Você está na página 1de 18

CONFEDERAÇÃO UNIVERSAL DA ORDEM DOS CAINITAS

Contos inacabados de
Gleislerff Gideon
Glórions
Um conto; nenhum invento
G.:.
28/06/2013

Os Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions é a união de todas as histórias que os


bruxos cainitas conhecem, contaram para seus filhos, viram acontecer ou que ainda
acontecem durante o silêncio de nossas noites enevoadas.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 2

Os contos inacabados de
Gleislerff Gideon Glórions
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 3

O Bruxo e os três lenhadores.

Havia um camponês solitário que, depois de conhecer uma linda


donzela; casou-se com ela e tiveram uma filha. Os três viviam pacificamente,
numa clareira, na retirada área rural de certa cidadela. Viviam ali, porque ele, o
camponês, era versado em magia, embora sua mulher e sua filha não o
fossem; ele as ensinara preparar poções e outros paramentos que não
necessitam de aptidões mágicas. Em frente a sua casa havia um caldeirão de
ferro, pesado de mais para ser levado para dentro, para escondê-lo ou para
fora, quando precisassem usar a luz da lua. Como ninguém os perturbavam,
durante anos o caldeirão ficou exposto e ninguém nunca fora ali ou ao menos
questionara sobre o tal caldeirão negro.
Certo dia, o camponês solicitou que sua mulher prepara-se uma poção
para a comemoração da lua Perigeu, enquanto ele iria trabalhar nos seus
campos de Jasmim.
Passou a tarde trabalhando no campo de Jasmim; pacifico e alegre
como sempre. Chegara a colher um ramalhete de Jasmim para sua esposa e
um menor para sua amada filha.
Quando chegou a casa, logo percebeu algo de estranho: O Grande
caldeirão negro, de ferro, havia sido tombado para o lado; algo que sua mulher
e sua filha, jamais conseguiriam fazê-lo. Não lhe sobrou muito tempo para
investigar e logo ouviu o agudo grito de sua mulher, desesperada, vindo do
interior de sua simples casa.
Tomado por uma fúria oriunda de sua preocupação e desespero; o
lenhador arrombou a porta de sua casa com o pé e ao escancará-la deparou-
se com uma cena que mudaria sua vida totalmente: diante dos seus olhos
estavam três vulgos lenhadores, sujos, gordos e asquerosos; sua mulher
estava com os pulsos amarrados e um dos lenhadores arrancava-lhe pedaços
com os dentes, mordendo-a e a chamando-a de feiticeira.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 4

Logo, o camponês percebeu que os três vulgos lenhadores haviam


molestado sua mulher e sua filha que, ambas estavam mortas ou a beira da
morte, supunha.
Noutro braço do mais velho dos lenhadores, estava sua filha,
provavelmente já morta; sem roupa e com seu corpo pálido e sujo de sangue.
O terceiro lenhador, ao ver o camponês de pé defronte a porta arrombada, se
quer disfarçou o ocorrido ou temeu-se; antes disso, abriu um largo e psicótico
sorriso cheio de dentes apodrecidos e disse-lhe:
_ Você também quer brincar? Chegou tarde, camponês!
Os três lenhadores riram!
O som das risadas medonhas dos vulgos lenhadores começou a
diminuir, de tal forma que, num curto prazo de tempo não se podia ouvir ruído
algum, apenas vê-los sacudindo a filha do camponês bruxo, nos braços, já
morta.
Tomado por um poder indescritível, os olhos do bruxo camponês
enegreceram e sacando de sua varinha, atacou os três lenhadores sem dizer
uma palavra. Lançando-lhes o feitiço da ‘Alma Condenada’, arrancou-lhes suas
almas e enviou-as ao abismo das almas involuídas e demoníacas, para que
fossem devorados eternamente.
Sob um efeito de choque, o bruxo camponês lançou outro feitiço,
ateando chamas devoradoras sobre sua humilde casa, consumindo-a e
reduzindo a cinza, tudo e todos que ali estavam.

