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REVISTA PIAUÍ - EDIÇÃO 128 | MAIO DE 2017

_questões de gênero

RETRATO DE UMA MENINA


Ser transgênero aos 11 anos de idade

ROBERTO KAZ
Em agosto do ano passado, Karina de Fazzio ainda chamava sua filha Melissa pelo
nome de batismo. “Tenho um filho pequeno, o Miguel, que apresenta tendências de
querer ser menina desde 1 ano de idade”, disse a mãe, de maneira objetiva, durante
uma reunião com cerca de trinta pessoas no Instituto de Psiquiatria do Hospital das
Clínicas, em São Paulo. Todos ouviam com atenção o seu relato. “Ele já quis cortar o
pipi. Já falou que quer morrer e voltar menina. Um dia me pediu um remédio para ser
normal. Eu chorei a tarde inteira.”
Era a primeira vez que Karina – uma mulher de 37 anos, expansiva, do tipo que põe
ordem com autoridade numa festa infantil – participava do encontro de pais, médicos e
psicólogos no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação
Sexual – setor do HC que cuida de pessoas que não se identificam com o gênero em
que nasceram. A cada mês, os responsáveis pelas crianças e adolescentes que são
acompanhados pelo ambulatório se reúnem para discutir e compartilhar experiências.
Naquela sexta-feira, às oito da manhã, o grupo ocupava uma sala ampla, de paredes
brancas e sem adornos, que costuma sediar aulas e palestras. As cadeiras haviam
sido organizadas num grande círculo, para que todos pudessem se ver.

“Na escola, o Miguel reclamava que não pertencia ao grupo dos meninos, que faziam
bullying com ele, e nem ao das meninas, que o excluíam quando queriam fofocar”,
continuou Karina. “Mas vinte dias atrás eu deixei ele se vestir de menina. Ficou tão
feliz que resolveu fazer uma palestra para os amigos. Explicou que é transgênero, que
vai tomar remédio, que vai ser menina. Ele já sabe tudo, não sei como, acho que viu
na internet. Todo mundo aplaudiu.”

Uma psicóloga, Luciane Gonzales, quis saber a opinião do marido de Karina, Renato,
que estava sentado ao seu lado. A própria Karina tratou de responder: “O Renato me
acusava de incentivar o comportamento afeminado do nosso filho. Era uma luta entre
nós dois, porque no aniversário do Miguel eu queria dar Barbie, e ele queria dar
carrinho.” Gonzales interveio: “Incentivar é uma palavra cruel. Quem é que vai acordar
e pensar: ‘Hoje vou incentivar o meu filho a mudar de gênero?’” Renato consentiu: “No
passado eu queria mesmo mudar isso. Mas o Miguel está muito feliz de vinte dias para
cá. Vendo essa felicidade, eu não tenho como ser contra.”

A assistente social agradeceu pelo relato e perguntou se havia outros novatos no


grupo – formado, em sua maioria, por casais heterossexuais entre 30 e 40 anos de
idade. Uma mulher levantou a mão: “Meu nome é Patrícia, tenho uma filha de 5 anos
que nasceu biologicamente menino. Ela escolheu ser chamada de Isabela.” Outra
mulher a interrompeu, animada: “A minha também escolheu ser Isabela!” Uma mãe
contou que o filho tinha sonhado que era menina, e acordou chorando ao perceber
que não era. Outra relatou que o filho havia perguntado se poderia implantar útero, e
se um dia iria menstruar. Um dos homens presentes contou ser o único na casa a
aceitar a condição da filha, que se diz menino. Outro admitiu ter dificuldade em lidar
com o assunto, por pertencer “à quarta geração de uma família de militares”.

Ao fim do encontro, o psiquiatra Alexandre Saadeh, que coordena o ambulatório, pediu


a palavra. “É importante pensar em quanto esses filhos fazem de vocês pessoas
melhores, e o quanto eles mostram que o mundo dos gêneros não tem dois polos”,
disse. “O nível de discussão que a gente tem aqui é muito rico. E vocês estão de
parabéns por vir conversar sobre isso, o que não é fácil.” Um homem intercedeu,
aparentemente insatisfeito: “Mas o nosso grupo é de pessoas diferenciadas, e essas
ideias têm que circular lá fora também.” Contou então que, antes de conhecer o
ambulatório, havia levado seu filho a uma psicóloga particular. “Ela me cobrou 400
paus para dizer que todo travesti é culpa dos pais.”

No livro Longe da Árvore, o escritor americano Andrew Solomon sustenta que “é uma
pobreza da língua inglesa” – algo que vale também para a portuguesa – “usar a
palavra ‘sexo’ para designar tanto o gênero quanto o ato carnal”. Dessa confluência
infeliz, argumenta Solomon, deriva parte do mal-estar vinculado à noção de
transgênero: “Ser trans é visto como depravação, e as depravações infantis são
anômalas e perturbadoras. Mas as crianças trans não estão manifestando
sexualidade, estão manifestando gênero. A questão não é com quem elas desejam
estar, é quem elas desejam ser.”
O termo transgênero é abrangente e se aplica a qualquer pessoa cujo comportamento
se distancia das regras estabelecidas para o gênero em que nasceu. O cantor Liniker
– que fala de si no feminino, veste roupa de mulher, mas mantém bigode e
cavanhaque – é transgênero (embora, nesse caso, haja também o componente da
performance artística). Já o termo transexual, mais técnico, descreve quem se
submeteu a cirurgia ou tomou hormônios para aproximar o próprio corpo das
características do gênero em que se percebe. A modelo Lea T, que implantou silicone
e fez cirurgia de troca de sexo, é transexual. A maior parte dos pacientes tratados no
ambulatório do Hospital das Clínicas é transgênero – e apenas uma fração deles se
submete à transexualização.

