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O CREPÚSCULO DOS RESENHISTAS

Reproduzido a partir de ENZESBERGER, Hans Magnus. O crepúsculo dos


resenhistas. In:__. Mediocridade e Loucura e outros ensaios. Trad. Rodolfo
Krestan. São Paulo, Ática, 1995

Desde quando existem críticos? Desde quando eles deixaram de existir? As profissões e seus
nomes aparecem e desaparecem; como figuras na divisão de trabalho, eles são sujeitos a obscuras
regras de evolução cultural. Reconhecemos essa situação e a aceitamos, pelo menos em termos
genéricos. É apenas no nosso próprio ofício que as coisas são um pouco diferentes. É extremamente
difícil para nós acreditar que somos dispensáveis! No entanto, basta pensarmos no mineiro das
salinas, no fabricante de espadas – para onde eles sumiram? -, no homem que faziam cestos, no que
fundia latão, no fabricante de agulhas ou de esporas. É possível que, sem que nos déssemos conta, o
mesmo tenha acontecido conosco. Uma extinção brutal, completa e abrupta costuma ser a exceção.
Transições graduais, transformações imperceptíveis – é assim que as coisas costumam acontecer. As
quantidades nas espécies ameaçadas vão diminuindo num processo dificilmente percebido pelo
restante do mundo, até que o último desapareça. É perfeitamente imaginável que num futuro
próximo perguntemos o que aconteceu com o crítico, o resenhista. Eles estavam lá, há questão de
momentos… ou teriam sido frutos de nossa imaginação?
Dizem que existem autores que continuam se queixando dos seus críticos. Por mera questão
de hábito, eles continuam uma controvérsia que nunca foi particularmente produtiva. A história da
literatura fornece exemplos suficientes de que cachorros se mordem mutuamente. Nos dias de hoje
já não existem mais motivos para se continuar com essa disputa inevitável mas entediante. O
modesto resultado pode ser resumido numa única frase: a difamação literária não é um dos crimes
mais promissores.
Os lamentos seriam até mais improdutivos que os insultos. Quem elogia os bons e velhos
tempos sempre encontra quem o escute, mas nunca conseguiu explicar coisa alguma. É possível
que, em tempos passados, houvesse encanadores capazes de soldar direito dois pedaços de cano e
editores que conhecessem as regras da gramática alemã. Se estes habilidosos profissionais deixaram
de existir, isso não significa necessariamente que a responsabilidade seja da decadência moral
generalizada ou do declínio da civilização.
O fato é que existem cada vez menos lacaios e mais terapeutas, assim como a quantidade de
consultores de investimentos está aumentando, ao mesmo tempo que diminui a de carregadores de
malas. Deve haver causas mais óbvias e tangíveis para isso. O mesmo também é válido para a
figura do crítico e de sua sombra, o resenhista. O desaparecimento histórico deles já não pode mais
ser mantido em segredo.
Perguntam-nos se estamos falando sério… Exigem-se definições… Qual é o significado de
um crítico?… E de um resenhista?… O que quer dizer desaparecimento? Ouvimos declarações
veementes de que ocorre exatamente o contrário: nunca no decorrer da história tantas coisas foram
comentadas por tanta gente quanto nos dias atuais! Nós concordamos com isso. Reconhecemos que
as estatísticas depõem contra nós, que não temos à disposição definições convincentes e que
também, ao mencionarmos a palavra crítico, estamos pensando mais num tipo ideal que num grupo
sociologicamente definível. temos a impressão de que o surgimento do crítico esteve relacionado à
ascensão da sociedade burguesa, como se ele tivesse dominado essa sociedade desde que ela passou
a acalentar a idéia de que a discussão pública das normas culturais seria algo de importância
essencial, ou seja, mais ou menos de Boileau a Sartre, de Samuel Johnson a Edmund Wilson, de
Lessing a Benjamin, de Belinsky a Shklovsky.
O que caracteriza esses fabulosos animais intelectuais? O que eles têm em comum? A lenda
diz – e isso é confirmado pela leitura dos textos que deixaram – que eram escritores que escreviam
sobre livros de outros escritores. Além disso, esses críticos teriam sido pessoas independentes, que
deviam seu significado unicamente a suas obras, não a alguma instituição ou a uma indústria, a cujo
serviço teriam se colocado. Aparentemente, o ensaio era seu formato predileto e as revistas, seus
veículos favoritos. Dizem que eles sabiam exatamente o que queriam – que eram espíritos
obstinados e pouco confortáveis, à procura de resultados a longo prazo, não de efeitos rápidos.
