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Nossa Revista do Memorial da América Latina N°52 - Ano 2015 | 1° semestre - R$9,00

EDUARDO GALEANO
1940-2015 3
www.memorial.org.br
AV. AURO SOARES DE MOURA ANDRADE, 664
01156-001 - SÃO PAULO SP (11) 3823.4600

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Nossa Revista do Memorial da América Latina N°52 - Ano 2015 | 1º semestre - R$ 9,00

Número 52
ISSN 0103-6777

EDITORIAL
04 JOÃO BATISTA DE ANDRADE

ENTREVISTA
06 ERIC NEPOMUCENO

COMENTÁRIO
14 LEONOR AMARANTE

HOMENAGEM
16 EDUARDO GALEANO

ESPORTE
20 JOSÉ ROBERTO TORERO

LEMBRANÇA
24 ERIC NEPOMUCENO

MEIO AMBIENTE
GOVERNADOR REVISTA NOSSA AMÉRICA 28 TÂNIA RABELLO
GERALDO ALCKMIN
DIRETOR

SECRETÁRIO DA CULTURA
JOÃO BATISTA DE ANDRADE
MARCELO MATTOS ARAÚJO EDITORA EXECUTIVA/DIREÇÃO DE ARTE PENSAMENTOS
LEONOR AMARANTE
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ALMINO MONTEIRO ÁLVARES AFFONSO EVERTON SANTANA (COLABORADOR)
31 MARGARITA VICTORIA GOMEZ
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TRADUÇÃO
REITOR DA USP CLÁUDIA SCHILLING
MARCO ANTONIO ZAGO
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CULTURA
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Retamar, Roberto Romano, Rubens Barbosa, Ulpiano 46 JURANDIR MÜLLER
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55 MAURÍCIO RAHAL
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58
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POESIA
SECRETARIA DE
66 MARIO BENEDETTI
ESTADO DA CULTURA
EDITORIAL
“De todos os mistérios do uni- para outro continente, passar por
verso, nenhum é mais profundo que o um tempo de amargo silêncio, im-
da criação”. A frase de Stefan Zweig posto pela ditadura militar.
pronunciada em conferência em Bue- Mesmo sabendo que toda
nos Aires, a convite de Jorge Luis obra precisa de um distanciamento
Borges, é um bom ponto de partida crítico para ser melhor interpretada,
para falar de Eduardo Galeano. Seus também fui pego de surpresa quan-
livros trazem o segredo da busca in- do Galeano confessou publicamen-
cessante dos sonhos de uma geração, te que hoje não leria mais As Veias
que parece ter acordado em meio ao Abertas da América Latina, o livro
pesadelo que pairava na América Lati- que em 1971 o alçou ao panteão
na daqueles anos de chumbo. dos grandes escritores. A frieza de
O jovem Galeano, na década Galeano na entrevista à imprensa
de 1960, escrevia na contracorrente durante a Bienal do Livro de Bra-
do sistema. Quando era editor do sília, ano passado, soou como um
jornal uruguaio Marcha, publicava desabafo diante de uma América
textos que tentavam recuperar a me- Latina transformada.
mória histórica dos povos latino-a- O Memorial da América Latina
mericanos. Como tantos intelectuais teve o privilégio de contar com o ta-
na época, ele teve que se deslocar lento de Eduardo Galeano entre seus

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principais colaboradores fora do A argentina Margarita Victória Gomes,
Brasil, relação iniciada por sua ami- doutora em educação, comenta a re-
zade com o jornalista e escritor bra- flexão de Galeano sobre a escolari-
sileiro Eric Nepomuceno, ex-editor zação da mulher na América Latina.
da revista Nossa América. Por muitos A literatura e a política são analisadas
anos, Galeano integrou o conselho pelo escritor Pedro de La Hoz, vice
editorial da revista, escreveu artigos -presidente da União dos Escritores e
e foi personagem de entrevistas. Ele Artistas de Cuba.
está de volta, nesta edição, para ser Também vamos falar do Uru-
reverenciado com a republicação de guai, um país de pequenas dimen-
alguns dos seus textos, numa ho- sões, mas que gerou nomes seminais
menagem que também abre o leque da cultura universal como o pintor
para outras percepções de sua obra. Joaquín Torres Garcia e os escrito-
A paixão de Galeano pelo fu- res Mário Benedetti e Juan Carlos
tebol, analisada por José Roberto To- Onetti, entre tantos outros.
rero. Sua preocupação com o meio
ambiente - que inspirou o cineasta Boa Leitura!
Silvio Tendler a produzir o documen-
tário O Veneno está na Mesa -, e aqui João Batista de Andrade é Diretor-Presidente
é o tema da repórter Tânia Rabello. da Fundação Memorial da América Latina.

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ENTREVISTA

SER COMO
SOMOS
Eric Nepomuceno
Foto: Leonor Amarante

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E
duardo Galeano nasceu
em Montevidéu, em
1940, e foi um dos mais
ativos e prestigiados
jornalistas de seu país até tornar-
se, em 1972, com a publicação do
ensaio As Veias Abertas da América
Latina, um dos mais importantes
autores de sua geração no Conti-
nente. Este livro converteu-se em
um dos maiores êxitos de vendas
nos anos 1970 e 80, tendo sido
traduzido para mais de 20 idio-
mas e editado em mais de 50 paí-
ses. Depois de ter se dedicado ao
conto (Vagamundo) e ao romance
(A Canção de Nossa Gente),Galeano
concentrou-se principalmente na
tarefa de reconstruir a história da
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América Latina, em uma alentada tri- capacidade criadora. Como quem diz ao
logia – Memória do fogo (Os nascimentos, leitor: aqui estão os tijolos para que você
As caras e as máscaras e O século do vento) construa a sua casa do jeito que quiser.
−, que obteve enorme êxito e se tornou N.A – Ou seja, você fragmenta o texto
objeto até mesmo de congressos e semi- de propósito, e oferece essa fragmentação como
nários em países europeus e nos Esta- forma de integração.
dos Unidos. Foi o diretor da revista Cri- E.G – Mais que fragmentar o tex-
sis, de Buenos Aires, entre 1973 e 1976, to, na verdade o que me proponho é
quando a publicação era considerada a recolher os pedacinhos de uma imagem
mais importante e combativa dos perió- da realidade que já vem quebrada.
dicos culturais da América Latina. Ob- N.A – E quem quebrou essa imagem
teve em duas ocasiões – em 1975, com da realidade?
o romance A Canção de Nossa Gente, em E.G – Um sistema que quebra
1978, e com o depoimento Dias e Noites tudo o que toca. O sistema que separa a
de Amor e de Guerra – o prêmio Casa de alma do corpo, o passado do presente, o
las Américas, de Cuba. discurso público do privado, a emoção
Em 1990, publicou seu livro mais da razão. Enfim, que separa as pessoas
recente – O Livro dos Abraços −, edita- entre si, divorcia o tempo presente do
do também nos Estados Unidos, Bra- tempo passado e cada pessoa de todas
sil, Holanda, França, Itália e Alemanha, as demais. Dentro de cada um de nós,
além dos países de idioma espanhol. São habitantes do nosso tempo, é muito difí-
a exemplo do que ele havia feito em sua cil reconstruir a unidade do olhar. Tudo
trilogia, pequenos textos reconstruindo, tende a romper essa unidade. Basta você
por meio de histórias pessoais e de ami- ler o jornal, por exemplo, para notar que
gos, um mosaico da nossa realidade. a informação que está sendo oferecida se
Atento e aguçado observador do refere a coisas desconectadas entre si. É
nosso tempo, Eduardo Galeano fala, como se não houvesse uma relação entre
nessa entrevista, sobre sua obra e sobre as coisas que ocorrem em diferentes paí-
as coisas do mundo, nesse atribulado ses do mundo, ou mesmo entre setores
fim de século. sociais de um país. Acontece a mesma
N.A. – Desde Dias e Noites de coisa quando nos ensinam história.
Amor e de Guerra, seu livro de depoimentos N.A – Você poderia, então, dar um
lançado em 1978, toda sua obra vem sendo escrita exemplo de quem trabalha como você, procu-
em um mesmo formato: os pequenos textos, como rando a unidade através de fragmentos?
crônicas breves, pinceladas fugazes. A que se deve E.G – Cortázar, acho. De certo
essa opção, essa mudança na estrutura formal? modo, ele foi um precursor importante
E.G – Acho que é uma tentativa de nesse tipo de tarefa. Ou, antes dele, a
recuperar a unidade perdida. É como se célebre trilogia de John dos Passos, uma
eu recolhesse os pedacinhos para juntá contribuição de altíssimo talento. Há ou-
-los e fizesse alguma coisa com eles. Creio tros, com certeza. Mas eu também não
que a cultura dominante nos quebra em sei se vou continuar trabalhando dessa
pedacinhos o tempo todo, e quebra tam- forma. Até agora, foram cinco livros...
bém nossa memória e nossa visão da rea- N.A – Deles, pelo menos um – Dias
lidade. Então, escrever da forma que faço e Noites, o primeiro do ciclo – é uma espécie
implica a recuperação da unidade desses de diário íntimo. Depois veio a trilogia, uma
fragmentos, que vão se integrar dentro do longa viagem já não tão íntima, uma espécie
leitor. O autor entrega ao leitor os frag- de diário coletivo. Agora, com o Livro dos
mentos, e gostaria de estimular nele sua Abraços, você volta ao tom pessoal. Por quê?
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E.G – De certa forma, o que tentei adotou, não existe risco de tornar o trabalho
fazer é conversar com minha memória um mero registro?
e com a memória de todos. A fronteira E.G – Não, porque não sou fo-
que separa minha memória da memória tógrafo da realidade nem nunca quis
dos demais costuma ser nebulosa, a tal ser. E, além disso, existem fotógrafos
ponto que muitas vezes, enquanto escre- e fotógrafos. Não sou naturalista, não
via Memória do Fogo, eu sentia que estava aspiro a reproduzir a realidade, e sim,
escrevendo minha autobiografia. Estava recriá-la. Recriá-la com inteira liberdade
escrevendo coisas que se referiam aos poética, de tal forma que seus sons mais
meus amores e às minhas fúrias mais intensos e suas imagens mais poderosas
profundas. Ao contrário, muitos textos possam ser transmitidos ao leitor e se
de O Livro dos Abraços ou de Dias e Noites, multipliquem nele. Se eu me limitasse
que são textos que nascem como uma es- a copiar a realidade, a registrá-la, a tra-
pécie de confissão autobiográfica revela duzi-la sem modificações, isso não teria
uma espécie de vocação coletiva que as nenhum efeito multiplicador sobre a
autobiografias não costumam ter. Isso imaginação e sobre a memória e sobre a
talvez se deva ao fato de que eu gostaria capacidade criadora de quem me lê. Se-
de merecer, algum dia, o autoelogio que ria um ato de consumo, a partir de uma
Juan Gelman brindou à poesia de Walt reprodução passiva da realidade.
Whitman, dizendo: “O velho fala dele/ N.A – Sobretudo a partir do êxito de As
mas tem o eu cheio de gente”. Veias Abertas da América Latina e de Me-
N.A – Você tem um livro de contos, mória de Fogo, sua obra ficou muito marcada
Vagamundo, de 1973. Um livro que teve e terminou por colocar você no papel de um dos
muito êxito na época, muitas traduções. De- porta-vozes da esquerda latino-americana. Essa
pois, escreveu um romance, A Canção de identificação o pressiona? Como você encara isso?
Nossa Gente, que teve êxito similar e obteve E.G – Não me incomoda. Eu diria
o prêmio Casa de las Américas. E nunca mais até que me sinto muito orgulhoso quan-
voltou a escrever ficção. Por quê? do me atribuem essa condição de ser
E.G – É verdade, nunca mais. um dos porta-vozes disso que é um sen-
Agora, estou escrevendo textos mais timento, um pensamento coletivo. Mas
próximos da ficção. Mas não trabalhei acontece que não é verdade. Não sou
mais nesse gênero porque sinto uma porta-voz de nada, a não ser de minhas
fascinação tremenda pela capacidade de próprias angústias, minhas obsessões,
ficção da realidade. Não dá para compe- minha própria e teimosa necessidade de
tir com ela. A realidade é uma senhora viver com alegria. Acontece que essas an-
muito louca. Que delira com um talento gústias e obsessões, essa obstinada neces-
inimitável. Então, fica muito difícil, pelo sidade de fé na figura humana coincidem
menos para mim, imaginar coisas que com o que muita gente pensa ou sente. E
superem o que a realidade oferece a cada daí vem, acho, o equívoco que faz com
dia, a partir de sua capacidade de poe- que alguém considere alguém porta-voz
sia. Muitas vezes encontro, na realidade, de alguém. Mais que uma coincidência
histórias que me parecem impossíveis de de respostas, sinto que existe uma coin-
serem imaginadas. Histórias que têm ta- cidência de perguntas, de dúvidas.
manho poder de síntese para expressar a N.A – Você é identificado com o gru-
realidade, para contá-la em suas dimen- po de escritores que tem, na América Latina,
sões escondidas que se torna inútil com- uma postura política bastante nítida. Com to-
petir com elas a partir da imaginação. das essas mudanças que ocorrem no mundo,
N.A – Mas, nessa linha que você como é ser hoje um escritor de esquerda?
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E.G – Às vezes, me sinto como solitário, embora eu continue vinculado,
um dinossauro, um representante de em meu país, a movimentos, a grupos
uma idade perdida da Terra. Outras ve- como o que edita o semanário Brecha,
zes me sinto desamparado, solitário. E, ou ao que está na prefeitura de Monte-
em outras, sinto o contrário: que essa vidéu, a Frente Ampla. Ou seja, estou
crise, como toda crise, pode ser fecunda, vinculado a tudo aquilo que para mim
e que no fundo o que está sendo enter- significa uma opção real de transforma-
rado é a usurpação burocrática do socia- ção, e me sinto orgulhoso e contente
lismo, e não o socialismo. Eu pertenço por fazer parte de algo mais importante
a uma geração de escritores do Rio da do que eu. Mas reconheço também que
Prata, que emergiu e atuou num perío- no mundo contemporâneo os espaços
do muito atormentado da vida do Uru- de participação coletiva para o trabalho
guai e da Argentina, onde vivi a primeira cultural, intelectual, são hoje muitíssimo
parte do meu exílio (1972-1976). Muitos mais limitados do que há 20 anos.
dos membros dessa geração de escrito- N.A – Você diria que não existe mais
res ficaram pelo caminho – assassinados aquela espécie de “espírito de grupo”?
ou desaparecidos, ou condenados a se E.G – Na melhor das hipóteses,
calarem para poderem sobreviver, o que eu diria que é muito menor. Porque
é uma forma de crime ou suicídio. Re- antes éramos como a espuma de uma
conheço que em muitas coisas essa ge- onda, aquela massa de um movimen-
ração se equivocou. Mas algum dia será to popular ascendente, que agora está
preciso dizer, para desculpá-la ou com- em refluxo. Éramos, e de muitas for-
preendê-la, que, seja como for, terá sido mas ainda somos, uma geração muito
sempre uma geração que se equivocou latino-americanista. A diferença é que
por paixão, pela paixão de crer e não por hoje sinto que a tal onda, da qual éra-
dinheiro. Creio que nós, escritores des- mos a espuma, tem muito menos força.
sa geração, estivemos muito vinculados O refluxo, aliás, é universal, e em boa
com todo o movimento popular e social medida foi precipitado pelo fracasso
que quis entrar na História com mui- escandaloso do modelo socialista nos
to ímpeto. Cometeu muitos erros, mas países do Leste europeu: esse que era
agora vendo as coisas em perspectiva e chamado de socialismo real, mas que
em um momento de crise e desampa- eu chamo de burocracia real.
ro, continua acreditando que é melhor Seja como for, não há dúvida de
se equivocar por paixão do que acertar que foi algo que teve uma incidência
por dinheiro. E o mundo que estão nos enorme sobre a esquerda latino-ame-
oferecendo, a partir da crise da esquer- ricana, sobre a esquerda em todo o
da, do desmoronamento do chamado mundo, principalmente no Terceiro
“socialismo real” dos países do Leste, é Mundo. E agora o que ocorre é o con-
o mundo que propõe a fé no dinheiro trário, simplesmente porque enfrenta-
como única fé possível. mos um mundo unipolar. Não existe
N.A – Você disse que sua geração es- um contrapeso para fazer frente ao
teve vinculada a movimentos populares e so- que é chamado de Ocidente – os paí-
ciais. Não está mais? ses ricos e poderosos que controlam o
E.G – As coisas mudaram mui- mundo em todos os aspectos, inclusi-
to. Agora, isso depende mais de cada ve o cultural.
pessoa. Sinto que existe menos ímpeto N.A – No caso da cultura, como se dá
coletivo na tarefa intelectual. Nos anos esse controle? Há formas novas?
1960 havia mais. Agora, o ofício é mais E.G – Existe um fenômeno que
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Foto: Divulgação

