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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA
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Editora da Unlvarsidade do Sagrado C oraçlo


(f- 07 Questões para a História do presente -
Rua Irmã Arminda, 10-50 „ /p o r Agnès Chauveau e Philippe Tétart
17044-160 - Bauru - SP
Tel.: (014) 235-7111 - Fax: (014) 235-7219
e-mail: edusc@usc.br Pode-se fazer um a história do presente? -
x por Jean-Pierre Rioux
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Chauveau, Agnès -**51 O retorno do político - por René Rémond


Q uestões p ara a história do presente / Agnès
Chauveau, Philippe Tétart; Tradução Ilka Stern Cohen._
_ Bauru, SP: EDUSC, 1999 — 61 M arxismo e com unism o na história
recente - por Jean-Jacques Becker
132 p.; 21 cm.__ (Coleção História)

ISBN 85-86259-99-3 73 Ideologia, tem po e história - por Jean-


1. História-Filosofia. I. Tétart, Philippe. D. Título.
François Sirinelli
Hl. Série
— 93 A visão dos outros: um medievalista
CDD 901
diante do presente - por Jacques Le Goff
ISBN 2-87027-458-0 (original)
Copyright O 1992 Editions complexe — 103 Questões para as fontes do presente - por
Copyright © de tradução 1999 EDUSC Robert Frank
Tradução realizada a partir da Ia edição 1992.
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— 119 Entre história e jornalismo - por Jean-
para o Brasil adquiridos pela Pierre Rioux
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F U - - 0 Ö 0 1 1 2 7 0 - 8
capítulo 1

QUESTÕES PA RA A
H ISTÓ RIA DO PRESENTE
p o r Agnès CHAUVEAU e Philippe TÉTART

* Seria vão tentarmos nos tomar nosso próprio historia­


dor: o historiador é também criatura histórica
Jean Paul Sartre1

O im ediatism o do trabalho histórico diante da


história a acontecer, do fato, a presença ainda p ren h e
dos fatos no que cham am os de história im ediata, de
história próxim a ou de história do presente, colocam
num erosos problem as m etodológicos, epistemológicos
e, em certos aspectos, deontológicos.
Em sua relação com a história, n a sua m aneira
de fazer história - de fazer a história - o hom em , o ci­
dadão, intervêm com o o cientista. Qual é en tão a p a r­
te de "verdade" n ão histórica? Qual pode ser a n a ­
tureza da deform ação da análise e que elem entos con­
correm para esta deform ação? Quais são os jogos de
influência en tre os climas ideológicos e os contextos
históricos? Q ual é sua p arte de responsabilidade n a
em ergência e na afirm ação dos m ovim entos históricos
e historiográficos? Enfim, h á u m a responsabilidade do
historiador em seu papel cada vez m ais valorizado de
com entarista do presente ou do im ediato?

1 In Situations II, Gallimard, 1964, p. 41.

7
f

Tais são as questões às quais os historiadores O ATESTADO HISTORIOGRÁFICO


aqui reunidos ten tarão responder e que perm itirão
abrir pistas a fim de ap reen d er a epistem ologia da h is­ Com ecem os p or debruçar-nos sobre a h istorio­
tória do presente2.
grafia e a genealogia da história do presente. Dois ei­
Q uestionar a história do presente de m aneira xos determ in am esta prim eira observação: de u m lado
exaustiva exigiria, entretanto, u m verdadeiro aprofun­ a dim ensão epistem ológica e m etodológica, de o u tro o
dam ento com parativo das diferentes vias de pesquisa aspecto historiográfico, universitário e social da afir­
próprios à epistemologia, à historiografia ou à m eto d o ­
m ação do presente.
logia de nossa especialidade. Para ser completo, seria Para o prim eiro ponto, é inevitável constatar
pois necessário determ inar u m projeto m ais vasto que que, n o fim dos anos 70, a investigação m etodológica
aproxim asse e confrontasse testem unhos e análises e epistem ológica voltou-se essencialm ente p ara o es­
m uito num erosos de historiadores - um corpo tem áti­ tu d o da Nova História, h erd eira dos Annales de Lucien
co e arquivístico representativo. Tal estudo d em an d a­ Febvre e M arc Bloch. Se tom arm os as três obras fu n ­
ria igualm ente a intervenção de não-historiadores, dam entais que balizam essa interrogação: Faire de
pois as coisas n ão podem ser descritas som ente de seu VHistoire em 1974, La nouvelle histoire em 1978 e
interior. Enfim, seria necessário considerar o indivi­ Latelier de Vhistoire em 1982, verem os que o presente
dualism o m etodológico de cada historiador, particula-
nelas é quase in ex isten te3.
rismos das escolas, dim ensão extranacional. Por que essa ausência? Pensam os que p rim eira­
Não é esta nossa intenção e esta contribuição m en te essas diferentes obras são o trabalho de m edie-
constitui u m a afinação visando fazer o historiador p ro ­ valistas e m odernistas que se interessaram sobretudo
gredir n a com preensão e n a prática de sua disciplina. O por seus próprios campos. M as, antes disso, sem d ú v i­
objetivo deste estudo n ão é, antes de tudo, o de lhe da é preciso considerar o próprio procedim ento da
fornecer u m instrum ento teórico, m as o de propor-lhe História nova. C onsiderando as estruturas duráveis
u m a percepção renovada da história do presente. com o m ais reais e m ais d eterm inantes que os aciden­
Além disso, esse deveria perm itir m elhor m en su rar a tes de co n juntura, os fenôm enos de longa duração
presença do historiador em seu tem po, assim com o as com o m ais decisivos do que os m ovim entos de curto
conseqüências dessa relação, que nós declinaríam os de alcance, erodindo a cadeia factual com o propósito de
m odo interrogativo: climas ideológicos, m odas histo-
riográficas, culturais, orientações científicas.
3 Faire de l ’histoire, sob a direção de Pierre Nora e
Jacques Le Goff, très volumes, Gallimard, 1974 [edi­
ção brasileira pela Livraria Francisco Alves Editora,
Rio de Janeiro, 1976. N. do T.] ; La nouvelle histoire,
2 Sob esta fórmula não exclusiva, agrupamos a his­ sob a direção de Jacques Le Goff, Retz, 1978 (nova
tória imediata, a história próxima e a história do edição, Complexe, 1988) ; L'atelier de l ’histoire,
presente. François Furet, Flammarion, 1982.

8 9
substituí-la pelo sentido econôm ico e social do tem po, m esm o tem po em que m ostra a parcela de descon­
essa "escola" histórica ignorou freq ü en tem en te o con­ fiança com relação ao estudo do presente, revela bem
tem porâneo, a fortiori o presente e im ediato. o interesse q ue en tão se voltava para as lições de u m a
M as o problem a ultrapassa largam ente o dos história do presente.
tem pos históricos. Q uestão de hegem onia ou exclusi­ Foi, portanto, a despeito de u m interesse inicial
v am ente de escolas? Incom preensão ou desinteresse? convicto que a Nova História ignorou o presente, dei-
Todos esses elem entos p u deram contribuir para a si­ x ando-o "sob controle"- para reto m ar a expressão de
tuação de ru p tu ra entre o presente e a escola histó ri­ René R ém ond. Essa ignorância conheceu ainda n o tá ­
ca dom inante, além de que, d u ra n te os anos 70, o d o ­ veis exceções, pois foi n o próprio in terior da citade-
m ínio da história do presente era, sem dúvida, m uito la, com o acordo e a participação de Pierre Nora e
novo, ou m uito pouco cristalizado n o plano editorial, Jacques Le Goff, que tiveram lugar duas reflexões es­
p or exem plo, para ir contra esse estado de fato. senciais sobre o presente. Provas disso são o artigo de
E ntretanto, os pais dos Annales tin h am dado u m Pierre Nora , "Le re to u r de l'év én em en t", páginas ca­
lugar particular ao im ediato, ao presente e m esm o ao pitais püblicadas em Faire de VHistoire, e o capítulo de
político. M arc Bloch escrevia: incom preensão do Jean Lacouture: *L' Histoire im m édiate", páginas sim ­
passado nasce afinal da ignorância do presente." bólicas publicadas em La Nouvelle Histoire (que consti­
Q uanto a Lucien Febvre, n u m curso intitulado "A His­ tu em o único ensaio sobre a noção de im ediato). As­
tória n a vida contem porânea", / ele afirm ava que "a sim, em 1978, às vésperas do nascim ento do In stitut
análise do presente" podia dar "a régua e o compasso" d'H istoire du Temps Présent e do Institut d 'H is to ire
à pesquisa histórica4. Os Annales d'Histoire économique M oderne et C ontem poraine, só dois artigos notórios
et sociale faziam eco a essa análise. No curso dos anos tinh am sido publicados. Nesse m esm o ano, em seu
30, encontra-se aí u m a série de artigos tratan d o da prefácio a La Nouvelle Histoire, e à época em que o cu ­
evolução política da A lem anha e do fascismo europeu. pava com R ené R ém ond o núcleo da com issão q ue
Assim, em 1934, aparecia u m artigo de B orkenau: discutia a criação do IHTP, Jacques Le Goff reafirm ava,
"Fascisme et syndicalism e". Nessa ocasião, Febvre es­ en tretan to , que a história do presen te é freq ü en te­
crevia a Bloch: "Eu adociquei algum as fórm ulas para m en te m elh o r feita pelos sociólogos, politólogos, al­
n ão assustar a casa editora (alusões a A rm and Collin). guns grandes jornalistas, do que pelos historiadores.
De resto ele (o artigo) n ão é n em u m pouco brilhante Em decorrência dessa divisão b astan te p arad o ­
m as ev identem ente m uito atu al"5. Este exem plo, ao xal, evitou-se largam ente a problem ática do presente
e h á u m desequilíbrio en tre o estudo dos tem pos h is­
tóricos em geral e o do nosso tem po e das questões
4 Peter Schõttler, Lucie Varga. Les autorités invisibles, que lh e são inerentes.
Cerf, 1992, p. 101. O curso teve lugar no Collège de Há m ais ou m enos quinze anos, entretan to ,
France na primavera de 1936. essa ignorância recu o u de m odo singular e a ap ro x i­
5 Peter Scottler, ibid., p. 29. m ação se efetua p or m eio de u m a interrogação m e to ­

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dológica e historiográfica tomada comum: o interesse fundidade, n ão de u m a atitu d e científica pontual; até
pelas m entalidades, pelo político e pelo cultural tra n s­ essa época , o interesse pelo tem po próxim o não tin h a
cendendo as sociabilidades dos historiadores6. sido traduzido pela afirm ação de u m novo cam po
Com efeito, n u m m ovim ento que n ão se pode científico.
dissociar dos "retornos" (retorno do fato, reto rn o do Podem -se fixar algum as referências cronológi­
político), em ergia u m a preocupação crescente com o cas representativas dessa dupla afirm ação do im ediato
estudo do passado próxim o e com o im ediato7. Ora, e do presente. Depois que m uitos universitários e in ­
esse m o vim ento finca raízes b em antes destes anos 80. telectuais in au g u raram o costum e das análises im e­
O pós-guerra e os anos 50 tin h a m enterrado duas as­ diatas n a im prensa, n o centro dessa abundância de re ­
sociações consideradas, desde os anos 20, com o p ro ­ vistas e periódicos do pós-guerra, foi a vez da U niver­
fu nd am ente antinôm icas: História e im ediato, História sidade de p aten te ar o presente. No m eio dos anos 50,
e p resen te8. Trata-se pois de u m m ovim ento em p ro ­ o trabalho inovador de R ené R ém ond sobre as direi­
tas, p or m ais isolado q ue fosse, recebia u m a acolhida
favorável e em blem ática. Sabe-se, aliás, qual é o papel
6 Uma transcendência que devemos igualmente de R ené R ém ond n a prom oção e n a defesa da história
aproximar da complementaridade cada vez mais do presente.
marcada e voluntária da história, da sociologia, da Em 1963, Jea n L acouture lançava a coleção " A
politologia ainda que a incompreensão de princípio
História im ediata" en q u a n to se tom ava o hábito de es­
persista freqüentemente.
ten d er a pesquisa co n tem p o rân ea aos anos m u ito p ró ­
7 O que não significa retorno à história política posi­
ximos (particularm ente os anos 30 e o pós-guerra).
tivista, ou um retrocesso.
No decorrer dos anos 70, a historiografia do período
8 Não se deve, no entanto, fazer disso uma regra. As­
posterior a 1945 se desdobrava à m edida que alguns
sim, a Histoire de France contemporaine, editada por La-
rousse em 1916 cobre o período 1871 /1913. A exem­ dos talentos m arcantes da história do político e do
plo de outras obras, anteriores ou não, lê-se no pre­ presente acabavam suas teses. Enfim, em 1978, o
fácio: "A história contemporânea é, como se disse CNRS decidia a criação do IHTP e do IHMC, concreti­
muitas vezes, aquela que menos conhecemos. Os fa­ zando assim o cam inho percorrido e as novas aspira­
tos que lhe darão no futuro sua fisionomia destacam- ções, as novas necessidades.
se confusamente, primeiro do caos de informações
contraditórias e tendenciosas, e é lentamente, à luz
dos documentos dos arquivos, que aparecem distin­
tamente as idéias mestras nas quais se inspiraram os OS VETORES DE U M A AFIRM AÇÃO
homens de Estado e as caraterísticas da sociedade na
qual eles viveram. Um autor de boa fé pode, entre­ Essa cronologia e essas observações historiográ-
tanto, expor os acontecimentos contemporâneos tal ficas m uito breves m ascaram vários fatores conjuga­
como lhe parecem e, sem pretender fazer uma obra dos que favoreceram a afirm ação depois a expansão
puramente objetiva, ter a preocupação constante de da história do presente.
não ferir qualquer convicção."

12 13
Nesse processo, o estudo do político, o retorno O reto rn o do político desem penhou, pois, cien­
da história política tiveram e têm ainda u m papel tifica e intelectualm ente, u m papel essencial n a afir­
aglutinador e dinâm ico. E ntretanto, o presente e o m ação da história do presente. Se deixam os aqui em
im ediato n ão podem n e m devem lim itar-se à história suspenso a história do im ediato, é p o rque ela nos p a ­
renovada do político, m esm o que esta aja com o u m rece antes de tu d o tributária dos dois outros fatores
agente dinam izador9. que determ in aram o desabrochar da história do p re ­
Antes de tudo,^a história é m utável, e não se sente: o im pacto "de geração" e o fenôm eno concom i­
pode lim itar a interrogação sobre o presente som ente tan te de dem an d a social.
aos campos, aos m étodos, às teorias do político. jQual- O prim eiro po n to é u m elem ento fu n d am en tal
q u er obra sobre o político e a história política não n a evolução historiográfica e científica que acabam os
pode trazer senão respostas parciais. Ou então seria de descrever. Com o m ostrava recen tem en te Jean -
necessário considerar, n u m m ovim ento extensivo, Pierre Rioux , a afirm ação da história do p resente é
que o político é a chave de tudo; m as se ele é d eter­ um fenôm eno de geração11. Q uer nos coloquem os do
m in ante, a transcendência é tal entre os cam pos so­ lado de u m a história im ediata para os jornalistas, po-
cial, econôm ico, intelectual, cultural, que n ão nos p o ­ litólogos, sociólogos, ou do lado da história do p re sen ­
deríam os p ren d er às referências epistem ológicas e te para os historiadores e alguns outros especialistas,
m etodológicas propostas por u m só entre eles. nota-se u m efeito "de geração" m uito nítido. U m fa­
Deve-se, n o en tan to , po n d erar esse julgam ento to r é com um às diferentes profissões: o im pacto dos
n a m edida em que é verdade que a história política acontecim entos deste últim o século sobre os h o m ens
aparece com o ponto de partida e de ligação desse fe­ e sobre sua vontade de "reagir", isto é, de te n ta r expli­
n ô m en o de transcendência. Aliás, em num erosas car o presente. M as pode-se tam bém d eterm in ar fa­
abordagens de historiadores, o político leva ao cu ltu ­ tores próprios a cada profissão. Para os jornalistas,
ral, à opinião, etc.; inversam ente, o econôm ico e o so­ adiantarem os, en tre outras razões, o papel da decom ­
cial podem determ inar u m desvio para o político, que posição da im prensa nos anos 30 e o subseqüente d e ­
aglutina o presente. Cada cam po conexo guarda, e n ­ sejo de propor, desde 1945, u m com entário m ais rigo­
tretan to , sua au to n o m ia.10 Mais sim plesm ente, n ão se roso do presente, do im ediato. Para os historiadores,
deve esquecer que os historiadores do político consti­ trata-se, sobretudo, com o dizíam os acima, da germ i­
tu íram a vanguarda da história do presente. nação de u m pressuposto m etodológico m aior: a h is­
tória n ão é som ente o estudo do passado, ela tam bém
pode ser, com u m m e n o r recuo e m étodos p articu la­
9 Cf. René Rémond. Pour une histoire politique. Seuil,
1998, pp. 7-31. [edição brasileira pela Fundação res, o estudo do presente.
Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1996.N. do T.] Ver
igualmente a contribuição do mesmo autor nesta
obra. 11 Cf. Jean-Pierre Rioux, pp. 192-204 in Histoire et
médias. Journalisme et journalistes français 1950/1990 ;
10 Cf. René Rémond, ibid., p. 25.
sob a direçâo de Marc Martin, Albin Michel, 1990.

14 15
Essa evolução induz um a novidade essencial observar que, nesse processo, o au m en to e a acelera­
que n ão se pode om itir n a observação da história do ção da com unicação, a renovação progressiva da im ­
presente: a concordância cronológica en tre a "banali- prensa e da edição, a elevação do nível de estudo e a
zação" dos estudos tratan d o do período posterior a força dos engajam entos ideológicos, morais, dos anos
1945 e o fato de que hoje os historiadores não" se re ­ 50-60, tiveram u m papel determ inante. A dem anda
cusam m ais a trabalhar sobre os acontecim entos que social é, portanto, u m vetor c e n tra l./
Se nos restringirm os a u m a observação sobre
p u d eram viver. Essa singularidade nos leva a refletir
os anos 80, vem os o ex trao rd in ário desabrochar das
sobre a natu reza dessa presença física do historiador em
coleções de bolso. A lgum as ja tem valor de re fere n ­
seu tempo e n o seu tema. Essa questão nos ajuda n a d e­
cia: Seuil, C om plexe, C ham ps-Flam m arion, Folio-
finição da história do presente e, integrando um a di­
m ensão "da geração", perm ite antes de tu d o refletir Gallim ard. Elas consagram , às vezes, coleções inteiras
u m percurso científico no tem po. Por enquanto, lem ­ ao presente. Nesse p o n to , a evolução desde as cole­
brem os que essa concordância corresponde ao fe n ô ­ ções Idées-NRF ou K ioske-Colin, duas das grandes
m en o científico, historiográfico e institucional cujos coleções dos anos 60, é m arcan te tan to n a form a
contornos traçam os. q u an to n o fundo. Podem os tam b ém m en cio n ar os
Esta apresentação seria subjetiva, porque leva­ m últiplos m an u ais universitários e escolares q ue tra ­
ria diretam ente ao cientista ou ao jornalista, ao co­ zem a m en ção "de 1945 a nossos dias", lem a dos p ro ­
m entarista, se n ão abordássem os em últim o lugar a gram as de ensino. N otarem os de o u tro lado a p u b li­
dim ensão social da afirm ação d a história do presente. cação cada vez m ais freq ü en te das atas de coló­
Pois ela d eterm inou tam bém a evolução histórica, ao quios,fenô m en o em p len a expansão, revelador da v i­
m esm o tem po que é u m dos fatores de definição da talidade sim u ltân ea da oferta e da d em anda. A este
noção de geração de historiadores. Esta questão d e ­ respeito, a publicaçao quase sistem atica dos trabalhos
m and aria u m estudo específico e nós nos restringire­ do IHTP é significativa. Enfim , não nos devem os es­
m os a algum as observações sobre ela. qu ecer das coleções com o "UHistoire im m édiate",
Hoje em dia, a história do presente e do im edia­ "UUnivers historique"... Na verdade, n e n h u m a das
to é traduzida p o r u m a vasta produção editorial, jo rn a ­ grandes editoras ignora esse fenôm eno. Enfim , é p re ­
lística e por u m a difusão que ultrapassa os m eios ex ­ ciso citar algum as revistas: VIngtième Siècle, Les Cahiers
clusivam ente universitários.|N o m om ento este desen­ de V IHTP, e p ara u m público m ais am plo, UHistoire^
No que concerne m ais especificam ente à h istó ­
volvim ento corresponde à progressão dos gêneros h is­
ria im ediata, n ota-se a m ultiplicação das edições de
tóricos que estudamos.»Assim, o crescim ento editorial
com pilação de artigos (Le Monde), de n ú m ero s espe­
n ão data de ontem . vEla tam bém deita raízes nos anos
ciais de sem anários12 sobre tal acontecim ento, presen-
50, no m o m ento em que a situação nacional e in te rn a ­
cional dem andava esclarecimentos.VNão nos d em o ra­
rem os sobre as razões desta sim etria entre produção 12 Nos quais se encontram lado a lado universitários,
histórica e dem anda social, m as devem os ao m enos jornalistas e intelectuais.

17
16
te ou im ediato, com o a publicação de obras de h isto ­ haveria m atéria para pesquisa n esta história da epis-
riadores ou não-historiadores sobre os problem as cru ­ tem ologia, bem com o n a história da evolução histo-
ciais desses anos. riográfica. M as, n o final das contas, continuam os sem
Enfim, n ão se pode negligenciar a dim ensão ra ­ m unição. Para o presente, não dispom os de u m a refe­
diofônica, cinem atográfica13, m as sobretudo televisi­ rência com o Faire de VHistoire.
v a14, dessa presença da história do presente. O m érito principal dessa obra é o de ter baliza­
i do o terren o da m aneira m ais exaustiva possível, p res­
tand o assim u m em in en te serviço aos historiadores de
O INÍCIO DE U M A REFLEXÃO todos os períodos; é de ter, além disso, aberto a p o rta
ao contem porâneo, abrindo u m espaço p ara o político
Em vinte anos, portanto, a história do presente
e p ara o conceito de fato15. E n tretan to , esse balanço
se impôs, e desde o fim dos anos 70, um a reflexão m e ­
aparecia isolado n u m estudo voltado antes de tu d o
todológica e epistem ológica foi n a tu ra lm e n te em -
para os tem pos m odernos e m edievais.
preeendida. Pode-se lem brar especialm ente a jo rn a ­
| Hoje em dia, só Pour une histoire politique pode
da dos correspondentes departam entais do IHTP, em
responder à expectativa dos historiadores do presente, j
1980, consagrada aos Tempos A tuais. Lem bre-se
M esm o se essas respostas p erm anecem parciais -
ig u alm en te u m sem in ário dirigido p o r François
com o vimos, é quase a única baliza historiográfica e
B édarida n a Ecole des H autes Études e n Sciences
epistem ológica desses dez últim os anos. Por causa dis­
sociales. E para coroar esta curta lista, devem os lem ­
so, a obra figura com o finalização n o processo de afir­
b rar a existência do Dictionnaire des Sciences Historiques
m ação da história do político - e p o r extensão da h is­
dirigido p o r A ndré B urguières, a única obra a consa­
tória do presente - ao m esm o tem po em que m arca a
grar algum as páginas - de com prim ento desigual - aos
partida de u m a av en tu ra científica que conquistou daí
objetos de nosso estudo: Presente, História Im ediata,
História Política. em diante sua carta de nobreza. Convém , portanto,
considerá-lo com o u m texto fundador.
Estas balizas n ão representam a totalidade das
Mas n o que concerne d iretam en te à história do
contribuições coletivas ou individuais que ajudam a
im ediato, só nos resta contem plar o deserto que a nós
com preensão ou a definição da história do presente e
se oferece. Não h á in stru m en to de referência, tu d o
está p o r fazer.
O estudo historiográfico, m etodológico e episte-
13 Dois filmes acabam de sair consecutivamente, La
guerre sans nom de Bertrand Tavernier e Patrick m ológico dos tem pos atuais está apenas desbravado.
Rotman, que se constitui de depoimentos sobre a Não podem os ficar nisso. A história do im ediato e a do
guerra da Argélia (o livro aparece simultaneamente
pela Seuil), Diên Bien Phû de Pierre Schoendorfer.
14 Pensamos particularmente em Histoires Parallèles, 15 Jacques Julliard, "La politique", in Faire de l'histoire,
apresentado por Marc Ferro no canal Sete. Gallimard, 1974, tomo 2.; Pierre Nora, "Le retour de
l'événement", ibid., tomo 1.

