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CARLOS TORRES PASTORINO

Diplomado em Filosofia e Teologia pelo Colégio Internacional S. A. M. Zacarias, em Roma – Professor


Catedrático no Colégio Militar do Rio de Janeiro e Docente no Colégio Pedro II do R. de Janeiro

SABEDORIA DO
EVANGELHO

1..º Volume

Publicação da revista mensa1.

SABEDORIA

RIO DE JANEIRO, 1964


C. TORRES PASTORINO

INTRODUÇÃO

Antes de penetrarmos no comentário dos Evangelhos, há necessidade de serem explicados certos ter-
mos técnicos e de fazer-se ligeiro apanhado histórico, para boa compreensão do que se vai ler .

EVANGELHO
A palavra grega Euaggélion significa “BOA NOTICIA” , e já era empregada nesse sentido pelos auto-
res clássicos, desde Homero. Jesus a utiliza pessoalmente, segundo os testemunhos de Mateus (24: 14
e 26: 13) e de Marcos (1:15; 8:35; 10:29; 13:10; 14:9 e 16:15), Além dessas passagens, a palavra
“Evangelho” aparece mais 68 vezes em o Novo Testamento.

TESTAMENTO
A palavra “Testamento”, em grego diathéke, apresenta dois sentidos: 1.0 o “testamento” em que al-
guém designa seus herdeiros; 2.0 a “aliança” que define os termos de um contrato, a que se obrigam as
partes que se aliam. Neste sentido de “aliança entre Deus e os homens” é empregado, dividindo-se em
duas partes: o VELHO ou ANTIGO TESTAMENTO, escrito antes da vinda de Jesus; e o NOVO,
onde se reúnem os escritos a respeito de Jesus.
Essa distinção foi feita por Jesus: “este cálice é o NOVO TESTAMENTO em meu sangue, que é der-
ramado por vós” (Lc.22:20) ; c Paulo também opõe o Novo ao Velho: “fez-nos ministros idôneos do
NOVO TESTAMENTO” (2 Cor.3:6) e adiante: “até o dia de hoje, na leitura do VELHO TESTA-
MENTO, permanece o mesmo véu” (2 Cor. 3:14).

CÂNONE
A palavra cânone significa “regra “, e designa o exemplar perfeito e completo das Escrituras. O cânone
do Novo Testamento é constituído de 27 obras, assim divididas:

A) Livros históricos:
1. Evangelho segundo Mateus (Mt)
2. Evangelho segundo Marcos (Mr)
3. Evangelho segundo Lucas (Lc)
4. Evangelho segundo João (Jo)
5. Atos dos Apóstolos (At)

B) Epístolas Paulinas (de Paulo de Tarso) :


6. Aos Romanos (Rm)
7. Aos Coríntios 1.1\ (1 Cor)
8. Aos Coríntios 2.1\ (2 Cor)

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9. Aos Gálatas (Gal)
10. Aos Efesios (Ef)
11. Aos Filipenses (Fp)
12. Aos Colossenses (Co)
13. Aos Tessalonicenses 1.11 ( 1 Tes)
14. Aos Tessalonicenses 2.a (2 Tes)
15. A Timóteo 1.a ( 1 Tim)
16. A Timóteo 2.a (2 Tiro)
17. A Tito (Tt)
18. A Filemon (Fm)
19. Aos Hebreus (autoria discutida)

C) Epístolas Universais:
20. De Tiago (Ti)
21. De Pedro 1.a (1 Pe)
22. De Pedro 2.a (2 Pe)
23. De João l.ª (1 Jo)
24. De João 2.a (2 Jo)
25. De João 3.a (3 Jo)
26. De Judas (Ju)

D) Livro Profético
27. Apocalipse

MANUSCRITOS
Os primeiros exemplares do Novo Testamento eram copiados em papiros (espécie de papel) , material
frágil e facilmente deteriorável. Mais tarde passaram a ser escritos em pergaminho (pele de carneiro) ,
tornando-se mais resistentes e duradouros.
Os manuscritos eram grafados em letras “capitais” ou “unciais” (ou seja, maiúsculas) . Só a partir do
8.0 século passaram a ser escritos em “cursivo”, ou letras minúsculas.

ROLOS
As cópias eram feitas em folhas coladas umas às outras, formando uma tira enorme, que era enrolada
em “rolos'. ou “volumes”.

CÓDICES
Quando as páginas permaneciam separadas e eram costuradas como os nossos livros atuais, por uma
das margens, tinham o nome de “códices”.

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COPISTAS
Os encarregados de copiar os manuscritos chamavam-se “copistas” ou “escribas”. Mas nem sempre
conheciam bem a língua, sendo apenas bons desenhistas das letras. Pior ainda se tinham conhecimento
da língua, porque então se arvoravam a “emendar” o texto, para conformá-lo a seus conhecimentos.
Não havia sinais gráficos para separação de orações, e as próprias palavras eram copiadas de seguida,
sem intervalo, para poupar o pergaminho que era muito caro. Dai os recursos empregados, como:

ABREVIATURAS
ou reunião de várias letras numa SIGLA, por exemplo: pq, para exprimir porque. Algumas abreviatu-
ras eram perigosas, como: OC, que significa “aquele que”. Mas se houvesse um pequenino sinal no
meio do O, fazendo dele um “theta”, passaria a significar “Deus”, (cfr. I Tim. 3:16).

COLAÇÃO
A colação de códices é a comparação que se faz entre dois ou mais códices, escolhendo-se a melhor
“lição” para cada “passo”.

CUSTOS LINEARUM
A expressão latina “custos linearum” (guarda das linhas) era empregada para designar uma letra que se
escrevia no fim das linhas, para “encher” um espaço que ficasse vazio. Por vezes o “custos” era inter-
pretado como uma abreviatura. ,e entrava como uma “interpolação”; doutras vezes era realmente uma
abreviatura, e era interpretada como 'custos”, não se copiando.

HAPAX LEGÓMENA
São duas palavras gregas que indicam uma palavra usada por um só autor, isto é, um neologismo cria-
do pelo autor e desconhecido antes dele, e que vem empregado uma só vez na obra, como por exemplo
a palavra “epiousion” em Mt. 6;)1, que não foi traduzida na Vulgata.

HARMONIZAÇÃO
Tentativa que faziam os copistas para “harmonizar” o texto de um livro com o de outro, acrescentando
ou tirando palavras.

INTERPOLAÇÃO
Quando um leitor anotava, na entrelinha ou na margem, um comentário seu, e o copista, julgando-o um
“esquecimento” do copista “ anterior, introduzia esse comentário como parte do texto.

LIÇÃO
Diz-se da maneira especifica de dizer uma frase, Isto é, da forma exata pela qual está escrita.

PASSO
É o “trecho” citado de um autor, por exemplo: “este passo de Mateus está diferente do de Marcos”.

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SALTO
Quando o copista pula uma letra, uma silaba, uma palavra ou até uma linha, por distração ou confusão.

SIGLAS
Abreviações usadas para poupar espaço e tempo.

VARIANTE
Quando existe uma diferença entre dois códices, diz-se que há uma “variante”.

PRINCIPAIS MANUSCRITOS
Os códices gregos unciais (ao todo, pouco mais de cem existem) , são bastante antigos. Os principais
são:
A - (alef) ou Sinaítico, no Museu Britânico (séc. IV)
A - Alexandrino, no Museu Britânico (séc. V)
B - Vaticano, no Museu Vaticano, (Séc. IV)
C - É irem, na Biblioteca Nacional de Paris (séc. V)
D - Beza, na Universidade de Cambridge, (séc. VI)
D2 - Claromontano, na Bibl. Nac. de Paris (séc. VI)

Dos códices gregos cursivos ainda existem 1.825 cópias.


Os principais códices latinos, com o texto da “vetus latina”, isto é, da primitiva tradução anterior a
Jerônimo, são:
a - Vercellensis (séc. IV) na catedral de Vercelli
b - Veronensis (séc. V) na Biblioteca de Verona
c - Colbertinus (séc V) na Bibl. Nac. de Paris
d - Beza (séc. V) na Univ. de Cambridge
e - Palatinus (séc. V) na Bibl. Nac. de Viena
f - Brescianus (séc. VI) na Bibl. de Brescia
h - Claromontanus (séc. IV/V) na Bibl. Vaticana n.o 7.223.

Quanto aos códices da Vulgata, existem mais de 2.500, remontando os mais antigos aos séculos VI e
VU.

OS TEXTOS
Já no século II escrevia Orígenes: “Presentemente é manifeste que grandes foram os desvios sofridos
pelas cópias, quer pelo descuido de certos escribas, quer pela audácia perversa de diversos corretores,
quer pelas adições ou supressões arbitrárias” (Patrologia Grega, Migne, vol. 13, col. 1.293).
Quanto mais se avançava no tempo, mais crescia o número de cópias e de variantes, aumentando sem-
pre mais o desejo de possuir-se um texto fixo e autorizado. Chegávamos ao 4.0 século. Constantino
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estabeleceu que o Bispo de Roma devia ser o primaz da Cristandade. O imperador Teodósio deu mão
forte aos cristãos romanos, declarando o cristianismo “religião do Estado”, e firmando, desse modo a
autoridade do Bispo de Roma. Ocupava o Bispado o então Papa Dâmaso (português de nascimento) ,
devendo anotar-se que, naquela época, todos os Bispos eram denominados “papas”. Desejando atender
ao clamor geral, Dâmaso encarregou Jerônimo de estabelecer o TEXTO DEFINITIVO das Escrituras.
A tarefa era ingente, e Jerônimo tinha capacidade para desempenhá-la, pois conhecia bem o hebraico,
o grego e o latim. Ele devia re-traduzir para o latim todas as Escrituras, já que as versões antigas (vetus
latina) eram variadíssimas.

VULGATA
A tradução latina de Jerônimo é conhecida com o nome de Vulgata, ou seja, edição para o vulgo, e tem
caráter dogmático para os católicos romanos.

LÍNGUA ORIGINAL
A língua original do Novo Testamento é o grego denominado Koiné, ou seja, comum, popular, falado
pelo povo. Não é o grego clássico.
O grego do Novo Testamento apresenta um colorido francamente hebraista, e bem se compreende a
razão: todos os autores eram judeus, com exceção de Lucas, que era grego.

OS EVANGELISTAS
MATEUS (nome grego, Matháios, que significa “dom de Deus”, o mesmo que Teodoro). Seu nome
em hebraico era LEVI.
Diz Papias que “Mateus reuniu os “Logía” de Jesus (ou seja os discursos) , e cada um os traduziu
como pôde do hebraico em que tinham sido escritos”.
Todavia, jamais foi encontrada nenhuma citação de Mateus em hebraico, nem mesmo em aramaico.
Com efeito, em hebraico é que não escreveu ele, já que desde 400 anos antes de Cristo o hebraico não
era mais falado, e sim o aramaico, que é uma mistura de hebraico com siríaco. Parece, pois, que Papias
não tinha informação segura.
Um argumento em favor do hebraico ou aramaico de Mateus original são seus numerosíssimos he-
braismos. Entretanto, qualquer tradutor teria o cuidado de expurgar a obra dos hebraísmos. Se eles
aparecem em abundância, é mais lógico supor-se que o autor era judeu, e escrevia numa língua que ele
não conhecia bem, e por isso deixava escapar muitos barbarismos.
Supõe-se que Mateus haja escrito entre os anos 54 e 62.
Dirige-se claramente aos judeus (basta observar as numerosas citações do Velho Testamento e o esfor-
ço para provar que Jesus era o Messias prometido aos judeus pelos antigos Profetas) . Mateus mostra-
se até irritado contra seus antigos correligionários.
MARCOS, ou melhor, JOÃO MARCOS, era sobrinho de Pedro. O nome João era hebraico, mas o
segundo nome Marcos era puramente latino. Não deve admirar-nos esse hibridismo, sabendo-se que os
romanos dominavam a Palestina desde 70 anos antes de Cristo, introduzindo entre o povo não apenas a
língua grega, como os nomes latinos e gregos. (Os romanos impuseram a língua latina às conquistas do
ocidente e a grega às do oriente, daí o fato de falar-se grego na palestina desde 70 anos antes de Cristo,
por coação dos dominadores) .
Marcos escreveu entre 62 e 66, e parece que se dirigia aos romanos, tanto que não vemos nele citações
de profecias; apenas uma vez (e duvidosa) cita o Velho Testamento. Mais: se aparece algo de típico

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dos costumes judaicos, Marcos apressa-se a esclarecer, explicando com pormenores o de que se trata,
como estando consciente de que seus leitores, normalmente, não no perceberiam.
LUCAS, abreviatura grega do nome latino Lucianus, não tinha sangue judeu: era grego puro, de nas-
cimento e de raça. Escreveu em linguagem correta, entre 66 e 70, interpretando o pensamento de Paulo
a quem acompanhava nas viagens apostólicas, talvez para prestar-lhe assistência médica, pois o pró-
prio Paulo o chama “médico querido” (cfr. 2.a Cor. 12:7) .
Todo o plano de sua obra é organizado, demonstrando hábito de estudo e leitura e de pesquisa.
JOÃO, chamado também “o discípulo amado”, e mais tarde “o presbítero”, isto é, o “velho”. Filho de
Zebedeu, e portanto primo irmão de Jesus, acompanhou o Mestre no pequeno grupo iniciático, com
seu irmão Tiago e com Pedro.
Clemente de Alexandria diz ter João escrito o “Evangelho Pneumático”. Sabemos que “pneuma” signi-
fica “Espírito”. Então, é o Evangelho espiritual. Em que sentido? Escrito por um Espírito? “Pneumo-
grafado”? Tal como hoje dizemos “psicografado”?
João escreveu entre 70 e 100, tendo desencarnado em 104.
Seu estilo é altaneiro, condoreiro e seu Evangelho está. repleto de simbolismos iniciáticos, tendo dado
origem a uma teologia.
Linguisticamente, Lucas é o mais correto e Marcos o mais vulgar testando Mateus e João escritos
numa linguagem intermediária.

OS SINÓPTICOS
Mateus, Marcos e Lucas seguem, de tal forma, o mesmo plano e desenvolvimento, que podem ser
abarcados num só olhar (ópticos) de conjunto (sin) . Verifica-se com facilidade que Mateus foi o pri-
meiro a publicar o seu, tendo Marcos resumido a seguir. Muitos outros seguiram o exemplo desses
dois, tendo aparecido talvez uma centena de resenhas dos atos do Mestre. Foi quando Lucas resolveu,
conforme declara, “organizar” uma narração escoimada de falhas.

A INSPIRAÇÃO
Aceitamos que a Bíblia, e de modo particular o Novo Testamento, tenham sido inspirados, direta e
sensivelmente, por espíritos, se bem que nem todos com a mesma elevação.
Pedro, com toda a sua autoridade de Chefe do Colégio Apostólico, afirma categoricamente, referindo-
se aos escritores do Velho Testamento: “homens que falaram da parte de Deus, e que foram movidos
por algum espírito santo” (2 Pe. 1 :21) . E ainda: “o Espírito de Cristo, que estava neles, testificou”
(1 Pe. 1: 11) .
E no discurso de Estêvão, narrado em Atos 7:53, o proto-mártir afirma: .'vós que recebestes a Lei por
ministério de anjos”, isto é, por intermédio de espíritos.
Tudo isso é normal e comum até nossos dias. Mas, desconhecendo a técnica, cientificamente estudada
e experimentada por sábios e pesquisadores espiritualistas, a partir de Allan Kardec, os comentadores
se perdem em divagações cerebrinas. Ao invés de admitir a psicografia (direta, mecânica ou semi-
mecânica) e a psicofonia (total ou parcial), a audiência evidência, ficam a conjeturar “como” pode ter-
se dado o fato, chegando a afirmar que “as pedras da Lei foram realmente escritas pelo dedo de Deus”
(Dr. Tregelles, Introdução ao N.T.).
Mais modernamente, Joseph Angus (Hist. Doutr. e Interpr. da Bíblia), escreve: “notam-se, nas diversas
partes da Bíblia, no conteúdo e no tom, diferenças evidentes; têm sido feitas distinções entre “inspira-
ção de direção” e “inspiração de sugestão” (?) ; entre a iluminação e o ditado; entre “influência dinâ-

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mica” e “influência mecânica”. Vê-se que já se está aproximando da realidade, mas o desconhecimento
dos estudos modernos o faz ainda titubear.
Ainda a respeito da inspiração, perguntam os teólogos se a inspiração da Bíblia deve ser considerada
VERBAL (isto é, que todas as suas PALAVRAS tenham sido inspiradas diretamente por Deus - natu-
ralmente no original hebraico ou grego) , ou se será apenas IDEOLÓGICA. Faz-se então a aplicação:
em Tobias, 11:9, é dito “então o cão que os vinha seguindo pelo caminho, correu adiante, e como que
trazendo a notícia, mostrava seu contentamento abanando a cauda”. Pergunta-se: é de fé que “o cão
abane a cauda quando está alegre”? E respondem: “não, mas é de fé Que. naquele momento, um cão
abanou a cauda...
Não era assim que pensava Jesus, quando dizia que “o espírito vivifica, a carne para nada aproveita”
(30. 6:63) ; nem Paulo, quando afirmava: “não somos ministros da letra (escravos da letra) , mas do
espírito, pois a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Cor. 3:6). E aos Romanos: “de sorte que sirvamos
na novidade do espírito, e não na velhice da letra” (Rum. 7:6.). E mais ainda: quando, em o Novo
Testamento se cita o Velho, a citação é sempre feita ad sensum (isto é, pelo sentido) , e não ad lítte-
ram (literalmente) , e quase sempre pela tradução dos Setenta, e não pelo original hebraico, embora
fossem judeus.

INTERPRETAÇÃO
Para interpretar com segurança um trecho da Escritura, é mister
a) isenção de preconceitos
b) mente livre, não subordinada a dogmas
c) inteligência humilde, para entender o que realmente está escrito, e não querer impor ao escrito o
que se tem em mente.
d) raciocínio perquiridor e sagaz
e) cultura ampla e polimorfa mas sobretudo:
f) CORAÇAO DESPRENDIDO (PURO) E UNIDO A DEUS.

Os quatro primeiros itens são pessoais, geralmente inatos, mas podem ser adquiridos por qualquer pes-
soa. O item e requer conhecimento profundo de hebraico, grego e latim, assim como de idiomas cor-
relatos (árabe, sírio, caldaico. arameu. copto. egípcio. etc.) , Contato com obras de autores profanos da
literatura greco-latina, dos “Pais” da igreja, etc. Noções seguras de história, geografia, etnografia, ci-
ências naturais, astronomia. cronologias e calendários. assim como de mitologias e obras de outros
povos antigos.
Mas há necessidade, ainda, de obedecer a determinadas regras:
1.ª regra - estudar o trecho e cada palavra gramaticalmente, dentro das regras léxicas, sintáticas e
etimológicas, assim como do uso tradicional dos termos e das expressões.
Por exemplo, a título de ilustração:
a - existem freqüentes hendíades (isto é, emprego de duas palavras unidas pela preposição, em lugar de
um substantivo e um adjetivo) , como: “obras de fé” por “obras fiéis”; “trabalho de caridade”, por
“trabalho caridoso”; “paciência de esperança” por “paciência esperançosa”; “espírito da promessa” por
“espírito prometido”. Ou então, duas palavras unidas pela conjunção “e”, ao invés de o serem pela
preposição, como: “ressurreição E vida” por “ressurreição DA vida”; “caminho, verdade e vida”, por
“caminho DA verdade e DA VIDA “, etc. Isto porque, em hebraico, eram colocados dois substantivos,
um ao lado do outro, e isto bastava para relacioná-los;

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b - a expressão “filho de” exprime o possuidor de uma qualidade (positiva ou negativa) : filho da paz
significa “pacífico”; filho da luz quer dizer “iluminado” (cfr. Lc. 10:6 e Ef. 5:8) ;
c - expressões típicas, como “se alguém não aborrecer. . . “ (Lc. 14:26) , exprimindo: “se alguém não
amar menos. . .”;

d - os números possuem sentido muito simbólico, assim:


10 - diversos
40 – muitos
7 - grande número
70 - todos, sempre
Então, não devem ser tomados à risca.

e - os nomes de cidade e de pessoas precisam ser observados com “atenção. Basta recordar que “Cé-
sar”, em Lc. 2:1 refere-se a Tibério, mas em At. 25:21 refere-se a Nero.

2.ª regra - Interpretar o texto de acordo com o contexto. Por exemplo, “obras” pode significar “boas
ações”, como em Rom. 2:6, em Mt. 16:27; ou pode exprimir apenas “ritos, liturgia”, como em Rom.
3:20, 28, etc.
Neste campo, podemos explicar o texto segundo o contexto, quer por analogia, quer por antítese; ou
então, por paralelismo com outros passos.
Não perder de vista, no contexto, que:
a - as palavras podem ser compreendidas em sentido mais, ou menos, amplo, do que o sentido ordiná-
rio;
b - as palavras podem exprimir o contrário (por ironia) , como em Jo. 6:68;
c - não havendo sinais diacríticos nem pontuação nos manuscritos e códices, temos que estudar a loca-
lização exata das vírgulas e demais sinais, especialmente dos parênteses;
d - podem aparecer diálogos retóricos, como em Rom. cap. 3.

3.ª regra - Quando há dificuldade, consideremos o objetivo do livro ou do trecho, e interpretemos o


“pequeno” dentro do “grande”, o pormenor dentro do geral, a frase dentro do período. Por exemplo,
em Romanos (14:5) Paulo permite aos judeus a observância de datas, enquanto aos Gálatas (4:10-11)
proíbe que o façam; isto porque, entre estes, os judeus queriam obrigar os gentios à observância das
datas judaicas.

4.ª regra - Comparar Escritura com Escritura, é melhor que fazê-lo com obras profanas.
Por exemplo, a expressão “revestir0 o Cristo” (Gál. 3:27) é explicada em Rom. 13:14 e é descrita em
pormenores em Col. 3:10.

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DIVERSOS SENTIDOS
Cada Escritura pode apresentar diversas interpretações, no mesmo trecho. A vantagem disso é que, de
acordo com a escala evolutiva em que se acha a criatura que lê, pode a interpretação ser menos ou mais
profunda.
Os principiantes compreendem, de modo geral, a “letra” e a ela se apegam. Mas, além do sentido lite-
ral. temos o alegórico, o simbólico e o espiritual ou místico.
O sentido alegórico faz extrair numerosas significações de cada representação, compreendendo, por
exemplo, a história de Abraão como uma alegoria das relações entre a matéria e o espírito.
A interpretação simbólica é mais elevada: dá-nos a revelação de uma verdade que se torna, digamos
assim, “transparente” e visível, através de um texto que a recobre totalmente; basta-nos recordar a
CRUZ, para os cristãos: é um símbolo muito mais profundo, que os dois pedaços de madeira super-
postos.
A interpretação espiritual é aquela que dificilmente poderá ser expressa em palavras, mas é sentida e
vivida em nosso eu mais profundo, levando-nos, através de certas palavras e expressões, à união místi-
ca com a Divindade que reside dentro de nós. Quase sempre, a compreensão espiritual ou mística da
Escritura leva ao êxtase, e portanto à Convivência com o Todo.
Dadas estas notas introdutórias, iniciaremos um comentário dos Evangelhos, a começar pelo de João,
pois procuraremos interpretar os Evangelhos num todo único, afim de evitar repetições. Fizemos, pois,
uma “harmonia” dos quatro evangelistas, e iremos dando os textos para logo a seguir comentá-los.

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ESQUEMA ETERNO DA MISSÃO DE JESUS

JOÃO, 1:1-18
1. No princípio era o Verbo e o Verbo .estava em Deus e o Verbo era. Deus.
2. Ele estava no princípio em Deus.
3. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada foi feito.
4. O que foi feito nele, era. a Vida e a Vida era a Luz dos homens;
5. e a Luz resplandece nas trevas e as trevas não prevaleceram contra ela.
6. Houve um homem, chamado João, enviado por Deus.
7. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da Luz, a fim de que por meio dele
todos os homens cressem.
8. Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da Luz.
9. Havia. a Luz Verdadeira que ilumina a todo homem que vem ao mundo.
10. Ele estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu.
11. Veio entre os seus, e os seus não o receberam.
12. Mas deu o poder de tornar-se filhos de Deus a todos os que o receberam, aos que
acreditaram em seu nome,
13. que não nasceram nem do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do ho-
mem, mas de Deus.
14. E o Verbo se fez carne e construiu seu tabernáculo dentro de nós, cheio de graça e
Verdade, e nós contemplamos sua glória, glória. igual à do Filho Unigênito do Pai.
15. João dá testemunho e exclama: ..Eis aquele de quem eu dizia : O que vem depois de
mim é maior do que eu, porque existia antes de mim”.
16. De sua plenitude todos nós recebemos, e graça por graça,
17. porque a Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.
18. Ninguém jamais viu Deus: o Filho Unigênito que está no seio do Pai é que O revelou.

Neste preâmbulo do Evangelho de João, o mais altaneiro e Inspirado, temos revelada, em poucas mas
profundas palavras, a teologia que Jesus ensinou a discípulos.
Não temos um tratado completo, mas as noções básicas para. que a humanidade possa compreender o
assunto.
O evangelista define, desde o início, o que pretende: falar de Deus através de suas manifestações. Não
só do ABSOLUTO (no sentido que os hindus emprestam à palavra BRAHMAN) .
A única idéia que nossa imperfeição pode fazer de Deus, é que o Absoluto, sem princípio nem fim,
sem limitação alguma. Não uma pessoa, mas uma Força Infinita, uma Razão Ilimitada, a Mente Uni-
versal. Falando a respeito dessa Força (de Deus) , Jesus assim se expressa (Jo.4:24) : “Deus é ESPÍRI-
TO”. Então, ESPÍRITO é a palavra que pode exprimir essa Inteligência Divina, essa Inteligência Uni-

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versal, essa Força Cósmica, que está em toda parte, permeando e impregnando tudo: o Absoluto, o
TODO inteligente, que faz brotar as plantas e impele ao nascimento os seres, e ao mesmo tempo, que
regula o movimento dos astros nos espaços infinitos.
Mas, desde o princípio (e poderíamos dizer, desde o principio sem princípio) , esse ESPÍRITO era
ATIVO. Ora, a atividade fundamental da Inteligência é o pensamento, ou a PALAVRA (em grego
Logos, em latim Verbo) .
Então, a primeira manifestação da Divindade é a PALAVRA, ou seja, o PODER CRIADOR, o PAI.
Mas, toda palavra produz seu efeito, toda criação produz o ser no qual o criador se transforma. E isto
está dito no versículo 14: “o Verbo se tornou carne”, isto é, produziu seu efeito, e apareceu o FILHO.
Eis, portanto, esboçada a teologia joanina, que, sem dúvida, devia representar a que Jesus lhe ensinou:
DEUS, o Absoluto, junto ao qual e no qual se encontrava a própria manifestação que é sua PALA-
VRA, e logo a seguir o efeito dessa palavra, o FILHO. Daí a concepção da Trindade como DEUS ou
ESPÍRITO - o VERBO ou PAI – o FILHQ ou CRISTO.
Em outras palavras, poderíamos dizer:
DEUS - o Amor.
O PAI - o Amante.
O FILHO - o Amado.

Por causa da aproximação do versículo 1 com o 14, houve confusão, e acreditou-se que o Verbo era o
Filho, não se reparando na contradição dos termos: Verbo é palavra ativa, ao passo que Filho é palavra
passiva. Verbo é o Criador, Filho é o Criado.
Então, o Filho é o resultado do Verbo, o produto do Pai, embora esteja perfeitamente certo dizer-se que
o “Verbo se tornou carne”. Isto - porque em Deus não há “pessoas” nem divisões possíveis: é o Abso-
luto, o Infinito, o Todo. Quer o denominemos Espírito, Pai ou Filho, tudo constitui o UM, o único.
Desde O princípio incriado existe em Deus o Poder Criador, o Verbo.
Por isso tem razão o evangelista quando diz: “no princípio havia o Verbo, ou Pai, que estava em Deus
e que era o próprio Deus”. Esse Verbo, ao ser emitido, produziu o som, o seu efeito, a manifestação
divina, que é o Espírito Divino (o Espírito Santo) em todos os Universos, ao qual chamamos o CRIS-
TO, o FILHO UNIGÊNITO DE DEUS.
O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, tem em si as mesmas propriedades: ele, o homem, a
“centelha divina”, o “raio de luz que emanou da Fonte da Luz”, possui em si a Palavra Criadora” o
Pensamento, que constitui a individualidade perene; mas esta, ao produzir seu efeito, torna-se a perso-
nalidade que busca a matéria para aperfeiçoar-se, surgindo então a personalidade, que é o Filho.
Deus é a Fonte da Luz, O ESPÍRITO; sua emissão é o VERBO ou PAI CRIADOR, que ilumina os
raios luminosos que da Fonte partem constituem o Filho, o CRISTO, O Filho Unigênito do Pai. Então,
CRISTO é a manifestação sensível de Deus, é a Força Divina que impregna tudo.
Tudo provém de Deus, tudo está EM Deus, e Deus está EM tudo, por sua manifestação cristônica. No
entanto, erram os panteístas, quando afirmam que todas as coisas reunidas e somadas formariam Deus.
Jamais poderia isto ocorrer. Mas tem razão o Monismo quando afirma que Deus está em todos e em
tudo, conforme diz Paulo em Ef. 4:5 e em 1 Cor. 14:28. Deus é o substractum, a substância última de
todas as coisas, de tudo o que existe, porque tudo o que existe, existe em Deus.
No versículo 3 esta dito: “tudo foi feito por ele”. Logicamente, tudo promana do Verbo, do Pai Cria-
dor, que é o Pai “nosso”, cujo poder é emprestado ao homem, imagem de Deus e centelha divina.
“Nele estava a Vida”, porque a Vida é Deus, a Vida é a manifestação da Divindade.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
A Luz resplandece nas trevas, e contra ela as trevas não prevaleceram”. O sentido literal é de absoluta
clareza”; por maiores que sejam as trevas, elas não prevalecem nem mesmo contra um pequenino pa-
lito de fósforo que se acenda. Entretanto, observamos que há outro sentido, que pode deduzir-se das
palavras anteriores. No versículo 4 está explicado: “A Vida é a Luz dos homens”. Se a Vida é a Luz
dos homens, então as trevas exprimem a morte. Compreendemos, pois: a morte não prevalece contra a
vida. Tudo o que nos parece morte, é apenas o desfazimento dos veículos materiais de que está reves-
tido o espírito.
Nos versículos 6 a 8, encontramos uma pequena intromissão, falando a respeito de João Batista: “hou-
ve um homem, chamado João, ENVIADO por Deus”. A dedução lógica é evidente: se ele foi ENVI-
ADO, é porque já existia. Com efeito, o evangelista não diz: houve um homem CRIADO por DEUS”
mas ENVIADO por Deus... Observe-se: bem o sentido certo das palavras. Se foi enviado, é porque
existia antes de nascer, e não apenas existia, como devia sei um espírito de rara inteligência, de grande
elevação moral e de muito adiantamento espiritual, com profundo conhecimento da Luz, da qual devia
dar testemunho. Deus o ENVIOU para que ele dissesse aos homens aquilo que ele conhecia, que havia
visto, que podia testemunhar por experiência própria e direta.
Não estranhemos o modo de expressar-se do evangelista: quase a cada passo do Novo Testamento,
encontramos uma referência clara ou velada à vida do espírito anterior ao nascimento na Terra, ao que
chamamos reencarnação.
João Batista conhecia a Luz ANTES DE NASCER NA TERRA, porque tinha existência plenamente
consciente, era dotado de inteligência, e podia testificar aquilo que vira. Podia, pois, afirmar: “eu sei,
eu vi”. E os outros podiam crer nas palavras dele. Mas o evangelista não deixa de chamar a atenção
dos leitores: “ele NÃO ERA a Luz”, apenas a conhecia.
Depois de falar nisso, o evangelista alça-se a falar na Luz Verdadeira, na Verdadeira Vida, que vivifica
toda criatura, Vida que é uma das manifestações da Divindade nos seres criados. Essa manifestação
divina está no mundo, mas o mundo não a reconhece, embora tire dela sua própria origem.
E dessa Luz, passa logo a falar na Luz que se materializou na Terra: a figura ímpar de Jesus, aquele de
quem justamente João viera para dar testemunho. E o apóstolo diz que Jesus era “a verdadeira Luz que
ilumina todos os homens que vêm à Terra”. E Jesus estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, ele
estava entre “os seus” e “os seus não o reconheceram”...
Precisamos distinguir aqui entre JESUS, o homem, e o CRISTO, a força divina que impregna todas as
coisas, todos os seres.
JESUS é um espírito humano, com uma evolução incalculável à nossa dianteira. Foi ele quem criou
este globo terráqueo (senão todo o sistema solar). Ele mesmo, Jesus - habitante elevadíssimo de algum
planeta divino - (“na casa de meu Pai há muitas moradas”, Jo. 14:2) teve o encargo de criar mais um
planeta no Universo infinito.
Assim como determinamos a uma criança que, de um pedaço de madeira, faça uma espátula; ou encar-
regamos a um mestre de obras a construção de uma casa; ou solicitamos de um engenheiro a constru-
ção de uma máquina eletrônica; assim Jesus foi o encarregado de construir um planeta. E ele o fez.
Não num abrir e fechar d'olhos, como num passe de mágica; nem sozinho, mas com auxiliares diretos
seus arquitetos divinos e de força transcendente. A Bíblia, no Gênesis, confirma isso, quando diz que o
mundo (a Terra) foi feita pelos “elohim”. A palavra hebraica “elohim” é o plural de “elohá”, e exprime
os espíritos. Todos os “elohim” estavam sob a direção de um Espírito-Chefe, que o Velho Testamento
chama “Jeová” (YHVH).
Esse espírito Jeová foi o construtor ou criador da Terra; ele agora estava na Terra, a Terra foi feita por
ele, e “os seus” não o reconheceram”... Vemos uma semelhança entre Jeová e Jesus; Jeová, o Espírito
diretor das atividades da Terra, tomou o nome de Jesus quando reencarnou em nosso (melhor, em SEU
planeta). Leia-se o que está escrito em Isaías, quando esse profeta fala ao povo israelita: “EM TI
NASCERÁ JEOVÁ” (Is.60:2). Além disso, se dividirmos ao meio o tetragrama sagrado (YHVH) , e

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C. TORRES PASTORINO
no centro acrescentarmos um schin, a leitura será exatamente o nome YEH-SH-UAH, ou seja, JESUS
em hebraico: ‫׳תות‬-‫׳תשות‬.
“Ele veio entre os seus, e os seus não o receberam”. Realmente, todos nós, na Terra, pertencemos a ele,
que nos veio trazendo desde o início da evolução, acompanhando nossos passos com carinho e amor.
E o apóstolo prossegue: “deu o poder de tornar-se filhos de Deus a todos os que o receberam e acre-
ditaram em seu nome”. Não por causa de privilégios, mas por evolução própria, veremos mais abaixo.
A expressão “filho de”, muitíssimo usada na Bíblia, é um hebraísmo que exprime o ser, que possui a
qualidade do substantivo que se lhe segue. Por exemplo: “filho da paz” é o pacifico; “filho da luz” é o
iluminado; então, “filho de Deus” é o ser que se divinizou, que se tornou participante da Divindade,
que conseguiu ser “um com o Pai”. E todos os que nele acreditam e obedecem a seus preceitos, tor-
nam-se divinos: “eu e o Pai viremos e NELE faremos morada” (Jo. 14:23).
Aí reside o segredo de a criatura tornar-se divina.
Mas esses seres que se divinizaram, “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da von-
tade do homem, mas de Deus”. São três expressões claras: o sangue, a carne, o homem. Desses três
não depende o tornar-se divino. O sangue exprime a alma, ou corpo astral, ou perispírito, conforme se
lê “a alma da carne é o sangue” (Lev. 17:11); a carne representa o corpo físico, a matéria densa, acom-
panhada logicamente do duplo etérico; o homem simboliza o intelecto. Essas são as partes constituin-
tes da PERSONALIDADE. E realmente não depende da personalidade o encontro com Deus, e sim da
INDIVIDUALIDADE SUPERIOR. Tornam-se unidos a Deus aqueles que já vivem na individualida-
de, embora ainda encarcerados na matéria, presos à personalidade inferior e transitória da carne.
Continua o evangelista a explanar o mesmo assunto: “o Verbo se fez carne e construiu seu taberná-
culo dentro de nós (verifique-se o sentido do original grego: έσиήуωσЄу ‘EN ήµτу . Precisa-
mente o grande mistério revelado: o CRISTO, em que se transformou o Verbo, reside DENTRO de
cada um de nós, dentro de nossa matéria, de nossa carne: o Verbo se tornou carne. E espera que vamos
ao encontro dele, que nele acreditemos, porque ele aí está, “cheio de graça e de verdade”, ou seja,
cheio da verdadeira graça que é a benevolência ( хαρις ) e o amor.
A glória do CRISTO dentro de cada um de nós ainda não se manifesta exteriormente, por causa de
nossa imperfeição: somos como lâmpadas poderosíssimas e acesas, mas revestidas de grossa camada
de lama, que não deixa transparecer a luz que existe internamente. Em Jesus, não: a limpeza era abso-
luta, sua transparência era mais límpida que a do mais puro cristal imaginável, e a luz interna do
CRISTO era totalmente visível, a tal ponto que Paulo pôde escrever: “nele habitava TODA A PLENI-
TUDE DA DIVINDADE” (Col. 2:9) . Por isso foi Jesus chamado “O CRISTO”, e dele disse o evan-
gelista: “nós contemplamos a sua glória, glória IGUAL A DO FILHO UNIGÊNITO DO PAI”, ou seja,
a glória de Jesus era igual à glória do Cristo Eterno, Filho de Deus, terceiro aspecto da Divindade.
Não podemos, pois, condenar aqueles que, durante tantos séculos, adoraram e adoram a Jesus como
Deus: sim, Jesus é a manifestação plena da Divindade. Em todas as criaturas reside Deus no mesmo
grau, mas em nós, imperfeitos, Deus se acha encoberto por nossa personalidade vaidosa; em Jesus,
todavia, perfeitíssimo como era, o Cristo Eterno transparecia com assombrosa pureza. E todos os que
“tinham olhos de ver”, reconheceram essa manifestação cristônica.
Não viram Deus EM SI, ou seja, o ESPÍRITO ABSOLUTO. O próprio evangelista esclarece: “Nin-
guém jamais viu Deus”. Mas “o Filho Unigênito (o Cristo) , que está no seio do Pai” o revelou, mani-
festando-se em Jesus. E está conclamando todos os homens para que o revelem. Paulo o descreve com
palavras sentidas: “o Espirito vem em auxílio de nossa fraqueza... e intercede por nós com gemidos
indizíveis” (Rom. 8:26) .
João Batista reconhecia que Jesus era maior e anterior a ele, Mas assim como em Jesus .'habitava toda
a plenitude da Divindade”. assim também NÓS TODOS recebemos de sua plenitude. Deus não faz
acepção de pessoas. Dá tudo a todos igualmente. Mas cada um recebe de acordo com sua capacidade
receptiva, com sua evolução.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Isto também afirma o evangelista: “De sua plenitude TODOS NÓS recebemos, e GRAÇA POR GRA-
ÇA”. Sem dúvida, a cada passo que damos, aumentamos nossa capacidade evolutiva, ao que corres-
ponde um acréscimo da manifestação divina em nós: a cada aumento do recipiente corresponde um
pouco mais de conteúdo. Assim conosco: “todos nós recebemos DE SUA PLENITUDE, mas GRAÇA
POR GRAÇA”.
Chegando ao fim desse intróito sublime, o evangelista acrescenta mais uma pérola: “porque a Lei foi
dada por Moisés, mas a Graça e a Verdade vieram por Jesus, o Cristo”. Não percamos de mira que
Graça (em grego charis ... ) exprime o sentido de “benevolência, boa vontade”. Nem nos esqueçamos
de que a construção grega “graça e verdade” pode formar uma hendíades. Então, o sentido que, legiti-
mamente, pode deduzir-se daí é o seguinte: “A LEI foi revelada por Moisés” (a Lei de Causa e Efeito
= dente por dente), mas a VERDADEIRA BENEVOLÊNCIA veio com Jesus o Cristo”, que nos ensi-
nou a “misericórdia, isto é, o segredo para libertar-nos dessa Lei.
Realmente, Moisés foi o Legislador para a personalidade humana, estabelecendo numerosas restrições
e proibições. Jesus foi o Legislador divino para a individualidade eterna, estabelecendo as bases para o
contato do homem insignificante com o Cristo, da criatura com o Criador, na “gloriosa liberdade dos
Filhos de Deus” (Rom. 8: 21) , porque 'onde há o Espirito de Deus, aí há liberdade” (2 Cor. 3:17).
Em todos os capítulos, em todas as palavras dos Evangelhos, encontramos chamamentos angustiosos
do Cristo, para que o homem siga seu caminho infinito ao encontro do Pai.
E além das palavras, encontramos o magnífico exemplo de Jesus, nosso irmão primogênito, que segue
à nossa frente, indicando-nos o caminho com sua própria vida, com seus atos, com seu amor, ensinan-
do-nos que só no AMOR, semelhante ao dele, podemos encontrar a rota definitiva: “um novo manda-
mento vos dou, que vos ameis uns aos outros TANTO, QUANTO eu vos amei” (Jo. 34:13).
Como fecho sublime do intróito, a frase lapidar: “Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito, que
está no seio do Pai, esse o revelou.” Na realidade. Deus, o Pensamento ou Mente Universal, é invisí-
vel: é uma Força, é a Vida, é o Amor, é a Substância e a Essência de todas as coisas que existem. Nin-
guém pode vê-lo no sentido do verbo grego oráo (...), ou seja, “contemplar com os olhos”.
O “Filho Unigênito é o CRISTO, o terceiro aspecto da Divindade, o “produto do pensamento divino,
que se encontra em todas as coisas”. O evangelista esclarece: “que está no seio do Pai”, o que é lógico:
assim como o Pai (o Verbo) está com Deus, está em Deus e é Deus (vers, 1), assim também o Filho
(Cristo) está com o Pai, está no Pai, e é o Pai (cfr.: “eu e o Pai SOMOS UM”, Jo. 10:30; e “Eu estou
NO Pai e o Pai está EM mim”, Jo. 14:11). São apenas ASPECTOS (não “pessoas”) de UM SÓ DEUS,
de UMA SÓ FORÇA CÓSMICA.
Então, o FILHO ou CRISTO, que está em todos e em tudo, é que revela, “ensina, explica” (grego ex-
egésato, ...) o que seja DEUS. Sua Manifestação, por intermédio de Jesus, veio trazer-nos a verdadeira
benevolência “ de Deus em relação a nós, seus filhos, para convidar-nos a voltar a ser UM com Ele.

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O PRÓLOGO DE LUCAS
Luc. 1:1-4
1. Tendo muitos empreendido fazer uma narração coordenada dos fatos que el1tre nós
se realizaram,
2. como nô-las transmitiram os que foram dele! testemunhas oculares desde o princípio
e ministros da palavra,
3. também a mim - depois de haver investigado tudo cuidadosamente desde o começo -
pareceu-me bem, excelentíssimo Teófilo, dar-te por escrito uma narração em ordem,
4. para que conheças a verdade das coisas em que foste instruído.

Por este prólogo, ficamos sabendo que muitos haviam tentando escrever a história da vida de Jesus.
Mas as obras eram desorganizadas, já que os autores não possuíam cultura. Lucas, por ser médico,
estava acostumado ao estudo sistemático, tendo por isso competência para traçar um quadro numa or-
dem que era mais lógica que cronológica.
É o que ele tenta fazer. Habituado, porém, à pesquisa científica, antes de fazê-lo empreende a busca de
pessoas que haviam conhecido de perto o Mestre e acompanhado Sua vida, já que o médico grego não
chegara a encontrar-se pessoalmente com Jesus.
Pelo que narra, e por suas viagens ao lado de Paulo, passando por Éfeso, chegamos à conclusão de que
uma das pessoas ouvidas foi Maria, a mãe de Jesus, que passou os últimos anos de sua vida nessa ci-
dade, em companhia de João (o Evangelista).
Lucas deseja começar “desde o princípio” ( άνοθεν). Esse advérbio grego pode ter dois sentidos prin-
cipais: “do alto” (donde o sentido de “desde o começo”, isto é, “do ponto mais alto no tempo”), e tam-
bém o sentido de “de novo”. Ambos podem caber aqui: “depois de haver investigado tudo cuidado-
samente de novo”, ou seja, sem fiar-se ao que apenas lera nos muitos escritos anteriores.
A obra é dedicada a Teófilo, palavra grega θεόφιλος que significa “amigo de Deus”. De modo geral,
afirmam os comentadores tratar-se de uma personagem real e viva àquela época, por causa do título
“excelentíssimo” que lhe é anteposto. E deduzem ser o “Teófilo” convertido por Pedro em Antióquia,
e do qual fala a obra Recognitiones (Patrologia Grega, vol. 1, col. 1453) , dizendo-se “o mais elevado
entre todos os poderosos da cidade”.
Entretanto, parece-nos dirigir-se Lucas aos cristãos que realmente fossem “amigos de Deus no mais
sublime ou excelente sentido”. Não confundamos o sentido atual do título “excelentíssimo”, aplicado
habitualmente às pessoas de condição social elevada, com o sentido etimológico da palavra, ainda usa-
do por nós, quando dizemos: “esta pintura está excelente”. A época de Lucas, não nos consta ser cor-
rente o título honorífico; mas é indubitável que o sentido etimológico existia.
Compreendamos, então: “ó amigo excelente de Deus”.
O mesmo tipo de prólogo lemos no início dos “Atos dos Apóstolos”, obra também do mesmo autor
Lucas, e que serviria de continuação natural ao Evangelho que ele escrevera. Nos Atos lemos: “em
minha primeira narrativa, ó Teófilo, contei”...
Se pois, os cristãos, a quem se dirigia Lucas, eram “excelentes”, no mais elevado grau (excelentíssi-
mos), o evangelista tinha a intenção de dedicar-lhes uma obra com revelações profundas, alegóricas e

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simbólicas, que pudessem trazer algo mais didático quanto à espiritualização; e não apenas o relato
“histórico e cronológico”.
Queixam-se os comentadores profanos de que não há datas nos, Evangelhos, e que portanto os fatos
não podem ser situados “cronologicamente na História”. Mas eles não escreveram para a personalidade
transitória: trouxeram ensinos para a individualidade eterna, transitoriamente de passagem pela Terra
(“enquanto estou nesta TENDA DE VIAGEM”, 2 Pe. 1:13). E por isso, o essencial era o sentido pro-
fundo, que se escondia nas entrelinhas, e que hoje precisa ser lido mais com o coração do que com o
intelecto.

RESUMO DA TEORIA DA ORIGEM E DO DESTINO DO ESPÍRITO


Os cristãos, pelo menos os que eram, “excelentíssimos amigos de Deus”, deviam ter conhecimento do
sentido profundo (digamos “oculto”) que havia nos ensinos e nas palavras de Jesus, assim como nos de
toda a Antiga Escritura (da qual dizia Paulo que, àquela época, “ainda não fora levantado o véu”, 2
Cor. 3:14) com referência à origem e destino da criatura humana.
Cada ensinamento e cada fato constituem, por si mesmos, uma alusão, clara ou velada, à orientação
que Jesus deu à Humanidade, para que pudesse jornadear com segurança pela Terra.
Afastados de Deus, da Fonte de Luz (não por distância física, mas por freqüência vibratória muito mais
baixa) , o Espírito tinha a finalidade de tornar a elevar sua freqüência, para novamente aproximar-se do
Grande Foco de Luz Incriada.
Note-se bem que, estando Deus em toda parte e em tudo (Ef. 4:6} e em todos (1 Cor. 15:28), ninguém
e nada pode jamais “separar-se” de Deus, donde tudo provém e no Qual se encontram todas as coisas,
já que Deus é a substância última, a essência REAL de tudo e de todos. Tudo o que “existe”, EST EX,
ou seja, está de fora, exteriorizado, mas não “fora” de Deus, e sim DENTRO DELE.
Assim, a centelha divina, o “Raio de Luz”, afastando-se do Foco - não por distanciamento físico, mas -
por abaixamento de suas vibrações, chegou ao ponto ínfimo de vibrações por segundo, caindo no frio
da matéria (de 1 a 16 vibrações por segundo). Daí terá novamente que elevar sua freqüência vibratória
até o ponto de energia e, continuando sua elevação, até o espírito, e mais além ainda, onde nosso inte-
lecto não alcança.
A criatura humana, pois, no estágio atual - a quem Jesus trouxe Seus ensinamentos - é uma Centelha-
Divina, porque provém de Deus (At. 17:28, “Dele também somos geração”). Mas está lançada numa
peregrinação pela Terra, numa jornada árdua para o Infinito. Na criatura, então, a essência fundamental
é a Centelha-Divina, a Mônada: isso constitui nosso EU PROFUNDO ou EU SUPREMO, também
denominado CRISTO INTERNO, que é a manifestação da Divindade.
Entretanto, um raio-de-sol, por mais que se afaste de sua fonte, nunca pode ser dela separado, nunca
pode “destacar-se” dela (quem jamais conseguiu “isolar” um raio-de-sol de sua fonte? qualquer tenta-
tiva de interceptá-lo, fá-lo retirar-se para trás, e só permanecemos com a sombra e as trevas) . Assim o
ser humano, o EU profundo, jamais poderá ser “destacado” nem “separado” de sua Fonte, que é Deus;
poderá afastar-se aparentemente, por esfriamento, devido à baixa freqüência vibratória que assumiu.
Ora, acontece que esse Raio-de-Sol (a Centelha-Divina) se torna o que chamamos um “Espírito”, ao
assumir uma individualidade. Esse espírito apresenta tríplice manifestação (“à imagem e semelhança
dos elohim”, Gên. 1:26):
1 - a Centelha-Divina - o EU, o AMOR;
2 - a Mente Criadora - o Verbo, o AMANTE
3 - o Espírito Individualizado - o Filho, o AMADO, que é sua manifestação no
tempo e no espaço.

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Encontramos, pois, o ser humano constituído, fundamental e profundamente, pela Centelha-Divina,
que é o EU profundo (o “atma” dos hindus); a mente criadora e inspiradora, que reside no coração (há
86 passagens no Evangelho que o afirmam categoricamente), e a individualização, que constitui o Es-
pírito, iluminado pela Centelha (hindu: “búdico”) , com sua expressão “causal”, porque é a causa de
toda evolução.
Essa trípice manifestação da Mônada é chamada a INDIVIDUALIDADE ou o TRIÂNGULO SUPE-
RIOR do ser humano atual.
Entretanto, ao baixar mais suas vibrações, esse conjunto desce à matéria (“torna-se carne”, Jo. I: 14),
manifestando-se no tempo e no espaço, e constituindo a PERSONALIDADE ou o QUATERNARIO
INFERIOR, para onde passa sua consciência, enquanto se encontra “crucificada” no corpo físico.
É chamado “quaternário” porque se subdivide em quatro partes:
1 - o Intelecto (também denominado mente concreta, porque age no cérebro fí-
sico e através dele);
2 - o astral, plano em que vibram os sentimentos e emoções;
3 - o duplo etérico, em que vibram as sensações e instintos;
4 - o corpo físico ou denso, que é a materialização de nossos pensamentos, isto
é, dos pensamentos e desejos do Espírito, acumulando em si e exteriorizan-
do na Terra, todos os efeitos produzidos pelas ações passadas do próprio
Espirito.
Entre a Individualidade e a Personalidade, existe uma PONTE de ligação, através da qual a consciên-
cia “pequena” da Personalidade (única ativa e consciente no estágio atual das grandes massas huma-
nas), pode comunicar-se com a consciência “superior” da Individualidade (que os cientistas começam
a entrever e denominam, ora “superconsciente”, ora “inconsciente profundo”) . Essa ponte de ligação é
chamada INTUIÇÃO.
Temos, então, no processo mental, três aspectos:
1 - o Pensamento criador, produzido pela Mente Inspiradora;
2 - o Raciocínio, produzido pelo cérebro físico, e que é puramente discursivo;
3 - a ligação entre os dois, que se realiza pela Intuição.
Podemos portanto definir a INTUIÇÃO como “o contato que se estabelece entre a mente espiritual
(individualidade) e o intelecto (personalidade)”.
Em outras palavras: “é o afloramento do superconsciente no consciente atual”.

Todas essas explicações são indispensáveis para a compreensão dos símbolos e alegorias que se en-
contram nos fatos evangélicos, nos ensinamentos de Jesus, assim como no de todos os demais mestres
da Humanidade.
Como toda Escritura “divinamente revelada “, isto é, trazida à Humanidade para ajudá-la a encami-
nhar-se na senda evolutiva, o Evangelho .apresenta DOIS sentidos principais:
1 - um sentido para a personalidade (sentido literal, único que pode ser percebido por aqueles que só
trabalham com raciocínio, e não realizaram ainda, por meio da intuição, sua ligação com a consciência
profunda);
2 – um sentido para a individualidade (que é o alegórico, o simbólico, e o místico ou espiritual).
Ambos são REAIS e produzem seus efeitos, cada qual em sua escala própria na fase evolutiva em que
se encontra o leitor.

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Quando aprendemos a descobrir, num FATO, o sentido simbólico, ou quando vemos que uma PER-
SONAGEM representa um simbolismo, isto NÃO significa que o fato não se tenha realizado, nem que
a personagem não tenha tido existência REAL. Não. Há que atentar continuamente para isto: os FA-
TOS REALIZARAM-SE; as PERSONALIDADES EXISTIRAM.
Desses fatos, porém, e dessas personagens (que AMBOS tiveram existência REAL) , deduzimos e
compreendemos um sentido profundo alegórico, simbólico ou místico, um ensinamento oculto, que só
pode aparecer a quem tenha “olhos de ver, ouvidos de ouvir e coração de entender” (cfr. Mr. 8:17-18,
“não compreendes ainda nem entendeis ? tendes vosso coração endurecido? tendo olhos não vedes,
tendo ouvidos não ouvis?” e também Deut. 29:4, “Mas YHWH não vos deu até hoje coração para en-
tender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir”) .
Uma coisa, porém, é essencial: NÃO PERDE O EQUILÍBRIO. Nada de exageros, nem para um lado
(vendo só a parte e o sentido literal), nem para o outro (interpretando o Evangelho apenas como sim-
bolismo e negando o sentido literal) . Os dois TÊM que ser levados em conta. AMBOS são REAIS e
instrutivos.
Assim, verificamos que todas as personagens citadas são reais, físicas, existentes na matéria, mas
constituem, além disso, TAMBÉM, um símbolo para esclarecer a caminhada evolutiva do Espírito
através de suas numerosas vidas sucessivas, iniciadas no infinito da eternidade e que terminarão na
eternidade do infinito, embora, no momento presente, estejam jornadeando através do tempo finito e
do espaço limitado.
A fim de dar um pequeno e rápido exemplo, num relancear d'olhos, daremos em esquema os símbolos
mais acentuados das personagens evangélicas. A pouco e pouco chamaremos a atenção de nossos lei-
tores sobre outras personalidades e fatos que forem ocorrendo.

O que é O que faz


Centelha-Divina, Atma, Mônada, Envolve-se e desenvolve, sem já mais errar
na muitas vezes até total libertação
DUALIDADE eterna, que reencar-

através das experiências de prazer e


de todos os desejos, conquistada
TRÍADE SUPERIOR ou INDIVI-

EU profundo - CRISTO INTERNO. nem sofrer, porque é perfeita e onisciente,


como emanação da Divindade.
Mente-espiritual (Manas) Vibra no Criador de Idéias e inspirador, que trans-
plano mental, criando idéias e for- mite os impulsos e chamados do EU pro-
mas e individualizando o Espírito, fundo, forçando a evoluir. Mas, desligado
lançando-o à personalidade para da personalidade pela supremacia do inte-
fazê-lo evoluir . lecto, com ele só se comunica por lampe-
jos, pela intuição.
Espírito - Vibra no plano causal, Involui e evolui, errando e aprendendo,
registro das causas e experiências e através da dor e das experiências adquiri-
dor.

impulsionador dos efeitos. das em sua imensa jornada evolutiva.

INTUIÇÃO - ponte de ligação entre a mente e o intelecto, ou seja, entre a indivi-


dualidade e a personalidade.

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Intelecto ou mente concreta Manipula as idéias que se transformam em

nome e tendo consciência (menor) apenas desse nome da exis-


QUATERNÁRIO INFERIOR ou PERSONALIDADE transitó-

homem foi ordenado que morra uma só vez”, Heb. 9:27). A


ria que se renova a cada nova encarnação, assumindo novo

continua após desencarnação, até o renascimento seguinte,


tência “em ato”, que permanece durante sua vida na Terra e

quando outra personalidade e outro nome são adquiridos (“ao


pensamentos e raciocínios discursivos;
necessita desenvolver-se a cada novo nas-
cimento, porque O cérebro físico é novo;
filtra as idéias da mente de acordo com a
capacidade do cérebro. Se nem isso conse-
gue, limita-se a receber idéias alheias atra-
vés de livros e mestres, até aprender a li-
gar-se à mente pela intuição.
Corpo astral. Sede dos sentimentos e emoções, desejos e
personalidade, pois, é “O HOMEM”.

ambições, prazeres e dores morais.


Duplo etérico Sede das sensações chamadas “físicas”
(dor, calor, prazer etc.), que criam os im-
sempre ligado ao
pulsos, os quais, tornando-se habituais,
formam os instintos.
Corpo físico ou denso. Condensação do corpo astral na matéria
densa, onde repercutem todos os pensa-
mentos, pois o corpo físico é apenas a ma-
terialização do pensamento do Espírito que
ainda busca sensações e alimenta desejos
(de qualquer espécie).

Figuras que são ou simbolizam as diversas escalas evolu- PAI NOSSO que estás nos céus (na individualidade).
tivas.
Santificado seja Teu Nome (Tua essência, existente em
todas as coisas criadas) .
CRISTO, o Filho Unigênito de Deus, manifestado em toda a
Criação (veja explicação abaixo). Venha a nós o Teu reino (é o que pede a Mente, que se
afastou da Fonte, e que está ansiosa a voltar a ela a reunifi-
car-se).
JESUS, o Espírito humano em seu estágio de maior evolu- Seja feita a Tua vontade {do Pai através do Cristo), na Terra
ção (pelo menos relativamente à Terra). (na personalidade) assim como no céu (na Individualidade) .

MARIA DE NAZARÉ.
ISABEL, mãe de João Batista.

JOSÉ DE NAZARÉ. O pão nosso sobressubstancial (não apenas o do corpo, nem


só o do conhecimento intelectual livresco e externo. mas o
ZACAIUAS, pai de João Batista.
que provém do Cristo interno) dá-nos hoje (agora, não no
futuro remoto).
MARIA MADALENA. Perdoa nossas dívidas (cármicas) como perdoamos aos nos-
sos devedores.
PEDRO O APÓSTOLO.
Não nos induzas em tentação (ou seja, não nos submetas a
provações e experiências fortes demais).
HERODES.
JUDAS ISCARIOTES. Mas liberta-nos do Mal (isto é, liberta-nos da ma-
téria que nos prende e asfixia).

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SABEDORIA DO EVANGELHO
O CRISTO
CRISTO, a terceira manifestação de Deus, o Filho Unigênito do Pai (ou Verbo), está integralmente
em todas as coisas criadas, embora nenhuma coisa criada seja O CRISTO senão quando souber anular-
se totalmente, para deixar que o Cristo se manifeste nela.
Há exemplos que poderão esclarecer esta verdade.
Apanhe um espelho grande: ele refletirá o sol. Quebre esse espelho num milhão de pedacinhos: cada
pedacinho de per si refletirá o sol. Já reparou nisso? Se o desenho estivesse NO espelho, e ele se par-
tisse, cada pedacinho ficaria com uma parte minúscula de um só desenho grande. Mas com o sol não é
isso que se dá: cada pedacinho do espelho refletirá o sol todinho.
Ora. embora não possamos dizer que o pedaço de espelho SEJA o sol, teremos que confessar que ali
ESTÁ o sol, todo inteiro, com seu calor e sua luz. E quanto mais puro, perfeito e sem jaça for o espe-
lho, melhor refletirá o sol. E as manchas que o espelho tiver, tornando defeituosa e manchada a ima-
gem do sol, deverão ser imputadas ao espelho, e não ao sol que continua perfeito. O reflexo dependerá
da qualidade do espelho; assim a manifestação Crística nas criaturas dependerá de sua evolução e pu-
reza, e em nada diminuirão a perfeição do Cristo.
Outra comparação pode ser feita: um aparelho de televisão. A cena representada no estúdio é uma só,
mas as imagens e o som poderão multiplicar-se aos milhares, sem que nada perca de si mesma a cena
do estúdio. E no entanto, em cada aparelho receptor entrará a imagem TOTAL e INTEGRAL. Se al-
gum defeito houver no aparelho receptor, a culpa será da deficiência do aparelho, e não da imagem
projetada. E podemos dizer que a cena ESTÁ toda no aparelho receptor, embora esse aparelho NÃO
SEJA a cena. Assim o Cristo ESTÁ em todas as criaturas, INTEGRALMENTE, não obstante cada
criatura só manifestá-lo conforme seu estágio evolutivo, isto é, com a imagem distorcida pelas defici-
ências DA CRIATURA que o manifesta, e NÃO do Cristo, cuja projeção é perfeita.
O rádio é outro exemplo, e muito outros poderiam ser trazidos.
Da mesma forma que, quanto melhor o espelho, a televisão ou o aparelho de rádio, tanto melhor pode-
rão manifestar o sol, a imagem e o som, assim ocorre com a manifestação da força cristônica em cada
criatura.
Por isso é que JESUS, a criatura mais perfeita e pura (pelo menos em relação à Terra), pode integral-
mente e sem Jaça. E por faze-lo. justamente, é que foi denominado Jesus, o CRISTO.
E porque o Cristo é a manifestação integral de DEUS, foi com razão que a Humanidade o confundiu
com o próprio Deus. Tanto mais que, em se tratando da encarnação de Jeová (YHWH), conforme pre-
dissera Isaías (60:2), e sendo Jeová considerado como Deus, mais do que justo era que Jesus fosse
considerado Deus; não Deus O ABSOLUTO, o Pai, mas o FILHO DE DEUS, Sua manifestação entre
os homens, “aquele que é” (YHWH = Jeová) , como Jesus mesmo se definiu: “antes que Abraão fosse
feito, EU SOU” (Jo. 8:58). Ora, “EU SOU” é exatamente o sentido de YHWH (YAHWEH ou Jeová).
Então o próprio Jesus confirmou que Ele era Jeová, a encarnação de Jeová.
Na realidade, em relação a nós tão pequenos e imperfeitos, a manifestação divina em Jesus foi total, e
bem pode Ele ser dito Deus (embora não em sentido absoluto); da mesma forma que podemos dizer
que o reflexo do sol num espelho de cristal puríssimo seja O SOL; ou que a música reproduzida por
ótimo aparelho de rádio ou de vitrola, seja A ORQUESTRA. Nesse sentido, Jesus é indubitavelmente
Deus, porque “Nele reside a PLENITUDE DA DIVINDADE” (Col. 2:9). Entretanto, TODAS AS
CRIATURAS também têm em si essa mesma plenitude (“da PLENITUDE DELE TODOS NÓS RE-
CEBEMOS”, Jo. 1:16), apesar de não na manifestarem por causa das próprias deficiências e defeitos.
Foi nesse sentido que Jesus pode confirmar o Salmista (Ps. 81:6) e dizer: “vós SOIS deuses” (Jo.
10:35), da mesma forma que podemos afirmar que cada pequenino reflexo do sol num espelho é o sol;
embora em sentido relativo, já que o sol, em sentido absoluto, é UM só; e também DEUS, em sentido
absoluto, é UM só, se bem que esteja manifestado integral e plenamente em TODOS (1 Cor. 15:28) e
em TUDO (Ef. 4:6).

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C. TORRES PASTORINO
MANIFESTAÇÃO CRÍSTICA
Aproveitando o assunto que ventilamos, procuremos dizer de modo sumário e sucinto, simplificando
ao máximo (para poder ser compreendidos por todos), COMO essa Manifestação Divina ESTA em
todas as coisas e COMO, através da evolução, as criaturas irão manifestando cada vez mais e melhor o
CRISTO INTERNO.
Comparemos o fato ainda ao sol (O ser que melhor representa, para nós da Terra, a Divindade - e que
por isso foi apresentado antigamente como a maior manifestação divina). Um raio-de-sol, sempre liga-
do à sua fonte, afasta-se, no espaço e no tempo, de seu foco. Após caminhar durante oito minutos,
atravessando 150 milhões de quilômetros, chega a nós, sofrendo várias refrações ao entrar na atmosfe-
ra terrestre. Sua luminosidade é diminuída e seu calor abrandado, por causa desse afastamento. No
entanto o raio-de-sol, que perdeu luz e calor, não perdeu sua essência íntima.
Da mesma forma, a Centelha-Divina, sem jamais separar-se nem destacar-se de seu Foco, afasta-se
dele, não espacial nem temporalmente, mas VIBRACIONALMENTE, isto é, baixando suas vibra-
ções, envolvendo-se em si mesma, concentrando-se, contraindo-se, e chega ao ponto mais baixo que
conhecemos, solidificando-se na matéria. Proveniente da vibração mais alta que possamos imaginar, o
raio luminoso que partiu da Fonte de Luz Incriada vai gradativamente baixando o número de suas vi-
brações e diminuindo a freqüência por segundo, de acordo com o princípio já comprovado pela ciência
da física. No entanto, jamais chega a zero (ao nada) , porque a energia jamais se destrói.
Esse fato científico de que a energia não pode ser criada nem destruída, mas apenas “transformada”, é
perfeitamente certo. A mesma quantidade de energia que existia, neste globo, há milhões ou bilhões de
anos, continua a mesma, sem crescer nem diminuir. Perfeito: porque essa energia é exatamente a mani-
festação divina; e sendo infinito Deus, nada pode ser-lhe acrescentado nem tirado: o infinito não pode
sofrer aumento nem diminuição de qualquer espécie.
Então, o FOCO-DE-LUZ-INCRIADA é Deus, que irradia por Sua própria natureza, assim como o sol.
Sendo luz, TEM que iluminar; sendo calor, TEM que aquecer; sendo energia, TEM que irradiá-la, e
tudo por NECESSIDADE INTRÍNSECA E INEVITAVEL.
Mas à medida que sua irradiação se afasta, vai baixando sua frequência vibratória, segundo o “efeito
de Compton” que diz: “quando uma radiação de frequência elevada encontra um elétron livre, sua fre-
quência diminui” (além de outras consequências, que não vêm ao caso no momento).
Portanto, à proporção que se afasta do Foco (sem dele destacar-se jamais), sua frequência espiritual
baixa para ENERGIA, e daí desce mais para a MATÉRIA. (Consulte-se, a propósito, a “Grande Sínte-
se” de Pietro Ubaldi). Entretanto, permanecera sempre a vibrar, porque, no Universo, tudo o que existe
é vibração e tem movimento. A frequência vibratória pode chegar ao mínimo, mas nunca atingirá o
zero (o nada) , segundo a “teoria dos limites”: por mais que aumente o divisor ou denominador
(1/10n+1), mesmo aproximando-se do infinitamente pequeno, jamais chegará a zero.
Ora, quando o Raio Espiritual, dotado de Mente Inteligente - o que é natural, por causa da Fonte de
onde proveio que é a Inteligência Universal - parte de seu Foco, automaticamente esse Raio baixa suas
vibrações e se torna INDIVIDUAL (ESPÍRITO) .
Esse Espírito, pelo movimento inicial da partida (Lei de Inércia) vai descendo suas vibrações até o
ponto máximo, sendo então a Centelha-Divina envolvida pela matéria, na qual o Espírito se transfor-
ma, ou melhor, da qual o Espírito se reveste. O Raio-de-Luz se concentra, contrai, condensa e cristali-
za, solidificando-se.
O processo é claro: o Raio-Divino tem EM SI, potencialmente, a matéria (já que o MAIS contém o
MENOS) e a vibração mais elevada contém em si, potencialmente, a vibração mais baixa. Não haven-
do diferença outra, entre espírito e matéria, senão a da escala vibratória, se o espírito baixa demais suas
vibrações, ele chega à materialização, ou seja, congela-se, na expressão de Albert Einstein. Mas o
oposto é também verdadeiro: a matéria contém EM SI, potencialmente, o espírito: bastar-lhe-á fazer
elevar-se sua frequência vibratória, para retornar a ser espírito puro.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
A essa descida vibratória do raio-de-luz, chamaram outrora os teólogos, por falta de melhor expressão,
de QUEDA DOS ANJOS. E a prova de que tinham noção do que estavam dizendo, é que chamaram ao
pólo oposto do espírito (a matéria) de “adversário” do espírito (ou seja, DIABO, que em grego signifi-
ca “opositor” ou “adversário”); e mais ainda: o “guia e chefe” do adversário era chamado LUCIFER,
palavra latina que significa “portador da luz”. Observe-se bem: se a matéria era o opositor do espírito
(porque em pólos opostos), e se o “chefe” personificado era “Lúcifer” (portador da luz) , isto demons-
tra que, pelo menos inconscientemente, se sabia que a MATÉRIA TINHA A LUZ EM SI, era “porta-
dora da luz”, isto é, do espírito-divino.

OBJEÇÕES
Antes de prosseguir, vamos responder a algumas objeções:
1.ª - Se O Raio-de-Luz possui MENTE DIVINA (portanto consciente e onisciente e perfeita), como se
torna capaz de erros?
R. - O Raio-de-Luz, a Centelha-Divina, jamais erra, nem sofre, nem involui: sua tarefa é envolver-se,
concentrar-se, contrair-se, para impulsionar à evolução a individualização que dele mesmo surgiu.
Essa individualização, ou Espírito, é um NOVO SER, que surge “simples e ignorante” (resposta n.º
115 de “O Livro dos Espírito” de Allan Kardec). E o próprio espírito que responde, esclarece: “igno-
rante no sentido de não saber”, de não ter colhido ainda experiências.
Há, pois, uma diferença fundamental entre a Centelha-Divina e o Espírito.
O Espírito é criado pela (por ocasião da) individualização da Centelha. Como se dá isso?
A Centelha é a irradiação da Divindade, do Princípio Inteligente Universal e Incriado; é Sua manifes-
tação, com a Mente própria de origem divina. Mas o Espírito é a individualização que nasce dessa
Centelha, e por isso é “obra de Deus, filho de Deus”. (resposta n...º 77, idem ibidem) .
O Espírito, portanto, pelo menos logicamente tem um princípio, embora a Centelha, por ser emanação
direta de Deus, seja ETERNA quanto o próprio Deus.
Mas, como a irradiação é uma NECESSIDADE INTRÍNSECA da Divindade, assim também a indivi-
dualização da Centelha é uma NECESSIDADE INTRÍNSECA dessa mesma Centelha. Toda Centelha
que parte do Foco Divino inexoravelmente se individualiza. Donde pode afirmar-se que o Espírito
não tem princípio, porque é o resultado necessário e inevitável da própria essência da Divindade. Allan
Kardec recebeu na resposta 78 quase que essas mesmas palavras: “podemos dizer que não temos prin-
cipio, significando que, sendo eterno, Deus há de ter criado sempre, ininterruptamente”. E na resposta
79, vem a definição clara e insofismável de tudo o que asseveramos acima, confirmando a nossa tese:
“os Espíritos são a individualização do Princípio Inteligente”; é esse “Princípio Inteligente” que
chamamos DEUS, que se manifesta necessária e inevitavelmente pelas Centelhas-Divinas que Dele se
irradiam, pelos Raios-de-Luz que Dele partem.
Então a Centelha-Divina (que tem a mesma essência do Princípio Inteligente) jamais erra nem sofre
nem involui, porque, tal como sua Fonte-Incriada (DEUS) é inatingível a qualquer força finita, tempo-
ral ou espacial, e isto por sua própria natureza, que é divina. E como tudo o Que é de essência divina é
REAL, sua individualização é REAL e constitui UM ESPÍRITO REAL. Mas esse Espírito, como indi-
vidualidade, ainda é “simples e ignorante”. Então a Centelha-Divina, que o anima, impulsiona-o a des-
cer até a matéria, e permanece dentro dele através de todos os passos de seu aprendizado experimental,
ou seja, de sua evolução, a fim de que, individualizado como está, conquiste conhecimento e sabedo-
ria, através das experiências por ele mesmo vividas, e finalmente atinja POR SI, o estado de perfeição
em que foi criado, mas já então PERFEITO E SÁBIO. A Centelha-Divina jamais o abandona. DE
DENTRO DELE impulsiona-o evoluir, dirigindo-lhe, todos os movimentos e aspirações, mas sem for-
çá-lo nem coagi-lo: é uma força natural e constante que o atrai a si, à sua própria perfeição intrínseca e
divina.

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Resumindo: por que é da natureza da Centelha a individualização de um Espírito? Porque NÃO PODE
DEIXAIR DE FAZÊ-LO. Sendo a Centelha um Raio-de-Luz que parte do Foco-Incriado, que é Deus,
o Princípio Inteligente, e portanto, possuindo ela também a ESSÊNCIA DIVINA, ela tem, EM SI
MESMA, como NECESSIDADE INTRÍNSECA E INEXORÁVEL, a objetividade concreta, a reali-
dade objetiva. Em consequência, essa Centelha é UM EU, um ser objetivo e real, e NÃO PODE deixar
de produzir um SER OBJETIVO. E como o Princípio Inteligente ou Foco-de-Luz-Incriado irradia
“sempre e ininterruptamente”, assim “Deus há de ter criado sempre e ininterruptamente” e continua
criando até hoje: “meu Pai até agora trabalha (produz com seu trabalho = έργαςεгαι) como ensinou
Jesus em Jo. 5:17) .
A Centelha, então, É NOSSO VERDADEIRO “EU”, que apenas se envolve e desenvolve, se contrai e
descontrai, impelindo nosso Espírito à evolução. O Espírito, aprisionado na matéria (involuído) é que
terá que evoluir, pelo impulso da Centelha (nosso EU) que está INCLUÍDO e em nosso Espírito.
Firmemos ainda o fato de que a Centelha possui MENTE SÁBIA E PERFEITA, mas o Espírito recebe
o influxo desse atributo como uma potencialidade, e ele deverá desenvolver-se (evoluir) aprendendo
a custa própria, até chegar a sintonia total, à união absoluta com o CRISTO INTERNO (que é a Cen-
telha-Divina, nosso verdadeiro EU). Só nesse ponto pode a MENTE de nosso EU agir livremente atra-
vés do nosso Espírito. Recordemos as palavras do CRISTO (o EU profundo) de Jesus: “Eu e o PAI
somos UM” (Jo. 10:30); e referindo-se a seus discípulos, acrescenta: “para que como Tu, Pai, és em
mim (Cristo), e eu em TI, também sejam eles em nós” (Jo. 17:21); e ainda: “para que sejam UM, assim
como nós SOMOS UM, eu (Cristo) neles (Espíritos) e Tu (Pai) em mim (Cristo)” (Jo. 17:22-23).
A sabedoria da Centelha, do Cristo-Interno, ou seja, de nosso EU, é total e plena, mas só pode ser re-
cebida por nosso Espírito gradativamente, aos poucos, de acordo com a capacidade que nosso espírito
for conquistando através de seu esforço próprio. Assim, à proporção que o Espírito evolui, a Mente de
nosso EU poderá expressar-se com maior amplitude.
Recordemos, ainda, que o Espírito, à medida que se vai aperfeiçoando, vai “construindo para si” veí-
culos materiais cada vez mais aperfeiçoados. Começou na escala mais baixa da matéria - o MINERAL
- e Jesus ensinou: “meu Pai pode suscitar destas pedras filhos de Abraão” (Mat. 3:9 e Luc. 3:8), coisa
que já fora explicada no Gênesis (2:7) quando está dito que a origem do homem é o pó da terra, isto é,
o MINERAL. Mas o EU irá forçando o aperfeiçoamento dos veículos, fazendo aparecerem qualidades
maiores, com o desenvolvimento do DUPLO ETÉRICO, passando a manifestar-se no reino-vegetal;
depois desenvolverá o CORPO ASTRAL, e penetrará o reino-animal. Em outras palavras poderíamos
dizer: o mineral desenvolve a sensação física, quando então atinge o reino-vegetal (e hoje está cientifi-
camente comprovado que os vegetais “sentem”); e o faz enviando seus átomos, em serviço, para ajudar
a formar o corpo dos vegetais, animais e homens, em conta to com os quais os átomos minerais adqui-
rem experiência. Continuando a evolução, desenvolver-se-á a sensibilidade, como a têm os animais.
Até aí, a Mente da Centelha (do EU profundo) age sem embaraços, e por isso vemos que a LEI funcio-
na sem distorções nesses reinos, e o vegetal e o animal não “erram” nem são responsabilizados.
Quando entretanto surge a racionalização do intelecto, que começou a desenvolver-se no reino-
animal, o Espírito passa a servir-se dos veículos do reino-hominal, com cérebro muito mais evoluído.
Começa a verificar-se a “independização” do Espírito, que se desliga do Mental (do EU profundo) para
poder aprender a discernir, a decidir-se e a escolher POR SI a estrada que deverá percorrer em seu
progresso lento mas infalível. A Mente (o EU profundo) limita-se a dirigir os veículos inferiores (as
células, os órgãos, o metabolismo etc.) e deixa ao Espírito a tarefa de dirigir-se externamente, por meio
do raciocínio, a fim de adquirir experiência própria, com sua responsabilidade pessoal. Aí sentem-se
melhor as dualidades da Individualidade e da Personalidade.
O Espírito, nesse ponto, julga que é o verdadeiro eu, e CRESCE, abafando a voz do EU REAL, que só
quer agir por lampejos, através da voz silenciosa das intuições, para deixar ao Espírito inteira liberdade
e total responsabilidade.

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Nesse ponto é que o Espírito “expulso do paraíso” (Gên. 3:24), penetra o mundo da responsabilidade,
“comendo com o suor de seu rosto” (Gên. 3:19) e “conhecendo o bem e o mal” (Gên. 13:22). O inte-
lecto, “mente concreta” da personalidade, e que já evoluiu após tantos milênios de milênios de jorna-
das pela Terra nos planos inferiores, assume a liderança, para DECIDIR POR SI, tendo pois a respon-
sabilidade total de todos os seus atos, suas palavras e seus pensamentos.

2.ª - Sendo onisciente a Força Cósmica ou Princípio Inteligente, por que lança seus raios divinos
para que atravessem, com o Espirito, uma evolução longa e trabalhosa, de afastamento e re-
aproximação? Não lhe seria mais fácil dar, de imediato, o conhecimento e a sabedoria a to-
dos os Espíritos que surgem de seus Raios divinos, sem fazê-los percorrer tão árdua jornada?
R - A radiação da Luz é LEI. Ninguém poderá conceber um Foco de Luz que não irradie luz. A
individualização desse raio num Espírito é NECESSIDADE inexorável. A realidade objetiva
é inevitável, por ser divina a essência.
Comecemos, então, por não imaginar Deus como UMA PESSOA semelhante a um homem (embora
em proporções infinitas), que faça caprichosamente isto ou aquilo e que tenha preferências e predile-
ções pessoais. NÃO! Deus é A FÔRÇA CÓSMICA, é a INTELIGÊNCIA (ou o Princípio Inteligente)
UNIVERSAL, é a MENTE RACIONAL INFINITA E INCRIADA. Mas também é tão NATURAL
quanto a Natureza toda, que é a manifestação Dele. Deus é A LEI, igual em todos os tempos e lugares,
e igual mesmo fora do tempo e do espaço, e vibra em todos os planos: espiritual, moral, mental e físi-
co.
Consideremos ainda que Deus é A LIBERDADE, embora Deus NÃO SEJA LIVRE. Um homem pode
escolher entre O bem e o mal. Deus não pode fazê-lo: por sua própria natureza essencial, SÓ PODE
FAZER O BEM E O CERTO. A Onipotência divina só existe na direção do BEM e do AMOR, porque
a Força Cósmica é IMPLACAVELMENTE BOA E AMOROSA.
Ora, a LEI estabeleceu que tudo o que surgisse de si passasse pelos mesmos passos de aprendizado,
SEM PRIVILÉGIOS. E é isso O que ocorre.
Ninguém pode saciar sua fome se outra pessoa comer por ele. Ninguém aprenderá uma língua, se outra
pessoa estudar por ele. Donde deduzimos que todo aprendizado tem que ser PESSOAL. Qualquer ex-
periência é, pois, um aprendizado INTRANSFERÍVEL.
Desta maneira, o Espírito que se individualiza é “simples e ignorante”, isto é, AINDA nada sabe. E
terá que aprender. Como o fará? Através das experiências vividas por ele mesmo. Eis a razão da neces-
sidade dessa evolução árdua, trabalhosa e de duração infinita.
Mas então, argumenta-se, POR QUE esse Espírito, que NASCE DA Centelha-Divina perfeita e onisci-
ente, não é desde logo perfeito e onisciente? Um filho é sempre da mesma natureza, família, gênero e
espécie que seu pai e sua mãe...
Não há dúvida que sim. Como não há dúvida de que o Espírito é da MESMA NATUREZA E ES-
SÊNCIA do Raio-de-Luz. No entanto, pela lei que vige nos planos que conhecemos, nós deduzimos as
Leis dos Planos desconhecidos. Assim como o que nasce da planta é uma SEMENTE que terá que
desenvolver-se e não uma árvore já grande; assim como de um animal adulto nasce um filhote minús-
culo, que terá que crescer; assim como do homem nasce uma criancinha pequenina, que terá que des-
envolver-se e aprender (e não outra criatura adulta), assim também (a LEI é a mesma em todos os pla-
nos), compreende-se que foi estabelecido que o Espírito fosse criado “simples e ignorante” para então,
por si mesmo, desenvolver-se.
Agora se nos perguntarem “POR QUE Deus fez assim e não diferente”? - responderemos: NAO SA-
BEMOS. Mas quem somos nós para tomar satisfações de Deus (Rom. 9:21) ? Se assim é, é porque
assim é o MELHOR. Quando evoluirmos mais, compreenderemos. Tenhamos paciência. No curso
primário, não podemos pretender o conhecimento de demonstrações abstrusas próprias do curso uni-
versitário. Aceitemos o que a professora nos diz: tensão se escreve com S, e atenção com ç. O aluno
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pode perguntar: “por quê?” Ela responderá: “porque vem do latim”, e nada mais. No ginásio, o aluno
aprenderá que a primeira palavra provém de tenSionem, com S, e a segunda de attenTionem, com T,
que passa ao português para C ou ç. Mas só quando o aluno chegar à Faculdade, é que poderá desco-
brir O PORQUÊ de uma ser assim e outra diferente no próprio latim, quando estudar a etimologia da
língua latina e penetrar os segredos do etrusco e do sânscrito. Até lá, terá que contentar-se com ACEI-
TAR sem discutir, sabendo que deve haver para isso razões que ele desconhece AINDA, mas que um
dia conhecerá. Assim nós. Se não podemos penetrar todos os SEGREDOS, aceitemos, por enquanto.
Mais tarde, se evoluirmos bastante, nós o compreenderemos.

A CURVA INVOLUÇÃO-EVOLUÇÃO
Podemos tentar apresentar graficamente esse imenso ciclo de involução-evolução. Representaremos
aparte espiritual (tríade superior), ou seja, a Centelha-Divina, a Mente e o Espírito, por um triângulo.
Representaremos o quaternário inferior por um quadrado, sendo: o traço horizontal inferior, a matéria
densa; o traço vertical à esquerda de quem olha, o duplo etérico; o traço vertical à direita de quem
olha, o corpo astral. E o traço horizontal por cima dessas linhas verticais, o intelecto. Temos aí a per-
sonalidade completa.
Vejamos, então, o triângulo, que tem, incluso em si, potencialmente, o quadrado, isto é, uma futura
personalidade. O quadrado está representado em preto, porque o espírito ainda se encontra nas “trevas”
da Ignorância (do não-saber) :

Numa projeção linear, esse triângulo torna-se achatado, formando uma linha horizontal: dentro dela,
porém, está contida, “incluída” ou “envolvida”, a Centelha-Divina, o EU profundo, acompanhado de
Sua mente e do Espírito recém-individualizado. Essa linha, portanto, que contém a Centelha-Divina, é
Lúcifer, é “portadora da Luz”; é o pólo oposto do Espírito, é o adversário (ou diabo) que teremos que
vencer pela evolução, e que tantas vezes foi “personificado” nos Evangelhos. A Centelha-Divina, o EU
profundo, comandará toda a evolução do Espírito, através desse e de todos os demais veículos materi-
ais que forem sendo paulatinamente formados por ele, para poder expressar-se cada vez melhor.
Representemos assim essa projeção:

Por aí compreendemos que, tendo baixado suas vibrações até o átomo material, daí se iniciará a subi-
da, através do reino-mineral, do reino-vegetal, do reino-animal, do reino-hominal, até voltar ao reino-
divino ou, como dizia Jesus, ao “Reino-de-Deus”, embora passando, acima do homem, por outros rei-
nos, que desconhecemos em virtude de nossa pequenez e atraso (como reino-angélico, reino-
arcangélico, reino-seráfico etc.) .
Verifica-se, assim, a realidade palpável do ensino de Jesus, quando dizia: “O REINO DE DEUS ESTÁ
DENTRO DE VÓS” (ίϊ βαοιλει α τοϋ θεού έуτός ΰµώυ έστιυ, Luc. 17:21).
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Essa Verdade pode ser dita a qualquer das fases evolutivas, porque dentro de TODAS e de CADA
UMA DELAS, está, REAL e ESSENCIALMENTE, o Reino-de-Deus, potencialmente contido. Fir-
memos mais uma vez: Reino-de-Deus tem o mesmo sentido de nossas expressões: reino-vegetal ou
reino-animal. E por isso pôde Jesus afirmar (Jo.10:34) , sublinhando o Salmista (Ps. 81:6) : “Vós SOIS
deuses”.
Da mesma maneira, dirigindo-nos a uma semente, poderíamos dizer: “a árvore ESTA dentro de ti”. E
falando a um vegetal, poderíamos repetir: “o REINO-ANIMAL ESTA dentro de ti”.
Comprovamos, assim, que Reino-de-Deus (ou reino-dos-céus, isto é, reino-da-individualidade), não é
um paraíso EXTERNO, onde ficaríamos a gozar de algo EXTERIOR a nós; mas, ao contrário, reino-
de-Deus é UMA EVOLUÇAO NOSSA, à qual DEVEMOS CHEGAR, por força natural de nosso pro-
gresso interno.
E quando para lá não formos espontaneamente, iremos obrigados pela dor e pelo sofrimento, que nos
impelem para a frente e para o alto, qual aguilhão que açoda bois vagarosos. Todavia, a dor não é in-
dispensável: dentro de cada ser está o impulso para a evolução, dado pela Centelha-Divina ou EU pro-
fundo, e o Espírito poderá escolher caminhos de perfeição espontaneamente, sem precisar ser aguilho-
ado. Com efeito, todos os seres querem “progredir”. Mas enquanto não compreendem o verdadeiro
sentido da evolução CERTA, buscam o progresso em atalhos enganosos (riquezas, prazeres, poder,
gozos etc.) e por isso vem a dor para corrigir o Espírito, até que ele, mais amadurecido e experiente,
aprenda POR SI quão falsas são essas estradas largas, que só levam ao desgosto, ao tédio e à dor. Vol-
ta-se, então, de modo geral, para a busca ansiosa de outros progressos (nobreza, posição, cultura, inte-
lectualismo, religião), até descobrir que NÃO É nenhum desses caminhos externos, por mais nobre e
elevado que seja, que constitui o Reino-de-Deus: este só pode ser encontrado, como disse Jesus, DEN-
TRO DE SI MESMO (έυτός ύµωυ έστιυ).
No gráfico representativo desta teoria, procuraremos esclarecer o pensamento.
Partindo do ponto em que a Centelha-Divina, o Eu profundo, está no SEIO de Deus, apenas iniciado o
afastamento vibratório do FOCO INCRIADO, com a matéria potencialmente contida dentro de si, ve-
mos que dai a Centelha parte, natural e necessariamente (inexoravelmente), por efeito da irradiação
inevitável do Foco de Luz, e por força da Lei de Inércia, dirigindo-se ao pólo oposto, e congelando-se
na matéria.
Dai então, a Centelha ou EU profundo, faz que a matéria vá desenvolvendo através dos milênios, o
duplo-etérico, o corpo-astral, e o intelecto, até constituir a personalidade completa e desenvolvida. Já
pode, então, a Mente Divina do EU profundo, por meio da INTUIÇAO, agir sobre o intelecto, até que
obtenha o predomínio da MENTE DIVINA (isto é, da individualidade). Continua, então, a caminhada:
a individualidade ABSORVERÁ a PERSONALIDADE em si, e o Espírito voltará ao estado primitivo,
mas JÁ COM EXPERIÊNCIA E SABEDORIA, conquistadas por si mesmo através da longa linha
evolutiva. Por isso o quadrado interno (que representa a personalidade) já é apresentado, no fim do
ciclo, não mais em preto (“trevas” da ignorância), mas branco, exprimindo a Luz da Sabedoria.
Aí está a RAZÃO de toda nossa evolução, e o PORQUÊ, de nossa , existência.
Resumindo tudo: partindo a Centelha do Foco de Luz (por necessidade intrínseca), esta, também por
necessidade intrínseca (ou seja, porque é de essência divina, sua existência é uma essência real e obje-
tiva, um EU real), causa a individualização de um Espírito, de um SER com existência também real e
objetiva, e participante da Essência Divina.
Em outras palavras: ao afastar-se do Foco de Luz, que a irradia por necessidade intrínseca, a Centelha
Divina (EU profundo) causa a individualização de um Espírito. também por necessidade intrínseca.
Isto é, sendo de ESSÊNCIA DIVINA, a existência do EU é uma essência real e objetiva, que SE RE-
VESTE de um Espírito, individualizando-o e fazendo-o copartícipe de sua Mente. Mas, atuando por
meio de um Espírito ainda “simples e ignorante'. (não-sábio), o EU profundo PRECISA fazê-lo evolu-
ir, para poder expressar-se por seu intermédio. Começa então a evolução a partir do átomo, para fazê-
lo chegar ao ponto máximo, ao estado crístico (“até que TODOS cheguemos ... à medida da estatura da
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plenitude DE CRISTO”, Ef. 4: 13). E a confirmação: “tudo se encadeia em a natureza desde o átomo
primitivo até o arcanjo, que também começou por ser átomo” (resposta 540 de “O , Livro dos Espíri-
tos”, de Allan Kardec).
Ao chegar à “medida da estatura da plenitude de Cristo”, o Espírito já evoluiu o bastante, para permitir
ao EU profundo ou Cristo Interno, a manifestação plena da Divindade, tal como ocorreu a JESUS,
(“Nele habita TODA A PLENITUDE DA DIVINDADE”. Col. 2:9), embora “DA PLENITUDE
DELE TODOS NÓS recebamos (Jo. 1:16).
Entre o estado inicial (“simples e ignorante”) do Espírito e seu estado final (perfeito e sábio), a distân-
cia é inimaginável. No estágio último, o Espírito já conquistou SABEDORIA e AMOR. Então a Cen-
telha-Divina, o EU profundo, já POSSUI UM VEÍCULO pelo qual pode manifestar-se total e comple-
tamente: chegou ao fim de sua evolução (qual a podemos conceber em nossa pequenez e atraso), em-
bora esse final jamais atinja o fim, porque, por mais que evolua, JAMAIS ALCANÇARA O INFINI-
TO, que é sua meta. Quem conhece matemática, compare esta nossa afirmativa à assíntota da hipérbo-
le, e verá que estamos com a razão. (Por aí entrevemos que a Ciência - e a matemática, que é a ciência-
exata por excelência - é a PESQUISA DA DIVINDADE que está contida em todas as coisas. E por
isso, a Ciência constitui a verdadeira e única RELIGIÂO, para levar a criatura - dentro do limite dos
possíveis - ao conhecimento de Deus.) Paulo, o grande Apóstolo, ao comentar o versículo 18 do Salmo
68, “subindo às alturas, levou cativo o cativeiro”, escreve, resumindo todo esse processo: “que signifi-
ca subiu, senão que também desceu às regiões (vibrações) mais baixas da Terra? aquele que desceu é o
mesmo que subiu muito além de todos os céus, para encher todas as coisas” (E!. 4:9-10). O Salmista
revela-nos que o Espírito, ao subir, leva cativa a matéria, que fora o seu cativeiro, durante tantos milê-
nios. Para uma idéia muito pálida, observe-se o gráfico, na página seguinte.

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VEGETAL ANIMAL HOMINAL ACIMA...

MINERAL

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ZACARIAS E ISABEL
Luc. 1:5-7
5. Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote, chamado Zacarias, da turma
de Abia; sua mulher era descendente de Arão, e chamava-se Isabel;
6. Ambos eram justos perante Deus, andando irrepreensíveis em todos os mandamentos
e preceitos do Senhor.
7. E não tinham filhos, porquanto Isabel era estéril, e ambos (estavam) em idade avan-
çada.

Temos um fato REAL, que se passou logo antes da chegada de Jesus a este planeta: o nascimento do
precursor João, denominado “o Batista”, cuja ocorrência havia sido predita por vários médiuns (profe-
tas) , com muita antecedência.
Lucas situa o fato historicamente, apresentando ao leitor a época do acontecimento, o pai de João, seu
nome, idade e profissão, e a mãe, dando-lhes inclusive a filiação. Temos, pois, que Herodes era rei da
Judéia (nomeado pelo Senado em 40 AC, tomou Jerusalém em 37 AC e morreu no ano 4 antes da era
cristã), quando o sacerdote Zacarias teve a revelação do nascimento de um filho, embora já fora das
possibilidades humanas.
Os fatos são claros e não necessitam de explicação.
Muitos ensinamentos, todavia, transparecem dessa narrativa singela. Estudemo-los.
Herodes, o Grande (como toda sua linhagem), não era israelita de raça: era idumeu, convertido à
religião judaica. Não fazia parte, pelo sangue, do povo hebreu.
Herodes representa o homem ainda animalizado, a força material, despótica, que apenas busca con-
forto (reino mineral) , as sensações físicas (reino vegetal) e as emoções (reino animal), preocupando-
se somente com a matéria terrena transitória, para ele a única realidade, porque é palpável aos senti-
dos físicos.
Diz o evangelista que Herodes era “rei da Judéia”.
Observemos: Judéia significa “louvor a YHWH”, fase típica da personalidade, ainda sujeita a ritos e
liturgia exteriores da religião. Notemos ainda que em O Novo Testamento aparece com frequência a
oposição entre as duas localidades: Judéia e Galiléia. Galiléia significa “região cercada”; exprime,
pois, o ambiente da individualidade, o “horto florido”, ou seja, a região inacessível ao vulgo, “cerca-
da” para que os profanos nela não possam penetrar .
Logicamente, Herodes só podia ser rei (dominador, déspota) da Judéia, isto é, da personalidade infe-
rior, já que só as coisas terrenas e materiais constituíam seu domínio absoluto.
A expressão “nos dias de Herodes” demonstra-nos que o simbolismo que nos vai ser apresentado sob
a capa dos fatos (que se realizaram), deve ser procurado na época em que a humanidade era prepon-
derantemente materialista, cogitando tão só dos interesses dos carpos físico, sensitivo e emocional.
Nessa época e nesse ambiente, viveu na Terra. um sacerdote - por mais baixas que sejam as condições
ambientais, pode elevar-se o espírito, tal como o lírio que pode florescer, num pântano - A palavra
sacerdote, tradução latina do grego ίερέυς, exprime o homem que “se dedica.” (dos, dotis = dote, do-
ação) às coisas sagradas (sacer, sacra, sacrum). Sacerdote é, portanto, a criatura dedicada e devota-
da a Deus, a Ele consagrada.
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Zacarias (cujo nome significa “lembrança” ou “recordação” de YHWH) é o protótipo do INTELEC-
TO que, neste caso, já está voltado para as coisas espirituais e divinas, pois “se lembra de Deus”,
tanto que “se dedicou” às coisas sagradas.
E, uma das provas de que tinha Deus, conscientemente, como Pai, é a notícia que dele nos chegou:
segundo Lucas, ele era filho de Abia (Abijah, cfr. 2 Crôn., 24:10), que significa “Deus é meu Pai”.
Com essas características tinha, forçosamente, que procurar ouvir a INTUIÇÃO, representada por
Isabel. Em hebraico, o nome é Elisheba, isto é, “adoradora de Deus”, ou “obra de YHWH”. Com
efeito, a intuição está “ligada” ao EU Superior e Divino de cada criatura.
Escreveu o evangelista que Isabel “era descendente de Arão”. Ora, mesmo em nossos dias (com re-
gistros de nascimento) raramente conhecemos nossos ascendentes além da 3.ª geração (pais, avós,
bisavós). Só excepcionalmente chegamos à 6.ª ou 7.ª geração, ou seja, a. 200 ou 300 anos para trás.
No entanto, o tempo transcorrido entre Arão e Isabel era de 1.500 anos! Que diríamos, atualmente, de
um homem moderno, que afirmasse ser descendente de uma personagem do ano 500 depois de Cristo?
... Se isto hoje é impossível na prática, que não seria - dadas as proporções - naquela recuada época?
Como poderia ser feito o controle? Donde concluímos que, no caso, existe em tudo isso uma alegoria,
um símbolo. Arão significa “o iluminado”. Quer dizer que Isabel (a intuição) já se encontrava “ilu-
minada” pela luz do Eu Supremo, da Centelha Divina; mas não se havia ainda unido a ela. A tentati-
va, entretanto, estava sendo feita: Zacarias (o intelecto) já se unira em matrimônio a Isabel (a intui-
ção) na busca. intensa dessa união com o Eu Superior.
Prossegue o evangelista: “ambos eram justos perante Deus, andando irrepreensíveis em todos os
mandamentos e preceitos do Senhor” - excluindo, por omissão, os preceitos “dos homens”, exprimin-
do assim que viviam mais na individualidade do que na personalidade. E a “justiça” neles exaltada, é
aquela que vige perante Deus, não perante os homens.
Vem a seguir um versículo interessante: “e não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos (esta-
vam) em idade avançada”. Humanamente, um fato natural, embora tivesse que ser dividido em duas
partes:

a) a esterilidade feminina (porque “dela” e não dele? );


b) a idade avançada.

A primeira, compreendemos, justifica a falta de filhos nas idades juvenis e na madureza. A segunda
apenas comprova que, na idade já avançada, nada mais podia esperar-se.
Dai ser imprescindível, para o fato “material”, algo que fugisse ao normal. Para a personalidade
aparece a intervenção divina, e portando o “milagre”, e tudo pára aí.
Na interpretação mais profunda aparecem as razões claras.
Apesar de estar iluminada a intuição (Isabel descendente de Arão) e apesar de voltado para Deus o
intelecto (Zacarias sacerdote), e apesar de os dois se haverem unido para o encontro supremo, os dois
ainda não tinham conseguido essa união: “não tinham filhos”, ou seja, não haviam chegado a um
resultado. As razões procedem: a intuição era “estéril” porque ao intelecto faltava o elemento fecun-
dador, e isto não obstante estarem buscando há muito tempo - “ambos” estavam “em idade avança-
da”.
Nesse momento, entra em campo novo elemento de ação, ou seja, aparece um “guru”, um mestre
(porque o discípulo estava preparado), e dá-se o acontecimento tão desejado: nasce um filho, chega-
se à união total.
Ve-lo-emos no trecho seguinte.

