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FR1EDRICH D. F.

SCHLE1ERMACHER

t—/

Movo Século
© Copyright by Antônio
A lves Guerra © Convrieht

Supervisão editorial:
Eduardo de Proença
Produção editorial:
Paulo L ísias Salom ão
Revisão:
C ely R odrigues
Composição e arte final:
Comp System - Tel.: 7849-3866
Diagramação:
Pr. R egino da Silva N ogueira
Capa:
Eduardo de Proença

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ÍNDICE

Pág.
Primeiro discurso: Apologia...................................................................... 7
Segundo discurso: Sobre a essência da religião................................27
Terceiro discurso: Sobre a formação com vistas à religião.............79
Quarto discurso: Sobre a sociabilidade na religião ou sobre
a igreja e o sacerdócio......................................................................... 101
Quinto discurso: Sobre as religiões................................................. 135
P r im eir o D iscurso
APOLOGIA
Pode constituir uma tentativa inesperada, e vós podeis vos
admirar disto com razão, que alguém pertencente precisamente
àqueles que se têm elevado acima do comum e que se encontram
transidos pela sabedoria do século, possa solicitar que se preste
atenção a um objeto que é tão completamente descuidado por estes.
Confesso que não sei indicar nada que me pressagie um resultado
feliz, nem sequer o de lograr vosso aplauso para meus esforços, muito
menos o de comunicar-lhes minha forma de sentir e meu entusiasmo.
Desde a antigüidade, a fé não tem sido assunto de todo o mundo; da
religião sempre poucos têm entendido algo, enquanto que milhões
se têm deixado seduzir, de múltiplas maneiras, com os invólucros
que ela, por condescendência, se deixava recobrir de bom grado.
Especialmente em nosso tempo, a vida dos homens cultos se encontra
distante de tudo que representa qualquer semelhança com ela por
insignificante que seja. Sei que vós venerais tão pouco a Divindade
no sagrado recolhimento como quando visitais os templos aban­
donados; sei que em vossas refinadas moradas não há outros deuses
domésticos que as sentenças dos sábios e os cânticos dos poetas, e
que a humanidade e a pátria, a arte e a ciência - pois vós credes
poder abarcar plenamente tudo isto - se tem apoderado por completo
de vosso âmago que, para o Ser eterno e sagrado que reside segundo
vós para além do mundo, não se deixa margem alguma e que não
sentis nada a respeito dele nem com ele. Haveis conseguido fazer
tão rica e polifacetada a vida terrena que já não necessitais da
eternidade, e depois de vós haverdes criado um universo, vos sentis
dispensados de pensar nele como vosso criador. Vós haveis de convir,
sei-o, em que não se pode dizer nada de novo nem pertinente sobre
8 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

este assunto que não tenha sido tratado de maneira exaustiva em


todos os pontos de vistas por filósofos e profetas e não desejaria ter
que ampliar o número destes, por zombadores e sacerdotes. Menos
que de nenhum outro - ninguém se lhe pode escapar - vos sentis
inclinados a escutar algo acerca deste tema da parte dos mencionados
em último lugar, os quais, já faz tempo, se têm tornado indignos de
vossa confiança, enquanto testamento que só prefere habitar nas
ruínas devastadas do santuário, e ainda, não podendo viver ali sem
deteriorá-lo e degradá-lo ainda mais. Sei tudo isto, todavia, me vejo
impulsionado por uma necessidade interna e irresistível, que exerce
sobre mim um domínio divino, de falar, e não posso retirar meu
convite a que precisamente vós prestai-me atenção.
Pelo que se refere a este último, eu poderia fazer-lhes a
pergunta de como é que ocorre que vós, a respeito de qualquer tema,
seja importante ou não, quereis serdes informados de preferência
por aqueles que lhe têm dedicado suas vidas e as forças de seus
espíritos, e vossa ânsia de saber não reciisa as cabanas dos cam­
poneses nem as oficinas dos mais modestos artesãos, e só nos assuntos
religiosos considerais tudo muito mais suspeito quando provém
daqueles que afirmam serem os virtuosos dos mesmos e são con­
siderados como tais pelo Estado e pelo povo! Vós não podeis
demonstrar certamente que estes não o são e que aquilo que postulam
e pregam é qualquer coisa menos religião. Portanto, desprezando
um tal juízo injustificado, confesso ante vós que eu também sou um
membro desta ordem, e o faço expondo-me ao perigo, se não me
escutais atentamente, de ser audacioso, sob a mesma denominação,
dada ao grande montão dos mesmos. Se trata ao menos de uma
confissão voluntária, pois minha linguagem não havia me denunciado
e os elogios de meus colegas tão pouco; o que eu desejo se encontra
completamente fora de seu horizonte e se assemelha pouco ao que
eles desejam prazerosamente ver e ouvir. Não estou de acordo com
as chamadas de socorro da maioria, relativas à decadência da religião,
pois não sei de nenhuma outra época que a tenha acolhido melhor do
que a atual, e não tenho nada a ver com as lamentações passadas e
bárbaras, mediante as que desejariam levantar de novo os muros
derrubados de sua Sião judia e seus pilares góticos. Sou consciente
de que em tudo que tenho de dizer-vos, não denuncio absolutamente
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 9

meu estado; por que pois não haveria de confessá-lo como qualquer
outra contingência? Os prejuízos que estes compartilham, não hão
de constituir um obstáculo para nós, e suas delimitações, tidas como
sagradas, no que se refere a tudo o que cabe perguntar e comunicar,
não devem possuir nenhum valor entre nós. Como homem, vos falo
dos sagrados mistérios da humanidade, tal como eu os concebo; do
que ocorria em mim quando na exaltação juvenil buscava o
desconhecido; do que, desde que penso e vivo, constitui o mais íntimo
fio condutor de minha existência e que permanecerá para mim
eternamente como o supremo, seja qual for a forma em que possam
me afetar, todavia, os vai-e-vens do tempo e da humanidade. O fato
de que eu fale não se deve a uma decisão racional, nem a esperança
ou ao temor, tão pouco, obedece a um fim último ou a algum motivo
arbitrário ou contingente: se trata da necessidade interna, irresistível
de minha natureza, se trata de uma vocação divina, se trata do que
determina minha posição no universo e me constitui no ser que sou.
Portanto, até quando não seja nem pertinente nem aconselhável falar
de religião, o que me impulsiona, inibe com seu poder divino estas
considerações de vistas curtas. Vós sabeis que a divindade tem
imposto à si mesma, mediante uma lei imutável, separar até o infinito
sua grande obra, conjugar cada existência determinada tão só a partir
das forças opostas, realizar cada um de seus pensamentos eternos
através das configurações gêmeas, inimigas entre si e, todavia,
inseparáveis e consistentes entre si. Todo este mundo material,
respectivamente ao que a suprema meta de vossa investigação
consiste penetrar, em seu interior, se lhes apresenta, aos mais
instruídos e reflexivos de vós, só como um jogo de forças opostas
que prossegue eternamente.1Toda forma de vida não é mais do que
uma apropriação e recusa constantes; toda coisa só possui sua
existência determinada mediante o fato de unir e manter de um mo­
do peculiar, as duas forças primárias da natureza, a ávida atração
sobre si e a ativa e viva auto-expansão. Tenho a impressão de que
acaso também os espíritos, tão logo tenham sido transplantados a

Scheleiermacher recorre aqui aos rudimentos de uma filosofia da polaridade, compartilhada


assim mesmo por vários de seu contemporâneos. Junto com estes, Scheleiermacher defendê
uma concepção dinâmica da realidade, na qual subjaz o jogo de forças opostas.
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este mundo, hão de seguir uma lei semelhante. Toda alma humana -
tanto suas ações passageiras como as peculiaridades internas de sua
existência nos conduzem a esta constatação - não é mais do que um
produto de impulsos opostos. Um destes impulsos, consiste na
tendência de atrair sobre si tudo o que o rodeia, a implicá-lo em sua
própria vida e onde isto seja possível, a absorvê-lo completamente
em seu ser mais íntimo. O outro consiste no desejo de dilatar cada
vez mais, de dentro para fora, seu próprio si mesmo interno, de
penetrá-lo completamente com isto, de comunicar a todos, sem nunca
esgotar-se a si mesmo. Aquele primeiro impulso vai em direção ao
prazer, tendo as coisas particulares, que se lhe submetem, se mostra
satisfeito tão logo tenha se apoderado de uma delas e não atua nunca
senão mecanicamente sobre a próxima. O segundo, deprecia o prazer
e aspira só a uma atividade sempre crescente e mais elevada; faz
caso omisso das coisas e dos fenômenos particulares, precisamente
porque ele os penetra e só encontra por onde for as forças e
essencialidades ante as que se quebranta sua força; ele quer penetrá-
lo totalmente, plenificá-lo todo mediante a razão e a liberdade, e
assim procede precisamente até o infinito e busca e engendra por
onde for liberdade e coesão, poder e lei, direito e conveniência.
Porém, assim como no caso das coisas corporais não há nenhuma
que esteja constituída unicamente por uma das forças da natureza
material, assim também cada alma participa nas duas funções
originárias da natureza espiritual, e a perfeição do mundo intelectual
consiste em que todas as possíveis conexões destas duas forças entre
os dois extremos opostos, dado que aqui uma delas, além da outra,
são quase exclusivamente tudo e à antagonista só lhe deixa uma parte
infinitamente pequena, não só estão realmente presentes na
humanidade, mas que também um vínculo geral da consciência
abarque a todas, de forma que cada irdivíduo, até quando não possa
ser outra coisa que o que ele deve ser, conheça todavia, a cada um
dos outros tão claramente com o a si mesmo, e compreenda
perfeitamente todas as manifestações particulares da humanidade.
Aqueles que se encontram nos limites extremos desta grande série,
são naturezas violentas, totalmente fechadas em si mesmas e isoladas.
Alguns estão dominados pela sensualidade insaciável, que lhes incita
a congregar em torno de si uma massa, cada vez maior, de coisas
Io b k i- A R r l i g i ã o - F. D. E. Schleiermacher

terrenas, que ela desvincula prazerosamente da conexão do todo,


para apropriar-se de uma forma plena e exclusiva; na eterna
alternância entre o desejo e o gozo, estes não avançam para além das
percepções do particular e ocupados sempre com relações egoístas,
lhes permanece desconhecida a essência do resto da humanidade.
Os outros são impulsionados sem descanso daqui para lá no centro
do universo por um entusiasmo inculto, que sobrevoa sua meta; sem
chegar a configurar e a formar melhor algum âmbito do real, divagam
em torno de ideais vazios e, debilitando e consumindo sua força
inutilmente, retomam de novo, inativos e esgotados a seu primeiro
ponto de partida. Como hão de ser aproximadas estas distâncias
extremas para converter a larga série naquele círculo fechado, que é
o símbolo da eternidade e da perfeição? Existe, desde logo um certo
ponto nele que um equilíbrio quase perfeito une a ambas, e a este
equilíbrio acostumais muito mais, amiúde, a supervalorizá-lo do que
a subvalorizá-lo, dado que comumente se trata tão só de um produto
fantástico da natureza que joga com os ideais do homem, e só raras
vezes constitui o resultado de uma autoformação que tenha sido
prosseguida e levada a bom termo. Porém, se todos os que já não
habitam nos limites extremos, se encontram neste ponto, não seria
possível nenhuma conexão daqueles limites com este meio, e o fim
último da natureza se malograria por completo. Só o expertreflexivo
está em condições de penetrar nos mistérios de uma tal mescla em
repouso; para toda observação trivial os elementos particulares se
encontram aí totalmente ocultos, sem reconhecer o que lhes é próprio
nem o que se lhe opõem. Por isto, a Divindade envia, em todas as
épocas, aqui e ali, a alguns os que em ambos aspectos estão unidos
de um modo fecundo, os prove com dons admiráveis, aplaina seu
caminho mediante uma palavra onipotente e os constitui em
intérpretes de sua vontade e de suas obras, e em mediadores daquilo
que, do contrário, haveria permanecido eternamente separado. Dirigi
vossa atenção em direção àqueles que expressam em seu ser um alto
grau daquela força e atração, que se apodera ativamente das coisas
circundantes, porém que as vezes possuem em tão ampla medida o
impulso espiritual de penetração, que tende ao infinito e projeta em
todo espírito e vida, que o exteriorizam nas ações em direção as que
lhes incita aquele impulso; a estes não lhes basta ingerir, como se se
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tratasse de destruí-la, uma massa bruta de coisas terrenas, mas que


devem colocar algo ante si, ordenado e configurado como pequeno
mundo que leve o relevo de seu espírito, e assim estes exercem seu
domínio de uma forma mais racional, seu prazer é mais duradouro e
humano, e deste modo se convertem em heróis, legisladores,
inventores, dominadores da natureza, demônios benévolos, que criam
e difundem discretamente uma felicidade mais nobre. Tais indivíduos
se têm, mediante sua mera existência, como enviados de Deus e como
mediadores entre o homem limitado e a humanidade infinita. Ao
idealista inativo, meramente especulativo, que desagrega seu ser em
uma série de pensamentos isolados e vazios, lhe mostram de uma
forma ativa o que nele era mero sonho, e no que até agora depreciava,
lhe apresentam a matéria que ele propriamente deve elaborar; estes
lhe interpretam a voz desconhecida de Deus, reconciliam-no com a
terra e com seu posto na mesma. Porém os indivíduos de disposição
puramente terrena e sensual necessitam, todavia em maior medida,
de tais mediadores, que lhes ensinem a compreender aquela força
fundamental, superior, da humanidade, na medida em que esses
mediadores, sem recorrer a um impulso e a um fazer como o seu,
abarcam de uma forma contemplativa e iluminadora e não querem
reconhecer nenhum outro limite que o Universo, que estes têm
descoberto. Se alguém que se mova nesta senda Deus lhe concede
também, junto com seu impulso de expansão e de compenetração,
aquela sensibilidade mística e criadora, que aspira a dar a todo o
interior também uma existência externa, então esse tal, depois de
cada incursão de seu espírito no infinito, deve exteriorizar a impressão
que este haja produzido nele, como um objeto comunicável mediante
imagens ou palavras, para usufruir dele novamente transformado em
outra figura e em uma magnitude finita, e ele deve, portanto, e
involuntariamente e por assim dizer, cheio de entusiasmo - pois faria
isso até quando ninguém se encontrasse presente - , expor aos demais
o que lhe tem acontecido, como poeta ou vidente como orador ou
artista. Um tal indivíduo é um verdadeiro sacerdote do Altíssimo,
em quanto se volta mais proximamente àqueles que só estão acostu­
mados a perceber o finito e o irrelevante; e lhes apresenta o Celestial
e o Eterno como um objeto de prazer e de união, como a única fonte
inesgotável daquilo para o qual se dirigem todos os anseios. Deste
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 13

modo, ele se esforça por despertar o núcleo adormecido do melhor


da humanidade, por infundir o amor em direção ao Altíssimo, por
transformar a vida ordinária em outra superior, por reconciliar os
filhos da terra com os filhos do céu, que lhes pertence, e por rebater
o pertinaz apego da época à realidade material mais grosseira. Este é
o sacerdócio superior, que anuncia a vida íntima de todos os mistérios
espirituais e cuja a voz descende desde o reino de Deus; esta é a
fonte de todas visões e profecias, de todas as obras de artes sagradas
e dos discursos inspirados, que serão difundidos ao acaso, contanto
que um ânimo receptivo os acolha e lhes permita frutificar nele.
Não obstante, oxalá ocorresse que esta função mediadora
cessasse e que ao sacerdócio da humanidade se lhe encomendasse
um destino mais belo!; oxalá chegasse o tempo que uma antiga
profecia descreve como aquele em que não seria preciso que ninguém
fosse instruído, porque todos são ensinados por Deus!2 Se o fogo
sagrado ardesse por onde for, não seriam necessárias as fervorosas
orações para implorá-lo do céu, mas que a aprazível quietude das
virgens sagradas seria suficiente para mantê-lo vivo, de sorte que
não fosse preciso que se irrompesse em chamas temíveis, mas que
seu único encargo consistiria em manter equilibrado, em todos, o
receio interior e oculto.
Cada um se iluminaria então, discretamente, a si mesmo e aos
outros, e a comunicação de pensamentos e sentimentos sagrados
consistiria tão só no fácil jogo, de conjugar os distintos raios desta
luz, de refratá-la depois novamente, ou de dispersá-la e depois, aqui
e ali, concentrá-la de novo sobre objetos particulares. A palavra mais
suave seria compreendida, enquanto que agora as expressões mais
nítidas não estão livres de mal-entendidos. Se poderia penetrar
comunitariamente no interior do santuário, enquanto que agora só
cabe ocupar-se, nos vestíbulos, das noções elementares. O quanto é
mais gratificante trocar idéias cheias de conteúdo com amigos e ini­
ciados, que ter que irromper no vazio com esboços apenas delinea­
dos! Porém quão distanciados se encontram entre si atualmente
aqueles entre os que poderiam ter lugar uma tal comunicação, com
que sábia economia estão repartidos na humanidade, de uma forma
2 Cf. Hebreus 8.11; João 6.45; Jeremias 31.34.
14 E d ito ra N o v o S é c u l o L td a

análoga como no espaço cósmico o estão os pontos ocultos a partir


dos quais a matéria elástica originária se expande em todas as dire­
ções, a saber, de forma que precisamente, só se aproximam os limi­
tes extremos de sua esfera de atividade - para que nada se encontre
totalmente vazio -, porém, por certo sem que um encontre nunca ao
outro. Sábia economia sem dúvida: pois, quanto mais todo o desejo
de comunicação e sociabilidade se dirige unicamente àqueles que
mais a necessitam, tanto mais inconcebível procura furtar-se aos
correligionários mesmos que lhe faltam. Me encontro submetido a
este poder, precisamente esta natureza constitui também minha
vocação. Permitam-me falar de mim mesmo: vós sabeis que falar de
religião não pode ser expressão de orgulho, pois ela se encontra sem­
pre cheia de humildade. A religião foi o corpo maternal, em cuja
sagrada obscuridade se alimentou minha vida juvenil e se preparou
para o mundo, que todavia constituía para ela uma realidade não
decifrada; na religião tem respirado meu espírito, antes mesmo que
ele houvesse encontrado seus objetos externos, a experiência e a
ciência; ela me ajudou quando comecei a examinar a fé paterna e a
purificar o coração dos desejos do passado; ela permaneceu em pé
para mim quando Deus e a imortalidade se enfumaçaram ante os
olhos vacilantes; ela me conduziu à vida ativa; ela me tem ensinado
a manter-me a mim mesmo como algo sagrado, com minhas virtudes
e meus defeitos, em minha existência indivisa, e só mediante ela
tenho realizado a aprendizagem da amizade e do amor. Quando se
fala de outras qualidades e propriedades humanas, se bem que ante
vosso tribunal, vós, os sábios e entendidos do povo, têm escasso
valor comprovatório que alguém possa dizer como ele as possui;
pois pode conhecê-la pelas descrições, pelas observações de outros,
ou antes como são conhecidas todas as virtudes, a partir da antiga
lenda comum acerca de sua existência; porém no que se refere à
religião é de tal índole e é tão raro que quem manifesta algo acerca
dela deve necessariamente havê-la possuído, pois não tem ouvido
em nenhuma parte. De tudo que celebro e sinto como sua obra, pou­
co certamente se encontra nos livros sagrados, e a quem que não o
tenha experimentado não seria um escândalo ou uma necedade?
Se eu, transido assim por ela, devo finalmente falar e oferecer
um testemunho acerca dela mesma, a quem devo me dirigir para isto
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 15

senão a vós? Em que outra parte haveria ouvintes para meu discurso?
Não é a cega predileção pelo solo pátrio, ou pelos co-participantes
da mesma constituição e do mesmo idioma, o que me faz falar assim,
se não a convicção íntima de que vós sois os únicos que são capazes,
e de que, portanto, também sois dignos de que se vos estimule o
sentido para as coisas divinas e sagradas. Aqueles orgulhosos
insulares3, a quem muitos de vós venerais de uma forma tão abusiva,
não conhecem nenhuma outra divisa que a de ganhar e desfrutar,
seu zelo pelas ciências, pela sabedoria da vida, pela sagrada liberdade,
não é mais que um combate aparente, vazio. Assim como os
defensores mais entusiastas destas últimas realidades, entre estes,
não fazem outra coisa que defender apaixonadamente a ortodoxia
nacional e simular milagres aos olhos do povo para que não se chegue
a perder a vinculação supersticiosa com antigos costumes, assim tão
pouco fazem pompa de maior seriedade em todas as realidades
restantes que vão mais além do sensível e da utilidade mais imediata.
Deste modo enfocam o problema dos conhecimentos, deste modo
sua sabedoria só tem como meta um empirismo miserável, e desta
forma a religião não pode ser para estes mais que letra morta, um
artigo sagrado na constituição, na qual, não há nada de real. Por
outros motivos me distancio dos franceses, cuja a visão apenas suporta
quem venera a religião, dado que estes pisoteiam em quase todas as
suas ações, em quase todas as suas palavras, suas leis mais sagradas.
A frívola indiferença com a que milhões de homens do povo, a
ligeireza ingeniosa a que certos espíritos brilhantes contemplam o
fato mais sublime do Universo4 que não só acontece sob seus olhos,
mas que os afeta a todos e determina cada movimento de sua vida,
demonstra suficientemente que pouco capazes são de um respeito
sagrado e de uma verdadeira adoração. E o que detesta mais à religião
que a arrogância desenfreada e a resistência que os mandatários dos
povos oferecem às leis eternas do mundo? O que ela inculca com
maior afinco, que uma moderação circunspecta e humilde, acerca da

3 Referência aos ingleses.


4 Alusão à revolução francesa. Dentro das peculiaridades de seu pensamento, também
Schleiermacher, o mesmo que tantos contemporâneos seus, sentiu-se fascinado pela
magnitude deste acontecimento histórico.
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qual parecem estar ausentes destes o mais débil dos sentimentos?


O que há de mais sagrado para ela do que a excelsa Némesis, cujas
as ações mais temíveis no torvelinho da obcecação não chegam a
compreender? Ali onde os instáveis tribunais criminais, que num
outro tempo só deveriam impressionar a famílias particulares, para
encher a povos inteiros de veneração ante o ser celestial e para dedicar
durante séculos as obras dos poetas ao destino eterno, ali onde estes
se renovam inutilmente de mil maneiras distintas, como se extinguiria
até um nível irrisório uma voz solitária sem chegar a ser olvida e
observada! Aqui no solo pátrio se dá o clima idôneo, no qual nenhum
fruto falha por completo; aqui encontrais difundido tudo o que
constitui o ornamento da humanidade e tudo o que é suscetível de
desenvolvimento se reveste em alguma parte, no particular ao menos,
de sua figura mais bela; aqui não se tem em falta nem sábia moderação
nem contemplação sossegada. Aqui, portanto, deve achar a religião
uma espécie de refúgio ante a grosseira barbárie e o frio sentido
terrenal da época.
Só vos peço que não me relegueis, sem escutar-me, entre os
que considerais respectivamente como rudes e incultos, como se o
sentido do sagrado se houvesse desprezado, como ornamento passa­
do, ao estrato inferior do povo, ao que só conviria, todavia ser como­
vido, em uma atitude de respeito e fé, pelo invisível. Vós adotais
uma atitude muito benevolente com estes nossos irmãos, e vos agra­
daria se lhes falasse também de outros objetos mais elevados, da
moralidade e o direito à liberdade, e que assim, em alguns momen­
tos determinados ao menos, sua tendência interna fosse orientada
em direção ao melhor, e que suscitasse nestes uma impressão da
dignidade da humanidade. E que deste modo também se falasse com
estes de religião e se removesse às vezes todo seu ser até encontrar o
ponto em que jaz oculto este instinto sagrado; que se lhes fascina
mediante laivos particulares que se produzem a partir de dito instin­
to; que se lhes abriria, a partir dos pontos centrais mais íntimos de
sua estreita limitação, uma perspectiva em direção ao infinito, e que
se elevasse, por um momento, sua sensibilidade animal em direção à
consciência superior de uma vontade e uma existência humanas;
sempre se ganharia muito com isto. Porém vos pergunto: Vos dirigis
a estes quando quereis descobrir a conexão mais íntima e o funda­
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 1?

mento supremo daqueles santuários da humanidade? Quando o con­


ceito e o sentimento, a lei e a ação têm de ser perseguidas até sua
fonte comum, e se têm de apresentar o real como eterno e como
fundado necessariamente na essência da humanidade?
Não seria suficiente com que vossos sábios fossem então com­
preendidos tão só pelos melhores de vós? Porém precisamente este é
o meu fim último com respeito à religião. Não quero suscitar sensa­
ções particulares, que quiçá pertencem ao seu âmbito, não quero
justificar ou questionar representações particulares; eu desejaria
conduzir-vos às profundidades mais íntimas, desde as que ela inter­
pela primeiramente ao âmago; desejaria mostrar-vos de que disposi­
ções da humanidade brota, e como ela pertence ao que considerais
como mais elevado e precioso; queria conduzir-vos ao pináculo do
templo5, de forma que pudésseis obter uma visão de conjunto do
santuário e descobrir seus mistérios mais íntimos. Podeis assegurar-
me seriamente que aqueles que se atormentam quotidianamente da
forma mais penosa com o terreno, sejam os mais idôneos para fami­
liarizarem-se com o celestial? Que aqueles que se obcecam pelo ins­
tante mais imediato e que estão presos aos objetos mais próximos se
possam elevar à visão mais ampla do universo? E quem na
monocórdica alternância de uma atividade morta, e que todavia não
se tem encontrado a si mesmo, descobrirá a Divindade vivente da
forma mais nítida? Portanto, só posso convocar ante mim a vós, a
vós que sois capazes de vos elevardes acima do ponto de vista
comum dos homens, a vós que não recusais o dificultoso caminho
em direção ao interior do ser humano, para encontrar o fundamento
de sua atividade e de seu pensamento.
Desde que me fiz estes delineamentos, me tenho encontrado a
muito tempo em estado de ânimo vacilante próprio daquele que, ten­
do em pouco valor uma jóia estimada, não quisera decidir-se a
escrutinar o último reduto no qual poderia estar oculta. Houve tem­
pos nos quais, todavia, considerastes como uma prova de coragem
especial desvincular-nos parcialmente da religião e ler e escutar
prazerosamente sobre diferentes temas contanto que se tratasse de
eliminar um conceito tradicional; no qual vos agradava ver uma

5 Cf. Mateus 4.5.


18 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

religião esbelta sob o adorno da eloqüência, posto que vós queríeis,


de bom grado, que o sexo amável conservasse um certo sentido do
sagrado. Tudo está mudado, não se deve falar mais dela, e se preten­
de que também as graças mesmas devam, com dureza não feminina,
destroçar a flor mais tema da fantasia humana. Com nenhuma outra
coisa posso vincular, portanto, o interesse que solicito de vós, senão
com vosso desprezo mesmo; só desejo pedir-lhes que neste despre­
zo, sejais devidamente cultos e requintados. Não obstante, investi­
guemos, eu vos rogo, qual tem sido propriamente, seu ponto de
partida: o particular ou o todo, as diferentes espécies de seitas da
religião, tal como têm existido no mundo, ou o conceito mesmo?
Sem dúvida, alguns se declararam partidários deste último ponto de
vista e isto sói sê-lo sempre, sem razão, os menosprezadores apaixo­
nados que realizam seu dever a partir de si mesmos e sem ter tomado
o incômodo de adquirir um conhecimento exato da coisa, tal como
ela é. O temor de um Ser etemo e a referência a um outro mundo
constituem, opinais, os pivôs de toda a religião, e isto em geral vos é
odioso. Resolvam-me portanto, interlocutores mui queridos, de onde
haveis tirado estes conceitos da religião, que constituem o objeto de
vosso desprezo? Toda expressão, toda obra do espírito humano pode
ser considerada e conhecida desde um duplo ponto de vista. Se a
considerarmos a partir de seu ponto central, segundo sua essência
íntima, então, aparece como um produto da natureza humana, fun­
dado em uma de suas formas necessárias de ação ou em um de seus
impulsos, ou como quereis denominá-los, pois eu não quero emitir
agora um juízo sobre os tecnicismos de vossa linguagem; se se con­
sidera desde o ponto de vista de seus limites, de acordo com a atitu­
de e a configuração determinadas que têm adotado aqui e ali, então
se apresenta como um produto do tempo e da história. Desde qual
perspectiva haveis pois, considerado este grande fenômeno espi­
ritual para que tenhais desembocado naqueles conceitos que vós
considerais como o conteúdo comum de tudo o que desde sempre se
tem denominado com o nome de religião? Dificilmente podereis
dizer que isto constitui uma consideração do primeiro tipo; pois, oh
amados, então deveríeis conceder que algo referente a estas idéias
pertence à natureza humana e, até quando quiserdes afirmar que elas
tal como se encontram atualmente só tem surgido de falsas interpre­
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 19

tações ou falsas conformações de uma aspiração necessária da


humanidade, vos convencereis, não obstante, unir-vos a nós para
por em relevo o que há de verdadeiro e etemo neste assunto e para
libertar a natureza humana da injustiça, que sempre sofre quando
algo nela é mal interpretado ou mal enfocado. Em nome de tudo o
que é mais sagrado - e, de acordo com esta constatação, deve haver
algo sagrado para vós - vos exorto a que não descuideis deste dever,
para que a humanidade, que venerais juntamente conosco, não se
enoje, com toda a razão do mundo, contra vós, como quem a têm
deixado abandonada num assunto importante. E mesmo quando
constatardes que este dever já tenha sido realizado, posso, não
obstante, contar com vosso agradecimento e vossa aprovação.
Porém, provavelmente direis que vossos conceitos acerca do con­
teúdo da religião não constituem senão o segundo ponto de vista
sobre este fenômeno espiritual e que precisamente a religião é algo
vazio e depreciada por vós, porque o que constitui seu centro lhes é
totalmente heterogêneo, de modo que não pode ser chamada de reli­
gião e que esta não provêm dali e não pode ser por onde for senão
uma aparência vazia e falsa que, como uma atmosfera turbulenta e
agonizante, se tem concentrado em torno de uma parte da verdade.
Porém se vós considerais aqueles dois pontos como o conteúdo da
religião, em todas as formas sob as quais ela tem aparecido na histó­
ria, então me é permitido perguntar se vós haveis também observado
de uma forma precisa todas as suas manifestações e haveis apreen­
dido corretamente seu conteúdo comum, vossa concepção, se tem
surgido assim, a deveis justificar desde o particular, e se alguém vos
disse que é incorreta e equivocada, e vos remete a algo distinto na
religião, que não é algo vazio, antes, que possui um centro, o mesmo
que qualquer outra realidade, então deveis, apesar de tudo, primeiro
escutar e julgar, antes de seguir ulteriormente depreciando.
Não vos mostreis, portanto, contrariados ao escutar o que quero
falar agora com aqueles que já desde o começo, de uma forma mais
correta porém, também mais dificultosa, têm partido do particular.
Vós estais familiarizados, sem dúvida, com a história das necessida­
des humanas, e haveis recorrido às diferentes construções religio­
sas, desde as fabulas absurdas das nações selvagens até o deísmo
mais refinado, desde a grosseira superstição do nosso povo até os
20 E d it o r a N o v o S é c u l o L t d a

fragmentos mal encaixados de metafísica e da moral, aos que se


denomina cristianismo racional, e as haveis encontrado, a todas,
incoerentes e contrárias a razão. Eu estou longe de querer contradi­
zer-vos nisto; porém, se com isto opinais sinceramente que os siste­
mas religiosos mais elaborados não possuem estas propriedades em
menor medida que os mais grosseiros, se vedes ao menos que o divi­
no não pode encontrar-se em uma série que aproxima, em ambos
encadeamentos extremos, em algo ordinário e depreciável, vos dis­
penso com prazer do esforço de valorar de uma maneira mais preci­
sa todos os encadeamentos intermediários. Todos estes aparecem
como transições e aproximações aos últimos; cada um surge como
algo mais polido das mãos de sua época até que finalmente a arte se
tenha elevado até aquele artifício consumado com o qual nosso
século tem se entretido tão amplamente. Porém este aperfeiçoamen­
to é qualquer coisa menos uma aproximação à religião. Não posso
falar disto sem aborrecimento; pois deve ser penoso para quem é
sensível a tudo que brota do interior do âmago, e para quem leva a
sério que cada aspecto do homem seja formado e desenvolvido, ver
como o Superior e Excelente se tem desviado de seu destino e tem
perdido sua liberdade, mantendo-se em uma escravidão desprezível
pelo espírito escolástico e metafísico de tempos bárbaros e frios. Ali
onde existe e atua a religião, ela deve revelar-se de maneira que
comova a alma de um modo peculiar, que mescle todas as atividades
da alma humana ou antes as distancie, e dissolva toda a atividade em
uma intuição espantada do Infinito. É isto o que encontrareis nestes
sistemas teológicos, nestas teorias acerca da origem e do fim do
mundo, nestas análises acerca da natureza de um Ser incompreensí­
vel? Em um marco onde tudo desemboca em uma argumentação fria
e que só pode ser abordado no tom de uma vulgar disputa acadêmi­
ca? Em todos estes sistemas, que desprezais, não haveis encontrado
nem podido encontrar, portanto, a religião, porque ela não se encon­
tra aí e se vos mostrasse que ela se encontra em outra parte, então
sempre serieis capazes ainda de encontrá-la e venerá-la. Porém, por
que não haveis descido mais em direção ao particular? Admiro vos­
sa ignorância voluntária, oh investigadores amados, e vossa persis­
tência demasiadamente condescendente no que precisamente esta aí
e vos é imputada como elogio! O que não haveis encontrado nestes
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 21

sistemas, deveríeis havê-lo visto precisamente nos elementos destes


sistemas e, desde logo, não de um ou de outro, mas certamente de
todos. Todos contêm algo desta matéria espiritual, pois sem ela não
teriam podido surgir; porém quem não consegue libertá-la se limita
sempre a manter em suas mãos uma mera massa morta e fria, por
muito finamente que a esmiuce e por muito que escrutine tudo de
maneira exata. A indicação de ter que buscar o verdadeiro, o reto,
que não haveis encontrado na grande massa, nos primeiros elemen­
tos, aparentemente toscos, não pode se tomar estranha a nenhum de
vós que preocupais mais ou menos com a filosofia e que estais fami­
liarizados com seus avatares. Recordai-vos, pois, quão poucos dos
que seguindo um caminho próprio tenham descido ao interior da
natureza humana e do mundo e tenham contemplado e exposto
sua relação recíproca, sua harmonia interna sob uma luz própria;
elaboraram um sistema próprio de filosofia, e como todos, têm
comunicado suas descobertas de uma maneira delicada - até quando
exteriormente mais frágil. Porém, não há sistemas no centro de
todas as escolas? Se, no centro precisamente de escolas, que não são
outra coisa que a sede e o sementeiro da letra morta6, pois o espírito
não se deixa fixar em academias nem infundir ordenadamente em
mentes receptivas: se volatiliza comumente no caminho desde a pri­
meira boca até o primeiro ouvido. Não interpelarias, tratando de
esclarecer, a quem considerará aos confeccionadores deste grande
corpo de filosofia como aos filósofos mesmos e quisera encontrar
nestes o espírito da ciência, dizendo: isto não é assim, bom amigo!
Aqueles que se limitam a seguir os passos de outros e a recopiar e
permanecer estancados no que outro tem transmitido, não possuem
em âmbito algum o espírito da coisa; este só se encontra nos inven­
tores, e a estes, tu deves recorrer. Porém vós haveis de conceder que
no caso da religião isto ocorre, todavia, em maior medida, posto que
ela, segundo toda sua essência, se encontra precisamente tão distan­
ciada de todo o sistemático como a filosofia se sente inclinada a isto
por natureza. Considerai pois de quem procedem estas construções
artificiais, de cuja mutabilidade zombais, cuja falta de simetria vos

6 Cf. 2 Coríntios 3.6.


22 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

ofende, e cuja desproporção com respeito a sua tendência de estrei­


tas vistas vos é tão irrisória.
Por acaso dos heróis da religião? Nomeiem-me então, entre
todos aqueles que nos têm proporcionado uma nova revelação, um
só, desde o que concebeu pela primeira vez à Divindade única e
universal - certamente o pensamento mais sistemático em todo o
âmbito da religião - até o místico mais recente, no qual, quiçá, brilhe
todavia um raio originário de luz interna (pois não me censurareis
por não mencionar os teólogos que rendem culto à letra, que crêem
encontrar a salvação do mundo e a luz da sabedoria em uma nova
roupagem com que revestem suas fórmulas ou nos novos delinea-
mentos de suas supostas demonstrações); nomeiem-me entre todos
estes, um só que houvesse considerado que valeria a pena ocupar-se
deste trabalho próprio de Sísifo. Tão só alguns pensamentos elevados
sacodem sua alma abrasada por um fogo etéreo, e o trovão mágico
de um discurso fascinante acompanhou à sublime aparição e anunciou
ao mortal em atitude de adoração que a Divindade havia falado. Um
átomo fecundado por uma força supra-terrena caiu sobre sua alma, e
o tornou ali todo semelhante a si, o dilatou paulatinamente e então
explorou como que impulsionado por um destino divino em um
mundo cuja atmosfera lhe oferecia demasiado pouca resistência, e
todavia em seus últimos momentos produziu um daqueles meteoros
celestes, daqueles signos tão expressivos da época, cuja origem
ninguém desconhece e que é cheia de profundo respeito a todos os
terrestres. Deveis buscar estes brilhos celestes, que se produzem
quando uma alma santa é impressionada pelo Universo; deveis acercá-
los no instante incompreensível no qual se hajam produzidos; do
contrário ocorre o mesmo quando se aproxima demasiado tarde a
matéria combustível ao fogo, que a pedra tem arrancado a ferro, e
tão só encontra um corpúsculo frio, insignificante, de metal grosseiro,
nele que já não pode acender nada.
Eu vos peço portanto, que deixando de um lado o que sói
chamar de religião, dirijais vossa atenção tão só a estas insinuações
e estados de ânimo particulares que encontrareis em todas as
manifestações nobres dos homens inspirados por Deus. Porém se
tão pouco, neste âmbito particular, descobris nada novo e apropriado
- e eu confio, não obstante, na boa causa, apesar de vossa erudição e
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher n

de vossos conhecimentos se então não se expande nem 16


transforma vossa concepção estreita, que só é o produto de uma
observação sumária, se podeis então depreciar todavia esta tendência
da alma em direção ao Eterno, se vos pode parecer todavia ridículo
parecer considerar, também desde este ponto de vista, tudo o que é
importante para o homem, nesse caso quero crer que vosso desprezo
da religião é algo de acordo com vossa natureza, e não tenho nada a
vos dizer. Tão só não temais que eu, finalmente queira refugiar-me,
todavia, naqueles subterfúgios comuns que se consistem em mostrar-
lhes como ela é necessária para a manutenção do direito e da ordem
no mundo, e para vir em ajuda da miopia das concepções humanas e
dos estreitos limites do poder humano, providos com o recurso de
uma visão que tudo vê e de um poder infinito; ou antes que vos
exponha como a religião é uma amiga fiel e um apoio saudável à
moralidade, na medida em que ela, com seus sagrados sentimentos e
suas brilhantes perspectivas, certamente facilitará de uma maneira
poderosa à debilidade humana, a luta consigo mesma e a realização
do bem. Assim falam por certo, aqueles que pretendem ser os
melhores amigos e os defensores mais zelosos da religião; porém eu
quero deixar, sem decidir, a questão relativa a quem é objeto de um
maior desprezo nesta associação de idéias, se o direito e a moralidade,
aos que se concebe como necessitados de um apoio, ou a religião
que deve apoiá-los, ou antes a vós a quem se esta falando. Como
poderia eu, pretender de vós, no caso de que caiba dar-vos este sábio
conselho, que realizeis com vós mesmos, em vosso interior, um livre
jogo e que vos deixeis conduzir por algo, que por demais não tivéreis
nenhum motivo para estimar e para amar, em direção àlguma outra
coisa, que vós de todos os modos já venerais e à qual já prestais
vossa atenção? Ou se acaso mediante estes discursos só se deveria
dizê-los ao ouvido o que tenhais que fazer por amor ao povo, como
vós deveríeis então, que sois chamados a formar os demais e a fazê-
los semelhantes a vós, como poderíeis começar lhes enganando e
lhes oferecendo como sagrado e efetivo algo que a vós mesmos é
sumamente indiferente, e que estes hão de recusar tão rapidamente
como se já tivessem se elevado ao mesmo nível que vós? Não posso
aconselhar tal maneira de proceder, pois supõem a hipocrisia mais
perniciosa para com o mundo e para com vós mesmos, e quem der
24 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

aval a esta maneira de proceder em relação à religião, não poderá


senão aumentar o desprezo do qual ela já é objeto. Admitindo que as
nossas instituições civis padecem, todavia, de um alto grau de
imperfeição e que têm mostrado pouco vigor para prevenir a injustiça
ou para eliminá-la, que abandono culpável de um assunto importante,
que vacilante incredulidade concernente à aproximação ao melhor
se daria se por causa disto fosse o ter que apelar à religião!
Encontraríeis em um estado acorde com o direito pelo fato de que
sua existência repousará sobre a piedade? Todo o conceito que vós
considerais, não obstante, tão sagrado, não vos desaparece dentre as
mãos tão logo partíeis deste ponto de vista? Abordai o assunto de
uma maneira imediata, se vos parece que se encontra em uma situação
tão lamentável; melhorai as leis, entremesclai as Constituições,
concedei ao Estado um braço de ferro, dai-lhe cem olhos, se todavia
não os tem, só não adormeçais os que tendes com uma lira enganosa.
Não intercaleis um assunto como este em outro; do contrário não o
podereis controlar e não considereis, para vergonha da humanidade,
sua mais sublime obra de arte como uma planta parasitária, que só
pode se alimentar de seiva estranha.
O direito não necessita se quer da moralidade, a qual, todavia,
se encontra muito mais próxima dele, para assegurar-se de um
domínio mais ilimitado em seu campo; ele deve repousar totalmente
sobre si. Quem seja seu administrador, deve poder fazê-lo imperar
por onde for, e quem quer que afirme que isto só pode ocorrer
infundindo a religião - se é que se pode infundir arbitrariamente
aquilo que só existe na medida em que brota da alma - afirma em
vez disso que só devem ser administradores do direito aqueles que
têm a habilidade de insuflar na alma humana o espírito da religião, e
a que sombria barbárie de épocas ímpias nos retroagiria tudo isto!
Porém a moralidade tão pouco tem de possuir mais aspectos comuns
com a religião; quem estabelece uma diferença entre este e aquele
mundo se engana a si mesmo; pelo menos todos os que têm religião
crêem em um só mundoi,7 Se, portanto, a aspiração ao bem-estar é
algo estranho à moralidade, o posterior não deve possuir maior valor
que o anterior, e o temor reverenciai ante o Eterno não deve ser tido

7 Uma das afirmações mais categóricas do universo ideológico do jovem Scheiermacher.


S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher

em maior estima que o experimentado ante o homem sábio. Se,


mediante cada acréscimo que se lhe faça, a moralidade perde seu
brilho e a sua consistência, quanto mais mediante um acrescento
que não pode negar nunca sua tonalidade superior e estranha. Não
obstante, esta concepção a haveis escutado suficientemente da parte
daqueles que defendem a independência e onipotência das leis morais;
porém eu acrescento que também constitui o maior desprezo para
com a religião querer transplantá-la a outro âmbito para que ela preste
aí seus serviços e mostre sua eficácia. Tampouco quer ela dominar
em um reino estranho; pois não está tão ávida de conquistas para
ampliar o seu. O poder que lhe compete e do qual ela se faz
merecedora de novo, em cada instante, lhe é suficiente, e para ela,
que considera tudo como sagrado, reveste, todavia, de um caráter
sagrado especial o que ocupa junto com ela a mesma categoria na
natureza humana.
Porém, tal como pretendem aqueles, a religião deve servir no
sentido rigoroso da palavra, deve possuir um fim e mostrar-se útil.
Que degradação! E seus defensores deveriam mostrar empenho em
procurar estas peculiaridades? Oxalá que aqueles que perseguem de
tal maneira o útil e para os que, em última instância, também o direito
e a moral estão aí por causa de alguma outra vantagem que se derive
destes, oxalá que estes mesmos se submirjam neste círculo etemo de
uma utilidade geral, no qual deixam mergulhar todo o bom, e acerca
do que nenhum homem, que deseje ser algo para si mesmo, entende
uma palavra saudável, antes de que se erijam em defensores da
religião, para a gestão de cujos assuntos são precisamente os mais
inaptos. Uma bela glória para o Celeste se ele pudesse administrar
assim de um modo aceitável os assuntos terrenos do homem! Muita
honra para a Liberdade e a Despreocupação se ele fosse certamente
um tanto mais vigilante e impulsivo que a consciência moral! Por
algo assim, ele não descerá do céu até vós. O que só é amado e
valorizado por causa de uma utilidade que se encontra fora dele,
pode ser bem necessário, porém, não é necessário em si, pode
permanecer sempre como um desejo piedoso, sem passar à existência,
e um homem razoável não concede a isto nenhum valor extraor­
dinário, senão tão só o preço apropriado àquela coisa. E este preço
seria bem baixo para a religião, eu pelo menos faria uma ofertk
26 E d it o r a N o v o S é c u l o L t d a

modesta, pois, tenho de confessá-lo, não creio que tenha que dar
tanto relevo às ações reprováveis que ela tenha impedido nem às de
índole moral que ela possa haver produzido. Portanto, se isto fosse a
única coisa que se lhe pudesse procurar a respeito, eu não quereria
ter nada haver com sua temática. Inclusive para recomendá-la só
como algo a ser tomado de passagem é demasiado insignificante.
Uma glória imaginária, que desvanece quando se a considera mais
de perto, não pode servir de ajuda àquela que abriga pretensões mais
elevadas. Que a religião surja por si mesma do interior de cada melhor
alma, que a ela pertence uma província própria na alma, na que impera
de um modo ilimitado; que ela seja digna de mover, mediante sua
força interna, os espíritos mais nobres e mais excelentes e de ser
conhecida por estes segundo sua essência mais íntima: tal é o que eu
afirmo e o que prazerosamente quero assegurar, e a vós compete
agora decidir se valerá a pena escutar-me, antes de que vos confirmeis,
todavia mais, em vosso desprezo.
S egundo D iscurso
SOBRE A ESSÊNCIA
DA RELIGIÃO
Vós sabeis como o velho Simônides, mediante uma dilação
sempre reiterada e prolongada, sossegou o ânimo daquele que lhe
havia importunado com a pergunta: O que são, definitivamente, os
deuses?1Agradaria-me começar com uma dilação semelhante ante a
pergunta bem mais ampla e abrangente: O que é a religião?
Naturalmente não com o propósito de calar, e deixá-los como
aquele na perplexidade, antes, para que vós, mantidos em suspense
por uma espera impaciente, possais dirigir fixamente vossos olhares
em direção ao ponto que buscamos, apartando-vos, portanto, de qual­
quer outro pensamento. Pois a primeira exigência daqueles que só
interpelam a espíritos comuns consiste em que o espectador que queira
ver suas manifestações e iniciar-se em seus segredos se prepare para
isto mediante a continência de coisas terrenas e mediante um sagra­
do sossego, e depois, sem distrair-se pela visão de objetos estranhos,
concentre plenamente seu olhar no lugar em que o fenômeno deve
se mostrar. Com quanta maior razão devo exigir uma obediência
semelhante, eu que tenho de suscitar um espírito no comum, que não
se digna em aparecer sob qualquer máscara vulgar, muito vista, e ao
qual devereis por muito tempo observar com muita atenção para
reconhecê-lo e compreender suas características significativas. Só
se enfrentardes as esferas do sagrado, com a sobriedade mais impar­
cial de vosso sentido, que percebe clara e corretamente todos os con­
tornos e ávido de compreender, desde si mesmo, o que lhe é exposto,