18 19
presente dem andam um a definição m ais precisa, em im ediata. Percebe-se a dificuldade quando se q u er es­
seu próprio funcionam ento, a fim de ser m elh o r p e r­ pecificar com precisão o espaço cronológico que cobre
cebidas, individualm ente, e um a em relação à outra. o im ediato. E, caso se faça u m a escolha, ela logo p are­
ce arbitrária. A noção é obstinadam ente fluida: algu­
m as horas? algum as sem anas? alguns anos? Parece
D O EM BARAÇO SEMÂNTICO À que pode ser tudo isso ao m esm o tem po.
LEGITIMIDADE CIENTÍFICA Em com pensação, sabem os que o princípio des­
sa literatura não é em n ad a particular aos últim os
A questão prévia a esta epistem ologia da histó ­ anos, n em m esm o a este século: sem pre existiram
ria dos tem pos atuais é dupla, u m a vez que concerne análises judiciosas escritas n o calor do acontecim ento
ao m esm o tem po à pertinência da term inologia usual ou antes que seu eco se atenuasse.
e à legitim idade científica das histórias das quais Mas n ão é u m sofisma dizer: escritos no calor do
falamos. acontecimento ? Para ser fu n dam entada, a análise, m es­
História do presente, história próxim a, história m o a minima, im plica "tem po" necessário à consulta e
im ediata: estas três locuções n ão fazem referência às à síntese dos docum entos logo disponíveis. Por conse­
m esm as cronologias. E ntretanto, esses três tem pos qüência, po rq u e o ato de escrita e análise im prim e
históricos pertencem ao cam po do "m uito co n tem p o ­ u m certo recuo em relação ao acontecim ento, a le itu ­
râneo", o do século XX am putado de seu prim eiro ra im ediata pertence ao presen te antes que ao im edia­
terço. Sob m uitos aspectos, as questões que se colo­ to em sua definição prim itiva de instante.
cam a u m são válidas para os outros dois, p o rq u e a Além disso, todos os que se exercitam n a h istó ­
contração cronológica, o tipo de arquivos e a n a tu re ­ ria im ediata, jornalistas, historiadores, politólogos, so­
za dos objetos, dos cam pos fundam u m só e m esm o ciólogos, ten d em esp o n tan eam en te a se colocar, em
tem a. A ntes de tu d o o problem a concerne tam bém à graus diversos, n a horizontalidade cronológica e n ão
conform idade das expressões e ao valor real de cada n a verticalidade sincrônica da análise pontual, v erd a­
gênero. Ele se situa m esm o n u m a interpelação m ais d eiram ente im ediata, p o rq u e tal n ão é o m étodo h is­
em baraçosa para nós: o próxim o, o presente e o im e­ tórico, p o rq u e o próprio público espera u m esboço do
diato são indistintam ente objetos de história? fu turo e u m esclarecim ento do presente pela "rever­
A história im ediata é a que m ais suscita descon­ beração histórica".
fiança, pois é a que parece engendrar o m aior p arad o ­ Se nos restringirm os a essa visão das coisas, a
xo fazendo rim ar dois term os contraditórios: imediato história im ediata n ão existe, e não passa de conse­
e história. Pode-se falar de u m a história do im ediato? qüência de u m a m anipulação lingüística fundada
Essa história é legítim a? n u m a antinom ia.
O fator cronológico n ão é n em suficiente, n em Mais precisam ente, o estudo do jornalism o h is­
satisfatório para em basar u m a definição de história tórico é instrutivo, p o rq u e a história do im ediato foi

20 21
prim eiro m arcada pelo selo jornalístico. De certa m a ­ m ente à m em ória, Jea n Lacouture, au to r de L'Egypte
neira, ela é m esm o filha da im prensa. De fato, foram en mouvement (1956), do (Le) Maroc à l'épreuve em
a pressão jornalística e a dem anda social conjugadas 1958, Charles A ndré Julien, au to r de L’ Afrique du
que im puseram o princípio da história im ediata a p a r­ Nord en marche, publicado em 1972, depois de te r sido
tir da m etade dos anos 50. co-signatário (com Charles Albert Ageron) de u m a
A vida política francesa sob a IV República é n o ­ Histoire de l ’Algérie contemporaine, publicada em 1964,
tavelm ente caprichosa; n o m esm o m om ento, os m ú l­ apenas dois anos depois do acordo de Evian.
tiplos aspectos da guerra fria fornecem tem as volum o­ De Jea n Lacouture, pode-se dizer q ue é u m jor-
sos, candentes e pertinazes. Pela intensidade dos e n ­ nalista-historiador. De C harles A ndré Julien, direm os
gajam entos inerentes à situação de precariedade polí­ que é historiador-jornalista. E ncontram os aqui essa
tica, diplom ática e m ilitar, pela elevação do nível de m estiçagem m etodológica. M as com o o n o ta Jean -
estudo, o período se prestava, pois, ao desenvolvi­ Pierre Rioux, n e m p o r isso h á confusão de gêneros.
m en to de u m a literatura cujo papel devia ser o de es­ A contece q ue a am bivalência ou a am bigüidade que
clarecer a nação sobre a instabilidade governam ental, nasce dessa interseção leva a pen sar a história im edia­
sobre as guerras, sobre a descolonização, sobre as te n ­ ta com o u m gênero híbrido. Essa am bivalência, n o e n ­
sões internacionais. M as esta afirm ação é igualm ente tan to, não é própria das obras dos anos 50-60, e esse
inseparável dos progressos audio-visuais, da acelera­ hibridism o se en co n tra em outras m ais recentes.
ção da com unicação , do vigor da edição. Enfim , esse Assim em 1991, Solange e Christian Gras escre­
período é tam bém o de um a dupla confirm ação edito­ vem um a Histoire de la première République miterrandienne16.
rial e universitária: a da ciência política e da sociologia Eles têm acesso aos arquivos de M auroy e Fabius; eles
que reclam avam , am bas, u m a m aior capacidade de têm a possibilidade de constituir arquivos orais interro­
análise do presente. __ gando alguns "figurões" políticos; enfim, eles compulsam
De fato, o procedim ento da história im ediata é os dossiês de imprensa. Mas nunca eles dtam suas fontes,
m ais parecido com as técnicas jornalísticas do que com suas provas, exceto aquelas que já foram publicadas.
as da ciência histórica. Os fatores conjugados que lhe Como distinguir, então, a parcela das informações tiradas
deram nascim ento não resultam , em prim eiro lugar, dos arquivos daquela nascida do boato, de suas próprias
do princípio inicial da história: o recuo, o desprendi­ hipóteses ou do pré-julgam ento? Problema tanto mais
m en to com relação ao fato. Isto n ão im plica , aliás, complicado pelo fato de que Christian Gras não é som en­
que a história im ediata seja exclusivam ente d eterm i­ te historiador e testem unha do período: ele foi tam bém
n ad a p or essas técnicas e que n ão seja tributária da seu ator como m em bro do gabinete Mauroy. No limite,
pesquisa científica .
Da m esm a form a ela é determ inada pelo e sta tu ­
to dos h o m ens que in au g u raram de m an eira p eren e o
recurso à história im ediata. Dois nom es vêm n a tu ra l­
16 Robert Laffont, 1991.

22 23
tanto na forma quanto no conteúdo, a obra não se distin­ xão, com o todas as histórias, é verdade, m as ao preço
gue daquelas que a tinham precedido e cujos autores de um a releitu ra18.
eram jornalistas17. Esta análise form ulada n o calor da hora, que
O problem a se coloca em term os análogos para seja a obra de u m historiador reputado, de u m jo rn a ­
C harles-A ndré Julien. Ele foi conselheiro da U nion lista experiente, e m esm o se o público pôde referir-se
Française, m em bro da SFIO, anticolonialista convicto, a ela (im ediatam ente ou m ais tarde), deve ser consi­
colaborador do Monde, e, n a ocasião, associado a p u ­ derada antes de tu d o com o testem u n h o , com o objeto
blicações bem m arcadas à esquerda com o France histórico. A qualidade dos autores e a realidade da d e­
Observateur. Se sua Histoire du Maroc perm anece ainda m anda social não estão em causa, m as não são fatores
com o referência, se ela resistiu ao tem po, com o diz de cientificidade. C ertam ente, aquele que escreve h is­
Jean-François Sirinelli, acontece que, escrita n o curso tória im ediata é testem u n h a e historiador (en q u an to
dos acontecim entos, n a época do fecham ento progres­ (d)escreve a história), ele n u n ca ignora o rigor cientí­
sivo do M arrocos, ela com porta necessariam ente um fico. Mas ele é igualm ente ator, está em relação direta
certo n ú m ero de falhas, esquecim entos voluntários ou com seu tem a. Ele pode ser passivo ou ativo, n eu tro
n ão , devidos a pressões exteriores ou não, devidos, ou engajado, e sua obra pode se to m a r tom ada de p o ­
even tualm ente, à pressão do tem po e ao desecadear sição ideológica, m oral, ben ev o len te ou com bativa. E
dos acontecim entos que vai sem pre m ais rápido do se seu trabalho adota a form a de u m a observação
que o historiador.
No exercício da história im ediata, este n ão é
m uito m ais livre do que o jornalista. Estes exem plos 18 Sobre este ponto, as opiniões de um jornalista -
perm item colocar bem o problem a da natu reza e do historiador e de um historiador-jornalista concor­
grau de legitim idade científica desta história. dam. Jean-Raymond Tournoux escreve: “A História
escrita pelos contemporâneos é polêmica. Mas esse
Vista com o objeto, a história do im ediato é tes­
livro não tem a intenção de escrever toda a História
tem u n h o . Este é seu valor intrínseco. Esse te ste m u ­ de alguns acontecimentos; em compensação, sem
n h o pode tom ar a form a de u m a análise que, h ie ra r­ alimentar controvérsias partidárias, ele espera trazer,
quizando um a prim eira vez as questões, os fatos, for­ para o futuro, uma contribuição por meio de depoi­
nece co n ju n tam en te arquivos, depoim entos, pistas de mentos, de documentos, de precisões." In Carnets
pesquisa e esboços de interpretação. A inda que m a n ­ secrets de la politique, Plon, 1958, p. 1. Jacques Julliard
ten h a u m aspecto científico, a história do im ediato confidencia a propósito de seu papel de cronista no
perm anece principalm ente u m a m atéria para refle - Nouvel Observateur: “(...) Para além do jornal, supos­
to de refletir o presente imediato em sua diversidade
barroca, cabe-lhe fazer as primeiras seleções, em­
preender essa primeira organização da atualidade,
destinada a torná-la legível a nossos contemporâ­
17 Por exemplo Pierre Favier, Michel Martin Roland, neos, antes que a História por sua vez opere suas es­
La décennie Miterrand, Le Seuil, Paris, 1990. colhas". In Chroniques du septième jour, Le Seuil,1991,
p. 9.

24 25
científica rigorosa, de u m a dedução dos fatos p ro c u ­ das obras (ou dos "últim os" capítulos) de historiado­
rando a m aior neutralidade, esta, nós bem o sabemos, res, sociólogos, politólogos ou de jornalistas especialis­
n ão é m enos objeto da história do que a leitura dos fa­ tas n o presen te é talvez m ais ju sta do que a dos sim ­
tos através de u m prism a ideológico, filosófico, m oral ples "cronistas", n a m edida em que, precisam ente, o
ou religioso. ato histórico consiste em p ôr a história em perspecti­
N inguém escapa a esta lei do gênero. Redigindo va depois de te r retirado desta os aspectos factuais que
Létrange défaite em 1939, M arc Bloch é historiador, são apenas sua tram a.
observador perspicaz19. M as ele é igualm ente te ste m u ­ A pesar de sua im perfeição, de sua inexatidão
n h a e ator e apesar da clarividência de suas análises, virtual, a história im ediata tem u m a função social. Ela
im prim e, com o q u alq u er outro, esperanças e in q u ie­ é o com plem ento da história do presente. Ambas for­
tações de seu tem po sobretudo porque n ão está in s­ m am u m todo. As duas são vetores da legibilidade do
truído pelo futuro. O m esm o ocorre q uando a história presen te para u m público am pliado e solicitante: a
im ediata é estudo ou avaliação da realidade. Na biblio­ história do im ediato com o a historia do p resente res­
grafia esquelética indispensável ao estudo das dissi­ po n d em a essa dem anda. E n tretan to , essa constatação
dências socialistas da IV República, o n ú m ero especial não se deve prestar a confusões. C ertam ente, h á u n i­
de Temps Modernes sobre as Novas Esquerdas, publica­ dade cronológica com a história do presente. C erta­
do n a prim avera de 1955, é central. Mas, apesar da m ente, h á u m a dem an d a m ultiform e e u m a resposta.
preocupação com a objetividade e do valor da revista, Mas é preciso definitivam ente distinguir o que se a p u ­
a redação de Jean-P aul Sartre estava, bem m ais que ra de u m a verdadeira pesquisa histórica daquilo que
outras, ancorada em seu tem po, im plicada nos deba­ n ão faz p arte in teiram en te desta: a história do im edia­
tes contem porâneos20. to pertence a essa segunda categoria.
Voltado para seu tem po, insuficiente ou incom ­ O debate term inológico é m enos caloroso no
p letam ente provido do recurso necessário para dar a que tange às duas outras expressões co rren tem en te
tal fato, a tal crise, seu verdadeiro valor, o docum ento em pregadas: História Próxim a, História do Presente.
de história im ediata deve ser lido com distância. No li­ Alguns confessam sua preferência pela prim eira, o u ­
m ite, en tretan to , a dim ensão analítica ou prospectiva tros defendem , ou m ais sim plesm ente, utilizam a se­
gunda. A qui as sensibilidades pessoais prevalecem so­
bre a escolha sem ântica. Afinal de contas, pouco im ­
19 Uétrange défaite, Edition Franc Tireur, 1946. p o rta que a história próxim a leve vantagem segundo
20 Quando essa subjetividade não é reconhecida de alguns, sobre os últim os trin ta anos, e que a história
imediato por um autor no trabalho exemplar. "Nós do presen te englobe, segundo outros pontos de vista,
nos ocupamos constantemente com nossa época; fal­ os cin qü en ta ou sessenta últim os anos. As duas fu n ­
ta-nos qualquer recuo ou perspectiva; corramos o cionam de u m m esm o m odo, definem -se p or caracte­
risco de nos enganar." Conclusão de Maurice Nadeau rísticas com uns: a n atu reza dos arquivos e sua form a
no prefácio de Le Roman français depuis la guerre, de acessibilidade, a n atu reza dos m étodos, o círculo
Gallimard, 1963, 1970 (reedição, Le Passeur. 1992).

26 27
dos historiadores, a continuidade cronológica n u m sé­ "O autor destas linhas confessa que em 1944, aos
culo. As duas possuem , além disso, o recuo necessário cinco anos de idade, sonhava prazerosamente diante
para desapaixonar a abordagem científica. das vitrines vazias das confeitarias, mas que em
1958, estudando em Paris, ele acreditava ter o que
A locução "história do presente" é, entretanto, dizer contra essa guerra da Argélia que marcou dolo­
a m ais corrente, a m ais reconhecida, aquela que se rosamente a entrada de sua geração na política. No
utiliza por convenção. O próprio no m e do Institut ajuste de contas, lembranças felizes perturbaram-no.
d'H istoire d u Temps Présent traduz essa generalização. Ele não mais importunará seu leitor com eles, mas
G eneralização fixada porque o valor científico dessa esse espectro de emoções o impede de almejar uma
história é doravante incontestável. objetividade cuja fragilidade e equívoco a prática da
história lhe revelou."22
Mas nosso tem a n ão se contenta com u m sim ­
ples atestado historiográfico, editorial, social ou u n i­ "Para terminar, permitiremos ao autor falar - uma vez
versitário, pois, se o balanço respondesse apenas à exi­ só - de si mesmo. A geração à qual eu pertenço ouviu
gência científica, ele n ão teria razão de ser: a história apenas ecos longínquos e já abafados do segundo
do p resente deu provas de sua distinção21. Convém , conflito mundial e seu despertar também não se dá,
cronologicamente, sob o signo da Argélia. Por isso,
portan to, que nos voltem os para o historiador para
essa geração de historiadores tem uma relação com o
te n ta r especificar critérios de definição diferentes d a ­ passado pré-quinta-república sem paixões, o que não
queles da própria ciência. quer dizer sem convicções. De resto, a corporação de
A ntes de ser analista, o historiador é hom em , historiadores não esperou essa nova extração de pes­
cidadão, ator ou espectador, e h á alguns anos, tanto quisadores para calcular e demonstrar que era possí­
em seus escritos com o em seus cursos, ele reivindica vel fazer uma história do tempo próximo oferecendo
todas as garantias de rigor e seriedade. Então, por que
ou reconhece cada vez m ais seu próprio pertencim en- essa declaração de princípio? De fato, por essa razão
to à história, - e esse olhar que n ão foi necessariam en­ evidente mas que é preciso relembrar mais uma vez:
te o do historiador, m as talvez o do inocente ou da tes­ a história dos intelectuais é, em essência, uma histó­
tem u n h a, engajado ou não. O estudo da história do ria de forte teor ideológico, ainda mais se se pode ler
presente, a interrogação epistem ológica sobre seu v a ­ nela em filigrana uma relato das grandes paixões
francesas. Também o pesquisador, se baixa a guarda
lor, n ão dizem respeito ao questionam ento de sua
no exercício de seu ofício, arrisca-se, consciente ou
existência social ou científica, n em à pertinência de inconscientemente, a ceder seu lugar ao moralista.
sua denom inação, m as a seu próprio funcionam ento, (...) Nem por isso o perigo deve proibir uma refle-
com o testem u n h am as linhas seguintes: xão(...) Uma história serena não significa uma histó­
ria asséptica(...): assumir a subjetividade é meio cami­
nho andado para controlá-la"23.

22 Jean-Pierre Rioux, in La France de la IV. République,


Seuil, tomo 1,1980.
21 Ver a contribuição de Jean-Pierre Rioux, "Peut-on 23 Jean-François Sirinelli, Intellectuels et passions
faire une histoire du temps présent? " françaises, Fayard, 1991.

28 29
Essas advertências falam p o r si. Devem os, e n ­ Se não se devem subestim ar os fatores de defi­
tretan to , com pletá-las a fim de com preender bem o nição anexos ou conexos da história, especialm ente os
sentido e as causas desta reivindicação pessoal - reivindi­ que pudem os evocar nestas páginas, perm anece o fato
cação que toca várias gerações de historiadores asso­ de que a observação da relação física entre o h isto ria­
ciados n o estudo do presente. dor e seu tem a, o historiador e seu tem po, m ostra que
Não deixa de ser significativo que Jean-P ierre a definição de história do presen te passa principal­
Rioux e Jean-François Sirinelli, nascidos respectiva­ m en te pela referência de u m a nova relação en tre o
m en te em 1939 e 1944, ten h am a necessidade de (se) cientista e seu cam po de investigação.
pôr em alerta contra os efeitos da subjetividade, pois é Essa im ersão do historiador do presente em seu
preciso reconhecer que esta atitude caracteriza um a tem a distingue-se, parece-nos, da relação n atu ra l que
certa geração. C ertam ente, eles não viveram os m es­ todo historiador tem com seu tem a, seja ela passional
m os eventos, as m esm as tensões históricas e o dizem. ou não. Jam ais u m m edievalista ou u m m odenista p o ­
E n tretanto, tan to u m q u an to o outro, p orque trab a­ derá "viver" o que descreve. Ele deve recom por u m a
lham com as elites, com a sociedade e a cultura de sua realidade que lhe escapa fisicam ente. Não é senão no
própria época, p orque fazem parte da geração de h is­ presente, p o r reverberação de sua relação n o p re sen ­
toriadores que em ancipou os cam pos históricos, que te, que ele pode (re)conhecer o u im aginar aquilo de
descobriu suas arm adilhas, associam -se e insistem d e­ que fala investindo-o de u m a presença física "real" .
liberadam ente sobre as eventuais deform ações, sobre A m etáfora histórica nasce da associação en tre im a­
as dissimulações de um a história do presente. Isto não gens do presen te e representações do passado. Sobre
quer dizer que outros não te n h a m tido essa intuição este ponto, Jacques Le Goff faz u m a relação d em o n s­
q ue perm anece u m princípio fundam ental da h o n e s­ trativa en tre a representação da guerra m edieval e seu
tidade intelectual. \ valor de realidade ilustrada, encarnada pela guerra
Mas esta interrogação está ligada a duas outras contem porânea.
novidades: o crescim ento e a reputação da história U m a o u tra questão se coloca n o próprio interior
cultural e intelectual, e a m oda da ego-história, que da família de historiadores do presente. Os pesquisado­
pertencem, am bas, antes de tudo, a esta geração de h is­ res nascidos no m eio dos anos 60 têm a m esm a percep­
toriadores. Hoje em dia, a m istura das idéias, dos m é ­ ção do acontecim ento que seus m estres, a m esm a rela­
todos, dos cam pos e das gerações (os autores reunidos ção física ou intelectual com o presente? Se n ão é este
aqui nasceram entre 1919 e 1965) é tal que este o caso, isto induz a evoluções fundam entais?
alerta contra a subjetividade dos historiadores se Sobre a form a, n ad a h á de novo. Como nossos
generalizou. antecessores, nós funcionam os com u m a m em ória
É, portanto, indispensável refletir em term os de dupla: direta/indireta, m esm o que ela seja cada vez
presença do historiador em seu tema - presença direta ou m ais deform ante e ativada p o r causa do desenvolvi­
indireta no tem po, presença intelectual, m oral, filosó­ m en to incessante da com unicação e da com em oração.
fica, ou m ais sim plesm ente psicológica e física.

30 31
Pode-se, n o entanto, pensar que é um a falsa si­ Investido do m esm o valor. O que não significa de
m ilitude, pois nós n ão conhecem os a crise aberta, vive­ m odo algum , aliás, que nós não estejam os presentes a
m os n o m ito de acontecim entos e engajam entos e n ­ esses acontecim entos, ao contrário.
cerrados24. Nada h á em com um entre a crise econôm i­ E ncontra-se essa am bivalência n a ação h u m a ­
ca difusa dos anos 70-80 e as crises abertas dos anos nitária: consciência ou im plicação m oral de u m lado,
50-60. Esta diferença é decisiva quando a conjugam os banalização e gestão institucional da catástrofe de
com dois fenôm enos novos, correspondendo, desta outro.
vez, a nossa m em ória direta: o não-acontecim ento e Não se trata, portan to , de discutir o valor real
o recuo das grandes m itologias revolucionárias ou dos fatos n a história, m as sua percepção e as condições
utopistas. históricas nas e pelas quais eles são percebidos.
Pierre Nora definia m agistralm ente "o aconteci-
m ento-m onstro". Mas, para nosa geração, essa m o n s­ A presença do historiador em seu tem po evolui,
truosidade parece ser paradoxalm ente responsável por portanto, em função da própria história. Não h á n ada
u m a banalização do fato, tornado repetitivo, derreado de novo nisso. Em com pensação, a evolução da rela­
e sem substância. Por sua onipresença audio-visual, ção com o acontecim ento, a m u tação dos en g ajam en ­
p or seu caráter universal e instantâneo, porque se p o ­ tos ou não-engajam entos intelectuais e políticos m a r­
deria finalm ente apelar para seu caráter de norm alida­ cam u m a ru p tu ra com as gerações precedentes de h is­
de, o acontecim ento se esvazia. Nós tem os u m a relação toriadores. O contexto n ão é m ais o m esm o. Isso ex ­
física com a história em m ovim ento, m as ela não está plica, talvez, o desejo de n eutralidade e de recolhi­
m ais carregada - cum ulada - das m esm as representa­ m en to cada vez m ais m arcado das novas gerações: re ­
ções n em das m esm as esperanças que h á vinte ou trin ­ colhim ento, n eutralidade que se trad u zem freq ü en te­
ta anos porque, ju stam ente, a história avançou. m ente em term os de pessim ismo, de desinteresse ou
Nesta evolução, o recuo dos idealism os e o des- de resignação, m as q u e cientificam ente, seriam os fru ­
'io c a m e n to do político para um a política de gestão tos do en co n tro en tre as lições epistem ológicas da h is­
(econôm ica, social, ecológica, ética, h u m anitária...) tória do presente e a evolução do contexto histórico e
d esem penham u m papel central. M esm o se ele é p o r­ da percepção im ediata da história.
tad o r de u m a grande violência ou de u m a simbólica Na h o ra em q ue a questão cultural se sobrepõe
histórica im pressionante (Tchernobil, queda do m u ro p or vezes à questão política, constata-se que a história
de Berlim, m orte de Ceaucescu, guerra do Golfo, adota tam bém u m m odo de análise centrado sobre a
putsch contra Gorbatchev, êxodo dos albaneses, des­ noção de cultura; e que a no v a geração de historiado­
m em b ram ento da URSS), o acontecim ento n ão é m ais res do presen te se atém prim eiro a u m a explicação só-
cio-cultural,enquanto que no seu início, seus an teces­
sores favoreceram em prim eiro lugar o político.
24 Pensamos em particular na crise argelina, em
maio de 1958, mais ainda em maio de 1968.