-.-

Nunca mais se ouviu falar deste bruxo camponês que, havia jurado
nunca conjurar nenhuma magia contra um vulgo. Assim como nunca expor os
paramentos mágicos diante deles; há quem diga que ele ainda vive pelas
sombras das ruas, agora de grandes cidades, matando e arrancando almas de
estupradores, assassinos e viciados, durante as madrugadas enevoadas. Não
se sabe ao certo; mas ele mesmo deixou escrito no chão, perto do caldeirão,
quando numa tarde, os gnomos vieram procurá-lo: _ “Oh gnomos, diga a meus
irmãos bruxos que não jurem se não puderem silenciar-se e que não tenham
pena dos malfeitores. Eles aprisionaram a minha alma, depois que eu
despedacei a deles”.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 5

A Varinha inacabada de Perigeu


A varinha que derretia.

Era madrugada de domingo para segunda-feira; conforme o Livro ‘Como


fazer sua Varinha’ da Ordem dos Cainitas; dois magos se propuseram a colher
os galhos da árvore prestes a florir, conforme chamasse sua atenção.
A regra era cortar com uma faca de cabo branco e afiada, o galho da
árvore que ‘falasse’ com o mago, mentalmente. O Primeiro mago aspirante do
sistema de construção das varinhas tentou, sem sucesso, cortar o galho que
lhe chamara a atenção, num só golpe; porém foi depois de diversos golpes que
o ‘Homem de Barro’ conseguira podar um galho vívido de uma amoreira
prestes a frutificar-se.
Faltava apenas uma semana para o domingo onde a maior lua do ano
resplandeceria seu brilho intenso e cheio de poder; a Lua de Perigeu.
O segundo mago, versado na construção de varinhas e paramentos
mágicos, cortou num só golpe, o galho de uma árvore desconhecida. Aquele
era o galho Rei; o primeiro galho da planta, que sobe até o topo, sem nunca ser
podado. A seiva que escorrida do corte, demonstrava que a árvore e o galho
em questão, estavam cheio de vida e pela ausência de marcas, era um galho
virgem.
Ambos, não abriram o galho para preencher seu núcleo; acreditavam
que os galhos colhidos já estavam recheados de algo mágico, suficientemente.
Os dois galhos foram envolvidos com cobre da ponta à base e, neles foram
escritos runas mágicas.
Na varinha do segundo mago, o procedimento fora um pouco mais longo
que o normal. Ele resolveu colocar nela três itens que não são naturais a uma
varinha. Eles eram:
1. O Beijo de uma mulher impura;
2. A lágrima de uma vela que usara num dia de angustia;
3. A isolante vermelha.
A Varinha do primeiro mago ficou pronta, quase que instantaneamente e
em seguida, ficou exposta durante uma semana até a Lua de Perigeu,
banhando-se com todo o sereno daquelas sete noites e por final, sob o
brilho da Maior Lua que se poderia ter naquele ano.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 6

A varinha do segundo mago, também ficou exposta nesses sete


dias de sereno e sob o brilho da Lua de Perigeu; porém, a varinha da
árvore desconhecida, não secara. O seu verniz ainda estava molhado
como água e grudento como massa. Quando o mago colocava a mão
nela, mesmo quando parecia seca, logo começava a derreter.
A varinha de amoreira do primeiro mago, logo foi para o interior da
casa, guardada sob dois suportes de arame, mas a varinha da árvore
desconhecida, nunca pudera ser tratada como pronta, pois ela derretia
incessantemente.
Duas semanas depois, o mago propusera um trato com os
espíritos dos Quatro Cantos da terra: - Se a varinha secasse, eles
depositariam nela, um grande poder, a essência de toda a noite e o
poder dado aos grandes magos. Ela seria a Varinha de Arão, o Báculo
de Moisés, a Varinha que Cristo escrevera a lei do grande mago para
salvar a mulher condenada e comparada a varinha da morte e da
criação; nela estaria o poder do Fiat Máxima.
Nas noites seguintes, um espanto, a varinha demonstrara que
estava secando, mesmo assim, não estava acabada. Seu cabo nunca
poderia ser criado e nada nela poderia ser mudado, pois toda vez que
tentava terminá-la ela voltava a se derreter.
O mago entendeu que, a Varinha era forte de mais para ele que,
se prostrou como um aprendiz, diante de tal artefato mágico.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 7

Helena Blavatsky (por H.S.Olcott.