1 Referência a Hieron, tirano de Siracusa (478-466). Cf. Cícero, De natura deorum, 1, 60.
28 E d ito ra N o v o S é c u l o L td a

não se deixa seduzir nem por antigas lembranças nem corromper-se


por preconceitos, posso esperar que, se não vos simpatizardes com o
objeto de minha exposição, ao menos estareis de acordo comigo acer­
ca de sua figura e o conhecereis como um ser celestial. Quisera apre­
sentar-vos sob qualquer configuração bem conhecida, para que
apreendêsseis imediatamente suas características, seu desenvolvi­
mento, suas maneiras, possais exclamar que aqui e ali, se encontram
em acordo com o que já presenciais na vida. Porém eu vos induziria
ao erro; pois tão claro como se manifesta a quem o evoca, não se
encontra entre os homens e, por certo, já faz muito tempo que não
se tem deixado contemplar sob sua conformação peculiar. Assim
como a mentalidade dos distintos povos civilizados, desde que
devido a conexões de toda índole têm multiplicado suas relações e
têm aumentado os aspectos comuns entre estes, já não se reflete de
uma forma tão pura e determinada nas ações particulares, senão
que só a imaginação é capaz de conceber a idéia total deste
caracteres, que tomados individualmente só se apresentam sob uma
maneira dispersa e mesclados com muitos elementos estranhos,
assim ocorre também com as coisas espirituais, entre elas, com a
religião. Vós conheceis certamente como no momento atual tudo
está penetrado por um desenvolvimento harmônico; este precisa­
mente tem gerado uma sociabilidade e amizade tão consumadas e
difundidas no centro da alma humana que agora, de fato, nenhuma
de suas forças atua entre nós separadamente, por mais que nos
comprazamos em concebê-la como algo isolado, senão que em cada
atuação é transbordada imediatamente pelo amor solícito e o apoio
benfeitor das outras, e se algo a desvia de sua trajetória, de modo
que neste mundo culto se busca inutilmente uma ação que possa
oferecer uma expressão fiel de qualquer capacidade espiritual, tra­
ta-se da sensibilidade ou do entendimento, da moralidade ou da
religião.
Não vos incomodeis por isso, e não tomeis como uma subva-
lorização da época presente se vos retroajo com freqüência, por
motivos de clareza, àqueles tempos mais infantis nos que em um
estado imperfeito tudo se encontrava, todavia, mais separado e par-
ticularizado; e se retomo, de novo, desde o começo sempre cuidado­
samente através de outras vias, a chamar-vos a atenção expressamente
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 29

contra qualquer confusão da religião com o que aqui ou ali se asse­


melha, e com o que a encontrareis sempre mesclada.
Situai-vos no ponto de vista mais elevado da metafísica e da
moral; constatareis que ambas possuem o mesmo objeto que a reli­
gião, a saber, o Universo e a relação do homem com ele. Esta igual­
dade tem sido desde há muito tempo a causa de múltiplas confusões;
daí que a metafísica e a moral tenham penetrado maciçamente na
religião e que muito do que pertence à religião se tenha ocultado,
sob uma forma inapropriada, na metafísica ou na moral. Porém,
crereis por isso que a religião venha a se identificar com uma das
outras duas? Eu sei que vosso instinto vos diz o contrário, e isto se
deduz também de vossas opiniões; pois vós não admitis que a reli­
gião proceda com o passo firme de que é capaz a metafísica, e não
esqueçais de observar diligentemente que em sua história há uma
multidão de aberrações de caráter imoral e repugnante. Portanto, se
ela há de oferecer um perfil diferente, deve, apesar da mesma maté­
ria, opor-se-lhes de alguma maneira. É preciso que ela aborde esta
matéria de uma forma completamente diferente, que expresse ou
elabore outro tipo de relação do homem com a mesma ou que possua
outra meta; pois só desta forma pode ser investido de uma natureza
particular e de uma existência peculiar àquilo que, concernente à
matéria, é igual a outra coisa. Eu vos pergunto, portanto que tarefa
desempenha vossa metafísica ou - se não quereis saber nada do nome
obsoleto, que vos é demasiado histórico - vossa filosofia trans­
cendental? Ela classifica o universo e o divide em tais e quais seres,
investiga as causas do que existe e deduz a necessidade do real, ela
extrai de si mesma a realidade do mundo e suas leis.2 A religião não
deve portanto, aventurar-se nesta região; ela há de recusar a tendên­
cia de estabelecer seres e a determinar naturezas, a perder-se em
uma infinidade de razões e deduções, a investigar as últimas causas
e a formular verdades eternas. E que tarefa desempenha vossa mo­
ral? Ela desenvolve a partir da natureza do homem e de sua relação
com o universo um sistema de deveres, ela prescreve e proíbe ações
com um poder ilimitado. Por conseguinte, a religião tão pouco tem

2 Trata-se primordialmente da filosofia de Fichte.


30 E d it o r a N o v o S é c u l o L t d a

de intentar isto; não deve servir-se do universo para deduzir deve-


res, ela não deve conter nenhum código de leis. “E todavia, parece
que o que se chama religião, só consta de fragmentos destes distin­
tos âmbitos.” Esta é certamente a concepção comum. Acabo de mani­
festar-vos, dúvidas contra ela; agora é o momento de destruí-la por
completo. Os teóricos no âmbito da religião, que se propõem como
meta o saber acerca da natureza do Universo e de um Ser Supremo,
o qual é Seu criador, são metafísicos, porém o suficientemente con­
descendentes para não desdenhar tão pouco algo de moral. Os práti­
cos, para quem a vontade de Deus é o fundamental, são moralistas,
porém um pouco ao estilo da metafísica. A idéia do bem a tomais e
a introduzis na metafísica, como lei natural de um ser ilimitado e
carente de necessidades, e a idéia de um ser primordial a tomais da
metafísica e a introduzis na moral, para que esta grande obra não
permaneça anônima, com o fim de que à frente de um código tão
magnifico possa gabar-se a imagem do legislador. Porém mesclado
e agitado como quereis; isto não permanece unido, realizais um jogo
vazio com matérias que não se fundem entre si; ficai-vos unicamen­
te com metafísica e moral. Chamais religião a esta mescla de opini­
ões acerca do Ser Supremo ou do mundo e de encargos relativos à
uma vida humana (ou ainda relativo aos dois), e chamais religiosi­
dade ao instinto que busca aquelas opiniões, junto com os obscuros
pressentimentos, que constituem a última autêntica sanção destes
encargos! Porém, como chegais a considerar uma mera compilação,
uma crestomatia para principiantes como uma obra original, como
uma realidade individual dotada de uma origem e de uma força pró­
prias? Como chegais a fazer menção disto, ainda quando não seja
mais que para refutá-lo? Por que não o haveis dissolvido desde há
muito tempo em suas partes e posto às claras o plágio vergonhoso?
Gostaria de importunar-vos com algumas questões socráticas e con­
duzir-vos a confessar que nas coisas mais comuns conheceis muito
bem os princípios de acordo com os quais há de se ordenar o seme­
lhante, e o particular submeter-se ao universal e que vós tão só não
quereis aplicar-vos aqui para poder zombar-vos com a gente acerca
de um objeto sério. Onde reside pois, a unidade neste todo, onde se
encontra o princípio conector desta matéria heterogênea? Se se trata
de uma força de atração peculiar, deveis conceder que a religião é o
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher II

supremo na filosofia e que a metafísica e a moral não são mais que


seções subordinadas dela; pois aquilo no que dois conceitos diferen­
tes, opostos, sucedem um, não pode ser outra coisa que a realidade
superior à que ambos estão referidos. Se este princípio conector se
encontra na metafísica, havereis reconhecido por motivos que são
próprios a esta, um Ser supremo como legislador moral, destruindo,
não obstante, a filosofia prática e confessando que ela e, com ela a
religião, só constituem um pequeno capítulo da teórica. Se quereis
afirmar o ponto de vista oposto, então a metafísica e a religião
devem ser engolidas pela moral, à que certamente já nada tem de ser
impossível um vez que ela tem aprendido a crer e uma vez que na
primeira etapa de sua existência tem acertado a preparar em seu san­
tuário mais íntimo um pequeno rincão aprazível para os abraços
secretos de dois mundos que se amam. Ou quereis acaso afirmar que
o metafísico na religião não depende do moral, e que este não
depende daquele, que há um paralelismo maravilhoso entre o teóri­
co e o prático e que a religião consiste precisamente em perceber e
expor dito paralelismo? Certamente, no que se refere a este ponto a
solução não pode encontrar-se nem na filosofia prática, pois esta
não se preocupa dele, nem na teórica, pois esta procura com todo o
zelo perseguí-lo e destruí-lo, tanto quanto possível, tal como por
demais, é próprio de sua tarefa. Porém, penso que incitados por
estas necessidades, vós buscais, já desde há algum tempo, uma filo­
sofia suprema3, na que se unam estes dois gêneros, e estais sempre à
espreita de encontrá-la, e a religião se encontraria tão próxima a esta
filosofia! E a filosofia, deveria realmente buscar refúgio na religião,
tal como afirmam tão prazerosamente os adversários da mesma?
Prestai bem atenção ao que afirmais aí. Relativo a tudo isto, ou bem
desembocais numa religião que se encontra muito acima da filoso­
fia, se nos atermos ao estado em que esta se encontra atualmente,
ou antes deveis ser tão honestos para restituir a ambas partes da
mesma o que lhes pertence e confessar que, no que se refere à reli­
gião, todavia não sabeis nada acerca dela. Não quisera incitar-vos
em direção ao primeiro delineamento, pois não desejo ocupar
nenhuma posição que não pudesse manter, porém não tereis dificul­

3 Referência clara aos avatares da filosofia idealista, relativos às filosofias de Kant e Fichte.
32 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

dade em limitar-vos ao segundo. Observemos entre nós um trato


sincero. Vós sentis aversão para com a religião, deste ponto de vista
acabamos de partir; porém na medida em que vos faço uma guerra
honesta que, apesar de tudo, não está isenta totalmente de esforços,
não quereis, todavia, haverdes lutado contra uma sombra como esta,
contra a qual nos temos debatido; ela deve ser, pois, algo com enti­
dade própria, que tem podido chegar até o coração dos homens, algo
pensável, do que se pode estabelecer um conceito, acerca do que se
pode falar e discutir, e eu considero muito inadequado que vós mes­
mos, a partir de coisas tão díspares, unis algo que não se pode man­
ter, algo que denominais religião e que com isso dais lugar depois a
tantas situações inúteis, vós negareis haverdes atuado astutamente,
exigir-me-eis desenrolar todos os documentos originários da reli­
gião - pois os sistemas, comentários e apologias já tendes recusado
- desde os belos poemas dos gregos até as Sagradas Escrituras dos
cristãos para comprovar se encontro por onde for a natureza dos
deuses e sua vontade e se em todas as partes é exaltado como santo
e ditoso quem reconhece a primeira e realiza a segunda. Porém ocor­
re precisamente o que vos tenho dito, a saber, que a religião não
aparece em estado puro, que tudo isto não são mais que partes estra­
nhas que se lhe tem aderido, e nosso encargo deve consistir precisa­
mente em libertá-la destas. Tão pouco o mundo corporal vos
proporciona nenhuma substância original como um produto, em
estado puro, da natureza - a não ser que considereis coisas muito
toscas como algo simples, tal como vos têm ocorrido aqui no âmbito
intelectual -, senão que é tão só a meta infinita da arte analítica
poder apresentar uma realidade semelhante, e nas coisas do espírito
não podeis alcançar o originário a não ser que produzis em vós me­
diante uma criação originária, e até então só no momento em que o
produzis. Rogo que vos ponhais de acordo vós mesmos sobre este
ponto; se isto vos recordará incessantemente. Porém, pelo que se
refere aos documentos originais e aos autógrafos da religião, esta
mescla de metafísica e moral não é meramente um destino inevitá­
vel, ela é mais uma disposição artificial e um propósito superior.
O que aparece como o primeiro e o último não é sempre o verdadei­
ro e o supremo. Se só soubesses ler nas entrelinhas! Todas as escri­
turas sagradas são como os livros modestos que já a algum tempo se
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 33

costuma utilizar em nossa humilde pátria e que sob um título pouco


significativo abordavam questões importantes. Estes, certamente
anunciam só metafísica e moral e no fim retomam prazerosamente
ao que haviam anunciado, porém a vós é exigido que separeis esta
crosta. Assim também o diamante se encontra completamente
encerrado em uma massa de escassa qualidade, porém em verdade
não para permanecer oculto, mas antes para ser encontrado com tan­
to maior segurança. Fazer prosélitos dos não crentes é algo que se
encontra profundamente arraigado no caráter da religião; quem
comunica a sua, não pode perseguir nenhum outro fim, e deste modo,
mais que um engano piedoso, é um método hábil começar e parecer
preocupado por aquilo a respeito do qual já está disposto o sentido,
para que de uma forma ocasional e imperceptível se introduza habil­
mente aquilo com vistas ao que tem de ser estimulado primeiramen­
te. Dado que toda comunicação da religião não pode ser senão de
caráter retórico, constitui uma forma hábil de ganhar-se os ouvintes,
introduzí-los em tão boa sociedade. Porém este recurso não só tem
alcançado a sua finalidade, senão que a tem ultrapassado, na medida
em que incluso vós, que encontrais sob este invólucro, vos tem per­
manecido oculta a verdadeira essência da religião. Por isso tem che­
gado o momento de abordar o tema de uma vez pelo outro extremo e
de começar com a oposição brusca em que se encontra a religião
com respeito à moral e a metafísica. Isto era o que eu queria. Haveis
me perturbado com vossa concepção comum; esta tem sido descar­
tada, espero; agora não me interrompais mais.
Desta forma, a religião, para tomar posse de sua propriedade,
renuncia a toda pretensão sobre tudo o que pertença àquelas e devol­
ve tudo o que lhe tem sido imposto pela força. Ela não pretende,
como a metafísica, explicar e determinar o Universo de acordo com
sua natureza; ela não pretende aperfeiçoá-lo e consumá-lo, como a
moral, a partir da força da liberdade e do arbítrio divino do homem.
Sua essência não é pensamento nem ação, senão intuição e senti­
mento. Ela quer intuir o Universo, quer observá-lo piedosamente em
suas próprias manifestações e ações, quer ser impressionada e
plenificada, na passividade infantil, por seus influxos imediatos.
Deste modo ela se opõem a ambas em tudo o que constitui sua
essência e em tudo que caracteriza seus efeitos. A metafísica e a
34 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

moral não vêem em todo o Universo nada mais que o homem como
ponto central de todas as relações, como condição de todo ser e cau­
sa de todo devir; a religião quer ver no homem, não menos que em
todo outro ser particular e finito, o Infinito, seu relevo, sua manifes­
tação. A metafísica parte da natureza finita do homem e quer deter­
minar conscientemente, a partir de seu conceito mais simples e do
conjunto de suas forças e de sua receptividade, o que pode ser o
universo para ele, e como ele deve considerá-lo necessariamente.
A religião também desenvolve toda sua vida também na natureza,
porém se trata da natureza infinita do conjunto, do Uno e Todo; o
que no centro desta última vale para todo ser individual e, por conse­
guinte, também o homem, e em cujo âmbito todo o existente, e tam­
bém o homem, pode desenvolver sua atividade e permanecer nesta
eterna fermentação de formas e seres particulares, o quer a religião
intuir e sentir de forma particularizada com tranqüila submissão.
A moral parte da consciência da liberdade, cujo reino quer expandir
até o infinito, procurando fazer com que tudo lhe fique submetido; a
religião respira ali onde a liberdade mesma já se tenha convertido
em natureza; mas além do jogo de suas forças particulares e de sua
personalidade, ela concebe ao homem e o contempla desde o ponto
de vista em cujo marco deve ser o que é, queira ou não. Deste modo,
ela só consolida seu próprio âmbito e seu próprio caráter esclarecen­
do-os totalmente tanto dos da especulação como dos da praxes, e só
na medida em que se situa junto a ambas, o campo comum é ocupa­
do completamente e a natureza humana fica aperfeiçoada desde este
ponto de vista. A religião se vos revela como o terceiro elemento
necessário e imprescindível com respeito àquelas duas, como
contrapartida natural, não inferior em dignidade e excelência a qual­
quer das outras seja qual for. Abandonar-se à especulação e a praxes
sem deixar vez à religião, constitui uma arrogância temerária, uma
desavergonhada hostilidade para com os deuses; tal é o ânimo ímpio
de Prometeu, que roubou covardemente o que houvera podido exigir
e esperar com tranqüila segurança. O homem só tem roubado o sen­
timento de sua infinitude e de sua semelhança com Deus, e como
bem ilegítimo, não lhe pode ser de proveito se ele não toma cons­
ciência, por sua vez, de sua limitação, do caráter contingente de toda
sua forma, da desaparição silenciosa de toda sua existência no inco-
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher JS

mensurável. Também os deuses têm castigado desde sempre este


delito. A praxe é arte, a especulação é ciência, a religião é sentido e
gosto pelo infinito. Sem esta, como pode elevar-se a primeira acima
do círculo comum das formas extravagantes produzidas ao longo do
tempo? Como poderia ser a outra melhor que um esqueleto rígido e
esquálido? Ou, por que vossa praxe que para além de todo atuar para
fora e sobre o Universo, em última instância esquece sempre de for­
mar ao homem mesmo? Isto ocorre porque opondo-o ao Universo
não o tomais da mão da religião como uma parte do mesmo e como
algo sagrado. Como ela desemboca na miserável uniformidade, que
só reconhece um único ideal e põe-no como base por onde for?
Porque careceis do sentimento fundamental da natureza infi­
nita e vivente, cujo símbolo é a multiplicidade e individualidade.
Todo o finito só se mantém mediante a determinação de seus limi­
tes, que por assim dizê-lo, tem de ser recortados do Infinito. Só deste
modo o finito pode ser infinito no centro mesmo destes limites e ser
formado apropriadamente; do contrário perdeis tudo na uniformida­
de de um conceito universal. Por que a especulação vos tem ofereci­
do durante tanto tempo fantasmagorias em vez de uma visão
sistemática, e palavras em vez de pensamentos? Por que não era
ela outra coisa que um jogo vazio com fórmulas que sempre reapare­
ciam sob uma forma distinta e às quais nunca correspondia nada?
Porque não se tinha religião; porque o sentimento do Infinito não a
animava; porque o anelo deste Infinito e a veneração do mesmo não
constrangiam seus pensamentos sutis e etéreos a assumir uma con­
sistência mais firme, para manter-se em pé contra esta pressão pode­
rosa. Tudo deve partir da intuição, e quem não anseia intuir o Infinito,
não possui nenhuma pedra de toque, e tão pouco necessita de algu­
ma, para saber se tem pensado algo apropriado acerca deste ponto.
E qual será o desenlace do triunfo da especulação, do idealis­
mo consumado e fechado, se a religião não atua frente a ele como
contrapeso e não lhe permite pressentir um realismo superior àquele
que ele submete a si mesmo de uma forma tão audaz e com tão pleno
direito? Na realidade, destruirá o Universo quando parece que o está
formando, o degradará a uma condição de mera alegoria, de uma
silhueta vã de nossa própria limitação. Sacrificai comigo respeitosa­
mente um riso aos modos de Espinoza, o santo reprovado! Ele esta­
36 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

va penetrado pelo superior espírito do mundo, o Infinito era seu


começo e seu fim; o Universo, seu único e etemo amor; com santa
inocência e profunda humildade se refletia no mundo etemo e via
como também ele era seu espelho mais amável; estava pleno de reli­
gião e pleno de espírito santo e por isso também se encontra ali, só e
inalcançado, mestre em sua arte, porém, situado acima do grêmio
dos profanos, sem discípulo e sem direito à cidadania.
À intuição do Universo, vos rogo que vos familiarizeis com
este conceito, constitui o gonzo de todo meu discurso, constitui a
fórmula mais universal e elevada da religião, a partir da qual podeis
localizar qualquer lugar na mesma, a partir da qual se podem deter­
minar da forma mais precisa sua essência e seus limites. Todo intuir
parte de um influxo do intuído sobre o que intui, de uma ação origi­
nária e independente do primeiro, que depois é assumida, recompilada
e compreendida pelo segundo de uma forma acorde com sua nature­
za. Se as irradiações da luz não alcançam vosso órgão - o que ocorre
completamente à margem de vossa iniciativa - se as partes mínimas
dos corpos não afetassem mecânica ou quimicamente as pontas de
vossos dedos, se a pressão da gravidade não vos pusesse de manifes­
to uma resistência e um limite de vossa força, não intuirias nem per-
ceberias nada, e portanto, o que intuis e percebeis não é a natureza
das coisas, mas antes sua ação sobre vós. O que sabeis e credes
sobre aquela, se encontra muito mais além do âmbito da intuição.
Assim ocorre com a religião; o Universo se encontra numa atividade
ininterrupta e se nos revela a cada instante. Cada forma que ele pro­
duz, cada ser a que ele confere, segundo a plenitude da vida, uma
existência particularizada, cada acontecimento que faz surgir de seu
rico centro, sempre fecundo, é uma ação do mesmo sobre nós; e
deste modo a religião consiste em conceber todo o particular como
uma parte do todo, todo o limitado como uma manifestação do Infi­
nito; porém querer ir mais longe e penetrar mais profundamente na
natureza e na substância do todo, isso já não é religião, e se apesar
de tudo, quer seguir sendo considerado como tal, recairá inevitavel­
mente em mitologia vazia. Assim, se tratava de religião quando os
antigos, aniquilando as limitações do tempo e do espaço, considera­
ram toda forma peculiar de vida no âmbito de todo o mundo como a
obra e reino de um ser onipresente; estes haviam intuído em sua
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 37

unidade uma forma peculiar do Universo trabalhar e designavam


assim esta intuição; se tratava de religião quando estes, com respeito
a qualquer acontecimento favorável no que se revelavam, de uma
forma evidente, as leis eternas do mundo no âmbito do contingente,
lhe conferiam a Deus, a quem se atribuía dito acontecimento, um
qualificativo peculiar e lhe dedicavam um templo próprio; estes
haviam apreendido um fato do Universo e expressavam assim sua
individualidade e seu caráter. Se tratava de religião, quando estes se
elevavam sobre a quebradiça idade de ferro do mundo, cheio de gre-
tas e acidentes, e voltavam a buscar a idade de ouro no Olimpo na
risonha vida dos deuses; deste modo estes contemplavam a sempre
intensa, a sempre viva e festiva atividade do mundo e de seu espíri­
to, para além de toda mudança e de todo mal aparente, que não é
mais que o resultado do conflito de formas finitas. Porém quando
elaboravam uma crônica admirável acerca das linhagens destes
deuses, ou bem quando uma fé tardia nos apresenta uma larga série
de emanações e gerações4, se trata de mitologia vazia. Representar-
se todos os acontecimentos que tem lugar no mundo como ações de
um deus, é religião, isto expressa sua relação com um todo infinito,
porém meditar acerca do ser deste deus antes do mundo e fora do
mundo, pode ser bom e necessário na metafísica, mas na religião
vem a constituir também mera mitologia vazia, uma ulterior elabo­
ração daquilo que só é meio auxiliar da exposição, como se fora ele
mesmo o essencial, um completo desvio da base autêntica. A intui­
ção é e permanece sempre algo particular, separado, a percepção
imediata, nada mais; uní-lae juntá-la em um todo já não é o dever do
sentido, antes do pensamento abstrato. Assim ocorre com a religião;
ela se detém nas experiências imediatas da existência e da atividade
do Universo, nas intuições e sentimentos particulares; cada um des­
tes é uma obra que subsiste de per si sem conexão com os outros ou
com dependência destes; ela não sabe nada acerca de derivações e
de estabelecer conexões; entre tudo o que lhe pode ocorrer, isto é ao
que mais se opõem sua natureza. Não só um fato ou uma ação parti­
culares, aos que caberia denominar como seu fato ou ação originá­
rios e primeiros, senão que tudo nela é imediato e verdadeiro para si.

4 R ecordem os as construções do neo -p lato nism o.


38 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

Um sistema de intuições, podeis vós mesmos imaginardes algo mais


estranho? Podem integrar-se em um sistema visões e, todavia mais,
visões do infinito? Podeis afirmar que é preciso ver isto assim por­
que foi preciso ver aquilo dessa maneira? Justamente atrás de vós,
justamente ao vosso lado, pode encontrar-se alguém que possa ver
tudo de outra maneira. Ou acaso os possíveis pontos de vista, sobre
os que pode situar-se um espírito para considerar o universo, se dis­
põem de acordo com distâncias mensuráveis, de forma que os possais
esgotar e enumerar, e determinar exatamente o característico de cada
um? Não existe uma infinidade destes, e não é cada um senão uma
transição permanente entre outros dois? Falo vossa linguagem neste
assunto; isto constituiria uma tarefa infinita, e não estais acostuma­
dos a vincular o conceito de algo infinito com o termo “sistema”,
mas antes a algo limitado e em sua limitação, perfeito. Eleva-os uma
vez - pois para a maioria de vós se trata de uma elevação - em dire­
ção àquele infinito da intuição sensível, o admirado e celebrado céu
estrelado. Pois quereis acaso denominar sistema de intuições em
quanto tais às teorias astronômicas que fazem a milhares de sóis
com seus sistemas cósmicos em em tomo de um sol comum e para
este, por sua vez, buscam um sistema cósmico superior, que poderia
constituir seu centro, e assim indefinidamente para dentro e para
fora?
O único ao qual vós poderíeis dar este nome seria ao anti-
quíssimo trabalho daqueles espíritos infantis que têm concebido a
multidão infinita destes fenômenos mediante imagens determinadas,
mas pobres e inadequadas. Porém vós sabeis que não há ali nenhu­
ma aparência de sistema, que sempre se seguiram descobrindo
novos astros entre estas imagens, que também dentro de seus limites
tudo é indeterminado e infinito e que estes mesmos permanecem
algo puramente arbitrário e sumamente movediço. Quando haveis
persuadido a alguém para que trace convosco a imagem do carro no
limbo azul dos mundos, não permanece ele, apesar de tudo, livre de
enquadrar os mundos mais próximos em contornos completamente
diferentes dos vossos? Este caos infinito, no qual, por certo, cada
ponto representa um mundo, é justamente, enquanto tal, de fato, o
símbolo mais apropriado e elevado da religião; nela, o mesmo que
nele, só o particular é verdadeiro e necessário; nada pode ou deve
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 39

ser demonstrado a partir de outra coisa, e todo o universal sob o qual


tem de ser concebido o particular, toda combinação e conexão se
encontram antes em um âmbito estranho, quando se os refere ao
interior e ao essencial, ou antes se trata de um só produto do jogo da
fantasia e do arbítrio mais livre. Se milhares de vós pudésseis ter as
mesmas intuições religiosas, cada um traria certamente uns perfis
distintos para estabelecer o modo como as têm tido, ou antes de uma
maneira justaposta ou sucessiva; aqui não se trata, ponhamos por
acaso, de seu ânimo, só de um estado contingente, de uma pequenez.
Cada um pode ter sua própria distribuição e suas própria rubricas; o
particular não pode ganhar nem perder com isto, e quem conhece de
verdade sua religião e sua essência, subordinará profundamente toda
conexão aparente ao particular e não lhe sacrificará o aspecto mais
insignificante deste. Precisamente por causa desta autonomia do par­
ticular é tão infinito o âmbito da intuição.
Situai-vos no ponto mais distante do mundo corporal; vós não
só vereis desde ali os mesmos objetos distribuídos em uma ordem
distinta, de forma que se vos quereis ater a vossas imagens arbitrá­
rias anteriores, que não reencontrareis ali, estareis totalmente deso­
rientados, senão que ademais descobrireis em novas regiões objetos
completamente novos. Vós não podeis afirmar que vosso horizonte,
até o mais amplo, o abarque totalmente, e que mais além dele não
haja nada mais que intuir ou antes que vosso olhar, incluindo o mais
penetrante, nada se lhe escapa dentro do mesmo; não encontrareis
limites em nenhuma parte, nem tão pouco podeis conceber nenhum.
Com respeito à religião, isto é valido num sentido todavia bastante
mais elevado; desde um ponto de vista oposto, não só teríeis novas
intuições em novas regiões, senão que também no velho espaço, bem
conhecido, os primeiros elementos se uniriam formando outras con­
figurações, e tudo seria distinto. A religião não só é infinita devido a
que a atividade e a passividade alternem infinitamente; até entre a
mesma matéria limitada e o âmago - vós sabeis que isto constitui a
única infinitude da especulação - ela não só é infinita devido a que
constitui uma tendência ilimitada em direção à interioridade, como
ocorre com a moral; a religião é infinita segundo todas as perspecti­
vas, uma infinitude da matéria e da forma, do ser, de ver e de saber
acerca disto. Este sentimento deve acompanhar a quem quer que
40 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

tenha realmente religião. Todos devem ser conscientes de que a sua


constitui tão só uma parte do todo, de que, acerca dos mesmos obje­
tos que lhe afetam religiosamente, existem pontos de vista que são
tão piedosos e, todavia, são totalmente distintos dos seus e de que a
partir de outros elementos da religião dimanam intuições e senti­
mentos relacionados aos que estes, quiçá, carecem completamente
de sensibilidade. Vós vedes como esta bela modéstia, esta amistosa
e acolhedora tolerância surgem de uma forma imediata do conceito
de religião, e de que forma íntima se vinculam com ele. Quando
injustamente vos dirigis, portanto, à religião reprovando-lhe que se
mostre ávida de perseguição e odiosa, que dissolve a sociedade e
deixa correr o sangue como se fosse água. Acusai disto àqueles que
corrompem a religião, que a inundam com filosofia e a querem sub­
meter às ataduras de um sistema. Em tomo do que se se tem disputa­
do, pois na religião, em tomo da qual se tem formado partidos e se
tem desencadeado guerras? Acerca da moral às vezes, e acerca da
metafísica, sempre, e nenhuma das duas pertence ao âmbito da reli­
gião. A filosofia se esforça, certamente, por situar sob um saber
comum a quantos desejam saber, tal como vedes diariamente, porém
a religião não intenta situar aqueles que crêem e sentem sob uma
mesma fé e um mesmo sentimento. Ela se esforça, certamente, por
abrir os olhos daqueles que todavia não são capazes de intuir o Uni­
verso, pois todo vidente é um novo sacerdote, um novo mediador,
um novo órgão; porém precisamente por isso recusa com repugnân­
cia a banal uniformidade, que destruiria de novo esta divina exube­
rância. O espírito de sistema recusa certamente o estranho, mesmo
quando diz respeito também a algo muito pensável e verdadeiro,
porque poderia alterar as séries bem fechadas de seu enfoque pecu­
liar e perturbar o belo conjunto, à hora de exigir seu lugar; neste
espírito de sistema se encontra a sede das contradições; ele se vê
necessitado de disputar e perseguir, pois na medida em que o parti­
cular é referido de novo a algo particular e finito, um destes pode
certamente destruir ao outro pelo fato de sua existência; porém no
Infinito todas as realidades finitas se encontram imperturbadas, umas
junto a outras, tudo é uno e tudo é verdadeiro. Assim mesmo, só os
sistemáticos tem conduzido a toda esta situação. A nova Roma, a
ímpia porém conseqüente, lança anátemas e expulsa os hereges; a
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 41

antiga, verdadeiramente piedosa e religiosa num estilo superior, eri


hospitaleira com todos os deuses e deste modo estava cheia deles.
Os partidários da letra morta, que a religião recusa, tem enchido o
mundo de gritaria e alvoroço, enquanto que os verdadeiros contem-
pladores do etemo foram sempre almas pacíficas, bem a sós consigo
e com o Infinito, bem quando olhavam em tomo de si, reconhecendo
prazerosamente a todos sua própria peculiaridade, só com o que com­
preenderam a grande palavra. Porém a religião também considera
com esta ampla visão e com este sentimento do Infinito o que se
encontra fora de seu próprio âmbito, e se mostra em si idônea para a
universalidade mais ilimitada no que se refere à forma de julgar e
considerar, atitude que de fato não caberia buscar em nenhuma outra
parte. Que qualquer outra coisa - eu não excluo a moral nem tão
pouco a filosofia, e me refiro a este respeito, à vossa própria existên­
cia - estimule ao homem; seus pensamentos e suas aspirações, seja
qual for a meta em direção à que se dirijam, trazem um círculo
estreito em torno dele, em cujo o interior esta encerrado o que cons­
titui para ele sua suprema realidade, e fora da qual tudo lhe parece
ordinário e indigno. Quem só quer pensar sistematicamente de acor­
do com princípios e propósitos e realizar isto ou aquilo no mundo,
inevitavelmente se põem limites a si mesmo e opõe sempre a si mes­
mo, como objeto de aversão, o que não favorece sua forma de reali­
zar. Só a tendência de intuir, quando vai dirigida ao Infinito, põe o
âmago em um estado de liberdade ilimitada; só a religião o salva das
ataduras mais detestáveis da opinião e do desejo. Tudo o que existe
se reveste para ela de um caráter necessário, e tudo o que pode exis­
tir constitui para ela uma imagem verdadeira, imprescindível, do
Infinito; só é preciso encontrar o ponto desde o qual se pode desco­
brir sua relação com ele mesmo. Por muito recusável que algo possa
ser, desde a relação com outros, ou antes em si mesmo, a este respei­
to é sempre digno de existir e de ser mantido e tomado em conside­
ração. A religião faz com que, para um espírito piedoso, tudo seja
sagrado e valioso, incluindo o profano e o comum, tudo o que perce­
be e não percebe, o que se encontra no sistema de seus próprios
pensamentos e é acorde ou não com sua forma peculiar de realizar;
a religião é a única inimiga jurada de toda pedantice e de toda
unilateralidade. Finalmente, para completar a imagem geral da reli­
42 E d it o r a N o v o S é c u l o L t d a

gião, recordemos que cada intuição está, segundo sua natureza, uni­
da com um sentimento. Vossos órgãos servem de mediadores com
respeito à conexão entre o objeto e vós; o mesmo influxo do objeto,
que vos revela sua existência, deve estimular-vos de múltiplas ma­
neiras e provocar uma mutação em vossa consciência interna. Este
sentimento, de que por certo vós, amiúde, apenas vos dais conta,
pode em outros casos alcançar uma tal violência que, por conse­
qüência disto, vos esqueçais do objeto e de vós mesmos; todo vosso
sistema nervoso pode estar tão afetado por dita situação, que por
muito tempo a sensação impera solitariamente; persiste, todavia, lar­
gamente e oferece resistência ao influxo de outras impressões.
Porém, o fato de que uma ação seja realizada em vós, de que a auto-
atividade de vosso espírito seja posta em movimento, não o atribuis,
todavia, aos influxos dos objetos externos? Tereis que admitir, não
obstante, que isto supera em muito o poder dos sentimentos, até dos
mais fortes, e que deve ter em vós uma fonte completamente distin­
ta. Assim ocorre com a religião; as mesmas ações do Universo, atra­
vés das quais ele se vos revela no finito, também o situam em uma
nova relação com vosso ânimo e vosso estado; no instante em que o
intuís, deveis estar impressionados por múltiplos sentimentos. Só
que na religião tem lugar uma outra relação mais firme, entre a intui­
ção e o sentimento, sendo que a primeira não se mostra tão predomi­
nante que o segundo fique quase anulado. Pelo contrário, considera­
remos como um milagre que o mundo eterno atue sobre os órgãos de
nosso espírito como o sol sobre os nossos olhos? Que nos ofusca de
tal maneira que não só tudo o mais desapareça num instante, senão
que também, muito tempo depois, os objetos, que contemplamos,
levem a estampa de sua imagem e estejam inundados por seu esplen­
dor? Assim como a forma particular segundo a qual o Universo se
vos manifesta em vossas intuições constitui o peculiar de vossa reli­
gião individual, assim também a força destes sentimentos determina
o grau da religiosidade. Quanto mais perfeito seja o sentido, com
tanta maior força e determinação perceberá cada impressão; quanto
mais ardente seja a sede, quanto mais irresistível seja o impulso de
apreender o infinito, tanto maior será a variedade segundo a que o
âmago mesmo será apreendido por onde for e de uma forma
ininterrompida, por esse Infinito, tanto mais completamente o pene­
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 41

trarão estas impressões, tanto mais facilmente se despertarão estas,


sempre de novo, e afirmarão seu predomínio sobre toda as outras,
Até aqui se estende, desde esta perspectiva, o âmbito da religião;
seus sentimentos devem nos possuir, nós devemos expressá-los,
mantê-los, expô-los; porém se pretendeis chegar mais longe da mão
desses sentimentos, exige-se que estes suscitem ações propriamente
ditas e induzam a fatos, então vos encontrareis em uma região estra­
nha; e se tomais isto não obstante como religião, vos encontrareis
enfiados em uma ímpia superstição, por razoável e elogiosa possa
parecer vossa maneira de atuar. Todo fazer propriamente dito deve
ser moral e pode sê-lo também; porém os sentimentos religiosos
devem acompanhar, como uma música sagrada, toda ação do
homem; este deve fazer tudo com religião, não por religião. Se vós
não compreendeis que todo fazer deve ser moral, eu acrescento que
isto também vale para tudo o mais. O homem deve trabalhar sosse-
gadamente, e tudo o que ele empreende deve desenvolver-se com
circunspecção. Interrogai ao homem moral, interrogai ao político,
interrogai ao artista, todos dirão que isto constitui seu primeiro pre­
ceito; porém o sossego e a circunspecção se vêem abaixo, se o
homem se deixa induzir à ação mediante os sentimentos violentos e
perturbadores da religião. Tão pouco é natural que isto ocorra; os
sentimentos religiosos, segundo sua natureza, paralisam a energia
do homem e convidam-no a um gozo aprazível e desprendido; por
conseguinte, os homens mais religiosos, que careciam de outros
estímulos para a ação e se limitavam a uma existência religiosa, aban­
donaram o mundo e se entregaram completamente à contemplação
ociosa. O homem deve impor-se a si mesmo e a seus sentimentos
piedosos, antes que estes façam surgir dele ações, e eu só necessito
remeter-me a vós, pois de acordo com uma de vossas queixas, se
teriam produzido por esta via tantas ações absurdas e anti-naturais.
Vedes que não só submeto a vossa consideração estes atos, como
também os mais excelentes e dignos de elogio. Se se observam usos
insignificantes ou se executam boas ações, se se sacrificam seres
humanos sobre altares ensangüentados ou antes, se são agraciados
com mão benevolente, se se passa a vida em uma inatividade morta,
ou em uma ordem plúmbea, carente de gosto, ou antes na exuberân­
cia ligeira do prazer sensível, eis aqui coisas diametralmente opos­
44 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

tas quando se trata da moral ou da vida e dos assuntos mundanos:


porém, se pertencem ao âmbito da religião e têm surgido da mesma,
então todas elas são iguais entre si, a saber, só superstição escraviza­
da, tanto umas como outras. Vós censurais quem determina sua con­
duta relativa a um homem atendo-se à impressão que este produz
nele: não quereis que mesmo o sentimento mais justo acerca da rea­
ção do homem nos induza a ações relativas às quais não possuímos
nenhum motivo melhor; por conseguinte, também se tem de censu­
rar àquele cujas ações, que deveriam ter sempre como meta o Todo,
sejam determinadas unicamente pelos sentimentos que suscita nele
precisamente este Todo; ele será tido por alguém que renuncia a sua
dignidade, não só desde o ponto de vista moral, porque dá capacida­
de a motivações estranhas, como também desde o da religião mes­
ma, porque deixa de ser o único que, a seus olhos, lhe concede um
valor peculiar, a saber, o ser uma parte livre do Todo, ativa mediante
sua própria força. Este mal-entendido total, segundo o que a religião
deve produzir, não pode ser por sua vez menos do que um terrível
abuso e seja qual for a direção que empreenda a atividade, terminará
na desdita e na dissolução. Porém a meta do homem piedoso consis­
te em ter a alma cheia de religião, no marco de um realizar sossega­
do que deve brotar de sua própria fonte. Só mãos espirituais, não
boas, se apossam do homem e o incitam à ação, e a legião dos anjos
com que o Pai celestial havia equipado a seu Filho não estavam nele,
senão em torno dele; tão pouco lhe ajudavam em suas atividades,
nem deviam fazê-lo; porém estes infundiam serenidade e sossego na
alma fatigada pela ação e o pensamento; certamente, Ele às vezes os
perdeu de vista, em momentos nos quais toda sua força estava com
intenção e com vistas à realizar, porém depois floresciam de novo
em volta dEle em uma corte jubilosa e lhe serviam.5 Antes de vos
conduzir ao detalhe destas intuições e sentimentos, o que tem de
constituir, com efeito meu próprio dever em relação a vós, permiti-
me previamente lamentar-me um instante acerca do fato de que não
possa falar de ambos senão de maneira separada; deste modo o espí­
rito mais fino da religião se perde no que se refere a meu discurso, e
eu só posso desvelar seu mistério mais íntimo de uma forma vacilan­

5 Mateus 4.1-11.
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher

te e insegura. Porém uma reflexão necessária os separa a amboi,


E quem pode falar de qualquer coisa que pertença à consciência sem
passar primeiramente através deste meio? Não só quando comunica­
mos uma ação interna da alma, também quando nos limitamos a
convertê-la em matéria de consideração e a elevá-la ao nível da cons­
ciência clara, se produz imediatamente esta separação inevitável: o
fato (Faktum) se mescla com a consciência originária de nossa
dupla atividade, da dominante e que atua para fora, e da meramente
delineadora e imitadora, e que parece estar melhor ao serviço das
coisas, e imediatamente a produzir-se este contato a matéria mais
simples se decompõem em dois elementos opostos: os unos se con­
jugam para formar a imagem de um objeto; os outros, se abrem
caminho até o centro de nosso ser, entram ali em efervescência com
nossos impulsos primordiais e dão origem a um sentimento passa­
geiro. Tampouco no caso da criação mais íntima do sentido religioso
podemos subtrair-nos a este destino; só podemos aproximar de novo
à superfície e comunicar seus produtos sob esta forma dissociada.
Mas não penseis - este é precisamente um dos erros mais perigosos
- que as intuições e os sentimentos religiosos tenham de estar tam­
bém tão dissociados originariamente na primeira ação da alma como
por desgraça os devemos considerar aqui. A intuição sem o senti­
mento não é nada e não pode ter nem a origem nem a força adequa­
das; o sentimento sem intuição tão pouco é alguma coisa: tanto um
como o outro só são algo quando, e devido a que, originariamente
estes são uma e a mesma coisa e se dão inseparados. Aquele primei­
ro instante misterioso que tem lugar em toda percepção sensível,
antes de que a intuição e o sentimento se separem, o instante no qual
o sentido e seu objeto, por assim dizer, se têm confundido e se têm
feito uma só coisa, antes de que ambos retomem a seu lugar originá­
rio - eu sei o quanto indescritível é e com que rapidez passa, porém
quisera que vós pudésseis retê-lo e também reconhecê-lo na ativida­
de superior, divina e religiosa da alma. Oxalá eu pudesse e estivesse
em condições de expressá-lo, de insinuá-lo ao menos, sem profaná-
lo! Dito instante é fugaz e transparente como o primeiro aroma com
o que o orvalho envolve o despertar das flores, poderoso e temo
como um beijo virginal, sagrado e fecundo como um abraço nupcial;
certamente não se trata de que seja como isto, senão que ele mesmo
46 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

é tudo isto. De uma maneira rápida e fascinante se converte um


fenômeno, um acontecimento, em uma imagem do Universo. En­
quanto que toma forma a figura amada e sempre buscada, minha
alma vai ao seu encontro, a abraça não como a uma sombra, mas
como o Ser divino mesmo. Eu descanso no centro do mundo infini­
to; eu sou neste instante sua alma, pois sinto todas as suas forças e
sua vida infinita como a minha própria; ela é neste instante o meu
corpo, pois penetro seus músculos e seus membros como os meus
próprios, e seus nervos mais íntimos se movem de acordo com meu
sentido e com meu pressentimento como se fossem os meus. A mais
pequena comoção, e o abraço sagrado se desfazem, e só agora a
intuição se encontra ante mim como uma figura separada, eu a meço
e ela se reflete na alma aberta como a imagem da amada que se
escorre ante os olhos entreabertos do jovem, e só agora emerge o
sentimento desde o interior e se expande como o rubor de pudor e de
prazer sobre a maçã do rosto. Este momento é o de maior esplendor
da religião. Se pudesse fazer-vos experimentar, eu seria um deus -
queira tão só o sagrado destino perdoar-me que eu tenha desvelado
mais que mistérios eleusínios*. E a hora do nascimento de todo o
vivo na religião. Porém ocorre com isto o mesmo que com a primei­
ra consciência do homem que se evade na obscuridade de uma cria­
ção originária e eterna, e só deixa atrás de si o que ele tem produzido.
Só posso trazer presentes à vossa consideração as intuições e senti­
mentos que se desenvolvem a partir de tais momentos. Porém é pre­
ciso dizer-vos o seguinte: ainda quando compreendeis a estes
perfeitamente, ainda quando credes em tê-los em vós com a cons­
ciência mais clara, se não sabeis e não podeis mostrar que estes têm
surgido em vós a partir de tais instantes e que originariamente têm
sido uma só coisa e inseparados, não intenteis persuadir-vos ulteri-
ormente a vós e a mim, pois as coisas não são assim, vossa alma não
tem concebido: se trata tão só de supostos filhos, produto de outras
almas, que vós haveis adotado com o secreto sentimento de vossa
própria debilidade. Eu qualifico ante vós de ímpios e de afastados de
toda vida divina aqueles que rondam assim pavoneando-se de reli­
gião. Aí, uns têm intuições do mundo e fórmulas, que devem expres-

* Festa em honra de Ceres, realizada em Elêuses (Grécia). N. do T.


S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher

sá-las, e outros têm sentimentos e experiências íntimas, mediante 01


que estes documentam ditos sentimentos. Aqueles entrelaçam suai
fórmulas entre si, e estes tecem uma ordem salvífica a partir de suas
experiências, e agora surge o conflito acerca de quantos conceitos e
explicações é preciso recorrer e a quantas emoções e sensações, para
compor a partir destes elementos uma forma religiosa apropriada,
que não fosse nem fria nem exaltada. Oh, néscios e apáticos! Não
sabeis que tudo isso não são mais que processos dissolventes do
sentido religioso, que deveis realizar vossa própria reflexão, e se
agora não sois conscientes de haver tido algo que ela pudesse dissol­
ver, de onde haveis tirado então esta temática? Vós tendes memória
e capacidade de imitação, porém, não alguma religião. Vós não haveis
produzido as intuições, para as quais sabeis as fórmulas, senão que
estas são aprendidas de memória e conservadas como tais, e vossos
sentimentos têm sido reproduzidos mimeticamente como fisiono­
mias estranhas e precisamente por isto, vem a ser caricaturas. E a
partir destes fragmentos mortos e corrompidos quereis compor uma
religião? Se pode dissolver certamente a seiva de um corpo orgânico
em suas partes constitutivas mais imediatas; porém tomado agora
estes elementos dissociados, mesclados segundo todas as propor­
ções, tratados seguindo todos os procedimentos, podereis gerar de
novo, a partir de tudo isto, o sangue do coração? O que está morto,
poderá mover-se de novo em um corpo vivo e unir-se com ele?
A arte humana fracassa no intento de reconstruir os produtos da na­
tureza viva a partir de suas partes constitutivas dissociadas, e assim
tão pouco o lograreis no que se refere à religião por muito perfeita­
mente que a tenhais formado e configurado desde fora; ela deve sur­
gir do interior. A vida divina é como uma planta delicada, cujas flores
já se fecundam no interior dos botões, e as sagradas intuições e sen­
timentos, que vós podeis dissecar e conservar, são os belos cálices e
corolas que se abrem prontamente depois daquela operação oculta,
porém que também caem prontos, de novo. Mas sempre voltam a
surgir novos exemplares desde a plenitude da vida interior - pois a
planta divina forma em torno de si um clima paradisíaco, o qual não
é prejudicial em nenhuma estação do ano - e os antigos atapetam e
adornam, agradecidos, o solo que cobre as raízes pelas quais foram
alimentados e exalam todavia um aroma, em uma espécie de grata
48 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

recordação, em direção ao tronco que lhes serviu de suporte. Com este


botões, corolas e cálices, vos quero tecer agora uma coroa sagrada.
A natureza externa, que é considerada por tantos como o pri­
meiro e mais destacado templo da Divindade, como o santuário mais
íntimo da religião, eu não vos conduzo senão ao vestíbulo mais
externo da mesma. Nem o temor às forças materiais que vedes atu­
antes sobre esta terra, nem o prazer ante as belezas da natureza ma­
terial, deve ou pode proporcionar-nos a primeira intuição do mundo
e de seu espírito. Nem nos trovões do céu nem nas temíveis ondas do
mar deveis reconhecer o Ser onipotente, nem no esplendor das flo­
res nem no resplandecer do crepúsculo o delicioso e amável. É pos­
sível que ambos, o temor e o gozo agradável, tenham preparado para
a religião, os filhos mais rudes da terra, porém estas sensações não
constituem elas mesmas a religião. Todos os pressentimentos do in­
visível chegados por esta via até o homem, não eram de caráter reli­
gioso mas antes filosófico, não eram intuições do mundo e de seu
espírito - pois não são mais que olhares sobre o particular, incom­
preensível e incomensurável -, senão uma busca e investigação acerca
da causa e da força primordial. Com estes começos rudes no âmbito
da religião tem ocorrido como tudo o que se refere à simplicidade
originária da natureza. Só enquanto esta, todavia existe, possui a
força de comover assim o ânimo; quiçá, no cume da perfeição, na
que todavia, ainda não nos encontramos, retoma de novo, transfor­
mada pela arte e o livre arbítrio em uma figura superior; porém
mediante o processo cultural tudo isto se chega a perder afortunada­
mente, e de maneira inevitável, pois esses começos não fariam mais
que impedir dito processo. Tal é o caminho em que nos encontramos
e portanto, mediante estes movimentos do ânimo não podemos ter
acesso à religião alguma. Por certo, a grande meta de todo o afinco
que desdobramos na transformação da terra é que se destrua o domí­
nio das forças naturais sobre o homem, e que cesse todo temor ante
elas. Como podemos portanto, intuir o Universo no que tratamos de
subjugar e em parte já temos subjugado? Os raios de Júpiter já não
nos assustam desde que Vulcano nos tem confeccionado um escudo
contra estes. Vesta* protege - algo que se tem inventado para obter

* Deusa do fogo dos romanos. N. do T.