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PREDIÇÃO DO NASCIMENTO DE JOÃO


Luc.1:8-25
8. Estando Zacarias a exercer diante de Deus as funções sacerdotais na ordem de sua
turma, coube-lhe por sorte,
9. segundo o costume, entrar no santuário do Senhor e queimar o incenso.

As turmas sacerdotais de serviço, cada semana - em número de 24 - eram sorteados segundo a Lei Mo-
saica. A de Zacarias era a oitava, de Abijah (cfr. 1 Crôn., 24:3-18). A cerimônia realizava-se pela ma-
nhã, antes do “sacrifício”, no santuário, ou seja, no “Santo” (sala que antecedia o “Santo dos Santos”,
onde só o Sumo Sacerdote penetrava uma vez por ano) . Consistia em renovar o braseiro, deitando-lhe
em seguida Incenso e óleos perfumados.
Observamos que Zacarias (o intelecto) ainda se encontrava agindo na personalidade, a praticar ritos
externas (queimar incenso, proferir orações verbais, observar liturgias, etc.), e isso no recinto anteri-
or ao Santo dos Santos (que é o santuário mais íntimo, o “coração”, ande só os “Sumos Sacerdotes”,
ou seres realizados, podem penetrar).

10. E toda a multidão estava orando da parte de fora, à hora do incenso.

Quando o sacerdote começava o rito, tocavam as trombetas do Templo, e o povo, que se achava espa-
lhado no ádrio dos homens e das mulheres, se recolhia em prece.
O evangelista alerta-nos para o fato de que a “massa popular” (a multidão do povo) ainda não atin-
giu nem sequer esse primeiro santuário: está “do lado de fora”, no momento da prece. É o que geral-
mente se denomina “reza” (derivado de “recitar”), ou seja, a prece recitada com os lábios, repetindo-
se 50 ou mais vezes as mesmas fórmulas decoradas. São os “profanos”.

11. E apareceu a Zararias um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do Incenso,


12. Zacarias, vendo-o, ficou perturbado e o temor o assaltou,
13. Mas o anjo disse-lhe: “Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida, e Isabel,
tua mulher te dará à luz um filho, a quem chamarás João,
14. e terás gozo e alegria, e muitos se regozijarão por causa do seu nascimento,
15. porque ele será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem bebida forte; já
desde o ventre de sua mãe será cheio de um espírito santo,
16. e convertera muitos dos filhos de Israel ao Senhor Deus deles.
17. Ele irá diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias, para converter os corações
dos pais aos filhos, e converter os desobedientes, de maneira que andem na prudência
dos justos, a fim de preparar para o Senhor um povo dedicado”.

Na interpretação literal, temos que chamar a atenção para diversos fatos.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
A Zacarias aparece um anjo. Que é “anjo”? A palavra grega άγγελος significa, simplesmente, “noticia-
dor, arauto, mensageiro, anunciador”. O termo era empregado para designar qualquer mensageiro, en-
carnado ou desencarnado, que transmitia um recado. Na Bíblia a palavra refere-se quase sempre a um
espírito desencarnado, quando traz alguma mensagem. Esse espírito é um ser humano, pois é sempre
descrito como um homem (sentado, de pé, vestido de branco, etc. etc.), o que também ocorre neste
caso. Não era um ser “etéreo”, mas tinha forma e volume, igual à de um homem, e falava.
Para que um espírito desencarnado se torne visível, uma de duas condições são indispensáveis: a pri-
meira depende da criatura encarnada: precisa ela ser “médium” vidente ou audiente (em hebraico
Ro'éh ou Hôzêh, tendo também o poder de “interpretar”, ou seja, Nâbi', que significa profeta ou mé-
dium; com efeito, profeta, do grego лροφητεύω “falar por meio de”, e médium palavra latina que si-
gnifica “intermediário” entre o desencarnado e o encarnado). A segunda condição depende do desen-
carnado, quando a criatura encarnada não é médium: precisa o espírito “materializar-se”, tomando
forma fluídica, para aparecer ao não-vidente. Uma das provas de que o anjo que apareceu a Zacarias
era um espírito desencarnado de homem, é o nome que ele tem: Gabriel, que significa “HOMEM DE
DEUS”.
Apareceu do lado mais nobre do altar, o direito, que ficava na direção sul, onde estava o candelabro de
sete velas, símbolo místico da luz.
Zacarias assusta-se ao vê-lo, e depois permanece temeroso diante do acontecimento. Mas o mensageiro
o tranqüiliza, dando o recado de que fora incumbido: “tua prece foi ouvida”, e Zacarias verá o nasci-
mento de um filho, ao qual imporá o nome de JOAO.
João, em hebraico YEHOHANAM, significa “Iahô foi favorável”.
A forma “Iahô”, abreviatura de YHWH (YHayWeH) é a mesma que deu origem ao vocábulo JÚPI-
TER (Iahô-pater) e a que entra na formação da palavra DEUS (D-YAO-S), com o sentido de LUZ,
cujo feminino formou a palavra DIA.
O nascimento de João trará alegria ao casal, pelo término da esterilidade (considerada “castigo” entre
os judeus), mas essa felicidade se estenderá a muito mais gente. Isto porque João será grande aos olhos
de Deus.
Não beberá jamais vinho nem bebidas fortes (fermentadas), o que revela que João será NAZIREU (ou
nazareno). E, embora nada se diga no Evangelho, também não poderá cortar os cabelos. Eram estas as
condições do nazireato (veja o capítulo 6 do Livro “Números”). O nazireu era o homem que fazia um
voto especial, consagrando-se a Deus, e esse voto foi criado por YHWH, por intermédio de Moisés.
Firmemos mais uma vez o princípio, de que YHWH era o mesmo espírito que encarnou com o nome
de JESUS (cfr . pág. 4). E mais uma prova pode ser dada aqui. Quando se trata de DEUS O ABSO-
LUTO, sem forma, jamais criatura alguma poderá “vê-lo”, como está escrito em Êxodo (33: 20): “não
poderás ver minha face, porque o homem não poderá ver minha face e viver”. Mas com YHWH é dife-
rente. Falando a Moisés, Aarão e Miriam, YHWH diz-lhes: “se entre vós houver profeta (médium), eu,
YHWH, a ele me faço conhecer em visão, falo com ele em sonhos. Não é assim com meu servo Moi-
sés: ele é fiel em toda a minha casa (a Terra). Boca a boca falo com ele, claramente e não em imagens,
e ele contempla a forma de YHWH” (Números, 12:6-8). Como uma espécie de retribuição, quando
YHWH estava encarnado, Moisés também chega ao encontro de seu Mestre e Senhor, de seu “Deus”,
e lhe aparece, na transfiguração (Mat. 17: 3), ao lado de seu precursor João Batista (Elias).
Prosseguindo em nosso trecho, verificamos que o anjo ou espírito de Gabriel afirma a Zacarias que
João é um “espírito já santificado”, mesmo antes de nascer. Após dar-se a concepção, ainda no ventre
materno, ele (o homem) estará cheio (vivificado) por um espírito que é santo. Note-se que no original
grego não há artigo, o que demonstra a indeterminação: “UM espírito santo”, e não “O” Espírito Santo.
Então, esse espírito santo que sé encarnará em Isabel terá gloriosa missão: preparar as criaturas para a
“conversão”. As palavras usadas no Evangelho de Lucas repetem as da profecia de Malaquias (note-se
que a palavra Malaquias, em hebraico, significa exatamente .'mensageiro” ou “anjo”...). Malaquias

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escreveu (3:23) “Eis que vou enviar Elias o profeta antes que chegue o dia de YHWH (JESUS) , gran-
de e terrível, e ele (Elias) converterá o coração dos pais aos filhos”, etc. As expressões de Gabriel
constituem uma citação evidente do antigo profeta israelita.
A frase seguinte é digna de nota: “converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor Deus DÊLES”, isto
é, ao Deus PARTICULAR do povo israelita, que era YHWH (o mesmo espírito que Jesus). YHWH se
definia, de fato, como o DEUS PARTICULAR dos hebreus: “Eu sou YHWH, o Deus de Abraão, de
Isaac e de Jacó”. Não se refere o evangelista, portanto, ao DEUS ABSOLUTO, mas ao Deus DELES,
a Jesus.
No sentido literal, não há sofisma que permita escapar da conclusão de que João era a reencarnação de
Elias. Leiam-se os trechos nacionalista) Van Hoonacker, em sua obra “LES Petis Prophètes”, página
741, escreve: “pela grandeza de sua missão, deveria tratar-se de qualquer maneira de uma nova encar-
nação do espírito e do poder de Elias”.
Mais ainda: a expressão grega έν πνεύµατι хαί δυνάµει нλίου, revela isso mesmo. O emprego da pre-
posição en, com o sentido da preposição hebraica be ( ‫) בּ‬, que se encontra, por exemplo, em Marcos
5:2, quando diz “um homem NO espírito imundo”, significando o reverso: “um espírito imundo NO
homem”, era comum. O jesuíta M. Zerwick (in “Graecitas Biblica”, 4.ª edição, Roma, 1960, números
116 a 118) estuda a questão do EN grego com o sentido associativo ou de companhia. que será sempre
melhor traduzir por “com”, ao invés de por “em”. Assim, segundo o estudioso jesuíta, é melhor dizer-
se: “ele (João) iria diante do Senhor COM o espírito e poder de Elias”. E isso confirma a tese da reen-
carnação de Elias na personalidade de João Batista, coisa que Jesus afirmará categoricamente, o que
estudaremos a seu tempo.
Várias lições aprenderemos aqui.
Quando o intelecto está preparado e unido à intuição (Zacarias - e Isabel “casados” ), aparece o
Mestre, para revelar-lhe o segredo da obtenção dos frutos (do nascimento do “filho”). Esse Mestre
pode ter o aspecto de um espírito desencarnado (Guia, Mentor) ou de um ser encarnado. Não importa.
Sua tarefa, porém, e apenas a de revelar o caminho, e jamais de provocar milagres ou de evoluir “em
lugar” do homem. Trata-se pois, rigorosamente, de um “anjo”, de um “mensageiro”, que anuncia
alguma coisa, que abre uma porta e mostra os passos que se têm que dar para obter o fruto ambicio-
nado (o filho).
Esse filho que nascerá, há de chegar ao intelecto por intermédio da intuição: “Isabel te dará a luz um
filho”.
O fruto da união com Deus, o “filho” em sentido alegórico, será - chamado João, isto é, “ Iahô foi
favorável”. Sabemos todos que a criatura tem que iniciar e persistir na busca do Eu Supremo. Mas o
encontro só se dará quando vier, do próprio EU Supremo ou Cristo Interno, a resposta (a descida da
graça), ou seja, quando “Deus for favorável”. Assim nascerá o fruto (o filho) no encontro da criatura
com o Criador que vive dentro dela: a subida do ser humano e a descida do ser divino.
A alegria e a felicidade serão totais, não só para o próprio, quanto para todas as criaturas, mormente
para aquelas que, embora ainda em estado celular, constituem nosso veículo denso.
Depois de nascido o filho, depois de “realizada” a criatura, depois de terminado o “segundo nasci-
mento” e surgido o “homem novo”, que substitua o “homem velho”, o ser não buscará mais coisas
terrenas físicas, nem as do mundo astral (vinho e bebidas forte, isto é, emoções e sensações).
No entanto, desde o primeiro momento, desde o primeiro contato com o Cristo Interno, a criatura fica
na plenitude da graça, “cheia de um espírito santificado”, e bastará sua presença para atuar sobre
as outras criaturas, promovendo a paz e a harmonia em todos. Então mesmo aqueles que não pude-
ram alcançar a altitude do encontro, mesmo eles se converterão aos seus “deuses particulares”, nos
diversos ramos religiosos “humanos”, com seus pequenos deuses antropomórficos que se combatem
uns aos outros, apelidando-se mutuamente de “diabos”. Mas é esse, exatamente, o início da caminha-

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da: compreender que “existe” um caminho espiritual, por mais primitivo que seja. E é assim que “o
povo que está de fora” se tornará aos poucos “dedicado ao Senhor”.

18. Perguntou Zacarias ao anjo: “Como terei certeza disso? porque eu sou velho e minha
mulher já é de idade avançada”.
19. Respondeu-lhe o anjo: “Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a
falar-te e trazer-te estas boas notícias;
20. e tu ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que essas coisas acontecerem, por-
que não deste crédito às minhas palavras, que a seu tempo se. cumprirão”.
21. O povo estava esperando Zacarias e maravilhava-se enquanto ele demorava no san-
tuário.
22. Quando ele saiu, não lhes podia falar, e perceberam que tivera uma visão no santuá-
rio: e ele lhes fazia acenos e continuava mudo.
23. Cumpridos os dias de seu ministério, retirou-se para sua casa.
24. Depois desses dias, Isabel, sua mulher, concebeu e ocultou-se por cinco meses, dizen-
do:
25. “Assim me fez o Senhor nos dias, em que pôs os olhos sobre mim. para acabar com
meu opróbrio entre os homens”.

Eram tão grandes as promessas feitas a Zacarias, que ele pede ao anjo um sinal, uma prova, de sua
veracidade. Já outros profetas anteriormente tinham agido assim: Abraão (Gên. 15:8), Gedeão (Juízes,
6:36-37), Moisés (.tx. 3:12), Ezequias (2.0 Reis, 20:8), e, tal como ocorreu com Zacarias, foram todos
atendidos.
Em resposta, o anjo “apresenta suas credenciais”, dando o nome de Gabriel (o HOMEM de Deus) e
dizendo que faz parte dos sete que assistem diante do trono de Deus (cfr. Tob. 12:15 e Dan. 9:21), ou
seja, do trono de YHWH.
Depois, como segunda. prova, fá-lo emudecer, embora temporariamente. E essa mudez não foi como a
de Daniel (10: 15) que emudeceu pelo susto produzido pela aparição, mas sim como resposta à prova
pedida. E além de perder a fala, perdeu o sentido da audição, pois é “por sinais” (Luc., 1 :62) que lhe
perguntarão, mais tarde, qual o nome que porão no menino que nasceu.
O povo admira-se da demora exagerada de Zacarias no santuário; e ao sair, vendo que não proferia as
palavras rituais de hábito, de bênção aos fiéis, compreende, pelos gestos do sacerdote, que ele tivera
uma visão.
Orígenes (“Patrologia Graeca”, vol 13, col. 1812) e Ambrósio (“Patrologia Latina”, vol, 15, col. 1550)
comentam que o mutismo de Zacarias era um símbolo do mutismo em que ficaria a religião mosaica
ao ser promulgado O Evangelho.
Ao terminar suas funções sacerdotais, Zacarias se recolhe à sua residência, na localidade de ‘Ain-
Karim.
Depois disso, dá-se a concepção de Isabel, a qual permanece oculta do público durante cinco meses,
louvando a Deus por haver-lhe concedido a bênção de um filho.
Admirável é todo o simbolismo deste trecho.
O intelecto (Zacarias} tem como função precípua a dúvida (Descartes) , a indagação por experiênci-
as. O objetivo primordial do intelecto é o raciocínio discursivo, plano, que só caminha por meio de
dúvidas e provas, para ter base para suas conclusões. A intuição “vê” diretamente, num átimo, e não

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pergunta razões nem pede provas: SABE. O intelecto indaga, procura, pesquisa, pondera, discerne,
julga e só depois é que deduz e conclui.
Era pois inevitável e justo segundo sua natureza que, diante do aparecimento de uma visão espiritual,
o intelecto não se conformasse de imediato, e iniciasse o estudo objetivo da questão.
Verificado, porém, pelas palavras do mestre que lhe surge à frente em pessoa, que o grande objetivo
de sua busca se aproxima, o intelecto resolve obedecer submisso.
O anjo diz-lhe, em primeiro lugar, que é de origem divina, que já obteve o contato com o Deus Inter-
no, e que já se tornou, por isso, um “homem de DEUS” (Gabriel), um homem “divinizado” (filho de
Deus).
Mas acrescenta que, para Zacarias (o intelecto) consegui-lo, ele deverá emudecer em meditação, nada
ouvindo e nada falando, profundamente recolhido em si mesmo.
Zacarias primeiro termina seu mandato sacerdotal, como homem reto e justo, e depois se afasta, não
dando mais atenção ao bulício do mundo, ao “povo que estava de fora”. O povo admira-se de sua
demora: ainda hoje, quando qualquer criatura se afasta dentro de si mesma em oração, mais tempo
do que a “obrigação de uma vez por semana”, o “povo” se admira e não entende.
Superada essa fase, “vai para sua casa”, isto é, recolhe-se a seu íntimo. Lá encontra-se com a intui-
ção (Isabel) , une-se a ela intimamente, e ela concebe a idéia que o intelecto lhe transmite, e também
“se oculta”, para que possa dar-se o nascimento do filho, ou seja, o contato com o Eu Supremo, pelo
qual nascerá uma nova criatura, o “homem novo”.
Ambos (intelecto e intuição - Zacarias e Isabel) , recolhidos durante cinco meses em louvor a Deus
(Judéia), ocultos a todas as vozes e chamamentos do mundo, mudos e surdos a tudo o que é da Terra,
preparam-se para o grande evento.
Não há outro caminho que conduza ao Cristo Interno (nós o veremos em outros passos à frente) senão
o da meditação solitária, que poderá, quando muito, receber a visita do Mestre.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

ANÚNCIO A MARIA
LUC.1:26-38
26. No sexto mês, foi enviado da parte de Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia,
chamada Nazaré.
27. a uma virgem prometida a. um homem que se chamava José, da casa do David, e o
nome da. virgem era Maria.

A comunicação do anjo a Maria ocorre seis meses após a concepção de Isabel. O mensageiro é o mes-
mo que falou a Zacarias, isto é, Gabriel. No entanto, o fato não mais ocorre em Jerusalém, sim numa
cidadezinha desconhecida da Galiléia, Nazaré, onde morava uma mocinha que estava noiva.
A cidade de Nazaré só nos é conhecida através das citações dos Evangelhos. Nem no Velho Testa-
mento, nem em nenhum autor profano aparece esse nome. Também não o temos escrito em hebraico,
mas apenas sua transcrição para o grego, e com seis variantes: Nazaré, Nazaret, Nazareth, Nazará, Na-
zarat e Nazarath.
Lucas frisa com insistência que Maria não estava ainda casada: era noiva, ou seja, “prometida” (em
grego έµνηστευµένη, particípio aoristo 2..º do verbo µνεστεύω, que tem o sentido de “prometer em
casamento” ou “contratar matrimônio”). O matrimônio só se completava quando, a noiva ia morar na
casa do noivo, que então se tornava marido. Tanto que Lucas só dá a José o título de “pai', quando fala
da apresentação de Jesus ao Templo (Luc. 2:33,41,43 e 48).
Entre os judeus, porém, desde que se contratava o casamento, a noiva era considerada ligada ao noivo
de tal forma, que um erro dela era catalogado como adultério (Deut. 22:23).
Todo o nosso sistema terráqueo está constituído na base setenária. Não se trata de misticismo nem de
cabalismo, é uma verificação fácil de fazer-se. Conhecendo os antigos esse fato, todos os aconteci-
mentos e o simbolismo eram baseados no número sete.
Como o sete era a etapa final, o penúltimo passo representava-se pelo número seis. Daí lermos “no
sexto mês. Isto significa que o símbolo que vai ser dado aos leitores, exprime a penúltima etapa dessa
fase do desenvolvimento.
Nessa penúltima do etapa, o discípulo acha-se preparado e o mestre aparece, o “homem de Deus”,
Gabriel, a fim de anunciar-lhe a última etapa.
O aparecimento do “anjo” ou “anunciador” dá-se na Galiléia, a “região cercada” do íntimo da cri-
atura. A cidade tinha o nome de Nazaré. Que o nome constitui um símbolo, compreendemo-lo por não
constar ter havido, na época, nenhuma cidade real com esse nome. A palavra “Nazaré” parece deri-
var-se do radical hebraico Nâzir, que significa “separado, consagrado”, ligando-se ao nazireano
instituído por Moisés (Núm. cap. 6..º).
Vemos, pois, que o “mestre” aparece no lugar separado da região cercada”, ou seja, no CORAÇÃO,
falando através da voz silenciosa.
Anota o evangelista que a aparição se deu “a uma virgem”, e que ela estava “prometida a um ho-
mem”. A intuição está sempre ligada ao intelecto. E, mormente quando no caminho espiritual, quase
sempre se filia a uma pessoa humana, que a guia, intelectualmente, pela estrada da evolução.
O sentido da palavra José “(Deus) acrescenta”, ou seja, “Deus dá por acréscimo de misericórdia”,
coincide com o título “filho de David”, já que David significa “o Amado”.

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C. TORRES PASTORINO
Daí compreendermos que o intelecto, quando se dedica às coisas divinas, aos estudos das realidades
espirituais, se torna “amado”, e a ele “Deus acrescenta” sabedoria. Isto, não por privilégios, mas por
simples efeito de sintonia vibratória: se um rádio é sintonizado com uma estação transmissora, rece-
be-lhe as ondas não por “predileção” da estação, mas porque as condições de sintonia favoreceram a
receptividade. Deus' dá igualmente (infinitamente) a todos, mas cada um recebe segundo sua capaci-
dade. No oceano divino vogam o pequeno caíque e o grande transatlântico, mas cada um mergulhan-
do de acordo com o calado de sua quilha.
A conversa de Gabriel com Maria difere da havida com Zacarias. Com este, temos a representação do
“mestre” que fala ao intelecto, suscitando dúvidas (segundo a característica própria do intelecto).
Com Maria, temos a representação do “mestre” que se dirige à intuição, e é aceito, porque a intuição
“sente” a verdade da manifestação.

28. Aproximando-se dela, disse-lhe: “Alegra-te, altamente favorecida, o Senhor é conti-


go”.
29. Ela, porém, ao ouvir essas palavras, perturbou-se muito e pôs-se a pensar que sauda-
ção seria essa.

FIGURA “Anúncio a Maria”

A saudação do anjo a Maria é concisa. A fórmula grega Χαίρε significa “alegra-te”, Observe-se: que,
na saudação, os gregos auguravam alegria, enquanto os orientais desejavam paz (shalôm) e os latinos
faziam votos de saúde (salve, ave, vale) .

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SABEDORIA DO EVANGELHO
O perfeito grego κεχαριτωµένη indica a posse permanente (não transitória) de graça, de perfeição, de
beleza, tanto física quanto moral. Usado na saudação de Gabriel, em tom de vocativo, esse perfeito
assume quase o papel de um adjetivo substantivo: “ó perfeitíssima”, “ó altamente favorecida”, que a
vulgata interpretou “cheia de graça”.
A seguir uma afirmativa: “o Senhor está contigo”. Não se trata, como em Rute (2:4) do desejo de que
“o Senhor esteja contigo”, mas de uma afirmação categórica a respeito de um fato conhecido por Ga-
briel.
Maria perturba-se não tanto pela presença de um homem jovem a seu lado (e Gabriel devia apresentar
extraordinária beleza física), mas pelas palavras de saudação proferidas; por ele, por aquele elogio
inesperado da parte de um estranho.
A mente transmite sempre com imensa alegria, quando anuncia a presença divina dentro da criatura:
“o Senhor está (é) contigo”, vive dentro de ti, habita em ti, é a vida que pulsa em ti. Quando o homem
ouve essas palavras silenciosas dentro do coração, invariavelmente se perturba: que palavras estra-
nhas são essas, dirigidas a criaturas tão cheias ainda de defeitos?
A voz íntima, no entanto, diz a todos: “alegra-te, filho de Deus, és altamente favorecido pela divinda-
de, pois Deus habita em ti” !
30. Disse-lhe o anjo: “Não temas, Maria., pois conquistaste benevolência da parte de
Deus,
31. e conceberás em teu ventre e darás à luz um filho a quem chamarás JESUS.
32. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono
de seu pai David,
33. e ele reinará no futuro sobre a casa de Jacob, e seu reino não terá fim.

Gabriel exorta Maria a não temer porque ela “conquistou a benevolência de Deus”.
O anjo não se apresenta a Maria dando nome e posição como o fez com Zacarias. Ao evangelista basta
revelar que o mensageiro foi o mesmo nos dois casos.
Conquistar benevolência é expressão já muito usada no Velho Testamento, com as palavras “achar
graça” (cfr. Gên. 6:8; X;x. 33:12; Juízes, 6: 17)
O anúncio da próxima maternidade de Maria é feito com expressões semelhantes às que foram ditas
por outros espíritos, para anunciar o nascimento de Ismael (Gen. 16:11) e de Sansão (Juízes, 13: 3-5).
O nome que o anjo impõe é JESUS (em hebraico IEHOSHUA' γωιπ que se Abrevia Ўιΰ ou ιωι , mas
que também pode transliterar-se ... , com o sentido de “Iahô salva”. Na previsão de Isaias, era-lhe dado
o nome de HIMMANU-EL, isto é, “Deus conosco”.
“Jesus”, diz o anjo “será grande, será chamado de Filho do Altíssimo”, título que era dado aos reis na
antiguidade (cfr. 2..º Reis, 7:14 e 1 Crôn. 22: lC).
O menino receberá o “reino de David”, que ele ocupará “no futuro”, (είς τους αίωνας) e seu reino “não
terá fim”. A palavra αίών tem o mesmo sentido que seu derivado latino “aevum” (em português “evo”,
ou seja século, uma “vida”) e era empregado no sentido lato de futuro, e não no de “eterno”. Eterno é o
que não tem princípio nem fim. Além disso, a segunda parte do versículo esclarece bem a idéia, quan-
do diz “e seu reino não terá fim”, Se a palavra “aiónas” tivesse o sentido de “eterno”, não havia razão
para a segunda parte do versículo, nem mesmo invocando-se a técnica da repetição, na poesia hebraica.
Com Zacarias, o anjo se apresenta, porque o intelecto quer saber de tudo, pede “credenciais”; ao passo
que a intuição não repara no intermediário: sente a verdade em suas palavras, não lhe interessando
quem a diz, mas sim o que diz.

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A resposta do “mestre” à indagação aflita da criatura que, humildemente, se julga indigna de receber
tão grande graça - embora não duvide da própria graça - vem trazer maior certeza da realidade: “con-
quistaste benevolência da parte de Deus”. Não é, propriamente, o “merecimento”, no sentido de haver
a criatura dado algo mais do que devia, com isto merecendo uma recompensa, ou “comprando” a be-
nevolência. Não. Trata-se da sintonia natural da criatura, que lhe possibilita receber as emissões (a
benevolência) divinas, dadas a todos indistintamente: bons e maus, sábios e ignorantes, santos e crimi-
nosos. E essa sintonia é obtida pelo que a criatura É (não pelo que sabe, nem pelo que faz).
Tendo conseguido essa sintonia, a criatura pode “conceber em seu ventre” (recebe em seu coração) um
“filho”, que é sua “salvação”: JESUS, isto é, Iahô salva. Esse “nascimento” é uma expressão que usa-
mos por falta de outro vocábulo mais exato. Assim como, ao nascer, a criança aparece, é vista, tocada
e sentida (embora não tenha começado a existir nesse momento, pois inclusive seu corpo já existia no
ventre EU Supremo consiste apenas na verificação de nossa parte de que ele existe. Realmente ele já
existia dentro de nós, mas ainda oculto e não sentido. Ao revelar-se, ao tornar-se “sensível”, nós dize-
mos que ele “nasceu”: isto é, que se manifestou; quando nós o DESCOBRIMOS, dizemos que ELE
NACEU ...
Esse EU Supremo será grande e é o Filho do Altíssimo porque é a Centelha que emanou Dele (do Foco
Incriado); e terá, por todo o resto de sua existência o “trono de seu Pai” o AMADO (David).
Vimos (pág. 2) que Deus (o AMOR) se manifesta como o Verbo Criador (o AMANTE) e como o Cri-
ador, o Filho (o AMADO). Ora, o EU Supremo, que é a individualização de um Raio-Divino, isto é, o
“Filho do Cristo” (o AMADO), pode ser, por isso, chamado “filho do Amado” ou “filho de David”.
Seu reino não terá fim sobre a casa de Jacob. Jacob significa “o que suplanta” (ou “o que segura pelo
calcanhar”). Exprime, então, a personalidade, que durante milênios “suplanta” a individualidade aba-
fando-a totalmente. Quando JESUS surge, ele assume o trono de David, e reina sobre a “casa de Ja-
cob” sem fim isto é nunca mais a individualidade sofrerá o domínio da personalidade.

34. Então Maria perguntou ao anjo: “como será isso, uma vez que não conheço homem”?
35. Respondeu-lhe o anjo: “um espírito santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te en-
volverá. com sua sombra; e por isso o nascituro será chamado santo, Filho de Deus.
36. Isabel, tua parenta, também ela concebeu um filho na sua velhice, e já está no sexto
mês aquela que era chamada estéril,
37. porque, vindo de Deus nada será impossível”.
38. Disse Maria: “Eis aqui a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra”.
E o anjo retirou-se.

A pergunta de Maria difere da de Zacarias. O sacerdote pergunta: “como saberei que isto é verdade”?,
o que exprime dúvida a respeito das, afirmativas de Gabriel. Maria indaga: “Como se dará isso, se não
conheço homem”? O que constitui um pedido de explicação: ela crê verdadeiras as palavras, mas de-
seja saber o modo de agir para resolver o caso.
“Conhecer homem ou mulher” é eufemismo usado entre os judeus para designar as relações sexual,
empregando-se o vocábulo γτι . Maria, jovem noiva, não tinha ainda (por isso usa o presente do indi-
cativo: “não tenho”) comércio sexual. E Gabriel parece esclarecer que a concepção se deverá dar de
imediato, sem esperar que o casamento se realize.
O anjo explica que ela conceberá um espírito santo (já santificado). Em grego, aqui também não apare-
ce o artigo, denotando a indeterminação: UM, espírito santo. Esse espírito santificado descerá sobre ela
(έπελεύσεται do verbo έπέρхοµαι) e acrescenta que “a força ou poder do Altíssimo a envolverá com
sua sombra”. Parece uma alusão clara à shekinah da mística judaica. Nesses casos, qualquer contato

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SABEDORIA DO EVANGELHO
sexual, mesmo fora do casamento, será abençoado. Deus não está sujeito às leis “humanas”, nem das
sociedades nem dos Estados. O casamento é um ato instituído pelos homens, a fim de evitar abusos e
manter organizada a humanidade. Mas Deus simplesmente criou as plantas, animais e homens dotados
de sexo para que se unissem, produzindo filhos, a fim de que Sua obra não perecesse: Qualquer restri-
ção é humana e não divina. No caso em apreço, isso está claro. Tanto assim que, mesmo fora do casa-
mento Maria receberá, em seu ventre, um espírito santo, que será chamado Filho de Deus
E logo a seguir acrescenta, a título de comprovação, que Isabel, parenta de Maria (não se sabe qual o
grau de parentesco) também terá um filho, apesar da idade e de ter sido estéril, já estando no sexto mês
de gravidez.
E aduz: “vindo de Deus, nada é impossível”. A expressão do texto original: “nenhuma palavra”
(πάνρήµα) é o equivalente do hebraico dàbâr (‫)דכד‬, que tem muitas vezes (cfr. Gên. 18:14) o sentido de
“coisa”. Ora, “nenhuma coisa” é o mesmo que “nada”.
A resposta de Maria é uma aceitação plena, uma conformação total: “eis a escrava (δουλη) ao Senhor”.
E mais: faça-se em mim conforme dizes”. A expressão “faça-se” (γένοιτο) é muito mais forte que o
γευηθήτο usado no “Pai Nosso” (Mat. 6:10). Neste, exprime-se o desejo de que “se faça”, mas deixan-
do livre quanto à época em que se realize. No caso presente, o “faça-se” de Maria expressa o desejo e
quase a ordem de que se faça já.
Cumprida a missão, o anjo retirou-se.
A própria intuição, sobretudo levada pelo intelecto, supõe e deseja que alguém lhe dê a iniciação.
Espera o milagre, certa de que o grande encontro se realizará por meio de uma palavra mágica ou de
um gesto cabalístico, com um rito exótico. Essa é a estranheza manifestada por “Maria (simbolizando
a intuição) quando diz que “não conhece homem”, que não está em contato com um iniciado ou
adepto.
O “homem de Deus” (Gabriel) esclarece (por omissão) que não é disso que se trata: que não há ho-
mem que possa resolver esse caso. O Espírito Santo que está dentro dela (“o Senhor é contigo”), é
que se manifestará, e ela será envolvida por sua sombra. Trata-se da “shekinah”, tão conhecida pela
mística judaica.
Todas as experiências do encontro com o EU Supremo (segundo o testemunho dos que o conseguiram,
em qualquer das correntes religiosas), tem um ponto em comum: a criatura se sente envolvida por
intensa luminosidade, que é comparada a um relâmpago, a um incêndio, enquanto ela mesma se ex-
pande ao infinito, mergulhando e desfazendo-se na luz. O mergulho na luz é a descida da “shekinah”.
Por essa razão, o “homem novo” que daí nasce é chamado “Santo, Filho de Deus”.
Para incentivá-la a dar o último passo, Gabriel cita-lhe o exemplo de Isabel, sua parenta (ou seja, de
todos os seres, parentes nossos, que atingiram o grau de “adoradores de Deus” - Elisheba), que se
encontra no mesmo ponto evolutivo, no penúltimo degrau, “no sexto mês”, aguardando a iluminação,
embora desta ninguém mais esperasse nada, pois não era julgada capaz de consegui-lo, após tantos
anos de tentativas infrutíferas (esterilidade). E como coroamento, conclui: “nada é impossível a
Deus”.
Vencida e convencida, Maria submete-se com máxima humildade à vontade divina, A humildade real,
na qual a criatura se entrega qual escrava para obedecer em tudo e sempre, sem reconhecer nenhum
direito para si, é o caminho único que leva ao encontro com o EU profundo.
Mas essa humildade precisa querer que se realize o ato, precisa entregar-se total e plenamente, sem
condições nem reservas. Isto porque, embora sendo, como é, a causa de tudo, Deus é a humildade
máxima: jamais se mostra, jamais assina Suas obras, jamais pede retribuição de nenhum dos benefí-
cios prestados, e Sua vida toda se resume em SERVIR a todos, dando tudo de graça, sem distinção
alguma de pessoas.

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Por isso, quando a criatura atinge o grau de perfeita humildade, encontra Deus em si, por sintonia
vibratória, e passa a viver UM com DEUS.
Isso mesmo ocorreu com Maria: no momento em que se conformou plenamente com a vontade do Pai,
aniquilando a sua vontade pequenina, anulando sua personalidade, nesse momento concebeu JESUS,
encontrou DENTRO DE SI (em seu coração) o Filho de Deus, o CRISTO, que nasceu virginalmente,
ou seja, sem obra nem intervenção de homem.
Esse o sublime simbolismo que aprendemos desse trecho de Lucas, deduzindo-o dos fatos reais, que
ocorreram na Palestina há quase dois mil anos. Lições de inestimável valor para nosso aprendizado.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

VISITA A ISABEL
Luc. 1:39-56
39. Naqueles dias, levantando-se Maria foi apressadamente à região montanhosa, a uma
cidade de Judá,
40. e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
41. Apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança deu saltos no ventre dela, e Isa-
bel ficou cheia de um espírito santo,
42. e exclamou em alta voz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu
ventre!
43. Como é que me vem visitar a mãe de meu Senhor?
44. Pois logo que a voz de tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança deu saltos de
alegria em meu ventre;
45. bem-aventurada aquela que creu que se hão de cumprir as palavras que lhe foram di-
tas da parte do Senhor”.

A expressão “levantando-se” é usada por Lucas (Evangelhos e Atos) sessenta Vezes. Portanto, locução
típica do autor.
Maria parte para visitar sua parenta, movida não pela curiosidade de verificar as palavras de Gabriel (o
que estaria em contradição com a fé que nelas depositara espontaneamente), mas por espírito de huma-
nidade: ir em sua ajuda.
Qual a cidade de Judá ? Diz uma tradição do século V que foi Ai'n-Karim, a sete quilômetros de Jeru-
salém. A viagem de Nazaré a Ai'n-Karim levava de quatro a cinco dias. Como teria feito a viagem?
Sozinha? Nada é revelado.
Após a saudação natural da visitante, Isabel sente que o filho em seu ventre “dá saltos de alegria”. Re-
beca (Gên. 25: 22) interpretou como mau presságio a “luta dos gêmeos” em seu ventre.
Logo fica “cheia de um espírito santo”. Novamente sem artigo. Repisamos: a língua grega não possuía
artigos indefinidos. Quando a palavra era determinada, empregava-se o artigo definido “ho, he, to”.
Quando era indeterminada (caso em que nós empregamos o artigo indefinido), o grego deixava a pala-
vra sem artigo. Então quando não aparece em grego o artigo, temos que colocar, em português, o arti-
go indefinido: UM espírito santo, e nunca traduzir com o definido: O espírito santo.
Cheia, em grego έπλήσθη, aoristo passivo do verbo do πίµπληµι. Sendo passivo, significa que o “en-
cher-se” não dependeu dela (seria então empregado a voz média), mas sim de um elemento externo;
esse agente da passiva está expresso: um espírito. Todavia esclarece-se que era bom, era santo. Entre
espiritistas, interpretamos com um vocábulo moderno: incorporou um bom espírito.
Então levanta a voz gritando, o que evidencia não ser ela mesma quem fala; se o fora, falaria com sua
voz normal.
Que espírito se incorporaria mais naturalmente em Isabel nessa circunstância? Dada a grande evolução
espiritual de Elias, era-lhe possível manter a consciência desperta mesmo durante a formação de seu
corpo físico no ventre de Isabel. E incorporar-se nela não lhe trazia nenhuma dificuldade, pois ela já
lhe estava servindo de médium de materialização de seu veículo físico denso.

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Ora, o espírito de Elias sabia de tudo o que estava ocorrendo, e tinha visão espiritual ampla, ao passo
que Isabel não podia, humanamente, descobrir a gravidez de Maria, que não tinha nem um mês, e por-
tanto não aparecia externamente. Segundo o princípio teológico, uma explicação simples e natural
deve sempre ser preferida a outra complicada e milagrosa, ou seja, jamais deve recorrer-se a um “mi-
lagre”, nos casos em que pode dar-se uma explicação natural. Ora, é mais simples e natural a explica-
ção da incorporação de Elias (confessada pelo evangelista, quando diz “ficou cheia de um espírito
santo”), do que termos que recorrer a revelações divinas excepcionais e a milagres.
Falamos aqui em espírito de “Elias”, e não de “João Batista” porque, na realidade, esse espírito ainda
não assumira a nova personalidade de João, pelo novo nascimento: e Gabriel, ao falar a Zacarias, diz
claramente: “irá COM o espírito DE ELIAS” (vers. 17).
Esta explicação da consciência do espírito ainda no seio materno é dada por Tertuliano, por Orígenes,
por Irineu, por Ambrósio, e o teólogo Suarez (in III, q, XXVII, disp. IV, sect. VII, n. 7) diz mesmo
que, desde esse momento, o espírito tinha o “uso da razão”. Isso tudo é mais lógico e natural do que
recorrer a uma “intervenção” divina, como faz Agostinho .
O espírito de Elias, conhecedor dos fatos, saúda Maria como “bendita entre as mulheres”, e acrescenta:
“bendito é o fruto que está em teu ventre” . Depois, numa exclamação de suprema alegria, reconhe-
cendo o espírito de Yahweh, encarnado no ventre de Maria, tem aquela pergunta que revela sua humil-
dade, e também o reconhecimento do “Deus de Israel”: “como é que me vem visitar a mãe de meu
Senhor”?
Isabel, consciente das palavras que tinham sido ditas por sua boca, comenta o fato, dizendo que, logo
que ouviu a voz de Maria, a criança deu saltos de alegria em seu ventre. E conclui abençoando Maria,
porque nela se cumpriram as promessas antigas de Yahweh, e também porque ela deu crédito ao anjo
que lhe participara a noticia.
Depois de recebido o aviso do próximo encontro com a Divindade, a criatura se afasta precipitada-
mente de seu “hábitat” normal: vai às montanhas, para ficar em meditação silenciosa, ou seja, sobe
ao nível mais alto de vibrações que lhe seja possível, esquecendo tudo o que é “de baixo”, da Terra,
da planície. Nesse nível extra-material, encontra espíritos de igual elevação, e com eles se comunica
em palavras de louvor a Deus.
Observemos desde já que, todas as vezes que as Escrituras querem assinalar uma elevação de vibra-
ções, por meio da prece ou da meditação, elas o fazem com a expressão “subiu a um monte”. Exata-
mente o que se faz aqui: foi para a região montanhosa de Judá. E como a Judéia representa a persona-
lidade (assim como a Galiléia exprime a individualidade, já o vimos) , compreendemos que a criatura
“esquece” os corpos físico, .sensitivo e emocional, jogando apenas com a parte mais elevada, o inte-
lecto.
Ao encontrar-se com outro espírito, este lhe manifesta a alegria, por ver que dentro de si está Deus, o
Cristo Vivo que em todos nós habita.

46. E disse Maria: “Minha alma engrandece o Senhor


47. pois meu espírito alegrou-se em Deus meu Salvador,
48. porque pôs os olhos na pequenez de sua escrava. Pois de ora em diante todas as gera-
ções me chamarão de bem-aventurada;
49. porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é Seu nome.
50. e Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que O temem.
51. Manifestou poder com seu braço, dissipou os que tinham pensamentos soberbos no
coração,
52. depôs os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
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53. encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.
54. Socorreu Israel, seu servo. lembrando-se da misericórdia.
55. (como falou a nossos pais) para. com Abraão e sua posteridade para sempre”.
56. E Maria ficou cerca de três meses com ela, depois voltou para sua casa.

Em resposta a Isabel,. Maria entoa um cântico maravilhoso, que muito nos ensina. Conhecidíssimo em
toda a cristandade por sua primeira palavra latina, o “Magníficat”.
Todo o cântico reproduz pensamentos do Velho Testamento, sobretudo dos Salmos .
Logo no primeiro versículo temos preciosa lição: “Minha ALMA engrandece o Senhor, pois meu ES-
PÍRITO alegrou-se em Deus meu Salvador”.
Temos, portanto, nítida distinção entre alma (psyché = φυхή) e espírito (pneuma = πυεΰµα), que Paulo
também distingue, de acordo com a filosofia platônica. Por exemplo, em 1.ª Tess. 5:23, quando supli-
ca a Deus que “nos santifique o espírito (pneuma) , a alma (psiché) e o corpo (soma)”. Na filosofia
paulina, a psyché é o princípio das emoções sensíveis (o que hoje chamamos “corpo astral” ou “peris-
pírito”, isto é, o princípio agente ou “eu” da personalidade); e pneuma é o elemento espiritual (ou “eu”
consciencial da individualidade). Em Hebreus (4:12) também lemos que “a palavra de Deus é viva e
eficaz e mais cortante que qualquer espada de dois gumes, e penetra dividindo até os nervos e as liga-
ções da alma com o espírito, discernindo as disposições e os pensamentos do coração”.
Há ainda outros passos escriturísticos que confirmam esse ponto de vista: “Louvai-O espírito e almas
dos justos” (Dan. 3:86); “Em sua mão está a alma de todos os vivos e o espírito de todos os homens”
(Job, 12:10) . “Se há o corpo psíquico (de alma), ... o há também o corpo espiritual (de espírito)”, (1
Cor. 15 :44); “O homem de alma e o de espírito (1 Cor. 2: 14-15); “Estes são os que se separam a si
mesmos, que têm alma, mas não têm espírito” (Judas, 19).
Maria, pois com toda a clareza filosófica (podia não ter cultura, mas era sábia) , emprega corretamente
os tempos dos verbos e afirma: “Minha alma (personalidade) engrandece (no presente do indicativo,
µεγαλύνει) o Senhor, porque meu espírito (individualidade) se alegrou (no aeristo, ήγαλλίασευ) em
Deus meu Salvador”.
A razão da alegria é o prêmio recebido da descida do Grande Espírito em seu ventre; manifestação
espontânea de humildade verdadeira. Maria transfere toda a benevolência à Graça divina, que “baixou
seus olhos à pequenez de sua escrava”, e de tal forma a exaltou “que todas as gerações a denominarão
bem-aventurada”. Ela mesma, porém. não se diz humilde (quem se julga humilde, revela o orgulho ou
a vaidade de se julgar virtuoso), mas apenas pequena, sem-valia (ταπεινωσις); cfr. o Salmo 31:7 que
diz: “vibrarei de alegria e gozo por causa de tua bondade, pois olhaste minha miséria”.
“Porque o Poderoso (δ ∆υνατός) me fez grandes coisas “:era habitual ser designada a divindade por
um de Seus atributos.
Outro motivo de louvor: Deus exerce Sua misericórdia nas sucessivas encarnações dos que O temem,
ou seja, dos que são fiéis à Sua lei e O servem. Leia-se, por exemplo, o Salmo 103:17 ou melhor,
Deuteronômio 7:9, onde está: “Yahweh ... mantém Sua misericórdia aos que O amam e Lhe cumprem
Seus mandamentos, até mil gerações”; claramente entendemos que se trata de “mil” (no sentido de
muitas) encarnações do próprio, e não se refere absolutamente a filhos, netos, etc. Tanto assim que, no
versículo seguinte, se acrescenta: “retribui diretamente aos que O odeiam, não retardará o pago ao que
O odeia, retribuir-lhe-á diretamente”. Logo, só pode tratar-se de mil re-nascimentos da própria criatura
que O ama (O teme) e Lhe cumpre os mandamentos.
Continua Maria: Deus “dispersa pela força de Seu braço (repetição do eufemismo do Salmo 119:16) os
que têm pensamentos soberbos no coração” . Conforme verificamos (mais uma vez, o coração é a sede
dos pensamentos. Realmente, sendo Deus a humildade máxima, os orgulhosos jamais podem sintoni-

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zar com Suas vibrações. Daí dizer-se mediante uma imagem: “Deus não ama os orgulhosos” (Cfr. 1.0
Reis 2:3 e Job, 38:15).
E prossegue: fez descer os poderosos de seus tronos e exaltou os :humildes” (Cfr 1.0 Reis 2:5-7; Ecli.
10:14, Salmo 148:6; e Job 5:11; 12: 19 e 22: 9); encheu de bens os famintos e despediu vazios os ri-
cos” (Cfr. Salmos 34:10-11 e 107:9).
Queremos uma vez mais chamar a atenção para a afirmação clara, embora implícita, das vidas sucessi-
vas ou reencarnações. Raciocinando diante dos fatos, verificamos que, numa mesma existência, os
poderosos raramente perdem seus tronos e os humildes não são exaltados; da mesma forma que os
famintos muito dificilmente enriquecem e pouquíssimos são os ricos que perdem a fortuna. Ora, as
afirmativas de Maria e dos demais textos supra-citados do Velho Testamento apresentam esses fatos
como normais e habituais. Então concluímos que se referem às vidas sucessivas: quem teve um trono
numa existência, regressará à Terra na vida seguinte em posição humilde e vice-versa; quem transcor-
reu uma existência a lutar contra a fome, voltará na seguinte cheio de bens, mas os ricos “serão despe-
didos” da vida espiritual para a Terra “vazios” de bens. Esta é a única interpretação que podemos dar
às palavras citadas; se o não fizermos, verificaremos que os fatos reais que observamos todos os dias
desmentem as afirmativas categóricas das Sagradas Escrituras.
Maria cita a seguir a manifestação da misericórdia de Yahweh para com Jacob (Israel), segundo a
promessa feita a Abraão. Anotemos que a esposa de Abraão era Sara e, a seu respeito, diz a Cabala:
“Fica sabendo que Sara, Hannah a Sunamita e a viúva de Sarepta, cada uma delas possuiu por seu tur-
no a alma de Eva” (Yalkut Reubeni, n. 8).
E o Evangelista encerra o episódio com a notícia de que Maria ficou “cerca de três meses” com Isabel,
regressando depois para sua casa. Embora Lucas narre o episódio do nascimento de João após ter dado
notícia do regresso de Maria, é de supor-se que ela tenha permanecido ao lado da parenta até depois do
nascimento de João; quando lá chegou já estava no sexto mês, e lá ficou cerca de três meses, certa-
mente não sairia às véspera do grande evento. Mas o procedimento é típico desse evangelista: terminar
um episódio antes de começar outro (por exemplo, falará da prisão de João Batista, em 13:19-20, antes
de começar a narrativa do batismo em 13:21-22).
Note-se que Maria regressou para sua casa, e não para a casa de José. Isto porque, a essa época ainda
não estava casada.
Sob o aspecto profundo, aprendemos que a intuição (Maria) glorifica o Senhor pela descida da graça,
convicta da pequenez de sua realidade subjetiva, diante da magnificência divina em atender às criatu-
ras. Inspirada pelo Eu Supremo, canta a alegria da próxima Unificação com o Cristo interno, a Ma-
nifestação cósmica da Divindade. Estende seu louvor pelos benefícios recebidos em vidas anteriores,
assim como pela felicidade que fruirá nas porvindouras . Relembra que só os humildes e pequenos
receberão a ventura do Grande Encontro, pois os ricos (cujo deus é o dinheiro) e os soberbos (cujo
deus é o próprio “eu” pequenino e transitório) , não conseguem penetrar no recinto humilde e oculto
do coração, o que só pode ser feito quando há renúncia total a tudo, inclusive ao “eu” personalístico.
Maria permanece com Isabel, ajudando-a com sua presença a realizar o mergulho, e depois nova-
mente se recolhe em seu íntimo (regressa a sua casa), para, em meditação profunda, aguardar o Su-
premo Acontecimento.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

NASCIMENTO DE JOÃO
LUC. 1:57-80
57. Chegado o tempo de dar à luz, Isabel teve um filho.
58. Seus vizinhos e parentes, sabendo da grande misericórdia que o Senhor manifestava
para com ela, participavam de seu regozijo.
59. No oitavo dia vieram circuncidar o menino, e iam dar-lhe o nome de seu pai: Zacari-
as.
60. Sua. mãe, porém. disse: “Não, mas será chamado João”.
61. Disseram-lhe: “Ninguém há entre teus parentes que tenha esse nome”.
62. E perguntavam por acenos ao pai que nome queria que lhe pusessem.
63. Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu: “João é seu nome”. E todos se maravilharam.
64. Imediatamente lhe foi aberta a boca e solta a língua, e começou a falar, bendizendo a
Deus.
65. O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos e divulgou-se a notícia de todas essas
coisas por toda a região montanhosa da Judéia;
66. e todos os que delas souberam, as guardavam no coração dizendo: “Que virá a ser en-
tão, esse menino”? Pois na verdade a mão do Senhor estava com ele.

A expressão “chegado o tempo de dar à luz” é repetição de Gên. 25:24, e a atribuição do fato à miseri-
córdia divina reproduz Gên. 19:19. O acontecimento causou grande alegria e alvoroço entre a parentela
e a vizinhança .
O evangelista passa então a narrar a cena da circuncisão, de acordo com a lei (Gên. 17:12; 21:4 e Lev.
12:3) . O rito da circuncisão não era atribuição sacerdotal: qualquer israelita podia desempenhá-lo,
mesmo na residência dos pais; em todas as localidades havia (e ainda hoje existe) o MOHEL, pessoa
habilitada para essa delicada operação no recém-nascido.
O fato de Lucas citar a presença de Isabel demonstra que a operação se realizou em sua residência,
pois a mulher que dava à luz só podia sair de casa quarenta dias depois do parto.
No ato da circuncisão, rito pelo qual o menino era oficialmente incluído no povo israelita, era-lhe im-
posto o nome. Causa estranheza o fato de quererem colocar no filho, o nome do pai, o que contrariava
o costume israelita. Mas, em vista da idade provecta do pai, não haveria futuramente possibilidade de
confusão entre os dois.
Nesse ponto intervém Isabel, que quer dar ao menino o nome de João. Os parentes não aceitam a su-
gestão porque fugia aos hábitos judeus não só ser o nome escolhido pela mãe, como ainda que se im-
puser se um nome que já não houvesse na família. Por isso interrogam Zacarias “por acenos” (de-
monstrando sua surdez temporária). Este pede uma tabuinha recoberta de cera e com um estilete escre-
ve o nome de João, confirmando o que dissera Isabel. O evangelista anota a admiração de todos e a
divulgação que teve a notícia nas redondezas.
A expressão “guardar no coração” é típica do hebraico (Cfr. 1.0 Reis, 21:12 e Iso 57:1) e exprime re-
fletir, tomar em grande consideração. Outra expressão idiomática aparece em “a mão do Senhor”, si-
gnificando a proteção divina (Cfr. Atos 11:21 e 13:11).

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C. TORRES PASTORINO
Logo que o Sublime Encontro se verifica, nascendo o Homem-Novo temos a passagem direta da Luz
do mental, que não necessita mais da mediania da intuição, chegando em cheio ao intelecto e tornan-
do-o iluminado ( Buddha). A intuição (Isabel), ponte entre os dois, uma vez que apresentou ao inte-
lecto (Zacarias) o resultado da busca (o filho), se retraio O intelecto, ao verificar a Verdade e a Rea-
lidade, digamos ('palpável”, explodirá em palavras de alegria incontida e de elevação espiritual (cujo
exemplo o evangelista nos dará no “Cântico de Zacarias”, logo a seguir).
Temos, pois, que o intelecto saiu da contemplação, da meditação silenciosa (da surdez e mudez de
vários meses) e quase não acha palavras para agradecer o prodígio. Descendo dessas alturas, voltará
a “sentir” os veículos físicos, que estavam esquecidos durante a meditação.
Não admite (como a intuição já sugerira) que produto tão divino seja chamado simplesmente “lem-
brança de YHWH”; não: o nome só pode corresponder à realidade do ocorrido: “YHWH foi favorá-
vel”.
Ao retomar contato com seus veículos de manifestação, trazendo consigo o “filho”, há uma alegria
indescritível entre todos os “parentes e vizinhos”, ou seja, em todas as células e órgãos, tanto os do
corpo perispiritual ou astral, como de suas correlatas no físico denso: todas vibram de intenso rego-
zijo, eliminando males e mazelas e participando plenamente da Vida.
A circuncisão simboliza o corte de todos as prazeres emocionais, que daí por diante não terão mais
expressão nem atrativo para ele. E o “temor que se apodera de todos os vizinhos” exprime o choque
traumático, produzido em todos os órgãos e células, que se sentem aniquiladas, quando o espírito
imerge no infinito. Esse choque e o respectivo temor se estendem por “toda a região montanhosa da
Judéia”, isto é, por toda a personalidade. A anotação “região montanhosa” refere-se à personalidade
em sua parte mais elevada, em sua manifestação mais alta, que é o intelecto, o qual se sente minús-
culo, pequeno, insignificante, perante a grandeza e infinitude do fenômeno experimentado.
Todas essas sensações, entretanto, são “guardadas no coração”, isto é, são mantidas secretas, e não
contadas a todos indiscretamente. Apenas a criatura se pergunta a si mesma: “que me ocorrerá ago-
ra”? Porque, realmente, ela sabe e sente que “o Senhor, o Cristo Cósmico, Está com ela”.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

O CÂNTICO DE ZACARIAS
LUC. 1:67-80
67. Zacarias. seu pai, ficou cheio de um espírito santo e profetizou dizendo:
68. “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque veio visitar e trazer resgate a seu povo,
69. e nos suscitou um Libertador poderoso na. casa de David seu servo,
70. (como anunciara. desde tempos imemoriais pela boca de seus santos profetas),
71. para nos livrar de nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam;
72. para usar de misericórdia com nossos pais e lembrar-se de sua santa aliança,
73. do juramento que fez a Abraão nosso pai
74. de conceder-nos que, livres da mão de nossos inimigos, o servíssemos sem temor,
75. em santidade e justiça, diante dele, por todos os nossos dias.
76. Sim, e tu, menino. serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás ante a face do Se-
nhor preparando os seus caminhos;
77. para dar a seu povo o conhecimento da salvação, que consiste na rejeição de seus er-
ros,
78. devido ao amor misericordioso de nosso Deus, pelo qual nos visitam o Sol do Alto,
79. para iluminar os que estão sentados nas trevas e na sombra. da morte, para dirigir
nossos passos no caminho da paz”.
80. Ora, o menino crescia e se fortificava em espírito, e habitava nos desertos, até o dia de
sua manifestação a Israel.

Aqui de novo aparece a expressão “cheio de um espírito santo”, ou seja, incorporado por um bom espí-
rito (em grego sem artigo). E mais se acentua a incorporação, por causa do verbo utilizado em grego:
έπροφήτευσεν (de προφητεύω), que significa “profetizou”, isto é, falou como intermediário, como
médium (em grego profeta).
Divide-se o cântico em duas partes: 1.ª) louvor a Deus pela era messiânica iniciada (68-75); 2.ª) o pa-
pel do precursor (76-79) .
As primeiras palavras repetem a doxologja que se encontra no final de três, dos livros dos Salmos:
41:13; 72:13 e 106:48, isto é: “Bendito seja o Senhor DEUS DE ISRAEL. Logo após cita as razões:
“porque veio visitar seu povo”. O sentido do verbo έπεσиεψατο (aoristo médio de έπισиέπτοµαι) é
exatamente “ir visitar, ir examinar” (um amigo, um doente) , donde “levar socorro” (cfr. Salmo 106:4).
Temos, pois, mais uma confirmação da visita de YHWH (Yahweh) na pessoa de Jesus. E o objetivo da
visita é “trazer resgate para seu povo”, ou seja., libertá-lo. Para isso, faz surgir um “libertador podero-
so”: é a interpretação do grego иέρας que, literalmente, significa “chifre, promontório, ala de exército,
braço de rio”, enfim, qualquer coisa que se projete à frente. Essa expressão é empregada em relação a
YHWH no Salmo 18:3 (Cfr. também Salmo 132:17 e Ezeq. 29:21).
O parêntese do versículo 70 fala do anúncio à os profetas άπ̉αίώνος, ou seja, desde muito tempo, senti-
do que é mister gravar para a palavra (αίών) que, já o vimos, não significa “eterno”, mas sim “de longa
duração”, isto é, a duração de um evo. O anúncio é feito “pela boca dos profetas”, porque não são eles

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C. TORRES PASTORINO
que falam, mas é por meio deles que são ditadas as palavras, que é o significado técnico do verbo do
verbo προφητεύω. Por isso salientamos que profeta tem sua tradução exata na palavra moderna “mé-
dium”, neologismo criado por Allan Kardec.
O juramento feito a Abraão foi de dar-lhe numerosa posteridade, na qual seriam abençoadas todas as
nações da Terra (Gên. 22: 16-18; 24:7; e Hebr. 6:13).
Na segunda parte, Zacarias dirige-se a seu filho, apostrofando-o e afirmando que ele será chamado
“profeta do Altíssimo”. Repete, então, resumindo-as, as palavras de Malaquias (3: 1): “eis que vos
envio meu mensageiro, que aplainará o caminho diante DE MIM (é Yahweh quem fala!)” e de Isaías
(40:3) “uma voz grita: abri, no deserto, o caminho de Yahweh “.
Realmente, está tudo certo. Jesus é a encarnação de Yahweh e João a reencarnação de Elias, como es-
clarece o mesmo Malaquias (4:5) : “eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e
terrível dia de Yahweh” .
O precursor dará ao povo o conhecimento da salvação, que consiste “έν άφέσι άµαρτιών αύτών”, isto
é, “na rejeição dos erros deles”.
Examinemos a frase, geralmente traduzida como “o conhecimento da salvação na remissão de seus
pecados”. Conhecimento (γνώσις) é a palavra que exprime “saber profundo”, ou “conhecimento real”.
Salvação corresponde ao grego σωτηερία que apresenta os dois sentidos (como em latim salus, salutis
e em francês salut) e tanto se refere à parte física “saúde”, como à parte espiritual “salvação”. A pre-
posição en tem aqui função instrumental “salvação que se obtém por meio de”, ou “que consiste em”.
O dativo άφέσει (regido pela preposição) exprime o ato de “jogar fora, mandar embora, despedir”;
portanto rejeição, expulsão. O genitivo άµαρτιών αύτών significa “dos erros deles”, erros que, no
campo teológico, são denominados “pecados ou quedas” . Mas o vocábulo grego exprime idéia mais
ampla: todo e qualquer erro.
A “salvação” ou libertação da criatura da constante descida à matéria, ou seja, do ciclo reencarnatório,
é obtida pela “rejeição dos erros”, e não apenas pela remissão dos pecados”, isto é, por meio de fór-
mulas ritualísticas ou palavras mágicas. Também não é conseguida mediante atos de outra pessoa, por
mais categorizada que seja: depende única e exclusivamente de cada um. Só se “salvará” quem rejeitar
seus erros, mudando o rumo de sua vida e renovando-se interiormente.
Tudo isso pode realizar-se “pelo coração ou pelo amor misericordioso de nosso Deus (Yahweh, o Deus
dos Israelitas), pelo qual amor nos visitará o Sol do Alto. Aqui Jesus é comparado ao Sol Sublime, que
do Alto vem a nós para iluminar “os que estão sentados nas trevas e nas sombras da morte”, ou seja, os
que estão encarnados no cárcere da carne, nas trevas da matéria, sujeitos à sombra triste da morte ine-
xorável. E é esse Sol, já tão cultuado em outros povos como a manifestação da natureza que melhor
nos revela os atributos divinos, e ele que “dirigirá nossos passos no caminho da paz”.
Lucas encerra o episódio numa penada simples, em que nos mostra o menino a crescer e fortalecer-se
“em espírito”, permanecendo nos desertos, até o momento do início de sua missão de precursor.
No sentido esotérico aprendemos muito.
O intelecto compreendeu finalmente a realidade da Vida Maior. Após o Encontro achou-se repleto do
Espírito Santo, do Cristo Cósmico que lhe permeou todas as células até o âmago do ser, e enalteceu
os acontecimentos percebidos durante o “mergulho” (batismo) na profundidade abismal do Infinito
Eterno.
Reconhece, então, que Deus o veio visitar, a ele e “a todo o seu povo”, a todos aqueles seres que
constituem seu corpo astral (perispírito) e sua contraparte física, e que, embora em estado inicial de
vida, formam “um povo” que futuramente constituirá os seres de um planeta ou de um sistema plane-
tário.
Meditemos a esse respeito.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
Cada criatura humana é constituída de trilhões de células. Cada célula é um ser espiritual, individua-
lizado da Centelha Divina, e que já ultrapassou os estágios mineral e vegetal, iniciando-se na fase
animal. Compreendamos bem que, nesse estágio, a célula é um vórtice energético animado por um ser
espiritual, que se reveste de matéria física para constituir o corpo denso da criatura. Repisemos: o
corpo astral ou perispírito, no ventre materno, não “se materializa” em bloco: sua materialização é o
resultado da materialização parcelada de cada uma de suas células.
Avancemos. Cada ser, ao sair do estado monocelular, vai crescendo pela lei das Unidades Coletivas
(Pietro Ubaldi, em a “Grande Síntese”), e vai necessitando de “auxiliares” para desempenhar suas
funções que se multiplicam. Vai então agregando a si outros seres monocelulares, que o acompanha-
rão durante todo o curso evolutivo.
Ao chegar ao estado humano, o número de suas células está mais ou menos fixado, e a criatura se vai
elevando na escala servido sempre pelas células servis, como auxiliadoras preciosas de sua evolução.
As células são AS MESMAS vida após vida, embora o envoltório físico dessas células varie de vida
para vida e até dentro de uma mesma existência da criatura, elas “morrem” e “renascem”, isto é,
perdem a matéria física e retomam outra. A prova de que a parte espiritual das células é a mesma, e
de que só seu “corpo” ,se refaz, é que as cicatrizes profundas da infância se mantêm até a velhice,
embora a ciência tenha confirmado que, após cada sete anos, todas as células se renovam (menos as
nervosas, que pertencem ao corpo etérico e não ao físico). Então, elas se renovam, sim, mas só no
corpo físico, que é a contrapartida, a materialização de seu corpo perispiritual ou astral. E as cicatri-
zes profundas afetam o corpo astral das células, e por isso não desaparecem, pois atingem o vórtice
energético. No entanto, as pequenas e leves cicatrizes, que só atingiram o corpo físico das células,
essas desaparecem quando as células tomam outro corpo físico.
Ora, essas células, seres espirituais com mente própria (tanto que “sabem” sua função específica e a
executam a rigor) evoluirão também. Enquanto permanecem no corpo humano, possuem a chamada
“alma grupo”, constituída por nosso próprio espírito, e são governadas por nossa mente subconsci-
ente. Tanto assim que, se nos desequilibra e aparecem os distúrbios e enfermidades.
Mas, ascendendo lentissimamente pela escala animal, atingirão após milênios de milênios, a escala
humana. A esse ponto, a criatura humana que foi servida por essas células (hoje criaturas humanas)
já atingiu grau evolutivo elevadíssimo e terá sob sua responsabilidade todo esse conglomerado huma-
no, que constituirá “o seu povo”.
Aqui temos uma explicação do grande motivo que impeliu Yahweh (Jesus) a criar o planeta (ou todo o
sistema planetário), para acolher-nos em nossa evolução: esta humanidade, que aqui vive, é constituí-
da das antigas células que, em épocas imemoriais, formaram os corpos de Jesus durante sua passa-
gem pela escala hominal em outros planetas. Ajudamo-lo em Sua evolução hominal e Ele agora ama-
nos entranhadamente, até o sacrifício, e veio entre nós “o que era Seu”, para ajudar-nos a libertar-
nos do jugo da matéria. (Esclareçamos, todavia, que não nos referimos ao corpo de Jesus materiali-
zado em sua última passagem pela Terra há dois mil anos. Não. O que dizemos ocorreu há bilhões de
anos atrás) .
Como é maravilhoso e sublime o encadeamento de todos os seres do Universo, nessa sucessão cons-
tante para a Divindade, através do Serviço e do Amor!
Zacarias, pois, o intelecto que compreendia essas verdades, bendiz o Senhor Deus de Israel, pois re-
almente para nós, as antigas células de Seu corpo, Jesus é um Deus, é “o nosso Deus”.
Percebendo isto ao “mergulhar” no Profundo de si mesmo unindo-se ao Cristo Interno, o intelecto vê
que surgiu para ele o Libertador da “casa de David”, ou seja, do plano do AMADO. Relembremos
que Deus, o Absoluto (o AMOR), quando se manifesta é o Pai ou Verbo (o AMANTE), e Sua manifes-
tação é o Filho ou Cristo (o AMADO) que nos liberta. É pois “da casa do AMADO” (significado do
nome “David”) que surge o Libertador.
Todo esse sistema de penetração no âmago, para encontrar o Cristo Interno ou EU Supremo, foi
anunciado desde a mais remota antiguidade por todos os profetas, que eram apenas “intermediários”
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C. TORRES PASTORINO
de Yahweh, não apenas junto aos israelitas, mas a todos os povos, pois todos têm a mesma origem e
filiação divinas. A cada povo, a manifestação esteve de acordo com sua capacidade, dando-nos a
idéia de que cada raça constitui um órgão diferente do mesmo corpo (Cfr. Paulo, Rom. 12:4-5 “pois
assim como temos muitos membros em um só corpo (e todos os membros não têm a mesma função),
assim nós, sendo muitos, SOMOS UM SÓ CORPO EM CRISTO, mas individualmente somos membros
um dos outros”, e mais: “não sabeis que Vossos corpos são MEMBROS DE CRISTO”? (1 Cor. 6:15);
e ainda: “assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora
muitos, constituem um só corpo, ASSIM TAMBÉM É CRI.S'TO” (1 Cor.12:12); e adiante: “ora, vós
sais CORPO DE CRISTO, e individualmente UM DE SEUS MEMBROS” (1 Cor. 12:27); e em outro
passo: “porque SOMOS MEMBROS DE SEU CORPO”, de Cristo (Ef. 5:30) . E que todas as raças
formam esse corpo, também é afirmado por Paulo (1 Cor.12:13) ; “em um só Espírito (de Cristo) fo-
mos todos mergulhados em um só corpo - quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres – e a
todos nós foi dado de beber dum só Espírito: também o corpo não é um só membro, mas muitos”).
Depois de acenar à liberdade que obterá com esse mergulho no infinito, o intelecto se dirige ao ho-
mem-Novo que nasceu, e o apostrofa, prevendo que, de ora em diante, será ele o precursor da União
Definitiva da Unificação, conseguida pelo Amor Misericordioso.
Também nessa Aventura Santa o intelecto viu que a “salvação” consiste na rejeição total de seus er-
ros, ou seja, na convicção absoluta de que o “eu” não é o corpo físico, nem as sensações, nem as
emoções, nem os pensamentos, nem o chamado “espírito”, mas é na realidade o EU Supremo, o
Cristo Interno. compreendeu que tudo o que e externo a ele” é transitório, e portanto ilusão dos senti-
dos, e só Deus, a única realidade Objetiva, é Eterno, e esse está DENTRO DÊLE (Cfr. ('Não sabeis
que VOSSO CORPO é santuário do Espírito Santo QUE HABITA EM VÓIS”? 1 Cor, 6:19). Compre-
endeu que tempo e espaço são criações mentais, e que só o Infinito e o Eterno são realidades. Com-
preendeu finalmente que, quando a União for conseguida, ele será UM com Cristo, assim como Cristo
é UM com Deus(Cfr. Jo. 17:23) porque “aquele que SE UNE ao Senhor, é UM ESPÍRITO COM ELE
(1 Cor. 6.17).
Tantas coisas percebeu, quando penetrou na Luz Incriada do Sol do Alto, que se sente totalmente ani-
quilado em sua personalidade, iluminado plenamente, embora “ainda sentado nas trevas e na sombra
da morte”, ou seja, ainda mergulhado na matéria do corpo físico. Mas agora confia no Sol Divino:
seus passos seguirão invariavelmente a estrada da PAZ.
E o evangelista tem o cuidado de alertar-nos para o fato de que o Grande Acontecimento não parou
aí, mas prosseguiu desenvolvendo-se, crescendo “em Espírito” e fortalecendo-se pelo exercício conti-
nuado, não no meio das multidões citadinas, mas no deserto silencioso da meditação solitária, até
que, bem amadurecido, pudesse manifestar-se.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

REVELAÇÃO A JOSÉ
Mat. 1:18-25
18. Ora, a. concepção de Jesus Cristo ocorreu desta maneira: sendo Maria, sua mãe, noi-
va de José, antes que se ajuntassem ela rol achada. grávida de um espírito santo.
19. E José, seu noivo, sendo reto e não querendo infamá-la. resolveu deixá-la secretamen-
te.
20. Tendo, porém, meditado nessas coisas, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em
sonhos dizendo: “José, filho de David, não temas receber em casa Maria como tua
mulher, pois o que nela. foi gerado é de um espírito;
21. ela dará à luz um filho a. quem chamarás JESUS, porque ele salvará seu povo dos pe-
cados deles”.
22. Ora. tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta:
23. “eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho e ele será chamado Emanuel, que
quer, dizer Deus conosco”.
24. Tendo José despertado do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu
sua mulher.
25. e não a conheceu enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de JESUS.

Encontramos duas narrativas a respeito do mesmo fato, em Mateus (1:18-25) e em Lucas (2:1-20).
Havendo diferença entre os dois textos, comentá-los-emos em separado.
Após a genealogia (que estudaremos depois), Mateus inicia: “ora, a concepção (ή γένεσις) de Jesus
Cristo Ocorreu desta maneira”. E passa a narrar.
Sendo Maria noiva (µνηστευθείσες; particípio aoristo passivo, noiva, prometida em casamento) de
José, antes que se ajuntassem, ela se achou grávida de um espírito santo”.
Os judeus distinguiam nitidamente o noivado e o casamento (Deut. 20:7), que o original grego distin-
gue também com os verbos µνηστεύω (noivar), comprometer-se) e παραλαµβάνειν (receber em sua
casa), o que tinha como resultado o “coabitar, morar juntos”: σνυέρХοµαι.
Então, ainda durante o noivado, José verificou a gravidez (εύ-ρέθη έν γαστρι έХουσα). O fato só pode
ter ocorrido depois que Maria regressou da casa de Isabel Ai'n-Karim, para sua aldeia de Nazaré. Ma-
teus silencia a esse respeito, fazendo que o leitor suponha que eles normalmente habitavam em Belém.
Tanto que, mais tarde (2:23) diz que, quando José regressava do Egito para sua casa (Belém) , ao saber
que Arquelau, filho de Herodes, é que lá reinava, resolveu ir morar na Galiléia, a conselho do anjo, na
cidade de Nazaré, “para que o menino pudesse realizar a profecia e ser chamado nazareno”. Portanto,
para Mateus, Nazaré era um lugar ainda desconhecido de José e de Maria, ao passo que, par Lucas,
Nazaré era a residência normal dos dois.
Mateus não fala da viagem de Maria. Mas José só podia “descobrir” a gravidez quando desta apareces-
sem sinais externos, o que só ocorre no 4..º ou 5..º mês, isto é, exatamente quando do regresso de Ma-
ria da casa de Isabel.
José é dito άνήρ de Maria. Essa palavra (tal como o latim vir) tem o sentido de “varão”, em oposição a
γυνη (latim mulier). O termo άνθρωπος, correspondente ao latim homo) , exprime genericamente o ser
humano, macho ou fêmea indistintamente. José, pois, era o “homem” (que podia ser o noivo ou mari-
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do) de Maria. Aqui trata-se evidentemente de noivo, pois ainda não se tinham casado, já que José não
na havia levado para sua casa e não coabitara com ela.
Sendo bom, José não quis infamá-la. Os direitos dos noivos eram equiparados aos dos já casados, tanto
que: a) a noiva infiel devia ser apedrejada, como se já fora esposa (Deut. 22:20-27); b) a noiva podia
ser despedida com uma “carta de divórcio”; c) a criança nascida na época do noivado era considerada
legítima; e d) se o noivo morria, ela era tratada como viúva, devendo, pela lei do “levirato” coabitar
com o irmão do noivo, para que tivesse filhos dele.
Diz Mateus que José, na dúvida entre acusá-la perante o Sinédrio, difamando-a, ou repudiá-la com
uma “carta de divórcio”, optou pela segunda hipótese, pois para isso bastava uma carta assinada por
ele diante de duas testemunhas, o que não provocava escândalo.
Tendo meditado nessas coisas e tomado sua resolução, deitou-se para dormir. Foi quando, em sonhos,
recebeu a visita de um “anjo do Senhor” ou, na linguagem moderna, um “espírito bom”. Aparece aqui
a mediunidade “onírica' ou de sonhos, confirmada como existente em José, logo a seguir, em mais
quatro passos (2:12, 13, 19 e 22) . Parece que José só possuía esse tipo de sensibilidade psíquica. Ma-
teus não revela o nome do espírito, em nenhum dos cinco trechos.
Nossa tradução do versículo 20 difere das traduções correntes, porque seguimos o texto original grego.
Assim: 1) em lugar de “pensava”, colocamos “tendo meditado”, tradução melhor para o particípio do
aoristo ένθυµηθέντος; 2) “receber em casa” que exprime o ato do casamento, traduzindo παραλαβεϊν;
3) “receber Maria como tua mulher”, porque se trata da construção de “duplo acusativo” (por exemplo,
receber alguém como hóspede); 4) “o que foi gerado nela é de um espírito”, porque em grego não há
artigo, (logo é indefinido) e nem sequer aparece o adjetivo “santo”, que só foi introduzido no texto
latino da Vulgata.

FIGURA “Revelação a José”

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Ao aceitar Maria sua noiva, embora já grávida de vários meses, como sua esposa, José assumia auto-
maticamente a paternidade legal o nascituro.
O espírito que fala a José, no sonho, repete-lhe as palavras que Gabriel dissera a Maria, quanto ao me-
nino, impondo-lhe o mesmo nome. E Mateus traz, em apoio, uma citação do profeta Isaías (7:14).
A formula empregada por Mateus: “o que disse o Senhor pelo profeta”, ou seja, “o que falou o espírito
pelo órgão” ( ‫ ) ץם״ך״‬do profeta (em grego διά , em latim per) vem confirmar a tese da mediunidade,
demonstrando que o “profeta”, como intermediário ou médium, apenas serve de aparelho ou órgão de
um espírito.
A profecia de Isaías afirma que “uma virgem conceberá e dará à luz um filho”. O termo “virgem” me-
rece estudado.
Em hebraico há duas palavras: betulân, que especificava a virgindade como certa; e almâh que expri-
mia uma oposição, sem garanti-la. Ora, Isaías escreve exatamente almáh. E verificamos que, em Deut.
22:23, a noiva, e mesmo a esposa recém-casada era chamada ne'arah betulâh.
Em grego a palavra παρθένος exprime o mesmo: virgem, mas em sentido genérico tanto que as moças
noivas e também as recém-casadas eram assim chamadas, e isso na própria Bíblia (cfr. Deut. 22:23; 1
Reis 1:2; Ester 2:3). Em todas essas passagens, a palavra virgem designa a moça que e dada a alguém
para deitar-se com ele, supondo-se que se trata de uma virgem, isto é, de moça ainda não ligada pelo
casamento a um homem.
A mesma designação é atribuída a Maria, demonstrando que, ao lhe ser dada como noiva, era virgem,
o que é natural e normal. No entanto, em nenhum local dos Evangelhos se diz, nem se supõe, que Ma-
ria continuou Virgem depois. Ela era virgem quando concebeu, o que de modo geral ocorre com todas
as moças.
Esses nossos esclarecimentos não visam a diminuir o respeito e a veneração que todos temos pela Mãe
Santíssima de Jesus, pois o fato da virgindade nenhuma importância apresenta diante da espiritualida-
de.
A IMPOSIÇÃO DIVINA do uso do sexo para manutenção e multiplicação de Sua criação, nos diver-
sos estágios evolutivos (plantas, animais e homens) vem provar que o sexo é SANTO. Não podemos
admitir que Deus, Sábio e Bom, tivesse imposto obrigatoriamente as Suas criaturas uma condição que,
ao cumpri-la, as tornasse imperfeitas. Se no ato sexual houvesse uma leve imperfeição sequer, ou um
sina1 de atraso espiritual, esse Deus seria monstruosamente mau, pois teria obrigado Sua criação a ser
imperfeita e atrasada, afim de manter e multiplicar Suas obras. Portanto, compreendendo o ato sexual
em si e a maternidade como perfeições altamente espiritualizantes (porque são o cumprimento de uma
Lei Divina), achamos que Maria se engrandece perante Deus com a maternidade normal, porque assim
dá demonstração de ser fiel e obediente cumpridora da Vontade Divina. Compreendendo bem esse
problema, o jesuíta padre Teilhard de Chardin atribui à sexualidade um sentido cósmico e afirma que
“o mundo não se diviniza por supressões, mas por sublimação”, e ainda: “que o homem e a mulher
tanto mais se unirão a Deus, quanto mais se amarem”, não vendo apenas “o objetivo admirável mas
transitório da reprodução”, mas “o de dar plena expansão à quantidade do amor, liberado do dever da
reprodução”. E diz claramente, sem subterfúgios: “a mulher é, para o homem, o termo susceptível de
impulsionar esse progresso para a frente. Pela mulher, e só pela mulher, pode o homem escapar ao
isolamento, no qual sua própria perfeição se arriscaria prendê-lo” (L'énergie humaine”, édition Seujl,
pág. 93 a 96). Realmente a união sexual dentro do amor é a imagem mais fiel da união do homem com
a Divindade, e por isso os místicos denominam essa unificação do homem com Deus de “Esponsalí-
cio”.
Na profecia de Isaías, o menino seria chamado ‫ץמוד אב‬. Himmanu-El, que significa “Deus conosco”,
exprimindo a grande verdade de que Deus ESTA REALMENTE DENTRO DE NÓS, está CONOS-
CO.

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C. TORRES PASTORINO
Despertando de seu sono, José recebe Maria em sua casa, na qualidade de sua esposa, mas, atesta o
evangelista, “não a conheceu até que ela deu à luz um filho”. Nada pode deduzir-se, com segurança, do
que ocorreu posteriormente ao nascimento do filho. A frase não no autoriza. As expressões latina do-
nec, grega έώς ού , e hebraica 'ad ki, negam a ação até aquele momento, mas não obrigam a supor-se o
contrário daí por diante. Por exemplo: “O corvo não regressou à arca até que as águas secassem” (Gên.
8:7) não obriga a acreditar que ele aí tenha regressado depois que se secaram. Então, o que ocorre de-
pois não é afirmado.
Sob a figura dos fatos que narra, revela-nos Mateus o que normalmente ocorre com o intelecto (José)
quando recebe o impacto da revelação por parte da intuição (Maria;): assusta-se, raciocina, pequire,
medita, e não consegue ter outra saída senão a de recusar o que lhe traz a intuição.
Muito bem apresentado o fato, para descrever a luta intelectual das criaturas e sua resolução final:
repudiar as “loucuras” da intuição. Na realidade, vemos, pela narrativa dos “fatos”, que a intuição
recebeu a revelação do espírito (Eu interno), ANTES de unir-se ao intelecto: foi ela a primeira a
“conceber” a idéia. E a “concebeu” virginalmente, por obra do Espírito (Eu interno) e não por in-
termédio de outro qualquer homem.
No entanto, quando há real sinceridade intelectual (sendo “justo”), aparece um auxílio, e por vezes de
modo imprevisto. Com José deu-se o fato fora do corpo denso. Quando à noite se achava o intelecto
desprendido do cárcere da caixa craniana no cérebro, e portanto estando ampliada sua visão com-
preensiva, ele intelecto vê, e aceita, porque compreende que a intuição foi iluminada e concebeu “pelo
espírito”, e não por divagações traiçoeiras. Ao verificar esse fato de suma importância, o intelecto
aceita unir-se à intuição, aceitá-la “como esposa” isto é, na maior intimidade e fusão de dois em um,
até que possa nascer o fruto anunciado.
Todavia a união não é ainda total e perfeita. Só o será quando aparecer a realidade do filho; por isso
diz o evangelista: “não a conheceu enquanto não lhe nasceu o filho”. Só aí é que o intelecto se unifica
à intuição, para que ambos usufruam da felicidade incomensurável da presença de “DEUS CONOS-
CO”, do Cristo interno manifestado às criaturas.
Não há negar que os segredos revelados pelos Evangelhos, como por todos os livros sagrados da Hu-
manidade, são feitos através de fatos reais e de narrativas maravilhosas. As palavras são escritas de
tal forma, os pormenores descritos com tal cuidado, que o leitor desprevenido apenas lê e compreende
o que está realmente escrito, e não avança para o sentido profundo e místico que essas palavras que-
rem ensinar. Por isso Jesus ensinava “em parábolas”, e seus discípulos lhe seguiram fielmente os
ensinamentos, para que a profundidade dos conhecimentos não atordoasse nem atordoasse aqueles
que “não podiam suportar” (João, 16:12), e pura que só fossem revelados quando “os tempos fossem
chegados” (Mat. 24:33). Mas é mister não perder de vista que as palavras dele “são espírito e vida”
(Jo. 6:63).

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SABEDORIA DO EVANGELHO

NASCIMENTO DE JESUS
Luc. 2:1-20
1. Naqueles dias foi expedido um decreto de César Augusto, para que todo o mundo fos-
se recenseado.
2. Este recenseamento foi primeiro (antes) do que se fez no tempo em que Quirino era
governador da Síria.
3. E todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade.
4. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Nazaré, à
Judéia; à cidade de David, chamada Belém, por ser ele da casa e família de David,
5. para alistar-se, acompanhado de Maria, sua noiva, que estava grávida.
6. Estando eles ali, completaram-se os dias de dar à luz,
7. e teve um filho primogênito, e o enfaixou e o deitou em uma mangedoura, porque não
havia lugar para eles na hospedaria.

Voltemos ao episódio, que comentamos em Mateus, observando as divergências do texto de Lucas.


Este começa por situar historicamente o fato: estávamos sob o reinado de Herodes, que faleceu no ano
4 A.C., ou seja, no ano 750 de Roma (A.U.C.) conforme narram Josefo (Antiquit. Jud., 17,8,1 e 17,
9,213 e Bellum Jud. 1,33,1 e 8; e 2.6.4) isto é, nos primeiros meses do ano 4 A.C. Pois sabemos que
faleceu dias após um eclipse da lua {Antiq. Jud. 17.6.4 § 187), que ocorreu entre 12 e 13 de março de
4 AC. (cfr. Scheirer, l.c. pág. 416). Estaríamos, portanto, à época da narração de Lucas, no máximo no
ano 5 A. C. ou 749 de Roma. Precisaremos mais a data, verificando tratar-se do ano 7 A.C. (ou 747 de
Roma).
Outra referência histórica é o recenseamento ordenado por um edito de César Augusto (Otávio) que se
iniciou no Egito no ano 10-9 A.C. (cfr. Grenfell & Hunt, Oxyril/,Chus papyri, tomo 2, pág. 207-214),
continuado na Gália (cfr. Dion 53, 22, 5) e na Síria, por Quirino {cfr. Corpus Inscript. Lat. 3, 6687) no
ano 7 depois de Cristo. Trata-se, pois, aqui, de outro recenseamento anterior, realizado por Sentius
Saturninus, Legado imperial na Palestina, de 8 a 6 A.C. {cfr. Tertuliano, Patrol. Lat. vol. 2, col. 405, e
Schurer, Geschichte des judischen Volkes, tomo 1, pág. 321). Isto fortalece a hipótese do ano 7 A.C.
para o nascimento de Jesus.
Diz Lucas que “todos iam alistar-se, cada um à sua cidade”, e por isso José e Maria seguiram viagem
para Belém de Judá, cidade de David. Esse princípio não vigorava do Direito Romano, embora Gaius
Valeri us Máximus, em 103 (depois de Cristo) tivesse ordenado no Egito (cfr. Pap. Lond. 3, pág. 125),
que os cidadãos “se dirigissem para a sede do município a fim de alistar-se”. Mas é diferente: é a sede
do município, e não a cidade de origem. Ora, não era esse o caso de José, porque Belém não era a sede
do município de Nazaré.
O fato de ter-se feito acompanhar de Maria (ainda noiva, segundo Lucas, já sua esposa, segundo Ma-
teus) pode explicar-se por ser ela também da “casa e família” de David.
Em Belém completa-se o tempo de Maria, tendo-lhe nascido o filho primogênito. A notificação de que
Jesus é o primogênito não implica na necessidade de que posteriormente viesse a ter outros filhos. A
expressão é autônoma e tem em mira salientar que Jesus era o bekor, que pertencia a Deus, devendo-
lhe ser consagrado desde o nascimento (cfr. Êx. 13:2 e 34:19).

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O evangelista diz que o menino “foi colocado em uma mangedoura, porque não havia lugar para eles
na hospedaria”. A hospedaria, ou kân, era um abrigo rústico para os viajantes.
O termo φάτνη (mangedoura) refere-se à mangedoura fixa, que podia estar instalada numa gruta (se-
gundo a tradição oral e o “proto-evangelho” de Tiago, n.º 18), ou o estábulo interno da habitação,
onde, no rigor do inverno, se guardavam os animais; consistia num quarto construído em continuação
da casa, numa “puxada”, em que podiam abrigar-se também pessoas com relativo conforto; e real-
mente isso ocorria, quando os lugares da casa já estavam todos tomados.
A tradição (por falar-se em estábulo e mangedoura) enriqueceu a narrativa de Lucas com o pormenor
lendário de que Jesus foi colocado entre um boi e um jumento. Inspirou-se a tradição também em Isaí-
as (1:3) e em Habacuc (3:2), de acordo com o texto dos Septuaginta e da Ítala: “serás conhecido no
meio de dois animais”, (cfr. Orígenes, Patrol. Graeca, vol. 13, col. 1832 e Jerônimo, Patrol. Lat. vol.
22, cal. 884).
De acordo com os comentários acima, não era praxe romana a exigência de que os cidadãos se loco-
movessem para ser recenseados na cidade de seu nascimento. Eminentemente práticos, desejando
sempre eficiência e rapidez nos resultados, não podiam ficar sujeitos a grandes movimentações de
massas populares, que retardariam os negócios. Pequenos comerciantes e agricultores não poderiam
abandonar seus campos e suas lojas para transladar-se (com que recursos?) a localidades por vezes
distantes, para simplesmente submeter-se a um censo. Seria uma exigência impraticável até mesmo na
época moderna, com a facilidade de transportes. Imaginemos uma ordem dessas em nossos dias: qua-
se a totalidade dos brasileiros teria que transladar-se para a Europa ou a África, para serem recense-
ados... Não seriam os juristas (e que juristas!) romanos que determinariam esse absurdo, há dois mi-
lênios. José teria que viajar três dias a pé, abandonando seus afazeres, e isso só porque um de seus
ascendentes nascera em Belém, havia mais de MIL ANOS! E por que não teria de ir a Ur, na Caldéia,
onde nascera seu ascendente Abraão?
De tudo isso, deduzimos que o fato narrado pela frase do evangelista oculta um símbolo altamente
místico e expressivo.
Com efeito, na cidade de Belém havia uma escola iniciática de grande elevação espiritual, mantida
pelos essênios, e tradicional no profetismo judaico. Era Belém, de acordo com o significado etimoló-
gico da palavra, a “Casa do Pão”, mas do Pão Espiritual, que o candidato a união com Deus devia
frequentar antes do Encontro Sublime. Para essa escola dirigiu-se o intelecto (José) acompanhado da
intuição (Maria), que já estava “grávida” do espírito, pejada de idéias e sensações espirituais a fim
de preparar-se devidamente em Belém para que se desse o “nascimento do menino”.
Notemos que o nascimento se dá pela intuição, só mais tarde atingindo o intelecto.
Belém de Judá, diz o evangelista, era a cidade de David, ou seja, traduzindo o sentido das palavras:
“a casa do pão (espiritual) de louvor a Yahweh, era a cidade do “Bem-Amado” (David), o Santuário
do Amor feito homem.
Observemos, entretanto, que a “ida de José a Belém”, cidade dos antepassados, exprime uma reme-
moração das vidas anteriores, uma visão de conjunto de todo o caminho evolutivo já percorrido pelo
espírito, que, antes do passo final, deve remontar às suas origens mais remotas a partir do momento
em que penetrou o reino-hominal. Essa interpretação será confirmada pouco mais adiante, quando o
falarmos da genealogia de Jesus.
Estando, então, José e Maria (o intelecto e a intuição) no ambiente propício, dá-se finalmente o pri-
meiro encontro com Deus dentro de nós (Emanuel = Deus conosco). Mas notemos que eles estavam
sós, pois não haviam encontrado lugar nas estalagens. Para dizer que ninguém, nenhum agrupamento
humano, pode ajudar à eclosão de união mística. Somente no isolamento da solidão consegue a cria-
tura unir-se ao Criador. Por isso, o intelecto e a intuição se afastam de todos, penetram no santuário
do Pão Espiritual, e se recolhem aí num ambiente simples: a um estábulo. Por que “estábulo”? Exa-
tamente aí reside outra lição. O estábulo é local próprio de animais. E o encontro se dá quando o es-

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SABEDORIA DO EVANGELHO
pírito se encontra no corpo animal, isto é, o corpo denso, constituído de células, que são verdadeiros
“animais” para o espírito, para o Eu Profundo.
Quando se dá a união, quando nasce o menino (o “homem novo”), a intuição o deita na “mangedou-
ra”, ou seja, coloca-o no lugar em que os animais se alimentam. E onde se alimentam de compreensão
os animais-homens, senão no cérebro, sede do intelecto? É O cérebro de fibras nervosas que alimenta
de idéias o homem, ainda animalizado, até que ele atinja as culminâncias da mente, através da intui-
ção.
A intuição, pois, deita o menino no intelecto (Maria entrega o filho a José), e a criatura vê descer até
sua pequenez o Infinito de Deus.
Símbolos maravilhosamente descritos, com sublime transcendência e objetividade singela, jamais al-
cançados em qualquer livro simbolista da literatura mundial.
Por causa desse simbolismo, compreendemos a ânsia das igrejas tradicionais em defender a tese da
virgindade de Maria. O que de início se queria demonstrar, porque é a realidade, é que o encontro
com Deus só pode dar-se virginalmente, isto é, sem interferência de quem quer que seja. Nenhum
mestre pode produzir no discípulo o encontro místico: só a Centelha Divina, só o Espírito da própria
criatura, é que realiza o nascimento. Então, a concepção é realmente “virginal” e produto de “um
espírito”, não por obra de homem. Para defender essa idéia real e sublime, e fazê-la permanecer lím-
pida e clara através dos séculos, as igrejas (mesmo que tivessem perdido a percepção do sentido ínti-
mo) tinham que forçar o simbolismo através dos fatos, para deixar bem cristalino para as gerações
futuras o ensinamento contido no Livro Santo. Em vista disso, “carregaram” as cores do quadro, para
que O ensinamento se não perdesse nem maculasse através dos séculos. E dessa forma, todos os que
tivessem “olhos de ver , ouvidos de ouvir e coração de entender” pudessem ser esclarecidos: não adi-
antaria buscar “fecundação” em nenhum mestre, porque o nascimento é virginal (“quando vos disse-
rem eis aqui o Cristo ou ei-lo ali, não acrediteis”, Mat. 24:33-26).
Evidentemente, o nascimento só poderá dar-se “quando se completarem os dias”, isto é, quando o
amadurecimento tiver chegado a termo; e o “filho” é sempre o “primogênito”, já que, realizado numa
existência, permanecerá o mesmo durante toda a eternidade (seu reino não terá fim. Luc. 1:33).

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ANJOS E PASTORES
Luc.2:8-14
8. Naquela região havia pastores que viviam nos campos e guardavam seus rebanhos
durante as vigílias da noite.
9. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor brilhou ao redor deles, e en-
cheram-se de grande temor.
10. Disse-lhes o anjo: “não temais, pois vos trago uma boa notícia de grande alegria, que
o será para todo o povo,
11. e é que hoje vos nasceu. na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor;
12. e eis para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada numa
mangedoura”.
13. De repente apareceu com o anjo uma multidão da milícia celeste, louvando a Deus e
dizendo:
14. “Glória a Deus nas maiores alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade”.

Diz o evangelista que os pastores estavam “no campo”, onde “viviam”. Realmente, em torno da cidade
de Belém havia numerosas pastagens, onde era hábito viverem os pastores em tendas, a cuidar dos
rebanhos. Todavia, após as grandes chuvas de novembro e no rigor do inverno, já nos fins de dezem-
bro, não era provável que lá permanecessem: já deviam ter recolhido os rebanhos aos currais desde
novembro. Daí deduz-se que o nascimento de Jesus não deve ter ocorrido em dezembro.
Sabemos, com efeito, que só muito mais tarde, em Roma, para “aproveitar” a festa de Mitra (natalis
invicti solis”, nascimento do Sol invicto (ou seja, a entrada do sol no solstício do inverno) festejado em
25 de dezembro, é que a igreja de Roma, por volta de 354 A.D. vulgarizou essa data a toda a cristan-
dade, contrariando muitas outras tradições locais que festejavam o natal em datas diferentes. (Cf. Ca-
lendarius Philocalus, publicado por Theodor Mommsen, no Abhandlungen d Sachs Alcad. d. Wis-
sensch em 1850). Nessa época os bispos da Síria e da Armênia acusaram os romanos de “admiradores
do sol” e “idólatras”.
O anunciador é chamado “anjo”, e o verbo empregado por Lucas έφίστηµι, é muito usado nos autores
profanos para exprimir a aparição dos espíritos (a que eles chamavam “divindades” ou “deuses”, tal
como o sânscrito os chama “devas”, da mesma raiz).
O anjo dá-lhes uma “boa notícia”, o que corresponde ao verbo grego εύαγγελίτοµαι , frequentemente
usado por Paulo e por Lucas, mas que só aparece uma vez em Mateus (11:5) numa citação dos LXX.
Aí também apresenta o mesmo sentido (cfr. 2 Sam. 1:20; 1 Crôn. 10:9.Isaías, 40:9; 52:7; 60:1).
Também a palavra Salvador Σωτήρ é a primeira vez que aparece em o Novo Testamento. Mateus e
Marcos não na empregam. Lucas emprega-a aqui e em Atos (5:31 e 13:23) e João em 4:42. Entretanto
é muito frequente em Paulo. No Velho Testamento a palavra se refere sempre a Yahweh.
Aparece, a seguir , aos pastores, um grande grupo (“milícia”) de anjos, que cantam o célebre versículo,
sobre o qual se estabelecem discussões.
Trata-se de um dístico em cuja primeira parte se celebra a glória de Deus nas maiores alturas, e na se-
gunda parte a paz, na Terra, aos homens de boa-vontade. A polêmica nasceu de uma variante dos códi-
ces, pois o Sinaítico, o Alexandrino, o Vaticano, o de Beza, e as versões latinas e góticas trazem o ge-
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nitivo εύδοиιας, ao passo que o Régio, o de Wolfenbuttel, o de Tischendorf, o Sangalense, o de Oxford
e muitas versões orientais trazem o nominativo εύδοиια. Os que seguem a segunda lição, lêem: “Paz
na Terra e Boa Vontade aos homens”. Mas essa leitura quebraria o ritmo do dístico, além do que seria
indispensável, no grego, a partícula иαί (et), antes do terceiro membro do já então tríptico. Preferível,
então, a lição tradicional, mesmo porque Deus tem boa-vontade para com todas as Suas criaturas, pois
“não tem acepção de pessoas”; mas só lhe podem recebera paz, aqueles que têm boa-vontade e se vol-
tam para Ele. É o exemplo que tantas vezes demos: a água jorra indistintamente para todos, mas o copo
que estiver emborcado jamais se encherá, ao passo que se o virarmos de boca para cima, ele se encherá
da água. Deus dá a todos igualmente, mas só recebem aqueles que “se colocarem em posição de rece-
ber”. A Lei Divina é a mesma em todos os planos e não tem exceções.
O ensinamento é de grande profundidade.
Verificado o Encontro, que se realiza no mais oculto do coração, embora este ainda esteja mergulha-
do no corpo animal de carne (na estrebaria), o recém-nascido é colocado no intelecto, que alimenta
de luzes o corpo animal (na mangedoura), e daí expande suas luzes para todo o corpo. Nessa “regi-
ão” há pastores que guardam o rebanho, isto é, há o sangue (“o sangue é a vida”, Deut. 12:23); com
efeito, é o sangue que guarda e alimenta todo o metabolismo e a vida no microcosmo, como um “bom
pastor” que custodia seu rebanho (as células do corpo físico). Ao sangue aparece, por meio do siste-
ma. nervoso, o “anúncio” do extraordinário e divino fato. No primeiro momento, o sangue se retraí
aterrorizado (a criatura empalidece), mas depois que recebe o aviso, se acalma, porque vem a saber
que na Casa do Amado (na “cidade de David”) - o coração - nasceu o Cristo que é o Salvador , e que
lá se encontra sob a forma de uma criança envolta em faixas. Realmente, o Encontro se dá na “célula-
mônada” que está fixa no ventrículo esquerdo do coração (exatamente no nó de Kait-Flake e His).
Ora, o sangue poderá dar-se conta desse nascimento, ao encontrar o “menino” espiritual, envolto em
faixas (envolto em matéria), cercado do intelecto (José) e da intuição (Maria), que descem ao cora-
ção, na meditação profunda, mergulhando em si mesmo. Só quando a mente desce ao coração pode
encontrar o Eu Profundo, a Centelha Divina, que lá permanece em estado latente, mas que nascerá
um dia.
Ao entrar nesse local sagrado, depois de percorrer outros caminhos, e já purificado pela hematose
nos pulmões, o sangue se regozija com o louvor a Deus, que ali jaz “aniquilado em forma humana”, o
infinito dentro de uma célula, o Verbo feito carne, e que se manifesta aos homens, que visita “seu
povo”. Aqueles que experimentaram o “Encontro Supremo” percebem, com iniludível clareza que sua
circulação sanguínea se acelera e “responde” ao apelo de louvar a Deus. De modo geral, é nessas
circunstâncias que percebemos a diferença entre um corpo comum e o corpo de um asceta, totalmente
espiritualizado, embora ainda sujeito a todas as vicissitudes e necessidades carnais. De qualquer for-
ma, no entanto, o próprio corpo do místico irradia, através da carne, a espiritualização interna.
Por isso o fato tem também repercussão externa. Qualquer pessoa que tenha a intuição desenvolvida,
mesmo que não seja no grau máximo, percebe, sente, que aquela criatura teve o encontro, vive em
união com Deus. E a criatura que experimentou essa felicidade não precisa convocar discípulos,
adeptos e sequazes: todos a procuram espontaneamente, porque a intuição lhes avisa: “os anjos do
Senhor” lhes revelam, sobretudo “durante as vigílias da noite”, isto é, nas horas penumbrosas da
meditação, e enquanto eles “guardam os rebanhos”, ou seja, enquanto pacificamente cuidam de seus
afazeres. Avisa-os intuitivamente. Os “pastores” inicialmente temem que possa tratar-se de um equí-
voco. Mas a insistência e a clareza do aviso os alerta de tal forma que eles resolvem abandonar, nem
que seja por curtas horas, os negócios terrenos, para ir também em busca do recém-nascido, do ho-
mem novo que surgiu na Terra, Luz para o mundo, Salvação para todos.
Entoa-se, então, o hino místico da Glória a Deus que nasce nas criaturas, e de Paz às criaturas que
foram visitadas pelo “nascimento” de Deus em seus corações.
Convém aqui salientar que esse “nascimento” corresponde, simplesmente a um DESPERTAMENTO.
O Cristo interno, a Mônada Divina, existe em tudo e em todos, no mineral, no vegetal, no animal, no
homem, mas em estado latente, impulsionando-o à evolução, mas sem ser percebido pela própria cri-
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atura. Quando esta descobre o caminho e “entra” no “reino-de-Deus” DENTRO de seu coração, aí
descobre a Mônada Divina, e a ela se unifica no Encontro Sublime. Diz-se que “nasceu” o Cristo in-
terno, secretamente, oculto aos olhos da multidão, colocado num estábulo que é o corpo de carne, e
depois deitado na mangedoura, que é o intelecto, alimentador par excelência do homem-animal.

