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OLIVEIRA. Margarida M. D. & STA~An?

:
Maria Inês S. O livro didátic~ de hlstó~a.
políticas educacionais, pesquisa e enslOo.
Natal: EDUFRN. 2007.

NOTAS SOBRE AS DEMANDAS SOCIAIS DE REPRESENTAÇÃO


E OS LIVROS DIDÁTICOS DE HISTÓRlA1

Luis Fernando Cem


Angela Ribeiro Ferreira2
Introdução
O número impressiona. Paga-se cerca de 780 milhões de reais, em valores atuais, ao setor editorial privado em
função dos livros didáticos que estes fornecem ao Governo Federal, para cada edição do Programa Nacional do Livro
Didático. Essa injeção de recursos no sistema privado de produção de material didático garante a existência financeira da
maior parte das editoras de livros didáticos no Brasil, e não é incorreto afirmar que isto tem um peso decisivo sobre todo o
mercado editorial brasileiro, cuja produção não-didática é pequena em termos relativos, se comparada a outros países do
primeiro mundo, ou mesmo países em desenvolvimento, como México e Argentina.
Por outro lado, nesta década, a presença do capital estrangeiro e a oligopolização do mercado fizeram com que
esse quadro experimentasse o recrudescimento da concentração do número de editoras que atendem ao PNLD; isso é ainda
mais significativo pelo fato de os grupos econômicos (como é o caso do grupo Abril ou do grupo Positivo) serem
proprietários de mais que uma editora. Todas elas estão preparadas para atender ao máximo os critérios de avaliação
exigidos em cada área do programa.
O jogo começa para valer apenas quando o MEG divulga as listas de livros aprovados e reprovados após a análise
das equipes. O trabalho de convencimento dos professores para que escolham determinados livros é o momento mais
crítico para as editoras - e, para esse momento, investem pesadas somas e promovem visitas dos autores às cidades,
encontros acadêmicos, eventos sociais, distribuição de material publicitário e dos próprios livros didáticos. Essa parte do
processo explica, talvez, o motivo pelo qual alguns autores e algumas editoras - cuja avaliação pela equipe contratada pelo
MEG não é das melhores - sejam campeões devendas.
Este texto dedica-se a Iistar e comentar algumas reflexões sobre o PNLD, numa dupla perspectiva. Em primeiro
lugar, argumentaremos sobre as demandas sociais de representação de grupos nos livros didáticos, ou seja, uma demanda
intrinseca ao conteúdo e à metodologia dos livros, referente às características do processo de sua elaboração. Dedicaremos
atenção à História das Mulheres como caso expressivo. Trata-se, portanto, de uma análise interna ao livro didático.
Em segundo lugar,traçaremos algumas reflexões, hipóteses e sugestões sobre o aspecto externo do processo
todo, incluindo a dinâmica de avaliação do PNLDe a sistemática de escolha dos livros por parte dos professores, mediados
pelas editoras - isto porque o uso do Guia do Livro Didático entregue às escolas pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE), segundo pesquisa referente aoinício da presente década, pareceser bastante restrito:
nos depoimentos, ficou evidente Que o Guia do Livro Didático desempenhou um papel muito acessório. A
Quase- totalidade dos entrevistados não tem informações a respeito do processo de avaliação dos livros,
desconfia do Guia e o consulta de forma absolutamente acessória, quando o faz." (Luca, Sposito e Christov,
2006, p. 104).
Embora tal tipo de pesquisa necessite ainda de ampliação para contemplar professores de outros níveis e de outras
disciplinas, os resultados da pesquisa dessas autoras são suficientemente eloqüentes e, diante das informações que nos
chegam, ·correm um risco' muito grande de sersignificativamente generalizáveis.
Procuramos introduzir, a partir desse ponto, o escopo que pretendemos dar a esse texto. Sendo perigosamente
ambiciosos em termos de abrangência e generalização, poderíamos dizer, com alguma sustentação em Agnes Heller
(1993), que os seres humanos aprenderam sucessivamente a consciência do tempo e da história. O aprendizado humano é
tipicamente cumulativo, ou seja, antes de entrarna idade produtiva, a pessoa tem acesso a uma síntese (variável conforme a
posição que ela ocupa ou ocupará ou o papel que desempenha ou presumivelmente desempenhará) que faz parte de sua
constituição, em que o saber acumulado em milênios torna-se disponível para ela em alguns anos. O ensino da história
poderia ser pensado como parte essencial - nas sociedades modernas e pós-modernas - de um processo de recuperar
rapidamente esse aprendizado coletivo e milenar num aprendizado individual eem curto prazo, a exemplo do que ocorre com
a formação da noção de tempo a partir do pr6prio corpo e do aprendizado / experimentação da morte. A criança refaz o
trajeto feito por toda a humanidade no passado. Oensino de história e os livros didáticos são tentativas de acompanhar e de
interferir nesse processo crucial, decisivo paraas pessoas e para as sociedades.
Partiremos da hipótese de que o ensino de História é um fenômeno social fundamental, nas sociedades
contemporâneas, de constituição da identidade, memória e consciência histórica de indivíduos e coletividades (Pollak,
1992; Rüsen, 2004; Gonnerton, 1999).
Desde suas origens modernas, o ensino de História refletiu projetos de nação de setores restritos da sociedade, que
estimulavam determinadas identidades controladas e desejadas pelas elites dominantes. A crise desse modelo, no quarto
final do século XX (Laville, 1999), em que as identidades multiplicam-se, colabora para um quadro em que "novos
personagens entram em cena" (parafraseando EderSader) e passam a reivindicar a sua aparição nas coisas e práticas pelas
quais as novas gerações são educadas: curriculos e programas, materiais e livros didáticos. Essa reivindicação
provavelmente se constitui como uma estratégia de sobrevivência, empoderamento, ou ascensão. Refere-se, portanto, a
grupos dotados de um mínimo de organização e força política, que possam despertar sensibilidade nos governantes ou
angariar poder de modo a vir a integrar o próprio grupo dos governantes. A História é um dos terrenos mais férteis para o
desenvolvimento dessas demandas, embora não seja- nem de longe - o único espaço reiv.indicado.