S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 4*

de Netuno - contra os golpes mais furiosos de seu tridente, ê 01


filhos de Marte se unem com os de Esculápio para manter-nos segu­
ros contra os dardos de Apoio de efeitos rapidamente mortíferos.
Deste modo, tais deuses, na medida em que o temor os havia ideado,
se destroem um ao outro, e desde que Prometeu nos tem ensinado a
subornar tanto a este quanto àquele, o homem se eleva, rindo-se com
gesto vitorioso, acima desta guerra geral.
Amar o espírito do mundo e contemplar prazerosamente sua
atividade, tal é a meta de nossa religião, e o medo não se encontra no
amor. O mesmo ocorre com aquelas belezas do globo terrestre que o
homem em sua etapa infantil rodeia com tão íntimo amor. Que é
aquele delicado jogo de cores que deleita nossos olhos em todos os
fenômenos do firmamento e que mantém vosso olhar fixo com tanta
complacência nos produtos mais deliciosos da natureza vegetal? Que
é isto, não ante vossos olhos, senão em e para o Universo? Deveis
fazer-vos tais delineamentos se quereis que signifique algo para vossa
religião. É algo que desaparece como uma aparência fortuita, tão
pronto como vós pensais na matéria dispersa por onde for, cujos
processos acompanha. Considerai que em um sótão escuro, vós podeis
despojar as plantas de todas estas belezas sem destruir sua natureza;
considerais que este brilho primoroso, em cujo nimbo convive toda
vossa alma, não consiste senão em que as mesmas torrentes de luz
só se refratem de outra maneira em um mar maior dos vapores ter­
restres, em que os mesmos raios de melodia cujo deslumbramento
vosso não suportais, se pressentem já aos que habitam no Oriente
como o crepúsculo cintilante - e isto não deveis levar em considera­
ção se quereis ter uma visão de conjunto destas coisas - ; constatareis
então que estes fenômenos, por fortemente que vos venha comover,
não são apropriados, apesar de tudo, para servir, como intuições do
mundo. Quiçá ocorra algum dia que nós, em um nível mais elevado,
encontremos difundido e predominante em todo o espaço cósmico
aquilo que aqui sobre a terra devemos somente ao nosso arbítrio, e
então um sagrado estremecimento nos invadirá ante a unidade e a
onipresença que se manifestam também na força corpórea; quiçá
ocorra que descubramos um dia com surpresa, também nesta apa­
rência, o mesmo espírito que anima o Todo; porém se tratará de algo
mais distinto e elevado que este temor e este amor, e agora os heróis
50 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

da razão entre vós não necessitam burlar-se de que se lhes queira


conduzir à religião mediante o submetimento à matéria morta e me­
diante uma poesia vazia, e as almas sensíveis não devem crer que
seja tão fácil alcançar esta meta. Certamente, na natureza material
há algo que intuir mais essencial do que isto. A infinitude da mesma,
as massas enormes, espalhadas por aquele espaço enorme inabarcável
pela vista, percorrendo órbitas incomensuráveis, deixa prostrado o
homem em estado de profundo respeito ante o pensamento e o espe­
táculo do mundo. Só procureis, vos rogo, que o que sentis a este
respeito não me reputeis como religião. O espaço e a massa não
constituem o mundo e não são a matéria da religião; buscar aí a
infinitude constitui uma maneira infantil de pensar. Quando não se
havia descoberto ainda a metade daqueles mundos, inclusive quan­
do todavia não se sabia que os pontos luminosos eram corpos cósmi­
cos, o Universo, não obstante, não havia de ser considerado menos
grandioso do que agora, e não havia mais escusas para os que me­
nosprezavam a religião do que agora. Não é a este respeito, o corpo
mais limitado tão infinito como todos aqueles mundos? A incapaci­
dade de vossos sentidos não pode constituir o orgulho de vosso espí­
rito, e que relevância atribui o espírito aos números e magnitudes,
dado que ele pode compendiar toda sua infinitude em pequenas fór­
mulas e realizar cálculos com estes como se se tratasse do mais
insignificante? O que de fato suscita o sentido religioso, no mundo
externo, não são suas massas senão suas leis. Elevai-vos até a visão
de como estas abarcam-no todo, o maior e o menor, os sistemas cós­
micos e as partículas de pó que divagam, instáveis no ar, de um lado
para o outro, e então decidis se não intuis a unidade divina e a eterna
imutabilidade do mundo. O primeiro que o olho comum percebe
destas leis, a ordem com que se repetem todos os movimentos no
céu e sobre a terra, a órbita determinada dos astros e o uniforme ir e
vir de todas as forças orgânicas, a constância certeira do dinamismo
da natureza plástica, é nesta intuição do Universo precisamente o
menos relevante. Se de uma grande obra de arte não considerais mais
que um fragmento particular e se, por sua vez, nas partes concretas
deste fragmento percebeis contornos e proporções totalmente belos
por si mesmos, que estão contidos neste fragmento e cujas regras
cabe descobrir inteiramente a partir do mesmo, não vos parecerá
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 51

então o fragmento ou antes uma obra por si mesmas que uma parte
de uma obra? Não considerareis que o todo, se fosse executado com­
pletamente segundo este estilo lhe haveria assim de faltar impulso e
audácia e tudo o que permite presumir um grande espírito? Ali onde
tereis que presumir uma unidade superior, um encadeamento pró­
prio de um grande pensamento, deve haver necessariamente no par­
ticular, junto à tendência geral, a ordem e a harmonia, conexões que
não podem ser compreendidas totalmente a partir do mesmo. Tam­
bém o mundo é uma obra, da que só abarqueis com a vista uma parte
e se esta estivesse completamente ordenada e acabada em si mesma,
não poderíeis formar do todo nenhum conceito elevado. Vedes que
aquilo que deveria servir amiúde para recusar a religião, antes pos­
sui para ela um maior valor, na visão do mundo, que a ordem que
descobrimos em primeiro lugar e que pode ser percebida a partir de
uma parte mais pequena. Na religião dos antigos, só divindades
menores, virgens que atuavam como serviçais, realizavam a vigilân­
cia sobre o que se repetia uniformemente, cuja ordem já havia sido
descoberta; porém as irregularidades, que resultavam incompreen­
síveis, a revolução para a qual não havia lei alguma, constituíam
precisamente a obra do pai dos deuses. As perturbações no curso
dos astros sugerem uma unidade superior, uma conexão mais atrevi­
da que a que nós já percebemos a partir da regularidade de suas
órbitas, e as anomalias, os jogos ociosos da natureza plástica, nos
constrangem a ver que ela trata suas formas mais determinadas com
uma arbitrariedade, por assim dizer-vos, como uma fantasia, cuja
regulação só poderíamos descobrir desde um ponto de vista supe­
rior. Que afastados estamos todavia do que seria o ponto de vista
supremo e que nos é imperfeita, portanto, esta intuição do mundo!
Considerai a lei, de acordo com a qual por onde for no mundo, na
medida em que o abarcais com a vista, se comporta o vivente com
respeito ao que, em relação com ele, há de ser tido como morto;
considerai como tudo se alimenta de, e incorpora violentamente em
sua vida, a matéria morta, como tropeçamos por onde for com as
provisões armazenadas para todo o vivente, que não são algo morto,
senão que, sendo elas mesmas algo vivente, se reproduzem de novo
por onde for; considerai como apesar de toda multiplicidade das for­
mas de vida e da massa ingente de matérias, que cada uma consome
52 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

de uma forma alternativa, têm, todavia, o suficiente para percorrer o


círculo de sua existência e só está submetida a um destino interno e
não a uma carência externa. Que plenitude infinita se revela aí, que
riqueza trasbordante! Como nos sentiremos comovidos pela impres­
são causada, pela previsão maternal e pela confiança infantil de
levar uma vida doce, isenta de cuidados, no mundo pleno e rico.
Olhai os lírios do campo: não semeiam, não colhem e todavia, vosso
Pai celestial os alimenta; não vos preocupeis por tanto.6 Porém esta
visão ditosa, esta sensibilidade serena, ligeira, constituía também o
supremo, até o único, que um dos maiores heróis da religião extraiu,
para a sua, da intuição da natureza; até que ponto, portanto, deve
havê-la concebido tão só como o vestíbulo da religião! Certamente,
esta natureza nos oferece um despojo mais abundante, a quem uma
época mais rica nos tem permitido penetrar mais profundamente em
sua intimidade; em suas forças químicas, nas leis eternas, de acordo
com as que os corpos mesmos serão formados e destruídos, intuímos
da forma mais clara e sagrada o Universo. Vede como a inclinação e
a repulsão o determinam totalmente e mantém por onde for uma
atividade ininterrompida; vede como toda diferenciação e toda opo­
sição só tem um caráter aparente e relativo, e como toda individuali­
dade não é mais que um nome vazio; vede como todo o igual tende a
ocultar-se e a dissociar-se em mil configurações distintas e como
vós não encontrais em nenhuma parte algo simples, senão que tudo
esta ingeniosamente composto e entrelaçado; tal é o espírito do mundo
que se revela de uma forma tão perfeita e visível tanto no menor
como no maior; se trata de uma intuição do Universo, que se desen­
volve a partir de todo o existente e que impressiona o espírito, e só
para aquele que a percebe de fato por onde for, para aquele que não
só em todas as mutações, senão em toda existência mesma, não des­
cobre outra coisa que uma obra deste espírito e uma manifestação e
realização destas leis, só para esse todo o visível é também realmen­
te mundo, mundo formado, penetrado pela Divindade e uno. Até
quando careciam por completo de todos os conhecimentos que
enaltecem nosso século, já os mais antigos sábios gregos comparti­
lhavam, não obstante, esta visão da natureza como prova clara de

6 Cf. Mateus 6.25-34.


S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 53

como tudo o que é religião recusa qualquer ajuda externa e prescin­


de facilmente dela; e se essa visão tivesse sido passada dos sábios
ao povo, quem sabe que curso grandioso haveria tomado sua reli­
gião!
Porém, que é o amor e a resistência? Que é a individualidade
e a unidade? Estes conceitos, mediante os quais a natureza se con­
verte a vós, falando propriamente em intuição do mundo, os
possuirdes a partir da natureza? Não procedem originariamente do
interior da alma e só dali se aplicam à natureza? Por isso também é
propriamente da alma que a religião dirige seu olhar e de onde toma
as intuições do mundo; o Universo se reflete na vida interior, e só
mediante o interior é compreensível o exterior. Porém também o
âmago deve, se tem de produzir a religião e nutrí-la, ser intuído em
um mundo. Permitam-me vos esclarecer um segredo que jaz oculto
em um dos documentos mais antigos da poesia e da religião7. En­
quanto que o primeiro homem se encontrava só consigo e com a
natureza, a Divindade imperava certamente sobre ele, ela lhe inter­
pelava de diferentes maneiras, porém o homem não a compreendia,
pois este não lhe contestava; seu paraíso era formoso e desde um
belo céu descendia até ele o brilho dos astros, mas não chegou a
possuir o sentido para o mundo; tão pouco se desenvolveu dito sen­
tido desde o interior de sua alma; porém seu espírito era espoliado
pela recordação de um mundo, e deste modo congregou ante si a
criação animal, olhando se acaso se poderia formar um a partir dela.
Então a Divindade reconheceu que seu mundo não é nada enquanto
o homem estiver só, lhe criou a companheira, e só nesse momento se
fizeram sentir nele acentos vivos e engenhosos, só nesse momento
se abriu o mundo ante seus olhos. Na carne de sua carne e nos ossos
de seus ossos descobriu a humanidade, e na humanidade, o mundo;
a partir deste instante foi capaz de ouvir a voz da Divindade e de
respondê-la, e a transgressão mais nefasta de Suas leis já não o
excluiu nunca, a partir de agora, do trato com o Ser etemo. A histó­
ria de todos nós está narrada nesta sagrada lenda. Inutilmente está aí
presente tudo isso para aquele que se propõe uma vida solitária, pois
para intuir o mundo e para possuir religião, o homem deve ter

7 Cf. Gênesis 2.
54 E d it o r a N o v o S é c u l o L t d a

encontrado primeiro a humanidade, e ele só a encontra no amor e


através do amor. Por isto estão ambos tão íntima e tão inseparavel-
mente unidos: o desejo da religião é o que lhe ajuda no gozo da
religião. Todos abraçam da maneira mais apaixonada àquele no qual
o mundo se reflete de um modo mais claro e puro; todos amam com
a maior ternura àquele no qual crêem encontrar compendiado tudo o
que lhes falta para constituir a humanidade. Passemos, portanto,
à consideração da humanidade, aí encontramos matéria para a
religião.
Aqui também vos encontrais em vossa pátria mais autêntica e
amada; aqui aflora vossa idéia mais íntima; vede ante vós a meta de
todos os vossos esforços e de vossa atividade e sintais por sua vez o
impulso interno de vossas forças, que vos conduz permanentemente
em direção a essa meta. Para vós a humanidade mesma é propria­
mente o Universo, e todo o demais só o incluis neste na medida em
que se relaciona com aquela ou a abarca. Tão pouco eu quero vos
conduzir para mais além deste ponto de vista, porém amiúde, tenho
lamentado intimamente que vós, apesar de todo vosso amor para
com a humanidade e de todo vosso zelo por ela, vos encontreis sem­
pre, não obstante, em uma relação conflitiva e discordante com a
mesma. Vós vos molestais, cada um a sua maneira, em contribuir
para seu melhoramento e a sua formação, e finalmente deixais jazer,
desmoralizados, o que não conduz a nenhuma meta. Posso afirmar
que isto também é devido a vossa carência de religião. Quereis atuar
sobre a humanidade e considerais os homens individualmente. Estes
vos desagradam sobremaneira, e entre as mil causas que isto pode
ter, a mais bela indiscutivelmente, e que é própria dos melhores,
consiste em que sois precisamente demasiado morais, segundo vos­
so estilo. Vós tomais aos homens individualmente e assim tendes
um ideal de indivíduo que, todavia, não correspondem. Tudo isto,
juntamente, constitui um enfoque equivocado, e com a religião vos
encontrareis muito melhor. Só é preciso que intenteis intercambiar
os objetos de vossa atividade e de vossa intuição! Atuai sobre os
indivíduos, porém, em vossa contemplação, elevai-os mais alto,
sobre as asas da religião, para a humanidade infinita, indivisa; bus­
cada em cada indivíduo, considerai a existência de cada um como
uma revelação dela a vós, e não poderá ficar rastro algum de tudo
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher 55

que agora vos oprime. Eu, ao menos, me valho também de uma con­
vicção moral, eu sei também valorizar a excelência humana, e o
comum, considerado em si, pode quase angustiar-me com o senti­
mento desagradável de menosprezo; porém de tudo isto, a mim me
oferece a religião uma visão certamente elevada e grandiosa. Imagi­
nemos o gênio da humanidade como o artista mais consumado e
universal. Ele não pode fazer nada que não tenha uma existência
peculiar. Até ali de onde não parece mais do que provar as cores e
afinar o pincel, surgem elementos vivos e significativos. Deste modo
concebe em si inumeráveis figuras e lhes dá forma. Milhões delas
levam a indumentária da época e são imagens fiéis de suas necessi­
dades e de seu gosto; noutras se mostram lembranças de tempos
passados ou pressentimentos de um futuro distante; algumas são a
amostra mais elevada e conquistada do mais belo e divino. Outras
são produtos grotescos do capricho mais original e fugaz de um vir­
tuoso. E uma concepção irreligiosa pensar que ele modela vasos de
honra e vasos de desonra8; não considereis nada separadamente,
antes deleitai-vos com cada coisa no lugar em que se encontre. Tudo
o que pode ser percebido por sua vez se encontra, por assim dizê-lo,
sobre uma só lâmina, pertence a um grande quadro histórico, que
representa um momento do Universo. Quereis depreciar o que
enaltece aos grupos principais e dá ao todo vida e plenitude? Não
devem as figuras celestes individuais serem louvadas pelo fato de
que outras mil se dobrem ante elas e de que se veja como tudo apon­
ta na direção delas e se refere a elas? De fato há nesta representação
algo mais do que uma metáfora trivial. A humanidade eterna esta
infatigavelmente ocupada em criar-se a si mesma e em expressar-se
das formas mais variadas na manifestação efêmera da vida finita.
Em que consistiria, por certo, a repetição de um ideal supremo, de
onde em realidade os homens, fazendo abstração do tempo e das
circunstâncias, são propriamente uma mesma coisa, a mesma fór­
mula, só unida segundo outros coeficientes, que seria dita repetição
relativo a esta diversidade infinita das manifestações humanas? Tomai
o elemento da humanidade que queirais: encontrareis cada um des­
tes em todos os estados possíveis, quase desde seu estado puro -

Romanos 9.21; 2 Timóteo 2.20-21.


56 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

pois a pureza total não se encontra em nenhuma parte em todo


tipo de mescla com qualquer outro, até chegar quase a saturação
mais íntima com todos os restantes - pois também esta representa
um extremo inalcançável e preparai a mescla de qualquer modo
possível, ensaiando todas as variedades e qualquer rara combina­
ção. E, se todavia, podeis imaginar conexões que não vedes realiza­
das, no dito caso esta lacuna constituiria também uma revelação
negativa do universo, uma indicação de que na temperatura atual do
mundo esta mescla não é possível no grau requerido, e de que vossa
fantasia sobre este ponto constitui uma perspectiva que vai mais além
dos limites atuais da humanidade, uma verdadeira inspiração divina,
uma profecia involuntária e inconsciente acerca do que acontecerá
no futuro. Porém, assim como isto, que parece achar-se em erro no
que se refere à exigida diversidade infinita, não tem de considerar-
se realmente como uma deficiência, tão pouco se tem de considerar
como excessivo o que assim vos parece, desde vosso ponto de vista.
Aquela superabundância, tão amiúde lamentada das formas mais
comuns da humanidade, que retomam sempre imutáveis sobre mil
exemplares, a religião a declara uma aparência vazia. O entendi­
mento etemo postula, e também o finito pode compreender, que aque­
las figuras nas quais o particular é mais difícil de diferenciar devem
estar acopladas entre si da forma mais compacta; porém cada uma
tem algo de peculiar: ninguém é igual a outro, e na vida de cada um
há algum momento, como a aparência prateada de metais menos
nobres, de onde ele, seja mediante a aproximação íntima de um ser
superior ou mediante qualquer descarga elétrica, é transportado, por
assim dizê-lo, para fora de si e é conduzido a um nível mais elevado
do que ele pode ser. Ele foi criado com vistas a este instante, neste
alcançou seu destino, e depois do mesmo decai novamente a esgota­
da força vital. Constitui um prazer peculiar ajudar a almas simples a
alcançar este momento ou contemplá-las nele; porém toda sua exis­
tência deve sem dúvida parecer-lhe supérflua e depreciável a quem
não tem chegado a realizar esta experiência. Deste modo a existên­
cia de cada um possui um duplo sentido em relação com o todo. Se
inibo mentalmente o curso daquela engrenagem incessante, através
da qual todo o humano se entrelaça mutuamente e se faz dependente
entre si, então todo o indivíduo é, segundo sua essência íntima, uma
S o b r e a R e lig iã o - F. D. E. Schleiermacher £

peça complementar necessária para a intuição plena da humanidade,


O uno me mostra como cada partícula arrancada da mesma, só com
que o impulso formativo interno, que anima o todo, pode seguir
atuando aí tranqüilamente, toma figura em formas delicadas e regu-
lares; o outro, por falta de calor vivificador e unificador, não pode
ser submetido à dureza da matéria terrena, ou antes como, em uma
atmosfera agita demasiado violentamente, o espírito mais concen­
trado é perturbado em sua atividade e tudo se toma insignificante e
indiscemível; o uno aparece como a parte rude e animal da humani­
dade, movido somente, por certo, pelos primeiros impulsos torpes
da condição humana; o outro, como o espírito deflegmatizado mais
puro que separado de todo o mais baixo e indigno, só com pé ligeiro
projeta-se sobre a terra, e todos se encontram ali para mostrar me­
diante sua existência como estas diferentes partes da natureza
humana atuam separadas e detalhadamente. Não se tem de conside­
rar suficiente que entre essa massa inumerável haja sempre, não
obstante, alguns que enquanto representantes excelentes e superio­
res da humanidade, o uno tenha que soar este, e o outro aquele acor­
de melódico que não necessitam de nenhum acompanhamento
estranho e de nenhuma dissolução posterior, senão que mediante sua
harmonia interna fascinam e enchem a alma inteira com o mesmo
som? Se observo, pelo contrário, as rodas eternas da humanidade
em seu movimento, esta engrenagem inabarcável em que nada mó­
vel se move totalmente por si mesmo e nenhum motor se move a si
mesmo, deve tranqüilizar-me poderosamente no que diz respeito a
vossa queixa de que a razão e a alma, a sensibilidade e a moralidade,
o entendimento e a força cega apareçam em massas tão separadas.
Por que considerais isoladamente tudo que, não obstante, não atua
separadamente e para si? Pois a razão dos uns e a alma dos outros se
interrelacionam de uma forma tão íntima, como só poderia ocorrer
em um mesmo sujeito. A moralidade, que corresponde àquela sensi­
bilidade, está situada fora da mesma: é por isso seu domínio mais
limitado e crereis que esta estaria melhor orientada se aquela fosse
repartida a cada indivíduo em pequenas doses, apenas perceptíveis?
A força cega que se lhe tem concedido à grande massa não tem sido
abandonada, em seus efeitos sobre o todo, a si mesma e a um tosco
acaso, senão que amiüde, sem sabê-lo, a dirige aquele entendimento
58 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

que em outros pontos vós vedes concentrado em tão grandes propor­


ções e ela o segue, assim mesmo inconscientemente, através de
vínculos invisíveis. Deste modo se me desvanecem, desde meu pon­
to de vista, os contornos da personalidade que vos aparecem tão
precisos; o círculo mágico das opiniões imperantes e dos sentimen­
tos epidêmicos envolve e joga com tudo, como uma atmosfera
saturada de forças dissolventes e magnéticas; ela funde e une tudo e,
mediante a difusão mais viva, põem em uma conexão ativa até o
mais distanciado e as emanações daqueles dos quais a luz e a verda­
de habitam de uma maneira autônoma, as transporta diligentemente,
de forma que elas penetram em alguns e a outros lhes iluminam a
superfície de uma forma deslumbrante e chamativa. Esta é a harmo­
nia do Universo, a admirável e grande unidade em sua eterna obra
de arte; porém vós ultrajais esta magnificência com vossas exigênci­
as concernentes a uma lamentável particularização, porque, deten-
do-vos no primeiro vestíbulo da moral, e incluindo o que se refere a
esta, centrando-vos todavia nas noções elementares, desdenhais a
religião superior. Vossa indigência tem ficado bastante patente; só
cabe desejar que a reconheçais e lhe encontrareis remédio! Vejam
se, entre todos os acontecimentos nos quais se reflete esta ordem
celestial, não se manifesta um como um signo divino. Mostrai-vos
receptivos a um antigo conceito recusado e buscai entre todos os
homens santos, nos que a humanidade se revela imediatamente, a
um que pudesse ser o mediador entre vossa estreita forma de pensar
e os limites eternos do mundo; e quando não tenhais encontrado
percorreis toda a humanidade e deixai que tudo o que até agora vos
pareceu ser diferente seja iluminado pelo reflexo desta nova luz.
Destas peregrinações através de todo o domínio do humano a reli­
gião retoma ao próprio eu com o sentido mais afinado e com o juízo
mais formado, e encontra finalmente em si mesma tudo o que foi
recompilado a partir das regiões mais distantes. Se haveis chegado
até este ponto, encontrareis em vós mesmos não só os elementos
fundamentais relativos ao mais belo e ao mais baixo, ao mais nobre
a ao mais desprezível, que vós haveis percebido em outros como
aspectos particulares da humanidade. Em vós não só descobris, em
diferentes épocas, toda a diversidade de graus das forças humanas,
senão todas as inumeráveis mesclas das diferentes atitudes que haveis
S o b r e a R e lig íã o - F. D. E. Schleiermacher 59

observado nos caráteres de outros indivíduos, que se vos apresen­


tam tão só como momentos detidos de vossa própria vida. Houve
momentos nos quais vós pensastes assim, sentistes assim, trabalhastes
assim, nos quais vós éreis este ou aquele homem, apesar de todas as
diferenças de sexo, de cultura e de contorno externo. Vós haveis
percorrido realmente todas estas diferentes figuras segundo vossa
própria ordem; vós mesmos sois um compêndio da humanidade, vossa
personalidade abarca num certo sentido toda a natureza humana, e
esta não é em todas suas manifestações outra coisa que vosso pró­
prio eu, multiplicado, mais claramente louvado e imortalizado em
todas as suas mutações. Aquele em quem a religião se tem dobrado
assim de novo para dentro e também tem encontrado ali o Infinito,
nesse tal a religião tem alcançado sua perfeição, a este respeito, ele
já não necessita de nenhum mediador para nenhuma intuição da
humanidade e pode sê-lo, Ele mesmo, para muitos.
Porém não só deveis contemplar a humanidade em seu ser,
senão assim mesmo em seu devir; também ela possui uma trajetória
mais ampla que percorre não retomando senão avançando progres­
sivamente, também ela mediante suas mutações internas é formada
ulteriormente no que se refere ao superior e o perfeito. Estes pro­
gressos a religião não quer, ponhamos por hipótese, acelerá-los ou
dirigí-los; contentem-se com o fato de que o finito só possa atuar
sobre o finito; só pretende observá-los e percebê-los como uma das
maiores ações do Universo. Conectar entre si os diferentes momen­
tos da humanidade e conjeturar, mediante sua sucessão, o espírito a
que é conduzido o todo: tenho aí seu conteúdo supremo. A história
no sentido mais pleno da palavra constitui o objeto supremo da reli­
gião, com ela se inicia e com ela conclui - pois a profecia é a seus
olhos também história, e ambas instâncias não se tem de diferenciar
entre si - , e toda verdadeira história tem tido primeiramente, por
onde for, uma finalidade religiosa e tem partido de idéias religiosas.
Deste modo, também se encontram neste âmbito as supremas e mais
sublimes intuições da religião. Aqui vereis que a migração dos espí­
ritos e das almas, que em outro caso só parece uma delicada constru­
ção poética, se apresenta em mais de um sentido como uma admirável
organização do Universo para comparar os diferentes períodos da
humanidade de acordo com uma medida segura. Ora retoma de novo
60 E d it o r a N o v o S é c u l o L td a

depois de um grande intervalo, no qual a natureza não pode produzir


nada semelhante, algum indivíduo excelente, exatamente o mesmo;
porém só os videntes o reconhecem e só estes tem de julgar as mani­
festações das diferentes épocas, a partir dos efeitos que ele produz
agora. Ora retoma um momento particular da humanidade comple­
tamente tal como um passado distante vos tem legado sua imagem, e
vós deveis reconhecer a partir das diferentes causas, mediante as
que têm sido gerado agora, o curso do Universo e a formulação de
sua lei. Ora desperta de seu sono o gênio de alguma atitude humana
particular, que ascendendo e descendendo aqui e ali já havia consu­
mado seu curso, e aparece em outro lugar sob outras circunstâncias
vivendo uma vida nova, e seu desenvolvimento mais rápido, sua ação
mais profunda, sua figura mais bela, mais vigorosa, deve por de
manifesto em que grande medida tem melhorado o clima da humani­
dade e o solo se tem tomado mais idôneo para alimentar plantas
nobres. Aqui povos e gerações dos mortais se vos apresentam da
mesma maneira que se nos apresentam em nosso ponto de vista an­
terior os homens tomados individualmente. Alguns, veneráveis e
ingeniosos, prosseguem tenazmente sua ação até o infinito sem
levar em consideração o espaço nem o tempo. Outros, ordinários e
irrelevantes só estão destinados propriamente a matizar uma forma
particular de vida ou de união, vivendo realmente e de uma maneira
memorável só um momento, unicamente para expor um pensamen­
to, para formar um conceito, e depois, correndo em direção à des­
truição para que este resultado de seu mais belo esplendor possa ser
infundido em outro. Assim como a natureza vegetal, por causa da
extinção de espécies inteiras e partindo das ruínas de gerações intei­
ras de plantas, produz e alimenta outras novas, assim também vereis
que aqui a natureza espiritual produz, a partir das ruínas de um mun­
do humano grandioso e belo, outro mundo novo que suga sua pri­
meira força vital dos elementos decompostos, e admiravelmente
transformados, do primeiro. Se aqui, na contemplação de uma cone­
xão geral, vossa visão é conduzida tão amiúde desde o menor até o
maior, e de novo, desde este até aquele e se move entre ambos medi­
ante oscilações vivas, até que, vítima de vertigem, não pode distin­
guir ulteriormente nem o grande nem o pequeno, nem a causa nem o
efeito, nem a conservação nem a destruição, então se manifesta a
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher

figura de um destino eterno, cujas características levam todl I


estampa deste estado, uma mescla admirável de rígida obstinação ê
de profunda sabedoria, de violência rude, desalmada e de amor ínti­
mo, dos que vos impressiona, de uma maneira alternativa, ora a um,
ora a outro, e vos convida a uma obstinação impotente, a uma entre­
ga infantil. Se comparardes a tensão particular do indivíduo, surgida
destes pontos de vista opostos, com o curso aprazível e uniforme do
todo, vereis como o excelso espírito do mundo se projeta risonho
sobre todo o existente, que se lhe resiste ruidosamente; vereis como,
seguindo seus passos, a augusta Némesis* percorre incansavelmen­
te a terra, como ela reparte castigos e penas aos envaidecidos, que se
opõem aos deuses, e como ela com mão de ferro decapita também ao
mais valente e ao mais excelente, que quiçá com firmeza encomiável
e digna de admiração, não tem querido dobrar-se ante o suave alento
do grande espírito. Por último, se quereis apreender o caráter pró­
prio de todas as mudanças e todos os progressos da humanidade, a
religião vos mostra como os deuses viventes não odeiam nada a não
ser a morte, como nada deve ser perseguido e desejado a não ser ela,
a primeira e a última inimiga da humanidade. O rude, o bárbaro, o
informe devem ser devorados e transmutados em uma formação or­
gânica. Nada deve ser massa morta movida somente pelo impulso
morto e que só oferece resistência mediante uma fricção inconscien­
te: tudo deve ser vida própria, composta, entrelaçada e enaltecida
de múltiplas maneiras. O instinto cego, a habituação acrítica, a obe­
diência morta, todo o negligente e passivo, todos estes tristes sinto­
mas de asfixia da liberdade e da humanidade devem ser destruídos.
Neste sentido se orienta a tarefa do momento presente e dos séculos,
tal é a grande obra redentora, sempre perseguida, do eterno amor.

* Na religião grega, o nome de duas concepções divinas. A primeira era uma deusa talvez
da fertilidade, adorada em Rhamnus na Atica, que era muito similar a Artemis (a deusa
dos animais selvagens, da vegetação, do parto e da caça).
A segunda entidade divina deste nome era uma abstração, isto é, uma indignante desapro­
vação a atos imorais ou ilegais, particularmente a desaprovação dos deuses às presunções
humanas, e também a eventual personificação da desaprovação, cujo o primeiro altar, foi
dito ter sido erigido em Boeotia por Adrastus, líder dos Sete Contra Tebas.
Seu culto era muito popular em Roma, especialmente entre os soldados por quem BB
adorada como patrona dos campos de exercícios militares. (N. do T.)
62 Editora Novo Século Ltda

Só com ligeiros traços tenho esboçado algumas das intuições


mais relevantes da religião no âmbito da natureza e da humani­
dade; porém aqui vos tenho conduzido até o limite extremo de vosso
campo visual. Aqui conclui a religião para quem a humanidade e 0
Universo são realidades equivalentes: desde aqui eu só poderia con­
duzir-vos aos aspectos particulares e menos relevantes. Mas não
creiais que isto constitui ao mesmo tempo o limite da religião. Mas
antes se tem de dizer que ela não pode deter-se propriamente aqui e
que só desde o outro lado deste ponto se abre verdadeiramente a
perspectiva do Infinito. Se a humanidade mesma é algo móvel e plás­
tico, se ela não só se representa de formas diversas em suas configu­
rações particulares, senão que também aqui e ali se volta diferente,
não caiais na conta de que então é impossível que possa ser ela mes­
ma o Universo? Mas antes a humanidade se relaciona com ele de
uma forma análoga ao fato de como os homens tomados individual­
mente se relacionam com ela; a humanidade não é mais que uma
forma particular do Universo, manifestação de uma única modifica­
ção de seus elementos; deve haver outras formas análogas pelas quais
ela é delimitada e as que, portanto, se opõem. A humanidade é tão só
um membro intermediário entre o indivíduo e o Uno, um lugar de
descanso no caminho em direção ao infinito, e seria preciso encon­
trar todavia no homem um caráter superior à sua humanidade para
referí-lo imediatamente, a ele e a sua manifestação, ao Universo.
Toda religião tende a este pressentimento de algo que existe fora e
acima da humanidade para ser impressionada pelo que há de comum
e superior em ambas; porém isto constitui também o ponto de onde
seus perfis se diluem ante o olhar comum, de onde ela mesma se
distância cada vez mais dos objetos particulares com referência aos
quais ela pode fixar seu caminho, e de onde a aspiração em direção
ao supremo nela é mais considerada como insensatez. Baste também
com esta alusão ao que se encontra tão infinitamente próximo de
vós; qualquer ulterior palavra sobre isto constituiria um discurso
incompreensível, do que não saberias nem de onde vem, nem em
que direção vai. Se tivésseis ao menos a religião que poderíeis ter e
se fósseis ao menos conscientes daquela que vós já tendes realmen­
te! Pois de fato, apesar de só tomardes em consideração as poucas
intuições religiosas que tenho esboçado agora em grandes traços,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 63

cairíeis na conta de que distam muito ser-vos todas estranhas. Mas


antes algo relativo a elas tem penetrado em vosso âmago, porém eu
não sei que desgraça é maior, se carecer totalmente delas ou se não
compreendê-las, pois também deste modo seu efeito na alma se ma­
logra totalmente, e a este respeito também vos haveis enganado a
vós mesmos. A sanção que recai sobre tudo que quer se opôr ao
espírito do Todo, o ódio, ativo por onde for, contra todo o insolente
e desavergonhado, o constante progresso de todas as coisas huma­
nas em direção a uma meta, um progresso que é tão seguro que nós,
depois de muitos intentos falidos, vemos não obstante coroar final­
mente com êxito a cada pensamento e esboço particulares, que apro­
ximam o Todo a esta meta: tenho aqui intuições que saltam de tal
maneira à vista, que elas podem ser consideradas mais como uma
indução do que como um resultado da contemplação do mundo.
Muitos de vós tendes assim mesmo consciência delas, alguns as de­
nominam também religião, porém querem que a religião consista
exclusivamente nisto; e mediante esta forma de proceder querem
excluir tudo o mais, o qual, não obstante, provém da mesma forma
de atuar da alma e se deriva dela totalmente do mesmo modo. Como
tem chegado, pois, a estes fragmentos desconexos? Vô-lo quero
dizer: estes não consideram isto em absoluto como religião, à que
depreciam igualmente, senão como moral, e querem tão só substi­
tuir o nome para assentar o último golpe à religião - a saber, ao que
consideram tal. Se não querem admitir isto, perguntai-lhe então por
que com a mais estranha unilateralidade só encontram tudo isto no
âmbito da moralidade. A religião não sabe nada de uma tal preferên­
cia partidária; o mundo moral é tão pouco para ela o Universo, e o
que só for válido para este mundo moral não constituiria para ela
nenhuma intuição do Universo. Em todo o âmbito da atividade hu­
mana, tanto no lúdico como no sério, no menor como no maior, ela
sabe descobrir e perseguir as ações do espírito do mundo; o que ela
tem de perceber é preciso que possa percebê-lo por onde for, pois só
desta forma se converte em seu, e deste modo também descobre uma
Némesis divina precisamente no fato de que aqueles que, dado que
nestes mesmos só domina o moral ou o jurídico, fazem da religião
um mero apêndice sem importância da moral, e só querem tomar
dela o que se pode adequar a dito fim; no fato de que precisamente
64 Editora Novo Século Ltda

deste modo corrompem de uma maneira irreparável sua moral por


muito depurada que também já possa encontrar-se em si e espalham
o gérmen de novos erros. Soa muito bem declarar: se se sucumbe na
ação moral, isto é vontade do Ser eterno e o que nós temos omitido
se realizará em outra oportunidade; porém tão pouco este elevado
consolo é válido no que se refere à moralidade; nenhuma gota de
religião pode mesclar-se com esta sem, por assim dizê-lo, flogis-
tizá-la9 e despojá-la de sua pureza.
Esta ignorância completa acerca da religião se revela de for­
ma mais clara nos sentimentos relativos à mesma, que todavia estão
entre os mais difundidos entre vós. Por muito intimamente que estes
se encontrem unidos com aquelas intuições, por muito necessaria­
mente que também brotem delas e só possam ser explicados a partir
delas, são não obstante completamente mal interpretados. Quando o
espírito do mundo se nos tem revelado majestosamente, quando
temos espiado sua atividade, que discorre segundo leis tão magnífi­
cas e tão grandiosamente concebidas, que coisa é mais natural que
estar penetrados por uma íntima veneração ante o Eterno e o Invisí­
vel? E quando temos intuído o Universo e desde ali voltemos o olhar
ao nosso eu que, comparado a ele, desaparece no infinitamente pe­
queno, que atitude mais indicada pode haver para o mortal que a de
uma humildade verdadeira e sincera? Quando na intuição do mundo
percebemos também nossos irmãos e vemos claramente como cada
um destes, sem distinção é, desde este ponto de vista, precisamente
o mesmo que somos nós, uma manifestação peculiar da humanida­
de, e como a existência de cada um destes não imprescindível para
intuir a humanidade, que coisa é mais natural que abraçá-los a todos
com íntimo amor e afeto, sem levar em conta a diferença das convic­
ções e da força de espírito? E se, de sua conexão com o Todo, voltar­
mos o olhar a seu influxo sobre nossas peripécias pessoais, e se então
se apresentam ante nossos olhos aqueles que tem cedido em seu
intento de ampliar e isolar seu próprio ser caduco, para manter o
nosso, como não haveremos de sentir um parentesco particular para
com aqueles cujas ações tenham, defendido alguma vez nossa exis-

9 A teoria do Flogisto foi concebida no Século XVIII pelo médico e químico alemão Sthal,
com vistas a explicar o fenômeno da combustão. Lavoisier foi o primeiro a recusá-la.
Sobre a Reugião - F. D. E. Schleiermacher II

(ência e nos tenham conduzido felizmente através de seus perigos?


Como não temos de abrigar o sentimento agradecido, que nos im­
pulsiona a honrá-los como quem se tem unido com o Todo e são
conscientes de viver nele? Se, pelo contrário, consideramos o modo
de proceder habitual dos homens, que não sabem nada acerca desta
dependência, se consideramos como estes largam mão disto e aqui­
lo, e o retém para entrincheirar o seu eu e circundá-lo com múltiplas
obras externas, para poder levar uma existência independente, se­
gundo o próprio arbítrio, e para que a corrente eterna do mundo não
lhes ocasione nem um transtorno nisto, e como então o destino, de
uma forma necessária, faz desvanecer tudo isto e a estes mesmos os
fere e atormenta de mil maneiras, que há então mais natural que a
compaixão mais cordial ante todo o sofrimento e dor que surgem
deste combate desigual, e ante todos os conflitos que a temível
Némesis semeia por onde for? E quando temos averiguado que é
então aquilo que no decurso da humanidade tem de ser conservado e
fomentado por onde for e o que, de uma forma inevitável, mais cedo
ou mais tarde, tem de ser submetido e destruído, se não se deixa
transformar e mudar, e se voltarmos então a vista desde esta lei até
nossa própria atividade neste mundo. Que é mais natural que um
arrependimento contrito de tudo aquilo que em nós é hostil ao gênio
da humanidade, que o desejo humilde de reconciliar-se com a Di­
vindade, que o mais ardente desejo de converter-se e de pôr-nos a
salvo, com tudo o que nos pertence, naquela zona sagrada, só na
qual existe segurança contra a morte e a destruição? Todos estes
sentimentos são religião, e assim mesmo todos os outros, nos que
por uma parte o Universo e por outra, de alguma maneira, vosso
próprio eu constituem os dois pólos entre os quais oscila o âmago.
Os antigos o sabiam bem: chamavam piedade a todos estes senti­
mentos e os referiam imediatamente à religião, da que eram para
estes a parte mais nobre. Também vós os conheceis, porém quando
vos encontrais com algo assim quereis persuadir que se trata de algo
moral, e é na moral onde quereis situar estas sensações; porém a
moral não as deseja nem as tolera. Ela não deseja nenhum amor nem
nenhum afeto, senão atividade, que surge completamente desde a
interioridade e não é provocada pela consideração de seu objeto
externo; ela não sente respeito sehão ante sua lei; ela condena como
66 Editora Novo Século Ltda

impuro e egoísta aquilo cujo móvel pode ser a compaixão e o agra­


decimento; ela humilha, deprecia inclusive a humanidade e se vós
falais de arrependimento, ela fala de tempo perdido, que vós
incrementais inutilmente. Também vosso sentimento mais íntimo
deve mostrar-se de acordo com ela no fato de que em todas estas
sensações não se tem como ponto de vista o fazer; elas existem em si
mesmas e concluem em si mesmas como funções de vossa vida mais
íntima e mais elevada. Portanto, por que vos enredais e solicitais a
graça para elas ali onde não está seu lugar? Porém, se vos advirdes a
considerar que elas são religião, não necessitareis exigir para as
mesmas outra coisa que seu próprio estrito direito e não vos enga-
nareis a vós mesmos com pretensões infundadas, que estais inclina­
dos a compartilhar em seu nome. Agora bem, trata-se da moral ou de
qualquer outro âmbito, no qual encontrareis sentimentos semelhan­
tes, estes só se encontram ali como usurpados; devolvendo-os à reli­
gião, só a ela pertence este tesouro, e enquanto proprietária do mesmo
não está a serviço da moral, nem de tudo o que constitui um objeto
da atividade humana, senão que se representa como amiga impres­
cindível e como sua porta vos é sua mediadora mais válida ante a
humanidade. Tal é o nível em que se situa a religião e de uma forma
especial, o que há de auto-ativo nela, seus sentimentos. Que só ela
concede universalidade ao homem é algo a que já tenho aludido uma
vez; agora posso explicar isto de uma forma mais precisa. Em toda
atividade e ação seja de caráter moral, filosófica ou artística, o
homem deve aspirar ao virtuosismo, e todo virtuosismo gera frieza,
unilateralidade e dureza. Ele dirige o espírito do homem diante de
tudo a um só ponto, e este ponto é sempre algo finito. Pode desta
maneira o homem, progredindo de uma operação limitada a outra,
fazer uso realmente de toda sua força infinita? Não ficará antes sem
utilizar a maior parte dela e se voltará por isso contra ele mesmo e o
devorará? Quantos de vós vão a pique só porque são demasiados
grandes para si mesmos; uma super-abundância de força e impulsos,
que não lhes permite chegar nunca a produzir uma obra, posto que
nenhuma seria adequada a esta abundância, lhes impulsiona de uma
forma inconstante de um lado para o outro e é sua perdição. Quereis
acaso remediar de novo este mal, de forma que aquele para quem um
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 67

destes três objetos de esforço humano10 seja demasiado grande,


tenha de unir estes três objetos ou, se conheceis mais, todavia, tam­
bém tenha de agregá-los a estes? Tal seria certamente vosso antigo
desejo, sempre recorrente, de dispor da humanidade por onde for
como feita de uma só peça. Mas se isso for possível, se aqueles
objetos, tão logo como são apreendidos individualmente pela vista,
não estimularam o espírito tão uniformemente e aspiraram a dominá-
lo! Cada um destes quer realizar obras, cada um tem um ideal a que
aspira e uma totalidade, que ele quer alcançar, e esta rivalidade não
pode concluir de outra maneira que suplantando um ao outro. Em
que há de utilizar, portanto, o homem o excedente de força que lhe
deixa toda a aplicação regulada e metódica de seu impulso formativo?
Não tem de utilizá-lo de forma que ele pretenda formar de novo
alguma coisa distinta e desenvolve sua atividade sobre alguma outra
realidade finita, senão de forma que, sem exercer uma atividade
determinada, se deixe impressionar pelo Infinito e que mediante todo
gênero de sentimentos religiosos manifeste sua reação com respeito
a essa ação. Seja qual for aquele destes três objetos de vossa ativida­
de livre e metódica que vós tenhais escolhido, só se requer um pou­
co de sentido para encontrar, a partir de qualquer destes, o Universo,
e neste último descobrirdes então também os demais como sua pres­
crição ou como sua insinuação ou como sua revelação; contemplá-
los e considerá-los assim em conjunto, não como algo separado e
determinado em si, é a única maneira como vos podeis apropriar
também, havendo elegido já uma direção do espírito, daquilo que se
encontra fora da mesma, e isto de novo, não por arbitrariedade
enquanto arte, senão por instinto do Universo enquanto religião; e
posto que esses objetos rivalizam de novo entre si, igualmente sob a
forma religiosa, assim também a religião aparece com maior fre­
qüência desagregada como poesia natural, filosofia natural ou moral
natural, que na plenitude de sua forma e unificando-o todo. Deste
modo, o homem acrescenta ao finito, ao que lhe impulsiona seu ar­
bítrio, uma infinitude; e à aspiração que tende a concentrar-se em
algo determinado e acabado a oscilação ampliada em direção ao
indeterminado e inesgotável; deste modo ele lhe proporciona à sua

