Você está na página 1de 28

Napoleão Bonaparte, o

último grande imperador


BIOGRAFIAS, GUERRAS, GUERRAS ANTIGAS, IDADE

MODERNA, PERSONALIDADES, SÉCULO XIX, SÉCULO XVIII NAPOLEÃO BONAPARTE,

O ÚLTIMO GRANDE IMPERADOR

* POR EUDES BEZERRA


Napoleão cruzando os Alpes, de Jacques Louis David. Museu Nacional de Castelo de Malmaison, França.

Inegavelmente uma das personalidades mais conhecidas da História, Napoleão

Bonaparte também impõe uma das mais peculiares biografias. Responsável por

modificações globais, Bonaparte salvou a recém-criada república francesa,

propagou os ventos da Revolução Francesa, cravou seu nome na História Militar e


mostrou que a paixão é transformadora. De berço humilde, o jovem corso se tornou

General aos 24 anos, estabilizou sua pátria amada, difundiu tecnologias, reformulou

o Direito e, embora o poder tenha acabado por lhe consumir, forneceu a centelha

libertadora para tantos outros povos que um dia se ergueriam para contestar e

derrubar a tirania.

O extraordinário poder deste mito não pode ser adequadamente explicado nem pelas

vitórias napoleônicas nem pela propaganda napoleônica, ou tampouco pelo próprio gênio

indubitável de Napoleão. Como homem ele era inquestionavelmente muito brilhante,

versátil, inteligente e imaginativo, embora o poder o tivesse tornado sórdido. Como

general, não teve igual; como governante, foi um planejador, chefe e executivo

soberbamente eficiente e um intelectual suficientemente completo para entender e

supervisionar o que seus subordinados faziam. (HOBSBAWM, 2014, p. 129-130)

Primeiros anos
Napoleão Bonaparte nasceu no dia 15 de agosto de 1769 em Ajaccio, na ilha mediterrânea
de Córsega, sendo o segundo filho de uma grande família de oito irmãos. Filho de Carlos
Maria Bonaparte e Maria Letícia Bonaparte, de ascendência toscana (italiana), sua família
provinha de uma nobreza baixa e até discriminada na Itália. Seu nascimento se deu pouco
depois da Córsega ser cedida pelos genoveses à França, o que o torna genuinamente
francês.

Aos 10 anos de idade o pequeno Napoleão foi enviado à França para ser educado e aos
15 começou a receber treinamento militar, onde não demoraria a despertar atenção por
sua grande dedicação aos estudos. Napoleão se destacava em matemática e possuía um
senso grandioso de história e geografia — Bonaparte parecia evocar grandes nomes do
passado, como o respeitado Frederico, o Grande, da Prússia (atual Alemanha). Contudo,
sua baixa estatura (1,60m) e desleixo com a aparência o fizeram sofrer bastante o que
atualmente chamam de bullying (algo que sofreria durante toda a juventude).

A Revolução Francesa
Em 1785, aos 16 anos, o jovem Napoleão concluiu seu treinamento militar em tempo
recorde, tornando-se segundo tenente de artilharia. Normalmente, o rigoroso curso de
artilharia levava três anos para ser concluído, Napoleão o concluiu em apenas 10 meses.
Como segundo tenente permaneceu até a fervilhante Revolução Francesa, em 1789.
Adepto das causas revolucionárias, atuou em sua defesa na Córsega durante os anos
seguintes, mostrando-se um entusiasmado militante da causa revolucionária.

Foi ali [Córsega] que ele teve, pela primeira vez, a sensação de provocar acontecimentos,

de fazer a História. Sensação totalmente nova, que o embriagou. (GALLO, apud: NETO,

2015, s/p, acréscimo nosso)

As ideias da Revolução Francesa não agradaram as nações vizinhas, que logo se


mobilizaram para formar a Primeira Coalização com fins de invasão e neutralização da
França. Os monarcas europeus receavam, entre outras coisas, que as ideias de cunho
iluminista se alastrassem pela Europa e que perdessem o poder diante das violentas
ações que os revolucionários franceses realizavam em seu país. Os receios aumentaram
significativamente quando o rei francês deposto, Luís XVI, foi guilhotinado em 21 de
janeiro de 1793. A famosa rainha Maria Antonieta também encontrou o mesmo fim que o
marido.

O regicídio originou a primeira aliança antifrancesa formada pela Áustria, Inglaterra,


Prússia, Espanha e Holanda. A Primeira Coalizão, como ficou conhecida, atacou o
território francês em diversos pontos, destacando-se os combates ao norte, próximos à
fronteira com os Países Baixos, e ao sul, no Porto de Toulon. A este importante porto o
grupo de Napoleão foi enviado.

Interessante abordar que a Revolução Francesa também injetou aos cidadãos franceses
uma grande dose de paixão à pátria. O próprio Napoleão grandemente incentivou o
nacionalismo, acreditando que somente através de soldados dedicados se poderia fazer
uma revolução europeia.

O Cerco de Toulon: o despertar do gênio militar


A Coligação liderada pelos britânicos haviam conquistado Toulon e, impotentes no mar, os
franceses recorreram ao plano formulado por Napoleão. Napoleão havia sido promovido a
capitão de artilharia e teria ficado horrorizado ao ver o plano criado pelos comandantes
franceses para tomar a cidade costeira. A estratégia seria confusa, desorganizada e
fadada ao fracasso. Napoleão também não desejava um alto número de mortos em
sucessivos combates frontais estúpidos e antiquados.
Desembarque britânico no porto de Toulon, França, 1793, de Forand A.

Bonaparte mostrou que Toulon poderia ser reconquistada a partir da captura de uma das
penínsulas ali existentes. As penínsulas se encontravam mal defendidas pela aliança
antifrancesa e a partir de suas colinas as bocas de fogo poderiam ameaçar seriamente os
navios anglo-espanhóis da Coligação no porto. Com os navios sob ameaça constante, a
Coligação não seria capaz de resistir ao cerco francês, pois, além do bombardeio aos
barcos e à própria cidade, as tropas em terra não receberiam mantimentos nem material
para continuar a luta.