Relatos de pessoas que não se identificam com o gênero de nascimento existem na


literatura médica desde o século xix, época em que tal condição era confundida com a
homossexualidade – uma vez que a própria homossexualidade era às vezes descrita
como um corpo habitado por um espírito do sexo oposto. A transexualidade tal como
entendida hoje, com intervenções radicais no corpo, remonta à década de 20, com o
surgimento, na Europa, das cirurgias de redesignação sexual (o filme A Garota
Dinamarquesa narra uma das primeiras tentativas de faloplastia, ocorrida em 1931,
que acabou levando a pintora Lili Elbe – que nascera homem – à morte). Foi só a
partir dos anos 60, contudo, que o conceito de gênero passou a ser problematizado
com mais ênfase. Era o momento em que a pílula anticoncepcional chegava às
farmácias, num ambiente de questionamento das convenções e de maior tolerância
comportamental.
O psicólogo John Money, do hospital americano Johns Hopkins, sugeriu, naquela
década, que o gênero de uma pessoa era em grande medida determinado por
experiências da infância. Para provar sua tese, Money conduziu um dos testes mais
perversos da história da medicina: pediu aos pais de David Reimer – um bebê que
tivera o pênis queimado durante a circuncisão – que o criassem como menina. A
criança jamais poderia saber que nascera homem e que era obrigada a tomar
hormônios femininos.

Reimer nunca se aceitou no papel de menina. Urinava em pé, não brincava de boneca
e detestava usar vestidos. Ainda assim, Money publicou artigos fraudulentos, por mais
de uma década, atestando o suposto sucesso da experiência. Aos 14 anos, deprimido,
Reimer ouviu dos pais a verdade. Submeteu-se a uma reconstrução peniana e passou
a viver como menino. Chegou a se casar com uma mulher, mas suicidou-se aos 38
anos de idade. Seu caso – que, a depender de Money, mostraria que o gênero é uma
construção cultural – acabou virando referência para aqueles que defendem a ideia
contrária, de que a identidade de gênero tem uma origem exclusivamente biológica.
Em 1980, os termos “transexualismo” e “transtorno de identidade de gênero” passaram
a constar no DSM, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, livro de
referência da psiquiatria. O lado bom foi que, a partir de então, tais condições
começaram a ser tratadas por serviços públicos e por seguradoras privadas da área
de saúde. O lado ruim foi que, para que isso ocorresse, a transexualidade e a “disforia
de gênero” – termo que atualmente designa essa crise de identidade – tiveram que ser
oficialmente classificados como patologias.

A discussão em torno do conceito de identidade de gênero é rica e, provavelmente,


inesgotável. Há quem defenda que o assunto pertença à seara da medicina
psiquiátrica. Há quem defenda que pertença à seara da medicina – mas não da
psiquiatria (como a gravidez, que é um tema médico, mas não é uma doença). E há
ainda quem defenda que nem à medicina ele pertença. “A pergunta que se faz é se as
pessoas trans, como muitos gays, têm uma identidade determinada que só um louco
tentaria alterar”, escreveu Solomon em seu livro, “ou se uma criança nascida menino
que se diz menina seria […] como uma criança nascida preta que insiste que é branca,
precisando de ajuda para se aceitar.”

A psicanalista americana Susan Coates, que dirigiu um ambulatório infantil de


identidade de gênero em Nova York, é contra a visão do determinismo biológico. Ela
atendeu mais de 350 pacientes, e defende que a disforia de gênero está ligada à
ansiedade e à própria inteligência das crianças. “Elas são fundamentalmente criativas,
e parte dessa criatividade lhes permite imaginar soluções para seus problemas por
meio da troca de gênero”, declarou a Andrew Solomon.

Já Alexandre Saadeh, do ambulatório do Hospital das Clínicas, situa-se no meio do


caminho. Para ele, casos mais brandos de transtorno de gênero – quando há apenas
um desconforto com a identidade – podem ter origens psicológicas. Mas casos
extremos – como aqueles em que o desacordo entre a autopercepção do paciente e
seu corpo o leva a buscar tratamento cirúrgico e hormonal – lhe parecem ter uma base
biológica, surgida na gestação, quando cérebro e genitália ainda estão se formando.

“Tomo bordoada de todo lado”, ele me disse. “De gente que me acha ‘medicalizador’ e
de gente que me acha satanista. O que eu defendo é a necessidade de diagnóstico
para quem busca intervenção médica, que é muito radical. E diagnóstico não significa
doença, muito menos exclusão. Mas sem ele, vai virar uma cirurgia arbitrária.”

Karina, Renato e Melissa de Fazzio moram num condomínio de classe média em


Itupeva, cidade de 55 mil habitantes entre Campinas e São Paulo. A casa, pequena, é
alugada por 1 700 reais. Na primeira vez em que os visitei, em novembro do ano
passado, Karina ninava Pedro, o segundo filho do casal, que tem 1 ano de idade.
Havia uma foto de Melissa presa à geladeira, e outra enquadrada num porta-retratos,
próxima à mesa de jantar. “Antes tinha fotos dela de Miguel”, disse a mãe. “Mas a Mel
me pediu para jogar fora. Também quis que eu me livrasse do álbum de criança.”
Era uma quinta-feira à tarde. Renato, que é engenheiro civil, estava no escritório de
sua microempresa de construção, em Jundiaí. Melissa brincava fora de casa (usarei o
nome Melissa para descrevê-la no presente e, sempre que possível, no passado).
“Desde que a Mel começou a andar, ela já mostrou preferência por tudo de menina”,
contou-me Karina, que é formada em psicologia, oscilando, sem perceber, entre o
masculino e o feminino. “Aos 3 anos, quando a gente rezava antes de dormir, ouvi ele
falando: ‘Papai do Céu, se eu me comportar, você tira esse castigo de mim?’ A gente é
espírita, acredita que você escolhe vir homem ou mulher. A Mel então falava: ‘Deus
não fez o que eu pedi.’”

