora
vrar o culpado de responsabilidade, mas permite explicar o da tarde, no mesmo terreno em que foram assassinados os
motivo de a pena de morte não servir como elemento dissua- infelizes capitão João Evangelista de Lima e sua esposa. Em
sivo. O melhor exemplo que conheço para apontar a inefici- frente à estribaria onde o condenado praticara seu horroroso
ência da pena de morte como elemento de dissuasão é o caso crime, fora levantada a forca. Declarou que ia morrer, mas
de C. Murray Henderson, que foi prefeito da Penitenciária que ninguém se gloriasse com a sua morte, que havia sido
Estatal de Louisiana antes de ter sido designado Comissário um dos assassinos do capitão João de Lima, porém que o fa-
para Penitenciárias do Tennessee onde supervisionava o sis- to não se dera como se contava e que só ele e Deus sabiam,
tema de prisões do estado. Se alguém podia ser dissuadido e, finalmente, que pedia perdão a todos e que a todos tam-
pela perspectiva da pena de morte, ninguém melhor do que bém perdoava. Subiu a escada do patíbulo a pé firme, segui-
esse alto funcionário de 78 anos, extremamente instruído, do de uma praça, e, logo após o carrasco, seguido de outra.
que tinha conhecimento íntimo da vida na prisão e do corre- Nesse ato, supondo o condenado que o algoz esmorecia,
dor da morte. Contudo, suas emoções venceram sua mente voltou-se para ele, exortou-o a que se animasse, dizendo-lhe
racional em uma manhã de 1997, quando disparou cinco ti- que não tivesse medo, que tomasse coragem, e isso com o
ros em sua mulher, Anne, quando ela estava sentada no maior sangue frio. Chegado que foi ao topo da escada, diri-

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giu-se ao centro do patíbulo, torceu o laço, que estava colo- perdeu a vida por ordem judicial. Encerrava uma prática que
cado sobre a nuca, para a garganta e disse “adeus” ao povo vinha desde o Descobrimento – basta pensar no índio que o
acenando com o chapéu, que logo após deixou cair ao chão. governador-geral Tomé de Souza mandou explodir à boca
Em seguida, ajoelhou-se e principiou a acompanhar um dos de um canhão em 1549, ou em Tiradentes, enforcado e es-
sacerdotes que faziam parte da execução a rezar o “Credo”. quartejado em 1792, ou ainda no frei Caneca, fuzilado em
Nessa ocasião, o carrasco vendou-lhe os olhos e, ao chegar 1825. Francisco, porém, foi condenado com base numa lei
às palavras “vida eterna” desprendeu-se do patíbulo ao sim- de 1835 que mirava, exclusivamente, os negros cativos. Ela
ples movimento do carrasco para impeli-lo. Depois o carras- dizia que seria condenado à morte o escravo que matasse ou
co, descendo pela corda, apoiou os dois pés sobre os ombros ferisse gravemente seu senhor ou qualquer membro da famí-
do condenado e forcejou por abreviar-lhe a morte, o que se lia dele. Talvez essa tenha sido a lei mais violenta e implacá-
reproduziu por duas vezes e foi o mais horrível da cena. Es- vel de toda a história brasileira. A norma não admitia a hipó-
tava consumado o ato. O cadáver, após amortalhado, foi se- tese de o criminoso continuar vivo – pelas leis anteriores,
pultado no cemitério público desta cidade. Deus se compa- havendo atenuantes, ele poderia ser condenado à prisão ou
deça da alma daquele desgraçado, tão merecedor, em vida, a galés perpétuas (trabalhos forçados para o Governo), no
das penas da lei quanto, em morte, da comiseração da huma- lugar do enforcamento.
nidade”.

(Agência Senado, “Especial”, 04.04.2016)

Há 140 anos, a última pena de morte do Brasil

Ricardo Westin

A pacata cidade de Pilar, na província de Alagoas, a-


manheceu tumultuada em 28 de abril de 1876. Calcula-se
em 2 mil o público de curiosos, inclusive vindos das vilas Além disso, a lei de 1835 exigia o voto de apenas
vizinhas, que se aglomerou para assistir à execução do ne- dois terços dos jurados do tribunal para a condenação à for-
gro Francisco. O escravo fora condenado à forca por haver ca – até então, a pena capital requeria a unanimidade do júri.
matado a pauladas e punhaladas um dos homens mais res- E, por fim, ela não permitia apelações pela mudança da pena
peitados de Pilar e sua mulher. O assassino recorreu ao im- – antes, o condenado podia interpor inúmeros recursos judi-
perador dom Pedro II, rogando que a pena capital fosse co- ciais às instâncias superiores. O historiador Ricardo Figuei-
mutada por uma punição mais branda, como a prisão perpé- redo Pirola, autor de Senzala insurgente (Editora Unicamp),
tua. O monarca, poucos dias antes de ter partido para uma diz: “Havia pena de morte para os livres que cometiam ho-
temporada fora do Brasil, assinou o despacho: não haveria micídio, mas para eles a legislação continuou como antes,
clemência imperial. Acorrentado ao carrasco e com a corda com alternativas à forca. O endurecimento afetou só os cati-
já no pescoço, Francisco percorreu as ruelas da cidade num vos. De 1835 em diante, escravo condenado era escravo en-
cortejo funesto até o ponto em que a forca estava armada. forcado: ‘lance-se logo a corda e pendure-se o réu’”. Docu-
Na plateia havia escravos, levados por seus senhores para mentos históricos mantidos sob a guarda do Arquivo do Se-
que o caso lhes servisse de exemplo. “Peço perdão a todos, nado, em Brasília, mostram que o projeto da lei de 1835 foi
e a todos perdoo”, disse ele, antes de morrer, à multidão atô- proposto pela Regência como forma de conter as crescentes
nita. Há exatos 140 anos, essa foi a última pena capital exe- rebeliões escravas. A Regência foi o governo-tampão da
cutada no Brasil. Depois de Francisco, nenhum criminoso conturbada década de 1830, entre a abdicação de Pedro I e