O plano foi acatado e os preparativos começaram a ser feitos. A intromissão de Napoleão


só foi possível porque o exército francês passava por grandes modificações e a
competência havia se tornado prática usual em detrimento dos velhos vícios monarquistas
que promoviam oficiais devido à condição financeira. Napoleão, “sem” recear ser fuzilado
por insubordinação, mandou uma carta aos Representantes do Povo afirmando os erros
do planejamento de Toulon. Os Representantes deram razão ao jovem audacioso.
Quando a Península de Le Caire foi tomada pelos franceses em 21 de Setembro,
Napoleão, já promovido a major, pessoalmente tratou de aperfeiçoar a artilharia, assim
como melhorar sua disposição, o que potencializou os danos sobre a Coligação. Napoleão
também buscou concentrar o fogo de sua artilharia sobre os navios britânicos, fazendo-os
se retirar de vez do Porto de Toulon em 18 de dezembro.

Foram exatos três meses de cerco, um baixo número de mortos e feridos e a comprovação
de que a estratégia de Bonaparte estava correta. Pelo brilhantismo, Napoleão foi
novamente promovido em 21 de dezembro: tornou-se general de brigada, simplesmente
pulando duas patentes (de tenente-coronel e coronel, sucessivamente). O jovem corso
ainda contava 24 anos de idade.

Em agosto de 1793, a Marinha Real conquistou o porto de Toulon, que estava então

sitiado pelas forças revolucionárias francesas. Apesar de ter tido que suportar um

ferimento por baioneta, Napoleão assumiu o comando quando seu superior foi colocado

fora de ação. Seu fogo concentrado contra a esquadra inglesa afugentou-a do porto. Foi

saudado como um herói e promovido a general de brigada. (CAWTHORNE, 2010, p. 203)

A Baforada de Canhão
Em 1795 um governo moderado — o Diretório — assumiu o controle e uma rebelião teve
início em 3 de outubro, quando os pró-monarquia foram excluídos do novo governo.
Napoleão, pela sua reputação obtida em Toulon, ficou encarregado de proteger o recém-
criado governo em Paris, onde ficaria conhecido pela Baforada de Canhão.

Uma coluna de monarquistas marchou contra o Diretório e a Convenção Nacional, mas foi
dispersa por uma única rajada de artilharia — Baforada de Canhão — preparada por
Napoleão. Assim, diz-se que ele o jovem Bonarparte salvou a recém-criada república
francesa.

Em março de 1796 Napoleão se casou com Joséphine de Beauharnais, mas logo partiu
para assumir o comando do Armée d’Italie (exército francês na Itália).
Primeiro comando: a Itália
Recompensado com o comando do Exército Revolucionário Francês na Itália, Napoleão
assumiu o poder em 26 de março de 1796 e deu mostras definitivas do seu gênio militar ao
colecionar importantes vitórias, de modo relâmpago sobre piemonteses e austríacos: Lodi,
Castiglione, Arcola e Rivoli, uma a uma as batalhas foram vencidas por tropas que antes
da chegada de Napoleão se mostravam desmotivadas e com futuro incerto. Os próprios
austríacos se sentiram ameaçados com a possibilidade de uma derrota catastrófica,
quando o orgulhoso exército bonapartista se encontrava em ascensão e apenas 150 km
de distância de sua capital, Viena.

Na Batalha de Lodi (1796), Napoleão liderou pessoalmente o ataque com baionetas

através de uma ponte contra a retaguarda austríaca, o que lhe valeu o apelido carinhoso

de o “Pequeno Cabo”. (CAWTHORNE, 2010, p. 203)


Bonaparte sobre a ponte de Arcole, 1796. Pintura: Antoine Jean Gros, Palácio de Versalhes, ID.: MV-

6314-RF-271.

As vitórias de Napoleão Bonaparte o projetaram fortemente. Havia se tornado herói


nacional e chamado atenção de governantes estrangeiros. Passou a ser reverenciado por
soldados e civis onde passava e fez parte do grupo mítico de militares franceses que
conseguiram custosamente rechaçar os ataques da Primeira Coligação, que só
encontraram termo final em 17 de outubro de 1797, quando o Tratado de Campo Formio
foi ratificado. A Áustria amargou a derrota cedendo a Bélgica e a Itália à França.

Bonaparte conquistara doze ou mais batalhas em resultado de marchas sustentadas e

oportunas, da flexibilidade nas manobras e da capacidade de concentrar suas forças no

ponto mais vulnerável do inimigo. Essas demonstrações o fizeram o mais destacado

comandante da França. (GILBERT, 2005, p. 131)

Campanha no Egito
Em julho de 1798 os franceses invadiram o Egito em uma tentativa de minar o comércio
britânico com o Oriente. A invasão começou bem e logo os franceses tomaram as cidades
de Alexandria e do Cairo das mãos do império turco-otomano. No dia 21 de Julho 1798
Napoleão venceu de modo arrasador a Batalha das Pirâmides, próximo à Necrópole de
Gizé, onde aproximadamente 25 mil franceses derrotaram um imenso exército otomano
que pode ter alcançado 100 mil soldados.

A campanha francesa no Egito caminhava rapidamente, mas, no dia 1º de agosto, os


ingleses liderados pelo “Napoleão dos mares”, lorde Horatio Nelson, venceram a Batalha
Naval do Nilo, quando destruíram a frota francesa, deixando as forças terrestres francas
isoladas em terra.

A campanha no Egito terminou em 1801. Os britânicos permaneciam tão imbatíveis no


mar, quanto os franceses, quando sob o comando de Napoleão, mostravam-se nos
combates em terra.