Karina contou que aos 5 anos Melissa – então Miguel – voltou chorando da escola,
depois de ganhar um carrinho da marca Hot Wheels no Dia das Crianças. Apesar de
ainda usar roupa de menino e ser tratada como tal, ela já cultivava o cabelo comprido
e, quando tinha uma chance, tentava vestir as roupas da mãe. “O Renato não
aceitava. Não era dito, mas ele deixava isso claro pelo modo como se comportava”,
contou Karina. “Era o melhor marido que podia existir, mas também o pior pai.
Transformava a vida dela num inferno.” Quando Melissa tinha 6 anos, o casal se
separou. “Falei para o Renato: ‘Marido, eu consigo outro. Filho, não.’”

Karina continuou morando com a filha numa casa no distrito paulistano do Jaraguá.
Renato foi morar com a mãe em Pirituba, distrito próximo, também em São Paulo. “Ele
me ligava quase todo dia pedindo para a gente voltar”, lembrou Karina. “Até tentou se
aproximar da Mel, mas ainda falava uns absurdos, do tipo: ‘Vira homem!’” Com o
tempo, Renato maneirou o discurso. “Ele passou a dizer que nos amava de qualquer
jeito, que aceitaria a Mel. Só o fato de não falar mais aquelas coisas ruins já era um
começo.”

O casal reatou em outubro de 2013, após um ano de separação. Três meses depois,
Renato perguntou a Karina o que deveria dar à filha no aniversário. “Depende”, ela
contou ter dito. “Você vai dar o que o Miguel quer ou o que você gostaria que ele
quisesse? Porque se for o que ele quer, é uma boneca do Monster High.” Karina disse
que Renato ficou calado. “Mas a gente estava em lua de mel de novo. Ele fazia tudo o
que eu queria.”

A boneca foi dada, mas aquele modelo em particular não agradou à menina. Resultou
que mãe e filha (então filho) precisaram voltar ao shopping para que o presente fosse
trocado. “A Melissa já tinha várias bonecas”, continuou Karina. “Mas sempre que a
gente ia numa loja de brinquedo, ela dizia que estava comprando para a prima. Saía
com ela escondida na sacola, e só brincava chegando em casa.” Ela disse que a
situação começou a mudar com o presente do pai. “Quando a atendente quis saber
pra quem seria o presente, a Mel respondeu: ‘É pra mim, meu pai que me deu, algum
problema?’ Depois desfilou com a boneca pelo shopping inteiro. Foi a primeira vez que
ela não teve vergonha.”

Melissa Doblado de Fazzio é uma menina bonita, com traços femininos, que fala de si
com tal segurança que parece ter mais do que seus 11 anos de idade. “Vou ser
cantora, tipo a Ivete ou a Lexa”, ela me contou quando a conheci, em novembro
passado (Lexa, eu aprenderia depois, é uma cantora pop que parece um clone da
cantora Anitta – que, por sua vez, não deixa de ser um clone de qualquer outra
cantora pop). Naquele dia Melissa usava uma camiseta em que se lia, em inglês, que
“algumas garotas nascem com glitter nas veias”. Fazia então quatro meses que
deixara de ser chamada de Miguel dentro de casa. “Mel surgiu espontaneamente”,
explicou, quando lhe perguntei como escolhera o próprio nome. “É forte e delicado.”
Melissa cursa o 6º ano num colégio bilíngue de Itupeva, o Interação. Foi lá que fez
uma apresentação, diante da turma, para explicar que era transgênero. “Não ia
adiantar nada a professora tocar no assunto e não dizer que era eu”, disse. “Então
falei de gênero, de bloqueio hormonal, de cirurgia. A Luiza, minha melhor amiga, tinha
dito que se eu não conseguisse, ela me ajudava.”

A própria Karina nunca ouvira falar em transexualidade até dois anos atrás. Tanto que
quando a família se mudou para Itupeva, em julho de 2015, ela foi à escola para
avisar, preocupada, que tinha um “filho totalmente afeminado”. “Eu achava que o
Miguel ia ser gay, e queria saber como eles iriam protegê-lo”, contou. “Só comecei a
entender o que acontecia quando a gente visitou o meu primo Lucio, que é gay, em
São Paulo. Ele e o namorado estavam casando.”

Segundo Karina, Lucio Serrano, o primo, chamou-a num canto, em determinado


momento da festa, para falar que Miguel não era gay. “Você está louco?”, ela lembrou
ter dito. O primo então perguntou: “Você me vê querendo usar saia que nem ele? Me
vê maquiado?” Diante do silêncio de Karina, Serrano sugeriu que ela pesquisasse
sobre a palavra “trans”. “E logo depois teve um programa na televisão que falava do
ambulatório no Hospital das Clínicas”, ela disse. “Tentei marcar uma consulta por
vários meses.”

A situação se tornou mais premente no começo do ano passado, quando Melissa –


então Miguel – contou aos pais que estava namorando uma menina da escola. “Eu
achei estranho, mas o Renato ficou superexaltado, falando que a gente precisava
apoiar.” Dias depois, Karina recebeu um telefonema da coordenadora. Ouviu que a
história havia sido inventada pela filha, com anuência da outra menina, num esforço de
agradar ao pai. “O Renato chorou demais, e disse que a gente tinha que dar um jeito
de levar logo a Mel ao hospital.” Após alguma insistência, conseguiram agendar a
consulta para o segundo semestre de 2016.

Em junho, durante uma ida ao shopping, Melissa pediu à mãe que a deixasse entrar
numa loja de roupas para experimentar vestidos. “Ela pulava de alegria”, lembrou
Karina. “Tentei não comprar nada, por medo de incentivar. Inventei que não tinha
dinheiro.” Uma hora depois, Karina voltou à loja, decidida. Levou uma blusa, uma saia
e um vestido com estampas da Barbie para a filha – que ainda se vestia de menino –,
sob a condição de que só fossem usadas após a ida ao Hospital das Clínicas.

Bastou um dia, no entanto, para que Melissa colocasse a roupa escondida, e fosse
mostrar às amigas do condomínio. “Foi um caminho sem volta”, contou Karina. “Eu
fiquei roxa quando vi, mas depois pensei: ‘Ela é minha menina. Não preciso de
diagnóstico para saber o que faz a minha filha feliz.’” As calças jeans viraram shorts
desfiados; as camisetas de Miguel foram recortadas e costuradas para virar blusas de
Melissa. Karina também se encarregou de ir a uma loja para comprar calcinhas.