Esse movimento de reivindicação é concomitahte ao processo de desenvolvimento contínuo do PNLD. Os editais
do programa, em que consta a sua lista de critérios e exigência, geralmente derivam da elaboração e burilamento das fichas
de avaliação dos livros, que, por sua vez, são criados pelos assessores e pareceristas contratados para o programa e que,
em geral, são vinculados às universidades públicas. Assim, o processo de reivindicação atinge o programa por diversos
flancos: o próprio Estado nacional, que canaliza as demandas encaminhando idéias e exigências, que podem vir da
sociedade civil, dos demais Poderes ou dos próprios servidores do Executivo; os movimentos sociais e as necessidades
absorvidas ou criadas pelo debate dentro das Universidades, transportadas pelos intelectuais que adentram o programa
como seus funcionários provisórios.
Esse movimento faz-se sentir do incremento sucessivo dos critérios de exclusão e de qualificação dos livros: nota-
se maior exigência ao longo dos anos, tanto na perspectiva das caracterfsticas técnicas (históricas e pedagógicas) quanto
nas categorias políticas, que, no caso específico do PNLD de História, concentram-se no tópico referente à formação do
cidadão, na ficha deavaliação dos livros.
É interessante notar, portanto, que os conteúdos para a formação (cognitiva, cívica, moral) dos alunos configuram,
em linhas gerais e por reciprocidade, Um projeto de sociedade para o futuro que varia conforme o seu autor (individual ou
coletivo) na mesma medida em que variam esses conteúdos ou sua conotação. Os conteúdos e seu tratamento permitem
vislumbrar a visão de sociedade, de pessoa e de história que os informa. Quando, portanto, o Estado (e, nesse caso, os
intelectuais envoMdos integram o pólo do Estado, embora não se apercebam ou não queiram) dispõe-se a elaborar valores
e critérios, estabelecendo parãmetros para a sua avaliação, temos um processo pelo qual se estabelece uma visão oficial
desses itens, e uma força destinada a influir nos elementos que compõem a formação das futuras gerações e, portanto, o
projeto de sociedade dominante. Para isso, evidentemente, não bastam as opiniões e argumentos dos assessores: todos os
editais estão baseados no projeto de pessoa e sociedade (subjacente ao projeto educacional) socialmente negociado e
construído nas instâncias oficiais, ou seja, os ordenamentos legais: Constituição Federal, Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, Resoluções do Conselho Nacional de Educação e assim por diante. Óbvio que ·socialmente negociado
e construído" traz consigo todo o peso da desigualdade do acesso do povo às instãncias e a atos decisórios. Além disso,
existem elementos construídos fora dos processos tradicionais de decisão (ou seja, os processos desempenhados pelo
poder legislativo) que também são levados em conta, como é o caso dos atuais Parãmetros Curriculares Nacionais, que
podem ou não decorrer de interlocuções com a sociedade civil.
Assim, os editais do PNLD cumprem um papelpedagógico e disciplinador para o mercado editorial: Por exemplo, o
critério do edital mais recente de que as concepções pedagógicas tradicional e tecnicista não são mais aceitas é um
elemento que participa e contribui para o estabelecimento paulatino do "estágio atual do conhecimento", no qlJe se refere a
um critério técnico (no sentido de disciplinar) no campo da Educação.
Em suma, a análise do livro didático hoje - pensamos assim e fazemos tal e qual análise do livro didático e
exigências na sua abordagem da História porque isso resulta de nosso desenvolvimento social e intelectual referente aotema
-é um trabalho de autoconsciência da·própria consciência da História. Último nível da consciência histórica, para Agnes
~eller, é a consciência da própria historicidade. É com essa pretensiosa modéstia ou com essa modesta pretensão que nos
Colocamos diante desta panela para colocar a nossa colher.

1. Demandas epistemológicas
O acompanhamento dos editais e fichas do PNLD permite identificar o investimento estatal e social (e, portanto, não
nos referimos apenas ao aspecto material ou financeiro) nos livros didáticos.. Sua existência decorre de um processo
anterior, que é a seleção social de disciplinas consideradas legítimas e adequadas para constar no rol das disciplinas
lue ~scolares. Além dessa herança mais profunda no tempo, existem modificações relativamente recentes, como é o caso de
l-to livros específicos deHistória e Geografia, em vez de Estudos Sociais, como sepermitiu até o PNLD de 1a a 4a séries de 1998.
10S
Essatransição decorre de fatores epistemológicos, sobretudo a massa crítica acumulada e mobilizada pelos historiadores
em favor do argumento de que a História tem uma identidade própria, sendo mais adequado ensiná-Ia a partir dessa
especificidade. Evidentemente, temos que reconhecer que essa categoria de argumento articula-se também com os fatores
politicos (Estudos Sociais foi uma proposta curricular encampada pela ditadura militar e acabou impregnada pela sua Cor
política) e corporativos (na medida em que abre campo de trabalho para os historiadores, por exemplo). Se, na atualidade,
existe e compra-se livro didático específico para a História e para a Geografia desde a 1a série da Educação Básica, e se nem
sempre foi assim, temos que reconhecer que essa realidade resulta de disputa corporativa, associada a um interesse social,
um projeto político euma argumentàção acadêmica.
Os quadros de Manual do Professor, Metodologia da História e Metodologia do Ensino, na ficha de avaliação dos
livros didáticos de História, abrem espaço para distintas vertentes teóricas e metodológicas. Entretanto, sua estrutura,
características e exigências - que podem ser mais bem conhecidas em Bezerra (2003) - apontam as linhas hegemônicas
gerais da historiografia e da educação contemporânea e induzem a este rumo, mesmo permitindo a diversidade de
concepções, excetuando-se, em Educação, as perspectivas tradicional etecnicista, conforme o edital.
Uma limitação, neste aspecto, é a pouca ou nenhuma capacidade dessa perspectiva do edital/ ficha em produzir
efeitos consistentes emtodos os materiais propostos. Alguns ajustes deforma, a utilização de alguns termos e a inclusão de
determinados elementos, como atividades e exercícios, permitem que uma obra tradicional permaneça na concorrência, já
que é impossível rejeitá-Ia com base em uma argumentação objetiva. Por mais que uma argumentação seja adequada do
poirto de vista acadêmico, a contiriuidade de um debate entre uma boa equipe e a editora de um mau livro pode acabar nos
" tribunais, em que aquela argumentação é secundária diante dos '1atos" jurídicos. Aliás, essa é uma área de reflexão
muitíssimo interessante, na qual se confrontam formas de raciocínio - a histórica e a jurídica - que, embora com bases
semelhantes, desembocam em resultados e procedimentos totalmente distintos. Quando, na arena judicial, a competência
acadêmica tem menos peso que a competência no manejo dos argumentos jurídicos ...