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a maioridade de Pedro II. “As circunstâncias do Império em pena, assim como já ocorria com os brancos. O monarca ca-
relação aos escravos africanos merecem do corpo legislati- da vez mais cedia às súplicas. A última execução de um ho-
vo a mais séria atenção. Alguns atentados recentemente co- mem livre ocorreu em 1861. Os escravos precisariam de
metidos contra fazendeiros convencem dessa verdade”, es- mais tempo para se livrarem da pena capital. Francisco, o
creveu o ministro da Justiça no preâmbulo do projeto, reme- negro de Pilar, foi enforcado em 1876. Apesar de os tribu-
tido à Câmara e ao Senado em 1833. “A punição de tais a- nais continuarem sentenciando a pena de morte até o fim do
tentados precisa ser rápida e exemplar”. Os “atentados re- Império, em 1889, as forcas foram definitivamente aposen-
centemente cometidos” a que o ministro se refere ocorreram tadas uma década antes. E isso aconteceu sem que se revo-
nas províncias da Bahia, de São Paulo e de Minas Gerais, gasse a lei de 1835, apenas com as repetidas clemências im-
onde escravos atacaram seus senhores por não mais aceita- periais. De acordo com historiador Ricardo Alexandre Fer-
rem castigos violentos e trabalhos extenuantes ou por serem reira, autor do livro Senhores de poucos escravos (editora
vendidos para outros pontos do país, sendo separados da fa- Unesp), a manutenção da lei, mas sem sua execução, foi
mília, por exemplo. O caso mais rumoroso ocorreu em São uma decisão calculada de dom Pedro II: “O imperador era
Tomé das Letras, no sul de Minas Gerais, em 1833, e ficou contrário à pena de morte, mas sabia que despertaria ira das
conhecido como “Revolta de Carrancas”. Escravos fizeram elites agrárias que lhe davam sustentação se abolisse oficial-
uma espécie de arrastão pelas fazendas da região, matando mente a lei que as protegia. Preferiu agir com cautela e man-
famílias inteiras de latifundiários. Episódios desse tipo dei- ter a lei”. Há várias hipóteses para a aversão do imperador
xavam a elite rural aterrorizada. Havia o temor de que se às execuções. Uma das mais plausíveis é a de que ele foi in-
produzisse algo semelhante à Revolução Haitiana, onde os fluenciado pelas ideias do escritor francês Victor Hugo, crí-
negros haviam se revoltado, assumido o poder e abolido a tico ferrenho da escravidão e da pena de morte. Dom Pedro
escravidão. A elite não teve dificuldades para ver o projeto II foi recebido duas vezes em Paris pelo autor de O corcun-
contra os negros prosperar. Primeiro, porque a lavoura era da de Notre-Dame naquela longa temporada no exterior ini-
o grande motor da economia, e o Império tinha total interes- ciada logo após negar clemência ao escravo Francisco. De
se em protegê-la. Depois, porque os próprios políticos, na fato, depois dessa viagem, ninguém mais no Brasil foi para
maioria, eram escravocratas. Entre as vítimas de Carrancas, a forca. Os escravocratas, cientes da manobra, passaram a
estavam parentes do deputado Gabriel Francisco Junqueira reclamar publicamente, exigindo o cumprimento da lei. Os
(MG), que só escapou da matança porque se encontrava na senadores diziam em tom de ironia que dom Pedro II estava
Câmara, no Rio, não em sua fazenda. Um dos regentes da sendo “filantrópico”: “Quem poupa a vida dum grande mal-
Regência Trina Permanente (1831- 1834) foi José da Costa feitor compromete a vida de muitos inocentes”, afirmou o
Carvalho, dono de vastas terras e dezenas de escravos em senador Ribeiro da Luz (MG) em sessão plenária de 1879.
São Paulo. Também os senadores tinham escravos. Da tri- “Não é possível que, por causa da filantropia, homens vivam
buna do Palácio Conde dos Arcos, a sede do Senado, o sena- inquietos pelos perigos que os cercam, sobressaltados de
dor Silveira da Mota (GO) defendeu a lei de 1835 narrando que a foice ou a enxada do escravo venha tirar-lhes a vida”.
um incidente familiar: “Chegando ontem a minha casa, mi- Na mesma sessão, os senadores lembraram um crime coleti-
nha família recorreu a mim, assustada por um fato que tinha vo ocorrido em Itu, em São Paulo, no começo do ano. Um
se dado no meu lar doméstico. Um escravo meu, apenas mui escravo havia assassinado seu senhor, um dos poucos médi-
brandamente advertido, insubordinou-se a ponto de, arma- cos da cidade. Enfurecidas, centenas de pessoas tentaram in-
do, ameaçar minha mulher. Felizmente, minha filha mais vadir a delegacia para linchar o criminoso, mas foram conti-
velha teve o bom senso de conter a indignação que o fato ti- das pela polícia. No dia seguinte, voltaram e conseguiram
nha excitado e de apelar somente para minha chegada. É um arrancar o escravo da cela. O negro foi morto a pauladas pe-
crioulo de casa, que é muito bem tratado e há poucos dias la população aos gritos de “viva a justiça do povo!” Para os
tinha recebido dinheiro de minhas mãos”. Foi a trágica Re- senadores, linchamentos como aquele, que se repetiam em
volta de Carrancas que apressou a elaboração do projeto da outras cidades, eram um claro sinal de que a sociedade –
severa lei de 1835. A insurreição se deu em maio de 1833 e vendo que os cativos, livres da pena de morte, se sentiam
logo no mês seguinte a Regência apresentou a proposta. A encorajados a assassinar – não tinha escolha senão fazer jus-
aprovação ocorreu sem sobressaltos. O texto passou duas tiça com as próprias mãos. O senador Silveira da Mota foi
vezes pela Câmara e uma pelo Senado, sofrendo alterações ainda mais longe e disse que, já que a lei de 1835 havia sido
mínimas. Entretanto, muito pouco se sabe sobre o teor das esquecida, o melhor seria acabar de vez com a escravidão:
discussões no Senado. Em 1834, o senador Marquês de Ca- “Nós sabemos que a escravidão é uma violência e uma in-
ravelas (BA) apresentou um requerimento para que o debate justiça, mas as violências se mantêm senão com outras vio-
fosse secreto, por ser “pouco político” tratar em público de lências. Se quereis fazer filantropia à custa da honra das fa-
um tema tão delicado. Um dos documentos da época guar- mílias dos proprietários, então tomai a responsabilidade da
dados no Arquivo do Senado explica que, “apesar da oposi- emancipação [dos escravos]. Não o queirais fazer tortuosa-
ção de alguns ilustres senadores”, o pedido foi aceito. Um mente, com prejuízo de tantas vidas. Num país de escravi-
grande levante negro na Bahia acelerou a aprovação defini- dão, se o governo quer harmonizar a lei criminal com os
tiva do projeto. Foi a Revolta dos Malês, em Salvador. O princípios filosóficos, então o meio é outro, é acabar com a
saldo dos embates entre cativos e soldados foi de dezenas escravidão. Enquanto não acabar com ela, o meio é a lei de
de mortes. A revolta explodiu em janeiro de 1835, a segunda 1835”. Ainda em 1879, o presidente do Conselho de Minis-
aprovação da proposta na Câmara veio em maio e a sanção tros (cargo equivalente ao de primeiro-ministro), Cansanção
da Regência ocorreu em junho. Nas duas primeiras décadas, de Sinimbu, compareceu ao Senado para defender o impera-
a lei de 1835 levou centenas de escravos rebeldes à forca. dor. Ele argumentou que dom Pedro II concedia a clemência
Aos poucos, porém, dom Pedro II foi afrouxando as conde- não por bondade, mas por identificar falhas nos processos
nações. Em 1854, ele decidiu que todo escravo condenado judiciais: “Todos nós sabemos como têm lugar esses assas-
à punição capital ganharia o direito de apelar à clemência sinatos. Acontecem em lugares solitários, na ausência de
imperial, pedindo o perdão ou pelo menos a comutação da pessoas que possam testemunhar e, por conseguinte, na difi-