Nessa ocasião, costuma-se censurar a atitude de Napoleão de retornar à França deixando


o exército francês no Egito. Contudo, Napoleão possuía outros interesses e dava mostras
de sua ambição: desejava o poder e um coup d’état [Golpe de Estado] já se encontrava
em marcha.
O 18 Brumário: o início da Era Napoleônica
Em 9 de novembro de 1799, Napoleão ascendeu ao poder como primeiro-cônsul por
ocasião do bem-sucedido golpe de Estado conhecido como 18 Brumário. O Diretório havia
sido derrubado e o Consulado se mostrava promissor: acreditava-se que o novo sistema
conteria as fortes agitações internas que ainda sacudiam a jovem república francesa.
Ainda em 1799, a Segunda Coalizão se originou a partir da união das coroas da Inglaterra,
Áustria, Rússia, Nápoles, Turquia, Portugal e dos Estados Papais. Algumas das
conquistas territoriais de Napoleão na Itália foram revertidas em prol da nova aliança, mas
logo a Rússia deixou a Coalizão quando o competente general francês André Masséna os
venceu na Suíça. Quando retornou a Paris, Napoleão reorganizou o exército reserva e
partiu para Itália em maio de 1800 para enfrentar e vencer mais uma vez os austríacos.

A Batalha de Marengo
Em 14 de junho de 1800, Napoleão Bonaparte conquistou uma importante vitória sobre os
austríacos em Marengo e mais uma vez obrigou o império austríaco a abandonar a
campanha no norte da Itália.

Batalha de Marengo, de Louis-François Lejeune, 1802. Museu Nacional do Castelo, Palácio de Versalhes,

França.
No momento mais delicado do evento, as forças sob a liderança de Napoleão se
encontravam em desvantagem e, por não disporem de força para atacar, retrocediam
pacientemente enquanto aguardavam reforços. Retrocederam calculadamente e em
ordem por aproximadamente seis longos quilômetros. Apesar do planejamento de
Napoleão, o tão esperado reforço de tropas demorava e a derrota francesa parecia
iminente.

Os austríacos acreditaram que a vitória estava garantida e soberbamente demoraram a


expedir a ordem final de ataque. Entretanto, no momento exato, os reforços franceses
chegaram como em um milagre, dando força suficiente para Napoleão impor sua liderança
em campo de batalha e tomar a vitória das mãos austríacas. O evento encerrou Segunda
Campanha Militar Francesa na Itália, deixando a Inglaterra sozinha na Segunda Coalizão.

Diante do impasse que se formou nos anos seguintes, franceses e ingleses assinaram o
Tratado de Paz de Amiens em 1802. Os britânicos continuaram soberanos nos mares ao
passo que os franceses em terra firme. O tratado trouxe paz à Europa, mas não era isso
que Bonaparte pretendia.

Desta forma se encerraram as chamadas Guerras Revolucionárias da França. Os demais


conflitos que se seguiram representam as Guerra Napoleônicas.

O Consulado e as reformas internas do Estado francês


Durante o período em que o Consulado ditava as regras na França, uma série de
melhorias foi executada para o fortalecimento nacional. Educação, economia, direito e
outros ramos de atividades do Estado passaram por modificações que influenciaram
nações estrangeiras. Contudo, também houve perseguição a grupos opositores e censura
à imprensa, pois as ideias da Revolução Francesa perderam parte do espaço que
dispunham.

Napoleão criou o Banco da França, que reduziu a inflação; fortaleceu a indústria e o


comércio com grandes obras públicas, como o Arco do Triunfo; instituiu o famoso Código
Civil Napoleônico, em 1804, que ainda hoje se encontra em vigor; a educação pública
passou a ser assunto de grande interesse do governo, onde cada vez mais recebeu
incentivos para a formação do caráter francês; e, entre outros temas, desvencilhou o
Estado e a religião, de forma a facilitar administração estatal.
O governo francês passou a ser mais eficiente e a adoração ao cônsul lhe rendeu o título
de cônsul vitalício, o que, em vias práticas, presenteou Napoleão com algo que em muito
lembrava o antigo regime monárquico. Entretanto, a França caminhava a largos passos e
isso agradou sua população que via através da figura de Bonaparte um futuro promissor.

O império e as Guerras Napoleônicas


No dia 2 de dezembro de 1804, na bela Catedral de Notre-Dame, Napoleão Bonaparte
assumiu o controle geral do Estado sob o nome de Napoleão I, quando, com ares de
déspota, coroou-se após tomar a coroa das mãos do Papa Pio VII. A atitude configura
como uma das mais emblemáticas da história francesa, quando a determinação de
Napoleão assustou a muitos. Repleto de orgulho, Napoleão I estava pronto para se lançar
em suas campanhas expansionistas.

Em 1805, a Terceira Coligação foi constituída — Áustria, Inglaterra e Rússia — para frear
as possíveis ações de Napoleão, mas falharam terrivelmente. Em outubro, os austríacos
não suportaram o cerco de Napoleão em Ulm. No mês seguinte a capital austríaca, Viena,
caiu. No Entanto, o moral das tropas coligadas melhorou com a contundente vitória do
mestre dos mares — lorde Nelson — na maior batalha naval das Guerras Napoleônicas, a
Batalha de Trafalgar.

Napoleão sabia que o grande trunfo de resistência da Inglaterra consistia no fato de se


localizar numa ilha e dispor de uma eficiente marinha. Isto é, para lograr êxito sobre a
adversária marítima, teria que desembarcar seu exército de campo na Grã-Bretanha. Para
isto, reuniu uma grande quantidade de barcos originários de territórios ocupados, criando
uma poderosa frota de alto mar.

A Batalha de Trafalgar
Em outubro de 1805, o jovem imperador francês se aproximava do ápice do seu poder.
Dentre seus principais objetivos, encontrava-se a conquista da Grã-Bretanha.
Teoricamente, seria fácil atravessar o Canal da Mancha e desembarcar suas tropas, no
entanto, o estreito canal estava bloqueado pela mais poderosa armada naval da época:
a Royal Navy [Marinha Real].
Batalha de Trafalgar, Clarkson Stanfield Frederick, séc. XIX.