10 Na segunda edição se matiza que estes três objetos são a arte, a ciência e a vida.
68 Editora Novo Século Ltda

força supérflua uma saída infinita e restabelece a harmonia e o equi­


líbrio de seu ser, que se perdem irremissivelmente se se abandona a
uma direção particular, sem ter por sua vez religião. O virtuosismo
de um homem constitui só, por assim dizê-lo, a melodia de sua vida,
e fica reduzida a uma série de tons descontínuos, se não se agrega à
religião. Esta acompanha àquela melodia em uma variação infinita­
mente rica de todas as tonalidades, que não se lhe opõem por com­
pleto, e transforma assim o simples canto da vida em uma deliciosa
harmonia polifônica.
Se isto que tenho esboçado, espero que de uma forma sufi­
cientemente compreensível para todos vós, constitui propriamente a
essência da religião, não é difícil contestar a pergunta relativa a que
âmbito pertence aqueles dogmas e proposições doutrinais que são
consideradas comumente como o conteúdo da religião. Alguns não
são mais que expressões abstratas de intuições religiosas; outros são
reflexões livres acerca da atividade originária do sentido religioso,
resultado da comparação da visão religiosa com a comum. Tomar o
conteúdo de uma reflexão pela essência da ação, sobre a que se
reflete; constitui um erro tão comum que vós não vos surpreendeis
de encontrá-lo também aqui. Milagres, inspirações, revelações, sen­
sações sobrenaturais: se pode ter muita religião sem haver tropeça­
do em nenhum destes conceitos; porém quem reflete sobre sua
religião desde uma ótica comparativa, os encontra inevitavelmente
em seu caminho e é impossível que possa os esquivar. Desde este
ponto de vista, pertencem desde já todos estes conceitos ao âmbito
da religião, e certamente de uma maneira incondicionada, sem que
se possa determinar o limite mínimo de sua aplicação. A discussão
sobre que acontecimento é propriamente um milagre, e em que con­
siste propriamente seu caráter, quantas revelações possa efetivamente
haver, e em que medida e porque se deva crer propriamente nelas, e
o empenho manifesto de excluir esta problemática na medida em
que o permitam os bons modos e as convenções, na néscia opinião
de render com isto um serviço à filosofia e à razão, constitui uma
das operações infantis dos metafísicos e moralistas no que se refere
à religião; entremesclam todos os pontos de vista e convertem à reli­
gião em vítima do clamor segundo o qual ela seria lesiva para a
totalidade dos juízos científicos e físicos. Vos rogo que não vos deixeis
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 69

confundir, em detrimento da religião, por suas disputas sofistas e


sua hipócrita ocultação daquilo que desejariam manifestar muito
prazerosamente. A religião vos deixa intactos, por clamorosamente
que ela reivindique todos aqueles conceitos insultantes, vossa física
e seu Deus o quer, também vossa psicologia. Que é então um mila­
gre? Pois resolvam-me: em que língua - eu não falo certamente
daquelas que, como a nossa, têm surgido depois do desmoronamen­
to de toda religião - significa algo diferente de um signo, uma insi­
nuação? E assim todos estes termos não expressam outra coisa que a
relação imediata de um fenômeno com o Infinito, com o Universo;
porém, isto exclui que haja uma relação imediata com o finito e com
a natureza? O milagre não é mais que o nome religioso para designar
um acontecimento; todo acontecimento, até o mais natural, tão logo
se mostra apropriado para que a consideração religiosa do mesmo
possa ser dominante, é um milagre. Para mim, tudo é milagre; e
segundo vossa concepção, só é para mim um milagre, a saber, algo
inexplicável e estranho o que não é nada disso segundo meu ponto
de vista. Quanto mais religiosos fordes, tanto mais milagres vereis
por onde for, e toda disputa, num sentido ou noutro, acerca de acon­
tecimentos particulares, acerca de se merecem ser chamados deste
modo, só me produz a impressão dolorosa do pobre e precário que é
o sentido religioso dos contendentes. Uns mostram esta condição ao
protestar por onde for contra os milagres, e os outros pelo fato de
que a estes lhes importa especialmente isto e aquilo, e que um fenô­
meno deve apresentar uma aparência maravilhosa para que o consi­
derem um milagre. Que significa revelação? Toda intuição nova e
originária do Universo é uma revelação e cada qual certamente deve
saber melhor que ninguém o que é para ele originário e novo, e se
algo do que era nele originário todavia é novo para vós, então sua
revelação também o é para vós, e eu vos quero aconselhar que a
tomeis devidamente em consideração. Que significa inspiração? Não
é mais que o nome religioso para designar a liberdade. Toda ação
livre, que se converte em fato religioso, toda reprodução de uma
intuição religiosa, toda expressão de um sentimento religioso que se
comunica realmente, de forma que a intuição do Universo se trans­
mite também a outros, eram resultado da inspiração; pois se tratava
de uma ação do Universo, que um exerce sobre os outros. Toda ante­
70 Editora Novo Século Ltda

cipação da segunda parte de um acontecimento religioso, quando se


tem produzido a primeira, é uma profecia, e constituía uma atitude
muito religiosa por parte dos antigos hebreus avaliar a divindade de
um profeta não de acordo com o difícil que fosse o profetizar, senão,
com toda simplicidade, de acordo com o desenlace; pois não se pode
saber previamente se um entende de religião, até ver se também tem
captado de uma forma correta a visão religiosa, precisamente desta
coisa determinada, que lhe afetava. Que são os efeitos da graça?
Todos os sentimentos religiosos são sobrenaturais, pois só são reli­
giosos na medida em que são um efeito imediato do Universo, e a
questão de que se revestem um caráter religioso em alguém deve
admirá-la o afetado melhor que ninguém. Todos estes conceitos são
- se a religião tem de ter de algum modo conceitos - os primeiros e
mais essenciais; estes são tanto mais importantes devido ao fato de
que não só designam algo que pode ser geral na religião, senão pre­
cisamente aquilo que deve ser geral nela. Incluso caberia afirmar
que não tem religião alguma quem não vê milagres próprios desde a
perspectiva que contempla o mundo; aquele em cujo interior não
irrompem revelações próprias quando sua alma anela absorver a be­
leza do mundo e impregnar-se de seu espírito; quem não sente aqui e
ali, com a convicção mais viva, que um espírito divino o impulsiona
e que ele fala e age por inspiração divina; quem não é ao menos -
pois isto constitui de fato o grau mais inferior - consciente de seus
sentimentos enquanto efeitos imediatos do Universo e não reconhe­
ce nestes algo próprio, que não possa ser imitado, senão que credita
a pureza de sua origem em sua dimensão mais íntima. Crer, o que
comumente se designa com este nome, admitir o que outro tem feito,
querer voltar a pensar e a sentir o que outros tem pensado e sentido,
é uma servidão dura e indigna, e em vez de constituir o supremo na
religião, tal como se pensa, é algo do que se tem de libertar precisa­
mente quem deseje penetrar em seu santuário. Querer ter e conser­
var esta servidão, demonstra incapacidade para a religião; exigí-la
de outros mostra que não se a compreende. Vós quereis repousar por
onde for sobre vossos próprios pés e seguir vosso próprio caminho,
porém que esta atitude elogiável não vos retraia da religião. Ela não
é nenhuma escravidão nem nenhum cativeiro; também aqui deveis
pertencer-vos a vós mesmos, e até isto constitui a única condição
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 71

sob a qual podeis participar dela. Todo homem, com a exceção de


uns poucos escolhidos, necessita sem dúvida de um mediador, um
guia que desperte de seu sono inicial seu sentido para a religião e lhe
proporcione uma primeira direção, porém isto não tem de constituir
mais que um estado transitório; todos devem, pois, ver com os pró­
prios olhos e fazer eles mesmos uma contribuição aos tesouros da
religião; caso contrário, não merecem nenhum posto em seu reino e
tão pouco conseguem algum. Vós tendes razão em depreciar aos
miseráveis repetidores, que derivam de outro toda sua religião ou a
vinculam a uma escritura morta, juram sobre ela e realizam suas
demonstrações a partir dela. Toda escritura sagrada não é mais que
um mausoléu, um monumento da religião que atesta que esteve pre­
sente ali um grande espírito, que já não está mais; pois, se todavia,
vivera e atuara, como atribuiria um valor tão alto à letra morta, que
só pode constituir uma débil estampa do mesmo? Não tem religião
quem crê em uma escritura sagrada, senão o que não necessita de
nenhuma, pois até ele mesmo seria capaz de fazer uma. E precisa­
mente este desprezo que vós sentis pelos míseros e impotentes adep­
tos da religião, nos que ela por falta de alimento já está morta antes
de nascer, precisamente este desdém me demonstra que em vós mes­
mos se dá uma disposição para a religião e a estima de que sempre
fazeis objetos a todos os seus verdadeiros heróis, por muito que vos
rebeleis também contra a maneira em que se abusa dela e se a envilece
mediante a idolatria, me confirma nesta opinião. Vos tenho mostra­
do o que é propriamente a religião. Haveis encontrado algo nisto
que fosse indigno de vossa cultura e da mais elevada cultura huma­
na? Não deveis anelar, de acordo com as leis eternas da natureza
espiritual, tanto mais ansiosamente o Universo e aspirar a uma união
com ele efetuada por vós mesmos, quanto mais separados e isolados
estais nele por conseqüência da formação (Bildung) e da individua­
lidade mais determinadas? E não haveis sentido amiúde, esta nostal­
gia sagrada como algo desconhecido? Vos conjuro a que tomeis
consciência da chamada de vossa natureza íntima e a que a sigais.
Desterrai a falsa vergonha diante de uma época que não vos deve
determinar, senão que deve ser determinada e conformada por vós!
Retomai ao que é tão relevante para vós, precisamente para vós, e
72 Editora Novo Século Ltda

do que não vos podeis separar violentamente sem destruir indefecti-


velmente a parte mais bela de vossa existência.
Porém suspeito que muitos de vós não crêem que eu tenha
podido querer concluir aqui minha presente tarefa, como se opinais,
depois de tudo, que não se pode falar ulteriormente da essência da
religião ali onde não se tem dito nada acerca da imortalidade e pra­
ticamente nada acerca da Divindade. Recordai, não obstante, vos
rogo, como eu, desde o começo, me tenho oposto a que estas ques­
tões fossem consideradas como a dobradiça e as partes fundamen­
tais da religião; recordai que, quando tenho traçado os perfis da
mesma, também tenho indicado o caminho pelo qual pode encon­
trar-se a Divindade; Que achais de somenos todavia? E por que devo
conceder mais relevância a umas espécies de intuições religiosas
que às demais? Porém para que não penseis que temo dizer uma
palavra pertinente acerca da Divindade, porque resultaria perigoso
falar do tema antes de que uma definição firme acerca de Deus e da
existência, tendo força de lei ante os tribunais, houvera saído à luz e
sido sancionada no Império Germânico11, ou para que, por outra par­
te, não creiais que pratico o jogo de um engano piedoso e desejo,
para ser tudo para todos, subestimar com aparente indiferença aqui­
lo que para mim deve se revestir de uma importância muito maior do
que quero reconhecer, desejo falar-vos todavia um momento e
intentar vos pôr de manifesto que para mim a Divindade não pode
ser outra coisa que uma forma particular de intuição religiosa, da
que, como de qualquer outra, são independentes as restantes, e que
de acordo com meu ponto de vista e segundo minha concepção, que
vós conheceis, não há lugar para a crença de “nenhum Deus, nenhu­
ma religião”; e também sobre a imortalidade desejo vos expor sem
rodeios minha opinião.
Resolvei-me por certo, em primeiro lugar, que opinais acerca
da Divindade; o que é e o que pretendeis entender por ela? Pois
aquela definição que teria força de lei todavia não existe e é patente
que acerca do tema impera as maiores divergências. Para a maioria,
Deus não é evidentemente outra coisa que o gênio da humanidade é
tudo para estes e, de acordo com o que consideram como os aconte­

" Alusão à disputa do ateísmo, desencadeada pelos escritos de Fichte.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher Ti

cimentos e as formas de comportamento da humanidade, determi­


nam as convicções e a essência de seu Deus. Agora, vos tenho dito
com suficiente clareza que a humanidade não o constitui todo para
mim, que minha religião aspira a um Universo do qual ela, junto
com tudo o que lhe pertence, só constitui uma parte infinitamente
pequena, uma mera forma particular, efêmera: Pode, portanto, um
Deus, que só fôra o gênio da humanidade, constituir o aspecto
supremo de minha religião? Pode haver espíritos mais poéticos e, o
confesso, creio que estes se encontram em um nível superior, para os
quais Deus seria um indivíduo totalmente diferente da humanidade,
um exemplar único de uma espécie particular e, se me mostram as
revelações através das que conhecem um tal Deus - um ou vários,
nada deprecio tanto na religião como o número - isto há de consti­
tuir para mim um descobrimento esperado e, certamente, a partir
desta revelação se desenvolverão em muitas outras, porém eu aspiro
todavia a mais de uma espécie fora e acima da humanidade; e cada
espécie, com seu indivíduo, está subordinada ao Universo: pode
portanto, Deus, tomado neste sentido, ser outra coisa que uma intui­
ção particular? Não obstante, poderia ocorrer que estes foram tão só
conceitos deficientes de Deus; passemos imediatamente ao conceito
mais elevado, ao de um Ser supremo, ao de um espírito do Universo,
que o rege com liberdade e inteligência; a religião, não obstante, tão
pouco é dependente desta idéia. Ter religião significa intuir o Uni­
verso, e sobre o modo como o intuís, sobre o princípio que encontrais
na base de suas ações, repousa o valor de vossa religião. Agora, se
não podeis negar que a idéia de a Deus é compatível com qualquer
intuição do universo, deveis conceder também que uma religião sem
Deus pode ser melhor que outra com Deus.
Ao homem inculto que unicamente possui uma idéia confusa
do Todo e do Infinito e que só está provido de um instinto obscuro, o
Universo se lhe apresenta em suas ações como uma unidade na que
não cabe diferenciar nenhuma multiplicidade, como um caos unifor­
me na confusão, sem divisões, ordem nem lei, do qual nenhuma
particularidade pode ser dissociada a não ser delimitando-a arbitra­
riamente no tempo e no espaço. Se carece do impulso de animar o
Universo, o caráter do Todo está representado para este tipo de
homem por um cego destino; se está dotado deste impulso, seu Deus
74 Editora Novo Século Ltda

se converte em um ser sem propriedades determinadas, em um ído­


lo, em um fetiche, e se aceita a vários, estes não se diferenciam em
nada a não ser pelas delimitações de seu âmbito arbitrariamente
fixadas. Em outro nível cultural, o Universo se apresenta como uma
pluralidade sem unidade, como uma diversidade indeterminada de
elementos e forças heterogêneas, cujo conflito constante e etemo
determina suas manifestações. Não é um cego destino o que o carac­
teriza, senão uma necessidade motivada, que implica a tarefa de
investigar o problema do fundamento e da coesão, com a consciên­
cia de não poder encontrá-los. Se a idéia de um Deus é posta em
conexão com este Universo, se decompõem naturalmente em uma
multiplicidade infinita de partes; cada uma destas forças e elemen­
tos, nos quais não existe unidade alguma, recebe sua alma especial;
os deuses nascem em número infinito, diferenciando-se entre si me­
diante os distintos objetos de sua atividade, mediante as diferentes
inclinações e convicções. Vós tendes que conceder que esta intuição
do Universo tem uma dignidade infinitamente superior àquela: não
devereis também admitir que aquele que se tem elevado até ela,
porém se dobra ante a necessidade eterna e inacessível, ainda sendo
alheio à idéia dos deuses, tem, não obstante, mais religião que o
rude orador de um fetiche? Elevemo-nos agora mais alto, até aquele
ponto em que todo o conflitivo se concilia de novo, no qual o Uni­
verso se apresenta como totalidade, como unidade na pluralidade,
como sistema, e merece assim primeiramente ser designado com seu
nome; quem o contempla assim como Uno e Todo, não haveria de
ter, inclusive sem a idéia de um Deus, mais religião que o politeísta
mais culto? Não deveria Spinoza encontrar-se tão acima de um
piedoso romano como Lucrécio o está de um adorador de ídolos?
Porém, é a antiga inconsciência, o sinal obscuro da incultura que
recusa para o mais longe possível à quem se encontra no mesmo
nível que estes só que num outro ponto do mesmo!; como destas
intuições do Universo um ser humano, que é algo que depende do
seu sentido para o Universo, se apossa, isto constitui a autêntica
medida de sua religiosidade; que ele tenha um deus como intuição
sua, depende da direção de sua fantasia. Na religião é intuído o Uni­
verso, é concebido como atuando originariamente sobre o homem.
No caso de que vossa fantasia venha unida à consciência de vossa
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 75

liberdade de maneira que o que ela tem de pensar como atuando


originariamente, não pode pensá-lo senão sob a forma de um ser
livre, em dito caso ela personificará o espírito do Universo, e vós
tereis um deus; se ela aparece em conexão com o entendimento, de
modo que sempre esteja claro ante vossos olhos que a liberdade só
tem sentido tomada individualmente e em função dos indivíduos,
então tereis um mundo, porém deus algum. Vós, espero, não
considerareis como uma blasfêmia que a fé em Deus dependa da
direção da fantasia; vós sabeis, sem dúvida, que a fantasia constitui
o mais elevado e originário no homem, e que fora dela tudo se reduz
à reflexão sobre a mesma; vós sabeis sem dúvida que é vossa fanta­
sia a que cria para vós o mundo, e que não podeis ter deus algum
sem o mundo. Tão pouco por conseqüência disto Deus se lhe fará
mais incerto a ninguém, nem ninguém se libertará mais facilmente
da necessidade quase iniludível de aceitá-lo, porque sabe de onde
lhe vem esta necessidade. Na religião não se encontra, portanto, a
idéia de Deus tão alta como vós opinais; tampouco houve, entre os
homens verdadeiramente religiosos, fanáticos, entusiastas ou exal­
tados a favor da existência de Deus; com grande calma vieram junto
a si o fenômeno chamado ateísmo e sempre houve algo que lhes
pareceu mais irreligioso que isto. Tão pouco Deus pode aparecer na
religião de outro modo que atuando, e a vida e a ação divinas do
Universo todavia ninguém as tem negado, e a religião não tem nada
haver com o deus existente e imperioso, assim como o deus da reli­
gião não possui utilidade alguma para os físicos e moralistas, cujos
tristes mal-entendidos são estes e sempre o serão. Porém o deus
atuante da religião não pode garantir nossa felicidade; pois um ser
livre não pode querer atuar sobre um ser livre de outra maneira do
que dando-se a conhecer, seja mediante a dor ou o prazer. Tão pouco
este deus nos pode incitar à moralidade, pois ele não é considerado
senão como atuando, e sobre nossa moralidade não se pode atuar,
nem se pode conceber ação alguma sobre ela.
No que concerne à imortalidade, não posso ocultar que a for­
ma em que a concebe a maioria dos homens e seu modo de aspirar a
ela são totalmente irreligiosos, contrários justamente ao espírito da
religião; seu desejo não tem outro fundamento que a aversão para o
que constitui a meta da religião. Concordai-vos de como nesta tudo
76 Editora Novo Século Ltda

tende a que os contornos de nossa personalidade, nitidamente perfi­


lados, se dilatam e se perdem paulatinamente no Infinito, para que
mediante a intuição do Universo hajamos de identificar-nos com ele
tanto quanto possível; porém estes opõem resistência ao Infinito,
não querem ir mais além de si, não querem ser outra coisa que estes
mesmos e se preocupam angustiosamente de sua individualidade.
Recordai como a meta suprema da religião era descobrir um Univer­
so mais além e acima da humanidade, e como sua única queixa con­
sistia em que isto não se alcançaria adequadamente neste mundo;
porém estes nem sequer querem aproveitar a única ocasião, que lhes
oferece a morte, de ir mais além da humanidade; estão inquietos
acerca de como portarão consigo a humanidade mais além deste
mundo e aspiram, ao sumo, a uns olhos de maior alcance e a melho­
res membros. Porém o Universo lhes fala, tal como está escrito: quem
perde sua vida por minha causa, a conservará, e quem quer conser­
vá-la, a perderá12. A vida que estes querem conservar é uma vida
miserável, pois se o que lhes importa é a eternidade de sua pessoa,
por que não se preocupam, com tanta angústia, pelo que tem sido
como pelo que serão? E de que lhes serve esta prospeção para frente,
se não lhes é viável para trás? Por causa do afã por uma imortalidade
que não é tal e da que não são donos, perdem o que poderiam ter;
e perdem, ademais, a vida mortal com pensamentos que lhes angus­
tiam e lhes atormentam inutilmente. Intentai, pois, renunciar a vossa
vida por amor ao Universo. Aspirai por destruir já aqui vossa indivi­
dualidade e a viver no Uno e Todo, aspirai ser mais que vós mesmos,
para perderes pouco quando vos perderes a vós mesmos; e quando
vos confundires com o Universo, na medida em que o encontreis
aqui entre vós, e surja em vós um desejo maior e mais sagrado, então
haveremos de falar ulteriormente sobre as esperanças que a morte
nos proporciona e sobre a infinitude em direção à qual infalivelmen­
te nos elevamos mediante ela.
Esta é minha maneira de pensar acerca destes temas. Deus
não é tudo na religião, senão um dos elementos e o Universo é mais;
tão pouco podeis crer nele arbitrariamente ou porque o quereis utili­

12 Cf. Mateus 16.25; Marcos 8.35; Lucas 9.24.


Sobre a Relígião - F. D. E. Schleiermacher 77

zar como consolo e ajuda, senão porque deveis. A imortalidade não


pode constituir nenhum desejo se ela não tem sido previamente uma
tarefa que vós tenhais realizado. Em meio à finitude, fazer-se um
com o Infinito e ser eterno em um instante: tal é a imortalidade da
religião.
T krckiko D is ít r s o
SOBRE A FORMAÇÃO
COM VISTAS À RELIGIÃO
O que eu mesmo tenho reconhecido espontaneamente como
profundamente arraigado no caráter da religião, a saber, a tendência
de querer fazer prosélitos dos não crentes, não é, todavia, o que me
impulsiona agora a falar-vos também da formação dos homens com
vistas a esta eminente disposição, e de suas condições. Para a conse­
cução deste fim, a religião não conhece outro meio que este: expres­
sar-se e comunicar-se livremente.
Quando ela se move com toda a força que lhe é peculiar, quando
leva consigo todas as capacidades do próprio âmago à corrente deste
movimento e as põe a seu serviço, espera também penetrar até o
mais íntimo de cada indivíduo que respira sua atmosfera; espera que
toda partícula homogênea seja impressionada e que chegando, im­
pulsionada pelo mesmo vai e vem, à consciência de sua existência,
deleite, respondendo com um tom afim, ao ouvido espectante de
quem havia solicitado dita resposta. Só assim, mediante as manifes­
tações naturais da própria vida, quer suscitar o que lhe é semelhante,
e ali de onde ela não tem êxito em conseguí-lo recusa orgulhosa toda
incitação estranha, todo modo de proceder violento, tranqüilizada
pela convicção de que todavia não tem chegado a hora, na qual se
poderia suscitar aqui algo que lhe resulte irmanado. Não constitui
uma novidade para mim este desenlace frustrado. Com que freqüên­
cia tenho entoado a música de minha religião, para comover à audi­
ência, iniciando por certos tons suaves e avançando ansioso com
ímpeto juvenil até a harmonia mais plena dos sentimentos religio­
sos: porém, nada se excitava e respondia nos ouvintes! Também
80 Editora Novo Século Ltda

estas palavras que confio a um círculo mais amplo e impressionável,


com tudo o que deveriam oferecer de bom, por parte de quantos não
haverão de retomar tristes a mim, incompreendidas, inclusive sem
haver suscitado sequer o mais ligeiro pressentimento acerca de seu
propósito? E com que freqüência voltaremos a compartilhar, eu e
todos divulgadores da religião, este destino que nos está designado
desde um princípio? Não obstante, não nos atormentaremos por isto,
porque sabemos que as coisas não podem ocorrer de outra maneira,
e nunca intentaremos impor nossa religião por qualquer outra via,
nem a esta nem às futuras gerações. Posto que eu mesmo sinto falta
em mim não pouco do que pertence ao conjunto a humanidade; pos­
to que tantos carecem de tantas coisas: que tem de estranho que tam­
bém seja grande o número daqueles a quem se lhes tem recusado a
religião? E dito número deve ser necessariamente grande: pois, em
caso contrário, como chegaríamos a uma intuição da religião mesma
e dos limites que ela, em todas as direções, assinala às restantes
disposições do homem? Como saberíamos até onde poderia chegar
este, aqui e ali, sem religião, e onde ela lhe manteria em pé e lhe
serviria de apoio? Como poderíamos conjeturar que ela, também
sem que o homem o saiba, se mostra ativa nele? É, em especial, de
acordo com a natureza das coisas que, nestes tempos de confusão e
perturbações gerais, não se inflame em muitos sua faísca apagada, e
por amáveis e pacientes que costumemos ser, não possa, apesar de
tudo, ser avivada, enquanto que sob circunstâncias mais favoráveis
se teria aberto passagem nestes, vencendo todas as dificuldades. Ali
onde as coisas humanas têm sido abaladas em sua totalidade; ali
onde todos vêem, a cada instante, o que precisamente determina seu
posto no mundo e os vincula à ordem terrena das coisas, estando a
ponto não só de libertar-se dele e de deixar-se impressionar por
outro, senão de submergir-se na voragem geral; ali onde as pessoas
não recusam nenhum esforço de suas energias e inclusive pedem
ajuda em todas as direções para manter em pé o que consideram
como as dobradiças do mundo e da sociedade, da arte e da ciência,
que agora por causa de um destino incompreensível, como de per si,
se erguem de seus fundamentos mais profundos e deixam cair o que
durante tanto tempo se havia movido em tomo destes, enquanto que
os outros estão ocupados, com o céu mais inalcançável, em despejar
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 81

o terreno dos escombros dos séculos desmoronados, para estarem


entre os primeiros que se assentem no solo fecundo, que se forma
sob estes com a lava, rapidamente esfriada, do terrível vulcão; ali
onde todos, inclusive sem abandonar seus postos, são agitados tão
poderosamente pelas violentas comoções de todo o existente que,
no meio da vertigem geral, deveriam ser felizes em poder fixar a
vista sobre qualquer objeto particular com a suficiente firmeza, como
para poder ater-se a ele e poder convencer-se paulatinamente de que
pelo menos algo se mantém todavia em pé; em uma tal situação seria
insensato esperar que muitos pudessem estar em condições de apre­
ender o Infinito. Sua contemplação é certamente mais majestosa e
sublime que nunca, e em instantes se podem perceber elementos mais
significativos do que foi possível durante séculos, mas, quem pode
pôr-se a salvo da faina e de obrigações gerais? Quem pode subtrair-
se ao poder de um interesse mais limitado? Quem possui tranqüili­
dade e firmeza suficientes para permanecer imóvel e intuir? Porém
inclusive nos tempos mais ditosos, inclusive com a melhor vontade
estimular mediante a comunicação a disposição para a religião não
só ali onde ela se encontra, senão também infundí-la e configurá-la
por todas as vias que podem conduzir a esta meta: onde se encontra
tal via? O que mediante a arte e uma atividade estranha se pode
efetuar em um ser humano não é mais que isto, a saber, que lhe
comuniqueis vossas representações e o convertais em um receptácu­
lo de vossas idéias, que vós as entrelaceis com as suas até o ponto
dele se ajustar com elas no momento oportuno: porém nunca podereis
lograr que ele produza a partir de si as que vós queirais. Vós vedes a
contradição que já não pode ser eliminada das palavras. Nem sequer
podeis habituar a ninguém a que responda com uma ação determina­
da a uma impressão determinada, sempre que esta se produza; muito
menos podeis conduzir-lhe a ir mais além desta conexão e a desen­
volver ali livremente uma atividade interior. Em poucas palavras,
podeis atuar sobre o mecanismo do espírito, porém não podeis pene­
trar, segundo vosso arbítrio, na organização do mesmo, neste labora­
tório sagrado (do Universo: aí não podeis mudar ou deslocar, recortar
ou complementar nada, só podeis inibir seu desenvolvimento e mu­
tilar violentamente uma parte que está crescendo. É da dimensão
mais íntima de sua organização de onde deve proceder tudo que tem
82 Editora Novo Século Ltda

de pertencer à verdadeira vida do homem e constituir sempre nele


um impulso ativo e efetivo. E desta índole é a religião; no âmago, no
qual ela habita, se mostra incessantemente ativa e viva, converte-o
todo em um objeto para si mesma, e todo pensamento e ação em um
tema de sua fantasia celestial. Tudo o que, como ela, tem de consti­
tuir uma realidade continuamente presente no espírito humano, se
encontra muito à margem do campo do ensino e da formação. Por
isso a todos os que concebem assim a religião, o ensino religioso
lhes é uma expressão banal e carente de sentido. Podemos, desde já,
comunicar a outros nossas opiniões e proposições doutrinais - para
isso só necessitamos de palavras, e estas, só a força receptora e
reprodutora do espírito porém nós sabemos muito bem que isto
não constitui mais que as sombras de nossas intuições e de nossos
sentimentos, e se estes não participam conosco, não entenderão o
que dizem nem o que crêem pensar. Não lhes podemos ensinar a
intuir, não podemos transferir de nós a estes a força e a destreza
para, seja qual for o objeto ante o qual nos possamos encontrar, aspi­
rar destes por onde for à luz originária do Universo e infundí-la em
nosso órgão; quiçá podemos estimular o talento mínimo de sua fan­
tasia até o ponto de que lhes seja fácil, se as intuições da religião
lhes são descritas com cores vivas, provocar nestes algumas como­
ções que têm um distanciamento parecido com aquele do qual vem
repleta nossa alma: porém isto penetra seu ser? E isto religião? Se
quereis comparar o sentido para o Universo com o sentido para a
arte, nesse caso não deveis contrapor estes adeptos de uma religiosi­
dade passiva - se todavia se quer denominar isto assim - àqueles
que, sem produzir, estes mesmos, obras de arte, estão, todavia,
comovidos e impressionados por cada uma destas obras que se ofe­
recem a sua intuição; pois as obras de arte da religião estão expostas
sempre e por onde for; o mundo inteiro é uma galeria de visões reli­
giosas, e todo homem se encontra situado no meio delas: senão que
a esses adeptos deveis comparar com aqueles que não chegam a des­
pertar sua sensibilidade sem antes lhes ter oferecido, na maneira de
medicamentos, comentários e fantasias sobre as obras de arte, e
até o fato de só quererem balbuciar, em uma linguagem técnica mal
compreendida, algumas palavras inadequadas, que não lhes são pró­
prias. Tal é a meta de todo ensino e de toda formação intencional
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 83

nestas coisas. Mostrai-me alguém a quem haveis formado e infundi­


do capacidade de juízo, espírito de observação, sentimento artístico
ou moralidade; então me empenharei em ensinar religião. Há nela
certamente um magistério e um discipulado, há milhares de indiví­
duos os quais aderem-na; porém esta adesão não é nenhuma imita­
ção cega, e não são discípulos porque seu mestre os tenha convertido
e^n tais, senão que ele é seu mestre porque estes o têm elegido como
tal. Quem mediante as manifestações de sua própria religião a tem
suscitado em outros, já não tem a estes em seu poder, para retê-los
junto a si: a religião destes também é livre tão logo ela viva e siga o
seu próprio caminho. Tão logo como se acende em uma alma a
sagrada faísca, se expande formando uma chama livre e viva, que
suga seu alimento de sua própria atmosfera. Com maior ou menor
intensidade o contorno do Universo lhe ilumina a alma toda, e esta
pode assentar-se, segundo seu próprio arbítrio, distante inclusive do
ponto, sobre o qual primeiramente ela se tem vislumbrado a si mes­
ma. Pressionada unicamente pelo sentimento de sua impotência e de
sua finitude a assentar-se em alguma região determinada, escolhe,
sem voltar-se por isso desagradecida com seu primeiro guia, ao
clima que lhe é mais propício; se busca ali um centro, se move
segundo livre autolimitação em sua nova trajetória e chama seu mestre
ao que pela primeira vez tem adotado esta sua região preferida e a
tem exposto em sua magnificência, fazendo-se sua disciplina por
própria eleição e livre amor.
Não se trata, portanto, de que eu vos queira formar ou a outros
com vistas à religião, ou de instruir-vos acerca de como vos deveis
formar a vós mesmos com vistas a ela, de uma maneira deliberada
ou metódica: eu não quero ausentar-me do âmbito da religião, o que
seria o caso se pretendesse isso, senão que desejo deter-me convosco
mais amplamente todavia, no centro de dito âmbito. O Universo for­
ma para si seus contempladores e seus admiradores, e só queremos
intuir como isto ocorre, na medida em que é possível tal intuição.
Vós sabeis que o modo como cada elemento particular da humani­
dade aparece em um indivíduo, depende da forma em que esse ele­
mento é limitado pelos restantes ou antes é deixado livre; só mediante
este conflito geral alcança cada um destes, em cada indivíduo, uma
forma e uma grandeza determinadas, e este conflito, por sua vez, só
84 Editora Novo Século Ltda

é mantido vivo mediante a comunidade dos indivíduos e mediante o


movimento do Todo. Assim, cada um e cada coisa é uma obra do
Universo, e só deste modo a religião pode considerar o homem.
Quisera vos conduzir a este fundamento de nosso ser determinado e
às limitações religiosas de nossos contemporâneos; quisera fazer-
vos compreender porque nós somos assim e não de outra maneira, e
o que é que deveria ocorrer para que diminuíssem nossas limitações
a este respeito: desejaria que fósseis conscientes de como também
vós, mediante vosso ser e vosso trabalho, sois, por sua vez instru­
mentos do Universo e de como vossa atividade, dirigida a coisas
completamente distintas, exerce um influxo sobre a religião e seu
estado mais imediato.
O homem nasce com a disposição para a religião como, igual­
mente, para qualquer outra coisa, e só não sendo seu sentido repri­
mido violentamente, só não sendo impedida nem obstaculizada toda
comunidade entre ele e o Universo - estes são, segundo se conven­
cionou, os dois elementos da religião -, deveria também desenvol­
ver-se indefectivelmente em cada um, segundo seu próprio estilo;
porém esta obstaculização é o que precisamente por desgraça ocor­
re, desde a primeira infância, em tão grande medida em nosso tem­
po. Com dor constato a cada dia como a obsessão por entender não
permite que de modo algum que se desponte o sentido, e como tudo
se confabula para encadear o homem ao finito e a um ponto muito
pequeno do mesmo afim de que, tanto quanto for possível, perda de
vista o Infinito. Quem impede o correto desenvolvimento da reli­
gião? Não os cépticos nem os zombadores; ainda que estes também
manifestam prazerosamente o desejo de não ter religião alguma, não
apresentam, todavia, obstáculos à natureza que quer produzí-la; tão
pouco o impedem, tal como se crê, os indivíduos carentes de
moralidade; seus esforços e sua atividade se opõem a uma força com­
pletamente distinta desta. Quem o impede são os “intelectuais”
(verstündige) e os práticos; estes são no estado atual do mundo aque­
les que se fazem de contrapeso frente à religião, e seu grande predo­
mínio é a causa que faz com que ela desempenhe um papel tão
precário e insignificante. Desde a tema infância maltratam o homem
e reprimem sua tendência em direção ao mais elevado. Contemplo
com grande devoção o sentimento do maravilhoso e do sobrenatural
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 85

no espírito dos jovens. Já ao relacionarem-se com o finito e o deter­


minado, buscam, por sua vez, algo distinto que estes poderiam opor-
lhe; inquirem em todas as direções se existe algo para além dos
fenômenos sensíveis e de suas leis, e por muito abarrotados que pos­
sam encontrar-se seus sentidos com os objetos terrenos, ocorre sem­
pre como se, a parte destes, tivessem também outros objetos
condenados a perecer, ainda que careçam de alimento. Isto constitui
o primeiro despertar da religião. Um pressentimento secreto e
incompreendido os impulsiona para além da riqueza deste mundo;
por isso lhes compraz tanto toda a impressão de um outro mundo;
por isso se deleitam com poemas que versam acerca de seres supra
terrenos, e tudo acerca do que sabem com a maior clareza que não
podem encontrar-se neste mundo os abraçam com todo o amor zelo­
so que se lhe tributa a um objeto sobre o qual se tem um direito
manifesto porém que não se pode fazer valer. Constitui, sem dúvida,
um engano buscar o Infinito precisamente fora do finito, o oposto
fora daquilo a que se opõe; porém, não é o dito engano sumamente
natural naqueles que todavia não conhecem o próprio finito, e não é
este o engano de povos inteiros, e de escolas inteiras de sabedoria?
Se houvesse adeptos da religião entre quem se ocupa da juventude,
com que facilidade seria retificado este erro ocasionado pela própria
natureza, e com que avidez, em tempos menos obscuros, se abando­
naria a alma jovem às impressões do Infinito em sua onipresença!
Em outro tempo se lhe permitia imperar tranqüilamente; se opinava
que o gosto pelas figuras grotescas era próprio da fantasia dos
jovens, tanto na religião como na arte; se satisfazia-os abundante­
mente; até de uma maneira bastante despreocupada, se estabelecia
uma conexão imediata entre estes jogos etéreos da infância e a séria
e sagrada mitologia, aquilo que se considerava a si mesmo como
religião: Deus, o Salvador, os anjos não eram senão outra espécie
de fadas e sílfides. Por certo, deste modo, a poesia pôs muito pre-
cocemente o fundamento para as usurpações da metafísica em
detrimento da religião: porém o homem permaneceu, não obstante,
mais abandonado a si mesmo, e um ânimo reto, não corrompido, que
soube manter-se livre do jugo do entender e do disputar, encontrou
mais facilmente, em anos posteriores, a saída deste labirinto. Agora,
pelo contrário, esta inclinação é reprimida violentamente desde o
86 Editora Novo S éculo Ltda

começo; todo o sobrenatural e maravilhoso está proscrito; a fantasia


não deve ser preenchida com imagens vazias, dado que enquanto se
pode, com a mesma facilidade, procuram infundir realidades e pre­
parar para a vida. Deste modo, às pobres almas, que estão sedentas
de algo completamente distinto, se lhes aborrece com histórias mo­
rais e se lhes ensina que belo e útil é ser aprimoradamente judicioso
e razoável; se lhes transmitem conceitos das coisas comuns, e sem
levar em consideração aquilo de que carecem, sempre se lhes doutri­
na, mas todavia, acerca do que já possuem em demasia. Para prote­
ger de alguma maneira o sentido contra as usurpações das outras
faculdades, se infunde em cada homem um impulso próprio consis­
tente em interromper às vezes qualquer outra atividade e limitar-se a
abrir todos os órgãos para deixar-se penetrar por todas as impres­
sões; e mediante uma secreta simpatia, altamente benfazeja, este
impulso alcança sua maior intensidade precisamente quando a vida
geral se manifesta da forma mais nítida no centro do próprio indiví­
duo e no mundo circundante: porém ocorre que não lhe está permiti­
do abandonar-se a este impulso num estado de aprazível inatividade;
pois desde o ponto de vista burguês isto é preguiça e ociosidade. Em
tudo deve haver um objetivo e um fim; sempre se tem de fazer algo,
e quando o espírito já não serve se tem de exercitar o corpo; trabalho
e jogo, porém não uma contemplação sossegada, com um fim em si.
Mas a questão fundamental é que estes têm de entendê-lo totalmen­
te, e com o entender se enganam completamente acerca de seu senti­
do: pois tal como é praticado aquele, se opõem totalmente a este
último. O sentido, se busca objetos, lhe sai ao encontro e se oferece
a seus abraços; esses objetos tem de levar em si algo que os caracte­
riza como sua propriedade, como sua obra; ele quer encontrar e dei­
xar-se encontrar; à sua compreensão (verstehen) não lhe importa de
onde provêm os objetos; Deus meu! Estes se encontram aí, como
uma propriedade bem administrada, herdada, desde quanto tempo
não se encontram já enumerados e definidos!; limitai-vos a tomá-los
como a vida os produz, pois deveis compreender precisamente os
que ela produz: querer fazer-se e buscar-se a si mesmo é certamente
excêntrico, altaneiro, se trata de um esforço inútil, pois, que fruto
produz na vida humana? Certamente nenhum; porém sem isto não
se descobrirá Universo algum. O sentido aspira a captar a impressão
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 87

indivisa de algum todo, quer contemplar o que e como é algo para si


e conhecer cada coisa em seu caráter peculiar: porém isto não im­
porta nada ao estilo de compreensão que têm ditos indivíduos; o
Quê e o Como lhes ficam muito distantes, pois opinam que estes não
consistem mais que no De onde e o Para que, em tomo dos quais
giram eternamente. Sua grande meta é o lugar que um objeto ocupa
na série dos fenômenos, seu começo e seu término são tudo para
estes. Tão pouco perguntam se e como o que estes querem compre­
ender constitui um todo - isto, certamente, os conduziria longe e
não se abandonariam, desde já, a uma tal tendência carecendo por
completamente de religião -; o que desejam é antes esmiuçá-lo e
anatomizá-lo. Assim procedem também com aquilo que está aí pre­
cisamente para satisfazer o sentido em suas potencialidades supre­
mas, com aquilo que, por assim dizê-lo, a despeito destes, constitui
um todo em si mesmo; estou me referindo a tudo o que é arte na
natureza e nas obras dos homens: estes o destroem antes de que pos­
sa produzir seu efeito; desejam que isto seja compreendido em deta­
lhe e que tanto isto como aquilo seja aprendido por meio de
fragmentos dissociados. Vós tereis que conceder que esta é, de fato,
a praxe dos “intelectuais”; tereis que confessar que se requer uma
rica e vigorosa superabundância de sentido para que este se subtraia,
ainda que não seja mais que em parte, a essas formas de tratamento
hostis e que já, por este motivo, deve ser pequeno o número dos que
se elevam até a religião. Porém esta se dilui todavia mais por conse­
qüência do fato de que agora se faz o possível com vistas a que o
sentido, que todavia subsista, não se centre na consideração do Uni­
verso; estes1 hão de ser mantidos, junto com tudo o que se dá nos
mesmos, dentro dos limites da vida burguesa. Pois toda atividade
tem de referir-se a dita vida, e desta forma, opinam, a elogiada har­
monia interna do homem só se consiste no fato de que tudo se refira
de novo a sua atividade. Estes opinam que o homem dispõe de
suficiente matéria para seu sentido e que tem ante si ricos quadros,
inclusive se ele não se aparta nunca deste ponto de vista, que consti­
tui por sua vez o centro sobre o qual se situa e em torno do qual gira.
Por conseguinte, todas as sensações que não tem nada a ver com isto

1 Na terceira edição se substitui “estes” por “os jovens” .


88 Editora Novo Século Ltda

são consideradas, por assim dizê-lo, como um dispêndio inútil, por


causa dos quais nos esgotamos, e de que, na medida do possível, se
tem de desviar o espírito mediante uma atividade adequada. Por isto,
o puro amor à poesia e à arte constitui um desvio que só se tolera
porque não é tão grave como outros. Deste modo, também o saber é
praticado sob uma medida sábia e sóbria, para que não sobrepasse
estes limites, e enquanto que a realidade mais insignificante, que
exerça um influxo sobre este âmbito, é tomada em consideração,
desdenham o maior, precisamente porque aponta mais distante que
o puramente sensível. Que haja coisas que devam ser esgotadas até
uma certa profundidade, constitui para estes um mal necessário e,
mostrando-se agradecidos aos deuses de que sempre haja, todavia,
alguns indivíduos que se dediquem a dita tarefa por uma inclinação
invencível, olham para estes com santa compaixão, como vítimas
voluntárias. Que existam sentimentos que não se queiram reprimir
pela imperiosa necessidade prática dos “intelectuais”, e que assim,
por este caminho, tantos homens se convertam desde o ponto de
vista burguês em miseráveis ou imorais - pois também considero
dentro desta categoria a quem vai um pouco mais além da indústria,
para quem a dimensão moral da vida burguesa é tudo -, constitui o
objeto de sua lamentação mais profunda, e estes consideram este
fato como uma das marcas mais graves da humanidade, que deseja­
riam ver remediada o quanto antes possível. O grande mal consiste
em que estas boas gentes crêem que sua atividade se reveste de um
caráter universal e que abarca de um modo exaustivo à humanidade,
e que, se se fizesse o que estes fazem, tão pouco se necessitaria de
nenhum outro sentido que o que se refere ao que se faz. Por isto
cortam tudo com sua tesoura, e não querem deixar sequer que se
produza uma manifestação original que possa converter-se em um
fenômeno para a religião; pois o que pode ser percebido e abarcado
desde seu ponto de vista, quer dizer, tudo ao que querem atribuir
valor, constitui um círculo estreito e estéril, carente de ciência, de
moralidade, de arte, de amor, de espírito e também, para dizer a ver­
dade, de letra; em poucas palavras, carente de tudo aquilo a partir do
que se poderia descobrir o mundo, ainda quando se apresentam com
muitas pretensões altaneiras sobre tudo isto. Certamente estes opi­
nam estarem em possessão do mundo verdadeiro e real e serem pro­
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 89

priamente aqueles que consideram todas as coisas em suas autênti­


cas conexões. Oxalá pudessem cair na conta, de uma vez, de que
uma coisa qualquer, para que possa ser concebida como elemento do
Todo, deve ser considerada necessariamente em sua natureza pecu­
liar e em sua suprema perfeição. Pois no Universo só pode existir
algo mediante a totalidade de seus efeitos e de suas conexões; tudo
depende destes, e para conhecer uma coisa é preciso havê-la consi­
derado não desde um ponto externo a ela, senão desde seu próprio
centro e desde todos os aspectos relacionados com ele, isto é, em sua
existência particularizada, em seu próprio ser. Limitar-se a utilizar
um só ponto de vista para tudo é exatamente o contrário de utilizá-
lós a todos para conhecer a cada coisa, é o caminho conducente a
distanciar-se em linha reta do universo e mergulhados na limitação
mais miserável, converter-se em um verdadeiro glebae adscriptus
do lugar no qual lhe suceda encontrar-se. Há na relação do homem
com este mundo certas transições ao Infinito, perspectivas desvela­
das, por diante das quais é conduzido todo o mundo, para que seu
sentido encontre o caminho em direção ao Universo, e cuja visão
suscita sentimentos que certamente não constituem, de maneira ime­
diata, a religião, porém, por assim dizê-lo, um esquematismo da
mesma. Os “intelectuais” também obstruem sagazmente estas pers­
pectivas, colocando na abertura uma dessas coisas com as quais se
costuma recobrir um lugar pouco destacado: uma má imagem, uma
caricatura filosófica; e se, tal como por certo ocorre às vezes, para
que também a estes se lhes revele a onipotência do Universo, algum
raio que traspassa este meio fere seus olhos, e se sua alma não pode
evitar uma débil estimulação destas sensações, o Infinito não é a
meta em direção a qual dirige seu vôo, para descansar ali, senão que,
o mesmo que o sinal de uma pista de corridas, não seria mais que o
ponto em torno do qual, sem tocá-lo, gira com a maior rapidez para
poder retornar, quanto antes melhor, a seu antigo posto. O nasci­
mento e a morte são aqueles pontos ante cuja percepção não se nos
pode escapar como nosso próprio eu esta rodeado por onde for pelo
Infinito, e que suscitam sempre uma nostalgia silenciosa e um sagra­
do respeito; o caráter incomensurável da intuição sensível também
nos sugere, ao menos, a idéia de outra infinitude de caráter superior:
porém estes nada desejariam tão precisamente como poder utilizar
90 Editora Novo Século Ltda

também o diâmetro máximo do sistema cósmico como medida e peso


na vida comum, tal como ocorre agora com o perímetro máximo da
terra2, e se a consideração da vida e a morte os impressiona em
algum momento, por muito que, com respeito a este tema possam
falar de religião, crede-me que nada lhes interessa tanto como em
toda a oportunidade deste gênero ganhar alguns jovens como adep­
tos para Hufeland.3 Estes já têm recebido suficiente castigo; pois
não sendo seu ponto de vista tão levado como para que estes mes­
mos elaborem, segundo princípios, ao menos esta sabedoria vital, à
qual se aderem, se movem como escravos, submissamente, no mar­
co das antigas formas, ou antes se deleitam com reformas irrelevan­
tes. Isto constitui a concepção extrema do útil, em direção à qual se
tem precipitado à época com passo acelerado, desde a inútil sabedo­
ria escolástica, de caráter verbal, uma nova barbárie como digno
equivalente da antiga, tem aqui o belo fruto da política paternal
eudemonista, que tem substituído o rude despotismo. Todos nós
temos passado por isto, e a disposição para a religião se tem visto
perturbada em seu gérmen inicial, de forma que não posso avançar
em seu desenvolvimento com o mesmo ritmo que as das demais dis­
posições. Estes homens - não podem se associar a vós, com quem
estou falando, pois estes não depreciam a religião, por mais que a
destruam, e tão pouco se lhes pode chamar de cultos ainda que for­
mem à época e ilustrem aos homens e isto o querem fazer até chegar
a uma enojada transparência -, estes tais seguem constituindo, toda­
via, a parte dominante; vós e nós não somos mais que um grupozinho.
Cidades e países inteiros são educados segundo seus princípios, e
quando se tem superado esta educação, se os encontra de novo na
sociedade, nas ciências e na filosofia; certamente também nesta, pois
não só a antiga - segundo sabeis, a filosofia se divide agora, com
muito espírito histórico, só em antiga, nova e contemporânea - cons­
titui sua morada peculiar, senão que se tem apossado até da nova.
Mediante seu poderoso influxo sobre todos os interesses mundanos

