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CADERNO DA CIDADANIA > BIÓGRAFOS & BIOGRAFIAS

Giorgio Vasari: o primeiro biógrafo de


artistas
Por André Miranda em 22/10/2013 na edição 769

Reproduzido do Globo.com, 19/10/2013

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Não fosse por um italiano nascido em 1511, ninguém saberia hoje que o pintor Paolo Uccello
abandonou uma obra num mosteiro porque o abade lhe enchia diariamente de queijo. E Uccello, Curadoria de Notícias
vejam só, odiava queijo. Não se saberia também que Polidoro de Caravaggio foi morto por um
aprendiz que “gostava mais do dinheiro do mestre do que do próprio mestre”. Nem que A arte de manipular multidões
Leonardo da Vinci, para quem era mais “estimável ser lósofo do que cristão”, considerava-se tão EL PAÍS Brasil
magnânimo que certa vez não aceitou um pagamento em moedas de baixo valor, dizendo: “Não A era da pós-verdade é na realidade a e
sou pintor de vinténs”. Muito menos que Michelangelo era pouco cauteloso nas palavras. Para um e da mentira, mas a novidade associada
menino, sobre quem lhe disseram que estava começando nas artes, retrucou: “Percebe-se”. Já neologismo consiste na popularização d
para um amigo que apareceu vestindo uma roupa nova, disse: “Como estás bonito! Se fosses falsas e na facilidade para fazer com qu
bonito por dentro tanto quanto se vê por fora, seria ótimo para a tua alma”. prosperem. Saiba mais

Histórias como essas, que misturam detalhes da vida pessoal com descrições sobre como foram Inscrições abertas para o 8º Cur
realizadas as obras de 133 artistas renascentistas, são conhecidas hoje pelo trabalho de Giorgio de Jornalismo Econômico
Vasari. Pintor, arquiteto e escritor, Vasari cou conhecido como o primeiro biógrafo de artistas,
Estadão
como aquele que deu origem à história da arte ao publicar, em 1550, o livro “Vidas dos artistas”.
Está aberta a seleção para o 8º Curso Es
– O Vasari, quando gostava de alguém, era mais amoroso no relato. Mas, quando não gostava, Jornalismo Econômico, parceria do Grup
a Escola de Economia da Fundação Getú
tinha uma navalha que mostrava a vida do sujeito – diz Angela Ancora, crítica de arte e diretora da
(FGV). As inscrições vão até o dia 27 de m
Escola de Belas Artes da UFRJ. – Acabou se notabilizando como o primeiro biógrafo de artistas, devem ser feitas pelo site Vagas.com. O
mas ele também foi um pintor sem relevância e teve uma importância grande por ter sido a gratuito e será realizado em período int
primeira pessoa a fazer algo parecido com um salão de artes. Como era admirador de abril a 13 de julho, na sede do Estadão.
Michelangelo, organizou uma exposição para arrecadar fundos e poder levar, escondido, o corpo
do artista de Roma para Florença.
Facebook sob pressão política
Antes de Vasari, não havia modelos para biogra as assim. Até então, conhecia-se o trabalho de Canal Meio
nomes como o grego Plutarco e os romanos Tácito e Suetônio, que escreveram entre os séculos I Na sexta-feira, o Facebook ameaçou ir à
e II relatos sobre imperadores, políticos ou guras ilustres de suas épocas. O que Vasari fez de o diário britânico Guardian que pretend
diferente foi traçar relação entre a obra e a vida do biografado, ainda de forma tímida em e publicou — uma longa reportagem so
questões pessoais, mas já com detalhes que seriam fundamentais para se compreender melhor o empresa. No sábado, além do Guardian
porquê de algumas pinturas ou esculturas serem como são. Times também tinha a mesma história:
Wylie, um cientista da computação cana
anos, revelou como descobriu o truque
Vasari começava seus textos com uma breve introdução que fazia um resumo de como via seus do Facebook os per s detalhados de 50
personagens. Para tratar do pintor Botticelli, ele primeiro escreveu: “A natureza esforça-se por dar pessoas. Saiba mais
o talento a muitos e, em contraposição, lhes dá a negligência, porque eles, não pensando no m
da vida, muitas vezes adornam os asilos com sua morte assim como em vida adornam o mundo
com suas obras”. Mais à frente, concluiu a biogra a de um dos mais representativos pintores de Marielle: desembargadora, dep
Florença dizendo que ele “por m, cando velho e sem serventia, arrastava-se com duas muletas, pastor não checaram antes de p
não podendo fazer nada, doente e decrépito”. Era o tipo de descrição que não deve ter deixado era bem fácil…
seus herdeiros felizes. Agência Lupa

Momentos de crise são terreno fértil pa


Mosaico da Toscana disseminação de informações falsas. E,
da vereadora carioca Marielle Franco (P
Por outro lado, com outros por quem tinha mais consideração, Vasari escolhia palavras assassinada na última quarta-feira junto
amorosas. Depois de uma longa introdução em que explicava como os escultores antigos tinham motorista, Anderson Gomes, não foi dife
“espíritos estúpidos e grosseiros”, ele abre uma exceção para Donatello, chamado de “agradável”, mais
“amável”, “benigno”, “cortês”, “humilde” etc. etc. etc. No texto dedicado ao escultor orentino,
Vasari diz que ele abdicou de uma propriedade rural recebida como presente por um admirador
porque não queria se preocupar com questões mundanas como contas e as demandas dos Mais vistos
camponeses vizinhos. “Preferia morrer de fome a ter de pensar nelas”, escreveu.

