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05/05/2018 Marcião de Sinope – Wikipédia, a enciclopédia livre

Marcião de Sinope
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Marcião de Sinope - ou Marcion - (em grego: Μαρκίων Σινώπης; c. Marcião de Sinope
85 – 160) foi um dos mais proeminentes heresiarcas durante o
Cristianismo primitivo.[1] A sua teologia chamada marcionismo
propunha dois deuses distintos, um no Antigo Testamento e outro no
Novo Testamento, foi denunciada pelos Pais da Igreja e ele foi
excomungado. Curiosamente esta separação será posteriormente
adoptada pela igreja e utilizada a partir de Tertuliano,[2] assim como a
sua rejeição de muitos livros que seus contemporâneos consideravam
como parte das escrituras mostrou à Igreja antiga a urgência do
desenvolvimento de um cânon bíblico.

Índice Nascimento c. 85
Vida
Morte 160 (c. 74 ou 75 anos)
Ensinamentos
Teologia
Obras
Marcião e o Gnosticismo
Primeiro cânon bíblico
Legado
Referências
Ligações externas
Bibliografia

Vida
Hipólito relata que Marcião era filho de um bispo na cidade de Sinope, na província romana do Ponto (atualmente na
Turquia).[3] Seu contemporâneo Tertuliano o descreve como um proprietário de barcos.[4] Marcião provavelmente foi
consagrado bispo, provavelmente um assistente ou um sufragâneo de seu pai em Sinope[4]

Quando encontrou-se com ele, Policarpo de Esmirna chamou-o de "primogênito de satanás" segundo Jerônimo.[5]
Epifânio afirma que após um começo como um asceta, ele seduziu uma virgem e foi excomungado por seu pai, fazendo
com que ele deixasse a sua cidade natal.[6] Este relato já foi contestado por estudiosos, que o consideraram como
"fofoca maliciosa". Mais recentemente, Bart D. Ehrman sugeriu que esta "sedução de uma virgem" seria uma metáfora
para a sua corrupção da Igreja cristã, sendo esta a virgem não deflorada.[7]

Marcião viajou para Roma em 142-143 d.C.[8] Nos anos seguintes, Marcião desenvolveu seu sistema teológico e atraiu
um grande grupo de seguidores. Ele fez uma notável doação de 200 000 sestércios para a Igreja.

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Quando os conflitos com os bispos de Roma começaram, Marcião organizou seus seguidores em uma comunidade
separada. Ele foi consequentemente excomungado pela Igreja de Roma e sua doação foi devolvida. Após sua
excomunhão, ele retornou para a Ásia Menor, onde continuou a propalar o marcionismo.

Ensinamentos

Teologia
O estudo das Escrituras judaicas juntamente com outros escritos que circulavam na época da igreja nascente (a
maioria foi eventualmente incorporada no Cânone do Novo Testamento) levaram Marcião a concluir que muitos dos
ensinamentos de Jesus Cristo eram incompatíveis com as ações de Deus no Antigo Testamento. A resposta dele para
este paradoxo foi o desenvolvimento de um sistema dualista por volta do ano 144 d.C.[8] Esta noção dual de Deus
permitiu que Marcião reconciliasse as supostas contradições entre a teologia da Antiga Aliança e a mensagem de Boas
Novas.

Marcião afirmava que Jesus Cristo era o salvador enviado por Deus Pai, com Paulo como seu principal apóstolo. Ao
contrário da nascente igreja, Marcião declarava que o Cristianismo era distinto e oposto ao Judaísmo. Marcião,
contrário ao que muitos acreditam, não afirmou que a Bíblia e as escrituras judaicas eram falsas. Ele acreditava e
argumentava que ela deveria ser lida de maneira absolutamente literal, provando assim que YHWH não era o mesmo
Deus a quem Jesus se referia. Um exemplo: no Gênesis, quando YHWH está andando no jardim do Éden perguntando
onde estava Adão, Marcião interpretava isso como se YHWH tivesse literalmente andando através do jardim em
alguma forma de corpo físico e que literalmente não sabia onde estava Adão «Deus Jeová chamou ao homem, e
perguntou-lhe: Onde estás?» (Gênesis 3:9). Ele argumentava que isso provaria que YHWH poderia habitar um corpo
físico (algo que o Pai jamais faria) e que YHWH também era capaz de ser ignorante, algo completamente diferente do
Pai a quem Jesus se referia.