Por uma outra perspectiva, as demandas epistemológicas sobre o conhecimento histórico mobilizado nos livros
que concorrem em um PNLD têm um papel mediador sobre as tais demandas sociais de representação. O conhecimento
histórico que informa os pareceristas exige uma forma / um conteúdo para a expressão das demandas sociais. Mas, por
outro lado, também pode legitimar essas demandas".Esse duplo movimento pode ser exemplificado no caso das demandas
dos movimentos pelaconsciência negra. Muitos de seus objetivos de representação encontram eco (ou, muitas vezes, são
motivação) na produção historiográfica. A visão idílica, leniente e paternalista da escravidão tem sido largamente contestada
e refutada ao longo das últimas décadas de estudos históricos sobre o tema. Esse conhecimento é parâmetro no momento
da avaliação dos conteúdos do livro didático em exame. Por outro lado, muitas vezes, a demanda de representação dos
movimentos negros exige uma visão simplista do passado, escondendo ou esquecendo as contradições que
necessariamente se encontra em todo estudo acadêmico sério. Assim, a prática do escravismo por parte de escravos
libertos, as relações dedominação internas aos quilombos e o papel dos abolicionistas brancos na libertação dos escravos
pode não constituir um panorama interessante de informações se o que se busca é uma mera perspectiva laudatória do
negro no passado. Por esta perspectiva, a demanda epistemológica confronta-se com a social de representação no
conhecimento histórico veiculado nos sistemas educacionais.
Uma outra frente de reflexão sobre as demandas epistemológicas acerca do livro didático está na questão da
atualização dos conteúdos, exigida dos candidatos à adoção pelo PNLD. A desatualização não é um conceito absoluto ou
objetivo. A lata de lixo da história geralmente está pregada no teto, com a abertura para baixo. Por isso, o parâmetro,
novamente, volta a se ancorar no "estágio atual do conhecimento", entendido como construção coletiva baseada nos
consensos provisórios, típicos do conhecimento racional. Não se" trata, portanto, de divergências entre linhas
historiográficas mais ou menos recentes, mas de estar atualizado no que se refere ao consenso intersubjetivo do tal estágio
atual do conhecimento histórico, distinto da opinião de a ou b no debate atual. O avaliador caminha sempre nesse fio de
navalha, sobretudo quando é inexperiente, e fica mais tranqüilo quando se apercebe de que o parecer não é uma análise
individual ou pessoal, mas uma produção coletiva embasada num referencial coletivo. Por isso, o modo de trabalho do
historiador na atualidade, em que ele é valorizado pelas suas idiossincrasias, tende a ser um complicador na participação de
historiadores no PNLD.
Não é à toa que a noção de paradigma científico é de excepcional importância nesse tipo de trabalho, de análise
pública de livros, e geralmente é um assunto com pouco espaço na formação inicial do historiador. Dentroda reflexão sobre
paradigma científico, fica muito mais fácil entender como e por que tratamos algo como erro, como e por que consideramos
uma idéia ou uma informação como desatualizada. Enfim, o treinamento para o avaliador do PNLD contemplaria um curso de
duração significativa, não para ensinar, mas para sintonizar. E esse tempo, geralmente, não está disponível nos trabalhos de
avaliação.
Um outro fator ainda expressivo no que se refere ao papel das demandas epistemológicas da História sobre o
esso de avaliação é o perfil do historiador, assunto que já começamos atangenciar acima. Os professores universitários
muito diferentes dos professores da Escola. Suas concepções das esferas acadêmica e didática são bastante distintas,
só por causa de uma fonnaçãodiferente. mas também por causa dos espaços institucionais que ocupam, produzindo
ssidades e urgências distintas. Se a equipe de avaliadores não contar com pessoas capazes de fazer essa ponte.
" aterremo dificuldades por vezes incontornáveis. Uma personagem de ligação interessante é o professor dos colégios de
. 3Plicação das universidades. de preferência com pós-graduação. O que ocorre é que muitos pesquisadores sem experiência
",escola avaliam o livro e limitam-se a ter como parâmetro o que chamamos de demandas da epistemologia da História. Um
Ílxemplo é a idéia. típica do pesquisador em História inexperiente nas questões do ensino - ou mesmo nas da
interSubjetividade na produção do conhecimento - de que o livro didático não poderia ter figuras clássicas como a
PrOClamaçãoda Independência, de Pedro Américo. Essapitoresca idéia decorre apenas da critica historiográfica à produção
~quele pintor, partindo da crftica à sua intencionalidade de produzir e reproduzir os heróis da pátria. Ora, se nos
pivocamos e pensamos que a ordem é apagar os vultos históricos na chave laudatória em que se encontram pelo
zir pgamento da cultura material que se prestou a essa louvação, perde-se a oportunidade de dar a conhecer um patrimônio
de' ~órico nacional que está nas pinturas históricas do século XIX.
,já
do A'mediação faltante ai é que a critica historiográfica alimenta. mas não se equivale ao desenvolvimento da crítica
os qUê o ensino deve promover. Evidente, tais pinturas deverão ser lidas criticamente, mas que pena se as perdermos como
:ão dentro de uma espécie de um novo index, agora modernista! É óbvio também que a iconografia não vai poder ser ensinada
dentro da cultura da oralidade. como se a pintura fosse um instantâneo do momento em que ocorreu. A riqueza está
iiXatamenteem trabalhá-Ia como representação deautores em determinados momentos históricos.
O leitor terá um pouco mais de paciência conosco, porque estamos usando exemplos extremos para pensar a
relação entre a formação do historiador e as necessidades de um avaliador do PNLD, ou a insuficiência de uma demanda
Q:l8r3menteepistemológica da História para a avaliação de livros didáticos. Mas pode-se apontar aqui uma outra idéia
CQJT1plicada,de que não seria correto usar uma "imagem canônica" para falar sobre o descobrimento do Brasil, porque ela
~ão é documento da época do descobrimento, é uma representação do século XIX sobre a História Nacional. O aceitável,
~o, seria o livro usá-Ia paradiscutír o século XIXapenas? A carência de articulação entre a formação teórica do historiador
e o aspecto didático que essa mesma formação deveria ter gera esse tipo de inconformidade. Do livro didático deve-se, em
tese. cobrar que ensine de forma crítica a Historia Nacional, mas isso não pode significar exigir que ensine teorias sobre as
i(Presentações históricas em perspectiva histórica .. O que é preciso ver, afinal, é se não há naturalização do fato através da
...~ nemfalsificação do quadro como se fosse testemunho do período.
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•.