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A VISITA DOS PASTORES


Luc. 2: 15-20
15. Quando os anjos se haviam retirado deles para o céu, diziam os pastores uns aos ou-
tros: “vamos até Belém e vejamos o que aconteceu. o que o Senhor nos deu a conhe-
cer”.
16. E foram a toda pressa e acharam Maria e José e a criança deitada numa mangedou-
ra;
17. e vendo isso, divulgaram o que se lhes havia dito a respeito desse menino.
18. Todos os que o souberam admiravam-se das coisas que lhes referiam os pastores.
19. Maria, porém, guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração.
20. Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus, por tudo quanto tinham ouvido
e visto, como lhes fora anunciado.

Logo que a visão desaparece de seus olhos - uma verdadeira sessão espírita de materialização coletiva
em pleno campo aberto - os pastores, fortemente impressionados, confabulam entre si, resolvendo ir à
procura do menino, a fim de confirmar as palavras dos anjos.
Não o encontram logo: procuraram mas acabaram encontrando o casal a cuidar do recém-nascido, se-
gundo a descrição que lhes fora feita.
Digno de notar-se a palavra céu (ούρανσς) que exprime o mesmo sentido de nossa palavra atual “céu”
quando queremos exprimir a atmosfera, o ar. Os anjos se retiram “para o céu”, isto é, suas formas ma-
terializadas se dissolvem no ar .
A narração do que ocorrera com eles maravilhou a todos. Maria, impressionada com esses fatos (ρήµα-
τα no sentido de ‫ דכך‬os fixava na memória profunda, conservando-os em seu coração (έντή хαρδία
αύτής). Ainda uma vez verificamos que a sede da mente superior e da memória superconsciente (da
individualidade) reside no coração, porque são atributos do Eu Interno, do Cristo de Deus. Um dia a
própria ciência profana o descobrirá.
Depois do impacto do encontro, todos os glóbulos sanguíneos, os “pastores”, apressam-se a ir a Be-
lém (a Casa do Pão Espiritual), isto é, ao Coração, para visitar a Mônada Divina, o Eu Real que ali
reside no Ventrículo Esquerdo, e que se expande em manifestações de Luz. E todo o sangue se apressa
e em poucas horas, passa por esse ventrículo, homenageando o novo residente que se manifestou, e
que antes estava adormecido no ventre (ventrículo) materno, e que agora despertou para a atividade
viva, que NASCEU na luz da ação do homem novo.
No ardor da visita, após o encontro, o sangue, que primeiro se retirara aterrorizado, começa a agitar-
se. As pulsações se aceleram e aparece a taquicardia típica que, no entanto, não incomoda: é a mes-
ma que se experimenta nos grandes momentos da união sexual, que é a imagem mais aproximada e
semelhante da união divina.
Logo após a passagem pelo coração (no estábulo), o sangue vai ao cérebro (a mangedoura) e lá en-
contra o homem-novo”, as novas idéias que lá fervilham. O sangue se maravilha da transformação da
criatura, de. sua “conversão” e apressa-se a “contar a novidade” a todos os órgãos, a todas as célu-
las do corpo; e estas se admiram do que lhes traz o sangue, das novidades que são anunciadas em
ondas de alegria e vibrações harmônicas de paz, confirmando a palavra do anjo: “uma grande ale-
gria, que o será para todo o povo” (vers. 10).
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Em linguagem científica moderna diríamos que as vibrações das células sanguíneas, ao modificar
suas próprias vibrações em contato com o coração, que se transformou pelos novos pensamentos sur-
gidos, vai elevar as vibrações de todas as demais células, fazendo que estas se modifiquem para me-
lhor, sintonizando com o Homem-Novo, expulsando as aflições e mazelas do corpo físico.
A intuição, porém, (Maria) guarda ciosamente todas essas coisas no âmago de si mesma, e nunca ja-
mais se esquecerá das experiências vividas, e frequentemente medita sobre elas.

FIGURA “OS PASTORES COM JESUS” - Pintura de Guido Reni, gravura de H.B.Hall

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SABEDORIA DO EVANGELHO

GENEALOGIA DE JESUS
Mat. 1:1-17
1. Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de David, filho de Abraão.
2. Abraão gerou a Isaac; Isaac gerou a Jacob; Jacob gerou a Judá e seus irmãos;
3. Judá gerou de Tamar a Farés e a Zará; Farés gerou a Esrom; Esrom gerou a Arão;
4. Arão gerou a Aminadab; Aminadab gerou a Naasson; Naasson gerou a Salmon;
5. Salmon gerou de Raab a Booz; Booz gerou de Ruth a Jobed; Jobed gerou a Jessé;
6. e Jessé gerou ao rei David; David gerou a Salomão, daquela que fora mulher de Uri-
as;
7. Salomão gerou a Roboão; Roboão gerou a Abia; Abia gerou a Asá;
8. Asá gerou a Josafá; Josafá gerou a Jorão; Jorão gerou a Ozias;
9. Ozias gerou a Joatão; Joatão gerou a Acaz; Acaz gerou a Ezequias;
10. Ezequias gerou a Manassés; Manassés gerou a Amon ;Amon gerou a Josias,
11. e Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos, no tempo do exílio da Babilônia.
12. Depois do exílio da Babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; Salatiel gerou a Zorobabel;
13. Zorobabel gerou a Abiud; Abiud gerou a Eliaquim; Eliaquim gerou a Azor;
14. Azor gerou a Sadoc; Sadoc gerou a Aquim; Aquim gerou a Eliud ;
15. Eliud gerou a Eleazar; Eleazar gerou a Matan; Matan gerou a Jacob,
16. e Jacob gerou a José. esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, o chamado Cristo.
17. Assim todas as gerações desde Abraão até David são catorze; também desde David
até o exílio de Babilônia, são quatorze gerações; e desde o exílio em Babilônia até o
Cristo, catorze gerações.

Luc. 3:23-38
23. [Ora. o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos] sendo fi-
lho, como e pensava, de José, filho de Heli,
24. de Matat, de Levi, de Meiqui, de Janal, de José,
25. de Matatias, de Amos, de Naum, de Esli, de Nagal,
26. de Maath. de Matatias, de Semei, de Josee, de Jodá,
27. de Joanan, de Résa, de Zorobabel, de Salatiel, de Neri,
28. de Melqui, de Adi, de Cosam, de Elmadan, de Er,
29. de Jesus, de Eliezer, de Jorim, de Matat, e Levi,
30. de Simeão. de Judá, de José, de Jonam, de Eliaquim,
31. de Melca, de Mená, de Matata, de Natan, de David,
32. de Jessé, de Jobed, de Booz, de Sala, de Naasson,

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33. de Aminadab, de Admim, de Arni, e Esrom, de Farés, de Judá,
34. de Jacób, de Isaac, de Abraão, de Tará, de Nacor,
35. de Seruc, de Ragaú, de Falec, de Eber, de Sala,
36. de Cainam, de Arfaxad, de Sem, de Noé, de Lamec,
37. de Matusalém, de Enoc, de Jared, de Maleleel de Cainam,
38. de Enos, de Seth, de Adão, de Deus.

Conforme observamos, não é só a ordem inversa que faz diferir as duas genealogias. Os nomes variam.
Para termos uma idéia real, vamos alinhar em colunas as genealogias, dando primeiro a de Lucas, e ao
lado a de Mateus:
Deus, - Mená Abia
Adão - Meleá Asá
Seth - Eliaquim Josafá
Enos - Jonam Jorão
Cainam - José Osias
Maleleel - Judá Joatão
Jared - Simeão Acaz
Enoc - Levi Ezequias
Matusalém - Matat Manassés
Lamec - Jorim Amon
Noé - Eliezer Josias
Sem - Jesus Jeconias
Arfaxad - Er
Cainam - Elmadan
Sala - Coram
Eber - Adi
Falec - Melqui
Ragaú - Neri
Seruc - Salatiel Salatiel
Nacor - Zorobabel Zarobabel
Tara - Aminadab Aminadab
Abrão Abraão Naasson Naasson
Isaac Isaac Sala Salmon
Jacob Jacob Booz Booz
Judá Judá Jobed Jobed
Farés Farés Jessé Jessé
Ersom Ersom David David
Arni Arão Natan Salomão
Admim - Matata Roboão
Résa Abiud Naum -
Joanan Eliaquim Amós -
Jodâ Azor Matatias -
Josec Sadoc José -
Semei Aquim Janai -
Matatias Eliud Melqui -
Maat Eleazar Levi -
Nagai Mathan Mathat Jacob
Esli - Heli José
JESUS
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SABEDORIA DO EVANGELHO

Na lista genealógica de Mateus encontramos a divisão em três séries, salientadas pelo próprio autor, de
14 nomes cada uma (embora a terceira só chegue ao número 14 se contarmos na série o nome de Ma-
ria). Isso forma o total de 42 gerações, ou seja, 6 X 7 (Note-se que as letras hebraicas do nome de Da-
vid somam 4 + 6 + 4 = 14) .
Na lista de Lucas (cuja primeira parte do versículo 23 será comentada mais tarde) há grande divergên-
cia de nomes, chegando-se a um total de 76 nomes (entre Abraão e Jesus, Lucas nos dá 56 nomes isto
é, mais 14 do que Mateus). É verdade que dois desses nomes, Matat e Levi, são repetidos duas vezes
na mesma ordem, nos versículos 24 e 29, podendo tratar-se de engano de copista, Tanto assim que
Júlio Africano (Patrol. Graeca vol. 20 col. 93) Eusébio (Patrol. Graeca, vol. 22 col. 896) e Ambrósio
(Patrol. Lat. vol., 15 col. 1594) assim como o manuscrito C, não trazem essa repetição.
Por que essa divergência entre os dois evangelistas? Explicam alguns exegetas que Lucas reproduziu a
genealogia de Maria, pois desde o início é dito: “Jesus, filho como se pensava de José, (era) filho de
Reli” ... por intermédio de Maria; embora seja, neste caso, estranho que não tivesse o evangelista cita-
do o nome da mãe de Jesus.
É de notar-se que, de Abraão (1921 A.C.) a David (1078 A.C.) passaram-se 843 anos, o que corres-
ponde a cerca de 28 gerações, e não 14; de David (1078 A.C.) ao cativeiro de Babilônia (606 A.C.)
passaram-se 472 anos, isto é, cerca de 15 gerações, e não 14; e do cativeiro de Babilônia (606 A.C.) até
Jesus passaram-se 600 anos, ou seja, cerca de 20 gerações, e não 14. Qual a razão dessa divisão “caba-
lística” de Mateus?
Observamos, ainda, que Mateus suprimiu diversos nomes que constavam das “listas oficiais” dos Ra-
binos e mesmo do texto bíblico. Por que?
O estudo que acabamos de fazer, e que nos deixa tantas perguntas sem resposta lógica nem histórica,
leva-nos a conclusões mais profundas.
Antes de atingir o grau de elevação indispensável ao Grande Encontro Interno, a criatura humana
necessita haver passado par numerosas experiências terrenas, em vidas sucessivas sem conta.
De qualquer forma, o número 42, para o qual Mateus chama nossa , atenção, e que nada em de histó-
rico, revela-nos a divisão de 3 séries de 14, ou seja, de 6 séries de 7, divididas de dois em dois. Pode-
mos interpretar como a evolução (depois que atingimos o reino-hominal) dos dois primeiros graus
(corpo físico e duplo etérico), em sete períodos cada um; dois dos segundos graus (corpo astral ou de
emoções e intelecto), cada um com sete períodos; e dois dos terceiros graus (corpo mental e causal)
com sete períodos cada um. Depois que tudo está em ponto, é que pode a criatura atingir o grau su-
premo, o sétimo, no qual ainda permanecerá por mais sete estágios, completando a série mística de 49
(7 X 7) para passar ao grau superior de libertação final das encarnações no mundo animal de prova-
ções evolutivas.
De qualquer modo são numerosas e variadas as vidas que PRECISAM ser vividas.
O mais interessante é o versículo final da série, na qual está resumida a fase final da evolução:

Jacob o homem comum


gerou a José o intelecto
esposo de Maria ligado à intuição
da qual nasceu Jesus a Individualidade,
o chamado Cristo o Eu Interno

Com essa explicação, não queremos dizer, em absoluto, que Jesus tenha encarnado nesses elementos
que são citados como seus ascendentes. Nada disso. O que aí está é apenas um simbolismo para nós, a
fim de compreendermos que um espírito imaturo, não desenvolvido ainda, não poderá penetrar o pór-
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C. TORRES PASTORINO
tico do encontro; antes disso DEVE passar por toda a escala evolutiva humana. Daí o cuidado de to-
dos os mestres, inclusive de Jesus, de “não dar aos cães o que é santo, nem pérolas aos porcos” (
Mat. 7:6) , e de “revelar estas coisas aos pequeninos ( humildes ) escondendo-as dos “sábios” (Mat.
11:25). Quem julga saber tudo ou saber muito, está tão inchado de vaidade que não consegue perce-
ber a voz de Deus, o Espelho e Exemplo da Humildade Máxima que possamos conceber.
Nessas vidas que vivemos, experimentamos todas as situações dentro do nosso Raio específico, da
riqueza à pobreza, da posição elevada à humildade, da atuação virtuosa às quedas que ensinam a
humildade, passando, por vezes, a corpos masculinos e femininos. Por isso, nos ascendentes de Jesus,
encontramos todas as castas: reis e mendigos, mulheres virtuosas e meretrizes, senhores e escravos. A
experiência tem que ser completa. Seria possível, mas nos alongaríamos demais, aprofundar o estudo,
examinando e analisando o significado de cada um dos nomes citados e suas posições históricas.
Vejamos apenas alguns.
Mateus cuidou de sublinhar as divisões com nomes extraídos da história. Assim, dá-nos o ponto de
partida, ou seja, os primeiros passos da Centelha Divina no homem, em ABRAHM, primitivo nome
que significa “pai da exaltação”, mas que posteriormente foi mudado para ABRAHAM, isto é, “pai da
multidão”. (Observe-se, em A-BRAHM o radical de BRAHMA, no induísmo; e se dividirmos AB-
RHAM, o significado de PAI RAHM, o conhecido RA dos Egípcios).
Pai da multidão, ou seja, a origem da matéria que se multiplica na separatividade, onde se inicia a
evolução, desenvolvendo-se o corpo físico e o duplo etérico (o mineral e o vegetal).
O segundo grupo é iniciado com DAVID, cujo nome significa “o bem-amado”: é o princípio e o des-
envolvimento do corpo astral (animal), sede das emoções (do amor) e do intelecto (homem), fazendo
chegar ao clímax as emoções e o raciocínio. Recordemo-nos do início da vida de David, que foi como
PASTOR, amando os animais e vivendo entre eles, e a final de sua vida como REI da criação (Homem
intelectualizado), autor lírico dos Salmos, em que canta intelectivamente a glória de Yahweh.
O terceiro período retrata o espírito nos dois últimos passos, quando, desejando libertar-se, ainda se
vê preso no “Cativeiro de Babilônia” ... Babel significa “confusão”. São os estados de dúvida, de
inquietação, de hesitação do intelecto, que sente não ter capacidade de compreender nem de explicar
o que é divino,. quando descobre que tudo aquilo em que acreditou há milênios como sólida e dura-
douro na matéria, é, de fato, ilusório e passageiro...
O “cativeiro da Babilônia” só chega no final da “era de David”, isto é, quando, estando bem desen-
volvidas as emoções e o intelecto, o espírito pode descobrir que se acha “em cativeiro”. Até então
“adorava” sua gaiola dourada, seu corpo físico, sua intelectualidade ... Mas, feita essa descoberta
fundamental, passa a “sentir” a prisão e a querer libertar-se dela. O espírito volta, então, a viver na
Terra Prometida, e, embora ainda prisioneiro do corpo e das sensações físicas, sabe que pode escapar
de seus domínios, abandonando conscientemente os veículos inferiores, e vivendo na luz gloriosa dos
veículos da individualidade. Começa, aí, sua preparação mais minuciosa para o Encontro e a Liber-
tação Final. Atingido esse grau (a mente e o corpo causal), que é o sexto, já estará a criatura apta
para o passo definitivo, para o nascimento de Jesus, o chamado CRISTO, podendo dizer finalmente:
“Eu e o Pai somos Um”.
Passemos a Lucas. Dá-nos ele 76 gerações, de Adão a Heli.
Recordemos que a palavra Adão (em hebraico ADAM) tem simplesmente o sentido do substantivo co-
mum HOMEM. Não é nome próprio.
Então, diz-nos Lucas que, assim que a criatura sai do reino-animal para o reino-hominal, atingindo a
fase humana (adâmica), ele se encontra na contingência de ter que subir a escala evolutiva, superan-
do sete graus de 11 passos. São os mesmos sete passos de Mateus, apenas fazendo-nos notar que, cada
um desses sete passos compreende MUITAS (10) encarnações e mais uma ... Inclusive o sétimo grau,
que Mateus ensina desenvolver-se após o encontro, e que Lucas diz só se dar após mais dez (muitas)
encarnações, com buscas intensivas.
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De tudo isso, que pode parecer cabalístico, mas que corresponde à realidade interna de nosso compli-
cado microcosmo, deduzimos que o Caminho a seguir é exatamente o que JESUS veio ensinar-nos
com Seu exemplo, e que tão bem foi interpretado e ensinado a nós, sob o véu da letra, nos livros sa-
grados. Logicamente os caminhos são muitos (“quem pode marcar o caminho da águia no céu”?,
Prov. 30:19), e assim também as lições variam ligeiramente de autor a autor. Isso, porém, não signifi-
ca contradição a não ser para aqueles que, não conseguindo alçar vôo, permanecem agarrados à le-
tra como a tábuas de “salvação”. Adverte-nos Paulo que “até o dia de hoje, na leitura do Antigo
Testamento, permanece o mesmo véu, não lhes sendo revelado que em Cristo ele é tirado: contudo, até
hoje, sempre que lêem a Moisés, está posto um véu sobre o coração deles; mas todas as vezes que al-
gum deles se “converter” ao Senhor, o véu lhe é tirado (2 Cor. 3:14-16). E isso porque somos “mi-
nistros não da letra, mas do espírito, pois a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Cor. 3:6). Isto ten-
tamos fazer, agora, para o grande público: levantar uma ponta do véu da letra, que encobre tantas
belezas que estavam ocultas sob os hierogramas dos primeiros discípulos de JESUS, o Mestre por
excelência, o CRISTO manifestado, o Filho de DEUS em forma humana. E assim esperamos que esse
mesmo CRISTO desperte de seu sono milenar em cada um de nós, fazendo-nos Seus instrumentos fiéis,
para que O manifestemos entre os homens, quais “cartas de Cristo, escritas nas tábuas de carne de
nossos corações” (2 Cor. 3:3).

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CIRCUNCISÃO
Luc. 2:21
21. Completados os oitos dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de
Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido no ventre de sua mãe.

Interessante observar que Lucas não afirma ter sido Jesus circuncidado: aproveita-se da citação da lei
da circuncisão no oitavo dia (Gên. 17:12; 21:4; Lev. 12:3), para dizer que, nessa época foi dado ao
menino o nome de JESUS, de acordo com a anterior indicação do anjo.
Essa é uma das provas irrefutáveis da preexistência dos espíritos, e, por conseguinte, da reencarnação:
“antes de ser concebido no ventre de sua mãe”, já existia, já tinha nome. Essa existência anterior é
qualidade inerente a todas as criaturas, pois Jesus é apenas nosso irmão mais velho, “o primogênito
entre muitos irmãos” (Rom. 8:29).
Todos aqueles que penetraram em seu âmago e tiveram contato com a realidade, precisam “circunci-
dar-se”, ou seja, “cortar em redor” de si todas as excrescências, todo APÊGO às coisas passageiras
e ilusórias, a “mayâ” temporária. Essa circuncisão, que corta o APÊGO e a preocupação, não tira,
entretanto, o contato e o interesse pelas outras criaturas de Deus - racionais, irracionais, vegetais e
minerais - mas elimina apenas a cobiça e o agarramento invigilantes a pessoas, animais e coisas.
Mister a renúncia ao mundo material. Não com a fuga cenobítica para o isolamento. Mas ter, como se
não tivesse; possuir, sem ser possuído; usar, como de empréstimo; gerir, como em mordomia; utili-
zar, como administrador que prestará contas; recordando-se sempre que tudo deixaremos aqui e de
que “nada o trouxemos para este mundo e, sem dúvida, nada dele podemos levar” (1 Tim. 6:7). Re-
núncia de coração, destacando-nos das coisas, embora continuando a servir-nos delas; desapegando-
nos das criaturas, embora continuando a amá-las e a servir a elas.

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APRESENTAÇÃO
Luc. 2:22-39
22. Quando se completaram os dias da purificação segundo a lei de Moisés, levaram-no &
Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor,
23. (como está escrito na lei do Senhor: “Todo primogênito macho será consagrado ao
Senhor”) ,
24. e para oferecer um sacrifício, segundo o que está dito na lei do Senhor: “um casal de
rolas ou dois , pombinhos”. ,

Segundo a Lei (Lev. 12:2-5), todas as mães que tivessem seu primeiro filho macho deviam apresentar-
se ao templo, no quadragésimo dia após o parto. Por outra lei, quando esse filho era o primogênito
(bekor), a mãe o deveria levar ao templo pessoalmente, para apresentá-lo e consagrá-lo a Deus (Êx. 13:
2 e 12). Entretanto, como os da tribo de Levi é que tinham como função oficial o sacerdócio judaico
(Núm. 3: 12-13), os primogênitos das outras tribos eram “resgatados” com a oferta de cinco “ciclos”
de prata (Núm. 18:15-16) . Sendo Jesus da tribo de Judá, fez Maria a oferta legal por ele, isentando-o
do sacerdócio oficial.
Em vista disso, Lucas não distingue as duas cerimônias: a purificação de Maria e a consagração de
Jesus, mas engloba-as numa só palavra: o resgate deles.
Segundo a citação feita por Lucas de Êx. 13:2 e 12, onde se lê textualmente: “todo macho que abrir a
vulva será chamado santo para o Senhor”, há uma declaração bastante clara de que o nascimento de
Jesus foi normal, não havendo a “virgindade durante nem pois do parto”, como desejam alguns. Se
realmente os fatos tivessem sido anormais, estaria a Mãe de Jesus dispensada da lei.
Para sua purificação, Maria devia oferecer também um sacrifício Lev. 12:8), que consistia em um casal
de rolinhas ou de dois pombos jovens (borrachos). Essa oferta era uma concessão aos pobres, para
substituir o cordeiro, prescrito aos que tinham posses para comprá-lo.
Após o “corte em redor' de si (circuncisão), há necessidade de na “purificação”, de uma limpeza, em
que o iniciante se livra de todas as impurezas de seu passado milenar, de todos os fluídos pesados que
lhe ficaram aderidos à aura durante as vidas anteriores. E é então que a nova personalidade recém-
nascida poderá ser “apresentada” ao Senhor e a Ele consagrada, como o “primogênito” da individu-
alidade.
Realmente, tendo vivido milhares (ou milhões) de vidas em veículos materiais, a individualidade está
carregada de fluídos materiais densos gestando como que o feto do futuro “Filho do Homem”. E ao
obter o “nascimento do filho”, consegue fazer vir à luz o seu primogênito, e deve “consagrá-lo a
Deus”, como “nazireu”. Daí em diante será chamado “santo”, ou seja, “purificado”, dedicado a
Deus.
Essa apresentação é acompanhada de uma oferta simbólica: um cordeiro, ou para os pobres, um ca-
sal de pombos ou de rolas. Demonstra que aquele que obtém a graça do “Encontro” deverá oferecer
a Deus em sacrifício a “parte animal” do homem, seus corpos da personalidade, como sacrifício ao
Espírito.
Uma vez purificados os veículos físicos (material, etérico, astral e intelectual), são eles apresentados
ao templo interno, como oferenda agradável a Deus. Pois não se conceberia que o novo ser, o Ho-
mem-Novo, desprezasse e abandonasse esses veículos que o serviram durante milênios sem conta.

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Terminada a tarefa deles, de ajuda à evolução do Espírito, nada mais justo que eles sejam oferecidos
a Deus e consagrados como recompensa pelo bem que prestaram. Daí por diante, só o espírito vale; e
a criatura espiritualizada passará a viver no corpo, mas não para o corpo. Viverá no corpo como em
um hotel ou um barraco temporário. Já dizia Cícero (De Senectute, XXIII:84) “saio desta vida como
de uma hospedaria, e não como de minha casa, porque a natureza nos dá um abrigo de passagem, e
não um domicílio” . E Paulo: “enquanto estamos nesta tenda de viagem, gememos aflitos” (2
Cor.5:4) . E Pedro: “É justo, enquanto estou nesta tenda de viagem, despertar-vos com recordações”
( 2 Ped. 1:13) .
Essa “hospedaria”, o veículo animal, é ofertado a Deus, continuando o Homem-Novo a tratá-lo bem e
com gratidão, embora esteja vivendo no espírito, pelo espírito e para o espírito.

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CÂNTICO DE SIMEÃO

25. Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem esse justo e piedoso, que
esperava a consolação de Israel, e estava sobre ele um espírito santo,
26. pelo qual espírito santo lhe fora revelado que não morreria antes de ver o Cristo do
Senhor.
27. E com o espírito foi ao templo; e quando os pais trouxeram o menino Jesus, para fa-
zer por este o que a lei ordenava,
28. Simeão tomou-o nos seus braços e louvou a Deus dizendo:
29. “Agora tu, Senhor, despedes em paz teu escravo, segundo tua palavra,
30. porque meus olhos já viram a salvação
31. que preparaste ante a face de todos os povos:
32. luz para revelação aos gentios, e glória de teu povo de Israel”.
33. Seu pai e sua mãe maravilharam-se do que dele se dizia.
34. E Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe do menino: “Este é posto para queda e
para levantamento de muitos em Israel. e para sinal de contradição,
35. (e também uma espada traspassará tua própria alma), para que os pensamentos de
muitos corações sejam revelados”.

Limita-se o evangelista a dizer que Simeão era “um homem justo e piedoso”, nada mais esclarecendo a
seu respeito. Entretanto, o “Evangelho de Nicodemos” (apócrifo) o chama “grande sacerdote” e a trai-
ção o situa como “muito idoso', embora dizendo que é filho de Hillel (70 A.C. a 10 A.D.) e pai de Ga-
maliel, o que contradiria a tradição a idade provecta. Se aceitássemos essa versão, à época do nasci-
mento e Jesus, Simeão teria de 40 a 50 anos, no máximo.
No versículo 25, Lucas assinala que Simeão aguardava a παρά-λεσιν, isto é, a “consolação” de Israel,
como seus compatriotas . Todavia, sobre ele estava um espírito santo ou bom (em grego, sem artigo) o
qual lhe revelou (observe que, na repetição, aparece o artigo, como se disséssemos em português: “vi
UM- menino; O menino corria” ...) que não desencarnaria sem ver o Cristo de Deus.
Continua Lucas: “e com o espírito foi ao templo”: иαί ήλθεν τώ πνεύµατι είς το ίερόν.
A expressão grega “no espírito” - já o vimos quando comentávamos Luc. 1:17 (veja pág., 32, 2.º pará-
grafo) - tem o sentido associativo ou de companhia. Devemos pois entender “ele foi COM O espírito”
ou “o espírito foi NELE para o templo”.
Em sua outra obra importantíssima (“Analysis Philologica Novi Testamenti Graeci”, editada pelo
Pontifício Instituto Bíblico, Roma, 1960) , o mesmo sacerdote jesuíta Zerwick diz que, neste passo, o
en é causal, isto é: “foi ao templo por causa de um espírito”, ou seja, “impelido por um espírito” .
De qualquer modo, quer consideremos o en “associativo” (foi com um espírito) quer o aceitemos “cau-
sal” (foi impelido por um espírito), o sentido é o mesmo: trata-se de um fenômeno psíquico (mediu-
nismo) em que se manifesta um espírito desencarnado a agir sobre Simeão, revelando-lhe o momento
em que José e Maria levariam o menino Jesus ao templo, para que lá os encontrasse.

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Prossegue Lucas (vers. 27): “ao levarem os pais o menino Jesus” confirmando que, a essa altura, já
estavam casados, e portanto José reconhecera legalmente o filho como seu .
Para que fique bem claro o pensamento do jesuíta padre Maximiliano Zenwick, com o qual concorda-
mos, porque esclarece o texto bíblico de acordo com nossa teoria citamos suas palavras originais, com
a tradução ao lado:
117. Res alicius momenti est volentibus nobis intellegere, É coisa de certa importância para nós compreender como
quomodo Paulus modo dicat nos in Christo (vel in Spiritu) Paulo ora diga estarmos nós em Cristo (no Espírito) ora
esse, modo Christum (vel Spiritum) in nobis esse. De facto Cristo (ou o Espírito) estar em nós. De fato parece ser pe-
tam parva, ne dicam tam nulla, videtur ex mente Pauli dis- quena, para não dizer tão nula, a distinção na mente de Paulo
tinctio esse inter otrumque modum dicendi, ut unum altero entre um e outro modo de dizer, que explica um pelo outro e
explicet et quasi definiat: R 8,9 “vos autem in carne non quase defina: “vós não estais na carne, mas no espírito, se é
estis, sed in spiritu, si tamen spiritus Dei habitat in vobis”. que o espírito de Deus habita em vós” (Rom. 8:9). Então “no
Ergo, “in spiritu” est ille, in quo spiritus est, vel etiam - sicut espírito” está aquele em quem o espírito está, ou também -
Apostolus prosequitur – ille qui “spiritum habet”: “si quis como prossegue o Apóstolo - aquele que “tem o espírito “se
autem spiritus Christi non habet, hie non est eius”. Etiam alguém, todavia, não tem o espírito o Cristo, esse não é dele”
apud Io Dei (Christi) in nobis et nostra in Dei (Christo) per- Também em João a permanência de Deus (Cristo) são dois
mansio sunt ejusdem rei duo aspectus correlativi et insepa- aspectos correlativos e inseparáveis da mesma coisa. Cfr. I
rabiles ef I Io 10 4, 13, 15, 16; Io 6, 56; 15, 4, 5; Io 8, 44b João 4:13, 14, 16; João 6:5, 15:4, 5; João 8:44b diz-se de
de santana dicitur “in veritate non est, quia non est veritas in satanás: “não nele”. Assim esse en (não sem influxo simita)
eo”. Ita illud en (non sine influxu semitico) reducitur fere ad reduz-se quase à idéia geral de associação ou companhia que
ideam generalem associationis vel comitatus, quam latine melhor traduzimos em latim (em português) pela preposição
potius redimus pet praepositionem “cum”: “homo cum spi- “com”: “homem com espírito imundo”, “mulher com fluxo
ritu immundo”, “mulier cum fluxu sanguinis”, (Graecitas de sangue”.
Biblica, edita a Pontificio Instituto Bíblico, Romae, 1960).

Simeão segura o menino em seus braços e entoa o “cântico” que é um dos mais belos. Dizendo-se “es-
cravo” ( δούλος ), ele se dirige a Deus, dando-lhe o título de “Senhor dos escravos”, ou seja, ∆έσποτα,
e diz-lhe que “agora pode libertá-lo, despedi-lo em paz, porque seus olhos contemplaram a salvação,
preparada diante de todo o povo; e dá a Jesus o título de LUZ para a revelação ( άποиάλυψις = levan-
tamento de um véu) dos gentios e glória de Israel”.
No versículo 33, Lucas dá a José, taxativamente, o título de PAI, revelando sua admiração, e a de Ma-
ria, diante do que estavam ouvindo.
Simeão (vers. 34), voltando-se para eles, os abençoa; e dirigindo-se a Maria, revela-lhe o que ocorrerá
com o menino: “ele foi colocado (cfr. Fil. 1:16 e 1 Tess. 3:3) para queda e levantamento (ressurreição)
de muitos, provocando discussões e formando partidos pró e contra (cfr. Is. 8:14-15), e que lhes revela-
ra o “coração”, isto é, o pensamento íntimo. Acrescenta a seguir que “uma espada de dor traspassará o
coração de Maria”: a dor de ver que seu filho seria recusado, não se lhe reconhecendo a missão divina,
e depois caluniado, perseguido, surrado e assassinado.
Todas as vezes que uma criatura se alçou a essa elevação espiritual, encontra irmãos que lhe perce-
bem a grandeza de alma, a profundidade do mergulho (batismo), a seriedade do contato. Homens ou
mulheres, geralmente já bastante evoluídos (“de idade provecta” ) SENTEM e se tornam felizes por
encontrar o novo Homem. Tomam o menino em seus braços - lindo eufemismo para exprimir a intimi-
dade do amplexo - e louvam a misericórdia divina .
Sabem, também, e muitas vezes o dizem, que o espírito da criatura que teve o Sublime Encontro será
“traspassado por uma espada de dor”, atacado pelos que ainda vivem para a matéria, sem sequer
conhecerem que existe o Espírito, ou mesmo pelos que, teoricamente crendo na imortalidade, vivem
enclausurados no dogmatismo estreito, julgando-se donos absolutos da verdade total, e perseguem os
que “não lêem pela mesma cartilha”. Maria sofreu, por parte do clero de sua época, ao ver seu filho
assassinado; outros sofrerão a mesma coisa em tempos posteriores, porque os homens são os mesmo
fanatizados, enquanto não descobrem a liberdade dos filhos de Deus. Ainda não aprenderam que “o
Senhor é Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí HÁ LIBERDADE” (2 Cor. 3:17).

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SABEDORIA DO EVANGELHO
As perseguições vêm, não há duvidar. E a dor daquele que já viu, sentiu, “apalpou” a Realidade é
imensa, ao verificar que os “cegos” que se debatem na angústia das ilusões não conseguem perceber
e, por isso, não aceitam a palavra e o testemunho dos que “sabem”.
Daí o silêncio de que se rodeiam os que têm esse contato: os capazes sabem, sem que ninguém lhos
diga; aos outros, não adianta dizer: “não se dão pérolas a porcos nem coisas santas aos cães” (Mat.
7:6) O exemplo de Simeão e Ana é típico, para mostrar que os “capazes” sentem a verdade, ou por
intuição própria ou pela revelação de espíritos amigos.

36. Havia também uma profetisa, de nome Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser (era ela
de idade avançada, tendo vivido com seu marido sete anos, desde a sua virgindade)
37. viúva de oitenta e quatro anos, que não deixava o templo, mas adorava noite e dia em
jejuns e orações.
38. Esta, chegando na mesma hora deu graças a Deus e falou a respeito do menino a to-
dos os que esperavam o resgate de Jerusalém.
39. Quando se tinham cumprido todos os preceitos de acordo com a lei do Senhor, re-
gressaram para a Galiléia, para a sua cidade de Nazaré.

Aparece agora em cena outra figura, da qual o evangelista procura dar os traços mais característico.
Ana, filha de Fanuel, viúva de oitenta e quatro anos, que estivera casada apenas sete anos, e que per-
manecia no templo em jejuns e orações, como era hábito das pessoas piedosas, quando de idade pro-
vecta ( cfr, 1 Tim, 5: 5). Ana era médium (profetisa) e percebeu a identidade de quem ali se achava.
Dirigiu-se ao pequeno grupo que louvava a Deus e depois saiu a narrar a todos o aparecimento do
Messias, tão ansiosamente aguardado.
Cumpridas as leis Mosaicas, a família regressa à sua cidade de Nazaré, na Galiléia .

O caso de Ana chama-nos a atenção para a dedicação que, depois à e certa idade, as criaturas fazem
de suas vidas a Deus. Embora durante a juventude vivam a “vida do mundo”, depois de algum tempo,
sentindo-lhe o vazio, se dedicam à vida de “orações e jejuns”, aguardando o Messias. Todo o simbo-
lismo da vinda do Messias é assim compreendido: é o nascimento do Cristo Interno (do Cristo de
Deus) que vem resgatar “o povo de Israel”, isto é, as criaturas que, mesmo pertencendo a Deus, estilo
mergulhadas na matéria “combatendo a Deus” (sentido etimológico da palavra “Israel”). Aspiração
comum a toda a humanidade, é mais sentida e mais forte depois que chegaram as desilusões da vida
terrena, com o afastamento de tudo o que se tem de mais caro: bens, riquezas, situações, amores, mo-
cidade, cultura. Quando tudo aparece realmente como é - ilusório - então o espírito se volta para
Deus e fica ansiosamente aguardando o aparecimento do Messias DENTRO DE SI MESMO.

*
* *

Essa narração discorda da de Mateus que veremos a seguir. O que há de comum entre ambas é o nas-
cimento em Belém e a posterior moradia em Nazaré, embora Lucas a coloque de imediato e Mateus a
situe bem mais tarde.
No entanto, observamos que:
a) Mateus ignora a homenagem dos pastores:

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C. TORRES PASTORINO
a circuncisão,
a purificação,
a apresentação ao templo,
o encontro com os dois profetas;
b) Lucas desconhece a homenagem dos magos:
o massacre das crianças,
a fuga para o Egito.
A que atribuir essas divergências? à diversidade das fontes? Se a fonte de Lucas foi Maria, como ad-
mitir a omissão de fatos tão importantes?
E quando se terão realizado esses acontecimentos narrados por Mateus? Não há dúvida de que só de-
pois da apresentação, porque nos quarenta dias entre esse fato e o nascimento, não haveria tempo, dado
que Maria não poderia ter saído de casa.
Como conciliar o regresso a Nazaré, que em Lucas aparece natural (regressaram “para sua casa”) e em
Mateus como a ida a um lugar desconhecido, por indicação de um anjo?
As explicações simbólicas dar-nos-ão as razões.
O Eu Profundo ou Cristo Interno é o mesmo Cristo de Deus em todas as criaturas. Entretanto o cami-
nho para alcançá-lo varia de pessoa a pessoa.
A experiência de um pode ilustrar o que com ele ocorreu, mas não pode ser tomada qual modelo a
imitar, porque as estradas da periferia ao centro são tantas, quantos os raios possíveis dentro de um
círculo.
Cada individualidade se plasmou através de milênios, na constituição dos próprios hábitos, diferentes
dos demais. E a evolução conduzirá cada um por seu caminho especial. Não é de admirar, pois, que,
escrevendo sobre o mesmo assunto, Lucas divirja de Mateus nos fatos, que, para o Espírito, pouca ou
nenhuma importância têm. Não são livros “históricos” que estamos lendo, mas obras que ensinam,
através dos fatos, realidades concretas e objetivas do modo pelo qual poderá alguém atingir Deus
dentro de si.
Assim, Mateus escolhe fatos e narra acontecimentos que esclarecerão certos pormenores da árdua e
longa busca do abismo do Eu, enquanto Lucas prefere outros que, embora levando ao mesmo objetivo,
perlustram outras sendas.
Mais acidentado, porque mais externo e glorioso, em Mateus; mais sereno, porque mais interno e sin-
gelo, em Lucas. Mais “terreno” e “ativo” no primeiro (magos, massacre, fuga); mais “celestial” e
“místico” no segundo (anjos, lei, templo, profetas).
Para o sentido esotérico e profundo, simbólico e místico, nada importam essas divergências superfici-
ais de personalidade, e sim o significado oculto que se depreende das palavras veladas.
Verificamos, pois, que aquele que se aventura na estrada abismal que leva às profundidades altíssi-
mas do Eu Supremo, pode trilhar várias sendas.
Uma (ensinada por Mateus) se dirige através do movimento personalístico, atraindo a atenção de
magnatas e dignitários que se assustam com a novidade e começam a mover perseguições e a buscar
a eliminação da nova força que, na sua humildade (a palha do presépio) ameaça a segurança dos
tronos e os privilégios dos potentados. Há necessidade, então, de buscar-se um refúgio no silêncio da
solidão, exilando-se para outros ambientes.
A outra (revelada por Lucas) caminha pelo lado mais ascético, menos mundano, e encontra na oração
(anjos do Senhor , templo, profetismo ou psiquismo) a sua máxima expansão. Aí não há perseguições
nem necessidade de fuga. A jornada é mais tranquila pelos atalhos do espírito, cortando-se logo o
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SABEDORIA DO EVANGELHO
apego à matéria (circuncisão) e consagrando-se a vida a Deus (apresentação) onde se encontram os
“arautos do céu” (médiuns ou profetas) que lhe apresentam palavras de conforto e de advertência.

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C. TORRES PASTORINO

VISITA DOS MAGOS


Mat. 2:1-12
1. Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia. no tempo do rei Herodes, vieram do oriente
alguns magos a Jerusalém,
2. perguntando: “onde está o recém-nascido Rei dos Judeus? porque vimos seu astro no
oriente e viemos adorá-lo”.
3. O rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e com ele toda Jerusalém.
4. E convocando todos os principais sacerdotes, os escribas (e os anciãos} do povo, per-
guntava-lhes onde havia de nascer o Cristo.
5. E eles lhe disseram: “em Belém da. Judéia, porque assim está escrito pelo profeta :
6. “E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum o melhor entre os lugares princi-
pais de Judá, porque de ti sairá um condutor que há de pastorear meu povo de Is-
rael”.
7. Então Herodes chamou secretamente os magos e deles indagou com precisão o tempo
em que o astro havia aparecido.
8. E enviando-os a Belém disse-lhes: “Ide informar-vos, cuidadosamente acerca do me-
nino, e quando o tiverdes encontrado, avisai-me para que eu também vá adorá-lo”.
9. Os magos, depois de ouvirem o rei, partiram; e que o astro que viram no oriente os
guiou até que vindo, parou sobre o lugar onde estava o menino.
10. Ao avistarem o astro, ficaram grandemente alegres.
11. E entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe; e prostrando-se o adora-
ram; e abrindo se cofres, fizeram-lhe ofertas de ouro, incenso e mirra
12. E recebendo (eles) a resposta no sono, que não voltassem a Herodes, seguiram por ou-
tro caminho para sua terra.

Para Mateus, Jesus nasceu em Belém e aí ficou até posterior “fuga” para o Egito. Tanto que a ligação é
direta. Não houve a viagem Jesus com seus pais a Jerusalém, para apresentação ao templo, acordo com
a lei mosaica.
Mas, examinemos os pormenores.
Jesus nasceu “no tempo do rei Herodes”, o qual (já vimos) faleceu no inicio do ano 4 A.C. Então, o
nascimento ocorreu, no mínimo, no ano 5 A.C. (749 de Roma). Mais abaixo continuaremos o raciocí-
nio ao falarmos do “astro”.
Trata-se de um aceno histórico (raro em Mateus) que só se preocupa com o registro dos fatos que sir-
vam de apoio às profecias do Velho Testamento - já que a finalidade exotérica de seu evangelho é pro-
var aos israelitas que, em Jesus, se cumpriram as predições, e, portanto, que ELE é o Messias espera-
do.
Jesus nasceu em Belém (beith-léhem == a casa do pão), cidade já citada desde a época de Josué, loca-
lizada entre Thecua, Etam, Karem, Baither (cfr, Josué 15:59, segundo os LXX). Era bastante conheci-
da popularmente por causa do idílio entre Ruth e Booz, e pelo nascimento de David que lá ocorreram.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
Chamada Belém “de Judá” para distinguí-la de Belém “da Galiléia”, na tribo de Zábulon (Jos. 19:15) e
que ainda hoje existe.
A seguir vem a notícia dos magos, que a tradição popular elevou à categoria de “reis”. Dividamos o
estudo em itens:
1 - QUEM ERAM. Os historiadores gregos Herodoto e Xenofonte dizem-nos que os “magos” consti-
tuíam uma casta sacerdotal muito conceituada entre Medos e Persas, ocupando-se sobretudo de medi-
cina., astronomia (astrologia) e ciências divinatórias. A palavra é atestada no grego (µάγος e µέγας): no
latim: magus e magnus; no hebraico magh, no pehlvi mogh; e no sânscrito mahat “grande” (cfr.
Mahatma “ = grande alma) .
Por intermédio de Jeremias (39:13) sabemos que Nabuzardan, oficial superior de Nabucodonozor, era
rab magh, isto é, chefe dos magos. São citados em Daniel (1:20; 2:2, 10, 17 etc.). Nos Atos dos Após-
tolos há dois magos: Simão (8:9) e Elymas (13:8), que mais parece terem sido “mágicos”.
Mateus deixa entrever neles personagens estrangeiras de importância, como sábios a quem honrava o
título de magos. Interessante notar que nas pinturas cristãs dos primeiros séculos (Santa Priscila, em
Roma, 2.º século, e o mosaico frontal da Basílica de Belém, 4.º século) os magos são representados
com bonés frígios, quais sacerdotes persas.
2 - DONDE VIERAM. O fato do serem “magos” os sacerdotes persas, faz supor que tenham vindo da
Pérsia. Mas, por serem astrólogos, supõe-se que eram da Caldéia. No entanto, para a Palestina, o Ori-
ente” era a Arábia, ao passo que a Mesopotâmia (Pérsia e Caldéia) ficava antes ao norte. Tanto que em
Joel (2:20) o inimigo tradicional assírio era chamado “o nortista”.
Os presentes trazidos também falam a favor da Arábia: Isaías (10:10) cita o ouro e o incenso de Sabá;
Jeremias (6:20) do incenso da Arábia; a rainha de Sabá traz ouro em quantidade (1 Reis, 10:2) os navi-
os de Salomão trazem ouro de Ofir (1 Reis, 9:28). A mitra, isto é, a resina do Balsamodendron, provi-
nha da Arábia. De lá os supunham Justino, Orígenes e Epifânio, que viveram na Palestina, embora
outros pais da igreja digam terem eles vindo da Pérsia .

Figura “OS REIS MAGOS” - Pintura de Doré, gravura de Pannemaker

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3 - NOMES E NÚMERO. São desconhecidos. Beda (escritor inglês nascido em 673 e desencarnado
em 735) é que os batizou de Gaspar, Melchior e Baltazar. Também não sabemos quantos eram: a tradi-
ção da igreja latina os limita a três, por causa dos presentes; mas nas igrejas sírias e armênias julga-se
que eram doze. Tudo no terreno das conjecturas.

4 - ÉPOCA DA CHEGADA. Também é incerta. A pergunta a respeito de um “recém-nascido” faz


supor que se trata de menos de um ano a partir do nascimento de Jesus. O mesmo se deduz da ordem
de Herodes, mandando sacrificar todas as crianças de dois anos para baixo (aumentando o limite da
idade, para estar certo de que apanharia na rede a criança visada) .

5 - O ASTRO. Os magos dirigiram-se a Jerusalém para indagar do nascimento do Messias, por causa
do “astro” que haviam visto no “oriente”. Que espécie de “astro”? Supõem alguns ter-se tratado de um
cometa. Improvável, porque os cometas não desaparecem para aparecer mais tarde.
Em 1603, o grande astrônomo Kepler observou uma conjunção de Júpiter e Saturno no mês de dezem-
bro. Na primavera seguinte, Marte aproximou-se desses dois planetas e, no outono, surgiu entre os três
uma “estrela nova” de grande brilho. Kepler supôs que assim devia ter ocorrido na época do nasci-
mento de Jesus. Fez os cálculos matemáticos e concluiu que no ano 747 de Roma (7 A.C.) Júpiter e
Saturno se reuniram na constelação de Peixes (lembremo-nos de que, nessa época, a Terra estava a sair
da constelação de Aries para entrar na de Peixes, tal como agora sai da de Peixes para entrar na de
Aquário, recuando sempre de um signo a cada dois mil anos. Recordemos ainda que o símbolo da épo-
ca de Abraão a Jesus era o CORDEIRO, e, na época de Jesus começou a ser o peixe, utilizado pelos
cristãos como emblema para identificar-se).
Na constelação de Peixes, a Júpiter e Saturno uniu-se Marte na primavera de 748 de Roma (6 A.C.).
Para um estudo mais minucioso, veja-se: Kepler, Opera Omnia, Frankfurt, 1858, tomo 4, pág. 346 e
seguintes.
Ora, os caldeus eram bons astrônomos e sobre eles escreveu Cícero De Divinatione, I, 19): “Os cal-
deus observam os sinais do céu, anotam os cursos das estrelas com seus números e movimentos ... e
possuem em seus registos observações seguidas durante 470.000 (é isso mesmo: quatrocentos e setenta
mil) anos”. E Diodoro de Sicília (II, ) atesta que esses registros tinham 473.000 anos seguidos.
Daí deverem saber os magos que essa conjunção revelava, segundo as predições proféticas, a primeira
vinda do Messias, não lhes sendo difícil localizar seu nascimento na Palestina, porque Peixes era o
signo peculiar desse pais .
Ora, verificamos que houve tríplice conjunção de Júpiter e Saturno: em maio, agosto e dezembro do
ano 747 de Roma (7 A.C.), segundo nossas atuais tábuas astronômicas. Alertados pela primeira con-
junção (maio de 747) prepararam-se para a longa viagem até a Palestina, devendo ter chegado a Jeru-
salém nos primeiros meses de 748. E exatamente de março a maio desse ano aos dois planetas Júpiter e
Saturno uniram-se Marte, Vênus, Mercúrio e o Sol, o que fez os magos “reencontrarem” o “astro do
Messias” ao saírem de Jerusalém.
Fica então, como época mais provável para o nascimento de Jesus, o ano 747 de Roma, ou seja, o ano
7 A.C.
Quanto à data, a primeira vez que, com certeza histórica se fala em 25 de dezembro, é no Calendário
Philocalus (do ano 354 A.D.), que foi publicado por Theodor Mommsen no “Abhandlungen der
sãchsichen Akademie der Wissenschaft”, em 1850.
Clemente de Alexandria (200 A.D.) menciona várias especulações em torno da data do nascimento de
Jesus: 19 ou 20 de abril, 20 de maio, 28 de agosto (estas duas últimas coincidem com as conjunções
1..ª e 2..ª) e 17 de novembro. Até então (3.º século) não se falava em dezembro. Quando em Roma se
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SABEDORIA DO EVANGELHO
transferiu o Natal para 25 de dezembro, festa oficial de Mitra (divindade persa), ou Natalis Invicti So-
lis (nascimento do Sol invicto, isto é, entrada do Sol no solstício do inverno) os Sírios e armênios acu-
saram os romanos de “idólatras adoradores do sol”. Entretanto, a data se foi aos poucos fixando e con-
quistando mais adeptos de tal forma que, já no século 7.º, todo o ocidente aceitava o dia 25 de dezem-
bro como a data oficial do nascimento de Jesus.
Ao saber da notícia da chegada a Jerusalém dos magos orientais, em busca de novo rei dos judeus,
Herodes, o velho idumeu, perturbou-se: não queria concorrência ao trono. Já assassinara muitos com-
petidores e ainda cinco dias antes de sua morte mandou executar seu próprio filho Antípater, por temer
que lhe roubasse o título. Convocou, então, às pressas as autoridades e os sábios, isto é, o SINÉDRIO,
para saber onde deveria nascer o Messias de acordo com os textos bíblicos.
O Sinédrio de Jerusalém ou Consistório (também chamado Conselho), era a autoridade mais alta, tanto
civil quanto religiosamente. Compunha-se de 71 membros, ou seja, um presidente (NASI) geralmente
sumo-sacerdote, e setenta conselheiros assim divididos :
a) os principais (grandes) sacerdotes que eram o próprio sumo-sacerdote e os ex-ocupantes do cargo,
bem como os chefes das 24 classes sacerdotais;
b) os escribas ou doutores da lei (sopherim), a classe mais culta, que passava seus dias a transcrever a
Torah, a ensinar, dissertar e discutir;
c) os anciãos do povo (isto é, presbíteros) que eram os leigos notáveis, escolhidos entre as principais
famílias.

A convocação do Sinédrio foi total, havendo no texto a omissão de uma palavra, por “salto” do copis-
ta: em vez de escribas do povo, cargo que não existia, deve ler-se: escribas e anciãos do povo.
O Sinédrio respondeu prontamente, sem hesitação, citando o versículo de Miquéas (5:1): “E tu, Belém
de Efrata, pequena quanto à tua situação entre as clãs de Judá, de ti virá um que será soberano em Is-
rael e suas origens serão antigas, da longínquo passado”. Mateus cita apenas o sentido, modificando o
texto, coisa habitual entre os evangelistas. São Jerônimo (Patrologia Latina, vol. 22, col. 576) diz que
eles “procuravam o sentido, não as palavras” (sensum quaesisse, non verba), e “não cuidavam da or-
dem e das palavras, quando as coisas eram compreensíveis” (nec magnópere de ordinatione sermoni-
busque curasse, cum intellectui res paterent).
De posse do fato e do local, Herodes interroga sobre a época do aparecimento do astro, dizendo-lhes
que continuassem a pesquisa, porque “também ele” desejava adorar o novo Messias. Cuidava ser-lhe
fácil suprimir no berço o recém-nascido, sem provocar protestos.
A viagem de Jerusalém a Belém podia consumir mais ou menos duas horas, na direção sul. Sua locali-
zação não foi descoberta até hoje nas buscas arqueológicas.
Tem trazido discussões a frase: “o astro os guiou” (grego: προή-γεν αύτούς), que geralmente é traduzi-
do “caminhou à frente deles”, com o sentido dado ao emprego intransitivo. Mas aqui está empregado
transitivamente (cfr. Dict. Grec-Français de A. Bailly, in verbo). A idéia de que os astros “guiam” os
navegantes é antiga e comum. No entanto ninguém jamais supôs que os astros, para guiarem os nave-
gantes, precisavam “caminhar à frente deles”. Ao chegarem à porta de Jerusalém, viram novamente a
conjunção no lado sul, e compreenderam que estavam certos. Naturalmente, por mais que caminhas-
sem, jamais o “astro” lhes ficaria ao norte. Se alguém caminha na direção da lua, esta parecerá também
avançar à frente na mesma direção, como que “guiando”. Mas quando a criatura pára, o astro pára
também. E foi o que ocorreu ao encontrarem a casa em que Jesus estava.
Há muita discussão a respeito da “casa” ou “gruta” em que se acharia Jesus, na visita dos magos. O
texto fala explicitamente em “casa”. Lógico que, mesmo admitindo-se a idéia do nascimento na gruta,
José não deixaria a esposa e o filho em local tão impróprio, e providenciaria acomodações. José não é
citado nesse passo.

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Segundo o hábito oriental, a saudação aos soberanos era feita mediante o prostrar-se até o chão. Foi o
que eles fizeram diante do menino.
Após a homenagem das pessoas, a oferta dos bens materiais: abrindo seus cofres, deram-lhe ouro, in-
censo e mirra .
De acordo com a interpretação usual, o ouro exprime a confissão , reconhecimento da realeza de Jesus,
o incenso de sua divindade e a mirra de sua humanidade .
Terminada a cerimônia, recolheram-se e consultaram os oráculos (em linguagem moderna, realizaram
uma sessão mediúnica). É o que se depreende dos vers. 12: иαί иρηµατισθέντες , “e recebendo a res-
posta” do espírito a quem haviam interrogado, иατ̀όναρ = no sono (ou no transe?) para não voltar a
Herodes. Resolveram, então, regressar à sua terra por outro caminho. A vinda a Jerusalém deve ter
sido o normal das caravanas: de Ma'an e Petra, atingindo, pela plataforma de Moab o vale do Jordão, e
subindo de Jericó a Jerusalém. O regresso “por outro caminho” supõe as escalas Hebron, Ziph e Maon,
o uádi Zueira, o djeb-el Usdum ou então, com maior segurança, a pista vizinha do deserto por Thecua,
Bir Allah, a garganta de Engadi e a margem ocidental do Mar Morto, até chegar aos altiplanos de Mo-
ab e as seguras estradas da Arábia.

O estudo deste trecho é bastante fértil para nosso aprendizado.


No vers. 1, lemos que Jesus nasceu “em Belém”. Já sabemos que em Belém, a duas horas de Jerusa-
lém pouco mais ou menos, funcionava uma “escola iniciática de profetismo” (isto é, um centro de
desenvolvimento das faculdades psíquicas). Aqueles que se aproximavam da meta, para lá se dirigiam,
colocando-se sob a direção dos essênios para darem o “mergulho” (Batismo) em si mesmos. Nada de
estranho, pois, que o evangelista nos advirta que “Jesus nasceu em Belém”. É no centro de desenvol-
vimento que se consegue apurar a sensibilidade, sob a orientação de pessoas experimentadas.
Os essênios habitavam realmente em grutas nos arredores da cidade (como ainda há poucos anos
ficou confirmado com as descobertas dos manuscritos de QUMRAN ou do Mar Morto). Se, historica-
mente, não nos importa saber “onde” nasceu, simbolicamente o ensinamento é de alcance enorme:
para o Encontro Sublime a retirada a um lugar apropriado é, senão essencial, pelo menos de incal-
culável ajuda.
Continua o esclarecimento, de que o nascimento místico ocorreu “no tempo do rei Herodes”, o que
exprime que os fatos a nós ocultamente ensinados se passaram durante a permanência do Eu no arca-
bouço de carne. Herodes representa o domínio (é o “rei”) da matéria: é o materialismo egoísta e inte-
resseiro, que só visa ao ganho e se preocupa com a “realidade” menor e transitória, isto é, pelo que
cai sob os sentidos físicos. Trata-se do homem “que tem alma, mas não tem espirito” (Judas, 19), e
que busca apenas posições sociais, riquezas, prazeres e domínio.
Logo que uma criatura se apresta para o Encontro e este se dá, sua luz espiritual se irradia e é perce-
bida por aqueles que “podem” vê-la. Os “mestres” (adeptos) estão neste caso. E a luz do novo feli-
zardo é observada “no oriente”, ou seja, no momento de surgir (a palavra “oriente” é o particípio
presente do verbo latino orior, e se traduz “o que nasce”). Os mestres dirigem-se então ao encontro
do Homem-Novo recém-nascido, a fim de ajudá-lo a desenvolver-se.
Os Mestres (magos = grandes) podem comunicar-se psíquica ou espiritualmente, ou por outro qual-
quer meio. Se a tarefa ou missão do Novo Homem for pública (como era o caso de Jesus) talvez seja
dada preferência à publicidade. Por isso, utilizando-se de seus veículos carnais, empreenderam a via-
gem, indo diretamente à autoridade dominante (matéria) e referindo os fatos às criaturas.
Os materialistas reagem imediatamente. Perturbam-se todos ( ... “e como ele toda Jerusalém” ...). A
verdade que lhes é trazida - em que dizem não acreditar - os deixa de tal modo transtornados (porque
ecoam no seu “inconsciente” ou Eu Profundo, que lhes segreda ao coração que são verdades “cer-
tas”) que eles buscam destruí-las e aniquilar os veículos por que elas se manifestam: nada deve atra-
palhar-lhes a posse pacifica de seus bens e de suas posições.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Neste caso, há “saídas” estratégicas. Eles, que não dão a menor importância ao clero organizado, a
ele recorrem pressurosos, ansiando por um desmentido ou por um esclarecimento que lhes faça voltar
à paz. Nessas situações é-lhes essencial demonstrar humildade e boas intenções, revelando submissão
e até subserviência hipócritas, que lhes mascarem os desígnios recônditos. Como eles não vêem o es-
pírito, julgam ter capacidade de ludibriá-lo com esperteza matreira. (Jesus assim os classifica, em
Luc. 13:32, quando lhe dizem que Herodes (descendente do outro) queria matá-lo; Jesus responde:
“ide dizer àquele raposo” ...). Se o Poder lhes fora deixado nas mãos, conseguiriam destruir; mas
como só possuem o poder material, só atingem os que o merecem; aos verdadeiros, nada fazem, a não
ser na hora preestabelecida .
Essa a razão pela qual os mestres reais não se deixam engodar por promessas de auxílio e ajudas
políticas ou financeiras de poderes constituídos. No caso de dúvida consultam os céus pela prece e
obtêm resposta à sua sinceridade.
No vers. 6 fala-se no “povo de Israel”. O nome foi imposto a Jacob pelo anjo que com ele lutou (Gên.
32:28). Jacob significa “sagaz”. Após a luta com um espírito materializado, já pela madrugada, o
“anjo” não conseguia libertar-se das mãos de Jacob. Tocou-o então no tendão femural (que o fez fi-
car coxo) e deu-lhe o nome de “Israel”, formado do verbo shrebet que significa “surrar”, introduzin-
do duas modificações: no início um iod, e no fim a palavra El, completando a idéia: “o homem” (ish)
“que luta” (shra) “com Deus” (el). Se observarmos sob outro prima, a palavra Israel contém em si a
idéia do Deus único sob três formas: a Mãe Divina, IS (de Isis); o Pai Supremo, RA (venerado ambos
no Egito); e o Espírito Criado, Deus: EL, adorado entre os judeus.
Após a consulta, os magos recebem a resposta de que não mais devem avistar-se com Herodes (a ma-
téria), isto é, não mais contatos com o mundo e suas ilusões transitórias. Mas regressam “por outro
caminho” a vida espiritual. Mas já aí a notícia do Homem-Novo fora dada a público.
Segundo o entendimento mais profundo, o ouro representa a Luz, e, portanto, a Sabedoria; o incenso é
a devoção, que espalha o “bom odor” do espírito às criaturas; e a mirra é o consumir-se para benefi-
ciar. No entanto, a sabedoria consagrada a Deus e consumida em benefício dos homens, traz sofri-
mento porque obriga a criatura a permanecer no cárcere da matéria; a mirra sugere o sacrifício e a
renúncia total de todos os bens, inclusive do próprio eu personalístico.
Então, temos o simbolismo:
ouro - Luz e Sabedoria
incenso - Devoção pessoal a Deus e aos homens
mirra - sacrifício e renúncia ao próprio eu

Essas as características do Homem Novo, dos Missionários que estando em contato com o Eu Profun-
do ou Cristo Interno, deverão renunciar a tudo o que seja transitório, devotando-se integralmente a
Deus e servindo às criaturas, para conseguir a iluminação final da verdadeira sabedoria irradiada
pelo Foco de Luz Incriada.

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C. TORRES PASTORINO

FUGA PARA O EGITO


Mat. 2:13-15
13. Depois de haverem partido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José,
dizendo: “levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e fica ai
até que eu te chame; pois Herodes há de procurar o menino para matá-lo”.
14. José levantou-se, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito,
15. e ali ficou ate a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo
profeta: “Do Egito chamei a meu filho”.

Novamente José é advertido em sonhos por um espirito (anjo do Senhor), ordenando-lhe este a fuga
para o Egito. Nesse país havia duas grandes e florescentes colônias israelitas, em Alexandria e em He-
liópolis.
O Egito distava cerca de seis dias de viagem (perto de 250 milhas, a maioria das quais através de terras
desertas). Era, porém, local seguro e lá também se refugiaram Jeroboatão (pretendente ao trono de Sa-
lomão), o profeta Jeremias, Onias IV fundador do Templo Israelita de Leontópolis e outros.
Mateus não dá pormenores da viagem, que aparecem numerosos nos evangelhos apócrifos (Pseudo-
Mateus, 18 a 24; Pseudo-Tomé, texto latino, cap. 1; evangelho árabe da infância, 10 a 25).
Não se sabe o local em que ficou a família de Jesus. Uma tradição antiga copta indica o Cairo. Nada de
certo, porém.
Aí ficaram os três até a morte de Herodes. Sabemos que este faleceu sete dias antes da Páscoa, em
março-abril do ano 4 A. C., ou seja, 750 de Roma.
Nascido em 747 (7 A.C.), Jesus teria então permanecido cerca de 3 anos no Egito, o que coincide com
os dados de certos apócrifos (Pseudo-Mateus cap. 26; Pseudo-Tomé, texto latino, cap. 4; evangelho
árabe da infância cap. 25 e 26).
A frase “Do Egito chamei meu filho” está no texto hebraico de Oséas (11:1).

Diversas anotações podem ser feitas em torno da viagem de Jesus ao Egito.


A “fuga” se dá à noite. O intelecto (José), iluminado pelo Alto (anjo) leva consigo a intuição (Maria)
e o recém-nascido Homem-Novo (Jesus) e adentra-se pela noite do isolamento, a fim de favorecer o
crescimento da “criança”. Esta, enquanto nova e indefesa, não deve, não pode, permanecer no bulício
das cidades: tal como a semente, que para germinar mergulha na noite do solo, assim o recém-
manifestado Cristo necessita da solidão e do silêncio para desenvolver-se. Era mister fugir do “mun-
do” (Herodes) que desejava matá-lo, para que não fosse sufocada a plantinha ainda tenra e frágil.
Outra interpretação: todos os espíritos, na senda evolutiva, necessitam passar alguma (ou “algu-
mas”) fases na Terra, enclausurados, longe do bulício, treinando a meditação e o mergulho em si
mesmos. Daí a existência de eremitérios e mosteiros, mantidos pelas religiões, para ajudar a esses que
se encontram nessa fase. Sob esse aspecto, a viagem de Jesus pode ter significado a necessidade de
isolamento entre irmãos que não fossem do próprio sangue (exatamente o que ocorre nos mosteiros e
conventos). Essa reclusão temporária (relativamente à vida eterna do espírito) serve para educá-lo a
sair do egoísmo familiar (consanguíneo) exercitando-se no amor aos não consanguíneos. (Não nos

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referimos, aqui, à pessoa de Jesus: estamos falando que o exemplo de Jesus ao fugir para o Egito,
pode representar a fuga de nossos espíritos para longe da família carnal).

FIGURA “A FUGA PARA O EGITO” - Pintura de Bida, gravura de Braequemond


Há outro ensinamento.
Após a permanência na escola de profetismo de Belém (mediunismo), o espírito precisa ir além, para
sintonizar não mais com outros espíritos (sobretudo do plano astral), mas para vibrar em uníssono
com as noúres divinas.
Então, depois da estada em Belém, e de ter passado pelo exame dos “magos”, e de ter sofrido perse-
guição da matéria e do mundanismo (Herodes), o espírito, vitorioso nessas provas, dá um passo além
e segue, promovido, para outro santuário mais avançado.
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Exatamente na cidade de Heliópolis havia outro templo iniciático, onde os candidatos de “envergadu-
ra” se exercitavam no espiritualismo mais profundo.
O novo ser, nascido do Encontro Deslumbrante, é ainda dirigido pelo intelecto (José) que recebe as
ordens do Alto. A intuição (Maria), embora desenvolvida, ainda é fraca (mulher) e não chega ao
ponto de poder agir sozinha. E o Homem-Novo, recém-nascido, é muito criança para poder andar por
si. O intelecto (o órgão mais desenvolvido na anterior evolução, no estágio “homem”) é que recebe o
encargo de levá-los e dirigí-los até que, “morto Herodes” (isto é, liquidados os carmas materiais)
possa ele caminhar pelos próprios pés e governar-se; e isso ele o fará já na qualidade de “Filho do
Homem”. Verificamos que é assim, porque o primeiro a desaparecer da cena do Evangelho é José o
intelecto - e também a intuição é deixada de lado e admoestada quando quer intervir. Então, o Filho
do Homem, agindo por si, manifesta o Cristo em toda a Sua plenitude e assombra o mundo.
Esse trajeto tem que ser seguido por todas as criaturas, através de suas vidas sucessivas. Jesus foi o
EXEMPLO e o MODÊLO, e Sua vida na Palestina é um resumo vivo do que são, e do que serão, nos
futuros milênios , as nossas vidas.
Assim como o homem revive, em cada vida, todas as suas anteriores etapas evolutivas, para só então
recomeçar um novo passo na jornada do aperfeiçoamento, assim a última vida de Jesus nos apresen-
ta, em uma só encarnação, o modelo de todas as nossas presentes e futuras etapas evolutivas.

EVOLUÇÃO ANIMAL-HOMINAL
Com efeito, quando o homem desce ao plano da matéria para nova experiência reencarnatória, sua
ligação primeira se faz no óvulo, ainda na trompa ou Canal de Falópio. Note-se, porém, que o espírito
NÃO ENTRA no óvulo: apenas SE LIGA, permanecendo de fora, a ele preso apenas pelo “cordão de
prata” (Ecle. 12:16).
Do óvulo, ele irradia suas vibrações que vão atrair o espermatozóide: e exatamente AQUELE esper-
matozóide que é portador dos genes que sintonizam vibratoriamente com o espírito, e que portanto lhe
poderá fornecer um corpo especificamente apropriado a essa etapa evolutiva desse espírito: com as
qualidades e deficiências requeridas pelo estado evolutivo do espírito. Dizemos ATRAI, no mesmo
sentido em que poderíamos afirmar que um aparelho de rádio, sintonizado nos 800 kilociclos, atrai as
ondas hertzianas da Rádio Ministério da Educação e Cultura. “Atrai”, pois, tem o sentido preciso de
“sintonizar e receber”.
Mas o espermatozóide, “alimentado” por essas vibrações sintônicas, recebe as energias indispensá-
veis para progredir em sua viagem, até o óvulo, passando à frente de seus concorrentes.
Dizíamos que o espírito “se liga” ao óvulo e, desde esse momento, passa a relembrar, ou melhor, a
“refazer” todas as fases evolutivas por que haja passado desde seu ingresso na fase animal.
Começa como célula simples (protozoário unicelular = óvulo) e se vai desenvolvendo na mesma or-
dem sucessiva que há seguido durante milhões e milhões de anos. Logicamente sua evolução foi aqu-
ática, e por isso ele a revive mergulhado no líquido amniótico.
Mas essa revivescência, embora nos pareça lenta, é relativamente relampejante: o espírito revive em
cada segundo de vida intra-uterina, milênios de vidas remotas, enquanto atravessava as fases animais,
sem fixar, no entanto, exatamente as diversas formas da espécie.
Na fase correspondente à sua entrada na família dos sáurios, surge no feto o “olho pineal”, como fase
inicial da futura glândula do mesmo nome, e que lhe assinala a caracterização como individualidade
personificada.
Terminada a “revisão” de toda a sua evolução animal, a criança rompe as barreiras da animalidade
pura e passa ao estado hominal: nesse ponto preciso ocorre o nascimento.

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Surge o novo Adão (ADAM = homem) que é “expulso do paraíso” da irresponsabilidade animal (veja
pág. 19, último parágrafo) e começa a ter que “comer o pão com o suor de seu rosto”: respiração e
alimentação não são mais “aproveitadas” da mãe. A criança é que tem que “esforçar-se” por si
mesma. Vimos que, quando no estágio animal, o espírito era ainda irresponsável, agindo em perfeita
harmonia com a Mente Cósmica Universal, porque o intelecto não intervinha para atrapalhar. Na
“revisão” dessa fase, o feto vive em perfeita simbiose com a mãe, da qual tira tudo.
“Expulso desse paraíso” animal, o recém-nascido chega ao reino hominal. Mas ainda não ao estado
atual de “homo sapiens”: vai antes reviver todo o desenvolvimento, desde o plano de homóide, ao
homúnculo, ao “pithecânthropus erectus” (quando passa do engatinhar ao caminhar erecto), até che-
gar ao “homo sapiens” e às últimas vivências na Terra.
Quando atinge os sete anos, mais ou menos - a idade da razão - é que, então, recordada toda a escala
evolutiva, o espírito penetra integralmente o novo corpo e inicia a nova jornada que se lhe abre ante o
horizonte. Até então, o espírito permanece fora do corpo, comandando através do “cordão de prata”
todo o desenvolvimento de seu veículo físico. Por esse motivo é que a criança manifesta as caracterís-
ticas de primitivismo: egoísmo, destrutibilidade, etc.
Uma comprovação de tudo isso é o que se passa com espíritos mais evoluídos.
Realmente, quanto mais adiantado o espírito na escala, mais rapidamente percorre as etapas anterio-
res. E se, em suas recentes vivências na Terra esses espíritos revelaram desenvolvimento de geniali-
dade em qualquer ramo, aparecem as “crianças-prodígio”, revivescência clara da última ou das últi-
mas encarnações. Daí verificarmos que esses “prodígios” se revelam sempre antes do uso da razão.
Ao atingirem essa idade, em que se inicia a fase “atual”, pode o espírito fazer florescer e progredir
suas qualidades, e até desenvolvê-las mais ainda. No entanto, pode dar-se que a atual existência não
apresente possibilidades de evolução maior. E vemos que, com frequência, a criança prodígio não
atinge, em sua vida posterior, o que dela se esperava: não conseguiu adiantar-se com o mesmo ritmo.
E na idade madura é pessoa “comum”. Quebrou o ritmo ascensional, quer por cansaço, quer por
falta de ambiente propício, quer por motivos cármicos. Não houve, porém, regresso, mas diminuição
ou afrouxamento (“rallentissement”) na caminhada.
Compreendendo assim as coisas, descobrimos que a vida de Jesus em Sua última romagem terrena,
foi o modelo que teremos que seguir, no estado posterior de “Filhos do Homem”, verdade que já foi
revelada por Paulo ao Efésios (4:13) “até que TODOS CHEGUEMOS à plenitude da estatura de
Cristo”.

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MASSACRE DOS INOCENTES


Mat .2:16-18
16. Herodes, vendo-se iludido pelos magos, ficou irado, e mandou matar todos os meninos
em Belém e em todo o seu termo, de dois anos para baixo, conforme o tempo que ti-
nha com precisão indagado dos magos.
17. Então cumpriu-se o que foi dito pelo profeta Jeremias:
18. “Ouviu-se um clamor em Ramá, choro e grande lamento: Raquel chorando a seus fi-
lhos, e não querendo ser consolada porque eles se foram”.

Irritado, por não poder por suas mãos em Jesus, Herodes manda degolar todos os meninos de menos de
dois anos. Não se limitou a Belém, mas foi a todo o território adjacente, embora não seja provável que
tivesse atingido a outras aldeias circunvizinhas.
Quantas crianças? Os melhores cálculos estatísticos asseguram que não devem ter sido muito mais do
que 20 (vinte) crianças. Que era isso, para quem já mandara assassinar seu genro, seus filhos Alexan-
dre e Aristóbulo, sua esposa Mariana, e que, pouco depois, mandaria matar o outro filho Antipater,
tendo ordenado que, à sua morte, fossem assassinados no anfiteatro de Jericó os homens notáveis da
cidade, afim de que houvesse lágrimas em seus funerais?
Esses meninos, segundo revelações espirituais modernas, seriam a reencarnação dos homens que, sob
as ordens de Elias (o futuro João Batista, que também morreria à espada) haviam degolado os 450 sa-
cerdotes de Baal junto à torre de Kishon (1 Reis, 18:40 e 19:1). Elias, o responsável, morreria adulto,
para sentir o peso de seu erro, ao passo que os que lhe obedeceram pereceram também à espada, mas
ainda crianças, sem terem consciência “atual” do que estava a ocorrer e, portanto, com sofrimento
muito menor. A Lei de Causa e Efeito é de funcionamento rigoroso e justiceiro, conforme a descreve
Moisés: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por quei-
madura, ferida por ferida, golpe por golpe” (Êx. 21:23-25).
A frase de Jeremias (31:15) constitui uma figura de retórica {prosopopéia), em que o profeta evoca a
lembrança de Raquel, mãe de José e de Benjamin, a chorar quando os israelitas, séculos depois, esta-
vam prisioneiros de Nabucodonozor, na cidade de Ramá, (da tribo de Benjamin) a cerca de 10 quilô-
metros ao norte de Jerusalém. Jeremias a imagina a chorar pelos filhos, tendo em vista que a tradição
colocava ali o túmulo de Raquel.
O fato nada tem que ver com o massacre dos pequenos betlemitas, não sendo propriamente uma profe-
cia. Simples coincidência que ele aproveita, pela semelhança dos fatos.
A matança das crianças de menos de dois anos pode demonstrar-nos que, quando o espírito não se
encontra suficientemente fortalecido, pode sucumbir diante das tentações e perseguições da matéria
(Herodes). Muitos dos que ingressaram entusiasticamente na senda evolutiva, são tentados pelo mun-
do ilusório de mayá e perdem o rumo ou se demoram nos portais da espiritualidade em busca de cu-
riosidades que lhes retêm os passos e lhes cortam a caminhada.
Há muitos obstáculos na senda.
Ora são os ritos externos que distraem a criatura levando-a “para fora”, quando o caminho certo
seria para dentro de si mesma. Mas a pompa ritualística termina por envolver o homem, que perde a
direção: não está ainda maduro.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
Ora são as buscas intelectuais, os “sentidos” das palavras, a hermenêutica, a teologia ou teosofia, e o
espírito se perde em cerebrinas elucubrações personalísticas, distanciando-se do rumo certo no pro-
fundo do próprio coração e exteriorizando-se para a periferia intelectual da personalidade transitó-
ria.
Ora são as comunicações com espíritos desencarnados, sobretudo do mundo astral (muitos mais atra-
sados que nós), que passam a governar (a “guiar”) a criatura; e esta acaba julgando “fim” o que
apenas constitui um meio de progresso, e se desvia da rota, exteriorizando-se em direção a outras
criaturas (embora desencarnadas) ao invés de darem o mergulho em busca do Cristo Interno.
Ora são os exercícios de desenvolvimento e domínio do corpo perecível, por meio dos quais espera a
obtenção da estrada certa: quer atingir o espírito pela matéria, quer subir ao céu através da terra, e o
corpo físico se torna a preocupação máxima, desviando a atenção do centro do espírito, que é o cora-
ção.
Todos esses óbices aparecem com objetivo certo: não deixar entrar aqueles que não estejam maduros.
Por isso, há tantas tentações no portal da espiritualidade, a fim de experimentar a “maturidade espi-
ritual” de cada ser. Se a criatura ainda se encontra imatura para o salto em profundidade, ela se de-
tém nesses umbrais e se encanta com ritos, com intelectualismo, com palavras de “guias”, com exer-
cícios para a saúde do corpo, com atos de magia, e aí permanece o tempo indispensável para que pos-
sa amadurecer o próprio espírito.
Se ao invés está madura (ou mesmo, quando consegue amadurecer), abandona todas as ilusões exter-
nas e avança intimorata para as profundezas abismais do próprio coração. Liberta-se de todas as
peias, foge de Herodes e entra, de noite, no Egito do isolamento, onde encontrará a CIDADE DO SOL
(Heliópolis) e lá desfaz a personalidade na Imortalidade infinita da Luz Eterna e Criadora.
Todos aqueles são os “inocentes” (crianças) que são “massacrados”, pelo mundo, pelas vaidades,
pelas ambições ou paixões, pelo intelectualismo ou pelas riquezas e até mesmo pelo próprio espiritu-
alismo mal dirigido.

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REGRESSO DO EGITO
Mat. 2:19-23
19. Mas, tendo morrido Herodes, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José,
no Egito,
20. dizendo: “Levanta-te, toma contigo o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel,
pois já morreram os que procuravam tirar a vida do menino”.
21. Levantando-se tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel.
22. Tendo ouvido porém que Arquelau reinava na Judéia, em lugar de seu pai Herodes,
temeu ir para lá; e avisado em sonhos, retirou-se para os lados da Galiléia,
23. e foi morar numa cidade chamada Nazaré, para cumprir o que foi dito pelos profetas:
“ele será chamado nazoreu”.

Após a morte de Herodes, novamente funciona a mediunidade onírica de José: em sonhos um “anjo”
manda-o regressar à “terra de Israel”, como ainda hoje se diz: ςκ‫ מפץׁישך‬José obedeceu de imediato e
(segundo Mateus) dispunha-se a regressar a Belém, quando “ouve dizer” que lá governava Arquelau,
filho de Herodes. Instala-se nele o medo. Realmente, à morte de Herodes (4 A. C. ) Arquelau tinha 18
anos; mas como os judeus se opuseram a seu reinado, revoltando-se por não ter sido deposto o sumo-
sacerdote Joasar, ele mandou matar 3.000 judeus (Josefo, Ant. Jud. XVII, 9, 1). Mas à noite, outro so-
nho esclarece-o, indicando-lhe que se dirija à Galiléia, “a uma cidade chamada Nazaré”. Como esta-
mos vendo, essa cidade constituía para Mateus uma “novidade” absoluta. Parece que José e Maria nem
a conheciam. Como conciliar com as palavras de Lucas, de que eles eram da cidade de Nazaré, isto é,
que lá tinham nascido e residiam normalmente? Teria sido mais fácil dizer que do Egito regressaram à
sua cidade de Nazaré ... pois lá eles possuíam casa, a oficina de carpinteiro de José, os parentes e ami-
gos. Entretanto, Mateus desconhece tudo isso, mostra-o desejoso de ir para Belém (fazer o quê?) e só o
aviso “em sonho” o faz dirigir-se para Nazaré, como se fora um local que eles pisassem pela primeira
vez. E ainda explica: “para que se cumprisse a profecia, que o chama NAZOREU”. Nem é “nazare-
no”...
Esse gentilício é usado quatro vezes por Marcos e duas vezes por Lucas. Mas o próprio Mateus empre-
ga duas vezes nazoreu, que é utilizado uma vez por Lucas, três vezes por João, e sete vezes por Atos.
Eram assim chamados (nazoreus) os cristãos por volta do ano 60 (At. 24:5). O Talmud denomina Jesus
o NOZRI, e chama os cristãos NOZRIM.
Notemos que não há profecia alguma que diga dever o Messias ser chamado “nazareno” nem “nazo-
reu”. A única frase que poderia ser aplicada seria a de Isaías (11:1) quando diz que “do tronco de Jessé
sairá um rebento, e de suas raízes sairá um renovo (= nezêr) que frutificará. E o Espírito de YHWH se
deterá nele”. Tendo Mateus apresentado Jesus como o último rebento (o renovo) na genealogia, pode
ter feito mentalmente uma aproximação, embora forçada.
Depois de viver algum tempo no isolamento da meditação, fora de seus consanguíneos e amigos, o
Homem-Novo galgou mais alguns passos no aprendizado espiritual, e precisa voltar à atividade entre
o povo, a fim de aproveitar o que aprendeu, ensinando-o e exemplificando-o.
No entanto, o regresso à multidão ignara e materialista, viciada e incompreensiva, ainda não é acon-
selhável a quem não esteja suficientemente amadurecido e firme nos novos rumos. É-nos isso ilustrado
com os fatos ocorridos com Jesus.

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Iluminado pelo Alto (avisado pelo anjo) o intelecto (José) resolve ir para o meio religioso do próprio
povo (Judéia = louvor a Deus). Mas percebe que lá ainda domina a intransigência religiosa, talvez
perseguidora. Já não é mais aquele materialismo cego e perverso que procurava sufocar e matar o
espiritualismo puro: já é “filho”; isto é, já avançou um pouco e está acima do vulgo (Arquelau = ar-
ché + laós = “chefe do povo”), mas assim mesmo constitui perigo para o iniciante porque, mesmo no
ambiente religioso, conserva as características da intolerância e do fanatismo estreito, que não pode
perceber as luzes intensas da espiritualidade crística, mas apenas vê o lado externo e popular do espí-
rito da religião.
Entra o intelecto novamente em oração e, ainda uma vez, recebe a inspiração de não afrontar o ofici-
alismo religioso com sua presença. Resolve, pois, refugiar-se nas “regiões fechadas” (Galiléia), entre
aqueles que praticam o espiritualismo não oficial, e vai estabelecer sua morada na cidade de Nazaré,
isto é, na dedicação a Deus (nazireato), para que se realize o que é predito por todos os conhecedores
“será chamado nazoreu ou nazireu”, ou seja, homem consagrado a Deus, de corpo e alma, vivendo no
mundo e em prol do mundo, mas sem ligar-se ao mundo.

Figura “A VOLTA DO EGITO” - Pintura de Bidu, Gravura de Edouard Girardot

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VISITA AO TEMPLO
Luc. 2:40-52
40. E o menino crescia e fortificava-se, enchendo-se de sabedoria, e a benevolência de
Deus estava sobre ele.
41. Seus pais iam anualmente a Jerusalém, pela festa da Páscoa.
42. Quando o menino tinha doze anos, subiram eles, conforme o costume da festa;
43. e findos os dias da festa, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém. sem que
o soubessem seus pais.
44. Mas estes, julgando que ele estivesse entre os companheiros de viagem, andaram ca-
minho de um dia, procurando-o entre os parentes e conhecidos;
45. e não no achando, regressaram a Jerusalém à procura dele.
46. Três dias depois o encontraram no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os
e interrogando-os;
47. e todos os que o ouviam, muito se admiravam de sua inteligência e de suas respostas.
48. Logo que seus pais o viram, ficaram surpreendidos, e sua mãe perguntou-lhe: “Filho,
por que procedeste assim conosco? Teu pai e eu te procuramos aflitos”.
49. Ele lhes respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar no que é
de meu Pai”?
50. Eles porém não compreenderam as palavras que ele dizia.
51. Então desceu com eles e foi para Nazaré e estava-lhes sujeito. Mas sua mãe guardava
todas estas coisas em seu coração.
52. E Jesus progredia em sabedoria, em maturidade e em benevolência (amor) diante de
Deus e dos homens.

Lucas coloca o regresso a Nazaré logo após a apresentação ao Templo, ignorando por completo qual-
quer outro acontecimento. Diz-nos ele que o menino crescia e fortificava-se (na parte física) enchendo-
se de sabedoria (na parte intelectual). Alguns manuscritos acrescentam “fortificava-se em espírito”. O
interessante a notar é que o evangelista salienta que o desenvolvimento da personalidade de Jesus se
processava normalmente: não possuía a sabedoria total infusa, mas a adquiria aos poucos. Essa opinião
é acatada por certos autores, como Cirilo de Jerusalém (Patrol. Graeca, vol. 75, col. 1332) e Tomás de
Aquino (Summa Theologica, III, q. XII, a. 2). Explicam que, como “homem” (como personalidade)
Jesus progrediu segundo as leis naturais, crescendo seu conhecimento concomitantemente com o cor-
po.
A lei mosaica ordenava que todos os homens que chegassem à idade da puberdade deveriam visitar o
Templo de Jerusalém três vezes por ano: na Páscoa, no Pentecostes e na festa dos Tabernáculos (Ex.
23:14-17; 34:23 e Deut. 16:16), preceito que não incluía as mulheres. A ida de Jesus aos doze anos não
era ainda obrigatória, de vez que só aos quinze o homem se tornava realmente “israelita” ou “filho do
preceito” (bar misheváh).
A festa da Páscoa durava sete dias, finalizando com grande solenidade (Ex. 12:15 ss; Lev. 23:5 ss; e
Deut. 16:1 ss). O menino, com doze anos e muita inteligência, não era vigiado. Assim, ao organizar-se
o primeiro acampamento à noite, na viagem de regresso, José e Maria deram por falta dele. Não o
acharam entre os parentes e amigos.
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No dia seguinte regressaram a Jerusalém, observando outros grupos que saíam da cidade e não no en-
contraram durante todo aquele dia, nem mesmo na casa de conhecidos. No terceiro dia, resolveram ir
ao Templo, e lá o descobriram, sentado entre os doutores (ou melhor, entre os “mestres” - didáskaloi).
As perguntas que lhes fazia, e as respostas que lhes dava, encheram os velhos mestres de admiração e
estupor, em vista da sabedoria muito acima de sua idade, que ele revelava.
Os pais também ficaram atônitos, tanto pela cena que presenciavam, como pelo modo de agir com
eles. Vem a frase de repreensão de Maria, que, falando a Jesus a respeito de José (única vez que isto
acontece) lhe dá o título de “pai”: “teu pai e eu”.
Jesus responde. São as primeiras palavras Suas que este Evangelho reporta.
A resposta é incisiva e esclarecedora: ele precisava estar no que era de Seu pai. Há três interpretações
da expressão grega έν τοϊς τοΰ πατρός . 1.ª) no que é de meu Pai; 2.ª) na cas8. de meu Pai; 3.ª) nos ne-
gócios de meu Pai.
Ao regressar a Nazaré, Jesus estava sujeito a seus pais (obediência), desenvolvendo-se gradativamente
na parte intelectual (sabedoria), na parte psíquica e emocional (maturidade) e na parte moral e espiritu-
al (benevolência ou amor) .
A anotação de Lucas (prescindindo das particularidades narradas por Mateus) ensina-nos que o Ho-
mem-Novo se recolhe à Galiléia (“jardim fechado”) consagrando-se ao Senhor. Nesse ambiente, o
espírito, embora “menino”, cresce e se fortifica, enchendo-se de Sabedoria e aprofundando-se cada
vez mais em seu coração, conquistando (“tomando de assalto”, Mat. 11:12) o Reino de Deus, e imer-
gindo na benevolência divina que o envolve.
Ao completar doze anos de consagração íntima a Deus, e preparação pessoal, o menino vai pela vez
primeira enfrentar o grande centro religioso.
Por que aos “doze anos”? O arcano 12 tem profundo significado: no plano superior simboliza os
messias ou enviados; no plano humano exprime o holocausto, o sacrifício de si mesmo em benefício
da coletividade. O sacrifício é sempre feito no plano da matéria (os 12 signos zodiacais), que é espe-
cializado para a experimentação e provação dos espíritos, único plano cm que estes recebem o impul-
so indispensável para a subida.
O evangelista anota que Jesus SUBIU para Jerusalém (que significa “visão da paz”). Se é verdade
que Jerusalém estava construída no alto de um monte, não o é menos que para “ver-se a paz” verda-
deira é mister subir vibracionalmente ao plano do espírito.
Seus pais José e Maria (isto é, os que conseguiram o “nascimento do menino”, o intelecto e a intui-
ção) são chamados aos seus afazeres, e DESCEM de Jerusalém para o mundo de lutas (plano adver-
sário, ou diabólico). Repentinamente, “dão por falta” do Cristo, de quem perderam o contato. Aí co-
meça ansiosa busca entre parentes e conhecido (talvez voltando ao antigo hábito de orações a santos
e guias). Mas não no encontram.
São então forçados a voltar a Jerusalém, a reingressar na “visão da paz”, e só depois de algum tempo
(três dias) de permanência nesse estado de meditação, é que o surpreendem novamente “no Templo”,
ou seja, no local sagrado onde habita a Centelha Divina: o coração, “templo de Deus”, “Tabernáculo
do Espírito Santo”.
O intelecto e a intuição alegram-se ao reencontrá-lo, e o recriminam por haver desaparecido. A res-
posta é exata: “onde me encontraríeis, senão neste templo interior do coração, senão no que é de meu
Pai”? Então, para que procurar? Já sabemos todos onde encontrá-lo.
Depois, mais firmes na fé, unidos mais do que nunca ao Cristo Interno, compreendem que deverão
voltar ao “mundo” levando-o consigo, sem distrair-se com “parentes e conhecidos”. Lidando no
mundo sem perder contato com Deus em nossos corações. E é isso o que faz a intuição, que tudo per-
cebeu, e “guardou tudo o que ocorreu em seu coração”, em seu registro íntimo.

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C. TORRES PASTORINO
E no versículo final está resumida toda a ascensão sublime: Jesus progredia no tríplice aspecto: da
individualidade (sabedoria), da personalidade (maturidade) e da divindade (benevolência = amor),
não só em relação a Deus, como em relação aos homens. É o progresso que temos que perlustrar:
avançar sempre, conquistando cada vez mais nos três campos.

SIMBOLISMO CÓSMICO
Acenamos (Visita dos Magos, 5 – O Astro) que O nascimento de Jesus passou a ser comemorado a 25
de dezembro, para conformar-se à data do “nascimento” do sol no solstício do inverno. Aprofundemos
as observações - atentos a que estamos sempre referindo-nos ao hemisfério NORTE.
Jesus e comparado ao SOL (que exprime fogo, produzido pela fricção da madeira - era filho de um
“carpinteiro” - e, qual o fogo, produz Luz). Eis algumas das datas escolhidas além dessa citada e seu
cotejo com os fatos astronômicos:
1. - A concepção de Maria (Virgem) é colocada a 8 de dezembro, quando a constelação Virgo surge
nos céus do hemisfério boreal, antes do solstício de inverno.
2. - Nove meses após, o nascimento de Mana é comemorado a 8 de setembro (signo de Virgo), quan-
do a lua surge nessa constelação.
3. - A 25 de março, signo de Aries (Carneiro), festeja-se a anunciação (à concepção de Jesus), exata-
mente no início da primavera, estação da fecundação geral na Terra, quando em Roma se celebrava
à festa de Anna Perenna (recordemos que, pela tradição a mãe de Maria era chamada Ana) ; Anna
Perenna era representada pela lua, que se renovava todos os meses. No mês de março também eram
comemoradas as concepções em Devanaguy (mãe de Krishna) e em Isis (mãe de Hórus).
4. - Três meses após, recorda-se a visita de Maria a Isabel, a 2 de julho, época em que Maria se ocul-
ta, para só reaparecer no nascimento de Jesus. Aí exatamente, no signo de Câncer (Carangueijo) a
constelação de Virgo se oculta anualmente sob o horizonte do hemisfério norte, não sendo vista.
5. - A 25 de dezembro, signo de Capricórnio, após haver chegado ao horizonte a constelação de Virgo
a 8 de dezembro, comemora-se o nascimento de Jesus (assim como o de Krishna, de Hórus e de
Apolo), correspondendo a data à entrada do Sol no solstício do inverno (natalis Solis invicti). O
hemisfério boreal celeste apresenta, nessa época, a seguinte configuração: aos pés de Virgo, a ca-
beça da constelação da Serpente (“a mulher te ferirá na cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Gên.
3:15). A oeste a constelação do Touro e de Orion, com suas três estrelas em fila, em direção a Vir-
go, representando os “três reis magos”. Completa o quadro a constelação do Carneiro, que lembra a
homenagem dos “pastores”. E justamente o sol inicia sua nova eclíptica na constelação de Virgo
(daí Jesus filho da Virgem Maria).
6. - O mês de maio era consagrado, entre os egípcios, a Isis, mãe de Hórus. e entre os romanos a Maia
(donde tirou o nome) a deusa da fecundação primaveril do planeta, senão, por isso, entre eles, o
mês preferido para os casamentos.
7. - Quando a Terra ingressou no signo de Aries, 2.000 anos antes de Cristo, o sacrifício religioso
típico era o do cordeiro, salientado também na festa da Páscoa. Na época de Jesus ingressou a Ter-
ra no signo de Peixes. A palavra “peixe”, em grego ІΧΟΥΣ , contém as iniciais da frase “Jesus
Cristo, filho de Deus. Salvador” ( Іησους Χριστος θεου Υιος Σωτηρ ). E a figura do “peixe” sim-
bolizou Jesus entre os primitivos cristãos. Com Sua vinda, cessaram também os sacrifícios cruen-
tos de cordeiros: pedia-se aos que acreditavam Nele, que se sacrificassem, corrigindo seus vícios. E
o ritual para indicar a mudança de vida, a passagem do “homem-velho” (signo de Aries) ao “ho-
mem-novo, signo de Peixes), era exatamente imitar a vida dos peixes, mergulhando dentro d'água
(batismo). Aos apóstolos diz Jesus que os fará “pescadores de homens” Mat. 4:19, Marc. 1:17). E o
batismo permaneceu na Terra durante toda a era dos Peixes, oficialmente, como símbolo de admis-
são na “barca” de Pedro.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

MINISTÉRIO DO PRECURSOR

Luc. 3:1-6 Mat. 3:1-6 Marc.1:1-6

1. No décimo quinto ano do 1. Naqueles dias apareceu 1. Princípio da Boa Nova de


reinado de Tibério César, João Batista pregando no Jesus Cristo.
sendo Pôncio Pilatos go- deserto da Judéia: 2. Conforme está escrito no
vernador da Judéia. Hero- 2. “Reformai vosso pensa- profeta Isaías: “Eis aí envio
des tetrarca da Galiléia, seu mento, porque se aproxima eu meti anjo ante a tua
irmão Felipe tetrarca da de vós o reino dos céus”. face, que há de preparar o
região da Ituréia e Traconi- teu caminho;
tes, e Lisânias tetrarca de 3. Porque é a João que se re-
Abilene, fere o que foi dito pelo pro- 3. Voz do que clama no deser-
feta Isaías: “Voz do que to: preparai o caminho do
2. sendo sumos sacerdotes clama no deserto: preparai Senhor, endireitai suas ve-
Anãs e Caifás, veio a pala- o caminho do Senhor, endi- redas”,
vra de Deus a João, filho de reitai suas veredas”.
Zacarias, no deserto. 4. apareceu João Batista no
4. Ora, o mesmo João usava deserto, pregando o mer-
3. E ele percorreu toda a cir- uma veste de pelo de ca- gulho da reforma mental
cunvizinhança do Jordão, melo e uma correia em vol- para a rejeição dos erros.
pregando o mergulho da ta da cintura; e alimentava-
reforma mental para a re- 5. E saíam a ter com ele toda
se de gafanhotos e mel sil- a terra da Judéia e todos os
jeição dos erros, vestre. moradores de Jerusalém. e
4. como está escrito no livro 5. Então ia ter com ele o povo eram por ele mergulhados
das palavras de Isaías: de Jerusalém, de toda a Ju- no rio Jordão, confessando
“Voz do que clama no de- déia e de toda a circunvizi- seus erros.
serto: preparai o caminho nhança do Jordão.
do Senhor, endireitai suas I 6. Ora João usava uma veste
veredas; 6. E eram por ele mergulha- de pelo de camelo e uma
dos no rio Jordão, confes- correia em volta. da cintu-
5. todo o vale será aterrado e sando seus erros. ra, e comia gafanhotos e
todo monte e cuteiro será mel silvestre.
arrasado, os caminhos tor-
tos far-se-ão direitos e os
escabrosos, planos,
6. e todo homem verá a salva-
ção de Deus”.
Depois de adiantado o trabalho, já no capítulo 3.º, Lucas dá-nos finalmente apontamentos mais preci-
sos para estabelecermos uma cronologia da vida de Jesus. Estudemos os vários dados históricos forne-
cidos.