Experiências com um Gnomo).
Um dia, achando que os guardanapos brilhavam em sua casa,
sobretudo pela ausência, comprei alguns e levei-os num embrulho até sua
casa. Nós os cortamos, e ela (Helena) já queria pô-los em uso sem debruá-los,
mas, diante de meus protestos, pegou alegremente uma agulha. Mal havia
começado, bateu irritadamente com o pé sob a mesinha de costura, dizendo:
”Saia daí, seu palerma!” O que está havendo? Perguntei. “Oh, nada, é apenas
um bichinho Elemental que está me puxando pelo vestido, a fim de que eu lhe
dê algo para fazer.” Mas que sorte, eu lhe disse, então estamos bem
arranjados; peça-lhe que faça a bainha dos guardanapos. Para quê se amolar,
se você não tem mesmo jeito para isso?
Ela riu e me censurou, para me punir por minha desonestidade, mas ela
não quis lhe dar esse prazer ao pobre e pequenino escravo sob a mesa, que só
queria mostrar sua boa vontade.
Mas acabei convencendo-a. Ela me disse para recolher os guardanapos,
as agulhas e a linha a um armário envidraçado que tinha cortinas verdes e se
achava do outro lado do quarto.
Voltei-me a sentar perto dela, e a conversa retomou o tema único e
inesgotável que enchia os nossos pensamentos - a ciência oculta. Quinze ou
vinte minutos depois, ouvi um ruído parecido com gritinhos de camundongos
debaixo da mesa, e HPB me disse que ‘essa coisinha horrorosa’ terminara o
seu serviço. Abri a porta do armário e encontrei a dúzia de guardanapos
debruada, e tão mal, que um simples aprendiz de costureira não teria feito pior.
Mas as bainhas estavam realmente feitas, e isso se passara no interior de um
armário fechado a chave, do qual HPB não se aproximara um só instante.
Eram quatro horas da tarde, e o dia ainda estava claro. Estávamos sozinhos no
quarto, e ninguém entrou ali enquanto tudo aquilo se passava.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 8

O Elemental de Peiote.
Ao pé de um dos rochedos, vi um homem sentado no chão, o rosto
virado quase de perfil. Aproximei-me dele até estar a uns três metros de
distância; ele virou a cabeça e olhou para mim. Parei... Seus olhos eram a
água que eu acabava de ver!
Tinha o mesmo volume enorme, o brilho de ouro e negro. A cabeça dele
era pontuda como um morango; sua pele era verde, cheia de muitas verrugas.
A não ser a forma pontuda, a cabeça dele era exatamente igual à superfície da
planta de Peiote.
Fiquei defronte dele, olhando; não conseguia afastar os olhos dele. Senti
que ele estava propositadamente empurrando meu peito com o peso de seus
olhos. Eu estava sufocando. Perdi o equilíbrio e caí no chão. Desviou o olhar.
Ouvi que falava comigo. A princípio, a voz dele era como o farfalhar de
uma brisa suave. Depois a ouvi como uma música suave- uma melodia de
vozes- e sabia que estava dizendo: ’O que quer?’
Ajoelhei-me diante dele e falei sobre a minha vida e depois chorei.
Tornou a olhar para mim. Senti que seus olhos me puxavam e pensei
que aquele momento seria o momento da minha morte. Fez-me sinal para me
aproximar. Vacilei por um momento antes de me adiantar um passo. Quando
me aproximei, desviou os olhos de mim e mostrou-me as costas da mão.
A melodia dizia: ’Olhe!’ Havia um furo redondo no meio da mão dele.
’Olhe’, tornou a dizer a melodia. Olhei através do buraco e vi minha própria
imagem... Mescalito voltou novamente seus olhos para mim. Estavam tão perto
de mim que eu os ‘ouvi’ ribombar baixinho com aquele ruído especial que eu já
ouvira tantas vezes naquela noite. Foram-se aquietando aos poucos, até se
tornarem como uma lagoa tranquila, arrepiada por brilhos dourados e negros.
Desviou o olhar de novo e saltou como um grilo por uns 50 metros. Pulou
várias vezes e depois desapareceu.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 9

O Elemental do Gato - Desfazendo


Mistérios.

