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APRESENTAÇÃO
Ordem e desordem: arquitetura e vida social oferece um panorama de trabalhos realizados no
âmbito do nosso Grupo de Pesquisa Dimensões morfológicas do processo de urbanização,
registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil (CNPq) e sediado na Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília. Exceto eu, os autores são doutores formados
no nosso Programa de Pós-Graduação. Tive a felicidade de orientar suas teses entre os anos de 2006
e 2009 – fonte de alegria e enriquecimento pessoal. Os cinco últimos capítulos baseiam-se em suas
pesquisas doutorais. Exemplificam o amplo espectro das abordagens e das escalas – da metrópole
ao espaço doméstico – entretanto com o mesmo fio condutor: relações entre configuração dos
lugares e condições de vida.
Dos autores, Franciney França é graduada em matemática e Rômulo Ribeiro em geologia. Os
demais são arquitetos. A teoria da arquitetura tem muitos exemplos de como o conhecimento da
área recebe contribuições de egressos de outros campos disciplinares – cito os casos emblemáticos
de Evaldo Coutinho (1911-2007), pernambucano, bacharel em Direito, autor do seminal O espaço
da arquitetura (1970), e Bill Hillier (n. 1937), inglês, bacharel em Literatura, autor, com Julienne
Hanson, de The social logic of space (1984). Nosso livro ilustra, mais uma vez, como não arquitetos
podem ser “conquistados” para o estudo do espaço de nossa vida cotidiana – o espaço arquitetônico,
em todas as nuanças e escalas.
O primeiro capítulo foi escrito por mim em parceria com Valério Medeiros. Visitei Chandigarh, a
capital regional indiana, no início de 2011. Le Corbusier a projetou em 1950, Lucio Costa concebeu
Brasília em 1957. A literatura arquitetônica em geral acentua o parentesco entre as duas cidades. Há
semelhanças. Lucio Costa sempre reconheceu a influência de Le Corbusier, o grande inspirador do
Movimento Moderno em Arquitetura. Entretanto, os contrastes falam mais alto, compará-las foi
tentação irresistível. O capítulo explora o binômio ordem/desordem, mostra como ocorre
diferentemente na configuração das duas cidades.
No Capítulo 2, Valério Medeiros investiga a identidade morfológica da cidade brasileira. Ao
estudar comparativamente 164 cidades, confronta as do Brasil com as do resto do mundo. Para as
urbes estrangeiras utiliza dados de fontes diversas, inclusive a base de informações do Space Syntax
Laboratory, de Londres. Nas brasileiras, discute os centros históricos, seu papel nos núcleos
urbanos que explodiram demográfica e fisicamente no século XX no Brasil, os elementos que os
distinguem enquanto oásis de clareza em meio a cidades crescentemente confusas e fragmentadas.
No Capítulo 3, Sandra Soares de Mello pesquisa relações entre o estado de
conservação/deterioração das margens de rios que atravessam as cidades, a maneira como eles se
inserem fisicamente na urbe e os modos de apropriação das orlas pelas pessoas. É um trabalho na
interface entre urbanismo e meio ambiente. Discute um aparente paradoxo: as condições de
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urbanidade ao longo dos corpos d’água, assim entendendo a apropriação pública das margens,
resultam na identificação das pessoas com eles, na sua proteção e conservação – não na degradação.
No Capítulo 4, Rômulo José da Costa Ribeiro trata de índices de qualidade de vida urbana e
argumenta que, tradicionalmente, a dimensão morfológica das cidades está ausente deles. Ademais,
as análises são usualmente pontuais, sem que haja procedimentos para lidar com tantos e tão
variados aspectos de desempenho da cidade. Lidando com ferramentas de Sistemas de Informação
Geográfica e outras, ele reúne indicadores morfológicos a socioeconômicos e ambientais,
compondo um quadro mais rico e inusitado da realidade urbana do Distrito Federal, Brasil.
No Capítulo 5, Antonio Paulo de Hollanda Cavalcante parte de lacunas similares, focando a questão
da mobilidade e acessibilidade urbanas. Mostra como os modelos tradicionais de transportes focam
a demanda, quase nada a oferta. Argumenta que a configuração da cidade tem implicações diretas
na oferta de condições de circulação veicular. Estuda o caso dos congestionamentos de trânsito em
Fortaleza (CE) e propõe, além de variáveis morfológicas, outros índices que ajudam a compreender
as causas do fenômeno, e os cuidados a serem tomados no planejamento do tráfego e nos projetos
de urbanismo.
No sexto e último capítulo Franciney Carreiro de França estuda as transformações na configuração
dos apartamentos do Distrito Federal, Brasil. Estuda a evolução das plantas nas cinco décadas de
existência da cidade e discute as transformações operadas pelos moradores nas plantas originais. As
mudanças podem ser “indisciplinas leves” (mudanças de uso dos cômodos) ou “indisciplinas
pesadas” (remoção/adição de paredes, portas etc.). Interpreta as mudanças como adequações dos
domicílios a novos estilos de vida, que se refletem no espaço doméstico.
Os capítulos variam nas teorias utilizadas, nos métodos empregados e nas técnicas operacionais, a
depender do problema de pesquisa e das exigências correlatas. Contudo, há um elemento comum a
todos: o emprego da Teoria da Lógica Social do Espaço, ou Teoria da Sintaxe Espacial (SE), como
é mais conhecida. Meu campo de especialização, não surpreende que ele informe as teses
orientadas.
A SE foi fundada por Bill Hillier e colegas da então Bartlett School of Environment and Planning,
Universidade de Londres, nos anos 1970. Tornou-se influente linha de investigação difundida por

