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Princípios

da Gestão Integrada de
Recursos Hídricos

Pieter van der Zaag and Hubert H.G. Savenije

Delft, May 2012


Princípios
da Gestão Integrada de Recursos
Hídricos
Pieter van der Zaag e Hubert H.G. Savenije

Tradução: Virgínia Kraemer


Revisão: Patrícia Andrade

Índice

1. Introdução 1
2. Conceitos e definições 3
2.1 O ciclo da água 3
2.2 Três características que fazem da água especial 4
2.3 Os usos e o valor da água 5
2.4 Gestão integrada de recursos hídricos 8
2.5 Princípios políticos 11
2.6 Sustentabilidade dos recursos hídricos 13
2.7 Desenvolvimentos históricos: até a GIRH 15
2.8 Importantes temas de debate 22
2.9 Exercícios 24
2.10 Referências 25
3. Recursos Hídricos 27
3.1 O ciclo hidrológico 27
3.2 Balanço hídrico 31
3.3 Recurso de águas subterrâneas 36
3.4 Exercícios 39
3.5 Referências 39
4. Demanda de água 41
4.1 Estimativa de demanda de água urbana 42
4.2 Gestão de demanda de água 49
4.3 Cobrança de água urbana 53
4.4 Requerimentos ambientais de água 65
4.5 Demanda de água para agricultura 69
4.6 Demanda de água para hidrelétricas 74
4.7 Exercícios 76
4.8 Referências 77
5. Alocação de água 79
5.1 Equilíbrio entre demanda e fornecimento 80
5.2 Questões na alocação de água 86
5.3 Conclusão 91
5.4 Exercícios 92
5.5 Referências 93

6. Gestão de águas transfronteiriças 95


6.1 Introdução 95
6.2 Convenção das Nações Unidas sobre Cursos d'Água 97
6.3 Aplicação dos princípios 100
6.4 Além do rio: os benefícios da cooperação 105
6.5 O dilema do compartilhamento de águas transfronteiriças 108
6.6 Construção conjunta de infraestruturas 110
6.7 Conclusão 113
6.8 Referências 115

Irrigantes reparando um canal no México


Capítulo 1

Introdução
Pieter van der Zaag

A aula sobre Princípios de Gestão Integrada de Recursos Hídricos é um tema


compulsório do curso (ambos para a Gestão de Qualidade de Água, Gestão de Recursos
Hídricos e especializações em Gestão de Serviços de Água). A mesma fornece uma
introdução à visão e técnicas atuais sobre a gestão sustentável e integrada dos recursos
hídricos.

O objetivo de aprendizagem dessas aulas, é a familiarização profissional com os


critérios mais atuais, contextos e conceitos sobre a gestão integrada de recursos hídricos
que estão em debate nos fóruns regionais e internacionais. Ela também visa lançar uma
base sólida para o resto do curso.

Após seguir esta série de aulas, o participante estará apto a apresentar os principais
argumentos para um enfoque integrado no campo da gestão de recursos hídricos e a
reproduzir os principais objetivos do debate; ele também estará apto a listar os mais
importantes aspectos da gestão de recursos hídricos, de qualidade de água e de serviços
de água; e também a demonstrar a essência da participação do governo e do setor
privado, gestão de demandas, água para desenvolvimento sustentável e os mais comuns
arranjos institucionais.

Essas aulas introduzem os mais importantes conceitos sobre GIRH e suas definições,
descrevendo também os principais debates em andamento (capítulo 2). Depois de
descrever o ciclo da água, o balanço hídrico e a disponibilidade de água (cap. 3), a
demanda de água será discutida com detalhes (cap. 4). Algumas considerações gerais
serão feitas a respeito de alocação de água entre setores e países (cap. 5). Governança de
águas é apresentada, desde que governança é vista por muitos como um ponto crucial na
resolução de problemas de água existentes ou iminentes (cap.6). A aula termina com a
discussão de temas pertinentes que já são amplamente discutidos (cap. 7).

1
Campos de arroz nativos em Niomoun, Basse Casamance, Senegal (Google Earth, April 2007)

2
Capítulo 2

Conceitos e definições
Pieter van der Zaag e Hubert H.G. Savenije

2.1 O ciclo da água


O ciclo anual da água, da chuva ao escoamento é um sistema complexo, onde vários
processos (infiltração, escoamento superficial, recarga, re-infiltração, reciclagem da
umidade) são interconectados e interdependentes, sendo somente uma direção de fluxo:
à jusante. Uma bacia é, portanto um sistema único e mais do que a soma de um grande
número de subsistemas (fig. 2.1)

Figura 2.1: O ciclo da água (Pallett, 1997: 20)

O uso da água está embutido no sistema hidrológico. Portanto, é importante que


consideremos o sistema hidrológico, e aloquemos nesse sistema, o nosso uso de água.

A origem da água vem do sistema hidrológico. Se a água é finita, é também renovável


através do ciclo da água. O sistema hidrológico gera a água de que necessitamos para
beber e para outros usos domésticos, para a produção agrícola (alimentada tanto pela
chuva quanto por irrigação), para a produção industrial, recreação, manutenção do meio
ambiente, etc.

3
O sistema hidrológico também recebe fluxos de retorno de água do uso humano. Esta
não é uma forma usualmente reconhecida, conhecida como vapor de água da
transpiração das plantações e evaporação de lagos naturais e artificiais (então chamados
retorno da umidade). Os fluxos de retorno "cinza" são geralmente mais conspícuos
(distintos), do que a água de esgoto de cidades e indústrias que retornam aos rios. Estes
fluxos podem também percolar para aquíferos, geralmente carregando poluentes (ex. da
irrigação). Em áreas de captação seriamente comprometidas, usuários à jusante do rio
possivelmente dependem dos fluxos de retorno como fonte de água.

O uso da água, portanto, influencia o regime de fluxo e tem impactos à jusante, tanto
em termos da qualidade de água quanto de sua quantidade. O uso da água sempre
implica "olhar à montante" para acessar a disponibilidade de água e "olhar à jusante"
para acessar possíveis efeitos a terceiros da minha atividade. Muitas pessoas, no
entanto, se esquecem da última parte e tendem a olhar somente na direção do rio acima,
preocupados em garantir o suprimento de água... (fig. 2.2)

Montante Meu uso Jusante


de água

Figura 2.2: Todos vivem à jusante..., e olham para montante

2.2 Três características que fazem a água especial


A água tem pelo menos três importantes atributos de ligação com a gestão:

 Água doce é vital para a manutenção da vida, para a qual não existe substitutivo.
Isso significa que a água tem um (alto) valor para seus usuários.

 Apesar de a água ser um recurso renovável, é prático dizer que ela é um recurso
finito. Muitos usos de água são, portanto, subtraíveis, o que significa que o uso por
alguém pode impedir o uso por mais alguém.

 A água é um recurso instável. Portanto, é difícil de acessar (as variações) no estoque


e fluxo do recurso e de definir os limites do mesmo. Isso complica no planejamento e
monitoramento da subtração assim como a exclusão daqueles que não abstraem água.
Sua natureza inconstante faz com que seu aproveitamento seja mais dispendioso,
requerendo, por exemplo, a construção de reservatórios.

A natureza vital da água determina suas características de bem público. Sua natureza
finita lhe confere propriedades de um bem privado, podendo ser apropriada e usufruída
privativamente. A natureza instável da água, e os altos custos para sua manutenção de
forma despoluída e satisfatória para o consumo da população mundial, lhe conferem
propriedades potenciais, formando um pool comum de recursos.

A gestão de recursos hídricos visa à conciliação desses vários atributos da água. Esta

4
não é obviamente uma tarefa fácil. O regime de propriedade e os arranjos de gestão de
um sistema de recursos hídricos são, por essa razão, frequentemente complexos.

Deve-se observar que não existe outro recurso natural com a mesma combinação dessas
três características (tabela 2.1)!

Tabela 2.1: Aspectos da água e como se eles se aplicam a outros bens (after Savenije, 2002)
Vital, nenhum substituto Finito, escasso Instável
Ar + +
Terra + +
Água + + +
Combustível + +
Comida + +
...

2.3 Os usos e o valor da água

Uso da água

Existe um grande número de tipos de


uso da água. Entre eles estão:
 Agricultura de sequeiro
 Irrigação
 Uso doméstico em centros urbanos
e áreas rurais
 Pecuária
 Usos industriais e comerciais
 Instituições (ex. escolas, hospitais,
prédios do governo, instalações
esportivas, etc)
 Disposição de lixo e de esgoto
 Refrigeração (e.x. para geração de
energia térmica)
 Hidrelétrica
 Navegação
 Recreação
 Pesca
 O meio ambiente (conservação da
vida selvagem, da natureza etc)

Figura 2.3: Uso da água na África do Sul em


1995 e 2020 (Pallett, 1997:38)

5
Demanda e uso da água

Demanda por água é a quantidade de água requerida num certo ponto. O uso da água se
refere à quantidade real chegando naquele ponto.

Podemos distinguir usos subtraíveis de não subtraíveis (como navegação, recreação,


disposição de água servida por diluição); assim como usos consumíveis e não
consumíveis. Uso consumível é a porção de água subtraída que se torna indisponível
para outros usos por causa da evaporação, transpiração, incorporação a produtos
manufaturados e colheita, criação ou poluição.

Os termos "consumo", "uso", e "demanda" são geralmente confundidos. A quantidade


de água que realmente chega ao ponto onde é requerido, normalmente é diferente da
quantidade requerida. Somente uma parte da água usada é realmente consumida, que se
dá devido à a perda pelo sistema de recursos hídricos. Fluxo de retorno de uma cidade,
por exemplo, pode chegar entre 20 a 40% do total da água bruta abstraída. Fluxos de
retorno de campos irrigados podem envolver frações similares de fluxos de retorno. Em
ambos os casos a qualidade da água desses fluxos podem torná-los inapropriados para
reuso sem um prévio tratamento ou diluição.

Existe uma confusão similar quando se fala sobre perdas de água. Depende da escala na
qual se considera perda de água ou não. Em escala global, nenhuma água jamais é
perdida. Na escala de um esquema de irrigação, uma eficiência de distribuição de água
de 60% realmente significa que um pouco menos da metade da água é perdida, o que
não atende sua destinação pretendida (isto é, a raiz das plantas). Parte dessa água, no
entanto, pode retornar para o rio e se tornar disponível para um usuário rio abaixo.
Entretanto, na escala da bacia, é o uso líquido consumido, que é a transpiração do
cultivo (60% nesse exemplo) mais a parte da evaporação das "perdas de água" que
podem ser realmente consideradas perdidas (fig. 2.4).

Figura 2.4: Uma cascata de irrigantes ineficientes; qual é a eficiência total da bacia?

6
Enquanto o total disponível de água doce é limitado (finito), a demanda cresce.
Portanto, a pressão sobre nossos recursos hídricos aumenta. Se também considerarmos
as possíveis implicações das mudanças de clima, isto é, um aumento na variação de um
evento de seca ou enchente em particular, a parte utilizável da água pode realmente
diminuir, aumentando posteriormente a pressão sobre a água e a competição pela
mesma. Consequentemente, a importância da área da gestão para os recursos hídricos.

O valor da água

Os vários usos da água agregam valores nos diferentes setores da economia. Alguns
setores podem usar pouca água, mas podem contribuir significantemente com o produto
nacional bruto de uma economia (ver tabela 2.2). Outros setores podem usar muita água
e contribuir relativamente pouco para a economia. O valor agregado de alguns usos de
água é difícil, se não impossível de se medir. Considere por exemplo o uso doméstico
de água: como quantificar o valor para um fornecimento de água adequado para esse
setor? E qual é o valor da água remanescente nos rios para se satisfazer os
requerimentos ambientais de água?

Tabela 2.2: Contribuição de vários setores da economia da Namibia para o Produto


Nacional Bruto (PNB), e a quantidade de água usada em cada setor (Pallett,
1997: 102)
Setor Uso de água Contribuição para o PNB
3
(Mm /ano) (%) (%)
Irrigação 107 43.0 3
Pecuária 63 25.3 8
Doméstico 63 25.3 27
Mineração 8 3.2 16
Indústria e comércio 7 2.8 42
Turismo 1 0.4 4

Total 249 100.0 100

Os danos para uma economia devido à escassez de água podem ser imensos. É notório
que, por exemplo, existe uma correlação positiva entre o índice da bolsa de valores do
Zimbabwe e as chuvas. A seca de 1991/92 provocou um impacto negativo na economia
do Zimbabwe (quadro 2.1).

Quadro 2.1: O impacto da seca no Zimbabwe

Durante a seca de 1991/92, a produção da agricultura do Zimbabwe caiu 40% e 50% e sua
população teve que receber assistência alimentar e abastecimento de água emergencial,
através de um maciço programa de perfuração profunda, visto que muitos poços e cisternas
rurais secaram. O abastecimento de água urbana foi severamente restringido com
racionamentos sem precedentes. A geração de energia em Kariba caiu 15% causando
severas restrições de energia. Como resultado, o produto interno bruto caiu 11%.

O valor e preço da água são temas de um caloroso debate. Normalmente, o foco está no
valor e preço de um serviço específico de água, como abastecimento urbano de águas.
Apesar de fazer parte de um mesmo ciclo hidrológico, o valor da água difere,
dependendo de quando e como ele ocorre. Se a chuva é geralmente considerada como

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uma mercadoria gratuita, entre todos os tipos de água, ela é a que tem maior valor. Isso
se deve ao fato de que a chuva representa o ponto de partida de um longo caminho
através do ciclo hidrológico (infiltração, recarga de águas subterrâneas, reciclagem da
umidade, transpiração, escoamento superficial, re-infiltração, percolação) (Hoekstra et
al., 2001). Portanto, a chuva oferece muitas oportunidades para uso e reuso: em
agricultura de sequeiro, irrigação, em uso industrial e urbano, serviços ambientais etc.

As águas dos rios têm um valor menor que o da chuva. Mas essa água "azul" também
tem valores diferentes, dependendo de onde ela ocorre. O fluxo de água durante a
estação seca (fluxo de base resultante da infiltração de água subterrânea) tem um valor
relativamente alto, porque ela é um recurso razoavelmente seguro justamente quando a
demanda por ela é maior. Em contraste, fluxos de pico durante a estação chuvosa têm
um valor menor, apesar dos mesmos fornecerem importantes serviços, como recarga de
aquíferos, pulsos de águas essenciais para ecossistemas e enchimento de reservatórios
para uso futuro. O maior fluxo de pico ocorre como uma inundação destrutiva e tem um
valor negativo.

2.4 Gestão integrada de recursos hídricos

Existe uma crescente consciência de que é necessária uma abrangente gestão de


recursos hídricos, por que:
 Os recursos de água doce são limitados;
 Esses recursos limitados de água doce estão ficando mais e mais poluídos, tornando-
os impróprios para consumo humano e para manter o ecossistema;
 Esses recursos limitados de água doce têm que ser divididos entre as necessidades e
demandas concorrentes numa sociedade;
 Muitos cidadãos ainda não têm acesso à fontes suficientes e seguras de água doce;
 Tem-se progressivamente constatado que existe um grande potencial de aumento na
produção da safra e de se alcançar garantia de comida através de usos mais eficientes
da chuva com a melhoria do solo, conservação da água e técnicas de colheita;
 Estruturas de controle da água (como barragens e diques) frequentemente podem
causar consequências indesejáveis ao meio ambiente;
 Existe uma relação íntima entre água subterrânea e água de superfície, entre água
costeira e água doce, etc. A regulação de um só sistema pode não levar aos resultados
desejados.

Consequentemente, aspectos econômicos, sociais, ecológicos, legais e de engenharia


devem ser considerados, como também os aspectos quantitativos e qualitativos,
abastecimento e demanda. Além disso, o "ciclo de gestão" (planejamento,
monitoramento, operação e manutenção, etc.) deve ser consistente.

A gestão integrada de recursos hídricos procura, então, conduzir os recursos hídricos de


uma maneira ampla e holística. Deve-se, portanto, considerar os recursos hídricos sob
diferentes perspectivas e dimensões. Uma vez consideradas essas várias dimensões,
decisões e arranjos apropriados podem ser feitos. A seguir são apresentadas as quatro
dimensões que a gestão integrada de recursos hídricos leva em consideração (Savenije
and Van der Zaag, 2000; veja também Figura 2.5 e Quadro 2.2):

8
1. Os recursos hídricos, levando em conta o ciclo hidrológico completo, incluindo
reservas e fluxos, assim como a quantidade e a qualidade da água; diferenciar, por
exemplo, chuva, umidade do solo, água de rios, lagos e aquíferos, em wetlands e
estuários, considerando também fluxo de retorno etc.

2. Os usuários de água, todos os interesses setoriais e stakeholders

3. A dimensão espacial, incluindo:


 A distribuição espacial dos recursos hídricos e usos (e.x. bacias hidrográficas
bem irrigadas à montante e planícies áridas à jusante)
 As várias escalas espaciais na qual a água está sendo manejada, por vários
usuários individuais, grupos de usuários (ex. comitês de usuários), divisores
de água, represas, bacias (internacionais); e os arranjos institucionais que
existem nessas várias escalas.

4. A dimensão temporal; levando em consideração a variação temporal em


disponibilidade de e demanda de recursos hídricos, como também as estruturas
físicas que veem sendo construídas para regularizar flutuações e para melhor
equilibrar fornecimento com demanda.

Figura 2.5: Três das 4 dimensões da Gestão Integrada de Recursos Hídricos (Savenije,
2000)

A Gestão Integrada de Recursos Hídricos, portanto, certifica o ciclo da água completo


em todos os seus aspectos naturais, assim como os interesses dos usuários de água nos
diferentes setores de uma sociedade (ou de toda uma região). Tomadas de decisões
envolvem a integração dos diferentes objetivos, onde for possível, e compensação ou
estabelecimento de prioridades entre esses objetivos, onde necessário, considerando- os
cuidadosamente de uma maneira informativa e transparente, de acordo com os objetivos
e as restrições sociais (Savenije and Van der Zaag, 2000; Loucks et al., 2000). Cuidados
especiais devem ser tomados ao se considerar escalas espaciais, em termos de variação
geográfica na viabilidade de água e as possíveis interações entre montante e jusante,
como também escalas de tempo, como as flutuações naturais sazonais, anuais e de longo
prazo na disponibilidade de água e nas suas implicações dos desenvolvimentos
presentes para as futuras gerações. Resumimos a seguir nossas definições:

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Quadro 2.2: As quatro dimensões da GIRH (Savenije, 2000)

Dimensão 1: Recursos Hídricos


Os recursos hídricos incluem todas as formas de ocorrência de água incluindo água salina e
subterrânea. Uma distinção interessante que pode ser feita é entre água azul e água verde.
Água azul é a água que corre nos rios, lagos e aquíferos rasos, têm recebido toda a atenção
por parte de engenheiros e planejadores de recursos hídricos. Água verde é a água da zona
insaturada do solo responsável pela produção de biomassa e tem sido muito negligenciada,
mas ela é responsável por 60% da produção mundial de alimentos e por toda a biomassa
produzida nas florestas e pastos. É o recurso mais sensível à degradação. Água fóssil está
nos aquíferos profundos que contêm água não renovável, deveriam ser considerados como
recursos minerais que podem ser usados somente uma vez ao custo de uso futuro.

Dimensão 2: Usuários de água


Existem diferentes usuários e funções da água. As funções podem ser de produção (para
atividades de produção econômica), reguladoras (para manutenção do equilíbrio dinâmico
em processos naturais), de transporte (para sustentar as formas de vida) e de transferência
(como a contribuição para a cultura, religião e paisagem). Os usos incluem: domésticos,
industriais, agricultura, pesca, ecossistemas, hidrelétrica, navegação, recreação, etc.
Usuários de água podem ser consuntivos e não-consuntivos (geralmente dentro do curso
d'água. Além da quantidade, os usuários dependem largamente da qualidade do recurso.
Em relação ao uso consumível um importante conceito é o de água "virtual", onde os
produtos são expressos pela quantidade de água necessária para a sua produção. Esse
conceito é útil tanto como medida de eficiência como para a discussão sobre segurança
alimentar.

Dimensão 3: Escalas espaciais


Assuntos de recursos hídricos são evidentes em diferentes níveis: internacional, nacional,
província, distrital e local. Paralelamente a esses níveis administrativos estão os limites de
sistemas hidrológicos como bacias hidrográficas, sub-bacias e divisores de água. Os limites
hidrológicos coincidem com os limites administrativos. Bacias hidrográficas parecem ser as
unidades apropriadas para a gestão operacional de águas, mas apresentam problemas para
as instituições que possuem uma lógica espacial diferente.

Diferentes decisões na gestão de recursos hídricos competem a diferentes níveis, o que


significa que o conceito de subsidiaridade (tomada de decisões ao nível mais baixo mais
apropriado) deve ser um princípio indicador no desenvolvimento da GIRH. Interesses e
decisões em níveis inferiores devem ser dirigidos para cima para serem levados em
consideração em níveis superiores, particularmente para o nível nacional e internacional.
Um elemento importante nesse processo é a participação de stakeholders nos processos de
tomadas de decisões em todos os níveis.

Dimensão 4: Escalas e padrões temporais


Os recursos hídricos e os usos de água possuem padrões temporais distintos. A distribuição
temporal dos recursos hídricos é crucial (inundações, secas, fluxos de base, padrões de
inundação) e o é também, a distribuição sobre o tempo das demandas (demandas de pico,
requerimentos constantes, características de plantações, etc). Na avaliação de recursos
hídricos a quantidade total de água disponível depende grandemente da possibilidade de
captura de fluxos de água. O estágio de demandas (simultâneas ou graduais) pode exercer
uma grande influência no desenvolvimento requerido.

10
A Gestão Integrada de Recursos Hídricos busca administrar os recursos
hídricos de uma maneira abrangente e holística, levando em consideração o
ciclo completo da água e os interesses de todos os usuários de água,
enquanto reconhecendo a variabilidade e a disponibilidade temporais e as
interações com a qualidade da água e a ecologia.

Então, administrar recursos hídricos requer procedimentos de tomadas de


decisões transparentes e participativos que avaliem cuidadosamente os
objetivos e restrições sociais, integrando-os onde for possível e definindo
prioridades onde forem necessárias.

Uma definição alternativa para Gestão Integrada de Recursos Hídricos, a qual é


amplamente citada, é a proposta pela Global Water Partnership:

Gestão Integrada de Recursos Hídricos é um processo que promove o


desenvolvimento e a gestão coordenados da água, terra e recursos
relacionados, para se maximizar a economia resultante e o bem estar social
de uma maneira equitativa sem comprometer a sustentabilidade dos
ecossistemas vitais (GWP, 2000).

Para se realizar a gestão integrada de recursos hídricos, são necessários planos


apropriados, legais, institucionais e financeiros que validem as quatros dimensões de
GIRH. Para uma sociedade estabelecer os arranjos certos em seu devido lugar, é
necessário uma sólida política de águas.

2.5 Princípios políticos


Para um país substituir sua gestão de águas por um sistema de gestão mais holístico e
integrado, requer-se uma revisão de sua política de águas. Isso está ocorrendo
atualmente em muitos países em todo o mundo. Uma política de águas normalmente
começa com a definição de um pequeno número de objetivos e princípios básicos,
buscando a necessidade de um desenvolvimento sustentável e um desejável
desenvolvimento sócio-econômico.

Três princípios políticos chave, conhecidos como os três 'E's são definidos por Postel
(1992):
a) Equidade: A água é uma necessidade básica. Nenhum ser humano pode viver sem
um volume básico de água doce de qualidade adequada. Os homens têm o direito
básico de acesso aos recursos hídricos (ver Gleick, 1999). Esse princípio político é
relacionado ao fato de que a água é frequentemente considerada um bem de
domínio público. A água é um requerimento tão básico para a vida e
sobrevivência humanas que a sociedade deve defender o uso dos recursos hídricos
diante do interesse público. A partir daí pode-se desenvolver e relacionar outros
assuntos, como a segurança (proteção contra inundações, secas, fome e outros
riscos).
b) Integridade Ecológica: Os recursos hídricos podem perdurar somente em um
ambiente natural capaz de regenerar água (doce) de boa qualidade. Somente o uso
da água de forma sustentável é permitido para que as futuras gerações possam
usá-la da mesma forma que as gerações presentes.

11
c) Eficiência: A água é um recurso escasso. Ela deve ser usada de maneira eficiente.
Portanto, os arranjos institucionais devem ser feitos para se recuperar os custos
dos serviços de água. Isto garante a sustentabilidade da infraestrutura e das
instituições, mas não podem comprometer o princípio de equidade. Aqui entra a
cobrança de água e se ela deve ou não ser cobrada de acordo com seu valor
econômico.

A maioria dos gestores de recursos hídricos lida com a busca de compromissos


apropriados entre esses princípios políticos que às vezes conflituam entre si e com os
diferentes aspectos (dimensões) na GIRH (Savenije and Van der Zaag, 2002). Para se
enfatizar a consistência das políticas públicas, apesar das contradições que
inevitavelmente emergem, declarações políticas são geralmente resumidas como uma
declaração de "visão", que define um futuro desejável para a qual estas políticas
contribuem.

Um exemplo é a “Visão” da África Austral para a água. Ela foi formulada como um
desejo futuro que se caracteriza por:
Utilização equitativa e sustentável da água, para a sociedade, com justiça
ambiental, integração regional, e benefícios econômicos para as presentes e
futuras gerações.

Provavelmente, um público maior se identifica e se lembra de declarações de “visões”


que sejam simples e curtas, Por exemplo, a política de águas da África do Sul, que foi
resumida no livro branco dos recursos hídricos como:
"Um pouco (de água) para todos para sempre."

Os dois exemplos da África Austral demonstram claramente que existem dois temas
predominantes que interceptam a GIRH, no entanto, são entendidos como:
sustentabilidade e interesse público.

Relacionados à sustentabilidade estão: a manutenção da qualidade ambiental (incluindo


a qualidade de água), sustentabilidade financeira (recuperação de custos), boa
governança (mecanismos efetivos de controles democráticos) e a capacidade
institucional (desenvolvimento de capacidades, recursos humanos, instrumentos de
gestão, política apropriada e estruturas legais).

Relacionados ao interesse público estão: equidade (os direitos básicos da população de


acesso aos recursos hídricos), redução da pobreza (a responsabilidade da sociedade de
cuidar dos interesses dos menos favorecidos), gênero (o papel principal das mulheres no
manejo da água; a nível local e além), segurança (proteção contra inundações, secas e
riscos), segurança alimentar e da saúde e, a nível regional, boa vizinhança e paz
regional.

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2.6 Sustentabilidade de recursos hídricos (Savenije, 2000)
Desde o aparecimento do relatório Brundtland "Nosso Futuro Comum" (WCED, 1987),
O desenvolvimento sustentável tem sido adotado como a principal filosofia que por um
lado, permitiria ao mundo desenvolver seus recursos e por outro, preservar os recursos
não-renováveis e finitos, e garantir condições adequadas de vida para as futuras
gerações. Brundtland definiu desenvolvimento sustentável como "O desenvolvimento
que atende às necessidades da geração presente sem comprometer a habilidade das
futuras gerações em atender suas próprias necessidades.” Um ex-presidente de
Botswana, Sir K. Masire, disse:
"Nossos ideais de desenvolvimento sustentável não procuram restringir o
desenvolvimento. Experiências em outros lugares têm demonstrado que o
caminho para o desenvolvimento pode significar simplesmente fazer mais
com menos (ser mais eficiente). Como nossa população cresce, certamente
teremos menos e menos recursos do que temos agora. Para conduzir essa
situação, precisamos de uma nova ética, uma que enfatize a necessidade de
proteger nossos recursos naturais em tudo que fazemos." (citado em
Savenije, 2000)

Desenvolvimento sustentável é fazer uso eficiente dos recursos naturais para o


desenvolvimento social e econômico enquanto mantém a base de recursos e o meio
ambiente carregando capacidade para as gerações que virão. Essa base de recursos deve
ser amplamente interpretada para incluir, além dos recursos naturais: conhecimento,
infraestrutura, tecnologia, recursos duráveis e humanos. No processo de
desenvolvimento, recursos naturais podem ser convertidos em outros produtos duráveis
e por isso permanecer como parte de toda a base de recurso.

Desenvolvimento de recursos hídricos que não é sustentável é mal planejado. A


Sociedade Americana de Engenheiros Civis reconhece a importância da
sustentabilidade e deu a seguinte definição ampla sobre sistemas sustentáveis de
recursos hídricos (ASCE, 1998):
Sistemas sustentáveis de recursos hídricos são aqueles planejados e
administrados para contribuir amplamente com os objetivos da sociedade,
agora e no futuro, enquanto mantêm a integridade ecológica, ambiental e
hidrológica.

No restante dessa seção três tipos de sustentabilidade são brevemente introduzidas:


física, econômica e institucional.

Sustentabilidade física

Sustentabilidade física significa fechar os ciclos de recursos e considerar os ciclos em


sua integridade (ciclos da água e de nutrientes). Na agricultura isso implica
primeiramente, em fechar ou encurtar o ciclo da água e de nutrientes para prevenir
acumulação ou depleção da terra e dos recursos hídricos: depleção da água resulta em
desertificação. Acúmulo de água em encharcamento. Depleção de nutrientes leva à
perda de fertilidade, perda da capacidade de armazenamento de água e, em geral,
redução da capacidade de transporte. O acúmulo de nutrientes resulta em eutrofização e
poluição. Perda de cobertura de solos resulta em erosão, degradação da terra e

13
sedimentação em outra parte. Fechar e encurtar esses ciclos significa restaurar o
equilíbrio dinâmico nas escalas temporal e espacial apropriadas. A última é relevante
desde que, em escala global, todos os ciclos se fecham. A questão sobre sustentabilidade
tem a ver com fechar os ciclos dentro de uma dimensão humana.

Sustentabilidade econômica

Sustentabilidade econômica se relaciona à eficiência do sistema. Se todos os custos e


benefícios sociais forem apropriadamente contabilizados e os ciclos fechados, então a
sustentabilidade econômica implica na redução da escala com o encurtamento dos
ciclos. Eficiência dita que os ciclos devem ser mantidos o mais curto quanto possível.
Exemplos de ciclos curtos são: conservação da água, otimização do uso da água de
chuva no local em que ela cair (e não sua drenagem e captura à jusante para bombeá-la
de volta); reciclagem da água no ponto ao invés de drená-la para uma estação de
tratamento, onde, depois disso, ela é conduzida ou bombeada de volta para distâncias
consideráveis etc.

Estranhamente, sustentabilidade econômica é facilitada por um aumento de escala


através do comércio de produtos com uso intensivo de terra e água (o conceito de água
"virtual"). O uso de água virtual é um importante conceito nos países onde a capacidade
de transporte da sociedade não é suficiente para produzir intensivamente seus próprios
produtos

O fechamento dos ciclos deveria ser feito em diferentes escalas espaciais:


 Na escala rural, implicando conservação de água, nutrientes e solo, prevenção de
drenagem excessiva e a reciclagem de nutrientes e resíduos orgânicos.
 Na escala urbana, em cidades e mega cidades, implicando na reciclagem de água,
nutrientes e resíduos.
 Na escala da bacia hidrográfica, implicando: conservação de solo e água na bacia
superior, prevenção de escoamento e drenagem desnecessária, aumento da
infiltração e recarga, retenção de inundação, controle de poluição e o uso das
wetlands.
 Na escala global, onde os ciclos da água, de nutrientes e dos recursos básicos são
integrados e fechados. O conceito de água virtual é uma ferramenta para uma
utilização equilibrada dos recursos hídricos. Isso requer um mercado global aberto
e acessível e o uso de incentivos econômicos baseados em recursos como imposto
sobre estes recursos ("imposto verde" o qual taxa o uso de recursos não-
renováveis ou finitos), contrapondo a tributação sobre recursos renováveis como
mão-de-obra, que é uma prática usual hoje em dia.

Sustentabilidade institucional

Para se garantir a sustentabilidade, decisões certas devem ser tomadas. Isso requer que
as instituições relevantes estejam no lugar, o que pode facilitar os processos decisórios
apropriados. Mais ainda, instituições devem responder adequadamente a mudança de
requerimentos e a mudança de ambiente na qual operam. Elas devem ter a capacidade
de se adaptar a circunstâncias emergentes. Sua capacidade de adaptação indica se elas
são instituições sustentáveis. De acordo com Constanza (1994),
Um sistema sustentável é ativo e capaz de manter sua estrutura

14
(organização), função (vigor) e autonomia com o tempo e é resiliente à
pressão.

Gestão integrada de recursos hídricos requer instituições fortes, sistemas sustentáveis na


percepção de Constanza. Instituições sustentáveis requerem boa governança;
instituições governadas de maneira criteriosa são mais prováveis de conservar sua
resiliência e de se manterem ao longo do tempo. Assim, parece que instituições
sustentáveis e de boa governança caminham lado a lado. Elas precisam e pressupõem
uma a outra.

2.7 Desenvolvimentos históricos: até a GIRH


A consciência internacional da importância dos temas sobre gestão de recursos hídricos
cresce a cada dia. Inicialmente, o enfoque era tipicamente subsetorial, principalmente
em relação ao abastecimento de água, saneamento, irrigação e energia (hidroelétrica).
Engenheiros previam a demanda de água e a necessidade de projetos e, posteriormente
suprir aquelas necessidades. Existia frequentemente uma falha na coordenação entre
setores, e as necessidades do meio ambiente eram ignoradas. Recentemente, no entanto,
existe um crescente consenso sobre a necessidade de enfoques integrados. Quadro 2.3
fornece um panorama desses progressos.

Tony Allan descreveu a evolução da gestão de recursos hídricos de acordo com cinco
paradigmas da gestão de águas, do (1) pré-moderno ao (2) paradigama industrial com
sua "missão hidráulica" , seguido do (3) paradigma "verde" que reconhecia a
necessidade de respeitar o meio ambiente, e (4) o paradigma "econômico" que
enfatizava o valor escasso da água e o papel dos instrumentos econômicos na resolução
de alguns dos desafios, para finalmente o (5) paradigma da GIRH que tenta utilizar uma
perspectiva holística (ver fig. 2.6).