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culdade de se constituírem provas positivas para se fazer um não haverá mesmo pena capital. Sempre ressurge o tema.
juízo sobre a criminalidade do réu. O primeiro-ministro não Então, é bom esclarecer, do ponto de vista prático, ético e
contou toda a história. Quando o processo era perfeito, sem político, por que essa pena é errada. Como muitos dos seus
deixar dúvida de que o escravo matou seu senhor, o impera- defensores pensam ser práticos, e olham com certo desdém
dor, simplesmente, engavetava o pedido de clemência. As- a teoria (“na prática, a teoria é outra”), começo pelos aspec-
sim, em vez de ir para a forca, o negro continuava na prisão, tos pragmáticos. Poucos países do mundo desenvolvido
indefinidamente, à espera de uma palavra final do monarca mantêm a pena de morte. Os campeões mundiais de execu-
que jamais viria. A lei da pena de morte dos escravos deixou ções são China, Irã e Arábia Saudita, no campo não demo-
de fazer sentido em 1888, com a abolição da escravidão. Ela crático (para os saudistas, “não democrático” é pouco – eles
só foi, oficialmente, revogada em 1890, logo depois da Pro- apedrejam, crucificam, decapitam...), e, entre as democraci-
clamação da República. as, o Japão e os Estados Unidos, com ênfase para o Texas.
Ora, uma execução custa muito. É mais cara do que manter
(Agência Senado, “Especial”, 04.04.2016) o condenado preso a vida toda, ou pelo máximo brasileiro
de 39 anos. Isso porque, de duas, uma: ou você entra no time
Cidade reconstitui todo ano, desde 2001, das tiranias, e tira a vida em meses, não importando se pe-
enforcamento do negro Francisco gou a pessoa certa ou não; ou faz um processo para valer.
No primeiro caso, você só quer dar um espetáculo. Mata um
Ricardo Westin monte de inocentes. Ora, não acredito que um defensor, mi-
nimamente sério, da pena de morte queira isso. Até porque
Todos os anos, no dia 28 de abril, a pequena cidade o que se pretende: nivelar o Brasil com os sauditas? Só faz
alagoana de Pilar, de 33 mil habitantes, se mobiliza em tor- sentido querer a execução se for do verdadeiro culpado. Mas
no da encenação da morte do escravo Francisco, a última localizá-lo não é barato. E há um entendimento, entre o táci-
pena de morte executada no país, em 28 de abril de 1876. O to e o explícito, de que, para matar um acusado, é preciso
evento é produzido pela prefeitura desde 2001 e atrai visi- maior certeza do que para privá-lo da liberdade. Daí que nos
tantes de todo o estado. Neste ano, a encenação será feita no Estados Unidos, mesmo nos estados mais atrasados e pre-
ginásio da “Escola Municipal Nossa Senhora do Pilar”, às conceituosos, que executam bem mais negros do que bran-
19h30. Em anos anteriores, havia sido realizada ao ar livre, cos, a execução demore, geralmente, mais que dez anos. A
com os atores perfazendo o exato trajeto que o escravo Fran- despesa não é só a de mantê-los presos: é a de colocá-los em
cisco percorreu entre a delegacia e a forca. O espetáculo co- unidades mais seguras e, sobretudo, pagar advogados dos
meça com o assassinato de João Evangelista de Lima, res- dois lados. A própria execução é dispendiosa. Só é barata na
peitado oficial da Guarda Nacional, e de sua mulher, Josefa China, que, por sinal, cobra a bala da família e vende os ór-
Marta de Lima. Depois vêm a fuga do escravo, a captura e gãos do morto para transplante. Afirmei que, para condenar
o julgamento. Uma das cenas mostra dom Pedro II negando à morte, o grau de certeza precisa ser mais alto; ora, com is-
a clemência imperial. Por fim, há cortejo do condenado pela so, se executará o culpado de um crime menos horrível e es-
cidade e enforcamento. Os produtores da peça se basearam capará um criminoso pior, só porque não foi encontrado ou
no relato dos jornais da época. O velho Jornal do Pilar, por as provas eram frágeis. E há um efeito paradoxal na pena
exemplo, contou que foi difícil achar um presidiário dispôs- máxima: se o tráfico é punido com a morte, o traficante des-
to a ser o carrasco – responsável por empurrar o condenado coberto tem interesse em matar, ou seja, agravar o crime, e-
da forca e depois subir em seus ombros para apressar a mor- liminando as testemunhas. Insisto em que nem toda conde-
te. O escolhido, segundo o jornal, foi um condenado de no- nação tem bases sólidas. A lei norte-americana só exige que
me Maia Grande “altura de gigante, corpo de jumento, mãos a pessoa seja culpada “além de uma dúvida razoável”. Isso
de burro, pés de chapeleta e cara inchada de beberrão”. Ele não é certeza. Nem verdade. É a construção social possível
dormiu acorrentado a Francisco na véspera da execução. “O de uma certeza razoável, não absoluta. Muitos crimes esca-
escolhido para essa função tinha que ser corajoso, pois havia pam à justiça – bem mais no Brasil do que nos Estados Uni-
relatos de carrascos que foram assassinados pelos condena- dos, com certeza; mas a pena de morte não mudará isso. Me-
dos dentro da cela”, conta o historiador João Luiz Ribeiro, lhorar nossa proporção de solução de crimes depende de u-
autor de No meio das galinhas as baratas não têm razão: os ma polícia bem treinada, com recursos científicos. A pena
escravos e a pena de morte no Império (editora Renovar). de morte não melhora nem piora isso. Ou, depois de ler um
Segundo o diretor municipal de Cultura, Sérgio Moraes, as pouco sobre a Indonésia, alguém tem dúvida do desequilí-
pessoas de Pilar têm sentimentos diferentes em relação ao brio entre fuzilar estrangeiros e poupar os barões locais da
episódio histórico: “Algumas acham lamentável que uma e- cocaína, ainda mais sendo Bali um paraíso da droga? Em
xecução tenha acontecido na nossa cidade. Outras comemo- vez de se tentar a solução demagógica da pena de morte ca-
ram o fato de que, depois disso, ninguém mais foi executado ra, rara e injusta, não é preferível formar melhor a polícia?
no Brasil”. E, assim, reduzir o crime? Daí, uma questão, ao mesmo tem-
po, prática e ética. Que fazer com o erro judiciário? Com a
(Agência Senado, “Especial”, 04.04.2016) pena de morte, ele não pode ser reparado. Desde que surgi-
ram os exames de DNA, muitos condenados à morte foram
O Estado carrasco soltos porque eram inocentes. Claro que se pode dizer: “ah,
mas com o DNA, agora, temos certeza”. Não temos. Porque
Renato Janine Ribeiro continua havendo falhas nas histórias, salvo o caso de vários
testemunhos oculares convergentes. Nem a confissão é sufi-
A execução do brasileiro Marco Archer na Indonésia ciente, porque, com frequência, ela é extorquida. A tortura
trouxe de volta ao debate a pena de morte. Não adianta dizer física não é a única forma de levar um réu a confessar o que
que uma cláusula pétrea da Constituição proíbe votar emen- não fez. Até aqui me concentrei em argumentos práticos.
das constitucionais nesse sentido, de modo que, no Brasil, Vamos à ética. Thomas Hobbes, no século XVII, disse que