1.º - “No 15.º ano do reinado de Tibério César”


Tibério sucedeu a Augusto, à morte deste, no dia 19 de agosto de 767 de Roma, 14 de nossa era (Dion,
56, 31). Nessa ocasião, assumiu o título de “César”, e começou de fato a “reinar”.

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C. TORRES PASTORINO
Segundo essa cronologia, o 15.º ano de seu reinado, na qualidade de César, ocorre de 19-8-28 a 19-8-
29 de nossa era (781 a 782 de Roma). O início da pregação de João ter-se-ia dado nesse ano de 28; o
mergulho de Jesus (que contaria então 35 anos) teria ocorrido antes da Páscoa de 29, e sua morte na
Páscoa (14 de nisan) do ano 31 de nossa era (784 de Roma) contando Jesus 37 anos de idade.
Há duas variantes na interpretação dessa data:
a) diz-se que, de fato, Tibério foi “associado” ao governo de Augusto no ano 11 (764 de Roma).
No entanto, não usava o título de César, nem tampouco assumiu as rédeas do governo, porque não
permaneceu em Roma. Com efeito, no ano 7 Tibério partiu para a Dalmácia, levando reforço de
tropas a Germânico (Dion, 55, 31); no fim do ano 8 regressa a Roma (Dion, 56: 11) aonde chega no
início do ano 9, assistindo aos jogos triunfais em sua homenagem (Dion, 56, 1). Na primavera
(maio), volta à Dalmácia (Suet., Tib., 16) dirigindo-se, no outono (outubro-novembro) ao Reno
(Germânia). No ano 10 Tibério está novamente em Roma, e no dia 10 de janeiro faz a dedicação do
Templo da Concórdia (Mommsen, Hist. Rom., 10, pág. 60). Logo após segue para o Reno, assu-
mindo o comando das tropas romanas e passa nessa região todo esse ano e o ano 11 (Mommsen,
Hist. Rom. 9, pág. 61) assim como o ano 12 (Hermann Shulz, Quaestiones Ovidianae, pág. 55). No
ano 13 (Schulz, ibidem), em Roma, celebra a 16 de janeiro o triunfo pela guerra da Panonia, rece-
bendo de Augusto, novamente, o poder tribunício sem limite de tempo (Dion, 65, 28). Nessa época
e no início do ano 14, Augusto faz o recenseamento ajudado por Tibério (Suet., Oct. 27). A 19 de
agosto de 14 Tibério assume o governo, começa a reinar no lugar de Augusto (Dion, 56, 29-31 e
Suet., OCt., 100).
Nem para Roma, nem mesmo para as províncias, poderiam ser consideradas essas atividades de Ti-
bério, sobretudo extra urbem, como “reinado de Tibério César”.
Esta 2.ª interpretação anteciparia todas as datas do Evangelho de dois anos, ou seja: a pregação de
João e o mergulho de Jesus (que contaria 33 anos) seriam no ano 27, e sua morte no ano 29, tendo
Jesus 35 anos (Cfr. Hieron., De Viris, 5; Catálogo Filocaliano e Libri Paschales do 5.º século, in
Patrizi, De Evange1is, III, pág. 515).
Essa interpretação foi aceita pelo catolicismo romano, pois em 1929 comemorou com um “Ano
Santo” o 19.º centenário da morte de Jesus.
b) Ponderam alguns estudiosos que o ano, na Síria, é computado a partir de 1.º de outubro. E racioci-
nam que talvez fosse considerado o primeiro ano do reinado o período de 19-8-14 a 1-10-14 (um
mês e meio), sendo o período de 1-10-14 a 1-10-15 considerado como o segundo ano de reinado.
Essa interpretação daria um resultado intermediário às datas evangélicas, fixando-se a pregação de
João e o mergulho de Jesus (que teria 34 anos) no ano 28, e Sua morte do ano 30 (tendo Jesus 36
anos). Cfr. Fouard, Vie de Jésus, II, pág. 445-448; Wieseler, Chronologische Synopse, pág. 334 e
Cáspari, Einleitung, pág. 44; Pirot, Saint Jean Baptiste, pág. 123-127.
Difícil, porém, que um rápido período de pouco mais de um mês tivesse sido considerado como o
“Primeiro ano”.
2.º - “Sendo Pôncio Pilatos Governador da Judéia”
Pôncio Pilatos foi nomeado “procurador” da Judéia, em substituição a Valério Grato, no ano 26 (Jose-
fo, Ant. Jud., 18, 4, 2). No ano 36, Lúcio Vitélio, legado imperial na Síria, enviou Pilatos a Roma, por
causa de acusações, cuja defesa não foi aceita por Calígula (Josefo, Ant. Jud., 18, 6, 10), que nomeou
Marulo para substituí-lo. A cidade de residência dos procuradores romanos era Cesaréia de Filipe.
3.º - “Herodes, tetrarca da Galiléia,
seu irmão Filipe, tetrarca da região de Ituréia e Traconites,
e Lisânias , tetrarca de Abilene”

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SABEDORIA DO EVANGELHO
O título de “tetrarca” havia muito não designava mais o governador de um reino dividido em quatro,
tanto que Antônio conferiu esse título, em 41 A.C., a Herodes o Grande, governador único da Palesti-
na. Todavia, à morte deste (4 A.C.), a região resultou mesmo dividida em quatro partes, sendo seus
governantes:
I - Arquelau, filho de Herodes o Grande e da samaritana Maltace. Recebeu, com o título de “etnarca”,
a Judéia, a Iduméia e a Samaria. que ele governou só dez anos: em vista de sua crueldade, foi exilado
no ano 6 de nossa era para a cidade de Viena nas Gálias. Por seu afastamento, seu território passou a
ser governado pelo procurador romano.
II - Herodes Antipas (ou Antípater), irmão do precedente, foi feito herdeiro por seu pai, com o título de
tetrarca da Galiléia e da Peréia, que governou até cerca do ano 39, quando foi exilado com sua esposa
Herodíades, por Calígula, para Lyon, nas Gálias, tendo falecido na Espanha (Josefo, Ant. Jud., 18,7,2).
III - Herodes Felipe, filho de Herodes o Grande com Cleópatra de Jerusalém, foi, de 4 A.C. até 32
A.D., tetrarca da Batanéia, Traconites, Auranítides, Gaulanítides e Panéias, cidade que ele reconstruiu
com o nome de Casaréia de Felipe. Lucas cita apenas as duas regiões extremas.
IV - Lisânias, filho de Lisânias I, que reconquistou sua tetrarquia à morte de Herodes o Grande, gover-
nando Abilene, no Anti-Líbano, a oeste de Damasco, limite extremo-norte do ministério de Jesus.

4.º - “Sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás”


Anás (Hannah ou Ananus) era sumo-sacerdote desde o ano 6 A.C. e foi deposto em 15 A.D. por Valé-
rio Grato, governador da Judéia, que nomeou em seu lugar Ismael, filho de Fabi; em 16, Eleazer, filho
de Anás, sucede a Ismael; em 17 é sumo sacerdote Simon, filho de Kamit; e em 18 sucede-lhe José,
chamado Caifás, genro de Anás. Caifás manteve o cargo ininterruptamente, até 36, quando foi deposto
por Vitélio. Como sogro de Caifás, Anás ter-se-lhe-ia agregado, exercendo grande influência sobre ele,
a ponto de Lucas citar os dois como Pontífices Supremos, quando, por lei, deveria haver um.
Entramos, agora, nos textos equivalentes dos sinópticos, com pequeníssimas variantes.
“Veio a João a palavra de Deus”, ou seja, chegou-lhe a inspiração do Alto. O deserto de Judá (Juízes
1:16) estendia-se ao sul de Arad, a leste de Bersabé. Mas o deserto da Judéia era a planície de Jericó.
João vivera retirado, entre os essênios, dos quais guarda as características, inclusive o hábito da purifi-
cação pela água.
Havia três tipos de “ablução” entre os judeus: l.ª) as prescritas pela Lei Mosaica em Lev.14:1-32 (em
caso de lepra), em Lev. 15:1-33 (após as relações sexuais) e em Lev. 11:24-27 (após tocar um cadá-
ver).
2.ª) os “batismos” (mergulhos) essênios, para iniciação de novos membros, que se tornavam “inicia-
dos” ou “purificados” (catharói),
3.ª) O “batismo” dos prosélitos judeus, que vinham do paganismo, e que conhecemos através de uma
discussão entre as escolas de Hillel e de Chamai, e que parece ter sido um rito bem firmado já um sé-
culo antes de nossa era. No 1.º século de nossa era, por influencia da escola de Hillel, tornou-se o rito
de iniciação por excelência.
João não permanece parado, mas percorre toda a circunvizinhança do Jordão, pregando “o mergulho
da reforma mental”.
A palavra “batismo” significa realmente “mergulho”, e o verbo “batizar” tem o sentido exato de “mer-
gulhar”. Não é possível outra interpretação, da letra que é bastante clara.
O termo vulgarmente traduzido por “arrependimento” (metánoia) tem o sentido preciso de “reforma
mental” (metá e noús). Não é, pois, um arrependimento no sentido de “chorar o mal que praticou”, mas
sim a modificação radical dos pensamentos, da mente, e do comportamento: a reforma mental.

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C. TORRES PASTORINO
A expressão είς άφεσιν άµαρτιώυ , geralmente traduzida “para remissão dos pecados”, tem, na realida-
de, o sentido de “'para rejeição dos erros”, Com efeito άφεσις é rejeição, repúdio, afastamento; e
άµαρτιών tem o significado muito mais vasto que pecados”: é o erro em geral, qualquer erro. Pelos
demais textos do Novo Testamento, verificamos que esse é o melhor sentido para essa expressão.
Interessante observar que Mateus emprega constantemente (31 vezes) “reino dos céus”, que nos de-
mais evangelistas aparece como “reino de Deus” (que Mateus só usa 4 vezes). Ambas se equivalem.
Como o nome Inefável não devia ser pronunciado, a ele se substituía a palavra Céus, no plural (no he-
braico, shamaim e no aramaico shemata só havia a forma do plural). Mateus, mais arraigadamente
judeu, evitava o emprego do tetragrama, escrúpulo abandonado pelos outros escritores.
O texto é de Isaías (40: 3), extraído dos Septuaginta, e em Lucas aparece mais completo (40:3-5). Isaí-
as referia-se literalmente à intervenção de Ciro, com seu edito de 538 A.C., considerado um messias,
por haver salvo os israelitas do cativeiro da Babilônia. Mas Lucas emite a primeira parte do versículo
5, que, completo, diz: “e a Glória de Yahweh se manifestará e toda carne (todo homem) juntamente o
verá”.
Marcos, sob o nome de Isaías cita no versículo 2 o texto de Malaquias (3:1), com o qual emenda a ci-
tação de Isaías.
O que diz Malaquias confirma que João Batista é a reencarnação de Elias. E as palavras de Isaías refe-
rem o que se costumava fazer para preparar o caminho dos reis que iam visitar as cidades de seu reino:
tornar mais retas as veredas, aterrar os vales, aplainar os montes e outeiros, tirar as pedras do caminho,
etc. Tudo isso pode ser interpretado moralmente, no sentido de preparar os homens para receber as
verdades que Jesus viria pregar.
Mateus e Marcos dão-nos a descrição física do arauto. Usava uma veste de “pelo de camelo”. A pala-
vra veste compreende as duas peças principais, a túnica e o manto. A túnica era presa aos rins por um
cinto de couro.
Esse era exatamente o trajo de Elias, que trazia um cinto de couro para. prender a túnica de pelo de
camelo (2.º Reis, 1:7-8) e além disso levam-nos a confirmar a crença de que João era realmente essê-
nio.
Quanto à alimentação, fala-se em gafanhotos e mel silvestre. Os beduínos e nômades de Amman e de
Petra ainda hoje utilizam esse alimento casualmente: tiram a cabeça, as patas e as asas, assam o gafa-
nhoto sobre brasas, e dizem que não é desagradável ao paladar.
Mateus afirma que muitos eram mergulhados, “confessando seus erros”, coisa que se explica pela
exaltação religiosa, não rara em movimentos de alto teor místico.

O estudo do simbolismo leva-nos a várias conclusões.


Em primeiro lugar verificamos que as anotações de datas e cronologias são dadas em relação a João,
e não a Jesus. Com efeito, João representa a personalidade, que ainda está sujeita a tempo e espaço,
ao passo que Jesus, a individualidade, transcende tudo isso e vive na eternidade sem datas e sem
pontos de referência.
Anotemos de passagem o simbolismo de alguns dos nomes citados. Além de João (Yohânan = Yahweh
é favorável), temos uma descrição rápida do ambiente em que João começou o ministério da prega-
ção. O governador supremo o “César”, era a figuração de Roma, representada pelo Rio Tibre (Tiber
- Tibérius) e seu representante, lançado como uma ponte (Pontius) armada (Pilatus = armado de
“pila”, uma arma romana), dominava a religião (Judéia = louvor a Deus); Herodes, o idumeu (edom
= vermelho, sangue), domina a região fechada (coração, Galiléia) e o amigo dos cavalos (Felipe) na
região rude e árida (Traconites); mas aquele que dissipa a mágoa (Lisânias) governa a planície ver-
dejante (Abilene). Como superiores religiosos oficiais a graça (Anás) dominado pelo opressor (Cai-
fás). Esse o painel confuso da Terra, quando a grande personalidade de João inicia sua missão de
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Precursor: uns poucos bem intencionados, mas a maioria vivendo, por ignorância, na maldade e no
materialismo.
Nessa situação, vem ao arauto a “palavra de Deus (não se trata do Lagos, palavra ativa, principio
criador, mas de REMA, palavra discursiva, articulada, que dá ordens), incitando-o a dar início à
ação.
A personalidade não é influenciada pelo Logos, que apenas atua na individualidade (coração).
João (a personalidade) falava ainda no deserto de individualidades, exortando as criaturas ainda no
lano animalizado à reforma mental, a fim de renunciarem à inferioridade e renascerem pela água, em
nova personalidade (da mesma forma que o renascimento do corpo se efetua através do mergulho no
líquido amniótico do ventre materno). O “mergulho”, pois é um renascer simbólico, como se a criatu-
ra entrasse no ventre materno da Mãe Terra e de lá saísse purificado dos erros das existências anteri-
ores, nova criança, homem renovado.
Todas as arestas precisam ser aparadas, os excessos amputados, as deficiências preenchidas, retifica-
das as veredas das intenções, afastadas as pedras, embotados os espinhos, para que a personalidade
possa elevar-se, vendo a salvação que vem de Deus e atingindo assim, através do ingresso no “reino
dos céus”, isto é, do viver na individualidade, a capacidade de aprender os ensinos de Jesus.
Todos os que já estavam no plano do “louvor a Deus” (Judéia) e na “visão da paz” (Jerusalém) ouvi-
am a voz a clamar e iam em busca do mergulho para o novo nascimento. Só quando a criatura atinge
determinado grau de maturidade e que pode ouvir o apelo divino; porque toda reforma e toda melho-
ria em que vir de dentro para fora: o chamado deve ecoar no coração, para que este possa responder
com honesta sinceridade.

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INSTRUÇÕES DE JOÃO BATISTA

Mat. 3:7-10 Luc. 3:7-14

7. Mas vendo João que muitos fariseus e sadu- 7. Dizia então às multidões que saiam para ser
ceus vinham ao seu mergulho, disse-lhes: mergulhadas por ele: “geração de víboras,
geração de víboras, quem vos recomendou quem vos recomendou que fugísseis da ira
que fugísseis da ira vindoura ? vindoura.
8. Dai pois frutos dignos de vossa reforma 8. Dai pois frutos dignos de vossa reforma
mental. mental e não comeceis a dizer dentro de
vós: Temos como pai a Abraão: porque vos
9. E não queirais dizer dentro de vós mesmos:
declaro que destas pedras Deus pode susci-
Temos como pai a Abraão; porque vos de-
tar filhos à Abraão.
claro que destas pedras Deus pode suscitar
filhos a Abraão. 9. O machado já está posto à raiz das árvores:
toda árvore, pois, que não dá bom fruto é
10. O machado já está posto à raiz das árvores;
cortada e lançada ao fogo.
toda a árvore, pois, que não dá bom fruto, é
cortada e lançada ao fogo”. 10. Perguntava-lhe o povo: “Que havemos en-
tão de fazer”?
11. Respondeu-lhes: “Aquele que tem duas tú-
nicas dê uma ao que não na tem; e aquele
que tem comida, faça. mesmo”.
12. Foram também publicanos para serem
mergulhados e perguntaram-lhe: “Mestre,
que havemos de fazer”!
13. Respondeu ele: “não cobreis mais do que
aquilo que vos está prescrito”.
14. Perguntaram-lhe também uns soldados: “E
nós. que havemos de fazer”? Respondeu-
lhes: “A ninguém façais violência, nem deis
denúncia falsa: contentai-vos com o vosso
soldo”.

Aqui entram em cena os fariseus e o saduceus. Estudemos quem eram.


FARISEUS - O que sabemos deles é tirado de Josefo (Bell. Jud.2, 8, 14; e Ant. Jud. 13, 5. 9 e 13, 10,
5-6: 17, 2, 4 e 18, 1, 2 e 4), e da Mishna (cfr. Schtirer Gestichte des Jüdischen Volkes, 2, págs. 384-
388, Leipzig, 1898, onde estão os textos da Mishna).
Na época de Jesus eram cerca de seis mil. Seu nome primitivo parece ter sido hassidim (os piedosos),
mas entre si se tratavam como haberim (os companheiros). Os adversários os chamavam depreciati-
vamente “fariseus” (pherusin) que significa “os separados”. Tratava-se da separação das coisas e pes-
soas “impuras” (ou seja, dos pagãos e dos judeus infiéis, que não davam muita importância às obser-
vâncias legais).

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SABEDORIA DO EVANGELHO
Além de obedecer rigorosamente à Torah, seguiam à risca a Mishna (tradição selecionada pelos escri-
bas, compreendendo tanto a tradição jurídica (halacha) quanto à histórica (hagada).
Quanto às crenças acreditavam:
a) na sobrevivência dos espíritos após a morte, tanto dos bons quanto dos maus;
b) na ressurreição (ou seja, na reencarnação) dos justos, segundo as idéias de Platão; mas só os bons
reencarnavam em novos corpos, conforme lemos em Josefo (Bell. Jud., 2, 8, 14) que era fariseu:
“as almas são imortais; as almas dos justos passam, depois desta vida, em outros corpos, e as dos
maus sofrem tormentos que duram sempre”.
c) no livre arbítrio, embora não total, mas limitado pelo “destino” em certos pontos.
A separação, levada ao exagero, tornou os fariseus um grupo antipatizado. Além disso, tendo perdido a
sinceridade inicial e cedendo às fraquezas humanas levavam a observância às coisas externas, muito
atentos a que fossem vistos e aplaudidos pelos homens. Daí terem passado à história como protótipos
dos que dão valor apenas às exterioridades, sem nenhum aprofundamento, e como sinônimo de hipó-
critas (a palavra hipócrita significa literalmente “ator”, ou seja, aquele que representa uma peça de tea-
tro “escondido” (crites) “debaixo”{hipo) de uma personalidade diferente da sua personalidade real).
Com efeito, além das 613 prescrições do código “mosaico”, havia numerosas outras tradições que es-
cravizavam os fariseus. Vários tratados do Talmud e o 6.º seder, assim como o último, intitulado Teha-
rôth da Mishna, compreendendo 12 tratados, enumeram as “infrações” possíveis. O receio de errar
paralisava-lhes o espírito, e a religião tornava-se mesquinho formalismo. O homem passava a julgar-se
um justo por suas próprias forças, obra de suas mãos, porque jejuava às segundas e quintas feiras e
cumpria a lei ... Isso o levava a presunção, ao amor próprio, ao orgulho, fomentando de fato a hipocri-
sia, por se julgarem muito melhores e superiores aos outros.

SADUCEUS - Seu nome é provavelmente originário de Sadoc, sumo sacerdote da época de David (2.º
Sam. 8: 17). Mais partido político do que grupo religioso, era constituído de personagens importantes
influentes e não muito numerosos, que organizaram, em 200 A.C., um senado (gerousía), que tinha
autoridade sobre toda a nação. Um século depois, sob Alexandre (77 - 68 A.C.), os fariseus consegui-
ram introduzir-se nesse conselho, que passou a denominar-se Sinédrio. Os fariseus opunham-se aos
saduceus porque estes acatavam com subserviência as dominações estrangeiras, desde que não perdes-
sem sua influência política; porque só aceitavam a lei escrita, recusando as tradições; porque não ad-
mitiam a sobrevivência do espírito, nem os anjos, ensinando que a alma morria com o corpo (Josefo,
Bell. Jud., 2, 8, 14 e Ant. Jud. 18, 1, 4); porque ridicularizavam os rituais tão queridos aos fariseus,
embora fossem mais rigorosos que eles nos julgamentos, exigindo pena do talião, para mostrar-se in-
flexíveis no cumprimento da lei.
Lucas, que é mais preciso nos pormenores, coloca na boca de João, como dirigida à multidão, a repri-
menda que Mateus esclarece ter sido específica para os fariseus e saduceus, que tinham ido procurá-lo
à margem do Jordão.
Chama-os englobadamente “geração (filhos) de uma víbora”, serpente muito comum às margens do
Mar Morto. A víbora é cheia de astúcia e veneno; ao invés de abrigar-se sob as areias, como alhures,
fugia às enchentes imprevisíveis do Jordão vivendo sobre as árvores. A isso alude João, quando indaga
quem lhes havia ensinado a fugir da “ira vindoura”, isto é, da ação do carma, que lhes era devido por
seus erros e enganos. E pede-lhes não palavras e confissões (simples “arrependimento”), mas frutos,
isto é, obras que lhes comprovem a reforma mental.
Depois, desilude-os quanto à esperança de obter vantagens só por seus títulos de “filhos de Abraão”.
Vem isto esclarecer que não basta estar filiado a esta ou aquela doutrina religiosa, não bastam os pri-
vilégios de raça, mas só o merecimento é que vale, o merecimento pessoal, individual.
Alude a seguir às pedras, das quais Deus pode suscitar filhos a Abraão. A frase, para os que conhecem
as leis da evolução, nada tem de absurda: todos os seres humanos já passaram, na fieira dos milênios,
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C. TORRES PASTORINO
pelo estágio do mineral, das “pedras”, e chegamos ao estado atual. E a evolução prossegue sempre. Os
pagãos conheciam essa transformação, e a expressaram na “história de Deucalião e Pirra” (Deucalião
era casado com Pirra. Julgando Zeus que os homens da idade de bronze estavam viciados, resolveu
inundar a Terra com um dilúvio. Dele só escapariam os dois justos Deucalião e Pirra. A conselho de
Prometeu, construíram uma “arca”, onde passaram nove dias sobre as águas, desembarcaram nas
montanhas da Tessália. Chegou a eles Hermes, da parte de Zeus, oferecendo que escolhessem o que
quisessem. Pediram que lhes dessem companheiros. Receberam a ordem de jogar por cima de suas
costas “os ossos de sua mãe”. Pirra julgou isso uma impiedade, mas Deucalião compreendeu que se
tratava de “pedras”, que são os ossos da “mãe” Terra. As pedras que Deucalião lançava tornavam-se
homens e as que Pirra lançava tornavam-se mulheres. Ovídio, Metamorfoses, I, 125-415).
Continuando, aparece em frase vigorosa e imagem de rara felicidade literária, a figura do lenhador,
com o machado já em posição de derrubada, para desarraigar as árvores que não produzem bons frutos,
a fim de transformá-las em lenha. Não há tempo a perder: é hora de apressar-se, para que não seja tar-
de demais.
Lucas prossegue, exemplificando os ensinamentos de João, dando-nos três respostas típicas :

a) ao povo - ajudar e servir, distribuindo o que for supérfluo, com os que necessitam. Para que duas
túnicas, se só vestimos uma de cada vez? e tendo uma guardada em casa, veremos sem remorsos
alguém que está nu a nosso lado? e tendo comida, deixaremos o nosso próprio eu em outro corpo a
morrer à míngua?
b) aos publicanos (cobradores de impostos) - não cobrar mais do que está prescrito, isto é, limitar-se à
justiça .
c) aos soldados - não fazer violência nem dar denúncia falsa, assim como satisfazer-se com o que
ganha.

São, como vemos, ações externas, da personalidade, o mínimo que se pode exigir de quem deseje pro-
gredir. Embora nada disso constitua ascensão espiritual, todavia é a preparação para ela: o andaime
não é a casa, mas sem aquele, esta não se ergueria do chão.
O que João pede é: a) divisão fraterna dos bens; b) justiça nas cobranças; c) energia sem violência; d)
não caluniar ninguém; e) conformar-se sem ganância.
Aos humildes (povo, pecadores, soldados) dirige-se com brandura, bem diversa das invetivas contra os
poderosos (saduceus) e os vaidosos (fariseus). Apresenta os conceitos de dever, sem exagerar nos di-
reitos, sem prejudicar ninguém, sem abusos. Em resumo: caridade e justiça, como pregava Isaías: “di-
vidir o pão com o faminto, abrigar os pobres sem teto, vestir os nus, não furtar-se aos deveres diante
dos irmãos” (Is.58:7).

Há muita gente que procura iludir aos outros e a si mesmos, no caminho do progresso e da evolução
espiritual. Os hipócritas (fariseus), em sua espiritualidade formalista externa, de rituais complicados
e minuciosos, julgando-se superiores, correm pressurosos para serem os primeiros a usufruir as van-
tagens religiosas, a fim de receber os elogios do povo. E os que estão em posição de proeminência
(saduceus), embora materialistas de convicção, ambicionam ser tidos como rigorosos no cumprimento
da lei, para não perderem suas posições de mando e influência.
Ambas essas classes são severamente repreendidos por João, a quem não interessa “agradar”, mas
sim pregar a Verdade prestes a chegar. Sua tarefa de Precursor estava acima das conveniências hu-
manas. Não lhe importava angariar adeptos e bajuladores, nem número de criaturas nem a elevada
posição social, ou religiosa, dos discípulos: sua missão era despertar os amadurecidos que aguarda-
vam, no imo do coração, a voz de comando. O Arauto não se deixava levar de “respeitos humanos”,
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SABEDORIA DO EVANGELHO
mas falava abertamente, embora soubesse que estava sujeito a ser abandonado, e depois combatido e
perseguido pelos grandes do mundo e da religião. Mas a Verdade tinha que ser proclamada desas-
sombradamente, apesar das dolorosas consequências terrenas que pudessem advir daí.
O momento crucial estava à porta: o machado que derrubaria as vaidades ilusórias já estava à raiz
das árvores, e se não houvesse sinceridade nos grandes, os pequeninos, humildes e ignorantes perante
o mundo viriam tomar-lhes o lugar: embora “pedras”, ainda presas da letra, se transformariam em
“filhos de Abraão”, em eleitos no “reino dos céus”. Os rebeldes e fingidos seriam lançado no fogo do
carma da “ira vindoura”.
Mas todos os que demonstram real arrependimento e boa vontade eficiente de trilhar a nova senda,
esforçando-se de alma e corpo, esses serão aproveitados, desde que substituam os erros do egoísmo
pela caridade, da usura pela generosidade, do abuso pela benevolência, da violência pela cordialida-
de, da crítica acerba pela compreensão, da ambição desmedida pela conformação resignada.

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C. TORRES PASTORINO

ANÚNCIO DO MESSIAS

Luc.3:15-18 Mat. 3:11-12 Marc.1:'7-8

15. Estando o povo na expecta- 11. “Eu na verdade vos mer- 7. E ele pregava: “Depois de
tiva e discorrendo todos em gulho em água para a re- mim vem aquele que é mais
seus corações a respeito de forma mental; mas aquele poderoso que eu, diante do
João, se porventura não se- que há de vir depois de qual não sou digno de abai-
ria ele o Cristo, mim é mais poderoso do xar-me para desatar-lhe a
que eu, e não sou digno de correia das sandálias.
16. disse João a todos “eu na
levar-lhe as sandálias; ele 8. Eu vos mergulhei na água,
verdade vos mergulho em
vos mergulhará no Espírito
água, mas vem aquele que é mas ele vos mergulhará no
santo e no fogo;
mais poderoso que eu, e espírito santo”.
não sou digno de desatar- 12. a sua pá ele a tem na sua
lhe as correias das sandá- mão e limpará bem a sua
lias: ele vos mergulhará no eira; e recolherá seu trigo
Espirito santo e no fogo: no celeiro, mas queimará a
palha em fogo inextinguí-
17. a sua pá ele a tem na sua
vel”.
mão para limpar sua eira e
recolher o trigo no seu ce-
leiro, mas queimará a pa-
lha em fogo inextinguível”.
18. Assim, pois, com muitas
outras exortações, anuncia-
va a Boa Nova ao povo.

Lucas esclarece a razão das explicações dadas por João: o povo aguardava ansioso o Messias, para
libertá-lo do jugo romano. E crescia a desconfiança a respeito de João: não seria ele o messias?
O precursor explica singelamente que sua tarefa é apenas preceder o Messias, preparar-lhe o caminho,
mergulhar na água simbolizando a purificação, para que depois venha a reforma mental. Nada mais . O
que virá depois, o “outro”, é mais forte, mais poderoso que ele, e os mergulhará num espírito santo e
no fogo.
Claramente elucida João que ele fala para a personalidade e que “outro”, mais elevado, falará para a
individualidade. E dá suas características: ele se satisfaz com a mudança do pensamento, com a “re-
forma mental” (setenta anos antes, exclamava Cícero para Catilina: “muta jam istam mentem”, muda
logo essa mentalidade”!). Na personalidade, isso constitui o essencial. Mais tarde, quando já no rumo
certo, depois de “rejeitados os erros”, então poderá chegar “outro” para ensinar o progresso “de den-
tro”. Só depois de arrasada a velha casa pelos demolidores, poderá vir o construtor para erguer o novo
prédio.
O “outro” mergulhará a individualidade “num espírito santo”, fazendo-a sintonizar com os bons espí-
ritos, e a fará penetrar “no fogo” da purificação (cfr. Is. 1:25; 4:4; Zac. 13:9; Mal. 3:2) que lhes quei-
mará todas as impurezas; fogo do remorso que limpa, fogo da dor que resgata, fogo dos sofrimentos
que corrige, fogo das provações que tempera, fogo do amor divino que purifica.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Tão grande é esse “outro”, que João se confessa indigno de “desatar-lhe as correias das sandálias”,
revelando com isso o conhecimento de sua pequenez diante da grandeza de Jesus (embora fossem pri-
mos); e confirmando a exultação e o gáudio que ele, João, experimentou ainda no ventre materno,
quando recebeu a visita de Jesus no ventre de Maria: era o velho profeta Elias, diante de Yahweh, um
“homem” diante de seu “deus”. Jesus o classificaria, mais tarde, como “o maior ser” da personalidade
(dentre os nascidos de mulher), embora o menor da individualidade (do “reino dos céus”) lhe fosse
superior.
Com uma imagem, João prefigura Jesus: “tem a pá na sua mão”: é o Senhor, o Dono da Terra, compa-
rada a uma eira (área de terreno liso e duro, onde se põem a secar os cereais para debulhá-los e limpá-
los; realmente, este planeta é uma “eira” para provação e seleção de nossos espíritos) . Prosseguindo na
imagem, João mostra que o trigo (as criaturas humanas) de boa qualidade serão recolhidas ao celeiro,
os frutos serão aproveitados; mas a palha (as personalidades transitórias, os corpos físicos, que só pas-
sageiramente revestem o “trigo” para depois serem abandonados) essa será queimada num “fogo inex-
tinguível” . Com efeito, o fogo purificador do amor divino é eterno e inextinguível em todos os univer-
sos, destruindo tudo o que é inútil, transitório e portanto prejudicial: é a palha dos defeitos, dos vícios,
dos maus hábitos, da vaidade e do orgulho, do personalismo enfatuado e separador. Enquanto os grãos
de trigo, moídos pela dor, irão constituir uma só farinha, formando um todo coletivo maior.
E Lucas conclui dizendo que essas, que ele exemplificou, eram as pregações de João, ao anunciar à
humanidade a Boa Notícia de que o Reino dos Céus (a era da individualidade) estava próxima, já ia
começar com a chegada de Jesus à Terra na missão divina, com o advento do Senhor à Sua eira .

O esclarecimento de João é taxativo e indiscutível: ele se dirige à personalidade exterior, aos planos
do quaternário transitório (corpo físico, etérico, astral e intelecto), pedindo nova direção para este
último e mergulhando na água o corpo físico, para que dela renasça a nova criatura. Mas o “outro”,
o Messias real, agiria na individualidade eterna, no trio superior, que ele mergulharia no espírito
santificado e no fogo do Eu Supremo, colocando-o em contato com o Cristo Interno, com o Deus resi-
dente em cada um.
Jesus viria com a pá em sua mão: ao celeiro divino do Cristo recolheria os “maduros”, ao passo que
os imaturos seriam lançados ao fogo inextinguível de novas encarnações expiatórias, até que atingis-
sem pleno amadurecimento.
Vemos, pois, duas qualidades de fogo, embora sejam ambas o mesmo fogo”. Se aquele que mergulha
no fogo divino está preparado, ficara inflamado pelo fogo do amor; se não no está, é consumido de
dores e purificado dos carmas, queimando as impurezas. O mesmo se passa com o trigo: enquanto a
palha e devorada pelo fogo, transformando-se em cinza, o grão moído, preparado e temperado é cozi-
nhado pelo mesmo fogo, produzindo o saboroso e nutritivo pão que doura nossas mesas. O fogo é o
mesmo: o efeito diferente depende da diversidade dos materiais que nele são colocados. Num provoca
a destruição, noutro a criação de novas virtudes; num consome ilusões inúteis e vãs, no outro salienta
as qualidades; num aniquila o mal que prejudica e atrasa, no outro prepara o alimento que sustenta e
que, bem aproveitado, será assimilado ao Cristo (como o pão o é ao corpo), passando a constituir UM
com Cristo, assim como Cristo é UM com Deus; ou seja, é recolhido ao celeiro”.
E João, como personalidade, SABE que por maior que seja, jamais poderá chegar aos pés da indivi-
dualidade: e a expressão “desatar-lhe as correias de suas sandálias” exprime bem a idéia: por mais
alto que esteja pela cultura e pelo conhecimento teórico nunca chegará ao limiar da individualidade,
se não realizar o encontro íntimo, por meio do Cristo.

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C. TORRES PASTORINO

RESPOSTAS DE JOÃO
João, 1:19-28
19. Este é o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes
e levitas, para perguntar-lhe: “Quem és tu?”
20. Ele confessou e não negou, e confessou: “Eu não sou o Cristo”.
21. Perguntaram-lhe eles: “Quem és então? És tu Elias?” Ele respondeu: “Não sou”. “És
tu o Profeta?” Respondeu: “Não”.
22. Disseram-lhe pois: “Quem és? Para que possamos dar resposta aos que nos enviaram.
Que pensas de ti mesmo?”
23. Ele replicou: “Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Se-
nhor”, como disse o profeta Isaías.
24. Ora, eles tinham sido enviados pelos fariseus.
25. Perguntaram-lhe também: “Por que então mergulhas se tu não és o Cristo, nem Elias,
nem o Profeta?”
26. Respondeu-lhes João: “Eu mergulho na água; no meio de vós está quem “Vós não co-
nheceis,
27. aquele que vem depois de mim, ao qual não sou digno de desatar a correia das sandá-
lias”.
28. Isto passou-se em Betânia, além do Jordão, onde João estava mergulhando.

O mesmo episódio anteriormente narrado pelos sinópticos é trazido com variantes pelo evangelista
João, com a autoridade que lhe conferia o fato de ter sido discípulo do Batista, e portanto de haver as-
sistido às cenas. Ele traz seu testemunho ocular do interrogatório “oficial” por parte do Sinédrio, por
intermédio de emissários credenciados. A delegação era constituída de sacerdotes (saduceus, que re-
presentavam a autoridade) e de levitas (o clero encarregado da polícia do Templo de Jerusalém).
A pergunta “quem és tu”? subentendia o acréscimo “és o Cristo”? E o evangelista coloca enfatica-
mente a resposta de João “confessou e não negou, mas confessou: não sou o Cristo”, ou seja não sou o
Messias esperado. Falou a verdade sem rebuços, não se fazendo passar, por quem não era.
Eles insistiram, perguntando-lhe se “era Elias”. A vinda do Messias estava condicionada à vinda de
Elias, que o devia proceder, segundo as palavras do Antigo Testamento, em Malaquias “eis que envio
meu mensageiro, ele há de preparar o caminho diante de mim (Yahweh)” (3:1), e “eis que vos enviarei
o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia de Yahweh; ele converterá o coração dos pais
aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais” (4:5-6). Os judeus o aguardavam no sentido literal (Cfr.
Mateus, 16:14 e 17:10-13; Marcos, 9:12 e 15:35-36; Lucas, 1:17). Jesus diz claramente, falando de
João Batista: “se quereis compreendê-lo, ele mesmo é Elias que tinha que vir” (Mat. 11:14); e mais:
“declaro-vos que Elias já veio ... e os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista”
(Mat. 17:11-13; cfr. Marcos, 9:13). De fato, o Batista viveu longo tempo no deserto, como Elias; vestia
um manto de pelo de camelo, como Elias; usava um cinto de couro, como Elias.
Por que então diz João que “não é Elias”? Porque de fato João Batista não era Elias; ele FORA Elias
em vida anterior, mas na atual não mais o era; era, sim, João Batista. A personalidade muda, de encar-
nação para encarnação: quando o ser (individualidade) reencarna, abandona por completo a personali-
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SABEDORIA DO EVANGELHO
dade anterior que morre (“uma só vez”, Hebr., 9:27) e assume nova personalidade (embora a possa
“reassumir”, quando novamente libertado de seu corpo físico, como ocorreu com João Batista que,
depois de desencarnar, reassumiu a personalidade de Elias e conversou com Jesus no Tabor, Mat. 17:3
e Marc. 9:4). Então, João Batista FOI outrora Elias, mas NÃO É MAIS Elias, é João. O comentador
católico Monsenhor Louis Pirot, de quem muito nos servimos nestes comentários, escreve uma frase
preciosa ao esclarecer a resposta do Batista: “mas enfim, tratava-se de Elias em pessoa e, nesse senti-
do, João Batista só podia responder negativamente” (“La Sainte Bible”, vol. 10, pág. 321). Embora
desconhecendo a técnica da reencarnação, e por isso negando-a, Pirot acertou: a PESSOA (personali-
dade) de Elias era uma; a PESSOA (personalidade) de João Batista era outra, totalmente diferente.
Todavia, a INDIVIDUALIDADE, o SER, ou o ESPÍRITO (não a alma!) de ambos era UM SÓ. Duas
contas de um rosário são duas contas diferentes, mas o fio que as liga faz que elas sejam “um rosário”
e “um fio” só. Outro exemplo: cada membro de nosso corpo é independente - o braço não é a perna -
mas o que faz que eles formem parte de UM SER apenas, é nosso ESPÍRITO que os unifica num só
corpo.
Aliás, são Gregório Magno (Homilia VII in Evangelium, Patr. Lat. t. 76 col. 1100) escreve: “Em outro
local (Mat. 11:13-14) , sendo o Senhor interrogado pelos discípulos quanto à vinda de Elias, respon-
deu: Elias já veio, e se quereis sabê-lo é João que é Elias. João, interrogado, diz o contrário: eu não sou
Elias ... É que João era Elias pelo espírito que o animava, mas ele não era Elias em pessoa. O que o
Senhor diz do espírito de Elias, João o nega da pessoa”. Conforme vemos, exatamente nosso ponto de
vista, concordando plenamente com a tese reencarnacionista.
Vem a terceira pergunta, baseada na promessa de Moisés: “Yahweh, teu deus, suscitar-te-á do meio de
ti (povo), dentre teus irmãos, um Profeta igual a mim: escutai-o” (Deut. 18:15). Seria João esse Profe-
ta? Essa profecia foi aplicada a Jesus por Pedro (Atas, 3:22), por Estêvão (Atos, 7:37) e pelo povo ju-
daico (João, 6:14 e 7:40). O Batista mais uma vez nega ser esse Profeta predito por Moisés.
A missão do sinédrio era “oficial”. Tinha, pois, o direito de argüir João. E pergunta-lhe como desfe-
cho: “que dizes de ti mesmo”? João retruca citando Isaías (40:3): “sou a voz do que clama no deserto,
endireitai os caminhos do Senhor”. Já estudamos esse trecho nos comentários aos sinópticas (Mat. 3:3;
Marcos, 1:3 e Lucas, 3:4). Aqui é o próprio João que a aplica a si mesmo, oficialmente, diante da má-
xima autoridade civil e religiosa do povo israelita.
Neste ponto, o evangelista diz que a delegação fora enviada pelos fariseus, ciosos do cumprimento da
Lei e da Tradição. Finalizado o interrogatório, tomam satisfações de seus atos: “se não és o Cristo,
nem Elias, nem “o” Profeta, com que direito mergulhas tu”?
Como vemos, a crença da reencarnação de Elias era aceita como indiscutível, o que prova que a pró-
pria reencarnação em si também o era. Apenas, não conheciam ainda bem a sua técnica.
João esclarece que apenas “mergulha na água”, para excitar os sentidos à reforma mental, mas afirma
solenemente que “o Messias já está em Israel”.
Informa o evangelista que esses fatos ocorreram em “Betânia” além do Jordão (não é a Betânia de
Marta e Maria). Orígenes, que conhecia o terreno, quis corrigir os manuscritos para “Betabara”, para
conformar-se à topografia da região.

Nesta cena, observamos a angústia que obceca os homens pela personalidade, pelo que cai sob os
sentidos. Nada de interessar-se pelo Espírito. Querem firmar suas crenças externas nas ilusões passa-
geiras do corpo, da pessoa, da filiação, das credenciais humanas.
Estes interrogatórios serão feitos a todos os que mergulharam no Espírito: “Quem és? que autoridade
tens? quem te deu esse poder”?
Se houver um “diploma” conferido, está tudo legal. Mas há que ser um diploma material e humano. A
Força Divina, para os homens comuns e para as “autoridades”, de nada vale: é indispensável a con-
firmação da autoridade “humana”.
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C. TORRES PASTORINO

O MERGULHO DE JESUS

Mat. 3:13-17 Marc. 1: 9-11 Luc. 3:21-22

13. Depois veio Jesus da Gali- 9. Naqueles dias veio Jesus de 21. Quando todo o povo havia
léia ao Jordão ter com Nazaré da Galiléia, e foi sido mergulhado, tendo
João, para ser mergulhado mergulhado por João no sido Jesus também mergu-
por ele. Jordão. lhado, e estando a orar, o
céu abriu-se
14. Mas João objetava-lhe: 10. Logo ao sair da água, viu os
“Eu é que preciso ser mer- céus se abrirem e o espírito, 22. e o espírito santo desceu
gulhado por ti e tu vens a como pomba, descer sobre como pomba sobre ele em
mim”? ele. forma corpórea, e veio uma
voz do céu: “Tu és meu Fi-
15. Respondeu-lhe Jesus: “Dei- 11. E ouviu-se uma voz dos
lho amado, estou satisfeito
xa por agora; porque assim céus: “Tu és meu Filho
contigo.”
nos convém cumprir toda amado, estou satisfeito con-
justiça”. Então ele anuiu. tigo”.
16. E Jesus tendo mergulhado,
saiu logo da água; e eis que
se abriram os céus e viu o
espírito de Deus descer
como pomba sobre ele,
17. e uma voz dos céus disse:
“Este é meu filho amado,
com quem estou satisfeito”.

Pela cronologia que estudamos, o Mergulho de Jesus deve ter ocorrido cerca de dois a três meses antes
da Páscoa do ano 29 (782 de Roma), tendo Jesus perto de 35 anos (Santo Irineu, Patrologia Graeca,
vol. 7, col. 783 e seguintes, diz que “no batismo” tinha Jesus 30 anos; no início de sua missão, 40 anos;
e à sua morte, 50 anos; baseia-se em motivos místicos e em João 8:57). A expressão de Lucas “cerca
de 30 anos” apenas serve para justificar que Jesus já tinha a idade legal (30 anos) para começar sua
“vida pública”.
As igrejas orientais celebram, desde o 4.º século, a data do mergulho a 6 de janeiro, no mesmo dia em
que comemoram a visita dos magos ou epifania (Duchesne, Origines du culte chrétien, 4.ª edição, pá-
ginas 263 e 264).
Pela tradição, parece que o ato foi celebrado na margem direita (ou ocidental) do Jordão, nas cercanias
de Jericó.
Os “Pais” da igreja buscam “razões” para o mergulho ou “batismo” de Jesus: para dar exemplo ao
povo; por humildade; para autorizar o mergulho de João, aprovando-o: para provocar o testemunho do
Espírito, revelando-se ao Batista; para santificar as águas do Jordão com sua presença e com os fluídos
que saíam de seu corpo; para confirmar a abolição do rito judaico do “batismo”; para aprovar o rito
joanino, etc.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
João procurou evitar o mergulho de Jesus. O verbo diekóluen está no imperfeito de repetição: “esfor-
çava-se por evitá-lo”, com várias razões, dizendo: “eu é que devo ser mergulhado por ti”.
João conhecia Jesus perfeitamente. Com efeito, sendo Isabel e Maria “parentas” (primas?), tendo Ma-
ria “se apressado a visitar Isabel” em sua gravidez, e com ela morando durante três meses, é evidente
que as relações entre as duas famílias eram de intimidade, e Jesus e João se hão de ter encontrado vári-
as vezes, embora, pela prolongada ausência de Jesus (dos 12 aos 35 anos) e pela estada de João no de-
serto, talvez se não tivessem visto nos ,últimos anos.
A resposta de Jesus é incisiva: “deixa por enquanto”. A necessidade, salientada por Jesus, de “cumprir
toda justiça”, tem o sentido de “realizar tudo o que está previsto com justeza”, ou “fazer tudo direito
como convém”.
E João anuiu, realizando o mergulho de Jesus, com o que demonstrou também verdadeira humildade
(não a falsa humildade, que se recusa a ajudar um superior, dando-se “como indigno” ...): houve a
tentativa de recusa sincera, mas logo a seguir, dadas as razões, houve anuência, sem afetação.

Agora chegamos aos fatos, que enumeramos para facilitar o comentário:


1) Jesus mergulha e sai imediatamente (eythys) da água. Aqui chamamos a atenção do leitor para o
mergulho (batismo) que não era por aspersão nem por derramamento de água na cabeça, mas era
realmente mergulho, tanto que Jesus “sai da água”, onde havia mergulhado totalmente (com cabe-
ça e tudo), costume que se manteve na igreja católica até, pelo menos, o século XI, notando-se que
só era conferido a pessoas adultas, acima da idade da razão. Cirilo de Jerusalém (Catecismo, 20,2)
ao discursar aos recém “batizados”, diz: “à vossa entrada (no batistério) tirastes a túnica, imagem
do homem velho que despistes. Assim desnudados, imitáveis a nudez de Cristo na Cruz ... coisa
admirável: estáveis nus diante de todos e não tínheis acanhamento: éreis a imagem de nosso pri-
meiro pai, Adão”. E na vida de .João Crisóstomo (Patrologia Graeca, vol. 47, col. 10) Paládio es-
creve: “Era Sábado-santo. A cerimônia do batismo ia começar e os catecúmenos nus esperavam o
momento de descer na água. Foi quando irrompeu um bando de soldados que invadiu a igreja para
expulsar os fiéis. Corre o sangue e as mulheres fogem nuas, pois lhes não permitiram apanhar suas
roupas”.
Lucas acrescenta: “estando Jesus a orar”, coisa que esse evangelista de modo geral registra (cfr.
Luc. 5:16; 6:12; 9:18; 11:1; 22:24), talvez compreendendo o grande valor da prece e demonstran-
do que, em todas as ocasiões mais graves, Jesus elevava seu pensamento em prece.

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C. TORRES PASTORINO

Figura “O MERGULHO DE JESUS” - Desenho de Bida, gravura de L. Massad

2) os céus se abriram - céus ou ar atmosférico. Como se abriram? Daria idéia de que algo tivesse sido
visto por trás da abertura. O que? Ou seria apenas uma luz mais forte que tivesse aparecido, dando
a impressão de abertura? Marcos usa a expressão “os céus se fenderam” ou “rasgaram” (mesmo
termo que se emprega para roupa ou rede que se rompe), verbo que também hoje se diz: “um raio
rasgou os céus”. Por aqui se vê que céu ou céus exprime a atmosfera, e não um lugar de delícias.
3) é visto o Espírito (Marcos e João), o Espírito de Deus (Mateus), o Espírito o Santo (Lucas). Mas de
que forma foi percebido o Espírito?
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SABEDORIA DO EVANGELHO
4) “com a forma (Lucas: corporalmente) de uma pomba”. Os quatro evangelistas empregam a conjun-
ção comparativa “COMO”. Nenhum deles diz que ERA uma pomba, mas que era COMO uma
pomba. O advérbio “corporalmente” (somatikó) empregado por Lucas indica a razão de haver sido
comparado o Espírito a uma pomba: era a aparência do corpo de uma pomba. Trata-se da sheki-
nah, luz que desce em forma de V muito aberto: tanto assim que todas as figurações artísticas,
desde os mais remotos tempos, apresentam uma pomba de frente, e de asas abertas, e jamais pou-
sada e de asas fechadas. Os artistas possuem forte intuição.

5) descer sobre ele (“e permanecer”, João). Todas essas ocorrências narradas (que numeramos de 2 a
5) são fenômenos físicos de vidência. A luz não estava parada, mas se movimentava, descendo so-
bre Jesus. Essa descida é que empresta a forma maior profundidade ao centro e maior elevação dos
lados fazendo que pareça (imagem óptica bem achada) uma pomba em vôo. O Espírito desceu so-
bre Jesus, sem forma, como uma luz que descia. Nele penetrou e permaneceu. Mas parecia, ou era
como uma pomba.
6) e ouviu-se uma voz do céu. A própria atmosfera vibrou noutro fenômeno físico de audiência, desta
vez com rumor de voz humana, que emitiu um som e articulou palavras claras, audíveis e compre-
endidas: “este é meu Filho amado, com quem estou satisfeito”, isto é, que aprovei, que me agra-
dou.
Tendo-o chamado “meu Filho”, deve supor tratar-se de um Espírito Superior ao de Jesus, que O amava
como um pai ama o filho.
A expressão é de carinho. Comum ser dado e recebido esse tratamento por parte de pessoas que não
são pais e filhos: sacerdotes assim tratam os fiéis, professores a seus alunos, superiores a seus subordi-
nados, mais velhos a mais moços. E nas reuniões mediúnicas, então, é quase de praxe que assim os
“espíritos” tratem os encarnados. Não significa, em absoluto, que a voz tenha sido de DEUS-PAI, sim-
plesmente porque DEUS ABSOLUTO não é antropomórfico, não possui atributos humanos (em que
idioma falaria Deus?).
Todos os fenômenos narrados são manifestações de efeitos físicos (vidência e audiência) que frequen-
temente ocorrem em reuniões espiritistas, com as mesmas características, percebidas por médiuns vi-
dentes e clariaudientes: céu que se abre, luzes que descem, vozes que falam. Para quem está habituado
a assistir a essas cenas, elas se tornam naturais e familiares, embora sempre impressionem profunda-
mente, pelas revelações que trazem. Autores antigos gregos e romanos, são férteis em narrativas desse
gênero.
Quem percebeu esses fenômenos? Apenas João ou todos os presentes? Mateus e Marcos dão-nos a
impressão de que só João viu e ouviu. Lucas nada diz: apresenta o fato. O evangelista João coloca as
palavras na boca do Batista, como única testemunha ocular, não acenando à voz.

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C. TORRES PASTORINO

João, 1:29-34
29. No dia seguinte, viu João a Jesus que vinha a ele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus que
tira o erro do mundo!
30. Este é o mesmo de quem eu disse: Depois de mim vem um homem, que começou antes
de mim, porque existia primeiro que eu ;
31. eu não o sabia, mas para que ele fosse manifestado a Israel, é que eu vim mergulhar
na água”.
32. E João deu testemunho, dizendo: “Vi o Espírito descer do céu como pomba e perma-
necer sobre ele.
33. Eu não o sabia, mas aquele que me enviou para mergulhar na água, disse-me:
“Aquele sobre quem vires descer o Espirito e ficar sobre ele, esse é o que mergulha
num espírito santo”.
34. E eu vi e testifiquei que ele é o Escolhido de Deus.

Mantivemos separado o texto de João, embora houvesse repetição de algumas cenas, porque a narrati-
va diverge dos sinópticos.
Em primeiro lugar, o evangelista que tanta importância dá à numerologia, assinala “no dia seguinte”,
reportando-se ao interrogatório do sinédrio, coisa de que os outros não cogitam. Não há necessidade,
cremos, de interpretar ao pé da letra. Diríamos: “na segunda etapa”. Mais adiante (versículo 35) ele
repetirá a mesma expressão com o mesmo sentido, revelando então os três passos da evolução do caso:

Primeiro, o interrogatório da personalidade (João), estabelecendo seus limites reais; segundo, o mer-
gulho na individualidade, que passa a agir através da personalidade; terceiro, a transferência dos
discípulos (de João) que abandonam também a personalidade, para aderirem à individualidade
(Jesus).
Mas voltemos ao texto.
João viu Jesus vir até ele. Essa narrativa é posterior ao mergulho de Jesus, contado logo após, como
fato já vivido anteriormente (vers' 32, 33). E ele atesta diante dos discípulos: “Eis o Cordeiro de Deus
que tira o erro do mundo”.
Que significará “Cordeiro de Deus”? Seria uma alusão ao cordeiro pascal? ou ao “Servo de Yahweh”
(ebed YHWH) segundo Isaías: “como um cordeiro levado à matança e como uma ovelha diante do
tosquiador” (Is. 53: 7) ?
Ao cordeiro se atribuía a qualidade de “expiar os pecados do mundo”, coisa que jamais foi atribuída a
Jesus (cfr. Strack-Billerbeck, Kommentar zum neuen Testament aus Talmud und Midrasch München,
1924, tomo 2, pág. 368). A semelhança com Isaías é mais aparente que real. Além disso, o verbo em-
pregado por João “tirar o erro” (airein) para esclarecer a verdade, é bem diverso do utilizado por Isaías
(pherein) “tomar sobre si o erro, para expiá-lo como vítima”. Nem pode admitir-se que, nessa época,
se cogitasse de um Messias sofredor. Não obstante, alguns hermeneutas explicam, pelo sentido interno,
que no momento da teofania (manifestação divina) do mergulho, João tenha compreendido todo o al-
cance da missão sacrificial de Jesus, tendo-lhe então aplicado a expressão “Cordeiro de Deus” no sen-
tido exato de Isaías (veja capítulo 52:13-15 e 53:1-12).
Recordemos, de passagem que o latim AGNUS (cordeiro), como símbolo de pureza, aproxima-se de
IGNIS (fogo) que, em sânscrito, língua-máter do latim, é AGNÍ com o sentido de fogo purificador,
fogo do holocausto.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Logo a seguir, João repete a frase sibilina que costumava dizer a seus discípulos: “depois de mim vem
um homem, que começou antes de mim, porque existia primeiro que eu”. Analisemo-la.
“Homem”, no .sentido de macho, de varão ( ανηρ ). “Vem depois de mim” ( οπισω µου ), com signifi-
cado temporal, isto é, aparecerá entre vós depois de mim”; e segue “que começou antes de mim”, quer
dizer “nasceu na eternidade, tornou-se ser” ( γεγονεν , no perfeito) antes de mim ( εµπροσθεν µου ).
Alguns interpretam “que me superou”, ou “que passou à minha frente”. E dá a razão: “porque existia
primeiro que eu “ ( οτι πρωτος µου ην ). Clara aqui a reencarnação, ou, pelo menos, a preexistência dos
espíritos. Jesus, COMO HOMEM, existia antes de João: então, COMO HOMEM, tomou corpo. E a
conclusão lógica é que, se ficar provado que UM SÓ homem existiu antes do nascimento, fica auto-
maticamente provada a preexistência PARA TODOS. E se a preexistência de UM SÓ espírito for
comprovada, ele só poderá nascer na Terra por meio da “encarnação”. E se pode realizar esse feito
uma vez, poderá realizá-lo quantas vezes quiser ou de que necessitar para sua evolução.
Depois, concedendo uma explicação aos discípulos, o Batista revela-lhes por que fez essas afirmativas.
“Eu não o sabia, mas vim mergulhar na água para que ele fosse manifestado a Israel”.
As traduções vulgares trazem “eu não o conhecia”. Mas o verbo ηδειν do texto (mais-que-perfeito do
perfeito presente do indicativo οιδα do verbo ειδω e portanto com sentido de imperfeito do indicativo),
tem o significado primordial de “saber”, ou “estar informado”.
Então o Batista confessa que não tinha informação ou conhecimento total da missão de seu parente
Jesus, mas que tinha vindo à Terra (reencarnado) para que ele, o Messias, pudesse manifestar-se. O
testemunho do mergulho de Jesus era imprescindível para que João o reconhecesse como Messias, e
como tal o apresentasse ao povo. Com isso, compreendemos melhor a frase de Jesus em Mateus: “dei-
xa por agora, porque assim nos convém cumprir toda justiça”, isto é, ajustar-nos ao que está previsto.
E continuam os esclarecimentos, dando o motivo por que soube de que se tratava “vi o Espirito descer
do céu COMO pomba e PERMANECER sobre ele” . O pormenor de que o Espírito (não “santo” nem
de “Deus”, concordando com Marcos) “permaneceu” sobre Jesus, parece ser valioso e será repisado
adiante.
Repete: “eu não o sabia”, e explica: “mas aquele que me enviou para mergulhar na água, disse-me”. A
notícia de que “alguém” enviou João Batista à Terra (logo preexistência e reencarnação) é de suma
importância e confirma as palavras do evangelista João, 1:6. Quem será esse “alguém” que enviou
João à Terra? Acreditamos que o próprio Jesus (Yahweh) antes de encarnar, firmando-lhe na memória
um fato típico que não seria esquecido: aquele sobre quem vires descer o Espírito e permanecer sobre
ele, esse é o que mergulha num espírito santo” (em grego sem artigo). O sinal foi cumprido no mergu-
lho de Jesus, que o evangelista supõe conhecido e dele não fala.
E conclui: “eu vi e testifiquei que esse é o Escolhido de Deus”. As traduções vulgares trazem “Filho de
Deus”, lição dos manuscritos Borgianus (T), século 5.º; Freerianus (W) , século 5.º; Seidelianus II (H),
Mosquensis (VI) e Campianus (M) do século 9.º. Mas preferimos a lição o “Escolhido de Deus” ( О
Εκλεκτος του Θεου ), porque é atestada por mais antigos e importantes manuscritos: Papyrus Oxhirin-
cus (Londres, do século 3.º), pelo sinaítico (séc. 4.º), Vercellensis (séc. 4.º), Veronensis (séc. 4.º), e
pelas versões siríacas sinaítica (séc. 4.º) e curetoniana (séc. 5.º), pela sahídica, assim como pela Vetus
Latina (codex Palatinus, séc. 4.º), bem como por Ambrósio, que foi bispo de Milão no século 4.º.
Além disso, a expressão “Escolhido de Deus” é muito empregada no grego dos LXX e em o Novo
Testamento (cfr. Is. 43:20; Ps. 105:4; Sap. 3:9; Tob. 8:15; Mat. 20:16; 22:14; 24:22, 24,31; Marc.
13:20, 22,27; Luc. 18:7; 23:35; João, 1:34 (este); Rom. 8:33 e 16:13; Col. 3:12; I Tim. 5:21; 2 Tim.
2:10; Tit. 1:1; 1 Pe. 1:1; 2:4, 6, 9; 2 Jo. 1, 13; Apoc. 17:14).
Temos, pois, razões ponderáveis para aceitar nossa versão, que dá a medida das coisas nesse momento:
João viu e deu testemunho, de que Ele, Jesus, era o “escolhido de Deus” para a missão de Messias, o
Enviado Crístico.

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C. TORRES PASTORINO
No mergulho de Jesus, encontramos farto material de estudo.
Diz a Teosofia que, no momento do mergulho, o “espírito” de Jesus saiu do corpo, deixando-o para
que nele entrasse, como entrou, o “espírito” do Cristo, que aí permaneceu até o momento da crucifi-
cação.
A idéia está expressa de maneira incompreensível. Mas assim mesmo, através dessas palavras, perce-
bemos a realidade do que houve.
Jesus, como personalidade, manifestou tão grande humildade, que se aniquilou a si mesmo. E o ani-
quilamento da personalidade, pela renúncia a qualquer vaidade e orgulho, foi tão grande, que não
mais agiu daí por diante. E isso fez que, através de Jesus, só aparecesse e só agisse o seu Cristo Inter-
no, isto é, a Sua individualidade Crística, o Eu divino. Essa é a meta de todas as criaturas: “quem
quiser seguir-me, negue-se a si mesmo” (Mat. 16:24), anule sua personalidade, com a humildade má-
xima, e então poderá seguir a mesma estrada que Jesus, que a viveu antes para dar-nos o exemplo
vivo e palpitante de humildade e aniquilamento.
João Batista é o protótipo da personalidade já espiritualizada.
Nasce antes de Jesus, o que exprime que a evolução da personalidade se dá antes da individualidade.
João é “a voz que clama preparando o caminho para o Senhor”, ou seja, para a individualidade. Daí
dizer (João, 3:30): “é necessário que Ele (Jesus, a individualidade) cresça, e que eu (João, a perso-
nalidade) diminua”. Não fora esse o sentido, haveria contradição com o que foi antes dito: “é tão
grande, que não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias”. Se já era tão superior a João,
porque teria que CRESCER? E se João era tão pequeno, por que teria que DIMINUIR? Não seria o
caso de João dever progredir, aperfeiçoar-se, CRESCER, para tornar-se grande como Jesus? A meta
não é o crescimento espiritual? Mas aí se trata é da oposição entre a personalidade e a individualida-
de: para que a segunda CRESÇA só há um caminho: é fazer que a primeira DIMINUA até ANULAR-
SE. Só assim podemos compreender essa frase de João. O intelecto iluminado de João percebe a Luz
da Verdade, a Bondade do Amor e o Fogo do Poder de Cristo, e o anuncia como o “Cordeiro de
Deus”, pregando a necessidade da metánoia, isto é, da “reforma mental”, a fim de perceber o “reino
de Deus” que, diz ele, “se aproxima de vós”, ou melhor, porque estais prestes a penetrar os mistérios
recônditos do Eu Supremo.
O conhecido “batismo” deve ser entendido no sentido real e pleno da palavra original grega: MER-
GULHO. Com efeito, é o mergulho consciente na presença de Deus dentro de nós, em nosso coração,
mergulho esse que dá o desenvolvimento pleno à individualidade, ao Espírito.
João, a personalidade, só realiza o “mergulho na água”, isto é, o mergulho exterior; mas Jesus (a
individualidade) veio exemplificar-nos o mergulho “no fogo” (AGNÍ) da Centelha de Deus em nosso
coração - por isso, em nossos comentários acenamos à semelhança da raiz latina AGNUS (cordeiro),
em grego “Amnós”, com o sânscrito “agní” - e “no Espírito”, ou seja, no Eu profundo, nosso verda-
deiro Eu espiritual que é o Cristo Cósmico.

ESPÍRITO
Vamos aproveitar para esclarecer a distinção que fazemos das diversas acepções da palavra ESPÍRI-
TO. Ora o escrevemos entre aspas e com inicial minúscula: o “espírito”, e queremos então referir-nos
ao termo comum de espírito desencarnado, isto é, ao espírito da criatura que ainda está preso à per-
sonalidade, com um rótulo, ou seja, um NOME: por exemplo, o “espírito” de João, o “espírito” de
Antônio, etc . Doutras vezes escrevemos a palavra com inicial maiúscula: o Espírito, e com isso signi-
ficamos a individualidade, ou seja, o trio superior composto de Centelha Divina, Mente e Espírito,
mas sem nome, não sujeito a tempo e espaço. Então, quando o Espírito se prende à personalidade,
passa a ser o “espírito” de uma criatura humana, encarnada ou desencarnada. O Espírito é o que
está em contato com o Eu Profundo, enquanto o “espírito” está em contato com o “eu” pequeno, que
tem um nome. Somos forçados a fazer estas distinções para que as idéias fiquem bem claras. Além
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SABEDORIA DO EVANGELHO
desses, temos o “Espírito” de Deus, ou o “Espírito” Santo, que é a manifestação cósmica da Divinda-
de, também chamado o Cristo Cósmico, de que todos somos uma partícula, um reflexo; em nós, o
Cristo é denominado “Cristo Interno” ou Centelha Divina, e é a manifestação divina em cada um de
nós. Não se pense, entretanto, que a reunião de todas as Centelhas divinas ou “mônadas” das criatu-
ras forme o Cristo Cósmico. Não! Ele está imanente (dentro de todos nós), mas é INFINITO e, por-
tanto, é transcendente a todos, porque existe ALÉM de todos infinitamente. O mergulho de que fala-
mos exprime, em primeiro lugar, o ENCONTRO do “espírito” (personalístico) com o seu próprio Es-
pírito (individualidade), e depois disso, em segundo lugar, a absorção do Espírito no mais recôndito
de seu EU profundo, ou seja, a UNIFICAÇÃO do Espírito com o Cristo Interno, com sua consequente
INTEGRAÇÃO com o Cristo Cósmico.
Quando a criatura dá esse mergulho profundo, o Espírito de Deus “desce sobre ele e nele permane-
ce”, porque a união é definitiva e absorvente. Para conseguir-se o mergulho, temos que ir ao encontro
de Deus em nosso coração, mas também temos que aguardar que Deus desça a nós, ou seja, temos
que esperar a “ação da graça”, para então realizar-se o Encontro Sublime .
A forma de pomba, percebida pelo Batista e por ele salientada, simboliza a paz interior permanente,
essa “paz que o mundo não dá” (João, 14:27). E a Voz divina o revela aos ouvidos internos do men-
sageiro, como o “Filho Amado”, como o “escolhido”, confessando-se satisfeito com ele.
Esse mergulho foi compreendido por Paulo de Tarso. Escreveu ele: “todos quantos fostes mergulha-
dos em Cristo, vos revestistes de Cristo” (Gál. 3:27). Desde que o homem mergulha em seu íntimo,
passa a ser revestido do Cristo Interno, como foi Jesus. Quase que o interior se torna exterior, e a
personalidade, ao anular-se, cede lugar à individualidade que começa a manifestar-se externamente:
“não sou mais eu (personalidade) que vivo: é Cristo (individualidade) que vive em, mim” (Gál. 2:20).
E acrescenta: “agora Cristo será engrandecido em meu corpo (personalidade), quer pela vida, quer
pela morte, pois para mim o viver é Cristo, e o morrer (a personalidade) é lucro” (Filip. 1:20-21) . E
explica: “por isso nós, de agora em diante, não conhecemos a ninguém segundo a carne (a personali-
dade): ainda que tenhamos conhecido a Cristo segundo a carne, agora, contudo, não O conhecemos
mais desse modo; se alguém está em Cristo, é nova criatura; passou o que era velho e se fez novo (2
Cor. 5:16-17). Esclarece mais: “pois morrestes (na personalidade) e vossa vida está escondida com
Cristo em Deus” (Colo 3:3). E Pedro Apóstolo, localizando a Centelha divina no coração, aconselha:
“santificai Cristo em vossos corações” (1 Pe. 3:15).
Nesse estado, após o mergulho interno no coração, a criatura passa a ser o “escolhido” ou o “Filho
de Deus”, porque purificou (santificou) seu coração de todo apego personalístico (“bem-aventurados
os puros de coração, porque verão a Deus”, Mat. 5:8), e estão com a “pomba” da paz divina perma-
nente, pacificando-se e pacificando a todos (“bem-aventurados os pacificadores, porque serão cha-
mados Filhos de Deus”, Mat. 5:9). E assim perdem o apego a pai, mãe, esposa, filhos e a si mesmos, e
seguem ao Cristo Interno em seus corações (“quem ama - ou se apega - a seu pai ou mãe ou filho ou
filha mais do que a mim (Cristo), não é digno de mim ... o que acha sua vida (personalística) perdê-la-
á (porque morrerá um dia), mas o que perde (renuncia) sua vida (personalística) por minha causa,
achá-la-á, Mat.10:37-39).
O homem que atingiu esse ápice sublime, no mergulho dentro de seu Espírito e do Fogo da Centelha,
“tira o erro do mundo”(liquidai seu carma) e, por seu exemplo de amor e de humildade, revela a to-
dos o Caminho certo, o Caminho Crístico, que leva à Verdade e à Vida (João,14:6).
Paulo ainda explica: “ou ignorais que todos os que fomos mergulhados em Cristo Jesus, mergulha-
mos na morte dele”? (Rom. 6:3). Quer dizer, os que tomam contato com a Individualidade, fizeram a
personalidade perecer “crucificada na carne” (a Cruz é o símbolo do corpo - de pernas juntas e bra-
ços abertos - e exprime o quaternário inferior da personalidade: corpo denso, duplo etérico, corpo
astral e intelecto). Por isso: “num só Espírito (Cristo) fomos todos nós mergulhados num corpo” (1
Cor. 12:13). A comparação do mergulho no Espírito é feita, exemplificando-se com o ato oposto,
quando o “espírito” mergulha num corpo (reencarnação): assim como ao nascer o “espírito” mer-

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C. TORRES PASTORINO
gulha na carne, assim nós todos, embora ainda crucificados na carne, teremos que mergulhar a per-
sonalidade no Espírito e no Fogo, fazendo que essa personalidade se aniquile, se anule, pereça.
Com isso, com a anulação da personalidade, será tirado o “erro” do mundo, porque ninguém mais
terá pruridos de vaidade, nem sentirá o amor-próprio ferido, nem se magoará, porque SABE que nada
externo poderá atingir seu verdadeiro EU, que está em Cristo. Teremos o perdão em toda a sua am-
plitude, a ausência de raivas e ódios, reinando apenas o Amor e a Humildade em todos. O adversário
será dominado. O adversário (diabo ou satanás) é a própria personalidade vaidosa e cheia de empá-
fia de cada um de nós. Liquidada a personalidade, acaba a separação e acaba o erro no mundo.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

TENTAÇÃO DE JESUS

Mat. 4: 1-11 Luc. 4: 1-13 Marc. 1: 12-13

1. Então foi levado Jesus pelo 1. Cheio de um espírito santo, 12. Imediatamente o espíri-
espírito ao deserto para ser voltou Jesus do Jordão e foi to o imliu para o deser-
posto à prova pelo adversário. levado com o espírito ao de- to,
serto,
2. E tendo jejuado quarenta dias 13. e ali ficou quarenta dias
e quarenta noites, depois teve 2. durante quarenta dias, sen- tentado pelo antagonis-
fome. do experimentado pelo ad- ta; e estava com as feras
versário. E nada comeu nes- e os anjos o serviam.
3. Chegando o tentador disse-
ses dias; mas, passados eles,
lhe: “se és filho de Deus, dize
teve fome.
que estas pedras se tornem em
pães”. 3. Então lhe disse o adversá-
rio: “se és Filho de Deus,
4. Mas Jesus respondeu: “Está
manda que esta pedra se
escrito: “Não só de pão viverá
torne em pão”.
o homem, mas de tudo o Que
sai da boca de Deus”. 4. Respondeu-lhe Jesus: “Está
escrito que não só de pão
5. Então o adversário o levou à
viverá o homem”.
cidade santa e o colocou sobre
o pináculo do templo, 5. E levando-o a uma altura,
mostrou-lhe num relance de
6. e disse-lhe: “se és filho de
tempo todos os reinos habi-
Deus, lança-te daqui abaixo,
tados.
porque está escrito: “a seus
anjos ordenará a teu respeito, 6. Disse-lhe o adversário:
e eles te susterão em suas “dar-te-ei o domínio absolu-
mãos, para não tropeçares em to e o apreço deles, porque
alguma pedra”. eles me foram entregues e
os dou a quem eu quiser;
7. Tornou-lhe Jesus: “Também
está escrito: não tentarás o 7. se tu, pois, me adorares,
Senhor teu Deus”, tudo será teu”.
8. De novo o adversário o levou 8. Respondeu Jesus: “Está
a um monte muito alto e mos- escrito: ao Senhor teu Deus
trou-lhe todos os reinos do adorarás e só a ele darás
mundo e o apreço deles, culto”.
9. e disse-lhe: “tudo isto te darei 9. Então o levou a Jerusalém e
se, prostrado, me adorares”. o colocou sobre o pináculo
do templo e lhe disse : “se és
10. Respondeu-lhe Jesus: “Vai
filho de Deus, lança-te da-
para trás, antagonista, porque
qui abaixo,
está escrito: ao Senhor teu
Deus adorarás e só a Ele da- 10. porque está escrito: “a os
rás culto”. seus anjos ordenará a teu
respeito para te guardarem,
11. Então o adversário o deixou; e

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C. TORRES PASTORINO
eis que vieram os anjos e o 11. e “eles te susterão nas mãos
serviam. para não tropeçares em al-
guma pedra”.
12. Respondendo disse-lhe:
“dito esta que não tentarás
ao Senhor teu Deus”.
13. Tendo o adversário acabado
toda sorte de tentação,
apartou-se dele até ocasião
oportuna.

Estudemos, inicialmente, três palavras que aparecem no texto, uma hebraica e duas gregas. E comple-
taremos logo a seguir o estudo de um assunto que tem sido mal conduzido, por interpretações viciosas.

SATÃ ou SATANÁS - Em hebraico aparece (...) (satan) e em aramaico (...) (sitená), mas também se
encontram as duas palavras iniciadas por samech: (...)
Essa palavra significa literalmente “o opositor, o antagonista, o adversário, ou seja A PESSOA QUE
SE OPÕE.
Foi transliterado em muitos lugares para o grego σατανάς .
No entanto, desde os Setenta até o Novo Testamento, essa palavra aparece também traduzida em gre-
go, por uma equivalente:
DIABO - que é o adjetivo διάβολος,ος,ον
O verbo grego διαβάλλω - composto da partícula διά (que exprime separação em duas ou mais dire-
ções) e o verbo simples βάλλω (que quer dizer “lançar, jogar, impelir”) - tem o sentido de “desunir,
separar”; daí derivam outros sentidos, como “intrigar”, donde: “acusar, caluniar, opor-se”.
Esse verbo é usado, nestes trechos que estamos comentando, duas vezes na forma simples: βάλε - lan-
ça-te (Mat. 4:6 e Luc. 4:9) e uma vez no composto: έиβάλλει - impeliu (Marc. 1:12).
Desse verbo derivam:
a) o substantivo διαβολή , ης (f.), que significa “divisão, desunião”, donde “intriga, acusação, calú-
nia”, e
b) o adjetivo διάβολος,ος,ον com o sentido “que separa, que divide”, donde “adversário, opositor,
provocador, acusador, caluniador”.

TENTADOR - Em grego é um verbo ζαdιзд (só conjugado no presente e no aoristo), cujo particípio
presente é substantivado: o πειραζων . O verbo quer dizer “experimentar, tentar, pôr à prova” e o parti-
cípio tem o sentido de “o tentador”.
Concluímos, pois, que há sinonímia entre os dois primeiros, e sempre os traduziremos assim: “o anta-
gonista” (satanás) ; “o adversário” (diabo) e “o tentador”.
Antes de prosseguir, todavia, expliquemos o sentido REAL atribuído pelo Novo Testamento às pala-
vras “antagonista”, “adversário” e “tentador”.
Todos os três epítetos referem-se à PERSONALIDADE: é o quaternário inferior que, pela encarna-
ção, estabelece a separação, a divisão, a desunião entre as criaturas, e que se opõe à espiritualização;
é o adversário e antagonista da evolução, que tenta o homem para que volte sempre à matéria.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
O Espírito (Cristo) é um só em todos (“um só Espírito há”, Ef. 4:4), porque o Foco Incriado (Deus) é
um só (“há um só Deus e Pai de todos”, Ef. 4:6). Quando as Centelhas se afastam do Foco, se esfriam
ou congelam (por estarem distantes vibratoriamente do calor) e se cristalizam na matéria densa opaca
(que é “trevas” por distanciamento vibratório do Foco de Luz). Então, as Centelhas ficam separadas
umas das outras pelo corpo denso de que se revestiram, seja ele mineral, vegetal ou animal; não obs-
tante, mesmo sendo a personalidade “o antagonista, o adversário”, continua sendo “Lúcifer”, ou
seja, o “portador da luz”, porque tem dentro de si a Luz Divina. Divididas e separadas em corpos
diferentes, estabelece-se toda a sequência de contrastes, egoísmos, vaidades, ciúmes, ódios, etc.
O trabalho evolutivo consiste na reunificação de todos em UM; em outros termos, no AMOR total
entre todos, sem distinções e qualquer espécie. O que se opõe a esse AMOR-UNIÃO e a personalida-
de, que é o “antagonista” (satanás) , o “adversário” (diabo) , o “tentador”, que atrai o espírito para
a separação, querendo sobrepujar os demais .
A personalidade é que, separada como está, distingue o “eu” do “tu”, opondo o “eu” a “todo o res-
to”.
Quando conseguirmos reunir, ou melhor, reunificar tudo NUM só Cristo (“para que sejam UM comi-
go, assim como sou UM contigo, Pai”, João, 17:22) teremos alcançado a meta da evolução. E então a
personalidade ( opositor, diabo, satanás, tentador) e sua consequência inevitável, a morte, estarão
dominadas e vencidos: “a morte foi aniquilada pela vitória (cfr. Isaías, 25:8). Onde está ó morte a tua
vitória? (cfr. Oséas, 13:14). Onde está ó morte o teu aguilhão (teu estimulante)? O aguilhão da morte
é a queda (o erro, a involução na matéria), e a força da queda é a lei (da evolução)”, lemos em Paulo
(I Cor.15:54-55).

No entanto, há outras palavras vulgarmente tidas como sinônimos de diabo e satanás, mas que nada
têm que ver com esse sentido. Esclareçamos logo.

DEMÔNIO- Nada autoriza a confundi-lo com os termos acima.


O substantivo grego δαιµων, ονος (masc. e fem.) é simplesmente um espírito desencarnado, de ho-
mem ou de mulher, podendo ser bom (guia), regular (familiar) ou perverso (obsessor). A literatura
grega é farta de exemplos dos três graus, embora os dois primeiros sejam os mais comuns, ao passo
que nos Evangelhos o mais comum é o terceiro. Platão usa o adjetivo δαιµονιος; ao lado do substantivo
σωφια para exprimir “a sabedoria divina” ... (Crat, 396 d) e Herodoto (4, 126 e 7, 48) emprega o mes-
mo adjetivo ao lado de “homem”, no sentido de “homem excelente”. O próprio Platão (Ap. 40 a) refere
que Sócrates dizia ter um “guia” (δαίµων) que o ajudava em todas as dificuldades da vida, aconselhan-
do-o para o bem.
Os verbos δαιµονίζοµαι e δαιµόνω significam “receber espírito”, ou “estar sob a ação de um espírito
desencarnado”, fosse ele bom ou mau.
Do substantivo, deriva o adjetivo δαιµόνιος, ος (α), ον que significa “maravilhoso, extraordinário”;
esse adjetivo é substantivado em το δαιµόνιον, para exprimir “espírito desencarnado”, ou seja, o ser
que está na escala entre Deus e o homem. Observe-se que em o Novo Testamento só é usada essa for-
ma do adjetivo substantivado, aparecendo o substantivo δαίµων apenas em Mat. 4:3.
Demônio, pois, é apenas um “espírito desencarnado”, com três graus de evolução: bons e regulares
(nos autores profanos) e pouco elucidados (nos autores do Novo Testamento), Mas há ainda duas ou-
tras espécies de “espíritos” citados:

IMPURO – πνεΰµα άиάθαρτον com o sentido exato de “não-purificado” ainda, ou melhor, de “atrasa-
do”, de não-evoluído.

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MAU – πνεΰµα πονερόν , que preferimos chamar “sofredor”. Com efeito, πονερός tem esse sentido:
“sofredor, infeliz, defeituoso”, donde passou a “mau”; tanto assim que o substantivo exprime “o so-
frimento”, e daí “o mal” porque, segundo a concepção terrena, todo sofrimento é um mal. Mas ambos
são derivados do substantivo πόνος , que quer dizer “esforço”, donde “fadiga”, e daí “sofrimento”
(compare com o latim poena e o português “pena”).

SANTO - Quando, porém, o “espírito” é bom, esclarecido, ou melhor, iluminado, o Novo Testamento
o chama “santo” ( άγιος ), isto é, puro, sadio, são.
Resumindo, temos as seguintes qualificações para os espíritos humanos desencarnados, de acordo com
seus graus evolutivos:
1) - santo - sadio, bom, iluminado, superior a nós;
2) - demônio - regular, não-esclarecido, familiar, igual a nós;
3) - sofredor - que está sofrendo, mas esforçando-se por melhorar;
4) - impuro, isto é, atrasado - não evoluído ainda, e que se obstina no erro.
A estes, podemos acrescentar mais um termo: é um espírito humano desencarnado, já iluminado (san-
to) que tem missão especial: e um mensageiro, um encarregado de tarefa especial junto aos homens;
denominado, então, ANJO.
Passemos, agora, aos comentários exegéticos dos trechos, procurando ater-nos à cronologia. das ocor-
rências.
(1) Lucas diz que “Jesus voltou do Jordão cheio de um espírito santo” (em grego sem artigo; portanto,
é indeterminado, um epíteto comum: um espírito bom, iluminado), e foi com o (com esse) espírito
para o deserto. Aí temos mais uma vez a preposição grega en, com valor associativo, que comen-
tamos nas págs. 32 e 80.
(2) Mateus afirma simplesmente que “foi conduzido ao deserto pelo espírito” (agente da passiva, com
a preposição “hypó”, que literalmente daria o sentido “sob um espírito”, podendo entender-se: con-
duzido sob a influência do espírito, ou ainda “incorporado”).
(3) O “deserto” não foi localizado até hoje. Pela tradição seria o “Monte da Quarentena” (Djebel Ka-
rantal) a 4 quilômetros a nordeste da moderna Jericó, lugar ermo e cheio de grutas naturais. O de-
serto, segundo informam as Escrituras, era o local preferido dos espíritos atrasados (cfr. Mat.
12:43; Luc. 11:24; Isaías, 13:21 e 34:14; Bar. 4:35 e Tob. 8:3).
(4) Temos a notícia do jejum de quarenta dias e quarenta noites. Não se trata de um hebraísmo essa
repetição, mas salienta o narrador que Jesus não comeu nem de dia nem de noite; há razão para
essa afirmativa, pois no oriente, depois de ocultar-se o sol, os jejuadores podiam alimentar-se,
como ainda se usa hoje no Ramadan.
(5) Por que quarenta? É um número simbólico e cabalístico, que vemos repetido no Velho Testamen-
to: o dilúvio dura quarenta dias (Gên. 7:17); Moisés jejua no Sinai, por duas vezes, durante qua-
renta dias de cada vez (Deut. 9:9 e 9:18); os israelitas ficam 40 anos a peregrinar pelo deserto
(Núm. 14:33) ; Elias jejua 40 dias (1 Reis 19:8); David e Salomão reinam quarenta anos cada um
(1 Reis, 2:11 e 11:42) e outros passos ainda. Na própria vida de Jesus temos esse jejum e mais tar-
de sua permanência na Terra entre a ressurreição e a ascensão, durante quarenta dias (At. 1:3).
Deve haver algum significado nesse número.
(6) Depois assinalam os evangelistas que Jesus teve fome.
(7) Aparece então o “tentador”. Discutem os hermeneutas se Lhe apareceu sob forma humana corpó-
rea, se “pegou” mesmo a pedra com sua mão, ou se a cena se passou em “pensamento”. Na primei-
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ra hipótese teríamos um fenômeno de materialização, e assim costumam representá-la os pintores.
Na segunda, seria apenas um fato intelectual. Não discutiremos essas minúcias, pois o fato será es-
clarecido no comentário simbólico, compreendendo-se que se trata de “pensamentos”, que, aliás,
nem sequer chegaram a tomar consistência, tão rapidamente foram esmagados pelo Espírito de
Jesus.
(8) A seguir são enumeradas as “tentações”. Parece-nos mais lógica a sequência dada por Mateus:

I - de EGOÍSMO - transformar as pedras em pães, para saciar a própria fome. Trata-se do desejo ani-
mal de satisfazer à “fome”, isto é, aos apetites egoístas do quaternário inferior. A resposta de Jesus,
extraída de Deuteronômio 8:3, faz-nos compreender que a alimentação espiritual da tríade superior
também pode saciar ,essas “fomes”.
II - de VAIDADE – lançar-se de grande altura, confiando que Deus mandará “mensageiros” para aju-
dá-lo. O adversário apresenta-se com uma frase do Salmo 91:11-12, mas Jesus lhe responde com outra
do Deuteronômio 6:16. É a tentação de ceder à vaidade de demonstrações taumatúrgicas, onde não
haja necessidade delas, confiando em proteções “especiais” superiores.
III - de ORGULHO - usar qualquer meio bajulatório para obter fama e poder de domínio. Volta Jesus
com um versículo do Deuteronômio 6:13, mostrando que Deus está acima de tudo e só a Ele podemos
e devemos prestar culto, reverência e obediência, não devendo utilizar-nos de meios escusos para ad-
quirir vantagens nem pessoais nem para grupos.

(9) Discute-se também se o “diabo” carregou Jesus em suas mãos, para levá-lo a Jerusalém, colocan-
do-o sobre o pináculo do Templo; e se O transportou carregando-O para o cume da montanha; e
pergunta-se qual seria essa montanha, “de onde se viam todos os reinos do mundo” ... As soluções
oferecidas por alguns comentadores são lamentáveis do ponto de vista do bom senso. Acreditamos
que a explicação não esteja na “letra” e sim no “espírito” ou seja, no sentido global das “tenta-
ções”.
(10) O sentido de “mostrou os reinos do mundo e o apreço deles” em Mateus; e a expressão: “dar-
te-ei o domínio absoluto e o apreço deles”, podem resumir-se: “o domínio das criaturas, e o apreço
ou fama que obteria entre elas”. A palavra grega δόζαν , derivada do verbo δοиεω tem vários sen-
tidos: 1) aparência; 2) opinião; crença; 3) doutrina, ensino (por oposição a άληθεια “verdade
pura”; a γνώσις “conhecimento adquirido; e a έπιστήµη “ciência”); 4) apreço, reputação, donde 5)
glória.
(11) Em Mateus, no final do episódio, Jesus usa uma expressão autoritária: “retira-te, antagonista”,
que foram as mesmas palavras dirigidas a Pedro, quando este se opunha à revelação do sofrimento
de Jesus (Marc. 8:33). O verbo grego υπαγε tem o sentido exato de “retira-te submetendo-te, capi-
tula, rende-te, subordina-te”, porque é composto de υπο (para baixo) e αγω (agir, ir).
(12) A conclusão é que, afastado o adversário, os anjos apresentaram-se para servir a Jesus.
No trecho resumidíssimo de Marcos há um pormenor: Jesus, no deserto, “estava com as feras” e com
os anjos, que O serviam. Na Palestina da época, as feras que perambulavam eram chacais, lobos, rapo-
sas, gazelas e, menos provavelmente, hienas, panteras e leopardos.

Mais alguns ensinamentos de profundo alcance, nesta lição da Boa Nova.


Após ter a individualidade (Jesus) realizado o Sublime Encontro ou Mergulho no Fogo, Cristo Interi-
or, é ela levada para consolidar essa união no “deserto”, onde permanece em oração e meditação.
Realmente, só no isolamento podemos conseguir uma fixação e vibrações em faixas tão delicadas de
frequência tão elevada. Qualquer distração faria fugir a sintonia. E o burburinho ocasionaria distra-

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ção. Por isso, quando o Momento Sublime se apresenta, o Discípulo é levado pelo Espírito (individu-
alidade) ao isolamento, onde viverá em oração e meditação. Isso ocorria muito entre eremitas e ceno-
bitas em tempos idos. Hoje ainda é frequente no Oriente. (Índia e Tibet) embora menos comum no
Ocidente, onde existe, porém, nos conventos das Trapas.
O “deserto” exprime um lugar “sem habitantes”. O planeta Terra é de fato um local em que não são
vistos os “espíritos”. Nesse sentido, é um deserto de espiritualidade, embora seja densamente habita-
do por criaturas físicas. Qualquer espírito elevado, que saia de seu “hábitat” natural no mundo dos
espíritos e venha à Terra, penetra realmente num deserto e, como diz Marcos, “vive entre as feras”,
embora “os anjos o sirvam”, ou seja, os “espíritos” bons jamais o deixem abandonado.
O número quarenta tem um significado especial: exprime o arcano do plano físico, sublinhando seu
caráter material. Representa a esfera da concretização das formas nervosas, isto é, a materialização
(encarnação) do astral e do etérico. “Quarenta” significa também a “luta do espírito com o mundo
exterior”, ou seja, a realização da Mônada ou Centelha divina do lado de fora de si mesma. O discí-
pulo, no Caminho, sabe, porém, que todos os estados materiais (o deserto) são efêmeros e cessarão
um dia. E apesar de só haver dificuldades, sabe que essas dificuldades são momentâneas e não impe-
dirão a ascensão que buscamos (cfr. Serge Marcotoune, “La Science Secrete des Initiés”, pág. 203
ss., éd. André Delpeuch, Paris, 1928).
Então, os quarenta dias no deserto, entre feras (mas servido pelos anjos) é a vida da Centelha divina
no planeta Terra, entre criaturas involuídas.
E sua passagem pela Terra tem justamente a finalidade de “ser tentada”, ou melhor, ser “experi-
mentada” através do “espírito” a que deu nascimento. Assim como em nossas escolas ninguém é
promovido de ano sem prestar exames, assim na vida espiritual ninguém ascende de plano sem passar
pelos “exames” das provações. E é exatamente por isso que se torna imprescindível a encarnação no
plano físico. Com efeito, se a encarnação pudesse ser dispensável, acreditamos que muitos “espíritos”
não viriam ao planeta, e evoluiriam diretamente no mundo espiritual (doutrina aceita por Swe-
denborg): uma vez abandonada a matéria, nunca mais a ela voltariam. A teoria pode ser sedutora,
mas não corresponde aos FATOS comprovados. Ora, contra fatos não há argumentação filosófica que
se sustente. E os fatos, cientificamente experimentados e comprovados, demonstram que o “espírito”
vem à Terra a cada novo passo que tenha que conquistar. Como não podemos admitir que a Sabedo-
ria da Vida obrigue a passos inúteis, concluímos que a única via de acesso a novos planos seja atra-
vés da materialização temporária na Terra, com esquecimento do passado, para que, como nova cri-
atura (nova personalidade), possa assumir a responsabilidade de seus atos, merecendo assim inte-
gralmente a melhoria a que fez jus (ou a consequência dolorosa de seus erros).
Uma vez na matéria, o Espírito (individualidade) está preso ao “tentador”, que pode chamar-se “dia-
bo” ou “satanás”, mas é simplesmente a PERSONALIDADE, o quaternário inferior. E por mais cons-
ciente que esteja o Espírito (individualidade), as “tentações” (experimentações ou provas) são inevi-
táveis, porque são inerentes à própria personalidade, são a condição “sine qua non” da encarnação
ou “crucificação” na matéria. O Espírito, com seu mergulho no quaternário, assume novo “eu”, um
“eu” externo e pequeno, que é porém o “eu” que se manifesta consciente de si e que, por isso, assume
a liderança da consciência. Esse “eu” menor (ou “espírito”) abafa o Espírito (individualidade) e o Eu
Profundo, e passa a agir como se fora o único chefe, comandando o processo evolutivo: o “eu” menor
quer agir por si e dirigir tudo, não tomando conhecimento de que exista outro “EU” superior a ele: é,
por isso, o verdadeiro adversário ou antagonista do Espírito (individualidade) e do EU REAL, que se
vê escondido e sediado no coração (embora em outra dimensão), forcejando por agir - o que nem
sempre consegue. Dessa luta titânica entre o “eu” pequeno ou personalidade (o “espírito”) e o Espí-
rito, ou individualidade, vai resultar o progresso. Se o “eu” pequeno vence, o Espírito derrotado terá
que voltar mais tarde à matéria, com outro “eu” pequeno diferente, para ver se consegue conquistar a
palma da vitória. E um dia obterá inevitavelmente o triunfo, embora demore séculos ou milênios nessa
árdua batalha interna, tão bem descrita no Bhagavad-Gita.

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Quando o “eu” pequeno se anula pela humildade, dando ansas à individualidade de dirigi-lo, a vitó-
ria do Espírito se afirma, e ele prossegue para o plano superior seguinte.
Dessa luta (tentação) dá-nos conta o relato evangélico.
Depois de “mergulhar” na água (de renascer através do mergulho no líquido amniótico) o Espírito é
levado ao “deserto (aos embates da Terra) para ficar em contato com as “feras” (homens atrasados,
pequenos “eus” ferozes e egoístas), permanecendo “quarenta” dias e quarenta noites (permanecendo
na matéria) em jejum absoluto (em isolamento total do EU REAL). É aí que o Espírito encontra o an-
tagonista personalizado (satanás, nosso próprio “eu” menor) que quer arrastá-lo a seus caprichos.
Surgem então as três “tentações” principais, as mais difíceis de vencer por qualquer pessoa (o arcano
3 representa a “obra completa”, e dá o resumo esquemático de um todo). Com efeito, as três provas
citadas englobam os três aspectos da personalidade: as sensações (etérico), as emoções (astral) e o
intelecto (mental concreto).

1.º TENTAÇÃO - O egoísmo na luta da sobrevivência e do bem estar, da satisfação das necessidades
básicas da criatura humana: a fome, o repouso, as ânsias fisiológicas do sexo, as angústias das sen-
sações chamadas “físicas”, mas na realidade pertencentes ao duplo etérico. Então, o Espírito é insta-
do a ceder aos desejos egoísticos dos sentidos do “eu” menor dando-lhe a “alimentação” que o sa-
tisfaça, simbolizada no “pão” que mata a fome. O ato de “matar a fome” faz bem compreender a ín-
dole dessa tentação, muito mais vasta que a simples fome estomacal: trata-se de SACIAR os instintos
inferiores do etérico que se manifesta através do corpo denso.
Além disso, outro aspecto transparece: preso no mundo material das formas, o “espírito” (personali-
dade) tenta transformar as “pedras” (que exprimem os ensinamentos interpretados à letra) em “pão”,
isto é, em alimento. Explicamos: o “espírito”, ao invés de adorar espiritualmente (“em Espírito de
verdade”, Jo. 4:23 e 24) , pretere a exteriorização material da religião, que lhe possa satisfazer aos
sentidos físicos, aos instintos sensoriais, emocionais e intelectuais, e por isso transforma os vãos do
espírito em “pães” materiais, visíveis e sensíveis, chegando ao clímax de pretender transformar o
próprio Deus em pão. Todo seu espiritualismo reduz-se a liturgias e ritos, a atos externos e poderes
ocultos de magia, de vaidade, de vestimentas diferentes e exóticas, de tudo o que satisfaça à “separa-
ção”, ao luxo, à ostentação da “pompa de satanás” (que é exatamente a vaidade das criaturas huma-
nas), assim, a espiritualização nesse grau visa à elevação do próprio “eu” pequeno, em detrimento de
todos os outros “eus”, julgados “outras” pessoas. E a criatura cega transforma os preceitos evangé-
licos, interpretados ao pé da letra (pedras) em satisfações egolátricas de instinto que lhes saciem a
fome de vaidade (pães).
O combate a essa tentação é feito pela auto-disciplina, isto é, pela disciplina que o Espírito, guiado
pelo EU REAL impõe ao “eu” menor, fazendo-lhe ver que o Homem (integral) vive de tudo o que vem
de Deus, desse Deus residente no coração do homem, e não apenas das exterioridades transitórias da
personalidade efêmera.