Figura 2.6: A evolução da gestão de recursos hídricos de acordo com Allan (2003), com os
três paradigmas de gestão de águas.

15
Quadro 2.3: Do desenvolvimento dos recursos hídricos até a GIRH
1. Desenvolvimento dos recursos hídricos (1960s-1970s)
- Paradigma dominante: a água é um recurso para ser explorado
- O enfoque da engenharia de “prever e prover”
- Ênfase na infraestrutura
- Projetos individuais
2. Gestão de recursos hídricos (1980s-1990s)
- Reconhecimento de que a água pode ser superexplorada
- Reconhecimento das restrições ecológicas e sociais
- Planejamento regional e nacional ao invés da abordagem de um projeto
- Medidas com foco nas demandas
3. Gestão integrada de recursos hídricos (1990s-presente)
- Gestão de águas inserida numa política global de desenvolvimento sócio-
econômico, planejamento físico e proteção ambiental
- Participação pública
- Foco na sustentabilidade

Quadro 2.4: Cronologia e avanços dos encontros internacionais mais relevantes


1965-1974 Década Internacional da Hidrologia
1966 ILA adota as Regras de Helsinki nos Usos de Rios Internacionais
1977 Conferência das águas das Nações Unidas, Mar Del Plata.
1981-1990 Década Internacional de Abastecimento de Água Potável e de Saneamento
1987 Comissão Mundial de Meio Ambiente e de Desenvolvimento entrega o relatório
Brundtland
1992 Conferência Internacional de Águas e Meio Ambiente, Dublin.
1992 Conferência das Nações Unidas em Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio de
Janeiro.
1994 Conferência das Nações Unidas em População e Desenvolvimento, Cairo
1996 Parceria Mundial pela Água (GWP)
1996 Conselho Mundial de Águas
1997 Comissão de Desenvolvimento Sustentável entrega o relatório de avaliação de
águas
1997 Convenção das Nações Unidas sobre leis de usos não-navegacionais de rios
internacionais
1997 Primeiro Fórum Mundial de Águas, Marrakech.
2000 Segundo Fórum Mundial de Águas, Haia.
2000 Comissão Mundial de Barragens entrega relatório final
2000 Conferência de Cúpula do Milênio das Nações Unidas
2002 Conferência de Cúpula sobre Desenvolvimento Sustentável, Johannesburg.
2003 Terceiro Fórum Mundial de Águas, Kyoto.
2004 ILA adota as Regras de Berlim sobre Recursos Hídricos
2006 Quarto Fórum Mundial de Águas, México City.
2008 Ano Internacional do Saneamento
2009 Quinto Fórum Mundial de Águas, Istambul.

16
Durante as duas últimas décadas, a água tem recebido gradualmente mais e mais
atenção nos encontros internacionais. O quadro 2.4 fornece uma cronologia de
importantes encontros e progressos internacionais.

Na conferência das Nações Unidas em Mar Del Plata (1977), a ênfase ainda era sobre
abastecimento de água e saneamento. O Relatório Brundtland da Comissão Mundial
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (1987) só mencionou a "água" mundial em
relação à poluição e ao abastecimento de água. Foi durante as conferências preparatórias
para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
(UNCED) que os conceitos de base da Gestão Integrada de Recursos Hídricos foram
amplamente debatidos.

A Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente (ICWE) em Dublin (1992),


levou aos Princípios de Dublin (Quadro 2.5). Os Princípios de Dublin formaram uma
importante contribuição para o Rio 1992 que culminou com a adoção do Capítulo sobre
Água Doce (cap. 18) da Agenda 21 (Nações Unidas, 1992).

O Capítulo 18 (“Proteção da qualidade e do suprimento dos recursos de água doce:


aplicação de enfoques integrados ao desenvolvimento, gestão e uso dos recursos
hídricos”) da Agenda 21 enfatiza a necessidade de um enfoque integrado à gestão dos
recursos hídricos:

“18.3. A escassez difundida, a destruição gradual e a poluição agravada dos


recursos de água doce em várias regiões do globo, juntamente com o impacto de
atividade incompatíveis, demanda planejamento e gestão integrada dos recursos
hídricos. Tal integração deve abranger todos os tipos de corpos de água doce
correlacionados, incluindo tanto águas superficiais quanto subterrâneas e a
considerar devidamente os aspectos quantitativos e qualitativos da água. A
natureza multisetorial do desenvolvimento dos recursos hídricos no contexto do
desenvolvimento sócio-econômico deve ser reconhecido, assim como a
utilização dos mesmos com diferentes interesses.

Capítulo 18, na verdade, deu a primeira definição de GIRH (Quadro 2.6).

Em 1993, o Banco Mundial publicou o influente papel político sobre Gestão de


Recursos Hídricos (Banco Mundial, 1993), que enfatiza a necessidade da GIRH, na
fixação de preços econômicos, recuperação de custos, descentralização, privatização,
gestão de bacias hidrográficas internacionais e incorporação de critérios ambientais no
planejamento e gestão. A Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CSD) elevou a
GIRH na agenda internacional, quando publicou em 1997 a primeira avaliação
abrangente sobre recursos hídricos globais.

No mesmo ano, a União Européia adotou a Lei de Usos Não-navegacionais de Rios


Internacionais. Essa convenção da União Européia ainda não está em vigor, mas é um
marco no desenvolvimento das leis internacionais de águas (ver seção 5.3).

Depois de Dublin, com o apelo para a gestão integrada, o alto grau de fragmentação do
setor de águas na comunidade internacional, e particularmente na família das Nações
Unidas, passou a ser fortemente sentido. O interesse de água está fragmentado em várias
organizações diferentes como WMO, WHO, FAO, UNESCO, UNDP, UNEP e

17
UNICEF.

Quadro 2.5: Princípios de Dublin (ICWE, 1992)


 A água é um recurso finito, vulnerável e essencial, que deve ser administrado de uma
maneira integrada.
 O desenvolvimento e gestão dos recursos hídricos devem se basear num enfoque
participatório, envolvendo todos os stakeholders relevantes.
 As mulheres desempenham um papel central na provisão, gestão e salvaguarda da água.
 A água tem um valor econômico e deve ser reconhecida como um bem econômico,
levando em conta critérios de equidade e acessibilidade.
Conceitos chave associados:
 Gestão Integrada de Recursos Hídricos, envolvendo:
- Um enfoque intersetorial.
- Representação de todos os stakeholders
- Consideração de todos os aspectos de recursos hídricos
- Considerações de sustentabilidade e meio ambiente
 Desenvolvimento Sustentável, sólido desenvolvimento sócio-econômico que salvaguarde
a base de recursos para as futuras gerações.
 Ênfase nas estratégias de direção e orientação da demanda
 Tomada de decisões ao nível mais apropriadamente inferior (subsidiaridade)
 Tomada de decisões ao nível mais baixo mais apropriado (subsidiaridade)

Quadro 2.6: Gestão Integrada de Recursos Hídricos (ONU, 1992)


18.8. Gestão integrada de recursos hídricos é baseada na percepção da água como uma
parte integral do ecossistema, um recurso natural e um bem social e econômico, cujas
quantidades e qualidades determinam a natureza de sua utilização. Para esse fim, os
recursos hídricos devem ser protegidos, levando em consideração o funcionamento dos
sistemas aquáticos e a perenidade do recurso, para satisfazer e conciliar as necessidades de
água nas atividades humanas. No desenvolvimento e uso dos recursos hídricos, tem-se dado
prioridade à satisfação das necessidades básicas e à salvaguarda dos ecossistemas. Além
desses requerimentos, no entanto, usuários de água devem ser cobrados apropriadamente.

18.9. A Gestão Integrada de Recursos Hídricos, incluindo a integração da terra e aspectos


relacionados à água, devem ser conduzidos ao nível da bacia ou da sub-bacia hidrográfica.
Quatro objetivos principais devem ser seguidos:
(a) Promover uma abordagem dinâmica, interativa, iterativa e multisetorial à gestão de
recursos hídricos, incluindo a identificação e proteção das fontes potenciais de
suprimento de água doce, que integrem considerações tecnológicas, sócio-
econômicas, ambientais e de saúde humana;
(b) Planejar para a utilização sustentável e racional, proteção, conservação e gestão dos
recursos hídricos baseados nas necessidades das comunidades e prioridades dentro
da estrutura de políticas nacionais de desenvolvimento econômico;
(c) Planejar, implementar e avaliar programas e projetos que sejam economicamente
eficientes e socialmente apropriados dentro de estratégias claramente definidas,
baseadas em abordagens de plena participação pública, incluindo mulheres, jovens,
povos indígenas e comunidades locais, na tomada de decisões e elaboração de
políticas de gestão de águas;
(d) Para identificar, fortalecer ou desenvolver, como exigido, particularmente em países
em desenvolvimento, os mecanismos institucionais, legais e financeiros apropriados
para garantir que a política de águas e sua implementação sejam catalisadores do
progresso social sustentável e do crescimento econômico.

18
A formação da Parceria Mundial pela Água (GWP) e do Conselho Mundial de Águas
(WWC), foi um importante passo no processo em direção a conquista do objetivo de
coordenar a implementação dos princípios da GIRH às práticas universais. Apesar de,
indubitavelmente haver sobreposição entre as duas organizações, o WWC concentra-se
na emergente conscientização dos níveis políticos, enquanto o GWP é voltado para a
implementação dos conceitos de GIRH em nível operacional. Juntos eles têm sido a
força motriz por trás do segundo, terceiro e quarto fóruns mundiais de água.

Na Cúpula do Milênio das Nações Unidas em setembro de 2000, líderes mundiais


colocaram o desenvolvimento no centro da agenda global ao adotar as Metas de
Desenvolvimento do Milênio (MDGs), que estabelecem metas claras para reduzir a
pobreza, a fome, doenças, analfabetismo, degradação ambiental e discriminação contra
mulheres até 2015 (Quadro 2.7). As oito metas de desenvolvimento do milênio
constituem uma agenda ambiciosa para melhorar significantemente as condições de vida
humana até 2015.

Ao menos cinco das oito metas do milênio precisam de boa gestão de águas. Elas não
podem ser alcançadas sem estes tópicos:
- Fazer melhor uso da água de chuva e de irrigação irá melhorar a colheita e ajudar
e erradicar a fome (Meta 1 Alvo 2); e maior acesso a água produtiva também irá
reduzir a pobreza (Meta 1 Alvo1);
- Melhor operação e manutenção de sistemas existentes de abastecimento de água e
de saneamento e infraestrutura de esgoto, e a construção de novas instalações irá
aumentar significativamente o acesso à água de qualidade, (Meta 7 Alvos 10 e 11)
e desse modo reduzir a mortalidade infantil, (Meta 4 Alvo 5) a incidência de
malária e de outras doenças de veiculação hídrica (Meta 6 Alvo8), e irá surtir um
efeito positivo na saúde das mães;

- O reconhecimento do meio ambiente como legítimo usuário de água; melhoria da


gestão de qualidade da água, gestão da bacia hidrográfica e da reciclagem de
nutrientes irão contribuir para reverter à tendência atual de degradação dos
recursos ambientais (Meta 7 Alvo9).

Considerando que existem vários aspectos com o potencial de contribuir para se


alcançar as metas, os três a seguir, ao nosso ve, têm prioridade:
1. Aumentando a produtividade da agricultura de sequeiro (dobrar aprodução) e
tornando-as mais resilientes aos choques climáticos e portanto contribuindo com a
segurança alimentar, através de meios inovadores de conservação de solo e de
água e técnicas de armazenamento de água e gestão de nutrientes.
2. Aumentando o acesso a água e saneamento seguros em áreas periurbanas de
grandes cidades através de (a) aumentando a eficiência dos sistemas urbanos de
abastecimento de água e da gestão de demanda de água, (b) desenvolvendo e
implementando novas formas de saneamento sustentável, incluindo ecosan, e, (c)
arranjos financeiros inovativos.

3. Tornando as organizações de bacias mais efetivas na alocação de água, ao mediar


conflitos e ao encontrar um balanço entre o desenvolvimento econômico e a
sustentabilidade ambiental, através da ampliação dos arranjos de gestão local de

19
água e do uso de novas tecnologias de informação. Isso pode preencher a lacuna
institucional entre as escalas entre bacias de captação locais e bacias hidrográficas.

Quadro 2.7: As Metas e Alvos do Milênio

Meta 1: Erradicar a pobreza e fome extremas


Alvo 1 Diminuir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção de pessoas com renda
menor que um dólar por dia
Alvo 2 Diminuir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção de pessoas que passam
fome
Meta 2: Realizar a educação primária universal
Alvo 3 Garantir que, até 2015, crianças de todo o mundo, meninos e meninas, possam
concluir o curso primário completo.
Meta 3: Promover a igualdade de gêneros e capacitar as mulheres
Alvo 4 Eliminar a disparidade de gênero na educação primária e secundária,
preferencialmente até 2005, e em todos os níveis educacionais no máx até 2015.
Meta 4: Reduzir a mortalidade infantil
Alvo 5 Reduzir para dois terços, entre 1990 e 2015, o índice de mortalidade de menores
de 5 anos.
Meta 5: Melhorar a saúde materna
Alvo 6 Reduzir em três quartos, entre 1990 e 2015, o índice de mortalidade materna
Meta 6: Combater HIV/AIDS, malária e outras doenças
Alvo 7 Interromper até 2015 e começar a reverter a disseminação do vírus HIV
Alvo 8 Interromper até 2015 e começar a reverter a incidência de malária e outras
doenças importantes
Meta 7: Garantir sustentabilidade ambiental
Alvo 9 Integrar os princípios de desenvolvimento sustentável nas políticas e programas
dos países e reverter à perda dos recursos ambientais
Alvo 10 Reduzir à metade, até 2015, a proporção de países sem acesso sustentável de
água potável e saneamento seguro.
Alvo 11 Até 2020, ter alcançado uma significante melhoria na vida de pelo menos 100
milhões de moradores de favelas.
Meta 8: Desenvolver uma Parceria Global para o Desenvolvimento
Alvo 12 Elaborar mais adiante um sistema comercial e financeiro não-discriminatório,
aberto, regulamentado e previsível. [Inclui um compromisso de boa governança,
desenvolvimento e redução da pobreza – tanto nacional como
internacionalmente]
Alvo 13 Tratar das Necessidades Especiais dos Países menos desenvolvidos [Inclui:
exportações de países menos desenvolvidos livres de cotas e tarifas (LDC) ;
intensificação do programa de assistência às dívidas dos Países Pobres
Altamente Endividados (HIPC) e cancelamento de dívidas bilaterais; Assistência
Oficial ao Desenvolvimento (ODA) mais generosa para países comprometidos
com a redução da pobreza]
Alvo 14 Tratar das necessidades especiais dos governos em desenvolvimento de países
sem litoral e ilhas pequenas (através do programa de ação para o
desenvolvimento sustentável para os governos em desenvolvimento de
pequenas ilhas e o resultado da 22ª sessão especial da Assembléia Geral)
Alvo 15 Tratar compreensivelmente dos problemas das dívidas dos países em
desenvolvimento através de medidas nacionais e internacionais para tornar a
dívida sustentável e em longo prazo
Alvo 16 Em cooperação com os países em desenvolvimento, desenvolver e implementar
estratégias para empregos decentes e produtivos para os jovens
Alvo 17 Em cooperação com as companhias farmacêuticas, proporcionar acesso a drogas
disponíveis e essenciais em países em desenvolvimento.
Alvo 18 Em cooperação com o setor privado, tornar acessível os benefícios de novas
tecnologias, especialmente informações e comunicações.

Fonte: http://www.unmillenniumproject.org/html/dev_goals1.shtm

20
Durante o 2º Fórum Mundial das Águas, realizado em Haia em março de 2000,
delegações de 113 países se encontraram na conferência paralela ministerial, onde
adotaram unanimemente o conceito de GIRH. Um número significante de especialistas
que compareceram ao fórum requeriam que a água fosse declarada um direito humano.
Isso não se materializou. Entretanto, dois anos depois o Comitê de Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas definiu o direito à água no
Comentário Nº. 15 da Assembléia Geral (2002) como o direito de todos a "suficiente,
segura, satisfatória, fisicamente acessível e água disponível para usos pessoal e
doméstico". Ele especifica ainda que estados signatários devam garantir acesso à " uma
quantidade essencial mínima de água [e] saneamento adequado,” desenvolver e
implementar uma estratégia nacional de água e monitorar o progresso conquistado na
realização do direito à água. A principal responsabilidade para a implementação do
direito à água é dos países e de seus governos nacionais (quadro 2.8)

Quadro 2.8: Comentário Geral sobre o Direito à Água pelo Comitê de Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais , novembro 2002
O Comentário Geral diz que a água é um recurso natural limitado e um bem de domínio
público fundamental à vida e saúde. O comitê tem sido confrontado continuamente com a
rejeição generalizada do direito à água tanto em países desenvolvidos quanto os em
desenvolvimentos. Mais de 1 bilhão de pessoas carecem do acesso ao abastecimento
básico de água, enquanto vários bilhões sofrem da carência de saneamento adequado, que
é a principal causa de contaminação da água e de doenças relacionadas à água, afirma o
comentário. A contínua contaminação, depleção e distribuição desigual dos recursos hídricos
está intensificando a pobreza existente. Os governantes têm o dever de concretizar
progressivamente, sem discriminação, políticas públicas direcionadas a divulgação e
fiscalização do efetivo direito à água.
O direito à água proporciona a todos água suficiente, disponível, fisicamente acessível,
segura e satisfatória para usos pessoais e domésticos, afirma o texto. Enquanto aqueles
usos variam entre as culturas, uma quantidade adequada de água segura é necessária para
a prevenção de morte por desidratação, para reduzir o risco de doenças de veiculação
hídrica e (para o abastecimento, consumo, cozinha, e requerimentos de higiene pessoal e
doméstica).

O direito à água contém liberdades e direitos: as liberdades incluem o direito de manter


acesso ao abastecimento de água existente necessário para o direito à água; e o direito de
ser livre de interferências, como o direito de não sofrer cortes arbitrários ou contaminação do
suprimento de água, diz o texto. Os elementos do direito à água devem ser adequados para
a dignidade, vida e saúde humanas. A adequação da água não deve ser interpretada de uma
maneira restrita, através da mera referência às qualidades e tecnologias volumétricas. Água
deve ser tratada como um bem social e cultural, e não como um bem econômico. A maneira
de se realizar o livre direito de acesso à água deve também ser sustentável, garantindo que
o direito possa também ser exercido pelas presentes e futuras gerações.

Mais, o Comentário Geral diz que os partidos de governo têm um dever constante e
contínuo, de acordo com a obrigação da realização do progresso, para se mover
rapidamente e efetivamente em direção à realização plena do direito à água. Realização do
direito deve ser possível e praticável, desde que todas as esferas de governos exerçam
controle sobre uma ampla gama de recursos, incluindo água, tecnologia, recursos
financeiros e assistência internacional, como em todos os outros direitos da Convenção.
Fonte: Gabinete do Alto Comissariado pelos Direitos Humanos, Genebra;
http://www.unhchr.ch/

Em julho de 2010, a Assembléia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução não
vinculativa, patrocinada pela Bolívia, na qual declara que o acesso à água limpa e
saneamento é um direito humano fundamental. A resolução, também invocou os países

21
membros e organizações internacionais a oferecer assistência financeira e técnica, em
particular a países em desenvolvimento, para fornecer água limpa potável, acessível e
disponível e saneamento para todos. A resolução convidou o Perito Independente das
Nações Unidas no tema das obrigações dos direitos humanos relacionado a água limpa
potável e saneamento, para fazer um relatório anual para a Assembléia Geral. A
resolução recebeu o apoio de 122 países membros, enquanto 41 se abstiveram.

Em novembro de 2000, a Comissão Mundial de Barragens submeteu seu relatório final.


Essa comissão originou um processo independente, internacional, com muitos
stakeholders que tratavam dos assuntos controversos associados à grandes barragens.
Isso proporcionou uma oportunidade única de esclarecer as várias conjecturas e
paradigmas que estão no centro da procura pela reconciliação do crescimento
econômico, equidade social, conservação ambiental e participação política no contexto
das mudanças globais. O relatório final (www.dams.org) fornece uma riqueza de
informações. Uma das melhores conclusões foi a de que os benefícios e custos do
desenvolvimento das barragens deveriam ser melhor estimados antes de suas
construções, incluindo os custos sociais (ex. remoção das pessoas vivendo na área do
reservatório a ser inundada) e os custos ambientais. Atividades complementares podem
ser vistas em http://www.unep.org/dams.

A Reunião Mundial de Cúpula dobre Desenvolvimento Sustentável em Joanesburgo em


2002 convocou os países para "desenvolver Planos de Gestão Integrada de Recursos
Hídricos e de Eficiência de Água para 2005". No final de 2007, uma pesquisa entre 53
países em desenvolvimento e países em transição concluiu que 38% (20) tinham
realmente formulado planos de GIRH/EA e estavam no processo para sua
implementação (UN Water, 2008).

2.8 Importantes temas de debate


Os progressos desde o Rio demonstram a preocupação crescente da comunidade global
com a água. Pode-se inclusive notar uma crescente convergência sobre a maioria dos
conceitos formando a base para a Gestão Integrada de Recursos Hídricos. Dificilmente
existe alguém que discordaria com os três primeiros princípios de Dublin, a saber, que a
gestão das águas requer uma estratégia integrada e participativa e que as mulheres
devem ter um papel chave em todos os aspectos da gestão das águas. Existe também um
conceito emergente de que em termos de alocação de água, as necessidades básicas
humanas devem ter prioridade; e que outros usos devem ser priorizados de acordo com
as necessidades sociais e critérios sócio-econômicos. A bacia hidrográfica é aceita como
a unidade lógica para a gestão de recursos hídricos.

No entanto, um importante número de temas permanece sem solução. Alguns são:


 O que significa a água ser considerada um bem econômico?
 Existe realmente escassez de água?
 Por que é tão difícil prover acesso à água suficiente e segura, e serviços adequados
de saneamento para toda a população global?
 Como podemos garantir que o setor privado desempenhe seu papel positivo no
setor de águas, sem as possíveis consequências negativas?
 Devemos nos concentrar na auto-suficiência de comida ou na segurança alimentar?
 Podemos melhorar a eficiência do uso da água de chuva para aumentar a

22
produção?
 Quais arranjos institucionais são necessários para a implementação da GIRH? O
que significa quando dizemos que necessitamos de uma boa governanaça de
águas?
 As instituições de bacias devem ter funções executivas, ou devem ser apenas
plataformas de coordenação, com instituições de linha implementando decisões?
 A crescente pressão sobre os recursos hídricos leva inevitavelmente à crescentes
conflitos sobre a água, em nível local e entre países ribeirinhos?
 Como podemos formalizar a ligação montante-jusante, e lidar positivamente com a
assimetria básica na gestão de recursos hídricos?
 De quanta água necessita o meio ambiente? Qual prioridade a água ambiental deve
ter?
 Precisamos de mais barragens?
 Quais seriam as implicações da mudança climática para a gestão de recursos
hídricos?

Existe também uma crítica emergente sobre o conceito da GIRH (ver ex. Biswas, 2004;
Shah and Van Koppen, 2006; Mollinga, 2008; Molle, 2008). Existem muitos pontos de
crítica, mas três se sobressaem:

1. GIRH como conceito não é claramente definido, o que pode significar diferentes
interpretações para diferentes pessoas. Para piorar as coisas, o conceito é
frequentemente usado com conotação "normativa": GIRH é vista como "boa".
As pessoas, portanto, se sentem tentadas a (ab)usar dela, e reestruturar coisas
que estão acostumadas a fazer, de novas maneiras, mas sem mudar
fundamentalmente sua estratégia (ex. setores de barragens, de irrigação, de água
potável, etc)

2. GIRH é a materialização de uma tendência do setor de águas de reivindicar


exclusividade e portanto um espaço institucional (ver seção 2.2 acima!).
Entretanto isso tem criado um problema de "ajuste institucional" com outros
setores e instituições, como também pode ter aumentado a competição sobre
escassos recursos institucionais. No geral, isso pode ter diminuído a capacidade
de um enfoque integrado da água e de seu progresso (pensando em
planejamento espacial).

3. Muitos países em desenvolvimento apontam para o fato de que o que eles


necessitam é de desenvolvimento dos recursos hídricos antes de poderem se
focar na gestão dos recursos hídricos - sem infraestrutura não existe maneira dos
recursos hídricos serem adequadamente administrados (ver Grey and Sadoff,
2007). Enquanto, a nosso ver, o conceito de GIRH engloba tanto infraestrutura
quanto arranjos de gestão, muitos donatários tendem a favorecer ajuda a medidas
brandas (ex. desenvolvimento institucional) comparado a medidas pesadas (ex.
desenvolvimento de infraestrutura).

A maioria dos temas identificados nessa seção será abordada nos próximos capítulos
dessa aula e/ou serão futuramente elaborados em outros módulos.
Antes de ir adiante, porém, no próximo capítulo primeiro é descrito o ciclo da água, e
depois lida com o balanço das águas e a disponibilidade da mesma. A demanda de água
será o tópico do próximo capítulo.

23
2.9 Exercícios
2.1a Em sua opinião, quais são os principais temas da política do setor de águas do seu
país?
2.1b Que objetivos podem ser originados para a gestão de recursos hídricos?
2.1c Qual seria o critério de desempenho adequado para esses objetivos?
2.1d Quais instituições seriam responsáveis pela implementação desses objetivos?
2.1e Quais seriam as tarefas e responsabilidades dessas instituições?

2.2 Qual é a eficiência da bacia representada na fig. 2.4?

2.3 Qual das oito Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDGs) requer gestão
apropriada de recursos hídricos?

2.4 Leia dois artigos sobre cobrança de água: o texto de Rogers et al. (2002) e de
Savenije and Van der Zaag (2002). Descreva o debate a respeito da cobrança de
água. O que significa 'a água é um bem econômico'?

2.5 Leia alguns dos seguintes artigos sobre GIRH: Biswas (2004), Van der Zaag
(2005), Shah and Van Koppen (2006), Grey and Sadoff (2007), Mollinga (2008)
and Molle (2008). Descreva as diferentes interpretações dos progressos atuais em
respeito à GIRH. Quais são os desafios padrões atuais? Quais são, em sua opinião,
os mais importantes e por quê?

Lavagem de cenouras em um rio da Tanzania (fotografia por Jeremiah Kiptala)

24
2.10 Referências
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Um ponto de água e um pequeno reservatório no sul do Zimbabwe

26
Capítulo 3

Recursos hídricos
Hubert H.G. Savenije and Pieter van der Zaag

3.1 O ciclo hidrológico


O ciclo hidrológico pode ser estudado em diferentes escalas espaciais. Comece
considerando uma certa área (ex. uma planta individual, um campo de um fazendeiro,
um divisor de águas, uma área de captação, uma bacia hidrográfica internacional, um
oceano, a terra). É essencial para a estratégia de um sistema, definir claramente as
fronteiras da área em consideração, e de qualquer outro fluxo de água que a atravessa.
Esses são os influxos dentro da área em consideração ou escoamento.
Subsequentemente, todas as outras fontes de água dentro da área são identificadas, e
todos os tipos de usos consuntivos, assim como qualquer fluxo de retorno desses usos.

Somente uma pequena parte da água de chuva escoa para os rios como água superficial
e recarrega águas subterrâneas (Figure 3.1). Essa água é usada para abastecimento
doméstico, produção industrial, agricultura de irrigação, etc. Essa é a água que visamos
armazenar através da construção de infraestruturas (ex. barragens, poços) e que
tendemos a poluir.

Figura 3.1: Balanço hídrico esquemático da África do Sul,


mostrando a proporção da divisão da água de chuva (Pallett 1997: 22)

27
É útil distinguir três tipos de água dependendo de sua ocorrência no ciclo da água
(Falkenmark, 1995):
 Água 'branca': è a água da chuva, é aquela parte da chuva que é interceptada e
imediatamente evapora de volta para a atmosfera.
 Água 'verde': umidade do solo da camada insaturada, originada diretamente da
chuva, que é transpirada pela vegetação.
 Água 'azul': água envolvida no (sub) ciclo de escoamento, consistindo de água
superficial é água subterrânea (abaixo da zona insaturada).

Figura 3.2 mostra uma representação esquemática do ciclo hidrológico, com a distinção
desses três fluxos. Os processos que ocorrem dentro das três 'cores' de água, assim como
suas interconexões, determina as características de cada sistema hidrológico natural.

air moisture

interception & rainfall


evaporation
“white water”

“blue water”
surface
runoff

“green w ater”
transpiration infiltration

soil moisture
(unsaturated zone) runoff

percolation
capillary
rise

groundwater seepage

Figura 3.2: O ciclo hidrológico, com água ‘branca’, ‘verde’ e ‘azul’,


e os dois pontos de particionamento.

28
Os dois pontos pretos na fig. 3.2 representam os dois processos que determinam como a
água da chuva é particionada na interseção (evaporação direta do solo, folhas e outras
superfícies), infiltração, transpiração, percolação e escoamento superficial. Esses dois
pontos de particionamento, portanto influenciam na quantidade de chuva que termina
em nossos rios, e quando. Eles também são importantes pontos de intervenção humana
no processo hidrológico.

O primeiro ponto de particionamento ocorre na superfície onde a gota de chuva irá (a)
retornar para a atmosfera como vapor de água através da interceptação; ou (b) infiltrar
na camada superior do solo (a "zona insaturada") onde ela aparece como umidade do
solo; ou (c) escorre direto para um curso d'água ou rio.

A maneira na qual a água da chuva se distribuirá nessas três rotas depende das
características da superfície, como permeabilidade, inclinação, dossel das culturas etc.
Em superfícies impermeáveis, certa quantidade de água de chuva irá evaporar
diretamente da superfície (intercepção), nenhuma água irá infiltrar e sem dúvida a maior
parte irá escoar como água superficial. Em contraste, uma floresta tropical intocada irá
capturar a maioria da chuva na sua cobertura antes que suas gotas atinjam o solo. Uma
grande parte da água da chuva restante poderá infiltrar e relativamente pouca água irá
escoar diretamente sobre a superfície.

O segundo ponto de particionamento está localizado na camada superior do solo, a


chamada zona insaturada. A água da chuva que se infiltrou no solo irá (a) ser tomada
pelas raízes das plantas que irão usá-la para transportar nutrientes para as folhas onde a
água será transpirada para a atmosfera como vapor de água; ou (b) percolar
profundamente além das raízes e finalmente se juntar ao lençol freático, recarregando o
aquífero.

Se o solo for arenoso, com uma estrutura grossa, a maioria da água infiltrada irá
percolar além da zona das raízes. Com um sistema bem desenvolvido de raízes, as
chances da umidade do solo ser capturada pelos cultivos e ser transpirada são maiores.

Figura 3.3: Particionamento da água de chuva em sistemas de cultivo no trópico semi-


árido da África subsahariana
(Rockström et al., 2003)

29
3.1.1 Gestão de bacias

Os maiores interventores humanos nos dois pontos de particionamento citados acima


são fazendeiros que lidam com seus solos e cultivos (Figura 3.3).

Má gestão do solo e práticas pobres de cultivo irá ter um efeito prejudicial no ciclo
hidrológico: mais água irá escoar diretamente, levando fluxos de tempestade e menos
água irá infiltrar. Menos água, portanto, estará disponível para as plantações e o fluxo
base dos rios à jusante provavelmente irá diminuir. Algumas espécies exóticas
necessitam de uma grande quantidade de água (como algumas árvores) e por causa de
sua alta transpiração, a percolação reduzirá. Como resultado, os fluxos de base são
afetados e os rios podem secar.

Gestão de bacias, que compreende gestão e conservação de solo e água, tem como
principal objetivo influenciar favoravelmente os dois pontos de particionamento, para
(a) aumentar a infiltração e diminuir o escoamento superficial e consequentemente a
erosão; e (b) aumentar a produção de grãos através da acentuada disponibilidade da
umidade do solo. O regime de fluxo resultante de água azul é frequentemente, fluxos de
tempestade com menor pico e carregam menos partículas de solo resultantes de erosão,
e onde o fluxo de base é dificilmente afetado, ou melhor, até aumenta.

3.1.2 Água subterrânea como parte do ciclo hidrológico

Água subterrânea renovável desempenha um papel ativo no ciclo hidrológico e por isso
é 'água azul'. (Em contraste, água subterrânea fóssil não é renovável e pode ser usada
somente uma vez - extraída). Água subterrânea alimenta água de superfície e vice-versa.
Pode-se dizer que toda a água subterrânea renovável vem das águas de superfície e que
um pouco das mesmas eram águas subterrâneas. Especialmente em climas quentes a
existência de armazenamento de águas subterrâneas é muito importante.

Figura 3.4: Separação hidrográfica entre águas de superfície e subterrâneas

A água armazenada no subsolo se torna disponível em dois dias. Uma maneira disto
acontecer, é através de captação artificial (bombeamento), a outra através de
escoamento natural para águas superficiais. A última é um importante elo no ciclo
hidrológico. Enquanto que na estação chuvosa o fluxo do rio é dominado pelo

30
escoamento superficial, na estação seca os rios são quase que totalmente alimentados
pela infiltração de águas subterrâneas (fluxo de base). Portanto, o componente água
subterrânea age como um reservatório que retarda o escoamento da estação chuvosa e
ameniza a forma do hidrograma (fig. 3.4). Isso também significa que abstrações de
águas subterrâneas irão diminuir o fluxo base nos rios à jusante.