No dia 22 de agosto, quando foi levado para a triagem no Hospital das Clínicas, Miguel
já se apresentava como Melissa. Segundo Karina, a consulta começou com uma
pergunta aparentemente simples – mas, no fundo, bastante complexa – do psiquiatra
Alexandre Saadeh à menina:

– Por que você está aqui?

– Porque eu “tô” – respondeu Melissa, olhando para baixo.

– Mas por qual motivo?


– Você sabe o motivo.

– E por que você não fala? Isso te incomoda?

– Claro que incomoda.

– Então deixa eu te ajudar. Você está aqui porque você nasceu um menino.

– E eu sou uma menina – ela falou, interrompendo a frase.

– E o que você espera?

– Que você fale isso pra minha mãe e pro meu pai.

A consulta durou cerca de meia hora. O psiquiatra explicou que não poderia dar um
diagnóstico sem antes discutir o caso com outros profissionais. “A esperança de toda a
minha família era de que o Saadeh falasse que eu estava louca”, lembrou Karina.
“Mas o que ele disse foi que a Melissa tinha 99% de chance de ser aceita no
ambulatório. Virou um monstro na minha família.” Ao sair, Melissa virou-se para Karina
e Renato, e avisou: “Pronto. Agora eu vou ser Mel pra sempre.”

OAmbulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do


Hospital das Clínicas tem apenas dois funcionários contratados: o psiquiatra Alexandre
Saadeh e uma assistente social. O corpo médico – formado por trinta pessoas das
áreas de psicologia, psiquiatria, direito e fonoaudiologia – é todo voluntário. Desde que
foi fundado, em 2010, cerca de 200 pessoas já foram acompanhadas pela equipe.
Para poder ser tratado ali, o paciente precisa passar por uma triagem feita por Saadeh
e outros psicólogos. Em agosto do ano passado acompanhei uma consulta, com a
condição de não identificar o paciente – um adolescente que se suspeitava menina.
Saadeh usava camiseta preta e calça jeans, com um chaveiro em forma de corrente
pendendo do bolso, o que lhe dava um ar jovial. Logo de cara, perguntou ao
adolescente se ele gostaria de ser chamado pelo nome social ou de registro, se sofria
bullying, se já havia se vestido de mulher, se isso o envergonhava. Quis saber também
se já havia se masturbado, se tinha desejo por ambos os sexos, se já ficara deprimido,
se tentara o suicídio. Diante do relato, bastante confuso, perguntou ao menino se ele
não considerava a possibilidade de ser apenas homossexual. Ouviu que não. “Mas o
que te falta então?”, insistiu. “Seus pais te apoiam. Tem muito mais uma dificuldade
sua de se aceitar. Você fica numa expectativa de que a gente diga quem você é. Mas
a gente não vai dizer quem você é.” Depois chamou os pais ao consultório e repetiu o
discurso. “Existe algo, mas não dá para saber a dimensão disso. Neste momento o
que eu posso propor é: ‘Vamos pesquisar juntos?’ Pode ser demorado. Depois a gente
pensa se ele vai ser uma mulher maravilhosa, um homem bonito, ou algo no meio.”

Alexandre Saadeh é um tipo acolhedor, de 56 anos, que tem a voz mansa de um


ursão de desenho animado. Ele mora com seu marido, com quem é casado há 33
anos, numa casa em Pinheiros, bairro de classe média-alta de São Paulo. No dia a
dia, divide-se entre o Hospital das Clínicas, o consultório particular, o trabalho como
professor de psicologia na PUC e a criação de dois cachorros e nove gatos. “São
todos de rua”, contou-me, orgulhoso, durante uma conversa no HC.
Saadeh começou a trabalhar com a população transexual em 1994, quando integrava
a equipe do ProSex, um projeto do Hospital das Clínicas voltado ao tratamento de
diversos transtornos de sexualidade. “Lá conheci algumas mulheres trans”, lembrou (o
termo “mulher trans” é usado para descrever uma mulher nascida num corpo
masculino). “Na faculdade, eu tinha ouvido falar em transexualidade durante dez
minutos, numa aula de medicina legal. E era ensinado como se fosse uma doença.
Percebi que desde então não havia acontecido quase nada no Brasil. Todas as
experiências eram estrangeiras.” Interessou-se pelo tema.

Na época, o único tratamento permitido no país para quem não se identificava com o
próprio gênero era a psicoterapia. Um transexual que quisesse passar por uma
adequação mais drástica tinha de procurar outros países, como Equador, Marrocos e
Inglaterra, onde os tratamentos hormonais e cirúrgicos eram autorizados. A situação
começou a mudar em 1997, quando uma resolução do Conselho Federal de Medicina
autorizou o tratamento experimental em adultos trans.

Foi por volta dessa época que Saadeh recebeu uma paciente de quase 70 anos. “Ela
era filha única, de família católica”, contou. “Nasceu num corpo masculino, teve que
estudar engenharia, depois foi funcionário público porque o pai também era. Vivia no
universo masculino como homem passivo, e acabou contraindo Aids. Sempre foi muito
infeliz.” A paciente só se permitira viver como mulher após a morte dos pais, quando
ela já tinha cerca de 60 anos de idade. “Quando saiu a resolução do Conselho de
Medicina, ela veio me pedir um laudo que a autorizasse a fazer uma cirurgia numa
clínica particular”, continuou o médico. “Ela disse assim: ‘A vida inteira fui obrigada a
viver como homem. Não sei mais quanto tempo de vida tenho, mas quero ser
enterrada como mulher.’ Aquilo foi uma paulada.”

Em 2010, após desligar-se do ProSex, Saadeh fundou o ambulatório atual, para


tratamento exclusivo de pacientes transgêneros e transexuais. “Naquele ano
chegaram os primeiros adolescentes. E no ano seguinte, a primeira criança”, contou.
“Era uma menina trans de 5 anos, a Isabela. Nunca tivemos dúvida sobre ela.”