1
Observatório da Imprensa
Sobre Da Vinci, considerado pelo autor como uma representação da “própria divindade”, Vasari lança e-book ‘Uma antologia
escreveu a estratégia para fazer a modelo de seu famoso quadro “Mona Lisa” sorrir. Ele teria de Crítica de mídia no Brasil
contratado bufões, “para eliminar aquela melancolia tão frequente na pintura e nos retratos”. de 1996 a 2018’

2
Observatório da Imprensa e
– Ele considerava a Toscana como uma região abençoada pelos céus, como se Deus tivesse
mandado para lá os maiores gênios da Humanidade – diz a escritora Ivone Castilho Benedetti, ESPM produzem websérie de
que traduziu “Vidas dos artistas” para a versão brasileira lançada em 2011 pela editora WMF debate entre jornalistas

Martins Fontes. – Ele acabou cando mais conhecido como biógrafo de artistas, mas acho que, no

3
fundo, seu objetivo era outro. Ele queria fazer um mosaico de personagens para construir um Simpósio do Projor na
retrato maravilhoso da arte renascentista. Mas, como ele tinha charme para escrever, uma Unicamp debate cenário do
sedução no texto, cou célebre pelas biogra as. jornalismo

4
A intenção de glori car seus personagens ca clara ao se deter sobre o título original da obra de E-book: “Observatório da
Vasari: “Vidas dos mais excelentes arquitetos, pintores e escultores italianos, de Cimabue até Imprensa: Uma antologia da
nossos tempos”. Giovanni Cimabue, que viveu entre os séculos XIII e XIV, é o primeiro biografado crítica de mídia no Brasil de
do livro, aquele que nasceu “para trazer as primeiras luzes à arte da pintura”. O último é 1996 a 2018”
Michelangelo, único artista ainda vivo quando da publicação da primeira edição, simplesmente

5
porque Vasari tinha um certo carinho por ele. Melhor dizendo, tinha veneração. “O Céu o mandou Tudo em dia
aqui embaixo para servir de exemplo na vida, nos costumes e nas obras, para que aqueles que se
miram nele, imitando-o, possam aproximar-se da eternidade”.

– As descrições seguiam uma mentalidade diferente do que acontece hoje. Naquela época, jamais
alguém se aventuraria em terrenos espinhosos, como a eventual homossexualidade de alguém. E Observatório da Imprensa 20
todos eles se conheciam e sabiam. Mas eram tabus nos quais ninguém tocava – diz Ivone. –
Houve, porém, um ou outro caso no livro de Vasari em que se pode enxergar algo distinto. Ele
descreveu o que dizia ser o mau-caratismo do pintor Andrea dal Castagno e reproduziu a lenda
de que ele teria matado o também pintor Domenico Veneziano. No entanto, segundo consta,
Veneziano morreu quatro anos depois de Andrea dal Castagno. Mas é preciso entender que se
vivia numa época em que leis, crimes e desvios tinham pesos e critérios diferentes dos de hoje.
Vivemos numa sociedade em que tudo parece poder e dever ser transformado em espetáculo,
em nome da liberdade de expressão.

Dois enfoques para a arte


OI no Facebook
Vasari morreu em 1574, aos 62 anos, com boa reputação e um padrão de vida bastante
confortável. Sem querer glória para si – o próprio, apesar de pintor, não se colocou em “Vidas dos Observatório da Im
artistas” – é lembrado até hoje como o pai da história da arte e como precursor de gerações de 304.121 curtidas
biógrafos que se seguiram pelos séculos. Mais de 460 anos após seu livro ser lançado, é
inimaginável para todos aqueles que estudam a arte renascentista não ter os relatos de Vasari.

– Há dois enfoques possíveis para se entender o trabalho de um artista. A obra em si já tem uma Curtir Página C
carga como objeto, que independe da vida de quem a fez. Caravaggio chegou a matar um
homem, mas ele foi o maior barroco que nós tivemos. A obra de Caravaggio fala do artista, que
Seja o primeiro de seus amigos a curti
passa por cima da ética e da moral – explica Angela Ancora. – Mas outra possibilidade é observar
a vida de quem fez aquela obra, para agregar informações e trazer subsídios que ajudam na
compreensão do trabalho. São dois enfoques, e nenhum é mais importante do que o outro.

******

André Miranda, do Globo

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