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chamo de ditadura da imagem única, vida-nos continuamente à desesperan-
que é tão ou mais perigoso que a di- ça, a negar o futuro.
tadura do partido único. Quando hou- N.A – E o que será viável nesses no-
ve a guerra do Iraque, isso se tornou vos tempos?
absolutamente claro, numa evidência E.G – É o que me pergunto. Será
de ferir os olhos: o mundo está con- somente acatar a vontade dos podero-
denado a uma imagem única. Recebe- sos? Quais as alternativas que os países
mos, daquela guerra, as imagens que pobres têm, agora que acabou aquela
os grandes centros de poder, princi- espécie de contrapeso ao poder imperial
palmente o Pentágono, quiseram que a do Ocidente? O que podemos visualizar
humanidade recebesse. Não houve os como alternativa ao desastre que despen-
150 ou 200 mil mortos, porque a tele- ca nós, latino-americanos? A situação da
visão não mostrou nenhum. E quando América Latina é cada vez pior, a questão
a televisão não mostra, não existe. Nos social é cada vez mais grave. Essa é uma
últimos 20 anos, há um despotismo da região do mundo condenada a vender
televisão no mundo, e isso não havia seus braços e o fruto de seus braços a
antes. Não foi previsto, é claro, por ne- preços cada vez mais baixos, dentro de
nhum dos profetas do socialismo e das uma estrutura de poder que atua da ma-
grandes lutas sociais que foram anun- neira mais feroz e implacável, e que tem
ciadas no século XIX e comoveram o a lei da usura como único fundamen-
século XX. Esse fenômeno está, creio to. Será preciso que nos juntemos, para
eu, derivando na ditadura da imagem atuar como uma força única, nem que
única. Na distribuição das funções en- seja uma união motivada só pelo deses-
tre cavalo e cavaleiro, o que temos é pero. Claro que seria melhor juntar-nos
um número cada vez maior de países a partir de esperanças compartilhadas,
trabalhando para outros poucos. E es- mas já que se tornou tão difícil acredi-
ses poucos vendem a todos os demais tar nessas esperanças, vamos juntar-nos
a imagem que lhes convém. nem que seja a partir das desesperanças...
N.A – O professor Antonio Candido Não acredito que a América Latina possa
classificou certa vez os anos 1960 como “os continuar aceitando, passiva, o papel que
anos moços”. Essa classificação vale para os lhe coube na nova divisão do mundo: o
anos 1980 e 90? de países párias.
E.G – Acho essa expressão de N.A – Como é, então, escrever? Para
Antonio Candido, como tantas outras alguém como você, quais são os estímulos que
dele, belíssima. “Os anos moços”... o mundo de hoje oferece?
Tempos de solidária generosidade e E.G – Acontece que sou dos que
de paixão. Confesso que sinto falta da acreditam que é possível ver o universo
maneira de viver, de pensar, de sentir, pelo buraco da fechadura. Ao longo de
que foi o signo dominante da geração muitos livros, tentei resgatar a pequena
formada nos anos 1960. Mas muitas história, porque creio que nessa história
das vezes me calo na hora de dizer isso, pequenina, a história verdadeiramente
porque compreendo que pode soar ar- grande resplandece. Diria, então, que o
rogante aos jovens de hoje. Arrogante que me consola são as pequenas coisas
e reacionário, como se fosse à opção de cada dia. Há uma espécie de resgate
pelo passado. A opção pelo passado da dimensão das coisas que se faz cada
implica de algum modo, uma negação vez mais necessária na hora de recons-
do futuro, e acho que vivemos uma truir o diálogo com o mundo.
época que nos expõe a esse risco: con- Diálogo, sem dúvida, muito ma-
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chucado por tudo o que está acontecen- aspectos com minha visão do mundo.
do, essa espécie de desmoronamento Sempre tentei resgatar essas minúscu-
da esperança em escala universal, e que las histórias do dia a dia, e elas conti-
passa a nos oferecer um mundo onde a nuam sendo bom pão para comer, boa
humilhação parece ser o único destino água para beber. Assim, procurando,
possível, onde a capacidade de esperan- multiplico a certeza de que escrever
ça torna-se cada vez mais difícil, mais vale a pena, de que não é uma paixão
complicada. Esse mundo de hoje me inútil. Sinto ainda e sempre a identifica-
fere muito como escritor, porque afinal ção com os que lutam, e tenho certeza
as palavras que a gente devolve aos ou- de que as palavras vêm deles e a eles
tros vêm dos outros, e tudo o que acon- são devolvidas. Palavras que têm uma
tece me mutila ou me multiplica, mas capacidade de vida, de multiplicação
nunca me deixa intacto. O que faço é de vida. E isso me ajuda muito, por-
tornar a beber nas fontes mais próximas que todos os dias recebo confirmações
e nas menores, mais humildes. de que o que escrevemos ajuda ou-
N.A. – E isso é bom? tros mais do que ajuda quem escreve.
E.G. – Acho que sim. O ofício A capacidade de criação das pessoas,
intelectual é muito arriscado, e um de isso que os intelectuais, por desprezo,
seus riscos é o da arrogância. Há mo- chamam de “gente comum”, continua
mentos em que corremos o risco de nos dando respostas assombrosas. Ape-
enrolarmos em grandes palavras. Creio sar de toda a maquinaria montada no
que, no fundo, tudo isso pode ser tam- mundo contemporâneo para esterilizar
bém interpretado como uma grande li- a humanidade, continuo vendo cenas,
ção de humildade, um remédio contra ouvindo frases, notando gestos que
a arrogância que muitas vezes nos con- confirmam que a aventura de viver vale
duz a confundir a realidade com nos- a pena, e que o mundo não está conde-
sos desejos, ou a negá-la quando não se nado a ser um campo de concentração
parece com eles, como se ela não fosse para a maioria da humanidade.
digna de nós. O que estamos viven-
do é uma espécie de volta à realidade
pela porta dos fundos. Porta pequena, Eric Nepomuceno é jornalista, escritor e tradutor de
modesta, mas que coincide em muitos espanhol com ênfase na literatura latino-americana.

15
comentario
comentário

Foto: Nauro Júnio


Foto: Nauro Júnior

O ESCRITOR LANÇOU
VEIAS ABERTAS AOS ARES
Leonor Amarante

Essa prosa da esquerda tradicional é chatíssima. Meu


físico não aguentaria. Eu cairia desmaiado se tivesse
que ler novamente o livro”. Se não fossem palavras saí-
das da boca do próprio autor, pouca gente acreditaria que
Eduardo Galeano estava falando de sua obra-ícone, As
Veias Abertas da América Latina, livro lançado com grande
furor em 1971 e logo incensado como referência do pen-
samento da esquerda latino-americana.
16
A intelectualidade presente à lembranças dos tempos em que Galea-
Bienal do Livro de Brasília naquele 11 no foi colaborador e pertencia ao con-
de abril de 2014 – exatos um ano e três selho editorial da Revista Nossa América.
dias antes da morte de Galeano – foi Quando tentei mudar o tema para as
pega de surpresa, ou não entendeu o questões da América Latina, Galeano
desabafo autocrítico do escritor e jor- se esquivou: “Você está fazendo uma
nalista uruguaio que, com 31 anos, de- entrevista?” Disse que não e justifiquei
nunciava a exploração econômica e a minha curiosidade pelo fato de Lugo
dominação política da América Latina ser uma das esperanças da esquerda na
desde a colonização europeia até o iní- época. “Não quero falar sobre a Amé-
cio dos anos 1970, quando ele termi- rica Latina. Tudo mudou e com certeza
nou de escrever o livro. Eram tempos
de ditadura militar no continente e as
veias expostas por Galeano foram cen-
suradas na Argentina, Brasil, Chile e no
Uruguai. Teve respaldo apenas do re-
gime de Cuba. Logo, foi preso em seu
país para, em seguida, exilar-se na Ar-
gentina e depois, na Espanha.
O auditório da Bienal, onde se
realizava a entrevista coletiva, ficou atô-
nito. Mais ainda quando Galeano, para

Foto: Nauro Júnior


justificar sua postura, admitiu que quan-
do escreveu o livro “não tinha conhe-
cimentos suficientes de economia nem
de política”. Disse, também, que não
se arrependeu de ter lançado o livro você também”. Falou em tom incisivo,
justamente quando pipocavam convul- percebi sua contrariedade, pedi licença
sões e enfrentamentos políticos, sociais e fui buscar um vinho.
e ideológicos na América Latina. “Essa No episódio da Bienal de Brasí-
foi uma etapa superada”, afirmou, lem- lia compreendi o que passara naque-
brando que, à época, era jornalista no le dia em Assunção. Galeano assumiu
Departamento de Publicações da Uni- postura objetiva ao falar dos períodos
versidade de la República e trabalhou políticos do passado. “Em todo o mun-
durante quatro anos em pesquisas e co- do, experiências de partidos políticos
leta de informações para escrever o li- de esquerda no poder às vezes deram
vro, o que demandou mais quatro meses certo, outras não e muitas vezes foram
até a sua publicação. demolidas como castigo por estarem
Para mim, a manifestação de certas, o que deu margem a golpes de
Galeano na Bienal de Brasília desven- Estado, ditaduras militares e períodos
dou definitivamente o emblemático prolongados de terror, com sacrifícios e
comportamento dele durante a posse crimes horrorosos cometidos em nome
do presidente do Paraguai, Fernando da paz social e do progresso. Em alguns
Lugo, em 2008, quando o encontrei períodos, é a esquerda que comete er-
pela última vez. Eu estava lá a convite ros gravíssimos”, completou.
do crítico de arte, Ticio Escobar, minis-
tro da Cultura do novo governo. Con- Leonor Amarante é jornalista, curadora e editora
versamos sobre o Memorial, trocamos da Revista Nossa América.