2 Em 1795 se havia estabelecido o metro como a décima-milhonésima parte do meridiano


terrestre que passa por Paris.
3 Ch. W. Hufeland, médico alemão (1762-1836), muito conhecido então por sua obra
A arte de prolongar a vida humana, na que expunha suas concepções sobre a macrobiótica.
Sobre a Religião - F. D, E. Schleiermacher 91

como também da falsa aparência de filantropia, com a que ela tam­


bém ofusca a tendência à sociabilidade, esta forma de pensar segue
todavia oprimindo a religião e se opõe, com todas as forças, a todo o
movimento em que esta deseje manifestar sua vida em alguma parte.
Só com a ajuda do mais forte espírito de oposição contra esta ten­
dência geral, pode, por tanto, prosperar agora a religião e não apare­
cer senão sob a forma que mais se oponha a estes “intelectuais”.
Pois, assim como tudo obedece à lei do parentesco, assim o sentido
só pode impor-se ali onde tenha tomado posse de um objeto, com o
qual o compreender (Verstehen), que lhe é hostil, só está debilmente
vinculado e ao que, portanto, pode apropriar-se da maneira mais
fácil e com uma super-abundância de força livre. Porém este objeto
é o mundo interior, não o exterior: a psicologia explicativa, esta peça
mestra daquele tipo de entendimento, depois de haver-se esgotado e
quase envilecido, devido à sua falta de medida, tem começado a
ceder de novo o posto à intuição. Quem, portanto, é um homem reli­
gioso, se tem dobrado certamente sobre si, com seu sentido, mergu­
lhado na intuição de si mesmo, e deixando ainda, por agora, todo o
externo, tanto o intelectual como o físico, aos “intelectuais”, como
grande meta de suas investigações. Assim mesmo, de acordo com a
mesma lei, aqueles a quem sua natureza se distância mais do ponto
central de todos os adversários do Universo, são os que encontram
mais facilmente o acesso ao infinito. Daí se deriva, pois, o fato de
que, desde há muito tempo, todos os espíritos verdadeiramente reli­
giosos se caracterizem por um toque de misticismo, e que todas as
naturezas fantásticas que recusam ocupar-se da realidade dos assun­
tos mundanos tenham, acessos de religião: tenho aqui o caráter de
todos os fenômenos religiosos de nosso tempo, tenho aqui as duas
cores que estão sempre compostas, se bem que nas misturas mais
diversas. Digo fenômenos (Phanomene) pois não cabe esperar mais
neste estado de coisas. As naturezas fantásticas carecem de penetra­
ção de espírito, de capacidade para apreender o essencial. Um jogo
fácil e alternativo de combinações belas, amiúde fascinantes, porém
sempre de caráter meramente contingente e completamente subjeti­
vo, lhe é suficiente e constitui sua máxima aspiração; é vão oferecer
à sua vista uma conexão mais profunda e mais íntima. Estes tais só
buscam propriamente a infinitude e a universalidade da sedutora
92 Editora Novo Século Ltda

aparência - que é muito menos, ou também muito mais, do que real­


mente alcança o sentido - à que estão acostumados a aterem-se e,
por conseguinte, todos os seus pontos de vista mostram um caráter
efêmero e carente de ilação. Prontamente seu âmago se inflama,
porém só com uma chama vacilante, ligeira, por assim dizer: só tem
acessos de religião, como os tem de arte, de filosofia e de todo o
grande e belo cuja superfície os pode atrair em direção a si. Aqueles,
pelo contrário, cujo ser íntimo pertence a religião, porém cujo senti­
do permanece sempre fechado em si mesmo porque não é capaz de
apoderar-se de alguma outra realidade na presente situação do mun­
do, carecem rapidamente de matéria para converterem-se em virtuo­
sos ou heróis da religião. Há uma grande mística vigorosa, que até o
homem mais frívolo não pode contemplar sem veneração e reconhe­
cimento, e que infunde admiração ao homem mais racional, por cau­
sa de sua simplicidade heróica e de seu orgulhoso desprezo pelo
mundo. Quem a possui não está precisamente saciado e preenchido
por intuições externas do Universo, senão que, mediante uma carac­
terística misteriosa, sempre é retroagido a si mesmo por cada uma
delas em particular, e concebendo-se como o compêndio e a chave
do Todo, convencido por uma grande analogia e por uma fé atrevi­
da, de que não é necessário ir mais além de si mesmo, senão de que
o espírito tem em si capacidade suficiente para tomar consciência
também de tudo o que o mundo exterior possa oferecer-lhe; deste
modo, mediante uma livre decisão, fecha para sempre os olhos a
tudo que não é ele: porém este desprezo mão é nenhum desconheci­
mento, este fechamento do sentido não é nenhuma incapacidade.
Porém isto é o que ocorre com os nossos: não têm aprendido a ver
nada fora de si, porque a estes, tudo se lhes têm delineado, mais que
demonstrado, só segundo a forma deficiente própria do conhecimento
comum; agora não fica-lhes de sua auto-contemplação nem sentido
nem luz suficientes para penetrar esta velha obscuridade; e enojados
com a época, à que tem de dirigir censuras, não querem ter nada a
ver com o que sua obra é nestes. Por isso o Universo se encontra
nestes em um estado inculto e indigente, têm pouquíssimo que intuir
e, só como estão com seu sentido, se vêem necessitados a girar eter­
namente em torno de um círculo demasiado estreito e, depois de
uma vida enferma, seu sentido religioso se extingue por falta de
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 93

estímulos, por debilidade indireta. Para aqueles cujo o sentido para


o Universo, dotado de uma maior força porém também de uma me­
nor cultura, movendo-se audaciosamente para fora, busca também
mais e nova matéria, existe outro fim distinto que revela com toda a
claridade desejável, seu desacordo com a época, uma morte astênica,
portanto, se quereis, uma eutanásia terrível - o suicídio do espírito
que não acertando em apreender o mundo cujo ser íntimo, cujo grande
sentido lhe permaneceu estranho sob o influxo dos pontos de vista
mesquinhos de sua educação, enganado por fenômenos confusos,
entregue à fantasias desenfreadas, buscando o Universo e suas pega­
das ali onde nunca se encontravam, enojado, rompe finalmente por
completo a conexão entre o interior e o exterior, recusa o entendi­
mento impotente e termina em um delírio sagrado, cuja fonte quase
ninguém conhece - tenho aqui uma vítima, que protesta a gritos - e
todavia, não compreendida - do desprezo geral e da vexação de que
é objeto o que há de mais íntimo no homem. Não obstante, só se
trata de uma vítima, não de um herói: quem sucumbe, comumente
no último exame, não pode ser contado entre os que têm sido inicia­
dos nos mistérios mais íntimos. Esta queixa, de que não há entre nós
nenhum representante estável, e reconhecido perante todo o mundo,
da religião, não deve, todavia, invalidar o que tenho assinalado ini­
cialmente sabendo bem o que dizia, a saber, que tão pouco a nossa
época é mais desfavorável à religião do que foi qualquer outra. Cer­
tamente, a religião não tem diminuído no mundo desde o ponto de
vista quantitativo, porém se tem fragmentado e dispersado demasia­
damente; por efeito de uma pressão poderosa, só se revela mediante
manifestações irrelevantes e superficiais, porém múltiplas, mais apro­
priadas para ressaltar a diversidade do todo e deleitar o olho do
observador que para poder produzir de per si uma impressão grande
e sublime. Tenho aqui, uma vez mais, esta convicção, e que a cons­
ciência de cada um de vós a julgue: que há muitos que exalam o
mais fresco aroma da jovem vida impelidos por uma saudade e um
amor sagrados em direção ao Eterno e Imperecível e que só tarde, e
quiçá nunca por completo, serão vencidos pelo mundo; que não há
ninguém a quem o superior espírito do mundo não se tenha manifes­
tado pelo menos uma vez e que não haja lançado a vergonha de si
mesmo, a quem se ruboriza de sua indigna limitação, uma destas
94 Editora Novo Século Ltda

visões penetrantes que a vista baixada sente sem vê-las. O que falta
a esta geração, e não pode menos que faltar-lhe, são tão somente
heróis da religião, almas santas tal como se viam noutro tempo, para
quem ela é tudo e que estão completamente penetrados por ela.
E sempre que reflito sobre o que deve acontecer e sobre que direção
deve tomar nossa cultura para que os homens religiosos apareçam
de novo revestidos de um estilo superior como produtos, certamente
raros, porém não obstante, naturais de sua época, descubro que vós,
mediante todos os vossos esforços - se isto ocorre conscientemente,
podeis decidí-lo vós mesmos não contribuis pouco a uma
palingenesia da religião, e que em parte vossa atividade geral, em
parte os desvêlos de um círculo mais estreito, em parte as idéias
subliijies de alguns espíritos extraordinários, serão utilizados no curso
da humanidade com vistas a esta finalidade última.
A extensão e a verdade da intuição dependem da agudeza ©■do
alcance do sentido, e o mais sábio, desprovido de sentido, não se
encontra mais próximo à religião que o mais néscio, provido de uma
reta visão. Portanto, o ponto de partida de tudo tem de ser que se
ponha fim à escravidão à que se tem submetido o sentido dos
homens em função daqueles exercícios do entendimento, mediante
os que nada se exercita, daquelas explicações que não aclaram nada,
daquelas análises que nada resolvem; e este é um fim em cuja conti­
nuação rapidamente todos colaborareis conjugando vossas forças.
Com as reformas educativas tem ocorrido o mesmo que com todas
as revoluções que não foram empreendidas tomando como horizon­
te os princípios supremos: essas revoluções se escorregam paulati­
namente, de novo, em direção ao antigo curso das coisas, e só algumas
mudanças de caráter externo mantém a memória do acontecimento
tido inicialmente por admirável e grandioso; a educação intelectua-
lista e prática só se distingue pouco todavia - e este pouco não per­
tence nem ao espírito nem ao influxo exercido - da antiga educação
mecânica. Este fato não se vos tem escapado; dita educação já vos
resulta em grande parte igualmente odiosa e se difunde uma idéia
mais pura acerca da santidade da infância e da eternidade do arbítrio
inviolável, cujas manifestações já é preciso esperar e espiar até na
fase de desenvolvimento humano. Logo ficarão superados estes
limites, e a força intuitiva se apoderará de todo o seu domínio, cada
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 95

órgão se abrirá, e os objetos se poderão pôr de todas as maneiras em


contato com o homem. Porém com esta liberdade ilimitada do senti­
do, se pode muito bem conciliar uma limitação e uma direção firme
da atividade. Esta é a exigência com a que os melhores de vós se
dirigem agora aos contemporâneos e à posteridade. Vós estais can­
sados de contemplar o estéreo divagar enciclopédico. Vós mesmos
só haveis chegado a ser o que sois pela via desta auto-limitação e
sabeis que não há nenhuma outra para formar-se; vós insistis, por­
tanto, em que cada um deve procurar chegar a ser algo determinado
no qual deve desenvolver algum tipo de atividade, de uma maneira
estável e com toda a alma. Ninguém pode precaver-se melhor da
verdade deste conselho do que aquele que já tem alcançado um nível
de maturidade no que se refere àquela universalidade do sentido,
pois esse não pode ignorar que não haveria nenhum objeto, se não
estivesse tudo separado e limitado. E assim também eu me alegro
destes esforços e tenho desejado que já tivessem produzido maiores
resultados. Redundarão de uma forma admirável em benefício da
religião. Pois precisamente esta limitação da força, sempre que o
sentido não se encontre limitado por sua vez, força com tanta maior
segurança o caminho em direção ao Infinito e lhe facilita de novo a
comunhão tanto tempo interrompida. Quem tem intuído e conhece
muitas coisas e pode então decidir-se a fazer e a promover alguma
coisa particular por si mesma, com todas as suas forças, esse tal não
pode reconhecer menos que também as demais coisas particulares
têm de ser executadas e encontrar-se aí por causa delas mesmas,
pois do contrário haveria se contradito a si mesmo e quando depois
de ter levado tão alto como lhe foi possível a realização do objeto
escolhido, ao encontrar-se precisamente no cume da perfeição, me­
nos que nunca se lhe escapará que esta coisa particular não é nada
sem o resto. Este reconhecimento do estranho e a destruição do pró­
prio que se impõe por onde for ao homem sensato, esta exigência
simultânea de amor e desprezo em direção a todo o finito e limitado,
não e possível sem um obscuro pressentimento do Universo e deve
levar consigo necessariamente uma saudade mais pura e determina­
da do Infinito, do Uno em Tudo. Todos conhecem, através da pró­
pria consciência, três direções distintas do sentido, a saber, uma em
direção ao interior, ao próprio eu; outra para fora, em direção ao
96 Editora Novo Século Ltda

indeter-minado da visão do mundo, e uma terceira que une a ambas,


na medida em que o sentido, exposto a uma constante oscilação
entre as duas, só encontra repouso na aceitação incondicionada de
sua união mais íntima; esta é a direção ao perfeito em si, em direção
à arte e suas obras. Só uma delas pode constituir a tendência predo­
minante de um homem, porém a partir de cada uma existe uma via
em direção à religião, e esta reveste uma forma particular, segundo a
peculiaridade da via na qual tem sido encontrada. Intui-vos a vós
mesmos com um empenho constante, separai tudo o que não é o
vosso próprio eu, prossegui assim "com um sentido cada vez mais
agudo e, quanto mais desapareçais ante vossos olhos, tanto mais cla­
ramente se vos apresentará o Universo, tanto mais esplendidamente
sereis ^ompensados mediante o sentimento do Infinito em vós, pelo
trauma da autodestruição. Olhai para fora de vós em direção a uma
parte qualquer, para um elemento qualquer do mundo, e apreendam-
no em todo seu ser, porém juntai também tudo o que é não só em'si,
senão também em vós, neste e naquele e por onde for, repeti vosso
caminho desde a periferia até o centro e desde distâncias maiores:
logo perdereis o finito e havereis encontrado o Universo. Eu deseja­
ria, se não fosse ímpio desejar para além dos próprios limites, poder
intuir com a mesma clareza como o sentido artístico se transmuta
por si só em religião; como, apesar da calma na que, mediante cada
gozo particular, se acrescente ao âmago, este se sente impulsionado,
não obstante, a realizar os progressos que o podem conduzir ao Uni­
verso. Por que aqueles que podem ter percorrido este caminho são
naturezas tão caladas? Eu não conheço dito caminho; se trata de
minha limitação mais denunciada, é a lacuna que sinto profunda­
mente em meu ser, porém que também abordo com respeito. Resig­
no-me a não ver, porém creio; me é clara a possibilidade da coisa, só
que tem de permanecer para mim um mistério. Certamente, se é ver­
dade que há conversões rápidas, incitações mediante as que ao ho­
mem, que em nada pensava menos que em elevar-se acima do finito,
se lhe manifesta de uma maneira instantânea mediante uma ilumina­
ção imediata, interna, o sentido para o Universo, e o surpreende com
sua grandiosidade, então creio que, em maior medida que qualquer
outra coisa, a contemplação de grandes e sublimes obras de arte pode
realizar este milagre; só que nunca chegará a percebê-lo; não obstante,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 97

esta fé se projeta mais em direção ao futuro do que em direção ao


passado ou ao presente. Encontrar o Universo pela via da auto-con-
templação mais abstrata foi a tarefa que se propôs o antiquíssimo
misticismo oriental, que com admirável audácia conectou o infinita­
mente grande ao infinitamente pequeno e encontrou tudo, justamen­
te nos limites do nada. Da visão do mundo (Weltanschaung), sei-o,
surgiu toda a religião, cujo o esquematismo era o céu ou a natureza
orgânica, e o politeísta Egito foi por muito tempo o cultivador mais
perfeito desta forma de pensar, na que - cabe ao menos suspeitá-lo -
a intuição mais pura do Infinito e o vivente originário pode haver
discorrido, em humilde tolerância, justamente ao lado da supersti­
ção mais obscurantista e da mitologia mais absurda; de uma religião
da arte que houvera dominado povos e épocas, nunca cheguei a
ter conhecimento algum. Só sei que o sentido artístico nunca tem
influenciado nestas duas espécies de religião sem preenchê-las de
uma nova beleza e santidade sem haver atenuado amistosamente sua
limitação originária. Assim, os mais antigos sábios e poetas gregos
transformaram a religião da natureza dando-lhe uma configuração
mais bela e jovial, e deste modo seu divino Platão elevou a mística
mais sagrada ao cume supremo da Divindade e da humanidade.
Deixai-me render tributo ao deus4, para mim desconhecido, em aten­
ção a que este deus tem cuidado dele e de sua religião com tanto
esmero e desinteresse. Admiro o mais belo auto-esquecimento em
tudo o que disse contra esse deus5 incitado por um céu sagrado, por
meio de um rei justo que tão pouco perdoa à mãe, de coração dema­
siado brando, pois tal crítica só se referia ao serviço voluntário que
esse deus rendia à imperfeita religião da natureza. Agora não está ao
serviço de nenhuma religião, e tudo é distinto e pior. A religião e a
arte se encontram, uma ao lado da outra como duas almas amigas,
cujo parentesco íntimo, ainda que estes cheguem a pressentí-lo,
todavia lhes é desconhecido. Têm sempre sobre os lábios palavras
amistosas e efusões do coração6, e sempre as reiteram de novo, por­

4 A arte
5 Referência à critica platônica da arte.
6 Alusão à obra de W.H. Wackenroder e L. Tieck, aparecida dois anos antes da publicação
dos Discursos, Herzensergiessungen eines Kuntsliebenden Klosterbruders.
98 Editora Novo Século Ltda

que estes, todavia não podem encontrar a verdadeira índole e o fun­


damento último de seu modo de pensar e de seus desejos. Estes
estão à espera de uma próxima revelação, e sofrendo e suspirando
sob a mesma opressão, vêem como se toleram mutuamente, quiçá
com uma íntima adesão e sentimentos profundos, porém sem amor.
Há de conduzir só esta opressão comum ao momento feliz de sua
união? Ou liberareis prontamente um grande combate em prol
daquele dos dois pelo qual sintais um apreço especial, em cujo caso
se apressará certamente em fazer-se responsabilidade de outro, ao
menos com fidelidade fraternal. Porém de momento não só carecem
ambos os tipos de religião da ajuda da arte, senão que também seu
estado é em si mesmo pior que no passado. Em uma época na qual as
sutilezas científicas, carentes de verdadeiros princípios, todavia não
haviáfri alterado, por causa de sua vulgaridade, a pureza do sentido,
ambas fontes da intuição do Infinito fluíam cheias de grandeza e
virtuosidade, ainda que nenhuma delas era de per si suficientemente
rica para aclarar sua máxima realidade; agora se encontram ademais
perturbadas pela perca da simplicidade e pelo influxo pernicioso de
uma maneira de pensar presunçosa e falsa. Como seria possível
purificá-las? Como se lhes proporcionaria a suficiente força e pleni­
tude para que fecundem o solo com vistas a proporcionar algo mais
que produtos efêmeros? Fazê-las convergir e reuní-las em um mes­
mo leito é a única coisa que pode conduzir a religião ao seu aperfei­
çoamento, pelo caminho que nós seguimos; isto constituiria um
acontecimento desde cujo seio logo em tempos melhores sob uma
forma nova e grandiosa. Reparai nisto: a meta de vossos supremos
esforços atuais é por sua vez a ressurreição da religião! Vossa solici­
tude é a que deve conduzir a este acontecimento, e eu celebro em
vós - ainda quando não pretendais sê-lo - os salvadores e promoto­
res da religião. Não vos desvieis de vosso posto e de vossa obra até
que tenhais penetrado no mais íntimo do conhecimento e aberto com
humildade sacerdotal o santuário da verdadeira ciência, onde a to­
dos os que entram, e também aos filhos da religião, se substituíra
tudo o que lançavam a perder uma semiciência e uma atitude arro­
gante que se derivava dela. A moral em sua beleza recatada, celestial,
distante dos céus e da arrogância despótica, lhes proporcionará ela
mesma, à entrada, a lira celestial e o espelho mágico para acompa­
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 99

nhar seu processo formativo sério, silencioso, com acentos divinos,


e para contemplá-lo sempre ou mesmo sob inumeráveis configura­
ções, através de toda a infinitude. A filosofia, elevando ao homem à
concepção de sua interação com o mundo, ensinando-lhe a conhe­
cer-se não só como criatura, senão por sua vez como criador, não
toleraria por mais tempo que sob seus olhos, malogrando seu fim,
languideza, pobre e indigente, aquele que mantém o olho de seu
espírito firmemente voltado para si, afim de buscar ali o Universo.
O angustioso muro divisor se tem desmoronado, tudo o que se
encontra fora dele não é mais que outra coisa nele; tudo é reflexo de
seu espírito, o mesmo que seu espírito é a estampagem de tudo; ele
pode buscar-se a si neste reflexo, sem perder-se ou sair fora de si;
não pode esgotar-se nunca na intuição de si mesmo, posto que tudo
se encontra nele. Àquele que olha em torno de si para contemplar o
Universo, a física o coloca audazmente no centro da natureza e não
tolera por mais tempo que se disperse infrutuosamente e se centre
em pequenos detalhes particulares. Então ele não faz mais que per­
seguir o jogo das forças da natureza até sua dimensão mais recôndi­
ta, desde as inacessíveis reservas da matéria móvel ate os laboratórios
sofisticados da vida orgânica; ele avalia seu poder desde os limites
do espaço iluminado de mundos até o centro do seu próprio eu, e se
encontra por onde for em eterno conflito e na união mais indissolúvel
com esta natureza, mostrando-se como seu centro mais íntimo e como
seu limite mais externo. A aparência se tem dissolvido e a essência
tem sido alcançada; firme é seu olhar e clara é sua visão reconhecen­
do a mesma realidade por onde for sob todos os disfarces e não
encontrando repouso em nenhuma parte a não ser no Infinito e no
Uno. Já vejo em algumas figuras importantes, iniciadas nestes mis­
térios, retornar do santuário, que só se purificam e embelezam-se
todavia, para se apresentarem revestidos da indumentária sacerdo­
tal.7 Por mais que também o outro deus8 possa diferir ainda por mui­
to tempo sua beneficiosa aparição, também para isto a época nos
proporciona um grande e rico sucedâneo. A maior obra de arte é
aquela cuja matéria a constitui a humanidade, aquela que forma ime­

7 Provavelmente alude a determinados protagonistas do movimento romântico.


8 Em consonância com referências anteriores, se trata da arte.
100 Editora Novo Século Ltda

diatamente o Universo, e desta muitos têm de tomar logo consciên­


cia. Pois o Universo cria atualmente formas com uma arte atrevida e
vigorosa, e vós sereis os servidores do templo quando as novas for­
mas forem expostas no templo do tempo. Interpretai ao artista com
força e espírito, explicai as obras posteriores a partir das anteriores e
a estas a partir daquelas. Entrelacemos passado, presente e futuro,
uma galeria sem fim das mais sublimes obras de arte, multiplicadas
eternamente por mil espelhos reluzentes. Deixai que a história, como
convêm a quem tem mundos à sua disposição, recompense com
generosa gratidão à religião, como sua primeira cultivadora, e susci­
te verdadeiros e santos adoradores do poder e sabedoria eternos.
Vede como a árvore celeste se desenvolve no meio de vossas planta­
ções sem vossa colaboração. Não interfirais em seu desenvolvimen­
to nerí a arranqueis! E uma prova da complacência dos deuses e do
caráter imperecível de vosso mérito; é um ornamento que o embeleza,
um talismã que o protege.
Q uarto D iscurso
SOBRE A SOCIABILIDADE
NA RELIGIÃO OU SOBRE A
IGREJA E O SACERDÓCIO
Aqueles de vós que estão acostumados a não ver a religião
senão como uma enfermidade da alma costumam também, por cer­
to, compartilhar a idéia de que ela constitui um mal mais facilmente
tolerável, quiçá suscetível de ser dominado, enquanto que só indiví­
duos afastados, aqui e ali, se encontrem afetados por dita enfermida­
de, porém opinam que o perigo comum alcançaria um nível máximo
e tudo estaria perdido tão logo se constituísse uma comunidade de­
masiado estreita entre vários infelizes deste gênero. No primeiro caso
se poderia, mediante um tratamento adequado, colocaríamos por
acaso, mediante uma dieta que resiste à inflamação e mediante ar
salubre, atenuar os paroxismos, e ali onde não se conseguisse vencer
por completo os agentes peculiares da enfermidade, se coubesse
reduzí-los a um nível inócuo; porém no segundo caso seria preciso
desejar toda esperança de salvação; o mal se faria mais devastador e
viria acompanhado dos sintomas mais perigosos se em cada indiví­
duo se fomenta e acentua a proximidade excessiva dos outros; em
dito caso uns poucos logo envenenariam toda a atmosfera; inclusive
os corpos mais sãos seriam contagiados, todos os canais pelos quais
deve passar o processo da vida seriam destruídos, toda a seiva
dissolvida, e vítimas do mesmo delírio febril, ficariam afetadas, de
uma forma irreparável, gerações e povos inteiros. Por conseguinte,
vossa antipatia para com a Igreja, para com toda a organização que
tenha por feitio transmitir a religião, sempre é maior ainda que a
experimentais para com a própria religião; por isto os sacerdotes,
102 Editora Novo Século Ltda

em sua condição de suporte e membros propriamente ativos de tais


organizações, são para vós os mais odiosos dos homens. Porém
também aqueles de vós que têm da religião uma opinião mais ma­
tizada e a consideram mais como um fato singular do que uma
perturbação da alma, mais como um fenômeno irrelevante do que
perigoso, têm, no que se refere a todo ordenamento social da mes­
ma, conceitos que são exatamente iguais a pejorativos. A renúncia
servil ao que possui um caráter de espírito e os usos vazios seriam,
segundo sua opinião, conseqüências inseparáveis de tal ordena­
mento social e a obra criativa daqueles que com um êxito incrível
procuram grandes méritos a pártir de coisas que ou bem carecem
de relevância, ou antes que qualquer outro estaria em condições de
realiiar igual ou melhor. Só vos abriria meu coração de um modo
muito imperfeito, no que se refere ao objeto que para mim é tão
importante, se não me esforçar por situar-vos, também a este res­
peito, sobre o reto ponto de vista. Não preciso repetir quantas aspi­
rações equivocadas e tristes destinos da humanidade imputais às
associações religiosas; esta relação se encontra em mil expressões
dos autores mais estimados entre vós; tão pouco quero deter-me
em refutar uma por uma destas imputações e em atribuir o mal a
outras causas: submetamos mais corretamente toda a concepção
em um novo exame e recriemo-la a partir do centro da coisa, sem
nos preocupar com o que tem ocorrido até agora e do que nos ofe­
rece a experiência.
Desde o momento em que existe a religião, ela tem de ser
também necessariamente sociável: isto dimana não só da natureza
do homem, senão também, de uma maneira muito especial, da pró­
pria religião. Vós tereis que admitir que é algo sumamente contrário
à natureza que o que o homem tem produzido e elaborado em si
mesmo o queira também manter fechado em si. Na constante
interação, não só prática como também intelectual, na que se encon­
tra com os demais indivíduos de sua espécie, deve expressar e co­
municar tudo que há nele, e quanto mais violentamente algo o
comove, quanto mais intimamente penetra seu ser, tanto mais inten­
samente se deixa sentir o impulso de contemplar sua força também
fora de si, em outros, para justificar diante de si mesmo que tudo o
que lhe tem ocorrido é humano. Vós vereis que aqui não se fala de
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 103

modo algum daquela pretensão de fazer com que outros se asseme­


lhem a nós, nem da crença de que o que há em nós é indispensável
para todos, senão tão só de tomar consciência da relação de nossas
contingências particulares com a natureza comum. Pois bem, o
objeto mais peculiar deste desejo é indiscutivelmente aquele em que
o homem se sente originariamente passivo, a saber, as intuições e os
sentimentos; a este respeito lhe obrigou a conhecer se se trata de
algum poder estranho e indigno ante o qual se veja coagido a ceder.
Por isso vemos que o homem se aplica, já desde a infância, em
comunicar especialmente suas intuições e sentimentos: ele deixa antes
que repousem sobre si seus conceitos, acerca de cuja origem, por
demais, não pode surgir-lhe dúvida alguma; porém do que impres­
siona seus sentidos, do que excita seus sentimentos, disto quer ter
testemunhos, neste ponto quer ter co-partícipes. Como haveria ele
de guardar para si precisamente os efeitos do Universo, que se lhe
apresentam como o que há de maior e irresistível? Como haveria de
querer reter em si precisamente aquilo que com maior força lhe im­
pulsiona a sair fora de si, e mais que nenhuma outra coisa lhe infun­
de a convicção de que ele não se pode conhecer a si mesmo tendo-se
só a si como ponto de referência. Seu primeiro impulso consiste
sobretudo, quando uma visão religiosa se tem tomado clara para ele
ou um sentimento piedoso penetra sua alma, em chamar também a
atenção de outros sobre esse objeto e se é possível, em transmitir-
lhes as vibrações de seu espírito. Se portanto, pressionado por sua
natureza, o homem religioso fala por necessidade, é precisamente
por esta natureza que ele procura também ouvintes. Em nenhum gê­
nero de pensamentos ou de sentimentos tem o homem uma sensação
tão viva de sua total incapacidade para esgotar alguma vez seu obje­
to como no caso da religião. Seu sentido religioso não se tem des­
pertado antes que ele também sinta seus próprios limites e a infinitude
da religião; ele é consciente de não abarcar mais que uma pequena
parte dela, e o que ele não pode alcançar imediatamente, o quer per­
ceber ao menos através de um meio estranho. Por isto lhe interessa
toda manifestação da religião, e buscando o que lhe poderia servir
como complemento, está à escuta de qualquer acento no qual possa
reconhecer a presença da mesma. Desta forma se estabelece uma
comunicação recíproca; desta forma falar e escutar são para todos
104 Editora Novo Século Ltda

igualmente imprescindíveis. Porém a comunicação religiosa não se


tem de buscar nos livros, tal como pode ser o caso de outros concei­
tos e conhecimentos. A impressão original perde muito através des­
te meio, no qual se dissolve tudo o que não se encaixa na uniformidade
dos signos mediante os quais tem de produzir-se, de novo, essa im­
pressão, e em cujo marco tudo necessitaria de uma dupla ou tripla
exposição, enquanto que o objeto da exposição originária teria de
ser exposto de novo, e todavia, a repercussão sobre o conjunto do
homem só poderia ser reproduzida inadequadamente, em sua grande
unidade, mediante uma reflexão que implica múltiplas operações;
só se a religião é expulsa da sociedade dos vivos, se vê necessitada
de ocultar os múltiplos aspectos de sua vida sob a letra morta. Tão
pouco este comércio com o mais íntimo do homem pode ser pratica­
do no marco de uma conversação comum. Muitos, que estão cheios
de boa vontade com relação à religião, vos têm censurado por que se
fala, pois, entre vós no marco de umas relações amistosas, de todos
os objetos importantes, com a só exceção de Deus e das coisas divi­
nas. Eu quisera defender-vos a este respeito, assinalando que disto,
ao menos, não se deduz nem desprezo nem indiferença, senão um
instinto feliz e muito certeiro. Ali onde o regozijo e o riso também
estao em seu elemento, e a seriedade mesma tem de coexistir de uma
forma condescendente com a brincadeira e a graça, não pode haver
espaço algum para aquilo que sempre tem de estar rodeado de um
santo pudor e de uma santa veneração. Visões religiosas, sentimen­
tos piedosos e serias reflexões em torno destes, tenho aqui coisas
que tão pouco cabe arrojar entre uns e outros em pequenas migalhas,
como se se tratasse dos conteúdos de uma conversação superficial:
onde se falar de objetos tão sagrados, seria mais frivolidade que
habilidade ter preparada, imediatamente, uma resposta para cada per­
gunta e uma réplica para cada alocução. Desta forma, a saber, medi­
ante um intercâmbio fácil e rápido de ocorrências brilhantes, não
cabe abordar as coisas divinas: a comunicação religiosa tem de
desenvolver-se em um estilo mais elevado, e daí deve surgir uma
outra espécie de sociedade, que esteja dedicada propriamente à reli­
gião. Convém aplicar também toda a plenitude e magnificência do
discurso humano ao objeto supremo que possa alcançar a lingua­
gem, não como se houvesse algum ornamento de que não pudesse
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 105

prescindir a religião, senão porque seria ímpio e frívolo não mostrar


que se tem de recorrer a todas as possibilidades para expô-la com a
força e dignidade adequadas. Por isto é impossível expressar e co­
municar a religião de outra maneira que mediante um modo oratório,
abrindo mão de todos os recursos e a arte da linguagem, e apelando
para isto, de bom grado, aos serviços de todas as artes, que poderão
prestar seu apoio à fugacidade e mobilidade do discurso. Por isto
também a boca daquele, cujo coração está cheio dela, só se abre
diante de uma assembléia que pode exercer múltiplos influxos, o
que representa uma aparência tão magnífica. Desejaria poder trazer-
vos um quadro da vida rica, exuberante, nesta cidade de Deus, quan­
do se congregam seus cidadãos, cada um cheio de força própria, que
quer difundir-se no espaço aberto, e cheio de desejo sagrado de apre­
ender e de apropriar-se de tudo o que outros possam oferecer-lhe.
Quando alguém se destaca frente aos demais, não é um cargo ou o
resultado de um acordo o que lhe legitima para isto, não é orgulho
ou arrogância o que lhe infunde presunção: se trata de um livre mo­
vimento do mesmo espírito, do sentimento e da união mais cordial
de cada um com todos e da igualdade mais completa, da anulação,
realizada de comum acordo, de tudo “em primeiro lugar” e “em últi­
mo lugar” e de toda ordem terrena. Quem se destaca é com o fim de
apresentar sua própria intuição como objeto de consideração para os
demais, para conduzí-los ao campo da religião, no que se encontra
em seu elemento, e para infundir-lhe seus sentimentos sagrados; ele
dá expressão ao Universo, e a comunidade segue, em sagrado silên­
cio, seu inspirado discurso. Ainda que ele desvele um milagre ocul­
to, ou antes que conecte o futuro com o presente, impulsionado por
uma confiança profética; ainda que mediante novos exemplos cor­
robore antigas percepções, ou antes que sua ardente fantasia lhe trans­
porte mediante sublimes visões a outras partes do mundo e a outra
ordem de coisas: o experimentado sentido da comunidade o acom­
panha por onde for, e quando ele retoma a si mesmo de suas incur­
sões através do Universo, seu coração e o de todos os demais é o
cenário comum do mesmo sentimento. Então se lhe responde em
alta voz confessando a concordância de seu ponto de vista com o
que compartilham estes, e assim serão desvelados e celebrados mis­
térios, não só emblemas cheios de significado, senão, considerada
106 Editora Novo Século Ltda

corretamente a situação, indícios naturais de uma consciência e de


umas sensações determinadas; como um coro superior que responde
em uma linguagem própria, sublime, à voz que lha havia interpela­
do. Porém não se trata tão só de um símile: assim como um tal dis­
curso é música, ainda quando não venha acompanhada de canto e
entonação, assim também, entre-os santos, existe uma música que se
transforma em um discurso sem palavras, na expressão mais deter­
minada, mais compreensível da realidade mais íntima. A musa da
harmonia, cuja relação familiar com a religião pertence todavia à
ordem dos mistérios, em todo tertipo tem oferecido a esta, sobre seus
Í1tares, as obras mais magnificas e consumadas de seus discípulos
mais consagrados. Em hinos e coros sagrados, aos que as palavras
dos poetas só vão unidas de uma forma livre e etérea, se exala o que
a natureza determinada do discurso já não pode apreender, e assim
se apoiam e alternam as tonalidades do pensamento e da sensação,
até que tudo esteja saturado e cheio do Santo e o Infinito. Tal é o
influxo que os homens religiosos exercem entre si, tal é sua vinculação
natural e eterna. Não lhes tomeis a mal que este vínculo celeste, o
resultado mais perfeito da sociabilidade humana, resultado que esta
só pòde alcançar se é conhecida desde o ponto de vista mais elevado
em seu ser mais íntimo, tenha mais valor para estes que vosso víncu­
lo político terreno, que só é fruto de uma imposição efêmera, provi­
sória. Onde se encontra, pois, em tudo isto aquela oposição entre
sacerdotes e leigos que vós costumais considerar como a fonte de
tantos males? Uma falsa aparência vos tem obcecado: não se trata
aqui de nenhuma diferença entre pessoas, senão tão só de uma dife­
rença de disponibilidade e de relações. Cada um é sacerdote na me­
dida que atrai os outros a si, ao campo que se tem apropriado de uma
forma particular e no qual se pode apresentar como virtuoso; cada
um é leigo na medida em que segue a arte e as indicações de outro
naquele âmbito da religião no qual ele mesmo é um estranho. Não
existe aquela aristocracia tirânica, que vós descreveis de uma forma
tão odiosa: esta sociedade é um povo sacerdotal, uma república per­
feita, na qual cada um é alternativamente chefe e povo, na qual cada
um obedece em outros a mesma força que ele também sente em si, e
com a que ele, por sua vez, domina também aos outros. Onde está o
espírito de discórdia e de cisão, que vós considerais como a conse­
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 107

qüência inevitável de todas as associações religiosas? Eu vejo uni­


camente que tudo é um e que todas as diferenças, que existem real­
mente na própria religião, se fundem suavemente entre si devido
precisamente à união que gera a sociabilidade. Eu mesmo tenho cha­
mado vossa atenção sobre a existência de diferentes graus de religi­
osidade, tenho aludido a duas concepções distintas e as diferentes
direções, segundo as que a fantasia individualiza, em função pró­
pria, o objeto supremo da religião. Pensais que daqui haverão de
surgir necessariamente seitas e que isto haveria de impedir a livre
sociabilidade na religião? Em um plano ideal vale certamente o prin­
cípio de que tudo que está separado e colocado sob seções distintas
deve também opor-se e contradizer-se; porém rejeitai este enfoque
quando considerardes o próprio real; aí tudo se confunde. Certa­
mente, aqueles que mais se assemelham em um destes pontos tam­
bém se atraem mutuamente com a maior intensidade, porém não
podem por isto constituir um todo separado: pois os graus deste pa­
rentesco aumentam e diminuem de um forma imperceptível, e ante
tantas tradições não há, inclusive entre os elementos mais distantes,
nenhuma repulsão absoluta, nenhuma separação total. Tomai destas
massas, que são produtos de uma constituição química particular,
aquela que vós queirais; se não a afastais violentamente mediante
alguma operação mecânica, nenhuma constituirá uma individuali­
dade própria; suas partes extremas estarão, por sua vez, em conexão
com outras que já pertencem propriamente a outra massa distinta.
Se se unem mais estreitamente àqueles que se encontram no mesmo
nível inferior, também há alguns entre estes que têm um pressenti­
mento do melhor, e qualquer que esteja situado realmente num nível
superior, os compreendem melhor do que estes se compreendem a si
mesmos; ele é consciente do ponto de conexão que permanece ocul­
to a estes. Se se associam entre si aqueles nos quais impera uma das
concepções, há, não obstante, alguns que compreendem à ambas e
que pertencem a ambas; e aquele a quem é natural personificar o
Universo, todavia, no essencial, no que se refere à matéria da reli­
gião, não se tem de diferenciar de quem não o personifica, e não
faltará quem também possa facilmente compartilhar o ponto de vista
oposto. Se a universalidade limitada do sentido é a condição primei­
ra e originária da religião e por tanto também, como é natural, seu
108 Editora Novo Século Ltda

fruto mais belo e mais maduro, bem vedes que não é possível que
ocorra de outra maneira; quanto mais progredis na religião, tanto
mais o mundo religioso em sua totalidade deve aparecer-vos como
um todo indivisível: só nos estratos inferiores pode perceber-se qui­
çá uma certa tendência à separação; os espíritos superiores e mais
cultos vêem uma associação geral, e precisamente devido ao que
vêem, a edificam também. Cada um só está em contato com o vizi­
nho mais próximo, porém ao lidar também, em todos os sentidos e
direções, com este, se encontra de fato em uma conexão inseparável
t com o Todo. Místicos e físicos na religião, teístas e panteístas, aque­
les que se têm elevado a uma visão sistemática do Üniverso, e aque­
les que só o intuem em seus elementos ou no obscuro caos, todos
devem, não obstante, constituir uma só coisa, um só vínculo que os
abraça a todos, e só podem ser separados de um forma violenta e
arbitrária; toda união particular não é mais que uma parte fluída e
integradora do todo, que se perde no mesmo através de contornos
imprecisos, e também só deste modo é consciente de si. Onde está a
injuriada mania, desenfreada, de efetuar conversões conducentes a
certas formas determinadas de religião, e onde se encontra a terrível
máxima “fora de nós não há salvação”?1
A sociedade religiosa, tal como vô-la tenho exposto, e tal como
deve ser segundo sua natureza, tende só à comunicação recíproca e
existe tão só entre quem já tem religião, seja qual for: como poderia,
portanto, consistir seu dever em fazer mudar de opinião àqueles que
já professam uma religião determinada ou em conduzir e iniciar àque­
les que carecem todavia por completo dela? A religião da sociedade,
tomada em seu conjunto, é a religião total, infinita, que nenhum in­
divíduo pode abarcar, e com vistas a que, portanto, tão pouco nin­
guém é suscetível de ser formado e elevado. Se, portanto, alguém já
tem escolhido para si uma parte desta religião, seja qual for, não
seria um modo de proceder absurdo, por parte da sociedade, querer
arrebatar-lhe o que está de acordo com a sua natureza, dado que ela
também tem de abarcar em si esta parte e, por conseguinte, alguém
tem de possuí-la necessariamente? E para que haveria ela de querer
formar àqueles para os quais a religião é, em geral todavia, algo

1 Refere-se, como é obvio, à conhecida expressão extra ecclesiam nulla salus.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 109

estranho? Pois tão pouco ele mesmo pode comunicar-lhes sua pro­
priedade, o Todo infinito; poderia portanto transmitir-lhe talvez o
geral, o indeterminado que quiçá se faria patente, se se averiguasse
o que eventualmente se encontra presente em todos os seus mem­
bros? Porém vós bem sabeis que nada pode, em parte alguma, ser
realmente transmitido e comunicado como algo geral e indeterminado
senão tão só como algo particular e sob uma forma completamente
determinada, porque, do contrário, isto não seria algo, senão de fato,
nada. Se se procedesse assim, a sociedade religiosa careceria, por­
tanto, de toda medida e de toda regra. E como chegará ela em geral a
sair de si, posto que o estado de indigência do qual tem surgido o
princípio da sociabilidade religiosa não sugere nada semelhante.
O que acerca deste ponto ocorre, portanto, na religião é sempre um
mero assunto privado do indivíduo, para si. Obrigado a retirar-se às
regiões inferiores da vida, desde o círculo da associação religiosa,
na qual a intuição do Universo lhe proporciona o gozo mais sublime,
e no qual, penetrado por sentimentos mais sagrados, seu espírito se
floresce sobre o cume mais elevado da vida, seu consolo consiste
em que tudo com o que ele deve ocupar-se aí também pode referí-lo
por sua vez ao que sempre constitui a meta suprema de seu espírito.
Quando ele descende, desde esse nível, até aos que se limitam a
qualquer aspiração e atividade terrenas, crê ele facilmente - e vós
deveis perdoar-lhe - haver sido transladado desde o comércio com
os deuses e as musas ao seio de uma raça de bárbaros incultos. Ele se
sente como um novo administrador da religião entre os não-crentes,
como um missionário entre os selvagens, como um novo Orfeo,
espera ganhar a muitos destes com seus acordes celestiais e se apre­
senta a estes como uma figura sacerdotal, que expressa, de uma for­
ma clara e nítida, em todas as ações e em todo seu ser a superioridade
de seu sentido. Se a impressão do sagrado e o divino suscita então
algo semelhante em seus destinatários, com que pródiga satisfação
seus cuidados aos primeiros indícios de religião no novo espírito,
uma bela prova de seu florescimento inclusive em um clima estra­
nho e rigoroso! Com que ar triunfante eleva consigo ao neófito até a
sublime assembléia! Esta solicitude em difundir a religião não é mais
que a nostalgia piedosa que o estrangeiro sente de seu solo natal, o
esforço por levar consigo sua pátria e de contemplar por onde for as
110 Editora Novo Século Ltda

leis e costumes da mesma, sua vida superior, mais bela; a própria


pátria, que é em si ditosa e suficientemente perfeita para si, tão pou­
co conhece este esforço. •
Depois de tudo isto, quiçá direis que pareço estar tolamente
de acordo com vós; tenho concebido a igreja a partir do conceito de
sua finalidade, e enquanto lh& tenho questionado todas as caracterís­
ticas que a distingue no momento presente, tenho desaprovado sua
configuração atual com o mesmo rigor que vós. Porém vos asseguro
que não tenho falado do que deve ser, senão do que é, que vós não
pretendeis negar, pelo contrário, que exista já realmente aquilo que
só as limitações espaciais impedem que se manifeste, inclusive à
visão menos perspicaz. A verdadeira Igreja tem sido, de fato, sem­
pre assim e o é todavia, e se vós não a vedes assim, a culpa é, propri­
amente, vossa e se embasa em um mal-entendido bastante obvio.
Considerai tão só, vos rogo, que eu, para servir-me de uma expres­
são antiga porém criativa, não tenho falado da Igreja militante, mas
da triunfante, não daquela que luta contra todos os obstáculos
da formação religiosa, que a época e o estado da humanidade lhe
põem no caminho, senão daquela que já tem superado tudo que se
lhe opunha, e se tem constituído a si mesma. Tenho-vos descrito
uma sociedade de homens que tomou consciência de sua religião e
para os que a visão religiosa da vida se tem convertido em uma das
predominantes, e crendo tê-los convencido de que se trata de
homens de alguma formação e de muita energia, e de que, portanto,
sempre serão muito poucos numerosos, não deveis buscar então,
certamente, sua união ali onde muitas centenas estão congregados
em grandes templos e seu canto já perturba desde longe vosso ouvi­
do: os homens desta índole, vós o sabeis bem, não se encontram tão
próximos entre si. Quiçá, também, é tão só em algumas comunida­
des isoladas, à margem, por assim dizê-lo, da grande igreja, onde
cabe falar algo semelhante, concentrado em um espaço determina­
do. Não obstante, é certo que todos os homens verdadeiramente reli­
giosos, na medida em que tenham existido alguma vez, têm levado
consigo não só a fé, senão o sentimento vivo de uma tal união e nela
têm vivido propriamente, e que todos estes têm sabido estimar o que
comumente se chama igreja muito em consonância com seu valor,
isto é, não por certo de uma forma especialmente engajada.
Sobre a Religião - F D. E. Schleiermacher 111

Pois esta grande associação, à que se referem propriamente


vossas graves incriminações, distantes de ser uma sociedade de ho­
mens religiosos, não é outra coisa que uma união daqueles que bus­
cam todavia a religião, e deste modo considero muito natural que se
oponha à dos homens já religiosos, em quase todos os aspectos.
Desgraçadamente, para fazer com que este assunto vos seja tão cla­
ro como está para mim, deverei descer a uma multidão de coisas
terrenas e mundanas e abrir um caminho através de um labirinto das
aberrações mais estranhas; isto não o faço sem contrariedade, porém
aceitemos que isso ocorra assim; vós deveis, depois de tudo, vos pôr
de acordo comigo. Quiçá suceda que a forma totalmente diferente
de sociabilidade em ambas associações vos convença já, no essen­
cial, quando vos chame a atenção sobre isto, de minha opinião. Eu
espero que, como resultado do que precede, estejais de acordo comi­
go acerca de que na verdadeira sociabilidade religiosa toda comuni­
cação tem um caráter recíproco, de que o princípio que nos impulsiona
a expressar o que nos é próprio possui um parentesco íntimo com o
que nos inclina a aderirmos ao estranho, e de que deste modo, ação e
reação estão unidas entre si da forma mais indissolúvel. Aqui2, pelo
contrário, vos topais imediatamente com uma forma completamente
distinta: todos querem receber, e só há aí um que deve dar; com uma
atitude completamente passiva deixam que se atuem sobre estes, da
mesma maneira, através de todos os ‘órgãos, e ao máximo colabo­
ram estes mesmos, desde seu interior, em dita tarefa, na medida em
que tem poder sobre si, sem chegar se quer a pensar em reagir frente
a outros. Não mostra isto com suficiente clareza que também o prin­
cípio de sua sociabilidade deve ser de índole completamente distin­
ta? Certamente, tratando-se destes, não pode falar-se de que só
pretendam complementar sua religião mediante a dos outros; pois
se, de fato estes possuíram alguma, esta se revelaria, desde já, como
tal, exercendo algum tipo de atividade sobre outros, dado que isto se
embasa em sua natureza. Estes não reagem, porque não são capazes
de reação alguma, e só podem se mostrar incapazes de reagir, pois
não se encontra nestes religião alguma. Se está permitido servir-me
de uma imagem tomada do âmbito científico, em cujas expressões

2 Não na verdadeira Igreja, senão na Igreja tal como existe realmente.


112 Editora Novo Século Ltda

recorro preferentemente no que se refere aos temas religiosos, diria


que estes são negativamente religiosos e que agora chegam em gran­
des massas aos poucos pontos em que pressentem a presença do
princípio positivo da religião para unir-se com este. Porém, quando
assumem em si este princípio,, o que então lhes falta é capacidade
para conservar o novo produto; a matéria sutil que, por assim dizer,
só poderia planar sobre sua atmosfera, se lhes escapa, e estes andam
outra vez durante um tempo mergulhados em um certo sentimento
de vazio, até se verem saturados de novo negativamente. Esta é, em
poucas palavras, a história de sua vida religiosa e o caráter da ten­
dência sociável que leva consigo. Não religião, só um pouco de
sentido para ela e um penoso esforço, lamentavelmente inútil, por
anuir à mesma, é tudo o que cabe reconhecer até aos melhores deles,
àqueles que o intentam, com espírito e zelo. No curso de sua vida
familiar e civil, no cenário mais amplo de cujo os episódios são
espectadores, ocorrem naturalmente muitas coisas, que também de­
vem afetar o sentido religioso, por limitado que seja. Por isto se fica
tão só no nível de um obscuro pressentimento, de uma débil impres­
são de uma massa demasiado branda, cujos contornos se diluem ime­
diatamente no indeterminado; tudo será logo arrastado pelas ondas
da vida prática até à região menos visitada de lembrança, e inclusive
ali ficará rápida totalmente sepultada pelas coisas mundanas. Não
obstante, da repetição mais freqüente deste pequeno estímulo surge
finalmente uma necessidade: o obscuro fenômeno que tem lugar no
espírito, e que sempre reaparece, quer finalmente ser esclarecido.
O melhor meio para isto, assim haveria que pensar certamente, seria
este, a saber, que se tiraram o incômodo de examinar sossegada
e exatamente o que atua assim sobre estes: porém esta realidade
atuante é o Universo e neste se encontram, por certo, entre outras,
também todas as coisas particulares, nas que tem que pensar e com
as que tem que ocupar-se nas restantes dimensões de sua vida.
À estas últimas, segundo um antigo costume, se dirigiria involunta­
riamente seus sentidos, e o sublime e o Infinito se fragmentariam de
novo ante seus olhos em meras realidades particulares e pouco rele­
vantes. Estes são conscientes disto, e por isso não confiam em si
mesmos e recorrem a uma ajuda estranha: querem contemplar no
espelho de uma exposição estranha o que na percepção imediata não
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 113

fariam mais que distorcer. Tal é o modo como buscam a religião:


porém em última instância mal interpretam todo este esforço. Pois
quando as manifestações de um homem religioso suscitam todas
aquelas recordações e prosseguem seu caminho sob uma impressão
mais forte dos mesmos, ao serem afetados de um modo convergente
por estes, pensam então que sua indigência se tem aplacado, que se
tem satisfeito as tendências da natureza e que possuem agora a reli­
gião em si, a qual, não obstante - precisamente como ocorria antes,
só que num grau superior- unicamente tem chegado a estes a partir
de fora, como um fenômeno fugaz. Estes sempre permanecem víti­
mas deste engano, posto que da verdadeira e viva religião não pos­
suem nem conceito nem, intuição, e com a vã esperança de chegar
finalmente à visão correta, repetem mil vezes a mesma operação e
permanecem sempre onde têm estado e o que têm sido. Se estes
foram mais longe, se por esta via a religião se lhes infundisse de
uma forma autoativa e viva, abandonariam rapidamente aquela cuja
unilateralidade e passividade não se adequará por mais tempo a seu
estado, nem tão pouco a poderiam suportar; buscariam ao menos,
junto com ela, outro círculo distinto, no qual sua religião poderia
mostrar-se também ativa e atuar fora de si, e isto logo haveria de
constituir sua obra fundamental e seu amor exclusivo. K assim tam
bém a Igreja se voltará, de fato, tanto mais indiferente aos homens
quanto mais progridem em religião, e os mais piedosos se apartam
dela orgulhosa e friamente. De fato nada pode ser mais claro: só se
está nesta associação porque não se tem religião alguma, só se per­
manece nela enquanto não se tem alguma.3 Porém precisamente isto
se deduz também da forma em que estes abordam a religião. Pois
ainda admitindo que entre os homens verdadeiramente religiosos
fosse possível uma comunicação unilateral e um estado de passivi­
dade e alienação voluntários, todavia, em sua atitude comum reina
ademais o maior dos absurdos e o maior desconhecimento da coisa.
Se compreenderam a religião, então o problema fundamental con­
sistiria, para estes, naquele a quem tem convertido, para si, em órgão
de sua religião, lhes comunicará suas intenções e seus sentimentos