32 UWVERSIDADE^FEDERALDEUSERUnDR 33
OJDÍJQteC^
Q u a is e ix o s d e p e s q u is a ? é o historiador diante de seu tem po? Quais são as co n ­
seqüências dessa presença do historiador em seu te m ­
Se nos ativerm os à ordem que adotam os nesta po, e por isso m esm o, o que ele está propenso a estu ­
apresentação, o historiador e sua disciplina constituem dar, com recuo ou n o instante?
u m prim eiro eixo de pesquisa, e a história do p re sen ­ Nesse dom ínio, a contribuição da ego-história,
te deve ser estudada por m eio de três tem as: os novos a vontade crescente de integrá-la com o fator causal
problem as, os novos cam pos e as novas apresentações. pode ser de grande ajuda. A reivindicação do bloqueio
Esta observação da renovação m etodológica p erm iti­ pessoal traduz u m a no v a etapa nas possibilidades de
ria definir precisam ente a disciplina e ap reender sua Interpretação. E se n a origem , a ego-história n ão é ex ­
natu reza substituindo-a no concerto das diferentes clusivam ente feito dos especialistas em co n tem porâ­
histórias. E para ser com pleto, seria necessário fazer nea- in au g u rad a que foi pelos m edievalistas e m o d er­
u m estudo dos lugares de sociabilidade dessa história nistas - n em p or isso ela se to rn a m enos im p o rtan te
a fim de avaliar a natu reza da sensibilidade com um para nós. Mas nessa observação do percurso dos h is­
aos historiadores desse período. toriadores, é necessário igualm ente interrogar o rien ­
D efinitivam ente, tu d o volta a colocar a questão tações historiográficas e climas ideológicos.
da existência e da definição de u m a "escola" histórica. Ego-história, "atmosfera" e orientações historio­
E ainda aqui, qualquer resposta com porta seu corolá­ gráficas m isturam -se n o processo de pesquisa e de
rio de interrogações. Por que a história política n ão se identificação do au to r com seu tem a. Jean-François
afiipiou abertam ente com o um a escola? Por que e Sirinelli m ostra com o u m clima ideológico pode d eter­
com o os diferentes direcionam entos históricos se m inar as orientações historiográficas. No m esm o senti­
aproxim am e se enriquecem ? Há, hoje, u m desejo de do, Jean-Jacques Becker alerta para os perigos de um a
hom ogeneização do m étodo em história25? história que cederia ao peso do acontecim ento rejei­
tando objetos históricos considerados m oribundos.
Ora, para responder a essas questões, é preciso
abrir outros cam inhos além da historiografia, da m e ­ U m a vez que o problem a da disciplina coloca a
todologia, da sociabilidade, e devem os abordar o p ro ­ questão da relação en tre o historiador e seu tem a, m as
blem a do percurso histórico. tam bém da relação en tre o historiador e seu tem po,
Com o e p o r que se faz história do presente? qu alq uer resposta seria incom pleta se esquecesse o
Com o nos tornam os historiadores do presente? Q uem historiador, a história e a sociedade.
Q uer seja em sua relação com a testem u n h a,
com o arquivo oral, o que m ostra R obert Prank, q u er
25 E além, num percurso fixado na antropologia, no seja n a sua relação com o público, com o jornalism o,
sentido etimológico do termo, um desejo de homo­ com o nos descreve Jean-P ierre Rioux, o historiador é
geneização, de interdisciplinaridade real entre as
"ciências irmãs": história, sociologia, etnografia, cada vez m ais p arte in teg ran te do contem porâneo -
sociologia. p o rque a força da história passadista, factual e histori-

34 35
cista se esfum aça diante de um a dem anda social insis­ questão a história do presente n ão é antes de tu d o
tente, resolutam ente ancorada no presente e n o m odo louvar sua capacidade explicativa. Não é defender e
"interpretativo". Em sua intervenção pública, a histó ­ Ilustrar u m a nova m an eira de história, é ao contrário
ria, com o a m edicina o u a ciência da ecologia, é um ol)servá-la e pô-la em dúvida para m elh o r conhecer
fator de com preensão do presente e vetor de opinião seu funcionam ento e assegurar-se de sua validade - de
para o corpo social. Convém , portanto, saber com o e sua capacidade heurística.
p or que essa relação entre a ciência e a sociedade
funciona.
Agnès C hauveau
Como se percebe, a interrogação sobre a h istó ­
Philippe Tétart
ria do presente toca "um pouco de tudo". Ela é h istó ­
rica p or essência, daí a dificuldade, e até m esm o o p e ­
rigo, de separar u m a visão da outra. Q uer se analisem (C entre d'H istoire de l'E urope du vingtièm e siècle)
os objetos, as form as, o m étodo ou os objetivos da h is­
tória; q u er se observe a disciplina, ou percurso ou a
função social, devem -se explorar os terrenos lim ítro­
fes e conceber u m a reflexão geral sobre a história do
presente, sobre o historiador.
O historiador deve, pois, abstrair-se o m ais
com pletam ente possível das interferências da ideolo­
gia e da subjetividade, estudando-as e procurando
apreen der verdadeiram ente seu objeto além de um a
acepção p u ram en te histórica. A epistem ologia da his­
tória do presente consiste, portanto, em interrogar a
história a fim de p ropor novos dados que aum en tarão
sua capacidade de explicitação e de sugestão26. Pôr em

26 Orientação bibliográfia suscinta ... Gilles Deleuze e


Félix Guattari, Qu'est-ce que la philosophie?, Éditions
de Minuit, 1991, p. I l l sq.; Reinhart Kosseleck, Le
futur passé. Contribution à la sémantique des temps
historiques, Éditions de l'EHESS, 1990, p. 19 sq.; Alain
Testart, Éssai d'épistémologie, Christian Bourgois,
1991, especialmente pp. 75-92, pp. 105-110; G.
Gadoffre, Certitudes et incertitudes de l ’histoire, PUF,
1987.
capitulo 2

PODE-SE FAZER UMA


HISTÖRIA DO PRESENTE?
pbr Jean-P ierre RIOUX

A ntes de adiantar u m a argum entação que p o ­


deria to rn ar plausível u m a resposta positiva a esta
qu estão, é preciso estar de acordo acerca desta noção,
a priori desconcertante, de história "do p re sen te"1. Pois
não se trata n em do "período" últim o de u m recorte
do passado para uso escolar e universitário, n em de
u m conceito de substituição p o r tem pos de crise da
tem poralidade nas nossas sociedades invadidas pelo
efêm ero, n em m esm o de u m paradigm a regulador no
caos das ciências sociais. Um a história dita do p re sen ­
te participa de fato m ais ou m enos de todos esses v o ­
cábulos. H ouve, n ão duvidem os disso, u m a boa p arte
de bricolage n a sua construção, en q u an to que aqueles
que a questionam n ão depuseram as arm as. Na F ran ­
ça, a questão se estabeleceu n o finzin h o da década de
1970, q u an d o o CNRS, sem fazer alarde, criou u m la ­
boratório, o In stitu t d'H istoire d u Temps Présent, cuja
missão, precisam ente, consistia em refletir ativam ente
sobre a noção, conduzindo pesquisas específicas que
resum iriam o m ovim ento. Ela n ão paro u de agitar os
espíritos, e o dito Instituto n u n ca esteve resguardado
das atribulações.

1 Uma primeira versão desse tjixto foi publicada em


Historical Reflections. Réfléxions historiques, 1991, vol.
17, n. 3, alfred University, Nova York, p. 297-305.

39
A form ulação m ais brutal da questão, aquela cronológica que deseja apenas espessar-se, m as tam -
que suporta a carga epistem ológica m ais forte, é evi­ liérn com o u m m o m en to p articularm ente favorável à
d en tem en te esta: pode o presente ser objeto de histó ­ observação da ação do tem po passado sobre o presen-
ria? Como de fato inscrever u m presente fugaz n a lc e, enfim , com o u m a p erm u ta tangível en tre m em ó ­
construção, ou reconstrução, necessariam ente tem p o ­ ria c acontecim ento.
ral ou retroativa , que elabora o historiador confron­
tando suas hipóteses de trabalho com a dura realida­
de da docum entação e do arquivo recebidos? A van­ A PROXIMIDADE E A INTELIGIBILIDADE
çando u m pouco a reflexão, percebe-se que essa d ú ­
vida rem ete a um a inquietação propriam ente filosófi­ O arg um ento m ais freq ü en te invocado contra
ca: o presente tem sua chance diante de u m a longa essa história é o da proxim idade. A objeção, de fato, é
duração que parece ser - toda a obra de u m F ernand forte. Como traduzir em term os de duração u m p re ­
B raudel foi construída em cima desse "parece" - a sente, p or definição, efêm ero? Presente esse cuja p ro ­
verdadeira m odulação e a respiração vital do devir dução, além disso, é cada vez mais, ao longo do sécu­
h u m an o ?
lo XX, fen ôm eno atual, cujos delineam entos são con­
Por falta, sem dúvida, de ter recebido com o seus fundidos nesse turbilhão denso e indistinto de m en sa­
colegas anglo-saxões, alem ães ou italianos, u m a for­ gens, nesse im enso ru m o r m u n dializado de u m
m ação filosófica suficiente, os historiadores franceses "atual" triturado, am assado, transform ado sem tré ­
co ntornaram com b astante frieza essa provocação e gua, sob o triplo efeito da m ediatização do acontecido,
lhe dão m uito freq ü en tem en te um a resposta de o r­ da ideologização do ato e dos efeitos de m oda n a n o s­
dem m ais m etodológica do que epistem ológica ou m e ­ sa apreensão de u m curso da história? Se nosso p re ­
tafísica. É verdade que u m grande n o m e os ajuda a u l­ sente é doravante u m a sucessão de flashes, de delírios
trapassar sua deficiência conceituai oferecendo-lhes o partidários e de jogos de espelhos, com o sair dele para
aval do bom Pai: o de Tocqueville, que engastou so- erigi-lo, em objeto de investigação histórica?
berb am ente com o se sabe, o tem po curto da dem ocra­ A inda m ais que o próprio historiador, acrescen­
cia, n a França e n a Am érica, n o tem po longo dos A n­ te-se, im erso em seu tem po, tam bém oscila n o curso
tigos Regimes. Graças a ele, os acontecim entos in au d i­ da correnteza, m ergulha nessa confusão de aconteci­
tos e os m essianism os datados que tecem um p re sen ­ m entos sem h ierarq u ia n e m causas aparentes e tom a
te en traram nesse jogo do distinguo entre ru p tu ras e a sopa do dia no noticiário da TV. E se ele quiser se li­
continuidades ao qual o historiador francês se entrega vrar da onda? Logo será grande nele a ten tação de
com avidez e que, m ais freqüentem ente, faz as vezes simplificar seu curso pela aplicação de algum a filoso­
de bagagem diante de qualquer novidade desconcer­ fia curta que secará esse real desorientador no fogo de
tan te. Não nos espantarem os, pois, p o r vê-lo tra ta r tão seu voluntarism o. A arm adilha assim está m ontada:
à vontade a história do presente ao m esm o tem po en tre a m aru lh ag em indistinta e a simplificação abusi­
com o o térm ino de u m a periodização e a fina película va, a inteligibilidade n ão teria n e n h u m a chance.

40 41
A dm itindo m esm o que algum clarão pudesse mimlr suas forças e to rn ar insípidas suas lem branças
advir de u m a navegação ao acaso, n o entrem eio des­ rtirllando privar de sentido sua experiência. Alguns
ses recifes, a ausência de fontes com pletas e de docu­ Ali queim am etapas, seja produzindo u m a palavra
m entos confiáveis tornaria m uito vã qu alq u er te n ta ti­ incdlatizável e logo consum ível, seja fazendo-se a si
va exploratória, acrescentam os céticos. Im põe-se, e n ­ incsinos de historiadores p o r sua conta e risco (leia-se,
tão, a conclusão, adocicada ou sentenciosa de acordo por exem plo, a feliz em preitada de Daniel Cordier a
com o h u m o r do detrator: que o historiador ab an d o ­ propósito de Jea n M oulin3).
n e a partida, que ceda lugar aos jornalistas seriam en­ Não se trata m ais aqui, percebe-se bem , de um a
te docum entados que produzem desde os anos 1960 versão atualizada desse gosto generalizado pela h istó ­
u m a "história im ediata" sem pretensões supérfluas e ria ou desse ativism o das raízes, das genealogias e das
m odelada p or u m T ournoux ou u m L acouture2; que se celebrações patrim oniais que atacaram nossas socie­
con tente em ler haja o que h o u v er e re u n ir en tre eles, dades às vésperas de u m fim de século4. É antes de u m
com o m ateriais p ara um a história em gestação que ele vivo desejo de identidade que nasce essa am bição de
deveria m odelar, a produção dos sociólogos retrospec­ um a história aten ta ao presente, cuja originalidade
tivos, politólogos de geom etria variável, econom istas será ser escrita sob o o lh ar dos atores e cuja vocação
ru m in an d o suas im previsões ou etnólogos repatriados desabrochará no balanço das tem erosas especificida-
de seus longínquos rincões. des do século XX. Ela será u m a espécie de evangelho
eterno para vivos, cujo historiador podera ser o após­
tolo; u m depoim ento de boa qualidade científica sobre
A BUSCA DE IDEN TID AD E esse estranh o sen tim en to próprio de nosso tem po,
Inédito n a to rre n te do tem po e que atrapalha tão fre­
De fato, essa desistência não resolveria nada. q ü en tem en te nossos contem porâneos: a consciência,
É, pois, a própria sociedade que im pulsiona o historia­ dolorosa ou exaltante, de ter sido, p or bem ou p or
dor a n ão desistir, que lhe sugere n ão tropeçar diante mal, tom ados, triturados e designados p o r u m a h istó­
do obstáculo da proxim idade e até m esm o utilizá-lo ria catastrófica cujo curso eles jam ais d o m inaram .
para m elh o r saltar. Visto que atores e testem unhas,
hum ildes ou não, n ão esperaram m ais m u ito tem po e
dizem alto e claro, com o m ostra a proliferação de d e ­
poim entos em livros, q u e n ão p reten d em deixar con- 3 Daniel Cordelier, Jean Moulin. L'inconnu du
Panthéon, Paris, Jean-Claude Lattès, 2 vols., publica­
dos, 1989.
2 Ver em particular Jean Lacouture, De Gaulle, Paris, 4 Ver sobre esse ponto Jean-Pierre Rioux, "L'émoi
Le Seuil, 3 vols., 1984-1986. Sobre essa "história patrimonial", em Le Temps de la réflexion, VI, Paris,
imediata e, mais geralmente, sobre a ligação entre Gallimard, 1985, pp. 39-48 e, para uma comparação
com antes de 1901, Chronique d ’une fin de siècle.
história do tempo presente e jornalismo, ver Jean-
Pierre Rioux, "Entre histoire et journalisme", infra. France, 1889-1900, Paris, Le Seuil, 1991.

42 43
I

Duas guerras e duas crises m undiais, u m a des­ Ijur seu próprio enigm a, cujo sentido não perceberam ,
colonização e u m a guerra fria, duas partilhas do m u n ­ »|iu* lhes ensine o que queriam dizer suas palavras,
do, em 1919 e em 1945, espetacularm ente arrum adas »r\!N aios, que não com preenderam . Eles precisam de
nos anos 1930 e n o alvorecer dos anos 1990, subver­ UIM Prom eteu, e que n o fogo q ue ele roubou, as vozes
sões tecnológicas inauditas e u m progresso galopante: íjllc* flutuavam geladas n o ar se revoltem , transfor­
é m uito, com efeito, n o espaço em que m al cabem três m em -se n u m som, p o nham -se a falar.(...) Só então os
gerações cuja expectativa de vida, aliás, au m en to u Itio rto s se resignarão à sepultura".
sensivelm ente. Assim, com o estran h ar que, tendo Essa recusa do efêm ero, esta necessidade de dar
m u dado p ara tantos vivos a relação existencial com a KCiUldo en q u a n to n ão se acredita m ais n em n o p ro ­
história - sem falar do peso inquisitório dos m ilhões de gresso linear, acom panham -se tam bém de u m a neces-
m ortos -, o desejo de u m relato linear resum ido e de nliladc de transm itir com urgência esta experiência
u m a investigação explicativa da av en tu ra te n h a a tin ­ em brionária e m uito pouco loquaz às novas gerações
gido as consciências ? que, tam bém elas, virgens de qu alq u er m em ória aju i­
zada, arriscam -se a ser levadas n o turbilhão e às quais
o "mocismo" am biente renega ainda m ais qu alq u er
A RECUSA D O EFÊMERO capacidade de fidelidade histórica. Não ressaltam os o
bastante, m e parece, o q u an to nossas sociedades reco­
E essa preocupação com um a relação fiel e com m eçam com essa propensão a declinar m ais u m a vez
a coleta do dossiê é redobrada, com todos os efeitos da os grandes fatos de u m presen te m em orável que in ­
rapidez adquirida pela ação generalizada da m ídia, por ventou a A tenas de H eródoto ou de Tucídides. Desde
1959 os estudantes colegiais da França deviam estudar
u m a espécie de vontade com ovente de lu tar contra
u m a massificação das efem érides que m an têm um a te ­ o m undo até 1945 e, desde 1983, os program as de his­
m erária am nésia nas nossas sociedades. "Aceleração da tória das classes de terceiro colegial e de últim o ano
h istó ria " , m undialização das questões, im ediatism o de dos liceus levam a investigação "até nossos dias" , sem
um a inform ação torrencial vertendo "seqüências" que que esta decisão de acender os fogos do presente nos
fazem as vezes de acontecim entos: esses lugares co­ jovens espíritos possa ser o fruto de u m a pressão cor­
m u ns do analista apressado do século XX excitam in ­ porativa dos professores (antes sacudidos p o r essa n o ­
contestavelm ente u m desejo de conhecim ento in stan ­ vidade, e até m esm o hostis a u m a no v a m u d an ça dos
tâneo, n u trem um a inquietação surda em que se m is­ program as de últim o ano em 1989, q ue am plia a p a r­
tu ram nostalgia das "belles-époques", reação de defesa te da história próxim a): o sistem a ed u c acio n al, a p re ­
ço talvez de sua desarrum ação in tern a e de sua in ca­
diante do futuro, necessidade de continuidades m arca­
das e sede de identidade coletiva ou nacional. A pres­ pacidade atu al de hierarquizar valores e conceitos, h o ­
são social traduz assim n o presente, tranfere para o m ologou, sem reagir, u m a am bição social que circula­
presente, a fórm ula célebre que M ichelet aplicava ao va na atm osfera.
passado: " Eles precisam de u m Édipo que lhes expli-

44 45
O BOM SENSO D O ARTESÃO inoso "recuo"5. A ambição científica constrói, a boa dis-
lAncla, o seu objeto de estudo, m étodos de investigação
lilNlórica acertados desde Langlois e Seignobos aneste-
É u m m al ou u m bem ? O debate n ão está fe­
*|(im propriam ente a carne de u m presente alarm ado,
chado, m as n ão faltam argum entos p ara resolvê-lo
o questionam ento rigoroso apazigua a desordem p arti­
ousadam ente n u m sentido positivo.Afinal de contas,
dária. Em poucas palavras: a construção de u m relato
os program as escolares editados por Victor D uruy em
histórico hierarquizará, pois, tan to a perestróika gor-
1865 paravam n o lim iar do a n o ...1863 e os de 1902
davam conta ousadam ente do Caso Dreyfus, e n q u a n ­ luilcheviana qu an to a decom posição do im pério caro-
língeo, tan to os "anos M iterrand" qu an to a m agistra­
to o últim o volum e da grande Histoire de la France diri­
gida por Ernest Lavisse, publicado em 1923 por C har­ tura de M onsieur Fallières.
r, '■■■ '■ n (L>, ',(> f tyv-vvJ -> 'ir
les Seignobos, integrava sem partidarism os a guerra
de 1914-1918. Com o n ão sentir além disso que um a
reflexão histórica sobre o presente pode ajudar as ge­ A ATUALIDADE D O TEMPO
rações que crescem a com bater a atem poralidade co n ­
tem porânea, a m edir o pleno efeito destas fontes ori­ Somos instados a n ão sorrir diante de tan ta ca n ­
ginais, sonoras e em im agens, que as m ídias fabricam, du ra anunciada p o r esses m odestos pioneiros de Clio
\ a relativizar o hin o à novidade tão com um ente entoa- atualizada. Pois a história do presente, experim entada
—* do, a se desfazer desse im ediatism o vivido que aprisio­ hoje a partir dessa argum entação considerada bem
n a a consciência histórica com o a folha de plástico simples, contribui, n o en tanto, p ara colocar questões
"protege" no congelador u m alim ento que n ão se bastante tem erárias à disciplina histórica inteira .
consom e? "Tudo o que é im p o rtan te é repetido", dizia ou-
A história do presente, com o vemos, naceu sem trora E rnest Labrousse. E m eio século de com bates
dúvida bem m ais de um a im paciência social do que de dos Annales para apreen d er o repetitivo significativo,
um im perativo historiográfico, pelo m enos n a França.
E os historiadores do recente , nadando n a indolência
conceptual assinalada h á pouco, m as bastante bem ga­ 5 Também não nos esqueçamos que foram os histo­
rantidos sobre suas retaguardas sociais, fizeram bonito, riadores do político que sempre estiveram na van­
n o final das contas, m artelando o bom senso do velho guarda da história do tempo presente. Sobre sua con­
artesão, m etodologicam ente pouco sofisticado m as tribuição, ver René Rémond (org.), Pour une histoire
politique, Paris, Le Seuil, 1988.
passavelm ente percuciente: o argum ento da "falta de
recuo" n ão se sustenta, dizem eles, pois é o próprio h is­ 6 Sobre estas, ver o ensaio de mise en forme histórica
pontual, "Les années Miterrand (1981-1991), UHistoire,
toriador, desem pacotando sua caixa de instrum entos e n. 143, abril de 1991, que compararemos utilmente
experim entando suas hipóteses de trabalho, que cria com um puro trabalho de jornalistas, Pierre Favier
sem pre, em todos os lugares e por todo o tem po, o fa- e Michel-Martin Roland, La décennie Miterrand, 1. Les
ruptures, Paris, Le Seuil, 1990.

46 47
para afirm ar a série quantificada com o via real da in ­
Nós vivem os n o reto rn o do recitativo, do d es­
teligibilidade, para an u n ciar a longa duração p o rtad o ­
contínuo, do factual, do pessoal e do idealizado, n u m
ra do sentido oculto, forjou um a espécie de consenso
nénilo XX que, n o en tanto, proclam ou tão forte a
débil que o estudo do presente bem que poderia a tro ­
m archa forçada do progresso, a construção acelerada
pelar. Pois a longa duração braudeliana adiciona de-
do hom em novo, a densificação inelutável dos fenô­
term inism os geográficos, socio-econôm icos ou a n tro ­ m enos e a inflexibilidade da lei do n ú m ero : este p a ra ­
pológicos n em sem pre dando a chave de sua h ie ra r­
doxo está no bojo de u m a história do presente, ele dá
quização, p orque perseverou n a idéia de que o sólido
a ela um a singular aptidão p ara a provocação retro s­
era perdurável e de que a apreensão das economias,
pectiva sobre o trabalho do historiador e à desconstru-
das sociedades e das civilizações bastava para esclare­
Çclo das filosofias da história m u ito apressadas.
cer um a leitura da história.
Essa história, de outro lado, to rn a tão jubilató-
Ora o presente, exam inado sob o m icroscópio ria e tão cientificam ente o p o rtu n a a exploração de u m
do historiador, faz b ro tar da proxim idade am biente
segundo paradoxo do presente, que ilum ina toda
u m con jun to de argum entos m ais ideal, m ais cultural
a configuração do tem po h u m an o : o im bricam ento
e m ais individual, u m a o u tra com posição hierarq u iza­
constante, cruel e alim entador ao m esm o tem po, do
da do tem po, em que a ação com binada da personali­
passado com o presente (inclusive sob a form a de
dade (a do grande líder, tan to daquele que decide
traum as, n o choque de grandes eventos-datadores
com o do vencido), do acontecim ento (esta "esfinge"
com o as guerras m undiais, de recalque ou de balbu-
dizia Edgar M orin7, fruto ilegítim o do capricho dos fa­
cios da m em ória coletiva a propósito das guerras
tos e do escândalo da m ídia) e do narrativo (a crônica
de descolonização, p or exem plo), o trabalho do luto
m assificada de u m acontecido repetidam ente p ro v o ­
como condição necessária para u m apaziguam ento ou
cando indivíduos cada vez m enos agregados) põe em
um a hierarquização de u m presente invasivo, a ênfa­
dúvida o valor operatório e explicativo de u m q u a n ti­
se da representação do passado com o parte integrante
ficado maciço e de u m a repetição considerada com-
do im ediato. U m a vez que ela observa tão com oda­
probatória, u m e outro bem encravados desde os anos
m ente a presença ativa do tem po n a nossa construção
1930 nas boas velhas infra-estruturas do esquem a
do contem porâneo, ela contribui sem dúvida assim
m arxiano, senão m arxista.
para m elh o r colocar a velha questão do sentido, no
m om en to em que desabam as visões do curso das
coisas.
Essa história, de fato, p or ser feita com testem u ­
7 Num número pioneiro da revista Communication, nhas vivas e fontes proteiform es, p o rq u e é levada a
18, 1972. Ver além disso Pierre Nora, *Le retour de desconstruir o fato histórico sob a pressão dos m eios
1 événement , em Jacques Le Goff e Pierre Nora de com unicação, p o rq u e globaliza e unifica sob o fogo
(org.) Faire de l'histoire, Paris, Gallimard, 1974 pp das representações tan to q u an to das ações, pode a ju ­
210-228.
dar a distinguir talvez de form a m ais útil do que n u n ­

48
49
ca o verdadeiro do falso. Pois se ela tem com o missão,
com o toda história digna deste nom e, m ostrar a evi­
capítulo 3
dência científica das verdades m ateriais diante do es­
quecim ento, da am nésia ou do delírio ideológico,
O RETO RN O DO POLÍTICO
(pensem os, por exem plo, nos que negam as câm aras
de gás), ela sem dúvida está m ais apta a explicar do
que a verdade estatística da enum eração, da qual so­ por R ené RÉMOND
m os tão apreciadores; ela n ão evita ver em ação a v er­
dade psicológica da intenção, a hum ilde verdade do
plausível, a força da questão da m em ória sobre o cu r­
so do tem po. Não insistirei em d em o n strar q ue o político, os
Um vibrato do inacabado que anim a re p en tin a­ fenôm enos assim cham ados, retom aram , n a história
m en te todo um passado, um presente pouco a pouco contem porânea, e p articu larm en te naq u ela do pre­
aliviado de seu autism o, um a inteligibilidade perse­ sente, ainda com u m en te ch am ada de história im edia­
guida fora de alam edas percorridas: é u m pouco isto, ta, Um lugar q ue eles tin h a m perdido. A dm ite-se, hoje
a história do presente. em dia, que o político tam b ém pode ser u m objeto de
conhecim ento científico assim com o u m fa to r de ex-
plicaçãa de outros fatos além de si m esm o. B asi^ p o r-
.tanto observar e considerar que é incontestável. Cita:
Jean-P ierre Rioux rei dois exem plos. Prim eiro a recente en trev ista entre
Jacques Le Goff e Pierre Lepape em que se coloca logo
a questão: "Mas a crise d a Nova História expressou-se ,
tam bém p ô r u m certo n ú m e ro de retornos, re to rn o da
história-relato, da biografia, do acontecim ento, mas
sobretudo da história política" que tin h a sido m an ti­
da sob controle pelos Annales em proveito d a história
econôm ica e social. O u tro exem plo: a longa entrevis­
ta publicada pelo UExpress em 6 de fevereiro de 1992,
com Georges Duby, ele tam b ém m edievalista. Seu in ­
terlocutor lh e diz, a propósito da Nova história: "Con­
fesse que- ela conheceu tam b ém u m sério revés. Por
interessar-se pelas profundidades e pelos detalhes" - o
que n ão é a m esm a coisa, a questão m e p arece con­
fundir duas ordens de realidade - "vocês acabaram por
negligenciar os próprios acontecim entos". E G. Duby
responde: "É verdade, é p o r isso que h á u n s dez anos