As fragatas inglesas vigiavam os portos franceses mantendo as naus continentais presas


às docas. O mesmo ocorria nos portos espanhóis sob “controle” dos franceses no
Mediterrâneo, o que desmembrava a frota de Napoleão. Seria necessário juntar as duas
porções para se ter alguma chance real de invasão.

Em 21 de outubro de 1805, no Cabo de Trafalgar, na costa Espanhola, a Marinha Real


britânica liderada pelo almirante Nelson interceptou e confrontou a grande armada franco-
espanhola comandada por Villeneuve que tentava ir ao norte. No plano de guerra, a
batalha pendia a favor dos franco-espanhóis por se encontrarem em maior número —
trinta e três naves contra vinte e sete — e disporem de alguns dos melhores navios da
época, mas Nelson é que impressionou ao aplicar uma nova estratégia.

Nas disposições táticas, ao invés de formar a secular fila indiana e disparar os


desnorteados canhões em ataques de banda (atirando de lado), como fez Villeneuve,
Nelson dispôs seus navios em duas colunas e navegou sem disparar – impossível acertar
algo que não os próprios navios da outra coluna britânica – até estar entre a esquadra
adversária, acabando por anular grande parte da linha de tiro francesa. Neste ponto, os
canhões do almirante britânico dispararam à queima roupa.
Nelson havia ordenado que cada canhão fosse carregado com três balas. Os canhões
perdiam em alcance, mas captavam maior poder de fogo em curta distância. A estratégia
do comandante inglês pôs em xeque toda a esquadra adversária e arruinou para sempre
qualquer plano francês de invadir Londres.

Disposições das armadas na Batalha de Trafalgar, 1805. Imagem: autor desconhecido.

Incrivelmente, os britânicos venceram o embate sem perder um único navio e tendo o


saldo negativo de apenas 1.500 marinheiros entre mortos e feridos, enquanto que a
armada franco-espanhola amargava a perda de aproximadamente 20 naus (entre tomadas
e abatidas), 7 mil marinheiros mortos e a captura do próprio Villeneuve com outros 7 mil
soldados.

A grande perda inglesa foi a morte do almirante Nelson que salvou toda a Grã-Bretanha do
déspota francês. No auge do combate, um tiro disparado pela gata (máquina de guerra
semelhante à catapulta) do Redoubtable acertou a dragona do ombro esquerdo de Nelson.
O comandante morrera meia hora antes do final da batalha, mas imensamente orgulhoso
de tê-la vencido e servido à pátria inglesa, tornando-se possivelmente o maior herói da
Inglaterra.

Napoleão havia perdido sua frota, mas continuava implacável em chão firme e uma grande
batalha se aproximava.

A Batalha de Austerlitz: o maior triunfo de Napoleão


Também conhecida como a Batalha dos Três Imperadores, Austerlitz, disputada pouco
depois do fiasco de Trafalgar, em 2 de dezembro de 1805, pôs um fim ao decadente Sacro
Império Romano-Germânico, tirando a Áustria da guerra e humilhando o exército imperial
do czar Alexandre I, que amargou afirmando: “Somos crianças nas mãos de um gigante”.

No dia 2 de dezembro de 1805, Napoleão venceu a Batalha de Austerlitz abocanhando o máximo de

poder. Impôs uma humilhante derrota às forças combinadas da Áustria e Rússia e, em uma

demonstração de poder, condenou à morte milhares de soldados russos que fugiam em desespero.

Napoleão Bonaparte, exatamente um após sua autoproclamação a imperador, teve seu presente: a

Europa. Pintura: A Batalha de Austerlitz, de François Gérard, 1810. Obra constante no Palácio de

Versalles, França.

Antes do embate, Napoleão estava preocupado: dispunha de 68 mil soldados, enquanto a


armada austro-russa beirava os 100 mil (75% russos; 25% austríacos) e continham
aproximadamente o dobro da artilharia francesa. O déspota francês também estava longe
de casa e era inverno, o que complicava o trabalho da sua extensa linha de suprimento.
Os russos possuíam uma artilharia famosa e os austríacos eram tidos como os donos da
melhor cavalaria da época, mas os franceses também exibiam seu trunfo: o próprio
Bonaparte.

Napoleão, ciente de sua situação, mostrou o porquê de estar no pódio dos maiores
generais da história: estudou a região e decidiu que a luta deveria ocorrer em um planalto
20 km a leste de uma vila chamada Austerlitz, marchando com seu exército para lá. Na
noite anterior ao confronto, o general imperador instruiu pessoalmente seus soldados
sobre a linha de defesa, como manobrar durante o combate e quando e onde atirar.
Dividiu-as em norte (flanco esquerdo), centro (vanguarda) e sul (flanco direito). O moral
das tropas estava alto e, enquanto fazia a instrução, alguns de seus homens incendiavam
os colchões para iluminar o caminho do grande general.

Na manhã seguinte, na iminência da escaramuça, Napoleão acabara de enviar um


emissário portando suas exigências aos inimigos, quando expediu as últimas ordens aos
seus comandantes — finalizando o que Sun Tzu chamou de a arte de enganar o inimigo —
. Secretamente, também manteve tropas ocultas no tabuleiro de guerra atrás da neblina a
sudoeste e aguardava a chegada de outros 7 mil soldados vindos de Viena.

Diante dos falsos movimentos do exército francês, os comandantes austríacos e russos


entenderam os sinais da forma mais trágica possível, como prognosticara Napoleão:
interpretaram como demonstração de fraqueza do imperador francês quando este recuou
seguindo para Austerlitz, que os colchões queimados indicavam desordem e um possível
retorno dos franceses para casa, o que foi consubstanciado pela falsa retirada
desordenada da vanguarda napoleônica, o aparente desguarnecido flanco direito e o envio
do emissário. Acreditaram que Napoleão estava desorganizado, prestes a voltar à França
e, principalmente, blefando ao enviar o mensageiro exigindo rendição. E atacaram os
franceses.