O Deus do Antigo Testamento, o Demiurgo, a Divindade criadora do mundo material seria então uma divindade tribal
invejosa dos judeus, cuja Lei representaria a justiça recíproca legalista e que pune a humanidade por seus pecados com
sofrimento e morte. Já o Deus a quem Jesus se refere seria um ser completamente diferente, um Deus universal de
compaixão e amor e que olha para a humanidade com compaixão e piedade.

Marcião afirmava que Jesus era o filho do Deus Pai, mas entendia a encarnação de maneira docética, ou seja, de que o
corpo de Cristo era apenas uma imitação de um corpo material. Ele acreditava que Cristo na crucificação pagou a
dívida de pecado que humanidade tinha, absolvendo-a e permitindo que ela então herdasse a vida eterna.[9]

Obras
Marcião propôs um cânon bíblico. Porém, seu cânon só tinha onze livros agrupados em duas seções, o Evangelho, uma
versão do Evangelho de Lucas[10] e dez cartas do "apóstolo", ou seja, de Paulo, a quem ele considerava como o mais
correto intérprete e transmissor da mensagem evangélica de Jesus. Ambas as seções também foram purgadas de
elementos relacionados à infância de Jesus, a religião judaica e outros materiais que contestavam a sua teologia
dualista.

Marcião também produziu uma obra chamada Anthiteses, que contrastava o Demiurgo com o Deus Pai.

Marcião e o Gnosticismo
Marcião é às vezes chamado de o filósofo do Gnosticismo. Em alguns aspectos essenciais, ele propôs ideias que se
alinham bem com o pensamento gnóstico. Assim como eles, Marcião argumentava que Jesus era essencialmente um
espírito aparecendo aos homens e não totalmente humano.[9]

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Porém, o marcionismo conceitualiza Deus de uma maneira que não é totalmente conciliável com o Gnosticismo. Para
estes, todos os humanos nascem com uma pequena parte da alma divina alojada dentro de seu espírito (similar à
noção da "fagulha divina").[9] Deus está, portanto, intimamente conectado a uma parte de Sua criação. A salvação é
alcançada ao abandonar o mundo físico (que os gnósticos afirmam que é uma ilusão para aprisionar esta parte de
Deus) e abraçar estas qualidades divinas que estão dentro de cada pessoa.[9] Já Marcião, contrariamente, afirma que
Deus Pai seria um Deus completamente fora do mundo material. Ele não participou da criação do mundo material
(uma criação do Demiurgo) e nem tem conexão alguma com ele. Ele intervém para salvar a humanidade por
compaixão apenas.

Primeiro cânon bíblico


Marcião figura entre os primeiros heréticos de renome na história da igreja
nascente. Sua interpretação alternativa da vida e ministério de Jesus Cristo
ajudou a inspirar a noção de que certas teologias deveriam ser sancionadas
como "ortodoxas" e outras, como "heréticas" – um conceito até então
desconhecido nos círculos eclesiásticos. Reagindo à popularidade da seita
recém-fundada de Marcião, a igreja começou então a sistematizar um
conjunto de crenças que seriam consideradas ortodoxas por todo o
Cristianismo. Marcião mostrando seu cânon.

Marcião foi o primeiro líder cristão a propor e delinear um cânon bíblico. Ao


fazê-lo, ele estabeleceu uma maneira particular de avaliar os textos religiosos que persiste no pensamento cristão até
hoje. Após Marcião, os cristãos passaram a dividir os textos entre os que se alinhavam bem com um "régua de medida"
(em grego: kanōn) de pensamento teológico aceito, e os que promovem a heresia. Esta bifurcação essencial teve um
papel essencial na finalização da estrutura da coleção de obras chamada "Bíblia", uma vez que o ímpeto inicial para
finalizar o cânon surgiu justamente da oposição à proposta de Marcião.

Legado
A igreja que Marcião fundou se expandiu por todo o mundo conhecido na época durante a sua vida e foi uma séria
rival para o Cristianismo. Seus aderentes eram fortes o suficiente em suas convicções para manter o extenso poder da
igreja por mais de um século. Ela sobreviveu à controvérsia cristã e à desaprovação imperial por muitos séculos.[11]

Algumas ideias similares às de Marcião reapareceram entre os bogomilos da Bulgária no século X e entre os cátaros do
Languedoque, no sul da França, no século XIII.