3 Schleiermacher observa na terceira edição que é neste marco onde contrapõe mais nitida­
mente seu conceito da verdadeira Igreja e a Igreja realmente existente.
114 Editora Novo Século Ltda

mais claros e mais individuais; porém não desejam tal coisa senão
que antes coloquem limites por onde for às manifestações de sua
individualidade, e anseiam que ele lhes esclareça ante todos os con­
ceitos, opiniões, proposições dou-trinais, em poucas palavras, em
vez dos autênticos elementos da religião, as abstrações que se for­
mam sobre estes. Se compreenderam a religião, saberiam, basean­
do-se em seu próprio sentimento, que aquelas ações simbólicas, das
quais tenho dito que são essenciais para a verdadeira sociabilidade
religiosa, não podem ser, de acordo com sua natureza, mais que sig­
nos da igualdade do resultado obtido em todos, indícios do retomo
ao centro comum; não podem ser mais que a plenitude do coro final
de acordo com tudo o que pura e engenhosamente tem comunicado
alguns espíritos isolados: porém disto não sabem nada, senão que
ditas ações são para estes algo que subsiste de per si e que ocorre em
um tempo determinado.4 Que se deduz de tal delineamento senão
isto, a saber, que sua atividade comum não tem em si nada daquele
caráter de um elevado e livre entusiasmo, que é completamente
peculiar da religião, senão que é algo de índole escolar, mecânico?
E que indica isto, por sua vez, senão que estes desejariam receber
primeiramente a religião a partir defora? Isto o querem intentar de
todas as maneiras. Por isso se aderem desta maneira aos conceitos
mortos, aos resultados da reflexão sobre a religião, e se impregnam
destes avidamente, com a esperança de que estes realizem neles o
caminho inverso de sua autêntica gênese e se transformem de novo
nas intuições e sentimentos vivos, dos quais se tem derivado origina-
riamente. Por isso se servem das ações simbólicas, que propriamente
constituem o último recurso na comunicação religiosa, como estimu­
lante para suscitar o que, para dizer a verdade, deveria precedê-las.
Se acerca desta associação mais vasta e amplamente difundi­
da só tenho falado em termos muito depreciativos e como se se tra­
tasse de algo comum e baixo, em contraposição com a mais excelente,
só a qual constitui, segundo minha concepção, a verdadeira Igreja,
tal modo de proceder está fundamentado certamente na natureza da
coisa, e eu não pude dissimular meu ponto de vista a este respeito:
porém protesto da maneira mais solene contra qualquer suspeita,

4 Segundo a terceira edição, se trataria da celebração eucarística e da profissão de fé.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 115

que vós bem podereis abrigar, de que eu assentira aos desejos, que
cada vez se fazem mais gerais, de destruir antes por completo esta
instituição. Não; se a verdadeira Igreja só estará aberta sempre àqueles
que já estão de posse da religião, deve, não obstante, existir algum
meio de união entre estes e os quais todavia a buscam, e tal função
esta instituição deve desempenhar, pois ela deve, segundo sua natu­
reza, extrair da verdadeira Igreja seus guias e sacerdotes! E deveria
ser precisamente a religião o único assunto humano no qual não hou­
vesse nenhuma organização com vistas aos discípulos e aprendizes?
Porém, sem dúvida, todo o perfil desta instituição deveria ser distin­
to e sua relação com a verdadeira Igreja teria de revestir uma apa­
rência completamente diferente. Não me é permitido calar acerca
desta questão. Estes desejos e pontos de vista vão tão estreitamente
unidos coma natureza da sociabilidade religiosa, e o melhor estado
de coisas, que eu imagino, redunda tanto em seu elogio, que não
deve encerrar em minhas conjecturas. Mediante a diferença brusca
que temos estabelecido entre as duas igrejas, ao menos temos conse­
guido isto, a saber, poder refletir conjuntamenete de uma forma sos­
segada e relaxada acerca de todos os abusos que imperam na
sociedade eclesiástica e acerca de sua causas; pois vós deveis admi­
tir que a religião, dado que ela não tem gerado uma tal igreja, tem de
ser absolvida provisoriamente de toda culpa relativa à qualquer
calamidade, que esta tenha podido produzir, e com respeito ao esta­
do reprovável em que esta possa encontrar-se; tem de ser absolvida
de uma forma tão plena que nem sequer se lhe possa censurar que
ela pudesse degenerar em algo assim: pois ali onde ela ainda não
tem existido é também impossível que possa ter degenerado. Eu con­
cordo que nesta sociedade existe um pernicioso espírito de seita e
que necessariamente deve existir. Ali onde as opiniões religiosas
são utilizadas, por assim dizê-lo, como métodos para aceder à reli­
gião, elas têm de ser conduzidas certamente a constituir um todo
determinado, pois um método deve ser completamente determinado
e também finito, e ali onde ela se apresenta como algo que só pode
ser transmitido de fora, e é aceita em virtude da autoridade de quem
a transmite aí tudo o que pense de uma maneira distinta tem de ser
considerado como um perturbador do progresso agradável e seguro,
devido a que, pelo mero fato de sua existência e das exigências que
116 Editora Novo Século Ltda

vão unidas com ela, debilita esta autoridade; eu admito também que
no antigo politeísmo, no qual o conjunto da religião não era conce­
bido como constituindo de per si uma unidade, e no qual ele se pres­
tava mais voluntariamente a qualquer divisão e separação, esse
espírito de seita se mostrava bem mais indulgente e humano, e que
só nas épocas, desde outras perspectivas melhores, da religião siste­
mática ele se tem organizado e mostrado em toda sua força; pois, ali
onde cada um crê dispor de um sistema completo e de um centro
para o mesmo, o valor que se atribui a cada realidade particular deve
ser incomparavelmente maior: eu admito ambos os fatos; porém vós
me concedereis que o primeiro não se pode recriminar de modo
algum à religião, e que o segundo não pode provar qué a visão do
Universo como sistema não constituía o nível supremo da religião.
Eu admito que nesta sociedade se conceda maior importância ao
entender ou ao crer e ao fazer e à observância de usos que ao intuir
ou ao sentir, e que, por conseguinte, ela, por ilustrada que seja sua
doutrina, se move sempre nos limites da superstição e se una a
algum tipo de mitologia: porém vós concedereis que deste modo ela
se encontra tanto mais distante da verdadeira religião. Eu admito
que esta associação não pode subsistir sem uma distinção perma­
nente entre sacerdotes e leigos; pois quem, entre estes últimos, che­
gará a poder ser ele mesmo sacerdote, isto é, a ter em si a verdadeira
religião, não poderia de modo algum permanecer leigo e seguir com­
portando-se todavia como se a não tivesse; ele teria antes a liberda­
de e a obrigação de abandonar esta sociedade e buscar a verdadeira
Igreja: porém segue sendo certo isto, a saber, que esta separação,
com tudo o que ela tem de indigno e com todas as conseqüências
negativas que podem levar consigo, não procede da religião senão
que é ela mesma algo completamente irreligioso.
Não obstante, precisamente aqui vos ouço esboçar uma nova
objeção, que parece fazer recair outra vez todas estas recriminações
sobre a religião. Vós me recordareis que eu mesmo tenho dito que a
grande sociedade eclesiástica, me refiro àquela instituição para os
aprendizes da religião, deve, de acordo com a natureza da coisa,
tomar seus guias, os sacerdotes, só dentre os membros da verdadeira
Igreja, dado que nela mesma se acha em falta o verdadeiro princípio
da religião. Se isto é assim direis, como podem então os virtuosos da
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 117

religião ali onde tem de exercer sua autoridade, onde tudo está à
escuta de sua voz, e onde estes mesmos não desejariam escutar mais
que a voz da religião, tolerar tantas coisas opostas ao espírito da
religião, e também mais que tolerar, pois, a quem se deve certamente
a Igreja seu sistema organizativo senão aos sacerdotes? Ou antes se
as coisas não são como deveriam ser, se estes se têm deixado arreba­
tar, quiçá, o governo de sua sociedade filial, onde está então o espí­
rito superior que com o coração buscamos nestes? Por que têm
administrado tão mal sua importante província? Por que têm tolera­
do que sob paixões vis convertessem em flagelo da humanidade o
que nas mãos da religião houvera permanecido uma benção? Estes,
para cada um dos quais, como tu mesmo admites, a direção daqueles
que tanto necessitam sua ajuda, deve constituir o fato mais gratifi-
cante e por sua vez, o mais sagrado. Certamente, esta situação não é,
por desgraça, tal como tenho afirmado que deveria ser: quem pode­
ria dizer sem mais que todos estes, ou que mesmo a maior parte, ou
que, uma vez estabelecidas tais hierarquias, só os primeiros e mais
distintos entre aqüeles que tem regido a grande sociedade eclesiásti­
ca, tenham sido virtuosos da religião ou antes simples membros da
verdadeira igreja? Mas não tomeis, vos rogo, como uma astuta
distorção o que devo dizer em seu desencargo. Quando falais contra
a religião, o fazeis habitualmente em nome da filosofia; quando fazeis
censuras à igreja, falais em nome do Estado: vós quereis defender
aos artistas políticos de todos os tempos, sustentando que sua obra
se tem visto afetada por tantas imperfeições e desatinos devido às
intervenções da Igreja. Se agora eu, que falo em nome dos virtuosos
da religião e em sua defesa, atribuo ao estado e aos artistas do Esta­
do a culpa de que esses virtuosos da religião não tenham podido
realizar seu dever com maior êxito, não me tereis como suspeito em
recorrer a este procedimento artificioso? Espero, não obstante, que
não me podereis questionar o direito que me assiste, se me escutardes
acerca da verdadeira origem de todos estes males.
Toda nova doutrina e revelação, toda nova visão do universo,
que estimula o sentido para o mesmo desde uma perspectiva da que,
todavia não havia sido impressionado, deseja também para religião
a alguns espíritos para os quais este ponto era precisamente o único
por meio do qual podiam ser introduzidos no mundo novo e infinito,
118 Editora Novo Século Ltda

e para a maioria destes esta intuição constitui, pois, de um modo


natural, o centro de sua religião; formam em tomo de seu mestre
uma escola própria; um fragmento separado da igreja verdadeira e
Universal, o qual começa seu desenvolvimento, tranqüila e lenta­
mente, avançando em direção à sua união espiritual com esse grande
todo. Porém antes de que esta tenha lugar, são abalados habitual­
mente, uma vez que os novos sentimentos têm penetrado e saturado
todo seu espírito, pela necessidade violenta de expressar o que há
dentro destes, para não serem consumidos pelo fogo interior. Assim,
cada um anuncia, onde e como pode, a nova salvação que lhe tem
sido revelada; a partir de qualquer objeto logram passar ao Infinito
novamente descoberto; cada discurso se transforma em um quadro
de sua visão religiosa particular; cada conselho, cada desejo, cada
palavra amistosa, em um elogio apaixonado do único caminho que
conhecem como conduzente ao templo da religião. Quem sabe como
atua a religião, acha natural que todos estes falem; estes temeriam
que, do contrário, as pedras se lhes antecipassem em fazê-lo. E quem
sabe como atua um novo entusiasmo, acha natural que este fogo
vivo se propague violentamente em tomo de si, que devore a vários,
que avive a muitos e comunique a milhares a aparência falsa, super­
ficial, de uma chama interior. E estes milhares constituem precisa­
mente a causa da corrupção. O fogo juvenil dos novos santos os
toma também a estes por verdadeiros irmãos : “que impede - dizem
com excessiva rapidez - que também estes recebam o Espírito San­
to”? Esses milhares se tomam, estes mesmos, por tais e se deixam
introduzir, na forma de um jubiloso triunfo, no centro da piedosa
sociedade. Porém quando passa a embriaguês do primeiro entusias­
mo, quando a inflamada superfície termina de arder, se pode ver que
estes não podem suportar nem compartilhar o estado no qual se en­
contram os outros; compassivos, estes últimos se mostram condes­
cendentes com isto e renunciam a seu próprio gozo, mais elevado e
mais íntimo, para ajudar-lhes de novo e assim, tudo adota formas
imperfeitas. Deste modo, sem causas externas, por conseqüência da
corrupção comum a todas as coisas humanas, de acordo com a
ordem eterna segundo a qual o que é afetado com maior rapidez por
esta corrupção é precisamente a vida mais apaixonada e ativa, em
tomo de cada fragmento particular da verdadeira Igreja, que surge
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 119

isolado em alguma parte do mundo, sem forma, não separada deste


senão nele e com ele, uma igreja falsa e degenerada. Assim tem ocor­
rido em todos os tempos, no seio de todos os povos e em cada reli­
gião particular. Porém, se se abandonasse tudo tranqüilamente a seu
curso, seria impossível manter em parte alguma esta situação duran­
te muito tempo. Jogai em um recipiente matérias de distinto peso e
densidade e que possuam pouca atração recíproca interna, agitai-as
entre si da forma mais violenta de modo que tudo pareça constituir
uma só matéria, e vereis como tudo, só com que o deixeis repousar,
se separa paulatinamente de novo e como só o igual se associa com
o igual. Assim ocorreu aqui também, pois se trata do curso natural
das coisas. A verdadeira Igreja se separou silenciosamente, de novo,
para gozar da sociabilidade superior e mais íntima, da que os outros
não seriam capazes ; o vínculo que une os últimos entre si ficaria um
tanto quanto dissolvido, e sua passividade natural teria que esperar
algum fator externo, para determinar o que haveria de ocorrer com
estes. Porém não permaneceriam abandonados pelos membros da
verdadeira Igreja: quem, fora destes, teria tido o menor interesse em
admití-los? Que atrativo teria oferecido seu estado aos objetivos de
outros homens? Que caberia ganhar ou que glória caberia alcançar
mediante estes? Portanto, os membros da verdadeira Igreja, perma­
neceriam, tranqüilamente, em condições de assumir de novo entre
estes sua função sacerdotal, sob uma forma nova e mais apropriada.
Cada um congregaria em tomo de si àqueles precisamente que me­
lhor os compreendessem, sobre os que maior influência poderia exer­
cer, de acordo com seu estilo, e em vez da monstruosa associação,
cuja a existência vos faz suspirar atualmente, teria surgido uma grande
quantidade de sociedades menores e de contornos menos precisos,
nas quais os homens, bem aqui ou bem ali, se teriam provado a si
mesmos, das mais diversas formas, no que diz respeito à religião, e a
permanência nesse nível não teria constituído mais que um estado
provisório, um estado preparatório para aquele ao qual se desvelara
o sentido para a religião, um estado definitivo para quem se sentisse
incapaz de ser impressionado de alguma maneira por esta temática.
Oh, idade de ouro da religião! Quanto te iluminaram artificiosamen-
te as comoções das coisas humanas, uma vez que não tem sido
alcançada seguindo o simples caminho da natureza! Saúde aos que
120 Editora Novo Século Ltda

então serão chamados! Os deuses lhes serão propícios, e uma rica


benção acompanhará seus esforços em sua missão de ajudar aos prin­
cipiantes e de aplanar, aos que todavia não alcançaram a maturida­
de, o caminho em direção ao templo do Eterno - esforços que sob as
circunstâncias mais desfavoráveis, tão escassos frutos proporcionam
a nós, homens de hoje. Se trata de um desejo ímpio, porém eu ape­
nas o posso reprimir. Oxalá que até o mais remoto pressentimento
da religião permanecesse estranho a todos os chefes de Estado, a
todos os virtuosos e artistas da política! Oxalá que nenhum destes
fosse comovido pela violência deste entusiasmo epidêmico, se não
sabem separar sua individualidade de sua profissão e de seu caráter
público! Pois isto se tem convertido para nós na fonte de toda a
corrupção. Por que tem sido preciso que levassem consigo à assem­
bléia dos santos à mesquinha vaidade e à estranha presunção segun­
do as quais os favores que estes poderiam dispensar são por onde
for, sem distinção, algo importante? Por que tem sido preciso que
transladem dali à seus palácios e tribunais a veneração sentida ante
os servidores do santuário? Vós tendes razão em desejar que nunca
a borda de uma vestimenta sacerdotal tenha roçado o solo de um
aposento real: porém desejemos também que nunca a realeza tenha
beijado o pó ante o altar; se este último não estivesse ocorrido, tão
pouco haveria tido lugar aquilo. Oxalá, também, que não se houves­
se permitido que um príncipe entrasse no templo antes de ter se
despojado à portado mais belo ornamento real, o rico chifre da abun­
dância de todos seus favores e condecorações! Porém estes, o têm
levado consigo, se têm imaginado poder adornar a simples majesta­
de do edifício celeste servindo-se de fragmentos extraídos de sua
magnificência terrena, e em vez de um coração santificado, têm dei­
xado dádivas mundanas como oferendas ao Altíssimo. Sempre que
um príncipe tem considerado uma igreja como uma corporação, como
uma comunidade com privilégios próprios, como uma pessoa em
ascendência no mundo civil - e isto não ocorreu senão quando já se
havia produzido já esta situação desafortunada, na que a sociedade
dos crentes e a dos que aspiram crer, o verdadeiro e o falso, o que
logo se tem separado de novo para sempre, já se encontrava mescla­
do; pois anteriormente a isto nunca uma sociedade religiosa foi sufi­
cientemente grande para suscitar a atenção dos governantes - sempre
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 121

que um príncipe, afirmo, se tem deixado conduzir a esta ação, a mais


perigosa e nociva de todas, a corrupção desta Igreja estava irrevo-
gavelmente decidida e iniciada. Um tal ato constitutivo da existên­
cia política atua sobre a sociedade religiosa como a temível cabeça
de Medusa: tudo se petrifica, tão depressa quanto o ato de sua pre­
sença. Tudo que tendo um caráter heterogêneo não estava vinculado
entre si senão por um instante, agora está acorrentado de uma
maneira indissolúvel; todo o contingente, que facilmente poderia
ser desejado, agora se tem consolidado para sempre; a vestimenta
forma uma unidade com o corpo, e toda ruga inadequada aparece
como se fosse eterna. A maior sociedade inautêntica já não se deixa
agora separar da superior e mino-ritária, tal como, não obstante,
deveria estar separada; ela não se deixa dividir ou decompor-se ulte-
riormente, ela não pode mudar mais nem sua forma nem seus artigos
de fé; seus pontos de vista, seus usos, tudo esta condenado a perma­
necer no estado em que se encontrava então. Porém isto todavia não
é tudo: os membros da verdadeira Igreja que, junto com os outros,
estão integrados na sociedade religiosa geral se encontram a partir
deste momento tanto como excluídos violentamente de qualquer par­
ticipação em seu governo e impossibilitados para fazer por ela o
pouco que todavia se poderia fazer. Pois agora tem que administrar
mais coisas das que estes podem e querem administrar agora; é pre­
ciso organizar as coisas mundanas e ocupar-se delas e, ainda quando
se mostram capacitados para isto, no que se refere a seus assuntos
familiares e civis, não as podem considerar, apesar de tudo, como
um dever de sua função sacerdotal. Trata-se de uma contradição,
que é alheia a seu espírito, e com a qual não podem reconciliar-se,
isto não está de acordo com o seu elevado e puro conceito de reli­
gião e de sociabilidade religiosa. Nem respeito à verdadeira Igreja à
que pertencem, nem respeito à sociedade maior, que estes devem
dirigir, podem compreender o que podem fazer com as coisas e os
campos que têm adquirido, e com as riquezas que podem possuir, e
que tem de contribuir com vistas a alcançar o fim que se propõem.
Este estado de coisa antinatural os confunde e os põe fora de si;
e se agora ocorre que dita situação atrai por sua vez àqueles que,
em caso contrário, sempre tiveram permanecido fora, se agora
se tem convertido em objeto de interesse para todos os orgulhosos,
122 Editora Novo Século Ltda

ambiciosos, ávidos e intrigantes infiltrarem-se na Igreja, em cuja


comunidade estes, por demais, só teriam experimentado o aborreci­
mento mais amargo, se agora estes se põem a simular que participam
nas coisas divinas e no conhecimento delas para conseguir a recom­
pensa mundana, como aqueles5 não lhes têm de ficar submetidos?
De quem é, portanto, a culpa, se homens indignos usurpam o posto
dos virtuosos da santidade, se sob sua inspeção se pode introduzir e
implantar o que mais contraria ao espírito da religião? Quem se não
o Estado com sua magnanimidade mal-entendida? Porém o Estado
é, todavia de uma forma mais imediata, a causa de que se tenha dis­
solvido o vínculo entre a verdadeira Igreja e a sociedade religiosa
externa. Pois, uma vez que o poder estatal tem obsequiado a esta
com aquele infeliz benefício ativo, e a investiu de três deyeres su­
mamente importantes nos assuntos estatais, creio ter direito a espe­
rar seu reconhecimento. Em maior ou menor medida encomendou à
Igreja o cuidado e a inspeção do ensino; quer que, sob os auspícios
da religião e sob a forma de uma comunidade, o povo seja instruído
nos deveres que não pertencem ao âmbito das leis do Estado, e que
se lhe inculquem convicções morais; e da força da religião e dos
ensinos da Igreja exige que ela lhe forme cidadãos verazes em suas
declarações. E como recompensa por estes serviços, que ele requer,
a despoja - assim ocorre quase em todas as partes do mundo civili­
zado, onde existe um Estado e uma Igreja - de sua liberdade, a trata
como uma instituição que ele tem entronizado e ideado - certamen­
te, suas faltas e abusos são quase todas invenções do Estado - e só
ele se arroga em decidir quem é apto para desempenhar nesta socie­
dade o papel de modelo e de sacerdote da religião. E apesar de tudo
quereis pedir contas à religião, se não são todos almas santas. Porém
eu todavia não tenho terminado com minhas acusações: também nos
mistérios mais íntimos da sociabilidade religiosa faz intervir o jogo
de seus interesses e macula sua pureza. Quando a Igreja, em reco­
nhecimento profético, consagra os recém-nascidos à Divindade e à
aspiração em direção ao mais alto, o Estado quer por sua vez recebê-
los das mãos desta na lista de seus protegidos; quando ela dá aos
adolescentes o primeiro beijo fraternal, como a quem acaba de diri­

5 Os membros da verdadeira Igreja.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 123

gir seu primeiro olhar aos santuários da religião, isto também have­
ria de constituir para ele o testemunho de primeiro grau de sua auto­
nomia civil; quando, com piedosos desejos comuns, ela santifica a
união de duas pessoas, mediante a que se convertem em instrumen­
tos do Universo criador, ele quer que isto constitua por sua vez a
sanção de sua aliança civil6; e também o fato de que um homem
tenha desaparecido do cenário deste mundo não o quer ter por certo
até que ela lhe assegura que essa pessoa tem devolvido sua alma ao
Infinito e que seus despojos têm sido sepultados no seio da terra
sagrada. Se tem de considerar como um testemunho de respeito à
•religião, e como o esforço por manter-se sempre consciente de seus
próprios limites, o fato de que o Estado se incline ante ela e ante
àqueles que a veneram, sempre que ele recebe algo das mãos da
infinitude ou o restitui de novo às mesmas: porém também está sufi­
cientemente claro como tudo isto contribui à corrupção da socieda­
de religiosa. Atualmente não existe nas instituições desta última nada
que se refira unicamente à religião, ou no que ela fosse ao menos o
assunto principal: nos santos discursos e instruções, assim como nas
ações misteriosas e simbólicas, tudo está cheio de referências mo­
rais e políticas, tudo se tem desviado de seu fim e concepção origi­
nários. Por conseguinte, entre seus dirigentes há muitos que não
entendem nada de religião e, entre seus membros, muitos aos quais
não lhes vem a mente querer buscá-la.
Uma sociedade, à que algo assim pode ocorrer, que com uma
atitude humilde recebe benefícios que para nada lhe servem, e com
disponibilidade servil assume cargas, que a lançam na perdição, que
permite um poder estranho abusar dela, que abandona por uma apa­
rência vazia a liberdade e a independência que, todavia, lhe são con­
gênitas, que renuncia a seu elevado e sublime fim para andar atrás
de coisas que se encontram totalmente fora de seu caminho: penso
que salta à vista que isto não pode constituir uma sociedade de
homens que tem uma aspiração determinada e sabem exatamente o
que querem; e esta breve referência às contingências da sociedade
eclesiástica constitui, penso, a melhor prova de que ela não é a
autêntica sociedade dos homens religiosos, de que no máximo algu­

6 Se trata, portanto, da administração do batismo, da confirmação e do matrimônio.


124 Editora Novo Século Ltda

mas partículas destas estavam mescladas com ela, recobertas por


elementos estranhos, e de que o conjunto, para dar capacidade aos
primeiros elementos desta corrupção incomensurável, já deveria
encontrar-se num estado de agitação doentia, na que logo se dete­
rioram por completo as poucas partes sãs. Se tivesse estado cheia de
um santo orgulho, a verdadeira Igreja teria recusado dádivas que
não podia utilizar, sabendo bem que aqueles que têm encontrado a
Divindade e desfrutam dela comunitariamente, em sua sociabilida­
de pura na que só querem expor e comunicar sua existência mais
íntima, propriamente não têm nada em comum cuja possessão lhes
deveria ser protegida por um poder mundano, e que estes nada
necessitam sobre a terra e tão pouco nada podem necessitar a não ser
uma linguagem para entenderem-se e um espaço para estarem jun­
tos, coisas para as quais não precisam de nenhum príncipe e de
nenhum favor.
Porém se tem de haver, não obstante, uma instituição media­
dora, mediante a qual a verdadeira Igreja entra em um certo contato
com o mundo profano, com o qual de uma forma imediata não tem
nada que ver, como se se tratasse de uma atmosfera mediante a qual
ela se purifica e também atrai a si e elabora uma nova matéria: que
forma deve revestir então esta sociedade e como haveria de ser li­
berta da corrupção em que se encontra mergulhada? Que o tempo
responda a este último: há mil caminhos distintos para tudo o que
deve ocorrer alguma vez, e para todas as enfermidades da humani­
dade há múltiplos meios curativos: cada um será experimentado em
seu devido lugar e conduzirá à meta. Que ao menos me seja permiti­
do aludir a esta meta, para mostrar-vos tanto mais claramente que
tão pouco aqui tem sido a religião e suas aspirações aquilo sobre o
que se tem projetado vossa indignação.
A autêntica concepção fundamental acerca deste tema é pois
esta, a saber, que aqueles que possuem em um certo grau o sentido
para a religião, porém que, devido esta ainda não ter chegado a
irromper e a fazer-se consciente nestes, todavia não são aptos para
ser incorporados à verdadeira Igreja, que se lhes mostre deliberada­
mente tanta religião que mediante dito modo de proceder se desen­
volva necessariamente sua disposição para a mesma. Vejamos o que
é que impede propriamente que isto ocorra no estado de coisas
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 125

presente. Eu não quero recordar uma vez mais que o estado escolhe
atualmente, de acordo com seus desejos, àqueles que nesta socieda­
de figuram como dirigentes e docentes - só de má vontade, por falta
de outro, me sirvo deste termo que não é adequado para este dever -
desejos que se referem antes à fomentação do desenvolvimento das
restantes atividades, que o Estado tem encomendado para esta situa­
ção; não quero recordar que se pode ser um pedagogo sumamente
perspicaz e um moralista muito puro, excelente, sem entender o
mínimo de religião, e que, por conseguinte, podem facilmente care­
cer completamente desta, muitos a quem o Estado conta entre seus
servidores mais dignos nesta instituição; aceitemos que todos os que
ele põe a seu serviço sejam realmente virtuosos da religião: mas vós
haveríeis de convir, não obstante, que nenhum artista pode comuni­
car, com algum êxito, sua arte a uma escola se entre os aprendizes
não existe uma certa igualdade de conhecimentos prévios; e, não
obstante, esta igualdade é menos necessária em qualquer arte em
que o aluno progride mediante a realização de exercícios e o traba­
lho do docente é útil, sobretudo, pela crítica que exerce, como na
religião, na que o mestre não pode fazer outra coisa que mostrar e
expor. Aqui todo seu trabalho será inútil se as mesmas coisas não
são para tçdos, não só compreensíveis, senão também idôneas e sau­
dáveis. Portanto, ao orador sagrado não se tem de encomendar seus
ouvintes de acordo com a série e a ordem em que lhe tem sido desti­
nados segundo uma antiga distribuição, nem segundo o modo como
suas casas se encontram umas junto às outras ou estão registradas
nas listas da polícia, senão por uma certa semelhança de atitudes e
de mentalidade. Porém admitamos também que se congreguem em
torno de um único mestre só aqueles que se encontram igualmente
próximos à religião: todavia, não o estão da mesma maneira e é
sumamente absurdo pretender que algum aprendiz se limite a um
mestre determinado, porque em nenhuma parte pode haver um
virtuoso da religião tal que estivesse em condições, mediante suas
exposições e discursos, de trazer à luz, ante quem quer que venha
até ele, o germe da religião. O campo que abarca esta é certamente
muito grande.
Recordai os diferentes caminhos pelos quais o homem passa
da intuição do finito para a do Infinito, e que desta maneira sua reli­
126 Editora Novo Século Ltda

gião assume um caráter próprio e determinado; pensai nas diferen­


tes modalidades sob as quais o Universo pode ser intuído, e nas mil
intuições particulares e nas diferentes formas segundo as quais estas
podem ser combinadas para iluminarem-se reciprocamente; consi­
derai que tudo o que a religião busca, deve encontrar sob a forma
determinada que seja apropriada à suas disposições e a seu ponto de
vista, se é que sua religião tem de ser estimulada deste modo: então
constatareis que a todo mestre é impossível ser tudo para todos, e
para qual o que este necessita7, porque é impossível que um só
homem possa ser por sua vez um místico, um físico teólogo e um
santo artista, como por sua vez um deísta e um panteísta, ou um
mestre em profecias, visões e orações, em exposições baseadas na
história e na sensibilidade, e muitas outras coisas todavia, se só fos­
se possível enumerar todas as esplêndidas ramas nas que a árvore
celeste da arte sacerdotal dividiu sua copa. Mestres e discípulos
devem poder buscar elegerem-se mutuamente e com plena liberda­
de; do contrário, um está perdido para o outro; cada um deve poder
buscar o que lhe é proveitoso, e ninguém tem de ser obrigado a dar
mais do que tem e entende. Porém, ainda quando cada um só deve
ensinar o que entende, tampouco isto o poderá realizar no mesmo
momento, em que por sua vez desenvolve esta atividade, tenha de
fazer ademais outra coisa distinta. Está fora de dúvida que um ho­
mem que seja sacerdote pode expor sua religião com dedicação e
habilidade, tal como convém, e por sua vez desempenhar, ademais,
fielmente e com grande perfeição qualquer função civil. Por que,
então, aquele que faz do sacerdócio sua profissão, não haveria tam­
bém de poder, se se dá o caso, ser por sua vez moralista à serviço do
Estado? Não há nada que objetar: só é preciso que ambas atividades
discorram paralelas, não entremescladas; só é preciso que esse tal
não leve em si, ao mesmo tempo, ambas naturezas e que não desem­
penhe ambas funções mediante a mesma ação. Que o Estado se con­
tente com uma moral religiosa, se assim lhe parece bem: porém a
religião renega completamente profeta e sacerdote moralistas; quem
deseje proclamar, que o faça de forma pura. Seria contrário a todo
pudor de um virtuoso que um verdadeiro sacerdote quisesse com­

1 Cf. 1 Coríntios, 9.22.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 127

prometer-se com o Estado tendo por base condições tão indignas e


incoerentes. Quando este paga salário a outros artistas, bem seja para
cultivar melhor seus talentos ou para atrair alunos, distância destes
todos os deveres estranhos e lhes impõe, desde logo, o dever de abs-
terem-se deles; lhes recomenda dedicar-se especialmente ao aspecto
particular de sua arte, na que acreditam poder se destacarem mais, e
nisto deixa a seu gênio plena liberdade: só no que se refere aos artis­
tas da religião faz precisamente o contrário. Estes teriam de abarcar
todo o âmbito de seu objeto, e juntamente com isto lhes prescreve,
ademais, a que escola tem de pertencer, e lhes impõem também car­
gas muito inapropriadas. Ou bem o estado lhes concede também,
tempo livre para adquirir uma formação especial em um aspecto qual­
quer da religião, para o qual crêem estar mais capacitados, e os
liberta de todo o resto, ou então, depois de haver organizado para si
sua instituição educativa moral, algo todavia que o Estado também
tem de fazer em primeiro plano, lhes permite assim mesmo compor­
tar-se conforme o seu ser para si e não se preocupa, de modo algum,
com as das obras sacerdotais que são realizadas em seu âmbito, dado
que não as necessita nem para sua ostentação nem por seu interesse,
tal como ocorre, por exemplo, com outras artes e ciências. Fora,
portanto, com toda união deste gênero entre a igreja e o Estado! Tal
será minha exortação catônica8 até o final ou até que veja dita união
realmente destruída. Fora, com tudo o que ofereça qualquer seme­
lhança com uma associação fechada de leigos e sacerdotes, tratan­
do-se de cada grupo de per si, ou de membros de um grupo com
outro! Os aprendizes não devem, em todo caso, formar nenhuma
corporação; se pode advertir ao considerar os ofícios mecânicos e os
pupilos das musas que pouco proveito tem isto; porém opino que tão
pouco os sacerdotes devem constituir, enquanto tais, fraternidade
alguma entre si; estes não devem compartilhar como um grêmio nem
suas ocupações nem seus fiéis, senão que, sem preocupar-se dos
outros e sem estar neste assunto mais estreitamente unido com um
que com outro, cada qual realize seu próprio dever; e que tão pouco
entre o que ensina e a comunidade exista nenhum vínculo rígido.

8 Schleiermacher faz aluzão na frase a M.P. Catão (234 - 149 a .C.), Ceturum censeo
Carthaginem esse delendam, com a qual concluía um famoso discurso no senado.
128 Editora Novo Século Ltda

De acordo com os princípios da verdadeira Igreja, a missão de um


sacerdote no mundo é um assunto privado; que um aposento privado
constituía também o templo no qual se eleve sua voz para proclamar
a religião; que tenha ante ele uma assembléia e não uma comunida­
de (Gemeine); que ele seja um orador para todos os que querem
ouvir, porém não um pastor de um rebanho determinado. Só sob
estas condições podem almas verdadeiramente sacerdotais, encarre­
garem-se daqueles que buscam a religião; só assim pode esta asso­
ciação preparatória conduzir realmente à religião e fazer-se digna de
ser considerada como um apêndice da verdadeira Igreja e ante-sala
da mesma: pois só assim se elimina tudo o que sob sua forma atual é
ímpio e religioso. Mediante a liberdade geral de eleição, de reconhe­
cimento e de juízo fica atenuada a distinção muito rigorosa e atraen­
te entre os sacerdotes e leigos, até que os melhores entre estes últimos
cheguem até o ponto em que sejam por sua vez o mesmo que os
primeiros. Tudo o que era mantido unido mediante o vínculo ímpio
dos símbolos9 é separado e fragmentado quando não existe mais
nenhum ponto de conexão deste gênero, quando ninguém oferece
àqueles que o buscam um sistema religioso, senão que cada um só
oferece uma parte, e esta é o único meio de pôr termo de uma vez a
esta situação anômala. Não é mais que uma prática detestável de
épocas anteriores dividir em partes a igreja - para utilizar também
este termo na pior das acepções -: a igreja possui uma natureza de
pólipo; a partir de cada um de seus fragmentos se desenvolve um
todo e, se o conceito contradiz ao espírito da religião, um maior
número de indivíduos não é algo melhor que um inferior. A. socieda­
de religiosa externa só se aproximará à liberdade geral e à unidade
majestosa da verdadeira Igreja tomando-se uma massa fluída, na
qual não haja nenhum contorno fixo, onde cada parte se encontre
tanto aqui, como ali, e tudo se entremescle aprazivelmente. O odio­
so espírito de seita e proselitismo, que distância cada vez mais a
religião do essencial, só é destruído quando não se pode seguir abri­
gando o sentimento de que se pertence a um círculo determinado e
um adepto de outra fé a outro distinto.

9 Schleiermacher manifesta uma vez mais sua aversão para com a letra no âmbito religioso.
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 129

Vedes que, no que se refere a esta sociedade, nossos desejos


são completamente os mesmos: o que vos repugna é também um
impedimento para nós, só que isto - permitam-me sempre dizê-lo -
não teria chegado a ocorrer se nos tivesse permitido dedicarmo-nos
unicamente ao que constitui nosso dever específico. É nosso interes­
se comum que isto seja recusado novamente. O modo como isso
ocorrerá entre nós, se também só depois de uma grande comoção, tal
como sucedeu no pais vizinho10, ou antes se o Estado mediante um
acordo amistoso e sem que ambos devam previamente morrer para
ressuscitar, romperá sua fracassada aliança matrimonial com a Igre­
ja ou se tão só tolerará que apareça outra Igreja mais virginal junto à
que de fato se lhe tem vendido, é algo que ignoro: porém, até que
algo deste gênero ocorra, serão submetidas por um duro destino
todas as almas santas que, penetradas pelo fervor da religião, tam­
bém quiseram expor no círculo mais amplo do mundo profano, sua
realidade mais sagrada, e alcançar com isto certos resultados. Eu
não quero induzir aqueles que têm sido admitidos na Ordem
favorecida pelo Estado11, a que, no que se refere ao desejo mais ínti­
mo de seu coração, concedam grande importância ao que poderiam
realizar acaso, nesta situação, mediante a palavra. Estes têm de guar­
dar-se de falar sempre de religião, ou até de fazê-lo amiúde; e num
sentido específico só tem de falar dela nas ocasiões solenes, para
não serem infiéis em sua missão moral, para a qual têm sido propos­
tos. Porém se lhes têm de permitir que mediante uma vida sacerdotal
possam anunciar o espírito da religião; e que isto seja seu consolo e
sua mais bela recompensa. Em uma pessoa sagrada tudo é significa­
tivo; em um sacerdote da religião, reconhecido como tal, tudo tem
um sentido canônico. Que estes possam, pois, em todos os seus mo­
vimentos proclamar a essência da religião; que até nas circunstânci­
as ordinárias da vida manifestem plenamente um sentido piedoso;
que a santa intimidade com a qual tratam tudo, mostre que mesmo
nas coisas pequenas sobre as que um espírito profano se desliza su­
perficialmente ressoa nestes a música de sentimentos sublimes; que
a calma majestosa com a que equiparam o grande e o pequeno mos­

10 Nova referência ao processo revolucionário francês.


" Quer dizer, o clero sob a tutela do Estado.
130 Editora Novo Século Ltda

tre que estes referem tudo ao Imutável e que do mesmo modo desco­
brem a divindade em tudo; que a hilaridade risonha com a que pas­
sam de largo ante qualquer vestígio da caducidade revele a todos
que estes vivem acima do tempo e do mundo; que a mais lograda
auto-negação manifeste até que ponto tem destruído já os limites da
personalidade; e que o sentido sempre desperto e aberto, ao que não
escapa nem o mais raro nem o mais comum, mostre como buscam
incansavelmente o Universo e espiam suas manifestações. Se, deste
modo toda sua vida, e cada movimento de sua conformação interna
e externa, é uma obra de arte sacerdotal, quiçá esta linguagem muda
fará com que se lhes abra, a muitos, o sentido para o que habita
dentro destes. Porém, não contentes em expressar a essência da reli­
gião, é preciso que destruam igualmente a falsa aparência da mes­
ma, enquanto estes com genuinidade infantil e mergulhados na
excelsa simplicidade de uma completa inconsciência, que não vê
nenhum perigo e não crê ter necessidade de nenhuma coragem, pas­
sam por cima de tudo o que prejuízos grosseiros e uma refinada
superstição tem aureolado com uma glória inautêntica do divino,
enquanto que, despreocupados com o jovem Hércules, deixam que
sibilem em torno destes as serpentes da santa calúnia, que estes com
a mesma calma e tranqüilidade podem esmagar em um instante. Que
se consagrem a este santo serviço até a chegada de tempos melhores,
e penso que vós mesmos sentireis respeito ante esta dignidade sem
pretensões e pressagiareis algo bom no que se refere à sua ação
sobre os homens. Porém que devo dizer àqueles a quem vós denegais
os hábitos sacerdotais por não terem percorrido de um modo deter­
minado um círculo determinado de vãs ciências? Até onde devo
remetê-los com o impulso sociável de sua religião, na medida em
que esse impulso não se orienta só em direção à Igreja superior,
senão também em direção ao mundo? Dado que carecem de um
cenário mais amplo, onde possam atuar de uma maneira mais notó­
ria, devem dar-se por satisfeitos com o serviço sacerdotal a seus
deuses domésticos. Uma família pode constituir o elemento mais
desenvolvido e a imagem mais fiel do Universo; quando de uma
forma silenciosa e poderosa tudo se encadeia entre si, atam aqui
todas as forças que animam o Infinito; quando discorre seguro e
suavemente, o superior espírito do mundo palpita tanto aqui como
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 131

ali; quando os acordes do amor acompanham todos os movimentos,


ela se situa por cima da música das esferas. Que estes configurem,
organizem e cuidem deste assunto; que de uma forma clara e mani­
festa o situem no horizonte da força moral; que o interpretem com
amor e espírito; deste modo vários destes e entre estes aprenderam a
intuir o Universo na pequena morada oculta, que se converterá em
um Santo dos Santos, no qual vários receberam a consagração da
religião. Este sacerdócio foi o primeiro no santo e infantil mundo
primitivo, e será o último quando já não se necessitar de nenhum
outro.
Se, nós esperamos, ao findar de nossa cultura artificial, uma
época na qual não se necessitará de mais sociedade preparatória para
a religião que a piedosa vida doméstica. Agora suspiram milhões de
seres humanos, de ambos sexos e de todas as condições sociais, sob
a pressão de trabalhos mecânicos e indignos. A velha geração
sucumbe desmoralizada e, com uma negligencia desculpável, aban­
dona a mais jovem quase ao acaso em todos os assuntos a não ser
neste, a saber, que dita geração mais jovem deve imitar e aprender
sem demora a mesma prostração. Tal é a causa pela qual esta última
não chega a possuir a visão livre e aberta, a única com a qual pode
descobrir o.Universo. Nada obstaculiza tanto a religião como isto, a
saber, que nós nos vejamos obrigados a sermos escravos de nós mes­
mos; pois escravo é todo aquele que se vê necessitado de fazer algo
que poderia ser executado mediante o concurso de forças mortas.
Esperamos que o aperfeiçoamento das ciências e das artes coloquem
à nosso serviço estas forças mortas, esperamos que ela transforme o
mundo material e tudo o que se deixa regular no âmbito do espírito,
em um palácio de fadas, onde o deus da terra só necessite pronunciar
uma palavra mágica, só necessite acionar um meio para que ocorra o
que ele ordena. Sé então todo homem terá nascido livre, só então
toda vida será prática e contemplativa por sua vez, sobre ninguém se
alçará o bastão do capataz, e todos terão quietude e ócio para con­
templar em si o mundo. Só em atenção aos desafortunados que care­
cem disto, cujos órgãos estivessem privados da força que seus
músculos tiveram de empregar incessantemente ao serviço do amo,
era necessário que surgissem alguns indivíduos afortunados e os con­
gregassem em tomo de si, para fazê-los olhos seus e para comuni­
132 Editora Novo Século Ltda

car-lhes em uns poucos fugazes minutos as intuições de uma vida.


Na época feliz na qual todos poderão exercitar e utilizar livremente
seu sentido, desde o primeiro despertar das forças superiores, na
sagrada juventude sob o cuidado de uma sabedoria paternal, tudo o
que seja apto para a religião tomará parte nela; toda comunicação
unilateral cessará então, e o pai recompensado conduzirá o filho
robustecido não só a um mundo mais jubiloso e a uma vida mais
fácil, senão também, de forma imediata, à santa assembléia, agora
mais numerosa e ativa, dos adoradores do Eterno.
Com o sentimento agradecido de que, quando um dia chegar
esta época melhor, por distante que se possa encontrar todavia, tam­
bém os esforços, aos que dedicais vossos dias, terão contribuído com
algo à sua gestação, permitam-me chamar vossa atenção, uma vez
mais, sobre o belo fruto, produto também de vosso trabalho; deixa-
vos conduzir, uma vez mais, à sublime comunidade dos espíritos
verdadeiramente religiosos, à qual, sem dúvida, se mostra atualmen­
te dispersa e invisível, porém cujo espírito está atuante, todavia, por
onde for, também ali onde só uns poucos se encontram reunidos em
nome da Divindade. Que há nisto que não vos houvesse certamente
de encher de admiração e respeito, a vós, amigos e veneradores de
todo o belo e bom! Estes constituem entre si uma academia de sacer­
dotes. A religião, que é para estes o supremo, é tratada por cada um
destes como objeto de arte e de estudo; com vistas a isto ela concede
a cada um, um dote próprio, que extrai de sua infinita riqueza.
O sentido geral para tudo o que pertence ao âmbito sagrado da reli­
gião, cada um associa, tal como é próprio dos artistas, a aspiração
em aperfeiçoar-se em algum aspecto particular; impera aqui uma
nobre emulação, e o desejo de proporcionar algo que seja digno de
uma tal assembléia deixa a cada um assimilar, com fidelidade e dili­
gência, tudo que pertence a seu âmbito delimitado. Isto é conserva­
do em um coração puro, é posto em ordem com um espírito recolhido,
é adornado e aperfeiçoado por uma arte celestial, e assim, de todas
as maneiras e desde todas as fontes, ressoa o aplauso e o conheci­
mento do Infinito, enquanto cada um contribui com coração jubiloso
os frutos mais maduros de sua reflexão e de sua visão, de sua com­
preensão e de seu sentimento. Estes constituem entre si um coro de
amigos. Cada um sabe que também ele é uma parte e uma obra do
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 133

Universo, que também nele se revela sua atividade e sua vida divina.
Ele se considera, portanto, como um objeto digno de consideração
para os demais. O que ele percebe em si acerca das conexões do
Universo, o que nele adquire forma própria no que diz respeito aos
elementos da humanidade, tudo isto será posto em descoberto com
santo pudor, porém com aberta franqueza, de forma que cada um
entre e contemple. Por que também estes se haveriam de ocultar
algo mutuamente? Todo o humano é sagrado, pois tudo é divino12.
Estes formam entre si uma aliança fraternal - ou tereis uma expres­
são mais íntima para designar a fusão completa de suas naturezas,
não com vista ao ser e ao querer, senão ao sentido e ao entender?
Quanto mais se aproxima cada um do Universo, quanto mais se co­
munica cada um ao outro, tanto mais perfeitamente tomam-se uma
só coisa; ninguém possui uma consciência para si, cada um possui
por sua vez a de outro, já não são só homens, senão também humani­
dade, e saindo de si mesmos, triunfando sobre si mesmos, estão no
caminho em direção à imortalidade e à eternidade verdadeiras.
Se haveis encontrado algo mais sublime em outro âmbito da
vida humana ou em outra escola de sabedoria, comunicai-mo: o meu,
vô-lo tenho confiado.