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inúmeros países, inclusive Brasil1. Fizemos revisões críticas da literatura noutras oportunidades2.
Segue um brevíssimo resumo na forma de tópicos.
 A teoria surge nos anos 1970 e integra a reflexão crítica sobre o modernismo e a reafirmação
da arquitetura como disciplina.
 A SE opera uma mudança paradigmática nos estudos sobre relações espaço x comportamento.
Antes, eram entendidas como relações entre fenômenos distintos: o espaço era considerado a-
social, e a sociedade, a-espacial, o que implicava paradoxos insuperáveis3. Para a teoria, a
arquitetura já nasce cheia de significados e implicações sociais, e a sociedade não existe no
éter, mas é, ela própria, um fenômeno espacial.
 A essência da arquitetura é espacial. A SE não lida com volumetria edilícia ou urbana, a não
ser enquanto definidora de espaço.
 A desconfiança na capacidade de a língua natural descrever configurações espaciais leva à
exploração de “técnicas não discursivas”. Hillier adota o aforismo de Galileu: “o mundo é
matemático”.
 Na busca do conhecimento objetivo, soma-se às técnicas não discursivas o questionamento
direto da realidade. Em tese, a SE não trabalha com depoimentos dos sujeitos envolvidos. Na
prática, a caracterização da “sociedade” em termos de sistemas de encontros e esquivanças,
fulcral à teoria, não prescinde do questionamento direto dos sujeitos (veremos isso em alguns
capítulos). A depender do problema de pesquisa, não basta registrá-los “objetivamente”,
estáticos nos lugares, ou em movimento através deles. Informação sobre quem está fazendo o
quê, com quem, onde, quando, durante quanto tempo e sobre os modos de as pessoas
avaliarem os lugares que frequentam, é pertinente a certos problemas de pesquisa no âmbito
da SE e não pode ser obtida por simples observação.
 A SE aborda sistemicamente seus objetos. O foco de atenção são características dos todos
estruturados, não de suas partes (ou, na gíria da teoria, características globais, não locais). Os
atributos dos elementos constituintes do sistema (vias de uma cidade, cômodos de uma casa)
existem como função da pertença ao todo.

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Simpósios internacionais bienais desde 1997 têm reunido os pesquisadores. No Brasil, eles se concentram nas
universidades UFC, UFRN, UFPB, UFPE, UnB, UFF, UFSC e UFRGS. Frederico de Holanda testemunhou o
surgimento da teoria por ocasião de sua pós-graduação em Londres, nos anos 1970. Ela foi empregada na sua
dissertação de mestrado e na sua tese de doutorado (esta publicada em Frederico de Holanda, O espaço de exceção),
ambas realizadas sob a supervisão de Bill Hillier. A teoria foi também empregada na tese de doutorado de Valério
Medeiros, orientada por Frederico de Holanda. Na elaboração do estudo, Medeiros fez um estágio doutoral em Londres
sob supervisão de Bill Hillier.
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Por exemplo: Frederico de Holanda: O espaço de exceção; Arquitetura e urbanidade; Brasília: cidade moderna,
cidade eterna; Valério Medeiros: Urbis Brasiliae, ou sobre cidades do Brasil: inserindo assentamentos urbanos do país
em investigações configuracionais comparativas.
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Bill Hillier e Adrian Leaman, The man-environment paradigm and its paradoxes.
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 Não há teoria “pau pra toda obra”, nenhuma pode tudo, todas têm potencialidades e
limitações. A SE não foge à regra. Um problema empírico (no mundo real) ainda não é um
problema de pesquisa4. Este pressupõe conceitos, método e técnicas, pressupõe um olhar
teórico (ou o concurso de olhares, mas não muitos!) que, por hipótese, possa iluminá-lo. Um
problema pode ser teoricamente limitado para ser tratável por uma só “caixa de ferramentas”
– como a da SE. Outros problemas exigem a contribuição de vários olhares. Ambas as coisas
têm ocorrido em nosso grupo de pesquisa e os capítulos deste livro são exemplos disto.
Bom proveito!
Frederico de Holanda
Brasília, 10 de julho de 2012.