J'

;f :;àr Ainda: o que não é a avaliação de livros didáticos é encontrar aspecto detalhado que não contempla a discussão
.s recente e ou de circulação restrita, pois é o tipo de conhecimento que não se refere ao conhecimento escolar. Não que
o seja competência do professor lidar com isso, não nesse sentido. mas não é com isso imediatamente que o professor
. trabalhar, na medida em que os objetivos de sua atuação pedagógica não contemplam esse tipo de debate, que é
. ativo em outra instância. Por exemplo, ri professor ou o autor de livro trabalha a carta de Pero Vaz de Caminha; o
dêmico vai analisar que o professor e/ou o LD não estão considerando a construção da carta como documento só no
'Ulo XIX. Uma didatização disso seria interessante. mas não imprescindível num trabalho didático de qualidade que
, preseus objetivos. Professores e pesquisadores funcionam em suas lógicas distintas - estabelece-se diálogo quando o
nos
." uisador é capaz de entender a lógica, a competência e as finalidades de trabalho do professor e ter claro que sua
lhas
" ição pode ser assumida, sob outra forma - a forma didática - quando e sob quais condições. Por isso, o historiador
ágio
olle tem pretensões de atuar profissionalmente em torno do ensino, embora não diretamente em sala de aula, precisa ser
á1ise o de uma reflexão didática (no sentido estabelecido por Klaus Bergmann, 1990). Por isso também a reflexão didática é
000
amental na formação do bacharel em História, quanto mais na formação do historiador àvaliador do PNLD.
tOM

átise
~obfe Diante do debate em torno da produção e avaliação do livro didático, está uma preocupação sobre a produção do
limOS conhecimento histórico e diz respeito à sua mediação didática e adequação em diferentes níveis, numa trajetória complexa
: ;ode quevai dos acervos historiográficos e fontes diversas de pesquisa até os textos curriculares, materiais e livros didáticos. É
i Jsde umapreocupação com a função social da pesquisa. pois, se as pesquisas históricas surgem de carências de orientação no
presente(Rüsenj 2001), elasprecisam retomar à sociedade como resposta. .
Afinal, os rumos da historiografia não são explicáveis apenas dentro dela própria. Esta sofre uma pressão social
decorrente dos temas e questionamentos que preocupam as pessoas das várias sociedades e grupos em tempos
especificos. Um exemplo claro pode ser o caso do avanço da mulher no mercado de trabalho, pois isso acaba gerando, nas
famOias e nos padrões de comportamento, demandas coletivas e pessoais que, em algum momento, buscam sustentação
em discursos referentes à identidade dos grupos e sociedades no tempo, entre eles, o discurso histórico acadêmico. Como
salienta Pollak:
A construção da identidade é um fenõmeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios
de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibüidade, e que se faz por meio da negociação direta com outros.
Vale dizer que memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenõmenos que devam ser
compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo. (1992, p. 204)

Os grupos precisam construir a sua identidade, e isso não se faz isoladamente, é necessário o reconhecimento
social - e tal reconhecimento pode ter. como via a escola, na medida em que esse complexo de narrativas e idéias que
justificam ou expUcam as posições dos sujeitos agindo no tempo afeta, entre os vários espaços da existência social, a
Educação. Por exemplo, as concepções de História presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) filiam-se
genericamente às propostas de uma "nova História", absorvendo, inclusive, a temática das mulheres. No mesmo sentido,
em tese, esse debatedeveria ganhar significativo espaço nos materiais didáticos. Todavia, isso não pode ser comprovado de
modo tão direto quanto nos PCN, que podem ser vistos como uma tentativa de slntese e absorção dos debates sociais e
acadêmicos para a agenda da escola.
Nota-se, nesse ordenamento curricular, a influência de diversos historiadores voltados para novas problemáticas e
temáticas de estudo, sensibilizados por questões ligadas à história social, cultural e do cotidiano; Evidenciam-se, assim,
possibilidades de rever,no Ensino Fundamental, oformalismo das abordagens.históricas sustentadas nos eventos políticos
e administrativos dos Estados, ou exclusivamente nas análises econômicas estruturais (PCN, 1998).
Os PCNfazem parte de um esforço de reordenação curricular das escolas brasileiras, com diferentes correntes e
matrizes, que vêm desde os anos 80, pelo menos, e prevêem um ensino de História diferente dos "métodos tradicionais".
Essas mudanças, em parte, decorrem da ansiedade em diminuir distâncias entre o que é ensinado na escola fundamental e a
produção acadêmica, ou seja, entre o saber histórico escolar e as pesquisas e reflexões que acontecem no nlvel do
conhecimento acadêmico.
Se os currfculos trazem o novo debate historiográfico, principalmente sobre a Nova História, com seus novos
objetos, novas fontes, novas abordagens, a articulação entre a micro e a macro história, teoricamente, essa inovação
deveria estar presente nos livros didáticos. Sobretudo, se também levamos em conta que os professores devem estar sendo
progressivamente fórmados dentro desse modelo, e que os livros são avaliados pelos órgãos governamentais a partir,
também, da visão de História que se consolida em orientações oficiais, como os PCN.
Cabe, entretanto, reconhecer que a primeira demanda de um autor ou autora de livro didático é a necessidade de ter
leitores. Para isso, tanto eles quanto a equipe que a assessora na construção do material parte de dados ou de
representações sobre o público desse livro. Assim, verificando que determinada parte do público não se afina com as
perspectivas historiográficas e pollticasemergentes, autor / editora podem elaborar seu material, tendo em vista a satisfação
desse público. Outras avaliações sobre essa relação livro / leitor - usuário podem gerar outras orientações na produção do
material didático, e, diante desse racioclnio, é de se esperar certa diversidade no tratamento daquelas demandas oriundas de
necessidades sociais (porque são diferentemente absorvidas as representações que o autor faz de seu público de alunos,
pais e professores) e de modelos epistemológicos.
Os Parãrrietros, como as demais estruturas curriculares em História no passado, propõem que se deve ensinar uma
História que forme cidadãos, sujeitos políticos ativos na sociedade. Mas será que a História que está sendo ensinada, a política
de escolha dos conteúdos, permite essa construção da cidadania? Para formar um cidadão, um indivíduo com plena
consciência histórica e social, que entenda e perceba a si próprio como sujeito histórico, é imperativo, além de um ensino de
História que inclua todas as pessoas como sujeitos históricos (portanto, intrinsecamente democrático), que se faça também
uma reflexão sobre como, historicamente, essas subjetividades se constituíram (portanto, aberto à mudança e compreensivo
da historicidade etransitoriedade de todas as coisas e pessoas).