12 Expressão significativa da nova situação em que se encontrava a filosofia da religião,


sobre a que se desejava sentir de uma forma especial o influxo da filosofia de Spinoza.
Q uinto D isctkso
SOBRE AS RELIGIÕES
Que o homem absorto na intuição do universo deva ser para
vós um objeto de estima e respeito; que ninguém que todavia seja
capaz de compreender algo daquele estado possa ante a considera­
ção da mesma, subtrair-se a estes sentimentos: tenho aqui algo que
está acima de toda dúvida. Podereis depreciar a todo aquele cujo
espírito se enche, fácil e completamente, de coisas irrelevantes;
porém inutilmente intentareis menosprezar a quem absorve em si o
maior e se alimenta dele - podeis amar ou odiar a qualquer um à
medida que sobre a via limitada da atividade e da cultura vai em
vossa direção ou em direção contrária; porém não podereis menos
que abrigar o mais belo sentimento de admiração em direção àquele
que se encontra tão acima de vós, como o contemplador do Universo
o está de todos os que não se encontram no mesmo estado que ele
-; os mais sábios entre vós afirmam que deveis honrar, ainda que de
má vontade, ao homem virtuoso que procura determinar o finito de
acordo com exigências Infinitas, segundo as leis da natureza moral:
porém, ainda quando vos fosse possível encontrar na própria virtude
algo ridículo no que se refere ao contraste existente entre forças finitas
e um projeto infinito, não lhes poderia, todavia, denegar vossa esti­
ma e respeito àquele cujos órgãos estão abertos ao universo, e que
distante de toda disputa e conflito, situado acima de toda aspiração,
penetrado pelos influxos de dito Universo e convertido em uma só
coisa com ele, se o considerais neste momento preciso da existência
humana, reflete sobre vós, inalterado o raio celeste. Se, portanto, a
idéia que vos tenho trazido da natureza íntima da religião vos tem
infundido aquela estima que, por causa de falsas interpretações e
devido a que vós detenhais em detalhes contingentes, tão amiúde lhe
136 Editora Novo Século Ltda

haveis denegado; se meus pensamentos acerca da conexão existente


entre esta disposição, imanente a todos nós, e tudo o que de excelen­
te e divino se lhe tem concedido, ademais, a nossa natureza, vos tem
incitado a uma intuição mais íntima de nosso ser e devir; se vós,
desde o ponto de vista superior que vos tenho mostrado, naquela
comunidade dos espíritos, mais sublime e tão desconhecida, na que
cada um, não apreciando em nada a glória de seu arbítrio, nem a
posição exclusiva de suas peculiaridades mais íntimas e de seu mis­
tério, se entrega voluntariamente para deixar-se intuir como uma
obra do eterno espírito do mundo, constituidor de todas as coisas; se
admirais agora nessa comunidade o santo dos santos da sociabilida­
de, o incomparavelmente superior a toda união terrena, o mais santo
como sendo ele mesmo o mais terno laço de amizade dos espíritos
morais; se, portanto, toda a religião, em sua infinitude, em sua força
divina vos tem mergulhado em adoração: acerca disto não vou inter­
rogar-vos, pois estou seguro do poder de dito objeto, o qual só
necessitaria ser posto em liberdade para que incidisse sobre vós.
Porém agora tenho que abordar uma nova tarefa e vencer uma nova
resistência. Eu quero conduzir-vos, por assim dizê-lo, ao Deus que
se tem feito carne1; quero mostrar-vos a religião tal como se tem
despojado de sua infinitude e tal como, amiúde sob uma forma pre­
cária, tem aparecido entre os homens; nas religiões deveis descobrir
a religião; no que se encontra ante vós sob uma forma terrena e im­
pura deveis buscar as características particulares daquela beleza
celestial, cujo perfil tenho intentado reproduzir.
Se lançardes um olhar ao estado atual das coisas, no qual Igre­
jas e religiões coincidem quase por onde quer que estejam em sua
multiplicidade, e em sua separação parecem estar indissoluvelmente
unidas; no que há tantos corpos doutrinais e profissões de fé como
igrejas e comunidades religiosas, podereis ver-vos facilmente indu­
zidos a crer que em meu juízo acerca da multiplicidade das Igrejas
também me pronuncio por sua vez no que concerne à multiplicidade
das religiões; porém isto seria interpretar de uma forma completa­
mente errônea minha opinião. Eu tenho condenado a multiplicidade
das igrejas: porém precisamente, enquanto tenho mostrado, a partir

1 Cf. João 1.14.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 137

da natureza da coisa, que aqui se perdem todos os contornos, que


desaparecem todas as divisões determinadas e que, não só quanto ao
espírito e ao grau de participação, senão também quanto a conexão
real, tudo deve constituir um conjunto indiviso, tenho dado por
assentado, por onde quer que for, a multiplicidade das religiões e
sua diversidade mais determinada como algo necessário e inevitá­
vel. Pois, por que a Igreja interior, verdadeira, haveria de ser una?
Para que cada um pudesse intuir e deixar-se comunicar a religião
dos outros, que ele não pode intuir como a sua própria, e que, por
conseguinte, foi concebida como completamente diferente desta. Por
que deveria também a Igreja exterior, impropriamente chamada
assim, ser una? Para que cada um pudesse buscar a religião sob a
forma afim ao germe que dormita nele - e este deveria, portanto, ser
de uma espécie determinada, porque só pode ser fecundado e des­
pertado por esta mesma espécie determinada. E estas manifestações
da religião não poderiam ser concebidas, acaso, como meros frag­
mentos comple-mentários, diferentes unicamente desde um ponto
de vista numérico e enquanto à magnitude, que se os unisse, haveri­
am constituído um todo uniforme, e só então completo; pois nesse
caso cada um em sua progressão natural chegaria, de per si, ao âmbi­
to próprio dos outros; a religião que ele se deixa comunicar se trans­
formaria na sua própria e se identificaria com ela, e a Igreja, esta
comunhão com todos os crentes que, segundo a concepção exposta,
se apresenta a todo homem religioso como indispensável, não seria
mais que uma instituição provisória e em virtude de sua própria ação
se voltaria a suprimir de novo com tanta maior rapidez; não obstante,
eu não tenho querido de modo algum concebê-la ou expô-la deste
modo. Tenho pressuposto assim, a pluralidade das religiões, e assim
mesmo a encontro fundamentada na essência da religião.
Todos vêem com facilidade que ninguém pode possuir inte­
gralmente a religião; pois o homem é finito e a religião, infinita;
porém a vós tão pouco pode resultar-vos estranho que ela não possa
ser fragmentada entre os homens, ainda quando só fosse parcial­
mente, segundo o modo como cada um seja capaz de apreendê-la,
senão que deve organizar-se em manifestações que diferem mais entre
si. Recordai tão só os vários níveis da religião, sobre os quais vos
tenho chamado a atenção, a saber, que a religião de quem considera
138 Editora Novo Século Ltda

o Universo como um sistema não pode ser uma mera prolongação


do ponto de vista daquele que se limita a intuí-lo em seus elementos
aparentemente opostos, e que por sua vez, não pode chegar até este
último ponto de vista, seguindo seu próprio caminho, aquele para
quem o Universo é todavia uma representação caótica e indiferen-
ciada. A estas diferenças poderíeis denominá-las espécies ou graus
da religião: deveis conceder todavia que, donde quer que se dê estas
divisões, costuma também haver formações individuais. Toda força
infinita, uma vez que se divide e se separa em suas manifestações, se
revela também através de formas peculiares e diferentes. Portanto,
com a multiplicidade das religiões ocorre algo completamente dis­
tinto do que sucede com a das Igrejas. Estas, certamente, em sua
maioria não são mais que fragmentos de sua única realidade indivi­
dual, que ante o entendimento aparece completamente determinada
como única e só é inacessível em sua unicidade à representação sen­
sível; e o que impulsionou a estes distintos fragmentos a considera­
rem-se como formações individuais particulares foi sempre um mero
mal-entendido, que só podia repousar sobre a ação de um princípio
estranho: porém a religião, segundo seu conceito e sua essência, é
também para o entendimento algo infinito e incomensurável; ela deve
possuir em si, portanto, um princípio de individualização, porque do
contrário não poderia existir nem ser apreendida; devemos, por con­
seguinte, postular e buscar uma multidão infinita de formas finitas e
determinadas, nas quais ela se revela, e ali onde encontremos algo
que afirme ser uma dessas formas, tal como ocorre com cada reli­
gião particular, temos de examinar se esse algo está construído de
acordo com este princípio, e temos então de por em claro o conceito
determinado que deve expor, sejam quais forem as estranhas
envolturas sob as quais estiver encoberto pela ação deteriorada, ao
que o Imperecível se tem dignado condescender, pela mão ímpia dos
homens. Se não quereis ter da religião só o conceito geral, e seria
certamente indigno que vos quiserdes dar por satisfeitos com um
conhecimento tão imperfeito; se quereis também compreendê-la em
sua realidade e em suas manifestações; se quereis considerar estas
mesmas manifestações com espírito religioso como uma obra do
espírito do mundo que prossegue até o infinito: então deveis dese­
jar o desejo vão e inútil de que não haja mais que uma religião,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 139

deveis recusar vossa repugnância para com sua pluralidade, com


um espírito tão livre de preconceito, como seja possível, abordar
todas aquelas formas religiosas que se têm desenvolvido já através
de figuras mutáveis e durante o curso da humanidade, também neste
caso de caráter progressivo, a partir do seio eternamente rico do
Universo.
Chamais religiões positivas a estas manifestações religiosas
determinadas, existentes e que, sob esta denominação, já têm sido,
desde há muito tempo, objeto de um ódio todo particular; pelo con­
trário, apesar de toda a aversão para com a religião em geral, sempre
haveis tolerado mais facilmente esta outra coisa que se chama reli­
gião natural, e também haveis falado dela com estima. Eu não vacilo
em permitir-vos imediatamente que lanceis uma olhada em minhas
convicções íntimas a este respeito, na medida em que, por minha
parte, protesto clamorosamente contra esta preferência e a declaro,
pelo que se refere a todos aqueles que pretendem em geral ter reli­
gião e amá-la, como a mais grosseira inconseqüência e como a
auto-refutação mais manifesta, por motivos aos quais dareis certa­
mente vossa aprovação quando eu puder expô-los. Em contraste com
vós, que sintais aversão para com a religião em geral, sempre tenho
considerado muito natural fazer esta distinção. A chamada religião
natural é geralmente tão refinada e adota um estilo tão filosófico e
moral, que pouco deixa transluzir do caráter peculiar da religião; ela
se as cria para levar uma vida tão gentil, para guardar os limites e
adaptar-se às circunstâncias, que é por onde quer que for bem tolera­
da: pelo contrário, toda religião positiva possui elementos muito
vigorosos e uma fisionomia muito relevante, de modo que, em todo
movimento que realiza e em toda olhada que se lança sobre ela, evo­
ca de um modo infalível o que ela é propriamente. Se este é o verda­
deiro e o íntimo motivo de vossa antipatia, tal como é de fato, o
único que se refere à própria coisa, é preciso que vos liberteis agora
desta aversão; eu não teria propriamente que polemizar mais contra
ela. Pois se vós agora, tal como espero, emitis um juízo mais favorá­
vel sobre a religião em geral, se reconheceis que ela tem como fun­
damento uma disposição especial e nobre no homem, a qual, por
conseguinte, também deve ser formada ali onde se faça presente,
então não vos pode resultar enojado considerá-la nas formas deter­
140 Editora Novo Século Ltda

minadas sob as que já se tem manifestado realmente, e vós deveis


julgar antes estas formas tanto mais dignas de vossa consideração,
quanto mais o peculiar e distinto da religião têm tomado forma
nelas.
Porém se recusais reconhecer este fundamento, quiçá todas as
antigas recriminações, que vós costumais, por demais, fazer à reli­
gião em geral, os lançareis agora contra as religiões particulares e
afirmareis que precisamente, no que chamais o positivo na religião,
deve encontrar-se aquilo que ocasiona e justifica, sempre de novo,
estas recriminações; vós negareis que as religiões positivas possam
ser manifestações da verdadeira religião. Chamareis a minha aten­
ção acerca de como todas elas, sem distinção, estão cheias do que,
segundo minhas próprias manifestações, não é religião, e de que
portanto, deve haver um princípio de corrupção profundamente
arraigado em sua constituição; vós me recordareis como cada uma
delas se proclama a verdadeira, considerando precisamente seus ele­
mentos peculiares como a realidade suprema; me recordareis que
elas se diferenciam entre si, como se tratasse de algo essencial, pre­
cisamente mediante aquilo que cada um deveria eliminar de si tanto
quanto fôra possível; me recordareis como elas, de uma forma com­
pletamente contrária à natureza da verdadeira religião, demonstram,
refutam e disputam bem seja com as armas da arte e do entendimen­
to ou com outras todavia mais estranhas e mais indignas; acres-
centareis que precisamente agora, quando apreciais a religião e a
reconheceis como algo importante, haverias de ter um vivo interesse
em que se lhe conceda por onde for a maior liberdade para se
desenvolver em todos os sentidos e das formas mais diversas, e que
vós, portanto, deveríeis odiar tanto mais vivamente as formas deter­
minadas da religião, que mantém sujeitos às mesmas figuras a todos
os seus adeptos, lhes privam da liberdade de seguir sua própria natu­
reza e os submetem a limitações contrárias à natureza, e em todos
estes pontos me tereis um estimulante elogio das vantagens da reli­
gião natural frente à positiva.
Eu manifesto, uma vez mais, que não quero negar estas desfi­
gurações e que não ponho nenhuma objeção à aversão que sentis
para com as mesmas. Reconheço em todas elas aquela degeneração
e aquele desvio consistente em se passar a um âmbito estranho,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 141

objeto de tantas lamentações; e quanto mais divina é a religião mes­


ma, tanto menos quero adornar sua corrupção e fomentar, admiran­
do-as, suas excrescências selvagens. Não obstante, esquecei de uma
vez esta concepção que, certamente, também é unilateral, e segui-
me à outra distinta. Ponderai em que medida esta corrupção tem de
ser imputada àqueles que têm extraído a religião do interior do cora­
ção para levá-la ao mundo civil; confessai que muitas deformações
são inevitáveis por onde for tão logo o Infinito se revista de uma
forma imperfeita e limitada, e que descende ao âmbito do temporal e
da interação geral das coisas finitas, para deixar-se dominar por ela.
Porém, por muito profundamente que também esta corrupção possa
estar enraizadas nelas e por muitos desvios que tenham podido
sofrer devido a isto, considerai, não obstante, que a visão religiosa
propriamente dita de todas as coisas consiste em rastrear, até no que
nos parece comum e baixo, toda impressão do Divino, do Verdadei­
ro e Eterno, e em venerar também a mais distante, e por que tem de
ser privado do benefício de uma tal consideração precisamente aquilo
que pode pretender mais legitimamente ser julgado de modo reli­
gioso? Não obstante, vós encontrareis mais que impressões distan­
tes da Divindade. Convido-vos a considerar toda fé, que tenham
professado os homens, toda religião, que designais com um nome e
um caráter determinados, e que quiçá tenham degenerado há tempos
em um código de usos vazios, em um sistema de conceitos e teorias
abstratos; e, se as investigais em sua fonte e em seus elementos ori­
ginários, constatareis que todas as escórias mortas foram em outro
tempo efusões ardentes do fogo interior, que todas elas contém reli­
gião, e que em maior ou menor medida está presente nelas a verda­
deira essência da mesma, tal como vos tenho mostrado; que cada
religião constituiu uma das formas particulares, que deveu assumir
necessariamente a religião eterna e infinita em meio a seres finitos e
limitados. Porém a fim de que não andeis às apalpadelas, ao acaso,
por este caos infinito - pois devo renunciar a conduzir-vos ao mes­
mo, de um forma metódica e completa, o qual exigiria dedicar-lhe
o estudo de uma vida, sem que possa ser o dever de uma mera con­
versação - a fim de que vós, sem serdes seduzidos por conceitos
ordinários, possais avaliar o verdadeiro conteúdo e a autentica
essência das distintas religiões de acordo com um critério correto e
142 Editora Novo Século Ltda

diferenciar segundo idéias determinadas e sólidas o interior do exte­


rior, o próprio do emprestado e estranho, o sagrado do profano:
começai esquecendo toda religião particular e o que é considerado
como seu distintivo característico e procurai primeiramente chegar,
procedendo de dentro para fora, a uma idéia geral do que constitui
propriamente a essência de uma forma determinada de religião.
Constatareis então que precisamente as religiões positivas são estas
configurações determinadas sob as quais a religião infinita se mani­
festa no finito, e que a religião natural não pode pretender de modo
algum ser algo semelhante, na medida em que ela é tão só uma idéia
indeterminada, indigente e miserável que não pode existir propria­
mente para si; constatareis que só nas religiões positivas é possível
um verdadeiro desenvolvimento individual da disposição religiosa,
e que elas, segundo sua essência, não causam a este respeito nenhum
prejuízo à liberdade de seus adeptos.
Por que tenho admitido que a religião não pode manifestar-se
plenamente senão em um número infinito de formas totalmente
determinadas? Só pelas razões que foram expostas quando falei da
essência da religião. A saber, porque cada intuição do Infinito tem
plena consistência própria, não depende de nenhuma outra e tão pouco
implica necessariamente em nenhuma outra; porque seu número é
infinito e nelas mesmas não se dá nenhuma razão pela qual tenham
de referir-se uma à outra deste modo e não de outro; todavia, cada
uma aparece de uma forma completamente distinta se se a olha de
outro ponto de vista ou se é referida em outro distinto; de outro modo,
a única possibilidade de que a totalidade da religião possa existir é
que todos estes diferentes pontos de vista de cada intuição, que pos­
sam surgir desta maneira, se dêem realmente; e isto só é possível em
uma infinitude de formas diferentes, das que cada uma está comple­
tamente determinada pelo diferente princípio da relação nela, e
em cada uma das quais o mesmo objeto será modificado de uma
forma completamente distinta, ou seja, que todas são verdadeiros
indivíduos. Como são determinados estes indivíduos e como dife­
rem entre si? Qual é o aspecto comum em seus elementos, que os
mantém unidos, ou o princípio de atração a que obedecem? Qual é ó
critério segundo o qual se decide a que indivíduo deve pertencer um
suposto dado religioso?
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 143

Uma forma determinada de religião não pode ser tal em aten­


ção ao fato de que ela, por acaso, contenha uma determinada quanti­
dade de matéria religiosa. Nisto consiste precisamente o total
mal-entendido em tomo da essência das religiões particulares, que
se tem difundido amiúde entre seus próprios adeptos e que tem pos­
to as bases para sua corrupção. Estes têm opinado precisamente que,
posto que tantos homens se aderem à mesma religião, também deve­
riam compartilhar os mesmos pontos de vista e sentimentos religio­
sos, as mesmas opiniões e crenças, e que justamente esta dimensão
comum haveria de constituir a essência de sua religião. E difícil, por
onde quer que for, estabelecer com certidão os elementos propria­
mente característicos e individuais de uma religião quando se os
abstrai assim do particular; porém nessa dimensão, por muito
comum que também seja o conceito, é onde menos se pode encon­
trar, e se acaso vós também crerdes que as religiões positivas são
também prejudiciais para a liberdade individual desenvolver sua
religião, devido a que exigem uma soma determinada de intuições e
sentimentos religiosos e excluem a outros, vos encontrais em um
erro. As intuições e os sentimentos particulares são, como sabeis, os
elementos da religião, e se os considerarmos a estes assim, de modo
puramente quantitativo, fazendo conjecturas acerca de quantos há e
de que índole são, é impossível que tal atitude possa conduzir-nos
ao caráter individual da religião. Se a religião deve se individualizar
em atenção ao fato de que em cada intuição são possíveis distintos
pontos de vista, segundo esteja referida às restantes, então em tal
compêndio, excludente de várias dentre elas, mediante o que por
certo não é determinado nenhum daqueles possíveis pontos de vista,
não nos seria de utilidade alguma, e se as religiões positivas se
diferenciaram tão só mediante uma tal exclusão, então elas não cons­
tituiriam, desde já, as manifestações individuais que andamos bus­
cando. Porém que isto não constitui de fato sua característica distinta
se sente de ver na circunstância de que, deste ponto de vista, resulta
impossível formar-se um conceito determinado delas, e este tem de
encontrar-se, todavia, na base das mesmas porque, do contrário, che­
gariam muito rápido a confundir-se. Temos considerado como per­
tencente à essência da religião que não tenha nenhuma conexão
determinada, de caráter interno, entre as distintas intuições e senti­
144 Editora Novo Século Ltda

mentos sobre o Universo, que cada elemento tenha subsistência pró­


pria e mediante mil combinações fortuitas pode conduzir a qualquer
outro. Por isso, já na religião de cada indivíduo, tal como ela se
desenvolve no curso de sua vida, nada há mais aleatório que a soma
determinada de sua matéria religiosa. Determinados enfoques
podem tornar-se-lhes obscuros, outros podem emergir em sua mente
e chegar a fazer-se claros, e sua religião é sempre, a este respeito,
móvel e fluida. É impossível, portanto, que esta fluidez constitua o
que há de permanente e essencial na religião comum a muitos; pois
quão sumamente fortuito e raro deve ser que vários seres humanos
permaneçam fixos, ainda quando não seja mais que momentanea­
mente, no mesmo círculo determinado das intuições e avancem pela
mesma via no que se refere aos sentimentos! Por isto, também entre
aqueles que determinam deste modo sua religião, se disputa cons­
tantemente acerca do que pertence ou não de uma forma essencial à
mesma: estes não sabem o que têm de estabelecer como característi­
co e necessário, o que tem de segregar como livre e contingente; não
encontram o ponto a partir do qual podem abarcar com a vista o
conjunto e não compreendem a manifestação religiosa em cujo seio
crêem viver estes mesmos e em prol da qual imaginam lutar e em
cuja degeneração contribuem posto que não sabem nem onde se
encontram nem que fazem. Porém o instinto, que estes não compre­
endem, os conduz de uma forma mais certeira que seu entendimen­
to, e a natureza mantém unido o que destruiriam suas falsas reflexões
e sua conduta baseada nelas. Quem faz constituir o caráter de uma
religião particular em uma quantidade determinada de intuições e
sentimentos deve admitir necessariamente uma conexão interna e
objetiva que una entre si precisamente estes sentimentos e intuições
e exclua a todos os outros, e esta ilusão é justamente o princípio de
sistematização e de sectarismo, completamente oposto ao espírito
da religião, e o todo que estes se esforçam por configurar desta ma­
neira não seria um todo como o que nós buscamos, mediante o qual
a religião adquire em todas suas partes uma forma determinada,
senão que constituiria um fragmento desprendido violentamente do
Infinito, não uma religião, antes uma seita, o conceito mais irreligioso
que se pode querer realizar no âmbito da religião. Porém as formas
que o Universo tem produzido, e que existem realmente, tampouco
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 145

constituem todos desta natureza. Todo sectarismo, bem seja


especulativo com vistas a situar em um contexto filosófico intuições
particulares, ou antes ascético, para insistir a favor de um sistema e
de uma sucessão determinadas de sentimentos, tende à uniformida­
de mais completa possível de todos os que querem participar no
mesmo fragmento de religião; e assim aqueles que estão contagia­
dos por este furor, e a quem não falta certamente atividade, todavia
não tem logrado conduzir até este ponto religião positiva alguma,
admitireis, não obstante, que estas, posto que também têm surgido
em um dado momento, e enquanto existem todavia apesar daqueles
ataques, devem haver sido formadas de acordo com outro princípio
e possuir outro caráter distinto; e mais, se pensais na époc# em que
elas surgiram, vereis isto com maior clareza: pois vós recordareis
que toda religião positiva durante o período de sua formação e de
seu florescimento, na época, portanto, em que sua peculiar força
vital se mostra mais juvenil e dotada do maior frescor e na qual, por
conseguinte, pode ser conhecida com maior segurança, se move em
uma direção completamente oposta, não concentrando-se em si e
excluindo muitos elementos, senão crescendo para fora, lançando
sempre novos ramos e apropriando-se sempre de mais matéria reli­
giosa e configurando-a de acordo com sua natureza especial. Elas
não estão constituídas, por conseguinte, conforme este falso princí­
pio, este não forma uma unidade com sua natureza, se trata de uma
corrupção proveniente de fora e, dado que lhes é tão contrário como
o é ao espírito da religião em geral, sua relação com o mesmo, que
constitui uma guerra permanente, pode demonstrar, melhor que ques­
tionar, que elas são as manifestações individuais da religião, que
andamos buscando.
Todas as diferenças no seio da religião em geral, acerca das
quais vos tenho chamado a atenção até agora, aqui e ali, são igual­
mente suficientes para produzir uma forma de religião completa­
mente determinada e que constitua uma realidade individual. Aquelas
três formas, tão amiúde mencionadas, de contemplar o Universo, a
saber, como caos, como sistema e na multiplicidade de seus elemen­
tos, estão distantes de constituir outras tantas religiões particulares e
determinadas. Vós sabeis que, quando se divide um conceito tanto
como se queira e até o infinito, nunca se chega deste modo aos indi­
146 Editora Novo Século Ltda

víduos, senão tão só a conceitos menos gerais, que estão contidos


sob aqueles, a espécies e subdivisões que, por sua vez, podem com­
preender sob si uma multidão de indivíduos muito diferentes: para
encontrar o caráter do próprio ser individual, é preciso sair do marco
do conceito geral e de suas notas características. Porém aquelas três
diferenciações no seio da religião não são de fato outra coisa que
uma divisão habitual, e recorrente por onde queira que for, do con­
ceito de intuição. Elas constituem, portanto, espécies, porém não
formas determinadas de religião, e o estado de indigência por causa
do qual buscamos a estas últimas tão pouco ficaria satisfeito, de modo
algum, pelo fato de que a religião se apresente destes três modos. As
intuições particulares possuem, certamente, em cada uma delas um
caráter próprio e, por conseguinte, cada forma determinada de reli­
gião deve referir-se a uma destas espécies: porém, de modo algum,
estas determinam de uma forma exclusiva uma relação e uma situa­
ção peculiares das diferentes intuições entre si, e a tal respeito,
depois desta divisão, tudo permanece todavia tão infinito e tão
polivalente como antes. Maior aparência de verdade poderia apre­
sentar, quiçá, a suposição de que o personalismo e sua representação
religiosa oposta, o panteísmo, nos oferecem ao alcance da mão duas
destas formas individuais de religião. Porém também, neste caso se
trata de mera aparência, estes tipos de representações se encontram
por certo em cada uma das três espécies de religião e já por este
motivo não podem constituir realidade individual alguma, posto que
é impossível que um indivíduo possa reunir em si três características
especiais diferentes. Porém, considerando o problema de uma forma
mais precisa, deveis ver, ademais, que esses dois tipos de represen­
tações tão pouco oferecem nenhuma relação determinada de várias
intuições religiosas entre si. Por hipótese, se a idéia de uma Divin­
dade pessoal fosse uma intuição religiosa particular, então, sem
dúvida, o personalismo seria, em cada uma das três espécies de reli­
gião, uma forma completamente determinada, pois nele toda maté­
ria religiosa é referida a esta idéia: porém isso é assim? É esta idéia
uma intuição particular do Universo, uma impressão particular do
mesmo, que alguma determinação finita produz em mim? Deste
modo, também o panteísmo, que é concebido como oposto àquele,
haveria de construir uma intuição particular do Universo?; neste caso
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 147

deveria haver para ambos certas percepções determinadas, das que


se escolheriam ditas intuições. E onde tem sido localizadas alguma
vez estas percepções? Nesse caso deveria haver intuições particula­
res da religião, opostas entre si, o que não pode ocorrer. Tão pouco
estes dois tipos de representação são de modo algum diferentes
intuições do Universo no finito, não são elementos da religião, se­
não diferentes formas de pensar o Universo como indivíduo por sua
vez que é intuído no finito, posto que uma destas formas lhe atribui
uma consciência peculiar e a outra não. Todos os elementos particu­
lares da religião permanecem no mesmo nível de indeterminação no
que se refere a sua situação recíproca, e nenhuma das múltiplas
visões da religião será realizada pelo fato de que um ou outro pensa­
mento a acompanhe, tal como podeis constatar, por onde queira que
estiver, onde algo tem de ser apresentado sob uma forma religiosa e
simultaneamente sob uma forma puramente deísta; aí constatareis
que todas as intuições e sentimentos e, de uma forma especial - o
que constitui o ponto em tomo do qual costuma girar tudo nesta
esfera - as intuições que versam sobre os movimentos da humanida­
de em particular sobre a unidade no que se encontra mais além de
seu arbítrio, flutuam, em relação às sua relações recíprocas, em uma
completa indeterminação e ambigüidade. Portanto, tão pouco as duas
são senão duas formas mais gerais, cujo marco tem de ser encontra­
do primeiramente com outras individuais e determinadas e, ainda
quando também vós limitais este marco ao vincular estas últimas,
uma a uma, com uma das três espécies determinadas de intuição,
estas formas compostas a partir dos diferentes princípios divisórios
do todo, não constituem, todavia, mais que subdivisões, que possu­
em caráter próprio, porém não em modo algum totalidades comple­
tamente determinadas e fechadas. Portanto, nem o naturalismo - eu
entendo por isto a intuição do Universo na pluralidade de seus ele­
mentos, sem a representação da consciência e vontade pessoais dos
elementos particulares - nem o panteísmo, nem o politeísmo, nem o
deísmo são religiões particulares e determinadas, tal como as anda­
mos buscando, senão tão só espécies, em cujo marco já se tem de­
senvolvido, por certo, muitos indivíduos propriamente ditos e todavia
se desenvolverá mais. Tende bem em conta que o panteísmo e o
deísmo não são formas determinadas de religião, a fim de poder
148 Editora Novo Século Ltda

designar o posto devido a vossa religião natural, se acaso chegar-se


a constatar que ela não é outra coisa que isto.
Para dizê-lo brevemente: uma religião individual, tal como
nós a buscamos, não pode surgir de outro modo senão mediante o
fato de que uma intuição particular do Universo, seja qual for, se
converterá, por livre vontade - pois de outro modo não pode ocorrer,
dado que qualquer outra teria as mesmas pretensões para isso - em
ponto central da totalidade da religião e tudo seja aí referido a ela.
Deste modo, o todo adquire de repente um espírito determinado e
um caráter comum; se volta fixo tudo o que previamente aparecia
como ambíguo e indeterminado; da infinita diversidade de pontos
de vista e de relações dos elementos particulares, todos os quais eram
pos-síveis e todos haveriam de ser expostos, um é realizado plena­
mente por cada uma destas formações; todos os elementos particula­
res aparecem agora desde uma perspectiva homônima, desde aquela
que se tem voltado em direção a esse centro, e todos os sentimentos
adquirem, precisamente deste modo uma tonalidade comum e se
voltam mais vivos e compenetrados entre si. Só no conjunto de
todas as formas, concebidas como possíveis segundo este enfoque,
pode manifestar-se realmente a religião em sua totalidade e, portan­
to, ela só pode ser exposta em uma sucessão infinita de figuras que
surgem e voltam a desaparecer, e só o que se encontra em uma des­
tas formas contribui com algo à plenitude de sua manifestação. Cada
uma de tais configurações da religião nas que tudo é visto e sentido
em realce com uma intuição central, onde e como queira que tome
corpo e seja qual for esta intuição preferida, é uma autêntica religião
positiva; em relação com o todo é uma heresia - uma palavra que
deveria ser reabilitada - porque a causa de seu surgimento é algo
sumamente arbitrário; pelo que se refere à comunidade de todos os
participantes e a sua relação com o primeiro que fundou sua reli­
gião, porque foi o primeiro em ver aquela intuição no centro da reli­
gião, constitui uma escola e um discipulado próprios. E, se a religião
só se manifesta em e através de tais formas determinadas, assim tam­
bém só quem se assenta, com a sua, em uma delas possui propria­
mente uma morada estável e, por assim dizê-lo, um direito de
cidadania ativo no mundo religioso; só ele pode vangloriar-se de
contribuir com algo à existência e ao devir do todo; se ele é uma
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 149

pessoa religiosa no sentido próprio, com um caráter e uns elementos


firmes e determinados.
Portanto, perguntareis bastante perplexos, deve todo aquele
cm cuja religião haja uma intuição dominante pertencer a uma das
formas existentes? De modo algum; não obstante, é preciso que uma
intuição seja a dominante em sua religião; do contrário, ela não pos­
suiria valor algum. Tenho falado, pois, de duas ou três figuras deter­
minadas e dito que elas tenham de ser as únicas? Pelo contrário;
deve desenvolver-se uma quantidade inumerável delas, desde todos
os pontos, e aquele que não encontra ocupação em nenhuma das já
existentes ou, incluindo diria eu, quem não fosse capaz de criá-la
por si mesmo, se ela não houvesse existido todavia, tampouco per­
tencerá, certamente, a nenhuma delas, senão que fundará uma nova.
Se ele permanece com sua religião e sem discípulos, não importa.
Sempre e por onde quer que for existem germens daquilo, que toda­
via não podem alcançar um maior desenvolvimento de sua existên­
cia: porém estes existem sem dúvida, e também da mesma maneira
existe também sua religião, e esta possui na mesma medida de uma
forma e uma organização determinadas, e é uma religião positiva na
mesma medida que se ele tivesse fundado a maior das escolas. Ve­
des que estas formas existentes não impedem, por causa de sua pré­
via existência, que nenhum homem forme uma religião de acordo
com sua natureza e com sua forma de sentir. Que ele se instale em
uma delas ou construa uma própria, depende unicamente da intuição
do Universo que o impressione primeiramente, com a devida vivaci­
dade. Obscuros pressentimentos que, sem penetrar até o interior do
âmago, desaparecem de novo sem ser conhecidos e que, sem dúvida,
florescem amiúde e temporaneamente sobre todo homem, podem
surgir de oitivas e permanecer como fatos isolados, mas que tão pouco
é produto individual; porém, se a um se lhe desvela para sempre o
sentido para o Universo em uma tomada clara de consciência e em
uma intuição determinada, então tal indivíduo, a partir desse instan­
te, relaciona tudo a essa intuição, em torno dela se configura tudo,
esse momento determina sua religião, e espero que não digais que
sobre isto possa influir alguma qualidade natural ou hereditária e
que tão pouco opinais que a religião de um homem se reveste de um
caráter menos peculiar e que é menos sua se esta se situa em uma
150 Editora Novo Século Ltda

região na qual já se têm congregado muitos. Porém ainda quando


milhares antes dele, junto a ele, e depois dele, iniciem sua vida reli­
giosa com a mesma intuição, será por isto essa vida a mesma em
todos e a religião se revestirá em todos da mesma forma? Recordai,
não obstante, que em cada forma determinada de religião não se tem
de admitir tão só, ponhamos por acaso, um número limitado de in­
tuições concernentes ao mesmo ponto de vista e à mesma relação
com uma só, se não toda a infinita multidão das mesmas: não garan­
te isto a cada um uma suficiente margem de erro no jogo? Eu não
tenho conhecimento de que uma só religião já tenha logrado apro­
priar-se de todo seu campo, determinar e expô-lo todo de acordo
com seu espírito. Só a umas poucas lhes tem concedido, na época de
sua liberdade e de seu maior esplendor, configurar e aperfeiçoar de
uma forma satisfatória unicamente o que se encontra mais próximo
ao centro. A colheita é grande e os trabalhadores são poucos2. Em
cada uma destas religiões se abre um campo infinito, onde milhares
podem dispersar-se; suficientes regiões sem cultivo se oferecerão
aos olhos de todo aquele que seja capaz de criar e produzir algo
próprio, e flores sagradas expandem seu aroma e seu brilho em
todas as regiões até nas que todavia não tenha penetrado ninguém
para contemplá-las e desfrutar delas.
Porém vossa objeção segundo a que, no seio de uma religião
positiva, o homem já não poderia dar forma própria à sua, está tão
desprovida de fundamento que ela não só deixa, como acabais de
ver, espaço suficiente para cada um, senão que também, precisa­
mente na medida em que se adere a uma religião positiva, e pelo
mesmo motivo pelo qual se adere, sua religião, em outro sentido
todavia, não só pode constituir uma realidade individual especial,
senão que também chegará a sê-lo de per si. Considerai, uma vez
mais, o instante sublime no qual o homem entra, em geral, pela pri­
meira vez, no âmbito da religião. A primeira visão religiosa determi­
nada, que entra em seu espírito com uma força tal que mediante uma
só estimulação seu órgão adquire vida para o Universo e, a partir
desse momento, é posto em atividade para sempre, determina certa­
mente sua religião; ela é e permanecerá sua intuição fundamental,

2 Cfr. Mateus 9.37; Lucas 10.2.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 151

em relação com a qual ele considerará tudo, e está determinado de


antemão sob que forma deve manifestar-se-lhe cada elemento da
religião, tão logo ele o perceba. Tal é o aspecto objetivo deste mo­
mento; porém considerai também o subjetivo: assim como mediante
este momento sua religião é, a este respeito, determinada no sentido
de que ela pertence a um indivíduo completamente delimitado no
que se refere ao Todo infinito, ainda quando não seja mais que um
fragmento indeterminado do mesmo, pois só em união com outros
vários pode manifestar o Todo, assim também em virtude do mesmo
momento sua religiosidade é modelada, no que se refere à infinita
disposição religiosa da humanidade como um indivíduo que possui
uma natureza totalmente própria e nova. Com efeito, este instante
constitui ao mesmo tempo um ponto determinado na sua vida, um
membro da série, que lhe é totalmente peculiar, das atividades espi­
rituais, um acontecimento que, como qualquer outro, se encontra em
uma conexão determinada com um antes, um agora e um depois; e,
dado que este antes e este agora são em cada um algo completamen­
te peculiar, assim ocorrerá também com ele depois-, dado que toda a
vida religiosa posterior se vincula com este momento e com o estado
em que ele irrompeu no espírito e com sua conexão com a consciên­
cia anterior, mais precária, desenvolvendo-se a partir daí, por assim
dizê-lo, de um modo genético, assim também essa vida religiosa
possui em cada um, uma personalidade própria, completamente de­
terminada, tal como corre com sua própria vida humana. Assim como
quando se desprende uma parte da consciência infinita e se vincula,
por meio da realidade finita, em um momento determinado na série
das evoluções orgânicas, surge um novo homem, um ser com carac­
terísticas próprias, cuja existência separada, independentemente da
massa e da natureza objetiva de seus acontecimentos e ações, con­
siste na unidade da consciência cuja continuidade permanece vincu­
lada com aquele primeiro momento e na relação peculiar de todo o
posterior com uma determinada realidade ante-rior no influxo desta
realidade anterior sobre a formação da poste-rior: assim surge tam­
bém naquele instante, no qual se inicia uma consciência determina­
da do Universo, uma vida religiosa própria; própria não por causa de
uma limitação irrevogável em um número e em uma seleção especial;
de intuições e sentimentos, não por causa da natureza da matéria
152 Editora Novo Século Ltda

religiosa ali presente, que possui em comum com todos os que têm
nascido para a vida espiritual na mesma época e no mesmo âmbito
religioso que ele; senão devido ao que ele não pode ter em comum
com ninguém, devido ao influxo permanente no estado em que seu
espírito foi saudado e abraçado pela primeira vez pelo Universo,
devido à forma peculiar segundo a qual elabora as considerações e
as reflexões acerca de dito ponto, devido ao caráter e a tonalidade,
com os que se harmoniza toda a série posterior de suas visões e de
seu sentimentos religiosos e que não se perde, por muito que chegue
a progredir mais tarde na intuição do Universo mais além do que lhe
ofereceu a primeira infância de sua religião. Assim como cada ser
intelectual finito garante sua natureza espiritual e sua individualida­
de retroagindo-vos, enquanto origem sua, àquelas núpcias do Infini­
to com finito, a este fato (faktum) incompreensível, mais além do
qual não podeis prosseguir ulteriormente à série do finito e onde
vossa fantasia fracassa quando quereis explicar este fato a partir de
algo prévio, seja a vontade livre ou a natureza: assim também deveis
atribuir uma peculiar vida espiritual a quem quer que vos mostre
como documento de sua individualidade religiosa um fato igualmente
incompreensível, a saber, como, de repente, no meio do finito e do
particular, se tem desenvolvido nele a consciência do Infinito e do
Todo. Todo aquele que pode indicar assim o dia do nascimento de
sua vida espiritual e contar uma história milagrosa acerca da origem
e sua religião, que aparece como um efeito imediato e como uma
estimulação do espírito da Divindade, também haveis de considerar
que deve ser algo peculiar e que tem de significar algo especial: pois
algo assim não ocorre para produzir um ponto-médio vazio no reino
da religião. E assim como cada ser surgido deste modo só pode ser
explicado a partir de si, e não pode ser compreendido totalmente
se não retornais, tanto como for possível, às primeiras manifesta­
ções do livre arbítrio nos primeiros tempos, assim também a per­
sonalidade religiosa de cada um constitui um todo fechado, e sua
compreensão depende de que vós intentais investigar as primeiras
revelações da mesma. Por isso creio eu também que não levais a
sério toda esta queixa contra as religiões positivas; sem dúvida se
trata só de um prejuízo: pois estais demasiado despreocupados
da coisa como para que esteja justificado vosso modo de proceder.
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 153

Vós não vos haveis sentido certamente chamados a aderir aos pou­
cos homens religiosos que quiçá pudésseis encontrar - apesar de
que estes são sempre suficientemente atrativos e dignos de afeto -
para investigar mais exatamente, ponhamos por acaso mediante o
microscópio da amizade ou do conhecimento mais próximo, que ao
menos se assemelha à amizade, como estão organizados para o Uni­
verso e mediante o Universo. A mim, que vos tenho observado dili­
gentemente, que vos busco com o mesmo afinco e vos examino com
a mesma sagrada solicitude que vos dedicais às curiosidades da na­
tureza, se me tem ocorrido amiúde que, acaso, vos poderia conduzir
já à religião o mero fato de que prestareis atenção em como a Divin­
dade, na parte da alma em que ela habita preferentemente, na que se
revela em seus efeitos imediatos e se contempla a si mesma, também
a converte paulatinamente em seu santuário completamente particu­
lar e a separa de todo o demais que tem sido construído e formado no
homem, e em como ela é exaltada ali por toda a riqueza da mais
inesgotável diversidade de suas formas. Eu ao menos me admiro,
sempre de novo, das muitas figuras memoráveis existentes na reli­
gião tão pouco povoadas de religião, de como as diferem entre si
mediante os mais diversos graus de sensibilidade para o atrativo que
exerce o mesmo objeto, e mediante a máxima diferenciação dos efei­
tos produzidos nelas, mediante a diversidade de tons que produz o
predomínio decisivo de uma ou outra espécie de sentimentos e me­
diante todo tipo de idiossincrasias da estabilidade e das peculiarida­
des do estado de espírito, enquanto cada um encontra logo sua
situação particular na que o domina, de um modo especial, a visão
religiosa das coisas. Admiro-me assim mesmo de como o caráter
religioso do homem amiúde é nele algo completamente peculiar, de
como está separado de tudo o que ele descobre em suas restantes
disposições, de como o espírito mais aprazível e equânime é capaz
neste tema da emotividade mais intensa, semelhante à paixão; de
como o sentido mais obtuso para as coisas comuns e terrenas tem
aqui vivências íntimas que vão até a melancolia, e de como a clareza
de sua visão chega até o êxtase e à profecia; de como a alma mais
pusilânime em todos os assuntos mundanos, quando se trata de coi­
sas sagradas, fala delas em voz alta, e a seu favor, através do mundo
e ao longo de sua época, chegando amiúde até o martírio. E de que
154 Editora Novo Século Ltda

forma admirável este mesmo caráter religioso esta amiúde estruturado


e entrelaçado, mesclando e fundindo entre si, em cada um de uma
forma particular, a cultura e a rudeza, a capacidade e a limitação, a
ternura e a rigidez. Onde tenho visto todas estas peculiaridades? No
âmbito propriamente dito da religião, em suas formas determinadas,
nas religiões positivas, às que vós inculpais do contrário, entre os
heróis e mártires de uma fé determinada, entre os que são presas da
excitação por sentimentos determinados, entre os que veneram uma
luz determinada e as revelações individuais: tenho aí onde quero
mostrá-las a vós em todas as épocas e no seio de todos os povos. Tão
pouco as coisas são de outra maneira; só neste âmbito podem encon­
trar-se ditas peculiaridades. Assim como nenhum homem pode exis­
tir enquanto indivíduo sem ser colocado também, por sua vez,
mediante o mesmo ato, no mundo, em uma ordem determinada das
coisas e entre objetos particulares, assim tão pouco um homem reli­
gioso pode alcançar sua individualidade, sem inserir-se também
mediante a mesma ação em alguma forma determinada de religião.
Ambos fatos são efeito de um só e mesmo momento, e portanto, um
não podè separar-se do outro. Se a intuição originária do Universo
não possui força sufieiente em um homem para constituir-se a si
mesma em centro de sua religião, em tomo da qual tudo se move
nela, tão pouco seu atrativo é suficientemente intenso para pôr em
marcha o processo de uma vida religiosa própria e vigorosa.
E, agora que vos tenho rendido estas contas, decidi-me tam­
bém por vossa parte: como estão as coisas em vossa celebrada reli­
gião natural, no que se refere a esta conformação pessoal e a esta
individualização? Pois mostrai-me entre seus adeptos uma diversi­
dade tão grande de caracteres fortemente notórios! Porque devo con­
fessar que, no que a mim se refere, nunca os tenho podido encontrar
entre esses adeptos e, se celebrais que ela garante a seus seguidores
uma maior liberdade para formarem-se religiosamente de acordo com
a própria sensibilidade, não posso entender essa liberdade - tal como,
com efeito, é utilizada amiúde a palavra - senão como a de permane­
cer também inculto, como a liberdade com respeito a tudo o que
pode compelir a só ser, ver e sentir, em geral, alguma coisa determi­
nada. A religião desempenha, pois, em seu espírito um papel dema­
siadamente precário. Ocorre como se ela não tivesse, para si, nenhum
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 155

pulso próprio, nenhum sistema de vasos próprios, nenhuma circula­


ção própria e, portanto, tão pouco nenhuma temperatura própria,
nenhuma capacidade assimiladora, nem nenhum caráter; ela se
encontra mesclada por onde for com sua moralidade e com sua sen­
sibilidade natural; em conexão com estas, ou antes seguindo-as hu­
mildemente, se move lenta e parcimoniosamente e só se separa
ocasionalmente delas, gota a gota, para dar um símbolo de sua exis­
tência. Sem dúvida, me tenho topado com muitos caracteres religio­
sos, estimáveis e vigorosos, que os adeptos das religiões positivas,
não sem admirarem-se deste fenômeno, consideraram como segui­
dores da religião natural: porém, examinada a situação mais de per­
to, estes não os reconheceram como sendo dos seus; estes indivíduos
sempre se haviam desviado um pouco da pureza originária da reli­
gião racional e haviam admitido na sua alguns elementos arbitrários
e positivos, que esses adeptos não chegaram a reconhecer, só devido
a que se tratava de algo demasiado diferente de sua concepção. Por
que os seguidores da religião natural desconfiam imediatamente de
todo aquele que introduz alguma particularidade em sua religião?
Estes querem justamente ser todos uniformes - opostos tão só ao
extremo contrário, aos sectários, me refiro - uniformes no indetermi­
nado. No marco da religião natural cabe pensar tão pouco em uma
formação pessoal, especial, que seus adeptos mais autênticos nem
se quer admitem que a religião do homem haja de ter uma história
própria e começar com um fato memorável. Isto já é demasiado para
estes: pois a moderação em sua pauta fundamental na religião, e
quem está em condições de referir de si algo semelhante já tem
suspeitado de possuir uma predisposição ao enojado fanatismo.
O homem deve transformar-se pouco a pouco em religioso, tal como
acontece prudente e judiciosamente em todas as outras coisas que
ele deve ser; tudo isto tem de chegar até ele pela via da instrução e
da educação; não deve haver aí nada que possa ser tido por sobrena­
tural ou até tão só por chamativo. Eu não quero dizer que pelo fato
de que o ensino e a educação deva ser tudo, produza em mim a sus­
peita de que a religião natural esteja especialmente afetada por uma
mescla, de uma transformação até, em filosofia e moral; porém está
claro, não obstante, que seus seguidores não têm partido de nenhu­
ma intuição viva, e que tão pouco nenhuma constitui seu centro
156 Editora Novo Século Ltda