Com quatro colunas (“quatro partes independentes”) a armada austro-russa priorizou o


ataque no flanco direito (sul) — caindo na armadilha de Napoleão —. A unidade mantida
na neblina surgiu, quase misticamente, conforme o Sol se erguia sobre Austerlitz —
surpreendendo os aliados — e improvisando uma linha de defesa. A Guarda Imperial
Francesa, a elite do exército, mostrou serviço flanqueando pela direita os atacantes deste
ponto, ao mesmo tempo em que os franceses barravam o avanço no norte. A vanguarda
francesa irrompeu com fúria desferindo o golpe final ao centro, despedaçando o exército
austro-russo em dois. O caos acabou instaurado, os comandantes não foram mais ouvidos
e todos iniciaram uma desesperada fuga, deixando para trás 180 canhões.

Quando o exército inimigo fugia pelo lago congelado de Satschen, Napoleão deu uma de
suas ordens mais cruéis: “atirem no gelo” — e os canhões destroçaram o lago congelado
levando consigo quatro mil soldados para a morte. Napoleão venceu incontestavelmente.

O estandarte que cada batalhão levava era tido como troféu em campo de batalha. Perdê-
lo significava desonra e indicava uma tremenda surra. Em Austerlitz, o exército francês
tomou 50 estandartes dos russos e austríacos, perdendo apenas um.

Em termos táticos, Napoleão foi definitivamente imortalizado como comandante militar.


Perdeu apenas 6.800 soldados e infligiu baixas de 12.200 (mortos e feridos), fez 15 mil
prisioneiros e capturou 180 peças de artilharia.

Essa batalha destruiu a Terceira Coligação.

O Bloqueio Continental
Na tentativa de arruinar a economia inglesa, Napoleão instituiu o Decreto de Berlim em 21
de novembro de 1806, o que deixava terminantemente proibido o comércio dos portos da
Europa Continental com os navios de bandeira britânica. Impossibilitado de transpor a
poderosa marinha inglesa, Bonaparte desejava arruinar sua economia.

Em terra, seus exércitos pareciam invencíveis, mas, enquanto não lograsse desembarcar

na Inglaterra e submeter sua mais determinada inimiga, não conseguiria instaurar, como

desejava, uma nova ordem europeia, sob sua liderança. Faltava-lhe para isso o domínio

do oceano. Com a esquadra esgarçada após a batalha naval de Trafalgar, não tinha como

atravessar o canal da Mancha. Dos mares eram senhores os britânicos. (SILVA, 2014, p.

23)

Os britânicos, por sua vez, responderam, entre outras coisas, com atitudes tipicamente
corsárias, nas quais todo navio de bandeira neutra que navegasse em alto mar seria
tomado e leiloado. Apesar da tentativa, o Bloqueio Continental não surtiu o efeito
esperado. O controle sobre tantos portos demandava grande empenho dos franceses e a
corrupção era um mal que parecia difícil de erradicar.
Surgem a Quarta e a Quinta Coalização
Não demorou para que a Quarta Coalizão fosse criada, sendo constituída em 1806 e
dessa vez integrada pela Inglaterra e Rússia em comum acordo com a poderosa Prússia,
que trouxe a Saxônia e a Suécia. Os inimigos mudaram, mas as vitórias continuaram
francesas. Em meados de 1806, os prussianos e saxônicos foram derrotados em Jena. No
início de 1807 as agressões cessaram após a inconclusiva Batalha de Eylau, quando uma
forte nevasca atrapalhou ambos os lados.

Mal o verão despontou em 1807 e Napoleão se lançou novamente contra os russos, que
novamente foram derrotados na Batalha de Friedland em 14 de junho. A Quarta
Coalização se desintegrou e o Tratado de Tilsit foi assinado. Neste tratado ficou estipulado
que o Império da Rússia pactuaria com o Bloqueio Continental.

A Quinta Coalizão — Áustria, Prússia e Suécia — surgiu em 1809 em meio a Guerra


Peninsular iniciada em 1807 e movida pela França contra os países da Península Ibérica,
Espanha e Portugal, mais a Inglaterra. A Áustria havia surpreendido Napoleão ao mais
uma vez partir para guerra contra o império francês.

Na Batalha de Aspern-Essling, ocorrida entre 21 e 22 de maio de 1809, contra os


austríacos, Napoleão Bonaparte sofreu sua primeira derrota comandando pessoalmente.
Essa batalha ganhou notoriedade por ter sido a primeira derrota do exército francês em
uma década. Contudo, nos dias 5 e 6 de junho, Napoleão arrebatou uma vitória arrasadora
na Batalha de Worms, onde infligiu mais de 40 mil mortes aos austríacos.

Novamente a Áustria capitulou diante do Grande Exército Francês.

A catastrófica Campanha da Rússia


Em 24 de junho de 1812, quando Napoleão invadiu o império russo, não imaginava que
seu exército composto por 600 mil soldados voltaria aos frangalhos à França e que ainda
seria forçado a abandoná-lo em difíceis condições em 5 de dezembro do mesmo ano, para
se acautelar de uma perigosa conspiração em Paris. Napoleão, mesmo doente, nutria
forças para continuar sua odisseia.
Retirada de Napoleão da Rússia, de Adolph Northen.

Motivada pelo descumprimento do Bloqueio Continental por parte da Rússia, o


comandante corso pôs La Grande Armée [O Grande Exército] em marcha sobre a terra
dos czares. Dentre os tantos fatores que contribuíram para a ruína francesa, encontram-se
o soberbo espírito da vitória dos invasores, incluindo do próprio Napoleão Bonaparte,
aliados a outros fatores como o rigoroso inverno russo e doenças das mais variadas.
A invasão só contou com uma grande batalha, a de Borodino, em dezembro, onde os
franceses venceram a armada imperial russa.