17
homenagem

USE-O E
JOGUE-O
Eduardo Galeano

Foto: Reprodução

A
sociedade de consumo descartáveis e estão marcadas para
consome fugacidades. morrer. Os numerosos ninguéns, os
Coisa, pessoas: as coi- fora de lugar, são “economicamente
sas, fabricadas para não inviáveis”, segundo o linguajar téc-
durar, morrem ao nascer; e há cada nico. A lei do mercado os expulsa,
vez mais pessoas jogadas no lixo por superabundância de mão-de-o-
desde que chegam à vida. As crian- bra barata. O norte do mundo gera
ças abandonadas nas ruas da Co- lixo em quantidades assombrosas.
lômbia, que antes eram chamadas O sul do mundo gera marginaliza-
de gamines, agora são chamadas de dos. Que destino têm as sombras
18
humanas? O sistema convida a desapare- para resolver esse probl eminha, basta
cer. Diz a elas: “Vocês não existem”. um certificado de inocuidade outorgado
O que faz o norte do mundo com pelo país que quiser se livrar deles.
suas imensidões de lixo venenoso para O planeta? Use-o e jogue-o fora.
as pessoas? Envia-as aos grandes espa- No reino de efêmero, tudo se converte
ços vazios do sul e do leste pela mão de imediatamente em ferro velho. Para que
seus banqueiros, que exigem liberdade melhor se multipliquem a demanda, as
para o lixo a troco de créditos, e pela mão dívidas e os lucros, as coisas se esgotam
de seus governos, que oferecem subornos. num piscar de olhos, como as imagens
A organização Greenpeace de- que são disparadas pela metralhadora da
monstrou que a Alemanha gastaria mil televisão e as modas e os ídolos que a pu-
marcos neutralizando cada tonelada de re- blicidade lança no mercado. O modelo do
síduo perigoso, mas gastando apenas cem ano passado é uma antiguidade de museu.
os exporta para a Rússia ou para a África. O direito ao desperdício, privilégio
Os vinte e quatro países desenvolvidos de poucos, diz ser a liberdade para todos.
que formam a Organização para a Coo- Diz-me o quanto consomes e te direi
peração no Desenvolvimento Econômico quanto vales, proclama o norte do mundo,
do Terceiro Mundo produzem 98% dos e os televisores, os pastores eletrônicos,
resíduos venenosos de todo o Planeta. difundem o evangelho da modernização.
Eles cooperam para o desenvolvimento A dor de já não ser, que o tango cantava
dando de presente ao Terceiro Mundo outrora, deixa lugar para a vergonha de
sua merda radioativa. E o outro lixo tóxi- não ter; e o sul, lixeira do norte, faz o pos-
co que não sabem onde meter. Proíbem sível para se converter em sua caricatura.
a importação de substâncias contaminan- Mas a sociedade de consumo convi-
tes e as derramam generosamente sobre da a uma festa que é proibida para oitenta
países pobres. Fazem com o lixo a mesma por cento da humanidade. As fulgurantes
coisa que os pesticidas e os adubos quí- borbulhas se estraçalham contra os altos
micos proibidos em casa: exportam-nos muros da realidade. A pouca natureza que
para o sul, com outros nomes. Boa parte resta ao mundo, maltratada e à beira do
do lixo norte-americano que é descarre- esgotamento, não poderia sustentar o de-
gado sobre o México chega embrulhado lírio do supermercado universal; afinal, a
em “projetos de desenvolvimento” ou grande maioria das pessoas consome pou-
disfarçadas de “ajuda humanitária”, e não co, pouquinho e nada necessariamente,
é por acaso que a zona fronteiriça é a mais para assegurar o equilíbrio da economia
contaminada do Planeta e o rio Bravo o mundial através de seus braços baratos e
mais envenenado do mundo. Embora a de seus produtos a preço de queima final:
maior parte do lixo entre em contraban- braços e produtos que cada dia valem me-
do, a Agência de Proteção Ambiental dos nos enquanto a tecnologia suprime mão-
Estados Unidos reconhece que o México de-obra e substitui matérias-primas nos
recebeu legalmente, em 1992, 72 mil to- laboratórios. Num mundo unificado pelo
neladas de detritos tóxicos de seu vizinho. dinheiro, a modernização expulsa muito
Sete vezes mais que no ano anterior e mais gente do que integra.
quem sabe quantas vezes menos que nes- Para uma inumerável quantidade
tes novos tempos de fronteira aberta. de crianças e jovens latino-americanos,
O presidente da Argentina, Car- o convite ao consumo é um convite ao
los Menem, oferece: “Aqui”, diz ele, “te- delito. A publicidade os deixa com a
mos muito lugar”. A lei argentina impe- boca cheia d’água, e a polícia os expulsa
de a entrada de resíduos perigosos, mas, da mesa. O sistema nega o que oferece;
19
e não há Valium que possa adormecer integram o setor mais perigoso dos
essa ansiedade, nem Prozac capaz de apa- “excedentes de população”. A criança
gar esse tormento. A luta social aparece como ameaça pública, a conduta anti-
nas páginas policiais dos jornais, tanto ou social do menor na América, é tema
mais que nas páginas políticas e sindicais. recorrente nos Congressos Panameri-
O mundo do fim do século viaja canos da Criança desde 1963.
com mais náufragos que navegantes, e Leila tem 14 anos. Criou-se ao
os técnicos denunciam o “excedente de deus-dará, nas rua dos Rio de Janeiro.
população” no sul, onde as massas igno- Ela não chora nunca. Ou melhor: cho-
rantes não sabem fazer outra coisa senão ra pra dentro, e as lágrimas guardadas
violar o sexto mandamento dia e noite. fizeram um charco de veneno em sua
“Excedentes de população” no Brasil, alma. “Todos roubam”, diz. “Eu roubo
onde há 17 habitantes por quilômetro e me roubam.” Se trabalha, é roubada.
quadrado, ou na Colômbia, onde há 29? A Se não trabalha, a polícia rouba o que ela
Holanda tem quatrocentos habitantes por rouba e, além disso, roubam seu corpo.
quilômetro quadrado nenhum holandês A muitas crianças roubam também
morre de fome; mas no Brasil e na Co- a vida. De acordo com o arcebispo de São
lômbia um punhado de vorazes fica com Paulo, cinco crianças são assassinadas por
todos os pães e com todos os peixes. dia nas ruas das cidades brasileiras. De
Há cada vez mais crianças mar- acordo com a organização Justiça e Paz,
ginalizadas que, pelo que os especialis- são crianças boa parte dos quarenta des-
tas suspeitam, “nascem com tendên- cartáveis que a cada mês são assassinados
cias ao crime e à prostituição”. Elas nas ruas das cidades colombianas.
Foto: Reprodução

20
Os esquadrões da morte, quase de seus arsenais, adaptados às guerras
sempre formados por policiais sem do futuro, que terão como objetivo os
uniforme, não deixam pista. Ninguém motins de rua e os saques; e em algumas
fica sabendo; a terra engole os assassi- cidades latino-americanas, como Santia-
nos e também engole as vítimas. Muito go do Chile, já existem câmaras de tele-
raramente a regra da impunidade dos visão vigiando algumas ruas.
grupos de extermínio é quebrada e O sistema está em guerra contra os
muito raramente o silêncio é rompido. pobres que fabrica e trata os mais pobres
Os treze policiais que haviam assas- como se fossem lixo tóxico. Mas o sul não
sinado sessenta indigentes na cidade pode exportar para o norte esses resíduos
colombiana de Pereira não foram ja- perigosos, que se multiplicam a cada
mais submetidos à justiça penal, mas dia. Não existe maneira de “impedir a
excepcionalmente sofreram “sanções propagação de sua espécie” nem é pos-
disciplinares”; e a matança dos meni- sível mantê-los escondidos, embora os
nos de rua que a polícia metralhou nos descartáveis não existam na realidade
portais da igreja da Candelária, no Rio oficial: a população marginal que mais
de Janeiro, excepcionalmente sacudiu cresceu em Buenos Aires chama-se Ci-
por um instante a opinião pública. dade Oculta; chamam-se Cidades Per-
No começo do século, o cientista didas os bairros de lata e papelão que
inglês Cyril Burt propôs que se eliminas- brotam nos barrancos e nas lixeiras dos
se os pobres muito pobres “impedindo a subúrbios da Cidade do México.
propagação da sua espécie”. No final do Não faz muito tempo, os des-
século, o Pentágono anuncia a renovação cartáveis colombianos emergiram de
debaixo das pedras e se juntaram para
gritar. A manifestação explodiu quan-
do se soube que os grupos de limpeza
social matavam indigentes para ven-
de-los aos estudantes de medicina que
aprendem anatomia na Universidade
Livre de Barranquilla.
E então Buenaventura Vidal, con-
tador de causos, contou-lhes a verdadei-
ra história da Criação. Diante dos vomi-
tados do sistema, Buenaventura contou
que para Deus sobravam pedacinhos de
tudo que criava. Enquanto nasciam suas
mãos o sol e a lua, o tempo, o mundo,
os resíduos que sobravam. Mas Deus,
distraído, se esquecera da mulher e do
homem, que esperavam lá no fundo do
abismo, querendo existir. E diante dos
filhos do lixo, Buenaventura contou
que a mulher e o homem não tiveram
outro remédio a não ser se fazerem por
conta própria, e por isso nós, nascidos
do lixo, temos todos algo do dia e algo
da noite, e somos um pouco e um pou-
co água e um pouco vento.
21
ESPORTE

FUTEBOL
AO SOL E À SOMBRA
José Roberto Torero

E
duardo Galeano ficou co- Hemingway. O futebol espera ainda o gran-
nhecido por As veias abertas da de escritor que se lance em seu resgate.”
América Latina, publicado em Vinte e sete anos depois, o pró-
1971. Eu mesmo li este livro prio Galeano tornou-se este escritor ao
na adolescência e o impacto foi gigantes- lançar Futebol ao sol e à sombra.
co. Se sou de esquerda até hoje, o mérito, O livro começa pelo começo: fala
ou a culpa, dependendo do gosto do lei- dos primeiros jogos na antiga China,
tor, é em boa parte deste sujeito. passa pela Europa medieval e chega à
Mas três anos antes, em 1968, ele América pré-colombiana. Depois co-
foi o organizador de um livro sobre um meça a contar sobre os grandes joga-
assunto bem diferente. Su majestad el fútbol dores da década de 1910 e cronologi-
foi um pequeno livro com cerca de 120 camente vai enfileirando personagens e
páginas, com textos de 17 escritores sele- causos do nascimento do futebol.
cionados por Galeano. Entre estes esta- Algumas destas histórias são to-
vam atletas literários do porte de Horacio talmente novas até para os mais enci-
Quiroga, Mario Benedetti, Albert Camus clopédicos cronistas esportivos. Por
e Thiago de Mello. exemplo, o fato de, em 1916, durante a
Não havia um texto de Galeano. Primeira Guerra Mundial, o capitão in-
Ele não se autoescalou. Fez apenas um glês Nevill saltar de sua trincheira chu-
prefácio de duas páginas e meia. Mas neste tando uma bola em direção às trinchei-
pequeno espaço ele deu uma bela cutuca- ras alemãs. Capitão, que, ironicamente,
da nos intelectuais de esquerda, dizendo, já foi morto por outra bola, de canhão.
naquele tempo, que era um erro colocar a Galeano ergue sua obra utilizan-
culpa da alienação do povo no futebol. do a mesma engenharia com que reali-
Curiosamente, no final daquele pró- zou sua melhor obra (na minha opinião):
logo, Galeano diz: “Os touros tiveram seu a trilogia Memórias do fogo. Ele sobrepõe
22
Foto: Nauro Júnior

Ao lado: Durante os jogos da Copa do Mundo no Brasil, Eduardo Galeano passou todos os dias fechado em sua casa em Montevideu
assistindo aos jogos e atendendo excepcionalmente algumas pessoas como o fotógrafo Nauro Junior, autor dessa foto.
Abaixo: Pelé em uma de suas jogadas geniais em jogo da seleção brasileira.
Foto: Divulgação