50 51
voltam os ao relato político". As questões são quase tão ulões inesperadas levam -nos a questionar sobre a
significativas q u an to as respostas, elas atestam a idéia precariedade do fenôm eno, se n ão o fundam os n a ra ­
recebida de que o político voltou. O utros exem plos zão, se descuidam os de inscrevê-lo n u m a reflexão que
ainda? No volum e de François F u ret da grande seja fundam ental.
Histoire de la France da H achette, a sociedade está q u a­ j Em prim eiro lugar desfaçamos a confusão en tre

se to talm ente ausente: essa história é política, quase história próxim a e história política. M uito freq ü en te­
política dem ais para m eu gosto, e eu pleitearia u m re ­ m ente m isturam os as duas p o rq u e os m esm os h isto­
to rn o da história da sociedade. E m m anuel Le Roy riadores m ilitaram pelas duas causas. M as as duas não
L adurie organiza tam bém seu volum e em to rn o do coincidem. O interesse pelo político n ão é próprio da
Estado, isto é, da fina p onta, da cúpula do político. Há, história recente e o político n ão esta exclusivam ente
portanto , um a inversão das relações, conversão no ligado à proxim idade no tem po. C ertam ente, cabe
sentido geom étrico da palavra, senão reliogioso e perg un tar se o político, n a sua consistência e em seus
intelectual. m odos de intervenção, n ão evoluiu bastante n o d e­
Não m e dem orarei dem ais em retraçar p o r que correr das eras p ara pedir diferentes abordagens se­
processo operou-se essa reversão, em quais circuns­ gundo os períodos. Está b em claro que, desde q ue o
tâncias n em por que a história política tin h a caído no governo é u m governo de opinião, o político ap resen ­
descrédito até tornar-se o alvo e o sím bolo da história ta aspectos bem diferentes daqueles dos tem pos em
obsoleta e desusada. Também n ão m e dem orarei m ais que a decisão era atributo de u m p eq u en o nú m ero .
sobre as razões e as influências que favoreceram a re ­ Sofc o Antigo Regime, é o dom ínio do secreto, e n ­
versão dessa tendência. Sobre este ponto, rem eto-os qu an to que em princípio, n a dem ocracia, ela faz p a r­
ao livro Pour une histoire politique, onde ten tei decifrar te do espaço público. Só isso já in tro d u z diferenças
as razões do fenôm eno. É u m bom exem plo das m u ­ singulares n a abordagem . M as acontece que o político
danças que intervêm n a atm osfera . Várias observa­ não está ligado à brevidade do prazo que separa o h is­
ções de Jean-François Sirinelli trazem elem entos de toriador dos acontecim entos sobre os quais ele pousa
resposta a esta questão e a existência desse livro cole­ seu olhar. De resto, os historiadores da A ntigüidade e
tivo m e perm itirá ser breve. da Idade M édia contribuíram en o rm em en te para o re ­
Penso ser m ais útil refletir sobre o significado to rn o do político. Um a parte da pesquisa de Claude
dessa reversão, sobre seu alcance, tam bém sobre seus Nicolet trata do político e da cidadania n a República
limites. Pois receio q u e este sucesso repouse sobre rom ana. E Claude Nicolet não deixa de ser u m h isto ­
u m m al-en tendido e que im plique m uitos equívocos. riador do contem porâneo, u m a vez que desenvolveu
Dessa presunção encontrarei provas nas respostas que u m a reflexão sobre a idéia republicana, a fundação da
Georges Duby deu a seu interlocutor. Jean-Jacques República e sua filosofia inspiradora. Da m esm a for­
Becker colocava a questão da dependência do h isto ­ m a, em história m edieval, B ernard G uenée contribuiu
riador e de sua pesquisa em relação aos fenôm enos de para cham ar a atenção sobre o fenôm eno do Estado.
m odas. Não h á fenôm eno de m oda? A lgum as reu- A diantávam os o n om e de Philippe C ontam ine a pro-

52 53
que não político. Por exem plo, u m crash econôm ico
H S S H 5 S — ss
fusões sobre este p o n t o A ste re^speifoT '
pode ser u m evento de prim eira grandeza: a quinta-
feira negra de 1929 é u m tipo desses, tão delim itado
de Georces Dubv n „ i ' B respeito, a entrevista no tem po q u an to a queda de u m governo - é u m
acontecim ento n ão político. Ou ainda u m a catástrofe
= — = 5 natural: o terrem o to de Lisboa - e sabemos quais fo­
ram as incidências sobre os m ovim entos de idéias, n o
£T é lZ 7 ' COnSldmiqu' as « * “ « l o liga-
verdade que elas freq ü en tem en te o estão - debate sobre o m al - n ão foi político. E Tchernobyl,
que teve u m papel n a qu ed a do regim e com unista, é
u m acidente tecnológico.O acontecim ento n ão é, pois,
som ente político. Há tam bém distinções que convém
lem brar periodicam ente para com bater os am álgam as
um bém S t o lm d L d ° P ° K“ co Pod' entre o político, o relato e o acontecim ento. Na reali­
dade, o político, assim com o o econôm ico o u o social,
inscreve-se n o curto, n o m édio e n o longo prazo.
í w v« x r r m i,itas vezes' a Méia * que De o u tro lado é preciso reavaliar o papel do
acontecim ento: se trabalham os sobre u m período cu r­
to ou próxim o, som os levados a atribuir a ele u m a p ar­
tu ra no S , f ^ nSClente: 05 “ m en os de cul-
te m ais im portante do que sobre períodos afastados em
que, pela força das coisas, os relevos se esfum açam , e
em que o olhar percebe conjuntos m ais maciços e m ais
r umn“ x m onum entais. C om preender bem o fato n ão é reduzi-
lo a anedotá. É necessário distinguir as duas noções: o
fato não é o acidente e não se lim ita à superfície das
a» « s r s a « £ s" : - - r coisas; ele introduzLM jaossa visão a contingência e isto
clamaria nuances entre a história do iato e história ir a S 'g r a n d e im portância. O historiador do presen teie,
das estruturas - a história política não se encerra inM necessariam ente m ais atento.aq.M q,.£ s\ia ex g etjg n jáa.
ra no pnmeiro compartimento. Apesar d C da “ m pode ser útil a toâos os historiadores aos quais le m ­
bra o peso da contingência n a história- O historiadox é
S d a r ^ to P O I,to d a “ e ™ > ° Ío quetu,“ " ’
Amda que um acontecimento possa ser outra sem pre tentado a. introduzir a posteriori, n o çle&enrjpJâr
da história u m a racionalidade, m esm o que ela n ão
exista. Jean-Jacques Becker observava que o risco para
o historiador do contem porâneo é que não h á o aval
da seqüência. M as a contrario os historiadores que tra ­
* episódio da revolução de 1830 na França [N. do T.] balham em períodos sobre os quais se pode legitim a-

55
com plexa que todos os sistemas. Se nos interessam os
pelo político, é p orque acreditam os que a politicagem
u m a certa im portância. Se não, p o r que perd er tem po
com ela? Já que é assim, m ais vale observar a fonte
de luz.do q u e seus reflexos.
A lição da história tam bém significou m u ito d e ­
m o nstrand o que as pessoas, de C hurchiü a Gorbat-

h ^ S ^ ê ^ sssã -
firo ÍÜâiori a âtpnrãn 3a x_+_ — fizeram ^É uum
— m
chev, podiam te r im portância. Ela evidenciou tam bém
que fatores, que sistem as redutores apresentavam -se
superestruturais, com o as convicções, os sentim entos,
o apego à liberdade, as crenças religiosas, o sen tim en ­

= S S ? á g S 3 S to nacional, podiam ter u m papel essencial. Um a das


contribuições m ais incontestáveis dos estudos de ciên­
cia política, em especial da sociologia eleitoral, foi a de
m ostrar que n ão havia correlação entre as posições de
S i S S S ^ É indivíduos n a sociedade, seu estatuto sócio-profissio-
nal e suas escolhas políticas, suas convicções religio­
sas. Se u m a certeza se im pôs, é esta. Se h á correlação,
seria antes com as tradições de cultura, educação, do
que com fatores sócio-econôm icos. Tais constatações
concorreram para fu n d a m e n tar o reto rn o do político.
^ 0ò Z £ z % z : l ^ t - ^ ™ u s -
Dito isso, o político n ão deve ser exclusivo. Ele
n ão é sem pre d eterm in an te e im u tá vel. Deve-se evitar

5 = ^ *5 s S £ isolá-lo. Não se deve reconstituir, em p ro v eito do.


P olítico, a sacr alização da q u al outros "fato res se
beneficiaram .
Se m e perm item fazer u m pouco de ego-histó-
ria, se eu m ilitei pela história do político, n ão m e lim i­

£ S ^ ~ — tei a isso de m odo algum , e cheguei ali p o r outras vias.


R etom ando a excelente expressão de Nicholas Rous-
selier em sua defesa de tese: interessei-m e pelos fatos

r S r r " £ í5 E S 5 £ 5 " : políticos "com o expressão de fatos culturais", com o


revelador de coisas m ais profundas. Foi a opinião que
m e levou ao político. Ela m e interessou logo de início:
m e u prim eiro tem a de pesquisa foi o estudo da opi­
nião francesa sobre os Estados Unidos. Na época este

56
57
tem a desconcertou os professores aos quais o expus. Ú ltim o objeto de m in h a intervenção, o cam po
Cheguei ao político pelo viés da opinião, da história do político n ão é definido de u m a vez p or todas ele e
das ideias, das ideias vivas e n ão das idéias estudadas m utável. R etom o o subtítulo da jornada: o político
com o peças de anatom ia. De onde a idéia, em 1950 tam b ém de geometria variável, às vezes retrátil, as vezes
de m e interessar pelas direitas. extensivo. É verdadeiro nas cabeças e n a s m entalida-
A expressão "retorno do político" é discutível. des: politização - despolitização. É verdadeiro tam bem
Com o o diz Jacques Le Goff: "A expressão retorno é para os objetos: os problem as n ão sao os m esm os,
am bígua, fala-se dela com o do retorno a um a concep­ provavelm ente um a explicação da crise que atravessa
ção do passado que teria sido suprim ida ou com prim i­ o político, e da desafeição que o atm ge: tais objetos
da pela Nova História". A expressão é im própria e além tradicionais do político deixam de ser questões políti­
disso desastrosa: ela pode induzir a idéia de que é um a cas e novos problem as se colocam . Hoje em dia o p o ­
volta atras, e portanto, um a regressão. Como se nós vi- lítico concerne a tu d o o que toca a existencia indivi­
vessemos n u m ciclo de dois tem pos. Não é a m esm a dual: o corpo, a vida, o nascim ento, a m orte. Teríamos
política, n em a m esm a história política, n em a m esm a im aginado, h á som ente m eio século, que caberia ao
abordagem , n em inteiram ente o m esm o objeto. É
legislador dar u m a definição da m orte? decidir se se
um a historia renovada. Foi isso que nós quisemos di­
pode fazer com ércio de órgãos? Estas novas questões
zer em Pour une histoire polüique, que é um pouco um
assustam os políticos. A sexualidade se to rn a um a
m anifesto por um a nova história política, O prónrio
questão, u m debate político; o m esm o vale para a cul­
Preciso ter tura, a ética, a justiça. Vejamos o exem plo dos m in is­
u m a d e f in iç a o ^ ^ p la d e s te , ainda m ais am pla d o W
tros da Justiça. Era o u tro ra u m a funçao de confiança
Jacques Le Goff. "com r e f e i ç ã o .
poder . C ertam ente o poder é o ponto m áxim o. Õ po- que se reservava a u m h o m em político em fim de car­
er suprem o, aquele que se exerce n u m a sociedade reira. Hoje é u m a função exposta: o m inistro da Ju s­
global, n o interior de u m território definido por fron­ tiça está con stan tem en te sob o fogo da cnttca. E vo­
teiras, dispondo do poder de coerção, definindo a regra car a seqüência dos m inistros: Peyrefitte, B adm ter,
com a lei e sancionando as infrações, é o único poder Arpaillange, C halandon, Nallet, equivale a evocar u m
que tem todos esses atributos. Mas há tam bém a con­ calvárioI Por quê? Não é som ente o efeito da p olem i­
quista e a contestação desse poder, e a relação do indi­ ca é q ue hoje em dia a opinião dirige ao exercício da
víduo com a sociedade global política - de onde o estu­ justiça e a sua in d ependência u m a atençao m uito
do de com portam entos, das escolhas, das convicções, m aior do que outrora. Assim, a política e m u ta v e l,^ o _
das lem branças, da m em ória, da cultura. O-político infprpsse que dam os a ela expliça-se ^ d a _ c o ^ u B ç a o
toca a m uitas outras coisas. Não é um fato isolado. Ele en tre a evolução dos fatos^e,a.dos i£ spíritos:_0_BSJÜ£0
esta evidentem ente em relação, tam bém , com os gru- i ^ r e ï e ^ S a n t o ' n a jo n g a duração como, m S & B S iS :
possociais e as tradições do pensam ento. ça. Ora, n ão h á n ad a que defina m elh o r affitç jg S S fiã
histórica do que a percepção d a d u ra ç ã o e a distinçao

58 59
♦•■êfîtTC o Qnp fira p A
consagrar ao político ^ SOjá bastaria para capítulo 4
de investigação do h is to ria d o ^ lm p° rtan tc n o cai»Po
M ARXISM O E COMUNISMO
NA H ISTÓ RIA RECENTE

R ené R ém ond p o r Jean-Jacques BECKER

Há q u a re n ta an o s os estu d o s de h istó ria


eram balizados pelas obras da coleção "Peuples et
Civilisations", a "H alphen et Sagnac", com o se dizia.
Os volum es do período da história m o d ern a eram in ­
titulados La prépondérance espagnole [A preponderância
espanhola], La prépondérance françatse [A preponderância
francesa], La prépondérance anglaise [A preponderância in­
glesa]. Desde então esses títulos, em grande parte, d e­
sapareceram . Em sua últim a edição, La prépondérance
anglaise, p or exem plo, to rn o u -se Le siècle des Lumières
[0 século das luzes], traduzindo as m udanças de enfo­
que do p en sam en to e o interesse dos historiadores...
Foi assim tam bém que a La prépondérance françatse:
Luís X IV de A. Saint-Léger e Philippe Sagnac to rn o u -
se Luís XIV, depois Luís X IV et son temps [Luís X IV e seu
tempo] sob a p en a de R obert M androu. No en tanto,
esse esforço dos diretores do "H alphen e Sagnac" para
ten tar captar o que, n u m século, tin h a sido o p rinci­
pal, o u pelo m enos o que lhes havia parecido com o tal
n a época em que construíam sua coleção, levou-m e a
pen sar sobre o título que poderia ser escolhido para
caracterizar o século XX d aqui a algum as dezenas de
anos ou daqui a vários séculos, se, então, au to res su ­
ficientem ente arrojados se lançarem à edição de u m a
história geral da h u m anidade. O que lhes parecerá
nesse m om en to n a história do nosso século dever fo-

61
cahzar a atenção das gerações futuras? A guerra o Estas observações prelim inares devem simplifi­
progresso tecnológico, a prodigiosa evolução da civili­ car a resposta à questão colocada, “M arxism o e com u-
zação m aterial...? Parece-m e que eles poderiam reter Tiisino na historia rccente . ^
com o titu lo O século do comunismo. Não que o com unis­ Até uma data muito próxim a, e mesmo ate ago­
m o te n h a sido o único evento do século XX, m as foi ra a história do com unism o era u m a historia "q u en ­
te" Não se deve en ten d er p o r isto som ente u m a h is­
t ó Z T r m r tC T a™ntecim ento m ais original, mais
topico, e alem de tu d o ele teve seu florescim ento no tória que suscita a polêm ica o u que
com eço do seculo e extinguiu-se com seu fim. Esta es­ de historiadores - debates m u ito vivos P ° d e m t e r l u
pécie de unidade n o tem po, esta relativa brevidade - gar sobre tal ou qual aspecto da guerra dos Cem ano
espantosa se com param os, p o r exem plo, com os vinte - m as u m a história inseparável do debate político,
séculos de cnstiam sm o - q u e perm ite a historiadores trabalho histórico era utilizado n o debate político, ele
quas<: abarcado d u ra n te sua vida , são em si m es­ era mesmo intimado a tomar lugar naclue1^ e ^
m as um a fonte de interrogação. Pode-se dar do fe n ô ­ se n ão o quisesse, m esm o se pretendesse f car no seu
m en o u m a explicação global bastante eficaz: o suces­ lugar - m odesto -, ele era classificado, vilipendiado,
so do com unism o, depois seu fracasso são frutos do louvado pelos guardiães do tem plo. Como, se re to ­
vo lu ntan sm o de u m p eq u e n o grupo, talvez de um só m arm os nosso p o n to de partida, construir
hom em , Lenin e n ao M arx, para estabelecer pela for- pia, sem tom ar m u ito cuidado p ara que com ^
Ça u m a utopia n a terra, um a utopia q u e sacrificou m i­ heréticos n ão possam vir a trazer prejuízos a em prei­
lhões e m ilhões de hom ens para instalar-se e ten tar tada, sem com batê-los resolutamente? Encontramos
m anter-se, m as q u e foi capaz de ser u m a alavanca aí o correspondente de u m a das ideias-força de Sta ,
bastante poderosa p ara que outros m ilhões de h o ­ segundo a qual q u an to m ais os sucessos do com unis­
m ens se sacrificassem p o r ela... No entanto, desta ex- m o fossem estrondosos, m ais as forças hostis tendiam
plicaçao global e teórica ao estudo concreto dos fatos a agredi-lo e to m av am necessária u m a repressão sem
e de sua im ensa diversidade, que distância! falhas, sem fraquezas e sem limites.
a C° m ° e™ todos os fenôm enos históricos dessa C ertam ente a história nao esta ausente, a hist
am plitude, sobretudo quando passam tal com o m e ­ ria é solicitada (em todos os sentidos do term o) no
teoros n o ceu das sociedades hum anas, h á um a espé­ com bate de m uitas outras forças políticas, m as o p a r­
cie de m istério bem am edrontador, e o que anim a o tido com unista presum ia, q u an to a si, n a o s o r n e n e
historiador, m esm o se ele n ão o diz, m esm o se ele não ser o proprietário de sua historia, m as am da que ela
o sente, e a vontade de desvendar esse m istério, de era u m elem ento tão im p o rtan te de seu discurso polí­
descer ao fu nd o dos m ecanism os da alm a h u m an a tico, que esta história - m esm o se ele n ao o dizia assim
p ara ten tar com preender e dizer o que aconteceu. A o u de q u alq u er o u tro m odo - ele se dava o direito e
historia nao serve, antes de tudo, para com preender, interp retá-la ou m odificá-la em funçao das circuns­
para com preender de m aneira pu ra, com o se diz, " a tâncias; em definitivo, q ue esta historia n ao podia ser
ciência pura", antes que dela se possa - talvez - tirar escrita sem seu aval.
ensinam entos.

62 63
Esse co m portam ento n ão dizia respeito som en- "drôle de guerre"*, cercado de u m certo n ú m e ro de
colaboradores, cuidava atentam ente^para que a vulg -
g r e ^ d e “ « » ? ^ " 105' ““ “ “ imed1« “ : o Con-
gresso de 1920 pertencia tan to a esse "dom ínio reser ta com unista referente ao p en o d o 1939‘ 194°
se questionada. A presença b astan te nu m ero sa de m
Z L S Z Z T * m0Ç5° da ma‘S ■"“ »> litantes, dos quais alguns confundiam Pr^ vel^ n
u m colóquio de história com u m a reumao_ poliüc ,
r J deixava sentir claram ente u m a v ontade de n ao aceitar
m esm a um a história arriscada, ela precisa ser feita ouvir as questões que p ertu rb av am ^ certeza^ re -eS'
toTn Uma m dade de Pre cauções; ela n ão dispõe de tabelecidas. Jea n Bouvier, que presidia a uHima ses
todos os arquivos, que ainda n ão estão "ab erto s" são tin h a chegado a se p erg u n tar sobre a possibilid
m esm o que os Arquivos n ão devam ser sacralizaSos é de de escrever u m a história do partido c o m u n ista ^
P ara se ter u m a b oa m edida, ju stam en te n o m
semn7eUl h e T r SíUbStÍtUtOS sejam abundantes, nem
P facil apreciar convenientem ente a hie m en to em que se abria o colóquio, o partido cormi-
rarqu ia dos fatos. Esses inconvenientes, n o en tan to S S tin h a publicado u m a obra devida . . ] « » s;
n a o sao pr0p rios à h istó r.a do c o m u n .sm o 0 ^ tas com unistas, Francis C rem ieux e Jacques Estag ,
cham ad a Sur le parti 19)9-1940 Era u m longo p an fle­
v L PrOPT C qUC ° hÍstoriador do com unism o, ou d e ­
via se co n ten tar em vestir um a história "oficial" ou se to em to m de extrem a violência contra os historia
res que tin h am pesquisado u m a realidade q u e o p a r­
P Ú b lic a s T PreSSOCS dÍretaS ° U indiretas' às denúncias tido com unista, d u ra n te m ais de q u aren ta a n o s a s
«ca e c u lm ™ r rHa'V02B dC “ma P° derosa P“lí- farçara com obstinação, livre, p or o u tro ^ f
d«i!es Î f 1
“ reCamOS mais ou men° s
ciernes. Basta lembrar a atmosfera do colóquio orga- m i,ir, enfim , toda u m a série de pontos ate
em 1983 Pd» Institut d'Histoire du Temps S . m en te negados. Assim adm itia-se que, co n tra n am en
sem a Fondation Mtlona]e des ^ ^ T a u m a versão tão longam ente defendida, M aunce
pelo C entre de recherches d'histoire des m ou vem ents Thorez rinha chegado à URSS no m es de outubro, de
sociaux et du syndicalism e, "O Partido com unista nos 1939 Pode-se pensar, aliás, q ue a violência desses ]
naUstas c o J ® n ão era senão a com pensaçao d *
K ï ï S T HUr m in em e diri*ente com unista, fa "concessões" que eles pensavam n ao m ais poder
sua L r de3" r ' ien n e FaJOn' qUe tin h a conhecido
sua h o ra de gloria q u aren ta anos antes, d u ra n te a evitar.

* A expressão refere-se ao período compreendido en­


’ ? ad° C° m ° lftul° Le P«rti communiste des années tre a declaração das hostilidades em setembro de
sombres ( 938-1941) sob a direçâo de Jean "
Ï 9 3 S e o i n S da invasão à França pelos alemaes em
^ r ' , 9r ° mr Pr° St C Jean‘Pierre Rioux. Ed. du maio de 1940.{N. do T.]
Seuil, 1986 e Les communistes français, de Munich a
Chateaubnant (1938-1941), Presses de la FNSP 1987 2 Coleção “La vérité vraie”, Messidor, 1983.

64 65
r |, ,Por hlst° n a « riscad a, deve-se, pois, e n ten d e r a co Q uantos tem as históricos ficaram no l™ b o p o r
alta de serenidade necessária ao historiador, as pres­ m uitos anos, porque não interessavam mais. A_histo-
sões de toda espécie, a dissim ulação dos docum entos ria do com unism o estava n a m oda quando b e ir a v a a
as afirm ações deliberadam ente falsas... enxofre, ela estava n o centro de u m debate do q ua
"arrk A P ''e! f °ú n ° en tan to ' sublinhar, que esse lado n em sem pre se sabia se era histórico o u político^ O^co­
arriscado da historia do presente não é to talm ente m unism o parece agora ser rem etido a u m a especie de
especifico da historia do partido com unista; m as, n a pré-história. Ficamos aliviados quan d o falamos de o u ­
nossa epoca, foi n o dom ínio do com unism o que esta tra coisa I Não precisam os esconder o rosto, a h l s l ° "
situaçao foi a m ais durável e a m ais constante. N e n h u ­ do presente é freq ü en tem en te u m fenom eno de moda^
m a o utra organização política dispunha a tal p o n to de Essa história é oscilante en tre os dois poios da
semr arquivos, de seus historiadores, de seus institutos paixão e da indiferença, m as o historiador, que n ao se
de historia, de seus jornais, de suas editoras... deve deixar levar pela paixão, tam bem n ao deve su
Digamos ainda assim, n u m país com o a Franca cum bir à indiferença. No caso que nos interessa, ele
os desagrados em q u e podiam incorrer os historiado­ deve ainda m enos pelo fato de que a historia do co­
res do com unism o n ão eram suficientem ente im por- m u nism o não esperou o declínio do com unism o, m es­
antes p ara im pedi-los de prosseguir seus trabalhos m o que sua qu ed a te n h a m udado o contexto e as
l o * , ° coloquio 30 <luaI acabo de aludir data de perspectivas, p ara alçar-se, contra os ventos e m ares,
83, h a m enos de dez anos, anos-luz n a realidade ao nível de u m a história cientifica.
em funçao de tu d o o que se passou desde então. Pela No n. 1 da revista Communisme, que acabava de
força das coisas, esses hábitos do passado se desm an ­ criar3 com S téphane Courtois, A nnie Kriegel escrevia:
cham , e q u an d o ainda se m anifestam , isso n ão tem "O m ovim ento da pesquisa n ão se decreta: observa-se.
m ais a m ínim a im portância; o com unism o pode en- O estudo do com unism o francês nao podia tornar-se
ra r n a historia com um , tornar-se um objeto de estu- objeto de pesquisa antes que este tivesse m anifestado
o sem elhante a outros. E, en tretan to , essa história se a estabilidade de seu núcleo constante. O procedim en­
encontra agora am eaçada de o u tra m aneira, e talvez to científico com eça quando, p ara alem ^ v a r i a n t e s ,
m ais gravem ente I variedades e variações de u m fenom eno dado, rnipoe
O historiador, queira ou não, sofre os efeitos da se a necessidade de decifrar a fórm ula que com anda a
n a ° p o r "Parisianismo", m as p orque m esm o se lógica de sua reprodução contínua" R eproduçao con-
trabalha e pesquisa com o quer, onde quer, sobre o que tínua? Podia-se ainda acreditar msso em 1982 e e
ele quer, seu esforço é m ais ou m enos sustentado pelo den tem en te mais duvidoso dez anos m ais tarde. P er­
m teresse dos editores, das revistas, dos outros historia­ m anece, no entanto, o essencial, que o fenom eno se
dores, da opinião de m odo global... Depois de ter sido "reproduziu" p o r m uito tem po para que se possa ob-
m uito quente, a história do com unism o corre o risco
de ser m uito fria. O perigo atual é o desinteresse. Isso
nao interessa a m ais ninguém . Esse perigo não é m íti­ 3 1982.
4 p. 4.