O principal trunfo da vitória russa consistiu na aplicação da técnica terra seca (arrasada ou
queimada), que consiste em destruir por inteiras cidades, vilas, lavouras e qualquer outra
coisa que pudesse aquecer e alimentar os soldados invasores, deixando estes à mercê
dos seus próprios suprimentos e logística.

A ideia, vinda de militares prussianos, destacando-se Karl Von Clausewitz, causou o efeito
esperado e Napoleão, dentre outros motivos, viu-se obrigado a retroceder a Paris. Neste
momento, o inverno se tornou mais rigoroso, os suprimentos escassos e os cavaleiros
cossacos passaram a fustigar o exército francês com táticas de guerrilha.

Estima-se que menos de 30 mil soldados franceses retornaram à França e La Grande


Armée nunca mais impôs a incrível força e qualidade que outrora se orgulhou. Os russos,
por seu turno, sofreram perdas humanas na proximidade das 230 mil vidas.

O tabuleiro inverte: Napoleão se defende, mas é atacando


Com o tabuleiro de guerra finalmente se mostrando favorável àqueles que por dezenas de
vezes foram humilhados pelo Império da França, a Sexta Coligação (1812-1814) se
originou como uma onda vibrante que arrebatou os surrados impérios da Áustria e da
Rússia, as hesitantes e imprescindíveis Prússia e Suécia, o obstinado Reino Unido, entre
diversos outros Estados germânicos e adjacentes.

As dificuldades se amontoavam ao exército francês que recebera uma gigantesca soma de


soldados inexperientes. Grande parte dos soldados veteranos já havia tombado nas
inúmeras batalhas, outros tantos cansados das batalhas sem-fim. A situação de Napoleão
cada vez mais se complicava, mas ele não desistira de unir a Europa sob seu obstinado
comando.

Na primavera de 1813, os franceses haviam sido forçados a recuar para o leste do Rio

Elba, e estavam se reorganizando para a ofensiva vindoura. Pela primeira vez em 20 anos

de guerra, havia quatro grandes nações confrontando a França simultaneamente — a

Rússia, a Prússia, a Áustria e a Grã-Bretanha; contudo, embora a maior parte de seu

exército consistisse em recrutas imaturos, Napoleão decidiu atacar antes que o inimigo

recebesse mais reforços. (GILBERT, 2005, p. 140)

No decorrer de 1813, uma série de confrontos exaustivos foi travada e marcada por
vitórias francesas: Napoleão venceu as batalhas de Lützen, em 2 de maio; de Bautzen, em
20-21 de maio; e a de Dresden, em 26-27 de agosto, na qual venceu a Coligação que
dispunha de quase 100 mil soldados a mais que o exército francês. Todavia, nenhuma das
batalhas foi a grande e destruidora que Napoleão ansiava, nenhuma lhe trouxe a
capitulação da Sexta Coligação.

Doravante, Napoleão sofreu uma derrota na Batalha de Kulm e uma trégua temporária foi
acordada. E os motivos eram vários: todos os envolvidos se encontravam exaustos
humana e materialmente após décadas de conflitos, onde milhões já haviam perecido. As
Guerras Napoleônicas haviam consumido intensamente recursos de toda ordem, destruído
parte da infraestrutura europeia e arruinado a vida de milhões de europeus. Só os russos
já haviam perdido quase tantos soldados quanto a malfadada campanha de Napoleão de
1812. O exército do Czar ainda se encontrava grandemente disperso, desmotivado e
vulnerável nas proximidades da França.

A trégua não durou e entre os dias 16 e 19 de outubro, a maior das batalhas da era
napoleônica ocorreu em Liepzig, na Alemanha. Também chamada de Batalha das Nações,
190 mil franceses enfrentaram 365 mil soldados da Coligação. Por algum momento, a luta
deu mostras de que os franceses a venceriam. Lutaram com grande determinação e
destreza, mas a superioridade quantitativa da Coligação (175 mil soldados a mais) pesou e
os franceses foram derrotados.

A derrocada francesa, a abdicação do imperador


Em 1814, o novo recrutamento massivo forneceu cerca de 100 mil soldados inadequados
a Napoleão, para que pudesse proteger as fronteiras do Império da França. Ainda, seu
exército de campo correspondia a apenas 40 mil soldados, aproximadamente. A
Coligação, diferentemente, avançava com soldados contados na casa das centenas de
milhares.

Napoleão, contudo, não se deixou impressionar, e assumiu a ofensiva. Apesar de sua

saúde declinante, ele demonstrou algo de seu antigo brilhantismo e desnorteou

frequentemente seus inimigos. Os franceses venceram uma série de batalhas no nordeste

da França no início de 1814. Os líderes aliados quase se entregaram ao pânico, mas

conseguiram refrear os nervos, e suas forças se acercaram de Paris. (GILBERT, 2005, p.

140)

Não tendo outra saída, assim como não desejando mal à sua amada França, o imperador
Napoleão I abdicou em favor do seu filho em dia 6 de abril de 1814, quando assinou o
Tratado de Fontainebleau. No entanto, seu título de imperador continuou mantido
virtualmente.

Napoleão I chegou ao seu exílio, na ilha de Elba, no Mediterrâneo, em 4 de maio de 1814.


Fez jus a uma pensão e conservou uma pequena guarnição de soldados que ficou à sua
disposição.
A despedida da Velha Guarda Imperial
Antes da partida, ocorreu um dos momentos mais melancólicos da Era Napoleônica,
quando, em 20 de abril de 1814, o imperador se despediu de sua leal Velha Guarda
Imperial.