Como contribuir para democratizar a sociedade dentro dos padrões contemporâneos, colocando em pauta a questão
dos direitos das mulheres, formar cidadãs que tenham consciência do seu papel na sociedade, ou a alteridade com relação à
comunidade negra no pais, se, na escola, a criança sempre estudou uma "história masculina e branca"? As mulheres.
e se viram como sujeito na História ensinada; já dizia Simone de Beauvoir,numa frase da década de 1950, bastante
nos estudos sobre essetema, que a mulher não nasce mulher, mas se torna mulher conhecendo a sua história.
Diante disso, é imperativo incluí-Ia na História ensinada, tratar dos papéis vividos por elas no decorrer da história do
si!. Esses papéis só parecem secundários porque o foco narrativo da História está fechado em aspectos restritos da vida
sociedade, como a política, a guerra, a vida pOblica, etc. - espaços pouco ocupados por elas. Entretanto, a construção
s condições para esses eventos registra dos pelo foco da historiografia tradicional tem a participação expressiva do
público feminino. Por isso, não é possível desvincular uma história que considere o papel das mulheres se não houver foco
também no cotidiano e nas relações entre os gêneros, pois é aí que a importância delas será retomada.
. "é Se o foco permanecer naquele tradicional, as mulheres, por exemplo, só aparecerão secundária ou
'1{excepcionalmente, apenas confirmando uma regra imaginária da história "masculina" e fortalecendo a distorção que ela
,~ .·representa. Mesmo assim, a própria história tradicional focada no político e no espaço público tradicionalmente omite oli
~~~·._undariza a participação das mulheres na produção das decisões, mesmo nos casos em que há evidências documentais,
"j. o quenão ocorre diretamente na história social, por exemplo.
De certa forma, o ensino de História é também um exercício de identidade para aqueles Queaprendem, na medida
em Quese vêem representados na narrativa, IJelomenos como herdeiros daquele passado, reconheçimento da participação
de vários grupos sociais na história. A educação escolar, antigamente, era apenas para a elite da população, e, paratanto, os
conteOdos das disciplinas deveriam atender à formação dessa elite, com exaltação de heróis, a idéia de "pobres
bandoleiros" e de que só uma pessoa rica e estudada pode chegar ao poder, governar. O padrão do ensino da História no
Brasilfoi originalmente fo~ado para e.sse pOblico,elítista e masculino, e não é despropositado imaginar que guarda, até certo
ponto, essas marcas de origem. No entanto, a educação se universalizou, as classes populares e as meninas passaram a ter
acesso à escola, mas o ensino que recebem continua, na maior parte, preso aos moldes desenvolvidos para educar a elite.
Paraformar o "povo", é necessário incluí-Io na história, e não educá-Io numa escola que reforça e legitima a sua exclusão. As
pessoas precisam estudar uma história em Quese percebam parte do todo, e não meros figurantes no processo histórico
({fONSECA,2003).
Por entender a História como um exercício de interligação, de síntese entre passado e presente, Que envolve
simultaneamente uma perspectiva' sobre o futuro, entende-se Que ensinar História possibilita ampliar estudos sobre as
problemáticas contemporâneas, situando-as nas diversas temporalidades, servindo de arcabouço para a reflexão sobre
possibilidades e/ou necessidades de mudança elou continuidade. Isso leva à concepção de Queo pensamento histórico
dependede problemas de orientação no presente. Ou seja, um problema de pesquisa surge de indagações feitas no presente
e, portanto, deve retomar à sociedàde com uma função transformadora, servindo à formação da consciência critica do
aluno. Segundo Rüsen, a história se fundamenta na práxis da vida; e, em Oltimainstância, seus impulsos, seus desafios,
,~as perguntas orientadoras não brotam dela, mas de seu nexo com a vida no presente (p. 83, 1997).
O ensino de História dará conta de formar um cidadão critico Quando este for capaz de compreender Que, por
;f'Xemplo,a condição feminina de inferioridade e o pensamento de que a submissão ao marido, o amor materno e o
• ;',predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais não são naturais da mulher, mas pensamentos construidos ao
,.lQngodahistória.
Uma série de demandas sociais acaba por compor a história nos livros didáticos, é ó caso da história das mulheres,
~a história da África e a da' Cultura Afro-Brasileira. No entanto, são temas que não buscam mudanças estruturais, são
reivindicações de alguns grupos, melhorias muito .definidas Que atendem a demandas identitárias de um ou outro grupo
social, servindo para pontuar ou qualificar o livro, e não para desclassificá-Io.

~. Oexemplo da História das Mulheres


Ao analisar algumas coleções de livros didáticos Quepermaneceram na lista de aprovados do MEC na avaliação de
2002 e 2005, vários problemas podem ser identificados no Que se refere à inclusão da história das mulheres e de outras
demandassociais, como, por exemplo, a História e Cultura Afro-Brasileira, Quesetornou lei recentemente.
Retomando a idéiacompartilhada por Rüsen, de Quea história surge de indagações feitas no presente, necessidades
individuais e sociais de orientação temporal, parte-se para outra idéia: o conhecimento produzido em um determinado foco
não fica restrito a si mesmo, mas é distribuído - de modo, por vezes, generalizado, por vezes, restrito ou assistemático -
vottandopara a sociedade, para as necessidades sociais de conhecimento, neste caso, sobre a condição feminina.
A aná"se do livro didático deve partir da idéia de que os conteúdos propostos têm que ser capazes de garantir a
formação da consciência histórica, e não analisar se o livro traz este ou outro assunto. Entretanto, quando o assunto em foco
é central para a formação da identidade, da cidadania e da consciência histórica dos estudantes, a busca e a análise sobre a
presença e a qualidade da abordagem de um determinado tema são justificadas. Entre esses temas, está, sem dúvida, a
história das Mulheres.
Dentro das coleções de livros didáticos selecionados3, foram escolhidos para estudo os capítulos que tratavam da
história do Brasil, visto que o interesse· era analisar as representações sociais de mulher produzidas na historiografia
nacional.
Ao final do preenchimento da ficha de análise de cada uma das coleções, algumas características gerais já podiam
ser apontadas. O livro de José Roberto Martins, embora cite algumas vezes a participação da mulher, não inova, pois isto
ocorre nos assuntos em que tradicionalmente elas estão (sociedade patriarcal, trabalho escravo doméstico, trabalho das
operárias nas fábricas). Estes são momentos da história em que a participação da mulher esteve vinculada à economia do
país e, portanto, importante dentro da linha tradicional de conteúdos utilizada, normalmente, pelos livros didáticos.