3.2 Balanços hídricos


Balanços hídricos são muito usados em hidrologia. Eles são baseados principalmente no
princípio de conservação de massa. Isso pode ser expresso com a equação:
S
 I(t) - O(t) (3.1)
t
onde I é o afluxo em [L3/T] [L = unidade de comprimento; T = unidade de tempo]
O é a descarga em [L3/T]
S/t é a mudança na reserva num intervalo de tempo [L3/T]

A equação é válida para um período de tempo e deve ser aplicada para qualquer sistema
desde que os limites sejam bem definidos. Outros nomes para a equação de balanço
hídrico são Equação de Armazenamento, Equação de Continuidade e Lei da
Conservação de Massa.

A equação de balanço hídrico é baseada num entendimento de sistemas do ciclo da água


considerando suas entradas e suas saídas. O sistema hídrico interconectando a entrada e
a saída é representado pelo componente armazenamento (figura 3.5).

Entrada I(t) Armazenagem S Saída O(t)

Figura 3.5: Modelo Entrada- Armazenagem- Saída

O balanço hídrico consiste de um fluxo e um estoque. O fluxo é representado pela


entrada e saída dos fluxos de água e tem como unidade volume por tempo. O estoque é
a capacidade do sistema de armazenar o fluxo de água. Essa capacidade de
armazenamento tem como unidade volume.

Dividindo o estoque pelo fluxo, resulta numa medida útil, chamada de tempo médio de
residência de uma partícula de água no estoque:
Tempo de residência = S / I(t) (3.2)

Distinguem-se vários tipos de balanços hídricos. A seguir, quatro balanços hídricos são
elaborados resumidamente: o balanço hídrico da terra, da bacia de drenagem, aquele
devido à interferência humana e o de agricultura de sequeiro.

31
3.2.1 O balanço hídrico da terra (Savenije, 2000)

O balanço hídrico da terra é dado nas tabelas 3.1 e 3.2. Sahagian et al. (1994) tiraram
interessantes conclusões das informações apresentadas nas tabelas.

Tabela 3.1: Quantidade de água na terra (UN World Water Development Report, 2003)
Ocorrência de água Volume Quantidade de água
12 3
10 m % de toda a água % de água doce
Oceanos do mundo 1,338,000 96.5
Águas subterrâneas 12,870 0.93
(salobra)
Lagos de água salgada 85.4 0.006
Gelo e neve 24,364 1.76 69.6
Águas subterrâneas 10,530 0.76 30.1
(água doce)
Água atmosférica 12.9 0.001 0.037
Lagos de água doce 91 0.007 0.260
Brejos e pântanos 11.5 0.001 0.033
Água de rios 2.12 0.000 0.006
Umidade do solo 16.5 0.001 0.047
Água em organismos 1.12 0.000 0.003
Total de água doce 35,029 2.53 100
Total de água 1,385,985 100

Tabela 3.2: Balanço anual hídrico da terra (Holy, 1982)


Area Precipitação Evaporação Escoamento
1012 m2 1012 m3/a 1012 m3/a 1012 m3/a
Oceanos 361 403 449 -46
Continentes 149 107 61 46

Tabela 3.3: Fluxos de água selecionados e tempo de residência (UN World Water
Development Report, 2003)
Ocorrência de água Volume Fluxo anual Tempo de
1012 m3 renovação
1012 m3/a
Oceanos do mundo 1,338,000 505 2,500 yr
Gelo na Groelândia 2,340 0.24 9,700 yr
Gelo nas montanhas 40.6 0.025 1,600 yr
Terra de gelo (permafrost) 300 0.03 10,000 yr
Água de lagos 176.4 10.38 17 yr
Brejos e pântanos 11.5 2.29 5 yr
Umidade do solo 16.5 16.5 1 yr
Água de rios 2.12 43 18 days
Água na atmosfera 12.9 600 8 days

32
3.2.2 O balanço hídrico da bacia de drenagem (Savenije, 2000).

O balanço hídrico é geralmente aplicado em uma bacia hidrográfica. Uma bacia


hidrográfica (também chamada de divisor de águas, bacia de captação ou bacia de
drenagem) é uma área que contribui com a descarga em uma seção particular de um rio.
O tamanho da bacia A aumenta se o ponto selecionado como descarga se move rio
abaixo. Se nenhuma água atravessa os limites da bacia, a entrada é igual à precipitação
P enquanto a saída compreende a evaporação E é a descarga do rio Q na saída da bacia.
Daí o balanço hídrico pode ser escrito como:
S
 P  E  A  Q (3.3)
t

S, a mudança da quantidade de água armazenada na bacia, é difícil de ser medida. Ao


se computar o balanço hídrico para períodos anuais, o início do período do balanço é
escolhido preferencialmente num período em que se espera que a quantidade de água
armazenada não varie muito nos anos sucessivos. Esses períodos anuais, que não
coincidem necessariamente com o calendário anual, são conhecidos como anos
hidrológicos. Para um ano hidrológico, S/t pode ser geralmente desprezado. A tabela
3.4 dá o balanço hídrico de algumas bacias hidrográficas do mundo.

Tabela 3.4: Balanço hídrico anual médio indicador para algumas bacias hidrográficas
B Chuva Evaporação Escoamento Coefic.
Area A P E Q escoamento
Rio 109 m2 mm/a 109 m3/a mm/a 109 m3/a mm/a 109 m3/a %

Mississippi 3,924 800 3,100 654 2,540 142 558 18


Ob 2,950 450 1,350 325 965 131 385 29
Nilo 2,803 220 620 190 534 30 86 14
Lena 2,430 350 850 140 335 212 514 60
Zambezi 1,300 990 1,287 903 1,174 87 113 9
Parana 975 1000 980 625 610 382 372 38
Orinoco 850 1330 1,150 420 355 935 795 70
Mekong 646 1500 970 1,000 645 382 325 34
Reno 200 850 170 500 100 350 70 41
Incomati 47 733 34 656 30 77 4 12

3.2.3 O balanço hídrico como resultado da interferência humana

Alguns sistemas de rios foram significantemente alterados devido à interferência


humana no ciclo hidrológico. Esse é o caso, por exemplo, da bacia hidrográfica do rio
Incomati. Essa bacia é compartilhada pela África do Sul,
Nessa bacia, mais da metade do volume médio de água gerada está sendo
consuntivamente usada; principalmente para irrigação, uso doméstico rural, urbano e
industrial. Além do mais, a água é transferida da bacia para sistemas fluviais adjacentes.
A maioria desses usos requer a construção de barragens ou reservatórios. Plantações
comerciais de espécies florestais exóticas (principalmente para a indústria de papel)
aumentaram a transpiração e diminuíram o escoamento.

33
500
Oct 1952 - Sep 1979 (average 2,297 Mm3/a)
450
Oct 1979 - Sep 1999 (average 982 Mm3/a)
400

discharge (Mm3/month)
350

300

250

200

150

100

50

0
Oct Nov Dec Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct

Figura 3.6: Descarga média do Incomati em Ressano Garcia (estação E23);


1953-1979 e 1980-1999 (Van der Zaag e Carmo Vaz, 2003)

Como resultado dessas interferências humanas o regime de fluxo do Incomati tem se


alterado. A fig. 3.6 mostra esse efeito, comparando o escoamento médio do rio antes e
depois de 1980 na fronteira entre a África do Sul e Moçambique, logo depois da
confluência dos rios Komati e Crocodilo. O escoamento médio durante o período de
1980-1999 foi menor que metade do de 1953-1979.

Algumas tentativas foram feitas para se incorporar à interferência humana no ciclo


hidrológico através da introdução do ciclo de desvio hidrológico, que inclui retirada de
água e fluxos de retorno (fig. 3.7)

Water vapour

above land

P E

Water users
Xo Xi

H Us Ug R

Land Q

Diversion
Cycle

P = precipitação
E = EO + ET + ES + EI = evaporação total de mar aberto e superfície terrestre
Q = escoamento da terra para o oceano
Xi , Xo = transferência interbacias dentro ou fora da bacia
H = uso direto da água de chuva
Us+Ug = extração da superfície e de água subterrânea
R = fluxos de retorno para a superfície e água subterrânea
Figura 3.7: O ciclo hidrológico de uma bacia hidrográfica com o ciclo de desvio
(Rodda and Matalas, 1987)

34
3.2.4 O balanço hídrico da agricultura

Um balanço hídrico simplificado de uma agricultura de sequeiro é apresentado na figura


3.8 e pode ser expresso através da seguinte equação:
P = EI + ES + ET + R + QS + S/t (3.4)
3 3
Onde P: precipitação (L /T; e.x. m /dia ou, ou se dividido pela área mm/dia)
EI : interceptação (L3/T)
ES: evaporação do solo (L3/T)
ET: transpiração (L3/T)
R: percolação profunda = recarga de aquíferos (L3/T)
QS: escoamento superficial (descarga superficial do campo para rio abaixo)
(L3/T)
S/t: mudança da umidade do solo num certo período de tempo (L3/T)

Um balanço similar pode ser feito para uma plantação irrigada, se adicionando a água
de irrigação I como um termo de entrada e a evaporação de mar aberto EO como a um
termo de perdas (ex. água evaporada de canais de irrigação, poços etc.):
P + I = EI + ES + ET + EO + R + QS + S/t (3.5)

Um balanço hídrico como o mostrado na equação 3.4 é útil porque ela mostra quanto da
água disponível para a plantação foi efetivamente usada por ela. Se desprezarmos a
mudança de umidade do (S/t) durante uma estação completa de cultivo, então a
medida da eficiência hídrica poderia ser dada como:
ET
(3.6)
P
Poderíamos incluir também os outros fluxos de evaporação na eq. 3.6?

Precipitation P Transpiration ET

Soil evaporation ES
and Interception EI

Surface runoff QS
soil surface

rooting depth
Deep percolation
= Recharge R

water table

Figura 3.8: Balanço hídrico simplificado para uma agricultura de sequeiro

35
3.3 Recursos de águas subterrâneas
Água subterrânea pode ser dividida em água subterrânea fóssil e água subterrânea
renovável. Água subterrânea fóssil pode ser considerada como um recurso mineral
finito, que pode ser usado somente uma vez, depois da qual é esgotado. Água
subterrânea renovável é a água subterrânea que desempenha um papel ativo no ciclo
hidrológico. A última significa que o tempo de residência da água na subsuperfície tem
uma ordem de magnitude relevante no planejamento humano e nas considerações de
sustentabilidade. O limite entre as águas subterrâneas fósseis e renováveis é claramente
tema para amplos debates. Geólogos, que estão acostumados a trabalhar com escala de
tempos de milhões de anos considerariam uma água subterrânea como fóssil se tivesse
um tempo de residência de milhões de anos. Um hidrólogo poderia usar uma escala de
tempo próxima daquela. No entanto, um gestor de recursos hídricos usaria uma escala
de tempo muito mais próxima da dimensão humana e do tempo de residência dos
poluentes.

Água subterrânea Água subterrânea Fluxo sobre a terra


fóssil renovável

Escoamento lento Escoamento rápido

Água azul

Figura 3.9: Água azul é escoamento superficial mais infiltração de água subterrânea
renovável

Na nossa definição, a água subterrânea renovável tem um importante papel no ciclo


hidrológico e, portanto é "água azul." Água subterrânea alimenta águas de superfície e
vice-versa. Na bacia de Mupfure no Zimbabwe, Mare (1998) mostrou que mais de 60%
do escoamento total da bacia se originava de águas subterrâneas. Dessa maneira a
maioria da água medida na descarga era de água subterrânea. Pode-se dizer que toda a
água subterrânea renovável vem de águas superficiais e a maioria das águas de
superfície eram águas subterrâneas.

Podem-se distinguir duas zonas nas quais a água ocorre no solo:


 A zona saturada
 A zona insaturada.

Para os hidrólogos, ambos são importantes elos e dispositivos de armazenamento no


ciclo hidrológico: a zona insaturada armazena a "água verde", enquanto a zona saturada
armazena a água subterrânea "azul". Para os engenheiros a importância de cada zona
depende do campo de interesse. Um engenheiro agrícola se interessa principalmente
pela zona insaturada, onde ocorre a combinação necessária de solo, ar e água para uma
planta sobreviver. Os engenheiros de recursos hídricos se interessam mais pela água
subterrânea que ocorre e flui na zona saturada.

36
Os tipos de aberturas (vazios ou poros) onde a água subterrânea ocorre é uma
importante propriedade da formação da subsuperfície. Três tipos são geralmente
distinguidos:
1. Poros: aberturas entre partículas individuais como areia e cascalho. Poros são
geralmente interconectados e possibilitam o fluxo capilar no qual a lei de Darcy
(ver abaixo) pode ser aplicada.
2. Fraturas, fissuras ou juntas em rochas sólidas que se desenvolveram de fraturas de
rochas. Os poros podem variar de tamanhos super capilares a tamanhos capilares.
Somente para a última situação a aplicação da lei de Darcy é possível. A água
nessas fraturas é conhecida como água de fissura ou de falha.
3. Canais e cavernas em soluções de calcário (água cárstica), e aberturas resultantes
de bolhas de gás em lava. Essas grandes aberturas resultam em um fluxo
turbulento de água subterrânea que não podem ser descritos pela lei de Darcy.

A porosidade n da formação da subsuperfície é a parte de seu volume que consiste de


aberturas e poros:
Vp
n= (3.7)
V
Onde: Vp é o volume do poro V é o volume total do solo

Quando a água de material saturado é drenada por gravidade, somente uma parte do
volume total é liberada. Essa porção é conhecida como produção específica. A água não
drenada é chamada de retenção específica e a soma da produção específica mais a
retenção específica é igual à porosidade. Em materiais de grãos finos as forças que
retêm água contra a força da gravidade são grandes por causa do pequeno tamanho dos
grãos. Assim, a retenção específica de materiais de grãos finos (silte ou argila) é maior
do que em materiais grossos (areia ou cascalho).

Água subterrânea é a água que ocorre na zona saturada. O estudo da ocorrência e


movimento de águas subterrâneas é chamado de hidrologia ou geohidrologia de águas
subterrâneas. As propriedades hidráulicas de uma formação aquífera não são
determinadas somente pela porosidade, mas também pela interconexão dos poros e pelo
tamanho dos poros. Um aquífero é uma camada de água de rolamento na qual a
porosidade e o tamanho do poro são suficientemente grandes para permitir o transporte
de água em quantidades apreciáveis (ex. depósitos de areia).

Para um engenheiro de recursos hídricos água subterrânea é um recurso hídrico


importante pelas seguintes razões:
 É um recurso confiável, especialmente em climas com uma pronunciada estação seca.
 É um recurso bacteriologicamente seguro, desde que a poluição seja controlada.
 Ela está normalmente disponível in situ (ocorrência generalizada)
 Ele pode fornecer água numa época em que os recursos de águas superficiais são
limitados
 Ele não é afetado por perdas por evaporação, se estiver suficientemente profundo.

Existe também um número de desvantagens:


 Ele é um recurso limitado, quantidades extraíveis são normalmente baixas se
comparadas a recursos de águas superficiais.
 Recuperação de águas subterrâneas é geralmente cara como resultado de custos de
extração

37
 Água subterrânea é sensível à poluição
 Recuperação de água subterrânea pode acarretar em sério impacto com subsidência da
superfície ou salinização
 Água subterrânea é geralmente difícil de administrar

Especialmente em climas secos a existência de depósitos de água é de extrema


importância. A água armazenada no subsolo se torna disponível em dois dias. Uma
maneira é através de extração artificial (bombeamento), a outra é através da infiltração
natural para águas superficiais.

A última é um importante elo no ciclo hidrológico. Enquanto na estação chuvosa o


escoamento é dominado pelo escoamento superficial, na estação seca o escoamento é
quase totalmente alimentado pela infiltração de águas subterrâneas (fluxo de base).
Portanto, o componente de água subterrânea atua como um reservatório que retarda o
escoamento da chuva da estação chuvosa e ameniza a forma do hidrograma.

A forma na qual essa descarga se comporta é geralmente descrita como um reservatório


linear, onde a descarga é proporcional ao volume do estoque:
Q= K * S (3.8)
Onde K é um fator de transporte com a dimensão de s-1. Em combinação com a equação
de balanço hídrico e desprezando o efeito da chuva P e evaporação E, a equação 3.4
produz uma relação exponencial entre a descarga Q e o tempo t.
S
= - K * t
S
Então:
S = S(t 0) e K (t t 0 ) (3.9)

E daí, usando a Equação 3.8:


Q = Q( t 0 ) e  K (t t0 ) (3.10)

Equação 3.10 é uma equação útil da disponibilidade de água superficial na estação seca
(Figura 3.10).

100

Seepage flow Q
80
Seepage flow Q

60

40

20

0
0 20 40 60 80 100

Tim e t

Figura 3.10: Fluxo da infiltração de um aquífero esgotado (Q(t0)=100, K=0.05, and t0=0 in
eq. 3.10).

38
3.4 Exercícios
3.1 Elabore um balanço hídrico para uma agricultura de sequeiro de milho. A
precipitação é de 700 mm, da qual 100 mm é interceptada e evaporada, 100 mm
escoa para o rio. Dos 500 mm restantes que infiltram no solo, 100 mm percolam
para o subsolo e recarregam os aquíferos.

3.2 Qual o efeito de medidas de melhoria da conservação de solos na hidrologia à


jusante?

3.3 Geralmente, qual será o efeito de um aumento na produção de grãos na hidrologia


à jusante?

3.4 Se toda a água fóssil subterrânea fosse usada, quanto o nível do mar subiria?

3.5 Referências
Allan, J.A., 1994, Mechanisms for reducing tension over water: substituting for water. MEED
38(4): 12-14.
Falkenmark, M., 1995, Coping with water scarcity under rapid population growth. Paper
presented at the Conference of SADC Water Ministers. Pretoria, 23-24 November 1995.
Holy, M., 1982, Irrigation systems and their role in the food crises. ICID Bulletin 31(2).
Mare, A., 1998. Green water and Blue water in Zimbabwe: the Mupfure river basin case. MSc
thesis. IHE, Delft.
Nyagwambo, N.L., 1998, "Virtual Water" as a water demand management tool: The Mupfure
river basin case. MSc thesis. IHE, Delft.
Pallett, J., 1997, Sharing water in Southern Africa. Desert Research Foundation of Namibia,
Windhoek.
Pazvakawambwa, G., and P. van der Zaag, 2000, The value of irrigation water in Nyanyadzi
smallholder irrigation scheme, Zimbabwe. Proceedings 1st WARFSA/WaterNet
Symposium 'Sustainable Use of Water Resources'. Maputo, 1-2 November.
Rockström, J., J. Barron and P. Fox, 2003, Water productivity in rain-fed agriculture:
challenges and opportunities for smallholder farmers in drought-prone tropical agro-
ecosystems. In: J.W. Kijne, R. Barker and D. Molden (eds.), Water productivity in
agriculture: limits and opportunities for improvements. CABI Publishing, Wallingford;
pp. 145-162
Rodda, J.C. and N.C. Matalas, 1987. Water for the future; Hydrology in perspective.
Proceedings of the Rome Symposium. IAHS publication no. 164.
Sahagian, D.L., F.W. Schwartz and D.K. Jacobs, 1994, Direct anthropogenic contributions to sea
level rise in the twentieth century. Nature 367, 6 January; pp. 54-57.
Savenije, H.H.G., 2000, Water resources management: concepts and tools. Lecture note. IHE,
Delft.
Savenije, H.H.G., and P. van der Zaag, 2000, Conceptual framework for the management of
shared river basins with special reference to the SADC and EU. Water Policy 2 (1-2): 9-45.
Van der Zaag, P., and Á. Carmo Vaz, 2003, Sharing the Incomati waters: cooperation and
competition in the balance. Water Policy 5: 349-368.

39
Um agente costal num esquema Mexicano de irrigação muda o curso do fluxo de água

40
Capítulo 4

Demanda de água
Pieter van der Zaag and Hubert H.G. Savenije

No capítulo 2, algumas observações gerais foram feitas sobre os vários usos da água.
Existe uma demanda geral crescente por água em todo o globo. À medida que a
população e seus padrões de vida crescem as demandas por recursos hídricos continuam
a crescer (fig. 4.1)

3,000
consumptive water use (10 m /a)

2,500 Reservoirs
3
9

Industrial
2,000 Municipal
Irrigation
1,500

1,000

500
forecast
0
1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 2020

Figura 4.1: Uso consuntivo global de água ( Shiklomanov, 2000)

Mas se a demanda cresce então o que acontece com o abastecimento; ele pode continuar
crescendo também? É claro que o recurso básico não se altera; a quantidade total de
água entrando no ciclo hidrológico é limitada, por isso a quantidade que podemos
extrair dela também. Em muitas regiões em desenvolvimento, a maioria da demanda já
é insuficiente por causa do abastecimento de água inadequado. A tecnologia pode
reduzir ou limitar a demanda?

Demandas futuras por água por diferentes usuários podem ser afetadas por progressos
tecnológicos. Progressos tecnológicos que fazem a demanda de água crescer são, por
exemplo, água de resfriamento de geração de energia nuclear e produção de gás a
carvão.

Progressos tecnológicos que podem diminuir futuras demandas por água doce são, por
exemplo:
 Geração de energia eólica e solar (através de células fotovoltaicas)
 Saneamento seco / ecológico
 Recirculação de água de resfriamento (“resfriamento-seco”) de usinas térmicas
 Tecnologia de lavagem sem enxague
 Irrigação de gotejamento
 Dessalinização da água do mar

41
Apesar de a tecnologia ajudar a reduzir a demanda, isso não é o suficiente. Para prevenir
a extração de recursos limitados, é necessário reduzir as demandas de usuários
individuais.

Existem diferenças substanciais nas demandas per capita entre países e regiões.
Diferenças na demanda são atribuídas tanto a fatores naturais quanto econômicos. Mais
água é usada em regiões quentes e secas do que em áreas temperadas e úmidas, devido à
irrigação, banhos e ar condicionado. Das várias influências climáticas, precipitação
parece ter o maior efeito na demanda per capita, principalmente como resultado das
demandas de água de irrigação. O padrão de vida da população também afeta a
demanda. O consumo de água cresce com o aumento do padrão de vida.

Este capítulo fornecerá alguns enfoques e ferramentas para estimar e influenciar, a


demanda de água. O foco será no setor de águas urbanas. Nas três últimas seções os
requerimentos de água para o meio ambiente, para a agricultura e para hidroelétricas são
mencionados brevemente.

4.1 Estimativas de águas urbanas


A demanda de águas urbanas depende, entre outras coisas, de:
a. Número de pessoas dentro da área considerada
b. Taxas de conexão para diferentes tipos de abastecimento; ex. tubo vertical,
abastecimento canalizado (conexão privada)
c. Consumo per capita, que depende de fatores como níveis de desenvolvimento, tipo
de abastecimento e preço da água.
d. Perdas na infraestrutura no transporte, tratamento e distribuição.

Além disso, a demanda de água também sofre influência do clima (chuva, temperatura),
padrão de vida dos (diferentes categorias) usuários, medidas de racionamento, taxas etc.

Tabela 4.1: Requerimentos de água recomendados para as necessidades básicas (Gleick,


1996)
Propósito Nível mínimo
(l/c/d)
Água potável 5
Serviços sanitários 20
Banho 15
Preparo de comida 10
Soma
50
Notas: (a) é o mínimo possível para manter a vida em condições de clima moderado e níveis
médios de atividade
(b) excluída a água necessária para o cultivo de alimentos. Uma estimativa bruta da
água necessária para cultivar as necessidades diárias alimentares de uma pessoa é
de 2700 litros.

42
Tabela 4.2: Padrões para demanda de água por categoria de consumidor, Harare
Categoria de consumo Unidade Demanda diária média anual
Residencial
Alta densidade l/casa/d 900
Densidade média l/casa/d 1,800
Baixa densidade l/casa/d 2,500
Apartamentos l/unidade/d 1,000
Comercial
Hotels l/cama/d 800
Escritórios, lojas l/empregado/d 30
Industrial
Indústrias secas l/ha/d 20,000
Indústrias líquidas Calcular individualmente
Institucional
Hospitais l/cama/d 500
Clinicas l/100 m2/d 1,000
Escolas dias l/aluno/d 30
Internatos l/aluno/d 90

O consumo mínimo de água pode ser definido como o consumo de água per capita
essencial para a vida. Esse consumo de água essencial atualmente é estipulada e limpa,
per capita por dia: observe que este número exclui a água necessária para a produção de
alimentos e para outras atividades econômicas.

A demanda de água é geralmente estimada usando-se padrões para as várias categorias


de usuários. A tabela 4.2 fornece os padrões de demanda unitária de água como a usada
na cidade de Harare, no Zimbabwe:

Taxas de conexão se referem ao percentual da população que tem acesso a certo tipo de
abastecimento, ex. conexões domésticas (abastecimento canalizado) ou tubos verticais.
Porcentagens aproximadas são inadequadas. A variação do consumo usual em países
em desenvolvimento é:
 20-45 litros per capita por dia no fornecimento com tubo vertical
 70-120 litros per capita por dia no fornecimento canalizado privado.

Em países desenvolvidos as taxas de consumo total podem ser altas como 1.000 litros
por dia em regiões secas onde a rega de gramados não é limitada. No entanto, números
normais para países desenvolvidos variam entre 200 e 500 litros por dia. Em países em
desenvolvimento, o consumo de água segura está normalmente abaixo de 50 litros por
dia, que pode ser considerado como o mínimo para propósitos de saúde pública. Em tais
situações as taxas de conexão e o consumo per capita tornam-se valores, alvo políticos e
sociais. As considerações custo-benefício não são relevantes nessas condições e
geralmente são substituídas por estratégias de custo efetividade: como atingir níveis de
metas a custos mínimos.

A posse de instrumentos que usam água, como lavadoras de roupa e lava-louças e


também piscinas, influenciam em muito o uso de água. Como o uso de instrumentos que
utilizam água está relacionado à relativa riqueza dos lares, a qual está também está
relacionado à vizinhança, para projeções acuradas é necessário se distinguir demanda de
água nas várias vizinhanças e fazer projeções separadas. Mais ainda, o clima tem um
impacto no consumo de água (tabela 4.3).

43
Tabela 4.3: Consumo médio doméstico de água (l/c/d) (Davies and Day, 1998: 325)
California, USA UK África do Sul
Lavadora de roupa 32 12 23
Banheiros 95 37 48
Banho/chuveiro 73 22 65
Cozinha 27 36 24
Total 227 107 160

Crescimento da demanda de água

Um elemento importante na avaliação da demanda é a projeção do desenvolvimento


demográfico (para o período de vida na nova infraestrutura). Desenvolvimento
populacional tem dois componentes: crescimento autônomo e migração. Deve-se tomar
cuidado com uma estratégia de gestão de recursos hídricos proposta, pois ela pode ter
um impacto substancial na migração.

Modelos de crescimento autônomos variam de uma análise de tendência simples - que


na sua forma mais simples extrapola o crescimento monitorado nos últimos anos - a
modelos mais complicados de projeção populacional, levando-se em conta o
desenvolvimento de grupos etários, as taxas diferenciadas de nascimento (b) e as de
mortalidade (d). Somente com esses modelos mais elaborados o efeito dos programas de
planejamento familiar pode ser avaliado.

Como resultado do caráter exponencial do crescimento, o resultado das previsões


populacionais é altamente sensível ao valor estimado da taxa de fertilidade. As
projeções populacionais podem ser feitas a curto prazo (2-5 anos) e a médio prazo (5-10
anos). Projeções a longo prazo (mais de 10 anos) não são confiáveis, apesar de poderem
servir como uma estimativa indicativa. Previsões de longo termo raramente se
aproximam da realidade. Em todo o globo mudanças imprevistas aconteceram, o que
levou as taxas de crescimento se desviarem seriamente das projeções. Algumas dessas
mudanças inesperadas são: deflagração de guerras, migração de refugiados, mudanças
políticas, recessão ou restabelecimento econômico, migração para áreas urbanas etc.

Em curto e médio prazo, previsões inacuradas geralmente significam que o


planejamento de implementação de um grupo de projetos em estágios deve ser
acelerado ou desacelerado. No entanto, algumas vezes alguns problemas sérios
aparecem: um projeto pode resultar numa falha financeira (ou econômica) se os
rendimentos (ou benefícios) forem realizados baseados em projeções muito otimistas.

44
Modelo de crescimento populacional baseado no balanço populacional (Savenije,
2000)

O crescimento populacional pode ser modelado através da equação do balanço


populacional:
dP
 B  D  I O (4.1)
dt
Onde dP/dt = mudança na população durante um período de tempo, ex. ano (capita)
B = número de nascimentos por unidade de tempo, ex. por ano (capita/ano)
D = número de mortes por unidade de tempo (capita/ano)
I = imigração (capita/ano)
O = emigração (capita/ano)

Pode-se notar que uma vez que a equação 4.1 tem uma grande semelhança com o
balanço hídrico, onde a população representa o estoque, os nascimentos a precipitação,
as mortes a evaporação, a imigração a entrada e a emigração a saída.

O número de nascimentos pode ser expresso como o produto da taxa de nascimentos b


e a população:
P
B=b (4.2)
L
Onde L é a expectativa de vida em anos. A taxa de nascimentos é o número de crianças
nascidas por pessoa durante seu tempo de vida. Assim, a taxa de nascimento é igual a
um se cada mulher, em média, der à luz a duas crianças. Em publicações geralmente são
feitas referências sobre taxa de fertilidade f, que é a quantidade de crianças nascidas por
mulher. É óbvio que f=2b.
Do mesmo modo, o número de mortes pode ser computado pela taxa de mortalidade d:
P
D= d (4.3)
L

Numa situação de equilíbrio, d = 1 e D = P/L. No entanto, se uma população está


crescendo, o que significa que existem, relativamente, muito mais jovens que velhos,
então d pode ser menor que a unidade. Igualmente, se b<1 (no caso da China) chegará
um dia em que haverá relativamente mais idosos que jovens, resultando numa taxa de
mortalidade maior que a unidade. Se desconsiderarmos, por causa do raciocínio, a
emigração e imigração, combinação das equações 4.1, 4.2 e 4.3 resultará em:
dP (b  d )
 P (4.4)
dt L

Se b e d forem constantes, então a solução da equação 4.4 é uma equação exponencial


do tipo:
(bd )t
P(t ) = P(0)  e L = P(0)  e rt (4.5)

Com P(0) P(t) = população no tempo = 0, e no tempo = t (capita)


r = (b-d)/L

45
e = função exponencial(e=2.718)

Se (b-d) > 0, significando que per capita mais crianças nascem que morrem, então a
população cresce exponencialmente. Se b = d, a população é constante. Na China, onde
b = 0.5, esse ponto ainda não foi atingido. O ajuste para uma redução na taxa de
nascimento leva tempo, porque a taxa de mortalidade não é igualmente distribuída nos
grupos etários. Se b=1, a taxa de nascimento é igual à taxa de reposição, a qual no final
irá levar a uma população constante, mas a escala de tempo para se atingir uma taxa de
mortalidade d igual à b=1 é a expectativa de vida L.

Para ilustrar esse fenômeno, o exemplo a seguir, mostra o que acontece se uma situação
estável inicial, onde b = d = 1, a taxa de nascimento é instantaneamente duplicada para
b = 2 em t = 0, e onde em t = 60 anos, como resultado de uma política governamental, a
taxa de nascimento é restaurada ao nível sustentável de b = d = 1. A Fig. 4.2 mostra a
variação da população total P no tempo. A distribuição da população inicial ao longo
das classes etárias (também chamado de pirâmide populacional) em t = 0 será estável
desde que o mesmo número de pessoas morra e nasça anualmente. A explosão
demográfica então dura 60 anos. Subsequentemente, levará mais 100 anos, o tempo de
vida de uma pessoa, para a explosão demográfica desaparecer completamente e a
população se estabilizar.

500

450

400

350

300

250

200

150

100

0 20 40 60 80 100 120 140 160

tim e (y ea rs )
to ta l p o p u la ti o n

Figura 4.2: Variação populacional total P(t) sobre o tempo

Outros fatores que influenciam a demanda de água

Exceto pelo crescimento populacional, existem outros fatores que influenciam a


demanda de água, incluindo (Singh, 1999, HR Wallingford, 2001):
- chuvas e secas
- desenvolvimento econômico
- racionamento
- cobrança de água

46
É dado um exemplo da cidade de Masvingo, Zimbabwe, no qual uma análise da
regressão linear múltipla (MLR) foi conduzida utilizando-se a influência da população,
chuva, desenvolvimento econômico, racionamento na demanda de água (Dube and Van
der Zaag, 2003). A influência na cobrança na demanda de água será discutida mais
adiante.

Dados anuais para população e precipitação de Masvingo estão disponíveis. Para o


desenvolvimento econômico, foram usados dados nacionais aproximados para o
crescimento GDP. Para o racionamento, um fator fictício foi usado com a memória de 5
anos, que decresce de 1 a 0 em intervalos de 0.2 por ano.

Para o MLR, foi usada a seguinte fórmula:


Q = a + b*N + c*P + d*G + e*R (4.6)
3
Onde Q = água tratada extraída por ano (1,000 m /a)
N = população de Masvingo (1,000)
P = desvio da precipitação anual em longo termo (mm/a)
G = GDP crescimento (%)
R = fator para racionamento, com uma memória de 5 anos (decrescendo de 1
para 0 em 6 anos)
a, b, c, d e e são constantes
A análise MLR resultou nos seguintes valores para as constantes a, b, c, d e e:
Q = 618 + 90.2 * N - 1.47 * P + 26.8 * G - 837 * R (4.7)
r2 = 96.5

A fórmula (4.7) implica que:


- A constante a (618 * 103 m3/a) representa usos de água mais ou menos fixos e
independentes da população, precipitação, GDP e racionamento. Esses usos incluem
algumas das perdas inevitáveis de água e alguns usos institucionais de água.
- A constante b (90.2 m3/capita/a, equivalente a 247 lcd) representa o consumo bruto
per capita e inclui alguns usos industriais e comerciais. A população sozinha explica
a porcentagem de 88% do abastecimento total de água.
- A constante c (-1.47 * 103 m3/mm) significa que se a precipitação for 100 mm acima
da média (600 mm/a), o consumo de água decresce em 147,000 m3/a; se a
precipitação for 100 mm abaixo da média, o consumo aumenta na mesma
quantidade. Concluindo, a precipitação aumenta a correlação em 5%.
- A constante d (26.8 * 103 m3/a) implica que a variação no GDP teve um pequeno
efeito no consumo de água: um acréscimo de 1% no GDP leva a um aumento no
consumo de água de 27,000 m3/a. Concluindo, esse fator aumenta a correlação em
apenas 0.4%.
- A constante e (-837 * 103 m3/a) indica que o racionamento tem um impacto
significante no consumo de água: num ano de seca o consumo cai 837,000 m3/a.
Concluindo, esse fator aumenta a correlação em 3%, resultando numa correlação
total de 96.5%.