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o Estado é um monstro. Comparou-o ao Leviatã bíblico. Ele morte como nenhum país entra na União Europeia se tiver
não é uma criatura “do bem”. Domina pelo medo. Ora, des- a pena capital. Eles só conservam a prisão perpétua. Na prá-
de as revoluções democráticas de 1688 a 1789, tenta-se me- tica, a diferença é o Estado deixar de matar, com todo o
lhorar a qualidade ética do Estado. Ele já não tortura. Não significado simbólico que isso traz. A pessoa fica viva para
deve mais infantilizar os cidadãos. Deve atuar pelo fim do o caso de eventual erro judiciário, não molesta ninguém por-
crime, da miséria, do desvalimento. Porém, o que dizer de que não sairá da cadeia, mas não se espera que se reeduque.
um Estado que mate gente? Ele irá na direção contrária. Te- O condenado a passar o resto da vida preso é um caso perdi-
rá um departamento de carrascos. Fará médicos violarem o do. Tanto que o papa recentemente condenou, além da pena
Juramento de Hipócrates, que, há mais de 2 mil anos, proíbe de morte, a prisão perpétua. Quando o Brasil proíbe a pena
o doutor de agir em favor da morte. Alguns dizem que, no de morte e a prisão perpétua, entende que o criminoso é re-
Brasil, já se pratica a pena de morte, sem regra nem lei, e cuperável. É uma visão oposta à europeia, embora eles, co-
seria melhor aplicá-la após um processo justo. Em termos, mo nós, proíbam a pena capital. Aqui, ninguém pode ficar
muito em termos. Pena de morte só o Estado aplica, e isso preso mais do que 30 anos. Isso porque a pessoa pode mu-
depois de um processo, sim. Mas vejam. Se eu tiver a vida dar para melhor. É o contrário absoluto da ideia norte-ame-
posta em risco, tenho direito à legítima defesa, podendo até ricana de matar uma pessoa por um crime cometido faz duas
matar meu agressor. Mas isso eu só posso no calor da hora. ou três décadas. Para eles, ninguém muda. Para nós, mudar
E só vale enquanto o criminoso estiver solto, me ameaçan- (o criminoso) é desejável. Para o europeu, pode acontecer.
do. Já o Estado apenas executa quem já está preso. É uma Nosso grande problema é: não conseguimos reeducar. Na
solenidade. Há processo, recurso, apelos. A execução tem verdade, o problema é que mal nos empenhamos nisso. A
ata. Ele mata a frio. O direito do indivíduo a matar em legíti- maioria dos países que mantêm a pena máxima não pensa
ma defesa é o inverso do pretenso direito do Estado a execu- em reeducar. Geralmente, por falta de verba e pessoal – mas,
tar um condenado. O Estado carrasco é uma paródia do Es- mesmo os dois países ricos que matam, Estados Unidos e
tado que age em prol dos valores positivos. Mesmo sendo Japão, não se interessam por isso. Ou alguém já viu Law and
raras as execuções, elas são o reverso negativo de um poder Order com alguma personagem tentando reeducar condena-
que deve almejar a superioridade moral. Também há o fato dos? Mas pensemos na multidão lançada cedo às cadeias.
de que as prisões – e as câmaras de execução – têm mais ne- Em especial, adolescentes que delínquem. Não temos pro-
gros do que brancos. Pode-se dizer, nessas condições, que o jeto para eles. Ou temos: nosso projeto implícito para os que
julgamento foi equânime? Proporcionalmente ao número de entram no crime é que morram – que sejam mortos por outra
criminosos reais, são condenados mais pobres do que prós- quadrilha ou pela polícia. Aqui, entra a pena de morte “in-
peros. E os incluídos na sociedade entram menos no mundo formal”. Ouvi do padre Júlio Lancellotti, ainda em tempos
do crime do que os excluídos. Isso vale para todas as penas, de FHC, um projeto de liberdade assistida para reeducar os
mas se acentua no caso da morte. A pena de morte, como a adolescentes em conflito com a lei. Era consistente, incluía
maior e a mais irreparável das penas, agrava a injustiça do vários tipos de profissionais – e, por isso mesmo, era caro.
sistema penal como um todo. Toda condenação supõe que o Não conseguiu apoio suficiente. Mas por pura miopia. Por
réu tenha escolhido, livremente, cometer o crime. Mas se e- dispendioso que seja, é mais barato do que o jovem se tornar
le não escolheu? Há pessoas que nascem com tal limitação criminoso pela vida – ou se torcer para que morra logo. Te-
mental que não têm noção de seus atos. Outras adquirem es- mos a honra de ter abolido a pena capital já no século XIX.
sa limitação devido a condições sociais – inclusive a má nu- Mas não nos empenhamos na reeducação. Nós, nem (quase)
trição na infância. O termo técnico para essas pessoas é que ninguém. Ganhará muito o País se, em vez do populismo da
são “inimputáveis”. Não podem ser condenadas. Isso não pena de morte, embarcar na formação de uma polícia mais
quer dizer que possam circular livremente. Podem ser inter- científica e na reeducação e reintegração social dos presos,
nadas, supostamente enquanto não melhora sua condição em especial os jovens e os iniciantes.
mental. Na verdade, apodrecem. Mas vejam que não podem
ser condenadas, muito menos à morte. Muitos dizem, quan- RENATO JANINE RIBEIRO, docente de “Ética e Filoso-
do um crime é especialmente hediondo, que só um louco po- fia Política” (USP), é autor, entre outros livros, de A socie-
de tê-lo cometido. Se isso for verdade, ele não pode sequer dade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil.
ser julgado. Ou seja, justamente os piores crimes, por terem
parte com a loucura, não levam a castigo. Então, para que a Pena de morte: uma visão global e o papel do Brasil
pena de morte? Finalmente, no plano político, os primeiros
países a abolir a pena de morte foram os da América Latina. Maurício Santoro
Falamos tanto mal de nós mesmos que é bom valorizar o
que fizemos de positivo. Entre nossas contribuições para o Em janeiro de 2015, pela primeira vez, um brasileiro
mundo estão o direito ao asilo político e a extinção da pena foi executado por um governo estrangeiro. Policiais da In-
de morte. Mesmo quando nossas polícias continuam matan- donésia fuzilaram Marco Archer, que havia sido condenado
do, sinalizamos ao mundo – no plano moral – que é bárbaro, por tráfico de drogas naquele país. A execução confrontou
medieval o Estado matar ritualmente um culpado. Podemos o Brasil com a realidade brutal da aplicação da pena de mor-
ser acusados de “hipócritas”, devido à distância entre o que te. Por que houve uma forte crítica externa ao governo indo-
dizemos e fazemos. Mas, quando você enuncia um valor al- nésio? As execuções foram ilegais à luz do Direito Interna-
to que você mesmo não pratica, prepara o terreno para ele, cional ou a Indonésia está em seu direito soberano? As auto-
depois, se tornar realidade. É esse o sentido dos ideais. É es- ridades brasileiras agiram corretamente ao terem convocado
se o papel mais nobre dos líderes de fé, como o dalai-lama para consultas seu embaixador em Jacarta? Para responder
e o papa Francisco, ou das referências éticas, como Gandhi: às perguntas, é preciso analisar como a pena de morte se en-
não é reiterar o ruim que se faz, mas sim anunciar o novo, o caixa no debate contemporâneo de relações internacionais e
melhor, o inédito. Meio século atrás, ingleses enforcavam, conhecer o surpreendente e pioneiro papel que o Brasil de-
franceses guilhotinavam. Hoje, não só aboliram a pena de sempenhou nesse tema. Desde a Segunda Guerra Mundial,