Justamente por isso, esperava-se que fosse abordada, nesses temas, a participação delas. Apenas no último volume, de 9°
ano, o autor resolve colocar um texto sobre as mulheres e suas lutas no final do século XX. Um ponto importante a destacar é
Queaparecem mais fotos e gravuras do que textos escritos, ou seja, há uma sucessão de imagens no livro sem reflexões que
as contextualize. Em quase toda a coleção, as mulheres (nomeadas ou não) são apenas citadas, sem Quese discorra sobre
elas nos textos.
A partir dessa visão geral dos livros didáticos, na coleção de Mário Schmidt, embora esteja longe do ideal, na
maioria das vezes, a mulher aparece superficialmente, não há uma discussão, incorporação dela ao processo histórico
narrado. Apenas cita-se, sem estabelecer (em alguns momentos) uma relação direta com o texto. Apesar disso, essa coleção
traz o assunto, não tratando apenas da dona-de-casa, mas de várias participações sociais das mulheres, como a militante
politica, a escrava, a fndia, as perseguidas em alguns momentos polfticos ou religiosos e, mesmo, de algumas que ficaram
famosas pela sua atuação: Anita Garibaldi, Diga Benário, Princesa Isabel, Tarsilado Amaral, Domitila, Pagu, entre outras. O
Quedemonstra a "falha" na incorporação do tema é que a mulher é citada nos textos complementares, fotografias e gravuras,
mas o autor ainda não utiliza o recurso de colocá-Ia no processo, nos textos principais, que são a base do livro didático.
Uma passagem interessante da obra de Schmidt é quando explica Quea História não é feita pelos grandes heróis:
"quando quisermos entender a abolição da escravatura no Brasil, não podemos achar que ela aconteceu somente por causa
da assinatura da Lei Áurea, de 1888, pela princesa Isabel". Aliás, essa colocação sobre a princesa Isabel já anuncia que ele
não pretende falar dela no tema da abolição da escravidão. A idéia não é tratar do papel desempenhado pela princesa,
transformando-a na herofna que libertou os escravos, negando todo o processo<le resistência de escravos e escravas, mas,
naquele momento histórico, o fato de uma mulher ter liderado movimentos pela abolição e ter sido reconhecida pelo
movimento abolicionista por isso.
Entre as várias identidades representadas pelaprincesa Isabel (governante, elite, branca), não pode ficar de fora a
identidade da mulher que teve um papel importante dentro de uma sociedade patriarcal e machista do século XIX. Muito
embora essa colocação do autor seja uma tentativa equivocada de criticidade (como em tantas outras passagens da obra),
natentativa de ser politicamente correto com o movimento negro, acaba pecando com a história das mulheres. A criticidade
não implica a negação da parte contrária, mas mostrar Que várias identidades convivem em uma mesma sociedade, e a
representação que se faz dessa identidade diferencia de acordo com quem a representa, como aponta Hall (1998, p. 21):
"uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é
automática, mas pode ser ganhada ou perdida" .
A coleção de Nelson e Claudino Piletti, comparando com outras obras, dá um pequeno salto com relação ao tema,
abordando-as nos movimentos populares (Canudos, Contestado, Cangaço, Revolta da Vacina), além de propor alguns
textos complementares seguidos de atividades para discussão sobre as negras escravas, .as brancas da sociedade
patriarcal e as fndias. No entanto, em grande parte do livro, os autores citam, mas não desenvolvem o tema no texto didático
básico nem incorporam as inovações historiográficas.
Gilberto Cotrim está entre as coleções que menos abordam a história das mulheres. A pouca citação se resume a
fotografias e gravuras ou algumas referências rápidas no texto principal. O interessante é que, comparando os livros
didáticos de Ensino Fundamental e de Ensino Médio deste autor, tem-se tal surpresa: a mulher raramente é abordada nos
livros de 6° a 9° anos, enquanto, nos livros de Ensino Médio, existem vários textos sobre o tema. Isso remete à informação de
liVros e coleções são, cada vez mais, um produto coletivo, um trabalho de equipe e um trabalho que se prolonga no
po por um, dois ou mais anos, nem sempre conseguindo manter uma identidade deprojeto.
A coleção: ·Para compreender a História" de Renato Mocellin, traz a História do Brasil nos dois primeiros volumes,
seja, não faz história integrada, mas, apesar do descredenciamento em alguns pontos da avaliação, no que se refere à
ória das mulheres, ele é um dos poucos que aborda o tema no decorrer do texto principar, às vezes, com itens específicos
';{OO incorporando-o ao restante do conteúdo. Aliás, das coleções de livros didáticos analisados, esta é a única que aborda
"temas e bibliografias da historiografia recente sobre a mulher, sobre a prostituição, a inquisição no Brasil e outros assuntos.
Ao encontrar uma proposta metodológica diferenciada e inovadora, como é o caso da coleção: "História Temática",
espera-se que a abordagem dos conteúdos também seja diferenciada, mas não é o que ocorre com relação à história das
mulheres. A coleção frustra a expectativa do leitor que vai com essa busca, pois trata muito pouco sobre isto.
-';P{~~
........i. Outra coleção que faz o contrário da sugestão apresentada é "História: Cotidiano e Mentalidades", já que se diz que
~á$mulheres não são abordadas, porque os autores seguem as listas canõnicas de conteúdos, baseadas na política e na
Geconomia e que, nesse universo, as mulheres não estavam presentes. Quando se propõe um livro que tratará do cotidiano e
;Jt'"d'amentalidade, espera-se que as mulheres sejam contempladas, pois, nesse universo cotidiano, elas podem ser
'\fêncontradas. Não é isso que se evidencia na coleção, pois os autores abordam a história delas apenas nas partes chamadas
ú~cenas cotidianas", não acrescentando nada muito interessante - ao contrário, repetevárias vezes que a mulher ficava em
"6asa, fazia serviços domésticos, cuidava das crianças, via revistas de moda, e as outras - pobres - trabalhavam como
,,§ilavadeiras,etc. Nessa coleção, aos desavisados parece que elas não foram nada além de esposas, mães e donas-de-casa e
que nãotiveram nenhuma atuação social e pública na história do Brasil.