A análise de regressão linear múltipla fornece um bom quadro (Figura 4.3). O uso
futuro de água pode ser projetado através do uso passado de água e vários cenários
podem ser considerados onde se levam em consideração variações dos fatores que
influenciam o uso de água.

47
7,000

6,500
MLR model
6,000
actual treated
treated water (1000 m3/a)

5,500

5,000

4,500

4,000

3,500

3,000

2,500

2,000
1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001

Figura 4.3: Uso de água real e modelagem, Masvingo, Zimbabwe, 1977-2001

Erros na extrapolação da demanda baseados em dados históricos

Um exemplo de alguns dos problemas que podem ocorrer com a extrapolação de dados
históricos é mostrado na fig. 4.4. A figura mostra o total de água produzido para
abastecer a cidade de Masvingo no Zimbabwe. Entre 1991 e 1992 ocorreu uma grave
seca no Zimbabwe que teve um impacto significante na demanda de água na maioria
das áreas urbanas. Se uma previsão de demanda futura de água tivesse sido feita em
1991, ajustando-se uma curva exponencial aos dados disponíveis entre 1977 e 1991 a
previsão da demanda de água para o ano de 2001 seria de aproximadamente 10 milhões
m3/ano. No entanto, em 1992, uma série de medidas de gestão de demanda, econômicas
e de racionamento de água levaram a uma taxa significativamente decrescente de
crescimento de demanda de água. Em 2001, a quantidade real de produção de água para
a cidade de Masvingo era de uns 6.8 milhões m3/ano. O número das previsões para 2001
usando uma técnica de ajuste de curva exponencial para os dados gravados entre 1977 e
2001 foi de 47% maior que o número atualmente registrado. Isso ilustra claramente os
riscos de se usar técnicas de ajuste de curva simples para previsões de demanda de água
futura.

12 -48 0.055932x
y = 2.475x10 e
r = 0.939

10
Total water produced (million m /year)
3

0
1977 1979 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001
Year
Recorded water produced pre-1991
Exponential forecast based on fitting to pre-1991 data
Recorded water produced post-1991

Figura 4.4: Os riscos de se usar técnicas de extrapolação na previsão de demanda de água


em Masvingo, Zimbabwe

48
4.2 Gestão da demanda de água
A gestão da demanda de água é definida de várias maneiras:
Gestão da demanda visa metas de demandas e usos desejáveis. Ela
influencia a demanda para o uso de recursos escassos eficientemente e
sustentavelmente (Savenije and Van der Zaag, 2002).

Note que:
- Gestão da demanda de água não é necessariamente o mesmo que diminuir a
demanda de água; em certas situações, administrar a demanda pode significar o
estímulo à demanda que foi suprimida (ex. em muitas regiões rurais da África, o uso
da água é excessivamente baixo; nesse caso é necessário a melhoria dos serviços de
água e aumentar o consumo de água).
- Gestão da demanda de água não é necessariamente o mesmo que cobrança de água!

A gestão da demanda usa incentivos técnicos, legais e econômicos em combinação com


a sensibilização, provisão de informações e educação; para se alcançar padrões de
consumo mais desejáveis, ambos em termos de distribuição entre setores e quantidades
consumidas, combinados com uma maior confiabilidade de abastecimento.

A gestão da demanda de água sempre se refere ao aumento do uso eficiente de água. A


minimização de vazamentos é geralmente a estratégia mais efetiva em relação a custos
para a melhoria do sistema. As perdas de água numa rede de encanamentos de
abastecimento urbano reduzem a capacidade do sistema, custa caro e pode causar
problemas ambientais e doenças de veiculação hídrica. Consequentemente, a redução
das perdas de água aumenta a capacidade do sistema de distribuição de água, a
economia e reduz problemas ambientais e de saúde.

Água não contabilizada

Um componente essencial para a demanda de abastecimento de água pode ser as perdas


pelo transporte, no tratamento e nos sistemas de distribuição. Essas perdas são
normalmente chamadas de 'água não-contabilizada' e podem atingir níveis de até 60%
em sistemas velhos e deteriorados. Porcentagens normais vão de 15 a 25%, incluindo
um "consumo" de 5% nas estações de tratamento. Além das considerações quantitativas,
vazamentos em sistemas podem representar riscos substanciais à saúde pública por
causa da possibilidade de infiltração de água subterrânea contaminada em condições de
baixa pressão na rede de distribuição.

Água não-contabilizada pode representar uma substancial perda financeira em qualquer


captação de água. Em Harare, a água não-contabilizada fica em torno de 37% (ver
quadro 4.1). Na Inglaterra, de acordo com a publicação de 1980 das diretrizes sobre
controle e política de vazamentos, as autoridades de água e companhias de
abastecimento de água fizeram uma tentativa de introduzir políticas efetivas de controle
de vazamentos (tabela 4.4)

49
Tabela 4.4: Redução do fluxo noturno da rede na Inglaterra (Borrows and Bloomfield,
1984; Setford, 1985)
Autoridade de Água Reduções do fluxo noturno da rede
(l/propriedade/h)
Antes Depois
Autoridade de Água do Tâmisa (Hounslow) 18.2 7.5
Cia deÁgua Mid-Kent (Ashford, Canterbury) 11.8 6.0

Para enfrentar a seca de 1992 , a cidade de Kwekwe no Zimbabwe (150.000 habitantes)


introduziu um programa de gestão de perdas de água usando detecção eletrônica de
vazamentos. Isso resultou numa redução de perdas de 30% em 1992 para 14% em 1996.
Juntamente com outras medidas de gestão de demanda de água, o consumo de água em
1997 (1.3 Mm3/mês) foi ainda menor que durante o período de pré-seca (1.5
Mm3/mês). Como resultado, a melhoria de Z$ 40 milhões dos serviços de tratamento da
cidade, planejado para 1995, foram adiados indefinidamente, poupando a cidade de uma
substancial carga capital (Goldblatt et al., 2000).

Quadro 4.1: Administração perde $180m em vazamento de águas


A Administração de Harare está perdendo o equivalente a $180 milhões [US$ 10 milhões] de
água tratada por ano por causa de vazamentos, que pode ser controlado através de um
sistema de detecção e controle. O prefeito, Clr. Solomon Tawengwa, disse que cerca de
37% da água tratada da cidade se perdeu pela terra por causa dos vazamentos. . ... Uma
concorrência de $77.6 para detenção e controle de vazamentos e gestão de infraestrutura foi
finalmente vencida Biwater International na terça-feira à noite. ...
À administração custa mais de $30 milhões por mês [US$ 1.7 million] para purificar sua
água. O orçamento de água conta muito com as vendas e qualquer perda de água resulta
em falha da administração em recuperar todas as despesas.
Harare extrai 150 milhões de litros de água por dia e perde em torno de 60 milhões de
metros cúbicos. O diretor de serviços, Mr. Christopher Zvobgo, disse ontem que não
adiantaria muito se o projeto multimilionário da Represa de Kunzwi começasse enquanto
houvesse tantos vazamentos.
Fonte: The Herald, 20 December 1997

Retromontagem

A redução da demanda de água é possível em várias situações, mesmo sem


comprometer necessariamente a qualidade dos serviços de água. Em geral, fazendo mais
com menos faz senso economicamente, melhora o acesso ao recurso por novos usuários
e pode ser benéfico para o meio ambiente. Especialmente numa situação onde nenhuma
atenção anterior foi dada à gestão da demanda, as primeiras medidas serão
relativamente baratas para implementar e terão um grande impacto. A retromontagem
de equipamentos de água em residências é um bom exemplo (Quadro 4.2).

A retromontagem de sistemas de irrigação, por exemplo, a substituição da irrigação em


sulcos por sistemas de gotejamento, tem um custo normalmente proibitivo. Mas os
resultados podem ser surpreendentes: a irrigação por gotejamento pode fornecer mais
precisamente a quantidade de água necessária no lugar necessário, resultando não
somente na redução do consumo de água, mas também no crescimento da produção
(Quadro 4.3)

50
Quadro 4.2: Retromontagem de acessórios de canalizações em sistemas de águas urbanas
A retromontagem de acessórios de canalizações, como a instalação de chuveiros e vasos
sanitários com baixo volume de água, pode reduzir a quantidade total de água em 25% do
consumo doméstico de água (Martindale and Gleick, 2001). Uma medida imediata e barata
que pode ser implementada é reduzir a capacidade da caixa de descarga dos vasos
sanitários. Gumbo (1998) estimou que a água usada para descarga constitui em torno de
30% do total do uso doméstico de água. Ao se instalar bóias em instalações existentes, ou
simplesmente se colocar um ou dois tijolos padrões na caixa de descarga, o consumo seria
reduzido em 10% ou mais. Isso significa que cada residência iria reduzir seu consumo em
aproximadamente 3%, sem a necessidade de qualquer investimento significante, portanto
economizando dinheiro através da redução na conta de água, sem comprometer a qualidade
do serviço a ser usado.
Em Nova York, 1.33 milhões de vasos sanitários ineficientes foram trocados por outros mais
eficientes entre os anos de 1994-1997, reduzindo o consumo da cidade em 0.3 Mm3/dia.
Outras medidas de gestão da demanda também foram implementadas. Como resultado, o
uso de água per capita caiu de 738 l/dia em 1991 para 640 l/dia em 1999 (Martindale and
Gleick, 2001).

Quadro 4.3: Retromontagem de sistemas de irrigação


Um exemplo é uma propriedade de açúcar em Suazilandia, onde um sistema de gotejamento
de última geração substituiu os aspersores. Enquanto o consumo de água diminuiu em 22%,
a produção de sacarose aumentou em 15%. No total, a eficiência do uso de água (expressa
em kg de sacarose por m3 de água de irrigação aplicada) aumentou em 45% (Merry, 2001).

Redução da demanda de água em Windhoek (Macy, 1999)

Em Windhoek, a demanda de água eram 242 litros por dia por pessoa em 1995, com
água não contabilizada de apenas 11%. Windhoek adotou uma gestão de demanda de
água em 1994, a qual é financiada a uma taxa de 0.5%. As primeiras tentativas nos anos
50 se focaram no reuso de água. Hoje em dia, Windhoek pode reusar toda sua água
servida para a rega de parques, campos de esporte e cemitérios através um sistema de
dupla canalização e da recuperação de água servida para um padrão de potabilidade. De
toda a água doméstica usada, 13% são tratadas para reuso. Cerca de 60% de toda a água
usada em residências de luxo é para os jardins. A sua infiltração para os gramados e
jardins a torna indisponível para reuso. Água para jardinagem ainda representa um
grande setor na economia de água.

Uma parte importante do programa de gestão da demanda de água envolve tarifas


apropriadas. Quando as tarifas são suficientemente altas, elas podem manter as
demandas de água exterior razoáveis. As tarifas de água foram recentemente
aumentadas em 30% e qualquer demanda de água que exceda 45 m3/mês por residência
ou empreendimento foi taxada a US$ 1.30 por m3.

Outras medidas de demanda de água incluem:


 Conscientização pública e educação
 Não irrigar jardins entre 10:00-16:00 h (obrigatório)
 Uso de coberturas para piscinas (obrigatório)
 Uso de sanitários de baixo volume (obrigatório para todos os prédios novos desde
1997)
 Hidrômetros em todas as conexões

51
 Reuso de efluentes purificados para irrigação e recuperação para padrões de
potabilidade
 Diretrizes de conservação de água para indústrias que utilizam água em seu processo
produtivo

O efeito combinado de todas essas medidas é que o consumo de água per capita
diminua: em 1996 o uso de água per capita diminuiu de 242 litros por dia por pessoa
para 196 litros por dia. Enquanto a população residencial aumentou 5%, o consumo
residencial total diminuiu de 10 para 7.8 106 m3 ano-1.

Os benefícios mais óbvios da conservação de água são:


 Em longo prazo podem-se fazer economias de até 30%; economias de curto prazo
podem ser dobradas.
 Menos água a ser tratada, menos energia usada.
 O meio ambiente se beneficiará dos padrões de fluxos reduzidos e de menos ou
menores barragens e outras infraestruturas.
 Economia financeira com a redução de capital e de custos operacionais.

Figura 4.5 ilustra a economia devido ao adiamento da construção da "próxima


barragem".

normal demand
increased supply
water supply/demand (volume)

original supply

conservation demand

4-year delay in
construction due to
conservation

-8 -4 0 4 8 12 16 20 24
year

Figura 4.5: Decréscimo da demanda de água retarda a necessidade de novas


infraestruturas de água (Macy 1999: xv)

52
4.3 Cobrança de água urbana
Nas conferências de Dublin e do Rio, como relatado na Agenda 21, reconheceu-se que a
água deveria ser administrada como um bem econômico, desde que a água potável e
para outras necessidades básicas fossem disponibilizadas a preços amplamente
acessíveis para a população local. O fornecimento de água gratuita, ou fortemente
subsidiada, no passado levou a sérios desperdícios de recursos hídricos, usos
ineficientes e superexploração.

Água gratuita Pobres pagam Ricos recebem água


gratuitamente

Não recuperação de
Dilema da água
custos
Pobres não têm
gratuita serviço

Sem manutenção
Falha do sistema

Figura 4.6: O dilema da "Água Gratuita" (Savenije, 2000)

Uma boa ilustração desse problema é o "dilema da água gratuita" (Figura 4.6). Se a
água fosse gratuita, a indústria de água não receberia pagamento suficiente pelos seus
serviços. Consequentemente, eles não poderiam manter seus sistemas adequadamente e,
portanto, falhariam em manter a qualidade de seus serviços. Consequentemente, o
sistema entraria em colapso, a população iria beber água não-potável ou teria que pagar
muito dinheiro para os comerciantes de água, enquanto que as pessoas ricas receberiam
água encanada direto em suas casas. Assim, a política de água gratuita resultaria em
ricos recebendo água de graça e pobres comprando água com tarifas altas o bebendo
água insegura.

A cobrança de água gera importantes consequências, que a torna o instrumento chave


para a implementação da gestão da demanda:
 Preços altos diminuem a demanda;
 Preços altos aumentam o abastecimento (primeiramente, porque pequenos projetos
podem se tornar viáveis; e segundo, a redução de perdas se torna atrativa);
 Preços altos facilitam a relocação de setores intermediários;
 Preços altos aumentam a eficiência administrativa.

A cobrança de água é hoje utilizada por um grande número de donatários ou "agências


de suporte externo", particularmente o Banco Mundial (1993), como uma importante
ferramenta de gestão da demanda. Na realidade, a cobrança de água é um importante
elemento na gestão da demanda, mas não é a única questão que necessita atenção.
Outras facetas da gestão de demanda, por ex. lidar com vários aspectos da melhoria da
eficiência, também merecem atenção. Ver os quadros anteriores dos benefícios da
retromontagem.

53
Custos de oportunidade (renda com a escassez)
custo econômico

Externalidades (custos de terceiros e do meio ambiente)

Custos de capital (interno)


custos
financeiros
Custos de operação e de manutenção

Figura 4.7: Princípio geral do custo da água

A cobrança de água é geralmente promovida para pelos menos dois propósitos: (a)
recuperar custos, e (b) aumentar a eficiência do uso da água. Na recuperação de custos,
a distribuição deve ser feita entre custos financeiros internos e externos (ou custos
sociais). Do ponto de vista financeiro, a água deveria ser cobrada para cobrir os custos
operacionais feitos para fornecer os bens e serviços relacionados à água e da
depreciação da infraestrutura (custos de capital). Assim, os custos financeiros são a
soma dos custos de capital e do operacional (fig. 4.7).

Os custos econômicos incluem, além dos custos financeiros, também custos externos
(externalidades econômicas), como dano ambiental, poluição, efeitos em usuário a
jusante e custos sociais (riscos à saúde, reassentamentos etc). Levando esses custos em
consideração os custos financeiros é o que chamamos externalidades. O dinheiro
recebido na internalização desse custo deve ser pago aos atores que sofreram o dano.

Até esse ponto o preço reflete os custos totais incorridos pela sociedade na produção da
mercadoria. Se o preço da água representasse o custo econômico total, ele deveria
refletir também a escassez do recurso, o que é geralmente expresso no custo de
oportunidade (o custo de não poder usar o recurso para uma atividade alternativa social
ou econômica com um alto valor econômico).

A disposição dos usuários de água de pagar é em função da quantidade que os usuários


consomem e sua habilidade para pagar. Ela pode ser representada nas curvas de
elasticidade de preços (ver abaixo). O desenvolvimento dos recursos hídricos é viável
somente se o valor econômico atribuído à água pela sociedade for maior que (ou igual)
aos custos econômicos. Nesse caso existem duas possibilidades: a disposição de pagar é
maior que os custos econômicos, onde o governo poderia sobretaxar ou taxar para
aumentar a eficiência do uso da água (ex. para a gestão de demanda); ou a disposição
(ou habilidade) de pagar é menor que os custos econômicos, onde o governo pode
subsidiar o consumo de água ao nível dos custos econômicos (que é também, uma
forma de gestão de demanda).

54
O valor econômico e a disposição de pagar não são facilmente determinados. Alguns
usuários têm mais disposição de pagar do que outros. Desde que essas considerações
são mais financeiras que econômicas (sociais), disposição de pagar não é sempre o
argumento certo para se estabelecer o preço econômico (para evitar que a água sempre
fique no maior valor). Além disso, disposição de pagar é dinâmica, dependendo de
muitos parâmetros que incluem acessibilidade, escassez do recurso e apreciação pelo
recurso. Como todos esses parâmetros são dependentes do tempo e podem ser
influenciados por fatores internos e externos, a disposição de pagar é um parâmetro
volátil.

Apesar da fig. 4.7 ser útil em como o preço da água poderia ser estabelecido para refletir
os custos sociais, economistas de água do Banco Mundial chegaram à conclusão que o
preço da água deve ser baseado nos custos de oportunidade ou custos marginais de
longo termo. Mas ele deve ter um custo razoável entre zero e o custo de dessalinização
(aprox. 1 US$/m3) que refletiria ao menos o custo financeiro e enviaria uma mensagem
aos usuários que estamos lidando com um recurso finito e precioso.

Relação entre preço e demanda

O exemplo (extremo) da cidade de Selebi-Phikwe em Botsuana mostra a influência da


cobrança de água no consumo de água (ver quadro 4.4). Em casos onde as diferenças de
tarifas são pequenas, o efeito da cobrança de água é, no entanto, bem menos
pronunciada ou até inexistente.

No caso de bens econômicos ordinários, existe uma relação entre preço e demanda
seguindo uma curva de demanda. A inclinação sem dimensões dessa curva de demanda
é chamada de elasticidade de preços da demanda. Ela é definida como a porcentagem do
aumento na demanda resultando de uma porcentagem de aumento de preços. Essa
elasticidade é um número negativo quando se espera que a demanda diminua à medida
que o preço aumenta e normalmente varia entre -1 e 0. A equação geral para a relação
preço-demanda (a curva de demanda) é:
Q  cP E (4.8)
Onde Q é a demanda pelo bem
P é o preço do bem
c é uma constante
E é a elasticidade da demanda.

A figura 4.8 mostra a forma típica da curva de demanda. Ela é construída presumindo-se
que os preços dos outros bens sejam constantes, assim como as rendas e as preferências.
Se qualquer um desses parâmetros variar, a demanda para as saídas do sistema deve
mudar.

55
Q

E=-1

rigid

E=-1

elastic

Figura 4.8: Relação entre o preço P e o consumo de água Q para água doméstica

Quadro 4.4: Consumo residencial de água em Selebi-Phikwe, Botswana (Arntzen et al.,


2000)

Selebi-Phikwe detém o maior consumo per capita de água das áreas urbanas de Botsuana.
Em 1995/96, seu consumo per capita de água potável foi de 273 l/c/d. Os números de
Gaborone e Francistown foram muito menores, 236 e 146 l/c/d, respectivamente. O alto
consumo de água em Selebi-Phikwe foi atribuído, entre outros motivos, ao subsídio de água
pela mina local BCL para seus empregados. As casas da BCL sem hidrômetros eram
totalmente subsidiadas. "Staff padrão" não pagava pelos primeiros 150 m3 de água
consumida por mês, enquanto o "staff sênior e executivo"não pagava pelos primeiros 200 m3
de água por mês.

Para se determinar o impacto do subsídio de água, 40 residências foram entrevistadas na


área luxuosa de Selebi-Phikwe, onde moravam os empregados da mina de níquel-cobre
BCL, do serviço civil e de outras seções do setor privado. Uma análise de regressão múltipla
foi usada para determinar as relações entre o consumo de água e as variáveis
independentes de acesso ao subsídio de água, rendimentos do chefe da casa, tipo e
tamanho das residências. Foi encontrada uma relação significativa entre o consumo de água
potável e as variáveis independentes dos rendimentos e a simulação para o subsídio de
água. A equação de regressão dessa relação foi como se segue:

W = 0.016 Y + 41.85 S – 25.94


R2 = 0.54

Onde W é o consumo mensal de água potável em m3/mês,


Y é o rendimento do chefe da casa em Pula/mês, e
S é a variável dummy para o subsídio de água (0: sem subsídio, 1: subsídio)

O rendimento do chefe da casa e o acesso ao subsídio de água são importantes


determinantes do consumo de água, tanto que o consumo de água aumenta à medida que o
rendimento aumenta e o acesso ao subsídio de água é obtido. Uma residência com um
rendimento de P 3.000 por mês e que não recebe subsídio consome 22 m3 por mês. Uma
residência com o mesmo rendimento, com subsídio, consome 63 m3 por mês ou quase 3
vezes mais. Os subsídios parecem conduzir a uma cultura de desperdício de uso de água e
insensibilidade para informar qualquer vazamento de água. O exemplo mais claro de
desperdício era a prática comum de refrescar os telhados com água durante o verão!

56
No entanto, a equação 4.8 é difícil de aplicar ao setor de águas como um todo, mas para
certos subsetores (uso de água urbana, uso industrial, irrigação) ela deve servir ao
propósito de análise de efeitos das mudanças de tarifa. O problema com essa equação é
que E não é constante. Ela depende do preço, do uso de água e varia com o tempo.
Então ela é uma equação com aplicabilidade limitada.

increasingly vital uses


drinking
0 elasticity -1
cooking

sanitation

laundry

other uses

Figura 4.9: Figura esquemática dos diferentes usos de água doméstica e suas
elasticidades de demanda

Os usos primários de água possuem uma característica em que a elasticidade se torna


rígida (inelástica; E perto de zero) quando abordamos as necessidades mais essenciais
do usuário (fig. 4.9). As pessoas necessitam de água, seja qual for o preço. E para o uso
mais essencial de água (beber) poucas fontes alternativas de água estão disponíveis.
Para setores como indústria e agricultura a demanda de água é geralmente mais elástica
(E perto de -1) que está mais de acordo com a teoria geral econômica. Isso é porque
existem alternativas de uso de água nesses setores (ex. introdução de tecnologias de
produção econômica de água, mudando para produtos/culturas que demandem menor
quantidade de água). Para necessidades básicas, no entanto, a demanda é relativamente
inelástica ou rígida. No abastecimento de água urbana, elasticidades são, portanto,
geralmente perto a 0, a menos que medidas adicionais (não-financeiras) sejam tomadas.
Consumidores pobres normalmente podem arcar com pequenas quantidades de água (o
básico), e qualquer aumento nas tarifas não terá muito impacto porque eles não podem
viver com menor quantidade de água. Para grandes consumidores (os que irrigam seus
jardins, lavam carros etc) a habilidade para pagar é tal que a necessidade de se
economizar com água é limitada. No último caso, campanhas de conscientização,
regulação, policiamento, detecção de vazamentos, renovação dos instrumentos, etc, são
geralmente mais efetivos do que o mecanismo de preço em si.

Pode-se dizer que, com respeito à água potável, a relação demanda-preço está em
condições normais, não será mais elástica que -1. Se alguém tem $100 para gastar em
condições normais (QP=100), então para QP continuar constante, um aumento de preço
de 10% deveria ser compensado por uma redução no consumo de 10% (E=-1). Assume-
se que não existe outra alternativa mais barata para água (ex. comprá-la de vendedores).
No entanto, não existe a necessidade de economizar mais água que 10% desde que isso
implicaria em gastar menos que $100 em água. Daí as relações preço-demanda para
água potável serem sempre inelásticas (-1<E<0).

57
Quadro 4.5: Padrões de consumo doméstico de água (Dube e Van der Zaag, 2003)
A figura 4.10 ilustra os diferentes padrões de uso de água durante o ano, para consumidores
pobres (alta densidade) e ricos (baixa densidade) na cidade de Masvingo no Zimbabwe. As
áreas residenciais de Rhodene e Clipsham foram consideradas afluentes, compreendendo
1.050 residências. As áreas residenciais de Rujeko e Mucheke foram consideradas não-
afluentes, representadas por uma amostra de tamanho de 3.350 residências. A amostra
representava 34% de todas as conexões domésticas da cidade. Os números mostram que
existe uma grande diferença no consumo de água entre casas afluentes (consumo de 60
m3/mês em média) e não-afluentes (20 m3/mês). Mais ainda, o consumo de água flutua
muito mais em casas afluentes (coeficiente de variação CV de 31%) do que em casas não-
afluentes (CV=12%). Essa flutuação está relacionada à chuva, desde que o uso de água
tende a ser maior nos meses quentes e secos, especialmente para propósitos não
essenciais como o uso de água tratada para regar jardins. No mês quente e seco de outubro,
por exemplo, residências afluentes podem consumir o equivalente a 80 m3/mês ou mais,
enquanto suas contrapartes não-afluentes consumem no máximo 25 m3/mês, que é menos
que um terço. Nas áreas mais pobres da cidade (500 casas na área residencial de Mucheke)
o consumo médio por casa foi somente de 12 m3/mês. Esse número pode ser considerado o
mínimo básico ou quantidade de “sobrevivência” e é, com um tamanho médio de 8 pessoas
por casa, equivalente a 50 lcd (cf. Gleick 1996, 1999).

100

Rhodene+Clipsham
water consumption (m3 per month per connection)

90 Rhodene+Clipsham: av. 59.3 m3/month; cv = 31%; n=1050


Rujeko+Mucheke
80

70

60

50

40

30

20

10 Rujeko+Mucheke: av. 19.9 m3/month; cv = 11.5%; n=3350

0
Jan-99 Apr-99 Jul-99 Oct-99 Jan-00 Apr-00 Jul-00 Oct-00 Dec-00 Apr-01 Jul-01 Oct-01

Figura 4.10: Consumo de água cobrada mensalmente por residências afluentes e não-
afluentes 1999-2001 (Dube e Van der Zaag, 2003)

A explicação para a tendência observada é clara: residências pobres não podem arcar com o
uso de muita água por causa de suas incapacidades (insolvência) em pagar. Além disso,
seus terrenos são relativamente pequenos (200-300 m2) o que estabelece um limite para o
uso máximo de água para jardinagem se eles tiverem capacidade para pagar. Como
resultado, a variação sazonal em seu uso de água é relativamente pequena, desde que a
água é usada principalmente para os propósitos mais essenciais. Nas residências afluentes
acontece o contrário: sua capacidade e disposição para pagar é grande, e o uso de água
parece estar de acordo com o tamanho de seus jardins (4.000 m2 em média), com a
existência de piscinas e também com o número de carros que lavam. Uma grande parte da
água é, portanto, empregada em usos não-essenciais.

58
A demanda de água é relativamente inelástica

Somente em situações extremas, quando o preço da água aumenta tanto que as pessoas
não podem arcar por muito tempo com isso, a demanda irá responder elasticamente e as
pessoas ou irão olhar por recursos alternativos de água (para alguns usos), como
escavando poços, usando água não-tratada, ou se mudando do local. Somente assim a
relação demanda-preço se torna elástica (E<-1). As relações demanda-preço que são
baseadas numa quantidade fixa de dinheiro que as pessoas podem gastar são todas do
tipo:
c
Q= Ou: QP=c (4.9)
P
Aonde c = quantidade de dinheiro que as pessoas irão, ou podem, gastar com água
[e.x. $/ano]
Essas funções possuem uma elasticidade constante E = -1. Mais usualmente, a
elasticidade de preço E de demanda pode ser definida como:
dQ Q PdQ
E= = (4.10)
dP P QdP
Com E = elasticidade [-]
Q = uso de água [em volume por unidade de tempo, ex. m3/d]
dQ = mudança no uso de água [volume por unidade de tempo, ex. m3/d]
P = preço da água [e.g. $/m3]
dP = mudança de preço [ex. $/m3]

Os economistas classificam elasticidade como elástica ou inelástica como se segue:


Se E<-1, a resposta de um aumento de preço é elástica ou reativa.
Se -1<E<0, a resposta de um aumento de preço é inelástica ou rígida.

Se, por exemplo, o preço aumentar em 100% (P1=2*P0), e disso resultar em um


decréscimo de 20% no uso de água (Q1=0.8Q0), então.
dP/P = (P1-P0)/P0 = (2P0-P0)/P0 = 1
dQ/Q = (Q1-Q0)/Q0 = (0.8Q0 -Q0)/Q0 = -0.20
Logo E = -0.20/1= -0.20.

A rigidez é normalmente maior para necessidades onde não existe substituto (como
água para o uso doméstico) do que para bens luxuosos, ou bens com uma alternativa
mais barata (ex. manteiga e margarina). Como a água não é luxo, a sua demanda reduz
relativamente pouco com um aumento de preço.

As demandas de água residencial ou industrial (exceto para resfriamento) são inelásticas


enquanto as demandas da agricultura são mais elásticas. Isso tem a ver com as
disponibilidades alternativas para uso de água. Para uso doméstico não existe alternativa
para a água e as pessoas estão dispostas a pagar mais pela mesma quantidade (rígida).
As pessoas precisam de uma quantidade mínima de água de alguma forma para
sobreviver e as residências normalmente pagam preços extraordinariamente altos para
os vendedores de água por pequenas quantidades de água.

59
Tabela 4.5: Variação da elasticidade de preços para abastecimento público de água
urbana (OECD, 1987)
País Elasticidade de preço (variação)
Australia -0.04 - -0.75
Canada -0.25 - -1.07
Inglaterra e Wales -0.3
Finlând ia -0.11
Suécia -0.15
EUA -0.06 - -0.61

Figura 4.11: Variação das elasticidades de preço da demanda de água nos EUA (Briscoe,
1996)

Quadro 4.6: Aumento na arrecadação devido ao aumento de preços


Como a elasticidade da demanda de água está geralmente entre -1 e 0 (-1<E<0), uma
elevação do preço de água sempre resulta em aumento de receita pela companhia de
abastecimento de água. Isso pode ser facilmente demonstrado combinando-se a equação
4.10 com a equação da variação relativa da arrecadação (QP):
dQP QdP PdQ dP
= + = (1 + E) (4.11)
QP QP QP P

Como (1+E)>0, uma elevação nos preços resulta num aumento de arrecadação.
Se E= -1, a arrecadação não aumenta, o que está de acordo com a equação 4.11.

Quadro 4.7: Tarifas em bloco e teoria econômica convencional


Observa-se que o sistema de tarifas em bloco cobra a menor tarifa de água para as
necessidades humanas mais vitais e a maior para as necessidades menos vitais. Portanto,
esse sistema de tarifas parece estar em desacordo com a teoria econômica convencional,
que cobraria mais pelos usos mais valiosos.
No entanto, como o sistema de tarifas em bloco permite aos pobres satisfazer suas
necessidades básicas graças aos usos frívolos de água pelos ricos, o subsídio cruzado
implícito deve ser considerado economicamente eficiente: o valor marginal de usos não-vitais
é menor que o das necessidades vitais. Portanto, uma transferência de pessoas que
consomem o anterior para as que consomem a última representa um ganho em valor
(Seckler, 1986: 1013).

60
Na indústria e na agricultura a elasticidade, apesar de ainda ser baixa, é alta de alguma
forma. Em áreas áridas não existe substituto para a água de irrigação ou industrial
levando a uma baixa elasticidade, mas fazendeiros e industriais podem investir em
tecnologias de economia de água e fazendeiros podem mudar os padrões de culturas
(levando a uma maior elasticidade).

Concluindo
- a elasticidade do consumo de água é geralmente baixa.
- a elasticidade de preço é maior quando o preço é maior.
- no setor doméstico, a elasticidade de preços varia entre -0.15 e -0.70.
- com respeito à água potável a relação demanda-preço nunca será elástica (E < -1)
- no setor industrial, a maioria das estimativas está na faixa de -0.45 a -1.37.

Quando a demanda de água é relativamente inelástica, como no caso de água urbana, o


provedor de água pode se sentir tentado a elevar as tarifas, já que isso sempre resultará
em uma arrecadação maior, enquanto o consumo de água irá cair ligeiramente (quadro
4.6). O provedor pode não estar interessado em refrear a demanda de água por outros
meios (ex. através de campanhas de conscientização ou através de subsídios para a
retromontagem de casas com dispositivos de economia de água). Portanto, é preferível
que as empresas de água permaneçam públicas. Se elas forem privatizadas, devem
operar num ambiente regulador efetivo e rigoroso.