Oaxaca sempre foi um povo de místicas lendas, as quais os bruxos


deveriam conhecer. Uma criança, quando nasce, naquela região é
devidamente relacionada com os famosos naguais. Seja de noite ou de dia, os
familiares farão um círculo com cinzas ao redor da casa. Disseram-nos que de
manhã eles observam as pegadas que os animais do lugar deixaram nas
cinzas. Se os rastros correspondem, por exemplo, a uma raposa montanhesa,
ela será o nagual da criança. Se forem de qualquer outro animal da redondeza,
será este o nagual, o Elemental, do recém-nascido.
Passemos agora para os naguais vegetais. Desde os antigos tempos
enterra-se o umbigo do recém-nascido junto com o rebento de uma árvore
qualquer. Obviamente, a árvore fica relacionada com a criança, crescendo
ambas simultaneamente através do tempo.
Saibam todos que o Elemental da árvore pode ajudar à criatura com ele
relacionada, em inúmeros aspectos da vida... Vejam vocês que em Oaxaca
essas tradições milenares não se perderam. Muitos nativos estão devidamente
protegidos pelos elementais, aos quais foram vinculados no nascimento.
Os Naguais são elementais ideais quando os amamos realmente. Um
nagual extraordinário, sem sombra de dúvida, é o gato preto. Descreverei em
seguida um experimento que fiz com esse animal:
Tínhamos em casa um pequeno gato preto. Propus-me a ganhar seu
carinho e o consegui. Certa noite; resolvi fazer uma experiência metafísica
transcendental. Deitado na cama; coloquei o inocente animal ao meu lado.
Relaxei o corpo de maneira certa e concentrei-me profundamente no felino,
rogando-lhe para que me tirasse do corpo físico. A concentração foi longa e
profunda e durou, possivelmente, uma hora, quando adormeci por algum
tempo.
De repente, uma extraordinária surpresa! Aquela criatura aumentou de
tamanho e transformou-se num gigante de enormes proporções, deitado à
margem da cama.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 10

Toquei-o com a mão direita e pareceu-me de aço. Seu rosto era negro
como a noite e seu corpo irradiava eletricidade. O corpo tinha a mesma cor
negra, mas abandonara a forma animalesca, assumindo compleição humana,
com exceção do rosto que, ainda gigantesco, continuava sendo de gato. Foi
uma coisa incrível, pela qual eu não esperava. Fiquei muito espantado a ponto
de afugentá-lo com a Conjuração dos Sete do sábio rei Salomão.
Voltando ao meu estado normal notei, com surpresa, que aquela
inocente criatura estava junto a mim outra vez em forma de gatinho.
No outro dia, andei muito preocupado pelas ruas da cidade. Achava que
já tinha eliminado o medo de minha natureza e eis que o nagual me pregara
um tremendo susto. Entretanto, eu não queria perder aquela batalha. Aguardei
a noite seguinte para repetir o experimento. Coloquei novamente em minha
cama o gatinho, à direita, como o fizera na noite anterior. Relaxei o corpo físico,
não deixando nenhum músculo sobtensão. Depois, concentrei-me
profundamente no felino, guardando no fundo do coração a intenção de não me
assustar outra vez. Soldado em estado de alerta não morre em tempo de
guerra e eu já estava obviamente informado sobre o que previamente
aconteceria. Portanto, o temor tinha sido eliminado de meu Interior.
Transcorrido aproximadamente uma hora, em profunda concentração,
repetiu-se exatamente o mesmo fenômeno da noite anterior. O Elemental do
gatinho saiu do corpo para adquirir a gigantesca e terrível figura humana.
Deitado em meu leito, olhei-o. Era verdadeiramente espantoso. Seu
enorme corpo não cabia na cama. Suas pernas e pés sobravam em meu
humilde leito. O que mais me assombrou foi que o Elemental, ao abandonar
seu corpo denso, pudesse materializar-se fisicamente, fazer-se visível e
tangível aos meus sentidos, pois podia tocá-lo com minhas mãos físicas e seu
corpo parecia de ferro. Podia vê-lo com meus olhos físicos. Sua face era
espantosa. Dessa vez não tive medo. Propus-me a exercer completo controle
sobre mim mesmo e o consegui. Falando com voz pausada e firme, exigi que o
Elemental me tirasse do corpo físico, dizendo: Gatinho levanta-te desta cama.
Imediatamente aquele gigante pôs-se de pé. Continuei, então, ordenando: Tira-
me do corpo físico e passa-me para o astral. Aquele extraordinário gigante
respondeu-me com as seguintes palavras: Dá-me tuas mãos. Claro que
levantei minhas mãos e o Elemental aproveitou para pegá-las e me tirar do
corpo físico.
Aquele estranho ser era dotado de uma força incrível, mas irradiava
amor e queria servir-me. Assim são os elementais... De pé, no astral, tendo
juntado ao leito o misterioso ser por companheiro, tomei novamente a palavra
para ordenar-lhe: Leva-me agora ao centro da Cidade do México.
Siga-me, foi à resposta daquele colosso, que saiu de casa caminhando
lentamente. Eu o acompanhei passo a passo. Andamos por diversos lugares
da cidade, antes de chegarmos a San Juan de Letrán, quando por ali nos
detivemos por um momento. Era meia noite e eu ansiava dar um final feliz
àquela experiência. Vi um grupo de cavalheiros conversando numa esquina.
Eles estavam no plano físico, portanto não me percebiam. Então, pensei
em tornar-me visível diante deles. Dirigi-me ao gigante nagual e com voz
suave, porém imperativa, dei-lhe nova ordem: passa-me agora ao mundo de
três dimensões, o mundo físico.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 11