2.ª TENTAÇÃO - A vaidade própria do “eu” personalístico que se julga separado, diferente, e sempre
(são raríssimas as exceções!) superior a todos os demais, é outra das mais difíceis provas a ser super-
ada pelo “espírito” mergulhado na Cruz da personalidade (“cruz”, quatro pontas, significando o
quaternário inferior).
“Lançar-se do pináculo do templo” (emoção de grandes efeitos mágicos) na certeza de que Deus o
protege em tudo, mesmo nas loucuras insensatas de pretensões vaidosas, por um privilégio a que se
julga “com direito”. De fato, o desenvolvimento do corpo astral aguça as emoções e as hipertrofia de
tal forma, que elas empanam o raciocínio equilibrado, toldam a razão, fazem perder o senso das pro-
porções” Nas criaturas emocionalmente desequilibradas vemos a ânsia de “operar milagres”; a re-
belião contra a autoridade da Razão superior, a pretensão egocêntrica de que “ele” sabe e os outros

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são ignorantes; a ambição de possuir poderes para comandar movimentos religiosos; o desejo de ser
“chefe” espiritual ou religioso, nem que seja de um pugilo de criaturas que se fascinam por suas pa-
lavras, e as acompanham cegamente, tributando-lhes elogios a cada palavra que proferia, e que ele
aceita, com gratidão, porque lhe acaricia a vaidade.
Essa a razão de vermos, desde que a história regista os acontecimentos da sociedade humana, essa
constante fragmentação religiosa, que se opera logo após o desaparecimento do “Mensageiro” divino
que as revelou. Numerosas são as criaturas que se julgam “taumaturgos”, com poderes sobre os
“anjos” e, rebelando-se contra o meio ambiente, instituem a própria seita. Daí verificarmos que esses
homens não defendem idéias novas, divulgando-as em estudos e pesquisas impessoais, mas antes, que-
rem logo iniciar grupos novos e dissidentes, dos quais passam eles ser o chefe, o cabeça. Quantas
“heresias” se multiplicaram nos primeiros séculos do cristianismo, quantas seitas pulularam nos mei-
os evangélicos, quantos movimentos teosóficos e rosa-cruzes que se combatem, quantos milhares de
“centros” espíritas se fragmentam do pensamento original, criando “inovações”, quase nunca com
sentido lógico, quase sempre sem razão de ser; mas o móvel subconsciente e o desejo de “chefiar”
alguma coisa, de “separar-se” do grupo, de concorrer demonstrando gozar de proteções especiais do
mundo espiritual. Não é esta uma característica apenas das criaturas encarnadas: também os desen-
carnados que carregam para além do túmulo, no “espírito”, seus defeitos personalísticos, também
eles gostam muito de criar seus “grupinhos”, onde possam pontificar, conseguindo no mundo astral o
que não conseguiram na Terra; aproveitam médiuns invigilantes, e aí temos outra “facção” a surgir.
E é típico exigirem “separação”, proibirem estudos e leituras, colocando livros no índex particular, e
garantindo que a “salvação” (ou pelo menos especiais privilégios) só se dará dentro daquele pugilo.
Como isto se passa no mundo material, que é o mundo da divisão, é natural que arrastem após si to-
dos os que sintonizam com o “separatismo”, cedendo à tentação de “atirar-se do pináculo do templo”
da Verdade, para os labirintos barônticos do personalismo satânico.
Outro ângulo dessa tentação é a ambição de poderes mágicos, a crença de que “gestos” e atos físicos
criem efeitos espirituais; a pretensão de dominar “espíritos” e elementais, sem pensar nos resultados
que daí possam advir. Os poderes “ocultos”, que envaidecem e separam as criaturas, é aspecto im-
portante dessa prova de fogo por que todos os que já desenvolveram o corpo emocional (astral) têm
que passar.
O combate a essa tentação, isto é, a vitória sobre essa prova, esse “exame” - a que só é submetida
certa classe de pessoas mais evoluídas que as da anterior tentação porque já desenvolveram o corpo
astral - é realizada com a auto-renúncia do “eu” menor: “não tentarás o Senhor teu Deus” exprime,
pois, “não quererás ser superior ao teu EU REAL, não pretenderás exigir dele favores especiais nem
quererás impor-te a ele”. Renunciar à própria vaidade de querer ser chamado “pai” ou “mestre” (“a
ninguém na Terra chameis vosso pai, porque só UM é vosso Pai: aquele que está nos céus; nem quei-
rais ser chamados mestres, porque um só é vosso mestre: o Cristo” Mat. 23:9-10), esse Cristo Interno
que está dentro de TODOS, e não apenas de alguns privilegiados.
Jesus deu-nos o exemplo típico dessa vitória: pregou um IDEAL, mas não chefiou nenhum movimento
religioso; atendeu aos judeus, sem afastá-los de Moisés; socorreu à siro-fenícia, sem arrancá-la de
seus ídolos; elogiou o centurião romano, sem exigir o seu repúdio a Júpiter; e, no exemplo da “cari-
dade perfeita”, citou o samaritano, de religião diferente da Sua. E de tal forma renunciou à Sua per-
sonalidade, que o Cristo agiu plenamente através dele (“Nele habitou corporalmente toda a plenitude
da Divindade” Col. 2:9) de tal maneira, que, durante séculos, foi Ele confundido com o próprio Deus.
E isso foi conseguido com o Seu mergulho humilde nas águas da matéria, na Sua encarnação como
ser humano: “aniquilou-se tomando a forma de servo, feito semelhante aos homens e, sendo reconhe-
cido como homem, humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Filip. 2:7-8).

3.ª TENTAÇÃO - Esta é a experimentação que as criaturas encarnadas (presas à personalidade, cru-
cificadas no quaternário inferior) têm maior dificuldade em superar. Não é mais no duplo etérico,
com as sensações; nem no astral, com as emoções, mas no mais terrível de todos os adversários, mai-
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or que os prazeres (sensações), maior que a vaidade (emoções): trata-se do INTELECTO, isto é, do
ORGULHO de julgar-se melhor que os “outros”. Daí parte a oposição máxima, não mais no mesmo
plano, de “ser diferente”, mas num plano “acima”, de ser superior. Todas as criaturas se julgam
ACIMA DOS OUTROS. Pode tratar-se de um ignorante: há um ponto em que “não cede”, há sempre
um aspecto em que “ninguém o iguala”. Por ínfima que seja a criatura, embora reconhecendo a supe-
rioridade de outrem num ou noutro pormenor, descobre sempre algo em que ninguém lhe é superior.
Daí a crítica e o julgamento que sempre todos nos acreditamos autorizados a fazer.
E a ambição orgulhosa do mando ataca a todos, ao lado da ambição de posses materiais (riquezas)
que lhes dê prestígio e superioridade no mundo material, para garantir-lhe a força da superioridade.
Todos querem ter mais e melhor do que o vizinho. Se o não conseguirem, não importa: são “mais edu-
cados”, “mais generosos”, “mais inteligentes”, “mais fortes”, “mais saudáveis”, ou “gozam de ami-
zades mais ilustres”, qualquer coisa se arrumará, pela qual eles “não se trocam” pelo fulano...
Comum é que o chefe religioso venha a ambicionar logo a seguir o domínio político, para ampliar sua
ascendência sobre as massas e fazer crescer sua autoridade “carismática”, outorgada por Deus. Os
meios para conseguí-lo não lhe ferem o escrúpulo. E uma vez guindados ao poder, não mais desejam
apear. Nem sempre isso ocorrerá visando a uma nação: pode ser apenas pequeno grupo e até uma
família reduzida. Isso explica o desgosto dos pais ao verem seus filhos crescerem e se independizarem.
Daí a rebeldia dos filhos, em certa idade, sentindo também a “tentação” do mando, pretendendo der-
rubar os pais do pedestal em que se encontram.
Provenientes desse “messianismo” do poder, os ditadores, da direita, da esquerda ou do centro cer-
cearem a liberdade dos súditos, certos de que só eles, e os que os aplaudem, são “iluminados”, têm
sabedoria e compreensão, constituindo “os outros” um rebanho sem espírito. Desconhecem que cada
criatura tem Deus dentro de si: para eles, Deus está só com eles, porque eles são os “protegidos”,
colocados “pela Divindade” acima de todos os mortais.
Não estamos falando de “alguns” homens, mas de TODAS AS CRIATURAS HUMANAS. Sem exceção,
somos todos experimentados nesse setor.
Para superar essa “tentação” há um só remédio: o auto-sacrificio, não mais adorando a personalida-
de (satanás), mas unicamente cultuando a Deus que está DENTRO DE NÓS, como também DENTRO
DE TODAS AS CRIATURAS: moços e velhos, homens maduros e crianças, mulheres e homens, bran-
cos. e negros, ignorantes e sábios, santos e criminosos.
Quando compreendermos e “sentirmos” isso, sacrificaremos nosso personalismo, e ligaremos nosso
“espírito” ao EU REAL. Colocaremos a personalidade em seu lugar, submetendo-a, como o fez Jesus:
“rende-te, satanás”, submete-te à individualidade!
Prestar culto à personalidade (satanás) é IDOLATRIA, e praticara idolatria é, seguindo as Escrituras,
pecar por adultério contra Deus. O Espirito tem que estar ligado ao EU REAL e não à personalidade;
se ele se afasta do primeiro para ligar-se ao segundo, está cometendo adultério, está separando o que
Deus uniu (“O que Deus uniu o homem não separe”, Mat. 19:6 e Mc. 10:9).
Só o sacrifício, com a submissão do “eu” menor, é que pode conferir a vitória sobre o orgulho da
personalidade, que desejaria dominar e submeter a si a individualidade, pedindo: “adore-me!”
Quando, porém, o homem vence as três etapas, dominando as sensações, as emoções e o intelecto, ele
vê que os anjos de Deus vêm servi-lo, e o “eu menor” (satanás o antagonista), se retira vencido, até o
“momento oportuno”, porque outras provas ainda virão, todas elas ensinadas nos Evangelhos.

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C. TORRES PASTORINO

OS PRIMEIROS DISCÍPULOS
Luc. 3:23
23. Ora, o mesmo Jesus, ao começar seu ministério, tinha cerca de trinta anos.

João, 1 :35-42
35. No dia seguinte João estava outra vez com dois de seus discípulos
36. e, olhando para Jesus que passava., disse: “eis ali o Cordeiro de Deus”.
37. Ouvindo-o dizer isto, os dois discípulos seguiram a Jesus.
38. Voltando-se Jesus e vendo-os a seguí-lo, perguntou-lhes: “Que buscais”? Disseram-
lhe: “Rabbi (que quer dizer Mestre) onde moras”?
39. Respondeu ele: “Vinde e vereis”. Foram, pois, e viram onde morava, e ficaram aquele
dia com ele; era mais ou menos a hora décima.
40. André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar e que segui-
ram a Jesus.
41. Ele procurou ao alvorecer seu irmão Simão e lhe disse: “encontramos o Messias” (que
quer dizer Cristo).
42. E o levou a Jesus. Olhando para ele, disse Jesus: “Tu és Simão, o filho de Jonas: tu
serás chamado Cefas (que significa. Pedro).

A primeira frase de Lucas dá-nos conta da idade de Jesus ao iniciar seu ministério: “cerca de trinta
anos”.
Estávamos nos primeiros meses do ano 29 de nossa era, isto é, 782 de Roma, e Jesus, que nasceu em 7
A.C. (747 de Roma), contava precisamente 35 anos. A anotação de Lucas visava apenas a esclarecer
que Jesus já tinha a idade “legal” para sua vida pública, quer civil, quer religiosa.
No trecho de João, volta. como primeiras palavras, a expressão: “no dia seguinte”. Se começarmos a
contar partindo do primeiro episódio (as respostas de João aos emissários do Sinédrio), o fato aqui
narrado situa-se no 3.º dia. Será interessante notar que a sequência prosseguirá até o 7.º dia.
Observemos a cena. Trata-se dos dois primeiros discípulos que Jesus aceita (segundo a narrativa evan-
gélica) e portanto da inauguração oficial de seu magistério na Palestina.
O evangelista foi testemunha ocular: dá-nos os pormenores. João, meio afastado, conversava com dois
discípulos seus, quando viu Jesus passar a distância. Num desabafo de admiração, repete a frase da
véspera: “vejam ali o Cordeiro de Deus”! Essa repetição constituiu um impacto no espírito dos dois
que, apressadamente, se afastaram do Batista, fascinados pelo anseio de encontrar o melhor Mestre. E
se o próprio mestre deles O indicava, podiam confiar com total segurança. Além disso, a Força Interna
deles os impelia, e a de Jesus os atraía irresistivelmente.
Jesus volta-se espontâneo e, fixando-os com olhar penetrante que lhes perscruta o coração, pergunta:
- Que desejais?
Os dois entreolham-se. Que dizer? A primeira idéia é enunciada, daí subentendendo-se o resto:

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SABEDORIA DO EVANGELHO
- Mestre, onde moras?
O título “Mestre”, dito em hebraico-talmúdico, RABBI, era o título oficial reservado aos Doutores da
Lei. Mas também se aplicava por delicadeza ou para demonstrar admiração por alguém mais sábio.
A resposta de Jesus: “vinte e vereis” correspondia à aceitação tácita dos dois novos discípulos. O nar-
rador, que era um deles, continua com simplicidade: “eles foram e viram, e ficaram aquele dia com
ele”. E para firmar que não foi uma conversa rápida e cerimoniosa, acrescenta o pormenor da hora do
encontro: “era mais ou menos a hora décima “, isto é, dezesseis horas. Essa anotação da hora é comum
em João (cfr. 4:52; 18:28; 19:14 e 20:19), o que nos revela, ainda uma vez, a preocupação de João com
a numerologia, que atinge o clímax no Apocalipse.
Como se julgava inadmissível e desrespeitoso chegar a essa hora da tarde em casa de alguém e retirar-
se para pernoitar em outro local, deduz-se que os dois passaram a noite entretendo-se com o Rabbi, de
lá saindo só depois do nascer do sol.
Mas, quem eram os dois? De um, o narrador dá o nome: André (nome tipicamente grego, o que era
comum na Galiléia “dos gentios”) e acrescenta para identificá-lo melhor: “irmão de Simão Pedro”.
Simão é a helenização do hebraico Shim'on (“YHWH ouviu”). Eram ambos naturais da cidade de
Bethsaida-Júlia (hoje El-Tell) a nordeste do Tiberíades (cfr. vers. 44). E o outro? Reza a tradição tra-
tar-se do próprio evangelista João, em vista dos pormenores narrados (é o único a documentá-los). E
em todo o seu Evangelho, ele jamais se cita.
Ao “despontar do dia” (em grego πρωι ), André e João retiram-se. E o primeiro corre a buscar seu ir-
mão Simão, anunciando-lhe o encontro do Messias.
Há três lições nos manuscritos:
1) Veronese (5.º séc.), Palatino (4.º-5.º séc.), a versão siríaca curetoniana e a sinaítica (3.º-4.º séc.)
trazem πρωι (ao despontar do dia);
2) Vaticano (4.º séc. ) Alexandrino (5.º séc.) , Korodethi (7.º-9.º séc.), a “família” 1 e 13 e a Vulgata
trazem πρωτον (em primeiro lugar).
3) Sinaítico (8.º séc.), Régio (8.º séc.), Freer III (4.º-6.º sec.) e o Sangaliense (9.º sec.) trazem: πρωτος
(foi o primeiro).
Seguindo L. Pirot (“La Sainte Bible”, vol. 10, pág. 325) preferimos a primeira lição, por dois motivos:
1 - como acertadamente anota Pirot, é mais fácil a corrupção d
e ПРΏІТΟΝΑ∆Ε∆ΦΟΝ
para ПРΏΤΟΝΤΟΝΑ∆Ε∆ΦΟΝ
ou para ΠΡΏΤΟΣΤΟΝΑ∆Ε∆ΦΟΝ
do que vice-versa.
2 - porque temos, com a primeira leitura, a sequência dos acontecimentos:
I - Testemunho de João aos emissários do Sinédrio (1.º dia)
II - No dia seguinte a apresentação de Jesus aos discípulos (2.º dia)
III - No dia seguinte a adesão de André e João a Jesus (3.º dia)
IV- No dia seguinte o encontro com Simão Pedro (4.º dia)
V - No dia seguinte Jesus parte para a Galiléia (5.º dia)
VI - No 3.º dia (dois dias depois) as bodas de Caná (7.º dia).

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C. TORRES PASTORINO
E essa sequência revela ensinamentos simbólicos de valor inestimável, e João não podia perder a
oportunidade de ensiná-los aos leitores de seu Evangelho.
O anúncio de André a Pedro é taxativo: “encontramos o Messias”.
A palavra Messias ( µεσσιας , helenização do hebraico π‫ מש׳‬mashiah) só é empregada em o Novo
Testamento duas vezes, e ambas por João o evangelista, neste passo e em 4:25. Em ambos, o evange-
lista se apressa em explicar que “Messias” se traduz por “Cristo”. Realmente.
Do verbo ‫( משװ‬mosha - cfr. Moshe Moisés) que significa “ungir”, vêm o adjetivo e substantivo ‫משיח‬
(mashiah) que significa “o ungido” (para uma missão), ou seja, o Messias. Em grego, do verbo Χριω ,
significando “ungir” (com óleo ou perfume) - provém o adjetivo Хριστος, η, ον , com o sentido de “un-
gido, untado”; e daí o substantivo o Хριστος , “o ungido” com significação iniciática e simbólica: “o
impregnado de divindade”. Assim como o óleo impregna e embebe os tecidos, assim o Cristo é o em-
bebido de Deus, aquele cujas células todas estão permeadas da Divindade.
Simeão deixa-se levar a Jesus, que olha para ele com a mesma penetração ( θεσαµενος ) e pronuncia
suas primeiras palavras mudando-lhe o nome. O fato de mudar o nome de alguém revela autoridade e
representa o inicio de nova função ou situação (cfr. Gên. 32:28; 17:5; 22:8; Is. 62:2, etc.). Começa
citando o nome antigo completo: “tu és Simão Barjonas (filho de Jonas ou João, já que Jonas” e a
abreviatura de “Yohanan”): tu serás chamado Kefas.
A palavra иφάς; é uma helenização do aramaico Kephá. proveniente do caldaico ‫( פּיּמּאָ‬siríaco ‫) ئإﺆﺁ‬, do
hebraico ٩‫ פֿ‬, que significa “pedra, rocha”, e só é usado no plural ‫( פמים‬Jer. 4:29 e Job 30:6).
A exigência dos trinta anos para início da vida pública, baseava-se também num simbolismo numero-
lógico: a completação do desenvolvimento da personalidade (3 X 10), embora se houvesse já de há
muito esquecido a razão que havia feito escolher essa idade.
Aqui observamos o fato de um mestre indicar a seus discípulos (talvez os melhores que possuía) o ca-
minho de outro mestre: completa ausência de ciúmes! Mas verificamos que é a personalidade (o inte-
lecto iluminado, João) que compreende que, quando o discípulo chegou a determinado grau evolutivo,
tem que ser entregue à individualidade (Jesus) para que continue o aprendizado.
Os discípulos percebem a insinuação da personalidade (João) e seu desprendimento, e voltam-se, sem
titubear, para a individualidade (Jesus) perguntando-lhe: “Onde moras”? A sede da personalidade,
eles bem o sabem, é o intelecto. Também sabem que, para ter esse desprendimento sem ciúme e sem
vaidade, o intelecto já está iluminado, esclarecido nas grandes verdades. Dirigem-se pois à individu-
alidade e lhe perguntam “onde mora”, porque ainda ignoram qual a sede desse novo plano. A res-
posta não poderia jamais ser o nome de uma rua nem o número de uma casa (observamos que os
Evangelhos jamais disseram onde Jesus residia) porque a individualidade não tem sede no mundo
físico. Daí poder Jesus dizer: “as raposas têm seus covis e os pássaros seus ninhos, mas o Filho do
Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mat. 8:20). No mundo físico só a personalidade é situada
e tem “casa”. Então a resposta de Jesus é perfeita: “vinde e vede”, isto é, aproximai-vos de mim (in-
dividualidade) e vereis qual meu pouso: o Espírito.
E os discípulos foram e viram sua elevação espiritual; penetraram no coração e descobriram o Espí-
rito e “ali permaneceram”, em meditação, todo aquele dia.
Era mais ou menos a “hora décima”. Essa anotação numerológica não se refere aos novos discípulos,
mas a Jesus, à individualidade. Os nove primeiros arcanos referem-se ao desenvolvimento do homem
interno. O décimo exprime o início da atividade exterior. Não foi para ele mesmo que o evoluído viveu
as etapas do Conhecimento Profundo e triunfou de uma série de provações. Uma vez atingido o ápice
e superadas as “tentações”, ele precisa aplicar seu saber e sua experiência, levando outros pelo
mesmo caminho. A anotação do evangelista, pois, tem todo o cabimento, no momento exato em que
Jesus (a individualidade) recebe e aceita os primeiros discípulos, a fim de aplicar seus' conhecimen-
tos: para ele, soara a décima hora.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
A João interessava assinalar quais os discípulos que seguiram Jesus. Cita-lhes os nomes. O primeiro,
André, representa exatamente o HOMEM; o segundo, que era ele mesmo, é omitido; o terceiro, ao
despontar da aurora do outro dia, é Simão (nome que significa: YHWH ouviu”, da raiz shama). Mas
Jesus lhe muda o nome para Pedro, como representante daqueles que interpretam as Escrituras à le-
tra, levados pela emoção. Ele adere de imediato à individualidade, embora, por falta de intelectualis-
mo e do domínio das emoções, tenha de passar por muitas provas, nem sempre saindo vencedor. No
entanto, em vista do desenvolvimento emocional, é escolhido para dirigir o Colégio Apostólico, que
está fixado no Raio da Devoção, dirigido por Jesus.
O nome com que Jesus é apresentado corresponde exatamente à realidade: o CRISTO INTERNO, a
parte espiritual impregnada da Divindade, ou CRISTO CÓSMICO, da qual a parte material é apenas
a contraparte, a condensação ou materialização, dando origem à personalidade visível no plano físico
e transitório na dimensão tempo e espaço.

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C. TORRES PASTORINO

VOLTA À GALILÉIA
João, 1:43-51
43. No dia seguinte, resolveu (Jesus) ir à Galiléia e encontrou Filipe, e disse-lhe: “segue-
me”!
44. Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André e de Pedro.
45. Filipe encontrou Natanael e declarou-lhe: “encontramos aquele de quem Moisés es-
creveu na Lei e os profetas falaram. Jesus filho de José, o de Nazaré”.
46. Perguntou-lhe Natanael: “De Nazaré pode vir coisa boa?” Respondeu-lhe Filipe:
“Vem e vê”.
47. Vendo Jesus Natanael aproximar-se, disse dele: “eis um verdadeiro israelita, em
quem não há engano”!
48. Perguntou-lhe Natanael: “Donde me conheces?” Respondeu Jesus: “Antes de Filipe
chamar-te, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira”.
49. Replicou-lhe Natanael: “Rabbi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”!
50. Disse-lhe Jesus: “por dizer-te que te vi debaixo da figueira, crês? verás coisas maiores
que estas”...
51. E acrescentou: “Em verdade, em verdade vos digo, que vereis o céu aberto e os anjos
de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”.

No dia seguinte (é o 5.º dia dessa sequência), Jesus resolveu regressar à Galiléia, juntamente com seus
três novos discípulos: João, André e seu irmão Simão-Pedro. Voltavam os quatro para sua terra natal,
ao norte da Palestina.
Aí o pequeno grupo encontra Filipe. Também é nome tipicamente grego, significando “amigo do ca-
valo”, embora corresponda. ao hebraico ‫( פֿבֿטּ׳אב‬Phaltiel), que significa “libertação de El” (cfr, 2 Sam.
3:15). Filipe aderiu de imediato. Podia confiar em seus amigos e conterrâneos. E logo se enfervora
com o que ouve do novo mestre, tentando arranjar outro prosélito. Vai chamar Natanael (mesmo signi-
ficado que Teodoro = “dom de Deus”). O nome de Natanael não mais aparece em o Novo Testamento;
por isso os comentaristas o identificaram com Bartolomeu (filho de Tolmai), que é sempre citado ao
lado de Filipe em todas as listas dos apóstolos (Mat. 10:3; Marc. 3:18; Luc. 6:14).
Segundo informações do próprio João (21: 2), Filipe era natural ria cidade de Caná da Galiléia (hoje,
parece, Kefr-Kenna), que fica a 8 quilômetros de Nazaré, a aldeia de Jesus. Temos a impressão de que
Natanael já conhecia Jesus, porque Filipe, ao anunciar-lhe o encontra “daquele de quem Moisés escre-
veu na Lei e os profetas falaram”, cita o nome familiar: “Jesus, filho de José”, esclarecendo “o de Na-
zaré”. Esses pormenores deviam recordar algo a Natanael que com isso o identificaria.
Conhecendo Jesus, um operário braçal que vivia em minúscula aldeola, Natanael indaga: “e de Nazaré
pode sair algo de importante”? Filipe, porém, não procura fazer a apologia de Jesus: convida-o apenas
a verificá-lo de visu. E Natanael aceita e vai.
O primeiro choque vem do primeiro contato, quando ouve Jesus anunciar ao grupo: “vejam um israe-
lita em quem não há simulação”. Admirado com o elogio inesperado, Natanael indaga donde Jesus o
conhece. Poderia ter tido informações. Mas o Rabbi quer revelar seu poder. Sabe que Natanael é pes-
soa íntegra, cumpridor de seus deveres religiosos, convicto de sua fé. E revela-lhe algo que o estarrece.
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SABEDORIA DO EVANGELHO
Mas o evangelista registra apenas uma frase simples: “antes que Filipe te chamasse, eu te vi debaixo da
figueira”. Para nós, não faz sentido. Mas para Natanael deve ter constituído uma prova irretorquível,
por aludir a algo que ele deveria estar fazendo debaixo da figueira, e a frase de Jesus deve ter tido si-
gnificado profundo para ele, que exclama: “Rabbi, tu és o Filho de Deus (o Enviado especial), tu és o
Rei de Israel (o Messias aguardado) “!
A resposta de Jesus vem ampliar de muito o horizonte mental dos cinco primeiros escolhidos para par-
ticiparem da campanha de transfiguração do planeta.
Começa dizendo que a alusão à estada sob a figueira era de somenos importância e que muitas coisas,
ainda mais extraordinárias, seriam por eles testemunhadas.
Passa então a esclarecer: “Em verdade, em verdade”, locução típica à o hebraico. Quando um israelita-
afirma, com força de juramento (mas sem jurar, para “não tornar em vão o nome de Deus), ele diz:
amén ( ‫ ) אמוּ‬ou seja, “é verdade”. E quando quer solenizar sua palavra, usa a expressão ‫( אמך סלח‬amén
selô): “é verdade eternamente”.
Essa fórmula era com frequência empregada por Jesus, quando revelava fatos que desejava fossem
compreendidos e lembrados por seus discípulos.
“Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo” é uma alusão indiscutível a Gên. 28:10-
17, onde se narra o sonho de Jacob em Bethel, quando de partia para a Mesopotâmia.
Aqui aparece pela primeira vez o título que Jesus se atribuía de FILHO DO HOMEM, já usado por
algum profetas (cfr. Dan. 7:13-14, etc.).

FILHO DO HOMEM
A expressão hebraica “filho de ... “, exprime o possuidor da qualidade da palavra que se lhe segue:
“filho da paz” é o pacífico; “filho do estrangeiro” é o estrangeiro; nessa interpretação, “filho do ho-
mem” é o homem. No entanto, embora em alguns passos possa interpretar-se assim (por exemplo:
“Deus não é como um homem que mente, nem como o filho do homem que muda “, Núm. 23:19) nem
sempre essa expressão se conservou- com esse sentido. Na época mais recente do profetismo, o signi-
ficado se foi elevando, passando a designar algo de especial.
Observamos assim que Daniel (7:13) descreve a visão que teve do “Filho do Homem que vinha sobre
as nuvens do céu”. Isaías fala: “feliz o Filho do Homem que compreende isto” (56:2). Jeremias afirma
que o Filho do Homem não habitará a Iduméia” (49:18) nem Asor (49:33) nem Babilônia (50:40 e
51:43), significando que não terá participação com os pecadores. Ezequiel só é chamado por YHWH
de “Filho do Homem” (em todo o livro de Ezequiel, 92 vezes). O sentido, dessa maneira, se foi res-
tringindo até assumir o significado que, na época de Jesus, já se havia firmado: era o Homem que já se
havia libertado do ciclo reencarnatório (“guilgul” ou “samsara”). Nesse sentido, “Filho do Homem” se
opunha a “Filho de Mulher”, que representava o homem ainda sujeito às reencarnações, ainda não li-
berto da necessidade de nascer através da mulher.
O “Filho do Homem” é o Espírito que já terminou sua evolução, e que portanto se tornou o “produto
do Homem”, o “fruto da humanidade”. Não mais necessita encarnar, mas pode fazê-lo, se o quiser.
Não está preso ao “ciclo fatal” (kyklos anánke): vem quando quer. São os grandes Manifestantes da
Divindade, os Mensageiros, os Profetas, os Enviados, os Messias, que descem à carne por amor à hu-
manidade a fim de trazer revelações, de indicarem o caminho da evolução, exemplificando com sua
vida de dores e sacrifícios, a estrada da libertação, que eles já percorreram, e que agora apenas perlus-
tram para mostrar, como modelos, o que compete ao homem comum fazer por si mesmo. É o caso de
Krishna, Buddha, Moisés, Ezequiel, Jesus, Maomé, Ramakrishna, Bahá 'u 'lláh e outros.
Em o Novo Testamento encontramos o título “Filho do Homem” aplicado por Jesus a ele mesmo na
seguinte proporção: em Mateus, 31 vezes; em Lucas, 25 vezes; em Marcos, 14 vezes; em João, 12 ve-
zes; apenas em João 12:34 o título lhe é dado pelo povo. No entanto, Jesus não o aplica a mais nin-

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C. TORRES PASTORINO
guém. E dá-nos ele mesmo a definição do que entendia pela expressão, quando diz: “ninguém subiu ao
céu, senão aquele que desceu do céu. a saber, o Filho do Homem” (Jo. 3:13), ou seja, só aquele que já
subiu ao céu (que já se libertou da Terra, das reencarnações) é que, ao descer à Terra reencarnado,
pode ser chamado “Filho do Homem”, como era seu caso. Esse tem conhecimento próprio, adquirido
pela experiência pessoal, do que se passa nos planos superiores à humanidade, e portanto pode falar
com autoridade.
Não sendo mais “Filho de Mulher”, mas “Filho do Homem”, podia ele dizer que João Batista era o
maior entre os “Filhos de Mulher”, ou seja, entre aqueles que ainda estão sujeitos à reencarnação pela
Lei do Carma. João era, realmente o maior entre os presos à “roda de Samsara”; mas o menor dos já
libertos, era superior a ele; e Jesus era Filho do Homem, já liberto.
Interessante observar que, no resto do Novo Testamento, a expressão “Filho do Homem” aplicada a
Jesus (que assim se denominava) só é encontrada na boca de Estêvão (Atos, 7:56) e em dois passos do
Apocalipse (1:13 e 14:14). Explica-se o fato porque, fora da Palestina, sobretudo entre os gentios, a
expressão podia ser interpretada ao pé da letra, e portanto traria sentido ridículo à pregação dos após-
tolos sobre a pessoa de Jesus.
Depois de começar a admitir os discípulos na “hora décima”, ou seja, a exteriorizar o aprendizado
evolutivo interno, Jesus resolve caminhar com os recém-vindos para um local de meditação, onde lhes
possa dar as primeiras lições e a exemplificação viva.
Ao penetrar o “jardim fechado” (Galiléia) são citados mais dois nomes: Filipe, ou melhor Phaltiel,
que significa a “libertação de El”, isto é, o Espírito que se liberta do domínio da matéria, a individu-
alidade que se livra do jugo da personalidade, passando a utilizá-la como instrumento da evolução, e
não a servi-la como escravo. Filipe chama Natanael (o “dom de Deus”), completando-se assim o gru-
po de cinco, que simboliza a personalidade mais a intuição: ANDRÉ, o “homem” (físico), o “outro”
(sensações), PEDRO (emoções), NATANAEL (o intelecto, “dom de Deus” ) e FILIPE ( a intuição,
intermediária entre a Mente e o Intelecto).
Como representante da intuição, Filipe convoca Natanael, o intelecto, com ele se comunicando. Agin-
do como legítimo intelecto comum, a primeira reação de Natanael é a crítica, e crítica com menospre-
zo.
Mas, em presença da individualidade, ao ouvir o conhecimento que ela tem do próprio intelecto, ad-
mira-se profundamente. De início, ao perceber o conceito em que é tido, de não ser falso nem fingido,
o intelecto indaga: “de onde me conhece”? É o vício da pesquisa, que quer explicação de tudo. Mas
ao ouvir a resposta final, entrega-se inerme, rende-se sem mais resistência.
A frase que causou o impacto é simples: “antes que Filipe te chamasse, eu te vi sentado sob a figuei-
ra”.
A figueira, abundantíssima em toda a bacia mediterrânea (e portanto também na Palestina) apodrece
citada 56 vezes nas Escrituras (37 no Antigo e 19 em o Novo Testamento). Árvore que não produz
frutos, mas apenas flores (embora flores “inclusas” ) era muito apreciada e tido como símbolo de
abundância. Suas flores tinham grande utilidade: como alimento dos mais delicados e saborosos, e
como medicamento (usado como cataplasma em antrazes, úlceras e abcessos) com efeito curativo. A
árvore floresce na primavera em grande profusão.
De modo geral a figueira é citada ao lado da vinha, da oliveira e da romã, com expressão esotérica. A
figueira representa a floração interna das qualidades morais e espirituais, isto é, a evolução em si
mesma, a transmutação da seiva interior da árvore nas flores da perfeição, não abertas para o exteri-
or, mas inclusas ou fechadas em si mesmas, florescendo para o íntimo. A vinha simboliza a sabedoria
espiritual (como afirmavam: in vino véritas, no vinho, a verdade). A romã representa a fecundidade
sexual e sua consequência natural: o desenvolvimento mental. A oliveira exprime a paz, quer a exter-
na, quer sobretudo a interna e profunda.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
A figueira, uma das árvores mais antigas no conhecimento da humanidade, aparece desde as primei-
ras páginas da Bíblia. No profundo simbolismo do episódio adâmico, segundo o Gênesis (3:7), Adão e
Eva cobriram suas partes sexuais com folhas de figueira (tradição conservada até hoje pelos pintores
e escultores puritanos). O significado dessa idéia é que a parte material (animal) é superada (coberta)
pelo aprimoramento da pujante força espiritual.
A expressão “sentar-se sob a figueira e sob a vinha”, ou seja, preparar-se interiormente pela aquisi-
ção da Virtude e da Sabedoria é empregada em 1 Reis, 4:26; em Miquéas, 4:4; em Zacarias, 3:10 e
em 1 Macabeus, 14:12, para simbolizar a Virtude e a Sabedoria que haverá na “época messiânica”,
isto é, no momento em que o homem se encontrará com o Messias ou Cristo Interno.
A frase de Jesus teve, portanto, sentido profundo, quando afirmou que, antes de ser avisado pela intui-
ção, já ele (Cristo Interno) percebera o intelecto (Natanael) “sentado sob a figueira”, ou seja, bus-
cando ansiosamente o encontro com seu Eu, aspirando ao contato - por meio do florescimento das
virtudes - com o Cristo Interno, o Filho de Deus, o Rei da Humanidade (Israel).
O intelecto que tem boa vontade, e desejo sincero de evoluir, cede sempre diante da realidade, venci-
do e convencido.
Mas Jesus acrescenta que ele e os companheiros veriam o “céu aberto”, ou seja, penetrariam o se-
gredo do “Reino dos Céus” que se abriria para eles, em seus corações, e, nesse encontro, seus Espí-
ritos, os “anjos de Deus”, subiriam e desceriam em contatos sucessivos, iluminando o Filho do Ho-
mem, o “espírito” liberto totalmente das peias da matéria.

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C. TORRES PASTORINO

AS BODAS DE CANÁ
João, 2:1-11
1. No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de
Jesus,
2. e foram convidados também Jesus e seus discípulos para o casamento.
3. Tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus disse-1he: “Eles não têm mais vinho”.
4. Respondeu-lhe Jesus: “Que (importa. isto) a mim e a ti, mulher? Ainda não chegou
minha hora”
5. Disse sua mãe aos serviçais : “Fazei o que ele vos disser”.
6. Ora, estavam ali colocadas seis talhas de pedra., das que os judeus usavam para as
purificações, e continha cada uma duas ou três metretas.
7. Disse-lhes Jesus: “Enchei de água as talhas”. Eles as encheram até a borda..
8. Então lhes disse: “Tirai agora e levai ao presidente do banquete”. E eles o fizeram.
9. Quando o presidente do banquete provou a água tornada em vinho, não sabendo
donde era (mas o sabiam os serviçais, que haviam tirado água), chamou o noivo
10. e disse-lhe: “Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando os convidados se em-
briagaram então lhes apresenta o mais recente; mas tu guardaste o bom vinho até
agora”.
11. Jesus fez esta primeira demonstração em Caná da Galiléia, e manifestou sua doutri-
na, e seus discípulos acreditaram nele .

“No terceiro dia” equivale ao que hoje costumamos dizer: “dois dias depois”. Os gregos e romanos, ao
estabelecer um lapso de tempo, começavam contando o próprio dia do início. Assim a relação entre um
caso ocorrido, por exemplo, no dia 4 e outro no dia 6, este era dito: “no terceiro dia”, considerando-se
o próprio dia 4 como o 1.º, o dia 5 como 2.º e O dia, 6 como 3.º dia. Hoje costumamos dizer: “dois dias
depois”, sem fazermos conta do dia inicial. Assim, Jesus desencarnou na sexta-feira. e ressuscitou “no
terceiro dia” isto é. “dois dias depois”, no domingo .
Estamos, pois, no sétimo dia, a contar do primeiro episódio.
O casamento realizou-se na ,cidade de Caná “de Galiléia” (para distingui-la de Caná “de Aser”), a ci-
dade natal do discípulo recém-chegado Natanael.
De quem teria sido o casamento? Nenhuma indicação. Qualquer suposição jamais poderia passar além
de mera hipótese. Entretanto, Maria ali se achava como pessoa independente, como amiga da família, e
não na qualidade de mãe de Jesus. Este é que parece ter sido convidado pelo único motivo de ser seu
filho, e ali aparece com seus discípulos, como “convidados”.
As festas das “bodas” (mishtitha, em aramaico) duravam uma semana e os convites eram amplos. Daí,
por vezes, as previsões das quantidades de comida e bebidas poderem falhar. Pelo que transparece da
narrativa, Maria observou essa dificuldade em relação ao vinho. com sua sensibilidade feminina de
dona de casa.
Com a autoridade oriunda de amiga da família, toma as providências indispensáveis para contornar a
dificuldade, recorrendo a alguém que ela sabia poder remediar a situação: avisa a Jesus que o vinho
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SABEDORIA DO EVANGELHO
acabara e, de imediato, dirige-se aos serviçais ordenando-lhes que obedeçam a Jesus. Pelo que se per-
cebe, parece mesmo tratar-se de pessoa da família, com a autoridade reconhecida pelos serviçais que
lhe obedecem.
Consideremos a resposta de Jesus, analisando-a em seus pormenores:
1) Que nos importa isso a mim e a ti”?
As traduções correntes dão: “que tenho eu contigo”? Como se Jesus afirmasse nada haver entre ele e
sua mãe, o que redundaria num desaforo ou, pelo menos, numa indelicadeza. Ora, o sentido do grego
(e do latim, que traduziu muito bem o original) não é esse.
Comecemos pelo latim, mais acessível. A tradução “quid mihi et tibi” corresponde literalmente ao ori-
ginal grego. Trata-se de dois dativos de interesse, ou dativos “éticos”, construídos em paralelo. Encon-
tramos um exemplo dessa construção em Plauto (Rudens, 1307): “Sed quid tibi est”? (mas que te im-
porta?). Se o sentido fosse o das traduções vulgares, o latim teria uma construção diferente (quid mihi
tecum est), como vemos ainda em Plauto (Men 323: “quid tibi mecum est rei”? (que é que tens comi-
go?) e em Ovidio (Tristes, 2, 1, 1): “quid mihi vobiscum est”? (que é que eu tenho convosco?). Então,
se a expressão fosse esta, o latim teria um elemento em dativo e o outro em ablativo com cum, e jamais
dois dativos em paralelo.
Construção semelhante em grego, cujo texto original reza: τί έµοί иοί σοί ; (que importa a mim e a ti?).
Encontramos, com um elemento, a expressão desse dativo ético em Aristófanes (Lys. 514 e Caval,
1198) : ιί δέ σοί τοϋτο ; (que te importa isso?) e no mesmo Aristófanes (Assembléia, 520:521) τί δέ σοί
τοϋτο; – ότι µοί τοϋτ’έστιν (que te importa isso? o que isso me importa?).
Essa mesma construção aparece ainda no Antigo e em o Novo Testamento várias vezes. Em todos os
passos, é mais natural e conforme ao contexto a interpretação “que importa a mim e a ti”? (conforme
traduz sistematicamente F. Vigouroux, “La Sainte Bible Polyglote, in locis). Uma vez, apenas, é pedi-
do o sentido “que há entre ti e mim”, quando em juízes 11:12 se pergunta: “que há entre ti e mim, que
vens contra mim destruir minhas terras”?
Em todos os demais passos (cfr. 2 Sam, 16:10 e 19:22; 1.º Reis, 17:18; 2.º Reis, 3:13; 2.º Crôn, 35:21)
o sentido é “que importa a mim e a ti”. Inclusive em o Novo Testamento, no mesmo episódio narrado
pelos três sinópticos (Mat. 8:29; Marc. 1:24 e Luc. 4:34) a frase poderia significar “que tens tu conos-
co”? (tradução vulgar). Mas o sentido interno rejeita-o, pela continuação: “Filho de Deus” (Mat.) ou
“Jesus de Nazaré” (Mr, e Lc.). Se os espíritos obsessores vêem no Mestre o “Messias”, reconhecendo-
Lhe a autoridade de Filho de Deu, não podiam perguntar-lhe o que “Ele” tinha com eles; seria um ab-
surdo: logicamente, se era o “Senhor” que ali estava, cabia-lhes obedecer-Lhe. O segundo sentido “que
importa a ti e a nós” é mais aceitável, como se dissessem: “que importa a ti e a nós o que ele (o obse-
dado) está sofrendo”? Como se salientassem que o sofrimento dele era cármico, e que se eles se apro-
veitavam disso, nenhuma importância tinha, nem para eles, nem para o Messias Santo, o Filho de
Deus. Parece-nos, pois, claro que o sentido se impõe como interpretação lógica: “que importa a ti e a
nós, com o que se passa”? Jamais uma oposição entre os dois interlocutores (a não ser no passo supra-
citado de Juízes 11: 12).
2) “mulher”
A palavra “mulher” nada tinha de ofensivo nem de menos respeitoso entre os orientais, os gregos e os
romanos, tanto quanto nada tinha de desrespeitoso a palavra “homem”. Se a semântica variou com o
tempo, emprestando ao termo sentido depreciativo, culpa disso não cabe aos que o empregavam com
todo o respeito naqueles idos. Hoje diríamos “senhora” (termo desconhecido naquela época). A pala-
vra “mulher” era usada como tratamento de mulher casada, em oposição a “parthenos” (virgem), e
denotava mesmo carinho e consideração (cfr Teócrito, 15:12 “olha, mulher, como ele te observa”!).
3) “minha hora ainda não chegou”.
A terceira consideração referente a essa expressão visa a salientar, segundo os intérpretes, que não ha-
via soado o momento de Jesus iniciar sua missão carismática na Judéia.
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Maria, na realidade, não interpretou assim a resposta de Jesus (que teria sido uma recusa), tanto que dá
ordens aos serviçais, e ordem taxativa: obedeçam ao que ele mandar. E a própria atuação de Jesus
contradiz esse sentido, pois ele assume o comando da situação e manda encher de água seis (atenção
ao número!) talhas de pedra, que serviam habitualmente para as abluções rituais dos israelitas. Nem
eram vasilhas próprias para vinho: eram “tinas” ou “tonéis” em que os judeus se lavavam as mãos, os
pés, os pratos, etc. Cada talha continha duas a três “metretas”.
A “metreta” correspondia a um pé cúbico; dependia, então, do comprimento do pé (nas ilhas do Egeu
valia 35,3 litros, mas em Esparta 74 litros). As medidas gregas principais eram o cotile (0,2047 lt, pou-
co menos de um copo); o xeste (2 cotiles, 0,4094 lt); o hemicoos (8 cotiles, 1,6376 lt), o coos (16 coti-
les, 3.275 lt) e a metreta (192 cotiles, 39,294 lt). As talhas tinham, pois, de 75 a 120 litros (de duas a
três metretas). Notem que João está sempre a citar números: de duas a três metretas.
Uma vez cheias as talhas até a borda, Jesus manda que levem o novo vinho ao presidente do banquete,
para que seja provado. Vem a cena da admiração, por causa da qualidade do produto. O texto é bas-
tante claro, devendo notar-se apenas que vinho “recente” era considerado inferior, já que o bom vinho
era o velho.
A tradução que apresentamos do versículo 11 é a interpretação literal do grego. Compreendemos
σηµειον como “demonstração”, e não “milagre”. O sentido da palavra grega, de fato, é “sinal” como
marca distintiva, ou “prova” que demonstra alguma coisa, ou “símbolo” (por exemplo, o tridente é o
símbolo de Netuno) . E δο٤α é a doutrina, a crença, o julgamento, particularmente o ensino filosófico
(é o mesmo radical do verbo δοкεω , que significa “ensinar”).

Grandes e profundos ensinamentos.


Observemos, de início, a sequência da manifestação dos ensinos relacionados pelo evangelista.
1.º dia (l.ª época) - a resposta de João Batista aos emissários do Sinédrio, exprimindo a personalidade
pura, com todas as exigências “burocráticas” de uma sindicância.
2.º dia (2.ª época) - A apresentação de Jesus (a individualidade} aos discípulos, pelo Batista (a perso-
nalidade).
3.º dia (3.ª época) - Os discípulos de João seguem Jesus: abandono da personalidade para confiar-se
à individualidade .
4.º dia ( 4.ª época) - Agrega-se à entrega a emoção (Simão) que tem o nome mudado para “pedra” ou
“rocha”, porque aí se baseará o desenvolvimento da era de “Pisces” (raio devocional), que é o emo-
tivo, dirigido por Jesus.
5.º dia (5.ª época) - Interiorização no “Jardim fechado” (Galiléia), levando consigo o intelecto (Nata-
nael) e a intuição ( Filipe).
6.º dia (6.ª época) - Meditação do ser unido a todos os seus veículos.
7.º dia (7.ª época) - As bodas ou o casamento do “espírito” reencarnado com o Espírito Eterno, em
união mística, profunda e perene.
É deste último passo que trata o presente trecho evangélico, narrando-nos os pormenores que cerca-
ram esse “casamento” entre os dois, essa Unificação perfeita.
As bodas realizam-se em Caná. “Qanáh” significa “cana” ou “caniço”, a planta que nasce reta para
o alto, como uma flecha que está para disparar verticalmente. É a flecha da oração que elevará as
vibrações, partindo do “Jardim fechado”.
Aproximando-se a hora do esponsalício, da união total, íntima e profunda, em que “os dois serão uma
só carne” (Gên. 2:24), a intuição (Maria) adverte a individualidade (Jesus) de que os discípulos (os
convidados ao banquete espiritual) “não têm vinho”, isto é, ainda não possuem o conhecimento pro-

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SABEDORIA DO EVANGELHO
fundo do sentido das Escrituras. E a individualidade retruca que não é esse o caminho, e que “ainda
não chegou sua hora”, ou seja, o momento do contato. Diz mais, que a intuição não deve dirigir-se a
ela (individualidade): “que temos nós com isso?” mas sim à personalidade, aos veículos inferiores,
aconselhando-os a obedecer à individualidade, para que ela possa agir.
Compreendendo a advertência, a intuição volta-se para os veículos interiores (os serviçais), que são o
corpo físico e o duplo etérico (sensações), as emoções e o intelecto, que servem ao Espírito, à indivi-
dualidade.
O Espírito, então, observa que ali se encontram seis talhas de PEDRA.
Esclareçamos o sentido dos termos.
PEDRA exprime a interpretação literal das Escrituras: Moisés recebeu os mandamentos gravados em
pedras (Êx. 24:12,. 31:18, etc.).
ÁGUA simboliza a interpretação alegórica dessas mesmas Escrituras, o sentido extraído da letra:
Moisés feriu a pedra e dela saiu água (Êx. 17:6).
VINHO é a Sabedoria profunda, o sentido simbólico (místico) e espiritual, que inebria os sedentos da
Verdade, e que alegra o coração (Mente) da criatura (Salmo, 104:15) juntamente com a música, a
mais sublime das artes (Eccli. 40:20).
Quando a doutrina não é pura, Isaías o revela com estas palavras: o teu vinho está misturado com
água” ( Is.1:22).
A narrativa evangélica é bastante clara: tomando as Escrituras Sagradas (talhas de pedra), Jesus
manda que os serviçais (a personalidade) as encham de “água (de interpretações alegóricas). Eles o
fazem. E o fazem bem, enchendo “até a borda”. Esgotam os assuntos e as interpretações de que são
capazes. Nesse momento, quando a personalidade está preparada, chega a individualidade (Jesus) e
transforma a água em vinho, ou seja, transforma os ensinos alegóricos, em ensinos simbólicos, místi-
cos, espirituais, cheios de sabedoria. Revela-lhes o que há de oculto na Palavra Sagrada.
Depois de fazê-lo, manda que levem essa Sabedoria (que proveio do coração), ao intelecto (o presi-
dente do banquete), a fim de ser por este examinada, provada, saboreada e julgada racionalmente.
O intelecto maravilha-se diante daquela Sabedoria e mostra ao candidato à união (o noivo) que nor-
malmente os homens não agem assim: o comum é dar-se aos convivas (às criaturas) uma boa doutri-
na, até que eles se embriaguem com ela (se fanatizem), e depois, então, quando querem aprofundar
mais, colocam-lhe entre as mãos o vinho ordinário (ensinamentos medíocres) que são aceitos sem
discernimento nem critério da razão, porque eles já estão embriagados e fanatizados.
Neste caso, porém, houve o inverso: foram sendo distribuídos vinhos mais ordinários (doutrinas sim-
ples e ingênuas) e só no final lhes é dada a Sabedoria profunda. O evangelista nota que o intelecto (o
presidente do banquete) não sabia de onde provinha aquela sabedoria, mas sabiam-no os serviçais (a
personalidade), que haviam colhido apenas a água da interpretação alegórica.
E realmente, ainda até hoje, o intelecto não se deu conta de que a Sabedoria Profunda vem do cora-
ção; e quando se diz isso, ele reluta em aceitar, porque, diz. “o coração é apenas um aglomerado de
células musculares, propulsoras de sangue” ... Como se o cérebro, intermediário do intelecto que ra-
ciocina, não fosse apenas um conglomerado de células nervosas ... O intelecto ainda ignora que “cé-
rebro” e “coração” são apenas pontes, e que, na realidade, o intelecto pertence ao “espírito” (perso-
nalidade) e a Mente pertence ao Espírito (individualidade).
O bom vinho que os convivas beberam, foi bebido exatamente na união mística, quando os segredos
da amada são revelados ao amante, numa união total, em que o vinho permeia todas as células, leva-
do pelo sangue: assim a Sabedoria penetra e impregna todos os escaninhos do ser, quando a criatura
atinge a Consciência Cósmica.

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E o evangelista salienta em conclusão: esta foi a primeira demonstração da individualidade à perso-
nalidade (aos discípulos) revelando-lhes a Doutrina profunda. E os discípulos acreditaram. Depois da
união do Espírito com o “espírito”, este se convence e se entrega incondicionalmente à evidência dos
acontecimentos.

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ESTADA EM CAFARNAUM
João, 2:12
12. Depois disso, desceu ele a Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e
não ficaram ali muitos dias.

Em alguns manuscritos aparece Capernaum. Mas os testemunhos mais antigos, inclusive de Josefo,
trazem Capharnaum, que significa “cidade do Consolador” (literalmente NAHUM é a forma intensiva,
que corresponde ao sufixo “oso”. isto é, rico em, cheio de; por exemplo: rahum, rico de piedade ou
piedoso; hannum, rico de graça ou gracioso; nahum, rico de consolação ou consolador). Cafarnaum
ficava à margem leste do lago de Tiberíades.
Jesus desceu de Caná (a mais de 200 metros acima do mar) para Cafarnaum (a 200 metros abaixo do
nível do Mediterrâneo). Com ele veio toda a sua família. A citação de Maria e dos irmãos de Jesus,
confirma que o casamento de Caná foi de elemento das relações de Maria, que levou os seus parentes.
Dos irmãos de Jesus conhecemos quatro: Tiago, José, Simão e Judas (Mat.13:55, onde se diz que tam-
bém tinha “irmãs”, mas não lhes cita os nomes). Com eles vieram os novos discípulos de Jesus (André,
João, Pedro, Filipe e Natanael).
Não se demoram em Cafarnaum: aí ficaram “alguns dias”, preparando-se para seguir para Jerusalém, a
fim de comemorar a Páscoa .
A descida do local do Encontro (o “caniço” apontando para o céu, do “Jardim fechado”) para a “ci-
dade do Consolador”, simboliza a necessidade de levar a consolação recebida do Alto, para a planí-
cie da vida, para aqueles que, embora não maduros, têm também fome de luz. Quem encontrou a Luz
deve levá-la aos que estão em trevas, com amor e sem egoísmo. Dela receberá cada um na medida de
sua capacidade.

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VIAGEM A JERUSALÉM
(Para a Páscoa, abril de 29 A, D. )
João, 2:13
13. Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.

A Páscoa “dos judeus”, como anota João, era uma das festas que obrigava a todos os homens a visitar
o Templo de Jerusalém.
Estamos no ano 29 da era cristã (782 de Roma).
A expressão “subir a Jerusalém” era a usual, porque realmente a Cidade Santa ficava a 780 metros
acima do Mediterrâneo.
Jerusalém significa “visão da paz” (se ligarmos a primeira parte IERU à raiz râ’âh, ver); ou “a posse
da paz” (se a ligarmos a yârash, possuir); este último nome poderia ter-lhe sido aplicado por Salomão
“o pacífico”. Mas a inscrição das tábuas de Tell el-Amarna e as inscrições cuneiformes do Prisma de
Taylor e do Cilindro C de Senaqueribe, trazem IR-SA-LI-IM-MU, (1) assim como o siríaco traz (2)
('urishlem) e o árabe (3) ('urishalam). Neste caso, o primeiro elemento UR (em hebraico 'ir) significa
“cidade”. Teríamos, então, “cidade da Paz”. As antigas moedas da época reproduzem Yerusalém (4) ,
isto é, (5) e Yerusalaim (6) , istoé, (7).

(1) (5)

(2) (6)

(3) (7)

(4)

O grego transcreve ora ‘Iερουσαλήµ , ora ‘Iεροσόλυµα que o latim verte por Jerusalém ou Hieroso-
lyma.
O primitivo nome da cidade era JEBUS (cfr. Josué 15:8 e 18:16, 28; Juízes, 19:10, 11, e 1 Crôn.
11:4,5).
A primeira referência à páscoa diz: pesah hu la-YHWH, que significa “a passagem de YHWH”. Em
aramaico tomou a forma pashha, que o grego transliterou πασΧα e o latim pascha. Só era permitido
comer pão “ázimo”, isto é, sem fermento, donde ser a festa chamada “festa dos ázimos”. E a comida
era cozida sem sal nem azeite. Imolava-se um cordeiro que devia ser todo comido pela família, antes
de terminar a festa.
A Páscoa era celebrada no mês de Nisan, no 14.º dia .
O ser que recebeu a Luz precisa peregrinar, mas sem esquecer jamais os locais que lhe tragam Paz.
De vez em quando necessita subir vibracionalmente para não perder contato durante a “passagem do
EU interno”, a “páscoa de YHWH”.

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EXPULSÃO DOS EXPLORADORES


(Em Jerusalém, abril de 29 A.D.)

Mat. 21:12-13 Luc. 19: 45-46

12. Jesus entrou no templo, expulsou todos os 45. Tendo entrado no templo, começou a expul-
que ali vendiam e compravam, derrubou as sar os que ali vendiam, dizendo-lhes:
mesas dos cambistas e as cadeiras dos que 46 “Está escrito: minha casa será casa de ora-
vendiam as pombas, ção, mas vós a fizestes um covil de salteado-
13. e disse-lhes: “Está escrito, minha casa será res”.
chamada casa de oração; vós, porém, a fa-
zeis covil de salteadores”.

Marc. 11: 15-17 João, 2: 14-17

14. E chegaram a Jerusalém. Entrando ele no 14. Encontrou no templo os que vendiam bois,
templo, começou a expulsar os que ali ven- ovelhas e pombas, e também os cambistas
diam e compravam, e derrubou as mesas sentados;
dos cambistas e as cadeiras dos que vendi- 15. e tendo feito um azorrague de cordéis, ex-
am as pombas, pulsou a todos do templo, as ovelhas e os
15. e não permitia que ninguém atravessasse o bois, derramou pelo chão o dinheiro dos
templo cambistas e virou as mesas.
16. levando qualquer objeto, e ensinava dizen- 16. E disse nos que vendiam as pombas: “Tirai
do: “Não está escrito que minha casa será daqui estas coisas; não façais da casa de
chamada casa de oração para todas as na- meu Pai uma casa de negócio”.
ções? mas vós a fizestes um covil de saltea- 17. Então se lembraram seus discípulos de que
dores”. está escrito : “O zelo de tua casa me devo-
rará”.

Interessante observar que João coloca o episódio no início da vida pública de Jesus; Mateus e Lucas o
citam no domingo em que Jesus entra triunfalmente em Jerusalém, e Marcos na segunda-feira seguinte,
pela manhã. Quando se realizou realmente? Ou será que a cena se repetiu duas vezes? Não há possibi-
lidade de solucionar a questão com segurança absoluta, Mas parece, como pensam muitos exegetas,
que a razão está com João. No libelo acusatório da quinta-feira seguinte, a última acusação (“final-
mente”, Mat.26:60) é a de que Jesus falara da destruição do Templo e de sua reconstrução em três dias.
Ora, se o episódio se houvesse verificado quatro ou cinco dias antes, que “se recordava” de havê-lo

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C. TORRES PASTORINO
ouvido dizer isso. Os três sinópticos só falam de Jesus em Jerusalém nessa época: natural que, por co-
modidade, tivesse aí colocado o episódio.
Os vendedores permaneciam no ádrio do templo (hierô), único local em que podiam penetrar os genti-
os (isto é, os não-judeus), e não dentro do templo propriamente dito (naós). Alinhavam-se as mesas no
pórtico, como de uso nas vias públicas, e vendiam bois, ovelhas, pombos, farinha, bolos, incenso, óleo,
sal e vinho. Além disso havia os cambistas, que trocavam dracmas gregas, e denários romanos, por
siclos judeus, únicas moedas aceitas como ofertas. A troca era feita com ágio (“cóllybos”).
Todos, vendedores e cambistas, contribuíam com percentagens para os sacerdotes, e Rabbi Simeão
Ben Gamaliel queixa-se dos altos preços extorsivos cobrados pelos vendedores do Templo.
Marcos anota que Jesus protestou também contra a travessia do Templo, a carregar pacotes. Esse cos-
tume foi condenado no Tratado Barakoth do Talmud. Com efeito, para evitar uma volta grande, o povo
se acostumou a carregar suas cargas atravessando o Templo de leste a oeste.
Marcos é o único evangelista que traz as citações completas. A de Isaías (56:7) segundo os LXX: “mi-
nha casa será chamada casa de oração para todas as nações”. E a de Jeremias (7:11), quando esse pro-
feta exorta os israelitas a melhorarem suas vidas; pois se continuassem a roubar, a matar e a mentir,
entrando no Templo com seus crimes, “esta casa, que é chamada de meu nome, se tornaria a vossos
olhos um covil de salteadores”.
Outro argumento a favor de João, colocando a expulsão no início da vida pública, é que o fato constitui
uma confirmação das palavras do Batista (“entre vós está aquele de quem não suspeitais”, Jo, 1:26) e
da profecia de Malaquias (3:1): “depois disso, o Anjo do Testamento, que esperais impacientemente,
fará sua aparição no Templo”.
Segundo João, Jesus faz um chicote de cordinhas (é usado o diminutivo) ou cordéis, para enxotar os
animais (não poderia fazê-lo com carícias!); mas aos homens dirige a palavra candente, derrubando as
mesas donde caíram as moedas dos cambistas.

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SABEDORIA DO EVANGELHO
Figura – “A expulsão dos exploradores”, quadro de BIDA, gravura de FLAMENG.

Para uma ação desse tipo, não houve necessidade de “milagre”: a intervenção repentina e inesperada,
com autoridade, desconsertou-os, e eles obedeceram sem reação, inibidos de espanto.
Muito mais tarde é que os discípulos se lembraram das palavras do Salmo (69:9), citadas segundo os
LXX, no futuro: “o zelo da Tua casa me devorará “ .
---:---:---:---:---
O fato da expulsão dos “exploradores” do Templo, bem aceito pela teologia católica, quer romana,
quer reformada, sofre grandes restrições no ambiente espiritista. Convictos da bondade de Jesus, de
seu amor para com os pecadores e humildes, não querem admiti-Lo violento. Parece-nos haver confu-
são entre violência e energia, entre bondade e complacência. Pode e deve haver bondade enérgica, fre-
quentemente indispensável na educação de crianças rebeldes, sem que haja violência. A moleza de
caráter (muitas vezes chamada “benevolência”) pode em certos casos constituir até crime. Cruzaríamos
os braços diante de um bandido que estivesse para assassinar um bando de crianças, e se tivéssemos
força capaz de detê-lo sem matá-lo? E nossa conivência, sob a capa cômoda da “caridade”, não seria
cumplicidade?
Não se alegue que Jesus “perdeu a linha”, porque nenhum evangelista deixa supó-lo. Repreender com
severidade, derrubar uma mesa de cambista, pegar um feixe de pequenas cordas para enxotar animais,
é um gesto de justa indignação que supõe grande elevação espiritual diante da profanação de um lugar
sagrado. Vem isto provar-nos que não devemos - nem podemos - pactuar com o abuso, sobretudo de
negociar nos lugares destinados à oração.
Quanto ao “chicote” de cordéis, não é necessário supor-se uma “figura”, dizendo que era o chicote “da
palavra”. Não se diz no Evangelho que Jesus espancou os exploradores, mas apenas que fez o chicote,
com ele espantando os animais, que não podiam entender as palavras candentes que dirigiu aos ho-
mens.
O episódio não pode ser posto em dúvida, quando vem narrado nos quatro evangelistas. E em muitas
outras ocasiões podemos observar o retrato de um Jesus másculo e forte. Jamais o vemos fraco e co-
varde. Seria inadmissível que um Espírito, com a autoridade de Jesus que criou o planeta, aqui chegas-
se com um caráter mole e efeminado. A força moral de Jesus, assim como sua energia, é bem confir-
mada pelas palavras duras com que enfrentava os enganadores do povo, que faziam da religião simples
degraus para subir no conceito popular e para adquirir prestígio e honrarias, ou posição política, ou
riquezas e isenção de obrigações.
Desse fato, narrado pelos quatro evangelistas, deduzimos um ensinamento valioso. Trata-se da auto-
ridade e severidade com que devemos tratar nossos veículos inferiores, quando nos querem eles levar
por falsos caminhos, para a fraude, para a simonia.
A individualidade não pode consentir que a personalidade transforme o Templo de Deus, de nosso
Pai, em “covil de salteadores”, onde, se acoitem vícios e enganos, a hipocrisia e a “venda” das coi-
sas que devem servir para o sacrifício à Divindade; não podemos vender nosso “espírito” por favores
em benefício de nossa comodidade e nosso conforto.
Quantas vezes a personalidade acha “natural” fraudar o Templo de Deus, trocando a justiça e a reti-
dão por lucros incontestáveis de sensações e emoções! Quantas vezes permitimos que a animalidade
assuma o papel principal, acima da espiritualidade. Quantas vezes consentimos em constituírem nos-
sos veículos inferiores um aglomerado de vendilhões e exploradores das coisas sagradas, comprando
prazeres sórdidos com sacrifício de nossas potencialidades sacrossantas, seja nas sensações, seja nas
emoções, seja no intelectualismo viciado!
Jesus ensina-nos a agir prontamente, com rapidez, energia e autoridade, com severidade e zelo, mos-
trando-nos que jamais podemos compactuar com essas profanações do Templo de Deus. Exemplifica-

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mos que, se necessário, usemos de um chicote de cordas para expulsar o animalismo, a covardia, o
comodismo, a falsidade, a agiotagem dos “cambistas” que trocam o Reino dos Céus pelos bens da
Terra; que sacrificam as riquezas imperecíveis por gozos momentâneos e ilusórios; que nos atrasam a
caminhada e aprofundam no solo, pelo qual caminharemos, espinhos dolorosos que colheremos nas
estradas futuras.
Energia, sim, rigor , intransigência, autoridade irretragável, dureza incomplacente com todos os veí-
culos inferiores que devem servir ao Espírito, e não escravizá-lo a seus caprichos, a seus prazeres, a
suas loucuras” Mesmo sem violência contra eles, jamais fraquejar nem amolecer: a energia deve ser
varonil e autoritária.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

DISCUSSÃO COM AS AUTORIDADES


João, 2:18-23
18. Perguntaram-lhe pois os judeus: “que sinal nos mostras, pois que fazes essas coisas”?
19. Respondeu Jesus e lhes disse: “derrubai este Templo e em três dias o reerguerei”.
20. Replicaram-lhe, então, os judeus: “há quarenta e seis anos é construído este Templo,
e em três dias o levantas”?
21. Mas ele se referia. ao Templo de seu corpo.
22. Quando pois ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se seus discípulos de que ele
dissera isso, e creram na Escritura e na palavra que Jesus dissera.

Ao passar o primeiro impacto da confusão, os sacerdotes e policiais do Templo vão tomar satisfações.
Não Lhe pedem documentos, mas “um sinal”.
Responde Jesus com um enigma, uma figura ou alegoria, muito em voga entre os Doutores da Lei:
“quando tiverdes destruído este Templo, em três dias o reerguerei”.
O sentido literal parecia referir-se ao templo de pedra, e nesse sentido foram citadas essas palavras
pela testemunha de acusação (Mat. 26:61 e Mr. 14:58), e a esse propósito os soldados judeus farão
sarcasmos no Gógota (Mat. 27:40 e Mr. 15:29), voltando na acusação contra Estêvão (At. 6:14). Em
todos esses lugares, diz-se que Jesus afirmou que “ele” destruiria o templo”. Mas, segundo o relato de
João, suas palavras não foram essas.
Referia-se Jesus ao seu corpo, o “Templo de Deus” (“'Não sabeis que sois o Templo de Deus e o Espí-
rito Santo habita em vós”?, 1 Cor.3:16; “é santo o Templo de Deus, que sois vós”, 1 Cor.3:17; “vós
sois o Templo do Deus vivo”, 2 Cor.6:16, etc.).
Realmente o enigma é obscuro.
Os judeus retrucam : “este templo há 46 anos é reconstruído”. De fato, o templo estava sendo recons-
truído, com grande resplendor, pela generosidade de Herodes, que iniciou a obra no 18.º ano de seu
governo,em19A.C. (735 de Roma, cfr. Josefo, Ant. Jud. 15:11:1). Na época da narrativa, estávamos no
ano 29 (782 de Roma) e se tinham passado exatamente 46 anos do início da reconstrução. (Os traba-
lhos prolongaram-se até o tempo do procônsul Albino, em 62-64, cfr. Josefo, Ant. Jud.20.9.7). E esta é
mais uma indicação precisa da cronologia da vida terrena, concordando com Lucas 3:2; que coloca o
mergulho de Jesus no 15.º ano do governo de Tibério como César (29 A.C. Ou 782 de Roma).
A frase de Jesus causa ainda maior estupefação porque trabalhavam na reconstrução do templo dezoito
mil operários, que ficaram ao desemprego ao terminarem as obras (cfr. Josefo, Ant. Jud. 20.9.7). Como
um homem sozinho podia fazer esse trabalho, e em três dias? E que sinal seria esse que teria necessita-
do, primeiro, que se demolisse o templo, coisa absurda só de pensar? A inverossimilhança sustou qual-
quer julgamento precipitado. É um desses enigmas que só será compreendido depois de realizado,
como anota João: só depois da ressurreição compreenderam-no os discípulos, de que estava Jesus fa-
lando.
Esta sequência vem confirmar integralmente nossa interpretação do trecho anterior: a “expulsão”
não é do templo de pedra, mas é do Templo de Deus, o templo construído para ser chamado “do Se-
nhor”, ou seja, o corpo humano, a personalidade. A isso se referia Jesus, disso falaram os quatro
evangelistas alegoricamente, como João explica quando fala da “destruição do templo”. Mas nem

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C. TORRES PASTORINO
todos conseguem penetrar o sentido profundo, só sabem ler literalmente, embora o próprio evange-
lista o explique logo a seguir.
Quando os judeus pedem um sinal de que tem autoridade, Jesus não lhos dá. Apenas faz uma afirmati-
va que os confunde, fazendo-se passar por inconsequente ou quase louco. Em linguagem vulgar dirí-
amos “não deu confiança” a quem não tinha autoridade para pedir-lhe satisfações.
Assim também deve ocorrer com os discípulos. Quando o Espírito, nosso Eu Profundo, exigir de nós
sacrifícios e restrições aos veículos inferiores, quase sempre estes se rebelam, sobretudo o intelecto,
que pede “razões” e não quer entender. O Espírito, consciente de si, pode responder-lhe: '“se esse
templo (esse corpo) for destruído, eu o reerguerei em novo nascimento; em três dias”, no sentido de
rapidamente (como dizemos hoje: “em três tempos”).
Isso sucede quando, para obras mais altas, exigimos de nós mesmos sacrifícios maiores, arriscamos
nossas vidas para beneficiar o próximo; quando sentimos o impulso de atender doentes contagiosos e
de pôr em risco nossos bens materiais, ou nosso ganha-pão, para resistir a uma falha de caráter, num
abastardamento de nossa integridade moral; quando o Espírito nos impele a tudo sacrificar, quase
sempre o intelecto procura obstar a esses atos de heroísmo e “loucura” e, infelizmente, quase sempre
o intelecto vence o coração ... arrasta-nos ao erro, quando deveríamos arrostar a morte (como o fize-
ram os mártires dos primeiros séculos do cristianismo), contanto que não traíssemos nossa fé.
A lição permanece: se o templo for destruído, o Espírito o refará logo. Mas se o “espírito” for sacrifi-
cado, teremos a desgraça: “não temais os que matam o corpo, mas não podem matar o “espírito”;
temei antes os que podem matar o corpo e o espírito na geena” (Mat .10:28).

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SABEDORIA DO EVANGELHO

OS PRIMEIROS ENTUSIASTAS
João. 2:23-25
23. Estando ele em Jerusalém, na festa da Páscoa, ao verem as demonstrações que dava,
creram em seu nome.
24. Mas o próprio Jesus não confiava neles, porque conhecia a todos.
25. e não precisava que alguém lhe desse testemunho do homem. pois ele mesmo sabia o
que havia no homem.

Esses três versículos de João dão-nos conta da impressão que o ensino de Jesus teve sobre a multidão.
Em vendo as curas inexplicáveis que praticava e ao ouvir as palavras de sabedoria que de sua boca
provinham, muitos do povo acreditaram nele. É a massa imatura, que não tem a capacidade dos discí-
pulos nem a obstinação incrédula das autoridades, e deixa-se levar pelo entusiasmo dos fatos externos.
como o trigal que ondula com a aragem.
A festa da páscoa não se refere ao dia principal (pascha), mas à sua continuação (eorté). Durante esses
dias, Jesus permaneceu em Jerusalém falando de público, às ondas sucessivas dos peregrinos que che-
gavam, e agindo diante deles.
O povo admira-se e acredita. Mas é a fé externa e fraca (como assinala João em 4:48, em 6:2 e em
6:14). Essa fé, baseada em coisas externas, sem o amadurecimento interno é abalada por qualquer
vento, esturricada por qualquer sol (cfr. a parábola do semeador).
Bem o sabe Jesus. Ninguém precisa advertí-lo disso. Ele vê o íntimo, lê os corações, sabe “o que está
no homem”. Não se ilude com os aplausos fáceis, com os elogios corriqueiros, e por isso não confia
neles, nem lhes revela o “segredo do Reino”, que só pode ser desvelado aos maduros, àqueles cuja fé
nasce de dentro para fora. A pregação é feita de acordo com a necessidade e a capacidade dos ouvintes.
Para nós a lição é preciosa. Nada de acreditar em qualquer recém-chegado, por mais entusiasmado
que nos pareça e que se diga. Nada de abrir-lhe nosso coração: “não deis as coisas santas aos cães,
nem lanceis vossas pérolas aos porcos” (Mat. 7:6).
Na interpretação profunda compreendemos bem porque muitos permanecem “às portas do templo”
(profanos) sem nele conseguirem penetrar. Fundamentam sua fé em fatos. São católicos porque teste-
munharam um milagre, ou confessam-se espíritas porque assistiram a um fenômeno de materialização
ou à manifestação extraordinária de um “espírito”, mas não porque o coração os leve a isso. É uma
aceitação intelectual, por não conseguirem explicar certos fatos, mas nada lhes nasce do âmago do
ser. Imaturos ainda, apegam-se a fatos externos. Mas basta uma desilusão, provocada por uma im-
perfeição num sacerdote ou num médium, para abjurarem sua fé e se tornarem descrentes ...
As afirmações evangélicas pedem um exame nosso interno: seremos ainda profanos, ofuscados pela
exterioridade dos fenômenos?
Daí o Espírito que habita em nós, nosso Eu Profundo, que nos conhece, não precisar de nenhum tes-
temunho de nosso intelecto, de nenhuma confissão de nossa personalidade. Ele conhece o que existe
no homem, e por isso aguarda pacientemente de cada personalidade o momento azado. Por que certas
criaturas se sentem chamadas e respondem? Por que outras não se sentem chamadas pela Voz Interi-
or? O Espírito sabe que não adianta chamar as personalidades ainda imaturas, surdas à Sua voz.

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C. TORRES PASTORINO
Daí a desnecessidade do proselitismo. Lancemos a semente: “quem tiver ouvidos de ouvir, ouvirá” .
Ninguém chegará nem antes nem depois da hora que lhe é própria: “O Espírito age onde quer”
(Jo.3:8).

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SABEDORIA DO EVANGELHO

ÍNDICE REMISSIVO
1.º TENTAÇÃO, 122 LUCAS, 7
2.ª TENTAÇÃO, 122 MANIFESTAÇÃO CRÍSTICA, 22
3.ª TENTAÇÃO, 123 MANUSCRITOS, 3
A INSPIRAÇÃO, 7 MARCOS, 6
ABREVIATURAS, 4 MASSACRE DOS INOCENTES, 87
ÁGUA, 136 MATEUS, 6
ANJO, 119 MAU, 119
ANJOS E PASTORES, 60 MERGULHO DE JESUS, 107
ANÚNCIO A MARIA, 37 MINISTÉRIO DO PRECURSOR, 94
ANÚNCIO DO MESSIAS, 103 Mulher, 134
APRESENTAÇÃO, 71 NASCIMENTO DE JESUS, 57
ASTRO, 79 NASCIMENTO DE JOÃO, 47
BODAS DE CANÁ, 133 NOMES E NÚMERO, 79
CÂNONE, 2 O CRISTO, 21
CÂNTICO DE SIMEÃO, 73 O PRÓLOGO DE LUCAS, 16
CÂNTICO DE ZACARIAS, 49 ORGULHO, 120
CIRCUNCISÃO, 70 OS EVANGELISTAS, 6
CÓDICES, 3 OS SINÓPTICOS, 7
COLAÇÃO, 4 OS TEXTOS, 5
Comentários Exegéticos, 119 PASSO, 4
COPISTAS, 4 PEDRA, 136
CURVA INVOLUÇÃO-EVOLUÇÃO, 26 Pomba, 110
CUSTOS LINEARUM, 4 PREDIÇÃO DO NASCIMENTO DE JOÃO, 32
DEMÔNIO, 118 PRIMEIROS DISCÍPULOS, 125
DIABO, 117 PRIMEIROS ENTUSIASTAS, 146
DISCUSSÃO COM AS AUTORIDADES, 144 PRINCIPAIS MANUSCRITOS, 5
EGOÍSMO, 120 QUADRO - QUATERNÁRIO INFERIOR, 20
Epístolas Paulinas, 2 QUADRO - TRÍADE SUPERIOR, 19
Epístolas Universais, 3 REGRESSO DO EGITO, 89
ÉPOCA DA CHEGADA, 79 RESPOSTAS DE JOÃO, 105
ESPÍRITO, 113 RESSURREIÇÃO, 8, 100
ESQUEMA DA MISSÃO DE ESQUEMA, 11 REVELAÇÃO A JOSÉ, 53
ESTADA EM CAFARNAUM, 138 ROLOS, 3
EVANGELHO, 2 SALTO, 5
EVOLUÇÃO ANIMAL-HOMINAL, 85 SANTO, 119
EXPULSÃO DOS EXPLORADORES, 140 SATÃ ou SATANÁS, 117
FARISEU, 99 SIGLAS, 5
FARISEUS, 99 SIMBOLISMO CÓSMICO, 93
FILHO DO HOMEM, 130 TENTAÇÃO DE JESUS, 116
FUGA PARA O EGITO, 83 TENTADOR, 117
GENEALOGIA DE JESUS, 65 TESTAMENTO, 2
HAPAX LEGÓMENA, 4 VAIDADE, 120
HARMONIZAÇÃO, 4 VARIANTE, 5
IMPURO, 119 VIAGEM A JERUSALÉM, 139
INSTRUÇÕES DE JOÃO BATISTA, 99 VINHO, 136
INTERPOLAÇÃO, 4 VISITA A ISABEL, 43
INTERPRETAÇÃO, 8 VISITA AO TEMPLO, 91
INTRODUÇAO, 2 VISITA DOS MAGOS, 77
INTUIÇÃO, 19 VISITA DOS PASTORES, 63
JOÃO, 7 VOLTA À GALILÉIA, 129
LIÇÃO, 4 VULGATA, 6
LÍNGUA ORIGINAL, 6 YHWH, 19, 21, 30, 31, 33, 34, 35, 48, 49, 89, 111, 126,
Livro Profético, 3 127, 130, 139
Livros históricos, 2 ZACARIAS E ISABEL, 30

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CARLOS TORRES PASTORINO
Diplomado em Filosofia e Teologia pelo Colégio Internacional S. A. M. Zacarias, em Roma – Professor
Catedrático no Colégio Militar do Rio de Janeiro e Docente no Colégio Pedro II do R. de Janeiro

SABEDORIA DO
EVANGELHO

2.º Volume

Publicação da revista mensa1

SABEDORIA

RIO DE JANEIRO, 1964


C. TORRES PASTORINO

A CONVERSA COM NICODEMOS


João. 3:1-15
1. Havia um homem dentre os fariseus, chamado Nicodemos, chefe dos judeus.
2. Este veio ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: "Rabbi. sabemos que és mestre vindo da parte
de Deus, pois ninguém pode fazer essas demonstrações que fazes se Deus não estiver com ele'.
3. Jesus respondeu-lhe: "Em verdade, em verdade te digo. que se alguém não nascer de novo
(do alto) não pode ver o Reino dos céus".
4. Perguntou-lhe Nicodemos: "Como pode um homem nascer sendo velho? Pode porventura
entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e nascer"?
5. Respondeu Jesus: "Em verdade, em verdade te digo, que se alguém não nascer de água e de
espírito não pode entrar no Reino de Deus;
6. o que nasceu da carne é carne, o que nasceu do espirito é espírito.
7. Não te maravilhes de eu te dizer: é-vos necessário nascer de novo (do alto):
8. o espírito age onde quer, e ouves sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai: assim
é todo aquele que nasceu do espírito".
9. "Como pode ser isto"? , perguntou-lhe Nicodemos.
10. Respondeu-lhe Jesus: "Tu és o mestre de Israel e não entendes estas coisas?
11. Em verdade, em verdade te digo, que falamos o que sabemos e testificamos o que vimos, e
não recebeis nosso testemunho?
12. Se vos falei de coisas terrenas e não me credes, como crereis se vos falar de coisas celestiais?
13. Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, a saber, o Filho do Homem
14. Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja le-
vantado,
15. para que todo aquele que nele crê, tenha a vida futura".

Um dos episódios mais instrutivos, em qualquer plano que se consiga compreendê-lo: no literal, no
alegórico, no simbólico ou no espiritual. Vamos inicialmente fazer os comentários exegéticos, passan-
do depois aos hermenêuticos.
Passa-se o fato com um fariseu de nome grego, Nicodemos ("vencedor do povo"). Seu nome aparece
mais duas vezes apenas, sempre em João (7-5 e 19:39). Era Doutor da Lei e chefe dos judeus, o que
indica pertencer ao Sinédrio. Procura Jesus à noite, hora mais propícia para uma conversa particular,
acrescendo a circunstância da prudência de não ser visto.
Nicodemos dá a Jesus o título de Rabbi, tratando-o como igual. e explica as razões por que o considera
também Doutor da Lei: as demonstrações de obras e palavras, Jesus fala em nascer "de novo" ou "do
alto". A palavra grega ανουεν pode ter os dois sentidos. João o emprega geralmente no segundo sentido
(em 3:31, em 19:11 e em 19:23). Os ,'Pais" da igreja grega (Orígenes, João Crisóstomo, Cirilo de Ale-
xandria, etc.) e alguns modernos (Calmes, Lagrange, Loisy, Bernard, Joüon, Pirot, Tillmann e o nosso
José de Oiticica) preferem "do alto". Os "Pais" da igreja latina (Agostinho, Jerônimo, Ambrósio, etc.) e
outros modernos (d'Alâs, Durand, Knabenbauer, Plummer, Zahn, etc.) opinam por 'de novo”. Um e
outro sentido cabem perfeitamente no contexto.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Jesus inicia a conversa afirmando que ninguém pode VER ( ιδειν ) no sentido de conhecer, ver com a
Mente, identificar-se, e portanto viver) o Reino dos céus (mais abaixo é usado "Reino de Deus" como
sinônimo perfeito) se não nascer de novo, ou do alto. Nicodemos indaga “como pode nascer pela se-
gunda vez um homem velho se poderá voltar para o ventre materno". Esta pergunta revela que o mes-
tre de Israel entendeu "de novo" sem a menor dúvida.
O Rabbi não retira o que disse: ao contrário, confirma-o, especificando que o nascimento deverá ser
"de água e de espírito" (em grego sem artigo); e dizendo mais: "que o que é carne nasce da carne e o
que é espírito provém do espírito" (em grego com artigo). E repete: e necessário nascer de novo (ou do
alto).
Depois acrescenta: "o espírito age onde quer". As traduções vulgares trazem “o vento sopra onde
quer". Ora, a palavra πνευµα (pneuma) é repetida no original cinco vezes nos quatro versículos (5, 6, 7
e 8). Por que traduzir quatro vezes por "espírito" e uma vez por “vento”? Estranho ... Mas há razões
para isso. Veremos.

Jesus muda de tom, torna-se mais solene, eleva os conceitos e penetra assuntos mais profundos. Admi-
ra-se que Nicodemos não o entenda. Salienta que entre os dois há uma diferença: Nicodemos é "o
doutor de Israel", enquanto ele, Jesus, não havia feito os cursos oficiais (daí aparecer em grego o artigo
diante da palavra "doutor"). Salienta, então, que até aqui falou de coisas terrenas, e não foi entendido.
Que sucederá se falar das celestiais (espirituais) ?
Depois cita a serpente de bronze, que foi elevada por Moisés (Núm.21:4-9), dizendo que o mesmo
deverá acontecer ao Filho do Homem. No livro da Sabedoria de Salomão (16:6-7) essa serpente é cita-
da como "símbolo de salvação".
Passemos, agora, à hermenêutica.

1.ª Interpretação: LITERAL


É a adotada pela igreja Católico-Romana. Jesus diz a Nicodemos que a criatura só pode obter o Reino
de Deus (salvar-se) se renascer pela água (que é mesmo a água física do batismo) e pelo espírito (que é
a infusão do Espírito Santo). Daí ser traduzido o versículo 8 por "o vento sopra onde quer", como um
simples exemplo da liberdade do Espírito. O batismo é um rito de iniciação que se tornou um "sacra-
mento". A palavra latina sacramentum é a tradução do grego µυστεριον , e corresponde aos mistérios
gregos que se aplicavam aos catecúmenos (profanos que haviam recebido a instrução oral e estavam
prontos para ser "iniciados" nos mistérios). Nesse sentido era usada a palavra sacramento. No século
4.º, Ambrósio introduziu no latim a palavra grega mysterium, com o sentido de "coisa oculta", segredo
não revelável a estranhos. O sacramento do batismo é a junção da água e das palavras que dão o Espí-
rito, e se define: "sinal sensível que exprime e produz a graça santificante, permanentemente instituído
por Jesus Cristo" (Tanquerey, Theologia Dogmatica, vol. III, n. 248). E Agostinho (Tratado 80, in Jo-
hanne n.3) confirma: “No batismo há palavra e água.. Tira a palavra, que fica? água pura. Se a palavra
é unida ao elemento, temos o sacramento. Que força teria a água de lavar o coração, se não fossem as
palavras"? (Patrol. Lat., vol. 35, col. 1810).
Essa é a única interpretação lícita, segundo o Concílio de Trento (sessão 7, cânon 2):

"Si quis dixerit aquam veram et naturalem non "Se alguém disser que não há necessidade de água
esse de necessitate baptismi, atque ideo verba illa verdadeira e natural para o batismo, e igualmente
Domini nostri Jesu Christi: “nisi quis renatus fue- que devem ser interpretadas como metáfora as
rit ex aqua et Spiritu Sancto" ad metaphoram ali- palavras de nosso Senhor Jesus Cristo: "se alguém
quam detorserit, anathema sit". não renascer da água e do Espírito Santo", seja
anátema".

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C. TORRES PASTORINO
Há, pois, uma interpretação fixada como dogma.

2.ª Interpretação: ALEGÓRICA


Foi justamente a condenada pelo Concílio de Trento, cujo artigo se dirigia contra Calvino e Grotius.
Essa interpretação ainda é seguida pela maioria dos evangélicos (protestantes).
A explicação da "água" corresponde ao rito do batismo. Mas o "espírito" tem novo significado: é o
renascimento moral, a vida nova ou o novo teor de vida no caminho de Cristo. O sentido do renasci-
mento espiritual, com a morte do "homem velho" e o nascimento do "homem novo" é muitas vezes
ensinado nas Escrituras, desde o Antigo Testamento: "Lançai de vós todas as vossas transgressões,
com que errastes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo" (Ez.18:31); "Também vos darei um
coração novo e dentro de vós porei um espírito novo" (Ez.36:26); "Se alguém está em Cristo, é uma
nova criação: passou o que era velho, eis que se fez novo" (2 Cor.5:17); "Não mintais uns aos outros,
tendo-vos despido do homem velho com seus feitos e tendo-vos revestido do homem novo" (Col.3:9);
e ainda 2 Cor.2:11-13 ou Ef. 4:20-24 e Rom.6:3-11.
A tradução adotada no versículo 8 é também "vento", defendendo-se a tradução com a frase do Eclesi-
astes (11:5): "Tu não sabes o caminho do vento". Entretanto, aí a palavra usada não é πνευµα , mas
ανεµος . Quanto ao verbo pnei, se é usado com sentido de "soprar" com referência ao vento, também
pode significar "agir, exteriorizar-se, manifestar-se" em relação ao espírito. O latim traduz πνευµα por
"spiritus" e πνει por spirare, dentro do sentido grego. Mas também em português usamos o mesmo
radical, quer se trate do espírito (inspiração) quer se trate do vento (respiração), que se divide em inspi-
ração e expiração; e quando o espírito se retira, dizemos que a pessoa "expirou".

3.ª Interpretação: FISIO-REALISTA


Aceita pelos espiritistas, como ensino da realidade fisiológica do que ocorre com as criaturas. A tradu-
ção de " ανουεν " é "de novo", tal como a entendeu Nicodemos, que pergunta como pode "o homem,
depois de velho, entrar pela segunda vez ( δευτερον ) no ventre materno".
A essa indagação, longe de protestar que não era isso o que queria dizer, Jesus insiste e confirma suas
palavras: "é o que te disse: indispensável se torna que o homem nasça de água (isto é, materialmente,
com o corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d 'água do liquido amniótico)
e de espírito (ou sej a, que adquira nova personalidade no mundo terreno, em cada nova existência, a
fim de progredir). Se Nicodemos entendeu à letra as palavras ãe Jesus, o Mestre as confirma à letra e
reforça seu ensino. Com efeito, o espírito, ao reentrar na vida física, pode ser considerado novo espírito
que reinicia suas experiências esquecido de todo o passado.
Em grego não há artigo diante das palavras "água" e "espírito". Não é portanto nascer da água do ba-
tismo, nem do espírito, mas de água (por meio da água) e de espírito (pela reencarnação do espírito).
Daí a explicação que se segue: "o que nasce da carne (com artigo em grego) é carne”, isto é, é o corpo
físico, com toda a hereditariedade física herdada do corpo dos pais; e o que nasce do espírito é espíri-
to" ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última encarnação, com toda a hereditarie-
dade pessoal que traz do passado". E Jesus prossegue: "por isso não te admires de eu te dizer: é-vos
necessário nascer de novo". Observe-se a diferença de tratamento: "dizer-TE" no singular, e "é-VOS"
no plural, porque o renascimento é para todos, não apenas para Nicodemos. E mais: "o espírito sopra
(isto é, age, reencarna, se manifesta) onde quer, e não sabes donde veio (ou seja, sua última encarna-
ção), nem para onde vai (qual será a próxima).
As palavras de Jesus foram de molde a embaraçar Nicodemos, que indaga: "como pode ser isso"? E
Jesus: "Tu que (entre nós dois) és o Mestre de Israel, te perturbas com estas coisas terrenas? Que te não
acontecerá, então, se te falar das coisas celestiais (espirituais)"?

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Logicamente Jesus não podia esperar que Nicodemos entendesse as outras interpretações mais profun-
das desse ensinamento (como dificilmente poderia ter querido ensinar o rito do batismo, que não havia
ainda sido instituído nem ordenado por ele, a essa época, quando só havia o "batismo" de João).
Depois exemplifica: "como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim o Filho do Homem será ergui-
do da Terra ".
Paulo interpreta assim esse ensinamento de Jesus: "Mas quando apareceu a bondade de Deus, nosso
Salvador, e o seu amor para com os homens, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segun-
do sua misericórdia nos salvou pelo lavatório da reencarnação, e pelo renascimento de um espírito
santo" (Tit.3:4-5). As palavras utilizadas são bastante claras e insofismáveis: lavatório (lavar com
água; λουτρον da reencarnação: παλιγγενεσια que é o termo técnico da reencarnação entre os gregos;
pelo renascimento (anaxinóseos) isto é, um novo nascimento). Paulo, pois, diz que Deus nos salvou
não porque o tivéssemos merecido, mas por Sua misericórdia, servindo-se da palingenésia (isto é, da
reencarnação) a qual é um "lavatório" (de água) e um "renascimento" do espírito.
Que o renascimento é feito através da água, já o diz o Genesis (cfr.1:1-2; 1:6-7 e 2:4-7).

4.ª Interpretação: SIMBÓLICA


Para compreendê-la, estudemos algumas palavras:
NICODEMOS - significa "vencedor" do povo” e exprime alguém que já venceu a inércia da massa
popular por seus conhecimentos das Escrituras, já se destacou do "vulgo profano” superando sua
natureza inferior.
DE NOITE - talvez signifique que Nicodemos procurou o Mestre em corpo astral (ou mental) durante
o sono físico. Nessa condição ser-Ihe-ia possível manter conversações mais íntimas. E João poderia
ter assistido a ela, pois algumas cenas dos Evangelhos foram assistidas nessa condição (por exemplo,
a "transfiguração": “Pedro e seus companheiros (Tiago e João) estavam oprimidos de sono, mas con-
servavam-se acordados", Luc.9:32).
Nesta interpretação, descobrimos um sentido diferente do diálogo literal entre os dois, o Rabbi e o
Doutor da Lei, o Mestre Espiritual e o Mestre Intelectual. Antes de qualquer pergunta, Jesus dá a fra-
se chave do novo ensinamento que vai ministrar: "é necessário nascer de novo para ver o Reino dos
céus" - Nicodemos entende que Jesus lhe fala da reencarnação, fato já conhecido por ele, pois, sendo
fariseu, aceitava normalmente a reencarnação, e não podia de modo algum estranhar o fato nem ig-
norar sua realidade.
Para confirmar esta assertiva, leia-se apenas esse trecho de Flávio Josefo: "Ensinam os fariseus que
as almas são imortais e que as almas dos justos passam, depois desta vida, a OUTROS CORPOS" ...
(Bell.Jud.2, 5, 11).
Como, pois, Nicodemos podia ignorar esta doutrina, a ponto de admirar-se tanto e fazer uma objeção
pueril? Compreendamos sua frase, quando pergunta a Jesus: "Como poderá (bastar) um homem re-
nascer depois de velho? Acaso poderá (bastar) que ele entre pela segunda vez no ventre materno,
para (só com isso) ver o reino dos céus"?
Jesus então reafirma sua tese, mas ampliando-a, elevando-a de nível tornando-a universal: Não é do
nascimento físico na matéria que ele fala. Não é do microcosmo: é do macrocosmo, de que falara em
Mateus (19:28): "Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando na reencarnação (palinge-
nesia) o Filho do Homem se assentar no trono de sua glória, sentar-vos-eis também em doze tronos,
para julgardes as doze tribos de Israel". Trata-se, aqui, da reencarnação ou renascimento do planeta.
Explica então: o que nasce da carne é carne, é matéria corruptível, mas a que nasce do "espírito" é o
Espírito eterno, que não necessitará mais da carne para progredir. Só nasce na carne o que está su-
jeito às leis do Carma (individual, grupal, coletivo ou planetário): esse ainda é carne, ainda terá que
nascer da água, porque está preso à baixa densidade. Mas o que nasce do espírito se liberta, ascende
a outros planos. O ensinamento foi desenvolvido por Paulo na Epístola 1 aos Coríntios, capítulo 15,

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versículos 35 a 54, quando compara o homem terreno (psíquico) simbolizado em Adão, coma alma
vivente (que vive), ao passo que o segundo Adão (Cristo) e portanto o Espírito, o Filho do Homem, é o
espírito vivificante (que dá vida). Passou, então, do estado humano ao espiritual, deixou de ser "nas-
cido de carne" para tornar-se "nascido de espírito"; e Paulo prossegue: "o primeiro é da Terra (nas-
cido de carne) o segundo é do céu (nascido do espírito)". E isto porque, prossegue ele, "a carne e o
sangue não podem herdar o Reino dos Céus". Jesus falara das "coisas terrenas" e Nicodemos não o
percebia bem. Como adiantar-se mais? Como explicar-lhe que o Espírito prossegue na evolução, até
chegar a ser “o resultado” do Homem, "o produto" da Humanidade, ou Filho do Homem (como já era
o caso de Jesus)? Ele fala do que "viu", porque estava no céu (no reino espiritual) e de lá "desceu”.
Os "apocalipses" ou "revelações" dos judeus narram histórias de santos varões que haviam subido a
mundos "mentais" conscientemente: esses homens eram denominados “serpentes”. Nesse sentido é
que Moisés "elevou a serpente" no deserto. De fato, a serpente simboliza a inteligência racional ou o
intelecto (veja episódio de Adão, quando conquistou o intelecto por meio da serpente), mas quando a
serpente é "elevada" verticalmente, significa a Mente Espiritual. Sua elevação se dá na "cruz da maté-
ria" (horizontal sobre vertical), e só depois de elevada na cruz, pode essa serpente conquistar o Reino
dos Céus. Todos os que acreditaram nele (que cumprirem seus ensinos) conseguirão a "vida futura",
isto é, a vida Espiritual Superior.
Então, para "vermos" ou vivermos o Reino dos Céus, o Reino Divino, temos que "nascer de novo"
como Filhos de Deus ("Tu és meu Filho, eu HOJE te gerei", Salmo 2:7).

5.ª Interpretação: MÍSTICA


Jesus, a individualidade, ensina ao homem "que venceu o povo" comum, isto é, à personalidade já
evoluída acima do normal, que para conseguir o Encontro Místico é mister "nascer do alto", no Espí-
rito. A personalidade é pura carne, é matéria, mas a individualidade é celeste, é espiritual.
Se renunciarmos ao nosso pequeno "eu", renasceremos "do alto" " viveremos no Reino Divino, não
mais no Reino Humano: seremos Filhos do Homem e, além disso, Filhos de Deus.
Nesse ponto, estaremos (embora crucificados na carne) unidos à Divindade, num Esponsalício místi-
co, perdidos em Deus, "como a gota no Oceano" (Bahá'u'lláh): seremos UM com o Todo, porque "eu
e o Pai somos um" (Jo. 10:30).
Para consegui-lo, é preciso ter sido "suspenso" na cruz, como a serpente de Moisés: é indispensável
passar por todas as crucificações da Terra, por todas as iniciações duras e difíceis, dando testemunho
da Fé em Cristo, ao VIVER seus ensinamentos.

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COMENTÁRIO DO EVANGELISTA
João,3:16-21
16. Deus teve, pois, tanta predileção pelo mundo, que deu seu Filho, o Unigênito, para
que todo o que nele crê, ao invés de perder-se, tenha a vida imanente.
17. Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mun-
do seja preservado por meio dele.
18. Quem nele crê não é julgado; o que não crê, já está julgado, porque não crê no nome
do unigênito Filho de Deus.
19. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do
que a luz, pois eram más suas obras,
20. porque todo o que faz coisas inferiores aborrece a luz, e não vem para a luz, para que
suas obras não sejam inculpadas;
21. mas aquele que faz a verdade, chega-se para a luz, para que sejam manifestadas suas
obras, porque foram feitas em Deus.

Neste ponto, o evangelista toma a palavra para comentar os ensinos de Jesus a Nicodemos .Os verbos
são empregados agora no passado, e suas primeiras palavras ουτως γαρ são as que geralmente iniciam
seus comentários pessoais (cfr.2:25; 4:8; 5:13, 20; 6:6, 33; 13:11).
Convida-nos João a buscar a razão íntima dos ensinamentos: o amor de Deus, que é universal, e não
apenas restrito aos elementos de uma determinada religião: Deus ama O MUNDO τον κοσµον .
Interessante observar o verbo utilizado no início do versículo. Em grego há três verbos que exprimem
"amar" : φιλειν , que é "amar de amizade, querer bem"; εραν , que significa "amar de amor, apaixonar-
se"; e αγαπειν que quer dizer "amar com preferência, ter predileção por". Neste trecho, é empregado
esse último: "ter predileção ou carinho especial pelo mundo".
Tanto assim, que (oração consecutiva) deu seu Filho, aquele Filho Unigênito que é a própria manifes-
tação divina nos universos ilimitados, o Cristo C6smco, para que "todo aquele que nele crê", e que
viva a sua vida, não se perca. mas obtenha uma vida divina IMANENTE na perfeita união.

VIDA "ETERNA" = VIDA IMANENTE

A tradução corrente das palavras gregas ξωη αιωνιος é "VIDA ETERNA".


No entanto, essa interpretação não nos parece correta. Senão vejamos.

1.º - Se esse fora o sentido: "quem crer nele terá a vida eterna, isto significaria que, quem não cresse
não teria a vida eterna, e portanto deveria ter seu "espírito" destruído, aniquilado (morte do espírito).
Mesmo se admitíssemos o "castigo eterno" (absurdo inconcebível), mesmo assim o espírito teria a
vida eterna, embora não crendo em Jesus. Então, que "promessa" seria essa, que vantagem traria o fato
de crer em Cristo?