Referências
5. "De Viris Illustribus - Polycarp the bishop", em
1. Tertuliano. «1». Contra Marcião (http://www.newadve
inglês.
nt.org/fathers/03121.htm). Preface. Reason for a New
Work. Pontus Lends Its Rough Character to the 6. Epifânio de Salamis (Epif). Panarion, XLII, ii.
Heretic Marcion, a Native. His Heresy Characterized 7. Bart D. Ehrman,Lost Christianities (em inglês)
in a Brief Invective. (em inglês). I. [S.l.: s.n.] 8. Tertuliano afirma que os ensinamentos de Marcião
2. Frédéric Lenoir - Comment Jésus est devenu Dieu - começaram 115 anos após a crucificação de Jesus,
Livre de Poche - Pg.159 - ISBN 978-2-253-15797-7 que ele também afirma ter ocorrido e 26-27 d.C. em
3. BERNARD SESBOUE; J. WOLINSKI. O Deus da Tertuliano. «19». Contra Marcião (http://www.newadv
salvação (http://books.google.com/books?id=VpLtuLd ent.org/fathers/03121.htm). Jesus Christ, the
brb8C&pg=PA39). [S.l.]: LOYOLA. pp. 39–. Revealer of the Creator, Could Not Be the Same as
ISBN 978-85-15-02038-6. Consultado em 19 de abril Marcion's God, Who Was Only Made Known by the
de 2013 Heretic Some CXV. Years After Christ, and That, Too,
on a Principle Utterly Unsuited to the Teaching of
4. "Marcionites" na edição de 1913 da Enciclopédia
Jesus Christ, I.e., the Opposition Between the Law
Católica (em inglês). Em domínio público. and the Gospels. (em inglês). I. [S.l.: s.n.].

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9. Harnack, Adolph (1924). Marcion: The Gospel of the canônico Lucas pode ter sido uma resposta ao
Alien God (em inglês). [S.l.: s.n.] Evangelho de Marcião.
10. Tyson, Joseph B. Marcion and Luke-Acts: A Defining 11. Tertuliano (1972). Evans, Ernest, ed. Contra Marcião
Struggle (em inglês). [S.l.: s.n.] contradiz a visão (http://www.tertullian.org/articles/evans_marc/evans_
majoritária de que o Evangelho de Marcião seria marc_00index.htm). comments and translation (em
baseado em Lucas, opinando ao invés disso que o inglês). [S.l.]: Oxford University Press. pp. ix

Ligações externas
Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público. - «Marcião» (ht
tp://encyclopedia.jrank.org/MAL_MAR/MARCION.html) (em inglês). Encyclopædia Britannica (11ª edição).
Consultado em 15 de janeiro de 2011

Este artigo incorpora texto do verbete Marcion, a 2nd cent. heretic no "Dicionário de Biografias Cristãs e
Literatura do final do século VI, com o relato das principais seitas e heresias" (em inglês) por Henry Wace (1911),
uma publicação agora en domínio público.

«Marcionite Research Library» (http://library.marcionite-scripture.info/) (em inglês). library.marcionite-


«Tertullian, De Carne Christi (Latin and English), 1956» (http://www.tertullian.org/articles/evans_carn/evans_carn_
00index.htm) (em inglês). www.tertullian.org
«EarlyChurch.org.uk on Marcion» (http://www.earlychurch.org.uk/marcion.php) (em inglês).
www.earlychurch.org.uk
«Versão marcionita de Gálatas (reconstruído)» (http://www.gnosis.org/library/marcion/Galatian.htm) (em inglês).
www.gnosis.org
«Joseph B. Tyson, Anti-Judaism in Marcion and his Opponents» (http://escholarship.bc.edu/cgi/viewcontent.cgi?a
rticle=1016&context=scjr) (em inglês). escholarship.bc.edu

Bibliografia
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Knox, John. Marcion and the New Testament 1942 ISBN 0-404-16183-9 (em inglês)
Francis Legge, Forerunners and Rivals of Christianity, From 330 B.C. to 330 A.D. (1914), reprinted in two
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Riparelli, Enrico, Il volto del Cristo dualista. Da Marcione ai catari, Peter Lang, Bern - Berlin - Bruxelles - Frankfurt
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Williams, David Salter. "Reconsidering Marcion's Gospel", Journal of Biblical Literature 108 (1989), p. 477-96 (em
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Wilson, R. S. Marcion: A Study of a Second-Century Heretic (London:Clarke) 1933 (em inglês)

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