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há uma objeção crescente à pena de morte, que acompanha pela beleza, que são também pontos importantes do comer-
a valorização dos direitos humanos e o repúdio às catástro- cio global de drogas. O país já havia executado anteriormen-
fes humanitárias do século XX. Esses movimentos levaram te outras pessoas por tráfico, mas, até 2015, nenhum cidadão
à abolição dessa forma de punição em diversos países. Atu- de uma nação rica havia sido punido dessa forma. Neste a-
almente, cerca de 70% eliminaram-na de seus códigos le- no, o holandês Ang Kim Soei foi vítima dessa punição, na
gais ou não a aplicam mais. Em 2013, por exemplo, 22 paí- mesma sequência em que foram fuzilados Archer (Brasil),
ses (pouco mais de 10% do total mundial) realizaram execu- Daniel Enemuo e Namaona Denis (Nigéria) e Tran Thi Bich
ções. Que Estados ainda utilizam a pena de morte? Na esti- Hanh (Vietnã). Foi um contraste com o passado, quando
mativa da Anistia Internacional, a China sozinha executa houve casos como o do francês Michel Blanc, libertado em
mais do que o resto do mundo – algo em torno de 2 mil pes- 2014 depois de forte campanha internacional em sua defesa.
soas por ano, embora os dados sejam imprecisos devido à Ele havia sido sentenciado à prisão perpétua na Indonésia,
dificuldade de acesso ao sistema jurídico chinês. Nos de- ao ter sido preso no aeroporto com 3,8 kg de haxixe, escon-
mais países, ocorreram cerca de 800 execuções confirmadas didos em equipamento de mergulho. A mudança brusca no
em 2013 – 80% na Arábia Saudita, Irã e Iraque. Todos esses comportamento do governo da Indonésia, em contradição às
quatro governos têm em comum o fato de serem regimes au- recomendações internacionais, levou a críticas externas ao
toritários, que cerceiam de maneira cotidiana os direitos hu- presidente Widodo. Brasil e Holanda condenaram as execu-
manos de seus cidadãos. Poucas democracias mantêm a pe- ções e a rejeição de seu pedido de clemência por seus cida-
na de morte, e as únicas que a utilizam com frequência são dãos e convocaram seus embaixadores em Jacarta para con-
os Estados Unidos e a Indonésia. No caso americano, há u- sultas – importante sinal de censura diplomática. O governo
ma distinção importante: estados podem optar por aboli-la. brasileiro acompanha os casos de Archer e Rodrigo Gularte
Dezoito dos cinquenta assim fizeram. Nos anos 2000, Nova desde suas prisões, há mais de uma década, e havia feito dis-
Iorque, Nova Jérsei, Novo México e Illinois, entre outros, creta e constante pressão de bastidores junto aos antecesso-
tomaram essa decisão. Texas, Flórida e Ohio concentram res de Widodo. Há uma longa tradição brasileira de repúdio
cerca de 70% das mortes. Na década de 1970, a Suprema à pena de morte que antecede em muito a execução de Ar-
Corte dos Estados Unidos chegou a proibir sua aplicação, cher. O Brasil foi pioneiro em abolir essa forma de punição.
julgando-a incompatível com a Constituição. Organizações Desde a primeira Constituição republicana, em 1891, o país
de direitos humanos, como a Anistia Internacional e Human a proíbe em tempos de paz, embora a mantenha em tempos
Rights Watch, são contra a pena de morte em qualquer situa- de guerra para crimes ligados à segurança nacional. À épo-
ção, considerando-a uma violação do direito à vida – que o ca, na América Latina, só a Costa Rica tinha legislação se-
Estado deve proteger, e não destruir – e uma forma de puni- melhante. A decisão brasileira foi fruto de trauma das déca-
ção cruel, desumana e degradante. A Igreja Católica tem a das finais da monarquia, um dos piores erros judiciais da
mesma posição. Quatro tratados internacionais proíbem a história do país: a execução do fazendeiro Manuel da Mota
pena de morte, pelo menos em tempos de paz. Um deles, no Coqueiro (1855), condenado erroneamente como mandante
âmbito da ONU: o Segundo Protocolo Opcional ao Pacto de uma chacina de oito colonos em suas terras. O imperador
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1989), e três lhe negou o perdão, mas ficou tão impactado quando soube
acordos regionais, um na Organização dos Estados Ameri- de sua inocência que passou a conceder a graça aos homens
canos e dois na Europa. O tratado das Nações Unidas foi ra- livres condenados à morte – nenhum foi executado a partir
tificado por 81 países de todos os continentes. A adesão a da década de 1860, embora escravos ainda o tenham sido a-
esses acordos é voluntária. Contudo, além dos tratados for- té 1876. A ditadura de 1964-1985 rompeu a tradição huma-
mais, desde 2007, a Assembleia Geral da ONU aprova reso- nitária da república e reestabeleceu a pena de morte, mas
luções recomendando que todas as nações adotem moratória não chegou a implementá-la oficialmente. Os assassinatos
nas execuções. Esses documentos não têm a força obrigató- dos opositores do regime foram execuções extrajudiciais,
ria da lei, mas possuem considerável influência política. Ir crimes que ocorreram à margem do sistema jurídico. Na
contra eles significa desrespeitar a opinião pública interna- Constituição de 1988, a proibição da pena de morte é cláu-
cional. A Indonésia não ratificou nenhum tratado internaci- sula pétrea. Não pode ser alterada por emenda constitucio-
onal contra a pena de morte, mas havia demonstrado sensi- nal, plebiscito, referendo ou qualquer outra forma de mobi-
bilidade às tendências globais, abstendo-se de utilizá-la por lização – importante freio institucional aos ardores das ver-
diversos anos, entre 2008 e 2013. Essa decisão foi mantida, sões brasileiras de Widodo. Após a promulgação da nova
mesmo diante dos graves desafios de segurança enfrentados Carta Magna, o Brasil ratificou os acordos internacionais da
pelo país, como o combate a grupos extremistas político-re- ONU e da OEA contra a pena de morte, posição que reforça
ligiosos. Em grande medida, representava parte dos esfor- nos fóruns multilaterais e que, coerentemente, defendeu nas
ços dos novos governos democráticos estabelecidos após a críticas à Indonésia. É importante que o debate impulsiona-
ditadura de Suharto (1967-1998) para respeitar os direitos do por condenação de Marco Archer e Rodrigo Gularte pos-
humanos. Eleito presidente em 2014, Joko Widodo fez da sa estimular também a reflexão sobre as contradições brasi-
pena de morte um cavalo de batalha eleitoral e transformou leiras. Mesmo sem pena de morte, as polícias do país matam
sua aplicação – em particular no caso do tráfico de drogas – pelo menos seis pessoas por dia. Muitos desses casos são e-
em promessa de campanha. Em grande medida, para ganhar xecuções sumárias. E que tenhamos políticas de segurança
a simpatia dos grupos muçulmanos que advogam políticas pública à altura dos princípios humanitários expressos em
mais repressivas em relação a entorpecentes. É a contramão nossa Constituição.
das tendências globais que apontam para abordagens mais
liberais e flexíveis, como as adotadas por diversos estados MAURÍCIO SANTORO é cientista político, assessor de
americanos, em vários países da Europa Ocidental e no Uru- direitos humanos da Anistia Internacional e integrante do
guai, e qual recomendada pela comissão da ONU sobre dro- Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.
gas. A Indonésia é um importante destino turístico interna-
cional, sobretudo por conta de Bali e outras ilhas conhecidas (Carta Capital, “Opinião”, 19.02.2015)