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2.º - Poderia admitir-se que Jesus aceitava, com isso, a doutrina dos fariseus, tão bem esplanada por
Josefo (Ant.Jud. 18, 1, 3): "Os fariseus acreditam que possuem um vigor imortal e os virtuosos terão o
poder de ressuscitar e viver de novo"; e mais (Bell.Jud.2, 5, 11): "Ensinam os fariseus que as almas são
imortais; que as almas dos justos passam, depois desta vida, para outros corpos, e as dos maus sofrem
tormentos eternamente". Quando fala do suicídio, repete essa mesma teoria (Bell.Jud.2, 5, 14): "Os
corpos de todos os homens são, sem dúvida, mortais e feitos de matéria corruptível; mas a alma é sem-
pre imortal e é uma partícula de Deus, que habita em nossos corpos ... Recordam (os fariseus) que to-
dos os espíritos puros, quando partem desta vida, obtêm um lugar mais santo no céu, donde, no trans-
curso dos tempos, são novamente enviados em corpos puros; ao passo que as almas dos que comete-
ram sua auto-destruição, são condenadas à região tenebrosa do hades".
Realmente, em linhas gerais, os livros do Novo Testamento confirmam e reproduzem as crenças dos
fariseus. Mas não é só isso que está na promessa, pois isso seria obtido mesmo sem crer em Jesus, por
qualquer fariseu sincero.

A solenidade da repetição dessa promessa, feita 45 vezes em o Novo Testamento, sobretudo por João
(25 vezes) , por Paulo (9 vezes), por Lucas Ev. e At. (5 vezes), por Mateus (3 vezes), por Marcos (2
vezes) e por Judas (1 vez), parece exprimir algo mais profundo e de grande importância.

Tentemos compreender, pesquisando o sentido do adjetivo empregado, assim como do substantivo do


qual se originou.
O substantivo que exprime ETERNO, em grego, é άίδιος assim definido por Platão (Definições, 411a):
τό иατά πάντα Χρόνον иαί πρότερον όν иαί νύν µή έφθαρµένον ,ou seja, “o que é anterior, e através de
todo o tempo e agora, não podendo ser destruído".
Em outras palavras: "o que não tem princípio nem fim".
O advérbio άεί (sempre) também é colocado com a idéia de eternidade: ό άεί Χρόνος = o tempo eterno
(Platão, Fedon, 103e).
Outro substantivo αίών - que é correntemente traduzido como "eterno" - aparece assim definido por
Aristóteles: το τέλος τό πε ριέиον τόν τής έиάστου ζωής Χρόνον ... αίών έиάστου иέиλεται (Arist., Do
Céu, 1,9,15), isto é: “o período que abarca o tempo da vida de cada um, chama-se o "aiôn" dele (a
permanência na Terra).
Realmente, "aiôn" tem seu paralelo em latim aiuom (aevum) , que deu, em português, a palavra "evo".
Desse substantivo originou-se o adjetivo αίώνιος , ος , ογ a que o "Greek-English Lexicon" (Oxford)
dá os seguintes sentidos (jamais aparecendo "eterno", que realmente não tinha):

"I - uma vida, a vida de alguém (sentido mais comum nos poetas) cfr.Homero, Odisséia, 5:160; Ilíada, 5:685 e 24:725;
Herodoto, 1, 32; Ésquilo, Prometeu, 862; Eumênides, 315; Sófocles, Ajax, 645.
2. uma época, uma geração, cfr. Ésquilo, Tebas, 744: Demócrito, 295, 2 ; Platão, Axíolos, 370 c.
3. uma parte da vida, cfr. Eurípedes, Andrômaca, 1215.
II - 1. longo espaço de tempo, uma idade (lat. aevum) cfr. Menandro, Incert 7; usado especialmente com preposições
"pelas idades, pelas gerações" ; cfr. Hesiodo, Teogonia, 609; Ésquilo, Suplicantes, 582 e 574; Agamemnon, 554; Platão,
Timeu 37 d; Aristóteles, do Céu, 1.19.14; Licurgo, 155, 42; Filon, 2.608.
2. um espaço de tempo claramente definido e destacado, uma era, uma idade. período, o "mundo presente" em oposição ao
"mundo futuro"; cfr. Mateus, 13:22; Luc. 16:8. Nesse sentido também usado no plural cfr. Romanos, 1:25: Filipenses, 4:20;
Efésios, 3:9; 1 Coríntios 2:7 e 10:11. etc.".

Ora, "eterno" é filosoficamente, outra coisa; é o QUE ESTA FORA do tempo, como diz Aristóteles
(Física, 4.12, 221 b) : ώστε φανερόν ότι τά άεί όντα,ή άεί όντα, ούи έστιν έν Χρόνω:ού γάρ περιέΧεται

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ύπό Χρόνον, ούδε µετρείται τό εί-ναι αύτών ύπό τού Χρόνου: σηµείον δέ τούτου ότι ούδε πάσΧει
ούδεν ύπό τού Χρόνου ώς ούи όντα ένΧρόνω - que significa: "Vê-se, portanto, que os seres eternos,
enquanto seres eternos, não estão no tempo, porque o tempo não os envolve, nem mede a existência
deles; a prova é que o tempo não tem efeito sobre eles, porque eles não estão no tempo".
Quando se fala de "eterno" em grego, são as palavras que aparecem.
Mas há um trecho importante de Platão (Timeu, 37 e 38) em que sentimos bem a diferença entre αιδιος
e αιωνιος . Vamos citá-lo na íntegra e no original, para bem compreender-se o sentido, e para quc os
conhecedores controlem a veracidade do que afirmamos.

Ώς δέ иινηθέν αύτό иαί ζών ένόησεν τών άϊδίων θεών γεγο-νός άγαλµα ό γεννήσας πατήρ, ήγάσθη τε
иαί εύφρανθείς έτι δή µάλλον όµοιον πρός τό παράδειγµα έπενόησεν άπεργάσασθαι. Κα-θάπερ ούν
αύτό τυγχάνει ζώον άίδιον όν,иαί τόδε τό πάν ούτως είς δύναµιν έπεχείρξσε τοίούτον άποτελεϊν. Н µέν
ούν τού ζώ-ου φύσις έτύγχανεν ουσα αίώνιος, иαί τούτο µέν δή τώ γεννετώ παντελώς προσαπτειν ούи
ή δυνατονúείиώ δ’έπενόει иίνητόν τί να αίώνος ποιήσαι, иαί διαиοσµών άµα ούρανόν ποιεί µένοντος
αίώνος έν ένί иατ’διαиοσµών άµα ούρανόν ποιεί µένοντος αίώνος έν ένί иατ’άριθµόν ίούσαν αίώνιον
είиόνα, τούτον όν δή χρονον ώνοµάиαµεν. Нµέρας γάρ иαρ иαί νύиτας иαί µήνας иαί ένιαυτούς, ούи
όντας πρίν ουρανον γενέσθαι, τόδε άµα έиείνω συνισταµένω τήν γένεσιν αύτών µηχανάται-ταΰτα δέ
πάντα µέ-ρη χρόνου, иαί τό τ’ήν τό τ’έσται χρόνου γεγονότα είδη, & δή φέροντες λανθάνοµεν έπί τήν
άίδιον αύσίαν ούи όρθώς. Λέγοµεν γάρ δή ώς ήν έστιν τε иαί έσται , τή δέ τό έστιν µόνον иατά τόν
άγηθή λόγον προσήиει , τό δέ ήύ τό τ’έσται περί τήν έν χρόνω γένεσιν ίοϋσαν πρέπει λέγεσθαι-
иινήσεις γάρ έστον, τό δέ άέί иατά ταύτα έχον άиινήτως ούτε πρεσβύτερον ούτε νεώτε-ρον προσήиει
γίγνεσθαι διά χρόνου ούδε γενέσθαι ποτέ ούδέ γε γονέναι νϋν ούδ’ είς αύθις έσεσθαι , τό παράπαν τε
ούδέν όσα γε-νεσις τοϊς έν αίσθήσει φεροµένοις προσήψενάλλά χρόνου ταϋτα αίώνα µιµουµένου иαί
иατ’άριθµόν иυиλουµένου γέγονεν είδη-иαί πρός τούτοις έτι τά τοιάδε , τό τε γεγονός είναι γεγονός
иαί τό γιγνόµενον είναι γιγνόµενον , έτι τε τό γενεσοµενον εί-ναι γενεσοµενον иαί τό µή όν µή όν
είναι , ών ούδέν άиριβές λέγοµεν ... χρόνος δ’ ούν µετ’ ούρανοϋ γέγονεν , άµα ίνα γεννη-θέντες άµα
иαί λυθώσιν , άν ποτε λύσις τις αύτών γίγνηται , иαί иατά τό παράδειγµα τής διαιωνίας φύσεως , ίν’
ώς όµοιότατος , αύ τώ иατά δύναµιν ή τό µέν γάρ δή παράδειγµα πάντα αίώνά έσ-τιν όν , ό δ’ αύ διά
τέλους τόν άπαντα χρονον γεγονώς τε иαί ών иαί έσοµενος.

Eis a tradução literal, em que traduzimos αιωνιος por "permanente", para compreendermos bem as
diferenças. Platão explica, pela boca de Timeu, qual a diferença entre eternidade e tempo, e fala na
criação do tempo juntamente com o "céu", isto é, com a abóbada celeste. Esclarece que a eternidade é
estável, imóvel, permanente em realidade, ao passo que o tempo imita essa permanência. com uma
"permanência " relativa. Eis o texto:

“Quando então o Pai Genitor percebeu que este (mundo), que foi a jóia dos deuses eternos, se movia e
vivia, ficou admirado e, alegrando-se, concebeu elaborá-lo ainda mais semelhante ao modelo. E como
ele é um Vivente Eterno, e este é O TODO, empreendeu aperfeiçoá-lo dentro do possível. Sendo po-
rém permanente a natureza do Vivente, não seria possível em vista disso igualar totalmente a ela o que
teve princípio. Doutro lado, tinha feito uma imagem móvel do permanente e, organizando juntamente o
céu, faz uma imagem permanente ritmada segundo o número, de acordo com a permanência imutável
do UM, e isto é o que chamamos tempo.
Com efeito, não existindo os dias, as noites, os meses e os anos antes de ter sido produzido o céu, ele
os produziu então juntamente com a constituição do mesmo. Todas essas coisas, porém, são parte do
tempo, e o passado e o futuro são aspectos do tempo que evolui, e não percebemos que (falamos) im-
propriamente quando os aplicamos à essência eterna. Com efeito, dizemos que (ela) "era", "é" e "será";
mas uma única palavra verdadeiramente lhe convém: "é"; "era" e "será" só devem ser ditos a respeito
da evolução que se processa no tempo, porque são movimentos; o eterno, porém, sendo imutável, não

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cabe (ser) mais velho, nem mais moço, nem evoluir através do tempo, nem ter aparecido outrora, nem
ter acabado de aparecer agora, nem retroceder, nem (ter) qualquer qualidade que a evolução atribuiu às
coisas que são percebidas, porque estes são aspectos pertencentes ao tempo, que imita a permanência e
que gira segundo o número.
Além disso, estas outras expressões “o evoluído é (como se fora) mesmo evoluído", "o que evoluirá,
evoluirá mesmo”, “o não-ser é mesmo não-ser”, são expressões inexatas ... Então, o tempo evolui com
o céu, para que, tendo nascido juntos, juntos também sejam dissolvidos – caso um dia se dê a dissolu-
ção dos mesmos - e (o tempo foi feito) segundo o modelo da natureza permanente, para que seja o
mais semelhante possível a ela. Com efeito, o modelo é todo permanente, mas este (o tempo) é para
sempre um tempo inteiro de passado, presente e futuro".

Agora vejamos o emprego dessas palavras em o Novo Testamento.

I - O substantivo αιδιος só aparece duas vezes:

1) na Epístola de Paulo aos Romanos (1:20) "o Poder e a Divindade dele são eternos".
2) na Epístola de Judas (6-7), numa frase que é iniciada dizendo que Jesus salvou do Egito os israeli-
tas (logo, sentido simbólico), e prossegue: "prendeu os anjos nos cárceres eternos sob a treva; So-
doma e Gomorra suportando a justiça do fogo permanente".

II - O substantivo αιων aparece 120 vezes, empregado com os sentidos:

a) os séculos, isto é, uma época, um lapso de tempo (92 vezes);


Mat. 6:13; 21:19; Marc. 3:29; 11:14; Lc.1:33. 55, 70; Jo. 4:14; 8:35 (2x), 51; 52; 10:28; 11:26; 12:34;
13:8; 14:6; At. 3:21; 15:18; Rom. 1:25; ,9:5; 11:36; 16:27; 1 Cor. 2:7; 8:13; 10:11; 2 Cor. 9:9; 11:31;
Gál. 1:5; Ef. 2:7; 3:9, 11:21 (2x); Fil. 4:20 (2x); Col. 1:26; 1 Tim. 1:17 (3x); 2 Tim. 4:18 (2x); Heb.
1:2, 8 (2x); 5:6; 6:20; 7:17, 21, 24, 28; 11:13; 13:8, 21 (2x); 1 Pe. 1:25; 4:11 (2x); 5:11 (2x); 1 Jo.
2:17; 2 Jo. 2; Jud. 13, 25 (2x); Apoc. 1:6 (2x), 18 (2x); 4:9 (2x); 10 (2x); 5:13 (2x); 7:12 (2x); 10:6
(2x); 11:15 (2x); 14:11 (2x); 15:3, 7 (2x); 19:3 (2x); 20:10 (2x); 22:5 (2x).

b) o século, com o significado de “o mundo material” (em oposição ao mundo espiritual), ou com o
sentido de “uma geração” – 28 vezes:
Mat. 12:32; 13:22,39,40.49; 24:3; 21:20; Marc. 4:19; 10:30; Lc. 16:8; 18:30; 20:34,35; Rom. 12:2; 1
Cor. 1:20; 2:6 (2x), 8; 3:18; 2 Cor. 4:4; Ef. 1:21; 2:2; 1 Tim. 6:17; 2 Tim.- 4:20; Tit. 2:12; Heb. 6:5;
9:26; 1 Pe. 3:18.

III - o adjetivo αιωνιος é empregado, ao lado de vários substantivos, qualificando-os, em 72 lugares:

Uma única vez aparece com o sentido que pode ser interpretado como "eterno", usado por Paulo, em
Romanos (16:26) ao lado do substantivo "Deus" : Κατ’επιταγεν του αιωνιου θεου (segundo o preceito
do Deus sempiterno), em oposição ao que escreve na 2.ª Coríntios (4:4) : o θεος του αιωνιος τουτου "o
deus deste século", isto é, deste mundo.

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Eis os sentidos :

a) futuro, ou seja, no século ou na época vindoura, na vida seguinte, 19 vezes:


Mat. 18:8; 25:41; 25:46; Marc. 3:29; Luc. 16:9; Rom. 16:25; 2 Th.1:9; 2:16; 2 Tim. 2:10; Heb. 5:9;
6:2; 9:12, 14, 15; 13:20; 1 Pe. 5:10; 2 Pe.1:11; Jud. 7; Ap. 14:16.

b) permanente ou perene, no sentido de durar muito tempo, quase um século, 5 vezes:


2 Cor. 4:17, 18; 5:1; 1 Tim. 6:16; Film. 15.

c) os tempos atuais, ou seja, este século, 2 vezes:


2 Tim. 1:9; Tit. 1:2.

d) com o substantivo VIDA (cujo sentido estudaremos agora), 45 vezes:


Mat. 19:16,29; 25:46; Marc. 10:17,30; Lc. 10:25; 18:18.30; At. 13:46 48; Jo. 3:15, 16, 36; 4:14,36;
5:24,39; 6:27, 40,47, 51, 54. 58, 68; 10:28; 12:25, 50; 17:2, 3; Rom. 2:7; 5:21; 6:22, 23; Gál. 6:8; 1
Tim. 1:16; 6:12; Tit. 1:2; 3:7; 1 Jo. 1:2; 2:25; 3:15; 5:11, 13, 20; Jud. 21.

O sentido de ζωή αίώνιος é dado pelo próprio Jesus, no evangelho de João, que é o que emprega mais
vezes a expressão (25 vezes, contra 20 em todos os demais livros do novo Testamento). Lemos aí:
αύτη δέ έστιν ή αίώνιος ζωή , ϊνα γινώσиωσιν σέ , τόν µόνον άληθινόν θεόν , иαί όν άπέστειλας
‘Ιησοϋν χριστόν ou seja, "a vida IMANENTE é esta: 1) que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e
2) a quem enviaste, Jesus Cristo".
Por aí verificamos que a ζωήûαίώνιος NÃO É uma vida QUE DURA ETERNAMENTE (todas as vi-
das têm essa qualidade); não se refere à DURAÇÃO da vida, mas a uma QUALIDADE ESPECIFICA,
que reside no CONHECIMENTO DA VERDADE TEOLÓGICA. E, ao conhecer essa verdade, haverá
então a unificação total com o Cristo (cfr. Jo. 17:11,21,22), que dá a IMANÊNCIA perfeita, que re-
sultará na liberdade (cfr. Jo. 8:32) dos filhos de Deus (cfr. Rom. 8:21), que existe onde está o Espírito
do Cristo (cfr. 1 Cor. 10:29).
Paulo também explica qual a origem dessa VIDA IMANENTE, quando esclarece aos Romanos (6:23):
τά γάρ όψώνα τής άµαρ-τίας θάνατος , τό δέ χαρισµα τοϋ θεοϋ ζωή αίώνιος , έν χριστώ ‘Ιησοϋ τώ
иυρίω ήµών isto é, "o salário do erro é a morte, a recompensa de Deus é a VIDA PERMANENTE em
Cristo Jesus, o Senhor nosso".
Depois de tudo isso, podemos perceber a profundidade do sentido de "zoé aiónios".
É a VIDA PERMANENTE ou IMANENTE EM CRISTO. Em outros termos, é a união total do "eu"
pequeno com o EU profundo, do "espírito" personalístico, com o Espírito ou Individualidade. A crença
em Cristo, baseada no CONHECIMENTO e na CONVICÇÃO (fé), produzirá seus efeitos com a "ne-
gação da personalidade" (cfr.Mat.16:24), que fica absorvida pela individualidade, pelo Cristo, que
passa a "viver em nós" (cfr.Gál.2:20 e 2 Cor.13:5). É o MERGULHO na Divindade, na qual nos dis-
solvemos, e isso se realiza através do Cristo.
Pelo oposição dos termos, salienta-se o significado: o erro nos trouxe a condição de encarnados, su-
jeitos à morte, e por isso o "salário do erro é o a morte". Mas a recompensa de Deus é o tirar-nos,
quando nós o quisermos (por nosso esforço) , desse cativeiro, dando-nos a VIDA IMANENTE de uni-
ficação com o Cristo, não mais sujeita a reencarnações e à morte.

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Concluindo, pois, temos que "zoé aiónios":
a) não pode ser vida "eterna" (como duração), de que todos participam;
b) não pode ser vida "futura" (como reencarnação) porque todos os espíritos a vivem;
c) não pode ser a vida "espiritual" (do "espírito") porque todos a têm, na alegria ou na dor .
Então, resta que é uma vida diferente dessas todas.
Por isso, compreendemos que só pode ser a vida NO REINO DE DEUS ou no REINO DOS CÉUS,
que é a VIDA IMANENTE em Cristo.
Portanto, o melhor adjetivo para traduzir "aiónios", quando ao lado do substantivo VIDA, é IMANEN-
TE, embora essa tradução não se encontre nos dicionários de grego.
No entanto, o sentido cabe perfeitamente. O latim manere significa "ficar". Com o preverbo PER, dá
idéia de tempo ou duração; com o preverbo IN, exprime penetração, interiorização, união interna e
íntima, "dentro de". Os dois são, pois, um mesmo verbo: MANERE, formando dois compostos: PER-
manere e INmanere; e os sentidos também correspondem: a PERmanência é "ficar durante algum tem-
po" e a Imanência é "ficar dentro de", ou "penetrar em algo e lá permanecer".
Passemos ao versículo 17. Afirma o evangelista que Deus enviou seu Filho NÃO para julgar o mundo,
mas para encaminhá-lo na direção certa.
Parece, à primeira vista, haver contradição entre essa frase e o que se diz logo adiante (5:22): "o Pai a
ninguém julga, mas entregou todo julgamento ao Filho", acrescentando-se (5:27) : "Ele Lhe deu o po-
der de julgar, porque é Filho do Homem". Também em Mateus se descreve o Filho a julgar (25:31-46).
Entretanto, a contradição é mais aparente que real. Uma coisa é dizer que "o Filho julgará", ou "que o
julgamento Lhe foi entregue", e outra, totalmente diferente, é dizer que foi essa a CAUSA da descida
do Filho. Neste passo que comentamos, afirma-se que a RAZÃO de Sua vinda NÃO FOI o julgamento
da humanidade (embora isto Lhe tenha sido colocado nas mãos), mas a missão de tirar a humanidade
do caminho errado ( αφεσις αµαρτιων ) para orientá-la pelo caminho certo ( σω-ζειν ), isto é, para "pre-
servá-la" ou "salvá-la".
O sentido dos versículos seguintes (18-21) é bastante claro na sua interpretação literal, não carecendo
de comentários.
Nesse trecho verificamos que mais clara se torna a linguagem mística de João.
O mundo - expresso pela palavra "cosmo (que significa "ordem" ou "harmonia do universo" ) - é a
manifestação visível do Cristo Cósmico, ou seja, do "Filho Unigênito". Portanto, a própria exteriori-
zação do Cosmo é, já de per si, uma doação que o Pai faz de seu "FILHO UNIGÊNITO".
Recordemos. Já falamos que Deus é O ESPÍRITO (João, 4:24), isto é, O AMOR, o qual, ao expandir-
se e manifestar-se, assume a atitude de PAI, ou VERBO (Logos, Palavra) isto é, O AMANTE, e que o
resultado de sua manifestação ou exteriorização é O FILHO, que é o Universo em sua totalidade ab-
soluta, e que, portanto, é realmente UNIGÊNITO, ou seja, o AMADO.
Por tudo isso, vemos que o CRISTO (CÓSMICO) é o FILHO UNIGÊNITO que está dentro de todos
(sendo então chamado CRISTO INTERNO ou mônada divina).
Ora, todos aqueles espíritos que, por sua evolução, chegam a compreender, a buscar e a conseguir a
Consciência Cósmica (ou consciência do Cristo Cósmico) também denominada União com o Cristo
Interno - porque acreditaram nas palavras do Manifestante divino esses conseguirão a VIDA IMA-
NENTE, a vida UNA com a Divindade que está em todos e em tudo, vida que flui internamente de
dentro deles como fonte de água viva (cfr.João, 4:14). Esses não mais "se perderão" na ilusão da ma-
téria "satânica" ou opositora, a ela regressando constantemente vida após vida, mas empreenderão o
caminho libertador da evolução sem fim.
E Jesus, o maior Manifestante da Divindade entre as criaturas terrenas - a quem Bahá'u'lláh denomi-
na "Sua Santidade o Espírito" não veio para julgar os homens: apontou o caminho com Suas palavras

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SABEDORIA DO EVANGELHO

e, muito mais, com Seus exemplos. Mas deixou as criaturas livres para escolher a estrada longa ou
curta, larga ou estreita. A finalidade de Sua encarnação foi, apenas, conservar ou preservar o mundo,
dando-lhe Seus exemplos, ensinando-lhe Sua doutrina, e derramando sobre o globo terrestre o Seu
sangue vivificador.
No entanto, aqueles que não crêem e se apegam à matéria (ao opositor ou satanás) já se julgam a si
mesmos por sua própria atitude; ao renegar o Espírito ("mas aquele que se rebelar contra o Espírito,
o Santo, não será libertado nem neste século (aiõni) nem no futuro", Mat.12:33, cfr.Mr.3:29 e
Luc.12:10) renunciam espontaneamente à evolução e, nem nesta encarnação nem na próxima, pode-
rão ser libertados do carma. Com efeito, a base ou o barema do julgamento é que a Luz Cristônica
baixou até o mundo na Manifestação de Jesus; mas os homens preferiram as trevas à Luz. E justifica-
se a preferência: suas obras (de separatismo, sectarismo, divisão, concorrência, egoísmo, ambição
material, ódios, etc.) são más, ou seja, não sintonizam com o Amor que é Deus. Já aqueles que agem e
vivem a Verdade, se aproximam vibracionalmente da Luz e deixam que suas obras se manifestem,
porque, sendo realizadas em união total com o Amor (com Deus), são obras boas.
Mas, por que diz "crer NO NOME do Unigênito Filho de Deus" (vers.18) ? O nome é a identificação
da essência que se manifesta. Trata-se, portanto, de crer na manifestação do Filho de Deus, que é a
Força Crística exteriorizada nos Universos (cfr."seja santificado o Teu Nome", Mat.6:9) a ela unindo-
se a criatura através da "infinitização" própria, realizando a "consciência cósmica". O "nome" expri-
me, pois, a realidade mesma do Cristo divino que está em nós.

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C. TORRES PASTORINO

JESUS MERGULHA
João, 3:22-24
22. Depois disto, foi Jesus com seus discípulos para a terra da Judéia, e ali se demorava
com eles e mergulhava.
23. João também estava mergulhando em Enon, perto de Salim, porque ali havia muitas
águas, e (o povo) ia e era mergulhado,
24. pois João não tinha sido ainda lançado ao cárcere.

Ao sair de Jerusalém, após as festas da Páscoa, Jesus permanece nas cercanias com seus discípulos,
exercendo o mesmo ministério que João, que se havia retirado para Enon, perto de Salim, oito milhas
ao sul de Citópolis, na Samaria. Nesse local, havia várias fontes, e João não tinha sido encarcerado.
Parece que esta observação é feita no intuito de salientar que o ministério público de Jesus começou
antes da prisão do Batista, já que, pelos sinópticos, que silenciam sobre esse período, pareceria que
Jesus só operara publicamente depois desse fato (cfr.Mat.4:12 e Mr.1:14).
Por enquanto, o texto não esclarece. Mas no cap. 4, vers. 2, está dito que Jesus não mergulhava "pesso-
almente", mas apenas os discípulos o faziam.

Depois da manifestação na Cidade da Paz, permanece a individualidade no "Louvor a Deus", apro-


veitando-se das circunstâncias para exercitar seus discípulos (as personalidades ainda incompletas),
no ministério material de ritos, que as ajudassem a desvencilhar-se dos defeitos inerentes à separati-
vidade. Tinham assim oportunidade de entrar em contato com a massa e, de tanto repetir a necessida-
de da reforma mental e da purificação, essas palavras, proferidas para os outros, iriam penetrando
por endosmose no próprio subconsciente, preparando-os, na mentalização positiva, para a libertação
dos defeitos seculares. Em sua evolução, o "espírito" necessita passar pelos diversos degraus da exer-
citação, porque "a natureza não dá saltos". Daí ser indispensável, até hoje, que haja diversas agremi-
ações religiosas, para que sejam atendidas todas as criaturas, nos mais diversos graus de evolução.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

ÚLTIMO TESTEMUNHO DE JOÃO


João.3:25-36
25. Ora, levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, acerca da pu-
rificação.
26. E foram ter com João e disseram-lhe: "Rabbi, aquele que estava contigo além do
Jordão, de quem deste testemunho, eis que ali está a mergulhar, e todos vão a ele".
27. Respondeu João: "O homem não pode receber coisa alguma, se do céu não lhe for
dada.
28. Vós mesmos me sois testemunhas de que eu disse: Eu não sou o Cristo, mas sou envi-
ado diante dele.
29. O que tem a esposa é o esposo; mas o amigo do esposo, que está presente e o ouve,
muito se regozija por causa da voz do esposo. Pois este meu gozo está completo:
30. é necessário que ele cresça e que eu diminua".
31. O que vem de cima, está sobre todos; o que vem da Terra, é da Terra; o que vem do
céu, está sobre todos.
32. O que ele viu e ouviu, disso dá testemunho, e ninguém recebe seu testemunho.
33. O que recebeu seu testemunho, esse confirmou que Deus é verdadeiro.
34. Porque aquele que Deus enviou, fala as palavras de Deus, já que Deus não dá o Espí-
rito sob medida.
35. O Pai ama o Filho e tudo pôs em sua mão.
36. O que crê no Filho tem a vida imanente; o que porém desobedece ao Filho, não verá a
vida, mas sobre ele permanece o acicate de Deus.

Dessa atuação de Jesus, nasce uma disputa de ciúmes entre os discípulos de João e "um judeu". O as-
sunto era a purificação, rito que os fariseus tanto prezavam, e de que salientavam a parte material, ao
passo que Jesus sublinhava o lado espiritual. Os discípulos de João repararam na ascendência cada vez
maior de Jesus sobre o povo, em prejuízo de João. E vão "fazer queixa" a seu rabbi. Embora reconhe-
cessem que "Jesus estivera com João além do Jordão" (1:28) e que o Batista "dera testemunho em fa-
vor dele" (1:32), no entanto a causa do ciúme se manifesta contra toda a lógica: "ele está a mergulhar e
todo o mundo vai a ele" ... A expectativa era de suscitar um protesto enraivecido de João, pela "concor-
rência desleal" ...
Como é HUMANA essa cena, em todas as épocas! ...
A resposta do Batista é magnífica de humildade e consciência de seu papel na História, e encerra em si
preciosa lição de espiritualidade: "nada pode receber o homem, se do céu não lhe vier". Nada. Seja
"bem" ou "mal", julgue-se "pobreza" ou "riqueza", atribua-lhe o nome de "poder" ou "escravidão",
tudo vem do céu, embora possa parecer "justo" ou "injusto". Quem é capaz de JULGAR? Não pode-
mos fazê-lo. O que nos parece bom pode ser mau e vice-versa. Nem julgar os outros, nem julgar-nos a
nós mesmos. Incompetência total, por falta de dados: não penetramos o íntimo de ninguém, nem mes-
mo o nosso. Então, aprendamos a receber tudo com humildade.
Depois o Batista evoca o testemunho de seus discípulos, de que ele já antes declarara não ser o Cristo,
mas apenas um enviado diante dele. Quem tenha consciência da Espiritualidade Superior, jamais se

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C. TORRES PASTORINO
fará passar por quem não é. Embora pululem hoje, como sempre pulularam, os "missionários" divinos
e os "mestres", todos se apresentam em seu próprio nome, assumindo, de modo geral, uma atitude
muito superior à realidade, ou até mesmo forjando situações para engrandecer sua vaidade. O Batista
ensinou com o exemplo, como agir certo: nada de arrogar-se prerrogativas imaginárias, frutos de so-
nhos vaidosos.
Apresenta, depois, uma alegoria bastante elucidativa: num casamento, é o noivo que possuirá a esposa.
No entanto, o amigo do noivo alegra-se ao sentir-lhe a alegria, de que ele participa integralmente. João
é o amigo, que está radiante com a vitória de Jesus; e não o concorrente que se entristece por ficar
"para trás". Essa alegria atinge o grau máximo, pois é mesmo necessário que Ele (Jesus) cresça aos
olhos do povo, e que ele (o Batista) se vá afastando aos poucos; tal como a Estrela d'Alva, que anuncia
o Sol e que depois empalidece e morre, para deixar que o Astro-Rei envolva e fecunde a Terra com seu
esplendor.
---x---x---x---
O evangelista assume, então, a palavra e tece novos comentários, comparando Jesus com o Precursor:
o que vem de cima (Filho do Homem) com o que vem da Terra (Filho da Mulher); o Homem Liberto
das encarnações (samsara, na Índia, e ghilgul, na Palestina), com o que ainda está preso à roda fatídica
do mergulho intermitente no ventre da mulher. O que não exclui que este último possa encontrar-se já
no último degrau, pronto a passar para o outro nível, como era o caso de João Batista ("entre os Filhos
de Mulher, ninguém é maior que João Batista", Mat.11:11 e Luc.7:28).
E em sendo assim evoluído, sabe perfeitamente o que se passa no mundo superior, onde permanece
nos intervalos de suas descidas à Terra, porque se conserva desperto e consciente, provavelmente já no
Plano Mental. E com isso consegue, ao reencarnar, recordar-se perfeitamente de tudo (prova-o, no caso
do Batista, a alegria que teve ainda prisioneiro no ventre de Isabel, ao reencontrar Jesus, cfr.Luc.1:41 e
44). Por isso, pode o evangelista dizer com segurança: "dá testemunho DO QUE VIU E OUVIU". O
Batista viu e ouviu, e veio trazer seu testemunho de que Jesus vem "de cima" ou seja "do céu", das
regiões mais elevadas do Espírito; mas, diz ainda, "ninguém recebe o testemunho de João", que afirma
ser Jesus o Manifestante Divino do Filho Unigênito de Deus.
Mas, aqueles que recebem o testemunho, confirmam que Deus é verdadeiro (o adjetivo αληθης é a
forma negativa do substantivo ληθης que significa "esquecimento", donde "não oculto", ou seja "since-
ro").
Passa a falar de Jesus: o Enviado (ou Manifestante), cujas palavras são as próprias palavras do Deus
Interno, que Ele exterioriza através dos puríssimos canais de Sua humildade e de Seu amor. Isto por-
que, quando o Espírito está UNO com Deus, não há medida de restrição: "não dá o Espírito sob medi-
da". O Pai (o AMANTE) ama o Filho (o AMADO) e tudo colocou em Suas mãos. É aí que se declara a
razão do livre-arbítrio que foi outorgado aos Filhos de Deus, e que tanto é respeitado pela Divindade
que em nós reside: cada um conseguirá sua evolução na proporção de sua livre e espontânea vontade,
com a duração maior ou menor, segundo seu alvédrio.
E é por isso que aquele que crê, que se unifica ao Filho (ao Cristo Interno) possui a VIDA IMANEN-
TE; mas quem lhe desobedece, preferindo a matéria, esse não participará da vida espiritual, mas sentirá
sempre sobre si o acicate de Deus.
Acicate é o aguilhão que faz os bois morosos caminharem mais rápido. Acicate, pois, moralmente, é a
insatisfação que vem de nosso íntimo onde reside Deus, e que nos impele a evoluir bom ou mau grado:
se o quisermos, tudo bem; se o não quisermos, o embate contra a Lei causar-nos-á dores e sofrimentos
atrozes, que acabarão por fazer-nos encontrar o caminho certo.
A palavra οργη nas traduções comuns é interpretada absurdamente como "ira de Deus", atribuindo à
Divindade um dos mais tristes vícios do homem atrasado. Ora, esse substantivo grego exprime literal-
mente "uma agitação interior que expande a alma". Daí se originou o termo "orgasmo" . É exatamente
a insatisfação que nos serve de acicate para a conquista das coisas que nos satisfaçam. Essa agitação
provém do âmago do coração, ou seja, do Cristo Interno que lá reside, e que nos não deixa parar no

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SABEDORIA DO EVANGELHO

marasmo da inação, mas impele-nos a buscar satisfações. O homem, enganado pelas aparências, pro-
cura-as nas riquezas, na fama, na glória, no intelectualismo, nos ritos religiosos, ou seja, em tudo o que
pertence à personalidade. Por toda a parte o vazio, e, portanto, a dor. Até que, cansado de sofrer, desi-
ludido das aparências, o homem crê, finalmente, nas palavras do Cristo Interno, e então se aproxima da
Luz e conquista, enfim, a VIDA IMANENTE.
Precioso esse testemunho de João, pelo qual, mais uma vez, vemos confirmado - como muitas vezes
ainda o veremos na continuação nosso ponto de vista a respeito do sentido oculto dos Evangelhos, e
sobretudo o de João: a interpretação simbólica e mística que vimos fazendo, é, realmente, o ensina-
mento profundo de toda a vida do Mestre Inefável, que nos veio revelar o Caminho único para a Ver-
dade e para a Vida (cfr.João, 14:6), isto é, para o Deus Interno, que nos "chama com gemidos inenar-
ráveis" (Rom.8:26). Nestes últimos comentários seus, o evangelista é bastante explícito, usando, evi-
dentemente, a linguagem de sua época, mas deixando entrever a realidade. Infelizmente poucos foram
os que o tinham compreendido, e esses mesmos não o revelaram senão em meias-palavras. Agora,
porém, cremos que já é tempo de "dizer de cima dos telhados, tudo o que nos foi revelado aos ouvi-
dos" (Mat.10:27 e Luc.12:3).
E todos aqueles que tiverem alcançado certos graus de evolução, perceberão por si mesmos - pela
ressonância que estes comentários despertarem em seus corações - que sem sombra de dúvida há um
ensinamento mais profundo ("em Espírito de Verdade", Jo.4:23-24), oculto sob o véu da letra e sob as
aparências dos fatos e dos nomes, e que será percebido por "aqueles que tem olhos de ver, ouvidos de
ouvir e coração para entender" (cfr.Mr.7:17-18, João, 12:40, e Isaías, 6:10).

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C. TORRES PASTORINO

PRISÃO DE JOÃO

Mat. 14:3-5 Mr. 6:17-20 Luc. 3:19-20

3. Herodes, pois, prendera 17. Porque o próprio Herodes 19. Mas Herodes, o tetrarca,
João, o algemara e pusera mandara prender João e sendo repreendido por ele
no cárcere, por causa de acorrentá-lo no cárcere, por por causa de Herodíades, a
Herodíades, mulher de seu causa de Herodíades, mu- mulher de seu irmão, e por
irmão Filipe. lher de seu irmão Filipe todas as maldades que He-
(pois Herodes se casara com rodes fazia.
4. Porque João lhe havia dito:
ela),
"Não te é lícito tê-la". 20. acrescentou ainda sobre
18. porque João lhe dizia: todas a de fazer encerrar a
5. E embora Herodes quisesse
"Não te é lícito ter a mulher João no cárcere.
matá-lo, temia o povo, por-
de teu irmão".
que este o tinha como profe-
ta. 19. E Herodíades o odiava e
queria matá-lo, mas não
podia,
20. porque Herodes temia
João, sabendo que era ho-
mem justo e santo, e o pro-
tegia; e, ao ouvi-lo, ficava
muito admirado e o escuta-
va com satisfação.

Os três evangelistas relatam-nos a causa principal da prisão do Batista. Revivamos abreviadamente a


história, para melhor compreensão.
Herodes o grande, por sua morte, dera a Judéia a Arquelau, com o título de etnarca; e legara com o
título de tetrarca a Galiléia a Herodes Antipas e a Traconítide a Filipe. Mas o velho Herodes tivera, da
segunda esposa de nome Mariana, um filho, Herodes-Filipe, a quem nada coubera. No entanto, a este é
que inicialmente Herodes destinara sua sucessão no trono; e para que o governo ficasse em família, o
velho Herodes dera sua própria neta Herodíades (então com 3 ou 4 anos), como esposa a Herodes-
Filipe, tio dela, pois Herodíades era filha do irmão dele, Aristóbulo, que Herodes o grande tivera com a
primeira esposa de nome Mariana. Mais tarde, porém, mandou matar esta primeira esposa e seu filho
Aristóbulo. Firmemos, então, que Filipe, marido de Herodíades, nada tinha que ver com Filipe tetrarca
de Traconítide.
Herodes Antipas, bom político, para garantir-se o apoio de Aretas IV, rei árabe dos Nabateus, despo-
sou a filha deste.
Bem mais tarde, Herodes Antipas fez uma viagem a Roma, durante a qual visitou seu irmão Herodes-
Filipe, o deserdado, que vivia como simples cidadão fora da Palestina. Aí conheceu sua cunhada Hero-
díades, já então com cerca de 35 anos, e surgiu violenta paixão entre ambos. Ficou estabelecido que,
ao regressar de Roma, após reassumir o governo da Galiléia, Herodíades iria a seu encontro, para vive-
rem juntos, ocasião em que Antipas repudiaria sua mulher, a filha de Aretas. Esta, porém, veio a saber
do que se tramava e, para evitar a humilhação do repúdio, escapou para Maquérus e daí para a casa do

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SABEDORIA DO EVANGELHO

pai. Aretas jurou vingar a honra da filha e, após algumas escaramuças, fez guerra aberta contra Anti-
pas.
Por seu lado, sua união com Herodíades, sua sobrinha e cunhada, causou escândalo entre os judeus,
por constituir adultério (Êx.20:14 e Lev.18:20 e 20:10) além de incesto (Lev.18:15). Ao chegar, Hero-
díades levava consigo sua filha que se chamava Salomé (Josefo, Ant. Jud.18.5.2). Tudo acabou com a
fragorosa derrota de Antipas, diante do exército de Aretas, no ano 36.
Esclarecidos os fatos, voltemos ao texto. Herodes Antipas, aborrecido com a advertência do Batista a
respeito do escândalo que vinha de cima, prendeu-o e encarcerou-o algemado.
Josefo (loco citato) atribui a prisão de João a motivo político: a pregação do Batista podia levantar uma
sedição dos israelitas, para derrubá-lo do trono. As razões alegadas por Josefo confirmam o que dizem
os evangelistas, e completam as razões da violência do tratamento aplicado a João.
Para livrar-se de quem o preocupava, o mais fácil seria fazê-lo morrer. Entretanto, essa violência pode-
ria piorar a situação, pois o povo admirava o Batista como profeta no melhor sentido da palavra, por-
que este nada temia e invetivara o soberano (pelo que refere Marcos) pessoalmente, "de cara". Não se
sabe se, por acaso, Herodes foi imprudentemente a ele, ou se João se colocou no caminho por onde
passaria o tetrarca.
Marcos acrescenta ainda que Herodíades o odiava: não ficara, pois, satisfeita com a simples prisão do
Batista: queria sua morte. E esse tipo de mulheres não perdoa: tudo faz para conseguir seus desejos
insaciáveis. Todavia, Herodes queria Evitar a morte de João e procurava protegê-lo, levando-o prisio-
neiro para onde quer que fosse, como preciosa carga sempre sob suas vistas. Aproveitando-se da pro-
ximidade, ouvia-o "com satisfação, ficando impressionado" com as palavras do precursor.

FIGURA “Prisão de João”

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C. TORRES PASTORINO
O original, na maioria dos manuscritos, traz a palavra "epoiei", isto é, fazia muitas coisas (A, C, D, N,
delta, sigma, pi, phi e as versões: vulgata, siríaca, armênia, etc). Mas os principais tem "eporei", ou
seja, ficava impressionado, o que condiz com a sequência da narrativa.
Lucas anota que essa, de prender o Batista, foi mais uma maldade que Herodes acrescentou às numero-
sas outras anteriores.

A animalidade ainda vigente nas criaturas não mede as conseqüências de seus atos: para satisfação
de seus apetites, tudo sacrifica. E, embora admirando o intelecto iluminado pelas verdades que lhe
chegam, prefere aprisioná-lo para poder agir livremente. Conhecem o caminho, mas escolhem atalhos
excusos, "isolando" sua própria compreensão, prontos a destruí-lo para que o não atrapalhe. Ainda
hoje é assim: a criatura vai à igreja, ao templo, ao centro, ouve as verdades, faz profissão de fé, toma
resolução de aprimorar-se, mas. . . ao chegar a ocasião que lhe atiça os sentidos, "esmaga" o que
aprendeu e dá largas aos instintos.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

JESUS SAÍDA JUDÉIA

Mat. 4:12 Mart.1:14 João, 4:1-3

12. Jesus, ao ouvir que João 14. Depois de João ser preso, 1. Quando, pois, o Senhor sou-
fora preso, partiu para a Jesus foi para a Galiléia. be que os fariseus tinham
Galiléia. ouvido dizer que ele, Jesus,
fazia e mergulhava m a i s
discípulos que João,
2. (embora Jesus mesmo não
batizasse, mas sim seus dis-
cípulos),
3. deixou a Judéia e foi de novo
para a Galiléia.

Os dois sinópticos assinalam a partida de Jesus da Judéia dando, como motivo (Mateus) ou como refe-
rência de tempo (Marcos) a prisão do Batista.
João é mais minucioso. Dá-nos também outras razões. Jesus veio a saber que os fariseus começavam a
impressionar-se com o fato de que ia mais gente a Jesus, do que fora a João, para ser mergulhada. O
evangelista frisa que, pessoalmente, Jesus não mergulhava, mas apenas seus discípulos. Tendo conhe-
cimento do inquérito que os fariseus haviam realizado contra João, quis evitar o mesmo aborrecimento
e resolveu abandonar a Judéia, refugiando-se na Galiléia onde não corria perigo, por estar longe das
autoridades.

À primeira vista parece estranha a atitude de Jesus, que, ao saber da prisão de seu amigo e primo
João, ao invés de ir confortá-lo, solidarizando-se com sua desgraça, se limitou a escapar do teatro da
luta. Atitude que jamais se esperaria de um Mestre! Mas, penetrando o sentido simbólico, compreen-
demos a lição: quando, no terreno das exterioridades religiosas (Judéia), "prendem" a personalidade
(João Batista), a individualidade se retira para o Jardim fechado (Galiléia), onde poderá agir à von-
tade, sem nenhuma pressão externa: não há autoridade civil, nem militar, nem religiosa, que possa
penetrar no coração e no pensamento. Mesmo na expressão de João, é útil a nós, quando começam a
falar muito de nós ou de nossos trabalhos, uma pequena reclusão, para nos não deixarmos envolver
pelo "mundo".
Anotemos, porém, o esclarecimento de João: não era Jesus que mergulhava pessoalmente, pois a indi-
vidualidade jamais se imiscui nos problemas da exterioridade. Muita coisa temos que deixar para os
que ainda estão envolvidos pelas características da personalidade. E não devemos combatê-los: Jesus
deixou que seus discípulos mergulhassem o povo. Cada nível com suas necessidades e sua atuação, de
acordo com sua sintonia vibratória.

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A SAMARITANA
João, 4:4-26
4. Jesus precisava atravessar a samaria.
5. Chegou, pois, a uma cidade da samaria, chamada sícar, perto das terras que Jacó
dera a seu filho José.
6. Era ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, estava Jesus assim sentado ao pé da fon-
te; era cerca da hora sexta.
7. Uma mulher da Samaria veio tirar água. Disse-lhe Jesus: "dá-me de beber".
8. Pois seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos.
9. Disse-lhe então a mulher samaritana: "Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim,
que sou mulher samaritana"? (porque os judeus não se comunicam com os samarita-
nos).
10. Respondeu-lhe Jesus: "Se souberas o dom de Deus e quem é Aquele que te diz "dá-
me de beber", tu lhe terias pedido, e ele te daria a água viva".
11. Disse-lhe a mulher: "Senhor, não tens com que a tirar, e o poço é fundo; donde, pois,
tens essa água viva?
12. És tu, porventura, maior que nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual bebeu ele,
seus filhos e seu gado"?
13. Replicou-lhe Jesus: "Todo o que bebe desta água, tornará a ter sede.
14. Mas quem beber da água que eu lhe der, não terá mais sede no futuro; mas a água
que eu lhe der, se tornará nele uma fonte de água que mana para a vida imanente".
15. Disse-lhe a mulher: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede,
nem venha aqui tirá-la".
16. Disse-lhe ele: "Vai, chama teu marido e vem cá".
17. Respondeu a mulher: "Não tenho marido". Replicou-lhe Jesus: "Disseste bem que
não tens marido.
18. Porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido: isso disseste com
verdade".
19. Disse-lhe a mulher: "Senhor, vejo que és profeta.
20. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugar onde se
deve adorar".
21. Disse-lhe Jesus: "Mulher, acredita-me, vem a hora em que nem neste monte, nem em
Jerusalém adorareis o Pai.
22. Vós adorais o que não sabeis, nós adoramos o que sabemos, pois a salvação é dos ju-
deus.
23. Mas vem a hora - e é agora - em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em
verdadeiro espírito; porque são esses que o Pai procura para seus adoradores.
24. Deus é o Espírito; e os que o adoram, precisam adorá-lo em verdadeiro espírito".
25. Respondeu a mulher: "Eu sei que vem o Messias (que se chama o Cristo); quando ele
vier, anunciar-nos-á todas as coisas".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

26. Disse-lhe Jesus: "Sou eu: o que fala contigo".

FIGURA “A Samaritana”

O itinerário de Jesus, ao regressar da Judéia para a Galiléia, foi diferente da estrada comum. Estaria
coinscientemente escapando a algum cerco?
Vindo do vale do Jordão, para chegar a Samaria, teve que penetrar nos "ouadis" Aqrabeth ou Beit-
Dedjan, caminho muito mais árduo, porque O obrigava a penosa subida por senda pedregosa (e de
pedras pontudas), até atingir a planície de Mahné, onde se situava Sicar (que não deve confundir-se

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C. TORRES PASTORINO
com Siquém, tantas vezes visitada pelos patriarcas, cfr.Gên.12:6; 33:18 etc .). Realmente o encontro
não se deu em Siquém, cidade abundante de água, mas em Sicar (hoje el-Akar). Já o “Peregrino de
Bordeaux", no ano 333, distinguia as duas localidades (cfr.A. Neubauer, "Geógraphie du Talmud",
Paris, 1868, pág.169-171).
O poço de Jacó ficava a menos de cinco minutos ao sul da cidadezinha, ainda habitada na época de
Jesus. Esse poço captava uma fonte subterrânea; daí empregar o evangelista, indiferentemente, ora
"phéar" (poço), "pégê" (fonte).
Quando Jesus chegou ao pé da fonte, estava cansado (kekopiakôs) da íngreme ladeira que galgara, e
sentou-se (literalmente "deixou-se cair” (ekathedzeto) com toda sencerimônia, sobre a borda do poço
ou ao lado dele.
João não deixa de anotar (sempre os números!) a hora: era a hora "sexta", ou seja, cerca do meio-dia.
Bom lugar para um repouso, a essa hora escaldante. Enquanto o Mestre repousava, seus discípulos vão
pouco além, à cidade, para buscar alimentos.
Nesse interim, aproxima-se uma mulher da região da Samaria, hoje denominada Sebastieh, "samarita-
na". Não vinha da cidade de que ficava a 12 kms de Sicar.
Comum era o hábito de buscar água em ânforas, nos poços. O poço de Jacob mede 39 metros de pro-
fundidade, e só quem possua uma corda bastante longa poderá haurir água. Ora, os viajantes não cos-
tumam carregar tais apetrechos, pois ninguém recusa uma pouca d’água a um peregrino sedento.
Jesus solicita esse obséquio da samaritana. Acontece que, entre samaritanos e judeus havia animosida-
de de longa data, recrudescida após o cativeiro, quando os companheiros de Zorobabel recusaram que
os samaritanos colaborassem na restauração do templo (Esdras.4:1-5). Mais tarde, o sacerdote Manas-
sés, expulso de Jerusalém, estabeleceu um templo no monte Garizim, servido por clero regular, rivali-
zando com Jerusalém (Ant.Jud.11.7,2) o que fez mais tensas as relações. Os judeus equiparavam os
samaritanos aos "filisteus", a tal ponto que o Eclesiástico (50:27-28) diz: "há duas nações que minha
alma detesta, e a terceira nem é uma nação: os que moram na montanha de Seir, os filisteus e o povo
insensato que habita Siquém". Os samaritanos de seu lado não poupavam os judeus (Josefo, Ant.
Jud.8.2, 2 e 20, 6, 1).
Tudo justifica, pois, a surpresa da samaritana, ao ouvir que Jesus falava com ela. Que era um galileu,
manifestava-o seu sotaque (cfr.Mat.26:73) e as borlas de seu manto (cfr.9:20 e Mr. 6:56). Embora sem
recusar a água, faz-lhe sentir sua estranheza.
Jesus, que nela viu um espírito de escol, capaz de penetrar os "mistérios do Reino", aproveita a cir-
cunstância para esclarecê-la; e de tal modo a impressiona, que sua evolução daí por diante se fez quase
vertical, pois quinze séculos após ela se chamaria Teresa de Ávila, a única mulher que recebeu, da
igreja católica. o título de "doutora da igreja", a "doutora seráfica", uma das maiores místicas que hon-
raram e dignificaram a raça humana no ocidente.
Começa o Rabbi dizendo “se souberas ( ει ηδεις , condição não realizada no presente) o dom de Deus,
tu Lhe pedirias de beber, e Ele te daria a água viva". Evidente tratar-se de um simbolismo, notável so-
bretudo numa região pobre de água. A samaritana, porém, não percebe o simbolismo (tal como ocorre-
ra com Nicodemos) e interpreta ao pé da letra, embora lhe tenha dado, agora, o titulo de Senhor, reco-
nhecendo-Lhe a superioridade incontestável.
Ao verificar que não era compreendido, Jesus volta à prática pedindo que ela chame seu marido, ao
que ela confessa não tê-lo. Jesus confirma-o, declarando que já tivera cinco, e que o atual lhe não per-
tencia. Admirada, confessa a samaritana ver nele um "Profeta" (médium), com capacidade de conhecer
a vida intima das criaturas.
Tendo entrado no terreno religioso, a samaritana aproveita para pedir que Jesus dirima a questão, de-
clarando quem está certo: os judeus, que celebram seu culto em Jerusalém, ou os samaritanos, que o
fazem no monte Garizim, no local do templo construído por Manassés em 400 A.C. , mas destruído em
129 A.C. por João Hircan.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Ainda hoje os samaritanos celebram sua páscoa nesse monte. A cena passa-se no sopé do Garizim e do
Hebal onde está o poço de Jacó.
A samaritana opõe “vós" (os judeus modernos, de sua época), a “nossos pais", que representavam a
tradição milenar do tronco comum das duas facções; porque tanto Abraão quanto Jacó erigiram altares
em Siquém (cfr.Gên.12:7 e 33:20) e Josué' o fez no monte Hebal (Deut.27:4); mas nesse local, no
Pentateuco samaritano, aparece o nome do monte Garizim. Entretanto, os judeus fundamentavam-se
em David e Salomão para defender o templo de Jerusalém.
Esse desvio “teológico” deve ter aliviado a tensão da samaritana, temerosa de maiores verificações em
sua vida particu1ar. Jesus pede-lhe que “acredite nele", como profeta que ela mesma reconhece, e pas-
sa a fazer-lhe revelações.
Em primeiro lugar, declara taxativamente que não tem importância o LUGAR físico e geográfico do
culto ao Pai. Em segundo lugar, afirma que os samaritanos adoram o verdadeiro Deus, sem dúvida,
mas não conhecem; ao passo que "nós” (os judeus) - e Jesus viveu a religião judaica do nascimento à
morte, confessando-se abertamente filiado a essa religião: nós os judeus - sabemos o que adoramos. E,
categórico: "a salvação É DOS JUDEUS".
Mas, prossegue o Mestre, virá a hora - e é AGORA - em que os verdadeiros adoradores O cultuarão
em espírito, pois esta é a Vontade divina. Mais uma vez nos afastamos totalmente das traduções vulga-
res tradicionais que trazem: "em espírito E verdade". Preferimos "em espírito verdadeiro” ou "em ver-
dadeiro espírito", pois trata-se, sem sombra de dúvida, de uma hendíades (veja vol, 1, pág. XII), como,
por exemplo, em Sófocles (Ajax.145): βοτα και λειαν isto é, "o gado e a pilhagem", significando "o
gado pilhado". Espírito VERDADEIRO, no sentido de Espírito MESMO, sem mistura de matéria, nem
intelecto, nem emoções, nem sensações.
De qualquer forma, Jesus prega abertamente o universalismo: o Pai comum de TODOS OS HOMENS
será adorado em qualquer lugar físico, pois o verdadeiro templo de Deus é nosso próprio espírito e
nosso corpo (cfr.Rom.8:9,11; 1 Cor.3;16,17 e 6:19; 2 Cor. 6:16; 2 Tim.1:14 e Tiago 4:5). Não há mais
necessidade de templos e igrejas, sinagogas nem "centros' mesquitas nem pagodes; nada mais de litur-
gias, fórmulas sacramentais e sacramentos, pompas e solenidades: os verdadeiros adoradores rejeitam
tudo isso, e adoram em ESPÍRITO VERDADEIRO. Adorar a Deus em verdadeiro espírito, é adorá-lo
verdadeiramente. Ao passo que os ritos, liturgias e gestos mágicos trazem o terrível perigo de materia-
lizar, e portanto mecanizar, o culto. E contra essa mecanização, sempre protestaram os mestres (cfr.
Oseas. 6:6; Amós, 5:20-26; Isaías, 1:11-17: Salmo 50:7-23), e o próprio Jesus (Mat.15:8 e Marc.7:6).
Nem se trata, apenas, de que "agradam" a Deus esses adoradores: não Diz que o pai os PROCURA
(dzetei), porque, sendo o ESPÍRITO, só o Espírito pode com Ele sintonizar. Como pode Deus, o Pen-
samento Universal, "procurar"? Pela impulsão interna, levando as criaturas a uma evolução constante,
até atingir o ápice supremo da perfeição espiritual.
A expressão de Jesus é clara: Deus é O ESPÍRITO ( πνευµα ο θεος ). A colocação do predicativo antes
do verbo, sem artigo, equivale simplesmente pela posição, a um elemento determinado. Portanto, não é
UM espírito, mas O espírito, que é O amor. Quando em atividade, torna-se O amante que produz (Pai
ou Verbo), e o resultado é O amado (Filho). Daí o tríplice aspecto (trindade) de Deus, que foi invertido
pelos que não conheciam a doutrina profunda de Jesus, e que, no entanto, está tão clara nos Evange-
lhos.
Nessa amplitude de visão universalista, a querela entre judeus e samaritanos toma a proporção de mi-
núscula discordância de personalidades vaidosas, sem importância alguma.
Diante do exposto, a samaritana indaga a respeito do Messias aguardado por eles (com a palavra
TAHEB, que significa "O que volta") como pelo judeus. A tradução para o grego é uma explicação do
evangelista.
Nesse ponto, Jesus declara sem rebuços: "sou Eu, quem fala contigo" Foi feita a revelação.

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C. TORRES PASTORINO
No início (vers 11) a samaritana o julga um grande homem (Senhor) mais tarde (vers.19), chega à con-
clusão de que se trata de um inspirado (Profeta); e finalmente (vers.26) nele reconhece o ungido (Mes-
sias ou Cristo). Deu-lhe, pois, a explicação de Suas primeiras palavras: "Se souberas QUEM fala con-
tigo!!” ...

Todo o episódio narrado no cap. 4.º de João, referente à samaritana, está repleto de lições maravilho-
sas.
Não quer isto dizer que se não tenha realizado o fato relatado pelo evangelista. Absolutamente, o fato
realizou-se na esfera terrena. Realmente os pormenores se verificaram, como em todas as outras ce-
nas apontadas pelos evangelistas. Pretendem alguns que TUDO seja simbolismo. Não aceitamos.
Acreditamos firmemente que todas as cenas narradas nos Evangelhos são REAIS, foram vividas no
plano terreno, material. Mas Jesus era tão adiantado que saiba aproveitar todas as ocasiões para dar
lições. Encaminhava os acontecimentos de forma a que deles, quem no pudesse, extrairia lições para a
individualidade; e quem no não alcançasse, tiraria lições para a personalidade. Daí ter falado sempre
em parábolas, enquanto outros ensinamentos eram vividos. Também os evangelistas, mais tarde, sou-
beram ESCOLHER aquilo que deviam revelar, pois nem tudo disseram do que fez Jesus em Sua pas-
sagem pela Terra, pois "se o fizessem, o planeta não comportaria os livros necessários para narrá-
los" (João, 21:25).
Uma vista geral e rápida ao significado das palavras. Samaria, em hebraico (shomron) significa "vi-
gilância". Sicar quer dizer "bebida inebriante", ou "inebriado". Reconhecemos nessa raiz a mesma do
árabe que deu origem ao nosso "açúcar". Saindo, então, Jesus do "louvor a Deus" (Judéia), dirige-se
para o" Jardim fechado" (Galiléia). Mas quis atravessar o monte da "vigilância" (Samaria). E nessa
vigilância chega a ficar "inebriado" (Sicar) de amor, já na região da "fonte" ou "Poço" que “O ven-
cedor" (Jacó) dera a seu filho, isto é, "a quem Deus aumenta , (José).
Vamos à interpretação.
Jesus é a individualidade, o CRISTO INTERNO. Quando a alma está “vigilante" (samaritana) e chega
a "hora sexta" (antes do Grande Encontro da hora sétima), essa Alma Vigilante vai ao "poço" (ao
coração), porque está sedenta de amor divino. E aí ela encontra "sentado" ao pé do poço, (habitando
no coração) aguardando-a, o Cristo Interno, o Eu profundo, também SEDENTO. E a individualidade,
esse Eu profundo, pede-lhe de beber, pede à Alma Vigilante que Lhe entregue seu amor, para que Sua
sede seja saciada.
Todo o episódio retrata, pois, uma lição sobre o Mergulho na Consciência Cósmica, o Encontro com
o Eu profundo, no poço do coração, obtido pelo espírito VIGILANTE.
Primeiramente há um equívoco natural: a Alma Vigilante estranha o chamamento de alguém que ela
ainda não encontrara, um Desconhecido. Ela acostumara-se a percorrer as áreas do amor profano
nos leitos conjugais; do amor desinteressado, nos filhos que gerara; do amor sublimado nas devoções
ritualísticas sonoras de solenes notas de órgão; do amor divino nos claustros segregados do bulício
do mundo. E agora eis que faceta nova à sua frente se apresenta. Um "Estranho"! ...
Mas esse Estranho é belo e é suave como a tarde a descambar ... é puro como a aurora que silencio-
samente arranca os véus da noite, desnudando os céus para o esponsalício com o Sol ... E esse Estra-
nho diz-lhe que lhe poderá dar "água viva" ... Realmente, todas as águas que anteriormente com so-
freguidão bebera para saciar seu amor, jamais a deixaram satisfeita: queria sempre mais; e depois de
ter mais, vinha o tédio ... E o Estranho promete que se ela O "conhecer" profundamente, Ele saciará
sua sede para sempre!
Ingênua, retruca-lhe que o "poço é fundo": realmente o coração do homem é abismo insondável, é
infinito, e só com o infinito pode ser saciado definitivamente.
Será o Desconhecido maior que o "vencedor" que deu à humanidade liturgias, ritos e pompas religio-
sas ? O Cristo Interno demonstra que todos os que bebem da água das exterioridades transitórias da

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personalidade continuam tendo sede; apenas aqueles que se unem a Ele, que O "conhecem", imergin-
do ou mergulhando na Consciência Cósmica, só esses é que jamais terão sede, porque nessa mesma
Alma Vigilante surgirá uma fonte perene de água viva, que virá do fundo do "poço" de seu coração e
manará sem intermitências para a Vida Imanente, para a vida interna, para a vida do Espírito.
Nesse diálogo sublime e inenarrável, a Alma Vigilante sente os pormenores de beleza inefável (só
quem no experimenta pode avaliá-lo !) pede ansiosamente, qual "mendigo do espírito", que lhe seja
dada essa água, para que ela jamais sinta a solidão, jamais volte a ficar sedenta de amor.
Então o Cristo Interno lhe pergunta pelo "marido", ou seja, por aquele a quem ela ama. E a Alma diz
que, no momento, não no possui. "Com verdade respondes", fala o Cristo Interno: "pois CINCO ti-
veste, e o atual não é teu" ! Realmente, na peregrinação longa pelos caminhos da Terra, a Alma vai
desposando numerosas crenças (lembremo-nos de que "adúltero", na Bíblia, é o povo que trai YHWH
para unir-se a outras "deuses"). Afirma o Cristo Interno, que acompanha a Alma desde o início, que
ela tivera CINCO crenças, e que a SEXTA (sempre a numerologia !), que era a dos samaritanos, não
era a legítima: a verdadeira, o marido real e legítimo, seria justamente o SÉTIMO, o amante perfeito,
ele mesmo, o Cristo Interno, representado pelo judeu que com ela se entretinha em colóquio amoroso,
tentando conquistá-la.
Essa mesma passagem, todavia, pode ser interpretada melhor, com mais verdade compreendendo-se
que o Cristo Interno queria dizer que "os cinco maridos" que tivera, referiam-se às suas ilusões,
quando pensara que era: 1) seu próprio corpo; 2) suas sensações; 3) suas emoções; 4) seu intelecto;
5) seu "espírito"; todos eles eram "falsos", no sentido de transitórios e ilusórios. O próprio "sexto"
marido atual, a mente, (que a levara a mergulhar no coração - poço - na busca da Cristo), esse mes-
mo não era legítimo, pois só a Centelha Divina, o Eu profundo, é que pode dizer-se o VERDADEIRO
EU, o verdadeiro Espírito.
O que seria ilógico e incompreensível, se não fossem esses sentidos ocultos de uma lição maior, seria
Jesus pular de um assunto (água viva) a outro: "chama teu marido", sem nenhum nexo, sem qualquer
sequência. No meio dessas lições maravilhosas, que tinha que ver o "marido"? Essas aparentes ilogi-
cidades é que nos convencem de que a lição é muito mais profunda do que o que lemos na letra fria do
texto.
A alma, iludida ainda pelas aparências, indaga a respeito da verdadeira crença, e o Cristo Interno
esclarece que a salvação (o Caminho) é DOS JUDEUS, através do máximo Enviado, do maior dos
Manifestantes divinos na Terra, Jesus de Nazaré. Mas, logo a seguir esclarece que nenhuma crença,
nenhuma religião poderá salvar quem quer que seja: o Pai PROCURA com ânsia amorosa aqueles
que O amam em verdadeiro Espírito, sem nenhuma interferência material, nem sensitiva, nem emoci-
onal, nem intelectual, nem mesmo espiritual-religiosa: é o Espírito Verdadeiro o único que poderá
unificar-se ao Cristo Interno, à Consciência Cósmica.
A alma reconhece, finalmente, na Voz interna do coração o verdadeiro Cristo Cósmico, manifestado
DENTRO DE NÓS; e para ela abre-se a Luz sublime da compreensão: é ESSE Cristo que é o verda-
deiro "Caminho da Verdade e da Vida" (João, 14:6); Ele ensinar-nos-á todas as coisas (João, 14:26).
E o Cristo Interno confirma a sensação íntima da alma vigilante e amorosa: "sou Eu ... que falo conti-
go, sou o CRISTO DE DEUS" !
O amor que se expande do coração da Alma Vigilante não tem medida: atingiu o ápice da felicidade
que pode uma alma humana suportar,. encontrou o Caminho definitivo, a alma gêmea da sua alma, e
a União é total e absoluta, por todos os séculos, liberta já de toda sede espúria: tem tudo; a alegria, a
felicidade, o AMOR (que é DEUS) permeando-lhe, já agora conscientemente, todas as células. Já era
então a hora sétima, a perfeição total e absoluta !
E desse encontro a Alma Vigilante se recordaria e reviveria ainda, quinze séculos após, expandindo
seu amor com estas palavras:
"Alma, tens que procurar-te em Mim, e a Mim, hás de procurar-me em ti".
(Teresa de Avila, “Búscate en mí", Obras, vol. 2.º, pág. 957).

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ESPANTO DOS DISCÍPULOS


João, 4:27-38
27. Nisto chegaram seus discípulos, e admiraram-se de que estivesse falando com uma
mulher; ninguém, todavia lhe perguntou: "que procuras ou que falas com ela"?
28. A mulher deixou o cântaro, foi à cidade e disse aos homens:
29. "Vinde ver um homem que contou tudo o que fiz: será este, porventura, o Cristo"?
30. Saíram da cidade e vieram ter com ele.
31. Entretanto os discípulos lhe rogavam dizendo: “Rabi, come"!
32. Mas ele lhes respondeu: "Eu tenho para comer um manjar que vós não sabeis".
33. Os discípulos, pois, diziam uns aos outros: "Será que alguém lhe trouxe de comer"?
34. Disse-lhes Jesus: "Meu alimento é fazer eu a vontade daquele que me enviou, e com-
pletar sua obra.
35. Não dizeis vós: "ainda quatro meses e chegará a ceifa"? Pois eu vos digo: "Erguei
vossos olhos e contemplai estes campos, que já estão brancos para a ceifa".
36. O ceifador recebe salário e ajunta fruto para a vida imanente, a fim de que ambos, ele
o semeador, juntamente se regozijem.
37. Porque nisto é verdadeiro o ditado: "Um é o que semeia, e outro o que ceifa".
38. Eu vos enviei a colher aquilo em que não tendes trabalhado; outros trabalharam, e
vós entrastes em seu trabalho".

Recordemos que, com Jesus, havia apenas cinco discípulos: os irmãos Pedro e André, João, Natanael e
Filipe. Não era o "colégio apostólico", que não fora constituído. Acompanhavam a Jesus sem compro-
misso formal, tanta que voltaram a seus afazeres na barca. Pouco mais tarde é que Jesus os convoca
oficialmente, para o serviço ativo do "reino".
A samaritana, impressionada com as palavras de Jesus, corre a dizê-lo à população, sempre com aquele
típico exagero feminino: "contou-me TUDO o que fiz” ...
Mas, depois que saíra esbaforida, deixando até a ânfora ao pé do poço, pois podia-lhe estorvar a cami-
nhada, vêm as explicações de Jesus aos discípulos, espantados de vê-Lo a entreter-se interessadamente
com uma mulher e, ainda por cima, "samaritana" ... Esse reparo não deve fazer-nos supor que Jesus
fosse um misógino, isto é, que tivesse aversão ou horror às mulheres. Nada disso: por onde ia, acom-
panhava-o um grupo de mulheres para servi-Lo, talvez até contando-se entre as que O acompanhavam
suas irmãs (Joana, Maria e Salomé?) A admiração provém do fato de Jesus, um Rabbi, entreter-se pu-
blicamente com uma mulher do povo e desconhecida. Também não se refere, como dizem alguns co-
mentadores, à "má vida" da samaritana, que deles não era conhecida; mesmo porque, embora tivesse
mudado "de marido", não era absolutamente o que pudesse chamar-se mulher "pública". Bem longe
disso.
Mas os discípulos respeitaram a atitude do Mestre, e nenhum deles ousou, como anota o evangelista,
"interrogá-Lo" e, muito menos, criticá-Lo (como é tão comum hoje em todos os círculos espiritualis-
tas: se um elemento aborrece ou tem raiva de alguém, todos acham muito natural; mas se gosta de al-

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guém, chovem as críticas e todos se afastam; e no entanto, ele cumpre a lei do amor! A humanidade
está muito atrasada, realmente).
Embora houvesse pedido água, por estar com sede, Jesus recusa comer: não sente mais o vazio do
apetite material, pois a satisfação de seu espírito se estendera a todos os veículos, até mesmo no físico.
O Amor também alimenta! O desejo, não: até aumenta o apetite. Mas o Amor é saciedade e, por ser
tal, satisfaz totalmente.
Os discípulos não compreenderam a causa. Alguém, talvez a própria mulher, Lhe teria trazido de co-
mer ? Jesus explica: o alimento principal do Espírito é fazer a vontade Daquele que O enviou. Mais
tarde ensinaria "procurai em primeiro lugar o reino de Deus e Sua justiça e tudo o mais vos será dado
por acréscimo" ( Mt.6:33).
Depois vem uma lição de profundidade, otimamente colhida no panorama que se estendia a seus pés
no vale, talvez provocada pela observação de um dos discípulos: "ainda quatro meses e chegará a cei-
fa". A planície, contemplada do alto, devia aparecer pejada de espigas nos trigais, que começavam a
amadurecer aos mais ardorosos sóis da primavera, que já se preparava para o verão, num exuberante
junho palestinense. Note-se que, nessa região, ao invés de amarelecer como na Europa, o trigo assume
uma tonalidade branquiça.
"Olhem, pois, e vejam que já está esbranquiçando o trigo, que está quase maduro". E daí à lição do
ceifador, que se empregava por tarefa para a colheita. Na realidade, o provérbio "um semeia e outro
colhe" provinha justamente do fato de que, para as colheitas, eram contratados trabalhadores de fora,
afim de que fosse ela completada dentro do prazo oportuno, sem correr o risco de estragar-se no pé.
O ceifador colhe, mediante salário, o que o semeador plantou, e ajunta no celeiro para o futuro. Assim
na vida espiritual, a colheita é feita para a Vida Imanente, no Reino dos Céus.
E Jesus termina: "eu vos enviei a colher num campo em que não trabalhastes: vós entrastes no trabalho
dos outros". Referia-se à longa e penosa plantação que durante séculos e milênios vinha sendo feita na
Terra pelos Manifestantes divinos, pelos Profetas, Mestres e Filósofos por todos os homens de Deus
que aqui chegavam para preparar a humanidade para o grande passo.
Na época de Jesus, o Governador do Planeta escolhera alguns dos Espíritos mais aptos ao lançamento
e à propagação de Sua doutrina e, a não ser João Evangelista, cujo espírito havia vivificado a persona-
lidade de Samuel o profeta, parece que os outros não pertenciam realmente àquela estirpe de mestres
espiritualizados. Com efeito, além de João, somente Pedro, do colégio dos doze, deixou marca indelé-
vel na propagação do cristianismo. De Levi conhecemos apenas o Evangelho; de André, Bartolomeu
(Natanael), Judas Tadeu, Simão Zelotes, Tomé nada praticamente sabemos que tenham feito, para ga-
rantir-lhes posição de destaque; de Filipe, um aceno em Atos; de Tiago sabemos que um deles foi de-
capitado logo após a morte de Jesus e do outro que foi inspetor em Jerusalém durante alguns anos.
Homens comuns, corajosos e trabalhadores, mas que ficavam a uma distância incalculável de um mís-
tico profundo como João, de um teólogo intelectualizado como Paulo, e de um administrador entusi-
asta como Pedro.
Argumentam alguns que a assertiva de Jesus é ponderoso argumento contra a reencarnação: os após-
tolos (dizem) DEVIAM TER SIDO (caso houvesse reencarnação) os mesmos espíritos que animaram
os profetas e enviados anteriores. Então, eles mesmos teriam plantado, e eles mesmos teriam vindo
colher. Mas Jesus afirma categoricamente "VÓS colheis o que OUTROS plantaram".
Respondemos:
I. em primeiro lugar, se sabemos que o espírito de João viveu como Samuel, nada sabemos dos
outros, e o que realizaram não deu a entender que tivessem provindo dessa estirpe (embora
nada impeça que o tenham sido);
II. além disso as pessoas dos discípulos (que colhiam) nada tinha que ver com as pessoas dos pro-
fetas (que haviam plantado). E durante a encarnação, salvo raras exceções, a consciência indi-

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vidual só está desperta na personalidade (consciência atual). Realmente, novas personalidades
colhiam o que outras personalidades haviam plantado;
III. aprofundando mais, e levando para o terreno das individualidades eternas, que seriam real-
mente as mesmas (caso eles tivessem sido os profetas) não foi o plantio feito propriamente pe-
los profetas - simples médiuns ou intermediários - mas pelos mestres e pelos sumos sacerdotes
de antanho: Abraão, Isaac, Jacó, Moisés ,Aarão, etc., cujos ensinamentos (plantio) era comen-
tado pelos profetas;
IV. e mais: os "semeadores" somavam várias centenas: os "ceifadores" seriam apenas doze; de
qualquer forma, mesmo que também eles tivessem participado da sementeira, não tinham sido
os únicos semeadores.

Então, de qualquer forma, eles "entravam" no trabalho dos outros.

Depois de toda expansão interna, a Alma Vigilante abandona tudo o que é material: larga o cântaro,
e sai a correr, para fazer a todos partícipes de sua felicidade. E declara aos que encontra, que desco-
briu o Cristo (Interno), aquele que sabe e lhe disse tudo o que fez; aquele que conhecia sua vida mais
do que ela mesma. E os que podiam interessar-se acorreram a ela, para que ela, que já descobrira os
segredos do Caminho, os levasse ao Cristo. Foi o que ela fez.
Enquanto isso, os discípulos vão oferecer-Lhe outros manjares, que Ele recusa: estava alimentado de
Amor, saciado de felicidade, pois desposara mais uma de suas criaturas.
A anotação do evangelista é bem típica: os "discípulos" se admiram de vê-Lo a falar com uma mulher.
Vimos o que representavam os discípulos, na lição profundamente simbólica (veja pág.155 do volume
1.º): justamente aqueles que ainda estão apegados à personalidade, preparando-se para o Mergulho
Profundo. Os que estão nesse ponto evolutivo, (que já saíram da "animalidade", mas ainda não pene-
traram a "individualidade"), esses com facilidade se admiram e "escandalizam" diante do Amor, em-
bora sabendo que a LEI é AMAR ... Se encontram dois seres no caminho da espiritualidade que "e
antipatizam, que se criticam, que se odeiam, acham natural e normal: é humano! Mas se encontrarem
dois que SE AMAM, o escândalo é imenso, e todos fogem apavorados porque ... eles cumprem a Lei
do Amor de Cristo! Bem típica a anotação do evangelista!

Jesus aproveita a circunstância para dar lições maravilhosas.

Como apaixonado pela numerologia, mais uma vez encontramos um ensinamento de João baseado
nessa ciência, apresentando uma oposição: "VÓS DIZEIS, ainda quatro meses para a colheita". O
arcano quatro exprime a lei da causalidade, ou seja, a ação da cadeia dos fenômenos ligados entre si;
no plano divino, é o Sagrado Tetragrama YHWH que produziu, como causalidade, o mundo; no plano
humano é a expressão do resultado das ações, simbolizado no quaternário inferior (personalidade),
representado pela cruz do corpo do homem físico, com a "prisão" do material denso (forma), do etéri-
co (sensações), do astral (emoções) e do mental concreto (intelecto). A doutrina dos discípulos era de
que a raça humana ainda não estava apta à união com o divino, precisando de muito trabalho externo
(ritos, liturgias, etc.), para "queimar primeiro o carma das ações pretéritas; por isso afirmam que
"ainda faltam quatro meses para a colheita". Realmente, apesar de todos os ensinos e exemplos de
Jesus, seus discípulos enveredaram por essa trilha, dando à humanidade (salvo raríssimas exceções),
apenas os meios de resgatarem carmas mediante ações externas.
Mas Jesus opõe-se a eles com Sua doutrina: "pois EU VOS DIGO: erguei os olhos e contemplai os
campos (das almas): vede que já estão brancos para a ceifa", estando muitos purificados (brancos),
sem mancha. Já é hora, pois, de colher, de levá-las ao Cristo Interno para o Encontro Sublime.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

O ceifador, isto é, aquele que colhe os frutos de sua sementeira, recebe o prêmio (salário) das obras
praticadas e ajunta frutos para a Vida Imanente, ampliando o celeiro de seu coração, para nele reco-
lher o Amor e expandí-lo de tal forma, que ele, o ceifador (o Espírito) e o semeador (o "espírito" ou
personalidade), ambos juntamente se regozijem.
E o Mestre confirma o ditado: "um é o que semeia, outro o que colhe". Com efeito, a personalidade
semeia na Terra suas ações boas e más, entretanto é a individualidade que colhe os frutos doces ou
amargosos. A personalidade esforça-se, estuda, aprende, semeando em si mesma a cultura,. mas a
individualidade é que colhe os resultados do conhecimento armazenado durante séculos. A personali-
dade semeia as experiências de suas numerosas e multifárias especializações, mas a individualidade
recolhe e aproveita o aprendizado e a evolução.
Daí ter o Cristo Interno enviado seus discípulos, no papel de individualidades em desenvolvimento,
para entrar no trabalho das personalidades anteriores, aproveitando o que elas executaram e apren-
deram no decurso de suas vidas múltiplas e sucessivas.

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C. TORRES PASTORINO

JESUS COM OS SAMARITANOS


João, 4:39-42
39. Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa das palavras da mulher,
que atestara: 'Disse-me ele tudo o que fiz'.
40. Quando, pois esses samaritanos vieram ter com Jesus, pediram-lhe que ficasse com
eles. E passou ali dois dias.
41. E muitos mais acreditaram, por causa das palavras de Jesus, e diziam à mulher:
42. "Não é mais pelas tuas palavras que nós cremos, mas porque nós mesmos ouvimos e
sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo".

A propaganda da samaritana excitou a curiosidade dos compatriotas, que acorreram pressurosos a ou-
vir o jovem profeta. Ficaram encantados e pediram que permanecesse com eles. Jesus acedeu, ficando
dois dias (os números em João !).
Convencidos, testemunharam que "não era mais por informações", mas por verificação pessoal que
passavam a crer. E brindam-No com o título de SALVADOR DO MUNDO, não apenas restrito a Is-
rael, mas destinado a todos.

Não foi só a Alma Vigilante que aproveitou do contato com o Cristo Interno, no Sagrado Esponsalí-
cio: muitas outras criaturas, que estavam mais ou menos "vigilantes", aderiram ao anúncio da Boa-
Nova que ela lhes dera, e foram ter com a individualidade. E, ao encontrar-se, pediram-Lhe que per-
manecesse com eles. Como o amadurecimento não era completo, só conseguiram a união por DOIS
dias. O número DOIS, nos arcanos, representa o princípio feminino, isto é, a esfera da receptividade,
o passivo, que, ao receber o princípio (o Um), produz o resultado (o Filho), perfazendo o ternário, que
exprime um ciclo completo da obra. Como a permanência foi de DOIS dias, isto significa que o re-
sultado (o Encontro) não foi obtido totalmente.
No entanto, mesmo esses dois dias de contato com o Cristo, fazem que essas almas "vigilantes", que
tinham chegado ao contato por meio da palavra da primeira, confessem: o contato pessoal fez-nos
sentir que realmente o Cristo Interno é o Salvador da Humanidade, é o "Caminho da Verdade e da
Vida".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

VISITA A NAZARÉ
(maio/junho de 29 AD)
João, 4:43
43. Depois desses dois dias, partiu dali para a Galiléia.

Luc. 4:16-22a
16. E foi a Nazaré, onde se tinha criado; no sábado, entrou na sinagoga, segundo seu cos-
tume, e levantou-se para ler.
17. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías e, tendo-o desenrolado, achou o lugar em
que estava escrito:
18. "Um espírito do Senhor está sobre mim: por cujo motivo me ungiu par anunciar boas
notícias aos mendigos; enviou-me para proclamar libertação dos cativos, restauração
da vista aos cegos e para por em liberdade os oprimidos,
19. e proclamar o ano aceitável ao Senhor".
20. Tendo enrolado o pergaminho, entregou-o ao assistente e sentou-se; e todos, na sina-
goga, tinham os olhares fixos nele.

João, 4:45
45. Assim, quando chegou à Galiléia, os galileus o receberam bem, porque tinham visto
tudo o que ele fizera em Jerusalém na ocasião da festa, pois eles também tinham ido à
festa.

Da Samaria, segue Jesus para a Galiléia, parando em Nazaré, onde, diz o evangelista, passou a primei-
ra infância (literalmente, "onde foi alimentado", no sentido de "onde foi criado").
Nota o autor, que Jesus foi à sinagoga no sábado, "como era seu costume". Como israelita cem por
cento, jamais deixou de cumprir rigorosamente - do nascimento até a morte - todos os preceitos da lei
mosaica. Se sempre foi, confessou e praticou a religião israelita, como afirmar que fundou nova religi-
ão? Jamais o fez. Confirmou o mosaísmo e declarou ter vindo para completar a lei. Apenas, dentro da
religião mosaica, ampliou a visão, ensinando preceitos novos e revelando mais alguns "segredos do
Reino". Numa palavra, deu um "código científico de vida". Bem sabia o Mestre que não é a religião
que salva ou que faz evoluir: é a ação pessoal de cada um, servindo a religião apenas de "trilho" para
facilitar a caminhada da personalidade. Daí, qualquer religião ser aceitável a Deus, pois Deus é um só
e não faz acepção de pessoas. Não é o rótulo que importa: é o conteúdo do frasco.
Tendo agora regressado de Jerusalém, onde tivera atuação rápida porém marcante, seus compatriotas
já o olhavam com admiração. Assim, após a leitura da Torah, quando chegou a vez de ser dada a pala-
vra aos assistentes que desejassem dizer alguma coisa, foi entregue a Jesus o rolo de Isaías. Jesus de-
senrolou-o e foi até o capítulo 61, onde começou a leitura.
Há algumas observações a fazer.
1.ª - O texto lido jamais foi considerado uma haphtarah oficial, isto é, um trecho cuja leitura fosse
estabelecida pela tradição, segundo a ordem de Esdras.

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C. TORRES PASTORINO
2.ª - Ao invés do texto hebraico de Isaías, a citação é feita pelo grego dos LXX. Na realidade, era mais
comum o grego que o hebraico, na Galiléia. Mas, nas recentes descobertas nas grutas de "Qumr'am"
(Mar Morto), foi encontrado um texto hebraico de Isaías que é mais conforme ao grego dos LXX do
que ao original massorético supondo-se, então, que esse texto recém-encontrado tenha sido o original,
do qual foi feita a tradução.
3.ª - O texto não é citado na íntegra. Não aparece a frase "curar os corações espesinhados" (vers.1) nem
"o dia da retribuição" (vers.2); mas ,entre um e outro, há a frase "para proclamar a libertação dos opri-
midos", que pertence ao cap. 58 vers.6, do mesmo Isaías. Essas modificações do original teriam sido
ocasionadas por traição da memória do evangelista que, não sendo judeu não o tinha bem de cor, nem
possuía o texto para confrontar? Aliás, não estava fazendo trabalho de crítica hermenêutica, mas ape-
nas de instrução espiritual.
Todos esses trechos de Isaías referem-se ao "Servo de YHWH", na era messiânica.
Note-se a frase de Isaías, confessando-se "médium", quando diz "um espírito do Senhor está sobre
mim", ou seja, "estou recebendo um espírito enviado do alto". Portanto, simples intermediário.
Terminada a leitura, Jesus entrega o livro ao hazzan (assistente) e senta-se para explicar. Os compatri-
otas ficam alertas, os olhos presos ao jovem que haviam visto menino a brincar nas ruas. E Yahsua
Ben- Yosef começa: "Hoje cumpriu-se esta profecia a vossos ouvidos".
Logicamente, muito mais deve ter dito. Lucas apresenta-nos um resumo. De qualquer forma, as pala-
vras impressionaram favoravelmente o auditório atento e amigo, despertando a satisfação e o orgulho
de ver um "dos seus" que falava tão belas palavras de amor. As traduções comuns trazem "palavras
cheias de graça", o que pode dar a falsa idéia de que Jesus tivesse feito humorismo. Ora, o texto origi-
nal diz bem claramente lógois tês cháritos, ou seja, “palavras de amor".
Além de tudo, a fama que chegara de Jerusalém, trazida pelos galileus que lá haviam estado, narrando
os acontecimentos com os naturais exageros, predispunha-os à admiração.
Jesus, porém, não se demora lá: após essa visita à sua cidade, à sua mãe e a seus irmãos e irmãs, par-
tem para Cafarnaum à beira do lago, passando antes, todavia, pela simpática cidadezinha da Caná.

Depois da festa iniciática no Monte da Vigilância (Samaria), Jesus recolhe-se novamente ao "Jardim
Fechado" (Galiléia) e fala aos "consagrados a Deus" (nazireus), entre os quais se havia criado, co-
mentando o profeta Isaías.
A reunião ("sinagoga" é palavra grega que significa "reunião" ou, por extensão, "lugar de reunião"),
é feita no dia do "repouso" ("sábado" exprime exatamente "repouso"), repouso das ocupações materi-
ais. O estabelecimento de um dia de repouso para a personalidade (trabalhos externos) mostra-nos a
necessidade que temos de parar intermitentemente as atividades personalísticas, para dedicar-nos tão
só às do Eu Profundo, na leitura e sobretudo na meditação sobre textos de Mestres. Nada de trans-
formar esse descanso da personalidade em outras atividades personalísticas de culto externo e ritua-
lístico: temos que alimentar o Espírito. E por isso os judeus nas sinagogas (e Jesus o exemplifica) li-
mitavam-se a ler e comentar os livros revelados (mediúnicos).
O texto de Isaías foi escolhido: suas palavras revelam a doutrina de Jesus, já preconizada por Isaías,
um dos maiores profetas (médiuns) que apareceu na Terra.
Começa esclarecendo que "um espírito (em grego sem artigo) do Senhor está sobre ele", ou seja, de-
clarando aberta e taxativamente que se encontrava mediunizado, recebendo um "espírito", que é bom
e elevado ("do Senhor"). Esse "espírito o ungiu", ou seja, o cristificou, para que ele pudesse realizar
sua missão. Observemos que o médium (profeta) não age por si: é intermediário. Não alcançou por si
mesmo a cristificação (pois nesse caso seria "mestre", e não medianeiro). Daí a necessidade de que
venha "sobre ele", envolvendo-o, um "espírito do Senhor", para ungi-lo, com a finalidade de sustentá-
lo para boa execução dos trabalhos espirituais. Na falta de mestres encarnados na Terra, os "espíritos

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SABEDORIA DO EVANGELHO

do Senhor" servem-se de instrumentos aptos a substituí-los. E a prova é que, por vezes, quando o "es-
pírito do Senhor" se retira, os intermediários fraquejam.
E a tarefa era anunciar "as boas notícias" ou "evangelho" aos mendigos.
Não aos mendigos materiais, de moedas ou de pão, mas aos "mendigos do espírito", àqueles que sen-
tem fome e sede de espírito e o mendigam ao Pai. Nesse mesmo sentido Jesus proferiu a bem aventu-
rança: "felizes os mendigos do espírito (ptôchoi tôi pneúmati) ou seja, os que mendigam com lágrimas
o dom do espírito. A esses sequiosos de espiritualizar-se, serão dadas as "boas notícias".
Então o profeta anuncia que vem proclamar a "libertação dos que estão cativos" na matéria, a restau-
ração da vista espiritual aos que estão cegos, sem ver a verdade; mais ainda, para por em liberdade
os oprimidos pela carne, pois doravante terão a faculdade de, mergulhando na Consciência Cósmica,
não mais sentirem o peso da matéria que lhes oprime a mente e o espírito, conforme dizia "o sábio" no
Livro da Sabedoria (9:15) "o corpo que se corrompe (que se coagula na matéria) pesa sobre a alma, e
esta habitação terrestre abate o espírito que pensa muitas coisas".
Além disso, vem proclamar o ano (isto é, a época) aceitável ao Senhor, pois Ele só espera a prepara-
ção do homem para aceitá-lo e nele manifestar-se.
Jesus, a seguir, revela que chegou o momento de cumprir-se a Escritura. A individualidade é que sabe
e pode declarar ao homem que chegou o momento de realizar o Encontro Sublime.
O evangelista, sem reproduzir as palavras proferidas por Jesus, declara que todos ficaram encantados
com as palavras de amor que procediam de Sua boca, tal como o ficam todos aqueles que tem a felici-
dade de ouvir as misteriosas palavras silenciosas e consoladoras que o Cristo Interno profere no mais
recôndito do coração humano, e que chegam em ondas benéficas ao cérebro inebriando de gozo o
intelecto da personalidade.

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C. TORRES PASTORINO

CURA DO FILHO DO OFICIAL DE HERODES


João, 4:46-54
46. Voltou, então, a Caná da Galiléia, onde fizera da água vinho. Ora, ali se achava um
oficial do rei, cujo filho estava doente em Cafarnaum.
47. Esse homem, ao saber que Jesus tinha regressado da Judéia para a Galiléia, foi ter
com ele e rogou-lhe que descesse para curar seu filho, porque estava à morte.
48. Disse-lhe Jesus: "Se não virdes demonstrações e prodígios, de modo algum acredi-
tais".
49. Rogou-lhe o oficial: "Desce, Senhor, antes que meu filho morra".
50. Disse-lhe Jesus: "Vai. Teu filho vive". O homem acreditou na palavra que Jesus lhe
dissera e retirou-se.
51. Já descia ele, quando seus servos lhe vieram ao encontro, dizendo que seu filho vivia.
52. Perguntou-lhes, então, a que hora se sentira ele melhor. E eles responderam: 'Ontem,
à sétima hora, a febre o deixou".
53. Reconheceu, então, o pai ser aquela a mesma hora em que Jesus dissera: 'Teu filho
vive". E acreditou ele e toda a sua casa.
54. Vindo de novo da Judéia para a Galiléia, esta foi a segunda demonstração que fez
Jesus.

Chegando a Caná (o evangelista não nos dá a razão dessa visita), só um fato é salientado: uma cura a
distância. Examinemos os pormenores.
Oficial do rei (em grego basilikós) exprime o que hoje chamamos um “palaciano", alguém que estava a
serviço do tetrarca Herodes, denominado "rei" por adulação.
Os exegetas discutem quem teria sido, e as opiniões, embora sem provas, tendem para identificá-lo
com Cusa (Hôzay), intendente de Herodes, cuja esposa Joana, juntamente com outras mulheres (cfr.
Luc.8:3 e Mr.15:40) acompanhavam Jesus, ajudando o grupo de seus discípulos, quer financeiramente
quer sobretudo em serviços próprios ao sexo, como cuidar da alimentação e da roupa.
Habitando em Cafarnaum, e sabendo que Jesus passara para Caná, Cusa sobe até lá (são 33 quilôme-
tros de subida íngreme) até que descobre o Mestre. E, sem rebuços, solicita o favor em benefício do
filho à morte.
A resposta de Jesus transparece imbuída de tristeza: não viera para as personalidades, mas para ensinar
à individualidade o caminho da libertação, e no entanto todos só se preocupam com seus corpos ... Se
não vissem demonstrações de poder, não creriam ... Mas o oficial estava aflito, e não quer saber de
conversa: "vem logo, Mestre, antes que meu filho morra" ! ...
É o grito angustiante de um pai que colocou em Jesus a última esperança, mas julga que só com Sua
presença física Lhe seria possível realizar a cura. Calmo e cônscio de Sua Força Cósmica, Jesus lhe
assegura que o filho está salvo.
Aqui entra a fé do oficial. Acreditou e aceitou. E imediatamente regressa, descendo de Caná. Ao che-
gar à beira do planalto, quando começou a descer (a diferença de altitude entre Caná e Cafarnaum é de
700 metros), depara os servos que subiam a seu encontro.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Examinemos uma contradição aparente no horário. Segundo informações, a cura foi realizada "à séti-
ma hora" (13 horas). Logo após o palaciano se retira, empreendendo a viagem de regresso. Essa via-
gem, na descida a pé, é feita geralmente em sete ou oito horas, quando se anda a bom passo, sendo três
horas e meia no plano, através do planalto da Galiléia e outro tanto na descida propriamente dita. Sain-
do, pois, por volta das 13 horas (talvez com ligeira parada para refeição e repouso) o palaciano deveria
chegar a casa pelas 21 horas. Ora, os servos devem ter saído bem depois das 13 horas: a admiração, a
alegria, a verificação da cura, os raciocínios e ponderações e, finalmente, a resolução de mandar os
servos a Caná, para avisar o oficial.
Sendo a descida mais rápida que a subida, o encontro deve ter-se dado, realmente, como diz João,
quando "já descia ele", ou seja, a dois terços ou mais da caminhada, o que nos leva às 19 ou 20 horas.
Se assim foi, os servos tiveram razão de dizer: ONTEM, porque às 18 horas havia começado o "dia
seguinte". Sabemos, com efeito, que na Palestina os dias eram computados (como ainda hoje os sába-
dos entre os israelitas) das 18 às 18 horas.
O fato comprovado solidificou a crença de Cusa e trouxe a adesão de "toda a casa", ou seja, dos pa-
rentes e da criadagem. Daí por diante, sua esposa Joana, sobretudo, jamais se afastaria de Jesus e de
seus discípulos.
E (simples hipótese, à qual voltaremos mais tarde), não seria essa Joana outra das "irmãs" de Jesus?
Isso explicaria a intimidade de Cusa, o conhecimento dos passos de Jesus, sua localização em Caná, e
a certeza de que Ele, que não era ainda conhecido como "curador", poderia fazer voltar a saúde a seu
filho .
E João anota que Jesus veio de novo da Judéia para a Galiléia e, então, novamente em Caná, fez a se-
gunda demonstração de Sua doutrina e de Sua Força Crística.

Nos mínimos fatos há ensinamentos de alto valor.


Jesus recolhe-se novamente em prece (Caná), elevando para o Alto suas vibrações, qual um caniço
erecto. Mas a personalidade sujeita às aflições e à morte, vai em Sua busca reclamando alívio às an-
gústias.
O homem, um "oficial do rei" (ou seja, alguém cujo ofício se prendia às coisas, à matéria) vê seu filho
(a personalidade) a morrer, e requer a presença da individualidade.
Jesus ensina que os prodígios e as demonstrações requeridas pelo intelecto de nada valem. Mas a
personalidade não se conforma. Dá-se então o inesperado, a revelação de que "o filho vive". Jesus
não promete a cura, mas " vida. Não é tanto a cura do corpo físico (coisa secundária para o Espírito),
mas a vida do "espírito". E mais uma vez dá-se uma União, revelada pelo evangelista com o número
cabalístico: à sétima hora. Quando chega a hora sétima, a febre das paixões e dos equívocos ilusórios
abandona as criaturas e elas passam a VIVER.
Através desse fato, que revela o amor paternal a agir, compreendemos também a lição mais profunda:
quando aflitos, a "mendigar o espírito", verificamos que nosso quaternário inferior está ainda total-
mente envolvido pela FEBRE das paixões, e que se encontra prestes a sucumbir, é então que o Espí-
rito (o PAI da nossa personalidade) se aflige realmente, e sai correndo em busca de auxílio, recorren-
do pela prece ao Cristo Interno, nosso Eu Profundo. Mas quase sempre esperamos "milagres" que nos
libertem dos atrativos inferiores. Em contato com a Individualidade, vemos que todas as ilusões físi-
cas, sensoriais, emocionais e intelectuais nos abandonam, porque tomamos contato com a realidade
absoluta e eterna. Mergulhamos na Consciência Cósmica, no Cristo Interno, e todas as ilusões se
mostram tais quais são: ilusões. E novamente a Vida nos vivifica.
Os servos (os sentidos) revelam ao Espírito (pai) que não mais sentem "febre" alguma, e ele reconhe-
ce que foi "no momento exato" do contato que a vida nele penetrou. E ele (o espírito) passa a acredi-
tar por experiência própria, e com ele "toda sua casa", isto é, todos os seus corpos (habitação do es-

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pírito). E todo inteiro passa ele a dedicar-se ao serviço do Mestre Incomparável que o conquistou
para o resto dos séculos sem fim.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

JESUS SE FIXA EM CAFARNAUM


Mat. 4:13-16
13. E (deixando Nazaré), foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nas fronteiras
de Zabulon e Neftali,
14. para que se cumprisse o que foi dito através do profeta Isaías:
15. "Terra de Zabulon e Terra de Neftali, caminho do mar além do Jordão, Galiléia dos
gentios!
16. o povo que jazia nas trevas, viu uma grande luz; e os que estavam sentados na região
sombria da morte, para estes raiou a luz".