66 67
servá-lo de m aneira científica. A história do com unis- contra nessa abordagem . É o objeto da polêm ica que,
n u m a obra recente, Histoire politique et sciences sociales ,
serv ir n °nga ° SUfldente para que se pudesse o b ­ opõe M arc Lazar a B ernard Pudal a proposvto do livro
servar o m ovim ento da pesquisa .
Hiatn E m retan to o historiador do p resen te e do im e- deste últim o Prendre parti. Pour une sociologte histonque
d ato n ao dispoe dessa arm a inelutável q u e possui o T p c t . No estilo com plexo, que é p ara alguns u m a
das diferenças entre a historia e a ae n cia p o i ,
r aç S astante
õ C a longa.
M TEle *deve
” *m anifestar u“ m a nru- B ernard Pudal entrega o segredo do fenom eno co
encia particular, n ão se arriscar n a prospecção em m unista n a França: a "fabricação" de u m corpo de
permanentes que, segundo ele, " i n v e n t ; o u c r e ­
to E?e r PreSCnK que n i° ”° d' - - n í o p°„ ” ram " o partido com unista. É u m estudo realm ente m
sono Ele deve to m ar a história tal com o ela é sem
prejulgar o futuro, tan to m ais que a história, com o se teressante, de base biográfica até m esm o a ^ r o p o l o ^
ca Seu po nto crítico não esta n a atençao dada a esse
m e n t o l « 11101053'" ° C° nteXt° 3tUaI de desm orona- corpo d e perm anentes que tin h am igualm ente cham a-
m en to do com unism o n ão deve refletir sobre as aná
lises que ele pode fazer do período anterior. do^a aK nção dos historiadores do — sm o pelo
r. ^ ran te m u ito tem po, a história do com unism o lugar prim ordial que ele ocupa - e que perm ite m e
m o em certa m edida ao fenôm eno com unista sobrevi­
£icam^ S a “e d0mlntoda ■*>'«“ ver - m as, com o o faz n o tar M arc Lazar, eles n u n ca ti­
r *am pliou
gressivam ente ela í rlao de ■ *« pro-
cam po de sua pesquisa n h am im aginado que o com unism o n a França tin h a
tornou-se uma história do poder ou dos poderei üma " 5 o - c 3 e inventado" p or esses perm anentes. A
alise da luta pelo poder político, mas também pelo ciência política, sem pre ávida p o r u m a m odelizaçao,
po der cultural, n ao se podendo aliás separar realm en- dava u m elem ento de explicação, m as n ao a explica
cão O corpo de p erm an en tes não explica as variações
dlimn?a°nr0Ut-r0;/ la t0 rn o u ' se' sobretudo, u m estudo de adesão Sua existência tam b ém n ão perm itiu con­
d an d cf Ihp 30 w ° COmunismo n u m * sociedade dada,
quistar este o u aquele setor operário, °
c h ím a d o % SUa dlr " Sã° "societári^ co m o isso foi gráfico,... sem pre m antido rem ten te ao com unism o.
d a r i^ n T S a rdagens' em g e ra l deram prio ri­ Além disso, se bastasse fabricar u m corpo de
dade ao quadro nacional.
p erm anentes ,u e . p o r su a vez,
risrar? Bsrsa1° pçâ0 ? el° nacional era indispensável e a r­
riscada Indispensável, pois com o conhecer a realidade oartido com unista, com o é q ue o m odelo n ao funcio
n o u em países em que os operários eram , tan to q u a n ­
S i" ,a sem aprofunda' - — to n a França, excluídos das esferas dirigentes e onde,
» d a l em M - SM impiantaf “ - ™ «d grupo
t™ Ó V regía°' Arriscada, en-
tretanto, p orque isto podia conduzir a um a espécie de 5 Sob a direção de Denis Pechanslri, Michel Pollak,
desvio sodológico. o estudo sodológico do K e n o
Henry Rousso, Éd. Complexe, 1991.
com um sta produziu trabalhos adm iriveis, m as e ” * ° 6 Presses de la Fondation nationale des Sciences
cado acreduar que toda a explicação histórica se e n ­
politiques, 1989.

68 69
en tretan to , o desenvolvim ento do com unism o foi fra­ - partidos islandês e italiano, relativam ente prós­
co. Esse m odelo n ao serve para todos os casos, nem é peros m as cujos laços com o com unism o soviético e
passível de funcionar p ara q u alq u er época. Esse ad m i­ S n o com unism o em geral são cada vez mais «
rável in stru m en to foi capaz de frear o declínio do p a r­ - partidos cipriota, português, grego, bastante
tido com unista n a França, m as n ão de im pedi-lo Esse resistentes ao desgaste, m as cujo arcaísm o e de algum
corpo de p erm anentes foi a coluna vertebral de u m m odo ligado ao arcaísm o das sociedades n as quais eles
m ovim ento com unista, ele n ão a criou. É ju stam en te
se estabepartidos francês, espanhol, finlandês, sueco:
n r ^ r ~ a 7 atUra P d ° Criador- AIém disso' essa m ter-
pretaçao levava diretam ente a "negar o filiação do falência ligada à incapacidade de se questionar sobre
PCF ao m o vim ento com unista internacional"7. Uma
as m utações da sociedade.
abordagem nacional e sociológica do fenôm eno co­ Toda u m a série de partidos com unistas e u ro ­
m u n ista n ao deve obscurecer o fato de que se trata de peus cuja m arginalização é antiga (noruegues, m g es,
u m fenom eno internacional cujo m odelo, o "en x er­ suíço, holandês, belga, dinam arquês) esc ap aa possibi­
to veio do exterior (o exem plo m ais concreto disso é lidade de análise real, sendo o ultim o o partido com
nelo v Cí eV1ZaÇa° '' d ° S partidos ^ m u n is ta s decidida nista da A lem anha federal (DKP) cuja existencia e
pelo V congresso da Internacional8). Um a abordagem
quase simbólica. . c„ ro~
exclusivam ente nacional é m utiladora, n a m edida em Para o estudo do fen om eno com unista, surge
que todos os partidos com unistas foram constituídos assim u m a via p articularm ente prom issora a^da com ­
riaT e ÚnÍC° COm adaPtaÇÕes necessá- paração dos partidos nacionais en tre si. Nao se trata de
e, alias, limitadas, em função das condições políti­ u m estudo no nível internacional e bastante simpli
cas, sociais, econôm icas de cada país. Tanto é assim cado, refletindo grosso m odo a ideologia simplificad -
que, no auge do com unism o, ao m enos n o nível da di­ ra da "m ão de M oscou”, m as da v a l i s e concreta do
reção, u m dirigente com unista n ão se encontrava des­ fen ôm eno com unista em países com paraveis. A ob
locado passando de u m partido a outro, com exceção recente de M arc Lazar, Maisons rouges. Les partts comu-
da língua e am da assim ...
nistesfrangais et italien de la Libération à n osjour", e u m
Hpc h ° decIínio do com unism o, as originalida- b o m exem plo desses.
des dos diferentes partidos se acentuaram , ju stam en te Não se deveria, levado pelo ím peto, considerar
p orqu e a autoridade da U nião Soviética se enfraque- que a queda do com unism o perm ite à historia do co­
c l n T t PermÍtÍU te m a r Uma tÍpol°8 ia dos Pa«idos m un ism o com eçar. E videntem ente não e n ad a disso
n o ^ o d er)35 eUr° peus9(com exceÇão daqueles então Essa história, m ais do que n o passado tem chances de
poder ser feita longe dos projetores da m oda, ela d
põe ainda de im ensos canteiros de pesquisa, e de
7 Marc Lazar, p. 121. cam pos de pesquisa, digam o-lo com prudência, be
S Junho-julho de 1924.
9 Communisme, ns. 11-12, 1986.
10 Aubier, 1992.

70 71
a stk T ii Um C° meÇO 6 Um fim - Aliás' cas° ^ capítulo 5
assistisse a um ressurgim ento do com unism o, pode-se
considerar, p ru d en tem en te, que seria um fenôm eno IDEOLOGIA, TEM PO E
de natu reza bem diferente.
h is t ó r ia
~ fEu df via / aIar do "m arxism o" e percebo que
ao o fiz. Na o ha, então, n ad a a dizer? Há, n a Univer- p or Jean-François SIRINELLI
in Ítu ía d a X ^ P ublicam revista
intitulada actuei. Existe, portanto, u m a corrente
que acredita n a atualidade de M arx.
marvisiTm1? 3^ ^ 6’ ^ Preciso *azer a distinção e n tre o A questão que m e foi colocada pelos organiza­
m arxism o-leninism o que foi um a adaptação ou, por dores desta jo rn ad a de estudos é im p o rtan te Mas
es, u m a criação nova do m arxism o por L ênin e devo confessar m in h a perplexidade n o ^ m e n t o de
Z responder a ela, pelo m enos p o r duas razoes. De u m
fenlonn eno
e T com
OS ' unista
S£U eStUd°
- e on ãm° arxism
SC SCPara do estud°
o propriam d°
ente lado, sob qual registro te n ta r e s b o ç a r u m a resposta. O
dito. As analises de M arx continuam interessantes e tem a, de fato, tem a ver com a historiografia m as tam
uteis p ara certos aspectos da história do século XIX e b ém com epistem ologia - u m a vez q u e c o m o t e la d e
do com eço do XX, m as tiveram um papel am bíguo na fundo deste encontro , trata-se especialm ente do es­
istonografia dos últim os cinqüenta anos. Simplifica­ tatu to da história do presen te -, com a m etodologia ,
das, adotadas de m odo m ecânico e em m uitos casos em sum a, com a concepção da história que su sten ta a
inconsciente (quantos autores ficariam surpresos que abordagem de cada praticante, e da filosofia da h isto ­
se possam descobrir em suas obras análises de caráter ria im plícita ou explícita, q ue n u tre freq u en tem en te
m arxista), elas tiveram u m papel n ão negligenciável seus objetivos e seus m étodos. De o u tro lado, sobre a
n u m a form a de esterilização do trabalho histórico questão das relações en tre climas ideologicos e orien
p reten d en d o su bm eter toda a análise das sociedades
tações historiográficas, é possível, em prim eira in stan ­
e nZTnH PratlCa™e n te a u m único tipo de explicação cia apoiar dois raciocínios ex atam en te opostos, u m ti-
negando, ou m e lh o r, rejeitanto o p an o de fundo das “ ria argum entos em favor d a existência de correia-
explicações da evolução das sociedades e do com por-
tam em o dos h o m e n , q u e são, por exem plo, o espin-
tual, a ideia n a a o n a l...
1 Um subtítulo em forma de questão acompanhava,
tifí • i A hÍSt? ria im ediata libertada de um a bússola a r­
tificial so pode g an h ar com isso. de fato, o título que me era proposto: Como um cli
ma ideológico pode influir sobre as onentaçoes histo­
riográficas." Para responder a isto, afirmemos que ,
conforme o desejo dos organizadores, conservei nes
Jean-Jacques Becker ta contribuição escrita o conteúdo mas tambem o es­
tilo de minha comunicação oral.

72 73
t à ofracão argelina sua tin tu ra própria.2 É tam -

E = r r = = =
presidiu p r° rv a n a *lue ° cI™ a "ideológico" que
ídeolog . , observMeur, por exem-
m ais am plam ente n o m ovim ento das idéias da época X : C e " v a L n te .e n 6.neno s d e s ^ ã o

deP° iS Chamar™ “ de ^

" *” £ £ ," £ £ «undo descreve.se desde então

são i n d i s c u t S ePOCaS ' “ indivíd“ “ - “ * efeitos


nr> ^ fadI avaJiá-los? Q uatro dificuldades pelo m e ­ h á m enos de u m a década p o r Pierre G oubert. Q uan
nos, podem ser enum eradas de saída 7o a esta larga parte do século XX que eu vivi sinto-a
sobretudo através de m inhas lem branças, m m h a? ^ a
ções vivas e m inhas duras análises; n u n ca te m c h e g ^
do à idéia de escrever u m a historia com elas, m esm

2 Quando de uma jornada de


J t i t u t d'histoire du temps r * en^ ^ ^ 2 Í
A* 1q«8 sobre os intelectuais e a guerra da Argena,
histori.dores presentes

£ ^ “ ó8i? a su m a * ^

9?0 f n Í ,Stonadores- nascidos n o curso dos anÓs


í í ^ r r a r s ^ ^
S ip T r e r & r r r r ”“ Complexe 1991). Sobre os problemas de geraçao,
nemüto^me remeter em especial a um de meus arti­
“ d í a r r d° " m d° ‘ “ gos sobre o tema, “Geração e historia pobüca.
Vingtième siècle. Revue d'Histoire, n. 22, abnl-junho de
1989.

74 75
0 0 6 7 9 /0 °

fere ao estudo dessas relações, está provavelm ente em


que com brevidade, e confesso com preender m al
com o outros ousaram , senão p o r vaidade, p o r in teres­ outro lugar. Ela reside n a constatação de qu e e s s a s r ^
lações n ão são unívocas. Pode acontecer, de fato, que
se, ou p o r gosto pela facilidade"’. É o valor dos traba-
seiam as orientações historiográficas que, p o r sua vez,
m os de historia do p resen te que dará um a resposta.
m odelam u m clima ideológico o u ao m enos con ri-
O bservem os som ente que as supostas relações entre
b u em para m oldá-lo. Assim, a oscilaçao da historio­
os climas ideológicos e as orientações historiográficas -
grafia da Segunda G uerra m undial, n o lim iar dos anos
n ao sao apenas m atéria p ara reflexão e para jornadas
1970, era certam ente em p arte p ro d u to de u m con-
de estudos. Elas continuam a entabular processos e
tex to 5- m as essa oscilação, p or sua vez, pesou so re
n u trir polem icas, processos, é verdade, cada vez m ais
u m certo n ú m ero de grandes debates cívicos e sociais
raros e polem icas cada vez m ais atenuadas. Uns e o u ­
da se g u n d a m e ta d e dos anos 1970- e desem penhou,
tros, n o fim das contas, n ão constituem senão um a
assim, u m papel n a constituição d e u m contexto ideo
im agem retm iana daquilo q u e foi, n o passado, o esta­
tu to - ou antes a ausência de estatuto - da história do lógico dessa década. _
M esm o enum eradas essas dificuldades, e preci­
p resen te4. M as a verdadeira dificuldade, n o que se re-
so seguir adiante. R etom ando o enunciado proposto,
"Ideologia, tem po e história", eu procederei em duas
fases. Prim eiro questionarei o papel do contexto his-
3 Pierre Goubert, Initiation à Vhistoire de la France,
Paris, Tallandier, 1984, p. 9 . tórico, do "tem po" do historiador, depois a influencia
do clima ideológico. Teremos com preendido, a p ro p o ­
4 Numa epoca - não tão longínqual - em que a his­
sição n ão recairá sobre o estatu to da historia do p re ­
toria política, igualmente, sofria de um tal estatuto
mcerto: ha menos de trinta anos, por exemplo, um sente, objeto de u m a o u tra contribuição, m as sobre as
relatorio publicado pelas edições do CNRS formulava relações do historiador com seu presente.
um diagnostico segundo o qual 'a política não apare­
ce mais quase nada, nos trabalhos recentes consagra­
dos aos tempos modernos e contemporâneos, senão
na analise do comportamento dos grupos sociais
quando das grandes consultas eleitorais ou das m u­
danças de regime" e "praticamente desapareceu dos 5 Cf. a obra de Henry Rousso apontada na nota
trabalhos relativos à Idade Média "(Jean Glenisson seguinte; cf. também Jean-Pierre Azema, Vichy
em La recherche historique en France de 1940 à 1965 Pa- et la m ém oire savante: quarante-cm q ans
ns, Editions du CNRS, 1965,p. XXXVI.) Sobre essa d'historiographie" in Vichy et les Français, sob a di­
concomitanaa entre a revivescência da história polí­ reção de Jean-Pierre Azéma e François Bedarida,
tica e o reconhecimento da história do presente per- com a colaboração de Denis Pechansky e Henry
mito-me remeter o leitor, em complemento ao pre­
Rousso, Paris, Fayard, 1992, pp. 23-44.
sente texto, a minha contribuição - i e retour du po-
litique - Comment écrire l ‘histoire du temps présent 6 Henry Rousso, Le syndrome de Vichy. De 1944 à nos
jours, 2. ed.. Le Seuil, coleção "Points", 1990.
JR°.™a ^ de estudos em homenagem a François
Bedarida, 14 de maio de 1992, a publicar.

77
76
O " TEMPO" D O HISTORIADOR tan to m ais notável q u an to n ão diz respeito a u m h is­
toriador do presente, m as a u m m edievahsta .
/! O historiador trabalha sobre o passado, m esm o O utro exem plo, A ntoine Prost, que, n a in tro ­
/ q u e proxim o, isto é, sobre o que está abolido. Não que dução de sua tese dedicada aos antigos com batentes
ele conceba sua prática unicam ente com o um a espé- na sociedade francesa do entre-guerras, diz tam bém
cie de reto rn o das cinzas do passado a um presente até que po n to sua participação n a guerra da Argélia
" ! que s,e ria to talm ente desconectado daquele. Bem ao teve u m papel em seu interese e depois n a com preen­
contran o, esse historiador, q u alq u er que seja sua es­ são de u m a o u tra geração do fogo5, aquela da G rande
pecialidade cronológica, bebe em seu presente e, lon- Guerra. No calor desse conflito, tam bém , forjaram -se
8u f ensar q ue "é de n e n h u m tem po e de país n e ­ fortes reflexões de historiadores. R elendo, p or ex em ­
n h u m ”, ele sabe que está ligado p o r m últiplas fibras a plo, a lição inau g u ral de Lucien Febvre n a Um versida-
seu tem po e a com unidade à qual pertence . Podería­
mos, de sobra, m ultiplicar os exem plos. Lim ito-m e
aqui a constatação, significativa, do im pacto da g u e r­
ra sobre a obra de grandes historiadores, trabalhando 8 A primeira frase da introdução de sua tese j a evo­
de resto, em dom ínios cronológicos afastados uns dos cava por antífrase, "a experiência vivida : Se eu
deixo de lado o essencial, ou seja, o papel das expe­
outros. Em dezem bro de 1991, Philippe C ontam ine,
riências vividas, o peso dos problemas contemporâ­
q u and o da cerim ônia de sua recepção n o Instituto, as­ n e o s , na origem desse livro coloca-se a leitura de A
sinalava explicitam ente em seu discurso que, p e rte n ­ arte militar e os exércitos na Idade Média na Europa e no
cendo a geração da guerra da Argélia, e ten d o servido Oriente Próximo "(Estado e sociedade..., ref. cit., p.
n a Argélia, esse episódio de sua vida tin h a tido um influência do livro de Ferdinand Lot não foi, portan­
peso n a escolha de seu tem a e seu cam po de estudo: a to mais decisiva, de fato, que suas "expenencias vi­
guerra dos Cem A nos7. A correlação en tre o historia- vidas" - sem dúvida Philippe Contamine pensa tam ­
bém na de seu pai Henry Contamine, grande espe­
or e sua própria história - m esm o se esta só consti­
cialista em história militar e antigo combatente na
tui u m p arâm etro - é, portanto, real aqui, e o fato é Grande Guerra - nem mais decisiva que o impac­
to dos "problemas contemporâneos".
9 Antoine Prost, Le anciens combatants et la societe
française 1914-1939, vol. 1, Histoire, Paris, Presse de la
Fondation nationale des sciences politiques, 1977. A
L ?hlIlP/ e C° ntamine' Guerre, Etat et société à la fin du introdução (Op. cit., p. 1) começa com estas palavras
Moyen Age. Etudes sur les armées des rois de France, 1337 - "É preciso confessá-lo? A idéia desta obra nasceu na
1494, Paris, La Haye, Mouton, 1972, XXXVIII - 757 p
Argélia". E o autor relata: "Por mais breve e limitada
Como síntese dos amplos e fecundos trabalhos de que tenha sido, minha experiência argelma me per­
Philippe Contamine, poderemos reportar-nos a seus mitiu imaginar o que foi, na sua rea idade vm da a
capítulos no tomo I da Histoire militaire de la France guerra de 1914" (ibid.). A mesma palavra, portanto,
pubhcada sob sua direção (Paris, PUF, 1992).
que Philippe Contamine, "experiência".

78 79
de de Estrasburgo n o reinicio de 191910, com preende- finissent,1983), e em que a Europa do Oeste oscila e n ­
se m elh o r p o r que , dez anos m ais tarde, e n o decu r­ tre u m a atitude de firm eza - instalaçao dos mísseis
so dos anos 1930, os Annales trouxeram u m firm e in ­ Pershing - e tentações de fraqueza. Ora, os jovens in ­
teresse pela história de seu tem po. telectuais sobre os quais eu trabalhava tm h am sido,
, . . A Portanto' um fato incontestável: o contexto nos anos 1930, confrontados com a ascensao do feno-
historico influi sobre as orientações historiográficas, e m en o totalitário e com as provocaçoes hitlenanas.
isso quaisquer que sejam os períodos estudados. Mas D iante desse duplo desafio, providos de u m a especie de
as relações entre u m e outro não se restringem a tal in- bagagem genética pacifista herdada de seus engaja­
tluencia. Tambem a observação desse contexto históri­ m entos da década precedente, eles se encontrarao di­
co ajuda o historiador n a sua com preensão dos fen ô ­ lacerados entre fidelidades tornadas contraditórias. Se­
m enos que estuda. Perm ito-m e, a esse respeito, in tro ­ guram ente, o contexto histórico n o qual eu circulava e
duzir u m a n ota pessoal nesse texto. Para a preparação a correspondência de idade com os atores estudados
de m in h a tese, eu trabalhei sobre os alunos dos cursos m e ajudaram a com preender e perceber m elh o r a in ­
que preparam para a École N orm ale Supérieure e nor- tensidade dos im portúnios aos quais foram subm etidos
m alistas dos anos 1920, isto é, com jovens que eu p e­ esses atores.
gava com a idade de 18 a 20 anos e que seguia em Nesse inventário de relações en tre contexto his­
seus engajam entos cívicos, n o curso dos anos 1930 tórico e historiografia, a prática com em orativa é cru-
q u ando eles tinham entre 25 e 35 anos“ . Ora, os onze d al. De certo m odo ela é, de fato, u m fen om eno de
anos de preparo dessa tese fizeram com que eu trab a­ contexto histórico, u m a vez que a decisão de com e­
lhasse sobre esses jovens intelectuais q uando tin h a en- m o rar é u m a decisão política. Ao m esm o tem po ela
engendra, p or indução, orientações histonograficas
trC 2a C? 6 an0S- Havia' P °rta n to, já u m a concom itân­
cia de idade, observação em si banal se não se acres­ que podem , por sua vez, influir sobre o contexto cívi­
centa que essa tese foi preparada entre 1974 el9 8 5 co, ou, pelo m enos, contribuir para esclarece-lo. Na
período que viu surgir a partir de 1979 um a "segunda sua contribuição ao prim eiro tom o das atas do colo-
guerra fria". É a época em que a União Soviética p are­ quio in ternacional organizado em 1990 pelo In stitut
ce ir de vento em popa, nas relações de força geoestra- Charles de G aulle12, Pierre Nora insistia n a densidade
tegicas (Jean-François Revel, Comment les démocraties do fenôm eno com em orativo em três ou q u atro anos:
m ilênio capetíngeo, bicentenário da re v o iu ç a o e m
1989, centenário do general de Gaulle em
10 Lucien Febvre, "L'histoire dans le monde en propósito desse centenário, ele m ostrava tam bem
rumes", aula de abertura do curso de história moder­
com o u m a reflexão histórica sobre o gaullismo, vivih-
na na Universidade de Estrasburgo em 4 de dezem­
bro de 1919, Revue de synthèse historique, t. XXX n 88
fevereiro de 1920, pp. 1-15. ' ' ' 12 Pierre Nora, "L'historien devant de Gaulle" em De
11 Jean-François Sirinelli, Génération intellectuelle Gaulle en son siècle, 1.1., Dans la mémoire des hommes et
Khagneux et normaliens dans l'entre-deux-guerres, Paris des peuples, Paris, La Documentation française - Pion,
Fayard, 1988 (tese defendida em 1986). 1991, pp. 172-178.

80 81
cada pela efervescência com em orativa, podia desem ­ Com a condição, seguram ente, de saber abs­
bocar n u m "diagnóstico sobre a identidade política da trair-se q u an do u m "tem po" m al dom inado pelo h is­
França e finalm ente (em) u m a m aneira nova de en ca­ toriador leva ao risco de induzi-lo ao erro, falseando a
ra r as relações dos franceses com o poder e sua própria perspectiva. Assim, n o lim iar dos anos 1950, quan d o
representação, n u m a palavra, com seu passado, seus a direita francesa parecia u m a corrente durável e, ta l­
sonhos e sua m em ória". A com em oração, p ro d u to - vez, definitivam ente enfraquecida, R ené R ém ond fa­
diferenciado - de um a história, pode estim ular e re n o ­ zia,’n o m o m en to de com eçar La Droite en France, esse
var u m a historiografia que p o r sua vez pode in flu en ­ esforço de abstração com relação à percepção com um
ciar n a história ou, pelo m enos, n a representação que da m aior parte de seus co ntem porâneos14. E quando,
dela se fazem os franceses. O rastro de u m aconteci­ em ju n h o de 1951, a direita m oderada obtém m ais de
m en to ou o rastilho da ação de um h o m em de Estado u m a cen tena de deputados n a Assembléia e volta a ser
são amplificados pela com em oração e, assim reativ a­ u m ator essencial do jogo político, é n a contra-corren-
dos, podem agir de novo, indiretam ente e p o r canais te de u m a o u tra opinião difundida, a do en terro defi­
com plexos, sobre a história de seu tem p o .13 nitivo da clivagem esquerda-direita, que ele precisará
Tudo o que expus acim a dem onstra, de u m ir. Assim Jean-Jacques Servan Schreiber escrevia em
lado, que o papel do presente no ofício do historiador 1953, a propósito dessa clivagem: "Fora os p arlam en ­
é inegável, m as que, de o u tro lado, as relações presen- tares, m ais nin g u ém com preende o que isto q u er d i­
te-historiografia não são unívocas. E, portanto, em zer. Na verdade, é u m a língua m orta" (Le Monde, 24 de
vez de form ular votos piedosos para que surja um a jan eiro de 1953). O historiador é tam bém aquele que,
ciência histórica que, tal com o u m a pepita, poderia às vezes, n ão dá crédito au to m aticam en te às crônicas
ser lim pa da ganga lam acenta da história circunvizi­ de u m a m orte anunciada, sabendo por experiência
n h a - votos estes que estariam m ais para o feitiço -, que os fenôm enos históricos são, salvo fratura rev o lu ­
m ais vale assum ir o q u e cham am os com um ente de cionária ou militar, de forte inércia e, p ortanto, de
subjetividade. A consciência dessa subjetividade p e r­ com bustão len ta15. Q uando o "tem po" no qual ele cir-
m ite ao m esm o tem po freá-la - o historiador, insisti­
m os nisso, dom inando seu "tem po" com seu "ofício",
n o sentido técnico do term o - e com o vimos, utilizar- 14 A obra foi escrita "entre 1951 e 1953"(cf. o "Pre­
se dela q uando pode ajudar n a reflexão histórica. Há, fácio da quarta edição", Les droites en France, Paris,
p ortanto, de fato, um a espécie de dialética a m an ter Aubier, 1982, p. 9).
com o contexto histórico. 15 A observação continua válida para uma outra
Histoire des droites, minha e de Eric Vigne, coletiva, co­
meçada em 1987-1988, num momento em que n u ­
merosos observadores concluíam pela provável co­
13 Sobre a produção suscitada pelo centenário de De bertura do fosso entre esquerda e direita (cf. sobre
Gaulle, cf. o recenseamento ao mesmo tempo que a este ponto minha introdução geral no tomo I dessa
análise propostos por Oscar Rudelle, L'année De Histoire des droites en France, a publicar, com os dois
Gaulle en France", Tocqueville Review, 1992, a publicar. outros tomos, no outono de 1992 pela Gallimard).