O nagual pôs suas mãos sobre meus ombros, exercendo sobre eles
certa pressão. Senti que abandonava o astral e penetrava no físico. Fiquei
visível diante daquele grupo de cavalheiros, no lugar em que se encontravam.
Aproximando-me deles, perguntei:
Senhores, que horas são? Passam trinta minutos da meia noite,
respondeu um deles. Muito obrigado!
Quero dizer-lhes que vim agora das regiões invisíveis e que resolvi me
tornar visível diante de vocês. Palavras estranhas, não é verdade? Aqueles
homens olharam-me surpresos. Em seguida, disse-lhes: Até logo, senhores;
retorno de novo ao mundo invisível. Roguei ao Elemental que me colocasse
outra vez nas regiões suprassensíveis e imediatamente o Elemental obedeceu.
Ainda pude ver o assombro daquelas pessoas que tomadas de pavor
afastaram-se apressadamente do local onde se encontravam. Novas ordens
dadas ao Elemental foram suficientes para que ele me trouxesse de regresso à
minha casa. Ao penetrarmos no quarto, vi o misterioso ser perder seu
descomunal tamanho e ingressar no pequeno corpo do felino que jazia no leito,
precisamente pela glândula pineal, a qual se situa na parte superior do cérebro.
Fiz o mesmo. Pus meus pés astrais sobre a glândula citada e
imediatamente senti-me no interior do corpo físico, que já despertava na cama.
Olhei o gatinho, fiz-lhe algumas carícias e agradeci, dizendo-lhe: Obrigado pelo
serviço prestado. Tu e eu somos amigos.
A partir daquele momento, constatei como esses felinos podem tornar-se
veículos ideais para todos os aspirantes à vida superior. Com esse tipo de
nagual, qualquer bruxo pode aprender a sair em astral, consciente e
positivamente. Importa não ter medo, ser valoroso. Salientamos que para
experimentos dessa natureza são requeridos gatos pretos.

SAW
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 12

Uma Briga entre Gnomos.