É óbvio que o crítico, nesse sentido antigo, já não tem importância alguma. É possível que
em algum lugar ainda se encontre um remanescente, provavelmente um senhor de idade que tenha
hibernado num recanto remoto de uma estação de rádio ou numa editora conservadora. No entando,
mesmo se este fóssil vivo fosse um prodígio de talento, de discernimento e de incorruptibilidade,
ele já teria perdido uma coisa antes mesmo de abrir a boca: a posição central, a autoridade que o
crítico da velha escola garantia para si mesmo.
Ele sumiu do palco da sociedade porque não é mais necessário, porque a literatura sobre a
qual falava também perdeu seu significado generalizado. A literatura é livre, mas não pode legitimar
ou questionar a constituição do todo; permite-se que ela faça tudo, mas nada continua dependendo
dela. Nessas circunstâncias, a militância do crítico clássico passa a ser vazia; suas estratégias a
longo prazo parecem ser anacrônicas; sua influência se evapora no desinteresse de um mercado
pluralista que está pouco ligando em saber as diferenças entre Dante e o Pato Donald; sua
autoridade nem sequer é desafiada – ela simplesmente mostra ser supérflua.
Provavelmente é uma grande pena que tudo seja assim. No entanto, será difícil afirmar que
os escritores tenham ficado muito tristes com o desaparecimento do crítico. Calmamente, eles
continuam a escrever. Não existe qualquer perigo de um declínio na produção de materiais
impressos. Pelo contrário, pode-se partir da premissa de que o volume da indústria editorial
aumenta no mesmo ritmo que a quantidade de analfabetos secundários. A única questão é saber
quem deverá administrar a distribuição e o consumo dessas inúmeras obras impressas.
Dois profissionais tradicionais, que entenderam como acompanhar os tempos, se intalaram
no local deixado vago pelo crítico: os agentes de circulação e os professores. Os primeiros
pertencem principalmente à esfera da economia de mercado livre, e os últimos formam a sólida base
da cultura estatizada.
Por motivos desconhecidos, escolas, universidades e academias sempre se interessaram pela
literatura. No decorrer dos séculos, esse antigo costume teve conseqüências extremamente curiosas.
Atualmente, para cada poeta devem existir uns sessenta e seis acadêmicos ocupados em pesquisar e
interpretar seus textos. Se imaginarmos uma sociedade na qual, por trás de cada padeiro, existisse
uma centena de pesquisadores de padaria pagos com verbas públicas, seremos capazes de imaginar
a intensidade da pressão competitiva que teria de se formar nesse caso. Como a quantidade dos
autores mortos é finita e a impetuosidade dos pesquisadores não tem limites, foi inevitável que os
departamentos de alemão se voltassem para autores vivos, de modo que atualmente qualquer obra,
tão logo seja impressa, imediatamente se torna tema de teses, ensaios e exercícios escolares.
Dessa maneira, formou-se um círculo fechado de produção, distribuição, leitura, comentário
e interpretação, uma esfera pública secundária, que tem a vantagem de ser independente de todos os
desejos e caprichos do público, institucionalmente segura e permanentemente subsidiada. Mas não é
apenas o cargo público que diferencia o acadêmico do crítico. O professor pode alegar um status
acadêmico para suas observações, e isso significa que os dons e talentos literários são supérfluos.
Quanto ao agente de circulação, o irmão gêmeo na esfera privada do acadêmico, alguém que
certamente deve ter conhecido tudo a seu respeito, Honoré de Balzac, o descreveu detalhadamente
há mais de um século e meio. (O termo marxista talvez não seja gracioso, mas é exato.) Sua obra
Ilusões perdidas forma a base existencial do agente de circulação. Em primeiro lugar, ele precisa
compreender que a independência não pode ser desejável para ele, sendo apenas um obstáculo, pois,
como “colaborador livre”, ele seria apenas alguém mal remunerado. Sua única saída está em
assumir a servidão. Não o que ele escreve, mas o poder da instituição, da empresa, da “casa”, pode
assegurar-lhe uma posição de status. Suas opiniões contam menos que o tamanho da edição ou o
índice de audiência que consegue atingir.
Para o pranteado crítico, a literatura era um conjunto de textos que ele amava ou odiava, que
admirava ou desprezava. O agente de circulação, por sua vez, não está interessado pelo texto, mas
sim pela tendência que ele lê nas suas entranhas. O vencedor é aquele que consegue ser o primeiro a
anunciar a tendência; o perdedor é o último a repetir o que foi anunciado. É assim que o setor forma
suas opiniões, sempre dividido entre a neurose da imagem e a imitação compulsiva. Quanto mais
atuais as opiniões, tanto mais curtas são suas vidas. E quanto à memória, esta pode facilmente ser
substituída pelo calendário. Num mesmo sábado, em todos os suplementos culturais encontramos o
mesmo pensativo autor clássico, pelo simples fato de ele ter nascido ou morrido há duzentos anos.