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Punição determinada em casos como o do terrorista preocupação é como ele se comporta na prisão”. Portanto,
nós anunciamos que a punição deveria ser condizente com
Renata Tranches o crime. A morte é justiça quando condiz com o crime, ainda
mais com a maneira como administramos nossas prisões.
A decisão da Justiça americana de condenar à morte Nós rompemos com a punição do crime e o ignoramos com-
o terrorista Dzhokhar Tsarnaev, coautor do atentado contra pletamente.
a Maratona de Boston em 2012, reacendeu os debates no pa- Estado. No Brasil, não temos a pena de morte. Mas as con-
ís sobre o tema da pena capital. O professor da New York dições das cadeias são péssimas. Como é nos EUA?
Law School Robert Blecker é um dos poucos especialistas Blecker. Nos EUA, temos níveis de segurança, prisões de
sobre pena de morte nos EUA que a defende publicamente. nível segurança máxima, média e mínima. Mas isso não tem
Polêmico, diz que nos países ocidentais que aboliram a pena a ver com o crime que foi cometido, mas sim com o perigo
de morte há uma incoerência e uma contradição com o que futuro que o prisioneiro impõe. Para pessoas como eu, que
realmente quer a opinião pública. Na sua opinião, se a Grã- defendem a justiça retributiva, essa estrutura das prisões é
Bretanha decidir sair da União Europeia, uma das medidas errada. Em outras palavras, nós misturamos pessoas que co-
a serem adotadas é a retomada da pena capital, que tem o a- meteram qualquer roubo, mas não machucaram ninguém, e
poio de cerca de metade da população. Para ele o método de recebem várias sentenças e voltam à prisão, com pessoas as
execução pela injeção letal nos EUA está longe de ser uma quais cometeram assassinatos e estupros. Na verdade, pes-
punição e defende o pelotão de fuzilamento. “Se a Europa soas que vão passar o resto da vida na prisão acabam tendo
quer realmente agir como uma democracia, terá de restaurar um padrão de vida melhor. Eles sabem como ter acesso a
a pena de morte”, disse, em entrevista ao Estado. contrabando quando precisam, enfim, sofrem muito menos
do que pessoas que cometeram crimes de menor gravidade.
Estado. Como o senhor definiria sua posição sobre pena de Estado. Como seria o ideal?
morte? Blecker. O que tenho defendido é que aqueles que comete-
Blecker. Essencialmente, sou um defensor da “justiça retri- ram crimes menores deveriam ter uma experiência na prisão
butiva”, que significa que sou favorável a essa punição nos que os ajudasse na reabilitação, um treinamento profissional
casos em que ela é merecida. A essência da justiça é que a e valores para que eles pudessem deixar a prisão qual mem-
punição seja proporcional ao crime. Da minha perspectiva, bros produtivos na sociedade. Na verdade, nós os punimos
a questão correta não é o que vamos fazer. O passado conta, em excesso nos EUA. Um relatório recente do ACLU (Uni-
independentemente dos reflexos que ele terá para o conde- ão Americana pelas Liberdades Civis) diz que mais de 3,1
nado. A questão errada a se fazer sobre uma pena de morte mil pessoas foram condenadas à prisão perpétua sem possi-
são as relacionadas a detenção, custos, incapacidade de ga- bilidade de recorrer por terem cometido crimes não violen-
rantir a segurança dos cidadãos no futuro. tos. Isso é terrível. Nós não devemos punir em exagero, tal
Estado. Como assim? como devemos aplicar a sentença que melhor condiz com o
Blecker. A Suprema Corte dos EUA tem dito, incorreta- crime. Para entender meu posicionamento sobre a pena de
mente, que a incapacidade de garantir essa segurança não morte, é preciso ver sobre esse grande número de casos que
pode ser uma justificativa para a pena de morte. Diz que te- não estamos diferenciando da maneira correta. Por um lado,
mos a habilidade e a obrigação de construir prisões para que nós não temos a punição adequada para o pior dos crimino-
possamos nos manter seguros desses indivíduos sem ter de sos. Por outro, estamos punindo com exagero aqueles que
matá-los. Na minha visão, você não pode justificar a pena oferecem menor ameaça.
de morte constitucionalmente pelo fato de que o agressor Estado. O que justifica o fato de que em alguns países onde
não atacará novamente. A detenção não fornece, na minha a pena de morte foi abolida haver um grande apoio à volta
visão, uma alternativa adequada para a pena de morte. Estou da punição, como na Grã-Bretanha?
convencido de que a pena de morte pode ter um efeito de Blecker. Apenas na última pesquisa de opinião, pouco me-
valor muito maior do que a detenção, que é a retaliação. Não nos da metade da população demonstrou apoio à pena de
estou dizendo que deveríamos executar em todos os casos, morte, mas por três décadas ela foi superior a 50%. É um
mas sim naqueles que merecem. Esta é a única justificativa: debate contínuo no mundo. Meu argumento é como os EUA
justiça. E algumas pessoas cometem alguns crimes hedion- são o único país civilizado a aplicar a pena de morte? Somos
dos, com uma atitude desprezível; elas merecem morrer, e a a única democracia do Ocidente que prevê a pena de morte.
vida na prisão não é um substituto adequado. Eu me baseio Bem, o fato é que os EUA são a única democracia ocidental
em milhares de horas de entrevistas feitas dentro de prisões, que está agindo qual democracia ocidental, porque cada país
todas documentadas. Isso é parte dum fenômeno profundo. europeu que teve, mas aboliu a pena de morte, com exceção
Estado. Como seria esse fenômeno? da Irlanda, tem uma maioria em apoio à pena capital. Isso é,
Blecker. No meu livro The death of punishment, falo sobre no mínimo, ditar às pessoas o que uma política de justiça
a morte da punição e não a “punição com a morte”. Talvez criminal deve ser.
seja irônico, mas, dentro das prisões nos EUA, não é função Estado. Pode explicar um pouco sobre os outros países?
de ninguém punir. Se você observar o comunicado interno Blecker. A Alemanha é exemplo interessante. Quando abo-
do Departamento de Correções, você não encontrará a pala- liu a pena de morte, o primeiro país europeu a fazer isso a-
vra “punição”. Em nenhum comunicado, em nenhum depar- pós a guerra, a história que ficou foi de que a opinião pública
tamento de correção nos EUA, você encontrará a palavra alemã estava tão enojada sobre o que foi feito em nome dos
“punição” ou sinônimo. Quando você entrevista os oficiais nazistas que ela agiu para abolir a pena de morte. Mas essa
e pergunta qual sua missão, dirão a mesma resposta: “segu- não é a história completa. A abolição da pena de morte no
rança”. Queremos manter as pessoas seguras desses caras, pós-guerra na Alemanha foi esforço combinado, mas não
os funcionários da prisão protegidos deles e os presos segu- por quem se opunha a ela e sim por pró-nazistas que queri-
ros deles mesmos. Quando se pergunta: você sabe o que eles am proteger os criminosos do nazismo. Por isso eles se mo-
fizeram? A resposta é: “eu não ligo para isso. Minha única bilizaram para defender o fim da pena de morte no país.