}: Mesmo que os autores não incorporem a esta história por opção, o que deveria estar nos textos é a explicação do
{~~;iJorquêdesta recusa. Se escolherem uma abordagem tradicional dos conteúdos, podem, pelo menos, explicar, nessa
"!0~~dagem, por que as mulheres não estão presentes, a mentalidade dos diferentes períodos sobre a mulher e por que ela
i~~ficou boa parte da história do Brasil relegada ao espaço privado .
.\(; Após a análise, percebe-se que muito pouco do que já foi produzido sobre as mulheres foi incluído nos textos
\';dldáticos. O pouco que aparece tem um espaço secundário. Onde estão as feministas do inicio do século XX lutando pelo
. .,.itt:direito à educação, ao trabalho e ao voto feminino (a principal reivindicação daquele momento), conquistado através da
)i~;!60nstituição de 1934, por exemplo? Assuntos e mulheres não faltam para serem abordados e discutidos, entretanto, a
ordagem é secundária e, por vezes , residual.
No entanto, deve-se considerar que esses livros possibilitam um pequeno começo na abordagem da mulher no
aterial didático de História, e os autores reconhecem a presença dessa discussão na historiografia, embora não escolham
antemente o tema na definição dos conteúdos, apesar de ser isso possível. Os textos aparecem como informação
plementar, para serem vistos rapidamente, ainda que o trabalho seja respeitoso. Pode-se perceber, enfim, que a pressão
Iitica e social dos movimentos de mulheres acaba por produzir a noção "politicamente correta" ou "moderna" da
essidade de introduzir a temática feminina nos materiais didáticos. Mas a forma pela qual essa apresentação ocorre
. ia que a constituição da seqüência canônica de conteúdos, com raizes no século XIX, compõe um núcleo pouco
eável de informações / conhecimentos, sobre a qual as "modernizações" acabam por gerar apêndices, e não uma
sformação intrínseca ao modo de selecionar conteúdos e contar aHistória do Brasil.
De um modo geral, o aspecto político e econõmico continua sendo a principal linha de explicação e articulação do
,trteúdo, ainda que algumas "novidades" sejam incorporadas. Ou seja, o público, o oficial e os "grandes" nomes da
ória continuam com lugar assegurado, enquanto as mulheres, assim como os pobres, as crianças, os negros, como não
o efetivamente presentes na vida pública, continuam de fora, ou, no máximo, entram como parte complementar, fora do
o principal, na maioria das vezes, ganhando o status de peculiar e exótico.
.. Diversos fatores podem ser apontados como causadores dessa situação. Inicialmente, em termos de produção
'..&0 conhecimento, verifica-se que a própria história das mulheres teve um impacto aquém do esperado. Ao reivindicar
.' i ~spaço para tal tema, as historiadoras acreditavam que a pesquisa e o conhecimento produzido transformariam os
~aradigmas da disciplina; isso possibilitaria não só os novos assuntos, mas uma reavaliação do trabalho já existente. Ao
Contráriodo que acreditavam, isso não aconteceu. A história das mulheres não abalou as estruturas da historiografia, no
máximo, ampliou a visão sobre a história. Pode estar ai uma explicação para o fato de, quanto a isto, não existirem mudanças
estruturais no livro didático. Se a própria historiografia ainda não reconhece, nesta temática,·elementos de mudança da sua
estrutura, a mediação didática não encontra subsldios parase sustentar, ou seja: se a historiografia ainda não reconheceu o
status da história das mulheres dentro da academia, a relação de referência entre o conhecimento acadêmico e o
conhecimento presente nos livros didáticos tende a fazer com que essa situação se reproduza.
O fator produção acadêmica é central para o livro didático, uma vez que ele tende a corresponder a uma espécie de
"decantação" dos conteúdos, ou seja, mediar, sobretudo, os conhecimentos já consolidados, aceitos intersubjetivamente, e
dessa forma considerados importantes para a explicação histórica e para o aprendizado da História na sociedade. A
ausência dessa "decantação" no que se refere à história das mulheres, com um impacto ainda restrito e relativo no conjunto
da historiografia, não favorece a incorporação do tema de modo estrutural nos textos didáticos; entretanto, diante de tantas
~xigências de atualização, o assunto étrazido, mas ainda demodo fragmentado e superficial.
Uma outra possibilidade de explicação é referente à própria lógica de mediação didática. A opção dos
elaboradores de livros didáticos por não incluir as mulheres, sobretudo quando fora do seu "tradicional papel de mulher" (por
exemplo, forras que obtiveram ascensão social através do comércio), decorre muito provavelmente da concepção de uma
narrativa didática, em que as grandes afirmações simplificam e generalizam as realidades, e grandes relativizações
acabariam por enfraquecer os argumentos ou gerar confusão entre os alunos. Assim, a equipe de produção do livro opta por
não incluir narrativas, documentos e iconografia que possam relativizar os esquemas gerais de compreensão fornecidos. Se
a opção narrativa - como ocorre na maior parte dos casos - é por uma simplificação e uma explicação mais ou menos
homogênea e esquemática no tempo, no espaço e nas sociedades, os fatores quedestoam desse esquematismo podem ser
considerados enfraquecedores desse padr~o explicativo e, portanto, preteridos em função de outros exemplos
(documentos escritos, figuras, etc.) que confirmam ou nãose chocam com essepadrão.
É preciso considerar ainda os posicionamentos sociais quanto a determinados temas ligados à história das
mulheres, que certamente fazem parte do cálculo de autores e editoras no momento de elaborar os livros. Embora a
igualdade da mulher seja um direito em ascensão, reconhecido pelO poder público, pela legislação vigente e consolidado em
diversas camadas da população, é forçoso reconhecer quea desvalorização damulher persiste, e o machismo ainda articula
o pensamento de uma parcela muito expressiva dos homens e mesmo do público feminino. Esse fator pode colocar, para os
produtores dos livros didáticos, uma representação "adequada" da mulher fora dos primeiros lugares em termos de
prioridades a serem atendidas nos livros. Além disso, por envolver direta ou indiretamente os temas da sexualidade e das
práticas sexuais, a historiografia acaba por não encontrar ressonância nos livros diante da ameaça de serem estes recebidos
com polêmica, rejeição e diminuição da vendagem. O conservadorismo no que se refere a essa discussão, sobretudo
quando envolve a educação das crianças e adolescentes, é um fator presente mesmo em grupos sociais que politicamente
não são conservadores. Ou seja, ao mesmo tempo em que o movimento das mulheres expressa uma demanda social de
orientação temporal e representação no ensino, essa mesma sociedade pode acabar por impor limites e condicionamentos
objetivos e subjetivos àquelas representações.