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tijolos de dois tipos: fatos importantes e como estas não poderiam ser do célebre
fatos poéticos. E usa como cimento suas torcedor do Fluminense:
opiniões e seu lirismo, nunca caindo no - “suas pernas eram um mapa de cica-
piegas ou num criticismo vazio. trizes”,
Na primeira metade do livro, a - “ninguém podia parar aquele redemoi-
coisa mais saborosa são as histórias nho que derrubava jogadores como se
que ele conta sobre jogadores pouco fossem bonecos de trapo”,
conhecidos no Brasil, como o grande - “dava passes por um buraco de agulha”,
Ricardo Zamora, goleiro espanhol que - “Martino entrou na área sossegado
bebia conhaque e fumava três maços que nem boi no pasto”,
de cigarros por dia, Josep Samitier, que - e “a rede era a renda de noiva de uma
assinou seu contrato em troca de um menina irresistível”.
relógio luminoso e um terno com co- Outra coisa interessante é que
lete, Abdón Porte, que se suicidou por o futebol jamais é visto como algo
ficar na reserva, José Leandro de An- solitário, independente do resto do
drade, que teria atravessado meio cam- mundo. Galeano, quando fala de uma
po com a bola na cabeça, e José Pien- Copa, sempre explica a época, contex-
dibene, que não comemorava seus gols tualizando a competição e colocando
para não ofender os adversários. -a em oposição ou como consequên-
Neste começo ele cria persona- cia do que acontece no planeta.
gens míticos, grandiosos, emblemáticos. Na segunda metade do livro, o
Mas há alguns erros de infor- tom muda. Se na primeira tivemos odes
mação. Por exemplo, Galeano diz que, aos grandes craques, como Di Stéfano,
quando acabou a final da Copa de Garrincha, Zizinho, Pelé, Julio Pérez Pa-
1958, o Brasil deu a bola a seu torcedor taloca, Nilton Santos, Didi, Yashin, Uwe
mais devoto, o massagista negro Mário Seller e Stanley Matthews, na etapa final
Américo. Não é verdade. Mário Améri- ele torna-se mais ácido, e fala de perso-
co roubou a bola do juiz, a mando de nagens que estragaram o futebol, como
Paulo Machado de Carvalho, e a bola o ditador chileno Alfredo Stroessner
não ficou com ele. Também afirma que (que se fez presidente do Colo-Colo,
Friedenreich fez mais gols que Pelé, en- time mais popular do país), de Jesús Gil
quanto ele marcou “apenas” a metade. y Gil (presidente do Atlético de Madrid
Porém, Galeano termina seu texto sobre ligado a Franco), de João Havelange, de
Friedenreich dizendo que, depois dele, Carlos Alberto Lacoste (homem forte
o futebol brasileiro abandonaria os ân- da Argentina na Copa de 78) e de Gui-
gulos retos e seria “como as montanhas lherme Cañedo, presidente da mexicana
do Rio de Janeiro e os edifícios de Oscar Televisa. Fosse o livro mais recente, e
Niemeyer”. Por esta bela comparação, não de 1995, falaria de José Hawilla, de
perdoa-se tudo. Afinal, não se cons- José Maria Marin, de Ricardo Teixeira.
troem mitos, nem literatura, sem um Enfim, misturando lirismo, críti-
tanto de invenção, exagero e mentira. ca, personagens míticos e malditos, o
Muitas vezes o tom de alguns livro acaba sendo o que pretendia Ga-
contos, que transformam pequenos fa- leano, uma “homenagem ao futebol,
tos em fatos simbólicos e poéticos, lem- celebração de suas luzes, denúncia de
bra o tom de Carlos Drummond de An- suas sombras”.
drade em Contos Plausíveis. Mas Galeano
também se aproxima de outro brasileiro: José Roberto Torero é jornalista, analista de
Nelson Rodrigues. Vejam se expressões futebol e articulista.

24
GARRINCHA

GENTO PLATINI

JULIO PÉREZ ROMÁRIO BAGGIO

ZIZINHO BECKENBAUHER NILTON SANTOS


Fotos: Divulgação

FRIEDENREICH LEONIDAS JAIRZINHO DI STEFANO

25
lembrança

O MELHOR
DE TODOS NÓS
Eric Nepomuceno

uando Eduardo Galeano morreu sua


terceira morte – das duas anteriores ele
conseguiu voltar –, me perguntaram vá-
rias vezes, qual a imagem, a lembrança
mais forte, que eu tinha dele. E minha
resposta não variou: ele era alguém tão presente,
tão decisivo em minha vida que a lembrança mais
forte era a de mim mesmo desde que nos conhe-
cemos e ao longo de 42 anos. Mais, bem mais que
a metade da minha vida.
Quando nos conhecemos eu tinha 24 anos.
Quando ele se foi, 66. E digo que é impossível dis-
sociar sua imagem das minhas lembranças de mim,
porque Eduardo, além de presença permanente,
mudou meu próprio rumo, o rumo da minha vida.
26
Foto: Arquivo pessoal Eric Nepomuceno

Até uma incerta noite de março ou para que discutíssemos nossos próprios
Eric Nepomuceno, jornalista e
abril de 1973, nunca tinha ouvido falar problemas, buscando nossas próprias tradutor da obra de seu amigo
dele. Eu havia chegado a Buenos Aires soluções. Uma espécie de espelho onde Eduardo Galeano
pouco antes, em fevereiro, para uma tem- os latino-americanos pudessem ver o seu
porada de duração indefinida, mas que verdadeiro rosto e não o rosto alheio que
seria longa. As Veias Abertas da América deveria servir de modelo.
Latina tinha sido publicado dois anos Só que, naquela noite em que co-
antes, começava a se transformar num nheci Galeano, eu não tinha a menor
sucesso palpável, mas eu não havia lido. ideia de nada disso. Para mim, seria ape-
Foi então que, num desses acasos nas uma revista cultural e eu era só um
do destino, se é que eles existem, entrei jovem repórter à procura de algum traba-
na redação ainda incipiente daquela que lho. Pois ganhei trabalho e ganhei mais:
pouco depois viria a ser a revista Crisis, um irmão mais velho, que me acompa-
e que seria, em seu tempo, a mais im- nhou até o fim e que, de uma forma ou
portante publicação cultural da América de outra, continuará sempre ao meu lado.
Latina. Aliás, até hoje não surgiu nada Aqueles dias eram de extrema
sequer parecido, em termos de qualida- agitação em Buenos Aires. E é preciso
de, peso, influência e importância. recordar, ainda que de maneira muito
Crisis foi lançada em maio de 1973, breve e superficial, o que se vivia por
tempos de convulsão e esperanças na lá e nas vizinhanças. No Uruguai, o go-
Argentina. Congregou o melhor de uma verno de Juan María Bordaberry estava
cultura que se propunha a revelar, para prestes a tornar-se uma ditadura com o
as nossas comarcas, as janelas para que presidente servindo de fantoche dos mi-
fosse exposto um pensamento próprio, litares. No Brasil, a transição entre dois
uma cultura própria e ser um espaço generais de plantão – Emilio Médici e
27
Ernesto Geisel – era a garantia de que Logo depois de nosso primeiro
tudo seguiria igual. A Bolívia havia visto encontro li Vagamundo, um livro de con-
como terminava, rapidamente, a aven- tos que se tornou um êxito de vendas
tura do progressista Juan José Torres e na Argentina e em pouco tempo desan-
tudo voltava à amarga rotina de sempre, dou a ser editado em outros países do
com o sinistro Hugo Banzer. No Pa- continente. E só então fui ler As Veias
raguai, Alfredo Stroessner, continuava Abertas. De imediato entendi as razões
à frente da ditadura instaurada por ele que fizeram, principalmente no contex-
mesmo 19 anos antes. to em que vivia todos os países latino
Nas vizinhanças, havia duas reser- -americanos naquela etapa, que o livro
vas de sonhos para a esquerda sul-ameri- se tornasse uma referência obrigatória
cana: o Chile de Salvador Allende, e o Peru e suas vendas se multiplicassem de ma-
que um general de esquerda, Juan Velasco neira incessante. Era exatamente o que
Alvarado, estava revelando aos peruanos, o autor tinha se proposto, algo tão raro
com uma reforma agrária radical, naciona- em nosso ofício. E o que o autor tinha
lizando as minas e os bancos, promoven- se proposto era nada menos que nos
do uma profunda reforma educacional. ensinar a reler nossa história a partir de
Nesse panorama, a Argentina fer- outro ângulo: a partir do ponto de vista
via. O peronismo prometia seguir a linha dos humilhados, dos derrotados, e não
das reformas que buscavam justiça social. aquela história construída, mentida e
Em março de 1973 Héctor Cámpo- contada pelos vencedores.
ra, o dentista bonachão que era também Passados esses anos todos e tan-
o representante pessoal de Juan Domingo tos, me atrevo a crer que, se para mim,
Perón, que continuava proscrito da vida aqueles foram tempos de revelação e as-
política argentina, foi eleito presidente. sombro, para Eduardo foram tempos de
Quando assumiu, no dia 25 de maio, a ci- consolidação e ampliação – consolidação
dade explodiu em festa – uma tensa festa. de tudo que foi vivido até ali, e ampliação
Estavam presentes dois presidentes, o de de seu olhar sobre o mundo e a vida.
Cuba, Osvaldo Dorticós, e o do Chile, Sal- Em poucos anos – entre março
vador Allende. Um milhão de pessoas se de 1973 e de 1976 – o cenário políti-
concentraram na Praça de Maio. E de noi- co mudou radicalmente na América do
te, umas trinta mil, marcharam até o cárce- Sul. Caiu à democracia uruguaia, caiu
re de Villa Devoto para libertar os presos o sonho chileno de uma via pacífica e
políticos da ditadura que terminava. constitucional para o socialismo, caiu o
Buenos Aires se transformou, num sonho peruano de resgatar o Peru para
instante, em foco de atenções e expectati- os marginalizados de sempre.
vas. E, por isso mesmo, num ponto para Depois do golpe de março de 1976,
o qual convergiam artistas, intelectuais e que instaurou na Argentina a mais sangui-
militantes de todas as latitudes. Nesse agi- nária e brutal das ditaduras contemporâ-
tado cenário, Crisis era passagem obrigató- neas em nossas comarcas, não restou a
ria, ou quase, de todos eles. Galeano outra saída que partir para um
A primeira impressão que guardo segundo exílio. No começo, ele chegou a
de Eduardo Galeano é a de alguém im- pensar em se instalar no Rio de Janeiro.
petuoso, intensamente vital, com uma Amigos brasileiros, como Darcy Ribei-
inteligência aguda e veloz e um enorme ro, o jornalista Galeno de Freitas e Chi-
conhecimento da nossa realidade. Era co Buarque de Hollanda mostraram a ele
obcecado pela América Latina, sua his- que a ideia, naquele momento, era, além
tória oculta, negada. de arriscada, inviável. O próximo destino,
28
então, foi à Espanha. Eduardo e Helena se escrita e na vida, um homem de dúvi-
instalaram em Calella, uma praia vizinha a das, que buscava respostas. Nas peque-
Barcelona. Martha e eu, em Madri. Para nas histórias do cotidiano, na vida das
trás ficaram os sonhos desfeitos, o terro- pessoas do dia a dia, ele soube encontrar
rismo de Estado implantado em todo o revelações luminosas.
cone sul das Américas, amigos desapareci- Era um homem íntegro, generoso,
dos, amigos mortos. Eduardo sabia disso digno, solidário, que em nenhum minuto
na carne, na alma. Acima de tudo, porém, se deixou ofuscar pelo brilho da fama – e
pensava na vida pela frente. vale dizer que, nos últimos muitos anos,
Os primeiros tempos – na ver- Galeano foi dos autores mais prestigia-
dade, um longo par de anos – do exílio dos e populares da literatura contempo-
espanhol foi difícil. Além de trabalhos rânea feita na América Latina.
jornalísticos, ele fez alguns livros de en- Eduardo era excepcionalmente ri-
comenda. Seu jornalismo precoce e bri- goroso, principalmente com ele mesmo,
lhante, que havia ficado em segundo pla- com os amigos e com as coisas nas quais
no durante os tempos de Buenos Aires, acreditava. Mas sempre foi um crítico leal
tornou-se uma vez mais meio de vida. não só dos amigos, mas também dos pro-
Mas o livro que Eduardo havia cessos políticos que apoiou. Jamais acei-
iniciado ainda em Buenos Aires, Dias e tou os dogmas congeladores, em nenhum
Noites de Amor e de Guerra, uma espécie momento deixou de ser rigoroso. Mas,
de diário de bordo do que se vivia e, ao quando discordava, dizia de frente, cara
mesmo tempo, o resgate e a revelação de a cara. Foi um modelo de generosidade,
memórias e lembranças, foi terminado. retidão, integridade e esperança.
Mais do que um belo livro, era uma es- O tempo não fez mais do que sedi-
pécie de ruptura com tudo que ele havia mentar essas características enquanto am-
escrito até aquele momento, e o início de pliava sua maneira de ver a vida, o mundo,
uma nova etapa em sua escrita. os processos políticos, os processos sociais.
Naquela altura, já havia ficado Eduardo mudou várias de suas opi-
claro que, como autor, tinha caracte- niões para não mudar a essência de suas
rísticas marcantes. Era um garimpeiro convicções. Não se acomodou. Não se
de histórias e, assim, tornou-se uma contentou com a nostalgia. O mundo mu-
espécie de guardião da memória, além dou e ele mudou para continuar a ser o
de confirmar sua infinita capacidade de que era. Para continuar a crer, até o fundo
revelar fatos sabotados ou submetidos da alma, na infinita capacidade humana de
a um conveniente processo de amné- criar beleza e transformar a realidade.
sia. A partir de Dias e noites, Galeano Foi um amante da vida em todas
consolidou seu estilo definitivo, apa- as suas dimensões. Escapou da primei-
gando as fronteiras entre os gêneros da ra morte, quando, aos 20 anos, tentou
escrita – uma prosa que encontrou luz se matar, mas a vida foi mais forte. Es-
absoluta na trilogia Memória do Fogo, que capou da segunda, quando contraiu, na
em minha opinião é, de longe, sua obra Venezuela, um tipo de malária que os
maior, e no Livro dos abraços. O que veio mineiros chamavam de “econômica”,
depois, e vieram livros especialmente porque matava tão rápido que nem dava
marcantes, foi o aprimoramento nasci- tempo de gastar dinheiro com remédios.
do nessa transição. Agora, a terceira morte veio, e levou
Ele jamais foi um escritor de cer- o melhor de todos nós, do nosso tempo
tezas. Aliás, tampouco foi um homem nesta América conturbada e teimosa, e que,
de certezas. De convicções, sim. Foi, na como ele, insiste em acreditar no futuro.
29
MEIO AMBIENTE