Dois anos atrás, optou por não receber mais adultos no ambulatório. “Já existiam em
São Paulo outros dois lugares que atendiam essa população de maneira efetiva”, ele
explicou. “E a demanda para crianças e adolescentes vinha aumentando.” Seu sonho,
disse, é um dia não ter mais que atender adolescentes. “E, no fim, quero parar
também de trabalhar com crianças. Quero chegar num ponto em que esse tema esteja
tão naturalizado na sociedade que esse ambulatório não será mais necessário.”

Reencontrei Melissa num domingo, 27 de novembro, data em que ela participaria de


uma apresentação musical da escola. Pedro, o bebê de 1 ano, engatinhava pelo chão
da casa, enquanto Renato e Karina serviam o almoço: estrogonofe de frango,
acompanhado de vinho ou Fanta Laranja. “Minha família e eu culpávamos muito a
Karina”, lembrou Renato, à mesa, competindo com o som da televisão ligada. “Tinha
um programa, o Zorra Total, em que um personagem sempre perguntava [a respeito
do filho homossexual]: ‘Onde foi que eu errei?’ Eu me sentia assim.”
Ao contrário de Karina, Renato é um homem reservado, de 40 anos, que costuma ser
econômico nos gestos e nas palavras. Ele explicou que a visita ao ambulatório do
Hospital das Clínicas, três meses antes, havia sido um divisor de águas. “Depois da
consulta, parece que do dia para a noite a coisa se resolveu. Agora está definido, sei
que isso [a transexualidade] vem da gestação. Não culpo mais a Karina.” Contou
inclusive ter ajudado um amigo em situação parecida. “O filho dele se veste de mulher,
e ele também culpava a esposa. Eu disse: ‘Já coloca na cabeça que você está errado.
E, se quiser, vem comigo nas reuniões do hospital.’” Fez um mea-culpa sobre a
condição da filha: “O que a pessoa vai ser ou deixar de ser não quer dizer nada. Hoje
eu vejo criança menor do que a Mel e penso que a gente demorou muito. Fico
chateado por ter tirado dela todo esse tempo de menina.”
Perguntei ao casal como estava a vida escolar de Melissa depois da visita ao
ambulatório. Karina respondeu: “Uma professora falou que não ia participar ‘dessa
sujeira’. E outra disse que só iria aceitar tratá-la como menina se tivesse diagnóstico.”
Continuou, após uma pausa: “Mas a dona da escola, a Fernanda, falou que não era
patologia, e determinou que ela seria chamada de Mel. Agora, nas provas, só assina
Melissa. E só usa o banheiro feminino.” Já no que dizia respeito ao esforço
acadêmico, Melissa ia mal como qualquer criança saudável do 6º ano. “Outro dia ela
entregou uma prova de geografia com duas respostas. A professora mandou-a voltar,
e aí ela respondeu seis”, disse a mãe. “Só pensa em batom. O estojo de maquiagem
tem o dobro do tamanho do estojo de lápis.”

Terminado o almoço, seguimos de carro para o auditório de uma faculdade privada,


em Jundiaí, onde ocorreria a apresentação da escola. Melissa usava batom rosa e
uma camiseta, também rosa, estampada com a frase Normal is boring. Tinha as
bochechas coloridas com purpurina e o cabelo preso em rabo de cavalo. Uma vez na
faculdade, dirigiu-se aos fundos do palco, sentou-se ao lado de uma amiga e aguardou
de pernas cruzadas. “Olha essa flor, que linda”, comentou, sobre um prendedor de
cabelo em formato de rosa usado por outra garota.
Às 16h45 ela entrou pela primeira vez no palco, junto com todas as crianças do
fundamental, para cantar Imagine, de John Lennon. Karina acenou da plateia, e em
seguida comentou que estava aflita com a cerimônia de formatura, que ocorreria em
algumas semanas: “Quem organiza é uma empresa terceirizada. Morro de medo de
chamarem ela de Miguel. Ligo todo dia para confirmar isso.”
Às seis da tarde, Melissa voltou ao palco, dessa vez acompanhada apenas de sua
turma. Eram oito crianças dançando uma música pop no que deveria ser uma
coreografia ordenada. Mel era a mais desenvolta das meninas. “Bonitinha”, disse
Karina, rindo, para logo depois começar a chorar. “Tão difícil pensar que ela sempre
quis estar do outro lado e a gente não deixava. Sinto uma felicidade misturada com
culpa.”

No dia 1º de dezembro do ano passado, recebi uma mensagem de Karina pelo


telefone. “Roberto, percebi que você tem interesse nos nossos sentimentos”, ela
escreveu. “Essa noite tive um sonho muito ruim. Se você achar que é válido, vou te
enviar a mensagem que mandei no meu grupo do HC, junto com outros pais.” Em
seguida, encaminhou-me o seguinte relato:
[13h55, 1/12/2016]
Karina de Fazzio: Boa tarde, pessoal.
Ontem, estava pensando antes de dormir: por que a Mel está tão revoltada às vezes?
Se agora está tudo bem? Se ela é finalmente menina…
Pensei mil coisas e cheguei à conclusão de que é rebelde sem causa, ou até tem
causa, mas agora está tudo bem…
Enfim…
Sonhei que eu era transgênera, parece que foi uma resposta às minhas indagações.
No meu sonho meu namorado era o Renato, estávamos juntos há um tempo, e um dia
ele começou a agir diferente, e eu perguntei qual era o problema e ele falou, acho que
é porque sua roupa estava marcando (estava falando no caso do meu pênis), eu disse
mas você sabe, ele falou, sei, mas talvez não estou preparado para que as outras
pessoas saibam, gosto de você mas não estou conseguindo lidar com isso…
Terminamos, eu me senti revoltada com o mundo e queria que o Renato morresse.
Durante o sonho, lembro de ter colocado um biquíni maravilhoso, mas tinha que
passar tanta faixa para esconder o órgão que não dava para usar o biquíni 7
Também tiveram flashes de festas onde por mais que eu estivesse feliz eu logo
lembrava e me sentia infeliz… Eu nunca estava tranquila, parecia uma criminosa
querendo me esconder… Era horrível esse sentimento… De ser eu, mas não
realmente eu…
Quando eu acordei e percebi que era um sonho, foi um alívio imenso, um peso saiu de
minhas costas…
Ao mesmo tempo fiquei profundamente triste ao pensar que a Mel não acorda disso, e