Andava Deodato, num dia outonal, num bosque, procurando para
Mejnour certas ervas de que este necessitava para a preparação de
medicamentos, quando, de súbito, um estranho espetáculo se ofereceu à sua
vista.
Um pequeno vulto, semelhante a uma criança, porém barbudo, cuja
altura não atingia vinte polegadas, estava rodeado de seis outros seres
semelhantes, porém de aspecto carrancudo, os quais sopravam fortemente
contra ele, ameaçando-o com os punhos. Eram como Deodato logo
compreendeu espíritos da natureza, pertencentes a duas tribos diferentes dos
Pigmeus. O agredido defendia-se, soltando gritos e fazendo vários gestos.
Era evidente que não se tratava de uma brincadeira, mas de uma
verdadeira luta em que esses seres etéreos empregavam como armas as
forças das vibrações.
Observando que o pigmeu atacado estava prestes a cair, exausto, nas
mãos de seus agressores, decidiu-se a socorrê-lo. Concentrou os
pensamentos na fonte de Todo o Bem, evocou a Força da Eterna Justiça e
estendeu ambas as mãos contra os espíritos agressores, dizendo com voz
enérgica:
- Cessai de combater e ide-vos em paz!
O efeito dessas palavras e do gesto que as acompanhava foi admirável.
Os pigmeus agressores estremeceram, encolheram os corpos e olharam
de soslaio o homem que lhes dava essa ordem.
O jovem repetiu as palavras e o gesto, dinamizando-os mais ainda, e
num instante os agressores puseram-se a fugir, aterrados. O gnomo que se viu
livre de seus inimigos aproximou-se lentamente de Deodato e, abraçando-lhe
os joelhos, pronunciou algumas palavras de agradecimento que o moço não
compreendeu, mas cujo sentido adivinhou.
- What’s your name, my little friend? (Qual é seu nome, meu amiguinho?)
- perguntou Deodato, em inglês, ao pigmeu. E, como este não respondesse,
repetiu a mesma frase em francês:
- comment vous appellez-vous, mon petit ami? Mas o pigmeu não
entendia nem o inglês, nem o francês. Então, Deodato formulou a pergunta em
italiano:
- Come vi chiamate, mio píccolo amico? Desta vez recebeu a resposta,
também em italiano:
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 13

- Mi chiamo Silvano, buon huomo! (Chamo-me Silvano, bom homem!) –


E o gnomo, sorrindo, subiu no ombro do jovem, acariciando-o e repetindo
várias vezes:
- Siete buono, siamo amici.(Sois bom, somos amigos).
Neste instante, avistando umas erva que buscava, Deodato apeou o
pigmeu, dizendo-lhe:
- Deixem-me colher essas ervinhas.
- Precisais delas? - tornou este - Esperai um momento. E ausentou-se,
correndo. Dentro de poucos minutos, porém, regressava acompanhado de seis
companheiros, e cada um trazia um ramalhete daqueles vegetais, que os
pigmeus ofereceram a Deodato, sorrindo e dizendo:
- Tomai bom homem!
O moço agradeceu; os pigmeus rodearam-no e, de mãos dadas,
puseram-se a cantar e dançar em torno dele. Depois de uns dez minutos,
despediram-se, clamando:
- A rivederci! (Até outra vista!) - E retiraram-se rapidamente. Desde
então, Deodato encontrava-se frequentemente com o pequeno Silvano, quando
percorria o bosque. Bastava-lhe pronunciar por três vezes o nome do pigmeu,
em direção ao Norte, acompanhado de certos gestos que este lhe indicara
como seu ‘sinal’ e Silvano não demorava em aparecer, sempre muito satisfeito
por poder acariciar o homem que o salvara de um grande perigo, pois, como
explicou a Deodato, os seus inimigos o haveriam matado, se o moço não o
tivesse socorrido com sua benévola intervenção; é que os Espíritos dos
Elementos não são imortais, embora alguns deles vivam durante séculos.
- Por que vos perseguiam aqueles malvados? - perguntou Deodato a
Silvano.
- Porque não quis ceder-lhes a minha morada que cobiçaram possuir,
quando se aborreceram do lugar onde habitavam.
- Ah! - pensou o jovem - Até esses pequenos seres que, em todo e
qualquer pedacinho de terra podem achar espaço suficiente para nele fixar a
sua residência, deixam-se seduzir e inquietar pelo triste vício da cobiça! E para
desalojar um dos seus iguais, não trepidam em lutar, matar ou expor a sua
vida!
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 14

A história do Menino e os dois leões:


Numa cidade grande e barulhenta, aos pés de um determinado castelo;
um rei ambicioso dominava os reinos menores e vizinhos e ensinava os seus
súditos a valorizar a ambição e o ouro, acima de tudo. Todos os cidadãos
daquele reino eram habilidosos mercadores, que sempre faziam um bom
negócio.
Todas as pessoas dos reinos menores vinham comprar e barganhar
naquela cidade, mesmo sabendo que todo o fruto de seus esforços seria em
vão, se comparados aos ardilosos e persuasivos daquele tal reino.
Num dia nublado e frio, um garoto apareceu entre as ruelas que surgiam
serpenteantes entre as feirinhas dos mercadores. Um homem maldoso, não
gostava de crianças por perto, porque, com o coração no ouro que lucrava dos
seus grandes bolos, sempre desconfiava de qualquer criança que já tivesse
idade para correr mais que ele que possuía um verdadeiro barril no lugar do
que deveria ser sua barriga.
Aquele garoto, inocentemente, aproximou-se da barraca deste homem
barrigudo e, com uma voz trêmula pediu por alimento, mas o homem, com uma
ira que instantaneamente brotará visivelmente, começou a gritar: - Ladrão!
Ladrão! Pega o Ladrão!
O menino confuso começou a correr e então, os guardas do reino
correrão atrás dele, fazendo ameaças para que parasse, mas quanto mais
ameaças faziam, mais o menino corria.
Foi quando o gorducho oleoso teve a ideia de fazerem com que o
menino corresse em sua direção sob a promessa de encurralá-lo para que
fosse pego e que o rei, certamente lhe daria como escravo e era tudo que
aquele preguiçoso homem precisava.
Os guardas começaram a cercar o garoto que desesperado, viu o
caminho em direção ao gordo, dono dos bolos quase tão fofos quando a face
oleosa de seu feitor; o único caminho para se escapar dos guardas.
O velho dono da barraca, já se preparava, arregaçando as mangas, para
pegar o menino enlouquecido pelo desespero quando o inesperado aconteceu.
De fato, o menino era filho de bruxos que foram assassinados no reino
onde moravam acusados de terem atraídos uma praga sobre a plantação de
trigo e, para salvar o filho, os pais, que agora estavam mortos, colocou-o sobre
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 15

o lombo do seu único cavalo e chicoteou para que partisse em disparada. O


menino havia estado em cima daquele pobre e magro quadrúpede, havia dois
dias, sem colocar nada na boca, nem água e nem pão. Daí a sua fome.
Sua inocência era motivo de diversão para um Vulgar e presunçoso homem,
que não deveria ao menos negar comida a alguém tão nobre como aquele
garoto.
Sua diversão acabou quando dois leões pousaram ao lado do menino,
um em cada lado, exatamente. Eram como estatuas de bronze, e ao tocar o
chão, foi como se seu peso fosse exatamente o mesmo. Todos se afastaram
menos o menino, que não os viu.
Os leões rugiram ferozmente, acalafriando as almas mais quentes,
daqueles homens e mulheres vulgares. Ninguém o pode reter. Cada leão
abocanhou pelo menos três dos bolos e mais tarde, soltaram ao lado do
menino que, depois de fugir daquele reino, desmaiou fraco, sob um pé de
oliveira.
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 16

Lury-Flury, a Fada Urbana.

“Sinceramente, como suportar tanto barulho e fumaça?” – Perguntou um


bruxo a si mesmo, enquanto caminhava por uma avenida urbana movimentada,
de uma metrópole vulgar.
Não existia nada de mágico ali, exceto alguns casebres e mausoléus
que lembravam muito, as casas dos Lordes Bruxos, num passado não tão
distante, mas que agora, parecia nunca ter existido.
Aquele jovem bruxo caminhava pelas largas ruas e más cheirosas
daquela cidade, ora por ruas tão estreitas que ele ficava imaginando a
possibilidade de tocar os dois lados da rua, com seu braço aberto. Todo o
tempo, ele estava resmungando consigo mesmo, em inglês, se declarando
incrédulo a tanto barulho e sujeira.
Não se via se quer um passarinho e para acreditar em tamanha
ausência da natureza em meio aquela floresta de concreto e aço; não se via
nem mesmo os corvos.
Tudo era seco e estava sempre fedendo, exceto aos narizes que
aspiraram aquele mau cheiro, há horas e nessa altura, já haviam se
acostumado com aquele odor desgraçado.
Mas, com a queda do império bruxo e com a ausência de um governo
mágico, o jovem bruxo não teve outra escolha, senão infiltrar-se entre os
vulgos, conseguir um emprego vulgar e viver entre eles para se sustentar e
sobreviver àquele caos desnecessário.
Anos mais tarde, numa manhã barulhenta, entre carros e fumaça, o
jovem bruxo ouviu uma notícia, entre os bruxos e bruxas que ele ainda
mantinha contato, num velho bar chamado Lury-Flury; eles diziam que um
governo mágico havia sido reconhecido pelo Conselho Mundial de Bruxos e
Bruxas e que este dito governo, abraçara a causa e estava laborando projetos
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 17