O VENENO
ESTÁ NA MESA
ALERTA DE GALEANO ECOLOGISTA

Tânia Rabello

F
oi uma entrevista de Eduardo Aquela entrevista de Galeano
Galeano concedida ao cineas- serviu para a abertura do documentá-
ta Silvio Tendler, no Uruguai, rio. Em poucas palavras, o jornalista
que inspirou o brasileiro a fa- e escritor uruguaio chega ao cerne da
zer o documentário O veneno está na mesa, questão: “A história da América Lati-
lançado em 2011. Desde 2008 o Brasil é na é uma longa história da perda, da
o maior consumidor mundial de agrotó- usurpação, do roubo dos recursos na-
xicos – alertou Galeano – e cada brasi- turais. E a consciência da necessidade
leiro “consome” o equivalente a 5 litros de preservar esses recursos, de defen-
de venenos agrícolas por ano. der esses recursos, não é tão acelerada
Estes dados impressionaram quanto o processo do roubo, que con-
Tendler, que veio ao Brasil, conver- tinua. Os ladrões são mais rápidos do
sou com o líder do Movimento dos que a gente (risos). São mais velozes do
Sem-Terra João Pedro Stédile, e cap- que nós. O exemplo mais revelador e
tou a partir daí vários depoimentos indiscutível de todos, a propósito desse
para fazer o filme, que trata justamente divórcio entre direitos da natureza e di-
do uso abusivo de venenos agrícolas reitos humanos, é o que acontece com
por parte do agronegócio brasileiro e os agrotóxicos, que estão sendo permi-
como essas substâncias permanecem tidos. Esses venenos contra a natureza
nos alimentos, como resíduos, que são estão sendo permitidos em países que
consumidos pela população. têm governos progressistas, em nome
30
da produtividade. Ou seja, em nome de jornal Brasil De Fato, comenta: “É incal-
um império economicista, do que é o culável o número de pessoas que assisti-
progresso humano. Então o que acon- ram a este filme. Só no YouTube foram
tece com a terra, com a gente? A terra mais de 300 mil, fora as cópias que foram
e a gente são muito mais importantes doadas, vendidas, emprestadas, copiadas,
do que os ‘numerinhos’ da produti- pirateadas; ele teve muito público”, diz.
vidade. Então se dá esta contradição O sucesso foi tanto que Tendler
entre governos que têm essa política lançou, em 2014, O veneno está na mesa
progressista e que aceitam os agrotó- 2, apontando soluções – que passam,
xicos como se fossem uma necessida- obrigatoriamente, pela mudança de pa-
de inevitável. Sem perceber que existe radigma produtivo e pela agroecologia.
aí uma certa traição a esses princípios Como diz o cineasta, “queríamos mos-
que estão esses mesmos governos pre- trar que existem alternativas ao vene-
dicando, princípios muito ligados à no, que nós não somos um bando de
saúde humana e à saúde da natureza.” irresponsáveis que queremos matar a
A repercussão do documentário humanidade de fome em nome de uma
de Tendler – feito com apenas R$ 50 mil causa”. Tudo a partir de uma entrevista
reais – foi impressionante. Juntamente com Eduardo Galeano.
Foto: Divulgação

com ele, foi lançada, no Brasil, a “Campa-


nha Permanente Contra os Agrotóxicos Tânia Rabello é jornalista e também colabora
e Pela Vida”. Tendler, em depoimento ao com a revista Brasileiros.

31
Foto: Divulgação
MÁXIMAS
E DIVAGAÇÕES

- A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde
o que merece ser salvo (Dias e Noites de Amor e Guerra, 1978).

- O corpo não é uma máquina como nos diz a ciência. Nem uma culpa como nos fez crer a religião.
O corpo é uma festa. (Las Palabras Andantes, 1993).

-A liberdade de eleição permite que você escolha o molho com o qual será devorado. (Las Palabras
Andantes, 1993).

- Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos.
(Voces de Nuestro Tiempo, 1981).

- Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória dos outros. Nossa riqueza sempre gerou nossa
pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. (As Veias Abertas
da América Latina, 1971).

- E, pela primeira vez, em tantos anos, o velho contou sua história. - Estes dentes não caíram
sozinhos. Foram arrancados à força. Esta cicatriz que marca meu rosto não vem de um acidente.
Os pulmões... A perna... Quebrei a perna quando escapei da prisão ao saltar um muro alto. Há
outras marcas mais, que você não pode ver. Marcas visíveis no corpo e outras que ninguém pode
ver. (A Pedra Arde, 1980).

- A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia
o que será. (As Veias Abertas da América Latina, 1971).

- Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o
funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. (Espelhos:
Uma História Quase Universal, 2008).

- Temos, há muito tempo, guardado dentro de nós um silêncio bastante parecido com estupidez
(As Veias Abertas da América Latina, 1971).
FiloSofia

Pensadoras
latino-americanas
nA TRAMA UTÓPICA DE GALEANO

Margarita Victoria Gomez

O
Memorial da América Latina contraria a mentalidade de homem pen-
mantém a Galeria Marta sando homem e convida a mulher ao
Traba cujo nome é uma ho- banquete da cultura. Mas, além da cria-
menagem à artista argenti- ção de Galeano será uma quimera pen-
na-colombiana que pensou a América sar numa educação que reconcilie nossa
Latina através da arte e da cultura. humanidade com a condição feminina?
No nosso blog pedagogiadavirtua- Na produção de um mosaico vivo,
lidade.wordpress.com dizemos que o pen- em diálogo aberto, Galeano, um homem
samento pedagógico latino-americano, tão sensível, um clássico da literatura latino
afeito a destacar os fazeres dos homens, -americana, pensou a mulher e a sua si-
depara-se com algumas mulheres que pen- tuação e afirma que embora os cientistas
sam uma educação na qual nem o feminino digam que somos feitos de átomos um
nem o masculino são excluídos. Portanto, passarinho me contou que somos feitos
pode-se dizer que a identidade cultural la- de histórias. (Galeano, 2012)
tino-americana, como uma construção dis- Crítico do capitalismo e da socieda-
cursiva e ideológica, é machista. de, Galeano pensa a Escola e a Educação
Nesse contexto, parece-me coe- como um mosaico de imagens e cores que
rente pensar o mosaico literário de nos convida a desenhar uma territorialida-
Eduardo Galeano (1940-2015), pois ele, de nova, além da colônia e dos colonos.
como o Memorial, busca restituir um O culto e a cultura dialogam no li-
lugar às pensadoras e criadoras latino vro De Pernas Pro Ar - a Escola do Mundo
-americanas. O mosaico, arte de musas, ao Avesso quando Galeano olha com um
é feito com pequenos fragmentos e, em caleidoscópio a realidade da menina nas
Galeano, é uma trama utópica que nos suas diversas facetas. Restitui à mulher seu
reconcilia com a nossa solidão. É ao lugar na história e na poética deixando
questionar certas situações que Galeano brechas para que outras também tomem
33
seu lugar no mundo real e no mundo da “A igualação, que nos uniformiza e
utopia, que lhe é muito familiar. nos apalerma, não pode ser medida. Não
Galeano nos coloca em tensão há computador capaz de registrar os cri-
no encontro com o Outro ao enfocar mes cotidianos que a indústria da cultura
a viagem da mulher para si mesma com de massas comete contra o arco-íris hu-
os (as) filhos (as) de Malinche e as suas mano e o humano direito à identidade.
netas no labirinto da solidão. O tempo vai-se esvaziando de história e
O pensamento de Galeano emerge o espaço já não reconhece a assombrosa
na semiótica do seu mosaico de coloniza- diversidade de suas partes. Através dos
dor, impregnado pelas tecnologias do nos- meios massivos de comunicação, os do-
so tempo que ele tanto criticava. Nosotras nos do mundo nos comunicam à obriga-
(nós outras), pensamos e fazemos cultura ção que temos todos de nos contemplar
e educação e, como Galeano, produzimos num único espelho, que reflete os valores
o nosso lugar com certa cosmovisão que da cultura de consumo.”
pede por uma nova geopolítica do conhe- As meninas são domesticadas
cimento latino-americano. A ciência e cul- com brinquedos de vitrine ...
tura fazem-se possíveis nas necessidades Algumas mulheres, de Eva a Mata
populares e, com elas, a utopia latino-ame- Hari, podem estar no mosaico poético
ricana faz sentido. Los hijos de los dias (Galeano, 2012), em
Disse Galeano (2004): “O mundo que a cada dia do ano nasce uma histó-
ao avesso nos ensina a padecer a realida- ria para contar, ou em Mulheres (Galea-
de ao invés de transformá-la, a esquecer no, 1999, 2015), ou na nossa imaginação
do passado ao invés de escutá-lo e a acei- provocada por Galeano. Assim, vejamos:
tar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim 15/1 Rosa de Luxemburgo, liber-
pratica o crime, assim o recomenda. Em dade e justiça; 02/02 Iemanjá, a deusa
sua escola, escola do crime, são obrigató- está em festa; 03/02 Chiquinha Gon-
rias as aulas de impotência, amnésia e re- zaga, não entende a vida sem música;
signação. Nem tampouco há escola que 05/02 Violeta Parra e a sua guitarra,
não encontre sua contra-escola.” ambas com um buraco no peito; 21/02
A diversidade cultural não permite Ângela Loij, indígena Ona da Tierra
igualar-nos, como explica Galeano (2004): del Fuego; 01/03 Elisa Lynch, primei-
ra dama do Paraguai; 03/03 Teresa de
Benguela em Quaritere, rainha brasilei-
ra de quilombo; 08/03 Dia da mulher,
Mas está visto que homenagens pela sua anatomia, pela
sua natureza, por seu destino (e situa-
não há desgraça ção); 30/04 As madres e as rondas da
sem graça, nem memória, na Plaza de Mayo; 30/06 Jua-
na Manso, incomoda criando escolas
cara que não laicas, gratuitas e bibliotecas populares;
07/07 Fridamania, Frida Kalo morreu
tenha sua coroa, sem ruído; 01/08 Pachamama, como
nem desalento os tojolobales, sabe escutar; 09/08 Ri-
goberta Menchú, a sua família extermi-
que não busque nada e a aldeia, onde seu umbigo tinha
sido enterrado para que criasse raiz,
seu alento. foi apagada do mapa; 10/08 Manuelas
– Manuela Cañizares, Manuela Espejo
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e Manuela Saénz, todas combateram o
colonialismo e a mentalidade serviçal
que humilhava a terra americana; 13/08
Juana Azurduy, flor do Alto Peru, uma
homenagem a sua feminina valentia;
17/09 Libertadoras mexicanas, em si-
lêncio viveram e no esquecimento se
foram; 12/11 Sor Juana Inês de la Cruz,
a mulher que melhor falava morreu
condenada ao silêncio.
Na antologia digital Mulheres
(1999,2015) Galeano faz uma seleção de
contos e de relatos referidos a persona-
gens femininos: Eva, Sherezade, Teresa
de Ávila, Marilyn Monroe, junto a outras
mulheres ou coletivos de mulheres lati-
no-americanas. Malinche e as mulheres
da revolução mexicana do século passa-
do ou as zapatistas que até hoje se mobi-
lizam em San Cristóbal de las Casas (Oa-
xaca, Mx.) também nos trazem imagens
significativas da nossa condição.
Mas, se não estiverem no mosaico
de Galeano, podemos acrescentar algumas
outras pensadoras brasileiras, ainda atuais:
Nísia Floresta, Nise da Silveira, Rose Ma-
rie Muraro, Carolina Maria de Jesus, Cora
Coralina (Anna Lins dos Guimarães Pei-
xoto Bretas), Cecilia Meirelles, Pagu (Patrí-
cia Rehder Galvão), Bertha Becker, Emília
Viotti da Costa, Heleieth Iara Bongiovani
Saffioti, Maria Lacerda de Moura, Rachel
de Queiroz, Ecléa Bosi, Elza Maia Costa
Freire, Maria Aragão, Olgária Matos, He-
loneida Studart, Marilena Chauí, entre ou-
tras que nos ajudam a desterrar as cátedras
do medo e a pedagogia da solidão.
A cultura e o popular como par-
te da vida de nós mulheres nos permi-
te certa familiaridade para delas falar e,
retomá-las no nosso trabalho de pro-
fessoras e com elas nos motivar para a
produção de situações novas e melhores
para a nossa convivência em sociedade.
Foto: Reprodução

Frida Kahlo vestida como


Margarita Victoria Gomez é membro do grupo de Malinche, heroína mexicana,
pesquisa acerca de Paulo Freire. Coordenadora do que viveu de 1496 a 1529
Módulo Internacional Uruguai.

35
escritores

LITERATURA
DE GIGANTES

Ana Maria Ciccacio

C
om área de 176,2 km2, pouco
maior do que a do pequeno es-
tado brasileiro do Acre, e po-
pulação de 3,5 milhões de habi-
tantes, meio milhão inferior à da
Zona Leste da capital paulista, o
Uruguai se agiganta e ostenta projeção mundial
quando o assunto são seus escritores, cineastas
e artistas plásticos. O panorama artístico uru-
guaio, atendo-se somente a nomes que ultrapas-
saram as fronteiras do país, demonstra, com so-
bra, como Eduardo Galeano (1940-2015) sempre
esteve em boa companhia. E não é por acaso.
36
Foto: Divulgação

Mario Benedetti em seus


apontamentos diários.