talvez eu tenha sentido um pouco do que ela sente…

Pelas regras do Ministério da Saúde, são nove os hospitais públicos – a maior parte no
Sudeste – habilitados a fazer tratamento hormonal em pessoas que não se identificam
com o gênero de nascimento. Desses, cinco também fazem cirurgia de readequação
sexual.
O tratamento segue um parecer do Conselho Federal de Medicina que estipula em 16
anos a idade mínima para a utilização de hormônio do sexo oposto. Até lá, o
adolescente utiliza um bloqueador hormonal que retarda a entrada na puberdade.
Também é obrigatório que passe por dois anos de acompanhamento psicológico antes
que a transformação seja iniciada. A cirurgia só pode ser feita, se for o caso, aos 21
anos de idade.

“Devo evitar ao máximo que a criança sofra mudanças corporais específicas, como
barba, menstruação, mandíbula saliente e voz grave, que começam a surgir com a
puberdade”, contou-me a endocrinologista Leandra Steinmetz, do Instituto da Criança
do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Nos meninos, a puberdade costuma começar
entre 9 e 14 anos de idade. Nas meninas, entre 8 e 13. Logo nos primeiros sinais,
entramos com o bloqueador.”

Steinmetz e o também endocrinologista Durval Damiani são os médicos responsáveis


pelo tratamento hormonal das crianças e adolescentes atendidos no ambulatório. Em
termos práticos, a equipe de Alexandre Saadeh cuida da parte psicológica, ao passo
que Steinmetz e Damiani se encarregam da parte médica – nos casos em que
paciente e psicólogos concluem ser necessário o uso de hormônios. Quando o
paciente chega aos 21 anos, ele pode ser tratado cirurgicamente. Mulheres de
nascimento ganham a opção de extirpar a vagina, o útero e as mamas – e de
reconstruir a genitália de forma a transformá-la num pênis. Homens de nascimento
podem retirar o falo e diminuir o pomo de adão, além de construir uma vagina e fazer
implante mamário. Essa última etapa fica a cargo de uma terceira junta médica,
formada por cirurgiões.

Steinmetz e Damiani acreditam que a transexualidade é uma condição biológica que


acompanha o bebê desde o nascimento – condição que, segundo a endocrinologista,
tem a ver com a formação cerebral, e não dos órgãos genitais. “A cabeça está lá, foi
montada com uma fiação que já é masculina ou feminina”, ela me explicou, durante
uma conversa no Hospital das Clínicas. “A minha ideia é a de que, no paciente com
transtorno de identidade de gênero, a circuitaria do cérebro está ao contrário.”
Há uma teoria, defendida por Saadeh, de que a genitália se forma na décima semana
de gestação, ao passo que a identidade sexual, que depende do cérebro, se forma na
vigésima – o que abre brecha para um descompasso entre as duas. “Mas é apenas
uma teoria, entre várias outras. E há estudos que dizem o contrário”, frisou Steinmetz.
(Norman Spack, um respeitado endocrinologista da Universidade Harvard, costuma
dizer que a visão que temos hoje do cérebro é como as primeiras fotos da Terra feitas
na Lua – e que só saberemos o que rege a identidade de gênero quando pudermos ler
as placas dos carros.)

Obloqueador hormonal usado no HC é o acetato de leuprolida, um produto injetável,


importado, que deve ser aplicado na criança em intervalos de um a três meses. Uma
vez no corpo, ele se liga à hipófise – a glândula do cérebro responsável, entre outras
funções, por estimular a produção de hormônios nos testículos e nos ovários.
Desencadeia então um processo similar ao de um computador que desliga quando
superaquece.
“O bloqueador é um superagonista”, explicou Steinmetz, usando o termo químico que
define uma substância capaz de gerar uma resposta máxima de um receptor celular.
“No começo, ele provoca uma liberação muito rápida de hormônios na hipófise, até
que ela desliga.” Quando isso ocorre, o testículo para de receber o sinal para produzir
testosterona (ou, no caso da menina, o óvulo não recebe mais a ordem de produzir
estrogênio). A puberdade é interrompida.

Steinmetz diz que o bloqueador não tem efeito colateral grave – embora acabe
retardando um pouco a evolução óssea, algo que mais tarde pode ser recuperado.
Quando a criança – já então um adolescente – chega aos 16 anos, passa a ter a
opção de ser tratada com o hormônio invertido. Meninos de nascimento tomam
estrogênio, que estimula o crescimento de mamas; meninas de nascimento tomam
testosterona, que estimula a aparição de pelos. Atualmente a equipe da
endocrinologista acompanha duas crianças em fase de bloqueio e dezessete
adolescentes que tomam hormônios.

No início de dezembro do ano passado, encontrei Melissa, Karina e Renato no


Instituto da Criança do Hospital das Clínicas. Estavam lá para checar com a equipe de
Steinmetz se Melissa já começara a entrar na puberdade – e se, portanto, estaria apta
a usar o bloqueador hormonal.

Enquanto Karina aguardava na fila da recepção, a menina me contou, animada, que


seria oradora da turma na formatura, marcada para dali a dois dias. Logo Karina
voltou, trazendo uma etiqueta de identificação que deveria ser usada pela filha. Por
razões burocráticas, a etiqueta havia sido impressa com o nome registrado na carteira
de identidade: Miguel de Fazzio. Num gesto rápido, a mãe colou o pedaço de papel na
camiseta da filha, por dentro do casaco. “Ainda bem que ela está com sono. Nem viu.
Se não ia ser uma briga”, comentou.