incríveis de unir o mundo mágico, numa comunidade extraordinária, tal qual a


sonhada por eles.
Ele, o jovem bruxo, não acreditou muito e disse: _ Vocês acham mesmo
que ainda existe magia neste mundo? Olhem lá fora – continuou ele, agora
apontando para a janela do bar e gritando histericamente – Nenhum ser
mágico sobreviveria ao veneno deste mundo!
_ O que me diz sobre nós? – Questionou uma bruxa mais adulta toda
fascinada com a notícia e tentando fazer o jovem bruxo acreditar, continuou
dizendo: _ É bem verdade que nossa energia mágica está muito baixa que
quase não usamos mais a magia, mas isso não significa que nós não
existimos!
O jovem bruxo, cansado de discutir sua incredulidade, saiu do bar
asperamente, deixando os amigos sorridentes e ansiosos. Ele sentou sob uma
árvore antiga e enorme, do outro lado da rua, em frente ao bar e resmungava,
quando de repente ele ouviu uma voz aguda e baixa repetir o que ele dizia,
como se tivesse caçoando.
Ele olhou para todos os lados, a fim de encontrar a menina que lhe tirava
a paz que lhe restara. Mas nada encontrou.
Ele tornava a resmungar, e a voz de uma criança, tornava a repetir. Foi
quando de repente, uma borboleta de asas verde-limão passou em sua frente
dizendo: _ Tolo! Você é um tolo sabia?
Num saltou, ele se esquivou da borboleta e disse:
_ Você é uma borboleta-falante?
Neste instante, a borboleta de asas verde-limão pairou na sua frente e
se transformou numa fada, tão branca e cristalina que era quase invisível.
Qualquer um que passasse próximo ao jovem bruxo juraria que ele estava
falando sozinho.
A Fada então se apresentou:
_ Meu nome é Lury-Flury, como o nome do bar; na verdade o bar tem o
meu nome. Eu não sou uma borboleta com asas verde-limão sabia? Eu sou
uma fada. Bom agora você já sabe que eu sou. Eu existo, sabia? Você achava
que todo o reino mágico havia desaparecido. Mas, nós só estamos escondidos.
Assim como você está. Enquanto você vive fingindo que é um vulgo, eu vivo
fingindo que sou uma borboleta! – Tagarelou a fada urbana.
O Jovem bruxo ficou atônito, tanto que até se esqueceu de questionar
sobre o tal governo mágico e certificar-se de que a fada sabia algo, ou não. Ele
correu desesperadamente para chamar seus amigos e antes que explicasse do
que se tratava, arrastou-os para fora do bar. E quando olharam para onde o
jovem bruxo apontava umas cinco borboletas de asas verde-limão rodeavam
uma árvore enquanto algumas crianças, de mãos dadas, rodavam em circulo
cantando:
_ Lury-Flury, Lury-Flury!
O Jovem bruxo ficou decepcionado por não conseguir provar a
existência da fada e sobre as crianças, acreditaram que o bar se chamava
Lury-Flury, por causa daquela musica que as crianças cantavam.
Um pouco triste, o jovem bruxo sentou na calçada. A mesma bruxa
adulta que havia insistido sobre a magia e sua existência, lá dentro do bar;
inclinou-se até ele e disse:
Contos inacabados de Gleislerff Gideon Glórions 18

_ A Magia não precisa se tornar real para que todos acreditem que ela
exista. Vá me dizer que não é algo mágico, aquelas borboletas com asas
verde-limão, voando em torno da árvore, quase que no mesmo sincronismo
que as crianças?
O Jovem bruxo olhou para a bruxa e sorriu. Ela completou:
_ A magia existe nas pequenas coisas e nunca vai deixar de existir!