37
Juan Carlos Onetti em sua casa em Montevideu,
corrigindo um de seus livros.

O Uruguai, raro país na América que já questionava a hegemonia da cultura


do Sul com 98% de seus habitantes al- norte-americana.
fabetizados, conquistou a independência No pequenino país ao sul do Rio
em 1828, deixando de ser a Província Cis- Grande do Sul alguns dados impressio-
platina do Brasil apenas seis anos depois navam: a primeira eleição em que as mu-
de o próprio Brasil se tornar independen- lheres puderam votar aconteceu 14 anos
te de Portugal. Precoce, poucas décadas antes da França e o direito ao divórcio,
depois consolidou-se como democracia 70 anos antes da Espanha. A qualida-
sob os dois mandatos de José Batlle y Or- de de vida chegou a tal ponto no Uru-
dóñez (1903-1907 e 1911-1915) e daí em guai da primeira metade do século XX,
diante passou a registrar altos índices de que o país ganhou internacionalmen-
bem-estar social e a gozar de consistente te a alcunha de “Suíça da América”. A
estabilidade política. Dessa fase são Ho- prosperidade advinha da exportação de
racio Quiroga (1879-1937), autor influen- produtos agropecuários e de minérios,
ciado por Edgar Allan Poe, com tramas mas também dos investimentos locais
fantásticas e macabras, a poeta Delmira em educação. É nesse clima econômi-
Agustini (1886-1914), dando asas à ero- co, social e culturalmente favorável que
tização feminina, e José Enrique Rodó despontam os contistas da Geração de
(1872-1917), autor do crítico ensaio Ariel, 45, jovens com idade entre 25 e 30 anos,
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tendo como mentor o contista e roman- 1973, alguns obrigados a exilar-se para
cista Juan Carlos Onetti, (1909-1994), não acabarem presos como o escritor
mais tarde consagrado como “padrinho Mauricio Rosencof. De repente o Uru-
oculto e inquietante da literatura latino-a- guai esvazia-se, enquanto surgem movi-
mericana do século XX”. mentos de oposição e de guerrilha, como
Dessa geração que muito influen- o dos tupamaros. Eduardo Milán foi um
ciou escritores como Galeano contam-se dos que se exilou, radicando-se no Mé-
ainda o excelente Mario Benedetti, partici- xico por razões políticas. Com o fim da
pante do boom do romance latino-ameri- ditadura e o retorno à democracia, em
cano nas décadas de 1960-70, ombro a om- 1984, a forte literatura uruguaia voltou
bro com o colombiano García Márquez, a florescer e entre os nomes de peso da
o argentino Júlio Cortazar, o peruano atualidade estão Tomás de Mattos, que
Vargas Llosa e os mexicanos Juan Rulfo integrou o Grupo de Tacuarembó (ao
e Carlos Fuentes. E há também Carlos norte do Uruguai) com participação de
Martínez Morena (1917-1986), Felisber- músicos também, Guillermo Lopetegui,
to Hernández (1902-1964), Luis Castelli Jorge Majfud e Carlos Liscano.
(1919-1982) e Armonía Somers (1914-
Foto: Divulgação

1994). Toda uma geração que, no entan- Ana Maria Ciccacio é jornalista e colaboradora
to, sofreria muito com o golpe militar em da Arte!Brasileiros e outros veículos.

39
CULTURA

Galeano em sua

ilha Pedro de la Hoz

A
reação dos cubanos ao decesso de
Eduardo Galeano foi semelhante à que
se tem diante da perda de um familiar
próximo. Intelectuais que o conhece-
ram, leitores apaixonados pelos seus livros, jovens
escritores com os quais mais de uma vez compar-
tilhou experiências e muita gente comum que des-
frutou suas crônicas, uniram-se ao luto.
Para além da comoção pelo penoso acontecimen-
to, uns e outros coincidiram em ressaltar as marcas
deixadas por uma criatura que, com sua obra, garantiu
uma larga porta para escapar do esquecimento.
40
Ainda não eram uma legião – Tudo isso começou a se tornar
como mais tarde -, aqueles que, nesta público precisamente em Cuba. Casa de
ilha do Caribe ocidental, no final da dé- las Américas, instituição fundada pela
cada de 60, estavam familiarizados com heroína Haydée Santamaría, oferecia to-
a escrita de Galeano. A este lugar pre- dos os anos um Prêmio Literário, atual-
cocemente sitiado pelo embargo norte mente o de mais prolongada permanên-
-americano, com precárias conexões aé- cia na região.
reas com o resto do mundo, chegavam Em 1971, Galeano, que tinha in-
de vez em quando exemplares do sema- tegrado o júri das coleções inéditas de
nário uruguaio Marcha, considerado um contos no ano anterior, enviou ao certa-
modelo do jornalismo latino-americano me o original datilografado de uma obra
da época. de fronteiras genéricas imprecisas, a ca-
Galeano exercia o cargo de dire- valo entre a literatura de testemunho e o
tor de redação da publicação e já tinha ensaio histórico-social. No fim das con-
publicado dois dos livros que podem tas, sua avaliação foi assumida pelo júri
ser considerados precursores da saga da categoria Ensaio. Entretanto, ele não
sobre a recuperação da memória his- obteve a recompensa máxima, mas uma
Foto: Bea Amarante

tórica dos povos da América Latina, menção honorífica. Embora tenha des-
com a qual chegaria à cúspide das letras lumbrado os juízes, pesou muito mais a
ibero-americanas. tradição que a transgressão.
41
Após a publicação do texto pela do escritor uruguaio, que ele mesmo
Casa das Américas, ocorreu a explosão repudiou. Ninguém cita a declaração
Galeano. As veias abertas da América La- completa de Galeano, sobretudo quan-
tina transformou-se a partir de então do garante, como citamos acima, não
em uma referência bibliográfica popu- estar arrependido de tê-lo escrito.
lar para centenas de milhares de leitores O que é apresentado parte de uma
nesta parte do mundo e muito além dela. má apreciação do legado literário de Ga-
No início, o livro esteve marcado leano e de uma pior leitura da realidade
pelas circunstâncias. Previa-se um ciclo de latino-americana e caribenha dos dias de
ditaduras militares na América do Sul - o hoje. Nada novo, se levarmos em consi-
que começou no Brasil expandiu-se logo deração a forma em que o texto recebeu
para o Chile, Uruguai e Argentina -, na o precoce ataque de Carlos Rangel em
América Central pareciam eternizar-se os Do bom selvagem ao bom revolucionário e as
governos das repúblicas bananeiras, e os desqualificações de Carlos Alberto Mon-
movimentos guerrilheiros, mesmo depois taner, Plinio Apuleyo Mendoza e Álvaro
do assassinato do Che Guevara na Bo- Vargas Llosa em suas especulações sobre
lívia, tiveram uma segunda chance. As O Perfeito Idiota Latino-Americano.
conflituosas relações entre as adminis- As veias… foi apenas um ponto
trações norte-americanas e os povos da de partida. Imperfeito, com trechos
América Latina e Caribe – ou seja, um hiperbólicos e certa tendência ao ma-
governo contra organizações popula- niqueísmo, qualidades que até certo
res – aguçavam-se no âmbito da Guerra ponto se devem à marca da linguagem.
Fria, embora nem tudo possa ser explica- No entanto, sem esse texto não
do nesse contexto. O presidente Nixon teria podido galgar até chegar a Memória
saudava Mao na China e assinava com
Brezhnev o Tratado Salt I, enquanto o
Departamento de Estado e a comunida-
de de inteligência preparavam o sinistro
Plano Condor para os sul-americanos.
É legítimo que um autor seja
autocrítico de sua própria obra, ainda
mais quando a observa com certo dis-
tanciamento. Em 2014 Galeano, duran-
te a Feira do Livro de Brasília, expres-
sou o seguinte sobre seu livro: “Não
possuía a informação necessária. Não
estou arrependido de tê-lo escrito, mas
foi uma etapa que, para mim, está su-
perada. O livro foi escrito sem saber o
suficiente sobre economia e política”.
Agora uma grande parte dos
obituários publicados pelas agências
de imprensa que exercem a hegemo-
nia midiática e dos necrológios publi-
cados por jornais e canais de televisão
da mesma confraria, pretendem nos
convencer que As veias… é um livro
fracassado, uma mancha na biografia
42
do fogo, trilogia formada pelos Nascimentos, tal como foi feito pelo mais sábio, justo e
pelas Caras e Máscaras e o Século do Vento, vulnerável dos deuses ameríndios, o ho-
publicada entre 1982 e 1986. Galeano já mem-deus Quetzalcóatl”.
era maduro, muito mais poético, porém Sem dúvida, Majfud é quem es-
ao mesmo tempo mais incisivo. Esta obra clarece a profundidade real e a justa vi-
foi elogiada por sua perspectiva america- gência das Veias… devido à repercus-
nista e descolonizadora, ao oferecer um são da autocrítica de Galeano.
muito completo entendimento das veias “Quando li os primeiros artigos
abertas por parte de um escritor crítico, referentes às recentes declarações no
formado e posicionado sempre do lado Brasil - comentou Majfud -, repreendi
dos desfavorecidos. o próprio Galeano. Nunca fui fanático
Depois veio Espelhos (2009). O ar- por esse livro e até escrevi um estu-
quiteto e escritor uruguaio Jorge Majfud, do bastante crítico sobre ele, mas para
ao escrever sua resenha para o jornal ar- mim foi um dos livros mais valentes
gentino Página 12, disse: “Como em seus de sua época. Ou até mesmo o mais
livros anteriores, o paradigma do escritor valente. Considero um crime descon-
comprometido latino-americano e, so- textualizá-lo e nunca pensei que seu
bretudo, o paradigma de Eduardo Galea- próprio autor fosse capaz de fazer isso,
no, parece se reconstruir uma vez mais: a como se verifica em cada um dos arti-
história pode progredir, porém esse pro- gos oportunistas publicados a seguir”.
gresso ético-estético tem como destino Interpelado epistolarmente por
utópico a origem mítica e por instrumen- Majfud, o escritor uruguaio respondeu:
tos de luta a memória e a consciência da Ladram, Sancho. É a prova de que escre-
opressão. O progresso consiste em uma ver serve, pelo menos para despertar ce-
regeneração, na recriação da humanidade, lebrações e protestos, aplausos e também