Tabela 4.6: Sistemas de tarifas para cidades selecionadas na África do Sul


Windhoek 1997 (Macy 1999: xxiii) Gaborone (Macy 1999: 22-23)
Consumo tarifa consumo tarifa
3 3 3 3
(m /mês/conexão) (US$/m ) (m /mês/conexão) (US$/m )
0-8 0.44 0-10 0.30
8-15 0.62 10-15 0.88
15-36 0.76 15-25 1.12
36-45 1.00 25+ 1.54
45+ 1.30

Bulawayo 1997 (Macy 1999: xviii) Harare 1999


Consumo Consumo
(m3/mês/conexão) Tarifa unidade (m3/mês/conexão) Tarifa unidade
Tarifa fixa 1.29 US$ Tarifa fixa 0.68 US$
3 3
0-18 0.17 US$/m 0-14 0.11 US$/m
3 3
18-30 0.36 US$/m 14-40 0.20 US$/m
3 3
30+ 0.56 US$/m 40-70 0.28 US$/m
3
70-300 0.42 US$/m
3
300+ 0.50 US$/m

61
block tariffs
2.00
1.80
1.60
1.40

tariff (US$/m3)
1.20
1.00
0.80
0.60 Hermanus (South Africa)

0.40 Windhoek (Namibia)

0.20 Gaborone (Botsw ana)

0.00
0 10 20 30 40 50 60 70 80
monthly consumption per connection (m3/month)

Figura 4.12: Tarifas em bloco de Windhoek (Namibia), Gaborone (Botswana), eHermanus


(África do Sul) (after Macy 1999)

block tariff in Hermanus (South Africa)


2.20
2.00
1.80 tariff (US$/m3)
1.60 average cost (US$/m3)
tariff (US$/m3)

1.40
1.20
1.00
0.80
0.60
0.40
0.20
0.00
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 120
monthly consumption per connection (m3/month)

Figura 4.13: Tarifas em bloco de Hermanus (África do Sul) e preço médio da água (after
Macy 1999)

block tariff in Harare (Zimbabwe)


with fixed charge of US$ 0.70 per month
1.00
fixed charge
0.80 tariff (US$/m3)
average cost (US$/m3)
tariff (US$/m3)

0.60

0.40

0.20

0.00
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 110 120
monthly consumption per connection (m3/month)

Figura 4.14: Tarifas em bloco de Harare (Zimbabwe) e preço médio da água

62
Sistema crescente de tarifas em bloco

Deve-se notar ainda que a política de preços que visa influenciar a demanda deveria
considerar os direitos básicos das pessoas ao acesso à água potável segura. Portanto a
gestão da demanda através de meios econômicos deveria considerar critérios financeiros
(recuperação total de custos) e de equidade. A elevação da estrutura de preços das
tarifas em bloco implica num subsídio cruzado dos usuários ricos para os pobres. Esse é
um bom exemplo de um compromisso satisfatório entre os dois critérios e está sendo
cada vez mais adotado, especialmente em regiões onde a água é escassa.

A tabela 4.6 mostra as tarifas em bloco usadas em várias cidades da África do Sul. Os
sistemas de tarifas em bloco de Windhoek (Namibia), Gaborone (Botswana), e
Hermanus (África do Sul) são também representados nas figuras 4.12 e 4.13. A
estrutura de tarifas em bloco de Harare (Zimbabwe) incorpora uma taxa mensal fixa
(Figura 4.14).

Definindo as funções de cada bloco

Para se encontrar um compromisso satisfatório entre recuperação total de custos e


equidade, cada bloco deve ter um propósito claramente definido, onde o tamanho e a
tarifa de cada bloco podem ser derivados. Abaixo, um exemplo de como as funções de
quatro blocos pode ser definido:

Primeiramente: checar se a recuperação de custos é possível; que é checar se a renda


média é suficiente para se comprar a quantidade de água que a pessoa consome em
média (pode uma porcentagem de 3%-5% da renda mensal per capita comprar o
consumo médio per capita ao preço total?). Se positivo, a recuperação (total) de custos é
viável; um sistema de tarifas em bloco garantirá o acesso dos pobres à água, como se
segue:
(1) as residências mais pobres têm acesso à uma quantidade de água para sua
sobrevivência e não gastam mais que uma certa porcentagem de sua renda com água;

(2) o nível 'ideal' de consumo de água per capita é definido, o qual garantirá "o bem-
estar"; essa quantidade para o "bem-estar" é, por ex., duas vezes a quantidade de
sobrevivência; toda a água consumida acima da quantidade de sobrevivência, mas
menor que a quantidade para o bem-estar, é taxada com o Custo Cheio de
Abastecimento de Água (FCWS expresso por ex. em US$/m3); o que significa que o
preço médio de água ainda é menor que o FCWS. Então, essas casas ainda recebem
subsídio;

(3) aquelas residências que usam água acima da quantidade para o bem-estar, mas
menos que um certo limite superior (ex. 4 vezes a quantidade de sobrevivência) pagarão
o custo cheio da água sobre o seu consumo total; isso significa que a tarifa do terceiro
bloco deve compensar o subsídio implícito que esses usuários recebem no primeiro
bloco;

(4) para o uso de água acima da quantidade especificada no terceiro bloco será cobrada
a uma taxa que compensará o subsídio recebido pelas residências que se incluem nos
blocos 1 e 2, ou ao custo marginal em longo prazo.

63
As funções de tarifas em bloco acima, devem garantir a recuperação total de custos e a
equidade.
Quadro 4.8: Impacto de represamentos e extração de água à jusante num estuário; caso
em Incomati (Sengo et al., 2005; LeMarie et al., 2006; Van der Zaag e Carmo Vaz, 2003)
O consumo de água da bacia hidrográfica do Incomati (compartilhado pela África do Sul) é
muito alto: mais da metade dos recursos de água subterrânea e superficial é consuntivamente
usada para irrigação, propósitos domésticos e industriais (veja fig. 3.6 na seção 3.2.3 acima).
Muitos reservatórios foram construídos para garantir que a água seria água seria
confiavelmente disponível para esses propósitos. Como resultado, o regime de fluxo do rio
Incomati foi alterado significantemente (fig. 4.15). Pequenas inundações que ocorreriam
naturalmente a cada dois anos, agora ocorrem somente a cada quatro ou cinco anos. Isso é
significantes desde que esses pulsos de água são necessários para o rio transcender as
margens e inundar a planície de inundação, que é a condição natural para manter e sustentar
os serviços ecológicos essenciais. Inundações de magnitudes similares também lavam
simultaneamente a boca do estuário e depositam novos sedimentos nos manguezais, onde
camarões irão crescer, encontrando abrigo e nutrientes. Os pulsos decrescentes de água
doce podem ser a causa do declínio dos manguezais (fig. 4.16)
500
450
Discharge (Mm^3/month)

400
350
300
250
200
150
100
50
0
Oct Nov Dec Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep
Month
2 yrs return period (1957-1980) 2 yrs return period (1980-2001)

Figura 4.15: Períodos de retorno da descarga mensal, estação de monitoramento


Chobela, Moçambique, em dois períodos (1957-1980 e 1980-2001)

1984 2003
Mangroves non degraded

Mangroves degraded
Dune vegetation

Figura 4.16: Mudança na área de manguezais não degradadas na ilha de Benguela,


estuário de Incomati , 1984-2003

64
4.4 Requerimentos ambientais de água
O meio ambiente necessita de água. Em princípio, a meio ambiente precisa do regime
de fluxo natural, sem sofrer com a interferência humana. A super extração de água e a
construção de grandes reservatórios em algumas bacias hidrográficas afetaram a
ecologia significantemente. Em algumas bacias, isso deteriorou os ecossistemas
irreversivelmente, alterando significantemente os processos de geração de água. Essa
não é uma situação desejável.

Entretanto, considerar o meio ambiente um legítimo usuário de água representa um


desafio: quanta água deve ser reservada para o meio ambiente? A resposta para essa
questão é complexa, desde que a água para o meio ambiente deveria ser especificada em
termos espaciais, temporais e de qualidade, para que um certo nível de dinamismo seja
garantido por meio da alocação de água para o meio ambiente.

Ecossistemas desenvolvem-se com flutuações de descarga ao longo do ano que ocorrem


naturalmente. Muitas famílias vivem dos recursos gerados por esses ecossistemas, como
peixes, ou requerem inundações regulares mínimas de planícies de inundação para
agricultura de vazante. Inundações também recarregam águas subterrânea, nas quais as
famílias podem confiar como sua água potável.

Agora, tem-se aceito que o meio ambiente é um "legítimo usuário de água". Não se trata
necessariamente de um luxo e um belo gesto para a fauna e flora. É uma estratégia de
sobrevivência para nós, humanos, e para as gerações que virão desde que à água é a
base da vida. Nós vivemos, e fazemos parte de ecossistemas e dependemos deles.
Alterando o sistema natural podemos inclusive reduzir sua capacidade de continuar
gerando água doce.

Em sistemas fluviais demasiadamente comprometidos, obras de infraestrutura (como


barragens) não só diminuíram a água remanescente nos leitos dos rios; elas também
atenuaram o hidrograma. O fluxo de base que ocorreria naturalmente, muitas vezes não
é mantido e pequenas inundações regulares foram barradas (quadro 4.8). Como exemplo
é útil o estuário Zambezi: a presença da barragem Cahora Bassa e a maneira na qual era
operada, causou uma importante queda na economia de pesca de camarões
(Gammelsrod, 1996).

Precisamos de critérios que possam assistir os legisladores a tomar decisões


equilibradas nas quais os interesses econômicos imediatos são comparados com o
interesse do meio ambiente. Esses critérios gerariam regras operacionais práticas,
relacionadas à:

- Liberação de reservatórios que acomodariam o meio ambiente:


- Direitos ou permissões de uso de água, que contenham condicionais permitindo a
extração de água somente se um fluxo específico for liberado:
- Objetivos de qualidade de água e permissões de descarga:
- Projetos de barragens para inundações artificiais e passagens de peixes

A meta principal deve ser a de manter uma certa fração do fluxo base natural (zero nos
rios efêmeros!) e recriar pequenos eventos de inundações. De qualquer maneira, grandes
inundações irão ocorrer, porque mesmo em sistemas fluviais seriamente comprometidos

65
todas as barragens ficarão cheias e subsequentemente, derramarão. Alocação de água
para o meio ambiente significa que menos água estará disponível para outros usos (fig.
4.17).

Um simples critério e primeira estimativa do regime mínimo que o meio ambiente


necessita é a do período de retorno de certos eventos de descarga que não podem ser
menores que o período de retorno do quadrado do regime natural (Symphorian et al.,
2003). Uma pequena inundação que ocorreria naturalmente a cada 2 anos, deveria
ocorrer, ao menos uma vez a cada 4 anos; e uma inundação com o período natural de
retorno de 3 anos, ao menos uma vez em 9 anos. De acordo com esse critério, grandes
inundações raramente precisariam ser simuladas (ex. um evento de inundação de 10
anos, somente uma vez em 100 anos), mas na prática essas grandes inundações irão
ocorrer de qualquer maneira, simplesmente porque mesmo em sistemas fluviais
seriamente comprometidos, todas as barragens irão encher e subsequentemente,
derramar. Então nenhuma provisão específica tem que ser feita para grandes enchentes.
O ponto principal é o de recriar eventos de pequenas enchentes.

Em sistemas fluviais com baixos níveis de comprometimento (a fração média do


escoamento anual natural que é retirada e consumida desse sistema), esse critério será
quase sempre satisfeito e raramente será necessária a liberação de alguma água
adicional para o meio ambiente. Quando o comprometimento aumenta, no entanto, a
água das barragens terá que ser liberada para o meio ambiente, diminuindo a produção
efetiva das barragens e afetando significantemente os usos não-ambientais de água. A
figura 4.17 mostra que esses níveis de comprometimento permanecem abaixo dos 35%,
os requerimentos de água ambiental podem ser facilmente satisfeitos e irá requerer
relativamente pouca água a ser liberada das barragens.

1.0

0.9

0.8

0.7

0.6
fraction

0.5

0.4

0.3

0.2

0.1

0.0
0.0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 1.0
commitment level of non-environmental uses

satisfaction non-environmental uses


outflow as fraction of natural flow
environmental flow: consumptive use as fraction of natural flow

Figura 4.17: Efeito dos requerimentos de água ambiental em usos não-ambientais (dados
de um rio com o coeficiente de variação com o fluxo anual de 68%)
(Van der Zaag e Makurira, 2003)

66
Existem vários procedimentos de avaliação para se determinar os fluxos ambientais. A decisão
sobre qual procedimento usar, depende da sensibilidade do ambiente aquático, da complexidade
da decisão a ser tomada e do aumento de preços e dificuldade de se coletar grandes quantidades
de informações. Procedimentos para se determinar os requerimentos de fluxos ambientais
recaem em uma das quatro categorias básicas:
1. Método da descarga histórica: método Tennant ;
2. Método Hidráulico : método do perímetro molhado;
3. Método Holístico: método de blocos de construção
4. Método de classificação de Habitat: Metodologia do fluxo gradual de vazão

Cada método difere em seus requerimentos de dados, procedimentos para a seleção de


requerimentos de vazão, hipóteses ecológicas e efeitos na hidráulica do rio.

Implementação de requerimentos de fluxo ambiental através da mudança na


operação dos reservatórios

Estabelecer um regime de vazão ambiental é uma coisa; implementá-lo é outra coisa - e


geralmente requer que a operação de grandes reservatórios seja adaptada. Nessa seção
são dadas algumas idéias preliminares.

Desenvolvimento à montante num sistema fluvial pode afetar e mudar o regime de


vazão à jusante. Basicamente podem ser aplicadas três diferentes situações:
1) Reservatórios à montante que armazenam e desviam água para usos consuntivos
(ex. irrigação, grandes cidades), que levam a uma diminuição significante na
vazão de água à jusante, "rebaixando" o hidrograma (fig. 4.18);
2) Reservatórios à montante que são construídos para a produção de energia
hidráulica que são largamente não-consuntivos, incluindo a proteção contra
enchentes e navegação; o que "achata" o hidrograma (fig. 4.19);
3) Combinações de usos consuntivos e regulação do rio à montante.

500
Oct 1952 - Sep 1979 (average 2,297 Mm3/a)
450
Oct 1979 - Sep 1999 (average 950 Mm3/a)
400
discharge (Mm3/month)

350

300

250

200

150

100

50

0
Oct Nov Dec Jan Feb Mar Apr May Jun Jul Aug Sep Oct

Figura 4.18: O regime de vazão modificado do Incomati nos limites entre a África do Sul e
Moçambique, devido ao uso consuntivo à montante (principalmente devido a
transferências para fora da bacia, irrigação e plantações de florestas comerciais). Fonte:
Carmo Vaz e Van der Zaag (2003).

67
Figura 4.19: O regime de vazão modificado do rio Baixo Zambezi devido ao grande
crescimento de hidroelétricas à jusante (principalmente Barragens de Kariba (1958) e de
Cahora Bassa (1974)). Fonte: Beilfuss (2001).

Se o ponto é mitigar ou minimizar o impacto negativo desses crescimentos nos


ecossistemas aquáticos rio abaixo etc, então esses reservatórios deveriam adaptar suas
operações e restaurar parcialmente o regime natural de vazão. Isso significaria
considerar os períodos naturais de altos e baixos fluxos. Certamente, alterações da
qualidade de água também (em termos de temperatura, carga de sedimentos, poluentes,
etc.) precisam ser tratadas, mas isso não será discutido aqui.

Geralmente, regras operacionais que tentam restaurar a vazão devem concentrar-se em


períodos de alta e baixa vazão.

Durante o período de baixa vazão, duas condições devem ser definidas:


- Garantir uma baixa vazão mínima:
- Garantir uma baixa vazão máxima.

Durante o período de alta vazão, uma condição deve ser definida:

- Garantir uma alta vazão mínima (Fig. 4.20).

Figura 4.20: Exemplo de liberação de vazão para propósitos ecológicos durante a estação
chuvosa - aqui as vazões no delta Zambezi são simuladas para um evento de alta vazão
para 4 semanas em dezembro. Fonte: Beilfuss and Brown (2006).

68
Portanto, operar um reservatório para incluir problemas ambientais, requer que essas
três condições sejam definidas e seguidas (fig. 4.21, na foram incluídas essas três
condições). Quais são os valores precisos desses fluxos mínimos e máximos, se esses
serão fixos e idênticos por todos os anos ou estabelecidos dinamicamente, ex. em
função das flutuações climáticas (ex. os anos relativamente secos ou chuvosos serão
tratados diferentemente), por quanto tempo eles deverão ser mantidos, são todas as
questões relevantes. Responder a essas questões requer um bom conhecimento do
ecossistema de recursos hídricos e aquáticos e do nível no qual a sociedade pode e irá
arcar para levar as considerações ecológicas em conta.

Minimum high flow

Maximum low flow

Minimum low flow

Figura 4.21: O regime de vazão natural e a modificada do Baixo Zambezi e o regime


alterado proposto para beneficiar o meio ambiente (EFI) através da mudança da regra de
operação da barragem de Cahora Bassa dam. Fonte: Tilmant e Beevers (2010).

4.5 Demanda de água para agricultura


A produção agrícola requer muita água, seja diretamente da chuva (agricultura de
sequeiro), ou de rios e aquíferos (irrigação), ou ambos.

A irrigação é, em muitos sistemas fluviais, o principal usuário da água "azul".


Normalmente o uso de água para irrigação responde por pelo menos 80% do total de
uso de água num sistema de recursos hídricos. Para um planejamento e gestão
apropriados de um sistema desses, é, portanto importante ter ferramentas adequadas
para se estimar com confiabilidade a demanda para água de irrigação, as possíveis
reduções de produção devido à escassez de água e os benefícios econômicos da água de
irrigação.

O presente tema faz parte da área de especialistas como engenheiros agrícolas e de


irrigação. No entanto, é importante que os gerentes de recursos hídricos tenham um
conhecimento básico da matéria, para que possam analisar a demanda de água do setor
agrícola face às demandas de água de outros setores.

69
4.5.1 Resposta da produção à água

O crescimento de plantas ocorre através do processo de fotossíntese (também conhecido


como assimilação de CO2). A fotossíntese é a produção, nas folhas das plantas, de
materiais orgânicos (carbohidratos, (CH2 O)n), através da redução do dióxido de
carbono (CO2) do ar por meio da energia solar (luz do sol = radiação de ondas curtas) na
presença de H2O:
CO2 + H2O + energia solar  CH2 O + O2

A fotossíntese em si usa uma quantidade insignificante de água. No entanto, através da


transpiração da água através dos estômatos das folhas das plantas, nutrientes fluem das
raízes através do caule para as folhas. A transpiração da água, portanto, não deve ser
considerada uma 'perda de água'; ela é essencial para a produção das plantas.

As plantações utilizam muita água. A eficiência da utilização da água para a produção


agrícola (Ey) varia, para grãos como o trigo, sorgo, milho e arroz, entre 0.6 e 1.6 kg de
grão colhido por m3 de água usada. Para tubérculos e raízes, como batatas, a eficiência
de utilização de água é em torno de 4-7 kg/m3. Para vegetais frescos e frutas, como
vagens, tomates e melancias, essa eficiência varia entre 1.5-12 kg/m3 (tabela 4.7).

Numa situação onde os nutrientes não são escassos, a produção (Yc) é a função da
entrada das ondas curtas (Rs) e a máxima evapotranspiração (ETm), e é inversamente
proporcional à umidade do ar (expresso como a diferença entre a pressão de saturação
do vapor ea pressão de evaporação atual ed: ea-ed):
Y = f ( Rs, ETm, 1 / (ea-ed) )

Nessa relação, a evapotranspiração é de grande interesse desde que ela é o termo que
pode ser influenciado pela irrigação: mais água disponível para a plantação reflete em
maior evapotranspiração e em maior produção, desde que os nutrientes não sejam
escassos.

As relações entre a produção agrícola e a evapotranspiração podem ser estabelecidas


através de experiências de campo. A relação encontrada sempre será específica para
cada lugar. Experiências de campo com milho na Califórnia e Israel encontraram uma
relação linear entre a produção de matéria seca (uma medida específica de produção) e a
evapotranspiração (fig. 4.22).

70
Figura 4.22: Relação entre produção de matéria seca e transpiração
(Fonte: Loomis and Connor, 1992)

Tabela 4.7: Boas colheitas (Ym) e eficiência da utilização da água (Ey) de plantações
selecionadas (trópicos e subtrópicos) (fonte: FAO, 1977: 6-7, tabela 2 88, tabela 39)
Plantação Produção (Ym) Eficiência de utilização de água
por colheita (Ey)
ton/ha kg/m3 (% umidade)

Banana 30-60 2.5-6 (70)


Feijão: vagem fresca 6-8 1.5-2.0 (80-90)
Grão seco 1.5-2.5 0.3-0.6 (10)
Repolho cabeça 40-60 12-20 (90-95)
Lim fruta 20-60 2-5 (70-85)
Algodão semente 3-4.5 0.4-0.6 (10)
Amendoim noz 3-4.5 0.6-0.8 (15)
Milho grão 6-10 0.8-1.6 (10-13)
Cebola bulbo 35-45 8-10 (85-90)
Ervilha: vagem fresca 2-3 0.5-0.7 (70-80)
grão seco 0.6-0.8 0.15-0.2 (12)
Abacaxi fruta 65-90 5-12 (85)
Batata tubérculo 15-35 4-7 (70-75)
Arroz arrozal 5-8 0.7-1.1 (15-20)
Sorgo grão 3-5 0.6-1.0 (12-15)
Soja grão 2.5-3.5 0.4-0.7 (6-10)
Cana-de-acúcar cane 100-150 5-8 (80)
sugar 12-18 0.6-1.0 (0)
Girassol semente 2.5-3.5 0.3-0.5 (6-10)
Tabaco folha 2-2.5 0.4-0.6 (5-10)
Tomate fruto 45-75 10-12 (80-90)
Melancia fruta 25-35 5-8 (90)
Trigo grão 4-6 0.8-1.0 (12-15)

71
4.5.2 Agricultura de sequeiro (Falkenmark e Rockström, 2004).

Agricultura de sequeiro é a origem da maioria dos alimentos do mundo e vai continuar a


ser no futuro próximo. A irrigação tem um importante papel, mas é válido lembrar que
que globalmente, somente 20% das terras cultiváveis são irrigadas, um número que
varia entre 2 - 5% para países na África Subsariana (SSA). Isso significa que mais de
95% das terras que produzem alimentos na SSA são irrigadas pela chuva. Mais ainda, a
grande maioria dos pequenos agricultores depende da agricultura de sequeiro. Assim,
encontramos aqui a maioria dos 1.1 bilhões de agricultores do mundo (dos quais 95%
vivem em países em desenvolvimento). A sua contribuição na agricultura global é muito
grande, totalizando 60% da agricultura mundial praticada atualmente.

Nós sabemos que o crescimento populacional e a má nutrição existente, vão requerer


pelo menos o dobro da produção nos próximos 25 anos. Nós também sabemos que é
necessária a atenção tanto para a agricultura de sequeiro quanto para a de irrigação para
se alcançar esse grande desafio - o qual para a SSA e Ásia do Sul, onde o crescimento
populacional é maior e os déficits atuais de comida são maiores, supera até mesmo o
impressionante crescimento da produção de alimentos durante a famosa Revolução
Verde na Ásia durante o final dos anos 60 e início dos anos 70.

Figura 4.23: Uso de água atual e futuro pela agricultura de sequeiro e de irrigação
(Fonte: SIWI, 2005)

Em condições de sequeiro, o crescimento da safra está sujeito à variação randômica da


chuva no tempo e no espaço. Em regiões tropicais, a variação da precipitação é
particularmente alta, como resultado das características erráticas e de alta intensidade
das chuvas. Também, como um princípio básico, a variabilidade das chuvas com o
tempo aumenta com o decréscimo dos níveis de chuvas sazonais e anuais. Isso significa
por ex. que um local semiárido com 500 mm de chuva anual pode ter uma variabilidade
anual de 30 - 40 % (average departure from the mean)1, enquanto uma savana subúmida
pode ter uma variabilidade de somente 20% (chuva muito mais confiável através dos
anos). Então, não só a precipitação é menor - a água é mais escassa - em regiões mais
secas - como a variabilidade das chuvas também aumenta.

1. Normalmente expresso como o coeficiente de variação (CV): CV = Desvio Padrão/Média.

72
A variação da precipitação está fortemente relacionada com a produção agrícola em
agricultura tropical de sequeiro, particularmente em regiões semiáridas e subúmidas
secas (precipitação anual entre 400 - 900 mm) onde a água é a maior restrição na
produção de alimentos. O período de crescimento varia de 75 - 120 dias na zona semi-
árida. Os níveis potenciais de evapotranspiração diária são altos, variando de 5 -8 mm
por dia.

A chuva é muito irregular e a maior parte dela cai como tempestades intensas e
convectivas, com uma intensidade muito alta e uma extrema variação espacial e
temporal. O resultado é a alta probabilidade de ocorrerem secas anuais e períodos secos
intrasazonais. Estaticamente, numa região semi-árida, reduções severas na produção,
causadas por um período seco, ocorrem de 1 a 2 vezes em 5 anos e a perda total da safra
causada por secas anuais, uma vez a cada dez anos.

Uma seca agrícola ocorre quando a água cumulativa do solo, disponível para as plantas,
é significantemente menor que as necessidades cumulativas para a plantação, i.e., existe
uma escassez absoluta de água. Um período seco ocorre como períodos curtos de
escassez de água, geralmente por somente umas duas semanas, durante o crescimento
das culturas. Tais períodos podem resultar em sérios efeitos na produção agrícola se
ocorrer durante os estágios mais sensíveis do desenvolvimento das plantas como por ex.
durante a floração. Por exemplo, nas regiões semiáridas do Quênia e da Tanzânia, existe
uma probabilidade mínima de 0.2 - 0.3 de um período seco durar mais de 10 dias em
qualquer época da temporada de crescimento de uma cultura e a probabilidade de 0.7
deste período seco ocorrer durante o estágio sensível de floração (milho).

Qualquer esforço de aumentar a produtividade da terra de pequenas propriedades rurais


em terras secas tropicais deve levar em consideração os riscos do empreendimento
percebidos pelos agricultores que tentam tirar seu sustento da agricultura onde os
fracassos ocorrem, em média, quatro ou cinco estações em dez.

A produção agrícola em regiões semi-áridas da África é normalmente baixa, na ordem


de 1 ton de grãos por hectare. Esse cenário é desanimador ao se comparar com a
produção ótima de grãos, por exemplo, 8-10 ton/ha para o milho e 3-5 ton/ha para sorgo
e painço.

Tais produções tão baixas experimentadas nas fazendas, indicam as restrições que se
apresentam para os pequenos agricultores, tanto em termos de escassez de água, quanto
de outros insumos, como gestão da fertilidade do solo, cultura, velocidade das
operações etc. No entanto, pelo fato da produção ser tão baixa, existe uma série de ações
para se melhorar a produtividade da agricultura de sequeiro e a eficiência de utilização,
por exemplo, através de:
 Técnicas alternativas de cultura mais apropriadas para as condições climáticas e do
solo, que conservam o solo e a água; como a água não é a única restrição na
produção de culturas, a melhoria da fertilização resultará numa maior produção por
mm de água de chuva;
 A melhor escolha de culturas e variedades de grãos dadas as condições locais; isso
inclui a possibilidade por ex. de culturas intercalares.

Tais medidas podem resultar em maior produção, compensando a necessidade de se


criar novos esquemas de irrigação e assim isentar a água e os recursos monetários.

73
A agricultura de sequeiro é o tipo de uso da terra mais empregado e vai continuar a
constituir a maior fonte de comida para uma população mundial crescente. Em lugar
algum isso é mais real do que na África subsariana. A produtividade da agricultura de
sequeiro nas savanas (geralmente conhecidas como terras secas) é baixa, normalmente
na ordem de 0.5 - 2 t/ha, como resultado de frequentes períodos secos, ocorrência de
secas e baixas capacidades das plantas de captar água relacionada com déficits de
fertilidade do solo, culturas pobres, duração, semeadura, variedades de grão etc.
Portanto, a água não é o único fator determinante para níveis baixos de produtividade
em agriculturas de sequeiro, mesmo em regiões secas. Mas a água não é o único fator
aleatório, que devido à parca distribuição da chuva afeta a vontade dos agricultores de
investir em melhoria de outros componentes, como a gestão de nutrientes do solo (para
que comprar fertilizantes se o investimento tem grandes possibilidades de ser perdido
por causa dos períodos secos?). Investir em gestão de águas, como irrigação
suplementar em sistemas de agricultura de sequeiro, não só é uma maneira de aumentar
a produção graças à melhor disponibilidade de água para a cultura, como também uma
maneira de incentivar a gestão para melhores nutrientes do solo, por exemplo.

Para os engenheiros, gestão de águas em pequena escala pode parecer muito simples,
com poucos desafios construtivos e de projeto. Na realidade não é esse o caso. A
complexidade da dinâmica de escoamento em escala de pequenas bacias, projetos de
instalações de armazenagens, vertedouros, técnicas para selar e evitar evaporação,
programação de irrigação suplementar (como uma que tem que suprir a ocorrência de
chuva) são desafios, mas em pequena escala.

4.6 Demanda de água para hidrelétricas


Hidroenergia é a técnica de converter a energia de pressão e a energia cinética da água
em energia elétrica. Essa conversão é feita através da passagem de um fluxo de água por
uma turbina, que é essencialmente uma roda d'água ou um anel com pás, baldes ou
lâminas que giram em torno de um eixo. A rotação impulsiona um gerador elétrico que
ou produz energia elétrica ou impulsiona outra maquinaria. O conduite usado para
transportar o fluxo à montante do abastecimento do forebay para a turbina é conhecido
como conduto forçado. A água sai da turbina através de um tubo de sucção para o canal
de fuga, onde o fluxo reencontra a calha do rio, no qual está localizada a instalação.
Portanto, as turbinas operam com uma coluna d´água H, dada pela diferença de
elevação entre montante no forebay e jusante na saída do tubo difusor menos as perdas
hidráulicas no conduto forçado e no tubo difusor.

Hidroenergia é, em princípio, uma força benigna de energia que, ao contrário das fontes
de energia térmica que dependem da combustão de combustíveis fósseis, usa recursos
renováveis, i.e. o fluxo de um rio dada uma diferença de altura da coluna d'água.

A energia produzida P (N m s-1 ou W (Watt)) é uma função da descarga Q (m3 s-1) do


fluido, a sua densidade  (kg m-3), a aceleração da gravidade g (9.81 m s-2), a altura à
montante H (m) e os fatores de eficiência:

P = eteg g Q H (4.12)
Onde et, eg são as eficiências das turbinas e dos geradores respectivamente.

74
kg m m 3 m2 m m
Unidades: 3
* 2
* * m  kg * 3
 (kg * 2 ) *  N m s 1
m s s s s s

Energia gerada E (N m or W s) no tempo T (s):


E = P T = eteg g Q H T (4.13)

Normalmente, a energia gerada é expressa em kWh, dividindo a equação 4.13 por 3.6 *
106. Reorganizando a equação 4.12, fica:
P
Q (4.14)
et e g  g H
Usando essa equação, a exigência de água para a geração de energia pode ser calculada
(ver quadro 4.9 e 4.10).

Quadro 4.9: Cálculo do fluxo mínimo necessário à montante para uma instalação
hidrelétrica (HR Wallingford, 2001)
A hidroelétrica de Kafue no Zambia tem 5 turbinas de 150 MW cada, com uma eficiência de
90%. Para produzir energia suficiente para atender as necessidades de carga básicas, um
mínimo de 3 dessas turbinas deve estar em operação. A diferença de nível efetiva para a
usina é de 400 m.
O fluxo mínimo de entrada pode ser calculado como se segue:
6 6
Energia mínima necessária: P = 3 x 150 x 10 = 450 x 10 W

P 450 x 10 6
Fluxo mínimo de entrada: Q    127 m 3 / s
et  g H 0.90 x1,000 x 9.81x 400

Quadro 4.10: Cálculo da geração de energia de Kariba (Zimconsult, 1995; Soils


Incorporated, 2000; ZERO, 1999)
A hidroelétrica de Kariba tem 6 turbinas de 117.5 MW na margem esquerda e 4 de 153.5
MW na margem norte, totalizando uma capacidade total de 1.320 MW. Presume-se que a
eficiência das turbinas é de 90% e a dos geradores de 95%.
9 3
A barragem de Kariba tem uma capacidade total de armazenagem de 180.6 * 10 m de
água, dos quais somente a água armazenada 475.50 m acima do nível do mar pode ser
9 3
usada para geração de energia. A chamada reserva vital é de 64.8 * 10 m . A altura média
disponível para geração de energia é de aproximadamente 110 metros.

A descarga necessária através das turbinas para a geração de seu potencial total será:

P 1,320 x 10 6
Q   1,430 m 3 / s
et  g H 0.90 x 0.95 x 1,000 x 9.81 x 110
3
A descarga através das turbinas normalmente não excede 1.000 m /s, a qual pode gerar uns
929 MW.
6 3
Usando-se a reserva vital total, daria 64.8 * 10 s = 18*10 hrs = 750 dias, e geraria 20.300
9 3
GWh de eletricidade. Levando a evaporação do lago em consideração (8.7 *10 m /annum;
9 3
portanto 17.4 * 10 m durante dois anos) ainda geraria 14.850 GWh.

Comparando: em 1996 o Zimbabwe consumiu um total de 11.500 GWh de eletricidade (dos


quais 2.125 GWh foram gerados pelas turbinas da margem sul de Kariba) (Zero, 1999).

75
4.7 Exercícios
4.1 Presumindo-se que a taxa de crescimento para uma certa cidade (como uma
proporção de sua população atual) seja de 5 % ao ano.
4.1a Quantos anos levará para a cidade crescer 30% do seu estágio atual?