82
S E f,
- . “ ■ ü t s r r r - * " —
eSC°la “ " i o X e m ntais atenta convence do
C c w p ig u r à ç õ e s id e o l ó g ic a s contrário: p o r outros canais q u e n ão as e^ n a 8e
universitárias, a Action Française foi, n o en tre gu
t e n d ê n c i a s HISTORIOGRÁFICAS
ras u m pólo historiográfico im portante. Pele eco e
nela difusão de seus Grandes Études H is to r ie s , a L vra
i d e o I ó Í o r Spe, í d 0 lT ° que se inserem os cIímas ria A rthèm e Fayard era u m v etor essencial daquela. A
cias n J L f e ' m em 'gualm ente nas ten d ên - í s t e respeTto h lv e ria u m belo estudo de historia polí­
r qu alau e r i ^ T ^ * hÍSt0ri8rafia? Antes m esm o tica e cultural a desenvolver, sobre esse lugar, em to r­
sitiva Uma . , f gaçao' PeIa Wgica a resposta é p o ­ n o do papel d esem penhado p o r Pierre Gaxotte. E a
sitiva. Uma ideologia, com efeito, fornece um a grade
fluência de u m h o m em com o Jacques Bamville, ate
inteleo bíida0dr Und° ' SUStentada Por princípio de . 1936 deve ser reavaliada e provável
sua m o rte em 1936., deve s leitu ra, por
pltó a m e n í * P ° rtan t° t3m bém ' « p l í d t a ou im -
hI t S T L T U ' e'T quase
da his,ÓIia' Desde •
frnnt J P<>r essência,
um «1 s e Z o T h i s t ô í há T “ “ “ ' ° U
con-
"*
S S S is = S S S
, . cao etín eea '-, com pete, n o despertar ím eicc
historia capenng . /, ^ js com a Sorbonne
£ * - pata « c u + r jr s s r z r : ^ várias ct,=
Ideologias que im pregnam um a sociedade e as nreo
cupaçoes científicas do historiador. P históricas sairão, de resto, alguns historiadores híb
d ^ d e grande talento: Philippe Ariès, seguramente,
Nao desenvolverei, n o entanto, o exem plo tó n i­
co do m arxism o, tratado, aliás, no decorrer desta ior ou Raoul G irardet. E Poder-se-ia
vação em outros domínios que nao a historia, em
~ eS*"dOS- Há * * « n t e . Z S a d a
Z ^ emre uma ‘deologia em posição de forte pecial com Georges D um ézil17.

r S S r ™ d e,em r da • ‘ ^ 4 l« u d e “ s
res,o ak ü m â* “ his,OTM« « pedindo, de 16 philippe Ariès, Uh historien du
Z aL m Z , PeSqU‘Sa aProf™<Ma e um en­ laboração de Michel Winock, Pans, Le Semi, 1980^
quadramento em perspectiva cronológica - e aiüumas
17 Em abril de 1920 aparece o primeiro numero
c i o T h S S r B ^ U"ladÍsciPlta‘> d™n'fica, aqui no Revue universelle, cujo diretor é Jao*ucs
rica a u a m T S “ complexa, de fato, mas tão , . rhpfe Henri Massis. Publica-se nela espe
iV ”Sm“ emos é ■> caso da influência
maurrass,ana. Na medida em que a Action Brançaise

84 85
;. , Para £ uem se dedíca a registrar as relações entre contem porâneos. E m P a ris-M o n tp e llia E m m a n u d L e
Roy Ladurie conta sobre u m itinerário intelectual e
ée aainda
S d f mmais
a í “ ’significativo,
— ^ ' ° uma da “ SIÓIia e“ n ™ k a
vez que o ambiente científico levando o jovem professor agregado do hce
jdeologico engloba, certamente, a esfera da ec^nom k de M ontpellier, em suas pesqm sas sobre os « m p one-
E a literatura sobre o tema é superabundante. Remete­ ses do Languedoc n a época m oderna, a passar
remos, por exemplo, em razão de sua publicação re­ M arx p ara M althus. Mas ele n arra tam bém u m a evo­
cente, a um artigo de Hubert Bonin cujo início lembra lução política e ideológica paralela, m arcada pela ade-
com conhedm ento de causa que «a história e c < 5 £ rào ao com unism o e depois pela sua rejevçao em
ca nao e 'neutra', pois reflete as correntes de pensa­ 1 9 5 6 “ . o u tro exem plo, cronologicam ente m ais proxt-
d o que atravessam a sociedade"'«: aos anos 1960 e m o: a reflexão atu al de M aurice A gulhon sobre a R e­
, urante os quais numerosos historiadores da pública, sua im agética e seus sím bolos2 bem com o so­
economia, nutndos de marxismo, atacavam ainda ex- bre sua história recente23, inscreve-se certam en e no
pro longam ento de su a obra an terio r sobre a a c u lto a
1 9 8 o T ente ° U na° ' ° Capitaíismo' sucederam os anos
1980 que viram, paralelamente à corrosão do marxis­ cão da dem ocracia republicana no seculo XIX, m as
mo, desenvolverem-se pesquisas que, por vezes reabi tam bém é n u trid a p o r u m a m editação im plícita sobre
a cidadania e sobre a identidade republicana que,
m r al eS 1 tamente 3 empresa e a econ°m ia de
Z T â ii f COm° U rêsistible déclin des sociétés
industnettes de François C aron- é, nesse sentido um
20 Emmanuel Le Roy Ladurie Paris-Montpellier, PC-
^ an ri St0nografíco significativo. Da mesma forma PSU 1945-1963, Paris, Gallimard, 1982.
e ^ h ltó r ia ^ T Asse.mbléia GeraI dos especialistas 21 Sobre o choque de 1956 sobre essa geração inte­
m historia contemporanea do ensino superior e da lectual, que contava vários historiadores postenor-
pesquisa, em novem bro de 1991, n a qual François mente levados a adquirir grande notoriedade, d.
Jean-François Sirinelli, Intellectuels et passions
S ^ T Mto u m a ,r e s c o d a h ls t “
françaises, Fayard, 1990, capítulo VIII, "Un aut°™ne
1956" Para um outro depoimento descrevendo par­
ticularmente um itinerário político e um percurso
científico, cf. Annie Kriegel, O que j ’ai cru comprendre
2 ^ 2 ^ * as con“ Paris, Lafîont, 1991, especialmente a terceira parte,
Essas relações entre ideologia e historiografia “En communisme" e as paginas da quarta parte de­
perceptíveis num certo número de domínios, o são dicadas à "historiadora" e à "professsora .
gualmente na obra de vários grandes historiadores 22 Maurice Agulhon, Marianne au combat e Marianne
au pouvoir, com o subtítulo L’imagerie et la symbolique
républicaines de 1789 à 1880 puis de 1880 a 1914, Pans,
U D é b a ^ ^ ' *MT le ? entrePrise dans 1'histoire", Flammarion, 1979-1989.
Tof ' -• 67' novembro-dezembro de 1991, pp i 67.
185, ataçao p. 167. ^ 23 Maurice Agulhon, LaRéPubli^ Z ^ m l h Z e
François Miterrand (1880 a nos jours), Pans, Hachette,
19 Paris, Perrín, 1985.
1990.

86 87
m esm o se n ão é suscitada p o r ela, insere-se em nossa quietação, cujos debates fazem eco largam ente h a
terrogaçao coletiva de fim de século em to rn o da cri guns anos. Não cabe aqui registrar os sin to m a sd e tal
se do m odelo republicano24.
inquietação e particularm ente a crise de identidade
Ao im pacto das configurações ideológicas na Hns intelectuais que dela decorre .
produção historiográfica acrescenta-se P2 a “ Sendo assim, essas correlações en tre u m a epoca
M u" n d f tS
^ é ° SaÇÕeS" ktÍVaS * uma »odedade. e as tendências historiográficas q ue dela se desdo
Cão n ' p o r Vezes' sensível nessa p ro d u ­ bram , são, às vezes, m uito com plexas
ção O sucesso atual da história cultural, que conhece interpretação dos progressos recentes da historia das
m a abertu ra em história contem porânea depois de e t e T é p o r exem plo, u m bo m reflexo dessa com ple­
x i d a d e ’ Esses progressos são inegáveis. Pouco tem po
* n0bre“
L f eXpIlCa' se P rovavelm ente, de resto nela d è p l d« seu nascim ento, o In sttm . d-ffistoire m oder-
do m f enCla dCSSeS d° ÍS fat0res- De um ]ado, o recuo n e et contem poraine (CNRS) publicava em 1980 u m
ca ™ ° engendrou um a libertação historiográfi­ «GUia de pesquisa" dedicado à P rosopographie des elites
ca das su p erestru tu ras", relegadas até então ao p lano françaises (XVI- X X siecles)™, cuja leitura, doze anos de-
e secreções do substrato sócio-econôm ico o único p o i / T á b em conta das curiosidades convergentes que
digno de interesse. A esse resneitn , w * ' •' y m co
nartiiViü r. , • . respeito, a historia cultural despertavam então sobre essas elites. Na m esm a data,
partilha com a historia política essa reabilitação indu- a Association for th e study of m o d ern an d contem po-
da p o r u m a deglaciação ideológica. M as só o fator rary Prance consagrava n a G rã-B retanha seu “ loquio
S S T é nnecessano
t “ í”iCaperguntar-se,
“ “ W de outro lado hiSS “sea fun d ad or às "Elites en
cultural.E _nos m ais tarde, o In stitu t d'H istoire d u Temps Present
essa bonança n ao é igualm ente o reflexo de um a in tcN R S) e a École française de Rom e organizavam u m
d eín fç ão °eCo T ÍVa “ f 1“ *3 com inquietação sobre a
Esta r L a Ug3r cultura em nossa sociedade
Esta, m arcada p o r um a potencialização da im agem e

diiluente
ue™c Vde
do„Po
rh frr SlT
objeto ^
eMeDe onde um a surda in-
cultural.
25 , sobre i : e‘r « s . u
p m T S v U d , Notre Sücte
X r s L '

• £ £ " 1 ”
Sirinelli, ' l a ü n des m t d l c a u d i i r W . s ^ K ™ '
ïcufoad e re Po KPeCtiVa dCSSe modd° ^ b lic a n o em um européenne des sciences sociales, tomo XXVIII,
secuto, desde o enraizamento da terceira República rf i .
153-161. , ,
26 Prosopographie des °
Guia de pesquisa, IHCM, Pans, CNRS, 1980.
27 Jolyon Howorth e Philip G. Cemy (dir.) Elites in
P r a n T Origins, Reproduction and Power, Londres,
Prances Pinter, 1981.

88 89
encontro cientifico franco-italiano consagrado às eli­ influência da obra de Pierre B ourdieu. Ora essa in ­
tes nos dois países28. Depois virá o tem po das teses d e ­ fluência e essa obra são, p o r vezes, interpretadas com o
fendidas sobre esse tem a, aquelas, p o r exem plo, de u m a form a se n ão de neom arxism o, ao m enos de
François-Charles M ougel e de C hristophe Charle res­ reinserção de fortes determ inações o u correlaçoes so-
pectivam ente em 1983 e 1986” Progressos inegáveis, cio-econôm icas n a análise. A avaliação de u m co n tex ­
p ortanto, de nosso conhecim ento das elites francesas to ideológico é, pois, sem pre com plexa e as m odifica­
ou estrangeiras, m as difíceis de interpretar. De um ções nesse dom ínio devem ser observadas com cuida
lado, esse interesse científico pelas elites, depois de d é­ do, u m a evolução aparente n u m sentido podendo es­
cadas em q u e as "massas" estiveram n o coração da conder u m outro, circulando em sentido inverso.
historia social, e bem revelador da m u d an ça de p a ra ­
digm a te o ló g ic o - Mas, de o u tro lado, alguns desses O historiador é bem de seu tem po e de seu país.
trabalhos sobre as elites m ostram o im pacto de um a Para u m jornalista de televisão que o interrogava re ­
historia m u ito sociologizante, p articu larm en te com a centem ente sobre a objetividade em historia, o h isto­
riador am ericano Eugen W eber respondia m aliciosa­
m ente que n ão havia objetividade, so profissionalis­
m o 31 Através do anglicismo da resposta, o proposito e
28 Les élites in Francia e in Italia negli anni quaranta, claro: n ão h á senão o "ofício". Só ele perm ite ao histo­
Mélangés de l'Ecole Française de Rome - Moyen riador, calçado pelas regras do m étodo e do rigor que
Age-Temps Modernes, tomo 95, 1982,2.
devem perm anecer as suas em todas as circunstancia
29 François-Charles Mougel, Elites et système de de sua prática e em todos os períodos estudados, utili­
pouvoir en Grande-Bretagne 1945-1987, Talence
Presses U niversitaires de B ordeaux, 1 9 9 0 - zar, nessa m esm a prática, as diversas tem poralidades -
os ritm os diferentes segundo os objetos estudados - e
188oTçPn nep
Ioo0-Î900, ChaiïFayard,
Pans, ' Leî 1987.
élites de la République m an ter relações de geom etria variável com seu p ro p n o
30 A mudança de paradigma ideológico e o desblo- "tem po". Em outros term os, pôr-se a escuta do p resen ­
qu ao concernente às elites também tiveram prova­ te para ilum inar u m a volta p ara o passado, m as evitar
velmente um papel no florescimento recente da his­ os efeitos não dom inados do eco entre esses dois n í­
toria dos intelectuais. Mas acresce-se a isso provavel­ veis. Q uando tais efeitos vêm interferir sem controle
mente o "contexto histórico", na segunda metade entre o passado e o presente, m ais tarde o ju lg am en ­
dos anos 1970, a crise dos intelectuais franceses que to do futu ro revela-se im piedoso, pois todas as obras
banalizando pouco a pouco o lugar desses intelec-
m uito im pregnadas de presente, ou nas quais o p re ­
ais no espelho social, deixa de fazer dele um obje-
to mtimidador para o historiador. Não retomo aqui a sente é m al controlado pelos autores, m al passam a
analise ja feita sobre esses pontos em minha contri­ ram pa da posteridade. Nada envelheceu tan to por
buição, Les intellectuels", em Pour une histoire exem plo, com o algum as histórias m ilitantes no dom i-
Politique, sob a direção de René Rémond, Paris Le
Seuil, 1988, pp. 199-231.
31 Caractères, FR3, 31 de janeiro de 1992.

90 91
° h ,stM a d ” - «— capítulo 6

A VISÃO DOS OUTROS: UM


M EDIEVALISTA DIANTE
Jean-F rançois Sirinelli
DO PRESENTE
p or Jacques LE GOFF

O presente m e interessa antes de tu d o com o ci­


dadão, com o h o m em do presente, m as diante dos
acontecim entos, dos fenôm enos, dos problem as im ­
portantes, m in h a reação é a de u m historiador, de u m
aluno de M arc Bloch. Esclarecer o presente pelo p as­
sado e o passado pelo presente. O passado do qual m e
ocupo essencialm ente é, evidentem ente, aquele do
m eu saber e de m in h a prática de historiador, isto é, a
Idade M édia. Com certeza, n ão esqueço que "m inha"
Idade M édia ultrapassa largam ente o período tradicio­
n alm en te cham ado Idade M édia, em particular desde
os program as escolares e universitários do século XIX:
do fim do século V ao fim do XV. Eu acredito n u m a
longa Idade M édia, que iria do fim do século II até a
R evolução Francesa, a R evolução Industrial, m as m e
aterei à Idade M édia tradicional. De q u alquer m an ei­
ra, considero a continuidade histórica desde a A nti­
güidade até nossos dias.
Mas sem que eu m e coloque tam bém clara­
m en te a questão: h o u v e n a Idade M édia fenôm enos
históricos que esclarecem o presen te im ediato, o que
se passa hoje m e perm ite m elh o r com preender o que
aconteceu n a Idade M édia? Essas duas questões com ­
plem entares constituem p ara m im u m a espécie de lei­
tu ra instintiva da história im ediata e de m in h a refle­
xão sobre ela.

93
reflejT ó W a“ ? vl t r; * " í* ” *■» de com paração. O prim eiro problem a evidente é que
-r.se , c e n a J n t ^ Z ™ ^ ^ ^ é preciso recolocá-la nas relações en tre cristãos e m u ­
ta m b ém conexas q u e sãn a h , duas Pre ocupações
çulm anos n a longa duração. É preciso rem o n tar às
cruzadas? As cruzadas foram u m arg um ento p ara a
resistência e a propaganda iraquiana, o que poderia
m odificar m in h a leitura das cruzadas? Considero-as
do do m o v im e n to p , historia e o estu- com o u m pseudo-acontecim ento sem grande alcance
n a longa duração, m as se elas fazem p arte n egativa­
m anas; n ão h á história mU<?an.Ça das so«ed ad es h u -
m en te da m em ória coletiva m uçulm ana, isto m u d a a
quais foram as grandes v ead as MmS precisam ente'
im portância histórica das cruzadas. Em seguida, o lu ­
< - .« W eà ,sitnarSr.
n t Z i ru r i e Z c concerne
ê r n “ ao
r acon-
“" “ gar de Israel: é ele, nesse caso, o sucessor do im pério
tecim ento ■
latino de Jerusalém considerado p o r P raw er com o u m
me coloco mais p a rõ c u la l™ J ra“ sta'™ estado colonial? No dom ínio econôm ico as m o tiv a­
ções econôm icas das cruzadas foram fracas n a Idade
M édia. Hoje a im portância do petróleo é enorm e. No
Gostaria de tasisãr ” 'bre õ u o l T j dom ínio m ilitar não há u m desequilíbrio tecnológico
do presente, do hoie (P h p u~ esse aS u ü h ã o
nas cruzadas. São Luís em Joinville é prova disso, os
o u tro discurso ) é ni™ •m a ' m as este s^ria um
Cruzados ocidentais tem iam o fogo-grego lançado p e ­
flexão de,! S t ó r r ^ ,nlnh* - los m u çulm anos sobre os exércitos cristãos. Hoje a
m en te m inhas i n t e r n e t j reto m ar constante-
enorm e superioridade dos ocidentais em mísseis in ­
confirm á-las ou corrigi -las e^no t M édia para
verte a situação. M as foram dois problem as que p ro ­
os especialistas do p esent e daT ^ ' P " *
vocaram em m im o historiador da longa duração.
pouco com o recorro l “ , St0na ,m ediata um
D iante da G uerra Santa, o D jihad dos m uçulm anos, a
aos econom istas ou aosjuristas° Não*' ^ *ocid,08os' noção q u e tin h am os cristãos, de gu erra ju sta p o rq u e
en tre tan to pois o sentiw a com pletam ente,
dirigida contra os infiéis, n ão m u d o u hoje? Não h á
m ais referência e a noção de agressor com o justifica­
“ “ 05 “““ “ Dou alguns exem pte ção to rn ou -se essencial. M in h a segunda preocupação
expressou-se em term os do ofício. Quais foram , com o
foram recolhidas as fontes de inform ação? Para os b e ­
P r im e ir o o s a c o n t e c im e n t o s ligerantes prim eiro, para os jornalistas em seguida,
enfim para os telespectadores. Que diferença haverá
en tre as fontes da história im ediata e as do historiador
qreiaçâo
u an to .T aIguIls
;‘ S a pontos
^ r c mÂais Lou t u “ r r om do futu ro ?

95
F a t o s, d o c u m e n t o s , m íd ia s F enôm enos de fundo

A reflexão aqui nasceu da paródia de processo e o que m e inq u ieta e m e interessa m ais e o m-
execução de Ceaucescu. Que método p a r t J a r de tegrism o. O que é legítim o p ôr nessa etiqueta? Pare-
tica de um a em issora, de u m program a de televisão ce-m e que m esm o que os integrism os religiosos ap re­
pode-se en cam inhar? Não obedecem elas tam bém às sentem grandes diferenças, é preciso considerar em
questões com uns do historiador: quem ? quando? conjunto, integrism o cristão, in tegnsm o judaico e i
onde? com que fim ? 0 que é que ^ a tegrism o m u çulm ano, ainda que este seja o m ais im ­
p o rtan te e o m ais inqu ietan te. Mas o que dizer dos to ­
Não é preciso pedir m ais crítica e honestidade talitarism es religiosos e ideológicos, da in t o k r a n c i^
cntica aos jornalistas, historiadores do im ediato? Não é preciso re m o n ta r a suas raizes m edievais? Nao
M ai-> geralm ente o historiador n ão deve n o tar se deve considerar q ue o confronto en tre ortodoxia e
e talvez, deplorar que, com o bem o m ostrou Pierre heresia em itiu intolerâncias duplas? As heresias d u a ­
listas, opondo fu n d am en talm en te b em e m al, n u tri­
rifem ° f m ei° S dC com unicaÇão privilegiam o fato,
° fato' com o se viu, p o r exem plo, em 1968’ ram até hoje as intolerâncias m am queistas. De ou_r
E Pre a s o louvar o esforço dos bons jornalistas lado a ortodoxia, que suscitou a partir do seculo XIII a
p o r fazer m tervir um a certa espessura histórica. M as é Inquisição, n ão desem p en h o u u m papel determ in
preciso deplorar a falta de cultura histórica da m aior te n a instalação da to rtu ra, nos costum es judiciários
p arte deles, m as tam bém , é bom dizê-lo, de m uitos policiais ocidentais, n a busca da confissão? Se ela con­
econom istas e políticos, atores em inentes da história duziu à confissão individual,suscitou o procedim ento
im ediata. Q uando os econom istas recorrem à história inquisitório e m arco u fortem ente o direito penal que
e em geral para invocar os teóricos e as teorias: o col- n ão consegue ainda hoje desem baraçar-se dele Para
bertisxno, os fisiocratas, A dam S m ith, R icardo, com preender b em a gênese de todas essas intolera
M althus, ou p ara rem o n tar n o m ínim o à crise de cias e repressões, n ão é preciso rem ontar,com o h isto ­
1929. Nao ignoram eles as crises do Antigo Regime riador inglês R.I,.M oore, au to r de The Birth of a
tao bem analisadas p o r Labrousse e M euvret e cujo es- Persecuting Society,aos séculos XII e XIII?
u o e am da esclarecedor, n ão ignoram eles os proble­ Dois pontos m e parecem especialm ente im por­
m as m onetários em perspectivas históricas? Sabem tantes: p ara as religiões baseadas em escrituras, a im ­
q u e o descredito das desvalorizações rem o n ta à Idade portância paralisante de u m a leitu ra e de u m a aplica­
ção literais do tex to sagrado. Creio que a evolução da
m oeda? ° nde ^ P are°em com o fabricação de m á exegese bíblica foi u m a das razões do florescim ento e
do sucesso do Ocidente, fazendo desaparecer vanos
tabus da literalidade. Q uando, n a virada do seculo _XIX
para o XX, produz-se a querela M odernista, a facça

96 97
favor de u m a interpretação adaptada à evolução h is­ M édia, n a sociedade cristã, de u m a o u tra m an eira os
tórica da Escritura já havia ganho h á m uito. m ortos ainda conduzem a sociedade. Peter B row n
Inversam ente, u m a desvantagem do pensa- m ostrou que os santos eram m ortos m u to espectai .
d Íe M°H°Cldental fOÍ ° Ím pacto' a Partir do fim da Id a­ M ichael Lauw ers d em onstrou que os m ortos eram
de M edia, p articularm ente n a Espanha, da noção de
pureza, que alim entou um a ideologia do sangue. De anCCStNo dom ínio judiciário, indicam -se evoluções
onde o erro de Giscard n u m a declaração feita a des­ sem elhantes, inversões sem elhantes. A em briaguez n a
peito da historia. Idade M édia era u m a circunstância aten u a n te nos d e ­
litos e crimes. Hoje em dia, dirigir em estado de em ­
briaguez é u m a circunstância agravante. ^
F e n ô m e n o s d e m e n t a l id a d e e U m tem a revelador para o historiador, a crom
DE SENSIBILIDADE ca do quotidiano revela a construção de práticas e
m entalidades de longa duração desde a Idade M edia,
j l ° r ex™ p l° ' a u su ra- O delito da usura existe o b oato e a reputação, o procedim ento m quisitono (e
am da hoje. Ele e condenado e h á definição do lim ite n ão m ais acusatório) q ue conduz ao poder exorbitan­
das taxas de lucro acim a do qual o lucro é usurário e te do juiz de instrução são u m a heran ça do seculo XII
e a dificuldade atu al em corrigir esses excessos expli-
m iú d o r i w PrÍm Íd0' MaS é u m asPecto m uito
m iudo da atividade econôm ica. A u su ra co ntem porâ­ ca-se em grande p arte pela interiorização, a an co ra­
n ea nao recobre m ais, com o n o século XIII, operações gem dessas práticas, nas m entalidades e n a sensibi 1-
s n h T n 5 d a~VÍda eCOnÔmÍca' d0 Pré-capitalism o e, dade h á séculos. , , ,
É preciso, ainda q ue seja banal, sublinhar as
dos hirt
dos ju d eu s nnaa °sociedade
ren T e maÍS
cristã. 30 Problem a candente três grandes diferenças que a m e u ver existem en tre a
A evolução é, talvez, ainda nítida nas atitudes história im ediata e a história de períodos anteriores É
dos ocidentais com relação à m o rte e aos m ortos. Para necessário especialm ente considerar essas diferenças
as epocas do Antigo Regime, Philippe Ariès falou em no ensino e n a vulgarização da historia, onde sua ig­
m orte dom esticada; hoje a m orte n ã o é m ais dom esti- n orân cia ou seu desprezo podem fazer estragos. A esse
m Í ' ?„SJ 1VOS Procuram ignorá-la, cam uflá-la. Na respeito, a história im ediata é o u tra e difícil.
Idade M edia, a m orte súbita era a pior das m ortes,
pois trazia o risco de su rp reen d er o m orto em estado 1. Por causa dos docum entos e das fontes.
de pecado m ortal. Hoje, ela é considerada com o a m e ­ As fontes são su perabundantes, é difícil d om i­
lhor das m ortes. Na A ntigüidade, os m ortos tinham ná-las, apesar do recurso à inform ática.
um lugar essencial n a cidade. Nicole Loraux, estudio­ M uitas fontes ficam inacessíveis m u ito tem po.
sa da oraçao fúnebre em Atenas, m ostrou o lugar dos As fontes da história im ediata n ão são im ediatas.
m ortos n o sistem a da cidade grega, da polis. Na Idade Os m eios de com unicação constituem u m novo
tipo de fontes m u ito im p o rtan te e m uito particular, e