Foto: Bea Amarante

43
indignações. O livro, escrito há séculos, também que a liberdade e a justiça cami-
continua lépido e fagueiro. Simplesmente nham juntas ou não caminham”.
tenho a honestidade de reconhecer que a Passada a crispação em torno de
esta altura seu estilo me resulta pesado, um evento extremo, que só se explica a
não que me custa reconhecer-me ago- partir da lógica de um país ameaçado do
ra que quero ser cada vez mais breve e exterior - houve falcões que aconselha-
leve. Nada a ver com Vargas Llosa. (…) ram a Casa Blanca a economizar o longo
As vozes que se lançaram contra mim e caminho de tropas e aviões para Bagdá e
contra As veias abertas… estão gravemen- trocá-lo pela mais breve rota para Hava-
te enfermas de má fé”. na - e com uma estressante conjuntura
Com o passar dos anos, o ensaísta interna, Saramago regressou logo, ape-
cubano Aurelio Alonso justificou a vi- nas dois anos depois. Entre as razões
gência das Veias… com estas palavras: do regresso, citou: “Vim, simplesmente,
“Poucos autores conseguem, como ele, porque me convidaram. Não é necessá-
levantar-se contra esse vício dessimplifi- rio convocar a população cubana para
cador que obscureceu gravemente, em um referendo para ver se estão ou não
muitas oportunidades, a compreensão de acordo com ir para a Venezuela, ou
da história, da economia, do trabalho para o Haiti, ou para onde for porque é
político e, em geral, da realidade social, justo. É como se este povo fosse soli-
que não permite abordar a sociedade dário por natureza, mas talvez mais por
como um todo. Obscurecimento que educação, por algo aprendido, porque a
se produz, é preciso admitir, com um solidariedade também se aprende”.
dano prático inclusive para os proces- Galeano demorou mais. Regres-
sos políticos nascidos de revoluções ge- sou em 2012, convidado para instalar
nuínas. Não é preciso nem falar como o júri do Prêmio Literário Casa de las
se incubou e estendeu a todo o espec- Américas desse ano. Ao chegar ao ae-
tro da oposição de esquerda na Nossa roporto de Havana, declarou: “Em-
América. Por isso resulta tão relevante o bora faça anos que não venho, sinto
componente herético de nosso autor”. que volto sem nunca ter ido embora.
Também se falou muito sobre o Cuba continuou sempre viva dentro
desencontro de Galeano com a Revolu- de mim, em minhas palavras, meus
ção Cubana, devido ao fuzilamento de atos e minha memória. Jamais ocultei
três sequestradores de embarcações na nenhuma de minhas discrepâncias ou
primavera de 2003. O célebre escritor dúvidas; mas também não ocultei mi-
português José Saramago declarou: “Até nha admiração por esta Revolução que
aqui cheguei. De agora em diante, Cuba é um exemplo de dignidade nacional”.
seguirá seu caminho, e eu fico onde es- Na sede da Casa de las Américas
tou”. Galeano, em um artigo intitulado apresentou outros argumentos: “Esta
Cuba dói, afirmou: “… as prisões e os Casa é minha casa, a casa nossa. E por-
fuzilamentos em Cuba são muito boas que assim a sinto, e assim a sei, fui e
notícias para o superpoder universal, continuarei sendo seu sempre amigo, de
que está louco de vontade de arran- acordo com aquela definição da amizade
car da garganta esta porfiada espinha. que nos legou Carlos Fonseca Amador,
Em compensação, são notícias muito o fundador da Frente Sandinista: ‘O ver-
ruins, notícias tristes que muito doem dadeiro amigo é o que critica de frente
para os que acreditamos que é admi- e elogia pelas costas’. Mas às vezes não
rável a valentia desse país pequenino e é ruim elogiar de frente, quando não é
tão capaz de grandeza, mas acreditamos por dever de cortesia, nem por hipócrita
44
adulação, nem por medo à verdade. E en- desses que deveriam ter na etiqueta uma
tão é possível dizer, por exemplo: obri- recomendação para a cirrose. Onetti
gado, milhões de agradecimentos à Casa me disse que ele escrevia para si mes-
de las Américas, por tudo o que fez e faz mo. Disse-lhe que isso era mentira.
para a revelação das nossas energias cria- Por que publicava então? É melhor você
doras, mil vezes assassinadas e mil vezes me dar seus manuscritos, os envio pelo
ressuscitadas. E obrigada, milhões de correio para você, que se transforma en-
agradecimentos, porque essas porfiadas tão no único leitor do que escreve. Ele
vozes renascidas, que nos falam desde ficou muito zangado e, apontando para
o passado mais remoto e desde o mais a porta, me condenou: “Vá embora e
próximo presente, encontraram na Casa não volte nunca mais”. No dia seguin-
um espaço de encontro e uma caixa de te me chamou. O velho sabia que devia
ressonância que até então não existiam”. sua escrita ao próximo”.
Justamente 72 horas antes de ele Nessa tarde de confissões, tam-
pronunciar estas palavras, tive a sorte de bém expressou: “Não me considero um
conversar longamente com Galeano na escritor objetivo. Essa é uma invenção
sede do Centro de Formação Literária como a dos gêneros literários, que pro-
Onelio Jorge Cardoso, que em Havana vém de uma visão de mundo em que tudo
acolhe jovens que se interessam por do- está dividido: a emoção e o intelecto,
minar as técnicas narrativas. a alma e o corpo, a razão e a imaginação.
Daquele encontro, gostaria de Parece que será muito difícil montar os
compartilhar uma história contada por pedaços e compreender, de uma vez por
ele: “Gostei muito de Juan Carlos Onet- todas, que em um mundo cabem muitos
ti que, como você sabe, é um dos gran- outros mundos”.
des escritores nossos. Era um homem
áspero, de poucos amigos. Acho que Pedro de la Hoz é vice-presidente da União de
fui o único que compartilhava com ele Escritores e Artistas de Cuba.
seus silêncios e uns vinhos intragáveis,
Foto: Leonor Amarante

45
CARICATURA

Galeano

em traço
José Alberto Lovetro

C
omo traduzir um escritor fes- Os cartunistas, então, se apro-
tejado por seus livros de sabor priam do direito ao delírio. Com certeza
latino-americano em traços tor- utilizando o sangue de As veias abertas da
tuosos de uma caricatura? Fica América Latina, seu livro mais festejado,
fácil quando o próprio Eduardo Galeano como tinta e os temas da justiça social
mostra o caminho em sua fala: “Que tal se em nosso continente como papel.
delirarmos por um tempinho (...) para adi- Não é a toa que o escritor iniciou
vinhar outro mundo possível. O ar estaria sua carreira como jornalista publican-
limpo de todo veneno que não vem dos do uma caricatura na revista El Sol, do
medos humanos e das paixões humanas, Partido Socialista, assinando com o
as pessoas não serão manejadas pelo auto- nome “Gius”. Permitiu-se ao desenho
móvel, nem programadas pelo computa- porque é livre pensar. E por onde até
dor, nem compradas pelo supermercado, crianças se comunicam mesmo antes
nem observadas pela televisão” de entenderem as letras.
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Galeano era um escritor com faro
jornalístico. Conviveu com ilustrações e
caricaturas em suas passagens pela im-
prensa escrita. Foi editor-chefe do diá-
rio uruguaio Época e possivelmente sor-
ria ao publicar uma caricatura de uma
personalidade. E hoje caricaturistas
fazem uma justa homenagem, espon-
tânea, inundando as redes sociais com
a imagem em traços do intelectual de
esquerda. Mesmo porque há uma iden- as letras se misturam em uma roda de Caricaturas de Sérgio
tificação entre o que ele fazia em seu criatividade. “Há tempos atrás, as letras Gomes, Osvaldo
jornalismo de denúncia aos maus tratos brigavam com os traços por pequenas DaCosta, Afonso
com nossa América Latina e o exercí- implicações. Ou era porque o desenho Carlos Fernandes e
cio do cartunista que caminha por essa não obedecia à linha reta do texto ou Paulo Sérgio Jindelt
mesma estrada. E a caricatura? Nada porque as letras atrapalhavam o espa-
mais é que uma nova letra criada para o ço do desenho. Até que se olharam
alfabeto de um escritor. Nós, cartunis- mais profundamente e descobriram
tas gostamos de escritores assim, que que tudo aquilo era amor. Havia uma
nos dê o direito ao pensar e repensar. interação mesmo que na discórdia.
Uma descarga de neurônios em nossas Acabaram se casando em um livro e
cabeças para traduzirmos em desenhos nasceram as histórias em quadrinhos.”
que instiguem o ser humano a ser críti- E o que seria da arte se não hou-
co aos descasos do mundo. vesse o delírio?
Vamos então delirar um pouqui-
nho, como Galeano nos sugere, e pensar José Alberto Lovetro (JAL) é presidente da
outro mundo possível onde o desenho e Associação de Cartunistas do Brasil - ACB.

47
FILMES

CINEMA
EXPANDIDO
Jurandir Müller e Francisco Cesar Filho

48
C
onsiderando a América do Sul, del Humo, que ainda por cima era uma co-
Cena do filme Tanta Água
o Uruguai possui a quarta me- produção argentina de Eva Landek, foi
nor população (à frente apenas novamente anunciada como o primeiro
da Guiana, Suriname e Guiana longa-metragem uruguaio; e apenas 15
Francesa) e o terceiro menor território. anos depois, El Dirigible, de Pablo Dot-
Sua economia, baseada em exportações ta, era novamente (anúncio oficial em
agrícolas, gera o nono produto interno Cannes) “o primeiro filme do cinema
bruto da região. Por outro lado, a ex- uruguaio”. Nunca, em nenhum país, o
pressão cultural uruguaia exibe marcos cinema nasceu tantas vezes.”
grandiosos e coloca o país como desta- Manuel Carril (1938–2014) é figura
que mundial nos campos da literatura, central quando se pensa no cinema uru-
das artes visuais, da música e do cinema. guaio. Manolo, como era conhecido, as-
Este último já estava presente na capital sumiu em 1978 a direção da Cinemateca
Montevidéu no final do século 19, simul- Uruguaia, numa longa gestão que se con-
taneamente a outros centros urbanos fundiu com a própria estrutura da institui-
planetários: a primeira crônica sobre ci- ção. Considerada então a mais importante
nema escrita no país e publicada no jor- da América Latina, a entidade tem 14 mil
nal El Siglo já relatava, em 28.12.1896, a títulos no acervo, promove anualmente
primeira exibição privada que ocorrera mais de mil sessões públicas e alcança um
em 18 de julho daquele ano Em 1898 te- público de 450 mil pessoas. Mais antiga
ria ocorrido a primeira filmagem em solo cinemateca latino-americana em atividade,
uruguaio, e o primeiro longa-metragem foi fundada em 1952 e, desde então, re-
made in Uruguai dataria de 1919 (Pervan- velou-se fundamental na formação ciné-
che, de Leon Ibañes Saavedra). fila daquele país. A partir desse verdadei-
A história dessa cinematografia, ro centro cultural dedicado a diversidade
porém, não é isenta de polêmicas. Ma- cinematográfica (¡Viva la Diferencia! é o
nuel Martínez Carril e Guillermo Zapiola slogan de suas sessões semanais em salas
descrevem no prólogo do livro La Histo- comerciais de Montevidéu), surgiram no-
ria no Oficial del Cine Uruguayo: Almas de la mes da maior influência, não somente no
Costa (1923, Juan Borges) foi o primeiro Uruguai, mas respeitados pelo mundo –
Foto: Divulgação

filme uruguaio; em 1938, Vocación?, de historiadores, críticos e cineastas.


Rina Massardi, foi a primeira película líri- Críticos reconhecem que a pro-
ca sul-americana; mas, em 1979, El lugar dução audiovisual uruguaia, apesar da
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pequena quantidade de títulos, vive uma precoce de Rebella em 2006, com 32
impressionante ‘boa onda’ desde o iní- anos de idade, Stoll prosseguiria car-
cio dos anos 2000. Foi quando festivais reira solo com Hiroshima – Um Musical
como Cannes, Berlim e outros vitrines Silencioso (2009), uma espécie de docu-
prestigiosas passaram a incluir quase sis- mentário ficcional, no qual o diretor
tematicamente obras do Uruguai. registra seu irmão e cria um filme qua-
No Brasil, com o advento, em se mudo, com diálogos inaudíveis que
2006, do Festival de Cinema Latino-A- aparecem sob a forma de intertítulos.
mericano de São Paulo, o cinema uru- Com 3 (2012) conquistaria o Prêmio
guaio teve garantido espaço permanen- Itamaraty para o Cinema Sul-Ameri-
te: em nove edições do evento foram cano no Festival de Cinema Latino-A-
projetadas nada menos do que 33 de mericano de São Paulo, após ter sido
suas mais expressivas obras, parte delas selecionado para a Quinzena dos Reali-
comentadas a seguir. zadores do Festival de Cannes.
Vencedor do Tiger Award no Outro nome importante é do vete-
Festival de Roterdã, 25 Watts (2001), de rano Mario Handler, também fotógrafo
Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, colocou e professor nascido em 1935. Retorna
o Uruguai no mapa da cinematografia do exílio em 1999 e realiza em 2001 o
mundial. Esta abordagem da vida tediosa polêmico Separado (Aparte), produzido,
de três adolescentes vivendo em Monte- editado e fotografado solitariamente.
vidéu com traços autobiográficos con- Focalizando os habitantes de uma popu-
tava em um dos papéis principais com lação marginal da capital do país, gerou
um ator até então desconhecido, Daniel grande polêmica nos meios culturais e
Hendler (que faria carreira internacional políticos, além premiações em diver-
depois de protagonizar três filmes do ci- sos festivais. Com Diga a Mario Que Não
neasta argentino Daniel Burman). Volte (2007), sobre os efeitos da ditadu-
A dupla de cineastas faria a seguir ra civil-militar (1973-1985) no Uruguai,
Whisky (2003), vencedor do prêmio da também mereceu o prêmio do público
crítica na competição Un Certain Regard no festival espanhol Documenta e de
do Festival de Cannes. Com a morte melhor filme no Festival Internacional

Take do filme
O Banheiro
do Papa Foto: Divulgação

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de Direitos Humanos de Santiago del Aires conquistou o prêmio do público.
Estero (Argentina). Uma genuína observação sobre a
Da nova geração merecem des- adolescência, com suas relações familia-
taques, entre outros, Adrián Biniez, res e afetivas, Tanta Água (2013), de Ana
Federico Veiroj, Alfredo Soderguit e a Guevara e Leticia Jorge, obteve grande
dupla Ana Guevara e Leticia Jorge, to- repercussão, tendo conquistado o prê-
dos nascidos a partir da década de 1970. mio da crítica em Cartagena de Índias,
Biniez conquistou com Gigante (2009) o prêmio de melhor obra de diretor es-
três prêmios no Festival de Berlim: treante em Guadalajara e o grande prê-
Grande Prêmio do Júri, Prêmio Alfred mio do júri em Miami.
Bauer para melhor filme de estreante e Vencedor dos festivais de Havana
Hugo de Ouro na competição de novos e Cartagena e do Prêmio Goya de Me-
diretores. Também vencedor do Festi- lhor Filme Estrangeiro em Espanhol, A
val de San Sebastián, Gigante encontrar Vida Útil (2010), de Federico Veiroj, é
mote para o humor em situações coti- passado na Cinemateca Uruguaia, com
dianas de um inofensivo grandalhão que direito a participação de Manuel Martí-
trabalha como guarda de segurança em nez Carril. Filmado em preto e branco,
um supermercado que se sente atraído ao estilo da Nouvelle Vague francesa,
por uma jovem mulher da limpeza. focaliza uma delicada história de amor
Alfredo Soderguit surpreendeu protagonizado pelo conhecido crítico
ao realizar o primeiro longa-metragem uruguaio Jorge Jellinek.
de animação uruguaio, AninA (2013). Como não poderia deixar de ser,
O filme combina o movimento dos Manuel Martínez Carril mereceu home-
personagens com fundos dignos de nagem do Festival de Cinema Latino-A-
livros ilustrados infantis, alcançando mericano de São Paulo. Em 2013, obras
resultado de sabor artesanal que en- dos anos 2000 por ele escolhidas foram
cantou no circuito internacional: no exibidas no evento.
Festival de Cartagena de Índias recebeu
o prêmio de melhor filme e de melhor Jurandir Müller e Francisco Cesar Filho, diretores do
direção; no Bafici - Festival de Buenos Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo.