4.2 Nos últimos 5 anos, a população de uma certa área cresceu de 120.000 para
150.000, e parece que seu crescimento segue um padrão exponencial.
4.2a Se o mesmo padrão de crescimento continuar, qual será a população depois de 5
anos?
4.2b Quanto tempo levará, nas mesmas condições, para se atingir um nível
populacional de 200.000 habitantes?

4.3 Presumindo-se que a população da cidade tenha dobrado nos últimos 20 anos.
4.3a Qual é a taxa média anual de crescimento daquela cidade?
Assuma ainda que nos próximos 5 anos a população da cidade irá crescer à
mesma taxa, enquanto o consumo de água per capita aumenta 2% por ano.
4.3b Qual será o consumo bruto de água em 5 anos?

4.4 Dados os seguintes sistemas de tarifas em bloco do fornecimento de água urbana


de Windhoek e Harare
4.4a Calcule a conta total de (US$/mês) e o custo média de água por residência (em
US$/m3) nas duas cidades que consomem 1, 10, 50 e 100 m3/mês.
Windhoek 1997 Harare 1999
Consumo tarifa Consumo
3 3 3
(m /mês/conexão) (US$/m ) (m /mês/conexão) Tarifa unidade
0-8 0.44 Fixed charge 0.68 US$
3
8-15 0.62 0-14 0.11 US$/m
3
15-36 0.76 14-40 0.20 US$/m
3
36-45 1.00 40-70 0.28 US$/m
3
45+ 1.30 70-300 0.42 US$/m
3
300+ 0.50 US$/m

4.5 Desenvolva um sistema de tarifas em bloco que seja justo e eficiente consistindo
de somente 3 blocos. Defina a função de cada bloco e indique como o volume e
o preço pode ser estabelecido.

4.6 Gestão de demanda e de crescimento populacional


Uma cidade teve a seguinte população em 1990 e 1995:
Ano população
1990 10,000
1995 12,000
Foi estabelecido que a população cresceu exponencialmente durante esse
período.

76
4.6a Qual foi a taxa média de crescimento anual da população dessa cidade durante o
período considerado?

4.6b Faça uma projeção para a população da cidade no ano de 2000.


A cidade tem uma fonte de fornecimento de água de 600 x 103 m3/ano. O
consumo total líquido de água na cidade foi medido em 1990 e 1995, e, expresso
em termos per capita, foi de 100 l/cap/dia para ambos os anos. A água não
contabilizada foi estimada em 20% do total do uso de água nos dois anos. O
preço da água se manteve constante entre 1990 e 1995.
4.6c Qual é o consumo projetado de água da cidade para o ano de 2000?

4.6d Dada a resposta em c), cite quatro estratégias para recursos hídricos que a cidade
deveria considerar.

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Zimconsult, Harare

78
Capítulo 5

Alocação de água: algumas considerações


gerais
Pieter van der Zaag

O propósito da alocação de água para diferentes usuários é o de combinar ou equilibrar


a demanda de água com sua disponibilidade. Existem várias maneiras de se alocar
água. O desafio é encontrar uma alocação ideal que, primeiramente, se apóie em bases
legais ou outros regulamentos, e segundo, satisfaça a demanda de água de todos os
usuários o máximo que puder. Ou nas palavras de Malin Falkenmark e Carl Folke,
“O desafio é enfrentar toda a gama de considerações necessárias:
necessidades de água e de uso da terra, ecossistemas terrestres e os bens e
serviços que eles fornecem e o sistema aquático e seus bens e serviços. A
gestão também envolve a ligação de atividades à montante e à jusante na
bacia e as éticas envolvidas. A conciliação de conflitos de interesses com
um equilíbrio baseado em solidariedade dos interesses para o sustento
humano deve ser alcançada sem atingir o meio ambiente, definidos como
hidrosolidariedade”. (Falkenmark and Folke, 2002, p. 4).

A alocação de água não é um problema quando a disponibilidade de água ultrapassa em


muito a demanda. Em tais situações todas as demandas podem ser atingidas, e, de fato
não existe a necessidade de uma regulação de alocação de água. Em muitas bacias
hidrográficas, no entanto, a disponibilidade de água é frequentemente menor que a
demanda por ela. Então se torna necessário procurar uma alocação apropriada da água
escassa.

A alocação de água não se refere somente à alocação física da água. Mais


abrangentemente, trata-se de satisfazer conflitos de interesses que dependem da água.
Essas podem ser atividades derivadas da água como a navegação (níveis mínimos de
navegabilidade), hidroenergia (disponibilidade de água, mas não-consuntiva), etc. Essas
atividades são consultivas só até certo ponto, mas podem ser conflituosas em sua
distribuição temporal e espacial. A proteção contra enchentes também é uma atividade
do sistema de recursos hídricos. A proteção contra enchentes através da construção de
barragens de contenção pode ter um impacto positivo na disponibilidade de água para
outras atividades (ex. hidroenergia), mas também pode ter impactos negativos em outros
(ex. no meio ambiente).

5.1 Equilíbrio entre demanda e abastecimento


Encontrar uma chave de distribuição adequada para a água pode ser muito complexo,
visto que um grande número de parâmetros deve ser considerado, tanto do lado do
abastecimento quanto da demanda.
Abastecimento
- A geração de água numa área de bacia flutua naturalmente, tanto durante os anos
quanto entre os anos.
- A água ocorre em diferentes formas, as quais servem para diferentes usos. Uma

79
referência especial é feita para a chuva e seu uso com "água verde" na agricultura.
Água verde não pode ser alocada do mesmo jeito que a água "azul" que ocorre em
rios e aquíferos. Mais, agricultura em terras secas e outros tipos de uso da terra
influenciam a repartição da chuva para a recarga de água subterrânea, escoamento
superficial e umidade do solo (isto é evaporação e transpiração) e por isso sua
disponibilidade.

Demanda
- A demanda por água flutua, mas normalmente muito menos que sua geração. Para
muitos tipos de usos, a demanda de água aumenta quando a disponibilidade de água
diminui, como durante a estação seca.
- Muitos usos são (parcialmente) consuntivos, o que significa que a água abstraída
não irá retornar para o sistema de águas na forma de "água azul"; o uso consuntivo
de água normalmente converte água azul ou verde em vapor de água, a qual, nessa
forma, não pode ser alocada para outros usuários.
- Os usos de água que são não-consuntivos permitem aos outros usarem a água
posteriormente. Usos recreacionais de água é um típico exemplo. No entanto, alguns
usos não-consuntivos alteram o tempo quando essa água se torna disponível para
outros usuários. Um exemplo típico é a água usada para a geração de energia: a
eletricidade é necessária também durante a estação chuvosa, e, portanto a água tem
que ser liberada para esse propósito, quando a demanda por ela em outros setores é
baixa. Como resultado, essa água usada para geração de eletricidade fica
indisponível para esses usos potenciais quando eles precisam dela. O meio ambiente
é outro usuário (parcialmente) de água; seus requerimentos frequentemente estão
fora de sincronia com as necessidades dos outros usuários. É precisamente por isso
que agora esses requerimentos por água ambiental têm sido cada vez mais
identificados.
- Muitos usos de água geram fluxos de retorno, o que, em princípio, estão disponíveis
para outros usos. No entanto, fluxos de retorno normalmente têm uma qualidade
menor que a água originalmente extraída, o que pode limitar em muito o seu reuso.
Algumas vezes a qualidade dos fluxos de retorno é um risco para a saúde pública e
para o meio ambiente.
- Diferentes tipos de água requerem diferentes níveis de garantia. Para terras agrícolas
irrigadas (não perenes), níveis de segurança de 80% (a chance de falha é uma em 5
anos) podem ser aceitáveis. Para a segurança de abastecimento de água urbana,
níveis de 96% ou mais são a norma (falhando uma vez a cada 25 anos).

A estrutura legal
Em muitos países a água é considerada um bem de domínio público, onde ela é
considerada propriedade dos cidadãos do país e o governo administra esse bem pelo
interesse deles. Leis e regulações irão, portanto fornecer as regras pertinentes ao uso
desse recurso público.

Quadro 5.1: De bem público a privado


Em países onde a água é considerada um bem público, a alocação de água pode ser vista
como o processo de conversão de um bem público em privado. Um irrigante, por exemplo,
irá usar a água em suas próprias plantações. Essas irão consumir uma grande parte da
água, convertendo-a em vapor de água e aumentando sua produção. O irrigante obtém
benefício direto e privado ao usar um bem público, mas ao fazer isso, ele nega à outra
pessoa a oportunidade de usar a água e obter benefícios semelhantes.

80
Abastecimento e demanda equilibrados devem ser feitos dentro de estruturas legais
estabelecidas. Uma lei de águas de um país e as regulações subsidiárias governamentais
determinam muitos aspectos de alocação de água. São eles:
- A lei irá determinar os tipos de uso de água que são regulamentados e, portanto
requer algum tipo de permissão, concessão, direitos, etc; e os tipos de uso de água
que não são regulamentados e não requerem permissão. O uso de água para
propósitos primários normalmente não requerem permissão ou direito de uso,
exatamente como o uso direto da água de chuva.
- Uma permissão de água ou direitos de uso de água define tipicamente qual água
(água subterrânea ou de superfície) pode ser desviada, onde (ponto de extração) e
para qual propósito (ex. irrigação de x por ha de terra). Uma permissão ou direito
especificam certas condições nas quais o uso da água é permitido. Uma condição
típica é aquela em que a permissão ou direito é limitado, onde não se permite o uso
de água que irá afetar direitos similares de outros. Outra condição frequentemente
especificada é aquela na qual a água deve ser usada de forma benéfica e não
desperdiçada e o fluxo de retorno deve atender a certos padrões de qualidade.
- A lei frequentemente estipula a hierarquia de diferentes tipos de uso de água;
distinguindo, por exemplo, entre usos primário, ambiental, industrial, agrícola,
hidroelétrica etc. Em muitos países, o uso de água para propósitos primários tem
prioridade sobre qualquer outro tipo de uso de água. Alguns países também
especificam uma hierarquia para os usos remanescentes, com o qual o uso
econômico mais importante naquele país normalmente recebe uma alta prioridade de
uso. Em outros países, todos os usos de água que não sejam para propósitos
primários (e algumas vezes ambientais) estão na mesma posição. Em época de
escassez de água, a quantidade de água alocada para todos os usos não primários é
diminuída proporcionalmente, para que todos os usuários compartilhem a escassez
igualmente.

A lei pode estabelecer muitas condições detalhadas com uma relação direta com a
alocação de água. Ela pode estipular, por exemplo, que a alocação de água deveria ser
equilibrada. Em alguns países, em contraste, a lei diz que direitos inferiores não devem
afetar direitos superiores.

Em alguns casos, no entanto, a estrutura legal não fornece uma "receita" detalhada de
como a água deve ser alocada. O administrador de água deve, portanto, interpretar os
princípios mais gerais como expressos na lei e traduzir os mesmos para regras
operacionais nas decisões do dia-a-dia de alocações. Em muitos países o gestor de águas
não pode nem fazer isso sem consultar os stakeholders mais importantes.

O quadro 5.2 dá um exemplo de dois sistemas diferentes de alocação de água. O


primeiro é o sistema de alocação baseado na "apropriação anterior", também conhecido
como "sistema da data anterior", que é o sistema de alocação para uso não-primário de
água do Zimbabwe antes do ano de 1999. O segundo sistema de alocação é conhecido
como o sistema proporcional, que substituiu o sistema anterior do Zimbabwe

81
Quadro 5.2: Princípios de alocação de água no Zimbabwe
Como em muitos outros países da África, O Zimbabwe teve seu setor de águas
recentemente reestruturado e promulgou um novo Ato das Águas. Esse quadro traça
brevemente os princípios de alocação fundamentados no agora extinto Ato das Águas de
1976 antes de considerar aqueles delineados no Ato de 1998.
Sob o ato de 1976, o uso de água para requerimentos primários não necessitava de direitos.
Todos os outros usos, exceto a extração de água subterrânea, requeriam um direito de água.
A alocação desses direitos era baseada na doutrina anterior de apropriação, também
conhecida como o sistema de data anterior. A garantia dos direitos da água era uma função
exclusiva da Corte Administrativa sentando como Corte das Águas. O direito somente seria
garantido se houvesse água disponível e se fosse acertado que a água seria utilizada como
uso benéfico. O direito garantido era dependente da data na qual foi feita à aplicação para o
mesmo. Isso significava que os detentores de direitos superiores poderiam satisfazer seus
direitos sem tem que considerar os direitos inferiores ("primeiro em tempo, primeiro em
direito"). A data prioritária, portanto, definia direito de lugar do detentor na "fila da água". Os
direitos de águas eram direitos 'reais' registrados com o título de propriedade para os quais
eles eram relacionados e eram garantidos em perpetuidade.

Em dezembro de 1998, foi adotado um novo Ato das Águas. Ele introduz um importante
número de inovações. A água deve ser administrada numa bacia hidrográfica. O mandato
A missão global de administração é colocada sob os Conselhos de Bacia recém
estabelecidos constituídos por todos os stakeholders. Todos os direitos de água existentes
tiveram que ser convertidos em permissões de água que são válidos por um período limitado
de tempo (vinte anos). O sistema de datas anterior nas quais esses direitos eram baseados
(primeiro em tempo, primeiro em direito) foi abolido.
Daí em diante, os Conselhos de Bacia ser tornaram os responsáveis pelas permissões de
água. Eles o fazem por causa da necessidade de se atingir uma distribuição equitativa dos
recursos hídricos disponíveis; das necessidades de cada requerente; e dos benefícios
sociais e econômicos dos usos propostos. Os Conselhos têm o poder de revisar, redistribuir
ou repartir as permissões para assegurar a distribuição equitativa e o uso da água
disponível.
O Ato de 1998 não determina precisamente o novo sistema de distribuição que deveria
substituir o sistema de data anterior. No entanto, um sistema de distribuição proporcional foi
adotado para substituir o sistema anterior. O sistema de distribuição proporcional é definido
como 'o aporte, tanto da água subterrânea quanto da superficial de acordo com as
proporções dos volumes de extração permitidos para uso direto ou armazenagem de uma
simples permissão sobre o volume total de todas as permissões dentro de uma esfera
realística de influência'. (DWD, 2000).

O valor da água

Os vários usos de água nos diferentes setores de uma economia agregam valores para os
mesmos. Alguns podem usar pouca água, mas contribuir significantemente para o
grosso do produto nacional bruto (PNB) de uma economia. Outros setores podem usar
muita água, mas contribuir relativamente pouco para aquela economia. A tabela 2.1
(cap. 2) mostra a contribuição de vários setores da enonomia da Namíbia para seu PNB
e a quantidade de água que cada setor usa. A indústria e o comércio usam menos que
3% de toda a água usada na Namíbia, mas contribuem com 42% para a economia do
país. Em contraste, a agricultura irrigada usa 43% de toda a água usada, mas contribui
somente com 3% da economia.

82
Deve-se tomar cuidado na interpretação dos dados acima. Por exemplo, é notório que o
setor agrícola tem tipicamente um alto efeito multiplicador na economia, já que muitas
atividades de outros setores da economia dependem da produção da agricultura, ou
fornecem importantes serviços (Rogers, 1998). O valor "real" acrescido pela água pode,
portanto ser subestimado pelo tipo de dados fornecidos na tabela.

O quadro 5.3 fornece alguns dados do valor agregado da água (irrigação) na produção
de milho no Zimbabwe.

Quadro 5.3: O valor da água para o milho no Zimbabwe (ver fig. 5.1)
Para locais selecionados no esquema de irrigação em Nyanyadzi, Pazvakawambwa e van
3
der Zaag (2000) viram que um m a mais de água (irrigação+chuva) supriam a plantação de
milho (sequeiro com irrigação suplementar) resultando numa produção de 1.5 kg de milho
-3 2 -1
por m (r = 0.81). Assumindo-se o preço do milho a 0.10 US$ kg , segue-se que o valor
-3
marginal de água (chuval + irrigação) é de 0.15 US$ m .
A produção também está relacionada com á água de irrigação total líquida (Inet in mm). A
relação matemática a seguir foi encontrada:
2
Y = 1,450 + 19 * Inet (coeficiente de correlação r = 0.71)
-1
A constante 1,450 kg ha indica a produção obtida para uma agricultura de sequeiro sem
irrigação. A produtividade marginal líquida da água de irrigação suplementar no verão foi de
-1 -1 -3
19 kg ha mm , or 1.9 kg m . Isso significa que a água irá produzir 1.9 kg adicionais de
milho, avaliado em US$ 0.19. O valor marginal da irrigação suplementar de milho em
-3
Nyanyadzi é então, de 0.19 US$ m .

6,000 6,000

5,000 5,000
yield Y (kg/ha)
yield Y (kg/ha)

4,000 4,000

3,000 3,000
Y= 1,444+18.67*Inet (r2=0.71)
2,000 Y=-4,500+15.39*TNWU (r2=0.81) 2,000

1,000 1,000

0 0
400 450 500 550 600 650 700 0 50 100 150 200 250
total water use TNWU (mm) net irrigation Inet (mm)

(a) uso de água total líquido e a produção (b) irrigação líquida e produção
Figura 5.1: Relação entre o uso de água e a produção para o milho, Nyanyadzi,
Zimbabwe

83
O valor agregado de alguns usos de água é muito difícil, se não impossível, de se medir.
Considere por exemplo, o uso doméstico da água: como quantificar o valor de um
abastecimento adequado para esse setor?

O dano para a economia por causa do desabastecimento de água pode ser imenso. É
notório que, por exemplo, existe uma correlação positiva entre os índices da bolsa de
valores e as chuvas no Zimbabwe. A seca de 1991/92 tiveram um enorme impacto
negativo na economia do país (ver quadro 2.1, cap. 2). Po outro lado, inundações, apesar
de benéficas, podem ser, algumas vezes, devastadoras (quadro 5.4)

Quadro 5.4: As cheias de fevereiro de 2000 (Brito, 2002)


Chuvas pesadas, que começaram no iníco de fevereiro de 2000, inundaram parte das
provícias ao sul de Moçambique. Os rios Save, Limpopo, Incomati e Umbeluzi, com suas
cabeceiras Zimbabwe, Botswana, Africa do Sul and Suazilandia, alcançaram os níveis mais
altos já resgistrados no começo de março e muitas comunidades ribeirinhas ficaram
submersas durante semanas. 699 pessoas morreram 95 desapareceram e um milhão de
pessoas necessitou de assistência emergencial.
Grande parte da estrada principal de ligação ao norte de Maputo foi destruída. Pontes e
estradas de ferro foram destruídas. Cerca de 20.000 cabeças de gado se afogaram e
140.000 hectares de plantações foram perdidos, com o maior esquema de irrigação do país
(25.000 ha ao longo do rio Limpopo) seriamente danificado. Centros de saúde,
infraestruturas de abastecimento e de saneamento de água sofreram grandes danos em
várias cidades e vilarejos, expondo um milhão de pessoas a doenças de veiculação hídrica,
como a cólera, malária e diarréia.

A destruição causada pelas cheias foi estimada em US$ 600 milhões. O crescimento da
economia de Moçambique caiu de 10% em 1999 para 2% em 2000.

Escalas e condições fronteiriças

Qualquer decisão de alocação tem um efeito potencial em terceiros: ela pode afetar
aqueles que não estão diretamente envolvidos no processo de alocação, que pode ser
benéfico ou prejudicial. Um caso especial, e muito importante, é onde os usuários de
jusante afetados estão localizados fora da jurisdição de uma dada instituição de alocação
de água.

Um processo de alocação que não engloba toda a bacia hidrográfica corre o risco de ser
afetado por usos à montante e por sua vez, impactar nos usos à jusante. Como a maioria
das bacias hidrográficas é muito grandes em extensão e geralmente compartilhadas com
mais de um país, os processos de alocação de água são normalmente fragmentados em
áreas de captação que fazem parte de uma bacia maior. Nesses casos o processo de
alocação deve incluir as condições fronteiriças; isto é, uma especificação dos
requerimentos de água na entrada e na saída da área de captação em consideração.
Mesmo uma área de captação mais à jusante, com seus limites à jusante sendo num
estuário, tais condições fronteiriças deve ser acertada para minimizar a intrusão de sal,
e/ou garantir a saúde do mesmo para propósitos ambientais, sociais e/ou econômicos
(ex. para manguezais e pesca de camarão).

84
Condições fronteiriças são especialmente importantes em bacias hidrográficas que são
compartilhadas por mais de um país. Se uma instituição de alocação de água não
considerar os requerimentos de uma país à jusante, isso pode afetar inclusive as relações
bilaterais dos dois países vizinhos.

Seria prudente a formalização de tais condições fronteiriças por escrito e tê-las


endossadas por todas as instituições de alocação envolvidas; de uma maneira similar, os
pedidos de usuários individuais de água são formalizados como outorgas de direito de
água.

O processo de alocação de água deve considerar, de preferência, tanto as decisões


detalhadas de alocação entre os usuários individuais de água em nível local, como as
decisões de maior vulto abrangendo a bacia hidrográfica inteira. Claro que essas escalas
espaciais diferentes requerem diferentes níveis de precisão e espeficidade. Mas ambos
requerem desde que decisões nessas diferentes escalas espaciais afetam um ao outro. Na
prática, o processo de tomada de decisões tem sido interativo, com um foco inicial nas
escalas espaciais menores, especialmente em áreas muito comprometidas de uma bacia
hidrográfica. Com as pressões crescentes sobre nossos recursos hídricos, a
interconectividade entre as várias partes da bacia se tornaram aparentes em muitos
sistemas fluviais. Isso levou, inevitavelmente, à expansão do âmbito do processo de
alocação de água também para uma escala espacial maior.

Deve-se notar que a obrigação de ceder uma certa quantidade de água para uma área à
jusante ou para outro país não necessariamente significa que toda essa água está
"perdida" pela bacia à montante. Se essa bacia também tiver que suprir a afluência dos
requerimentos ambientais de água dentro de sua área de jurisdição, a água tem que ser
cedida para a área à jusante para atender primeiro aos requerimentos ambientais (ou
pelo menos a sua parte não-consuntiva)

A questão permanece: quanto de água à montante uma área de captação deixa no rio
para os usuários de jusante? Não existe uma resposta geral para essa pergunta e deve ser
sujeita à acordos com os stakeholders envolvidos (entre áreas de sub-bacias ao longo de
um tributário ou entre estados ribeirinhos). A Convenção das Nações Unidas sobre as
Leis de Usos Não-Navegacionais dos Cursos de Água Internacionais fornece
orientações sobre os parâmetros a serem considerados, mas seu peso relativo deve ser
acordado sobre cada caso específico (ver seção 5.3 abaixo).

85
Figura 5.2: Usos e planos de desenvolvimento de água em vários níveis de uma bacia

river basin

catchments
within the basin

sub catchments
within the catchment

water user boards


within the sub-catchment

5.2 Questões na alocação de água


Nessa seção, algumas importantes questões relacionadas à alocação de água são
discutidas brevemente. Essas questões tipicamente não podem ser resolvidas da noite
para o dia. Qualquer ator envolvido na alocação de água, no entanto, deve estar à parte
delas. Essas questões são: conceitos chave de alocação, incertezas, eficiência e
equidade.

(a) Definição dos conceitos chave

Os conceitos chave usados num sistema de alocação de água de um país devem ser
precisamente e claramente definidos para serem conhecidos e entendidos pelos usuários
de água. Tais conceitos chave podem incluir: a posse da água, o uso da água, uso
primário, equidade, eficiência e os direitos precisos e obrigações conferidos com a
outorga de água.

Uma importante questão particular é a definição de uso da água, já que isso basicamente
define o ponto onde a água passa de um bem público para um bem privado. A falta de
clareza sobre exatamente onde ocorre essa conversão irá criar confusão, que irá
impactar diretamente na efetividade do processo de alocação de água. Por exemplo, se o
portador de uma outorga estocou água legalmente em seu reservatório, essa água já foi
usada e, portanto pertence ao outorgado, ou ainda não?

Quadro 5.5: Uso de água


O Ato das Águas da África do Sul, define o uso de água como pegar e armazenar água,
atividades que reduzem o fluxo de água, desprezar resíduos e águas servidas, atividades
controladas (atividades declaradas que causam impacto negativo num recurso hídrico),
alterando o curso de água, remoção da água subterrânea para certos propósitos e
recreação.

86
(b) Incertezas

Falando em termos gerais, se um usuário não souber quanto de água a que ele tem
direito e a quantidade que provavelmente estará disponível no futuro, ele tende a usar
em excesso ou acumular água com perdas consideráveis.

A alocação de água sobre diferentes usos deve, portanto saber lidar efetivamente com a
incerteza e aumentar a previsibilidade de água disponível para os vários usos. O
aumento da previsibilidade é uma importante condição que irá permitir aos usuários
usar mais água eficientemente. Mesmo uma melhor compreensão de quão imprevisível a
disponibilidade de água possa ser irá melhorar a habilidade do usuário de lidar com isso.

Podem-se distinguir dois tipos de incertezas: a física e a institucional.

Incerteza física
Incerteza física não se refere tanto à natureza estocástica dos processos hidrológicos (o
que é normalmente bem entendido), mas ao impacto das atividades humanas no ciclo
hidrológico. Em nível global, a mudança climática induzida pelo homem é uma
possibilidade e pode ter efeitos de largo impacto, mas os efeitos específicos ainda não
são bem entendidos. Numa pequena escala espacial, os efeitos das mudanças de uso da
terra na disponibilidade de água azul são difíceis de prever. Será que o uso mais
eficiente da umidade do solo na produção agrícola de sequeiro realmente se traduz num
decréscimo de fluxo de água azul? Um pouco mais direto, é a ligação entre a extração
de água de superfície e subterrânea; mas ainda é difícil de se prever o efeito preciso da
extração de água subterrânea numa dada locação na disponibilidade de água de
superfície em qualquer lugar à jusante.

As incertezas físicas mencionadas aqui devem ser reconhecidas. Se faltar uma boa
compreensão de tais processos, no primeiro instante podem ser feitas estimativas
conservadoras sobre os possíveis impactos de certas intervenções. A agência de gestão
de águas pode então introduzir um programa de coleta de dados destinado a aumentar
gradualmente o entendimento desses processos dinâmicos.

Incerteza Institucional
Um tipo diferente de incerteza é criado pelas instituições que estão envolvidas na
alocação de água. Se a maneira da qual, tais instituições distribui água for desconhecida
pelos usuários ou mal entendida por eles, ou vista como aleatória, então os usuários
podem desconfiar do processo de alocação. Eles irão receber estímulos errados
(impróprios) para, por exemplo, subestimar seus requerimentos de água, acumular água
ou mesmo usá-la excessivamente.

O sistema institucional de alocação de água deve ser, portanto, previsível para usuários.
Todos os usuários devem conhecer os princípios e procedimentos de alocação de água.
Mais ainda, o processo de alocação deve tratar todos os usuários da mesma maneira. Ele
também deve ser transparente e informações sobre outorgas autorizadas ou recusadas
devem ser acessíveis a todos, não somente a todos os usuários de água, mas também
para o público em geral. Um processo justo e transparente de alocação irá aumentar a
confiança individual dos usuários no processo e sua segurança na validade de seus
direitos/ outorgas para o uso de água. Confiança no processo de alocação aumentará a

87
disposição de investir em infraestruturas relacionadas à água e renunciar a
"comportamentos borlistas" em tempos de escassez de água.

(c) Eficiência e equidade

Poderiam argumentar que os três Es de Postel (Equidade, Eficiência e Integridade


Ecológica) formariam os pilares de qualquer atividade de gestão de águas. Desde que a
alocação de água é uma atividade importante para a gestão de águas, seguindo-se essa
linha de argumento os três Es também deveriam informar as decisões de alocação de
água. Suponha agora que os requerimentos de água ambiental/ecológica sejam
adequadamente conduzidos, conferindo aos direitos ambientais água suficiente com um
regime ecológico aceitável. Então ainda restam dois Es, que são equidade e eficiência.

Alguns acreditam que existe uma troca entre os princípios de equidade e eficiência; isto
é, um sistema eficiente de alocação pode ignorar certos pontos da equidade e vice versa,
um sistema de alocação mais equitativo pode ser menos eficiente. Isso não é
necessariamente verdade para todas as situações. A seguir, algumas definições
experimentais e algumas implicações da alocação de água são brevemente resumidas.
Equidade
Equidade pode ser definida como proporcionar a todos uma oportunidade justa e
equitativa na utilização do recurso de acordo com a necessidade de cada um. O acesso
equitativo não significa necessariamente acesso à quantidades iguais mas oportunidades
iguais de acesso a água (WRMS, 1999). Equidade lida com a distribuição da riqueza ou
recursos entre setores ou indivíduos da sociedade.

Eficência
Diferentes definições de eficiência podem ser usadas, dependendo do objetivo de cada
um. A razão pela qual a eficiência é importante é que a água é um recurso finito e
normalmente escasso. Geralmente, a eficiência mede quanto alguém pode fazer com
uma unidade de água. Eficiência econômica mediria então, os benefícios obtidos com
uma unidade de volume de água usada. A eficiência do uso da água mede a quantidade
de água realmente consumida para um uso específico.

Em um nível mais abstrato, eficiência também pode indicar até que ponto o conjunto de
medidas técnicas, legais, institucionais, econômicas e outras, causam o uso eficiente da
água escassa. Por exemplo, certos arranjos legais e institucionais podem aumentar a
disposição das pessoas de investir privativamente em infraestrutura de águas, ou induzí-
los a gastar menos água, ou poluir menos. No final, isso levará a um aumento da
eficiência do uso da água, assim como aumento na eficiência econômica.

Essa definição mais ampla de eficiência requer arranjos de cobrança que garantam a
recuperação de custos dos serviços de água. Isso não só dará o sinal correto para os
usuários de água, a saber, que a água é valiosa e não deve ser desperdiçada, mas
também leva à sustentabilidade de infraestruturas e instituições. A definição mais ampla
de eficiência também requer arranjos legais apropriados que proporcionam aos usuários
segurança suficiente do direito de posse da água, tanto que eles possuam disposição para
investir em infraestruturas relacionadas à água.

88
[Nota: Nós preferimos essa definição mais abrangente a uma interpretação econômica
restrita. Tal interpretação normalmente afirma que o benefício marginal do uso do
recurso deve ser igual entre os setores de usuários; se não, a sociedade se beneficiaria
mais alocando mais água para o setor onde os benefícios fossem maiores (o conhecido
ótimo Pareto). A nosso ver, tal ótimo Pareto parece não existir, já que diferentes usos de
água requerem diferentes níveis de garantia. Veja abaixo]

Trocas
O princípio de eficiência econômica é geralmente traduzido em cobrança apropriada de
serviços de água. Isso pode obviamente prejudicar o princípio de equidade, no qual as
famílias mais pobres podem não ser capazes de comprar tal serviço. O fato de que
àquelas famílias mais pobres é negado o acesso a uma quantidade básica de água pode,
no entanto, ser extremamente caro para a sociedade, em termos de moléstias, má saúde,
etc. Portanto, Sob uma perspectiva social, pode ser extremamente eficiente suprir todas
as residências com uma quantidade de água a um custo muito baixo (subsidiado) e
compensar o déficit financeiro através de subsídios cruzados. Dessa maneira,
combinações ganho-ganho de eficiência e equidade nos sistemas de alocação de água
podem ser alcançadas.

(d) Perdas de água

A redução de perdas de água geralmente tem uma alta prioridade na tentativa de


equilibrar a demanda com o abastecimento. No entanto, perdas de água devem ser
sempre cuidadosamente e precisamente definidas. Isso é, depende da escala e dos
limites até onde a água é considerada uma perda ou não. Em escala global nenhuma
água é perdida jamais.

Em muitas situações, e especialmente na agricultura irrigada, a redução das perdas de


água pode não disponibilizar toda a água "salva". Mesmo as perdas "reais" de água,
como quando ela é liberada em uma barragem através do leito do rio para usuários à
jusante, pode prestar um importante serviço; a saber, recarga de aquíferos, água para o
meio ambiente etc. Uma vez que tais serviços são reconhecidos e formalizados em
outorgas (ou numa "Reserva", como foi feito na África do Sul), o gestor de águas pode,
às vezes, ser capaz de encontrar soluções interessantes de ganho-ganho..Em outros
casos, isso pode não ser possível.

Portanto, a análise de perda de água deve sempre:


- Esclarecer as escalas e limites nas quais a análise está sendo feita;
- Considerar tanto as partes consuntivas quanto as não-consuntivas do uso de água;
- Considerar qualquer outro tipo de uso (incluindo o meio ambiente) que pode se
beneficiar da "perda" de água.

(e) Alocação de água entre setores (Savenije e Van der Zaag, 2002)

Como foi dito anteriormente, alguns tipos de uso de água agregam mais valores que
outros. O caso clássico é o de diferentes valores obtidos nos setores agrícolas e urbanos;
o valor obtido nos setores urbanos é tipicamente uma ordem de magnitude maior que na

89
agricultura (Briscoe, 1996).2 Se a água é geralmente usada no setor agrícola, o custo de
oportunidade, isto é, o valor do melhor uso alternativo, pode ser 10 vezes maior, sujeito
é claro, à "locação e conexões hidráulicas possíveis entre os usuários" (Briscoe, 1996).
Portanto, uma troca para o uso de maior valor é normalmente efetuada.

Mupfure river, Zimbabwe (CV (annual data) = 122%)


1.0
demand satisfied at 80% reliability
demand satisfied at 96% reliability
0.8
demand as fraction of
mean annual runoff

0.6

0.4

0.2

0.0
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0
reservoir constant (year)

Figura 5.3: Comparação da produção de um reservatório com 80% e 96% de


confiabilidade

Enquanto o custo de oportunidade de água para uso doméstico pode ser maior, a
disponibilidade do momento é maior do que a demanda, o custo de oportunidade da
água irá cair para o próximo melhor tipo de uso. Só não é possível consumir toda a água
com o uso de maior custo. O custo da oportunidade apropriada para água de irrigação
pode, portanto ser somente metade, ou menos, que a melhor alternativa de uso (Rogers
et al., 1997).