Três pequenas cidades podem orgulhar-se de haver hospedado Jesus por ocasião de Sua estada no cor-
po físico: Belém, Nazaré e Cafarnaum. Está última (tal como Nazaré) jamais aparece citada no Antigo
Testamento. Mas temos a satisfação de vê-la em Flávio Josefo (Bell.Jud.3.10, 8) uma vez; embora em
sua "Biografia" (§ 72) ele fale de uma vila "Kepharnomé". Aparece também no Talmud (Midrash Ko-
heleth, 7,20). No Evangelho, é chamada até, quando se fala de Jesus "sua própria cidade" (hê idía pó-
lis, Mat.9:1). Também Ptolomeu (Geografia, 4, 16, 4) a cita. Tudo isso corrobora a historicidade dos
Evangelhos. Dela hoje restam as ruínas de Tell Houm, a noroeste do Lago de Tiberíades.
Situava-se no território atribuído à tribo de Neftali, mas era limítrofe do da tribo de Zábulon. Mateus
aproveita-se disso para aplicar a Jesus o trecho de Isaías (8:23 a 9: 1). Diz o original: "No passado, o
Senhor humilhou a terra de Zabulon e a terra de Neftali; no futuro glorificará o caminho do mar, a ou-
tra margem do Jordão e a Galiléia dos gentios: o povo que caminhava nas trevas viu grande luz; sobre
os habitantes da terra das sombras uma luz brilhou".
O "caminho do mar" ia de Damasco ao Carmelo, através do Jordão (também chamada "Peréia", do
grego péran, que significa "além", e que hoje é denominada "Transjordânia").
A Galiléia dos gentios, em hebraico Ghelil hagguim. Ghelil que deu Galiléia, significa "jardim", "regi-
ão", "distrito". A cidade cosmopolita de Cafarnaum, com grande mistura de judeus e gregos, constituía
forte entreposto comercial, com ligações por terra e mar com os distritos circunvizinhos e que deman-
davam Horã, Tiro, Sidon, Síria e Egito" Daí serem tidos os cafarnaítas, pelos ortodoxos da Judéia,
como "livres-pensadores" e como "heréticos sincretistas". Mas, justamente por isso, o terreno era feraz
para a pregação de Jesus, com almas sinceras, sem hipocrisia, podendo manifestar livremente suas
crenças.

A fixação da residência de Jesus em Cafarnaum (cidade do Consolador), na Galiléia (jardim fecha-


do), dá-nos a chave da atuação da individualidade enquanto encarnada num corpo físico: manter-se
em permanente recolhimento interno, mas fazer tudo o que lhe seja possível para socorrer os demais
espíritos em suas aflições, no papel de consolador; embora não tirando as dores cármicas, dá a todos
a força necessária para suportá-las, aproveitando-lhes todo o fruto de amadurecimento que lhes tra-
zem ao espírito, não só purificando-o, como também fortalecendo-o e elevando-o a novos planos.

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C. TORRES PASTORINO

CONVOCAÇÃO DOS DISCÍPULOS

Mat. 4:18-22 Marc.1:16-21 Luc. 4:31a

18. E passeando ao longo do 16. E passeando ao longo do 31. Então, desceu a Cafar-
mar da Galiléia, viu dois mar da Galiléia, viu a Si- naum, cidade da Galiléia.
irmãos, Simão, também mão e a André, irmão de (...)
chamado Pedro, e André Simão, lançando a rede ao
seu irmão, lançando a rede mar, pois eram pescadores.
ao mar, pois eram pescado- 17. Disse-lhes Jesus: "Vinde
res. após mim e eu vos farei
19. E disse-lhes: 'Vinde após pescadores de homens".
mim, e eu vos farei pesca- 18. E imediatamente deixando
dores de homens". as redes, o seguiram.
20. Imediatamente deixaram 19. Passando um pouco adiante
eles as redes e o seguiram. viu a Tiago, filho de Zebe-
21. Jesus, seguindo adiante viu deu, e João seu irmão, que
outros dois irmãos, Tiago, estavam na barca conser-
filho de Zebedeu, e João tando as redes.
seu irmão, que estavam na 20. No mesmo instante os cha-
barca com seu pai Zebedeu, mou. Tendo deixado na
consertando as redes, cha- barca Zebedeu, seu pai,
mou. com os empregados, eles
22. Deixando imediatamente a foram após Jesus.
barca e seu pai, eles o se- 21. E entraram em Cafar-
guiram. naum. (...)

Jesus tranquilamente passeava (peritatôn) pelas margens risonhas do Lago de Tiberíades. Lago peque-
no, que mede nos pontos extremos 21 km de comprimento por 12 km de largura. Aparece ora como
"lago" ora como “mar", recebendo a denominação de Genesaré (étimo desconhecido) ou de Tiberíades,
depois que em sua margem Herodes Antipas construiu a cidade desse nome em homenagem ao Impe-
rador Tibério.
Bastante rico em peixe, essa indústria prosperava, escoando-se com facilidade e remunerando bem os
que a ela se dedicavam. O lucro devia favorecer a companhia, chefiada por Pedro (que não era pobre,
pois possuía bens, que alegou ter abandonado para seguir a Jesus, cfr. Mat. 19:27).
A companhia de pesca era constituída de vários sócios: Pedro, seu irmão André, e Zebedeu, que agre-
gara como sócios também seus dois filhos Tiago e João, além de outros empregados, que prosseguiram
no trabalho depois que os quatro sócios se retiraram, para garantir-lhes o rendimento financeiro.
Ao transitar em seu passeio, Jesus surpreende os pescadores em sua faina a "lançar as redes", expres-
são técnica (amphibállontas) do ramo da pesca.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Os dois irmãos Pedro e André, assim como João, já eram conhecidos por Jesus, que os recebera ao
saírem eles do grupo do Batista, que O acompanharam na viagem a Jerusalém e no regresso à Galiléia,
passando por Samaria.
Tiago é nomeado pela primeira vez, como irmão de João, ambos filhos de Zebedeu (Zabdai) e de Sa-
lomé (Marc.15-40). Seria Salomé uma das “irmãs" de Jesus? Nesse caso, João e Tiago seriam seus
sobrinhos, e isso talvez explique a maior intimidade deles com o Mestre, acompanhando-O de perto
nas ocasiões mais importantes de Sua vida terrena.
Tiago irmão de João é conhecido com o cognome de "o maior", isto é, o mais velho, para distinguí-lo
do outro Tiago, "irmão" de Jesus, denominado "o menor", ou seja, o mais moço.
A cena do chamamento é de grande simplicidade. Os dois primeiros estavam a pescar, "lançando as
redes", enquanto os segundos estavam "na outra barca, a consertar as redes".
Jesus aproveita o fato de estarem a pescar, para demonstrar-lhes, numa frase, o apostolado a que Ele os
destinava: "pescadores de homens". Todas os quatro largam imediatamente (Kai euthús) seus afazeres
e acompanham o Mestre. Não tinham realmente necessidade de seu trabalho manual para seu sustento,
já que os empregados continuariam a tarefa, sob a direção de Zebedeu, provendo-lhes ao ganha-pão.
Anota Marcos, de fato, que Zebedeu ali permaneceu com os empregados, tendo compreendido o al-
cance da tarefa espiritual que lhes estava reservada.
Por isso também vimos Pedro, André e João, sem maiores preocupações financeiras, permanecerem
algum tempo na Judéia, como discípulos do Batista; e depois viajarem acompanhando Jesus, como
gente que sabe ter seu sustento garantido e não precisa regressar em dia marcado, para não perder o
emprego.

Neste episódio consideramos não mais um discipulado, ou seja, a aceitação, por parte da personali-
dade, das doutrinas da individualidade; mas sim a renúncia à própria personalidade, para ir em bus-
ca da individualidade. E isso é feito com a renúncia total de tudo: pais, haveres e profissão.
A um simples chamado, já preparados, eles obedecem imediatamente, sem nada perguntar, sem qual-
quer preocupação: é a adesão integral.
Daí por diante atrairão a si não mais peixes (corpos materiais) capturados com redes, aprisionados à
violência e dominados com despotismo tirânico; mas antes criaturas humanas, atraídas por amor de
modo a se chegarem espontaneamente e a permanecerem com a liberdade individual.
Aprendemos, ainda, que nem todos são chamados: Zebedeu continuou em seu labor material, porque
sua evolução lhe não permitia aderir à individualidade. Permaneceu, pois, com "os empregados" (veí-
culos inferiores) a cuidar das coisas físicas.
O grupo de cinco partiu das margens do lago e penetrou a "cidade do Consolador" (Cafarnaum),
prontos todos a iniciar a tarefa de levar conforto aos que sofriam, de enxugar as lágrimas dos que
choravam, de reavivar a luz dos que estavam nas trevas, de abrir os ouvidos dos que nada percebiam
espiritualmente, de servir de muletas aos que coxeavam no caminho do progresso, de limpar os densos
fluídos dos leprosos morais: ministério de Consolação e magistério de espírito, calor para os cora-
ções e luz para as mentes.

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C. TORRES PASTORINO

CURA DE UM OBSIDIADO

MARC. 1:21-28 Luc 4:31-37

21. ... E imediatamente nos sábados, indo à si- 31. ... E ensinava a eles nos sábados,
nagoga, ensinava. 32. e admiravam-se muito de seu ensinamento,
22. E admiravam-se muito de seu ensino, por- porque sua palavra fora com autoridade.
que ele ensinava como quem tinha autori- 33. Estava na sinagoga um homem que tinha
dade, e não como os escribas. um espírito de um desencarnado atrasado, e
23. Ora, estava na sinagoga deles um homem, bradou em alta voz:
com um espírito atrasado, que gritou: 34. "Ora, que (importa) a nós e a ti, Jesus Naza-
24. "Que (importa) a nós e a ti, Jesus Nazareno? reno ? Vieste a perder-nos? Eu sei quem és:
Vieste a perder-nos? Bem sei quem és: o o santo de Deus".
santo, de Deus". 35. Jesus repreendeu-o dizendo: "Cala-te e sai
25. Mas, repreendendo-o, disse Jesus: "Cala-te dele". E, tendo-o lançado por terra no meio
e sai dele". (de todos), o desencarnado saiu dele sem tê-
lo magoado.
26. Então, agitando-o violentamente e bradan-
do em alta voz, o espírito atrasado saiu dele. 36. Todos ficaram admirados, e perguntavam
uns aos outros: "Que palavra é essa, pois
27. E todos ficaram tão admirados que uns
com autoridade e poder ordena aos espíri-
perguntavam aos outros: "Que é isto? que
tos atrasados e eles saem"?
novo ensinamento é esse? Porque com auto-
ridade ele manda também aos espíritos 37. E por todos os lugares da circunvizinhança
atrasados e eles lhe obedecem"! divulgava-se sua fama.
28. Divulgou-se logo sua fama por toda a cir-
cunvizinhança da Galiléia.

Como era de seu hábito, num sábado Jesus entra na sinagoga. Não se fala de seus discípulos, mas pa-
rece evidente que Pedro, André, Tiago e João que moravam em Cafarnaum deviam lá achar-se, como
bons judeus. Era costume serem convidados os visitantes e assistentes a falar, e isso muito favoreceu a
Jesus, e mais tarde aos apóstolos, a divulgação da nova doutrina diante dos que se interessavam por
assuntos religiosos.
Marcos assinala a admiração dos circunstantes pela autoridade com que Jesus falava, “não como os
escribas” que, de modo geral, levavam os comentários decorados: tanto que o maior elogio que se lhes
podia fazer era de “não dizerem uma só palavra se a não tivessem ouvido de seu mestre". O povo ha-
bituara-se, pois, a ouvir sentenças pré-fabricadas e recitadas, e não interpretações vivas e palpitantes,
objetivas e, acima de tudo, cheias de amor (Lc,4:22).
Encontrava-se na sinagoga um homem obsidiado por um "espírito" atrasado ( άиάθαρτος = não purifi-
cado, não evoluído); aparece essa expressão 23 vezes em o Novo Testamento referindo-se não a uma
pureza legal, mas moral.
Lucas esclarece bem que se trata de "um espírito de um desencarnado" ( πνεϋµα δαιµονίου ) o qual era
ainda não purificado ou atrasado ( άиάθαρτου ) em genitivo, concordando com "desencarnado".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Como desencarnado, embora atrasado, estava apto a ver a aura magnificamente luminosa de Jesus e a
pressentir que seu domínio sobre o obsidiado, que ele subjugava, teria que terminar. Lança então a
exclamação: "que ( importa) a nós e a ti, Jesus Nazareno" o que este sofre? A expressão τί ήµίν иαί σοί
(que analisamos à pág, 158/9 do vol, 1.º) não é um hebraísmo (como afirma Pirot, vol. 9, pág. 415), já
que era empregada também por autores gregos que nenhum contato tinham com os israelitas, embora
se encontrasse também no hebraico ‫ מח־בגו ךבד‬, tendo sido usada no Antigo Testamento.
O "santo de Deus", ‫ קדרש‬exprime "o consagrado" ao serviço divino, que em grego, άγιος tem precisa-
mente o sentido de "consagrado à divindade, santo, puro", quando se refere a pessoas.
Jesus não conversa nem discute: impõe-lhe silêncio e o desliga do obsidiado. O ato do desligamento
fluídico das duas auras (a do desencarnado que domina e a do encarnado subjugado) provoca "violenta
agitação"; e a angústia da separação faz que o obsidiado grite: todos esses fatos são corriqueiros nas
sessões espíritas, quando se realiza o mesmo ato do desligamento de obsessores violentos. Mas a li-
bertação é feita.
Dá-nos Lucas o pormenor de que o obsidiado foi "lançado por terra", como se houvera perdido repen-
tinamente o ponto de apoio que o sustentava. Também essa modalidade não é rara em nossos dias.
Assinala-se a admiração dos assistentes. Todos conheciam os métodos “religiosos" do exorcismo, que
dificilmente surtiam efeito, por falta de "autoridade moral” dos exorcistas e pelo desconhecimento da
técnica obsessória. E o que os impressiona é o poder psíquico de dominar os desencarnados atrasados
que, quase sempre, são renitentes, teimosos e irreverentes, não obedecendo jamais a quem não possua
real força moral para impor-lhes o afastamento.
Logicamente a fama se espalhou pelas redondezas, apressando-se cada qual a contar as novidades
(neste caso as "Boas-Novas") de que aquele Jesus de Nazaré era senhor de forças notáveis, acima do
comum dos homens.

Jesus, que representa a individualidade, ensina-nos com seu exemplo que mesmo aqueles que já não
necessitam dos "trilhos" de uma religião, nada perdem em sujeitar-se às tradições de seu povo; antes,
devem aproveitar as situações que se apresentam para elucidar a todos as grandes verdades profun-
das do Espírito. Deve, portanto, frequentar o círculo religioso a que se acha ligado, seja ele qual for.
Mostra-nos que, nesses ambientes, deve o iluminado agir com força e autoridade, mas sobretudo com
amor, atendendo aos necessitados, servindo a sua necessidade de evolução. Não obstante, deve evitar
que qualquer indiscrição queira revelá-lo como superior aos outros; então, imporá silêncio, todas as
vezes que um desencarnado tente revelar quem ele é. Nenhuma dúvida, porém, quanto à ação que lhe
seja possível, em benefício de qualquer necessitado espiritual.
Outra interpretação do texto revela-nos que nossa individualidade deve agir com autoridade cada vez
que descobre que nossa personalidade está dominada por “espíritos atrasados” de nossos vícios mi-
lenares: egoísmo, ambição, ódios, etc. Quando nossa iluminação perceber que nosso "espírito perso-
nalístico" é dominado por qualquer vício, deve imediatamente ordenar seu aniquilamento, embora
nosso “espírito atrasado" se contorça, grite e nos lance por terra, sofrendo ao destacar-se do vício.
Sem essa força moral do Espírito, jamais poderia o “espírito" progredir: permaneceria séculos (como
tem permanecido) preso às ilusões demolidoras de nossa ascensão espiritual, aos apegos desordena-
dos às coisas e prazeres materiais transitórios. Lição oportuna e necessária para nossa evolução.

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C. TORRES PASTORINO

CURA DA SOGRA DE PEDRO

Mat. 8:14-15 Marc. 1:29-31 Luc. 4:38-39

14. Tendo entrado Jesus na 29. Em seguida, tendo saído da 38. Tendo-se levantado e saído
casa de Pedro, viu que a sinagoga, foram com Tiago da sinagoga, entrou na casa
sogra deste estava de cama e João à casa de Simão e de Simão. E a sogra deste
e com febre; André. estava deprimida por vio-
lenta febre; e pediram-lhe a
15. e tocando-lhe a mão, a fe- 30. A sogra de Simão estava de
favor dela.
bre a deixou; então ela se cama com febre, e logo lhe
levantou e os servia. falaram a respeito dela. 39. Ele, inclinando-se para ela,
repreendeu a febre e esta a
31. Então, aproximando-se da
deixou; e logo se levantou e
enferma, e tomando-a pela
os servia.
mão, levantou-a; a febre a
deixou e ela começou a ser-
vi-los.

Ao terminar o culto na sinagoga, dirige-se Jesus à casa de Pedro e de André (o que confirma a presen-
ça dos dois que, naturalmente, saíram junto com Jesus); nessa casa, segundo a tradição, achava-se
Jesus hospedado durante sua vida pública. Embora natural de Betsaida (João, 1:44) Pedro habitava em
Cafarnaum, seja por motivo de seu casamento (residia com a sogra), seja por causa de sua "Sociedade
de Pesca".
Regressando a casa, encontraram a sogra de Pedro (cujo nome ignoramos) atacada de febre. Comuns
eram essas febres na Palestina, mormente nos locais vizinhos a lagos, onde grassava o impaludismo
provocado pelos mosquitos muito numerosos, sem que se pusessem em prática regras de higiene. Lu-
cas diz-nos tratar-se de "violento acesso de febre". Mateus assinala que Jesus "viu"; Marcos que "lhe
falaram" a respeito dela, como que desculpando-se de lhe não poder ser dada assistência; Lucas escla-
rece que "pediram" a favor dela.
Jesus inclina-se sobre a doente, toca-a com a mão e a levanta. A febre desaparece instantaneamente, e
bem assim a fraqueza superveniente a esses acessos de impaludismo. A enferma sente-se bem forte
para servir a todos com solicitude.
Nada se fala da esposa de Pedro: é a sogra que parece governar a casa.

Pensam alguns que a criatura que atingiu a vida permanente na individualidade não deve mais aten-
der ao círculo familiar, mas apenas aos estranhos. Jesus ensina-nos que isso constitui um erro. Os
familiares merecem tanto nossa atenção quanto os estranhos, porque nos são mais achegados; e essa
aproximação mostra-nos que eles precisam de nós ainda mais que os outros. Portanto, os parentes
não devem ser menosprezados, mas atendidos com solicitude. Se bem que devamos ter desapego da
família, jamais devemos abandoná-la. O mesmo comportamento deve ser mantido com os familiares
de amigos e condiscípulos.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

OUTRAS CURAS

Mat. 8:16-17 Marc. 1 :32-34 Luc. 4:40-41

16. Ao chegar a tarde, trouxe- 32. Ao chegar a tarde, estando 40. Ao por do sol, todos os que
ram-lhe muitos obsidiados; sol já posto, traziam-lhe to- tinham enfermos de várias
e ele expeliu os espíritos dos os doentes e obsidiados: moléstias lhos trouxeram; e
com a palavra e curou to- 33. e toda a cidade estava reu- ele, impondo as mãos sobre
dos os doentes, nida diante da porta. cada um deles, os curou.
17. para cumprir-se o que foi 34. Então curou muitos que se 41. Também de muitos saíram
dito através do profeta achavam doentes de diver- os espíritos desencarnados,
Isaias: "Ele mesmo tomou gritando: "Tu és o Filho de
sas moléstias e expulsou
as nossas fraquezas, e re- Deus"'. Ele, repreendendo-
muitos desencarnados e
moveu nossas enfermida- os, não lhes permitia que
não permitiu que os desen-
des". carnados falassem, porque falassem, porque sabiam
sabiam (quem ele era). que ele era o Cristo.

A libertação do obsidiado, na sinagoga, espalhou-se por toda Cafarnaum, muito favorecendo a divul-
gação o fato de, aos sábados, não podendo trabalhar nem perambular, ficarem os israelitas à frente de
suas casas, em longas conversas, cujo teor corria de rua em rua.
O resultado é que, logo após terminar o descanso ritualístico, às 18 horas ("logo após o por do sol",
como bem esclarece Marcos), todos se movimentarem para levar seus enfermos e obsedados à residên-
cia de Jesus, na casa de Pedro.
As expressões "muitos" e "todos" são equivalentes. Mateus cita Isaías (53:4) pelo texto hebraico-
massorético; aí, porém, se afirma que "o Messias deverá tomar sobre si (fisicamente) as enfermidades",
o que não é o caso.
Lucas mostra Jesus a proibir que os "espíritos" desencarnados falem a seu respeito, "porque sabiam
que ele era o Cristo". A todos Jesus atendia carinhosamente, livrando os obsidiados e curando os en-
fermos.

Mais uma lição de SERVIÇO, que jamais deve ser negado pela individualidade: é através da liberta-
ção das personalidades ainda presas ao resgate das dívidas do passado, que as criaturas poderão um
dia compreender o caminho que se lhes abre diante. Só uma pessoa, que pode superar seus proble-
mas, consegue atingir a visão da estrada a percorrer.
Ensina-nos, também, que mesmo o Espírito liberto, e a viver na individualidade, deve cuidar de seus
veículos físicos, procurando curar-se de suas doenças, libertando-os de seus apegos e obsessões pelas
coisas materiais. Pelo fato de havermos passado a um degrau superior, nem por isso devemos descui-
dar, e muito menos maltratar, os veículos inferiores que nos ajudam na caminhada: o motorista deve
cuidar bem do seu automóvel, senão poderá este deixá-lo no meio da estrada.
Evitemos, porém, intransigentemente que nos teçam elogios, ainda que esses elogios digam a verdade.
Não basta gabar-se: nem mesmo que os outros o façam deve ser permitido por nós. Por mais elevados
que estejamos, seremos os primeiros a reconhecer que muito nos falta a percorrer: a humildade REAL

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C. TORRES PASTORINO
é, como definiu uma grande amiga nossa, "o conhecimento de nossa participação na Vida", portanto a
simplicidade da aceitação daquilo que se nos apresenta, e não as palavras e impressões que possam
provir de outros a nosso respeito.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

ORAÇÃO

Marc. 1:35-38 Luc.4;42.43

35. Levantando-se antes da madrugada, noite 42. Sendo já dia, saiu e foi a um lugar deserto; e
ainda, saiu e foi a um lugar deserto, e aí as multidões o Procuravam e, tendo-o en-
orava contrado, queriam detê-lo para que não as
deixasse.
36. Simão e seus companheiros foram procurá-
lo, 43. Mas ele lhes disse; "Também às outras ci-
dades eu preciso dar as boas notícias do
37. e, tendo-o encontrado, disseram: "todos te
Reino de Deus, pois para isso fui enviado".
buscam".
38. Disse-lhes Jesus: "Vamos a outros lugares,
às povoações vizinhas, a fim de que eu tam-
bém aí pregue, porque para isso vim".

Após o trabalho intenso da noite do sábado, Jesus sai da casa de Pedro "antes da madrugada, noite ain-
da" (Marcos) ou "logo que surge o dia" (Lucas), pormenores que não trazem preocupação ao espírito.
Dirige-se a um “lugar deserto". Marcos, cujas narrativas são sempre mais pitorescas e cheias de viva-
cidade, esclarece que "foi orar", coisa não assinalada aqui por Lucas que, no entanto, é o evangelista
que mais cita essa particularidade.
Simão e seus companheiros vão procurá-lo, para informar-Lhe que há muita gente que O busca. Mas
Jesus diz que precisa ir a outras cidades para anunciar a Boa-Nova, pois "para isso VIM" (Marcos) ou
"FUI ENVIADO" (Lucas). Outra vez a confirmação da preexistência do espírito ao nascimento: só
vem ou é enviado quem já existe: se o espírito fora criado no momento de nascer, só caberia a expres-
são: "fui criado" para isso.

Demonstra-nos Jesus, com seu exemplo, que por mais elevado que seja ou esteja o Espírito, não pode
prescindir da união com Deus em isolamento, numa prece que o fortaleça. Muitos acreditam que o
trabalho, sobretudo espiritual, é uma oração. Sem dúvida que é. Mas não basta. É indispensável ora-
ção isolada, do Espírito que se une a Deus em seu coração. E para isso, é indispensável a solidão, o
afastamento do bulício do mundo, nem que seja, por alguns minutos ao dia, ou à noite.
Todas as criaturas são enviadas à Terra para uma tarefa. e seu progresso consistirá em cumpri-lo à
risca. Não é portanto justo que, para atender a quem nos chama, por mais sofredor que seja. tenha-
mos que desviar o rumo de nossa rota: antes de tudo e acima de tudo, o cumprimento de Vontade divi-
na a nosso respeito. Quando podemos, atendemos com todo interesse aos que necessitam de nós. Mas
quando isso nos desviasse do caminho, sigamos nosso roteiro, porque é mais importante do que uma
"caridade" mal interpretada. Não temos direito de falsear nossos deveres espirituais, e o primordial
dever é obedecer à tarefa que nos foi imposta. Jamais esqueçamos que a LEI não comete injustiças: se
alguém sofre, é resultado de seus próprios atos no passado e se, no momento, não podemos atender
porque nossa tarefa nos desvia do caminho deles, isso significa que a hora de eles serem aliviados eu
libertados ainda não soou.
Também nos ensina este trecho, que jamais deve o Espírito deixar de fazer sua oração de união com
Deus, embora os necessitados (nossos veículos inferiores) nos chamem para distrair-nos dessa neces-

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C. TORRES PASTORINO
sidade vital. O caminho para Deus, por si só, os ajudará. Precisamos erguer-nos a outros planos:
saibamos não dar ouvidos aos apelos, sobretudo aos desordenados, de nossos veículos (corpo, sensa-
ções, emoções, intelecto). Só assim progrediremos para nossa união com Deus.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

NO BARCO DE PEDRO
Luc. 5:1.3
1. Apertado pela multidão que ouvia a palavra de Deus, estava Jesus em pé junto ao
lago de Genesaré,
2. e viu dois barcos junto à terra; mas os pescadores haviam desembarcado e lavavam
as redes.
3. Entrando em um dos barcos, que era de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco
da terra; e sentando-se no barco, dali ensinava à multidão.

Após tê-Lo ouvido várias vezes nas sinagogas, aos sábados, a multidão se habituara à Sua palavra
"cheia de amor". E onde quer que O visse, cercava-O para avidamente beber seus ensinamentos.
Assim ocorreu que, ao caminhar pela praia do Lago de Genesaré, foi descoberto pelo povo, que imedi-
atamente O envolveu, comprimindo-O. Jesus observou dois barcos que haviam chegado à praia, cujos
pescadores lavavam as redes. Pediu a Simão que O recebesse em seu barco e o afastasse um pouco da
terra, e assim falou ao povo.

Lição preciosa. Quando uma criatura começa a "ter fama", geralmente é muito procurada, porque
todos querem "ouvir", embora ainda não pratiquem o que ouvem. Quando, pois, acossados pela "mul-
tidão", devem eles saber manter a distância, não deixando de ensinar, mas também não permitindo
que um contato demasiado estreito se estabeleça.
Jesus sai da terra (do físico) passando à barca de Pedro (intelecto), sobre as águas (interpretação
pelo espírito e não pela letra). Foge assim às sensações e emoções. ensinando segundo o raciocínio e
a razão, falando à mente e ao espírito.
Todas as vezes que a multidão de sensações (curiosidade) e de emoções (admiração e pasmo) nos qui-
serem apertar para buscarmos o conhecimento espiritual, sensitivo ou emotivo, devemos saber subir à
barca de Pedro e afastar-nos da terra, para estudar apenas com o intuito de compreender, e não de
satisfazer à nossa parte inferior. Nada de admitir a curiosidade e a emoção em nosso aprendizado:
compreender, sim, para PRATICAR; e não apenas ouvir para satisfação de nossa vaidade.

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C. TORRES PASTORINO

PESCARIA INESPERADA
Luc. 5:4-11
4. Quando acabou de falar, disse a Simão: "Faze-te ao largo e lançai vossas redes para a
pesca".
5. E respondendo, disse Simão: "Mestre, tendo trabalhado toda a noite, nada apanha-
mos; porém sobre tua palavra lançarei as redes".
6. Feito isto, apanharam grande quantidade de peixes, e as redes rompiam-se.
7. Acenaram aos companheiros que estavam no outro barco, para virem ajudá-los; eles
vieram e encheram ambos os barcos a ponto de ameaçarem afundar.
8. Vendo isso, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus, dizendo: "Retira-te de mim, Se-
nhor, porque sou um homem errado"!
9. A admiração à vista da grande pescaria que haviam feito o invadiu e a todos os que
estavam com ele,
10. como igualmente a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão. Disse
Jesus a Simão: "Não temas, de ora em diante serás pescador de homens".
11. E levados os barcos para terra, deixando tudo, seguiram-no.

Depois de ter falado ao povo, Jesus diz a Pedro que se afaste da margem e lance a rede. O velho pes-
cador experimentado nas lides no mar argumenta que, nada tendo apanhado a noite toda, de dia menos
probabilidade havia mas, acrescentou, "creio em tua palavra". E a pescaria foi extraordinária, tanto que
tiveram que pedir auxílio aos companheiros da outra barca da sociedade, dirigida por Zebedeu.
Pedro dá-lhe o título de epistata, que traduzimos por "mestre", embora não seja bem esse o sentido. A
palavra epistátês só é usada em o Novo Testamento por Lucas, neste e em mais quatro passos (8:24;
9:33; 9:49 e 17:13), e significa literalmente "o que está acima", então: chefe, comandante, patrão, su-
pervisor, diretor; a palavra que traduz fielmente o termo grego, é o inglês master. Após a pescaria, Pe-
dro o denomina "senhor", mais respeitosamente. Aqui é a primeira vez que Lucas acrescenta ao nome
de Simão o cognome Pedro, mas só no capítulo 6.º explicará que foi Jesus que lho impôs.
Neste ponto é que Lucas afirma que eles abandonaram "tudo" para seguir Jesus, depois da promessa
feita a Pedro de torná-lo "pescador de homens".
Pedro, temperamental como sempre, exclama patético: "retira-te de mim, porque sou um homem erra-
do"; é o exagero típico do temperamento inflamado, que vai às últimas consequências.

Várias lições aprendemos neste trecho.


Em primeiro lugar, a necessidade de "fazer-nos ao largo", buscando a amplidão oceânica do Pai Infi-
nito que nos envolve e permeia. A ordem que a individualidade (Jesus) dá ao intelecto (Pedro), para
que mergulhe mar adentro de si mesmo, lançando as redes para aprender as grandes verdades eternas
que vivem e nadam no pélago divino, ao alcance dos que sabem e podem captá-las esclarece-nos qual
o caminho a seguir.
Depois, o sempre crítico intelecto analista, com a pretensão de saber deduzir consequências e tirar
ilações: "já buscamos essas verdades durante toda a noite e nada encontramos": não viu que confes-
sava ter buscado à noite, nas trevas, durante muito tempo, e confia mais em si, em sua experiência, do

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SABEDORIA DO EVANGELHO

que no poder do Espírito. Todavia, apesar de convencido da inutilidade dessa tentativa, resolve bus-
car: arrisca-se a um fracasso, para ele certo, mas, em última análise, decide confiar em alguém que
está "acima dele" (epistata).
E sua pesquisa obtém resultado surpreendente. Os peixes (símbolos da pisces que então se iniciava,
escolhido para representar, entre os primeiros cristãos, o próprio Jesus) exprimem bem o porvir pró-
ximo da humanidade de então.
O intelecto confunde-se com o encontro inesperado de tanta sabedoria, que ele nem desconfiava exis-
tisse no fundo daquele oceano. Mas diante da Luz, à luz do dia, vem-lhe à rede uma quantidade tão
grande de verdades, que o intelecto se perturba, tonteia, e aflito pede que o Espírito dele se afaste,
porque, na realidade, conheceu nesse instante o imenso erro de sua personalidade falha: "sou um ho-
mem errado"! Que posso eu saber? Como poderei viver diante de Ti, Sabedoria Incriada" que me ilu-
minas? Como suportarei sem naufragar a imensidade dessas verdades?
E é pedido socorro aos companheiros (aos demais veículos da personalidade: emoções sensações e
até corpo físico), para que a força vigorosa e arrasadora das Verdades que conquistou no mar alto da
meditação, no encontro mudo com o Cristo Interno, com a Consciência Cósmica, não faça soçobrar o
pequeno homem viciado no cotidiano mórbido, ilusório e incolor.
Quando o intelecto, acabrunhado, se confessa derrotado totalmente pelo Espírito, diz-lhe este que não
tema: esse mesmo intelecto, já iluminado pelas verdades eternas já conquistadas, terá doravante outra
tarefa: esclarecer as criaturas humanas, iluminando-lhes os caminhos," constituir-se em luz para
atrair para o Cristo os homens, através do ensino das Verdades profundas, que experimentou pesso-
almente.
Compreendendo a profundidade e importância da nova tarefa proposta, os discípulos todos (os veí-
culos: intelecto, emoções, sensações, etc) decidem entregar-se total e definitivamente à individualida-
de, ao Espírito, ao Cristo interno, e segui-lo incondicionalmente.
As coisas da terra (o barco) são deixadas na terra, e o "espírito" segue o novo rumo brilhante, que o
conduzirá à felicidade imperecível".

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C. TORRES PASTORINO

JESUS PERCORRE A GALILÉIA

Mat. 4:17 e 23 Marc. 1:14-15 e 39 Luc. 5:15 e 44

18. Desde esse tempo começou 14. (Depois que João foi aprisi- 15. E ele ensinava nas sinago-
Jesus a pregar e a dizer: onado, Jesus foi para a Ga- gas deles, sendo elogiado
"Reformai vossa mente, liléia) por todos.
porque se aproximou o rei- 15. anunciando a Boa-Nova e . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
no dos céus. dizendo: "O tempo comple- 44. E pregava nas sinagogas da
........................... tou-se e o reino de Deus Judéia.
aproximou-se: reformai
23. Perambulava Jesus por
Vossa mente e confiai na
toda a Galiléia, ensinando
Boa-Nova".
nas sinagogas deles, ensi-
nando a Boa-Nova do reino . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
e curando todas as enfer- 39. E foi por toda a Galiléia
midades e doenças entre o pregando nas sinagogas
povo. deles e expelindo os desen-
carnados (obsessores).

Encontramos neste ponto um resumo das atividades de Jesus com o cerne de sua pregação.
Em Marcos, afirma o Mestre que "o tempo se completou", como se dissesse "esgotou-se o prazo" ou
então "chegou a época" (Kairós).
A seguir esclarece que o "reino dos céus (Mat.) ou de Deus (Marc.) se aproximou", palavras que já
haviam sido ditas pelo Batista. Devemos entender REINO no mesmo sentido que usamos reino mine-
ral, vegetal, animal, hominal e, prosseguindo na escala, reino celestial ou reino divino.
A terceira proposição pede a reforma mental, a modificação do modo de pensar, a elevação da mente
(transmentação) acima das coisas materiais, ilusórias e passageiras.
A quarta assertiva é uma ordem, também no imperativo como a anterior: "confiai na Boa-Nova". O
verbo grego pisteúô seguido da preposição "en", exprime rigorosamente repousar a mente em (algo ou
alguém), isto é, CONFIAR Neste ponto Jesus pede que os homens confiem na Boa Notícia que lhes
traz. Mais tarde (João, 14:1) pedirá que confiem em Sua pessoa. Com esta quarta parte, Jesus dá um
passo além da pregação do Batista, que não falou na Boa-Nova.
Essa é a síntese do que Jesus dizia aos sábados nas sinagogas de toda a Galiléía. Uma das característi-
cas do desempenho de Sua missão, como seria mais tarde a dos apóstolos, foi a pregação nas sinago-
gas. O termo grego sunagôgé significa propriamente "reunião" (em hebraico keneseth) que foi aplica-
do, ainda, ao local onde elas se realizavam.
Há uma variante nos manuscritos de Lucas, A, D, X, e outros, que trazem "da Galiléia", enquanto
"aleph", B, C, L, Q, R, apresentam "da Judéia". Muitos comentadores julgam que a palavra "Galiléia"
é uma correção, admitindo como o certo, aqui, o termo "Judéia", usado por Lucas neste local para de-
signar genericamente a Palestina, e não a província da Judéia. Realmente, em outros locais (1:5; 7:17;
23:5) Lucas usa Judéia para designar a Terra de Israel. Pelo contexto, verificamos que, de fato, se trata
realmente da Judéia.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Seguindo Mateus verificamos que Jesus estabeleceu como centro de fixação a cidade de Cafarnaum,
irradiando de lá pelas zonas circunstantes, por onde, literalmente circulava (periêgen). Mateus e Mar-
cos assinalam, ainda, que curava todas as enfermidades e expulsava os obsessores.

A obrigação da individualidade para com as outras criaturas são bem claras: esclarecer a humanida-
de, sem forçá-la, anunciando-lhe o reino celestial, isto é, a possibilidade de a criatura humana atingir,
ainda nesta Terra, sua máxima expressão espiritual, que já está a seu alcance.
Proveniente dos reinos inferiores da natureza, o "espírito" que atingiu o reino hominal ainda tem em
si muito do reino animal. Mas chegou a um ponto evolutivo, chegou a época, em que ele já se acha
capacitado a sair do animalismo-intelectualizado (hominal) para alcançar o estado de homem-
espiritual (reino celeste), penetrando com seu “espírito" no reino superior ao atual, o reino divino ou
espiritual.
Não é absolutamente fora da matéria, após a desencarnação, em estado de “espírito desencarnado"
ou no astral, que isso poderá ser conseguido. Só enquanto mergulhado na carne ou sepultado no cor-
po denso, é que terá essa possibilidade ("se o grão de trigo não cair na terra (encarnar) e morrer, não
produzirá frutos", João, 12:24). O reino celestial é conseguido enquanto encarnado o "espírito", não
podendo sê-lo fora da matéria, onde apenas o "espírito" fixa no subconsciente aquilo que conseguiu
aprender como encarnado. Deverá, pois, aguardar novo nascimento para progredir mais um passo.
Houvera a possibilidade de evoluir fora da matéria, e seria dispensável, inútil e até prejudicial o mer-
gulho na carne, que nos embota a mente e causa tantos atrasos e erros. Constituiria uma excrescência
da Natureza (de Deus) forçar a criatura a fazer esse estágio desnecessário, quando lhe seria possível
evoluir muito mais rápida e facilmente enquanto consciente no mundo espiritual. Ora, se todos pas-
sam e são obrigados a passar pela encarnação, isto significa que a encarnação é uma porta indispen-
sável à evolução do "espírito", porque a Natureza não dá passos inúteis.
Aprendemos, pois, que o reino celestial já se aproxima da humanidade, no sentido de que a humani-
dade já se aproximou, em sua lenta evolução, do reino celestial. Já atingiu o ponto, já cumpriu seu
tempo, já está na hora de pensar seriamente em sua espiritualização. Esse foi o grande aviso, a ine-
narrável Boa-Nova que Jesus veio trazer a todos nós, e que todos temos obrigação de dizer a todas as
criaturas.

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C. TORRES PASTORINO

CURA DO LEPROSO

Mat. 8:2-4 Marc. 1:40-45 Luc. 5:12-16

2. E aproximando-se um le- 40. Chegou a ele um leproso e, 12. E aconteceu, então, estar
proso prostrou-se diante pedindo de joelhos, disse: ele em uma das cidades, e
dele dizendo: "Senhor, se "Se quiseres, podes limpar- eis um homem cheio de le-
quiseres podes limpar-me" me". pra, vendo Jesus, caiu de
rastros e rogou-lhe: "Se-
3. E estendendo a mão Jesus 41. Compadecendo-se Jesus,
nhor, se quiseres, podes
tocou-o dizendo: "Quero, estendeu a mão e tocou-o,
limpar-me".
fica limpo". No mesmo ins- dizendo: "Quero, fica lim-
tante ficou limpa sua lepra. po". 13. Estendendo a mão, Jesus
tocou-o dizendo: "Quero,
4. Disse-lhe Jesus: "Olha, a 42. No mesmo instante desapa-
fica limpo". E no mesmo
ninguém o digas, mas vai receu-lhe a lepra e ficou
instante desapareceu-lhe a
mostrar-te ao sacerdote e limpo.
lepra.
fazer a oferta que Moisés 43. Advertindo-o energicamen-
ordenou, para lhes servir te, logo o despediu,
14. Ordenou-lhe Jesus a nin-
de testemunho". guém falasse, mas: "vai
44. dizendo: "Olha, não digas mostrar-te ao sacerdote e
nada a ninguém, mas vai fazer a oferta pela tua lim-
mostrar-te ao sacerdote o peza, conforme ordenou
oferece-lhe pela tua limpe- Moisés, para lhes servir de
za o que Moisés ordenou, testemunho".
para lhes servir de teste-
15. Porém a palavra (fama) a
munho".
respeito dele cada vez mais
45. Mas ele, ao sair dali, come- se divulgava e grandes mul-
çou a anunciar muitas coi- tidões afluíam para ouvi-lo
sas e a divulgar o Palavra, e serem curados de suas en-
de modo que (Jesus) já não fermidades;
podia entrar abertamente
16. mas ele retirou-se para os
numa cidade, mas ficava
desertos a orar.
fora, em lugares desertos; e
de todos os lados iam ter
com ele.

Um dos fatos mais impressionantes da narrativa evangélica é a purificação desse leproso, que se entre-
ga totalmente ao arbítrio de Jesus, demonstrando a confiança mais ilimitada, e deixando toda a ação ao
critério do Mestre: "se queres"... Nada pede: apresenta o fato e confessa sua convicção íntima de que
sua limpeza depende exclusivamente da vontade de Jesus. No dizer de Marcos, Jesus se comove com
essa expressão de simplicidade e confiança, e responde também laconicamente, mas unindo a ação às
palavras: "quero". Sem temer as prescrições legais que o proíbem, toca o leproso com sua mão, e ao
invés de tornar-se impuro legalmente, purifica-o da lepra: "fica limpo".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

FIGURA “A Cura do Leproso”

A lepra era um dos grandes flagelos da Palestina a essa época, sobretudo a que eles chamavam "lepra
branca", por causa das manchas brancas que se focalizavam na pele, transformando-se posteriormente
em inchações, acabando por caírem os membros aos pedaços. Hoje é mais conhecida como “leonina",
em vista das deformações faciais .
O leproso era afastado do convívio dos centros habitados, sendo expulsos para lugares desertos. Era
obrigado a gritar, à aproximação de gente: “tamê, tamê" (impuro, impuro). Realmente, a lepra era con-
siderada mais uma impureza que uma doença (cfr.Lev. cap.13 e 14), tanto que o leproso pede que
Jesus o purifique, e não que o cure.

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C. TORRES PASTORINO
Embora considerada incurável, Moisés estabelece um ritual para esse caso (Lev.14:2 a 32): ao ficar
purificado, deveria oferecer em sacrifício, se fosse rico, uma ovelha e dois cordeiros e, se pobre, um
cordeiro e duas rolinhas. Verificada a purificação pelos sacerdotes, o ex-leproso retomava sua posição
na sociedade.
Não podendo entrar na cidade, o leproso aguarda Jesus na estrada e, ao vê-lo passar, lança seu apelo
sincero e patético, humildemente prostrado com o rosto em terra.
Logo após a cura, Jesus adverte-o "severamente" que nada conte a ninguém do que ocorreu, e manda-o
fazer a oferta ritual e apresentar-se aos sacerdotes para verificação da cura. Afirmam os exegetas que
esses constantes apelos de Jesus de nada dizerem os beneficiados, prende-se ao "segredo messiânico";
no entanto, vemos nisso apenas a natural modéstia dos Espíritos Superiores, que não proclamam, nem
gostam que os outros o façam, sua superioridade sobre as demais criaturas.
Lucas mais uma vez anota que Jesus se retirou para orar.

Essas curas, narradas com pormenores pelos evangelistas, parece terem sido escolhidas com intuito
de esclarecer ensinamentos preciosos, relativos ao modo de agir com aqueles que se encontram nos
diversos graus evolutivos, resgatando erros do passado ou fixados nos vícios do presente.
De cada um falaremos em seu lugar.
Mas de qualquer forma anotemos que as curas assim salientadas referem-se a: cegueira, surdez, atro-
fia, corcunda, hidropisia, hemorragia, paralisia e lepra. Algumas correspondem a males do duplo
etérico (nervos) como a corcunda (desvio dos ossos), a atrofia (ressecamento dos músculos) e a para-
lisia (afrouxamento dos nervos).
Outras dizem respeito ao corpo astral, quais a hidropisia (excesso de água), a hemorragia (perda de
sangue) e a lepra (apodrecimento dos tecidos).
E duas referem-se ao intelecto: a surdez (incapacidade de receber, causada pelo orgulho que incha e
nada recebe de fora) e a cegueira (incapacidade compreender, causada pela vaidade que obumbra o
raciocínio).
Todas elas se refletem no corpo físico, o veículo mais externo e mais denso da personalidade, moldado
pela mente de cada um, segundo sua própria capacidade modeladora.
Neste caso particular, encontramos uma personalidade que, diante do sofrimento agudo e prolongado,
conquistou a humildade e reconheceu-se "imundo". Verificou que se achava carregado de fluídos pe-
sados que se exteriorizavam no corpo físico, e então volta-se para a individualidade, para o Espírito,
e confessa que, se ele, o Espírito, o quiser, poderá limpá-lo.

A técnica da purificação do corpo astral obedece à mesma técnica da purificação do corpo físico den-
so. Pela alimentação agregamos a nós fluídos alimentícios. Destes, o que é aproveitável, é assimilado
ao corpo, como músculos, ossos, sangue, etc. Mas todos os detritos são expelidos através dos órgãos
excretores. Assim, quando o corpo astral se "alimentou" de pensamentos (palavras ou ações), tudo o
que neles houver de bom é assimilado como experiência e aprendizado; mas todos os fluídos mentais
pesados e nocivos são expelidos pelo órgão excretor do astral, que é exatamente sua condensação na
matéria, o corpo físico. Então, os fluídos pesados são evacuados através de chagas, pústulas, furúncu-
los, úlceras, canceres, lepra, etc . Verificamos, pois, que qualquer dessas modalidades que, no dizer do
povo, "purificam o sangue", também, na realidade, purificam o corpo astral (que anima o corpo justa-
mente através da circulação sanguínea: daí serem chamados "animais" aqueles que já possuem o corpo
astral desenvolvido, e, portanto, já utilizam um sistema circulatório eficiente e tanto mais completo,
quanto mais desenvolvida for sua alma (ou corpo astral). A evacuação dos fluídos pesados é feita atra-
vés do corpo denso e sobretudo através dos tecidos epiteliais, externos ou internos. Então compreen-
demos que essas "doenças" são necessárias para nossa limpeza, e indispensáveis ao nosso progresso,
sendo, por conseguinte, de suma utilidade para nossa evolução. Quando a limpeza está terminada, a

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SABEDORIA DO EVANGELHO

doença cessa. Mas, por vezes, a quantidade de matéria fecal astral é tão grande, que mais de uma exis-
tência terrena é consumida em sua evacuação. Daí o grave engano dos que pedem a cura, quando devi-
am pedir a purificação, por mais dolorosa que fosse, tal como nos ensina a lição evangélica do leproso
de Cafarnaum.

Quando, pois, a personalidade atinge esse grau de compreensão e recorre ao Cristo Interno, este
toma a iniciativa de limpar a personalidade do resultado cármico dos vícios do passado delituoso. No
entanto, não é "de graça": há mister trabalhar em setores estabelecidos para cada um, de acordo com
seus casos particulares.
No caso deste leproso (desta personalidade que havia esgotado o resgate cármico) a ordem é apre-
sentar-se ao sacerdote e cumprir o ritual, ou seja, seguir ainda a trilha de uma religião ritualística,
indispensável por enquanto a ele para evolução do próprio "espírito". Não lhe seria possível passar
do estado em que se encontrava, para um ascetismo avançado, porque a evolução não dá saltos.

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C. TORRES PASTORINO

CURA DO PARALÍTICO

Mat.9:1-8 Marc. 2: 1-12 Luc. 5: 17-26

1. Jesus entrou numa barca, 31. Alguns dias depois, foi de 17. E ocorreu num daqueles
atravessou para o outro novo Jesus a Cafarnaum, e dias em que ele estava ensi-
lado e foi para sua cidade. soube-se que ele estava em nando, e achavam-se senta-
casa. dos perto nele fariseus e
2. E trouxeram-lhe um paralí-
doutores da lei vindos de
tico em maca. Vendo Jesus 32. Muitos afluíram ali, a pon-
todas as aldeias da Galiléia,
a confiança deles, disse ao to de já não haver lugar
da Judéia e de Jerusalém; e
paralítico: "Tem ânimo, nem junto à porta; e ele
a força do Senhor estava
filho; teus erros foram res- lhes falava a Palavra.
nele para curá-los.
gatados". 33. E trouxeram-lhe um paralí-
18. Vieram uns homens, tra-
3. Ora, alguns escribas disse- tico carregado por quatro
zendo na maca um hemi-
ram consigo: "Esse homem homens .
plégico e procuravam in-
blasfema". 34. E não podendo chegar a ele troduzi-lo e pô-lo diante de
4. Mas Jesus, conhecendo-lhes através da multidão, des- Jesus.
os pensamentos, disse: "Por telharam o teto no lugar em
19. Não achando por onde in-
que pensais coisas más em que ele estava e, feita uma
troduzi-lo através da mul-
vossos corações? abertura, arriaram o estra-
tidão, subiram ao terraço e,
do em que jazia o paralíti-
5. Pois que é mais fácil? dizer: por entre os tijolos, o des-
co.
foram resgatados teus er- ceram na maca para o meio
ros, ou dizer: levanta-te e 35. Vendo Jesus a confiança de todos, diante de Jesus.
caminha? deles, disse ao paralítico:
20. E vendo este a confiança
"Filho, teus erros foram
6. Ora, para que saibais que o deles, disse: "Homem, teus
resgatados".
filho do homem tem, sobre erros foram resgatados".
a Terra, poder para resga- 36. Estavam, porém, sentados
21. Começaram os escribas e os
tar os erros" - disse ao pa- ali alguns escribas que ra-
fariseus a raciocinar, di-
ralítico - "levanta-te, toma ciocinavam em seus Cora-
zendo: "Quem é este que
tua maca e vai para tua ções:
profere blasfêmias? Quem
casa". 37. "Por quê este profere blas- pode resgatar erros senão
7. E ele levantou-se e foi para fêmias? quem pode resga- só um (que é) Deus"?
sua casa. tar erros senão só um (que
22. Mas Jesus, percebendo-lhes
é) Deus"?
8. Vendo isso, as multidões os raciocínios, disse-lhes:
temeram e glorificaram a 38. Mas Jesus, percebendo logo "Que raciocinais vossos co-
Deus, que dera tal poder em seu Espírito que eles as- rações?
aos homens. sim raciocinavam dentro de
23. Que é mais fácil? dizer:
si, perguntou-lhes: "Por
teus erros foram resgata-
quê raciocinais sobre estas
dos? ou dizer: levanta-te e
coisas em vossos corações?
caminha?
39. Que é mais fácil? dizer ao
24. Ora, para que saibais que o
paralítico: foram resgata-
filho do homem tem sobre a
dos teus erros? ou dizer:
Terra poder para resgatar
levanta-te, toma teu estrado

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SABEDORIA DO EVANGELHO

e caminha? erros" - disse ao hemiplégi-


co - "A ti te digo, levanta-
40. Ora, para que saibais que o
te, toma tua maca e vai
filho do homem tem, sobre
para tua casa".
a Terra, o poder de resga-
tar erros" - disse ao paralí- 25. Imediatamente levantou-se,
tico – diante deles, tomou a maca
em que jazia e partiu para
41. "A ti te digo: levanta-te,
sua casa, glorificando a
toma teu estrado e vai para
Deus.
tua casa".
12. Então no mesmo instante 26. Todos ficaram atônitos,
glorificaram a Deus e en-
levantou-se ele, e tomando seu
cheram-se de temor, dizen-
estrado retirou-se à vista de
do: "Hoje vimos coisas ex-
todos; de modo que todos fica-
traordinárias"!
ram atônitos e glorificavam a
Deus, dizendo: "Nunca vimos
coisa semelhante"!

Figura “ A CURA DO LEPROSO”

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C. TORRES PASTORINO

Mateus coloca essa cura depois da viagem a Gadara (Marcos antes dela) e depois do Sermão do Monte
(Lucas antes dele). Sabemos, porém, que não havia preocupação da cronologia dos fatos, pois os evan-
gelistas procuravam apenas transmitir às gerações porvindouras os ensinamentos profundos de Jesus,
intencionalmente ocultos no véu da letra, exatamente para que cada um neles bebesse somente aquilo
que sua capacidade pudesse suportar.
Em Mateus aparece a anotação de que JESUS foi à "sua cidade". Embora nessa época ainda não esti-
vesse residindo há um ano, o que lhe daria direito de ser "filho da cidade", contudo deve ter ficado no
ouvido do autor a expressão, já que o Evangelho foi escrito muito tempo depois.
O ambiente da cena é mais minucioso em Marcos e Lucas: a casa cheia de gente, que extravasava da
sala para o alrendre, amontoando-se mais na porta. Jesus a falar, sentindo em si, como está dito pelo
médico, "a força do Senhor para curar". A expressão é sintomática, sobretudo quando expressa por um
médico. Essa "força do Senhor" talvez manifeste o excesso de fluídos magnéticos prontos a exteriori-
zar-se (coisa que ocorre até independente da vontade ou do conhecimento da criatura, tal como suce-
deu com a "hemorroíssa". Mr. 5:30, Lc- 8:45).
Ao chegarem os quatro amigos a carregar um paralítico (Lucas não emprega o termo popular "paralíti-
co", mas o técnico, no particípio, correspondente a "hemiplégico"), encontraram a entrada totalmente
bloqueada, com as atenções dos circunstantes voltadas para dentro, a fim de não perderem uma pala-
vra. A resolução é instantânea: enveredam pela escada lateral externa, que conduz ao terraço, como em
quase todas as casas da Palestina. Terraço plano, construído com traves de madeira, cruzadas larga-
mente, e sobre elas quadrados chatos de terra cozida ("telhas") - Estas são afastadas e, pelo espaço as-
sim conseguido, o leito foi descido com cordas até diante de Jesus.
Este dirige-se ao enfermo, animando-o e usando, para chamá-lo, o termo de carinho que os pais usa-
vam com os filhos: τέиνον .
Vem então o reconhecimento oficial de que o carma havia sido esgotado άφέωνται , no perfeito dórico-
jônico, e não no presente, nos três evangelistas e em todos os manuscritos, o que afasta a hipótese de
não obstante, as traduções o reproduzem sempre pelo presente ... Assim, a expressão άφέωνται σοί αί
άµαρτίαι σου exprime exatamente: "foram resgatados teus erros", ou, na linguagem moderna: "está
liquidado teu carma".
Dissemos, na pág. 51 do vol. 1, que a frase έν άφέσει άµαρτιών αύτών significava "na rejeição ou ex-
pulsão dos próprios erros". Continuando nossas meditações, chegamos hoje à conclusão de que essa
rejeição dos erros" se refere ao resgate do carma. Não basta rejeitá-los pela vontade, nem tampouco
deixar de praticá-los de agora em diante. O indispensável é RESGATÁ-LOS, de acordo com a Lei de
Causa e Efeito (Lei do Carma) plenamente válida no trecho que comentamos, quando Jesus declara
que o sofrimento da paralisia já resgatou os erros do paciente, já o libertou do carma.
A Lei de Causa e Efeito (Lei do Carma), "cada um receberá de acordo com suas obras", está repetida à
saciedade no Antigo e Novo Testamento, em pelo menos 30 passos, vejam-se os passos:
Deut. 7:9-10; 24:16; 2.º Reis, 14-6; 2.º Crôn. 25:4; Job, 34:11; Salmo, 28:4; 62:12; Prov. 12:14;
24:12; 24:29; Isaias, 3:11; Jer. 31:29-30; Lament.3:64, Ezeq.18:1-32; 35:20; Ecles 15:15; Mat. 3:10;
7:19; 16:27; 18:8-9; Rom 2:6; 1 Cor. 3:14; 2 Cor. 5:10; 9:6; 11:15; Mat. 3:10; 7:19; 16:27; 18:8-9;
Rom. 2:6; 1 Cor. 3:14; 2 Cor. 5:10; 9:6; 11:15; Gal. 6:4; Ef. 6:8; Col. 3:25; 2 Tim. 4:14; 1 Pe. 1:17;
Tiago, 2:24; Apoc. 2:23; 20:12 e 22:12.
Não é, pois, a Lei do Carma uma "invenção" moderna, mas uma verdade revelada em todo o decorrer
das Escrituras.
Quanto à convicção de que as enfermidades de uma existência são o resultado de erros cometidos na
mesma ou em existência anterior, também as Escrituras nos dão frequentes ensinamentos, bastando
citar: "eu era um menino de boa índole, coube-me em sorte uma alma boa, ou melhor, sendo bom, en-
trei num corpo sem defeitos" (Sab.15:19-20); e ainda: "pensais que esses galileus (que foram sacrifica-

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SABEDORIA DO EVANGELHO

dos por Pilatos) eram os maiores transgressores da Galiléia e por isso sofreram essas coisas? Eu vos
digo: NÃO. Mas enquanto não vos reformeis, todos sereis castigados dessa maneira" (Luc.13:2-3); e
mais, em João 9:2, quando por ocasião do cego de nascença “foi ele que pecou (e só poderia tê-lo feito
em existência anterior) ou seus pais"?; e outra vez: "se tua mão ou teu pé ... ou teu olho te são pedra de
tropeço, corta-os e lança-os de ti: melhor te é entrares NA VIDA, manco, aleijado e cego" ... (Mat.
18:8-9); ora, ninguém suporá que na vida espiritual haverá aleijões: é evidente que se trata de entrar na
VIDA TERRENA aleijado e cego, o que ,explica esses defeitos nos recém-nascidos.
Fora das Escrituras: SIPHRA, ao comentar Lev. 14:15 diz que a lepra e o castigo da má língua, à qual,
porém, SABBATH (33b) atribui como efeito a difteria. O Talmud (em Tianith, 16a) diz claramente:
"só o arrependimento não basta, se não houver mudança de vida". E no Sanhedrim (90a): "Todos os
julgamentos do Santo Único (bendito seja!) tem por base: tal ato, tal retribuição”.
Era, portanto, generalizada (e correta) a crença de que a doença constituía o resultado cármico de erro,
praticados na mesma vida ou em vida anterior, tanto que Rabbi Alexandrai escreveu: “o doente não se
ergue de sua enfermidade, senão quando Deus lhe haja perdoado seus pecados, pois está escrito: 'é Ele
que perdoa todos os pecados e cura todas as doenças' (Salmo 103:3)”. Estão certos Strack e Billerbeck
quando escrevem em seu "Comentário sobre o Novo Testamento segundo o Talmud" (tomo 1, pág.
495): “têm razão os anotadores do Talmud quando concluem: perdão primeiro, cura depois”.
Os escribas ( e Lucas acrescenta os “doutores” da Galiléia, da Judéia e Jerusalém) acreditavam nesse
“perdão”, nessa declaração autorizada de "carma liquidado" ou “resgate concluído", mas julgavam só
Deus pudesse fazê-lo. Daí o pensamento que se projetou de seus cérebros em formas mentais: "esse
(homem) blasfema"! O pensamento, confirma-o Jesus mais uma vez, proveio do coração. Não o diz
simplesmente porque os israelitas “acreditavam que a sede da mente estivesse no coração (cfr. Dhor-
me, L’emploi métaphorrique des noms de parties du corps, pág. 122), mas porque, na realidade, é DO
CORAÇÃO que provém os pensamentos, já que o coração é sede da mente (origem dos pensamentos)
ao passo que o cérebro é a sede do intelecto (que analisa e raciocina). Jamais podemos acreditar que
Jesus pudesse ter ensinado errado, só para conformar-se ou não contrariar uma "ignorância" da época:
o Mestre só podia ensinar CERTO, porque sabia o que dizia. Podia conformar-se com o vocabulário de
sua época, mas não com erros.
Jesus, entretanto, em Quem, mais do que em qualquer outro, brilhava conscientemente a Centelha Di-
vina, que agia em todo o Seu esplendor e potencialidade, demonstra-lhes outro poder, ainda não des-
envolvido nos homens comuns: o de LER os pensamentos. E declara abertamente que o faz, numa de-
monstração de poder: "por que pensais coisas más em vossos corações"? E a seguir, coloca-os num
dilema, difícil de solucionar: "que é mais fácil"? A cena é descrita pelos três evangelistas com a mes-
ma vivacidade, contendo um anacoluto violento, natural na linguagem falada, mas forçado na lingua-
gem escrita. Todavia, o testemunho tríplice prova a absoluta fidelidade à cena.
'Levanta-te". O levantar-se atesta a cura de alguém que viera carregado por 4 homens. Não satisfeito,
Jesus leva a demonstração (sêmeion) de Seu poder ao máximo. Levantar-se, apenas, poderia parecer
um passe de sugestão. Mas, quase com ironia, vem a segunda parte: "carrega tua maca, e regressa a
casa". Tudo isso, sem sequer tocá-lo; simples ordens verbais. Daí o grupo de pessoas que assistia à
cena ter ficado estupefato e, após o espanto, ter louvado a Deus pelo Poder que conferia a um homem.
Ainda uma vez, como já o fizera com Nicodemos em particular, Jesus aplica a si, agora publicamente,
o título de "Filho do Homem" (em hebraico bar'enascha e em aramaico bar nasha), que já foi explica-
do ( vol. 1, pág 154/155).
A expressão "coisas extraordinárias" (parádoxa) é termo próprio de Lucas. O adjetivo "atônito" cor-
responde a échstasis, literalmente' "extáticos", ou seja, "fora de si".

Mas há ensinamentos mais profundos.


Muitas criaturas (personalidades) tornam-se paralíticas ou hemiplégicas na estrada evolutiva, por
estarem presas ao passado de erros. Embora os sofrimentos lhes estejam resgatando, ou já hajam

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resgatado, o carma, calculam que muito lhes falta. Param, então, aguardando uma palavra superior a
fim de prosseguir. Típico o exemplo desse paralítico que, ao tomar contato com o Cristo, é por ele
tratado carinhosamente, com a declaração de que deve readquirir o entusiasmo da jornada, pois seu
carma havia terminado.
Observemos a lição em alguns pormenores. O paralítico está estacionado na evolução por desânimo,
sem saber nem poder mover-se. Quatro amigos o conduzem, na qualidade de "guias". Não podem pe-
netrar pela porta normal, das sensações e emoções, a trilha palmilhada pela multidão de ritualistas e
religiosos comuns, porque aí a massa se acotovela e impede a passagem. Todos aí querem buscar o
Cristo para conseguir "milagres". Então os "guias" sobem mais um pouco pela "escada externa" (fora
das religiões dogmáticas) e encontram o caminho certo: abrem um vão "no teto" (no cérebro, pela
compreensão dos ensinamentos verdadeiros) e o fazem merguhar no coração, onde ele ficará diante
do Cristo Interno, na Consciência Cósmica.
Os companheiros de jornada percebem o caminho novo e diferente, e rebelam-se intimamente, porque,
no nível evolutivo em que se acham, não lhes é possível entender um caminho diferente do seu. E lan-
çam "excomunhão" sobre o próprio Cristo que age com o paralítico. O Mestre não se perturba e de-
monstra, por fatos concretos e irrecusáveis, que esse é o caminho (os fatos psíquicos enchem milhares
de páginas de livros em todos os idiomas, mas os "escribas" e os "doutores" das diversas confissões
religiosas e científicas continuam a querer ignorá-los, a excomungar o Cristo, chamando-o "diabo",
porque age sem ser por intermédio deles; e procuram destruir, unidos aos profanos - "herodianos" -
essa força crística que opera sábia e livremente).
Ao paralítico cabe uma só providência daí por diante: erguer-se reanimado, tomar seu leito (seu cor-
po) e regressar para sua casa (para o ambiente espiritual que lhe é próprio), sem dar ouvidos aos
murmúrios dos despeitados e ignorantes dessas coisas. É o que ele faz. E essa subida espiritual é rea-
lizada COMO PROVA de que o Cristo Interno tem razão. Mas, apesar disso, os "doutores" e os "sa-
cerdotes" não aceitam essa sabedoria nem essa santidade, porque não floresceram segundo os "mo-
delos" que eles estabeleceram, e porque não proliferaram no "jardim fechado” que eles mantêm, con-
trolam e dominam.
Mas, que importa isso ao "paralítico"? Ele segue seu caminho "glorificando a Deus", juntamente com
todos os que são sinceros discípulos do Cristo.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

MATEUS É CHAMADO

Mat. 9:9 Marc. 2: 13-14 Luc. 5: 27-28

9. Partindo Jesus dali, viu um 13. Saiu outra vez para beira- 27. Depois disso, saiu e olhou
homem chamado Mateus, mar, e toda a multidão vi- atentamente um cobrador
sentado na coletoria, e dis- nha a ele e ele lhes ensina- de impostos (publicano),
se-lhe: "Segue-me". E, le- va. sentado na coletoria, e dis-
vantando-se, ele o seguiu. se-lhe: “Segue-me”.
14. E quando ia passando, viu
Levi, o (filho) de Alfeu, sen- 28. E deixando tudo, ele levan-
tado na coletoria, e disse- tou-se e seguiu-o.
lhe: "Segue-me". E levan-
tando-se ele o seguiu.

Figura “O CHAMADO DE LEVI”

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C. TORRES PASTORINO
Ao sai de casa, caminhando pela rua, passa Jesus diante de uma coletoria de impostos, com seu chefe
sentado à mesa.
Ao coletor de impostos os romanos denominavam publicanos, ou seja, “agentes do tesouro púbico"; e
os gregos telônes, palavra composta de télos (imposto) e ônéomai (comprar). Consistia sua função em
comprar do governo o direito de cobrar os impostos, pagando antecipadamente, de seu bolso, a impor-
tância orçada pelo Tesouro, e ficando a seu risco ser reembolsado pelos particulares. Paga a soma total
ao governo, o coletor distribuía seus agentes para cobrar taxas de pedágios, de trânsito de mercadorias,
de caravanas, do comércio, de alfândegas, etc., de todo o distrito que lhe estava afeto. O que conse-
guisse cobrar era seu, inclusive se havia (e havia sempre) superavit. Alguns, mais afortunados, com-
pravam os impostos de uma província inteira, sendo então "chefe de publicanos", como era o caso de
Zaqueu (cfr. Luc. 19: 3). Como o povo era oprimido por eles, que buscavam reaver seu dinheiro com
lucro, o povo os odiava, inclusive porque o empréstimo antecipado lhes valia uma autorização oficial
de "cobradores da dívida pública" . E toda a classe era desprezada e comparada aos "pecadores".
E eram mal vistos porque, em geral, cobravam mais do que deviam, para aumentar seus rendimentos
(cfr.Luc.3:12-13). No mundo profano havia o mesmo pensamento e Cícero (De Officiis, 1:42) os cha-
ma "os mais vis dos homens". Os judeus consideravam "traidores e apóstatas", tanto que o Talmud os
proibia de servir de juízes ou de testemunhas nos processos: e a mais consideravam-nos "legalmente
impuros", por seu contato constante com os não-judeus.
Ao narrar o fato, Mateus dá-se apenas esse nome, acrescentando "o publicano", enquanto os outros
dois dão seu primeiro nome, Levi, esclarecendo Marcos, ainda, que era "filho de Alfeu".
Cafarnaum, situada nas fronteiras do domínio de Herodes Antipas com o de Filipe, tinha um posto
aduaneiro que era importante, porque ficava no entroncamento das estradas que ligavam Damasco ao
Mediterrâneo e ao Egito.
Jesus afronta fariseus e escribas, ao escolher um desses homens como discípulo, após olhá-lo atenta-
mente (ethéásato) à sua mesa de trabalho.
E Levi abandona ex abrupto sua mesa e segue-o, com total desprendimento, deixando seu escritório
entregue aos auxiliares.

Muitos de nós ainda agimos na personalidade, como se fora ela nosso EU,. preocupamo-nos, então,
com os haveres e "compramos" bens que nos aumentem os alforges durante a romagem terrena.
Nada há de errado nisso, enquanto não chega o momento de a tudo renunciar, para dedicar-nos inte-
gralmente à vida espiritual.
Mateus ("dom de Deus"), exemplifica o caso do homem de negócios que se preocupa com os bens da
Terra. Mas, ao ouvir a voz de chamamento do Cristo Interno, resolve abandonar tudo e seguir o ca-
minho da perfeição.
O momento do chamado é uma oportunidade que não deve ser perdida por nós. Mas é indispensável
saber ouvir a voz que nos convoca, reconhecê-la, quando vem de dentro do coração, e não confundi-la
com chamados externos, intelectuais ou emocionais, de 'guias", sejam encarnados ou desencarnados,
que prometem o que não podem dar, que se denominam a si mesmos “mestres" ou "gurus", coisa que
jamais o próprio Jesus fez, pois nos esclareceu que "um só é nosso Mestre: o CRISTO” (Mat.23:10).
Cada um de nós deve permanecer atento à própria personalidade, para que não "viva" a preocupar-se
com lucros materiais. A individualidade deve reclamar de nossa personalidade, quando esta só cogita
de "juntar tesouros que a ferrugem consome e a traça corrói e os ladrões roubam" (Mat. 6:19).
Temos que ensinar à nossa personalidade a confiar no PAI.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

O BANQUETE DE LEVI

Mat. 9:10-13 Marc. 2:15-17 Luc. 5:29-32

10. E aconteceu que estando 15. E vai (Jesus) reclinar-se à 29. Levi deu-lhe um grande
reclinado à mesa em cosa, mesa na casa dele (Levi) e banquete em sua casa; e
vieram muitos cobradores reclinaram-se também com era grande o número de
de impostos e "pecadores" ele e com seus discípulos cobradores de impostos e
e reclinaram-se com Jesus e muitos cobradores de im- de outras pessoas que esta-
com seus discípulos. postos e "pecadores", pois vam com eles à mesa.
havia muitos que o segui-
11. Vendo isto, os fariseus per- 30. Os fariseus e se seus escri-
am.
guntavam aos discípulos: bas murmuravam contra os
"por que vosso Mestre 16. E vendo os escribas dos discípulos de Jesus, dizen-
come com os cobradores de fariseus que ele comia com do: "por que comeis e be-
impostos e "pecadores"? os "pecadores" e cobrado- beis com os cobradores de
res de impostos, diziam aos impostos e ‘pecadores'?"
12. Mas ouvindo-o, Jesus disse:
discípulos dele: "por que é
"os sãos não precisam de 31. Respondendo, lhes Jesus:
que ele come com os cobra-
médico, mas sim os enfer- "os sãos não precisam de
dores de impostos e 'peca-
mos. médico, mas sim os enfer-
dores'?" mos.
13. Porém ide aprender o que
17. Ouvindo isto, Jesus res-
significa: misericórdia que- 32. Não vim chamar os justos,
pondeu-lhes: "os sãos não
ro, e não sacrifícios', pois mas os pecadores para a re-
precisam de médico, mas
não vim chamar os justos, forma mental”.
sim os enfermos; não vim
mas os pecadores" .
chamar os justos, mas os
pecadores".

Mateus levanta-se da coletoria para seguir Jesus, mas antes leva-o a sua casa, e aí oferece-lhe um
"grande banquete", no qual se despede de seus amigos e colegas de profissão: realmente os agentes
fiscais eram numerosos em Cafarnaum.
"Reclinar-se à mesa (katakeisthai) porque o alimento era tomado enquanto o conviva ficava recostado,
quase deitado, num leito mais baixo, com a cabeça apoiada no braço esquerdo, ficando o direito livre
para servir-se nos pratos à mesa, algo mais alta. Esse o costume dos banquetes de luxo: provinha da
Assíria, tendo penetrado em Israel ( Amós, 6:4), na Grécia e em Roma.
Notemos que o termo "pecadores" (hamartolós) tem um sentido próprio em grego: os "transviados",
isto é, "os que estão fora do caminho certo" .
Para os fariseus e saduceus ortodoxos, todos os não-judeus (gentios) eram "pecadores", porque não
trilhavam a estrada traçada por Moisés. E também eram chamados "pecadores" todos os judeus que
mantinham contato com os gentios, como os agentes fiscais. Fique bem claro, que o termo "pecadores"
tem esse sentido especial: não eram criminosos, nem delinquentes, mas apenas não seguiam a rigidez
legal, tida como ortodoxia. O banquete que Mateus ofereceu a Jesus era, então, verdadeiro "banquete
de pecadores", como diz Jerônimo (Patr. Lat. , vol. 26, col. 56).
Participar de uma refeição na casa de alguém era fazer-lhe grande honra, mormente para esses homens
ricos, mas desprezados; ver Jesus entre eles deve ter constituído imensa alegria, sinal inequívoco de

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C. TORRES PASTORINO
estima e amizade. Mas os judeus, que eram obrigados a recitar as "bênçãos", jamais admitiam ladear-
se com os gentios nesse ato quase religioso. Vinte anos após a morte de Jesus, os cristãos que provi-
nham do judaísmo recusavam alimentar-se ao lado dos cristãos provenientes do paganismo (Gál. 2:11-
14).
Ao ver, pois, essa promiscuidade, os fariseus escandalizam-se, mas não ousam investigar o Mestre:
vão aos discípulos para investigar a razão dessa manifestação de desrespeito aos preceitos mosaicos.
Jesus intervém pessoalmente, para tirar os discípulos de embaraço e fá-lo com fina ironia, concedendo
aos fariseus o título de "justos" e de "sadios" de espírito (santos).
A expressão "ide aprender o que significa" é fórmula rabínica usada nas controvérsias. Cita então
Oseias (6:6), dizendo que a misericórdia vale muito mais que qualquer sacrifício religioso, e depois
cita um aforisma corrente (cfr. Diog. Laércio, Antisth. 6.1.6. e Plutarco, Apophthegmas, 230 F): "não
são os sadios que precisam de médico". E confirma: 'não vim chamar, (no sentido de convidar) os jus-
tos, mas os "pecadores". Mais tarde dirá novamente que os "pecadores" e as meretrizes conseguirão o
"reino de Deus" antes que os "justos" fariseus e os sacerdotes convencidos (Mat. 21:31).
A esses era muito mais fácil pregar a Boa-Nova, que aos que se julgavam "virtuosos" e "conhecedo-
res", quase que “donos da verdade" ...

A individualidade sabe perfeitamente que as personalidades são coisas passageiras, perecíveis, e vi-
vem numa situação de irrealidade que lhes parece realidade. Daí dar importância muito secundária
aos atos da personalidade. Que importa se a criatura, temporariamente mergulhada na carne, exerce
uma profissão desprezada pelo mundo oficial? Que importa o transvio do que é exterior, se o íntimo
está aproveitando aquela experiência, por vezes dolorosa, para o aprendizado maior?
Então, se a personalidade ainda precisa de certas exterioridades (como o banquete de Mateus), a in-
dividualidade não se recusa a ela: comparece com todos os discípulos (veículos que a envolvem), e
participa da alegria daquela criatura, que ainda dá valor ao temporário e irreal, por julgá-los coisas
duradouras e reais. Nada de "fitas" e de hipocrisias, de cenobitismo eremita, de sacrifícios irracio-
nais: se estamos na Terra na condição de seres humanos, como tais devemos viver. 'Não mais somos
animalizados - então nada de animalismo - mas ainda não somos anjos, portanto, não vivamos como
anjos desprezando a matéria", são palavras de Emmanuel. Por que então fugir à nossa condição de
homens que ainda somos?
A lição de Jesus neste fato é importante e visa a todos os que se envaidecem de suas virtudes, fugindo
ao contato com os enfermos morais: exatamente estes são os mais necessitados.
A misericórdia é superior a qualquer ato religioso, e a nós (a individualidade) não interessam a admi-
ração e os elogios dos bons, dos justos, dos santos: esses têm sua trilha traçada e a seguem sem tro-
peço. O que a individualidade tem que fazer é exatamente convidar as personalidades ainda viciadas e
animalizadas, para que "modifiquem sua mente", seu modo de pensar e de encarar a vida.
Não temamos ombrear com os "pecadores" e transviados; não fujamos de sua companhia; não recu-
semos banquetear-nos à sua mesa; pois daí poderão advir grandes vantagens para eles e para nós.
Por que, afinal, em que somos nós melhores que eles? Só o pensamento de que somos melhores, já é
uma prova de que o não somos: pelo menos ele são humildes, pois sabem que são pecadores, e com
isso sintonizam com Deus; e nós, que nos julgamos "melhores", manifestamos nossa vaidade tola, e
com isso, dissintonizamos com Deus, que é a Humildade Perfeita.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

A QUESTÃO DO JEJUM

Mat. 9:14-17 Marc. 2: 18-22 Luc. 5: 33-39

14. Depois foram a ele os discí- 18. Ora, os discípulos João e os 33. Disseram-lhe eles: "os dis-
pulos de João, dizendo: fariseus estavam jejuando. cípulos de João jejuam fre-
"por que é que nós e os fa- E eles vieram perguntar- quentemente e fazem ora-
riseus jejuamos, mas teus lhe: "por que jejuam os ções, assim como os dos fa-
discípulos não jejuam"? discípulos de João e os dos riseus; mas os teus comem
fariseus, mas os teus discí- e bebem".
15. Respondeu-lhes Jesus:
pulos não jejuam"?
"Podem acaso estar tristes 34. Mas Jesus disse-lhes: "Po-
os convidados do casamen- 19. Respondeu-lhes Jesus: deis fazer jejuar os convi-
to, enquanto o esposo está "Podem acaso jejuar os dados do casamento, en-
com eles? mas dias virão convidados do casamento, quanto o esposo está com
em que lhes será tirado o enquanto o esposo está com eles?
esposo, e nesses dias jejua- eles? Durante o tempo em 35. Dias, porém, virão em que
rão. que têm consigo o esposo, lhes será tirado o esposo,
não podem jejuar.
16. Ninguém põe remendo de então nesses dias jejuarão".
pano novo em manto velho, 20. Dias virão, porém, em que 36. Propôs-lhes também uma
porque o remendo, repuxa lhes será tirado o esposo, e parábola: "Ninguém tira
parte do manto e fica maior então nesses dias jejuarão. remendo de manto novo e o
o rasgão. 21. Ninguém cose remendo de põe em manto velho; senão
17. Nem se põe vinho novo em pano novo em manto velho: rasgará o novo, e o remen-
odres velhos; senão arre- senão o remendo novo re- do do novo não combinará
bentam os odres, e derra- puxa parte do velho, e tor- com o velho.
ma-se o vinho e estragam- na-se maior o rasgão. 37. E ninguém põe vinho novo
se os odres; mas vinho novo 22. E ninguém põe vinho novo em odres velhos; senão o
é posto em odres novos, e em odres velhos; senão o vinho novo arrebentará os
ambos se conservam'. vinho fará arrebentar os odres, e ele se derramará, e
odres e derramar-se-á o vi- estragar-se-ão os odres:
nho e também perder-se-ão 38. Ao invés, vinho novo deve
os odres; ao invés, vinho ser posto em odres novos.
novo é posto em odres no-
vos". 39. Ninguém que já bebeu o
vinho velho, ao ver o novo,
pois diz: "o velho é me-
lhor".

Ainda durante o banquete é apresentada a Jesus outra objeção, desta feita ritualística. Os joanitas (dis-
cípulos de João Batista) observam que, num dia de jejum (conforme noticia Marcos), Jesus se ban-
queteia com seus discípulos. A anotação de Marcos de que os fariseus e joanitas "estavam jejuando"
(êsan nesteúontes) assinala o contraste entre a alegria do banquete e a tristeza "formal" dos que jejua-
vam. Não é crível, todavia, que Jesus estivesse afrontando, logo no início de seu ministério, um jejum
prescrito por lei (como, por exemplo, o "da expiação", a 10 de tishri). Mas havia outras datas, já cita-

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das por Zacarias (8:19) e que, segundo esse profeta deveriam ser abolidas; não obstante, continuavam
a ser rigorosamente observadas pelos ortodoxos rigoristas.
Jesus responde com uma comparação: os "filhos da câmara nupcial" (hoi huioi tou numphônos, tradu-
ção do hebraico benê hupâh ) expressam os "convidados", que não podem manifestar luto e tristeza na
presença do esposo. Essa comparação é dirigida especialmente aos joanitas, que deviam bem lembrar-
se das palavras do Batista, quando comparou Jesus ao "esposo" e ele mesmo ao "amigo do esposo"
(João, 3:29). E, ainda mais, vem ligar Jesus ao Antigo Testamento, onde se afirma que o esposo por
excelência do povo judaico era YHWH (Jer. 2:2; Os. 1:3), confirmando o que escrevemos na pág. 4 do
1° vol., ou seja, de que Jesus é a encarnação de YHWH. No entanto, breve chegará o tempo em que o
esposo "será arrebatado (aparthê), conforme também escreveu Isaías (53:8), ou seja, aparthê aíretais
apó tês gês hê zóe autou (será arrebatada da Terra a vida dela).
Vem depois uma frase sentenciosa, em forma de aforismo: "ninguém sobrepõe remendo ( epíblêma )
de pano novo ( ágnaphos ) , literalmente "não molhado", que portanto encolherá muito ao ser lavado,
em roupa velha, pois a peça (plérôma) repuxará, e o rasgão (schisma) ficará maior. A comparação é
nova e bela. Lucas, porém, a apresenta de forma algo diferente: "ninguém arranca um pedaço da roupa
nova para remendar outra velha", pois as duas ficariam inutilizadas.
Segue-se outra comparação do mesmo teor, a respeito do vinho. O odre (ainda hoje usado no oriente)
consiste numa pele de, animal, sobretudo bode, devidamente macerada, cosida nas extremidades e fe-
chada na boca com uma fivela de osso, conservando mais ou menos a forma do animal. Nesses odres
eram transportados líquidos (água, leite, vinho, óleo ou leben, isto é, leite coalhado). Ora, o vinho
novo, ao fermentar, arrebentaria a pele já velha e desgastada de ser carregada às costas de um lado para
outro, e tanto o vinho se derramaria, como a pele se perderia.
Aqui Lucas acrescenta, também, um versículo novo: quem bebe o vinho velho, não quer saber do
novo, pois o velho é melhor (chrêstóteros, ou, em outros manuscritos, "é bom", chréstos, sem o com-
parativo).
Os exegetas interpretam essas comparações, como a impossibilidade de adaptar-se a "Boa-Nova" às
velhas doutrinas israelitas, e portanto, como afirmação de que a nova doutrina deverá arrebanhar ho-
mens libertos de preconceitos e dogmas. No entanto, pela última frase de Lucas, quem já experimentou
o vinho (a doutrina israelita) nem quererá saber da nova (o Evangelho), porque julgará sempre que o
antigo é o melhor.
Daí concluem que o candidato à nova doutrina de Jesus deverá abandonar totalmente, delas fazendo
tábula rasa, todas as suas crenças antigas, sem o que jamais poderá compreender todo o alcance do
que Jesus ensinou.

Outras lições mais vamos aprendendo, aprofundando assim o conhecimento do ensino de Jesus.
Se os fariseus caracterizam, os tipos hipócritas (atores) que representam uma cena sem que os senti-
mentos expressados correspondam ao que lhes vai no íntimo, os joanitas já são exemplo de outra ca-
tegoria: os rigoristas sinceros, que julgam residir a perfeição no rígido cumprimento dos preceitos
morais: é intelectualismo, ainda, já um pouco esclarecido, embora não bem equilibrado.
Preocupam-se, então, com o lado exterior da vida, dando importância ao jejum, isto é, à ausência da
alegria. Porque o jejum, mais do que a abstenção do alimento, valia pela expressão facial de tristeza,
pelo óleo que derramavam no cabelo, deixando que escorresse pela barba, pela cinza com que pulve-
rizavam a cabeça e as roupas, velhas e sujas, a fim de dar aos outros (embora não a si mesmos) a
impressão de grandes penitentes.
Ora, enquanto o "esposo" (o CRISTO INTERNO) está unido à sua criatura, esta fatalmente terá que
demonstrar alegria. Todos os grandes místicos, que realizaram a unificação, ou pelo menos quando
conseguem a união, sempre foram alegres, bastando-nos recordar o exemplo de Teresa de Ávila.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Entretanto, quando a união se desfaz, nos "intervalos de separação", a tristeza é grande, e a criatura
chega a perder o apetite e o sono, jejuando então espontaneamente; essa fase é denominada período
de secura ou de trevas, como a “noite sem estréias".
Os ensinamentos feitos sob forma de parábolas são profundos.
A interpretação dada por todos os exegetas é de que o Evangelho não pode adaptar-se às crenças
judaicas; a Boa-Nova se perderia se pretendesse brotar e produzir no terreno já cultivado por outra
crença. Esta é, com efeito, a interpretação personalista que joga, quase sempre, com fatos exteriores,
a fim de não precisar tocar em seu próprio íntimo, "reformando sua mente", e modificando seus hábi-
tos e sua crença.
Mas a interpretação real é mais profunda.
O "homem novo" não pode ser sobreposto ao “homem velho", senão ambos se estragam. A individua-
lidade não pode aplicar-se sobre a personalidade, porque senão, quando a individualidade se encolhe
na humildade verdadeira, para ficar de seu tamanho próprio, a personalidade, que a não pode acom-
panhar, se rebela e o rasgão (em grego, o “cisma") entre as duas se torna maior.
E ainda, não há possibilidade de a individualidade que cresce por dentro (fermenta) não poder adap-
tar-se à personalidade mesquinha: o fermento desse crescimento ao infinito arrebentaria a pequenez
da pessoa, e teríamos total estrago. De fato, quando certas pessoas penetram, apenas intelectualmen-
te, nessa compreensão, mas sem conseguir a vivência, observa-se que representam uma coisa que não
são; tornam-se extremamente vaidosas, sob a capa da humildade exterior; não admitem ninguém su-
perior a elas, porque se julgam plenos de sapiência, conhecedores únicos da "verdade"; olham a to-
dos "de cima", como seres superiores que se sentem: perdeu-se o vinho e arrebentou o odre.
Então, a adaptação tem que ser perfeita: primeiramente é mister que a criatura se torne "homem
novo", libertando-se de preconceitos e dogmatismos, com a mente livre de teorias escravizantes, para
então poder receber o vinho novo, ou seja, realizar a união com o Cristo Interno.
Mas tudo isso é difícil, porque, quem experimentou o vinho velho, recusa o novo. Quem, durante sé-
culos, plasmou sua mente em moldes preestabelecidos e a eles se adaptou plenamente, recusa aban-
donar TUDO (cfr. Luc. 14:16 e 33) para tornar-se novamente criança (cfr. Luc. 18: 17) e então "en-
trar no reino dos céus", isto é, na Consciência Cósmica, encontrando o CRISTO INTERNO".

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C. TORRES PASTORINO

A QUESTÃO DO SÁBADO
(GENESAR - SÁBADO, 22 DE MAIO DE 29 A.D.)

Mat. 12:1-8 Marc. 2:23-28 Luc. 6:1-5

1. Naquela ocasião, num sá- 23. E aconteceu que cami- 1. Aconteceu num sábado
bado, passou Jesus pelas nhando Jesus pelas searas passar Jesus pelas searas e
searas; e tendo fome, seus num sábado, seus discípu- seus discípulos colhiam es-
discípulos começaram a los ao passarem, começa- pigas e debulhando-as com
colher espigas e a comer. ram a colher espigas. as mãos, as comiam.
2. Vendo isto os fariseus dis- 24. E os fariseus lhe pergunta- 2. Perguntaram alguns dos
seram-lhe: "Teus discípulos ram: "olha, por que fazem fariseus: "por que fazeis o
estão fazendo o que não é e1es no Sábado o que não é que não é lícito nos sába-
lícito aos sábados”. lícito”? dos"?
3. Mas ele disse-lhes: "não 25. Respondeu-lhes ele: “Nun- 3. Respondeu-lhes Jesus:
lestes o que fez Davi, quan- ca lestes o que fez Davi, "Nem ao menos lestes o que
do ele e seus companheiros quando teve necessidade e fez Davi, quando teve fome,
tiveram fome? fome, ele e seus companhei- ele e seus companheiros?
ros?
4. como entrou na casa de 4. como entrou de Deus, to-
Deus e comeram os pães da 26. Como entrou na casa de mou e comeu os pães da
"proposição", que não lhe Deus, sendo Abiatar sumo- "proposição", que somente
era lícito comer, nem a seus sacerdote, e comeu os pães aos sacerdotes era lícito
companheiros, mas somen- "proposição", os quais só comer, e os deu também
te aos sacerdotes? aos sacerdotes era lícito aos que com ele estavam?
comer, e ainda os deu a 5. E acrescentou: "O Filho do
5. ou não lestes na lei que, aos
seus companheiros”?
sábados, os sacerdotes no Homem é senhor também
templo violam o sábado e 27. E acrescentou: “o Sábado do sábado".
ficam sem culpa? foi feito por causa não do
homem, e não o homem por
6. Digo-vos, porém: aqui está
causa do Sábado;
o que é maior que o templo.
28. assim o Filho do Homem é
7. Mas se tivésseis sabido o
senhor também do Sába-
que significa "misericórdia
do”.
quero e não um sacrifício",
não teríeis condenado os
inocentes,
8. porque o Filho do Homem
é senhor do sábado".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Figura “JESUS NO TRIGAL” - Desenho de Bida – Gravura de L. Flameng


O fato de poder "respigar" (colher espigas já maduras), assegura-nos que estamos no início do verão
(segunda quinzena de maio; nesse ano, podia tratar-se do dia 22 de maio, que caiu num sábado). Jesus
atravessava um campo de trigo com seus discípulos, e eles tinham fome.
Era permitido pela lei mosaica (Deut. 23:26) que o viandante que atravessasse um campo cultivado, e
tivesse fome, pudesse colher de seus frutos para alimentar-se. Mas acontece que estávamos num sába-
do, e nesse dia era proibido "ceifar" (Êx. 34:21). Ora, para o rigorismo exagerado dos fariseus, "respi-
gar" e "ceifar" não se distinguiam ...
Traz Jesus à balha o exemplo de Davi e de seus companheiros, quando fugiam da perseguição de Saul
(1 Sam. 21:1-6), e chegando a Nob, onde se achava o sumo sacerdote Achimelec, comeram os pães da

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C. TORRES PASTORINO
"proposição". Assim eram chamados os 12 pães que, cada Sábado, eram colocados em duas pilhas de
seis, sobre uma mesa (ou altar) de ouro (3.º Reis.7:48), e só dali eram retirados no sábado seguinte.
Desses pães, após terem sido retirados "da presença de YHWH", somente os sacerdotes podiam comer
(Lev. 24: 5-9).
Note-se que, em Marcos, Jesus fala do sumo-sacerdote Abiathar, quando na realidade não o era ainda.
Os fatos passaram-se assim: fugia Davi, quando passou rela casa de Achimelech e pediu pão para si e
para seus companheiros. Não os tendo em casa, Achimelech levou a todos ao santuário de YHWH,
apanhou os pães da “proposição” e deu-os. Pouco após, denunciado pelo edomita Doeg, Saul mandou
assassiná-lo e a toda a sua família ( 1 Sam. 22:6-23), por terem dado hospitalidade a Davi. Mas o filho
de Achimelech, de nome Abiathar, conseguiu escapar, reunindo-se ao bando fugitivo de Davi; este, ao
ser coroado rei de Israel, fê-lo sumo sacerdote, cargo que ocupou praticamente durante todo o reinado
de Davi. Não se pode dizer que há erro de “copista", porque todos os manuscritos e códices são unâ-
nimes em colocar “Abiathar”. Mas pode Ter havido um engano da parte do evangelista, que não era
“infalível”.
Com isso, Jesus demonstrava que a necessidade “abolia” o Sábado.
Mas outro exemplo é trazido: os sacerdotes, no templo, não violam o sábado ao imolar as vítimas, por-
que o sacrifício ordenado pela Torah é superior à observância sabática.
Aparece então uma afirmativa solene: “aqui está algo (no neutro) que é maior que o templo". Repete,
então, a frase de Oséias (6:6) já anteriormente citada: “a misericórdia é superior a um sacrifício”, e
termina com a assertiva: "o Filho do Homem é o senhor do Sábado”, não só porque ele, Jesus, era o
próprio YHWH que o havia instituído, como também porque todos os filhos dos homens são superio-
res e senhores de quaisquer ordenações, quando estas vêm prejudicar suas necessidades vitais. Porque
“o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem feito por causa do sábado".

A lição anterior podia escandalizar muitos discípulos sinceros, embora de mentalidade estreita, que
haviam seguido rigorosa e conscientemente os preceitos, que julgavam "divinos", de suas próprias
igrejas (não só os discípulos daquela época, mas os de todos os tempos, inclusive os atuais, tenham
que denominação tiverem: israelitas, muçulmanos, católicos - romanos ou reformados -, espíritas,
hindus, etc.)
A este é dada outra lição sublime, simbolizada na crença mais firme e arraigada naquela população:
o sábado.
Jesus ensina, claramente, que todo e qualquer preceito por mais "divino" que seja tido, é dado em be-
nefício do homem. Logo, o homem é superior aos preceitos, sejam eles quais forem, e podem resolver,
quando em união com Deus, o que melhor lhes convenha.
Logicamente está claro: quando a personalidade ainda domina, os preceitos lhe são dados para con-
trolar os abusos: são os trilhos e os fios elétricos, aos quais se prende o trem. Mas quando a individu-
alidade assume o comando, não mais necessita disso: é o avião, que tem para locomover-se a ampli-
dão dos céus, só sendo obrigado a sujeitar-se às regras terrenas, quando está em contato próximo
com a terra, com a personalidade.
O exemplo do que fez Davi é típico. Mas a frase do ensinamento esclarece melhor: o sábado (os pre-
ceitos religiosos) foi feito para (ajudar) o homem; e não absolutamente o homem foi feito por causa
do sábado (dos preceitos); então, é certo: aqui está uma coisa (um ensinamento, pois em grego apare-
ce o neutro) que é maior que o templo: um ensinamento que é superior a todas as igrejas.
Os exegetas interpretam que o neutro foi colocado para "não chocar”, e que Jesus se dizia Deus,
confessando-se maior que o templo. Mas teria Jesus esse escrúpulo ao falar, quando o masculino e o
neutro tem a mesma pronúncia? Cremos que o sentido é mesmo o do neutro, que o evangelista enten-
deu e escreveu: "aqui está um ensinamento que é maior que qualquer templo" ou igreja. Muito maior
é a misericórdia, a bondade, a caridade, o amor, do qualquer sacrifício que se realiza nos templos".

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SABEDORIA DO EVANGELHO

E por isso, "não deveis condenar inocentes". Aqueles que, no decorrer dos séculos, condenaram ao
suplício, à fogueira, à morte moral e material tantos inocentes, faziam isso em nome de Jesus, para
"dar-Lhe glória", julgando-se seus únicos discípulos legítimos ... Como é difícil, às personalidades
vaidosas, penetrar o sentido exato dos ensinamentos de Jesus! Os judeus condenaram verbalmente os
discípulos de Jesus, e o Mestre imediatamente protestou; que terá Ele feito, quando Seus próprios
discípulos (ou que "se diziam" tais), se esmeraram em condenar a sofrimentos indizíveis, durante sé-
culos, tantos milhões de criaturas, cujo único "crime" era não pensar como eles?
O Filho do Homem (isto é, todo aquele que já vive na Individualidade, mesmo como encarnado na
Terra) é o senhor do sábado. Quer dizer que, quem tenha conseguido viver na Consciência Cósmica,
na perfeita união com o CRISTO INTERNO, esse é senhor de qualquer de seus atos, superior aos pre-
ceitos, por mais importantes que pareçam às pequenas personalidades temporárias e ignorantes dos
mistérios profundos das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus (cfr. Rom. 11:33).

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C. TORRES PASTORINO

CURA DA MÃO A TROFIADA


(CAFARNAUM, SÁBADO, 29 DE MAIO DE 29 A.D.)

Mat.12:9-14 Marc. 3:1-6 luc. 6:6-11

9. Tendo Jesus partido da- 1. Entrou Jesus outra vez na 6. Aconteceu em outro sábado
quele lugar, entrou na si- sinagoga, e aí se achava um entrar na sinagoga e ensi-
nagoga deles. homem que tinha uma das nar; ora, achava-se aí um
mãos atrofiada. homem que tinha a mão di-
10. E achava-se ali um homem
reita atrofiada,
que tinha a mão atrofiada; 2. E observavam-no para ver
e o para que o acusassem se o curaria no Sábado, a 7. e os escribas e fariseus ob-
perguntaram-lhe: "é lícito fim de o acusarem. servavam-no para ver se ele
curar aos sábados”? 3. Disse Jesus ao homem que
o curava no Sábado, a fim
de acharem acusação con-
11. Respondeu-lhes ele: “qual é tinha a mão atrofiada:
tra ele.
o homem dentre vós que, “Levanta-te e vem para o
tendo uma ovelha, se ela ao meio de nós". 8. Mas conhecendo-lhes ele os
sábado cair numa cova, não 4. Então lhes perguntou: “É pensamentos, disse ao ho-
a apanha e tira? lícito, aos sábados, fazer o
mem que tinha a mão atro-
fiada: "Levanta-te e fica
12. Ora, quanto é superior um bem ou o mal, salvar a vida
em pé no meio de nós". E
homem a uma ovelha! Logo ou tirá-la? Mas eles fica-
ele levantou-se e ficou de
é lícito fazer o bem aos sá- ram silenciosos.
pé.
bados". 5. E olhando em redor com
9. Disse-lhes Jesus: "Pergun-
13. Então disse ao homem: desgosto, entristecido pela
to-vos: é lícito no Sábado
"Estende tua mão" Ele a insensibilidade de seus co-
fazer o bem ou o mal, sal-
estendeu, e a mão lhe foi rações, disse ao homem:
var a vida ou tirá-la"?
reconstituída sã como a ou- "Estende tua mão". Ele a
tra. estendeu e a mão lhe foi re- 10. E olhando para todos os
constituída. que o rodeavam, disse ao
14. Mas, saindo dali, os fari-
homem: "Estende tua
seus reuniram-se em con- 6. Saindo dali, os fariseus en-
mão". Ele a estendeu, e a
selho, para resolver como o traram logo em conselho
mão lhe foi reconstituída.
destruiriam. com os herodianos contra
ele, para ver como o des- 11. Mas eles encheram-se de
truiriam. raiva e discutiam uns com
os outros, para ver o que
fariam a Jesus.