O Adeus de Napoleão à Guarda Imperial no pátio do Cavalo Branco do Castelo de Fontainebleau, de

Antoine Alphonse Montfort, que retrata o melancólico 20 de abril de 1814 francês, quando ocorreu a triste

despedida de Napoleão e seus mais antigos e fieis camaradas.

Durante a despedida, pôde-se perceber a forte emoção dos velhos guerreiros. Em meio ao
discurso de adeus, diz-se ter sido possível escutar soluços advindos fileiras. A
camaradagem entre Napoleão e seus soldados foi reconhecidamente fraterna — ao ponto
de arrancar lágrimas daqueles homens já tão endurecidos pela guerra.

Antes de invadir o Império Russo, em 1812, não havia dúvida da força ímpar que o
exército francês representava — a família real portuguesa e imensa parte de sua corte
fugiram para o Brasil em 1808 apenas com o vulto de jovens recrutas franceses —. Além
de disciplinarmente treinado e bem estruturado, o exército francês era comandado por
aquele já reputado como lenda militar, o próprio Bonaparte.

Discurso de Napoleão aos oficiais da Velha Guarda Imperial:

Soldados da minha Velha Guarda, venho apresentar-vos minhas despedidas. Durante

vinte anos a fio, muitas e muitas vezes, deparei-me convosco, palmilhando o caminho da

honra e da glória. Nos dias que correm, como também, nos dias de nossos sucessos,

nunca deixastes de ser modelos de bravura e de lealdade.

Com homens de vossa estirpe, nossa causa não estaria perdida. Mas a guerra parecia

interminável. Corríamos o risco iminente de um conflito civil. Isso ocorrendo, a França

tornar-se-ia ainda mais infeliz. Eis por que sacrifiquei todos os meus interesses em prol

dos interesses da pátria e me afasto.

Quanto a vós, meus amigos, continuastes servindo à França. Para ela estiveram voltados

todos os meus pensamentos. Para ela convergirão sempre meus melhores anelos. Não

deploreis meu infortúnio. Se aceito sobreviver-me é, ainda, para servir vossa glória.

Pretendo escrever sobre os grandes feitos que empreendemos juntos. Adeus, filhos meus.

Gostaria de estreitar-vos a todos junto ao meu coração. Que eu beije, pelo menos, a vossa

bandeira!

[neste momento, Napoleão teria beijado a bandeira da França às lágrimas]

Adeus, mais uma vez, meus velhos camaradas! Que este último ósculo perpasse vossos

corações!.

Inesperadamente, este simbólico episódio ainda comportaria um capítulo, o final, pois em


18 de junho de 1815, nas proximidades de Waterloo, na Bélgica, todos se reuniriam mais
uma vez para marchar e sangrar sob as ordens do comandante e enfrentar a derradeira
Coligação Europeia como leões.

O Governo dos Cem Dias – Viva o Imperador!


O exílio na ilha de Elba tinha sido de reflexão e marasmo para Napoleão. Sua pensão não
estaria sendo paga e afastado se encontrava de sua família, deparou-se com os boatos de
que seu destino seria novamente mudado: seria transferido para uma ilha remota, no
Oceano Atlântico. Napoleão, como sempre, não se deixou impressionar e voltou à França
em 1º de março de 1815 – tal data de retorno diverge entre os pesquisadores
referenciados.

A notícia de que o imperador havia retornado à Europa Continental gerou tumulto e um ar


de mistério se fez presente. Bloqueios foram criados e destacamentos expedidos para
captura de Napoleão I.

Quando finalmente encontrado por tropas francesas, Napoleão, sozinho, encarando a linha
de tiro, teria se dirigido aos soldados e vociferado:

Aqui estou eu! Matem seu imperador, se assim o quiserem!

Os soldados não decepcionaram e teriam urrado:

Viva o imperador! Viva!

E mais uma vez, em marcha, o imperador e suas tropas se dirigiram à capital francesa,
Paris. Conta-se que Napoleão foi saudado e que as tropas que o encontravam no caminho
aumentaram o número de soldados a segui-lo. Assim, Luís XVIII e sua corte, que haviam
retornado ao poder, fugiram temendo a morte.

A Batalha de Waterloo
Restabelecido o poder, nova Coligação foi constituída e todos partiram para uma série de
confrontos marcados por vitórias de ambos os lados, tendo Napoleão, mesmo com a
saúde debilitada, vencido os embates que pessoalmente comandou.

Em 18 de junho de 1815, na Bélgica, ocorreu a última grande batalha das Guerras


Napoleônicas, a Batalha de Waterloo, onde alguns dos mais brilhantes generais e
marechais daquele tempo se enfrentaram em uma acirrada luta.

Napoleão sabia que o exército francês não conseguiria vencer a batalha se ingleses e
prussianos lutassem juntos. Com o declínio do exército francês após a Campanha da
Rússia, o exército prussiano voltou a ser o mais bem preparado e disciplinado da Europa.
Os aliados também possuíam dois competentes comandantes: o irlandês Arthur Wellesley,
o famoso duque de Wellington, e o não menos competente marechal prussiano Gebhard
Leberecht Von Blücher.
Sir Arthur Wellesley, o duque de Wellington, e Gebhard Leberecht Von Blucher. Pinturas: 1ª Thomas

Lawrence, Museu Wellington; 2ª autor desconhecido, Museu da Cidade de Berlim.

Iniciado o confronto, uma série de erros bizarros dos comandantes franceses acabou por
solapar os planos de Napoleão. Napoleão e o duque de Wellington se encontravam
equilibrados. Este contava com 68 mil soldados ao passo que aquele com 72 mil.
Napoleão imprimiu grande pressão sobre o britânico ao ponto deste ter que se
entrincheirar. O duque de Wellington, esperando pela participação do marechal Blücher,
recuou até uma cadeia de montanhas próxima a Waterloo.