Ainda assim, nós devemos perceber que água de irrigação requer um baixo nível de
garantia de abastecimento que, por exemplo, água para uso urbano e industrial: as
mesmas barragens de armazenamento fornecendo água de irrigação com 80% de
confiabilidade (1 falha a cada 5 anos), produzem muito menos água para abastecimento
urbano fornecendo água com uma confiabilidade de 96% (1 falha a cada 25 anos). A
fig. 5.3 demonstra isso para um sistema fluvial no Zimbabwe com um regime
hidrológico típico de muitos outros rios de ambientes semiáridos. Aqui, a barragem
produzindo um certo fluxo com 80% de confiabilidade só pode prover entre 50 e 65%
daquele fluxo de 96% de confiabilidade, dependendo do nível de regulação do fluxo,
como definido pela constante do reservatório (a razão do volume do reservatório pela
média do escoamento anual)

O custo efetivo de oportunidade da água usada para irrigação deve então, mais uma vez
decrescer. O custo resultante de oportunidade é, portanto, somente uma fração do que
alguns economistas dizem ser.

Figura 5.4 ilustra a variação de abastecimento e demanda num caso imaginário. Ele
mostra que, em demandas gerais, primárias (domésticas) e industriais, com a maior
capacidade e disposição para pagar, requer uma alta confiabilidade de abastecimento, o
que normalmente é alcançado através de relativamente grandes provisões de

2. Entretanto, em economias com muitas indústrias dependentes do setor agrícola, o efeito multiplicador
da produção agrícola é alto, e, portanto o valor agregado pela água pode ser subestimado ao se usar
somente preços à saída da produção agrícola (Rogers, 1998).

90
armazenamento. As demandas ambientais também não são as mais exigentes para o
recurso. Requerimentos de água para a agricultura tendem a ser muito altas, flutuam
demais mas também aceitam uma menor confiabilidade de abastecimento.

agricultural demand
water availability and

reliability of supply
urban & industrial
demand
demand

environmental demand

primary demand

water availability

1
time

Figura 5.4: Variação da disponibilidade de água demanda e confiabilidade do


abastecimento.

O quadro emergente então, é muito claro e elementar: os setores com valores maiores de
usos de água devem ter acesso a ela. Em muitos países esses setores requerem somente
de 20-50% da disponibilidade média de água e essas demandas podem ser facilmente
satisfeitas em qualquer época com exceção dos anos mais secos. Na maioria dos anos
muito mais água estará disponível, e essa água deveria ser usada beneficamente, por
exemplo, para a irrigação. Portanto, não há a necessidade de transferências permanentes
da agricultura para outros setores, exceto nas áreas de bacias mais fortemente
comprometidas do globo. O que é necessário é um contexto legal e institucional que
permita transferências temporárias de água entre áreas agrícolas e urbanas em anos
extremamente secos. Não é necessário nenhum mercado para cuidar dessas situações
excepcionais. Uma simples provisão legal seria suficiente, através da qual irrigantes
seriam forçados a abrir mão da água armazenada em benefício dos centros urbanos em
troca de uma boa compensação pela renúncia dos (todos) benefícios.

Naquelas áreas de bacias fortemente comprometidas, onde são requeridas permanentes


transferências de água do setor agrícola, normalmente possa se chegar a soluções
voluntárias negociadas, desde que a lei o permita. Rosegrant and Gazmuri (1996: 276-
77) relatam um caso de uma fábrica que financiou a construção de um sistema de
economia de água de irrigação por gotejamento para um esquema de irrigação, obtendo
com isso, o direito de usar a água que foi armazenada.

(f) Os usos de água de maior valor precisam ter prioridade sobre usos de menor
valor?
Os usos de água de maior valor precisam ter prioridade sobre usos de menor valor? Não
necessariamente. Usos de maior valor (como uso urbano) normalmente têm o potencial
de mobilizar recursos financeiros suficientes para assegurar um abastecimento
confiável. Usos de maior valor, geralmente requerem níveis mais altos de
confiabilidade, o que significa maiores barragens e assim investimentos muito maiores,
comparados com os usos de menor valor (ex. irrigação). Muitas vezes, os usos de maior
valor podem mobilizar mesmo esses investimentos mais altos. Nesses casos, não é

91
necessário dar prioridade aos usos de maior valor sobre os usos inferiores. A óbvia
vantagem econômica para a sociedade de não priorizar vários usos não primários é que,
aqueles setores têm que prover-se por si só, e não irão, a não ser nas secas mais
extremas, se prejudicar mutuamente. Como dito anteriormente, em casos extremos de
secas, transferências entre setores devem ser feitas mediante uma boa compensação.

5.3 Conclusões
Não existe só uma maneira de equilibrar a demanda, com a disponibilidade de água.
Esse equilíbrio é específico por região, país e bacia hidrográfica. É claro também que
esse ato irá envolver um processo de tomada de decisão onde devem ser feitos difíceis
acordos. Outro módulo do curso (análise e planejamento de recursos hídricos) fornece
ferramentas para ajudar nesses processos de decisão. Em todos os casos, o processo de
alocação de água requer um grande entendimento tanto da disponibilidade quanto da
demanda de água.

5.4 Exercícios
5.1 De uma maneira similar, porém mais detalhada que Pallett (ver cap. 2), Lange
(1997) calcule a contribuição e água por setor para a economia da Namibia:
Contribuição econômica de água por setor na Namibia, 1993.
Setor Valor Agregado Uso de água
6 6 3
10 N$/ano 10 m /ano
Agricultura
Agricultura comercial 405 111.4
Agricultura popular 176 34.8
Mineração
Diamantes 609 13.6
Outros 253 8.1
Indústria
Processos de peixes 316 0.7
Outros 340 4.3
Serviços
Hotels/Restaurantes (Turismo) 129 1.1
Transportes 245 0.8
Outros serviços 2,433 3.3
Residências
Rural n.a. 10.0
Urbana n.a. 34.7
Governo n.a. 2.3

5.1a Com base nos dados fornecidos, defina um indicador apropriado para o "valor
agregado" da água.
5.1b Calcule esse indicador para cada setor.
5.1c Compare esses setores. O que se pode observar?
5.1d A Namíbia deve diminuir o uso de água em alguns setores e alocá-la para outros
setores?
5.1e O que seria necessário para efetuar tal relocação?

92
5.5 Referências
Briscoe, J., 1996, Water as an economic good: the idea and what it means in practice. Paper
presented at the World Congress of the International Commission on Irrigation and
Drainage. September, Cairo
Brito, R., 2002, Brochure on Integrated Water Resources Management. Global Water
Partnership - Southern Africa, Harare
DWD, 2000, Water allocation guidelines, draft guidelines. Unpublished paper. Department of
Water Development, Harare
Falkenmark, M., and C. Folke, 2002, The ethics of socio-ecohydrological catchment
management: towards hydrosolidarity. Hydrology and Earth System Sciences 6(1): 1-9
Lange, G., 1997, An approach to sustainable water management using natural resource
accounts: the use of water, the economic value of water, and implications for policy.
Research discussion paper no. 18. Directorate of Environmental Affairs, Ministry of
Environment and Tourism. Windhoek
Pazvakawambwa, G., and P. van der Zaag, 2000, The value of irrigation water in Nyanyadzi
smallholder irrigation scheme, Zimbabwe. Proceedings 1st WARFSA/WaterNet
Symposium 'Sustainable Use of Water Resources'. Maputo, 1-2 November
Rogers, P., 1998, Integrating water resources management with economic and social
development. Paper presented at the Expert Group Meeting on Strategic Approaches to
Freshwater Management on behalf of Department of Economic and Social Affairs,
United Nations. 27-30 January. Harare
Rogers, P. R. Bhatia and A. Huber, 1997. Water as a social and economic good: how to put the
principle into practice. TAC Background Papers No.2. Global Water Partnership,
Stockholm
Rosegrant, M.W., and Gazmuri Schleyer, R., 1996, Establishing tradable water rights:
implementation of the Mexican water law. Irrigation and Drainage Systems 10(3): 263-
279
Savenije, H.H.G., and P. van der Zaag, 2000. Conceptual framework for the management of
shared river basins with special reference to the SADC and EU. Water Policy 2 (1-2): 9-45.
Savenije, H.H.G., and P. van der Zaag, 2002, Water as an economic good and demand
management, paradigms with pitfalls. Water International 27 (1): 98-104
Subedi, S.P., 2003. Resolution of international water disputes: challenges for the 21st century. In:
Permanent Court of Arbitration (ed.), Resolution of international water disputes. Kluwer
Law International, The Hague; pp.33-47.
UN, 1997. Convention on the Law of the Non-Navigational Uses of International Watercourses.
Adopted by the United Nationals General Assembly in resolution 51/229 of 21 May
1997. New York, United Nations.
UNCED, 1992. Rio Declaration on Environment and Development. The final text of agreements
negotiated by Governments at the UN Conference of Environment and Development, 3-
14 June 1992, Rio de Janeiro.
Van der Zaag, P., I.M. Seyam and H.H.G. Savenije, 2002, Towards measurable criteria for the
equitable sharing of international water resources. Water Policy 4: 19-32
Wolf, A.T., 1999. Criteria for equitable allocations: the heart of international water conflict.
Natural Resources Forum 23(1999): 3-30.
Wouters, P., 1997. Present Status of International Water Law. In: International Water Law;
Selected Writings of Professor Charles B. Bourne. Kluwer Law International, London.
WRMS, 1999, Water Resources Management Strategy. Ministry of Rural Resources and Water
Development, Harare

93
Poster para um curso de pós-graduação em prevenção de conflitos e cooperação em recursos
hídricos internacionais, África do Sul.

94
Capítulo 6

Gestão das águas transfronteiriças


6.1 Introdução
Em qualquer lugar que a água cruzar uma fronteira, o desafio de cooperação aparece e a
possibilidade de conflitos se assoma. Tal fronteira pode ser formada pelos limites das
terras adjacentes de irrigantes, comunidades de vilas vizinhas, municípios fronteiriços,
distritos, províncias, estados ou países. Em todos esses casos as duas partes ribeirinhas
encaram o dilema do equilíbrio entre a soberania absoluta e a integridade da bacia.

Até que ponto as entidades individuais ou os países podem se desenvolver e usar


recursos encontrados em seus territórios e até que ponto eles devem respeitar os
interesses de outros países ribeirinhos e o "interesse comum" da bacia hidrográfica
como um todo?

As partes à montante, podem enfatizar que eles exercem "soberania absoluta" sobre seu
território enquanto desenvolvem projetos; entidades à jusante podem, ao contrário,
enfatizar a integridade da bacia ao desafiar o crescimento à jusante. A água pode ser,
portanto, a causa de conflitos e muitos autores acentuam esse ponto (muitos artigos de
pesquisa mencionam conflitos de água em seus títulos mais do que a cooperação de
água, ver Gupta e Van der Zaag, 2009).

Mas a água também pode ser causa de cooperação. Bacias hidrográficas são
caracterizadas pela assimetria, que mais adiante complica a questão. A assimetria, ou o
desequilíbrio, entre partes ripárias aparecem simplesmente por que a água tende
naturalmente a fluir numa só direção. Isso implica que os usos de jusante dificilmente
impactam os usuários de montante, se existir, mas os usos de montante realmente
causam impacto à jusante (Figura 6.1).3

Normalmente, esse dilema de compartilhamento de água é resolvido tendo por base


regras estabelecidas na sociedade. Em muitas sociedades, surgiram arranjos habituais
que lidam com esse dilema e garantem um compartilhamento pacífico de água. Na
maioria dos países, regras relacionadas ao uso da água são consagradas nas leis
internacionais das águas. (Algumas vezes princípios locais usuais não são inteiramente
compatíveis com os princípios do direito escrito). Porém, caso as partes que
compartilham os recursos hídricos sejam nações, normalmente não existe nenhuma lei
de águas que guie e fiscalize a maneira na qual o recurso hídrico deve ser utilizado e
compartilhado. Duas regiões possuem essas leis: a União Européia (Diretrizes do
Sistema de Águas, em vigor desde 2000) e a Comunidade para o Desenvolvimento da

3 Usuários à jusante podem afetar usuários à montante também, como interferindo na navegação, ou com
a construção de reservatórios que podem impactar à montante como na migração de peixes e efeitos de
retorno de água que podem se estender para o território de um usuário de montante. No entanto, na
maioria dos casos esses impactos são pequenos se comparados com os impactos que os usuários de
montante provocam nos usuários de jusante (Van der Zaag, 2007). A água também pode fluir em duas
direções, o que ocorre em baixadas na maré, mas também em sistemas fluviais como o lago de Tonlesa
no rio Mekong no Camboja.

95
África Austral (SADC Protocol on Shared Watercourses, vigente desde 2003; ver Van
der Zaag, 2009). A lei das Nações Unidas que pretende lidar com esta questão (a
Convenção sobre as Leis de Usos Não-Navegáveis de Rios Internacionais, adotada pela
Assembléia Geral das Nações Unidas em 1997) não está (ainda) em vigor (ver abaixo).

Figura 6.1: A situação assimétrica numa bacia hidrográfica

Mais de 40% da população mundial vive em 270 bacias hidrográficas aproximadamente


que são compartilhadas por mais de um país. Alguns países dependem grandemente da
água gerada nos países vizinhos.

Talvez o maior problema em compartilhar as águas de uma bacia transfronteiriça, seja


sua grande dimensão e a complexidade das interações do sistema sobre grandes
distâncias (montante e jusante). Por exemplo, em muitos casos é difícil antecipar e
quantificar as consequências exatas das mudanças pelo uso da terra de montante nas
inundações e eventos de baixo fluxo à jusante. Essa complexidade pode também resultar
em consequências negativas imprevisíveis da intervenção humana, que são difíceis de
corrigir e pode dar origem a tensões entre populações e países ribeirinhos que
compartilham a bacia.

Felizmente, existe uma crescente conscientização mundial de que são necessárias


medidas apropriadas para garantir uma sólida e judiciosa gestão de recursos hídricos
transfronteiriços. Visto sob esse prisma, a ausência geral de conflitos abertos sobre a
água é um fato notável e deve ser admirado. Nós entendemos que, por mais que a água
possa dividir grupos de pessoas e por países uns contra os outros, a água, como a
necessidade humana mais básica, parece mobilizar os países em direção a um
pensamento comum.

Esse pensamento comum já se materializou na existência de vários acordos entre países


ribeirinhos sobre os recursos hídricos, tratados regionais e organizações de bacias
hidrográficas. Uma das funções essenciais desses arranjos internacionais é a
reconciliação e harmonização dos interesses dos países ripários. A principal abordagem
da gestão compartilhada de bacias hidrográficas é, portanto, encontrar maneiras de
transformar conflitos potenciais em cooperação construtiva e tornar o que é
normalmente visto como uma situação difícil, a soma zero - na qual uma parte ganha e a
outra perde - numa proposição ganho-ganho. Achar tais proposições, no entanto, é
difícil já que a água é escassa na maioria das bacias hidrográficas transfronteiriças do
mundo.

96
Para se alcançar isso, é necessário combinar aspectos técnicos, institucionais e políticos
(Figura 6.2).

Figura 6.2: O clássico templo de compartilhamento internacional de recursos


hídricos
(Source: Savenije e Van der Zaag, 2000)

Essa aula primeiro descreve o processo concernente a Convenção das Nações Unidas
sobre Cursos d'Água, enfocando a formulação dos princípios e numa seção seguinte, em
sua aplicação. Numa seção subsequente, introduz-se o conceito de compartilhamento de
benefícios. A seção seguinte forma o centro dessa aula e tenta definir o dilema do
compartilhamento de águas transfronteiriças, que pode ser superado estentendo-se no
âmbito das negociações, tanto em termos de problemas (i.e. associação de temas),
quanto em concepção conjunta de infraestruturas. Este é assunto da próxima seção.
Deve-se dar atenção à importância do envolvimento do público com a gestão de águas
transfronteiriças. A última seção traça algumas conclusões gerais.

6.2 Convenção da ONU sobre Cursos d'Água (Wouters 1997)


Desde o início dos anos 50, controvérsias internacionais a respeito de água têm afetado
a maioria das regiões do globo. Órgãos eruditos internacionais, como a Associação de
Leis Internacionais (ILA) começaram a estudar a aplicabilidade da lei nessas disputas.
A ILA desenvolveu as Regras de Helsinki nos usos da Água em Rios Internacionais
(1966). O princípio geral do trabalho da ILA com leis internacionais das águas está
contido no Artigo IV das Regras de Helsinki que estabelece que o princípio de
utilização equitativa, governa o uso das águas das bacias de drenagem internacionais.

Quadro 6.1: Artigo IV das Regras de Helsinki (1966)


“Cada país da bacia tem direito, dentro de seu território, a uma parte razoável e equitativa dos
usos benéficos das águas de uma bacia hidrográfica internacional”

97
As Regras de Helsinki desempenharam um importante papel na codificação e no
desenvolvimento progressivo desse ramo de leis internacionais. Os países se referem a
essas diretrizes até hoje. No entanto, não existia apoio suficiente dentro da ONU para
adotar como lei da ONU as Regras de Helsink. Isso porque muitos países com sistemas
de água bem desenvolvidos queriam seus usos de água em vigor, expressamente
garantidos.

No final de 1960s, depois da derrota da Assembléia Geral das Nações Unidas em ter as
Regras de Helsink adotadas como diretrizes das leis internacionais das águas, a ONU
decidiu designar o tópico da ILC (Comissão de Leis Internacionais) para estudos
detalhados. Depois de quase 25 anos de trabalho no tópico, a ILC produziu um
documento que continha 33 artigos delineados (1991, revisto em 1994) e os submeteu
na Assembléia Geral da ONU com a recomendação de ser adotada como uma
convenção básica. Para contrabalancear o princípio da equidade, foi formulada uma
obrigação de não causar danos significantes (Article 7 of the UN Convention).

O Sexto Comitê da Assembléia Geral da ONU foi convocado como um Grupo de


Trabalho de todos e aconteceu em outubro de 1996 e março de 1997. O encontro foi
controverso: questões relacionadas ao uso de águas transfronteiriças que dividiam os
países no início do século ressurgiram nos debates da ONU. No centro das discussões
estavam as seguintes questões:
 Quais limites aplicar aos direitos dos países sobre os cursos d'água para usar as
águas transfronteiriças?
 Quais são os vários fatores a serem pesados na avaliação global de um uso
equitativo e razoável?
 Onde um conflito de uso aparece, qual regra determina que uso deveria prevalecer?
 Que papel o "dano" desempenha?

As importantes regras contidas nos artigos 5 e 7 da Convenção foram calorosamente


debatidas. Os textos finais dos artigos 5, 6 e 7 (quadro 6.2) não foram aceitos por todos.
Os países tenderam a tomar posições que favorecessem seus interesses particulares.

Estados de montante apoiaram regras que lhes davam controle sobre as águas originadas
em seu território, apelando para o (não existente) princípio de soberania territorial
absoluta. Eles não apoiaram a inclusão de um novo princípio (o dever de não causar
danos significantes) na lei internacional das águas. Note que as Regras de Helsinki
consagraram somente o princípio da equidade.

Em contraste, os países de jusante apelaram para as doutrinas de apropriação anterior


('direitos adquiridos') e integridade territorial absoluta e adotaram uma abordagem que
lhes forneceria um fluxo inalterado (em termos de qualidade e quantidade) das águas
que entrariam em seu território (Wouters, 1997). Esses países favoreceram a inclusão do
novo princípio de não causar danos na lei internacional das águas.

O fato de que os votos nas regras substanciais contidas nos artigos 5 e 7 foram
praticamente divididos foi significante por si só. Desse resultado deduziu-se que tanto
os países de montante quanto de jusante encontraram pontos fracos e fortes na
formulação final dos Artigos. Isso atestou a relativa paridade do compromisso
finalmente alcançado em respeito às regras substantivas: elas não favoreceram nem os
países de montante nem os de jusante.

98
Quadro 6.2: Artigos 5, 6 e 7 da convenção da ONU.

Artigo 5
Utilização equitativa e razoável e participação

1. Países com cursos d'água deveriam utilizá-los em seus respectivos territórios de uma
maneira equitativa e razoável. Particularmente, um curso de água internacional deveria ser
usado e desenvolvido por países com uma visão para conseguir uma utilização ótima e
sustentável dele e se beneficiar disto, levando em conta os interesses dos países envolvidos,
consistente com proteção adequada do curso d'água.

2. Países com cursos d'água deveriam participar do uso, desenvolvimento e proteção de um


curso d'água internacional de uma maneira equitativa e razoável. Tal participação inclui tanto
o direito de utilização do curso d'água quanto o dever de cooperar com a proteção e
desenvolvimento do mesmo, como estabelecido na Convenção atual.

Artigo 6
Fatores relevantes na utilização equitativa e razoável

1. A utilização de um curso d'água internacional de uma maneira equitativa e razoável


dentro do significado do artigo 5 requer que se leve em conta todos os fatores e
circunstâncias relevantes, incluindo:
(a) Geográfico, hidrográfico, hidrológico, climático, ecológico e outros fatores de caráter
natural;
(b) As necessidade sociais e econômicas dos países com cursos d'água envolvidos;
(c) A população dependente dos cursos d'água de cada país;
(d) Os efeitos do uso ou dos usos dos cursos d'água num país com cursos d'água em outros
países semelhantes;
(e) Usos existentes e potenciais de uma curso d'água;
(f) Conservação, proteção, desenvolvimento e economia do uso de recursos hídricos de um
curso d'água e os custos das medidas tomadas com aquele efeito;
(g) A disponibilidade de alternativas, de valor comparável, de uso particular planejado ou
existente.

2. Na aplicação do artigo 5, parágrafo 1 desse artigo, países com cursos d'água envolvidos
deveriam, quando surgir a necessidade, entrar em conselho com espírito de cooperação.

3. O peso a ser dado para cada fator é determinado por sua importância em comparação
com outros fatores relevantes. Ao se determinar o que é um uso razoável e equitativo, todos
os fatores relevantes devem ser considerados conjuntamente e uma conclusão alcançada
baseada em sua totalidade.

Artigo 7
Obrigação de não causar dano significativo

1. Países banhados por rios devem, ao inutilizar um rio internacional em seu território, tomar
todas as providências cabíveis para prevenir a destruição de outros países banhados pelo rio.

2. Todavia, onde for causado dano significativo em outro país banhado pelo rio, o país
causador do dano deverá, na ausência de acordo sobre tal uso, tomar todas as medidas
apropriadas, tendo devidamente em conta as provisões dos artigos 5 e 6, em conselho com o
país afetado, para eliminar ou mitigar tal dano e, onde for apropriado, discutir a questão de
compensação.

A aplicação prática das regras principais da Convenção é alcançada com o artigo 6 que
lista os fatores que devem ser levados em consideração na decisão de qual é na
realidade o uso equitativo e razoável de um rio internacional.

99
Em maio de 1997 a Assembléia Geral das Nações Unidas finalmente adotou a
Convenção da Lei de Usos Não-Navegáveis de Cursos de Água Internacionais por 103
votos a favor e 3 contra (Turquia, China, Burundi) com 27 abstenções e 33 países
aparentemente ausentes. (Para o texto final ver
http://untreaty.un.org/ilc/texts/instruments/english/conventions/8_3_1997.pdf.) A
Convenção da ONU não está (ainda) em vigor, já que somente 24 países ratificaram ou
concordaram com ela (até abril de 2012), desde que, para entrar em vigor, 35 países
devem ratificar ou concordar com ela (Quadro 6.3).

Quadro 6.3: Status da convenção da ONU sobre cursos d'água


Em abril de 2012, a conveção da ONU foi ratificada, ou aceita, por 24 países:

Burkina Faso, Finlândia, Françe, Alemanha, Grécia, Guinea-Bissau, Hungria, Iraque, Jordânia,
Líbano, Libia, Morrocos, Namibia, Holanda, Nigéria, Noruega, Portugal, Qatar, Africa do Sul,
Espanha, Suécia, Síria, Tunisia e Uzbekistão.

Fonte: http://treaties.un.org/ procurar: Status dos Tratados (MTDSG), Capítulo XXVII Meio
Ambiente.

6.3 Aplicação dos princípios


Ao se discutir os aspectos legais e regulatórios da gestão de bacias hidrográficas
internacionais, são úteis se distinguir as estruturas legais nacionais das internacionais.
De preferência, as leis específicas dos países pertinentes ao uso das águas nacionais
deveriam ser consistentes com os princípios largamente aceitos na aplicação para as
águas internacionais. Se não, as leis e regulações nacionais de águas deveriam ser
harmonizadas entre os países ripários. Países ripários (ou ribeirinhos) devem considerar
acordos regionais e globais e leis comuns, mas também os princípios por trás das
práticas locais persistentes, com respeito ao uso e compartilhamento dos recursos
hídricos.

Enquanto a filosofia por trás do 'uso equitativo e razoável' e as regras de 'não causar
dano' são louváveis e largamente compartilhadas, os problemas aparecem quando os
princípios gerais precisam ser especificados para uma situação em particular. Em geral,
os problemas aparecem quando os países da bacia falham em levar os interesses de
outros países ribeirinhos em consideração. Países à montante da bacia podem enfatizar o
fato de que eles exercem a 'soberania absoluta' sobre seu território ao desenvolverem
projetos, enquanto os países à jusante podem enfatizar integridade territorial ao desafiar
o crescimento à montante. A utilização de recursos hídricos compartilhados, portanto,
requer dos países ribeirinhos o conhecimento do princípio da 'soberania limitada', ou,
redigido positivamente, aceitar o princípio do 'interesse da comunidade'.

Nesse contexto, é importante notar que, enquanto nas regras de Helsinki o conceito
central é 'bacia internacional de drenagem' , a lei delineada pela ILC e pela convenção
da ONU usa o termo 'curso d'água internacional (Quadro 6.4).

A ILC não usa o conceito de 'bacia hidrográfica' como seu objeto porque uma bacia de
drenagem se refere a "área geográfica", implicando que uma lei da ONU sobre água deve se
estender à questões territoriais, o que poderia ser potencialmente muito delicado. Desse modo, a
ILC criou um novo conceito idêntico ao de bacia hidrográfica menos a terra, i.e. se refere
somente à água que ocorre naquela bacia de drenagem. Escolheram então, a palavra curso
dágua.

100
Quadro 6.4: ‘Bacia internacional de drenagem' ou 'curso d'água internacional’?
Helsinki Rules: uma bacia internacional de drenagem é uma ' área geográfica que se
estende sobre dois ou mais países, determinada pelos limites do divisor de águas do
sistema de águas, incluindo águas subterrâneas e superficiais, fluindo para um ponto
comum' (Article II).
Projeto de Lei da ILC e Convenção da ONU: um curso d'água é um „um sistema de águas
subterrâneas e superficiais constituindo, em virtude de suas relações físicas, um
conjunto unitário e normalmente fluindo para um ponto comum'. Um 'curso d'água
internacional' é então, um curso d'água, partes do qual estão situadas em diferentes
países' (Artigo 2).

A definição de bacias de drenagem ou cursos d'água podem ser interpretadas diferentemente


dependendo da perspectiva de cada país. Em grandes bacias hidrográficas, países de montante
devem considerar um tributário como uma bacia hidrográfica como direito seu próprio. Fica
fácil então ignorar os efeitos prejudiciais de intervenções sobre os (distantes) usuários de
jusante. Apesar de tal pensamente ser compreensível do ponto de vista do país de montante,
esta não é certamente a intenção dos princípios estabelecidos pela ILA, ILC e ONU.

A definição da Convenção da ONU sobre cursos d'água (sendo "um sistema de águas
superficiais e subterrâneas constituindo em virtude de sua relação física um conjunto único") é
definitiva e se refere ao máximo denominador comum possível para um sistema de águas doces.
Rios tributários de um curso d'água fronteiriço ou internacional são portanto, parte integral
daquele curso d água e recaem sob a lei da ONU.

É importante se notar que recursos subterrâneos renováveis são, parte integral dessa definição.
Somente rios subterrâneos que não estão conectados às águas superficiais não se incluem no
escopo da Convenção da ONU. Isso logicamente implica que águas subterrâneas fósseis,
aquíferos que são recarregados por águas superficiais além da escala humana de tempo, ou seja,
milhares de anos antes do presente, NÃO se incluem nessa Convenção.

Então o conceito de "curso d'água" não só se refere à água fluindo em cursos de água (rios) mas
também inclui água subterrânea conectada à águas superficiais. Isso levanta questões sobre o
status e limites dos "Anteprojetos sobre a Lei de Aquíferos Transfronteiriços", que foram
formulados pela ILC em 2008 e adotados pela Assembléia Geral da ONU em janeiro de 2009
(Quadro 6.5; ver
http://untreaty.un.org/ilc/texts/instruments/english/draft%20articles/8_5_2008.pdf).

101
Quadro 6.5: Anteprojetos de lei de aquíferos transfronteiriços - inconsistências com a
Convenção da ONU sobre Cursos (inspirado pelo Professor Stephen C. McCaffrey’s
apresentação em UNESCO ISARM Conferência, Paris, 8 dezembro 2010; ver também
McCaffrey, 2011; Dellapenne, 2011; ver ponto de vista contrário: Yamada, 2011)

(1) Os anteprojetos definem "Soberania dos países de aquíferos" como se segue:


“Cada país de aquífero tem sua soberania sobre a porção de um sistema de aquífero
transfronteiriço localizado dentro de seu território. Ele deve exercer sua soberania de
acordo com as leis internacionais e com os presentes anteprojetos". A Convenção da
ONU sobre cursos d'água no entanto, não reconhece o princípio da soberania sobre
cursos d'água internacionais.
(2) O foco dos anteprojetos é em aquíferos em vez de águas subterrâneas (Note a
similaridade com os conceitos de bacias de drenagem vs. cursos d'água)

(3) Os anteprojetos deveriam se focar em águas subterrâneas que não são incluídas na
Convenção da ONU, isto é, aquelas águas que não interagem com as águas superficiais,
águas fósseis. Águas fósseis subterrâneas, no entanto, são governadas por leis
existentes que também governam outros recursos naturais fósseis e finitos, como
petróleo e gás.

Finalmente, como o objeto da Convenção da ONU é cursos d'água internacionais, as


águas transferidas entre tais cursos (melhor conhecidas como transferências entrebacias)
não são governadas por ela (ver Gupta e Van der Zaag, 2008).

Equilibrando equidade com não causar prejuízo

Frequentemente se pergunta: o que veio primeiro, o direito do uso equitativo e razoável


ou as obrigações de não causar dano? Os países ribeirinhos com um interesse no status
quo tendem a enfatizar a importância do último princípio (que parece para reconhecer
usos estabelecidos por mais injustos que possam ser), enquanto aqueles que ficaram
para trás no desenvolvimento de águas tendem a usar o princípio anterior para
reivindicar águas já usadas pelos ribeirinhos 'mais desenvolvidos'. Entretanto, a
aplicação diferencial dos dois princípios deveria ser considerada um falso dilema.
Ambos se aplicam simultaneamente e representam, por assim dizer (Van der Zaag,
2007). Eles transmitem o mesmo princípio de que ribeirinhos possuem direitos e
deveres no uso dos recursos hídricos, alinhados com o segundo princípio da Declaração
do Rio:

“Os países têm, de acordo com a Carta das Nações Unidas e os princípios das
leis internacionais, o direito soberano de explorar seus próprios recursos de
acordo com suas próprias políticas ambientais e de desenvolvimento e a
responsabilidade de garantir que as atividades dentro de sua jurisdição ou
controle não causem dano ao meio ambiente de outros países ou de áreas
além dos seus limites de jurisdição nacional." (UNCED, 1992: 9) [italics
added]

Uso equitativo

Alguns autores argumentam que o princípio da equidade é a chave para a alocação de


água (Wouters, 1997; Wolf, 1999), o que também era a premissa das Regras de Helsinki
de 1966 (McCaffrey 1993). O princípio de uso razoável e equitativo (Artigo 5 da

102
Conveção da ONU sobre Cursos d'água), no entanto, é definido em termos gerais. Para
estabelecer o que é um 'compartilhamento equitativo', a Convenção, no Artigo 6 conduz
os países ribeirinhos a considerar uma grande variedade de aspectos. Entretanto, esses
aspectos são sujeitos às interpretações subjetivas pelos países ripários. 'São necessários
critérios mais claros para se julgar, por exemplo, o que constitui um nível razoável de
uso de água per capita dada à quantidade total de água disponível no sistema fluvial e o
que constitui um aporte justo de água entre nações que compartilham recursos comuns'
(Postel, 1992: 189).

Van der Zaag et al. (2002) tenta definir critérios baseados em quais recursos hídricos
podem ser alocados para os países ripários de uma maneira equilibrada (ver quadro 13
abaixo). Tal critério mensurável pode facilitar as negociações entre os países que
estiverem em conflito sobre o problema. A definição conjunto de tal critério poderia ser
uma atividade central durante as negociações. Um parâmetro chave para estabelecer o
compartilhamento equitativo é o número de pessoas vivendo nas várias regiões da bacia.
Também, não só a disponibilidade da água "azul" (água de escoamento que alimenta
aquíferos e rios) deveria ser considerada, mas também a disponibilidade de água
"verde" (água de chuva que infiltra pela camada superior insaturada do solo e usada
diretamente para a produção de biomassa). Duas importantes variáveis são identificadas
sobre as quais os paises ripários deveriam entrar em consenso:
1. O valor da água verde relativo ao valor da água azul;
2. A fração de água reservada, que é definida como direito básico de cada país
ripário e o que permanece fora das negociações.