Cena do filme
Sr. Kaplan
Fotos: Divulgação

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Artes Visuais

FORÇA
DA ARTE
URUGUAIA

Silas Martí

uando desenhou de ponta-


cabeça o mapa da Améri-
ca Latina e proclamou que
“Nosso Norte é o Sul”, Joa-
quín Torres García deitou
as bases de seu chamado universalismo
construtivo. Também fundou uma linha
de pensamento que, em maior ou me-
nor grau, serviria de âncora conceitual
para a arte realizada no Uruguai desde
o início do século passado até os dias
de hoje. Não uma produção autocentra-
da, mas algo que toma partido de um
contexto local para rearranjar a influên-
cia das vanguardas do mundo, ou, nas
palavras dele, “fazer do alheio algo com
substância própria”.
Em 1935, ao criar sua Escuela
del Sur, ou Escola do Sul, Torres Gar- posição” de seu país no mundo. Ou seja,
cía estava de volta a Montevidéu depois moldava a plasticidade de sua obra de
de viver mais de quatro décadas entre a acordo com a “a luz tão branca, o vento
Europa e Nova York. Vivia um embate e a umidade que mancha tudo de verde e
direto com a avalanche estética do art a largura e a cor do rio da Prata”.
nouveau e ao mesmo tempo reabilitava a Na era da pós-globalização, em
herança de um geometrismo observado que fronteiras se dissolvem com toques
nas vanguardas europeias à luz da “justa na tela de um iPad e o mundo da arte está
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coalhado de nomes que vivem entre um entre o Brasil sulista e fantasmagórico de Joaquín Torres Garcia,
lugar e outro, parece antiquado buscar, na Iberê Camargo e uma Argentina que tra- Grafismo Infinito,
leitura de um trabalho, raízes com qual- duziu a montanha-russa de sua economia 1937. 54x84,5cm
quer ponto geográfico que seja. Mas da em obras que vão da estridência pop e
mesma forma que a crítica não deixa de política de Marta Minujín ao cerebralismo
buscar ecos concretistas ou tropicalistas na performático de Victor Grippo − parece
obra de brasileiros radicados em qualquer ter se configurado como plataforma úni-
canto do mundo, o Uruguai − espremido ca de concepção visual.
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Luis Camnitzer.
Instalação Memorial,
2011. Parque
da Memória, em
Buenos Aires.

Trabalhando no ateliê criado por vislumbrasse ali esse momento em que


Torres García, artistas como Gonzalo artistas do continente começam a rom-
Fonseca e Francisco Matto não copia- per os limites de feudos nacionais para
vam o mestre, mas tentavam estabelecer plasmar uma latinidade ou essência in-
uma ponte orgânica entre a arte europeia, trínseca à região, como quer fazer Aracy
então obcecada por pinturas cubistas, e Amaral na próxima edição do Panorama
objetos pré-colombianos, ou seja, um elo da Arte Brasileira, em outubro, no Mu-
universalizante entre propostas estéticas seu de Arte Moderna de São Paulo.
díspares, mas de igual potência visual. Nesse sentido, Luis Camnitzer, um
Olhando em retrospecto, a arte uruguaia dos maiores artistas do Uruguai, fez de
da primeira metade do século XX, em sua obra uma potente atualização do pro-
sua investigação profunda da América, jeto construtivo de Torres García. Quem
antes que esta fosse a América dos es- olha para a superfície plástica de suas foto-
panhóis e dos portugueses, antecipa um grafias, gravuras e instalações não enxer-
discurso em voga ainda hoje. É como se ga essa associação, mas da mesma forma
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Foto: Divulgação

que Torres García partiu da experiência à país − e, em grande medida, do resto da


beira do Prata para forjar um construti- América Latina − com as formas geomé-
vismo insubordinado à tradição europeia, tricas. Camnitzer aposenta a geometria
Camnitzer se associou à arte conceitual explícita em nome de um jogo irreveren-
que viu nascer em Nova York, onde se te de incongruências entre o que se lê e
radicou, como parte de uma estratégia o que se vê, um curto-circuito linguístico
para destrinchar e entender suas origens que reflete os desmandos de uma histó-
e o destino de uma terra também atingida ria pedregosa como a da América Latina.
pelos abalos de uma ditadura, da violência No auge de sua reflexão e da adaptação da
desmedida e de abusos de poder. realidade uruguaia ao vocabulário da arte
Sua ênfase nas palavras e a rela- conceitual, Camnitzer criou sua série das
ção tortuosa delas com seu significado e Torturas Uruguaias, em que associa imagens
a imagem do que representam pode ser perturbadoras, relacionadas à ditadura no
entendida como tradução ou extensão país, a legendas lacônicas, como um copo
conceitual da obsessão inicial da arte do d’água e a frase “ele temia a sede”.
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Foto: Divulgação
Martín Sastre. Também em Nova York, Marco política de seu país. U de Uruguay é um
performance El Maggi fez da delicadeza de sua obra, de perfume criado pelo artista usando as
Perfume del Pepe, microrrelevos arquitetados em chapas flores do jardim do ex-presidente José
2003. metálicas e folhas de papel, um mini- Mujica. Celebridade da esquerda atual,
malismo às avessas. Enquanto a super- Pepe, como é conhecido, o ex-man-
fície lembra a mudez acachapante das datário uruguaio, entrou de cabeça no
peças minimalistas, um olhar mais de projeto. Sastre leiloou um dos três fras-
perto revela minuciosas construções, cos de perfume que fez e reverteu os
sejam elas gravadas no metal ou surgi- fundos à arte de seu país. Na campanha
das de dobraduras de papel, uma espé- de divulgação, gravou um comercial
cie de origami em que a delicadeza se da fragrância no Banco da República
revela em um ato subversivo. Oriental do Uruguai, com direito a um
Num registro mais histérico e striptease e a uma voz gravíssima em
nada delicado, Martín Sastre, uma das off, que pergunta se quem assiste ao ví-
mais novas estrelas da arte uruguaia, deo, como quem o fez, também vem
parodia a descida do campo da arte à do Uruguai.
indústria do entretenimento com um
trabalho de crítica institucional cal- Silas Martí é repórter de cultura do jornal Folha
cado na estridência midiática da nova de S. Paulo e escreve para outros veículos.

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ritmos

URUGUAI
VIAJA NA

MÚSICA
Maurício Rahal

O
Uruguai é um país pequeno e jovem que está entre
duas grandes potências musicais: Brasil e Argenti-
na. Essa proximidade exerceu grande influência na
música trazida pelos criollos, descendentes indíge-
nas, espanhóis e afrodescendentes que desenvolveram estilos
próprios, como El Candombe, o Tango, a Milonga, La Murga
e outras fusões musicais. São representantes dessa mistura ar-
tística: Alfredo Zitarrosa, Daniel Viglietti, Ruben Rada, Laura
Canoura, Jaime Roos, Hugo Fattoruso, Max Capote, La Mufa,
Martín Buscaglia, Abuela Coca e Jorge Drexler entre outros.
No MAU, Mercado das Artes do Uruguai, assisti a cerca de
40 shows, foi lá que vi e ouvi pela primeira vez Martín Buscaglia
e seus inúmeros recursos que o destacam como um artista
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Jorge Drexler teve suas músicas
gravadas por Mercedes Sosa, Omara
Portuondo, Pablo Milanés, Maria Rita,
Bajofondo. Médico, otorrinolaringolo-
gista, gravou seu primeiro trabalho em
1992 e mora em Madri desde 1994. Fi-
cou conhecido ao ganhar o Oscar com
a música Al Outro Lado Del Rio, do fil-
me Diários de Motocicletas, a primeira
canção em castelhano a levar o prêmio.
Por uma decisão de Hollywood, ao in-
vés dele, Antonio Banderas cantou a
canção acompanhado pelo guitarrista
Carlos Santana. Decepcionado, quando
chamado para receber o prêmio, subiu
ao palco e não agradeceu, mas cantou
o trecho da canção como uma espécie
de protesto. Essa irreverência, carac-
terística sua, também presente em sua
música, a inteligência harmônica e belas
melodias de caminhos incomuns refina-
dos e sutis fazem dele um compositor
diferenciado e um poeta de constru-
ção interessante e existencialista. Esse
compositor de estilo traz em seu violão
levadas tradicionais adicionadas a um
componente eletrônico percussivo, re-
vestido por diferentes sons trabalhados
por uma banda de formação inusitada
e que faz de Jorge um ícone da música
uruguaia contemporânea.

Abuela Coca – pequena narrativa


de um grande show
Abuela Coca: Abertura do Fes-
tival América do Sul, palco montado
Página ao lado: Jorge “inclassificável” com seu pop funk lúdico em frente a uma grande praça, plateia
Drexler na entrega do experimental, criando trilhas sonoras ao lotada, 12 integrantes, início do show...
Grammy Latino. vivo com suas pedaleiras de efeitos. Mar- Abuela Coca entra e destrói... Metais,
tín é um cara muito irrequieto no palco, vocais, percussões se unem num ritmo
um guitarrista que pluga e despluga suas empolgante espalhando a sonzeira e
guitarras a todo o momento em uma chamando a galera... Gonzalo Brown
aula técnica de som, sonorização e per- com seu espanholês, canta e manda
formance. Buscaglia gravou com artistas recados imantando e carismatizando
como Fito Páez, Arnaldo Antunes e Jorge entre um tema e outro, um entra e sai
Drexler. Traçando um paralelo, podemos de cantores e músicos em uma perfor-
aproximar Martín ao estilo das guitarras mance empolgante e dançante. No pal-
de Edgard Scandurra e Arto Lindsay. co vizinho, o Cidade Negra se prepara
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Foto: Divulgação

para o próximo show que começará


logo... Olhares divididos para não per-
der momentos e movimentos e a torci-
da para que o show da vovozinha dure
a eternidade. É proibido ficar parado
no show do Abuela, os cantores se re-
vezam cantando hip hop, reggae, salsa,
funk, rock e pop, tudo se misturando
como muita naturalidade e diversão!
Não importa quem veja, querem levar
para casa. Depois do show ainda no sa-
guão do hotel, o Toni Garrido comen-
ta: “Cara que som... Quero fazer um
show com eles, tem jeito?”.
Foto: Divulgação

Maurício Rahal é músico, compositor e


produtor musical.

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ensaio

DE FUSCA
NA COPA
Leonor Amarante

N
ão é novidade que a paixão pelo futebol é característica
comum entre os povos da América do Sul. O Uruguai
também enlouqueceu durante a Copa do Mundo e, lá
como aqui, ninguém ficou alheio ao clima que envolveu
os jogos de sua seleção. De anônimos a ilustres torcedores, como
Eduardo Galeano, personagem desta edição, que, durante a Copa
do Mundo, colocou uma placa na porta de sua casa com os dizeres
Cerrado por fútbol, só para assistir aos jogos sossegado.
O fotógrafo brasileiro Nauro Júnior não fica atrás. Ele é de
Pelotas, Rio Grande do Sul, mas divide sua paixão pela bola com um
Fusca 68, seu companheiro de viagem. Foi com ele que viajou ao

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Uruguai para acompanhar aos jogos da Copa junto aos torcedores
daquele país. “Adoro o Uruguai. O Galeano, com quem fiz amizade,
dizia que a única forma de entender seu país era começando pelo
futebol. Segui à risca a orientação e durante a Copa do Mundo fiquei
em terras uruguaias torcendo, é claro, pelo Brasil também”. Nauro
ficou impressionado com o número de pessoas “fantasiadas” para
os jogos. “A energia é contagiante”. Este ensaio foi feito por ele a
bordo de seu fusca 68 (em Pelotas, tem mais dois na garagem), com-
panheiro de jornada pela Argentina, Uruguai e Brasil. “Um Fusca
para mim tem a cara da América Latina. Onde quer que eu chegue
com ele as portas se abrem”.

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POESIA

SOY MI
HUESPED
Mario Benedetti

Soy mi huésped nocturno


en dosis mínimas
y uso la noche
para despojarme
de la modestia
y otras vanidades

aspiro a ser tratado


sin los prejuicios
de la bienvenida
y con las cortesías
del silencio

no colecciono padeceres
ni los sarcasmos
que hacen mella

soy tan solo


mi huésped
y traigo una paloma
que no es prenda de paz
sino paloma

como huésped
estrictamente mío
en la pizarra de la noche
trazo una línea
blanca

(De La Vida ese Parentesis)

Mario Benedetti é poeta, escritor e ensaísta uruguaio. Iniciou a carreira em 1949, alcançando
reconhecimento em 1956 ao publicar Poemas de Oficina.

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PAVILHÃO DA
CRIATIVIDADE
MAIS DE QUATRO MIL PEÇAS
CONTAM A HISTÓRIA MILENAR DOS
POVOS LATINO-AMERICANOS.

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CAZUZA, PRO DIA NASCER FELIZ
40 mil pessoas na praça cívica do memorial
26/05/2015

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