Os três subiram. Como não pude acompanhá-los, Karina se prontificou a enviar


mensagens, mantendo-me a par do que acontecia. “Está dando problema com o
cadastro”, escreveu. “Porque a doutora escreveu o nome Melissa no prontuário, e o
documento dela é de Miguel. Já expliquei, mas está difícil. Vieram uns quatro aqui
perguntar. Imagina a cara da Mel.” Em seguida me mandou uma foto de duas
atendentes olhando ao mesmo tempo para o documento de identidade.
A visita demorou três horas, quase todas em compasso de espera. Na saída, Karina
contou que os médicos haviam pedido que Melissa voltasse em um mês, com novos
exames de sangue: “Pela avaliação física, acharam que ela ainda não está na
puberdade. Mas isso muda muito rápido.” Ao nosso lado havia uma criança com
paralisia cerebral e outra numa cadeira de rodas, respirando por um tubo de oxigênio.
Lá dentro, comentou Karina, havia também um menino com um tipo raro de deficiência
craniana. “Ver criança nessa situação deixa tudo diferente”, desabafou. “A gente
percebe que o nosso problema é pequeno.” Perguntei a Melissa se ela concordava.
Ela respondeu ter ficado com pena das outras crianças, e só. Karina explicou: “Ela
ainda não tem maturidade para isso. Nessa idade, acha que o problema que tem é o
maior do mundo.”

Pai, mãe e filha já atravessavam a rua, em direção ao carro, quando Renato


comentou, ainda angustiado: “Aqui é treta.” Ao que Melissa emendou com um rap do
grupo Apocalipse 16: “Muita treta, vish. Muita treta, vish.”

Voltei a encontrar Melissa dois dias depois, para acompanhar sua cerimônia de
formatura. Quando cheguei à casa da família, em Itupeva, ela estava sentada numa
cadeira, no meio da sala, sendo penteada por uma cabeleireira. Vestia um short jeans
e uma camiseta amarela com a frase Come Kiss Me. As unhas estavam pintadas de
vermelho. “É vermelho com pontinhos dourados”, explicou. “E nos pés fiz francesinha.
Achei mais delicado.”
A cabeleireira, Laís, perguntou se haveria valsa depois da cerimônia. Melissa
respondeu que sim. “E quem vai ser o seu príncipe?”, continuou Laís. “O meu pai.” Em
seguida, as duas passaram cinco minutos conversando sobre particularidades do
cabelo feminino. O assunto ia do tipo de franja à espessura dos cachos.

Dois meninos, Henrique e João, bateram à porta. Henrique, o mais velho, de 9 anos,
usava cordão prateado, boné para trás e uma luva sem dedos numa única mão – o
que, acrescido do fato de que seu cabelo era louro e liso, fazia com que lembrasse o
ator Macaulay Culkin quando jovem. João, o mais novo, estava sem camisa, com
chinelos do Capitão América. Os dois olharam para Melissa por um tempo, em
silêncio, até que o mais novo perguntou: “Amanhã você pode brincar, Mel?” Melissa
ignorou a impertinência da pergunta, e quis saber, dos dois, se ficara bem de cachos
(ela só tinha um cacho). Henrique respondeu: “Parece aquelas princesas de filme da
Disney.” Ela então os dispensou. “Gente, vocês poderiam me dar licença agora?”

A casa foi se enchendo de amigas e parentes de Karina, inclusive seus pais. Em certo
momento, eram seis as mulheres em volta de Mel. Algumas cuidavam do cabelo,
outras da maquiagem: batom, sombra e delineador nos cílios. Finda a sessão, a
menina levantou-se para se olhar no espelho. “Amei. Estou parecendo Cachinhos
Dourados”, comentou, como um Michelangelo que admirasse uma escultura recém-
acabada. “Chega, Mel, para de se amar”, cortou a mãe. Melissa subiu ao quarto (que
ela chama de closet), colocou o vestido vermelho comprado para a ocasião e saiu pelo
condomínio a desfilar.

“Noooooooossa!!!”, exclamou Henrique (o Macaulay Culkin), que brincava na porta da


casa. João (o menor) achou que o momento merecia uma delação premiada: “O
Henrique está apaixonado! Falou que você está mais bonita do que a namorada dele!”
Para despistar, Henrique apontou para um outro garoto: “O Miguel é que é caidinho
por você.” Uma menina intercedeu, dando o voto de Minerva: “Você é que é!” Findo o
debate, Henrique voltou à brincadeira interrompida, que consistia em jogar uma
garrafa de plástico para o alto, na esperança de que ela caísse de pé. “É impressão
minha ou você tá tentando me impressionar?”, indagou Melissa.

Por volta de sete da noite, Karina chamou a filha de volta a casa: “Mel, entra! Cansei!
Olha os cachos soltando tudo! Palhaçada!” Renato, de terno e gravata, já estava
pronto. A família partiu então para a cerimônia, na qual Melissa seria, de longe, a
menina mais produzida. “Eu já sabia que ela seria a única de vestido longo”, contou
Karina, mais tarde, vendo a filha no palco. “Tudo bem. As outras meninas tiveram isso
a vida inteira. Para ela é a primeira vez.”

Em março deste ano, o Fantástico, da Globo, veiculou uma série em quatro capítulos
sobre transgêneros. Melissa apareceu no episódio de estreia, que tratava de
identidade de gênero na infância (o programa ofereceu que ela tivesse o rosto
desfocado – ideia rechaçada por Karina, sob o argumento de que a filha não tinha
nada a esconder). Na entrevista à repórter Renata Ceribelli, Mel disse que o incômodo
em ser chamada de Miguel existiu desde “sempre, totalmente sempre”. E explicou:
“Para mim, eu estava fantasiada de menino até os 9 anos. Nove anos com uma
fantasia quente e pinicante.”
No dia seguinte, 800 pessoas pediram sua amizade no Facebook. “Só deixei umas
dez”, contou-me Karina, numa conversa por telefone (ela tem acesso à conta da filha).
“Um tal de Hugo Gloss comentou bastante sobre a Mel. Veio aquele programa da
Sonia Abrão pedir entrevista. Eu disse que não. Tentaram argumentar que seria ao
vivo. Falei: ‘Piorou.’”