Outras questões sobre rios internacionais

Demarcação dos Limites


Quando um rio forma os limites de dois países, a natureza precisa dos limites é
normalmente disputada. Onde um rio cruza uma fronteira entre dois países, onde o
fluxo de água é perpendicular à fronteira, a situação está normalmente fora de disputa.
Porém, onde um rio faz fronteira entre dois países, com uma margem pertencendo a um
país e a outra a outro país, a demarcação dos limites é mais complicada. Nos tempos
medievais, as margens eram às vezes, consideradas os limites, com o rio sendo 'res
nullius', isto é, pertencentes à ninguém. Algumas vezes o rio era considerado 'res
communis', pertencente à ambos os países.

Algumas vezes, quando uma das duas nações é mais poderosa, ela pode ganhar o
controle sobre o rio acima da outra margem através de um Tratado. Assim, o Iraque
ganhou o controle sobre o rio Shatt-al-Arab e tem soberania sobre o rio acima da
margem do Irã. Isso foi modificado por um acordo posterior em 1975.

Uma prática comum é definir os limites como a linha média. A linha média é a linha
equidistante de ambas as margens do rio, também correspondente com o centro
geométrico do rio. Isso cria complicações para os propósitos de navegação, já que a
profundidade é uma característica mais relevante que a largura para a navegação. A
outra prática é a linha de talvegue, que é a parte mais profunda do rio ou a linha média
do canal mais profundo. Quando o rio se move por causas naturais, então a regra geral
é, se ele se move repentinamente, os limites permanecem como estão, mas se ele se
move gradualmente, os limites devem seguir a linha de mudança do curso do rio.

103
Usos navegacionais
Com respeito aos usos navegacionais, três princípios foram se cristalizando com o
tempo:
a) O princípio da liberdade de navegação e comércio dos países ribeirinhos
b) A liberdade de comércio, mas não de navegação de países não ribeirinhos.
c) O dever de consultar e acertar todas as questões concernentes à navegação através
de acordos comuns entre os países ripários (Congresso de Vienna, 1815)

Em 1921, em Barcelona, a Liga das Nações adotou a Convenção e os Estatutos do


regime de Cursos d'Água Navegáveis de Interesse Internacional. O Artigo 14 dessa
Convenção dizia que deveriam ser estabelecidas comissões de rios internacionais.
Apesar dessa Convenção ter sido ratificada por somente 20 países, é discutível que
todas as antigas colônias tenham apoiado a Convenção. Desde então, têm existido
diferentes tratados requerendo diferentes regiões.

Contestação e arbitragem

Convenções, como a convenção sobre a lei de usos não-navegáveis de cursos d'água


internacionais, normalmente define procedimentos para a resolução de disputas. O
primeiro passo definido é o de resolver disputas bilaterais através de negociação. Se não
for bem sucedido, o próximo passo é ver se as partes em conflito concordam em
submeter suas disputas à arbitragem da comissão de bacias hidrográficas (se ela existir)
ou se eles concordam em apontar um terceiro árbitro. Se nada for bem sucedido, existe
ainda, na lei da ONU, a opção do Secretário Geral das Nações Unidas em apontar uma
Comissão. E se tudo isso der em nada, então a última opção que resta para ambas as
partes é submeter sua disputa à Corte Internacional de Justiça (ICJ). Entretanto, se
algum dos países discordarem com isso, a disputa não pode arbitrada pela ICJ.

A Corte Internacional de Justiça em Haia desenvolveu-se a partir da Corte Permanente


de Arbitragem que foi fundada em 1900 e que evoluiu para a Corte Permanente de
Justiça Internacional, que foi estabelecida em 1922 pela Liga das Nações. A presente
Corte Internacional de Justiça foi formalmente estabelecida em 1945 e é um órgão das
Nações Unidas.

Somente países podem ser partes em casos diante da Corte Internacional de Justiça e,
um caso somente pode ser submetido se o outro país concordar. A jurisdição da Corte
não é compulsória. Com respeito aos países que chegam diante da Corte, o julgamento é
obrigatório, final e sem apelação. No entanto, não existe nenhum corpo institucional que
possa obrigar as decisões da Corte.

O Artigo 38 do Estatuto da corte diz que a função da Corte é "decidir, de acordo com
leis internacionais, tais disputas como são submetidas a ela". Esse artigo reconhece as
seguintes fontes de leis internacionais:
 Convenção internacional, seja geral ou particular, estabelecendo regras
expressamente reconhecidas pelas partes contestantes
 Costumes internacionais, como evidência de uma prática geral aceita como lei.
 Os princípios gerais das leis reconhecidas por nações civilizadas

104
 Decisões judiciais e as lições dos autores mais altamente qualificados de várias
nações, como meios auxiliares para a determinação de regras das leis.

Para se reconhecer um costume, é necessária a demonstração de que é uma conduta


constante e uniforme de um país e a convicção de sua natureza obrigatória conforme as
normas jurídicas. Os seguintes costumes são normalmente reconhecidos:
 Dever de cooperar e negociar com a genuína intenção de se chegar a um acordo
 Proibição de se utilizar práticas que possam causar danos substanciais e duradouros
aos outros países
 Dever de se fazer uma consulta anterior
 Utilização equitativa de rios compartilhados

6.4 Além do rio: os benefícios da cooperação


Quando as negociações entre os países ribeirinhos (sejam eles países, comunidades ou
usuários individuais de água) estão difíceis ou paralisadas, a introdução de temas
completamente novos ao debate pode ser útil. Esses podem ser relativos à questões em
bacias adjacentes, ou podem não ter nenhuma relação com água, como comércio, acesso
a portos, à energia, à mercados etc. Ao se procurar por temas adicionais para serem
trazidos para a mesa de negociações, o que está ocorrendo de fato é a procura por outras
interdependências que existam entre os ribeirinhos e que contrabalanceiam e
compensem a relação essencialmente unilateral montante-jusante. Dois exemplos são
mencionados resumidamente para ilustrar esse ponto.

O impasse que havia nas negociações entre Suazilândia, África do Sul e Moçambique
nos acordos de compartilhamento das águas da bacia do Incomati só se resolveram
quando a bacia adjacente do rio Maputo foi incluída nas negociações. Isso se deu
porque o interesse que os três países ribeirinhos tinham nas duas bacias diferia e, até
certo ponto, podiam ser negociados (Van der Zaag e Carmo Vaz, 2003). O segundo
exemplo se refere às negociações entre a Bélgica e a Holanda, onde a questão chave da
Bélgica, dizia respeito à bacia hidrográfica do rio Scheldt (isto é, assegurar acesso ao
porto de Antuérpia por grandes navios através do estuário do Scheldt localizado em
território Holandês) enquanto a maior preocupação dos Holandeses estava relacionada à
bacia do rio Mosa (redução da poluição nas regiões superiores do rio). Somente quando
essas questões foram vinculadas, tornou-se possível uma solução criativa possível:
enquanto a Holanda era "jusante" em relação aos assuntos do Mosa, ela era "montante"
com respeito às questões do Scheldt.

Apesar do descrito acima, chegar a um acordo sobre o compartilhamento de recursos


hídricos transfronteiriços, frequentemente se mostra difícil (ver ex. Meissner e Turton,
2003). As negociações são normalmente complicadas pelos sentimentos de soberania
que tendem a emergir. Nos últimos anos uma solução para esse problema tem sido
sugerida; que é compartilhar benefícios gerados pela água ao invés da água por si só
(Sadoff and Grey, 2002).

Sadoff and Grey (2002) sugerem que quando os países ripários forem negociar a
utilização razoável e equitativa da bacia hidrográfica transfronteiriça, eles devem se
concentrar não somente na alocação da água, mas também focar no compartilhamento
equitativo dos benefícios derivados pela água. Essa idéia de compartilhamento de
benefícios ao invés de compartilhamento de água se tornou muito usada.

105
Compartilhamento de benefícios é um conceito atrativo. O conceito de
"compartilhamento de benefícios" parece óbvio, racional e uma estratégia preferida
além de censura. Mas também existem algumas limitações, entre elas as seguintes:
1. Compartilhamento de benefícios pressupõe um consenso sobre os direitos básicos,
o que se espera que seja um obstáculo maior no primeiro momento. Uma vez que
os direitos básicos (de água) sejam acordados, todos os tipos de arranjos
compensatórios devem ser negociados. Isso pode resumir-se a transações que são
muito similares ao aluguel (temporário) de água (cf. o teorema de Coase).
2. Uso equitativo de recursos hídricos transfronteiriços não deve se focar somente
nos benefícios, mas também nos custos, já que quase todos os usos de águas ou
desenvolvimento de água são passíveis de causar impactos negativos em algum
lugar.
3. Devido à interconectividade das bacias hidrográficas, o conceito de
compartilhamento deveria englobar todo o curso d'água, incluindo todos os custos
e benefícios e como esses são (diferentemente) distribuídos.
4. Mais ainda, esse conceito parece sugerir que todos os benefícios (e custos) são
quantificáveis (e comensuráveis), o que é uma suposição que não pode ser
mantida. Serão esses usos de água cujos benefícios são difíceis de se quantificar
ou que são indiretamente ou menos tangíveis tratados em pé de igualdade? As
comunidades que vivem fora dos recursos ambientais serão realmente incluídas
em tais arranjos de benefícios compartilhados? Aqueles que pagam os custos
serão compensados? No geral, o compartilhamento de benefícios realmente leva à
equidade social?

Muitos exemplos têm sido dados em apoio ao conceito de compartilhamento de


benefícios. Um exemplo recente é a proposta de construção de barragens no Nilo Azul
(Quadro 6.6). Na África, os seguintes exemplos de bens sucedidos compartilhamentos
de benefícios são frequentemente mencionados:
- Reservatório de Kariba (no rio Zambezi),
- Barragem de Manantali (no rio Senegal),
- O Projeto de Desenvolvimento de Lesotho Highlands (Senqu-Orange-Gariep), e
- Barragem de Maguga na Suazilândia (no rio Incomati).

No entanto, deve-se realizar que nesses quatro exemplos os arranjos dos custos e
compartilhamento dos benefícios são problemáticos. Isso é porque eles envolvem
somente uma parte desses cursos d'água e alguns países ribeirinhos que não fazem parte
deles. Isso levanta a questão se nesses e em outros casos realmente todos os custos e
benefícios são compartilhados corretamente. Na realidade, na maioria desses exemplos
algumas externalidades negativas têm sido trazidas por partes que não faziam parte dos
arranjos de compartilhamento de benefícios.

106
Quadro 6.6: Um potencial triplo ganho no Nilo Azul através da cooperação
transfronteiriça no desenvolvimento de infrasetruturas (Goor et al., 2010)
A Bacia do Nilo Azul Superior na Etiópia tem um grande potencial de geração de hidroenergia e
agricultura irrigável. Existem controvérsias se os numerosos projetos de construção de
infraestruturas que estão na prancheta irão gerar externalidades positivas ou negativas à
jusante no Sudão e no Egito. Para se examinar os benefícios econômicos e os custos dos
reservatórios em construção no Nilo Azul para a Etiópia, Sudão e Egito, Goor et al. (2010)
desenvolveram um modelo integrado hidro-econômico de uma bacia. O modelo integra
componentes essenciais hidrológicos, econômicos e essenciais da bacia hidrográfica para se
explorar as consequências hidrológicas e econômicas de várias opções políticas e projetos de
infraestrutura. Ao contrário da maioria dos modelos econômicos-hidrológicos reportados na
literatura, foi adotada uma formulação programática estocástica para:
i) Entender o efeito das incertezas hidrológicas nas decisões administrativas,
ii) Determinar as políticas de alocação para resguardar naturalmente contra o risco
hidrológico, e.
iii) Acessar os indicadores relevantes de riscos.
iv)
O estudo revela que a construção de quatro mega barragens no Nilo Azul Superiro mudaria o
ciclo de recarga de rebaixamento da Barragem do Alto Aswan. As operações dos reservatórios
deveriam ser coordenadas, eles deveriam disponibilizar uma reserva média para o Egito de
9 3 -1
pelo menos 2.5 x 10 m a através da redução de perdas por evaporação do Lago Nasser.
Mais ainda, os novos reservatórios (Karadobi, Beko-Abo, Mandaya and Border) na Etiópia
teriam impactos positivos significantes na geração de hidroenergia e na irrigação na Etiópia e
-1
Sudão: na escala básica, a geração anual de energia aumentaria em 38.5 TWh a dos quais
-1
14.2 TWh a previstos para armazenagem. Mais ainda, a capacidade de regulação dos
reservatórios mencionados acima possibilitaria um aumento da área irrigada no Sudão de
5.5%.
Fluxos de sedimentos apresentam outra importante dimensão nesses planos de
desenvolvimento, que não foram considerados nesse estudo.

6.5 O dilema do compartilhamento de águas transfronteiriças


A assimetria que se obtém nas bacias hidrográficas (ver acima) implica que os usos à jusante
dificilmente impactam os usuários de montante, se tanto, mas usos à montante causam impactos
à jusante (Figura 2, acima). Se combinarmos essa assimetria "natural" com os dois princípios
consagrados na Convenção da ONU sobre Cursos d'Água (equidade e não-dano), pode-se
concluir: água transfronteiriça compartilhada entre usuários de montante e jusante implica que
os usuários de montante devem renunciar de alguns potenciais benefícios da água (Van der
Zaag, 2007). Isso é porque, se os ribeirinhos à montante ignorarem as necessidades dos países
de jusante, pode-se resultar em alocação injusta de água e/ou causar danos significativos. O
dilema do compartilhamento de águas transfronteiriças pode ser resumido pela seguinte questão:
Seria racional para um estado soberano à montante colaborar voluntariamente com
a gestão das águas transfronteiriças, levarem em consideração as necessidades dos
ribeirinhos à jusante, e, como consequência, estar disposto a renunciar aos
benefícios imediatos da água?

Essa questão, que parece se referir aos (mal definidos) conceitos de "hidrosolidariedade"
(Falkenmark and Lundqvist, 1999; Falkenmark and Folke, 2002), somente pode ser respondida
afirmativamente se existirem dependências por parte dos países de montante em relação aos
países de jusante.

Se em tais situações, os usuários de água reconhecessem que eles dependem uns dos outros, não
só em termos de água como também de outras maneiras, e não somente agora, mas também no
futuro, pode ser racional para que eles cooperem e renunciem a alguns benefícios imediatos.
Essa pode ser considerada uma forma de racionalidade de água, como sugerido por Alam

107
(1998).

Situações de interdependência, felizmente ocorrem frequentemente. Isso é porque países


ripários são vizinhos, e vizinhos tendem a desenvolver relacionamentos que englobam uma
variedade de dimensões e setores - logística e transporte, comércio, energia, outros tipos de
vínculos de mercado, construção conjunta de infraestruturas, ligações culturais, elos históricos,
etc.

Em tal contexto, seria insensato e uma atitude de pouca visão para um país ripário se concentrar
em ganhos de curto prazo que possam deteriorar as relações bilaterais e, portanto, a longo prazo
resultaria em alto custo. É somente em situações na quais países não podem se permitir a adotar
perspectivas de longo prazo, que a opção por benefícios imediatos é compreensível. Em tais
casos, a estratégia poderia ser "seduzir" os países pobres para cooperar. Mas essa estratégia só
funcionaria se num período razoável de tempo eles estariam aptos a adotar uma estratégia de
cooperação por conta própria.

Dentro das bacias hidrográficas, podem existir grandes diferenças (de poder) entre atores.
Frequentemente se sugere que homogeneidade facilita ações coletivas (ver ex Turton and
Henwood, 2002). Curiosamente, Baland and Platteau (1999), mostraram que a cooperação pode
prevalecer mesmo em casos de grandes diferenças de poder, ou talvez mesmo por causa dessas
diferenças. Aqueles que possuem um grande risco também têm um grande interesse no bem
comum e no seu uso correto. Mais ainda, mesmo atores poderosos dependem de seus vizinhos
menos poderosos.

O reconhecimento por parte daqueles que está em posição mais vantajosa de sua dependência na
cooperação com aqueles em posição menos vantajosa encontra manifestação na disposição do
anteriror de renunciar a benefícios imediatos e de curto prazo; e isso por sua vez, pode causar a
disposição do último em se comprometer. Essa dinâmica delicada pode levar as instituições de
água de longa duração. Essa dinâmica talvez possa explicar os efetivos arranjos locais de
compartilhamento de água desenvolvidos nas Áfricas Oriental e Austral (Fleuret, 1985; Grove,
1993; Adams et al. 1994; Potkanski and Adams, 1998; Van der Zaag, 1999; Mohamed-Katerere
and Van der Zaag, 2003) e em outros lugares (e.g. Martin and Yoder, 1988; Boelens and Davila,
1998).

Compartilhamento de águas transfronteiriças pode acontecer, portanto, onde existirem maiores e


mais interdependências, desde que isso aumente a possibilidade de uma relação balanceada.
Porém, tais situações interdependentes serão constantemente acompanhadas de contínuas
negociações e ações colaborativas entremeadas com frequentes períodos de tensão. De fato,
cooperação não ocorre muito frequentemente sem conflito e vice-versa (Quadro 6.7).

Podemos agora lançar a hipótese de que a promoção consciente de vínculos entre países
ribeirinhos pode facilitar e sustentar o compartilhamento de água. Isso pode ser alcançado de
várias maneiras, incluindo:
- Relação com a água (ex.gestão e construção de infraestruturas conjuntas);
- Além da água (ex. através do comércio, transporte, vínculos culturais, colaboração
científica).

Podemos concluir que o compartilhamento de recursos hídricos transfronteiriços representa um


delicado ato de equilíbrio (obviedade/lugar comum). Se houver alguma diferença de peso entre
o direito de uso equitativo e a obrigação de não causar dano, então isso deve resultar do seguinte
lugar comum: o acordo de compartilhamento de água que não é visto como equitativo e
razoável por todas as partes é improvável de durar e se manter com o tempo. Portanto, alguns
especialistas argumentam que o princípio de utilização equitativa é a chave da alocação de água
(Wouters, 1997; Wolf, 1999), que é também a premissa das Regras de Helsinki de1966
(McCaffrey, 1993).

108
Quadro 6.7: Coexistência de conflitos e de cooperação
Muitos trabalhos em águas transfronteiriças situam conflitos de água e cooperação em
lados opostos de uma série contínua. Examinando-se uma situação de água
transfronteiriça por essa perspectiva é inútil, já que ela nega uma frequente
coexistência entre cooperação e conflito e que as relações transfronteiriças evoluem
com o tempo, com o qual os níveis de conflito e cooperação mudam ao longo do
tempo. Nas palavras de Mirumachi e Allan (2007), “relações dinâmicas
transfronteiriças são caracterizadas por intensidades variáveis de coexistência de
conflitos e cooperação. Uma vez que essa coexistência seja reconhecida, é possível
escapar da suposição errônea de que as relações de águas transfronteiriças existem num
simples eixo de conflitos indesejáveis à cooperações desejáveis". A última suposição
leva inevitavelmente à conjectura de que qualquer conflito é "ruim" e que todas as
formas de cooperação são "boas (Zeitoun and Mirumachi, 2008).

Low Cooperation intensity High

Low Confrontation Risk- Risk-


Ad hoc Technical
of issue averting taking

Non-
Conflict politicised
intensity
Politicised

Securitised/
Opportunitised

High
Violised

Matriz de conflito e cooperação, proposta por Mirumachi e Allan (2007)

Compartilhamento de água pode ser bem sucedido e mantido ao longo do tempo no caso da
existência de múltiplas dependências entre países ribeirinhos. Em tais situações ganhos de curto
prazo, aumentados pelo comportamento egoísta, podem provar serem autodestrutivos no final.
Isso pode explicar porque, a despeito da frequente retórica das guerras sobre água, acordos de
cooperação ocorrem muito mais frequentemente que o esperado.

Interdependências entre ribeirinhos podem, portanto, serem vistas não como uma fraqueza, mas
como um ponto positivo. Oportunidades potenciais são oferecidas através da criação de acordos
criativos,. Interdependências podem ser (a) ativamente reconhecidas ao se trazê-las para a mesa
de negociações, através, por exemplo, da ligação de temas (ver abaixo) e (b) ativamente
promovidas por meios de construção compartilhada de infraestruturas (veja próxima seção), ou
através da institucionalização de vínculos montante-jusante, por exemplo, na forma de
pagamentos por acordos de serviços ambientais. A questão é se os engenheiros e gestores de
água estão suficientemente equipados para identificar tais oportunidades.

Associação de temas

Quando as negociações entre ribeirinhos (sejam países, comunidades ou usuários individuais de


água) se mostrarem difíceis ou se paralisarem, a introdução de temas completamente novos ao
debate pode ajudar. Esses podem estar relacionados a questões em bacias adjacentes, ou
podem não ter nenhuma relação com água, como comércio, acesso a portos, à energia, à
mercados, etc. Ao se procurar por temas adicionais para serem trazidos para a mesa de

109
negociações, o que está ocorrendo de fato é a procura por outras interdependências que existam
entre os ribeirinhos e que contrabalanceiam e compensem a relação essencialmente unilateral
montante-jusante (Van der Zaag, 2007. Uma associação de temas pode ser entendida como uma
troca de concessões em campos de poderes relativos (Dombrowsky2010). Dois exemplos são
mencionados resumidamente para ilustrar esse ponto.

O impasse que havia nas negociações entre Suazilândia, África do Sul e Moçambique nos
acordos de compartilhamento das águas da bacia do Incomati só se resolveram quando a bacia
adjacente do rio Maputo foi incluída nas negociações. Isso se deu porque o interesse que os três
países ribeirinhos tinham nas duas bacias diferia e, até certo ponto, podiam ser negociados (Van
der Zaag e Carmo Vaz, 2003).

O segundo exemplo se refere às negociações entre a Bélgica e a Holanda, onde a questão chave
da Bélgica diz respeito à bacia hidrográfica do rio Scheldt (isto é, assegurar acesso ao porto de
Antuérpia por grandes navios através do estuário do Scheldt localizado em território Holandês).
Enquanto a maior preocupação dos Holandeses estava relacionada à bacia do rio Mosa (redução
da poluição nas regiões superiores do rio). Somente quando essas questões foram vinculadas,
tornou-se possível uma solução criativa possível: enquanto a Holanda era "jusante" em relação
aos assuntos do Mosa, ela era "montante" com respeito às questões do Scheldt (Meijerink,
2008). Apesar disso, a cooperação entre os Belgas e os Holandeses no Scheldt continuou
extremamente problemática e ainda é controversa. Isso significa que, mesmo a estratégia de
associação de temas tem suas limitações e deve ser examinada com um olhar crítico.

6.6 Construção conjunta de infraestruturas


Uma intensiva forma de colaboração se desenvolve quando países ribeirinhos decidem
desenvolver infraestruturas hidráulicas em parceria. Essa parceria pode fazer muito
sentido. Mencionamos aqui cinco possíveis razões:
1. A natureza polivalente de grandes barragens/reservatórios geralmente implica que
os benefícios não se limitam a somente um país. Se for esse o caso, a exclusão de
outros países poderia tornar tais projetos não econômicos e impraticáveis.
2. No caso de barragens multiuso, os benefícios dos vários setores (mitigação de
enchentes, produção de hidroenergia e irrigação) podem ser distribuídos de forma
desigual entre os países envolvidos, criando demandas e condições complexas que
só podem ser resolvidas através de operações conjuntas.
3. Em geral, pode-se observar que a construção de grandes infraestruturas hidráulicas
em um país ribeirinho, normalmente causa externalidades (positivas ou negativas)
em outros países ribeirinhos. Os outros países devem no mínimo serem informados
e sua não objeção pode ser alcançada somente se suas necessidades e interesses
específicos forem levados em conta.
4. No caso de um rio formar os limites de dois países ripários, as construção de um
reservatório naquele rio pressupõe colaboração.
5. No caso de uma infraestrutura para alarme contra inundações (o que requer
instalações de estações meteorológicas, estações de medição, infraestrutura de
transmissões em tempo real, modelos numéricos fixos, etc.). Um país ripário só
pode se beneficiar completamente se partes dessa infraestrutura estiverem
localizadas em países à montante, criando uma disposição do país à jusante de se
comprometer com um ou mais países à montante.

O desenvolvimento de infraestruturas em parceria (tanto hardware quanto software)


requer uma boa percepção de todos os custos e benefícios (sociais, econômicos e

110
ambientais) envolvidos e como esses serão distribuídos entre as várias partes
participantes. Isso requer não somente um bom entendimento do sistema hidrológico e
quais serão os impactos biofísicos da intervenção proposta, mas também das
consequências sócio-econômicas.

De maneira ideal, precisamos combinar o conhecimento hidrológico com as


informações sócio-econômicas, através de por ex. desenvolvimento de modelos hidro-
econômicos integrados. Tais modelos nos permitem comparar os custos e benefícios das
intervenções alternativas, assim como a otimização do projeto da intervenção proposta e
a estimativa realística e justa dos acordos de compensação.

Regras operacionais de reservatórios polivalentes

Grandes reservatórios multiuso possuem regras complexas para a operação da


barragem. Essas regras englobam as várias funções do reservatório e as suas prioridades
(Figura 6.3). Funções diferentes têm diferentes regras operacionais relevantes, como
indicados na Tabela 6.1.

Note também que algumas regras podem ser sobrepor. O desafio é desenvolver um
conjunto coerente de regras que reflitam as preferências de uma sociedade para as
diferentes funções do reservatório e a importância dos vários setores envolvidos. Isso
implica inevitavelmente numa avaliação criteriosa dessas funções e suas preferências.

Figura 6.3: Um exemplo da curva das regras de reservatório para um reservatório


no rio Columbia nos EUA, especificando as metas de armazenagem e algumas das
restrições, dado o volume atual de armazenagem e a época do ano. As restrições
apresentadas também incluem as taxas mínimas e máximas de descarga e o fluxo
máximo do canal à jusante e a variação de profundidade que ocorre a cada mês. (Fonte:
Loucks and Van Beek, 2005, figura 4.16, pag. 102).

111
Essas preferências podem, às vezes, serem expressas em termos de valores econômicos.
Algumas vezes isso não é possível, ou não é conveniente: certas funções podem ter uma
prioridade tão alta que elas prevalecem sobre as outras. Em tais casos as regras
relevantes servem de restrição.

Tabela 6.1: Regras operacionais de reservatórios para diferentes funções


Regra
Propósito ou função Comentário
época de alto fluxo época de baixo fluxo
Geração de hidrelétrica Manter o nível da Manter o nível da Produz mais energia
água alto água alto (supondo preço
constante da
eletricidade ao longo
do ano)
Água para irrigação completamente vazio Usa a (maioria da)
cheio (completamente) água durante a
estação seca de
irrigação
Mitigação de enchentes Parcialmente cheio - Mantém a
capacidade de
armazenar uma onda
de inundação e
reduz os níveis da
enchente à jusante
Descargas ambientais Libera um fluxo Libera um fluxo não Mantém um certo
mínimo na alta tão pequeno quanto grau de regime de
estação o mínimo e não tão fluxo natural à
grande quanto o jusante
fluxo máximo da
baixa estação
Descargas Descarga mínima Descarga mínima Satisfaz acordos ou
políticas/regulamentares e/ou máxima e/ou máxima tratados bilaterais ou
transfronteiriça transfronteiriça multilaterais

Desde que grandes barragens geralmente têm um impacto ou dimensão


transfronteiriços, as regras de operação de tais barragens também devem ser acordadas
com os países ribeirinhos potencialmente afetados ou envolvidos. Observe ainda que
descargas para fluxos ambientais e para fluxos regulamentares transfronteiriços são
geralmente sobrepostos.

6.7 Conclusões (Van der Zaag e Savenije, 2000).


Por mais que a água possa ser a causa de conflitos entre partes, sejam elas individuais,
comunidades ou nações, a água tem sido normalmente e será no futuro, causa para
colaboração. Isso foi claramente demonstrado pela iniciativa da UNESCO "De Conflito
Potencial a Potencial Cooperação" (Quadro 6.8)

Pode-se tirar as seguintes lições à partir das seções anteriores com respeito à gestão de
rios transfronteiriços:

112
1. A gestão integrada de recursos hídricos compartilhados requer causas e
oportunidades. Causas podem vir em forma de inundações, riscos de poluição, ou
escassez aguda de água. Em bacias hidrográficas onde essas causas estiverem
ausentes é difícil de se estabelecer alguma forma de gestão conjunta. Mais ainda,
mudanças políticas, ou a dissipação de tensões internacionais (ex. a extinção do
Apartheid e a 'Queda do Muro de Berlim') oferecem excelentes oportunidades para
se abrir uma brecha num impasse e estabelecer acordos conjuntos de gestão.

2. Um sistema de comunicação e cooperação técnicas é extremamente importante para


a manutenção da gestão conjunta de recursos hídricos. Particularmente, onde o
ambiente político não é favorável, cooperação técnica é o instrumento mais
importante para se manter os níveis mínimos de comunicação e para se evitar que os
conflitos aumentem. Através da cooperação técnica, se constrói entendimento e
confiança mútua.

3. O campo de atuação deve ser nivelado, significando que todos os países devem
possuir capacidades adequadas para analisar e desenvolver sua posição nas
negociações. Pessoal dos países ribeirinhos deve ter o mesmo nível de conhecimento
e falar a mesma "linguagem técnica". Esforços conjuntos de capacitação técnica
podem ser instrumentos para se facilitar a comunicação e cooperação.

4. Acesso à informações hidrológicas essenciais (e informação sobre uso de água) é


essencial para a manutenção da confiança mútua e cooperação técnica. Na África
Austral organizações internacionais (como UNESCO e WMO) desempenham
importantes papéis nesse campo.

5. Além da influência positiva que a cooperação econômica tem sobre o ambiente


político, um sistema de cooperação econômica aberta e de livre acesso ao mercado é
um instrumento para facilitar o comércio da 'água virtual'. A troca de água virtual é
possivelmente a mais importante ferramenta para se alcançar uma saída mais
econômica por gota de água em regiões áridas. A maioria das tensões internacionais
no compartilhamento de água se dissipa quando a água é usada onde as condições na
bacia hidrográfica são mais atrativas para a produção de uma certa mercadoria. Isso
facilita a transição de auto-suficiência alimentar nacional para segurança alimentar.

Quadro 6.8: Do conflito potencial à cooperação potencial

“Desde que as guerras começaram na cabeça dos homens, é na cabeça dos homens que a
defesa pela paz deve ser construída”
( Constituição da UNESCO, Novembro 1945)

A Declaração Ministerial de Haia, assinada em março de 2000, identificou os desafios chave


para se atingir a segurança de água. Esses desafios forneceram o contexto para o Programa
de Avaliação da Água Mundial. Dentro dessa iniciativa da ONU, a UNESCO lançou " Do
potencial conflito à cooperação potencial" (PCCP). A iniciativa PCCP expressa o desafio de
compartilhar os recursos hídricos primeiramente sob o ponto de vista dos governos e
desenvolve tomada de decisões e ferramentas para prevenção de conflitos futuros. PCCP é
guiada pela missão primordial da UNESCO de nutrir a idéia de paz na mente humana.

PCCP visa promover a cooperação entre os stakeholders na gestão de recursos hídricos


compartilhados, enquanto ajuda a garantir que conflitos potenciais não se transformem em

113
conflitos reais. Ela enfoca o desenvolvimento de ferramentas para a previsão, prevenção e
resolução dos conflitos de água.

Um objetivo crítico na gestão de águas é reconciliar continuamente os interesses opostos de


todos os usuários de água - sejam eles individuais, empresas, corporações, grupos de
interesses, entidades administrativas ou soberanas. A gestão de conflitos de água, confrontos,
competições e cooperação são, portanto, uma parte da gestão de recursos hídricos em seu
sentido mais amplo. Interações negativas (como competições, confrontos, etc.) sobre recursos
hídricos escassos podem levar às tensões e - em situações extremas - até mesmo a conflitos,
se ficarem sem atenção.

PCCP foi concebido com a idéia de que, apesar do compartilhamento de recursos hídricos ser
uma fonte de conflitos, sua gestão conjunta pode fortalecer e facilitar como um meio de
cooperação entre os vários usuários de água. Portanto, PCCP visa demonstrar que a situação
de indiscutível potencial para conflitos pode ser transformada em uma situação onde a
cooperação potencial pode existir. A temática do PCCP enfoca na transição - de PC para CP.

O programa PCCP desenvolveu documentos temáticos, estudos de caso e materiais


educacionais, que estão disponíveis na
web:http://www.unesco.org/water/wwap/pccp/index.shtml

Estudos temáticos
 História e Futuro dos Recursos Hídricos compartilhados
 Instituições para Gestão de Água Doce Internacional
 Transformando Potenciais Conflitos em Cooperação Potencial: o Papel das Leis
Internacionais das Águas
 Relatório sobre os melhores Métodos de Análise de Sistemas para a Resolução de
Conflitos na Gestão de Recursos Hídricos
 Abordagens Alternativas para a Resolução de Disputas e sua Aplicação
 Negociação no Contexto de Acordos Internacionais relacionados à Água
 Etc.

Estudos de casos
Mar Aral; Columbia; Incomati; Jordan; Mekong; Nile; Rhine; the Trifinio Plan; Jordan;
Okavango; La Plata; Volga

Materiais para cursos de treinamento

6. Para se chegar a acordos no compartilhamento de águas internacionais, o campo de


atuação deve ser estendido. Associação de temas, envolvendo outros setores ao
invés de diretamente relacionados ao setor de águas (ex. transporte) pode abrir
novas proposições criativas de ganho-ganho.

7. Normalmente o país de jusante deve liderar o processo. Alargando a extensão para a


zona costeira pode oferecer novas oportunidades para negociação, como foi
demonstrado no caso do Reno.

8. Ao nível das bases, todos os usuários de água, incluindo os lavradores de


agricultura de sequeiro e pescadores de camarão, devem ter acesso à informações
suficientes à respeito das decisões tomadas sobre seus recursos hídricos,e, através de
organizações de base apropriadas, o direito de participar nos processos de tomadas
de decisões.

114
6.8 Referências
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