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Estado. O que aconteceria se Grã-Bretanha saísse da União Estado. A injeção letal está em xeque após as execuções de-
Europeia? sastrosas no estado de Oklahoma. O que o senhor acha dessa
Blecker. Hoje em dia, as pesquisas de opinião, por exemplo, polêmica?
na República Checa, mostram 60% de apoio à pena de mor- Blecker. Oklahoma acabou de adotar o gás nitrogênio como
te, o mesmo número na Polônia, 80% no Canadá, isso após método alternativo se a Suprema Corte considerar a injeção
décadas de abolição da pena de morte. Se a Grã-Bretanha letal um método inconstitucional. Mas é irônico que o se-
deixar a UE, haverá a restituição da pena de morte. Se a UE gundo método seja mais brando que o primeiro. Se a Supre-
se separar, você pode ter certeza de que verá a reinstituição ma Corte decidir contra Oklahoma, o estado já terá um se-
da pena de morte na República Checa, na Polônia e na Hun- gundo plano para poder continuar suas execuções. Eu recen-
gria. Os EUA não estão isolados, ao menos não em termos temente fui ao meu dentista e pedi para experimentá-lo, por-
de opinião pública. Isso tem sido imposto do topo. Se a Eu- que eu já sabia da discussão em Oklahoma. No dentista, é a
ropa quer realmente agir como uma democracia ou uma co- mesma coisa, só muda a dosagem e você pode escolher qual
leção de democracias, terá de restaurar a pena de morte. sabor da máscara que prefere: “morango safado”, “pêssego
Estado. O senhor diria que há uma incoerência entre o que pérola”, “menta intensa” ou, meu favorito, “laranja fora-da-
a opinião pública quer e o que fazem seus governos? -lei”. Enfim, experimentei o gás e dá um barato maravilho-
Blecker. Com certeza. Há incoerência entre opinião pública so, você fica flutuando, não se importa com nada. É sério,
e políticas públicas quando falamos sobre pena de morte. você simplesmente apaga. É um jeito maravilhoso de mor-
Estado. Como separar o debate da propaganda política? rer. Quer dizer, eu não quero morrer agora, mas se eu puder
Blecker. Isso explica grande parte da resposta relacionada escolher um jeito, será esse. Mas, para mim, isso é horrível,
ao tema e é muito infeliz que a pena de morte tenha se torna- é errado e, de jeito nenhum, é uma punição.
do uma associação com a extrema direita. Isso é muito ruim. Estado. Por que o senhor é contra a injeção letal?
O debate tem se tornado politizado. Na verdade, há grande Blecker. Críticos têm atacado o método das injeções, a que
apoio público para a pena de morte, em todo o espectro polí- também me oponho. Sempre fui contra esse método publi-
tico. Mas a extrema direita está tentando capitalizar isso, ca- camente por décadas. Sou uma das poucas vozes contra ele
pitalizando a opinião pública. Os líderes que estão em con- e sempre vou ser por uma única e simples razão: não porque
trole se opõem à pena de morte e a extrema direita a vê como ele não cause dor, mas, certamente, porque causa confusão.
questão boa para fazer oposição. E são espertos em fazê-lo. É uma punição anestesiada. Você não pode dizer a diferença
Estado. E os casos em que a pena de morte também tem si- entre punição e medicamento. Como detalho em meu livro,
do usada como objeto de repressão e abuso? testemunhei uma execução. Depois, quando meu sogro esta-
Blecker. A pena de morte tem sido objeto de um tremendo va morrendo de um câncer incurável e doloroso, eu estava
abuso. Ninguém nega isso. Pode ser ferramenta de política com ele em um hospital. Para aliviar sua dor intensa, deram
de repressão. São mortes políticas sob cobertura da lei. Mas a ele uma dose letal de analgésicos. A cena final foi tão simi-
não é justo argumentar que potencial abuso de poder contra lar à execução que testemunhei que achei bizarro. Em am-
o uso legítimo de poder. Temos um histórico de usar a pena bos os casos, eles foram enrolados em lençol branco, deita-
de morte como instrumento de opressão. Está em nossa his- dos em uma maca, com uma intravenosa em seus braços, ro-
tória e não pode ser ignorado. Mas é também instrumento deados por pessoas queridas e assistidos por médicos. Como
muito importante de justiça. Pode ser instrumento de racis- executamos pessoas que nós abominamos pelos seus crimes
mo, de opressão, mas também de Justiça. Estou falando, es- mais horríveis da mesma maneira que eliminamos a dor das
pecificamente, sobre a história dos EUA antes do movimen- pessoas que amamos? E Oklahoma irá mais longe com o gás
to pelos direitos civis. Em um ponto, havia códigos legais nitrogênio. É pior do que a injeção.
separados para negros e brancos, e a pena de morte foi usada Estado. E quais, entre os métodos legalizados nos EUA, o
como instrumento de opressão, especialmente para homens senhor defende?
que estupravam mulheres brancas. Foi horrível, mas não e- Blecker. Provavelmente, o pelotão de fuzilamento.
xiste mais. Estado. Existe um Estado que aplica esse método?
Estado. Mas há os casos em que a Justiça erra. Como expli- Blecker. Sim, Utah prevê o pelotão em dois casos. Eles cos-
car o fato de tantas pessoas nos EUA serem inocentadas, por tumavam ter o pelotão como primeiro método de execução.
exames de DNA, após anos no corredor da morte? Quando uma pessoa que tivesse cometido assassinato e fos-
Blecker. Há certa ironia nessa questão. Em razão das conde- se condenada, teria o direito de escolher. Agora, os legisla-
nações à pena de morte, nós temos descoberto, em um grau dores trouxeram isso de volta como método secundário. Se
muito maior, que pessoas têm sido condenadas erroneamen- a Suprema Corte derrubar a injeção letal, Utah voltará, ime-
te. Mas muito mais pessoas têm sido mandadas para a prisão diatamente, ao pelotão de fuzilamento. Já está aprovado. O-
perpétua e ninguém quer saber se elas são inocentes. Na ver- klahoma deveria ter feito isso em vez de aprovar o gás nitro-
dade, uma das grandes ironias sobre a pena de morte é o fato gênio com seus sabores. Não sei se darão a escolha de sabo-
de ela aumentar as chances de revermos casos daquelas pou- res das máscaras aos prisioneiros, mas por que não? Se você
cas pessoas que foram, erroneamente, condenadas. É muito quer fazer desse processo o mais prazeroso possível, tornar
mais provável que, se você for inocente, mas condenado por a morte a mais prazerosa possível, faça direito. Obviamente,
assassinato, que seja inocentado se for condenado à morte. eu não apoio isso.
A defesa é mais efetiva, e as apelações, muito mais cuidado-
sas. As pessoas se preocupam e investigam mais cuidadosa- ROBERT BLECKER, professor (New York Law School).
mente. A corte de apelação irá olhar com mais cuidado, há
mais níveis para garantir as apelações e advogados melhores (O Estado de S. Paulo, “Internacional”, 18.05.2015)
serão fornecidos se você for pobre. A grande ironia é, se vo-
cê realmente se preocupar em não punir inocente, acontece
menos em casos de pena de morte do que prisão perpétua.