Karina contou ter sido procurada também pela defensora pública que representou a
primeira criança a conquistar o direito de trocar o nome de registro pelo que usava
socialmente (o caso ocorreu em Mato Grosso, um ano atrás, com uma menina trans
de 9 anos). “Ela me disse que poderia ajudar a Mel nesse assunto. Mas tenho que
achar alguém que a represente na Defensoria Pública de Itupeva, e tenho medo de
não conseguir porque o povo daqui é mais difícil, do interior.” (Dias depois, ela
conseguiria que a carteirinha da escola fosse impressa com o nome “Melissa Doblado
de Fazzio”.)

Melissa jogava bola dentro de casa. “Peraí, Roberto”, pediu Karina, ao telefone, antes
de dar um pito na filha. “Mel, agora parou! Aqui não é campo para você jogar bola na
minha sala! Palhaçada!” Perguntei como havia sido a repercussão da reportagem na
escola. “Três crianças foram tiradas de lá pelos pais”, ela respondeu. “Uma mãe,
evangélica, falou para a diretora que a Mel era uma aberração. Tinha ouvido isso do
pastor.” Em resposta, a diretora pedagógica do colégio, Fernanda Lapenda, enviou
uma carta aos pais, explicando que “o único propósito da escola é o de respeitar e o
de fazer com que os alunos percebam e olhem para as diferenças com naturalidade,
tolerância e respeito”. Por fim, dizia que “questões religiosas não são discutidas e nem
têm espaço dentro do colégio”.

Mel também escreveu uma carta, a pedido de um blog chamado Geraldopost. Nela,
falava sobre a dificuldade de “viver uma vida que não é a sua”. “Já tive medo de as
pessoas saberem que eu já fui menino, de elas não gostarem de mim”, explicava,
contando como era triste ter de vestir bermuda em vez de vestido. “Eu olhava os
vestidos e pensava: ‘Que lindo! Será que um dia vou usar?’” Depois explicava como
sua vida melhorara a partir do momento em que passara a ser Melissa: “Por isso
devemos assumir o que somos, e quem, e o que nos faz realmente feliz (…) Estou me
sentindo livre, igual quando corro com meu cavalo, posso ir aonde eu quiser e fazer o
que quiser, sem ter medo de ser ‘tirada’ sarro ou sofrer, e ser deixada de lado.”

Terminava da seguinte forma:

Muitas crianças iguais a mim estão me procurando para me pedir ajuda e isso é muito
triste porque têm casos que os familiares não entendem, mas estou feliz em poder
ajudar. É por causa disso tudo que decidi fazer a entrevista, e por isso que sou quem
eu sou e não tenho vergonha de assumir nada.
Obrigada a todos que me apoiam, e os que estão falando mal de mim e da minha
família, espero que um dia entendam que não faço nada para prejudicar ninguém, sou
apenas como sou: “Feliz.”

Dias depois, viajei a Itupeva para um último encontro com Melissa e Karina. Era uma
terça-feira de sol, no fim de março, feriado de aniversário da cidade. Henrique, o
menino louro, andava de skate pelo condomínio. Outras crianças brincavam em roda
na entrada de uma casa. Mel estava deitada na cama, em seu quarto, que é decorado
com adesivos de cavalos. Fazia carinho em seu gato, Theo, enquanto assistia a uma
série de vampiros no celular. “Já vi milhões de vezes”, explicou, com naturalidade.
Depois contou que vinha sendo reconhecida na rua em função da reportagem. “E
também bombei nas redes sociais, mas, fora isso, está tudo igual.” Voltou a olhar para
o celular.
Karina tomava um guaraná na sala. “A Mel agora foi convidada para ir no programa da
Fátima Bernardes”, contou, em dúvida sobre o que fazer. “Mas eu quero que ela viva a
vida de uma criança normal, sem exposição.” Em seguida falou baixo, em tom
confessional: “Claro que ela não pode ouvir isso.” Revelou que Renato ficara feliz com
a aparição da filha na tevê. “Recebeu tanta mensagem, até de uns amigos machões.”
Ela também aprovara a reportagem. “Antes eu pensava que ter uma filha trans era um
castigo. Hoje acho que é um privilégio. A Mel me ensina a ser melhor, a não ter
preconceito.”

Àquela altura a família ainda não sabia quando Melissa começaria o tratamento com o
bloqueador hormonal – e muito menos com estrogênio, que só pode ser feito a partir
dos 16 anos de idade. “Todas as amiguinhas dela hoje têm peito”, disse Karina,
angustiada. “E a Mel em cinco anos ainda não vai ter?” Contou ter cogitado medicá-la
por conta própria (o hormônio é o mesmo da pílula anticoncepcional). “Mas o Saadeh
diz que isso é muito perigoso.” O psiquiatra também precisou explicar à menina que
ela terá de conviver por um bom tempo com o pênis. “Por duas vezes ela pegou uma
tesoura e perguntou se não podia resolver isso logo”, contou a mãe.

O telefone tocou. Era uma fotógrafa, perguntando se a família compraria as imagens


da formatura, que custavam mil reais. Karina desconversou. Ao desligar, mostrou-me
o retrato mais recente de Melissa com a turma da escola, o primeiro em que ela
posara como menina. Mel aparecia de braço levantado – como quem comemora uma
vitória – e fazendo bico – como numa selfie de musa fitness. Na foto do ano anterior,
quando ainda era Miguel, ela estava de pernas abertas, como se forçasse certa
aparência de masculinidade, e tinha o semblante mais triste. “Outro dia revi umas fotos
antigas da Melissa e chorei”, lembrou Karina. “Mas, por outro lado, olha isso: eu não
consigo mais falar dela no masculino. Antes eu me referia a ela como Mel no presente,
e Miguel no passado. Hoje, não. É tudo Melissa.”

A menina apareceu na sala: “Mãe, tem bala de canela?” Não tinha. Pegou uma fruta e
correu para a rua.

ROBERTO KAZ

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das
Letras