98 99
dao lugar a m anipulações inéditas contra as quais a que aconteceu depois. Sobre e s s e te m a te n to u m a d e -
critica das fontes ainda n ão está m u ito estabelecida fesa do em prego do futuro historico q ue e p u ra e sim
a a , Sena m teressante estudar as transform ações li­ piesm ente^a confissão honesta do co n h ed m en to que
gadas a supressão do serm ão com o m eio de com uníca- tem u m historiador do futuro real daquilo de
e u m m eio de exposição útil e legitimo. Com a condi­
n o v o sm eio s^113 “ M édia' ° - p i m e n t o dos
novos m eios de com unicação, da im prensa à televisão ção b em entendido, de que o em prego do futuro his o-
É preciso, enfim , sublinhar os limites dos o ro ' rico não signifique que se considera o f u t u r o i c » , -
teiram ente determ inado pelo passado. A esse a s p e ito
E r t L f o ? T e to da ^ « “»eniação. O
o caso da história im ediata, privada do « n h e a m e n t
h s òri» rf» b PT “ “ P° de ‘»'"T »«" os atores da
do futuro e do depois perm ite ao tasto n ad o r de toda
■ta S á ™ M eSC"la Socia1' m as a h ‘s«ó- énocas apreciar m elhor o peso do acaso, a liberdade
fia o film,* maiS 1S qUC existem - A fotogra-
' ° . flJím e' ° cassete, m ultiplicaram as fontes au d io ­ controlada m as real dos hom ens, as escolhas a^divers -
visuais do historiador e, n o entanto, u m acontecim en dade limitada, m as existente, das Posslb^ “ ' ó i
to excepcional que se produziu sob os olhos de m ilha Não ten tarei aqui dizer p o r que prefiro h isto n
s a s s h L t ^ í ™ 6 m ílhÕ eSdeteIesPectadores, o a s -
eni 1 Z / J -R K ennedy (1963), p erm aneceu um
r qUant° qUe ° assassínio da m aior parte dos
grandes h om ens assassinados n o passado nos e n tre ­
gou seu segredo através d e simples fontes escritas. a m te m p o ra n e a " . ^ ^ ^ ^ his, orladores ^

soa! / ' ■ A SegUn? a diferen?a da im plicação pes­ história im ediata são os outros. M as nos ^ te“ °
soal, da inevitável subjetividade que se im põe n a his- ainda assim à m esm a tribo, tem os o m esm o oficio. O
to n a im ediata. O historiador preso entre seu eneaia oue espero dos historiadores da difícil h isto n a im ed ia­
ta inclusive dos jornalistas, que, se fizerem b e m se
«tem
r mmuita
u t o 1dffic' Id í Ver
em pr°" ssionaI da objetividade ofído são verdadeiros historiadores da h isto n a une-
dificuldade conciliá-los honestamente
Mesmo se o passado desencadeia snas p a te fe para
dla*a ' í ; r „ a,Ip ° i S f ò acontecim ento, com u m a
t e m p o ^ á obi‘ t ' ° mar
tempo esta objetivamente
P” S • * * * * %
presente. Esses problemas profundidade histórica suficiente e p ertm en en te
. m anifestar q u an to a suas fontes o esp m to c
?aT sÔ eCUlT em e a« * * £ £ £ tico de todos os historiadores segundo os m étodos
é em " ' o " “ “ 0 reCeMeS ” * m“ MlS
ad ap taí° nSão sT co n ten ta r em descrever e contar, m as
3. A ignorância do futuro.
n3K , Quf r reconheçam ou não, os historiadores do " T i S S - os fatos, distinguir o ^
passado sao m u no ajudados pelo fato de que sabem o d en te do fato significativo e im p o rtan te, fazer do

100
do passado reconhecê hc PCI nilIirä aos historiadores
•esra-to numa C a d Î a ^ T °mm ,amb™ to­ capítulo 7
quai todos os h l s S d ö ^ T ' nUma Probl« > « c a na
trora « * » c ™ ' * "*■ * »«- QUESTÕES PA RA AS
FONTES DO PRESENTE
p o r R obert FRANK

Jacques Le Goff

Falar da especificidade das fontes do presente


n ão é tarefa fácil, pois existe u m a am bigüidade fu n d a­
m ental. Trata-se de refletir sobre as fontes de "nosso
tem po", q u e logo será u m tem po passado, p e rm a n e­
cendo nosso? o u sobre aquelas q ue são específicas do
"presente", en q u a n to tal, tem po renovável à m edida
que o tem po passa? No prim eiro caso, pensam os em
fontes novas - o audiovisual, a im agem , o som - que
ainda são novas n este fim do século XX, m as não o
perm anecerão p o r m u ito tem po, p o r força de b an ali­
zar-se, e n ão o serão m ais para os futuros historiado­
res de "seu" tem po. Decidi n ão falar disso, pensando
que Jean-P ierre Rioux voltaria a esse tem a em sua re ­
flexão sobre os m eios de com unicação. No segundo
caso, trata-se de fontes que estão m arcadas pélõ p ró ­
prio presente, inerentes a ele, qu alq u er que seja a
época: os depoim entos de testem u n h as vivas, as fo n ­
tes orais. Aí h á a contem poraneidade intrínseca en tre
o historiador e a testem u n h a, ou en tre o historiador e
o ator. É desta especificidade que gostaria de falar.
Não é m in h a intenção fazer a história da "his­
tória oral". Digamos sim plesm ente q ue a expressão
vem do inglês "oral history", e q ue os anglo-am erica-
íos tiveram algum avanço sobre a França. Basta re-
>ortar-se ao livro do britânico Thom pson, The voice of

103
the Past1, assim com o à obra do historiador Philippe m uitas instituições q u erem conservar sua m em ória,
Jo utard, Ces voix qui nous viennent du passe' publicado isto é, escrever sua história, recorrendo, com a ajuda
em 1983, onde se trata do "atraso” francês, "atraso" de historiadores, à pesquisa oral ju n to a atores e teste­
que desde esssa época foi recuperado. m u n h as sobreviventes. A Previdência social4, o Seviço
Desde seu nascim ento, e p o r vocação, o Institut histórico do Exército do Ar cum priram u m trabalho
d Histoire d u Temps P résent m ediu a im portância e a pioneiro nesse dom ínio. Pode-se citar igualm ente
urgência de um a reflexão a desenvolver sobre esse o Q uai d'Orsay, que constitui arquivos orais sob a d i­
tem a. Jean-P ierre R ioux organizou em 1980 um a reção de M aurice Vaísse, da m esm a form a q ue o
m esa red ond a sobre os problem as de m etodologia em C om itê para a história econôm ica e financeira da
história oral, cujos debates foram publicados n u m su ­ França sob a direção de Florence Descam ps5.
plem en to do Bulletin de 1'IHTP1. Seis anos m ais tarde, Sobre a questão da história oral, existe u m v er­
u m a o utra m esa red o n d a "Q uestions à l'histoire o ra­ dadeiro debate, em prim eiro lugar sobre os vocábulos
le" foi o rgan izada p o r M ichael Pollak, D anièle em pregados. C onvém conservar essa expressão "his­
Voldman sob a direção de Jean-P ierre R ioux e publi­ tória oral" que nos vem do inglês? Ela apresenta o in ­
cada nos Cahiers de l'IHTP, n. 4, ju n h o de 1987. Além conveniente de sugerir u m a história u n icam en te fu n ­
disso, a sociedade francesa to rnou-se ávida p o r h istó ­ dada n a pesquisa oral, u m a história m ilitante, co n ­
ria oral, e os historiadores estão subm etidos a um a vencida d a superioridade do "oral" sobre os arquivos
forte d em anda sodal. Os m inistérios, as em presas e escritos, n a m edida em que a palavra é assim dada ou
devolvida aos simples e hum ildes. A tendência hoje e
preferir a expressão "fontes orais" , que tem a v a n ta ­
gem de banalizar o procedim ento: todo historiador do
1 Paul Thompson, The Voice of the Past. Oral History, m u ito con tem porâneo tem n atu ralm en te, sem fazer
Oxford University Press, 1978, 257 p. (2. ed 1988 m u ito alarde, o recurso às testem u n h as orais, que ele
314 p.)
registra em fitas m agnéticas. Q uando essas fontes são
2 Philippe Joutard, Ces voix qui nous viennent du passé,
Hachette, 1983, 268 p. Ver também: Chantai de
Tourtier-Bonazzi (dir.), Le Témoignage oral aux
archives. De ta collecte à la communication, prefácio de 4 Dominique Aron-Schnapper, Danielle Hanet,
Jean Favier, Archives Nationales, 1990, 100 p. A bi­ Sophie Deswarte, Dominique Pasquier, Histoire orale
bliografia relativa à questão das fontes orais é muito ou archives orales? Rapport d'activité sur la constitution
abundante para que se possa dar conta dela aqui. Um d'archives orales pour l’histoire de la Securité sociale,
balanço (mais de 300 títulos) será efetuado pelo Association pour l'étude de la Securité sociale, 1980,
Institut d'Histoire du Temps Présent, na ocasião da
publicação próxima de um guia das fontes orais, co­ 114 p.
mandada pelo Ministério de l'Équipement. 5 Ver Etudes et Documents, III, Comité pour 1histoire
économique et financière. Imprimerie Nationale,
3 IHTP, Problèmes de méthode en histoire orale.Table
ronde, 20 juin 1980, Paris, 1981. 1991.

104 105
depositadas ju n to a um organism o, para ser consultá­ Existe, no en tan to , u m a diferença essencial
veis, im ediatam ente ou segundo u m prazo fixado, elas com relação à fonte oral: o Prefeito escreve seu relató ­
se to rn am "arquivos orais". rio p ara o m inistro do Interior e n ão (na m edida em
Para além das palavras, subsiste u m outro d eb a­ que é raro q ue escreva para se inserir nas pregas da
te, do qual se diz que com eça a ficar velho e sem ob­ história) p ara o historiador. Este n ão é nem o destina­
jetivo, e que, n o entanto, ressurge constantem enente: tário direto n e m o au to r da fonte escrita. O m esm o
qual é a confiabilidade da fonte oral? Esta será a p ri­ não acontece com o depoim ento oral, que é - com o
m eira questão que farei, a questão da prova. Dela d e ­ disse Jacques Ozouf - "um a fonte provocada" pelo h is­
correm u m a segunda, a da m em ória, e um a terceira, a toriador. Q uando o historiador, ou o arquivista, in te r­
do estatuto do historiador diante das testem unhas. roga a testem u n h a, ele m esm o constrói a fonte, e seu
u suário é ao m esm o tem po a seu m odo o produtor.
Nesse sentido, h á o im ediatism o en tre a construção da
A QUESTÃO D A PROVA fonte oral e o historiador que a provoca.
Existe u m a o u tra particularidade. A fonte oral é
A história é, entre outras coisas, um inquérito privilégio do historiador do presente, sendo que os
quase n o sentido policial do term o, com indícios, d e ­ historiadores dos períodos m ais antigos n ão têm essa
poim entos e testem unhas. O depoim ento oral n ão chance de ter o que Philippe Jo u tard cham a de "laço
constitui necessariam ente u m a prova, m as pode ser carnal" com a testem u n h a. Poder-se-ia ev id en tem en ­
um a boa contribuição para a busca da prova ou das te so n h ar com u m diálogo en tre Jacques Le Goff e São
provas. A fonte escrita, tam bém , considerada com o Luís, esperando que todas as televisões do m u n d o fos­
m ais nobre. sem convocadas. Seria u m a boa ideia de program a,
j Entretanto, se com param os fonte escrita e fonte m as essa ficção n ão seria história oral.
oral, n ão se deveria acreditar que de um lado a fonte é Se h á contem poraneidade en tre o testem u n h a
pura, natural - a fonte escrita -, e que do outro tratam os e o historiador, existe em com pensação u m a distância
com um a fonte im pura, porque construída. tem poral entre a ação de te stem u n h ar e a ação co n ta­
De fato, n ão é aqui que se encontra a oposição. da pela testem u n h a. É certo que, n a construção da
A fonte escrita é tam bém u m a fonte construída, e fonte oral, h á solicitação da m em ória daquele que d e ­
tam bém tem seu grau de im pureza. O relatório de põe. A m em ória com o fonte para o historiador - v e re ­
Prefeito é escrito pelo Prefeito, que faz a síntese dos m os logo que a m em ória n ão é som ente u m a fonte
relatórios escritos para ele, p o r pessoas das quais se para o historiador - é insubstituível em m uitos casos,
pode im aginar o laço de dependência que com ele m as ela é tam bém geradora de erros, de m itos, de m i­
m antêm ; o Prefeito escreve a u m m inistro com o qual tologia e, evidentem ente, o historiador tem m u ito o
tam bém ele se encontra n u m a relação hierárquica que fazer para corrigir e desmistificar.
particular. A escritura n ão é livre e não h á pureza es­ Gostaria de dar alguns exem plos concretos.
pecífica da fonte escrita. E tienne Failloux e D om inique Veillon, em seu in q u é ­

106 107
rito sobre a Libertação da N orm andia6, tiveram depoi­ de 1943 até hoje, põe o historiador em pistas tão n u ­
m en to s extraordinários, insubstituíveis, d entre os m erosas q u an to falsas. Se ele p en sa poder aproxim ar-
quais o de um a senhora que lhes descreveu com m u i­ se da verdade, é graças a dez ou doze docum entos es­
ta vivacidade coisas que eles n ão poderiam ter de o u ­ critos, e considera que o depoim ento oral n ão só não
tra form a. M as esta m esm a sen h o ra volta u m m o m e n ­ serve para n ad a com o ainda em baralha com pletam en­
to a 1940 e evoca os desfiles alem ães, que descreve te as cartas.
quase em detalhe. M as ela fala a propósito deles em Jean-Jacques Becker, nessa m esm a m esa re ­
"capacetes de ponta" ... Basta dizer q u e essa senhora donda , fez u m a intervenção, cujo títu lo resum e com ­
tem u m a certa idade, que conheceu as duas guerras e p letam en te sua crítica fu n d am en tal da fonte oral: "A
q u e ev id entem ente confundiu as im agens de am bas. desvantagem do a posteriori". Por definição, essa fonte
M as o q u e é im portante- e aí, o trabalho do historia­ provocada é construída depois do acontecido. Jean-
dor n ão deve se lim itar a ap o n tar erro - é que nesse Jacques Becker assinala que se h á u m erro m aterial, o
m esm o depoim ento, ela m esm a explica que o com ­ historiador, com o bo m profissional, pode corrigi-lo.
p o rtam e n to "correto" dos alem ães em 1940 deve, sem Mas o que dizer dos sentim entos, das em oções expres­
dúvida, ser criticado à luz da experiência da guerra de sas a posteriori? Como pode o historiador diferenciar as
1914-1918. Em outros term os, h á o encavalam ento duas coisas? A que tem po elas se conjugam ? P erten ­
das im agens entre os dois conflitos, m as h á ao m esm o cem elas à época do depoim ento o u ao m o m en to con­
tem po consciência da espessura do tem po, da necessi­ tado pela testem u n h a? D iante desse problem a, o h is­
dade de com parar as duas épocas, o que para o histo ­ toriador pode se en co n trar desarm ado. Além do mais,
riador é de u m interesse m u ito grande. a m em ória não é som ente construção m as, reco n stru ­
D aniel Cordier, n a m esa redonda à qual fiz a lu ­ ção, através da duração que separa o m o m en to re m e­
são, in terveio de m odo relativam ente crítico com re la­ m orado do m o m en to do relato.
ção às fontes orais7. Ele observava que elas podiam dar O "atraso francês" teve ao m enos a vantagem
u m a porção de inform ações sobre certos aconteci­ de fazer os historiadores franceses refletirem m ais lo n ­
m entos, m as u m a porção enganosa. Sobre o caso de gam ente, o q u e lhes perm itiu evitar alguns defeitos da
Caluire - a prisão de Jea n M oulin em 1943 em Lyon - história oral m ilitante, isto é, u m a história que só se
ele julga que esse acúm ulo de fontes orais n o tem po, fu n d am en ta sobre as fontes orais, sacralizadas e co n ­
sideradas com o as únicas válidas. É evidente que o
historiador deve, ao contrário, banalizá-las e tom á-las
6 Etienne Fouilloux, Dominique Veillon, "Mémoires com o são, a saber as fontes às quais convém aplicar o
du débarquement en Normandie", in François m étodo histórico clássico: fazer sua crítica in tern a, co­
Bédarida (dir.), Normandie 44, IHTP- Albin Michel,
1987, p. 214 e segs. tejá-las entre si, e com as fontes escritas.
À atitud e hipercrítica, os praticantes da p esq u i­
7 Ver também Daniel Cordier, Jean Moulin. L'inconnu sa oral têm respostas realm en te interessantes. R eto­
du Panthéon. Une ambition pour la République, juin 1899-
juin 1936, Tomo 1, J. C. Lattès, 1989, pp. 294-303. m arei em especial às últim as respostas trazidas nos

108 109
Études et documents em que Patrick Fridenson tom a a dou adotar o decreto. A inda aí, as fontes escritas não
defesa das fontes orais de m odo eloqüente8. Inspiran­ bastam p ara reconstituir a rede de pressões, a m eada
do-se em artigos de N athalie Carré de M alberg e de de influências e a cadeia de decisões.
Florence Descam ps9 publicados n o m esm o núm ero, Insubstituíveis, as fontes orais o são igualm ente
ele m ostra em que as fontes orais são insubstituíveis, quando as fontes escritas são inexistentes. A história
n ão som ente para cobrir lacunas, m as tam bém para oral m ilitante prevaleceu. Os m ilitantes ou "integris-
apreen der todo u m sistem a de inform ações. tas" da história oral o p u n h am a história das elites vis­
Se diante de u m a testem u n h a ou ator, tenta-se ta através das fontes escritas (vimos, aliás, que elas são
com preender suas m otivações (por que u m h om em se insuficientes) à história das m assas e de todos aqueles
to rn a inspetor de finanças? para reto m ar o exem plo
que n ão tin h am tido a palavra e n ão tin h am deixado
dado p or N athalie Carré de M alberg), as fontes escri­ vestígios. E videntem ente, nesse caso, a pesquisa oral é
tas raram en te trazem explicações. O estudo da m obli- prim ordial para ressucitar essas m em órias h á tan to
dade profissional ou geográfica, a análise do percurso tem po ou m uito freq ü en tem en te m udas. Mas, ainda
de u m a carreira, a reconstituição das redes de rela­ u m a vez, ela deve ser cruzada com outras fontes escri­
ções, profissionais e m undanas, dificilm ente se fazem tas. Pois, com o o diz Jean-Jacques Becker, se as fontes
a partir de fontes escritas. Um a longa e freq ü en tem en ­ orais contribuem para cobrir os brancos da história,
te enfad o nha pesquisa oral é necessária para en co n ­ elas n ão devem servir para cobrir esses vazios com fal­
trar todos os fios dessa sociabilidade.
sas inform ações.
Em segundo lugar, vantagem fundam ental e De fato, conviria fazer u m a tipologia dos depoi­
central, as fontes orais revelam m elh o r do que as fo n ­ m en tos e das testem unhas. Não h á som ente a oposi­
tes escritas a com plexidade dos m ecanism os da to m a­ ção en te elites e massas, en tre os tom adores de deci­
da de decisão. Não h á tom ada de decisão única, m as são de u m lado, a q u em se pedem , entre outras coisas,
todo u m feixe de elem entos conduzindo a esta. A pes­ m esm o se eles derem u m "relato de vida", inform a­
soa que m ais im portou n u m a decisão n ão é necessa­ ções precisas através de u m a grade relativam ente fe­
riam ente o m inistro que assinou a sentença ou m a n ­ chada de questões, e do o u tro lado testem u n h as da
base, com as quais a entrevista pode ser m enos "dire­
tiva". De fato, convém tam bém trata r diferentem ente
8 Patrick Fridenson, "Avant-propos", Etudes et as épocas contadas: a Segunda G uerra m u n d ial (com
Documents, III, op. cit., pp. I-VII. Vichy, a colaboração, a Resistência...) e a guerra da
9 Ver na mesma publicação, o artigo de Nathalie Argélia, por exem plo, são de tal form a períodos de re-
Carré de Malberg: "Pourquoi devient-on inspecteur questio nam en to coletivo e individual q ue u m a teste­
des finances, de 1919 à 1946?", Etudes et Documents,111
m u n h a n ão pode falar delas de u m a m aneira com ple­
op. cit., pp. 293-403; e o artigo de Florence Descamps:
"Les archives orales du Comité pour l'histoire tam en te simples. É grande o risco de defender pro
économique et financière ou la fabrication des domo. Em seu m ecanism o de reconstrução, a m em ória
sources", Etudes et Documents, III, op. cit., pp. 511-538. assum e u m a função de desculpabilização e, portanto,

110
^ aDAD\ ? S c a EUEERLl,IW 111
de m itificação, e m esm o de m istificação. O trabalho dever de tirar partido disso, descascando esses defei­
crítico do historiador n ão se faz, pois, da m esm a m a ­ tos, pro cu rand o n o q ue eles são significativos n u m a
n eira segundo as diferentes questões de m em ória. época, ou em duas épocas - o tem po rem em orado e o
tem po do ato de rem em oração - assim com o n a d u ra­
ção que os separa. Os lapsos, esquecim entos, não-di-
Q u e s t õ e s p a r a a m e m ó r ia tos, silêncios, esforços de ocultação são tam bém obje­
tos de história e devem ser analisados. Essas palavras
A m em ória é um a fonte para o historiador, e a pertencem ao m esm o registro, m as são, no entanto,
p rim eira questão que ele deve se fazer, para te n ta r re ­ separadas po r nuances.
constituir os fatos, é a de saber até que p o n to ela é ou O silêncio não é esquecim ento. Um deportado
n ão confiável. M as a m em ória é tam bém p ara o h isto ­ que n ão q u er falar da deportação n em p o r isso a es-
riador, tom ada globalm ente, com suas verdades e \ queceu. Ou o que ele tem a dizer procede do indizí-
m entiras, suas luzes e suas som bras, seus problem as e \ vel,ou seu p u d o r com anda, p or toda espécie de razões.
suas certezas, u m objeto de estudo. O esquecim ento n ão se reduz à ocultação. Na
Sociólogos com o H albw achs10 e mais re cen te­ ocultação, encontram os u m a vontade de esconder, de
m en te G érard N am er se p erg u n taram sobre a noção cobrir a fonte de luz para deixar n a som bra u m obje­
de m em ória coletiva11. É tam bém u m cam po novo e to que n em p o r isso é esquecido. A operação pode ser
im enso para a pesquisa histórica. Depois de te r passa­ efetuada por m em órias individuais, pelas m em órias
do a m em ória n o crivo da crítica e ter assinalado suas de grupo ou, m ais ainda, pela m em ória oficial. O es­
fraquezas, o historiador deve analisar os erros e os m i­ quecim ento é um a noção m ais larga: pode h av er essa
tos que ela veicula, tom á-los tais com o são, colocá-los vontade, m as pode h av er tam bém sim plesm ente re ­
em perspectiva histórica, em poucas palavras, fazer calcam ento n o inconsciente. Cabe ao historiador re ­
sua história. É u m a grande sorte para o historiador do constituir esse trabalho da m em ória da testem u n h a.
presente, graças às testem u n h as que interroga, poder O historiador do presente tem u m a sorte fantás­
fazer a arqueologia da m em ória coletiva. tica qu ando pode ter acesso a depoim entos de um a
Assim, ele pode contribuir para fazer a história m esm a testem u n h a em m om entos diferentes. Tome­
objetiva do subjetivo. Em outros term os, q uando o m os o exem plo dos resistentes que foram interrogados
"sujeito" ou a testem u n h a se engana, desenvolve m i­ u m a prim eira vez en tre 1945 e 1950 n o decorrer do
tos, o historiador tem o direito de ficar satisfeito e o inquérito realizado pelo Com itê de História da S egun­
da G uerra m undial, e que p u d eram ser depois inque-
ridas po r tod a espécie de historiadores, inclusive
10 Maurice Halbwachs, Les cadres sociaux de la aqueles do IHTP, nos anos 1980.
mémoire, PUF, 1975, 298 p. (rééd.); La mémoire As diferenças en tre as duas séries são significa­
collective, PUF, 1968, 205 p. (reed.) tivas. Em 1945-1950, a m aior p arte dos resistentes diz
11 Gérard Namer, Mémoire et société, Librairie des n ão ter ouvido o "apelo" do general De Gaulle. Alguns
Méridiens, 1987, 242 p.