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Julienne Hanson, Os dez mandamentos (para escrever textos acadêmicos).
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PREFÁCIO

Com a criação de curso de mestrado em Arquitetura em 1962, fechado sumariamente em 1965 após
o golpe militar, a Universidade de Brasília foi pioneira na pós-graduação em Arquitetura e
Urbanismo no Brasil. Certamente a euforia de inauguração da nova capital deve ter contaminado
positivamente esta experiência inicial a requerer, ainda hoje, uma devida contextualização histórica.
A posterior criação dos mestrados em Planejamento Urbano e em Desenho Urbano, já na década de
1980, em tempos marcados por extrema polarização, sinaliza a retomada dos estudos de pós-
graduação em Arquitetura e Urbanismo na instituição.

O curso de Mestrado em Desenho Urbano da UnB se caracterizou por uma proposta pedagógica
inovadora, que se expressava em uma grade curricular centrada no estudo das diversas implicações
sociais do espaço urbano e cometia a ousadia de ter, como epicentro, uma disciplina de atelier, onde
conteúdos teórico-metodológicos eram testados no estudo e na proposição urbanística. Este
ambiente acadêmico extremamente fecundo foi berço, também, dos diversos “Seminários de
Desenho Urbano”, que marcaram profundamente a discussão urbanística da época, reunindo em
Brasília ensaios profissionais e acadêmicos em desenvolvimento nos quatro cantos do país.

A experiência consolidada neste curso de pós-graduação foi possibilitada, em grande parte, pela
existência do grupo de pesquisa “Dimensões Morfológicas do Processo de Urbanização”, onde, até
os dias de hoje, têm se desenvolvido estudos e pesquisas acerca de diferentes aspectos da forma
urbana. Talvez uma das contribuições maiores da proposta esteja na possibilidade concreta de
organizar a reflexão científica no contexto da Arquitetura e do Urbanismo, área caracterizada por
extensa atividade prática, mas também por claras lacunas no que concerne a sua estruturação
enquanto campo do conhecimento. Articulando as contribuições de diferentes disciplinas, a matriz
conceitual organizadora do grupo tem permitido o aprofundamento em dimensões específicas do
espaço urbano e o cruzamento entre as diferentes leituras realizadas.

Desde sua estruturação, a abordagem do espaço urbano a partir das “dimensões morfológicas do
processo de urbanização” passou a ser uma presença recorrente no meio acadêmico e em órgãos de
planejamento urbano. Os diferentes recortes aspectuais caracterizadores da proposta epistemológica
adotada difundiram-se pelo país, contaminando o ensino, a pesquisa e a proposição urbanística.

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Em sua atuação junto à UnB, Frederico de Holanda participou ativamente da montagem desse
escopo intelectual e, dentre as várias abordagens ali presentes, concentrou seus estudos nas
implicações da forma urbana em termos de sociabilidade – a relação entre forma e uso do espaço
urbano passou a constituir seu objeto principal de estudos, tema que vem aprofundando há várias
décadas. Partindo dos pressupostos colocados por Jane Jacobs e, fundamentalmente, pela
abordagem proposta pela Teoria da Sintaxe Espacial, linha de pesquisa desenvolvida junto à Bartlett
School of Graduate Studies, da Universidade de Londres, seu trabalho no Brasil, divulgado em
diversos artigos, livros e apresentações em congressos, expressa intensa dedicação acadêmica e
profissional.