firme, posto que, entre estes, não se conhece nada pelo qual o
homem deveria ser impressionado de um modo particular. A fé em
um Deus pessoal, o sabem estes mesmos, não é o resultado de uma
intuição particular, determinada, do Universo no finito; por isso tão
pouco perguntam a ninguém que a compartilha como tem chegado a
possuí-la; senão que, da mesma maneira que estes pretendem
demonstrá-la, opinam também que tem de ser demonstrada a todos.
Dificilmente poderíeis indicar qualquer outro centro, mais determi­
nado, que estes tiveram. O pouco que contém sua magra e esquálida
religião se encontra aí, para si, em uma ambigüidade indeterminada:
estes têm uma providência em geral, uma justiça em geral, uma edu­
cação divina em geral; todas estas intuições chegam referidas umas
a outras, bem nesta, bem naquela perspectiva e visão abreviada, e
possuem para estes ou este valor, ou aquele; ou, quando existe ali
uma relação comum com um ponto, este ponto se encontra situado
fora da esfera da religião, e é-uma relação com algo estranho, a sa­
ber, com vistas a que se não lhe imponham obstáculos à moralidade
ou para que se lhe dê alguma trela ao impulso para a felicidade -
coisas pelas quais os homens verdadeiramente religiosos não têm
perguntado nunca a hora de estruturar os elementos de sua religião,
conexões em conseqüência das quais seu exíguo patrimônio religio­
so todavia é mais disperso e disseminado. Esta religião natural não
possui, portanto, no que se refere às suas intuições religiosas, ne­
nhuma unidade de uma visão determinada, nenhuma manifestação
individual, própria, da religião, e aqueles que só a professam não
possuem nenhuma morada determinada no reino da religião, senão
que são estrangeiros cuja pátria, se é que a têm, coisa que duvido,
deve encontrar-se em outra parte. Eu a concebo como se fosse a
massa que flutua, tênue e dispersa, entre os sistemas cósmicos, atra­
ída um pouco para cá um e para lá por outro, porém não o suficiente
por nenhum como para ser arrastada a seu torvelinho. O motivo pelo
qual ela se encontra aí o saberão os deuses; poderia ser, acaso, para
mostrar que também o indeterminado pode existir em um certo sen­
tido. Porém propriamente só se trata de um esperar existir, ao que
não poderiam assentir a não ser que se apoderasse destes um poder
mais forte que todos os precedentes e os fizesse de outra maneira.
O mais que lhes posso conceder são os mais obscuros pressentimen­
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 157

tos, que precedem aquela intuição viva, que ilumina ao homem na


sua vida religiosa. Há certas emoções e representações obscuras que
não são acordes com a personalidade de um homem, senão que só
enchem, por assim dizê-lo, os espaços intermediários da mesma e se
mostram em todos com a mesma uniformidade: assim é sua religião.
No máximo ela é religião natural no sentido em que também, quan­
do se fala de filosofia natural ou de poesia natural, se aplicam estes
epítetos às manifestações do instinto rudes para distingüí-las da arte
e da cultura. Porém estes não estão, acaso, à espera de algo melhor,
que estimem de forma superior, com o sentimento de não poder
alcançá-lo, senão que se opõe a ele com todas as forças. A essência
da religião natural consiste, com toda propriedade, na negação de
todo positivo e característico no âmbito da religião, e na polêmica
mais violenta contra estes. Por isso, esta forma religiosa é também o
digno produto de uma época, cuja obsessão tem sido uma miserável
generalidade e uma vazia sobriedade que em maior medida que qual­
quer outra coisa se opõe em tudo à verdadeira formação (Bildung).
Há duas coisas que estes odeiam muito especialmente: não querem
começar em nada pelo extraordinário e o incompreensível e, seja o
que estes forem ou fizerem, não deve haver nada que se assemelhe a
uma escola. É a corrupção, que encontrais em todas as artes e as
ciências; ela também se tem introduzido na religião, e seu produto é
esta coisa carente de conteúdo e de forma. Desejam ser autóctones e
autodidatas na religião; porém destes só possuem a rudeza e a
incultura: para produzir algo que tenha um caráter próprio não pos­
sui nem força nem vontade. Se opõe a toda religião determinada,
existente, porque ela é ao mesmo tempo uma escola; porém, se fosse
possível que a estes mesmos lhes acontecesse algo mediante o que
uma religião propriamente dita quiser tomar formas nestes, se rebe­
lariam, por certo, com a mesma violência contra isso devido a que,
apesar de tudo, poderia surgir daí uma escola. E deste modo sua
oposição contra a positividade e o livre arbítrio é, por sua vez, uma
oposição contra todo o determinado e real. Se se exige que uma reli­
gião determinada não comece por um fato, ela não poderá começar
de modo algum: pois é preciso que haja aí um fundamento subjeti­
vo, do por que algo sai à luz e é posto no centro; e, se uma religião
não tem de ser uma religião determinada, não é religião alguma,
158 Editora Novo Século Ltda

senão uma matéria inconsistente, desconexa. Recordai o que con­


tam os poetas acerca de um estado das almas preliminar ao nasci­
mento: imaginai-vos que uma delas se opusesse violentamente a vir
ao mundo, precisamente por não querer ser “este” ou “aquele”,
senão um homem em geral; esta polêmica contra a vida é a polêmica
da religião natural contra as religiões positivas, e este é o estado
permanente de seus adeptos.
Por conseguinte, se pretendeis levar a sério a consideração da
religião em suas formas determinadas, é preciso retomar desde esta
religião esclarecida às menosprezadas religiões positivas, onde tudo
aparece real, vigoroso e determinado; onde toda intuição particular
possui um conteúdo determinado e uma relação própria com as
demais, onde todo sentimento possui seu círculo próprio e sua cone­
xão especial; onde encontrais, em alguma parte, cada uma das modi­
ficações da religiosidade, e cada um dos estados anímicos nos que
só a religião pode situar ao homem; onde encontrais qüe, em algum
lugar, tem tomado forma cada uma das partes da mesma e que cada
um de seus efeitos tem alcançado seu grau de perfeição; onde todas
as instituições comuns e todas as expressões particulares demons­
tram o alto valor que se atribui à religião, que chega até o ouvido de
todo o demais; onde o zelo sagrado com o qual ela é considerada,
comunicada, desfrutada e a saudade infantil com a que se está a
espera de novas revelações de forças divinas, vos servem de garan­
tia de que nenhum de seus elementos, que já tenha podido ser perce­
bido a partir deste ponto de vista, tem sido passado por alto e não
tem desaparecido nenhum de seus momentos sem deixar atrás de si
um monumento comemorativo. Considerai todas as múltiplas for­
mas sob as que já tem aparecido cada modo particular de contemplar
o Universo; não vos deixeis intimidar nem pela obscuridade miste­
riosa nem por chamativos elementos grotescos e não deis capacida­
de à vã ilusão, como se tudo pudesse ser mera fantasia e poesia;
limitai-vos a escavar, cada vez com maior profundidade, ali onde
vosso bastão mágico se tem fincado uma vez; certamente, vós
chamareis à luz o celestial. Porém considerai também a embalagem
humana que a divina teve que se revestir; não esqueçais também que
ela leva em si por onde for as impressões da cultura de cada época,
da história de cada raça humana, que ela amiúde teve que assumir a
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 159

figura de servo, manifestando em seu meio ambiente e em seu orna­


mento a indigência de seus discípulos e de sua morada, para que vós
estabeleçais as devidas distinções e separações; não passeis por alto
como ela se tem visto limitada amiúde em seu crescimento por­
que não se lhe deixou margem para exercitar suas forças, como ela,
amiúde na primeira infância, tem sucumbido lamentavelmente aos
maus tratos e à atrofia. E, se vós quereis abarcar o conjunto, não vos
detenhais somente ante as formas da religião que têm brilhado
durante séculos e têm dominado a grandes povos e que de múltiplas
maneiras têm sido exaltadas por poetas e sábios: aquilo que era o
mais memorável a partir do ponto de vista histórico e religioso se
tem repartido amiúde entre poucos e tem permanecido oculto ao olhar
comum.
Porém ainda quando abarqueis com a vista, deste modo, os
objetos pertinentes, e os abarqueis de uma forma plena e completa,
sempre continuará sendo uma tarefa difícil descobrir o espírito das
religiões e compreendê-las plenamente. Chamo-vos a atenção, mais
uma vez acerca de que não pretendais abstraí-lo do que é comum a
todos os que professam uma religião determinada: por este caminho
vos perdeis em mil pesquisas inúteis e ao final sempre chegais, não
ao espírito da religião, senão a uma quantidade determinada de ma­
téria; deveis recordar que nenhuma religião se tem desenvolvido
jamais totalmente e que não chegareis a conhecê-la até que, distan­
tes de buscá-la em um espaço limitado, estejais em condições vós
mesmos de complementá-la e de determinar como isto ou aquilo
deverá tornar-se desenvolvido nela, se seu horizonte se tivesse
estendido até este ponto; vós não poderíeis gravar com suficiente
firmeza em vossa mente que tudo se reduz a encontrar a intuição
fundamental de uma religião, que a vós todo conhecimento do parti­
cular não vos é de nenhum proveito enquanto não tenhais esta intui­
ção, e que não a tereis até que possais explicar todo o particular a
partir de um princípio único. E mesmo com este critério de investi­
gação, que não é, apesar de tudo, mais que uma pedra de toque,
estareis expostos a mil equívocos: muitas coisas vos sairão ao
encontro com o propósito, por assim dizê-lo, de seduzir-vos; muitas
coisas se cruzarão em vosso caminho para dirigir vosso olhar a uma
falsa direção. Ante tudo vos rogo que não percais de vista a dife­
160 Editora Novo Século Ltda

rença entre o que constitui a essência de uma religião particular,


enquanto esta é em geral uma forma e uma manifestação determina­
da da mesma, e o que caracteriza sua unidade enquanto escola e a
mantém unida como tal. Os homens religiosos possuem um caráter
completamente histórico: isto não é seu maior elogio; porém é tam­
bém a fonte de grandes mal-entendidos. Sempre consideram sagra­
do o momento em que estes têm sido preenchidos pela intuição, que
se tem constituído no centro de sua religião; este momento se lhes
apresenta como uma intervenção imediata da Divindade, e não fa­
lam de sua peculiaridade religiosa e da forma que a religião tem
tomado nestes, sem fazer referência a dito momento. Podeis, portan­
to, imaginar-vos quanto mais sagrado deve ser-lhes todavia o mo­
mento em que esta intuição infinita tem sido erigida em geral, pela
primeira vez, no mundo, como fundamento e centro de uma religião
propriamente dita, posto que com este momento se conecta, assim
mesmo historicamente, todo o desenvolvimento desta religião atra­
vés de todas as gerações e indivíduos, e desde logo esta totalidade
religiosa e a formação religiosa de uma grande massa da humanida­
de constitui algo infinitamente maior que sua própria vida religiosa
e o pequeno fragmento desta religião que estes representam pessoal­
mente. Este fato (Faktum) o magnificam, portanto, e de todos os
modos, acumulam sobre ele todo o ornamento da arte religiosa, o
veneram como a ação milagrosa mais rica e benfeitora do altíssimo
e não falam nunca de sua religião, não expõem nunca um de seus
elemento sem situá-lo e apresentá-lo em conexão com este fato. Por­
tanto, se a constante menção do mesmo acompanha a todas as
expressões da religião e lhes confere uma coloração própria, nada é
mais natural que confundir este fato com a intuição fundamental da
própria religião; esta confusão tem induzido ao erro a quase todos e
tem revirado o ponto de vista de quase todas as religiões. Não
esqueçais, portanto, que a intuição fundamental de uma religião não
pode ser outra coisa que alguma intuição do Infinito no finito, algum
elemento geral da religião; porém que também poderia encontrar-se
em todas as outras, e de fato deveria encontrar-se se elas aspiram seu
pleno desenvolvimento; só que nelas não ocupa o lugar central. Vos
rogo que não considereis como religião tudo o que encontrais nos
heróis da religião ou nos documentos sagrados, e que não busqueis
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 161

ali o espírito diferenciador. Não me refiro com isto a nimiedades, tal


como facilmente poderíeis pensar, nem àquelas coisas que, a juízo
de todo o mundo, são completamente estranhas à religião, senão ao
que amiúde é confundido com ela. Recordai de que forma não deli­
berada tem sido confeccionados aqueles documentos, e que se tem
podido estimar como impossível separar destes tudo o que não fosse
religião; considerai como aqueles homens têm vivido no mundo
imersos em todo tipo de circunstâncias e que é impossível que em
cada palavra que tenham pronunciado possam dizer: isto não é reli­
gião, e, portanto, quando falam de prudência mundana e de moral,
ou antes de metafísica e de poesia, não penseis que isto haveria tam­
bém de ser introduzido à força na religião e que aí haveria de buscar-
se o que lhe caracteriza. A moral, ao menos só deve ser uma por
onde quer que for, e as religiões, que não devem ser por onde for as
mesmas, não podem distinguir-se segundo as variações da moral,
que, por conseguinte, sempre constituem algo que tem de ser deseja­
do na religião. Porém, sobretudo vos rogo que não vos deixeis indu­
zir a erro pelos dois princípios hostis que por onde for, e quase a
partir dos primeiros tempos, tem intentado deformar e encobrir o
espírito de toda religião. Por onde quer que esteja, tem havido muito
rapidamente indivíduos que têm querido circunscrever esse espírito
em dogmas particulares e excluir da religião o que nela todavia não
se havia conformado de acordo com este modo de proceder3, e tam­
bém tem havido outros que, bem seja por ódio à polêmica, ou antes
para tornar mais atrativa a religião aos irreligiosos, ou por incom­
preensão ou desconhecimento da coisa e por falta de sentido, desqua­
lificam tudo o que tem um caráter próprio, considerando-o como
letra morta, para voltar-se em direção ao indeterminado. Guardai-
vos de ambos: na rigidez dos sistemáticos, na banalidade dos indi­
ferentes não encontrareis o espírito de nenhuma religião, senão
naqueles que vivem nela como em seu elemento e que sempre se­
guem movendo-se nela, sem abrigar a ilusão de poder abarcá-la
totalmente.

3 A terceira edição é mais explícita ao dizer de uma forma mais precisa “de acordo com
estes” (dogmas).
162 Editora Novo Século Ltda

Acertareis com estas medidas de precaução em descobrir o


espírito das religiões? Não o sei; porém temo que também a religião
só possa ser compreendida mediante si mesma e que sua estrutura
especial e seu caráter distintivo não vos sejam claros até que vós
mesmos pertençais a alguma delas. O modo como acertais em deci­
frar as religiões toscas e incultas de povos remotos ou a diferenciar
as múltiplas individualidades religiosas que têm tomado forma na
bela mitologia dos gregos e romanos, é algo que me deixa muito
indiferente: que seus deuses vos sirvam de guia; porém se vos aproxi-
mardes do Santo dos Santos, no qual o Universo é intuído em sua
suprema unidade, se quereis considerar as diferentes configurações
da religião sistemática, não as distantes e estranhas, senão as que em
maior ou menor medida se encontram todavia entre nós, então não
me pode ser indiferente se encontrais a perspectiva adequada a par­
tir da que deveis considerá-las.
Para dizer a verdade, eu deveria falar tão só de uma: pois o
judaísmo já é, desde há muito tempo, uma religião morta, e os que
atualmente levam, todavia, suas cores propriamente não fazem mais
que sentar-se, gemendo, junto à múmia incorruptível e choram sua
morte e o triste desamparo que tem deixado. Tão pouco falo dele em
atenção ao fato de que fosse o precursor do cristianismo: detesto na
religião estes tipos de conexões históricas (historische)\ sua neces­
sidade é muito mais elevada e tema, e todo começo nela possui um
caráter originário: porém o judaísmo possui um caráter infantil tão
belo, e este se encontra tão completamente encoberto e o conjunto
supõe um exemplo tão destacado de corrupção e de desaparição
total da religião do seio de uma grande massa, na que se encontrava
em outro tempo4. Eliminai de uma vez todos os elementos políticos
e, se Deus quiser, todos os morais, mediante os quais o judaísmo
costuma ser comumente caracterizado; esqueçais todos os intentos
de vincular o Estado à religião, para não dizer às igrejas; esqueçam
que o judaísmo de certo modo era por sua vez uma Ordem, fundado
sobre uma antiga história familiar, mantida em pé pelos sacerdotes;
limitai-vos ao que há de propriamente religioso nele, em cujo âmbi­

4 A frase fica em suspenso. Por isto a Segunda edição lhe acrescenta o complemento espe­
rado: “que bem vale a pena dedicar algumas palavras a este tema” .
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 163

to não pertencem os lamentos a que acabamos de nos referir, e deci­


dam-me: qual é a idéia do Universo que resplandece por onde quer
que for? Nenhuma outra que a de uma imediata retribuição geral, de
uma reação peculiar do Infinito ante toda realidade finita particular,
que procede do livre arbítrio, mediante outra realidade finita, que
não tem de ser considerada como procedente de dito livre arbítrio.
Assim é considerado tudo, o nascer e o perecer, a sorte e a desventu­
ra; até no seio da alma humana não se dá outra alternância que a de
uma expressão da liberdade e da vontade autônoma e a de uma inter­
venção imediata da Divindade; todos os outros atributos de Deus,
que também são intuídos, se manifestam de acordo com esta regra e
são considerados sempre em relação com ela: recompensando, pe­
nalizando, castigando o particular no particular, assim é representa­
da constantemente a Divindade. Quando os discípulos perguntaram
uma vez a Cristo: “Quem tem pecado, estes ou seus pais?”5, Ele lhes
respondeu: “Pensais que estes têm pecado mais que outros?”, a per­
gunta expressava o espírito religioso do judaísmo em sua forma mais
radical e a resposta de Cristo constituía sua polêmica contra dita
concepção. Daí o paralelismo que se prolonga por onde for, que não
é nenhuma forma contigente, e a aparência de diálogo, que se en­
contra em todo o religioso. Da mesma maneira que toda a história é
uma alternância contínua deste estímulo e esta reação, é representa­
da também como um diálogo entre Deus e os homens, através da
palavra e da ação, e tudo o que ali está unido o está tão só por causa
da igualdade neste tratamento. Daí o caráter sagrado da tradição, em
cujo seio se encontrará a concatenação deste grande diálogo e a im­
possibilidade de anuir à religião a não ser mediante a iniciação nesta
concatenação; daí a disputa desatada, todavia em épocas tardias, entre
as seitas acerca de se estavam de posse deste diálogo progressivo.
Precisamente deste ponto de vista se deriva o fato de que na religião
judaica o dom de profecia se tenha desenvolvido tão perfeitamente
como em nenhuma outra; pois, no que se refere ao profetizar, os
cristãos não são mais que bebês, comparados com ela. Toda esta
concepção, com efeito, é sumamente infantil, concebida tão só para
um pequeno cenário, carente de complicações, onde no seio de uma

5 João 9.2.
164 Editora Novo Século Ltda

totalidade simples as conseqüências naturais das ações não são


obstaculizadas nem impedidas: porém, à medida que os adeptos des­
ta religião se difundiram mais amplamente sobre o cenário do mun­
do, relacionando-se com vários povos, foi se tornando mais difícil a
realização desta idéia, e a palavra que o Onipotente queria pronunci­
ar antes de um acontecimento, a fantasia a devia antecipar, pondo
ante à vista, desde uma grande distância, a segunda parte do mesmo
acontecimento, suprimindo o tempo e o espaço intermediários. Nis­
to consiste uma profecia, e a aspiração profética haveria de consti­
tuir necessariamente uma manifestação fundamental durante o tempo
em que fora possível manter em pé aquela idéia e, junto com ela, a
religião. A fé no messias constituiu seu último fruto, conseguido
com grande esforço: devia vir um novo mandatário restaurar em sua
magnificência a Sião, na que havia emudecido a voz do Senhor, e
mediante o submetimento dos povos à antiga lei deveria fazer-se de
novo geral nos acontecimentos do mundo aquele simples curso das
coisas6, que havia sido interrompido por suas hostilidades recípro­
cas, pelo antagonismo de suas forças e a diversidade de seus costu­
mes.
Esta forma religiosa se tem mantido por muito tempo, tal como
_ocorre amiúde com um fruto isolado que, uma vez desaparecida do
tronco toda força vital, permanece dependurado, até a chegada da
época mais cruel do ano, de um ramo murcho e se resseca nela. Tal
ponto de vista limitado garantiu a esta religião, enquanto religião,
uma curta duração. Ela morreu quando os seus livros sagrados
foram fechados. Então se considerou como concluído o diálogo de
Javé com seu povo; a organização política, que ia vinculada com
ela, arrastou todavia por um tempo uma existência lânguida, e sua
aparência externa se tem mantido em pé até muito mais tarde, a mani­
festação desagradável de um movimento mecânico, depois de que a
vida e o espírito se haviam retirado há muito tempo.
A intuição originária do cristianismo é mais grandiosa, mais
sublime, mais digna de uma humanidade adulta, penetra mais pro­
fundamente no espírito da religião sistemática, se difunde mais am­
plamente por todo o Universo. Esta intuição não é outra que a da

# A terceira edição precisa que se trata da época dos patriarcas.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 165

oposição geral de todo o finito à unidade do Todo, e do modo como


a Divindade trata esta oposição, de como ela concilia a hostilidade
em direção a si e põe limites ao distanciamento crescente dissemina­
do através do Todo uma série de pontos que pertencem por sua vez
ao finito e ao Infinito, ao humano e ao divino. A corrupção e a
redenção, a hostilidade e a mediação constituem os dois aspectos
indissoluvelmente unidos desta intuição, e estes determinam a con­
figuração de toda a matéria religiosa no cristianismo e toda sua for­
ma. O mundo físico se tem desviado de sua perfeição e de sua beleza
imarscecível, com passos cada vez mais firmes; porém todo mal, até
aquele sob o qual o finito deva perecer antes de haver percorrido
completamente o círculo de sua existência, é uma conseqüência da
vontade, da tendência egoísta da natureza individual que se separa
por onde for da conexão com o Todo, com a finalidade de ser algo
para si; também a morte tem vindo em conseqüência do pecado.
O mundo moral, indo de mal a pior, é incapaz de produzir, no qual
viva realmente, o espírito do Universo; o entendimento se tem
obnubilado e se tem desviado da verdade; o coração está corrompi­
do, e carecendo totalmente da marca da glória de Deus, a imagem do
Infinito se tem esfumado por todas as partes da natureza finita. Em
relação a isto é também considerada a Providência divina em todas
as suas manifestações: não se dirige em seu fazer às conseqüências
imediatas para a sensibilidade; não presta atenção à felicidade ou à
dor que ela produz; já não impede ou fomenta ações individuais,
senão que só atende para impedir em grande escala a corrupção, em
destruir sem compaixão aquilo cujo curso já não se pode corrigir e
conceber, a partir de si, novas criações dotadas de novas forças:
assim ela realiza sinais e milagres que interrompem e abalam o cur­
so das coisas; assim manda emissários nos quais habita mais ou menos
segundo seu próprio espírito, para difundir forças divinas entre os
homens. Deste modo é representado também o mundo religioso.
Também enquanto quer intuir o Universo, o finito intenta sair-lhe ao
encontro, busca sempre sem encontrar, e perde o que tem encontra­
do, sempre unilateral, sempre vacilante, detendo-se sempre no parti­
cular e contingente e querendo sempre todavia ir mais além da
intuição, perde de vista a meta de suas visões. Inútil se toma toda
revelação. Tudo é devorado pelo sentido do terreno, tudo é arrastado
166 Editora Novo Século Ltda

pelo princípio irreligioso imanente; e a Divindade toma sempre


novas disposições; surgem revelações cada vez mais grandiosas, em
virtude unicamente de sua força, do seio das antigas; coloca media­
dores cada vez mais sublimes entre ela e os homens; une cada vez
mais intimamente a Divindade à humanidade, em cada enviado pos­
terior, para que mediante estes e a partir destes os homens possam
aprender a conhecer o Ser eterno, e, todavia, nunca se põe fim a
velha queixa de que o homem não percebe o que provém do Espírito
de Deus. Este fato, a saber, que o cristianismo em sua intuição fun­
damental mais peculiar contemple, sobretudo e de forma preferen­
cial, o Universo no marco da religião e de sua história, que ele elabore
a própria religião como matéria para a religião, sendo deste modo,
por assim dizê-lo, a religião em uma potência superior, tenho aqui o
que constitui o elemento mais diferenciador de seu caráter, o que
determina toda sua forma. Precisamente porque ele supõe um prin­
cípio irreligioso difundido por onde quer que for, precisamente por­
que isto constitui uma parte essencial da intuição à que está referido
todo o demais, o cristianismo é de índole totalmente polêmica. Ele é
polêmico em sua forma de comunicar-se para fora, pois para escla­
recer sua natureza mais íntima deve pôr de manifesto por onde quer
que for toda corrupção, residindo nos costumes ou na forma de pen­
sar, porém ante tudo isto tem de pôr de manifesto o princípio
irreligioso em si mesmo. Sem receio desmascara, por conseguinte,
toda falsa moral, toda religião inautêntica, toda mescla desafortuna­
da de ambas com a que se haveria de cobrir sua dupla nudez; penetra
nos segredos mais íntimos do coração corrompido e ilumina com a
tocha sagrada da própria experiência todo mal solapado na obscuri­
dade. Assim destruiu - e isto constitui quase sua primeira iniciativa
- a última expectativa de seus irmãos e contemporâneos mais próxi­
mos e declarou irreligioso e ímpio desejar ou esperar outra restaura­
ção que a tendente a uma religião melhor, a uma visão superior das
coisas e a vida eterna em Deus. Audasmente faz com que os pagãos
franqueiem a separação que estes haviam estabelecido entre a vida e
o mundo dos deuses e os dos homens . Para quem não vive, se move
e é no eterno, para esse tal ele é completamente desconhecido; no
sentido limitado de quem, sob a multidão de impressões e de desejos
sensíveis, tem perdido este sentimento natural, esta intuição interna,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 167

todavia não tem penetrado religião alguma. Assim, estes7 abriram


violentamente por onde quer que fossem os sepulcros caiados8e trou­
xeram à luz a ossatura dos mortos e, se tivessem sido filósofos estes
primeiros heróis do cristianismo, teriam polemizado assim mesmo
contra a degeneração da filosofia. Certamente em nenhuma parte
desconheceram os elementos fundamentais da imagem divina, em
todas as deformações e degenerações viram certamente o gérmen
celeste da religião; porém, enquanto cristãos, o problema fundamental
para estes era o distanciamento do Universo, distanciamento que fez
necessário um mediador, e sempre que anunciavam o cristianismo
se referiam unicamente a esta questão. Porém o cristianismo é tam­
bém de caráter polêmico, e não de forma menos aguda e brusca,
dentro de suas próprias fronteiras e em sua mais íntima comunidade
dos santos. Em nenhuma parte tem sido idealizada a religião de uma
forma tão perfeita como no cristianismo, e isto por seu próprio deli-
neamento originário; e precisamente, junto com isto, a polêmica cons­
tante contra todo elemento real na religião se apresenta como uma
tarefa à qual não se pode dar plena satisfação. Precisamente porque
o princípio irreligioso existe e atua por onde for, e porque todo o
restante aparece por sua vez, como profano, a meta do cristianismo é
uma santidade infinita. Não contente com o conquistado, busca to­
davia, até em suas intuições mais puras, até em seus sentimentos
mais sagrados, as marcas do irreligioso e da tendência de todo finito
a opor-se ao Universo e a desviar-se dele. No tom da mais elevada
inspiração, um dos mais antigos escritores sagrados9 critica a situa­
ção religiosa das comunidades; com ingênua franqueza falam de si
mesmos os grandes Apóstolos, e deste modo devem entrar todos
estes no círculo sagrado, não só inspirados e ensinando, como tam­
bém apresentando humildemente sua própria contribuição ao exame
geral, e nada tem de ser subtraído a este exame, nem sequer o mais
querido e apreciado, nada deve ser posto negligentemente de lado,
nem sequer o que goza de um reconhecimento universal. O que des­
de o ponto de vista exotérico é considerado como santo e apresenta­

7 Na terceira edição, em vez de “estes”, se diz com maior precisão “seus arautos”.
8 Cf. Mateus 23.27.
9 Provável referência à São Paulo.
168 Editora Novo Século Ltda

do ante o mundo como a essência da religião, sempre está submetido


ainda, desde uma perspectiva esotérica, a um julgamento rigoroso e
reiterado para que cada vez mais sejam eliminadas as impurezas e
para que o brilho das cores celestes sempre resplandeça mais puro
em todas as intuições do Infinito. Assim como vedes na natureza
que uma massa composta, quando tem dirigido suas forças químicas
contra algo externo a ela, tão logo como esta intuição tem sido supe­
rada ou se tem estabelecido o equilíbrio, entra em si mesma, em um
processo de fermentação, e elimina de si isto ou aquilo: assim ocorre
com elementos particulares e com massas inteiras do cristianismo;
termina por dirigir sua força polêmica contra si mesmo; sempre te­
meroso de haver absorvido algum elemento estranho na luta contra a
irreligião externa ou até de possuir em si, todavia, um princípio de
corrupção, não evita sequer os movimentos internos mais violentos,
com vistas a eliminá-los. Tal é a história do cristianismo fundada em
sua essência. Não vim trazer a paz senão a espada, disse seu funda­
dor10, é impossível que sua alma aprazível possa ter pensado que Ele
tivesse vindo para desencadear aqueles movimentos sangrentos, que
são tão sumamente contrários ao espírito da religião, ou aquelas
miseráveis disputas sobre palavras, relativas à matéria morta que a
religião viva recusa: Ele só tem previsto, e na medida em que a tem
previsto a tem ordenado, estas guerras santas que surgem necessari­
amente de sua doutrina. Porém não só a índole dos elementos parti­
culares do cristianismo está submetida a esta supervisão constante;
a insaciabilidade religiosa também afeta à existência e à vida ininter-
rompida destas no espírito. Em todo momento no qual o princípio
religioso não pode ser percebido no âmago, se pensa que o irreligioso
é dominante; pois o que existe só pode ser suprimido e reduzido a
nada por seu oposto. Toda interrupção da religião é irreligião; o
espírito não pode sentir-se despojado por um instante das intuições
e sentimentos do Universo, sem tomar cons-ciência por sua vez da
hostilidade e do afastamento dele. Assim, o cristianismo tem deline­
ado, pela primeira vez e de uma forma essencial, a exigência de que
a religiosidade tem de constituir uma continuidade no homem, e
recusa dar-se por satisfeito com as expressões mais vigorosas da

10 Cf. Mateus 10.34.


Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 169

mesma, tão logo como essa religiosidade se limita a pertencer e a


dominar tão só certas partes da vida. Ela nunca deve encontrar-se em
repouso e não deve opor-se-lhe de um modo tão absoluto que não
possa conciliar-se com ela; desde qualquer realidade finita devemos
nos abrir à contemplação do Infinito; devemos estar em condições de
associar sentimentos e visões religiosas em todas as sensações do
âmago, de onde quer que tenham surgido, em todas as ações, sejam
quais forem os objetos aos quais possam referir-se. Tal é a meta supre­
ma, propriamente dita, do virtuosismo no seio do cristianismo.
Podeis comprovar facilmente como a intuição original do cris­
tianismo, da que se derivam todos estes pontos de vista, determina o
caráter de seus sentimentos. Como denominais o sentimento de um
desejo insatisfeito, que versa sobre um grande objeto e de cuja
infinitude vós sois conscientes? Que vos impressiona ali onde
encontrais mesclados da forma mais íntima o sagrado e o profano, o
sublime e o irrelevante e nulo? E como denominais o estado de espí­
rito que vos força por onde quer que for às vezes a pressupor esta
mescla e a indagá-la? Este estado de espírito não impressiona espo­
radicamente os cristãos, senão que constitui o tom dominante de
todos seus sentimentos religiosos; esta sagrada melancolia - pois é o
único nome que me oferece a linguagem - acompanha toda alegria e
toda dor, todo amor e todo temor; até, tanto em seu orgulho como em
sua humildade, ela constitui o tom fundamental, ao que se refere
tudo. Se acertais em reproduzir, a partir de características particula­
res, o interior de um espírito e de não deixar-vos perturbar por ele­
mentos estranhos que se encontram mesclados com elas, vindos sabe
Deus de onde, então constatareis que esta sensação é completamen­
te dominante no fundador do cristianismo; se um escritor que só
tenha deixado umas poucas páginas escritas em uma linguagem sim­
ples não é considerado por vós demasiado irrelevante como para
dirigir a ele vossa atenção, então esse tom não deixará de interpelar-
vos a partir de cada palavra que não permaneça de seu amigo íntimo;
e se alguma vez um cristão vos tem deixado contemplar o mais
sagrado de sua alma, tem sido este certamente".

" Recorde-se a relevância do Evangelho de São João para Schleiermacher e para toda sua
época em geral.
170 Editora Novo Século Ltda

Assim é o cristianismo. Não encobrir suas deformações e suas


múltiplas corrupções, posto que a corruptibilidade de todo santo,
tão logo se faça humano, constitui uma parte de sua visão originária
do mundo. Tão pouco quero fazer-vos penetrar ulteriormente em
seus aspectos concretos; suas realizações se encontram ante vós, e
creio haver-vos proporcionado o fio que vos conduzirá através de
todas as anomalias e, sem preocupar-vos pelo desenlace, vos facili­
tará a visão de conjunto mais exata possível. Só é preciso que o
mantenhais firme e que desde o começo não presteis atenção senão à
transparência, à diversidade e à riqueza com que se tem desenvolvi­
do aquela primeira idéia fundamental. Quando considero, nos rela­
tos truncados de sua vida, a imagem sagrada daquele que é o sublime
autor do mais grandioso que existe até agora na religião, o que
admiro não é a pureza de sua doutrina moral, que só expressou o que
todos os homens que têm tomado consciência de sua natureza espi­
ritual têm em comum com Ele e para a qual não pode conceder um
maior valor nem o haver dado expressão a dita doutrina nem o fato
de ter sido o primeiro a fazê-lo; não admiro a índole peculiar de seu
caráter, o emparelhamento íntimo de uma força superior com uma
doçura entemecedora - toda alma simples, de uma forma sublime,
deve, em uma situação especial, manifestar elementos determinados
de um grande caráter -; tudo isto não são mais que coisas humanas:
porém o verdadeiramente divino é a grandiosa claridade que tem
chegado a alcançar em sua alma a grande idéia que Ele veio a
expressar, a idéia de que todo o infinito necessita de mediações
superiores, para estar unido com a Divindade. É temeridade vã que­
rer apartar o véu que oculta, e deve ocultar, o surgimento desta idéia
nEle, dado que todo começo na religião é misterioso. A frivolidade
impertinente, que tem ousado fazê-lo, só tem sido capaz de desfigu­
rar o divino como se Cristo houvesse partido da antiga idéia de seu
povo, quando na realidade não quis senão sua destruição, e de fato a
tem anunciado de uma forma sumamente gloriosa, enquanto tem afir­
mado ser aquele que estes esperavam. Consideremos somente a
intuição viva do Universo, que enchia toda sua alma, tal como a
encontramos nEle, levada à sua perfeição. Se todo o finito necessita
da mediação de uma realidade superior, para não distanciar-se cada
vez mais do Universo e disseminar-se na vacuidade e na nulidade,
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 171

para manter sua vinculação com o Universo e chegar a tomar consci­


ência da mesma, então o elemento mediador, que não necessita ele
mesmo, por sua vez, de mediação, não pode ser de modo algum
meramente finito; esse elemento deve pertencer a ambos os âmbi­
tos, deve participar também da natureza divina e no mesmo sentido
em que participa da finita. Porém que viu em tomo de si senão o
finito e o necessitado de mediação e onde havia algum princípio
mediador senão nEle? Ninguém conhece ao Pai senão o Filho e aquele
a quem Ele quer revelá-lo12. Esta consciência do caráter único de
sua religiosidade, da originalidade de sua concepção, e da força que
esta possuía para comunicar-se e suscitar a religião, era por sua vez
a consciência de sua função mediadora e de sua Divindade. Não
quero me referir a quanto Ele encontrou-se confrontado à rude
violência de seus inimigos, sem esperança de poder viver por mais
tempo - isto é indizivelmente pouco -, senão em quando a Ele, aban­
donado, na circunstância de emudecer para sempre, sem ver organi­
zada realmente nenhuma instituição relativa à comunidade dos seus,
em contraste com a solene magnificência da antiga religião corrom­
pida, que aparecia forte e vigorosa, rodeada de tudo o que infundia
veneração e pode exigir submissão, de tudo o que a Ele mesmo se
lhe havia ensinado a venerar desde a infância, em quando ele, sem
nenhum outro apoio que este sentimento, e sem dilações, pronun­
ciou aquele Sim, a maior palavra que jamais havia pronunciado um
mortal13; isto constituiu a apoteose mais grandiosa, e de nenhuma
Divindade podemos estar mais seguros que da que se afirma assim a
si mesma. Com esta fé em si mesmo, quem pode admirar-se de que
Ele estivera seguro não só de ser o mediador para muitos, senão
também de deixar atrás de si uma grande escola que derivaria sua
religião, de iguais características, das que Ele professou; tão seguro
que estabeleceu símbolos para ela, antes de que esta existisse, com a
convicção de que isto seria suficiente para fazê-la existir, e que Ele
já com anterioridade falou, com um entusiasmo profético, da imor-
talização dos fatos memoráveis de sua vida no seio dessa religião.
Porém nunca afirmou que Ele constituísse o único objeto da aplica­

l! Cf. Mateus 11.27; Lucas 10.22.


13 Cf. Mateus 26.63 ss.; Marcos 14. 61 ss.; Lucas 22.70.
172 Editora Novo Século Ltda

ção de sua idéia, que Ele fosse o único mediador, e nunca confundiu
sua escola com sua religião - por mais que tenha podido tolerar que
se deixasse em suspenso sua dignidade de mediador, com tanto que
não se profanasse o espírito, o princípio a partir do qual se desenvol­
veu sua religião nEle e em outros - , e também seus discípulos esti­
veram distantes desta confusão. Consideraram sem discussão como
cristãos e os aceitaram entre os membros ativos da comunidade dos
discípulos de João14, quem, todavia, só muito imperfeitamente com­
partilhava a intuição fundamental de Cristo. E todavia agora deverá
ser assim: quem põe esta mesma intuição como base de sua religião
é um cristão, sem que se leve em consideração a escola, ou faça
derivar historicamente (historisch) sua religião de si mesmo ou
antes de qualquer outro. Cristo nunca considerou as intuições e sen­
timentos, que Ele mesmo podia comunicar, como a plenitude
do conteúdo da religião que haveria de surgir de sua intuição fun­
damental; sempre se remeteu à verdade que viria depois dEle.
Assim atuaram também seus discípulos; não puseram fronteiras ao
Espírito Santo, reconheceram por onde for sua liberdade ilimitada e
a unidade geral de suas revelações, e se mais tarde, quando a primei­
ra época de seu esplendor havia passado e Ele parecia descansar de
suas obras, estas obras, na medida em que estavam relatadas nas
Escrituras, foram proclamadas indevidamente como um código
# fechado da religião, isto não ocorre senão em parte daqueles que
confundiram o sono do espírito com sua morte, para quem a religião
mesma estava morta; e todos os que todavia sentiam em si Sua vida
ou a percebiam em outros, sempre se declararam contra este modo
de proceder, oposto ao espírito do cristianismo. As sagradas Escritu­
ras se converteram em Bíblia por virtude própria, porém não impe­
dem que nenhum outro livro seja ou se converta também em Bíblia,
e aceitariam prazerosamente que se lhes agregasse aquilo que tenha
sido escrito com a mesma força. De acordo com esta liberdade ilimi­
tada, de acordo com esta infinitude essencial, se tem desenvolvido,
pois, de múltiplas maneiras a idéia fundamental do cristianismo acer­
ca das forças divinas mediadoras, e todas as intuições e sentimentos
referentes às coabitações (Einwohnungen) da natureza divina na finita

14 João Batista.
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 173

têm alcançado sua perfeição no seio do mesmo. Deste modo, as sa­


gradas Escrituras, nas que também se instala de uma forma própria a
natureza divina, foram consideradas rapidamente como um media­
dor lógico para a transmissão do conhecimento da Divindade à natu­
reza finita e corrompida do entendimento, e o Espírito Santo - em
uma acepção ulterior do termo - foi considerado como um mediador
ético para aproximar-se à Divindade de um modo prático; e um
numeroso partido dos cristãos declara de bom grado, todavia agora,
como um ser mediador a todo aquele que possa mostrar mediante
uma vida divina ou mediante qualquer outra impressão da Divinda­
de haver sido, ainda quando não fosse mais que para um pequeno
círculo, o ponto de referência com o Infinito. Para outros, Cristo tem
permanecido o único e o todo, e outros têm declarado como seus
mediadores: a si mesmos, isto, ou aquilo. Seja qual for a freqüência
com que em tudo isto se tenha feito um uso inadequado da forma e
da matéria, o princípio é autenticamente cristão enquanto seja livre.
Assim, se tem manifestado outras intuições e sentimentos, relativos
ao centro do cristianismo, acerca dos quais nada se encontram em
Cristo nem, nos livros sagrados, e outros vários se manifestarão no
que se sucede, dado que grandes zonas da religião, todavia, não têm
sido condicionadas para o cristianismo, e dado que este terá uma
longa história, apesar de tudo o que se diz acerca de seu fim próximo
ou já consumado.
Como haveria de desaparecer também ele? Seu espírito vivo
dormita amiúde e durante muito tempo, e se reclui em um estado de
intumescimento no invólucro morto da letra: porém se desvela sem­
pre de novo cada vez que o clima variável do mundo espiritual é
propício para sua reanimação e põe em movimento sua seiva, e isto
ocorrerá todavia amiúde. A intuição fundamental de toda religião
positiva é em si eterna, dado que ela constitui uma parte comple­
mentar do Todo infinito, no qual tudo deve ser eterno: porém ela
mesma e todo seu processo formativo são caducos; pois, para ver
aquela intuição fundamental precisamente no centro da religião, se
requer não só uma determinada direção do espírito, senão também
uma situação determinada da humanidade, só sob a qual o Universo
pode ser contemplado, até agora, de uma forma adequada. Quando
esta tenha percorrido seu círculo, quando a humanidade tenha avan­
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çado tanto em sua trajetória ascendente que já não possa retroceder:


então também aquela intuição será despossuida de sua dignidade
como intuição fundamental, e a religião não poderá seguir existindo
sob esta forma. E no que se refere a todas as religiões infantis daque­
la época na qual a humanidade não tinha consciência de suas forças
essenciais, isso é o que tem ocorrido faz tempo: tem chegado o mo­
mento de colecioná-las como monumentos do mundo primitivo e de
consigná-las nos periódicos da história; sua vida tem passado e não
retoma jamais. O cristianismo, que se eleva acima de todas elas e
que adota um caráter mais histórico e mais humilde em sua grandiosi­
dade, tem reconhecido expressamente esta condição caduca de sua
natureza: virá um tempo, disse, no qual não se falará mais de
nenhum mediador, senão que o Pai será tudo em todos15. Porém,
quando chegará esse momento? Temo que se encontre fora de todo
tempo. A corruptibilidade, nas coisas humanas e finitas, de todo o
grande e divino constitui a primeira metade da intuição originária do
cristianismo; deveria realmente chegar um tempo, em que esta
corruptibilidade não quero dizer que não fosse em absoluto percebi­
da, senão tão só no que ela já não fosse um fato chamativo? No que
a humanidade progredirá de forma tão uniforme e aprazível que ape­
nas se perceberá como ela, às vezes, pela ação de um vento desfavo­
rável de caráter passageiro, é um pouco rechaçada para trás, para o
grande oceano que ela atravessa, de modo que só o expert que calcu­
la seu curso contemplando os astros poderia conhecer esta circuns­
tância, enquanto que para o resto dos mortais não constituiria o objeto
de uma grande e relevante intuição? Eu o desejaria, e prazerosamente
me assentaria sobre as ruínas da religião que venero. Que certos
pontos brilhantes e divinos constituem a sede originária de todo
melhoramento desta corrupção e de toda nova e mais imediata união
do finito com a Divindade, constitui a outra metade: E haveria de
chegar alguma vez um tempo no qual esta força atrativa do Universo
se encontrasse tão igualmente repartida entre a grande massa da hu­
manidade que ela cessasse de ter caráter mediador para essa massa?
Eu o desejaria e prazerosamente ajudaria a aplanar toda proeminên-
cia que sobressalta: porém esta igualdade tem certamente menos

IS ICoríntios 15.28.
Sobre a Religião - F. D. E. Schleiermacher 175

possibilidades de realizar-se que qualquer outra. Épocas de corrupção


ameaça a todo o terreno, ainda quando fosse de origem divina; serão
necessários novos mensageiros divinos para atrair sobre si, com for­
ças renovadas, o que tenha sofrido um retrocesso e para purificar
com fogo sagrado o corrupto, e cada uma de tais épocas da humani­
dade constituirá a palingenesia do cristianismo e despertará seu
espírito sob uma forma nova e mais bela.
Agora pois, se sempre haverá cristãos, deverá, por isto, o cris­
tianismo mostrar-se também infinito em sua difusão universal e im­
perar ele sozinho na humanidade como a única forma de religião?
Ele recusa este despotismo, respeita suficientemente a cada um de
seus próprios elementos como para considerá-los também prazerosa­
mente como o ponto central de uma totalidade com uma natureza
própria; ele não quer gerar, tão só em si mesmo, uma diversidade
que proceda até o Infinito, senão que quer intuí-la também fora de
si. Não esquecendo nunca que possui a melhor prova de sua eterni­
dade em sua própria corruptibilidade, em sua própria triste história,
e à espera sempre de uma redenção da miséria, pela qual é certamen­
te oprimido, o compraz ver surgir fora desta corrupção outras
formas distintas, mais jovens, da religião, justamente a seu lado,
desde todos os pontos, até daquelas regiões que lhe parecem ser os
limites mais extremos e incertos da religião em geral. A religião das
religiões não pode acumular matéria suficiente para a dimensão mais
apropriada de sua intuição mais íntima e, assim como não há nada
mais irreligioso que exigir uniformidade na humanidade em geral,
assim tão pouco nada há menos cristão que buscar uniformidade na
religião.
Que o Universo seja intuído e venerado de todos os modos.
São possíveis inumeráveis formas de religião e se é necessário que
uma delas se faça real em alguma época determinada, seria desejá­
vel ao menos que muitas delas pudessem ser previstas em todo tem­
po. Hão de ser raros os grandes momentos nos quais tudo convirja
para assegurar a uma delas uma vida amplamente difundida e dura­
doura, onde a mesma visão se desenvolve em muitos de forma
simultânea e irresistível, e estes fiquem penetrados pela mesma im­
pressão do divino. Porém que não cabe esperar de uma época que é
de uma forma tão manifesta a fronteira entre as ordens de coisas
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distintas! Só se a profunda crise tem passado, pode ela também de­


sencadear um tal momento, e uma alma premonitória, dirigida em
direção ao gênio criador, poderia indicar, já agora, o ponto que deve
converter-se para as futuras gerações no centro da intuição do Uni­
verso. Porém seja como for, e por muito que se demore todavia um
tal instante, devem surgir, e rápido, novas formas religiosas, ainda
quando durante um longo tempo só possam ser percebidas através
de manifestações isoladas e efêmeras. Do nada surge sempre uma
nova criação e nada é a religião em quase todos os homens da época
atual, enquanto que sua vida espiritual se mostra florescente em sua
força e plenitude. Ela se desenvolverá em muitos por impulso de
uma das inumeráveis incitações e assumirá uma nova forma sobre
um solo novo. Só cabe desejar que o tempo do retraimento e da
timidez tenha passado. A religião detesta a solidão e, sobretudo em
sua juventude, que é para tudo a hora do amor, se consome em uma
nostalgia exaustiva. Se ela se desenvolve em vós, se perceberdes os
primeiros indícios de sua vida, ingressai imediatamente na comuni­
dade una e indivisível dos santos, que admite todas as religiões e
que é a única na que todas podem se desenvolver. Pensais que, dado
que esta se encontra dispersa e distante, também deveríeis falar en­
tão a ouvidos profanos? Perguntais que linguagem é suficientemen­
te secreta: O discurso, a escritura, a ação, a mímica silenciosa do
espírito? Todas, respondo, e vedes que não tenho evitado a mais
sonora. Em todas estas permanece secreto aos profanos o sagrado e
oculto. Deixai a estes corroerem a crosta, como quiserem; porém
não nos denegueis adorar ao Deus que morará em vós.
Sobre a Religião
Friedrich D. F. Schleiermacher
Friedrich Schleiermacher foi o mais importante teólogo
do Século 19. Na tentativa de combater o pensamento anti-
religioso do Iluminismo, ele escreveu esta defesa da
religiosidade, e a partir dos pressupostos aqui estabelecidos
construiria mais tarde a sua teologia, presente no ainda inédito
em português A Fé Cristã. Schleiermacher é chamado de
muitas coisas, por exemplo, pai da hermenêutica moderna, pai
do liberalismo, campeão da teologia romântica, restaurador da
fé cristã, inimigo da ortodoxia. Esta figura polêmica é odiada e
amada, mas não pode ser ignorada. Este não é um livro fácil de
ler, mas o leitor será recompensado a cada página pela
profundidade daquilo que é dito e o constante convite que
Schleiermacher faz à mais profunda reflexão sobre o
sentimento religioso e a vida de fé.