112 113
anos m ais tarde, sob a V República, essas m esm as te s­ ber", p o rq ue n ão com preendia o inim aginável. Os in s­
tem u n h as afirm am , então, ter entrado n a resistência tru m en to s conceptuais que perm itiriam a apreensão
graças ao apelo do 18 de ju n h o . Há, pois, u m deslize, do fen ôm eno do genocídio não existiam . A nnette
u m a reconstrução da m em ória, ao m esm o tem po in ­ W ieviorka apóia-se em fontes escritas para m ostrar
teressante e tributária da época n o curso da qual essas que en tre 1943 e 1948 a representação essencial, in ­
testem u n h as se expressam . clusive en tre os ju d eu s da França, n ão é a de A us­
Mas ao m esm o tem po, encontram os nesses dife­ chwitz, m as a de B uchenw ald. A distinção entre os
rentes depoim entos frases similares, expressões idênti- cam pos de exterm ínio, com o Auschwitz, e os outros
cas.A m em ória congelou. Ela criou para si m ecanism os campos, n ão era ainda feita, e não podia, portanto, ser
de linguagem e autom atism os verbais, e o historiador percebida, m esm o p or u m grande n ú m ero de d ep o r­
deve te n ta r datar o m om ento dessa cristalização. tados. O vocabulário do pós-guerra é significativo a
É apaixonante fazer essa história da m em ória. esse respeito. B uchenw ald parecia ser o símbolo do
Temos o exem plo da m em ória da deportação. M ichael horror. Q uando alguém em agrecia, diziam -lhe: "Pare­
Pollak12 m ostra com o ela ficou p o r m uito tem po silen­ ce que você saiu de B uchenw ald". O sím bolo de A us­
ciosa, p o r que ela n ão se revelou e expressou senão chw itz virá m ais tarde.
m u ito tardiam ente. A partir de depoim entos, ele assi­ F inalm ente, as problem áticas de M ichael Pollak
nala en tre os deportados a parcela do indizível e expli­ e A n nette W ieviorka não são incom patíveis, elas se
ca p o r que esse indizível pode m u d ar de natureza, m as com pletam . As fontes escritas m ostram que o "dito"
só m uito tarde. foi m ais freqü en te desde 1945. M as a em ergência do
Um a tese recente, a de A nnette W ieviorka "dito" n ão prova que ele rep resenta m ais do que a
Déportation et génocide: mémoire et oubli13 parece en trar parte im ersa do indizível. Só o depoim ento oral pode
em contradição com essas conclusões. Ela m ostra que esclarecer essa face oculta, da m esm a form a que pode
esses depoim entos foram m u ito m ais num erosos n o revelar as fraquezas da recepção social e a incom uni-
im ediato pós-guerra do que se acreditava. A opinião é cabilidade entre os deportados e a sociedade do im e­
que n ão estava p ro n ta para receber esse tipo de dis­ diato pós-guerra.
curso. Em outros term os, para A nnette W ieviorka,
não h á indizível do lado da em issão da m ensagem ,
m as antes m á recepção da parte da sociedade do m o ­ A QUESTÃO D O ESTATUTO DO
m en to. Esta n ão estava p ro n ta em 1945 para "rece­ HISTORIADOR DIANTE D A TESTEMUNHA

O diálogo en tre o historiador e a testem u n h a é


12 Michael Pollak, L'expérience concentrationnaire. com plexo. Ele se situa n u m a contradição p erm an en te
Essai sur le maintien de l’identité sociale, A.-M. Métailié, en tre a cum plicidade e a tensão. Há, às vezes, conflito
1990.
silencioso en tre o p o rtad o r do vivido, que pensa ter
13 Annette Wieviorka, Déportation et génocide. Entre la direitos em nom e desse vivido, e o historiador que,
mémoire et l ’oubli. Pion, 1992, 506 p.

114 115
to rn an d o o fato inteligível, vai intelectualizá-lo. A O historiador deve, de u m a m an eira o u de o u ­
testem u n h a ou o ator pode se prevalecer de sua su p e­ tra, levar em conta essa em oção que pode perceber n a
rioridade sobre o historiador que não conheceu o testem u nh a, m esm o co n tin u an d o seu ofício de h isto ­
acontecim ento: "Mas senhor, o sen h o r n ão estava lá, riador que consiste em selecionar, hierarquizar e criti­
o sen h o r é m u ito jovem para te r conhecido aquilo". car. Ele deve estabelecer m enos u m a distância en tre a
Um dos m ais belos exem plos é esse diálogo e n ­ testem u n h a e ele do que u m distanciam ento en tre o
tre u m im p ortante m ilitante da Resistência e u m a h is­ depoim ento e seu trabalho historiográfico.
toriadora. O m ilitante em polga-se n u m m o m en to e Em outros term os, h á im ediatism o en tre o h is­
diz: "Senhora, eu faço a história e a senhora co n ten ­ toriador do presente e a testem u n h a, e é preciso tirar
ta-se em escrevê-la." Essa reação é ainda m ais in te ­ p artido disso. Mas o dever de historiador consiste em
ressante p o rq ue q uando a historiadora subm ete-lhe o criar u m a m ediação en tre o depoim ento e ele. Eis p o r­
texto da gravação, o m ilitante fica espantado, co n v en ­ que a noção de "história im ediata" é sem dúvida criti-
cido de jam ais ter p ronunciado tal frase. cável. A m ediação é necessária. Ela deve ser co nstruí­
O historiador do presente dialoga com sua p ró ­ da, e passa pela reflexão crítica sobre o tem po e pela
pria fonte e trabalha, portanto, "sob vigilância". Desse colocação do depoim ento n a perspectiva da espessura
diálogo, dessa cum plicidade conflitual, pode surgir u m da duração, aquela do passado próxim o, m as tam bém
trabalho ex trem am en te fecundo. De u m lado, a teste­ m enos próxim o e longínquo. É essa consideração do
m u n h a ou ator m ostra sim plesm ente seu po n to de longo term o que faz a diferença fu n d am en tal en tre a
vista, u m po n to de vista parcial n o sentido ótico do "história do presente" e o trabalho sobre a "atualida­
term o, se n ão parcial no sentido ideológico. O h isto ­ de", en tre o historiador e o jornalista.
riador está lá p ara te n ta r com preender o que h á de r e ­
presentativo ou n ão n o depoim ento. O historiador
deve explicar, selecionar para hierarquizar. Há, p o r­
tanto, desde o início, fonte possível de desacordo e n ­
tre os interlocutores. M as de o u tro lado, em seu tra b a ­ R obert F rank
lho de intelectualização, não h á m ais lugar para o vi­ (Institut d'H istoire d u Temps P résent - CNRS)
vido, o historiador tem possibilidades de ter passado
ao largo de num erosas realidades. Se a testem u n h a
n ão se reconhece no trabalho do historiador, este tem
o dever de reconsiderar sua cópia, seja para confirm ar
as conclusões desta, desta vez com todo o conheci­
m ento de causa, seja para com biná-las, m odificá-las
ou corrigi-las.

116
capítulo 8

ENTRE H ISTÓ RIA E


JO R N A LISM O
p o r Jean-P ierre RIOUX

Eu n ão acho que um a "história do presente" te ­


ria podido afirm ar-se nitid am en te n a França h á alguns
anos se antes n ão se tivesse produzido paralelam ente
/ um encontro, provocador m as frutífero, en tre histo-
riadores sedentos de atualidade e jornalistas em busca
de legitim idade histórica. Esta afirm ação, sei p or expe-
I riência, desagradará aos guardiãos - de todas as ida-
í des - dos tem plos da ciência histórica, q ue subordi­
n am toda extensão do território da disciplina à de sua
( própria rede de influência, que m an têm a reflexão
epistem ológica em fogo m uito baixo com parando a
am plitude das honoráveis teses que o rientam ou ela-
i boram , e que atiram sem rem orsos naqueles que per-
l tu rb am a sesta. A seus olhos, o historiador do p re sen ­
te é u m ingênuo, u m m arginal, agitador por defeito e
im po tente por vocação. Esse acúm ulo de erros in te m ­
pestivos bastará para desqualificá-lo se ele n ão to m o u
a precaução de simplificar as regras. Mas, se ainda por
cima ele freq ü en ta as salas de redação ou passa por
m uito "midiático", sua conta será alta. fQ uer dizer que
\ o diálogo en tre Tíistôria n o presen te e jornalism o re ­
troativo faz n ão som ente o historiador universitário
I que o pratica correr alguns riscos, m as que pode tam -
I bém desnu dar cruelm ente algum as fraquezas intelec-
í tuais ou h u m an as da confraria de seus "caros colegas".
Mas n ão se fala m ais nisso. Pois, repito, esse diálogo é

119
| essencial, é preciso encorajá-lo e é sobre ele que é in-j lhe o m om ento, to rn a objetivo seu propósito, p re te n ­
'^disp en sáv el refletir Hyremente.. J ... ...... de dar sentido, en q u a n to que o jornalista é o hom em
Lem brarem os antes de tu d o q u e esse encontro, apressado que relata fatos juntados, que acredita e n ­
essa discussão, podem sem pre passar por p ertu rb ad o ­ tregar a vida em estado bruto, m as que a simplifica e
res ou ilegítimos, pois as profissões do jornalism o e da desfigura m ediatizando-a em jato contínuo, q ue reco­
história cresceram separadam ente, h á u m século e lhe m aterial de qu alq u er jeito e in venta fontes sem
m eio, e, pouco a pouco, delim itaram seus respectivos poder tratá-las.
territórios n u m a indiferença recíproca. O jornalista, Esse d u p lo posicionam ento, q ue se explica
q u er te n h a os papéis de repórter, de redator ou de pela h istó ria das situações incontestáveis, das quais
cronista, é u m Sísifo do efêm ero que “escreve para o m uitos historiadores sen tem saudades e que e u aca­
esquecim ento", dizia ju stam en te H enry B éraud em bo de descrever m al caricaturando, foi m odificada
1927 em Le Flâneur salarié. Sua m issão quotidiana desde os anos 1960. E foram jornalistas que to m a ­
consiste em forçar a atenção do leitor ou do ouvinte ram a iniciativa e atravessaram as fronteiras com o
^ para cada "papel", em m ergulhar sem enfado n a to r­ desbravadores. Tentei fazer em o u tro lu g ar1 u m a h is ­
ren te in in terru p ta de acontecim etnos confusos que tória dessa in terv en ção , q u e a corporação u n iv ersitá­
faz a atualidade, em vencer a angústia da p eq u en a ria, é óbvio, ig n o ro u ou d esd en h o u e, em conse­
m o rte diária - a página de jo rn al é destinada ao lixo, a qüência, estu d o u m u ito pouco. O essencial n ão foi
p alavra e a im agem voam sem deixar traço tangível e qu e o Nizan da Chronique de septembre te n h a ousado
são pouco arquivadas - redobrando de profissionalis- dizer, em 1939, que o re d ato r diplom ático era u m
\ m o, só com o risco de acreditar que ele trabalha para "historiador do im ediato" ou que o C am us de Cotnbat
I o fu tu ro ou de so n h ar em editar u m dia em volum e e de Actuelles te n h a ido longe dem ais depois da Liber­
seus trechos escolhidos. tação em sua célebre fórm ula, "O jo rn alista é o h is­
/ O historiador, este se m ove com odam ente des­
de o fim do século XIX em seu triplo papel de sábio
m o d ern o exercido n a crítica das fontes, de grão-sacer- 1 Ver Jean-Pierre Rioux, "Histoire et journalisme.
Remarques sur une rencontre'em Marc Martin, dir.
dote da m em ória nacional e de intelectual em pleno
Histoire et médias. Journalisme et journalistes français
exercício. Ele m an tém u m a discussão p erm an en te (1950-1990), Paris, Albin Michel, 1991, pp. 192-205.
com seus confrades em ciências sociais, constrói e eri­ Ver igualmente dois de meus artigos bem anteriores.
ge a distância seu objeto de estudo e lhe dá assim um "Les métamorphoses d'Ernest Lavisse", Politique
estatuto científico, procura sem pre inserir o aconteci­ aujourd'hui, novembro-dezembro de 1975, pp. 3-12
m en to singular n a cadeia de u m tem po significativo, e "L'histoire saisie par les médias". Esprit, setembro
te n ta distinguir o perdurável do efêm ero,relata os fa­ outubro de 1979, pp. 20-24. Ver, por fim, do lado da
imprensa, Yves Lavoinne, "Le journaliste, l'histoire
tos sem ser perseguido pela h o ra do "fecham ento",
et l'historien (1935-1991)", Réseaux. Communication,
lem bra , q u an d o se oferece a ocasião, sua fidelidade technologie, société, n. 51, janeiro-fevereiro de 1992,
aos grandes princípios de gestão da Cidade. Ele esco- pp. 41-53.

121
120
to riad o r do instante": foi em 1962, q u an d o Je a n La- resse histórico do estudo da im prensa. O observador e
co u tu re lan ço u nas E ditions du Seuil sua coleção "A o observado, concluiu-se, agiam d o ravante u m sobre
História im ediata" q u e o passo foi dado, m u ito a le ­ o outro, e o próprio acontecim ento tin h a se to rnado
g rem en te e sob o aplauso dos leitores. D esde então, polissêmico: u m n ú m ero célebre de Communications
duas gerações de h o m en s de im p ren sa q u e tinham em 1972, em boa parte devido a Edgar M orin e Pierre
crescido nos anos 1930 e participado das provas dos Nora, acabou de convencer alguns raros pesquisado­
"anos negros" e da descolonização, a de B rom berger res de que a história "im ediata" podia ter introduzida
e de T ournoux, depois a de A m ouroux, R ouanet, sub-repticiam ente um a tensão dolorosa e prom issora
V iansson-P onté, F o n ta in e, N obécourt, P lanchais, n o trabalho do historiador, despojado de u m lado de
Paillat ou o p ró p rio L acouture, com eçaram a dizer boa p arte de sua acuidade visual sobre o presente e de
bem alto em seus livros e artigos q u e o jo rn alista não outro lado solicitado, ao m esm o tem po, pela a n tro p o ­
se co n ten ta ria m ais em registrar o eco da atualidade, logia e pelo estruturalism o que iam m ais longe do que
que ele saberia pro d u zir m aterial elaborado e exercer as virtudes de u m a longa duração bastante im óvel em
seu o lhar crítico, que ele se daria o direito de fu n d a r toda análise do passado2.
u m a h istó ria "im ediata" que in seriria "o aco n teci­ Desde então, os jornalistas retom aram a luta,
m en to m al esquadreado" cuspido pelos telex - a e x ­ fortalecidos com as novidades de seu ofício. Um a das
pressão é de L acouture - n u m p ercurso retrospectivo m ais im portantes para nosso propósito foi, sem dúvi­
e n u m a p roblem ática de interações e n tre o passado e da, o dom ínio da abundância docum ental no trabalho
o p resen te. O real vivido e m idiatizado seria passado das redações: através da inform ação das bases, dos
n o crivo do m éto d o e da duração. bancos de dados e da própria fabricação do "papel" que
Essa am bição jornalística vin h a n a h o ra certa e se pode alim entar quase à vontade no "doc", n a pes­
florescerá n o curso dos "sixties". Foi, então, que se quisa m ais avançada e m ultiplicada ju n to aos corres­
percebeu m ais claram ente - e que foi vigorosam ente pondentes locais, da fabricação do dossiê em estilo
criticado n a ocasião, sobretudo, em m aio de 68 - o p a ­ news, da exibição da m em ória arquivada do jornal que
pel decisivo dos m eios de com unicação n a transcrição, dá consistência a seu propósito, pela fam a tam bém dos
n a representação e até n a produção do acontecim en­ suplem entos que ajudam a relativizar a atualidade e a
to e, portanto, n a respiração da História, depois n a im ­ refletir sobre ela, o exam e da atualidade tornou-se
plantação tão rápida de u m a "cultura de m assa" da u m a crônica durável, to m o u u m a tex tu ra e u m a espes­
qual Edgar M orin d eu a prim eira descrição p ara uso sura que o aproxim am mais de u m produto histórico.
francês em 1962 em UEsprit du temps. Desde 1958, a Aliás, a im portância logística, depois o triunfo
coleção "Ce jour-Ià" publicada por Robert Lafont tinha em audiência das form as radiofônicas e televisivas da
vendido m u ito bem docum ento oscilando en tre h istó ­ profissão, a preocupação tam bém em garantir a q u al­
ria e jornalism o, inspirado n o m odelo am ericano. Des­ q u er preço a fidelidade de u m público, levaram fre­
de 1959, os prim eiros volum es da coleção "Kiosque",
publicada p o r A rm and Colin m ostravam todo o in te ­
2 "L'Evènement", Communications n. 18, 1972.

122
q ü en tem en te a considerar q u alq u er scoop* com o "his­ de im prensa e intelectuais. Mas, sobretudo, p o rque
tórico", qualquer intervenção excepcional sobre um um a história lançou-se , com suas m agras forças, no
lugar privilegiado - com os benefícios e riscos desse com eço dos anos 1980, à exploração do "presente".
tipo de operação, dos quais Berlim e Timisoara deram C ertam ente essa história n ão cultivou en co n ­
exem plos opostos em novem bro-dezem bro de 1989 - tros m u ito freqüentes com a história "im ediata" e, por
com o u m a contribuição à m archa da História, com o isso, ap ren d eu m u ito pouco com ela, en q u an to privi­
um a autenticação do acontecim ento projetado n a in ­ legia o diálogo com o sociólogo ou o politólogo, o eco­
tim idade dos lares. De adm inistrador do efêm ero, o nom ista ou o etnólogo, o expert prestigioso ou o h u ­
jornalista pôde tornar-se, às vezes, u m m ediador que m ilde narrador. Ela preferiu se ater à observação ati­
se interessa bem m ais pelo vivo do que pelo inteligível va das questões de m em ória ou à participação em co­
e não está longe de p reten d er instalar-se n u m papel m em orações ao invés de en carar a crueza ostensiva e
de m estre de cerim ônias, senão de dem iurgo. Sua h is­ as dim ensões novas do acontecim ento. Ela deixou a
tória “im ediata” encheu-se da vibração de u m "vívi­ análise histórica sem a m ediação, seja a da ascensão
do" produzido, relatado e consum ido sem ter que sair do individualism o ou a do re to rn o do nacional. Ela su-
do dispositivo circular do m eio term o. perinvestiu n a exploração dos escom bros de 39-45 ou
Tantas iniciativas jornalísticas acabaram por da colonização, lam en to u pela im possibilidade de
abalar alguns poucos historiadores. Prim eiro porque a acesso a algum as fontes, apressou-se, aceitou ser
penetração de alguns deles nos m eios de com unicação ap o n tad a pelos trocistas. Mas, de u m jeito ou de o u ­
n a década de 1970, com best-sellers e passagens em tro, essa história to m o u em prestado e interiorizou,
Apostrophes com o prova, tin h a favorecido o diálogo, e m ais do que se diz, algum as boas receitas da im p ren ­
depois porque, ao m esm o tem po, duas gerações u n i­ sa. Na escolha de seus tem as, im pelida pela atualidade
versitárias, a que tin h a vinte anos n a época da Liber­ e subm etida à pressão das testem u n h as e dos atores
tação e aquela da guerra da Argélia, tin h am delegado que desejam q ue sua experiência seja rem em orada
e depois instalado solidam ente algum as de suas crias, n u m a produção ou n u m a co-produção históricas. Em
jo gando "nos dois cam pos"3, n a crônica da im prensa, suas práticas de pesquisa de cam po e n o uso do grava­
n a em issão de rádio, n a produção de séries para a te ­ dor. No estilo m ais conciso de sua escrita e n a cor, p o r
levisão, a em presa editorial m isturando profissionais vezes, m ais cam biante de seu relato. Em sum a, em seu
contacto p erm an en te com a exigência dos vivos e a
im petuosidade do atual.
A inda u m a palavra. Nesse encontro, m al p o ­
* furo de reportagem. Em inglês no original. [N. do T.] voado e pouco afirm ado do lado da história, h á pouca
3 Ver por exemplo Annie Kriegel, "Professeur et édi­ confusão de gêneros e essa retidão se deve à h o n ra da
torialiste au Figaro: les conditions de légitimité d'un corporação de historiadores. C ertam ente h o u v e dife­
statut en partie double" em Marc Martin, dir.,op, cit., rença ou igualdade neste ou naq u ele aspecto, en tre
pp. 174-191, e o prefácio de Jacques Juliard, "história im ediata" e "história do presente" (sobre a
Chroniques du septième jour, Paris, Le Seuil, 1991.

124 125
guerra da Argélia, por exem plo). As escorregadas, no
en tan to , n ão foram freqüentes. E ntre o jornalista to r­
C on clu sã o
nado n a ocasião, p ara retom ar a palavra de Pierre
R ouanet, u m "m em orialista da vida" e o historiador
p o r Serge BERNSTEIN e Pierre MILZA
ao qual a prática do ofício, retruca R ené R ém ond, e n ­
sinou "a dar ao fato todo seu lugar e n ad a m ais que
isso", o confronto foi pequeno, m as se desenrolou n a
clareza dos papéis e, n o final das contas, parece ter
sido estim ulante para todos. M esm o se a história, que
seja "do presente", perm anece u m a disciplina do re la­ No final desse questio n am en to sobre a história
tivo que te n ta colocar racionalm ente em m úsica a do presente, afirm em os prim eiro m u ito claram ente
m arch a do tem po, en q u a n to que a história "im ediata" nossa convicção: a história do presente é p rim eira­
se contenta em ressuscitar, incansavelm ente e com m en te e antes de tu d o história. Sem negar as especifi-
altivez, a vida que vai e vem . cidades q ue a m arcam e sobre as quais retornarem os,
im porta considerar q ue p o r seus objetivos, seus m éto ­
dos, suas fontes, a história do presente n ão difere em
nad a da história do século XIX. Em outros term os, a
J e a n -Pierre Rioux identidade do objeto en tre o jornalista e o historiador
do presente não deve ser ilusão. O jornalista (o bom
jornalista) esforça-se para reconstituir e explicar a seu
leitor a tram a dos eventos quotidianos que o assaltam
e faz trabalho ú til de inform ação. O historiador ten ta
restituir a evolução n a duração q ue perm ite com ­
p reen d er p o r q ue processo chegou-se à situação p re ­
sente: ele se dedica a descrever as estru tu ras cujas
transform ações dão conta da em ergência factual de fe­
nôm enos cuja gênese se situa sem pre a m édio ou lo n ­
go prazo.
Assim fazendo, o historiador do p resente está
m ais próxim o p or suas preocupações de seu confrade
do século XIX, da Revolução ou dos tem pos m odernos
do que daqueles que perseguem com talen to os fatos
do dia ou da véspera e que restituem a crônica in teli­
gível e seletiva dos fatos q ue constituem a tram a de
um a inform ação m o derna. Como os outros historia-

126 127
dores, o historiador do presente está preocupado com O que n ão significa de m odo algum que a his­
o peso esm agador do passado, às vezes rem oto, no tória do presente n ão te n h a especificidade. A nosso
qual se situa o princípio de toda explicação histórica. ver, a prim eira e mais im p o rtan te é que , situando-se
Como eles, ele é obrigado a cercar u m a m ultiplicidade n a em ergência de fenôm enos de longa duração no
de fontes para aí en contrar o necessário confronto e n ­ seio do presente , ela tem por função principal m odi­
tre m últiplas abordagens que, sozinhas, legitim am a ficar p erm a n en tem en te o significado destes, m u d an d o
veracidade do fato, tecido inexcedível de toda reflexão as perspectivas segundo as quais os consideram os,
histórica. A inda com o eles, ele é obrigado ao rigor n a procurando no passado novos objetos de estudo em
análise, ao conhecim ento do contexto indispensável função das preocupações do presente, ab an donando
para esclarecer e relativizar as inform ações dos d o cu ­ objetos julgados obsoletos. Direm os que o longo ab an ­
m entos, à p rudência da síntese que n ão pode ser esta- dono que conheceu a história política n ão tin h a re la­
blecida senão ao final de u m a sólida dem onstração. ção com a influência m ais ou m enos direta do m arxis­
De resto, com o distinguir a fronteira cronológica que m o n o plano intelectual, que considerava negligenciá­
separa um a história (do passado) de um a história do veis as superestruturas, para abandonar-se à fascina­
p resente? Digamos claram ente q ue essa fronteira é ção das in fra-estru tu ras consideradas capazes de cons­
m utável, variável, e q u e n e n h u m a definição parece titu ir a chave universal das explicações das socieda­
capaz de convencer: a data de 1939 é, sem dúvida, im ­ des? E a m oda atu al da história cultural, não ensina
portante, m as tem os certeza de que a Segunda G uer­ sobre nossa sociedade contem porânea, ávida p o r p e r­
ra m un d ial representaria m elhor a ru p tu ra en tre o ceber os sinais m ais sofisticados de representação das
passado e o presente do que o crescim ento econôm i­ norm as sociais dando conta dos valores com o m o tiv a­
co, p o r exem plo? A existência de testem u n h as ainda ções da ação?
vivas é, sem dúvida, u m fator determ in ante, m as que Segunda especificidade da história do presente,
n ão garante de m o do algum o caráter presente dos a abundância de in stru m en to s docum entais capazes
acontecim entos que eles viveram ; qu an to à afirm ação de fornecer fontes ao trabalho do historiador e que
segundo a qual seria definido com o presente o p erío­ contribui para m odificar a própria n atu reza da noção
do vivido pelo próprio historiador, ela parece tão arbi­ de arquivos. Da abundância das publicações de toda
trária qu an to tributária da visão felizm ente u ltrapas­ ordem à profusão das fontes audiovisuais, passando
sada de u m a história positivista cuja objetividade seria pelo depoim ento oral, o historiador do presente é u m
garantida pela ausência de im plicação pessoal do h is­ privilegiado com relação a seus confrades, pois ele
toriador n o objeto que ele estuda. A nosso ver, e o fato p raticam ente jam ais corre o riso de se en co n trar p ri­
reforça nossa afirm ação inicial, n ão existem clivagens vado dos docum entos necessários para seu trabalho.
perm itindo separar u m a história do passado de u m a Mas a m oeda tem seu reverso. A profusão exige esco­
hsitória do presente p orque não h á en tre elas n e n h u ­ lha e classificação e o rigor do ofício histórico é aqui
m a solução de continuidade. ainda m ais indispensável que alhures. Como n ão se
afogar sob u m a m o n ta n h a de palavras ou im agens,

129
sem conhecim ento aprofundado do contexto, sem u m
m étodo seguro de abordagem dos docum entos, sem o
sentido do essencial? Para fontes novas, novos m é to ­
dos: a análise das im agens, fixas ou m utáveis, decorre
de m étodos próprios. O depoim ento oral não poderia
se restringir à p u ra e simples transcrição das declara­
ções de testem unhas. A im prensa tam bém não é u m
p u ro e simples reflexo da opinião, m as o resultado de
u m a m ediação em que o conhecim ento do m eio de
com unicação é essencial. Isto significa que se a h istó ­
ria do presen te é m esm o história, é u m a história p a r­
tic u la rm e n te delicada para se construir e analisar.
/ Do m esm o m odo, e com o dem onstrou a jorna-
/ da de estudos do presente, a m etodologia específica
desse período da história está ainda em construção.
Sem dúvida, e h á m uito tem po, foi andando que os
historiadores do presente fizeram o cam inho e realiza-
j ram trabalhos que servem de alicerce para a reflexão
j que hoje se esboça. M as o tem po dos senhores Jour-
\ dain da história do presente está talvez term inado; eis
\q u e vem o da análise epistem ológica e m etodológica.

Serge B ernstein
Pierre Milza
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