No trabalho de Holanda, a Teoria da Sintaxe Espacial, sem perder o rigor científico que a
caracteriza, tornou-se mais simples, mais qualitativa e, principalmente, abrasileirou-se. Mesclou-se
com outras abordagens típicas da historia, da sociologia, da geografia, da antropologia. Brasília,
enquanto especificidade e enquanto cidade brasileira, que repete muitas de nossas mazelas sociais,
forneceu o material empírico principal de suas reflexões. O trabalho junto à pós-graduação refletiu-
se em inúmeras teses e dissertações que aprofundaram hipóteses iniciais, incluíram novas temáticas
e estenderam a realidade empírica analisada.

Este livro oferece um belo panorama do trabalho. Os seis capítulos da obra foram escritos por
diferentes autores. Todos foram orientandos de Frederico de Holanda junto ao Programa de Pós-
Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, no período compreendido
entre 2006 e 2009. Diferentes realidades urbanas, diferentes escalas e diferentes enfoques
caracterizam o conjunto. Referências teórico-conceituais comuns e, principalmente, a preocupação
com atributos espaciais e suas implicações no cotidiano da vida urbana, dão unidade à obra.

No primeiro capítulo, escrito por Frederico de Holanda e Valério Medeiros, o binômio


ordem/desordem fornece o mote para a comparação realizada entre as cidades de Brasília e
Chandigarh, obras do movimento moderno que apresentam semelhanças e diferenças expressivas
em sua configuração. A clareza dos centros históricos originais e a fragmentação característica da
exponencial expansão das cidades brasileiras são analisadas no capítulo seguinte, de autoria de
Valério Medeiros. A relação entre tecidos urbanos e margens de rios, com a discussão de atributos
de urbanidade presentes ou ausentes nestes lugares de interface entre cidade e natureza, é discutida
no Capitulo 3, escrito por Sandra Soares de Mello. O Capítulo 4, de Rômulo José da Costa Ribeiro,
estuda e propõe índices de qualidade de vida urbana que, aplicados ao Distrito Federal, desvelam
novas facetas desse universo em contínua transformação. A mobilidade e acessibilidade,
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relacionadas à configuração urbana, são os temas aprofundados no Capítulo 5, de autoria de
Antonio Paulo de Hollanda Cavalcante. Mudando a escala de abordagem, ao estudar transformações
na espacialização dos apartamentos do Distrito Federal, o Capítulo 6, escrito por Franciney Carreiro
de França, encerra livro.

Fruto do trabalho em realização na Universidade de Brasília, este livro explicita possibilidades que
a reflexão acadêmica, embasada em critérios de cientificidade, pode oferecer para o
desenvolvimento das práticas acadêmicas e profissionais no contexto da Arquitetura e do
Urbanismo. Desde aquele distante 1963, em que a experiência de Brasília levava arquitetos e
urbanistas a uma confiança quase absoluta no futuro, muita coisa mudou. Hoje são dezenove
programas de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo no país, e um sem-número de cursos de
graduação. A realidade urbana brasileira, caracterizada pela desigualdade social e pela destruição
ambiental, continua clamando por uma atuação consciente e comprometida. A qualificação dessa
atuação passa, necessariamente, pela reformulação de nossas escolas, bem como pela redefinição
dos pressupostos epistemológicos que embasam a formulação do conhecimento na área. Os
conteúdos apresentados em “Ordem e Desordem: Arquitetura e Vida Social” constituem um claro
exemplo do modo como a pesquisa e os estudos de pós-graduação podem se engajar nesse processo.

Ilha de Santa Catarina, junho de 2012.


Almir Francisco Reis
Professor Associado
Departamento de Arquitetura e Urbanismo
Centro Tecnológico
Universidade Federal de Santa Catarina

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Capitulo 1

ORDEM E DESORDEM EM BRASÍLIA E CHANDIGARH

Frederico de Holanda

Valério Medeiros

Resumo

Brasília e Chandigarh diferem em muitos aspectos, no todo e em suas partes. O capítulo explora a
dicotomia ordem x desordem nas duas cidades. Brasília contém duas unidades morfológicas
claramente identificáveis: o Eixo Rodoviário, ao longo do qual as fileiras de superquadras
residenciais se localizam, e o Eixo Monumental, que constitui o principal espaço simbólico da
capital brasileira, onde estão os edifícios principais da Administração Federal. Os dois elementos
estruturais cruzam-se no centro da cidade, onde fica o terminal de ônibus urbanos, no complexo
edifício da “Plataforma Rodoviária”. Os eixos são os espaços mais longos e largos da cidade, em
forte contraste com os demais lugares. Chandigarh apresenta uma malha viária uniforme que
delimita setores similares medindo aproximadamente 800m x 1.200m, abrigando todos os tipos de
atividades, exceto os principais edifícios do Capitolio, espaço simbólico por excelência, que abriga
o Secretariado, a Alta Corte e a Assembleia Nacional. Entretanto, o Capitolio é muito segregado do
resto da cidade, prática e expressivamente. Em ambas as cidades os “setores” urbanos carecem de
diferenciação: as superquadras de Brasília e os setores de Chandigarh apresentam sistemas viários
labirínticos e frequentes ruas sem saída. Entretanto, ordem em Chandigarh pode resultar de
surpreendentes praças comerciais, como no setor central. No todo, porém, Brasília exibe uma
configuração clara, contrastando com a configuração repetitiva, banal e pouco informativa de
Chandigarh.