Por fim, um outro dado a destacar sobre os livros didáticos analisados é a ausência de relação direta entre
avaliação e classificação da coleção no PNLD e a sua qualidade referente à história das mulheres. Foi possivel verificar que
livros muito bem avaliados pelo programa, como História e Vida Integrada, de Claudino Piletti e Nelson Piletti, ou História
Temática, de Andrea Montellato, Conceição Cabrini e Roberto Catelli, não sustentam uma discussão que seja considerada
adequada no que se refere à integração da História das Mulheres na História do Brasil. Isso, certamente, não desautoriza o
trabalho de avaliação desenvolvido, mesmo porque a avaliação é composta por vários critérios, e o tratamento dispensado
às mulheres é apenas mais um dentre todos eles, tendo peso restrito no conjunto dos quesitos. Esse dado permite
estabelecer um questionamento no sentido de que a avaliação do PNLD pode estar parcialmente descolada de algumas
demandas sociais contemporâneas. Isso porque, nas avaliações já publicadas, livros considerados bons não o são no que
se refere ao tratamento da história das mulheres. Enquanto outros, com avaliações de qualidade próxima ao mlnimo
recomendável, abordam a história das mulheres com um pouco mais de propriedade. Evidentemente, o critério utilizado
nestetrabalho para identificar a qualidade dos livros em função da história das mulheres pode não ser o mesmo do PNLD.
A incorporação da história das mulheres nos livros didáticos é importante na medida em que contribui para a
formação de uma nova mentalidade em relação à mulher. Somente o assunto entrando em pauta nas discussões escolares
e, por conseguinte, em outras instâncias da sociedade, os preconceitos, a aceitação e respeito aos papéis desempenhados
pela mulher na sociedade serão reavaliados. A tendência dos livros é rumar em direção à incorporação da história das
mulheres para atender a uma demanda crescente na atualidade, diante da participação dela em todos os âmbitos da
sociedade.
derações finais: não seria hora de repensar o modelo do PNLD?
Seráque o formato atual do PNLD não está esgotado, no sentido de não mais ser capaz de continuar promovendo o
olvimento do material posto sob sua avaliação? O seu formato não permite a eliminação dos livros com problemas
ais: se eles têm o mínimo exigido pelo programa acabam por ser aprovados e, na hora da escolha na escola, ficam
s as coleções no mesmo patamar, todas com as mesmas (ou quase as mesmas) possibilidades de serem escolhidas (o
rencial aí passa para o campo do marketing de cada editora).
Uma das saídas para colocar em pauta seria a idéia do PNLDcomo um concurso público de projetos de livro a serem
)tnaneiados pelo governo. Se aprovados, esses projetos ganhariam financiamento para atender às encomendas do FNDE.
Essa perspectiva não é descabida, justamente pelos motivos elencados no início desse texto (a oligopolização do
setor), adicionados aos argumentos na seqüência (a limitação do programa em contin'uar promovendo um avanço da
lpidade geral dos livros, dados os "furos na peneira" da avaliação, que são crônicos). Hoje ocorre uma pressão muito forte
. daseditoras sobre o governo e sobre os professores, visto que, primeiro, elas produzem as coleções e as inscrevem. Se não
m aprovadas, o dinheiro já investido no projeto perde-se ou não encontra o retorno adequado - portanto, estar no PNLD é
questão, muitas vezes, de vida ou morte corporativa. Embora essa pressão venha encontrando resistência no campo
custos para o governo atual (que conseguiu, em 2005, reduzir seus gastos de 640 para 463 milhões de reais junto às
oras, segundo o jornal Valor Econômic04), não se vê um processo de resistência·no que se refere ao aspecto acadêmico,
agógico do programa.
É incontestável que o PNLD, para livros nacionais, tem gerado um processo de melhorias nos últimos 1O anos. Mas
smo não ocorre com os regionais, para os quais não há o mesmo investimento por parte das editoras, justamente por
serem um filão tão interessante do ponto de vista econômico, Este é outro elemento que pode indicar o esgotamento do
ma atual, pois a lógica do retorno financeiro público ao investimento inicial privado encontra esse tipo de problema.
e sentido, a rejeição de perspectiva tradicional e tecnicista do edital atual continua vaieMo, mas é relativizada pelo
junto de opções disponíveis em determinadas faixas de mercado, como os livros regionais de História, por exemplo.
mente, não estamos diante da melhor opção: o fato de ela ser a única possível ou plausível é mais um indicador do
mento do sistema.
Em suma, o modelo do PNLD hoje é concentrador - editoras pequenas ou autores independentes não têm
ições de entregar as quantidades pedidas pelo programa. Hófling (2000) destaca a centralização da participação de
inados grupos editoriais no programa, sendo que, no PNLD de 1998, por exemplo, 6 editoras das 25 concorrentes
m com cerca de 75% dos recursos disponibilizados. Por outro lado, é também um programa de subsídio ao setor
'ai, que seria esquálido sem essa gigantesca transferência de recursos - É um exemplo típico do liberalismo sem riscos
mercado, que vive dos subsídios disfarçados. As limitações das editoras acabam sendo as do próprio PNLD. Por que não.
l:oncurso livre para os melhores projetos - educativo, histórico, metodológico, gráfico - a ser produzido pelo Estado,
ependentemente das editoras, ou, pelo menos, tirando-as da condição de principais agentes (privados, não nos
ueçamos) - de uma política pública tão importante?
Notas
1 O presente texto resulta de uma dupla origem: as participações de Cerri em atividades vinculadas à análise e à avaliação de livros didáticos, e da
dissertação de Ferreira, orientada por Cem, intitulada Representações da história das mulheres no Brasil em livros didáticos de história, defendida
no PPGE-UEPG em 2005.
2 Professores do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
3As coleções de Livros Didáticos escolhidas para análise foram: História, José Roberto Martins Ferreira, Editora FTD; Nova História Critica, Mario
Schmidt, Editora Nova Geração; Saber e Fazer História, História Geral e do Brasil, Gilberto Cotrim, Editora Saraiva; História Temática, Andréa
Montellato, Conceição Cabrini, Roberto Catelli, Editora Scipione; História e Vida Integrada, Nelson Piletti e Claudino Piletti, Editora Ática; História:
Cotidiano e Mentalidades, Eliete Rosa Toledo e Ricardo aueiroz Dreguer, Editora Saraiva.
4 Conforme notrcia publicada em http://www.abrelivros.org.br/abrelivroS/texto.asp?id=1032. acessado em 20/01/2007.

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