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como justificativa para penas capitais. Egito e Nigéria fo-
ram responsáveis pelo aumento de quase 500 sentenças de
morte decretadas em 2014, em comparação a 2013. Nos dois
países, que vivem contextos marcados por conflitos internos
e instabilidade política, houve condenações em massa. “Os
governos que utilizam a pena de morte para combater o cri-
me estão se iludindo. Não há evidências que mostram que a
ameaça de execução é impedimento ao crime mais eficiente
do que qualquer outra punição”, diz Salil Shetty, secretário-
-geral da Anistia Internacional, em comunicado divulgado
Pena de morte cresceu 28% em 2014, diz ONG pela entidade, em cujo relatório, sem apresentar números, a-
firma acreditar que, todo ano, milhares de pessoas na China
Wilson Tosta são condenadas à morte e executadas. Isso também teria
ocorrido em 2014, o que, novamente, colocaria o Estado
Em todo o mundo, 2466 pessoas foram condenadas chinês na liderança do ranking. Em seguida, vem o Irã, on-
à morte em 2014, segundo relatório da Anistia Internacional de, além das 289 execuções anunciadas oficialmente, teria
divulgado na terça-feira. O número representa um aumento havido pelo menos mais 454 penas capitais cumpridas e não
de 28% em relação a 2013. O texto aponta, porém, que ocor- reconhecidas pelas autoridades. Outros países líderes foram
reram menos execuções no ano passado do que no anterior. Arábia Saudita (ao menos 90 executados), Iraque (ao menos
Foram 607, queda de 22% com relação a 2013. O país com 61) e EUA (35). Há 20 anos, a Anistia Internacional regis-
mais penas capitais cumpridas e oficialmente divulgadas foi trou execuções em 41 países – um contraste com os 22 de
o Irã, com 289 casos. Os números não incluem a China, on- 2014. Isso mostra uma tendência global para abolição da pe-
de o assunto, segundo a AI, é segredo de Estado. Lá, diz a na de morte, avalia, em tom otimista, a organização. A AI
entidade, houve mais execuções no período do que em todos considera preocupante o que afirma ser “tendência de go-
os demais países somados. Nos dois anos comparados, o nú- vernos” recorrerem à pena capital para enfrentar problemas
mero de países em que condenações à morte foram cumpri- de segurança nacional. O fenômeno, de acordo com a enti-
das não se alterou. Foram 22, mas não os mesmos, afirma a dade, foi percebido em China, Paquistão, Irã e Iraque. Nes-
AI em seu relatório “Sentenças de morte e execuções 2014”. ses locais, houve muitas execuções de acusados de terroris-
“Sete países que mataram, em 2013, não o fizeram em 2014 mo. O Paquistão retomou a pena após um ataque do Taleban
(Bangladesh, Botsuana, Indonésia, Índia, Kuwait, Nigéria e a uma escola em Peshawar, em dezembro. Em 2014, os mé-
Sudão do Sul), ao passo que outros sete retomaram as exe- todos de execução incluíram decapitação, enforcamento, in-
cuções (Bielorrússia, Egito, Guiné Equatorial, Jordânia, Pa- jeção letal e fuzilamento; muitos crimes não letais foram pu-
quistão, Cingapura e Emirados Árabes Unidos)”. Segundo nidos com sentença capital. A lista inclui roubo, crimes con-
o texto, “em 2009, a Anistia deixou de publicar suas estima- tra a economia e relacionados a drogas. Também houve con-
tivas sobre o uso da pena de morte na China”. Em vez disso, denados à morte por “blasfêmia”, “feitiçaria” e “adultério”,
a organização afirma estar desafiando “as autoridades chi- além de acusações de supostos crimes comuns cometidos
nesas a provar suas alegações de que estão atingindo seu ob- por opositores políticos.
jetivo de reduzir aplicação da pena de morte”. Os combates
a terrorismo, crime e instabilidade interna foram usados, de (O Estado de S. Paulo, “Internacional”, 02.04.2015)
acordo com a Anistia, por “um número alarmante de países”

Código Penal Militar c) detenção;


d) prisão;
Parte Geral e) impedimento;
Livro Único f) suspensão do exercício do posto, graduação, cargo ou
Título V função;
Das penas g) reforma.
Capítulo I
Das penas principais Art. 56. A pena de morte é executada por fuzilamento.

Art. 55. As penas principais são: Art. 57. A sentença definitiva de condenação à morte é co-
municada, logo que passe em julgado, ao Presidente da Re-
a) morte; pública, e não pode ser executada senão depois de sete dias
b) reclusão; após a comunicação.

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Parágrafo único. Se a pena é imposta em zona de opera-
ções de guerra, pode ser imediatamente executada, quando
o exigir o interesse da ordem e da disciplina militares. [...].

Art. 81. A pena unificada não pode ultrapassar de trinta a-


nos, se é de reclusão, ou de quinze anos, se é de detenção.
§ 1º A pena unificada pode ser diminuída de um sexto
a um quarto, no caso de unidade de ação ou omissão, ou de
crime continuado.
§ 2° Quando cominada a pena de morte como grau má-
ximo e a de reclusão como grau mínimo, aquela correspon-
de, para o efeito de graduação, à de reclusão por trinta anos.
§ 3° Nos crimes punidos com a pena de morte, esta cor-
responde à de reclusão por trinta anos, para cálculo da pena
aplicável à tentativa, salvo disposição especial. [...].

Art. 350. Auxiliar a subtrair-se à ação da autoridade autor


de crime militar, a que é cominada pena de morte ou reclu-
são: pena – detenção, até seis meses.

(CASA CIVIL. Código Penal Militar, 21.10.1969)

justiça s.f. (sXIII) 1 qualidade do que está em conformida-


de com o que é direito; maneira de perceber, avaliar o que é
direito, justo <não há como questionar a j. de sua causa> 2
o reconhecimento do mérito de alguém ou de algo <a histó-
ria ainda há de fazer-lhe j.> 3 conjunto de órgãos que for-
mam o poder judiciário 4 o conjunto de pessoas que partici-
pam do exercício da justiça <a j. vem reivindicando melho-
res salários> 5 cada uma das jurisdições encarregadas de
administrar a justiça <J. Civil> <J. Militar> fazer j. pelas
próprias mãos tomar a si o encargo de julgar e punir; vin-
gar-se USO inicial maiúsc. quando denota a instituição (a
Justiça do Distrito Federal) ou quando us. em sentido abso-
luto (a Paz e a Justiça são bens por todos desejados) ETIM
lat. iustitia,ae “justiça, equidade” ANT injustiça HOM justi-
ça (fl. justiçar).

vingança s.f. (sXIII) ato ou efeito de vingar(-se) 1 ato lesi-


vo, praticado em nome próprio ou alheio, por alguém que
foi real ou presumidamente ofendido ou lesado, em represá-
lia contra aquele que é ou seria o causador desse dano; des-
forra, vindita 2 qualquer coisa que castiga; castigo, pena,
punição <seria esta doença uma v. por suas crueldades> ter
a v. no coração alimentar grande desejo de se vingar ETIM
vingar + -ança SIN/VAR desforço, desforra, desforro, des-
pique, represália, retaliação, revindita, saldo, vendeta, vin-
dita; (cog.) vingação.

(HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. In: Dicio-


nário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Ob-
jetiva, 2009, p. 1141; 1947).

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