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Capítulo 2. AS CIDADES E O LABIRINTO: A CONFIGURAÇÃO ESPACIAL EM
ASSENTAMENTOS BRASILEIROS

Valério Medeiros

Resumo
Há estudos urbanos sobre a natureza social, econômica, política e operacional do espaço das
cidades. Entretanto, carece um aprofundamento quanto à articulação da cidade segundo hierarquias
e permeabilidades (configuração), e como esses fatores, diretamente relacionados à forma-espaço,
contribuem para a interpretação do estado presente das estruturas urbanas no Brasil quanto à
expansão territorial e relações sociais. A pesquisa explora o hiato existente no planejamento urbano
no país, que ignora a variável configuracional. Argumenta-se que a consideração da variável
implicaria potencial melhoria da qualidade espacial das cidades. Investiga-se, por meio da Teoria da
Sintaxe Espacial, como isto pode auxiliar o planejamento e os estudos urbanos, tomando por base
amostra constituída por 44 cidades brasileiras.

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Capítulo 3. ESPAÇOS URBANOS EM BEIRA D’ÁGUA: URBANIDADE E PROTEÇÃO

Sandra Soares de Mello

Resumo
A análise da história da cidade pela ótica das relações com os corpos d’água – córregos, rios, lagos,
mares – revela aspectos fundamentais à compreensão das lógicas urbanas e das forças contraditórias
atuantes no tempo. Identificam-se duas vertentes básicas nas relações entre cidades e corpos d’água.
Na primeira, estes são valorizados e incorporados à paisagem urbana. Na segunda vertente, corpos
d’água são desconsiderados, edificações e lotes lindeiros ficam de costas para eles.

A partir da década de 1960, um intenso movimento de qualificação dos frontais aquáticos passou a
ocupar as agendas urbanas em cidades de todo o mundo. A grande maioria das intervenções
expressa a vertente de valorização dos corpos d’água, promovendo a urbanidade, ou seja, o
convívio social e a relação amigável da população com o corpo d’água. Ocorre que, via de regra, os
projetos fundamentam-se na adoção de técnicas e materiais artificiais, dificultando ou impedindo o
desenvolvimento das dinâmicas naturais.

O enfoque central deste trabalho direciona-se para o espaço físico, numa perspectiva relacional
entre sua configuração e interferências sobre as dinâmicas ambientais e urbanas. Se, por um lado,
valores socioculturais são condicionantes do tipo de configuração espacial, por outro, os atributos
da configuração espacial podem influir na construção de valores socioculturais, que caracterizam a
urbanidade. Trata-se de um olhar que abarca também as relações entre a configuração espacial e a
proteção dos recursos ambientais.

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Capítulo 4. ÍNDICES DE CONDIÇÃO MORFOLÓGICA URBANA

Rômulo José da Costa Ribeiro

Resumo

Muito se tem avançado nos estudos urbanos, mas ainda de forma segmentada, com o
desenvolvimento de índices e indicadores que expressam determinados aspectos da cidade, e não de
forma a se ver o todo urbano. Este capítulo é parte da pesquisa doutoral, atualizada, em que se
objetivou preencher a lacuna, com uma proposta de “costurar” importantes índices urbanos,
levantados a partir de três grandes dimensões: morfológica, socioeconômica e ambiental5. O foco
aqui são índices morfológicos e aponta-se como eles podem ser reunidos aos demais. O objeto de
estudo é o Distrito Federal. As três dimensões selecionadas revelam de forma genérica que o centro
urbano do Distrito Federal, composto pelo Plano Piloto e suas imediações, apresentam melhores
condições para todos os índices levantados; quanto mais afastados do centro os lugares, piores se
tornam as condições de vida. Contudo, apesar da tendência geral, muitas cidades periféricas, que
têm estigma de condição precária, ao contrário do que se imagina, apresentam bons resultados em
determinados aspectos, que findam contribuindo para a resultante global. O índice final, Índice
Composto de Qualidade de Vida Urbana, consegue expressar as nuances. Por meio de ponderação
dos índices estudados, desenvolveu-se um método que possibilita a contínua atualização e
agregação de informação, o que permite que ele possa ser refinado continuamente. Outro fator
importante do trabalho é que a análise estatística empregada serviu como ferramenta para clarear e
nortear diversas análises, e pode ser considerada como fundamental para o tipo de estudo. Assim, a
condição de vida urbana é muito mais que apenas acessibilidade, renda ou qualidade ambiental, é
uma composição complexa dessas variáveis que compõem a realidade da cidade.