O uníssono é ensurdecedor.
De quem está constantemente embaraçado com o in e o out de uma porta giratória, mas se
pode esperar que seja capaz de construir uma frase normal em alemão. O único modo de se formar
uma imagem daquilo que assumiu o antigo lugar da crítica literária é procurando – poruco
importando quão difícil isso possa parecer ser – as páginas dedicadas à resenha de livros nos jornais
mais sérios. Uma única publicação forneceu os seguintes achados:
“A transmutação e a continuidade da existência num mundo fictício é a linha mestra
que atravessa o livro. Com critérios textuais quase desagradavelmente escrupulosos em
relação ao que já foi escrito, “A” investiga o corpo do idioma. É esta – e apenas esta –
dimensão que faz sua arte ter uma aparência subversiva. “B” faz questão de manter seus
textos escrupulosamente abertos para todos os planos da realidade. É nisto que estão suas
principais características. Se ele escrevesse de forma menos incisiva, poderíamos passar
para coisas mais importantes. Como ele se rebela contra isto, “C” se torna visível de
forma inconfundível. No entanto, tenho dificuldades em refazer isto. Afinal, quantas
verdades possíveis se opõem a uma realidade? Cada um certamente enfatizará coisas de
um modo ligeiramente diferente. Alguns detalhes não parecem perfeitamente esboçados,
permanecendo como fragmentos. As duas ou três vezes em que contive o riso foram
provocadas por motivos distantes da política. Um questionamento crítico em relação às
observações de “A” está em saber se ele avança o suficiente. Seria se desejar que a
passagem com “B” fosse mais detalhada. O tom básico adotado conjura, sem muita
confiança, restos dos quais o futuro terá de se originar. Talvez esta meta venha a ser
atingida. De certa forma, este livro se encontra a caminho de um encontro consigo
mesmo.”
Observações deste tipo permitem apenas a conclusão de que para todos os participantes é
uma questão de indiferença total saber quem “resenha” o quê, como, onde e com que finalidade. O
ponto mais importante não é a constatação de que existem idiotas e fanfarrões entre os resenhistas,
mas sim o fato de que a forma da resenha já não pode mais ser salva. O jornalista literário está
vivendo da substância que lhe foi legada pelo crítico. E quando esta tiver sido consumida, sobrarão
apenas palavras vazias.
Os suplementos literários dominicais já parecem ser obsoletos. Nas redações das revistas, a
cultura há muito tornou-se um mero apêndice da editoria de variedades; na Der Spiegel, resenhas de
livros são publicadas apenas esporadicamente; a editoria de cultura está ocupada demais em
anunciar as mais novas tendências do design automobilístico, do consumo de bebidas, da
ginecologia e da moda étnica. Tipos de textos mais lapidares substituem as resenhas: orelhas de
livros, as listas de indicações de obras mais vendidas, os comerciais de televisão. O lugar do
resenhista, que continua lendo e escrevendo, apesar de não conseguir sucesso em nenhuma dessas
atividades, passa a ser ocupado por outros agentes de circulação que não precisam se submeter a
esses tormentos: divulgadores na mídia, entrevistadores, videomakers – pessoas que reconheceram
institivamente um fato básico: o que incomoda, o que realmente é desagradável na indústria literária
é o texto, o livro, a literatura.
Bem, chegamos assim ao ponto final do nosso pequeno relatório a respeito da situação.
Talvez ele não tenha muita verve polêmica, mas é difícil se excitar com algo que está simplesmente
se deteriorando. No entanto, no que diz respeito à literatura, não gostaríamos se ser acusados de
pessimismo. Ela não “depende” de alguém escrever “resenhas”. A era burguesa lhe concedeu –
temporariamente – uma posição central no palco público; nos seus tempos de apogeu, a crítica
literária justificava e defendia essa posição. Ela fracassou honradamente, o que não pode ser dito a
respeito dos seus sucessores. A literatura voltou a ser o que era desde o início: uma preocupação da
minoria.
Essa redução à sua verdadeira escala também representa um certo alívio. Os escritores
podem desmanchar as máscaras representativas que usaram por tanto tempo. O verdadeiro público
real, uma minoria de dez ou vinte mil pessoas que não se deixam enganar, há muito tempo deixou
de acompanhar o espetáculo grosseiro da grande mídia. Esse público forma suas opiniões de
maneira independente do blábláblá das resenhas e dos programas de entrevistas, e o único tipo de
publicidade no qual ele acredita é a propaganda boca a boca, que, além de ser gratuita, jamais
poderia ser paga.