A esta altura, Napoleão já havia despachado o marechal Grouchy, com 33 mil soldados,
para atacar os prussianos de Blücher, mas Grouchy não só se dirigiu na direção errada
como marchou lentamente. O comando do marechal francês teria sido tão bizarro que ele
e seus 33 mil soldados nem chegaram a participar da batalha.

Blücher chegou ao campo de batalha — com seus 28 mil soldados — acertando em cheio
o flanco direito dos franceses, como esperava o duque de Wellington. Contudo, os
franceses se seguravam eficientemente. Outro problema aturdiu Napoleão, quando uma
sucessão de erros dos seus comandantes, como o marechal Michel Ney, ocasionou o
desperdício de tropas. O próprio Ney, muitas vezes tido como um dos melhores do império
francês, desferiu ataques ineficientes que foram bloqueados por Wellington.

No clímax do embate, Napoleão então lançou a elite do exército francês para decidir de
uma vez por todas a batalha: a Velha Guarda Imperial marchou, mas teve seu avanço
dificultado pelo fogo concentrado da artilharia britânica que dedicou especial atenção à
elite francesa.

Napoleão decidiu utilizar a sua última e preciosa reserva — a sua famosa [Velha] Guarda

Imperial, a elite dos seus veteranos. Enviou dois batalhões contra os prussianos e, mais

uma vez, eles fizeram valer a sua reputação. Quando a Guarda Imperial entrava em

campo, os inimigos tremiam. Até então, ela nunca havia conhecido derrota em batalha. Os

dois batalhões varreram sozinhos 14 batalhões prussianos, estabilizaram a ala direita e

deram ao imperador a chance de lutar novamente contra Wellesley no centro.

(CARVALHO, 2015, s/p, acréscimo nosso)

Contudo, em meio ao grande poder de fogo propagado pela artilharia aliada e do ataque
geral liderado pelo próprio Wellington, a Guarda Imperial, pela primeira vez em sua
história, recuou. Isso fez com que o ânimo dos demais franceses ficasse aos frangalhos. A
derrota seria questão de tempo.

Mas os velhos soldados da Guarda ainda deram uma última demonstração de grandeza e
lealdade, ao possibilitar a fuga do imperador: Guarda se sacrificou de tal modo que
originou uma frase de efeito que hoje em dia estampa muros, fachadas e lemas de tropas
do mundo inteiro, inclusive do Brasil: “A Guarda morre, mas não se rende”. E, assim,
tombaram rugindo os mais ferozes leões de seu tempo.

A queda da Guarda Imperial é um dos pontos mais marcantes deste evento e suscita
diversas questões, pois muitas nações a reclamam como sendo proeza sua. Nas últimas
décadas historiadores têm atenuado o tal recuo da Guarda, indicando que ela teria mais se
reorganizado para dar fuga segura ao imperador Napoleão I, que propriamente recuado
em seu último ato nos campos da morte.

Ainda, outros fatores como os erros grosseiros orquestrados pelos marechais Grouchy e
Ney, além da decadente saúde de Napoleão, têm reacendido o debate sobre a Batalha de
Waterloo.
De acordo com o diário de comando do próprio duque de Wellington:

A Batalha de Waterloo foi a coisa mais próxima de dar errado que alguém jamais viu na

vida. (CAWTHORNE, 2010, p. 203)

O fim
Quatro dias após Waterloo, em 22 de junho de 1815, o imperador da França Napoleão I
abdicou para ser definitivamente exilado na remota ilha de Santa Helena, uma ilha ao sul
do continente africano, no Atlântico Sul.

Em mais um emocionante pronunciamento ao povo francês, Napoleão, no Palácio de


Eliseu, teria dito:

Franceses, ao começar a guerra para defender a independência nacional, eu contava com

a unificação de todos os esforços, de todas as energias e com o concurso de todas as

autoridades nacionais; tinha razões para esperar o sucesso e desafiei todas as

declarações das potências contra minha pessoa.

As circunstâncias parecem mudadas.

Eu me ofereço em sacrifício ao ódio dos inimigos da França. Esperamos que eles sejam

sinceros em suas declarações e que não vos odeiem mais do que a mim.

Minha vida política está terminada e proclamo meu filho, sob o nome de Napoleão II,

imperador dos franceses.

Os ministros atuais formarão provisoriamente o Conselho de Governo. O interesse que

tenho por meu filho me leva a solicitar das Câmaras que organizem, sem demora, a

Regência, através de ato legal.

É necessária a união de todos para a salvação pública e para preservar a independência

nacional.

Morre o homem, consagra-se o mito


Em 5 de maio de 1821, o último grande imperador da história e gênio militar, Napoleão
Bonaparte, fechou seus olhos para o mundo. Contava apenas 51 anos de idade. Seu
corpo atualmente repousa na magnífica tumba de Les Invalides, em Paris.

Pois o mito napoleônico baseia-se menos nos méritos de Napoleão do que nos fatos,

então sem paralelo, de sua carreira. Os homens que se tornaram conhecidos por terem
abalado o mundo de forma decisiva no passado tinham começado como reis, como

Alexandre, ou patrícios, como Júlio César, mas Napoleão foi o ‘pequeno cabo’ que galgou

o comando de um continente pelo seu puro talento pessoal. […] Todos os homens comuns

ficavam excitados pela visão, então sem paralelo, de um homem comum que se tornou

maior do que aqueles que tinham nascido para usar coroas. Napoleão deu à ambição um

nome pessoal no momento em que a dupla revolução tinha aberto o mundo aos homens

de vontade. E ele foi ainda mais. Foi um homem civilizado do século XVIII, racionalista,

curioso, iluminado, mas também discípulo de Rousseau o suficiente para ser ainda o

homem romântico do século XIX. Foi o homem da Revolução, e o homem que trouxe

estabilidade. Em síntese, foi a figura com que todo homem que partisse os laços com a

tradição podia se identificar em seus sonhos. (HOBSBAWM, 2014, p. 130-131)