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Rômulo Ribeiro, Índice composto de qualidade de vida urbana. Aspectos de configuração espacial, socioeconômicos e
ambientais urbanos.

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Capítulo 5. A ARQUITETURA DA CIDADE E OS CONGESTIONAMENTOS

Antônio Paulo de Hollanda Cavalcante

RESUMO

O capítulo trata de uma metodologia sistêmica de análise da saturação viária, caracterizada por
áreas e vias de maiores congestionamentos e transtornos de mobilidade viária e acessibilidade aos
usos do solo na cidade de Fortaleza (CE). Lida-se com uma modelagem computacional integrada,
em um mesmo ambiente de Sistemas de Informações Geográficas (SIGs) de: 1) fluxos de demanda
alocados pela técnica de Equilíbrio do Usuário Estocástico (SUE), oriunda da Urban
Transportation Modelling Systems (UTMS) que caracterizam a demanda de viagens; 2) fluxos
potenciais de oferta alocados pela técnica da Análise Angular de Segmentos (ASA), da Sintaxe
Espacial (SE), que caracterizam a oferta viária. O principal objetivo da pesquisa é o de contribuir na
caracterização dos principais atores causadores dos congestionamentos que, no caso de Fortaleza,
são em parte resultantes da configuração da malha, pelas conexões viárias descontínuas oriundas de
intervenções isoladas de diversos planos urbanísticos. Alia-se a este fator o processo social de
ocupação e uso do solo. Juntos, acabam por resultar em uma área crítica (AC) de
congestionamentos. Em termos teórico-metodológicos, a pesquisa localiza-se nos âmbitos do
planejamento dos transportes e do urbanismo, e contribui metodologicamente: 1) ao primeiro, na
identificação de categorias analíticas funcionais relativas à acessibilidade local e global da malha e
2) no segundo, na dispersão socioespacial desigual de atividades em uma amostra de vias arteriais e
coletoras da cidade. Os resultados confirmam a forma do espaço de circulação como fator
importante na configuração da cidade de Fortaleza e como corresponsável pela ocorrência de
congestionamentos. Em termos específicos são definidas escalas macro, meso e microscópica para a
análise da acessibilidade funcional. Os resultados confirmam a segregação socioespacial da cidade e
facultam sugerir novas abordagens para os processos de urbanização e o ensino do urbanismo e dos
transportes.

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Capítulo 6. A INDISCIPLINA QUE MUDA A ARQUITETURA: UM OLHAR SOBRE O
ESPAÇO DOMÉSTICO NO DISTRITO FEDERAL

Franciney Carreiro de França

Resumo
Trata-se da habitação coletiva em altura no Distrito Federal. Dentro do amplo espectro de estudos
sobre o espaço doméstico, a pesquisa contribui com um recorte específico: considera aspectos de
apropriação do espaço pelos moradores e respectivas condicionantes morfológicas (geométricas e
topológicas). A apropriação é caracterizada por “indisciplinas leves” (alterações de uso e ocupação)
e “indisciplinas pesadas” (mudanças no vão dos apartamentos). O objetivo é entender como os
espaços originalmente construídos e após modificações feitas pelos moradores revelam o modo de
vida em apartamentos. O recorte histórico é a evolução do tipo apartamento nas décadas posteriores
a 1960, tendo como marco a criação do Plano Piloto de Brasília e a proliferação da habitação
coletiva em altura no Distrito Federal. As áreas pesquisadas são representativas da diversidade
socioeconômica e da evolução da ocupação territorial do Distrito Federal para o tipo de moradia em
análise. São onze áreas estudadas, 168 entrevistados e duzentas plantas baixas analisadas, entre
plantas originais e modificadas.

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