Outra cena passa-se ainda na sinagoga "deles", também num sábado (provavelmente a 29 de maio).
Aqui, os fariseus não esperam o fato para depois criticá-lo: tomam a dianteira, como que para avisá-lo
de que não transgrida a lei mosaica. A pergunta que lhe dirigem é capciosa. Tinham eles a certeza do
comportamento de Jesus, pois já o haviam testemunhado com frequência: à vista da enfermidade, fica-
va condoído e curava, não resistindo à compaixão que Lhe causava o sofrimento alheio. Todavia, eles
buscavam situações em que pudessem acusá-lo.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

A “mão atrofiada" (em grego zêrê, “sêca" - só Marcos emprega o particípio eyêramménên, dando a
idéia de que não era congênito o mal, mas fora paralisada e ficara descarnada por acidente), era, se-
gundo Lucas, a “mão direita".
Jerônimo (Patr. Lat. vol. 26 col. 78) escreve: “No Evangelho usado pelos nazareus e pelos ebionitas (é
apócrifo), e que geralmente é tido como o original de Mateus, está dito que esse homem, cuja mão se
atrofiara, era pedreiro, e implorava o socorro com estas palavras: sou pedreiro e ganho a vida com o
trabalho das mãos: peço-te, Jesus. dá-me saúde, para que não passe vergonha de ter que mendigar para
viver”.
A resposta de Jesus obedece ao tipo de casuística rabínica, argumentando, do menos ao mais. Se pode
salvar-se uma ovelha de afogar-se, num Sábado, quanto mais um homem, de muito superior. A conclu-
são é clara: "é lícito curar num Sábado”. E imediatamente passa à ação.
Num comportamento que demostra uma ostentação deliberada, Jesus manda que o doente fique de pé,
no meio da assembléia, para que todos o vejam e se condoam, verificando, ao mesmo tempo, a cura
sensacional.
E então pergunta: “é lícito fazer o bem ou o mal"? Essa pergunta emudece os fariseus, atrapalhados em
sua má-fé. Não poderiam dizer que não era lícito fazer o bem, pois seriam condenados por todos. E se
dissessem que fazer o bem era lícito, apoiariam plenamente a ação de Jesus.
Diante do embaraço deles, Jesus olha em redor (periblepsámenos, expressão que volta em Marcos
3:34: 5:32: 9:8; 10:23 e 11: 11) com desgosto. Já vimos o sentido de orgê, na pág. 25 deste volume:
insatisfação, desgosto, paixão, mas nem ira, nem raiva. E além disso, sentiu profunda tristeza e com-
paixão (sullupoúmenos) que se revelaram em Sua expressão facial. Não podia compreender a insensi-
bilidade (o "endurecimento": o termo grego pórôsis exprime o endurecimento de algo que normal-
mente é mole) de seus corações.
E então, sem um gesto sequer, mas com simples palavras, realiza a cura. Não violara o repouso do sá-
bado, pois em lugar algum se dizia que era proibido falar. E eles ficaram com raiva deles mesmos, di-
ante de sua impotência de opor-se a Jesus. Sem cogitar de "impurezas legais", vão unir-se aos herodia-
nos: era indispensável levar a guerra àquele homem até o extermínio, pois ele os desprestigiava e hu-
milhava seu orgulho.
E foi tomada a decisão (sumboúlion edídoun) de eliminá-lo .

Depois dos ensinamentos teóricos, um exemplo prático .


O homem atrofiara sua mão, e dela precisava para seu serviço. Jesus cura-o, arrostando com isso o
ódio dos "donos da religião", aliados, como sempre, ao "poder temporal", que bajulam para não per-
der os favores transitórios da Terra.
Mas essa é a lição "externa".
Internamente, vemos que a individualidade deve despreocupar-se de tudo o que possam dizer ou fazer
os outros, e agir sempre no interesse do aperfeiçoamento de sua personalidade.
Se nossa personalidade está atrofiada em sua mão direita, ou seja, se não agimos com devêramos, por
qualquer motivo, a individualidade deve colocar-nos, como exemplo, no meio da multidão e modificar
de público nossa atuação, sem temor dos julgamentos apressados que nos condenarão à morte.
O que desgosta e entristece Jesus (a individualidade) é verificar a má-fé, a incapacidade de compre-
ender, daqueles que, estando revestidos de autoridade, têm os corações insensíveis, as mentes obtura-
das, e não vêem, porque não querem ver: endureceram a mente, cadaverizaram o pensamento, enrije-
ceram o raciocínio em moldes imutáveis e, sem piedade, colocam os preceitos (que eles mesmos ou
seus antecessores estabeleceram) acima das criaturas.

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C. TORRES PASTORINO
Jesus ensina e exemplifica uma coisa, mas muitos pensam "provar" que são Seus discípulos, quando
fazem exatamente o contrário do que Jesus disse e praticou! Realmente, corações incapazes de com-
preensão, de maleabilidade, de misericórdia!
Mas Ele mesmo nos ensinará o que devemos fazer nesses casos.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

JESUS RETIRA-SE

Mat. 12:15-21 Mat. 4:24-25 Marc. 3:7-12

15. Sabendo disso, Jesus reti- 24. Sua fama correu por toda a 7. Jesus retirou-se com seus
rou-se daquele lugar. E Síria; trouxeram-lhe todos discípulos para o lado do
muitos o acompanharam, e os enfermos, acometidos de mar: e da Galiléia o seguiu
ele curou todos, várias doenças e sofrimen- grande multidão.
tos, obsedados, epilépticos e 8. Também da Judéia, de Je-
16. advertindo-os de que não o
paralíticos, e ele os curou.
dessem a conhecer, rusalém, da Iduméia, d'a-
25. Muita gente o seguiu da lém Jordão e das circunvi-
17. para cumprir-se o que foi
Galiléia, da Decápole, de zinhanças de Tiro e de Si-
dito através do profeta
Jerusalém, da Judéia e don, sabendo o povo quan-
Isaías:
d'além Jordão. tas coisas fazia Jesus, foi ter
18. "Eis meu servo que escolhi, com ele em grande número.
meu amado, em quem mi-
9. E ele recomendou a seus
nha alma se deleita; sobre
discípulos que tivessem um
ele porei meu espírito, e ele
barquinho sempre à sua
anunciará o certo às na-
disposição, por causa da
ções;
multidão, a fim de que não
19. não discutirá nem gritará, e o apertasse,
ninguém ouvirá sua voz nas
10. porque curou muitos, de
praças.
modo que todos os que pa-
20. Não esmagara a cana ra- deciam qualquer doença, se
chada, nem apagará o pa- arrojavam a ele, para que
vio que fumega, até que os tocasse,
faça triunfar o certo.
11. e os espíritos atrasados,
21. E em seu nome esperarão quando o viam, prostra-
as nações". vam-se diante dele e clama-
vam: "Tu és o Filho de
Deus".
12. E muitas vezes os advertiu
que não o dessem a conhe-
cer.

Sabendo o que se passava, Jesus resolve retirar-se, afastando-se daquele lugar. E Mateus, segundo seu
hábito, aproveita o fato para citar Isaías, (42.1-4), embora algo modificado. Eis o texto do profeta na
íntegra:
Eis meu servo, que eu sustento, meu escolhido, em quem minha alma se alegra. Nele coloquei meu
espírito. Ele exporá o certo às nações. Não o ouvirão gritar nem falar alto, nem elevar a voz nas praças;
não quebrará a cana rachada nem apagará o pavio que fumega. Exporá fielmente o certo, não se cansa-
rá, nem fatigará, até que tenha estabelecido o certo na Terra, e as ilhas esperarão sua doutrina".

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C. TORRES PASTORINO
O termo grego krísis, geralmente traduzido como “juízo" ou "julgamento”, tem precisamente o sentido
de triagem, isto é, separação do certo e do errado do bem e do mal, e, por extensão, “escolha" daquilo
que é direito ou certo. Realmente a escolha, numa triagem, supõe um julgamento. Mas muito melhor se
compreenderá o sentido traduzindo, aqui, como "o certo" do que se o fizéssemos com a palavra “jul-
gamento”: o Emissário Divino ensinará “O CERTO”, e não ensinará o julgamento, coisa que não faria
sentido. Não se cansará até que O CERTO chegue à vitória, e não até que o julgamento chegue à vitó-
ria.
Sua fama se espalha com rapidez pela Síria (de fácil comunicação com a Palestina) e de lá também
chegam doentes físicos e espirituais, e a todos Jesus cura. Com a má-vontade dos fariseus, contrasta o
entusiasmo do povo que o procura e acompanha de diversas partes. A Decápole era uma confederação
de dez cidades (segundo Plínio, Hist. Nat. 5,18,74, eram: Damasco, Filadélfia (Aman), Rafana, Citó-
polis (Beisan), Gadara, Hipos, Dion, Pela, Gelasa (Gerasa) e Canata). Todas, exceto Citópolis, ficavam
além Jordão. Segundo Marcos, vinha gente de Jerusalém e da Judéia, da Iduméia (território que ia de
Jerusalém até Betsur, chegando além do Hebron, e que era a terra dos Herodes). O além Jordão, se-
gundo Josefo (Bel. Jud. 3.2.3) era a Peréia, território entre o Jabok e o Arnon, indo de Maquérus, a este
do Mar Morto, até Pela. Mas também chegava gente do nordeste, da região de Tiro e de Sidon.
Realmente, as ruas estreitas de Cafarnaum não ofereciam segurança: muito melhor era pregar nos
campos abertos, nas praias do lago, onde poderia falar abertamente, sem ser obrigado a discutir seus
atos com os fariseus. De agora em diante, vemos que Jesus se afasta cada vez mais das sinagogas. E
quanto mais o clero oficial o persegue, mais o povo o procura, e a maior satisfação de Jesus é, sem
dúvida, descer aos pequeninos, abandonando os grandes e sábios que Lhe recusam ouvir os ensina-
mentos, cheios que estão de sua própria vaidade de "sabedores" de suas Escrituras e de "seguros" em
suas tradições seculares e milenares. "Quem provou o vinho velho, não quer saber do novo". Todos os
reformadores sempre tiveram que apoiar-se no povo menor, e sempre sofreram a perseguição das "au-
toridades" que jamais desejam perder seu prestígio de mando e sua "cotação" de senhores da situação e
de "donos de Deus". Ainda hoje é assim.

Ao ver a impossibilidade de conseguir compreensão daqueles a quem falava e ensinava, ilustrando


seu ensino com exemplos, a individualidade retira-se. É a aplicação da parábola "da vinha"
(cfr.Mat.21:33-46). Se aquelas personalidades se recusam a ouvi-Lo, Ele irá a outros mais acessíveis.
O texto de Isaias, aplicado por Mateus, diz claro que a misericórdia da Individualidade sabe apro-
veitar todos os menores indícios de possibilidade de aperfeiçoamento. Que, embora a cana já esteja
rachada, a Individualidade não a acabará de partir. Que embora o pavio já esteja apenas fumegando,
ela não o apagará de todo. Não. A individualidade, em união com o Cristo Interno, aproveita as mí-
nimas possibilidades para "salvar", para levar ao bom caminho.
E só estará satisfeita e feliz, quando a personalidade tiver feito sua escolha definitiva. ainda que, para
isso, tenha que esperar múltiplas encarnações, durante muitos séculos.
Claro que, com esse modo de agir, a individualidade atrairá a si multidões de sofredores, de todas as
partes. Mas, para não deixar-se envolver pela multidão, terá sempre à mão, à sua disposição, um
“barquinho”, um meio de fuga, onde possa refugiar-se em prece, todas as vezes que se sentir "aperta-
do”, acossado pelas arremetidas das personalidades insatisfeitas.
E, não obstante desconhecido pelos encarnados, os desencarnados, que vêem sua aura, dirão sem pejo
que ali está um Filho de Deus. Mas a individualidade, pela humildade e modéstia inerentes a seu pró-
prio adiantamento, sempre há de pedir silêncio em torno de si.
Essa a razão pela qual, os que tiveram o Encontro Real, jamais o dizem; pois os que o dizem, pensam
que encontraram o Cristo Interno, mas apenas realizaram o encontro com seu próprio eu ilusório e
pequenino. E os primeiros, nem mesmo permitem que o digam aqueles que o sabem. A lição também é
aproveitável para as sessões mediúnicas: cuidado com os espíritos que elogiam: não são elevados,
são bajuladores: façamo-los calar-se!

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SABEDORIA DO EVANGELHO

A ESCOLHA DOS DOZE

Mat. 10:1-4 Marc. 3:13-19 Luc. 6: 12-16

1. E tendo convocado (Jesus) 13. Depois subiu ao monte e 12. E aconteceu que naqueles
seus doze discípulos, deu- chamou para junto de si os dias se retirou para o mon-
lhes poder sobre os espíri- que ele mesmo quis, e eles te a orar, e passou a noite
tos atrasados, para os ex- aderiram a ele. no oratório de Deus.
pulsarem, e para curarem 14. Então designou doze para 13. E quando se fez dia, cha-
todas as doenças e enfermi- estarem com ele, e para en- mou seus discípulos e es-
dades. viá-los a pregar; colheu doze dentre eles, aos
2. Ora, os nomes dos doze 15. e ter autoridade de expul- quais deu também o nome
emissários são estes: o pri- sarem os espíritos desen-
de emissários,
meiro, Simão, que também carnados. 14. a saber: Simão, a quem
se chama Pedro, e André também chamou Pedro, e
seu irmão; Tiago, filho de 16. Eis os doze que designou: André, seu irmão; Tiago e
Zebedeu, e João, seu irmão; Simão, a quem deu o nome
João, Filipe e Bartolomeu;
de Pedro; Tiago, filho de
3. Filipe e Bartolomeu, Tomé Zebedeu e João, irmão de 15. Mateus e Tomé; Tiago filho
e Mateus, o coletor de im- Tiago, a quem deu o nome de Alfeu e Simão, chamado
postos, Tiago, filho de Alfeu de Boanerges, isto é, filhos Zelote;
e Tadeu; do trovão; 16. Judas irmão de Tiago, e
4. Simão, o Cananita, e Judas 17. André, Filipe, Bartolomeu, Judas Iscariotes, que se
Iscariotes, que o entregou. Mateus, Tomé, Tiago, filho tornou traidor.
de Alfeu, Tadeu, Simão o
Cananita, e Judas Iscario-
tes, que o entregou.

Mateus apresenta-nos o fato como consumado. Marcos assinala a escolha no momento em que foi fei-
ta. Lucas precede a escolha de outros pormenores, assim como a imposição de um título aos escolhi-
dos.
Jesus havia rompido com os "donos" da religião (fariseus e escribas) que o haviam condenado à morte,
unidos aos herodianos: a força religiosa e a força civil. Era-Lhe necessário, pois, recrutar um grupo
que Lhe pudesse continuar a obra incipiente.
Como sempre fazia antes de qualquer decisão importante, retirou-se sozinho a um monte para orar. Os
evangelistas dizem determinando-o com o artigo, como se fora já conhecido e bastasse citá-lo para
saber-se de que monte se tratava: foi AO monte. Supuseram alguns tratar-se de Qarn-Hattin, mas este
fica a 8 km de Cafarnaum; mais aceitável a hipótese de ter sido Um-Barakât (“Mãe das Bênçãos"),
perto de Ain-Tabgha, a 3 km de Cafarnaum.
Realmente, não devia ficar muito distante, pois Lucas informa-nos que, logo após, Ele “entrou na ci-
dade", bem como anota que passou toda a noite no "oratório de Deus" (en têi proseúchêi tou theou).
Esses oratórios (lugares de oração) eram geralmente paredes, sem teto, com assentos em forma de an-
fiteatro, usados, nas cidades em que não havia sinagogas, para as devoções e preces. Ora. Cafarnaum
possuía sinagoga havia pouco tempo, pois ali ainda servia o centurião romano que a construíra (cfr.

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Luc. 7:5). Então o “oratório” devia achar-se meio ou de todo abandonado, sendo ideal, por seu isola-
mento e por suas vibrações devocionais, para o transcurso de uma noite em oração.
Ao sair de sua prece prolongada, já dia, Jesus chama a si, como diz Marcos, “aqueles que Ele quis”. E
todos imediatamente aderiram a Ele. O Verbo grego apélthon tem o sentido exato de “vir abandonando
tudo", ou seja, de aderir incondicionalmente.
Escolhidos os doze, deu-lhes o nome de “emissários”, em grego "apóstolos”. É a primeira vez que apa-
rece esse título. O título grego “apóstolo” (em hebraico saluah, em aramaico saluha) era dado aos
emissários ou comissionados do Sumo-Sacerdote ou do Sinédrio, quando enviados à Diáspora (Atos,
28:21) ou quando alguém era encarregado de missão especial: Paulo era “apóstolo” (emissário) do
Sinédrio em Damasco (At. 9:1-2). Ainda após a queda de Jerusalém, de lá envia “apóstolos" o patriar-
ca Jabne (cfr. Justino. Diál. 17.108 e Eusébio, in Isaia, 18:1).
Desejando dar sempre o sentido verdadeiro e atual, correspondente aos termos usados na época de
Jesus, traduzimos o grego "apóstolos" pelo português “emissários”. Isto porque na simples translitera-
ção do vocábulo, este assumiria um sentido que já variou profundamente em sua semântica através dos
séculos, e representaria hoje um sentido que não tinha, absolutamente, naquela época. Baste-nos citar,
como exemplo típico, a palavra epískopos, que foi transliterada para o latim "episcopus", passando em
português a "bispo". Ora, o termo "bispo" exprime hoje uma coisa totalmente diferente do que signifi-
cava “epíscopos" naquela época. O "epíscopos" era um simples supervisor (epi = super; scopos = vi-
sor), ou melhor, INSPETOR. E não tinha, (como hoje tem os bispos), aquele pomposo vestido roxo,
nem usava mitra, nem báculo, nem anel para ser beijado, nem riquezas. Então, falar de "bispos” na-
quela época é grosseiro anacronismo histórico, falseamento de interpretação, como qualquer pessoa de
mediana inteligência pode perceber, embora essa confusão possa trazer alguma vantagem a certas pes-
soas. Este nosso modo de agir, traduzindo os termos para correspondentes atuais, corresponde à nossa
intenção de compreender e de expor os Evangelhos em sua lídima pureza original, com o sentido exato
dos termos usados pelos evangelistas.
A esses doze emissários, Jesus confere autoridade sobre os espíritos atrasados (obsessores). Essa inter-
pretação coincide perfeitamente com a idéia original dos escritores, que traduziram por “espíritos não-
purificados” a expressão hebraica runôth hattumeah, que era o nome dado aos desencarnados que ain-
da habitavam os cemitérios (cfr. Mat. 8:28), lugar considerado “impuro”. É a esses espíritas de cemité-
rio (espíritas de mortos, el-hametim) e aos familiares (ôb) que Moisés proíbe de evocar para consul-
tas (Deut. 18:11).
A seguir vem o número dos emissários: DOZE, lembrando os doze patriarcas, as doze tribos de Israel
(“eles se sentarão em doze tronos para julgar as doze tribos", Mat. 19-28), os doze signos do zodíaco,
etc. Que esse número encerrava uma intenção, está claro pelo açodamento de Pedro (At.1.15-16) em
substituir Judas para restabelecer o número primitivo.
São quatro as listas completas dos emissários, todas agrupando os doze em três série de quatro, quan-
do, sendo que os cabeças de série são sempre os mesmos, embora a ordem interna varie:
Mat. Mc. Lc At. 1:13
1. Simão Pedro Simão Pedro Simão Pedro Simão Pedro
2. André Tiago André João
3. Tiago João Tiago Tiago
4. João André João André
5. Filipe Filipe Filipe Filipe
6. Bartolomeu Bartolomeu Bartolomeu Tomé
7. Tomé Mateus Mateus Bartolomeu
8. Mateus Tomé Tomé Mateus
9. Tiago (de Alfeu) Tiago (de Alfeu) Tiago (de Alfeu) Tiago (de Alfeu)
10. Tadeu Tadeu Simão Zelote Simão Zelote
11. Simão Cananita Simão cananita Judas (de Tiago) Judas (de Tiago)
12. Judas Iscariotes Judas Iscariotes Judas Iscariotes Judas Iscariotes

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Embora já tenhamos falado de alguns, recapitulemos:


1. SIMÃO, cognominado por Jesus "Pedro" (ver vol. I, pág 150).
2. ANDRÉ, irmão de Pedro (ver vol. 1, pág. 148).
3. TIAGO (JACÓ), filho de Zebedeu (ver neste vol., pág. 58).
4. JOÃO, irmão de Tiago (ver vol. 1, pág. 148).
Anotemos que Marcos nos dá o apelido BOANERGES, aplicado por Jesus, provavelmente por causa
do episódio narrado em Luc. 9:54. No entanto, a tradução que nos dá dessa palavra, “Filhos do Tro-
vão", não corresponde a ela. Esse sentido seria em hebraico ben rahham e em aramaico benereen ou
baneraen (no manuscrito Sangalense, do séc. 9.º , aparece essa correção à margem). Então, deve ter
havido alteração dos copistas na transcrição grega do nome, já que não podemos admitir que Marcos,
sobrinho de Pedro, não conhecesse pelo menos o aramaico.
5. FILIPE (ver vol. 1, pág. 152).
6. BARTOLOMEU, que todos unanimemente identificam como Natanael (vol. 1, pág. 153) .
7. MATEUS, sobre quem falamos páginas atrás, por ocasião de sua convocação por Jesus (pág.89-90)
Novos discípulos escolhidos, pois nesta ocasião, foram apenas cinco:
8. TOMÉ, nome aramaico que significa “gêmeo”. Para explicá-lo, João (11:16 e 20:24) acrescenta-lhe
a tradução grega “Dídimo”. Alguns comentadores supõe-no sócio de Mateus na coletoria. Parece que
seu primeiro nome era Judas (cfr. Acta Thomae 1,1 e Lenda de Abgar, Hist. Ecles. 1,13); e onde João
diz (14:22) “Judas não o Iscariotes”, a versão siríaca curetoniana traz “Judas Tomé”.
9. TIAGO (JACÓ) filho de Alfeu e de Maria (cfr. Mat. 27:56), irmão de José, de Simão e de Judas
Tadeu, todos também chamados “Irmãos de Jesus” (Mat. 13:55). O nome Tiago é uma corruptela por-
tuguesa do nome de Jacó, que deu Iago, e, com o título Santo colocado antes, se tornou SANTIAGO.
Julgando ser o título apenas “são”, o povo transformou-o em "são TIAGO".
Este Tiago era cognominado “o pequeno” (Mr. 15:41), e foi inspetor em Jerusalém (At. 15:13) onde
Paulo o encontrou (Gál. 1:19) e a quem qualificou de uma das "colunas da comunidade” (Gal 2:9),
tendo sido morto em 62. O outro Tiago, dito “o maior”, filho de Zebedeu e irmão de João Evangelista,
foi decapitado também em Jerusalém, no ano 44 (At. 12 :2).
Mas quanto ao parentesco há alguma confusão. Firmemos o que é certo: 1.º Tiago é filho de Alfeu e de
Maria: 2.º é irmão de Judas (Tadeu), pois assim o classifica Lucas, e ele mesmo, em sua epístola (Jud.
1) assim se Tiago e Judas eram irmãos de Simão e de José" e "irmãos de Jesus”.
Agora as confusões.
Em João (19:25) esse mesmo Tiago é dito "filho de Maria, a esposa de Clopas". Seria Clopas o mesmo
nome que Alfeu, como supõem alguns? ou teria ele um nome hebraico Halphai e um nome grego Klo-
pas (abreviatura de Kleópatra - donde a variante Kleópas, o que o identificaria com um dos "discípulos
de Emaús", Luc. 24:18) ? Esta parece a hipótese mais razoável, pois era muito comum na época a du-
plicidade de nomes (João se tornava Jasão, Phaltiel se tornava Filipe, Levi era Mateus, etc.). Esse Clo-
pas, citado em João, é dito "irmão de José" (esposo de Maria) por Hegesipo, pelos meados do 2.º sé-
culo (a cerca de 100 anos dos acontecimentos) conforme testemunho de Eusébio (Hist. Ecles. 3, 11, in
Patrol. Graeca, vol.20, col.248) e segundo Epifânio (Haeres.78, 7, in Patrol. Graeca, vol.42, col.708).
Pensam alguns que Maria, esposa de Clopas, era irmã de Maria mãe de Jesus. Mas como se explicaria
o caso de duas irmãs com o mesmo nome? Além disso, a enumeração de João (19:25) é bem clara:
“estavam ao pé da cruz de Jesus 1) a mãe dele; 2) a irmã da mãe dele; 3) Maria, esposa de Clopas; e 4)
Maria Madalena". Pela construção e pelo andamento da frase grega, "Maria esposa de Clopas" não
pode ser aposto de “a irmã da mãe dele": são duas pessoas distintas. Curiosidade: quem seria essa
"tia" de Jesus, irmã de Maria? Teria sido (simples hipótese!) Joana, a esposa de Cusa, o oficial de
Herodes, que foi buscar Jesus em Caná para curar-lhe o filho (conhecendo-o bem familiarmente,

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portanto, antes mesmo de sua "vida pública")? Além disso, a intimidade constante de Joana de Cusa
com Jesus e com o colégio apostólico é suficiente para dar justificativa a essa hipótese, não de todo
infundada, se bem que nova.
Neste caso, os quatro (Tiago, José, Simão e Judas) seriam primos-irmãos de Jesus, parentesco que
costumava ser abreviado com a simples palavra "irmão".
A afirmativa de alguns apócrifos e dos "pais" da igreja Orígenes, Epifânio, Gregório de Nissa, Hilário,
Ambrósio e Eusébio, de que eles teriam sido filhos de José, num primeiro matrimônio (contra o que
protestou energicamente Jerônimo), não pode ser aceita; pois não se compreenderia que José tivesse
casado com Maria, enquanto sua primeira esposa estava ainda viva (tanto assim que estava ao pé da
cruz de Jesus) e sobretudo seria inconcebível essa promiscuidade das duas esposas. Isso explica tam-
bém que as "irmãs de Jesus (Mat 13:55-56), que segundo Teofilacto se chamavam Maria e Salomé,
deviam ser filhas ou de Alfeu-Clopas, ou de Joana de Cusa (em nossa hirótese). Talvez essa Salomé,
irmã (prima) de Jesus, fosse a esposa de Zebedeu (Mr. 15:40) e então Tiago Maior e João seriam seus
sobrinhos e por isso estavam sempre a seu lado e o tratavam com tanta familiaridade, retribuída por
Jesus que os apelidou com fina ironia "filhos do trovão”.
10. TADEU (segundo Mateus e Marcos - alguns manuscritos têm Lebeu, que significa "coração”) ou
JUDAS irmão de Tiago (segundo Lucas e Atos). Com o nome de Judas, deixou-nos uma epístola, em
que se diz “irmão de Tiago”. O termo Tadeu significa "seio" (peito de moça) e esse cognome prevale-
ceu para evitar confusões com o outro Judas Iscariote. Tadeu, que talvez tivesse recebido esse nome
por sua bondade maternal (cfr. Lebeu, variante de sentido), era também filho de Alfeu-Clopas e de
Maria, e era chamado irmão de Jesus. Acrescentemos que, se fora irmão real de Jesus, era mais carac-
terístico dizê-lo, do que apenas irmão de Tiago.
11. SIMÃO, o zelote. Sendo comum esse nome, era natural um apelido para distinguí-lo de Simão-
Pedro. Mateus e Marcos aplicam-lhe o termo aramaico gannaí ou gan'an, helenizado para cananeu.
Não deve confundir-se com os naturais de Canaã, nem com os habitantes de Caná. Lucas interpretou
bem quando traduziu a palavra pelo grego zelote. Tanto este termo, quanto o aramaico cananita, ca-
racterizavam os filiados a um partido político-religioso, que pugnava ardentemente (zelotes) pela inde-
pendência da Palestina, e que teve grande atuação entre 66 e 70, extinguindo-se com a destruição de
Jerusalém. Mas, à época de Jesus, ainda não se achava propriamente constituído esse partido; talvez
Simão fosse um pouco "jacobino" contra os romanos (nacionalista) e daí lhe adviesse o apelido. Al-
guns crêem que este Simão era o terceiro "irmão" de Jesus a participar do colégio apostólico. Mas não
temos nenhum esclarecimento positivo a respeito, a não ser o nome e a citação seguida dos três nomes:
Tiago, Judas e Simão. Acreditamos que, se o fora, os evangelistas não teriam deixado de anotá-lo,
como fizeram com Tadeu.
12. JUDAS ISCARIOTES, cujo cognome se dividiria em is (homem de) Qerioth, que seria sua aldeia
natal (essa localidade aparece citada na tribo de Judá, em Josué, 15:25). Já seu pai assim era conheci-
do: Simão Iscariote (cfr. João 6:71). Judas era o único "apóstolo" natural da Judéia (judeu), já que to-
dos os outros eram, como Jesus e sua família, galileus. Os evangelistas assinalam, por antecipação, um
ato que só mais tarde se realizou, mas que ficou preso a seu nome como um estigma.
O fato de serem todos galileus vem confirmar a teoria de que Jesus e seus discípulos empregavam cor-
rentemente mais a língua grega que a aramáica, pois o grego era mais divulgado na Galiléia desde
umas duas gerações - 70 anos cerca de domínio romano - do que o aramaico, usado apenas no interior
dos lares, mas que ficara mais arraigado na Judéia, onde maior era a resistência contra os dominadores
romanos. E os judeus tanto não gostavam dessa adesão dos galileus, que passaram a denominar essa
região de "Galiléia dos gentios". Outra anotação, é que os judeus eram de modo geral morenos de ca-
belos pretos e olhos escuros, ao passo que os galileus eram claros, de cabelos louro-bronzeados ou
vermelhos e muitos tinham os olhos azuis ou verdes, o que justifica a tradição das representações grá-
ficas de Jesus e de Maria com essas características físicas.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

Neste capítulo consideramos a necessidade da oração, mesmo para aqueles que "se julgam" adianta-
dos e que, por vezes, pensam não mais precisar desse meio. Mas sem a oração de união com Deus,
não podemos acertar com segurança em nossas resoluções.
Mas vejamos o simbolismo do número doze.
No plano divino, doze é o arcano do Messias; no plano humano, exprime o holocausto de si mesmo: é
o sacrifício do indivíduo em benefício da coletividade, e isso feito no plano físico, que é o mundo dos
doze signos do zodíaco, ou a esfera de ação do Messias.
Portanto, com a escolha dos doze emissários, Jesus (a individualidade) deixa claro, para "quem tem
olhos de ver", que iniciou oficialmente, nesse instante, o ciclo sacrificial de sua própria pessoa para
benefício da humanidade.
Anotemos, a título de curiosidade, que se a SOMA do ternário superior com o quaternário inferior tem
como resultado sete, a MULTIPLICAÇÃO de um pelo outro dá-nos exatamente o número doze.
Mais algumas referências escriturísticas do número doze: no Antigo Testamento, eram 12 os filhos de
Jacó (Gên. 35:22) que deram origem às 12 tribos de Israel (49:28). Os altares erguidos por Moisés
(Éx.24:4), por Josué (Jos. 4:20) e por Elias (1.º Reis 18:31) tinham 12 pedras. São 12 os projetas
(Ecli.49:12) e os meses do ano (Dan. 4:26); 12 eram os pães da proposição (Lev. 24:5) as pedras do
urim do Sumo Sacerdote (Éx. 28:17-21); os israelitas encontram 12 fontes em Elim (Éx. 15:22). Salo-
mão nomeia 12 prefeitos para Israel (1.º Reis 4:7) e faz esculpir 12 leões no templo (1.º Reis 7:25).
Em o Novo Testamento, além dos 12 emissários, temos que a hemorroíssa sofria de seu mal há 12
anos (Mat. 9:20 ); a filha de Jairo ressuscitada por Jesus tinha 12 anos (Mrc. 5:42); os tronos dos
julgadores de Israel serão 12 (Luc. 22:30). Na 1.ª multiplicação dos pães são recolhidos 12 cestos de
restos (Mat. 14:20; Mrc. 6:43,. Luc. 9:17 e João, 6:13); 12 são as horas do dia. diz Jesus (Joço, 11:9).
E no Apocalipse, a "Mulher" é coroada por 12 estrelas (Ap. 12:1), a nova Jerusalém tem 12 portas,
com 12 anjos, e os nomes das 12 tribos de Israel (Ap. 21:12) e 12 pedras fundamentais com os nomes
dos 12 "apóstolos" (Ap. 21:14). A árvore da vida tem 12 frutos, um para cada um dos 12 meoes (Ap.
22:2) e seus habitantes são 144.000 = 12 x 12.000 (Ap. 7:4). Citamos apenas alguns dos trechos.
Há, portanto, razões ocultas em tudo isso. Jesus SABIA o que fazia. Pudéssemos nós compreender
todas as Suas lições!

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C. TORRES PASTORINO

A DESCIDA DO MONTE
Luc.6:17-19
17. E descendo com eles, parou num lugar plano, onde se achava uma multidão de seus
discípulos e muito povo de toda a Judéia, de Jerusalém, e do litoral de Tiro e de Si-
don, que vieram para ouvi-lo e ser curados de suas enfermidades.
18. E os que eram atormentados por espíritos atrasados ficavam sãos.
19. e todo o povo procurava tocá-lo, porque saía dele uma força que os curava a todos.

Após a permanência em prece e a escolha dos doze, Jesus desce “até um lugar unido", ou seja, plano
(embora isto não signifique que estava na planície do vale), onde teriam acesso mais fácil os doentes.
Todos procuravam tocá-Lo, e Lucas explica a razão: Dele promanava uma "força" (dúnamis) que a
todos curava.
Já em 5:17 essa observação fora feita pelo próprio Lucas. Embora não tendo conhecido pessoalmente o
Mestre, pode, pelas narrativas testemunhas que ouvira, tirar suas conclusões médicas, de que algo ex-
traordinário havia.
Realmente, com Sua aura puríssima, com o incrível magnetismo irradiado de sua profunda bondade,
de Sua infinita ternura, da compaixão ilimitada, os fluídos (virtudes) que Dele saíam deviam ter tido
um poder curador muito acima de qualquer especulação humana comum.

Quando tivermos alcançado suficiente evolução espiritual, poderemos alcançar os "dons" de ajuda ao
próximo.
Muitos dedicam-se a fazer exercícios especializados, a desenvolver faculdades personalísticas, para
obtenção dessas capacidades. Conseguem alguma coisa, mas sempre permanecendo em dependência
de auxiliares do mundo astral. O caminho não é esse, positivamente. O caminho (o Tao) é o progresso
espiritual, a evolução íntima, o mergulho em Deus, a união com o Cristo Interno. Se conseguirmos
isso, automaticamente ajudaremos o próximo com nossa simples presença, porque de nós mesmos se
irradiará uma força que curará males espirituais e físicos.
Pensam alguns que a preocupação da criatura de evoluir (ao invés de dedicar-se unicamente ao ser-
viço em benefício do próximo), constitui egoísmo. No entanto, nós somos células do todo. Se fizermos
evoluir a célula, que somos nós, estaremos ipso facto fazendo evoluir o conjunto, e muito mais rapi-
damente do que se nos esquecêssemos; pois neste último caso, ajudaríamos as personalidades (tran-
sitórias) dos outros, mas manteríamos todo o conjunto no mesmo nível em que se acham eles e em que
nos achamos nós: daríamos somente alívio, mas não traríamos evolução nem a nós nem a eles.
O caminho, pois, é EVOLUIR, para, com a nossa evolução, arrastar a todos um pouco mais para
cima.
Por exemplo: numa sociedade em que todos sejam pobres, e em que se necessite de dinheiro, se nin-
guém tem meios de consegui-lo, mas um tem a capacidade de realizar um trabalho que lhe aumente de
muito seus próprios rendimentos, isso será se maior ajuda à sociedade (porque ele lhe poderá dar do
que é seu), do que se ele apenas se preocupasse em arranjar dinheiro com pedidos a um e a outro, o
que jamais supriria as necessidades da sociedade.
Evolua, portanto, cada um de per si, e a Humanidade se encontrará amanhã, toda ela, um degrau
acima em seu progresso.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

O SERMÃO DO MONTE
AS BEM-AVENTURANÇAS

Mat. 5:1-12 Luc- 6:20-26

31. Vendo Jesus a multidão, subiu ao monte; e 20. E tendo erguido os olhos para seus discípu-
depois de sentar-se, aproximaram-se dele los, disse: felizes os pobres, porque vosso é o
seus discípulos, reino de Deus
32. e, abrindo a boca, ele lhes ensinava, dizen- 21. Felizes os que agora tendes fome, porque
do: sereis fartos. Felizes os que agora chorais,
porque rireis.
33. felizes os mendigos do Espírito, porque de-
les é o reino dos céus; 22. Felizes sois, quando os homens vos odiarem
e quando vos excomungarem, vos ultraja-
34. felizes os que choram, porque serão conso-
rem e rejeitarem vosso nome como indigno,
lados;
por causa do Filho do Homem
35. felizes os mansos, porque eles herdarão a
23. alegrai-vos e exultai nesse dia, pois grande é
Terra;
vosso prêmio no céu, porque assim seus pais
36. felizes os famintos e sequiosos de perfeição, fizeram aos profetas.
porque eles serão satisfeitos;
24. Mas ai de vós que sois ricos, porque já re-
37. felizes os misericordiosos, porque eles obte- cebestes vossa consolação.
rão misericórdia;
25. Ai de vós os que agora estais fartos, porque
38. felizes os limpos de coração, porque eles tereis fome. Ai de vós, os que agora rides,
verão Deus; porque haveis de lamentar-vos e chorar,
39. felizes os pacificadores, porque eles serão 26. Ai de vós quando vos louvarem os homens,
chamados Filhos de Deus. porque assim seus pais fizeram aos falsos
40. Felizes os que forem perseguidos por causa profetas.
da perfeição, porque deles é o reino dos
céus.
41. Felizes sois, quando vos injuriarem, vos
perseguirem e, mentindo, disserem todo o
mal contra vós minha causa;
42. alegrai-vos e exultai, porque é grande vosso
prêmio nos céus, pois assim perseguiram
aos profetas que existiram antes de vós.

Penetramos, agora, num capítulo da Boa Nova, que todo cristão deveria ler, de joelhos, diariamente,
vivendo-o intensamente. Constitui um dos mais perfeitos, elevados e completos cursos de iniciação
profunda. Se todos os livros de espiritualidade do mundo se perdessem, mas restasse apenas este tre-
chos, bastaria ele para levar as criaturas à perfeição mais extremada, ao adeptado mais avançado, le-
vando-nos - se vivido integralmente - à libertação total dos ciclos reencarnatórios.
* * *

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Diz-nos Mateus que Jesus "subiu ao monte" e lá falou: é a tradição de Jerusalém. Lucas, tradição de
Antióquia, afirma que Jesus "desceu da montanha a um lugar plano" e aí ensinou o Contradição apenas
aparente. Lucas dá-nos os pormenores, que Mateus resume. E absolutamente não se diz, no 3.º Evan-
gelho, que Jesus desceu à planície mas apenas a "um lugar plano", provavelmente na encosta do monte
ainda, onde deparou a multidão que o esperava. Atendeu-a, e depois falou.

O sentido profundo justifica plenamente as duas escrituras. Em Mateus, onde todo o discurso é dado
seguidamente, Jesus fala no monte, elevadamente, para as individualidades, ao Espírito. Em Lucas,
dirige-se Jesus às personalidades, facilita Seu ensino, DESCE a "um lugar plano". Observamos que as
bem-aventuranças em Lucas se referem ao plano físico: os pobres, os que choram, os que têm fome,
que sentem essas angústias na carne, no corpo denso, e o Mestre se refere exatamente à pobreza de
dinheiro, às lágrimas das dores, à fome de comida. E logo a seguir, condena os ricos, os que estão
fartos, os que riem, tudo na parte material, coisa que não vemos em Mateus. Este dá-nos a parte espi-
ritual, com elevação (monte) extra-terrena: cada um interpreta o ensinamento segundo seu diferente
ponto de vista: Mateus, segundo o Espírito, segundo a individualidade; Lucas segundo o corpo, a per-
sonalidade. Daí ter escrito que Jesus DESCEU a um lugar plano.
Bastaria essa observação atenta, para convencer-nos, mesmo se não houvesse outras provas, que a
linguagem dos Evangelhos tem profundo sentido simbólico e místico, embora os fatos narrados te-
nham realmente ocorrido no mundo físico; mas além da letra (que mata) temos que entender o Espí-
rito (que vivifica).
Interpretemos, primeiro, o trecho de Lucas, subindo, em seguida, ao de Mateus.

LUCAS
Lucas apresenta-nos quatro bem-aventuranças e quatro condenações em paralelo, visando unicamente
à personalidade humana em suas vidas sucessivas. Sabemos, com efeito, que, de modo geral, as encar-
nações oferecem alternância de situações: os ricos renascem pobres, e vice-versa (cfr. 1 Sam.2:7-8), os
caluniados renascem louvados e vice-versa. Essa idéia foi bem apreendida por Lucas, quando transcre-
veu em seu Evangelho o Cântico de Maria (Lc. 1: 52-53).
Que não se referia a esta mesma vida de um só transcurso está claro, porque em uma mesma existência
não se dão, absolutamente, tais transformações. E também não podia referir-se à vida "celestial" de um
paraíso ou "céu" de espíritos, porque, uma vez lá, ninguém pensará em fartar-se de iguarias para vin-
gar-se da fome que aqui passou; e mesmo que aqui se tenha fartado, não ligará a menor importância à
falta de alimentos físicos, desnecessários ao espírito. Logo, a única conclusão lógica aceitável racio-
nalmente é a recompensa ou castigo que nos virão NESTA MESMA TERRA, numa vida posterior,
com um corpo novo. E o ambiente antioqueno, todo ele reencarnacionista, compreenderia bem essas
realidades.
As quatro oposições são as seguintes:
1) Felizes vós os mendigos, porque vosso é o rei- Ai de vós os ricos, porque já fostes consolados.
no de Deus.
2) Felizes vós que tendes fome sereis fartos. Ai de vós os fartos, porque tereis fome.
3) Felizes vós que chorais, porque rireis . Ai de vós que rides, porque chorareis .
4) Felizes quando fordes perseguidos, porque as- Ai de vós quando vos louvarem porque assim fize-
sim fizeram aos profetas ram aos falsos-profetas

Se não entendêramos o sentido real da reencarnação, teríamos nesse resumo uma tirada demagógica,
para conquistar simpatizantes e adeptos, pois são declarados felizes exatamente os da massa explorada
e escravizada, enaltecendo-se como coisas ótimas a pobreza, a fome, a dor (doença) e a rejeição dos

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homens. E as ameaças atingem precisamente os elementos exploradores e gozadores: os ricos, os de


mesa farta, os alegres (sadios) e os famosos.
De qualquer maneira, é uma versão personalística expressa para aqueles que ainda se apegam a seu eu
pequenino e passageiro, julgando-o seu Eu real. É uma consolação interesseira, para aqueles que ainda
dão valor ao que é externo a si mesmos: o consolo dos outros, a posse dos bens materiais ou não, uma
boa mesa, e os elogios dos homens.
Para Lucas, neste passo, Deus é a Lei Justiceira que premia e pune, que dá e tira, tal como O concebem
as personalidades presas ao transitório irreal de um mundo passageiro, do qual eles se acreditam "par-
tes integrantes". Personalidades que ainda não se libertaram do apego à Terra, às condições exteriores
de bem-estar financeiro, físico, emocional ou de apoio das outras criaturas.
Acredite ou não na reencarnação, a massa humana se encontra nesse estágio e busca ansiosamente es-
sas mesmas coisas, por todos os meios, materiais e espirituais. Nada interessa ao rebanho senão, em
primeiro lugar a saúde, depois o dinheiro para viver, a seguir a tranquilidade emocional (amores) e
enfim a "boa cotação" na opinião pública. Esses são os pedidos mais frequentes e angustiosos, feitos
nas preces dos crentes de todas as religiões.

MATEUS
Muito diferentes as palavras de Mateus. Transcrevendo os ensinamentos profundos de Jesus, relativos
à individualidade - que não dá a menor importância a coisa alguma que venha de fora, que seja exter-
no, quem presta a mínima atenção ao que dizem "os outros".
Os exegetas e hermeneutas buscam o número 7 nas bem-aventuranças, não conseguindo reduzi-las a
esse número, nem mesmo reunindo duas em uma. Mas, realmente, as bem-aventuranças são apenas 7,
já que as duas últimas vezes em que aparece a palavra "bem-aventurados" (felizes), estão fora da série,
tratam de coisas externas, que não dependem da evolução interna da criatura. As sete primeiras refe-
rem-se à evolução do homem, as duas últimas são acidentes que podem ocorrer e que também podem
não ocorrer, o que nada tira nem acrescenta à evolução do indivíduo: representam elas provações exte-
riores, que experimentam e provam a legitimidade da evolução genuína.

PRIMEIRA - Uma variedade imensa de traduções tem sido dada às palavras de Mateus ptôchoi tôi
pnéumati. Vamos analisá-las. O primeiro elemento, ptôchos, significa exatamente "aquele que caminha
humilde a mendigar". Sua construção normal com acusativo de relação poderia significar o que costu-
mam dar as traduções correntes: "mendigos (pobres, humildes) no (quanto ao) espírito".
Acontece, porém, que aí aparece construído com dativo, à semelhança de tapeinous tôi pnéumati
(Salmo 34:18), "submissos ao Espírito"; ou zéôn tôi pneúmati (At. 18:25), "fervorosos para com Espí-
rito"; ou hagía kai tôi sômati kai tôi pnéumati (1 Cor. 7:34), "santos tanto para o corpo, como para com
o espírito".
Após havermos considerado numerosas traduções, aceitamos a que propôs José de Oiticica. MENDI-
GOS DE ESPÍRITO, por ser mais conforme ao original grego, e por ser a mais lógica e racional; pois
realmente são felizes aqueles que mendigam o Espírito; aqueles que, algemados ainda no cárcere da
carne, buscam espiritualizar-se por todos os meios ao seu alcance, pedem, imploram, mendigam esse
Espírito que neles reside, mas que tão oculto se acha.

SEGUNDA - Felizes os que choram, ansiosos em obter esse Espírito, embora presos às sensações. E
choram porque sentem a dificuldade de libertar-se das provações e tentações a que os sentidos os ar-
rastam.
Não se trata de chorar por chorar, que isso de nada adiantaria à evolução. Fora assim, os que vivem a
lamentar-se da vida seriam os mais perfeitos ... e aqueles que criam doenças e males imaginários, leva-

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dos pela autocompaixão, para sobre si atraírem alheias atenções, palavras de conforto, estariam como
elevados na linha evolutiva ... Nada disso: as lágrimas enchem os olhos e sobretudo o coração diante
do próprio atraso, diante da verificação de quanto ainda somos involuídos. E isso trar-nos-á a consola-
ção de ver-nos finalmente libertados.
Não podemos admitir más interpretações em textos de tão alta espiritualidade, que trazem incontestá-
vel clareza na exposição de seu pensamento.

TERCEIRA - Salienta-se, a seguir, a mansidão ou humildade. a paciência ou doçura (pralís); e aos


que assim forem é prometida, como herança, a Terra.
Já dizia Davi (Salmo 37: 11) "os mansos herdarão a Terra e se deleitarão na abundância da paz". E
mais tarde Isaías (65:9) "meus escolhidos herdarão a Terra e meus servos nela habitarão". Também nos
Provérbios (2:21-22) se diz: "porque os homens retos habitarão a Terra e os íntegros nela permanece-
rão; mas os ímpios serão suprimidos da Terra e os pérfidos dela serão arrancados".
Há, pois, uma constante no pensamento do Antigo e do Novo Testamentos, nesse sentido: a Terra será
o prêmio dos justos, que aí encontrarão a paz perfeita. Não se fala em herdar o "céu", no sentido mo-
derno, mas A TERRA (tên gên), sem a menor possibilidade de interpretações malabaristas.
Que prêmio será esse? Será o apego à personalidade? ao corpo físico e às coisas físicas? Cremos que
não.
Não é, evidentemente, nesta nossa vida atual, em pleno pólo negativo; mas num renascimento futuro
ou, como disse Jesus textualmente, na reencarnação - en têi paliggenesía -, quando o Filho do Homem
se sentar em seu trono de glória (Mat. 19-28).
A Terra, este mesmo planeta, transformado em planeta de paz (depois que dele tiverem sido expulsos
todos os que buscam e causam guerras), conservará como seus habitantes, na evolução, aqueles que,
com ela, tiverem também evoluído por meio da mansidão, da paciência, da doçura e da humildade.

QUARTA - Nesta bem-aventurança fala-se dos famintos e sequiosos de perfeição. Geralmente dikai-
osúnê é traduzido por "justiça". Essa palavra, entretanto, permite uma incompreensão que falsearia o
sentido original: como podem ser louvados os que exigem justiça, se logo após são ditos felizes os
misericordiosos ? Uma coisa exclui a outra: ou justiça, ou misericórdia! Como teria podido Jesus con-
tradizer-se a tão curto intervalo ? Há de haver algum engano.
Ora, realmente o termo grego dikaiosúnê é derivado de dikaios, que exprime precisamente “o observa-
dor da regra, o justo, o reto, o honesto, ou, numa expressão mais exata ainda "o que se adapta às regras
e conveniências", pois o termo primitivo dikê, donde todos os outros derivaram, significa REGRA.
Compreendemos, então, que o sentido (para coadunar-se com a bem-aventurança seguinte) só pode
referir-se aos que aspiram ardente e sequiosamente à PERFEIÇÃO, ao AJUSTAMENTO de si mes-
mos às Leis divinas. Então é justiça no sentido de JUSTEZA (tal como o francês justice, no sentido de
JUSTESSE).
Esses que são famintos desse ajustamento, hão de ser saciados em suas aspirações ardentes.

QUINTA - Nesta quinta, fala Jesus dos misericordiosos, daqueles que, segundo Paulo (Col- 3: 12) "se
revestem das entranhas da misericórdia". É o oposto da "justiça". É o SERVIÇO no sentido mais am-
plo. O serviço de quem se compadece daquele que erra, porque nele não vê maldade: vê apenas igno-
rância e infantilidade.
Esses obterão misericórdia, porque sabem distribuir servindo sempre, sem jamais cogitar de mereci-
mentos ou prêmios. É a misericórdia que tudo entrega à Vontade do Pai, e vai distribuindo bênção a
mancheias sobre todos, indistintamente, incondicionalmente, ilimitadamente, amorosamente.

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SEXTA - Fala-nos esta da limpeza do coração. Muitos interpretam-na como limpeza ou pureza no
sentido de castidade, de não-contato sexual, atribuindo, a um acidente secundário, uma condição fun-
damental. Não é isso: é pureza e limpeza no sentido de renúncia, de ausência total de apego, de nudez,
porque nada possuímos de nosso: tudo pertence ao Pai, e nos é concedido por empréstimo temporário
("nada trouxemos para este mundo, e nada poderemos dele levar", 1 Tim. 6:7); estamos limpos, esta-
mos livres, estamos nus de posses, de apegos, e até mesmo de desejos, desligados inclusive de nossa
própria personalidade.
A palavra Katharós tem um significado bem claro em grego: é tudo aquilo que é puro por não ter
mistura, que é isento, desembaraçado, livre, limpo de qualquer agregação.
A expressão Katharoí têi Kardíai já aparece no Salmo 24:4 (que também traz o adjunto em dativo) e aí
aparece no seguinte sentido: "quem subirá ao monte de YHVW e quem estará no santo lugar"? ou seja,
"quem obterá a realização elevada do encontro com o Cristo"? e a resposta diz: "aquele que é inocente
(sem culpa) nas mãos (nos atos) e LIMPO DE CORAÇÃO", isto é, que em seus atos (mãos) e pensa-
mentos (coração) não tem apego nem culpa, que não trai o amor de Deus (individualidades), desvian-
do-o para amar as personalidades externas, passageiras e enganosas.
Essa mesma expressão é usada por Platão, no diálogo Crátilo (405 b), de que traduziremos o texto: "a
purgação e a limpeza, seja da medicina seja da mediunidade, as fumigações de enxofre, seja por drogas
medicinais ou por mediunismo, e também os banhos desse tipo e as aspersões, tudo isso tem um só e
único poder: tornar o homem limpo, quer seja do corpo, quer seja de alma (Katharós katà sôma tò kai
katà tên psuchén) ... Assim, esse espírito é o limpador, o lavador e libertador de semelhantes sujeiras
(ou agregações que enfeiam)".
Nada se acena à castidade nem ao sexo, cuja união é uma ordem taxativa de Deus e da Natureza, sem o
qual a obra divina não sobreviveria; logo é um ato SANTO e PURO.
Esses, que se libertaram até do eu pequenino, verão Deus (futuro de horáô), que é VER não só física,
mas sobretudo espiritualmente: sentir, experimentar.

SÉTIMA - Ensina-nos a respeito dos pacificadores, ou, literalmente, dos "fazedores de paz", eirêno-
poiós (substantivo que é um hapax na Bíblia); trata-se daquele que não somente TEM a paz, como
também a distribui com suas vibrações de amor.
Esses serão chamados, porque realmente o são, Filhos de Deus, desse "Deus de Paz" de que nos fala
Paulo (2 Cor.13:11), isto é, atingiram não apenas o encontro com o Cristo, mas a unificação perma-
nente com Deus.

Passemos, agora, ao comentário esotérico, onde procuraremos penetrar não apenas o sentido profun-
do das palavras de Jesus, como também meditar a respeito de algumas das correspondências das
bem-aventuranças com outros ensinamentos do próprio Jesus e de outros conhecimentos da realidade
da vida. Será um resumo de estudo comparativo, que poderá ser multiplicado pelos leitores em suas
meditações a respeito.
Vamos verificar que as sete bem-aventuranças dão os sete passos essenciais da evolução íntima de
todas as criaturas, para atingir aquilo que Paulo afirma que TODOS DEVERÃO alcançar "até que
todos cheguemos à unidade da convicção e do pleno conhecimento (pela vivência) do Filho de Deus,
ao estado de Homem Perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef. 4:13), ou seja, até que
consigamos que o Cristo viva plenamente em nós, e nossa vida seja UNIFICADA à Dele .

1.º PASSO
Plano: físico ( mineral)

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C. TORRES PASTORINO
Lei: Amor (coesão-repulsão) - Efeito: Consciência única.
Estado de consciência: sono profundo.
Expansão: apenas vibração.
Forças: materiais
Cor: marron - Efeito: dinheiro, bens materiais, pompas.
Bem-aventurança: "Felizes os mendigos de espírito, porque deles é o reino do céus" .
Cristo em relação ao plano: "Eu sou o Pão vivo" (João, 6:51)
Prece: "Liberta-nos do mal" (da matéria, que é o pólo negativo, o satanás, o adversário do Espírito.

Todos aqueles que, mesmo ainda presos à matéria, já atingiram um grau evolutivo que os faz compre-
ender a necessidade de passar do negativo ao positivo, da matéria ao Espirito (5º plano), começam a
aborrecer a materialidade, com todo o seu cortejo de bens materiais, sensações, emoções; e então,
mendigam o Espírito ansiosa e insistentemente, sentindo que, para eles, o único Pão vivo que vem do
céu é o Cristo Interno, o Deus que habita em nós.
Ainda estão sujeitos às forças materiais, mas pedem para delas ser libertados, pois constituem elas o
"mal” para eles, o maior adversário (satanás ou diabo) do desenvolvimento interior espiritual.
Esses, não há dúvida, são os candidatos mais sérios ao "reino dos céus", que é justamente o "reino
espiritual” acima do reino mineral, do reino vegetal, do reino animal, do reino hominal. E o reino
espiritual ou celestial ou reino dos céus, quando atingido conscientemente, mesmo na permanência da
criatura na matéria, traz a realização do objetivo máximo da evolução passar de um reino ao outro,
desenvolvendo em si as forças superiores, pelo domínio das inferiores. Todo ensinamento de Jesus
visou e visa a ensinar aos homens como abandonar o reino hominal para atingir o reino espiritual (ou
dos céus ou de Deus): lição de como dar um passo a mais na estrada evolutiva, que Ele nos ensinou
com palavras e sobretudo com Seu exemplo.

2.º PASSO
Plano: etérico (vegetal)
Lei: Verdade . - Efeito: Existência única .
Estado de consciência: sono sem sonhos.
Expansão: sensibilidade, sensações .
Forças: etéricas.
Cor: vermelho. - Efeito: fascinação, propaganda-hipnotismo" elementais, obsessões.
Bem-aventurança: "Felizes os que choram, porque serão consolados".
Cristo no plano: "Eu sou a Luz do mundo" (João, 8: 12).
Prece: "Não nos induzas às provações".

Além da prisão na matéria, o "espírito", que compreendeu sua necessidade imperiosa de evoluir, pro-
cura libertar-se, também, das sensações causadas por forças externas; e chora pelo fato de ver-se
ainda prisioneiro dos cincos sentidos limitadores, cinco portas por onde entram as "tentações", as
provações, os sofrimentos que ainda lhe ferem a sensibilidade.
Para todos, as tentações ou provações, as dores e sofrimentos "físicos", são causados pelas forças
etéricas (no sistema nervoso). Ora, todo esse complexo de forças em choques violentos traz lágrimas

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SABEDORIA DO EVANGELHO

de angústia, na verificação da dificuldade (ou até, por vezes, da impossibilidade) de libertação imedi-
ata. Nesse plano etérico manifestam-se os elementais, as obsessões tenazes, os assédios do hipnotismo
coletivo de forças que vivem a sugestionar a humanidade, quer pela propaganda, quer pelas idéias-
matrizes que procuram amoldar a elas nosso intelecto, provenientes de elementos encarnados ou de-
sencarnados. Toda a humanidade, atualmente, se acha hipnotizada ou pelo menos sugestionada pela
leitura, pela audição (de rádios), pela visão de imagens nas TVs, que impõem idéias, produtos, "slo-
gans", pontos de vista, buscando desviar a criatura (tentá-la) para fazê-la sair da estrada certa da
interiorização que a levaria à felicidade do encontro com o Cristo Interno, ao mergulho na Consciên-
cia Cósmica. Sente-se o homem "em trevas", sem saber por onde fugir a esse impiedoso cerco de for-
ças violentas. E para estes é que o Cristo se apresenta: "Eu sou a Luz do mundo", desse mundo con-
turbado. Então a prece que mais natural se expande de nosso coração, consiste nas palavras "Não nos
induzas às provações", não nos leves, Pai a uma permanência demasiadamente longa nesse plano; e
ao proferir essas palavras, as lágrimas saltam do coração para os olhos.
Mas ainda felizes os que choram essas lágrimas, porque ao menos compreenderam seu estado e, com
essa compreensão, tem os meios de sair dele: esses, pois, serão consolados com a libertação dessas
angústias torturantes mas, ao mesmo tempo, purificadoras.

3.º PASSO
Plano: astral (animal)
Lei :Justiça - Efeito: Exação única
Estado de consciência : sono com sonhos.
Expansão: emoções.
Forças: animais.
Cor: amarelo - Efeito: concretização da Lei de Causa e Efeito (Carma) .
Bem-aventurança: "Felizes os mansos, porque herdarão a Terra".
Cristo no plano: "Eu sou a Porta das ovelhas" (João, 10:9) .
Prece: "desliga-nos de nossos débitos (cármicos), assim como desligamos aqueles que nos devem" .

Além do corpo, além das sensações, o aspirante sente - à proporção que evolui - o atraso que lhe cau-
sam as emoções, manifestação puramente animal da alma. As emoções são movimentos anímicos en-
tre os dois pólos extremos, o positivo (amor) e o negativo (ódio), com todos os matizes intermediários.
O que mais prende o "espírito" ao ciclo reencarnatório é exatamente a faixa emocional, que os não-
evoluídos confundem com evolução, quando a experimentam em relação ao pólo positivo.
Explicamo-nos. O devoto, que sente emoção e chora ao orar; aquele que se emociona ao ver a dor
alheia, sentindo-a em si; o amoroso que vibra emocionalmente diante da pessoa ou das pessoas ama-
das; o orador que derrama lágrimas emotivas ao narrar os sofrimentos de Jesus, e que comove o au-
ditório, arrastando-o à reforma mental; todos esses estão agindo no plano puramente animal, que é o
das emoções. O amor, a caridade, a prece que Jesus ensinou não são manifestações emotivas: são
espirituais, e só poderão ser puras, elevadas, divinas, quando nada mais tiverem de emotividade.
A libertação dessa emotividade, que tanto mal causa à humanidade, é obtida quando a criatura con-
quista a mansidão, a paciência, a resignação ativa, a conformação com tudo o que com ela ocorre.
Cristo, em relação a este plano, é a Porta das ovelhas, porque só através Dele podemos sair do plano
animal (das ovelhas) e penetrar no reino hominal, subindo daí até o reino celestial ou divino.
A prece coincide perfeitamente: a lei do plano é a da Justiça, portanto Lei do Carma, de Causa e
Efeito, que só age, (e só pode agir) no plano emocional. E por isso, a prece que Jesus ensinou é esta:

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C. TORRES PASTORINO
"desliga-nos de nossos débitos (cármicos), assim como nós desligamos os que nos devem". O termo
grego exprime: "resgatar, soltar, desligar, libertar". Mas a condição de obtermos isso (crf. Mat. 6:15)
é que de nossa parte também nos desliguemos dos outros. A tradução comum é "perdoar", que ainda
supõe a emoção; o perdão dá a entender que a pessoa se sentiu "ofendida" e, depois, reagindo, ven-
cendo-se a si mesma superiormente, concede com generosidade o perdão. Tudo no campo emotivo.
Nada disso ensinou Jesus. Mas era natural que a humanidade, que tantos séculos viveu e ainda vive às
expensas das emoções, só pudesse entender nesse plano. Vendo melhor hoje, compreendemos que não
é isso. Trata-se do desligamento, como tão bem exprime a palavra original grega. Nem a criatura se
sente ofendida (porque nada atinge nosso Eu real), nem precisa perdoar, porque não se julga magoa-
da: simplesmente SE DESLIGA, como se as ocorrências se tivessem passado com pessoas totalmente
estranhas. O perdão ainda supõe, da parte de quem o dá, o sentimento emocional da vaidade. Ora, de
fato, qualquer coisa que atinja nosso "eu" pequeno, só fere exatamente uma criatura "estranha", pas-
sageira e ilusória: porque se importar com isso o Eu Real inatingível? O que tem que fazer é DESLI-
GAR-SE totalmente, para subir de plano, e não ficar preso a emoções várias, que só trazem perturba-
ção.
Aqueles que, vencidas as emoções (todas, boas e más), conseguirem a mansidão mais absoluta, a
inalterabilidade, esses herdarão a Terra, após sua “reencarnação".

4.º PASSO
Plano: intelectual (homem)
Lei: Liberdade. - Efeito: Poder de condicionamento
Estado de consciência: semi-vigília .
Expansão: oposição entre eu e "não-eu"
Força: humanas .
Cor: verde. - Efeito: ensino intelectual.
Bem-aventurança: "Felizes os famintos e sequiosos de perfeição, porque serão fartos" .
Cristo no plano: "Eu sou o Bom Pastor" (João, 10: 11) .
Prece: "dá-nos hoje nosso pão supersubstancial" .

No plano intelectual já a criatura começa a ter capacidade de raciocínio, de discernimento, de escolha,


de condicionamento da própria vida. Já opõe, pela divisão "satânica", o eu contra todo o resto do mun-
do, que é o não-eu. Entra no intelectualismo cerebral, querendo provas de tudo, indagando o porquê de
tudo, e só aceitando o que o próprio cérebro tenha capacidade de compreender. Uma coisa evidente a
um cérebro desenvolvido, pode constituir insondável mistério para outro que ainda se não desenvol-
veu. Uma integral luminosidade clara a um matemático, é um emaranhado de letras escuras para o cé-
rebro virgem nesse ramo ( e muita gente nem mesmo entende o que significa á palavra "integral" que
escrevemos acima ...). Então, há infinidade de estágios também neste plano.
A bem-aventurança explica-se perfeitamente: "felizes os famintos e sequiosos de perfeição, porque
serão saciados". No plano em que vige a lei da Liberdade, são felizes precisamente os que buscam a
perfeição, do caminho, e não a tortuosidade dos enganos; os que se esforçam em conformar-se, em
ajustar-se ao Espírito reto, e não à matéria sinuosa (observe-se que a natureza física tem horror à linha
reta perfeita).
Cristo, nesse plano, diz: "Eu sou o Bom Pastor", aquele que pode guiar seu rebanho com segurança e
amor.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

A prece é a mais necessária: "dá-nos hoje nosso pão supersubstancial, ou seja, o alimento básico que
está acima da substância, que está no Espírito: a iluminação do intelecto.

5.º PASSO
Plano: "espírito" (super-homem)
Lei: Serviço - Efeito: Aperfeiçoamento contínuo.
Estado de consciência: vigília .
Expansão: compreensão do Eu real.
Forças: super-humanas .
Cor: azul. - Efeito: dedicação a Deus e às criaturas.
Bem aventurança: "Felizes os misericordiosos, porque obterão misericórdia" .
Cristo no plano: "Eu sou a ressurreição da vida" (João, 11:25) .
Prece: "seja feita a Tua vontade".

No quinto plano, a criatura já superou o intelecto, já ascendeu acima da personalidade dividida


(egoísta), já compreendeu que seu Eu Real não é o quaternário inferior - pura manifestação temporá-
ria e ilusória de um Espírito eterno.
Logicamente, em vendo isso, percebe que só tem um caminho: o aperfeiçoamento contínuo, sem para-
das, sem retrocessos.
Com essa percepção, dedica-se a Deus nas criaturas, e às criaturas de Deus, servindo-as com todas
as suas forças.
Por isso a bem-aventurança diz: "felizes os misericordiosos, porque obterão misericórdia": quanto
mais misericordioso na ajuda aos outros, mais as forças super-humanas o ajudarão.
A esse plano, Cristo revela-se: "Eu sou a ressurreição da vida". Por isso, os que estão nesse plano
sabem que a vida não termina com o desfazimento da personalidade transitória; sabem que esta atual,
sobre a Terra, não é vida, mas prisão, e que apenas estão manifestados temporariamente na matéria;
sabem que no Cristo Interno eles têm o reerguimento da verdadeira vida, que temporariamente se
encontra eclipsada pelo encarceramento no corpo denso. A vida real, que existe potencialmente em
nós (embora abafada) se reerguerá porque o Cristo Interno, que somos Nós, é substancialmente o
reerguimento, a ressurreição, o ressurgimento dessa vida.
A prece: "seja feita Tua vontade na Terra, tal como é feita nos céus" constitui uma aceitação plena e
incondicional de nosso estágio terreno na cruz da carne. Pois a criatura já SABE qual seu Eu Real, e
conhece a ilusão de seu eu terreno: pede, pois, que nesse eu terreno se realize em cheio, sem nenhuma
limitação, tal como se realiza no plano espiritual (celeste).

6.º PASSO
Plano: mental.
Lei: Perfeição. - Efeito: Harmonia integral.
Estado de consciência: visão direta .
Expansão: eu único em todos: fraternidade absoluta.
Forças: angélicas .
Cor: violeta. - Efeito: compreensão total, auto-sacrifício .

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C. TORRES PASTORINO
Bem-aventurança: "Felizes os limpos de coração, porque verão Deus".
Cristo no plano: "Eu sou o caminho da Verdade e da Vida" (João, 14:6)
Prece: "Venha a nós T eu reino" .

Neste sexto plano, o mental, a criatura já está iluminada (daí chamarem os hindus a este plano, "bú-
dico"). O homem conquistou a perfeita paz interna, a harmonia integral no corpo e no espírito.
E compreendeu que seu Eu Real é único em todas as criaturas, pouco importando a manifestação ex-
terna e transitória que esse Eu Real assuma. As forças angélicas estão “a serviço" e com elas sintoni-
zam aqueles que o atingiram: os místicos, de qualquer corrente, os verdadeiros vedantas. A cor vio-
leta, representativa da mistura entre o rosa (devoção) e o azul claro (espiritualização), assinala a
aura dessas criaturas que superaram a personalidade e vivem na individualidade.
Aí a compreensão da Vida é total. A verdade é sentida em toda a Sua amplitude. E o homem entrega-
se ao sacrifício de si mesmo em benefício da coletividade, na maior das harmonias internas.
“Felizes os limpos de coração" corresponde exatamente a esse plano, já que a criatura que atingiu
esse ponto está desapegada de tudo, tem o coração totalmente “limpo" e vazio, para nele abrigar
apenas o Cristo Interno. Superou as emoções e ama sem mistura de emoção: ama integralmente, sem
distinções, a todos e a tudo, pois sabe, por experiência pessoal, que o Eu é o mesmo em todos e em
tudo, e portanto, todas as criaturas são um único Espírito (cfr. Ef.4:4):
Disse Cristo aos desse plano: Eu sou o caminho da Verdade e da Vida. Indicou-nos, com Seu exemplo,
o caminho que todos temos que seguir para atingir a Vida e a Verdade, que Ele conhece porque já
percorreu todos os estágios vitoriosamente. E só Ele, que sobrepujou todos os planos, pode trazer-nos
essas elucidações com toda a segurança, não apenas com Suas palavras, como com Sua vivência per-
feita, sublinhada pelo sacrifício total em beneficio da humanidade.
Por isso pode bem dizer ser Ele, o Cristo Interno, manifestado em toda a Sua plenitude em Jesus, o
Caminho da Verdade e da Vida.
A prece, “venha a nós Teu reino", expressa bem a ânsia que temos de penetrar nesse plano do reino
espiritual, que é o reino do Pai, o reino divino.

7.º PASSO
Plano: divino (átmico)
Lei: Beleza. - Efeito: Contemplação absoluta .
Estado de consciência: integração e unificação (transubstanciação).
Expansão: fusão total em Deus e em Suas criaturas .
Forças: divinas.
Cor: dourada. - Efeito: Vida.
Bem-aventurança: "Felizes os pacificadores, porque serão Filhos de Deus".
Cristo no plano: "Eu sou a Videira e vós os ramos" (João, 15: 1) .
Prece: "Santificado seja Teu Nome".

Neste sétimo plano, divino; a lei que vige é a beleza (daí tanto atrair a todos a Beleza, em qualquer de
seus graus e planos).
Neste ponto, já a união não é mais intermitente, sendo superada mesmo a visão direta. Já existe a con-
templação absoluta, constante, numa integração perfeita: é a unificação ("Eu e o Pai somos um", João,

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SABEDORIA DO EVANGELHO

10:30) e a criatura, através da vivência em Cristo, unifica-se e funde-se em todas as criaturas de qual-
quer plano.
A cor dourada exprime o resplendor da beleza, (daí exercer o ouro tanta atração em todos), onde agem
forças divinas, que atuam e são atuadas pelos seres cristificados do sétimo plano. O efeito de tudo é a
Vida em Deus, porque Deus passa a viver plenamente na criatura "nele habita toda a plenitude da Di-
vindade" (Col. 2:9) e "já não sou mais eu que vivo: é Cristo que vive em mim" (Gál. 2:20).
A bem-aventurança enaltece esses, que são os pacificadores, os que com sua simples presença, com a
ação benéfica de sua aura, irradiam a paz, pacificando corações e pessoas. Esses pacificadores serão os
chamados Filhos de Deus, pois só os Filhos de Deus são capazes de pacificar realmente, não com a paz
externa, mas com a paz de Cristo: "a minha paz vos deixo, a minha paz vos dou: não a dou como a dá
o mundo. Não se perturbe vosso coração" (João, 14:27).
Diz-nos Cristo nesse plano: "Eu sou a Videira e vós os ramos". E afirma a seguir que só podem ter
Vida os ramos, enquanto estiverem "unidos" à videira. O vinho exprime, no simbolismo esotérico, o
Espírito. Cristo faz aqui a revelação total: que é a Videira, senão a reunião total do tronco e dos ramos?
Cristo só estará integralizado quando a humanidade, de que Ele é a cabeça (Ef. 4:15) estiver toda unida
a Ele, na unidade total e fundamental.
O nome é a representação externa da substância. Quando a humanidade, em todas as suas partes - que
são a manifestação externa no Cristo Cósmico - estiver "santificada", então poderá o Cristo dizer real-
mente: “completei a obra que me confiaste para realizar" (João, 17:4), pois "não perdi nenhum dos que
me deste" (João, 18:9). Esse é portanto o pedido da prece deste plano: que Teu nome, que Tuas mani-
festações, sejam santificadas.
* * *
Após a enumeração dos diversos passos no Caminho da Perfeição, o texto continua no mesmo tom.
Nada exige, no entanto, que estas últimas bem-aventuranças tenham sido proferidas na mesma ocasião,
e nessa ordem: podem ter sido ensinadas em outro momento e acrescentadas aqui pelo evangelista,
para continuar a série. Mas também podem ter sido ditadas em seguida às outras, sem que isso influa
nos sete passos que atrás estudamos.
Firmemos, todavia, que as duas vezes seguintes, em que se repete a palavra "felizes", não fazem parte
dos Sete Passos do Caminho da Perfeição: representam, porém, um corolário, um resultado fatal, ine-
xorável, que advirá a todos os que seguirem por essa estrada.
Todos, sem exceção, todos os que perlustrarem, ainda que apenas os primeiros passos na senda, serão
perseguidos por causa da retidão de vida que assumiram. Felizes, contudo, serão; pois embora perse-
guidos - e até mesmo porque perseguidos - mais depressa atingirão a meta. E também serão felizes os
que forem injuriados, perseguidos e caluniados, já que isso ocorreu sistematicamente a todos os profe-
tas (médiuns) que passaram pela Terra. Portanto, é normal que, no pólo negativo em que nos encon-
tramos, recebamos malevolência em troca do bem que pretendamos distribuir.
Interessante observar que o termo grego traduzido por "injuriar" é oneidísôsin, formado de ónos, "bur-
ro" e de eídos, "figura", ou seja, "chamar de burro" . Realmente na grafite encontrada no Monte Palati-
no (e hoje conservada no Museu Kirscher, em Roma), vemos pregada à cruz uma personagem com
cabeça de burro ...

A interpretação profunda não difere muito da comum. Realmente, todos os que entram ou procuram
entrar, pela estrada do aperfeiçoamento em busca do Cristo interior, encontram grandes dificuldades
de todos os lados: da parte de outras criaturas (externas) e da parte de seus próprios veículos físicos
inferiores. As dificuldades parecem, por vezes, insuperáveis. Daí ser chamada de "estrada estreita",
porque realmente difícil: todos os atropelos investem contra aqueles que buscam destacar-se da cra-
veira comum da humanidade, que forcejam por sair do pólo negativo, onde estamos presos há milêni-
os.

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C. TORRES PASTORINO

O SAL DA TERRA

Mat. 5:13-16 Marc. 9:50 Luc. 14:34-35

43. Vós sois o sal da Terra. Se o 50. O sal é bom, mas se o sal se 34. O sal é bom; mas se o sal se
sal se tiver tornado insípi- tiver tornado insípido, com tiver tornado insípido,
do, como se poderá restau- que haveis de restaurar-lhe como se poderá restaurar-
rar-lhe o sabor? para nada o sabor? tende sal em vós lhe o sabor?
mais presta, senão para ser mesmos, e estai em paz uns 35. Nem é útil para a terra nem
jogado fora e pisado pelos com os outros. para o estrume; é jogado
homens. fora. Quem tem ouvidos
paro ouvir, ouça.

O sal (cloreto de sódio) possui a qualidade de, como agente catalítico, ativar o gosto dos alimentos,
condimentando-os e tornando-os saborosos. Em si mesmo, não é aceitável, mas acrescentado na medi-
da justa, produz o paladar agradável dos próprios alimentos a que é adicionado. Além disso, tem a pro-
priedade de conservar os alimentos, evitando-lhes a deterioração. Duas qualidades preciosas.
No entanto, se o sal se torna insulso, perde ambas, e para nada mais serve.
Jesus compara seus discípulos todos, não apenas os apóstolos, pois se dirigia à multidão que O ouvia)
ao sal: de per si nada valem, mas com sua presença dão sabor às realidades da vida e conservam os
demais cristãos livres da corrupção. Mas, se perderem as qualidades catalisadoras, se tornarão inúteis.

O discípulo, que se une ao Cristo, influi com sua própria aura psíquica na elevação espiritual de toda
a humanidade. Tal como ocorre com o sal nos alimentos, ativa-lhes o paladar, tornando-os mais sa-
borosos, e conserva-os na via certa. Basta essa irradiação poderosa para transformar a humanidade,
ajudando-a mais do que se lhe atendesse às necessidades materiais, físicas, emocionais ou intelectu-
ais. Mais do que assistência social à saúde, à fome, ao vestido, carece a humanidade de paz interior,
de tranquilização da aura. E isso é obtido por meio das radiações espirituais daquele que se tornou o
verdadeiro sal da Terra, com sua unificação com o Cristo Interno.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

A LUZ DO MUNDO

Mat. 5:14-16 Luc. 11:33-36

13. Vós sois a luz do mundo. Não se pode es- 33. Ninguém, depois de acender uma lâmpada a
conder uma cidade situada sobre um mon- coloca num subterrâneo, nem debaixo de
te; um balde, mas sobre o castiçal, a fim de que
os que entram vejam a luz.
14. e ninguém acende uma vela e a coloca de-
baixo de um balde, mas no castiçal; e assim 34. A lâmpada do corpo é o olho. Quando o
ilumina a todos os que estão na casa. olho é simples todo o teu corpo é luminoso;
mas quando for doente, todo o teu corpo
15. De tal modo brilhe vossa luz diante dos ho-
fica trevoso.
mens, que eles vejam vossas boas obras e
glorifiquem vosso Pai que está nos céus. 35. Vê, pois, se a luz que há em ti não sejam
trevas.
36. Pois se todo o teu corpo for luminoso, sem
ter parte alguma em trevas, será inteira-
mente luminoso, como quando uma lâmpa-
da te iluminar com o seu fulgor.

A luz tem como finalidade, tanto quanto o sal, servir aos outros, e não a si mesma. Para que a luz pro-
duza seu efeito, é mister que esteja colocada no alto, e não escondida debaixo de um balde. Assim
como não pode esconder-se uma cidade construída no cimo de um monte, assim a luz não pode deixar
de ser vista: deve ser utilizada para iluminar. Sem pretensão, sem orgulho, mas também sem falsa hu-
mildade, deve iluminar naturalmente, por função própria.
E Jesus continua: assim brilhem vossas boas obras, de modo a serem vistas pelos homens - embora
sem se fazer propaganda delas: recordemos que Jesus proibia que se falasse dele glorificando-o. O
único a ser louvado é o Pai celestial.
Em Lucas há um adendo: a luz do corpo são os olhos. Se estes forem simples (no sentido de limpos,
puros, tersos, ou seja, sem malícia) todo o corpo será luminoso. Se forem enfermos (maliciosos, mal-
dosos) a criatura ficará em trevas. Quando, por exemplo, alguém vê duas criaturas amando-se e, com
simplicidade, sem malícia, admira o amor, tudo permanece em luz; mas se, nesse amor, quem olha
coloca malícia, o amor continuará a brilhar com pureza, mas a criatura que maldou será invadida pelas
trevas da malícia que só existe nela mesma, e não no ato de amor, que é sempre puro e divino, pois
sintoniza com Deus que é Amor.

O ensinamento profundo da Luz que somos, devendo com ela iluminar o mundo, alerta-nos quanto às
obrigações de nosso Espírito (individualidade).
Não se pede que saibamos, nem que falemos apenas, nem que façamos, mas que SEJAMOS. O que
importa é SER LUZ.
Para chegar a ser Luz, só há um meio: é mergulhar na Luz Cósmica do Cristo, que declarou categori-
camente "Eu sou a Luz do Mundo" (João, 8:12). Mas aqui, também em tom solene, afirma: "vós sois a
Luz do mundo". Donde verificamos, ainda uma vez, que Jesus não se apresenta como uma exceção da

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humanidade, mas simplesmente como o modelo de todos nós. Desde que, como Ele, consigamos unifi-
car-nos com o Cristo Cósmico, com o Divino Logos, também seremos a Luz do mundo.
Afora isso, enquanto confundidos com o corpo físico, crendo que a personalidade é o verdadeiro eu,
só podemos ser trevas. Quando nos libertarmos dos entraves da personalidade, rejeitando-a, ficare-
mos iluminados, porque veremos a luz, mergulharemos na luz, nos tornaremos LUZ.
Essa luz interna expande-se em círculos concêntricos atingindo a todos; e mesmo sem que algo se
diga, todos a percebem e a recebem. Os primeiros a usufruí-la, - "todos os da casa são iluminados" -
são nossas células e nossos órgãos.
Pelos "olhos" é que a criatura se ilumina: comparação perfeita, já que os atingidos pela cegueira físi-
ca permanecem nas trevas. Entretanto, há um matiz mais profundo: é pelos olhos intelectuais (e Jesus
usa o singular: "pelo olho") que penetra na criatura a Luz da Mente que nos ilumina.
E aqui talvez se pudesse vislumbrar uma referência ao "olho de Siva", (glândulas pituitária e pineal),
que constituem o olho que nos possibilita a visão espiritual.
A ignorância são as trevas que envolvem o "espírito" (personalidade) levando-o ao erro à maldade.
Por isso, quando os "olhos" intelectuais são enfermos (ou fracos), todo o ser permanece em trevas.
Mas quando os "olhos" intelectuais são simples (sem a malícia da vaidade que obumbra, do orgulho
que incha, da dúvida que vacila) tudo é visto com clareza e precisão.
Cada criatura humana, portanto, que se unifica ao Cristo, é a LUZ DO MUNDO, que ilumina por si
mesma, refletindo a Luz do Cristo Cósmico que nela habita, e que consegue expandir-se através do
cristal purificado de uma personalidade que se anulou a si mesma, para que apenas o Cristo vivesse
nela. Canais limpos de todo apego, espelhos tersos de qualquer jaça, tornar-nos-emos transparentes,
e ninguém mais verá em nós a personalidade, mas encontrará o Cristo Eterno falando por nossa boca,
agindo por nossas mãos, iluminando a todos com o nosso amor que é o amor Dele a expandir-se por
nosso intermédio.

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SABEDORIA DO EVANGELHO

INTERPRETAÇÃO DA LEI
Mat. 5:17-20
17. Não penseis que vim revogar a Lei ou os profetas: não vim revogar, mas completar.
18. Pois em verdade vos digo: até que o céu e a Terra caduquem, de modo algum caduca-
rão, nem um i, nem um til da Lei ,até que tudo evolua.
19. Aquele, pois, que solucionar um destes mínimos mandamentos e assim ensinar aos
homens, será chamado mínimo no reino dos céus; mas aquele que praticar e ensinar
esse será chamado grande no reino dos céus.
20. porque vos digo, que se vossa perfeição não exceder à dos escribas e fariseus, de modo
algum entrareis no reino dos céus.

Ao iniciar as referências à lei mosaica e seus aperfeiçoamentos por Ele introduzidos, Jesus declara que
não veio revogar, mas COMPLETAR a lei. As traduções vulgares trazem "cumprir", o que não seria
nada de extraordinário, já que TODOS nós viemos também para cumprir a lei: seria uma afirmativa
inane. Todavia o verbo plêrâsai significa "completar" (plêrós quer dizer "cheio", "completo"). Sua
missão, pois, é trazer complementos, acréscimos, para completar o que Moisés ensinou.
Depois explica que durante todo o ciclo de vida deste planeta, "até que o céu e a Terra caduquem",
tudo terá que fatalmente evoluir. E durante todo esse período, nem uma vírgula da Lei caducará, nada
se omitirá, sem que seja cumprido. O verbo génêtai (gígnomai) exprime o tornar-se, o devenir, isto é, a
evolução: toda a Lei se cumprirá, até que inexoravelmente tudo evolua.
A seguir vem um trecho que, nas traduções vulgares, apresenta um contra-senso incompreensível, um
absurdo. Lemos: "quem VIOLAR um pequeno mandamento e assim ensinar, entrará no reino dos céus,
embora seja chamado mínimo". Como poderá penetrar no "reino dos céus" aquele que violar um man-
damento da Lei, ainda mais com a agravante de ensinar o erro aos outros? Será igualado com o prêmio
ao que cumpre a Lei? Não é possível compreender esse disparate. Por exemplo: alguém viola um man-
damento, mata outrem, e ensina os homens a matar, levando-os a fazerem o mesmo; terá ele o mesmo
"reino dos céus" que aquele que jamais matou alguém? Sim, em ponto menor, mas basta isso para
constituir um prêmio ... Não, não é possível. A tradução está mal feita.
Vamos ao original. O verbo usado é lúô, na forma lúsêi. Tem o significado de soltar, solver, resolver,
solucionar, aclarar, explicar. Secundariamente pode traduzir-se por "violar", também, mas o contexto
não permite esse sentido.
O que compreendemos, pois, é que aquele que conseguir solucionar ou explicar um dos mandamentos,
por mínimo que seja, e assim ensinar aos homens, será premiado com a entrada no "reino dos céus",
embora obtenha um lugar pequenino. Mas aquele que solucionar, compreendendo-o e explicando-o, e
assim ensinar aos homens, e além disso praticar e viver todo o conjunto dos mandamentos, esse obterá
o ingresso no "reino dos céus", e será chamado grande. Como vemos o sentido fica lhano e fácil, tem
lógica e sequência, desenvolvimento claro e ilação perfeita.
Realmente a lei é ensinada em palavras humanas, e estas jamais conseguirão traduzir os conceitos espi-
rituais; o ensino é esotérico; e é indispensável que seja encontrada a solução do verdadeiro sentido
profundo e oculto, para que se compreenda o alcance real ao ensinamento; sem o que, aparecerá so-
mente a casca externa e seca de uma linguagem fria e material, que só serve para dirigir os atos exteri-
ores do comportamento da personalidade.

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Isso, entretanto, irá servindo para preparar as personalidades, fazendo-as amadurecer aos poucos, até
atingirem o grau de capacidade indispensável à compreensão profunda.
Uma vez maduro, o "espírito" começará a compreender, através do véu da letra, o espírito verdadeiro
que estava oculto. Paulo acena a isso (2 Cor.3:14-17): "Mas suas mentes foram endurecidas, pois até o
dia de hoje, na leitura do Antigo Testamento, permanece o mesmo véu, não lhes sendo revelado que
em Cristo é ele tirado. Contudo, até o dia de hoje, sempre que lêem Moisés, está colocado um véu so-
bre o coração (mente) deles. Todas as vezes, porém, que algum deles se converter (unir) ao Senhor, o
véu lhe é tirado. Ora, o Senhor é o Espírito, e onde há o Espírito do Senhor, aí há liberdade".

Dá-nos este trecho, com absoluta clareza, sem ambages, o pensamento de Jesus em relação à leitura e
interpretação dos preceitos da lei. De pouco adianta entendê-los à letra, admitir-lhes a eficiência,
obedecer-lhes exterior e mecanicamente: é preciso solucionar os enigmas que se ocultam sob as pala-
vras.
Quem conseguir fazê-lo, embora seja numa parte mínima, conseguirá uma aproximação do encontro,
ainda que leve e passageiro, experimentando as delícias do reino espiritual ("dos céus") na paz interi-
or. Verdade é que permanece apenas nos primeiros degraus da evolução espiritual. Mas, se tiver o
merecimento de ensinar o pouco que compreendeu às outras criaturas, já se terá tornado um pequeno
foco de luz para o mundo, e alcançará o reino. Sim, porque embora fraca, é sempre LUZ.
Já aqueles que tiverem atingido a solução para todos ou quase todos os ensinamentos; os que soube-
rem interpretá-los à luz crística; os que penetrarem o sentido profundo; e, além de tudo isso, os que os
VIVEREM, e ainda ensinarem aos homens quais os segredos das palavras do Livro sagrado, esses
serão chamados grandes no reino espiritual: terão obtido a unificação com o Cristo, única chave para
a legítima interpretação, e esparzirão Sua Luz, a todos iluminando, como tersos refletores do Logos
Divino que em todos habita.

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AS OFENSAS

Mt. 5: 20-26 Luc. 12: 54-59

21. Ouvistes o que foi dito aos antigos: "não 54. Disse também à multidão: quando vedes
matarás" e "quem matar, estará sujeito ao aparecer uma nuvem no poente, logo dizeis
julgamento". que vem chuva, e assim acontece;
22. Mas eu vos digo que todo o que se magoa 55. e quando vedes soprar o vento sul, dizes que
contra seu irmão, estará sujeito a julgamen- haverá calor, e assim ocorre.
to; e quem chamar seu irmão "tolo", estará 56. Hipócritas, sabeis distinguir o aspecto da
sujeito ao tribunal; e quem chamá-lo “lou- terra e do céu; como então não distinguis
co", estará sujeito ao vale dos gemidos de esta época?
fogo.
57. Por que não discernis também por vós
23. Se estiveres, pois, apresentando tua oferta mesmos o que é justo?
no altar e aí te lembrarás de que teu irmão
tem alguma coisa contra ti, 58. Quando pois vais com teu adversário ao
magistrado, fazei o possível para, no cami-
24. deixa ali tua oferta diante do altar, vai pri- nho, te livrares dele; para que não suceda
meiro reconciliar-te com teu irmão e depois que ele te arraste ao juiz, e o juiz te entre-
vem apresentar tua oferta. gue ao oficial, e o oficial te lançará na pri-
25. Sê benevolente depressa com teu adversá- são.
rio, enquanto estás no caminho com ele; 59. Digo-te que não sairás dali até pagares o
para que não suceda que o adversário te en- último centavo.
tregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e
sejas recolhido à prisão;
26. em verdade te digo, que não sairás dali até
pagares o último centavo.

A partir deste ponto, encontramos a confirmação prática do sentido do versículo 17 deste capítulo, em
que Jesus afirma "ter vindo para aperfeiçoar a lei". São cinco oposições entre as palavras da Torah e os
ensinamentos mais elevados e rigorosos de Jesus.
Onde, por exemplo, a lei proíbe apenas "matar", supondo-se digno de castigo só a interrupção da vida
física, Jesus esclarece que o homicídio moral é tão ou mais grave do que aquele, e portanto passível de
resgate doloroso.
Para melhor esclarecimento do assunto, é feita uma divisão em três graus, caminhando-se do menor ao
maior até o clímax, pois Jesus nem admite, sequer, a hipótese de homicídio físico.
1.º o desgosto ou mágoa, correspondente ao grego horgizómenos, que é simples movimento íntimo de
ressentimento, sem repercussão nenhuma exterior;
2.º o aborrecimento que se exterioriza numa injúria, embora leve, chamando-se a criatura de "tola" (em
hebraico "raca", isto é reiga, ou reigah, que significa "cabeça ôca"), numa demonstração de desprezo;
3.º a zanga que se exterioriza com uma ofensa grave e caluniosa, em que se classifica a pessoa de "lou-
ca" (hebraico "moreh", grego môrós), com isso causando prejuízos morais graves, pelo desprestígio de
irresponsabilidade a ela atribuída sem base na verdade dos fatos.

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A cada uma dessas gradações corresponde um tipo diferente de condenação:
1.º - sujeito a julgamento simples;
2.º - sujeito a julgamento do Sinédrio (da autoridade);
3.º - sujeito ao "vale dos gemidos", para ser purificado pelo fogo.

Quanto à palavra "geena", que traduzimos por "vale dos gemidos", nós a explicaremos no fim deste
capítulo.
Compreendemos assim que:
1.º - quem se magoa, permanecendo ressentido sem perdoar (sem esquecer a ofensa), embora fique
calado, perde a sintonia interna com Deus que é Amor; como, porém, o movimenta é puramente ínti-
mo, ele é culpado perante sua consciência apenas, estando sujeito ao resgate de um carma estritamente
pessoal;
2.º - quem se ofende com algo e se destempera, dando ao adversário epítetos de desprezo (tolo, cabeça
ôca), fica inculpado perante o tribunal da comunidade (sinédrio), porque adquiriu carma grupal, já que
sua ação feriu outra pessoa;
3.º - quem se ofende e, exteriorizando sua ira, atribui ao adversário epítetos caluniosos (louco, malu-
co), se torna culpado perante o tribunal geral, porque a calúnia espalhada não mais pode ser desfeita, e
o prejuízo causado não consegue ser remediado; foi, pois, adquirido carma coletivo, sendo ele o res-
ponsável pelo que disse, pelos prejuízos que causou, e por todos os julgamentos errôneos daqueles que
o ouviram e nele acreditaram. Esse carma coletivo, para ser resgatado, tem que passar pelo fogo per-
manente das dores, que jamais se apaga no "vale dos gemidos" (o planeta Terra, também chamado
"vale de lágrimas").
Os versículos seguintes contêm uma hipérbole para demonstrar a superioridade do amor. Figura Jesus
estar já alguém no altar, a oferecer sua oblata, quando se recorda de que seu irmão tem uma queixa
contra ele. Para salientar quanto o amor é superior aos sacrifícios (cfr. Os. 6: 6), diz Jesus que deixe ali
sua oferta e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão. Mostra-nos isso que a adoração e mesmo a ora-
ção não têm efeito, se não estamos vibrando na frequência do amor.
Por isso continua ensinando-nos que jamais devemos levar nossas questões diante dos tribunais, para
reclamar nossos direitos ("onde começa o direito, acaba o amor", escreveu Pietro Ubaldi). Nem deve-
mos permitir que alguém vá aos tribunais contra nós: reconciliemo-nos, ainda que perdendo aparente-
mente, pois o lucro espiritual será demais compensador. Se alguém tem queixa, vamos a ele e cedamos
tudo, contanto que mantenhamos nossa paz na sintonia do amor.
Olhando sob o ponto de vista espiritual, é melhor reconciliar-nos "enquanto estamos no caminho com
ele". A expressão "no caminho" exprime claramente o que hoje diríamos "enquanto estamos reencar-
nados com ele na Terra". Baste confrontar: "Sabemos que se a nossa casa terrestre desta tenda de via-
gem for desfeita temos de Deus um edifício, casa dão feita por mãos, eterna, nos céus” (2 Cor. 5:1);
"Andai com sabedoria com os que estão de fora, remindo o tempo" (Col. 4:5); "exortai-vos uns aos
outros todos os dias, durante o tempo que se chama hoje" (Heb. 3:13); "se invocais como Pai Aquele
que, sem se deixar levar de respeitos humanos, julga segundo a obra de cada um, vivei sem temor du-
rante o tempo de vossa peregrinação" (1 Pe. 1:17); "tenho por justo, enquanto estou nesta tenda de
viagem, despertar-vos com recordações, sabendo que brevemente hei de deixar esta tenda de viagem"
(2 Pe. 1:13-14); e ainda, embora mais veladamente 2 Cor. 3:12-18 e 6:1-3; Heb. 4:1-3; 8:7; 12:11-13; 1
Pe. 5:9. Além disso, a própria denominação da comunidade dos cristãos nos primeiros tempos (os mais
legítimos porque mais próximos à fonte) confirma esta interpretação, pois eles se classificavam como
"os do Caminho" (cfr. At. 9:2); só mais tarde, em Antióquia, passaram a ser conhecidos como "cris-
tãos", isto é, seguidores de Cristo.
Tudo isso - vem a advertência muito séria e severa - para que não sejamos entregues ao juiz (nossa
consciência liberta, nosso Eu profundo) que nos manterá "na prisão", ou seja, no corpo (nas sucessivas

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encarnações), das quais não nos libertaremos enquanto não tivermos pago o último centavo. Enquanto
não for resgatado todo o carma, não sairemos da roda das reencarnações, a que os hebreus chamava
gilgal e os hindus samsara.
O texto de Lucas aparece em outro contexto, mas o ensinamento é o mesmo. O exemplo é tirado da
facilidade que tem o povo de conhecer com antecedência o tempo que haverá. A nuvem no poente de-
nota chuva e o vento do sul (realmente do sudoeste, o siroco, em grego notos traz o calor do norte afri-
cano. No entanto, não sabem conhecer a vida espiritual. Vem depois a mesma advertência que em
Mateus, a respeito da reconciliação com os adversários, enquanto encarnados com eles. Sabemos que
os adversários reencarnam, quase sempre, como parentes próximos, afim de que a reconciliação seja
mais fácil pelas ligações sanguíneas. A aproximação dos adversários na reencarnação, como pais, fi-
lhos, irmãos é automática: o ódio une tanto quanto o amor, porque o pensamento de quem odeia, como
o de quem ama, se fixa morbidamente nos seres amados ou odiados; e sabemos que o pensamento é
força que une sintonicamente. Disso se prevalece a Lei para provocar as reconciliações, enquanto os
seres estão com o véu do esquecimento a recobrir as causas desse ódio passado.

A individualidade esclarece bem as personalidades, de que o estado atual em que se encontram é um


simples e ilusório percurso de viagem, e que não convém brigar durante esse caminho transitório.
Muito ao contrário: deve ser aproveitada essa caminhada rápida para uma reconciliação plena com
todos os adversários, enquanto o olvido das causas nos amortece a dor dos efeitos.
Quem não souber valer-se desse ensejo e, ao revés, continuar a alimentar separações e contendas,
aumentando os débitos, permanecerá na prisão até resgatar seu carma de modo integral.
Então, avisa a individualidade às criaturas: sejam inteligentes, espertas. Aprendam a conhecer o re-
sultado das ações, assim como já perceberam a constância dos sinais que precedem as chuvas e o
calor.
No trecho, aprendemos, outrossim, que o ciclo reencarnatório é, como dizia Platão, um "ciclo fatal"
(kyklos ananke) que nos prende como em cadeias, até ser cobrado o último centavo. A Lei é inflexível
e não há preces nem devoções que o diminuam. A "Misericórdia" manifesta-se de outro modo: é dan-
do-nos oportunidades novas e repetidas, de realizarmos pagamentos, isto é, concedendo-nos novas
encarnações (cfr. Pietro Ubaldi, "Queda e Salvação", pág. 61).
O único meio de resgatarmos mais depressa é dedicar-nos ao serviço, por amor ao próximo. Daí a
pregação intensa que é feita do valor da "caridade" ("Fora da caridade não há salvação", escreveu A.
Kardec).

GEENA
A palavra geena que aparece nas traduções vulgares do Evangelho, e que traduzimos por "vale dos
gemidos", É, empregada sete (7) vezes em Mateus (5:22, 29, 30; 10:28: 18:9; 23:15, 33); três (3) vezes
em Marcos (9:43,45,47); uma vez em Lucas (12:5) e uma vez em Tiago (3:6). Nunca a encontramos
em João nem em Paulo.
Nome antiquíssimo, já aparece no Velho Testamento desde Josué. São três as formas de empregá-lo:
a) gê ben Hinnom (vale do filho de Hinnom) em Josué 15: 8a: 18. 16a: 2.º Crôn. 28:3; 33:6; Jer. 7:31,
32: 19:2, 6; e 32 :35.
b) gê benê Hinnom (vale dos filhas de Hinnom) em 2.° Sam. 23: 10.
c) gé Hinnom (vale de Hinnom) em Josué 15.8b; 18.16b e Neemias 11:30.
Era tão conhecido, que Jeremias se limita, em 2:23, a chamá-lo "o vale" (haggê).
Quanto ao significado da palavra Hinnom há discussão. Afasta-se, de modo geral, a hipótese de um
nome próprio, pois jamais se conheceu alguém com esse apelativo. O sentido mais aceito para esse

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termo é o atribuído por Gesenius-Bull ("Handwoerkerburh") que a faz derivar da raiz árabe (1) (han-
na), que significa "gemer"; Strack Billerbeck (Comentário do Novo Testamento segundo o Talmud e o
Midrasch", tomo 4.º pág. 1030:1031) acata essa etimologia, embora classificando-a de "popular". Nes-
se caso (2) (hinnom) significa "gemidos, lamentações". E no Midrasch de Rabi Tanchuma (texto B, §
2.º, 8.º) lemos: "que signifíca Hinnom (3) ? que os padres idólatras diziam a Moloch, quando uma cri-
ança gemia (4): possa isso dar-te prazer, possa isso ser-te agradável".

(1) (2)

(3) (4)

Na tradução dos LXX encontramos as trancrições: φάραγγα’Ονάµ (Jos.15:8a);