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Estudo de Caso: Avaliação de patologias devido à recalques em viaduto sobre

Rodovia Federal.

Bruno Carrilho de Castro


Conceito Engenharia Geotécnica, Goiânia, Brasil, carrilho@conceitoeg.com.br

Ilço Ribeiro Junior


Conceito Engenharia Geotécnica, Cuiabá, Brasil, ilco.ribeiro@conceitoeg.com.br

Renata Conciani
Conceito Engenharia Geotécnica, Brasília, Brasil, renata.conciani@conceitoeg.com.br

Wilson Conciani
Conceito Engenharia Geotécnica, Brasília, Brasil, wilson.conciani@conceitoeg.com.br

RESUMO: Um dos principais problemas observados em obras de viadutos é a ocorrência de


recalques diferenciais entre a estrutura de concreto armado e o maciço de solo. Esse problema
ocorre normalmente pelo assentamento das fundações da estrutura de concreto armado em camadas
muito resistentes e pouco deformáveis, enquanto que o maciço é construído sobre solos mais
deformáveis. Este artigo apresenta um estudo de caso de um viaduto sobre uma Rodovia Federal
localizado no município de Sorriso – Mato Grosso no qual se observou patologias em sua estrutura
devido ao recalque diferencial. Os deslocamentos verticais e horizontais foram acompanhados
através de levantamentos topográficos. As características do maciço do aterro e do material de
fundações foram obtidas por campanha de ensaios de laboratório e campo, incluindo ensaio do tipo
DPL. As análises das campanhas de ensaios permitiram concluir que o recalque era plenamente
vertical e gerado pela inadequabilidade do solo de fundação.

PALAVRAS-CHAVE: Compressibilidade, aterros de transição, fundações, DPL.

1 INTRODUÇÃO economia e a produção agrícola aumentam


significativamente a cada safra,
As cidades de grande e médio porte passam por consequentemente o tráfego de veículos leves e
crescente demanda de infraestrutura. A pesados também se intensificou. Para melhorar
infraestrutura urbana é representada por a fluidez do trânsito e reduzir o número de
viadutos, pontes, praças, ruas, estacionamentos, acidentes fez-se necessária a execução de
depósitos de materiais, escolas, hospitais, viadutos nos principais cruzamentos urbanos,
igrejas e moradias dentre outros. sobretudo aqueles que reunem vias urbanas e
No caso de obras de infraestrutura urbana, as estradas federais.
intervenções no trânsito são outro fator de Este artigo apresenta um estudo realizado
grande relevância. A técnica escolhida para para determinar as causas dos recalques
execução das etapas de construção é observados em um viaduto recém-construído no
responsável por minimizar os impactos município.
ambientais e econômicos e os transtornos à
população. Esta técnica visa sempre à redução
nos prazos de conclusão da obra e a segurança 2 LOCALIZAÇÃO
durante a sua execução.
A cidade de Sorriso sofreu crescimento Sorriso é um município situado no estado de
populacional acentuado nos últimos anos. A Mato Grosso que possui 66.506 habitantes
segundo o censo 2010. Localiza-se a uma 3 DESCRIÇÃO DO PROBLEMA
latitude 12º32'43" sul e a uma longitude
55º42'41" oeste, estando a uma altitude de 365 Logo após a conclusão dos serviços o viaduto
metros. apresentou severas patologias: fissuras no muro
O Município está situado na região norte do de contenção dos aterros de acesso, recalques
Estado de Mato Grosso, no Km 742 da rodovia excessivos no aterro e fissuras no revestimento
federal BR-163, Cuiabá - Santarém, a 412 km asfáltico.
da capital, Cuiabá.
Sua fundação deu-se através de um projeto 3.1 Muro de Contenção
de colonização privada, com a maioria absoluta
da sua população constituída por migrantes O muro de contenção do maciço de solo
provenientes da região Sul do País. compactado foi executado em blocos de
O viaduto em questão está situado na BR- concreto e proteje todo o perímetro do viaduto.
163, no município de Sorriso nas coordenadas Observou-se que as fissuras ocorrem,
planas: E 639269 e S 8611364. A Figura 2.1 quase que em sua totalidade, próximas à
indica a localização do viaduto. transição da estrutura de concreto do viaduto e o
maciço de solo compactado.
As fissuras observadas nos blocos são
verticais, entretanto a sua dissipação é
claramente angular, como mostra a Figura 3.
As Figuras 2 e 3 apresentam as fissuras
observadas nos muros de contenção do maciço.

Figura 1. Localização do empreendimento (Earth® -


adaptada). Figura 2. Fissuras observadas no muro de contenção.

O viaduto foi construído sobre o leito da antiga


rodovia 163. Contudo, como o viaduto foi feito
junto com a duplicação da estrada. Portanto,
uma parte da ampliação ficou sobre o leito
natural e nao sobre a estrada já consolidada. Por
tratar-se de obra em área urbana não havia
espaço disponível para o espalhamento da saia
do aterro. Desta forma, adotou-se uma
contenção com muro Terrae®, o que permitiu
uma contenção quase vertical.

Figura 3. Direção de propagação das fissuras.


3.2 Maciço Compactado 4 METODOLOGIA DE TRABALHO

O solo local é de origem aluvionar. Na região Para se determinar as propriedades do solo


do aterro encontra-se uma argila siltosa utilizado no aterro de acesso realizaram-se
vermelha proveniente da evolução pedogenetica ensaios de caracterização física, umidade e peso
dos solos locais. Trata-se de um solo muito específico seco no aterro.
poroso. O perfil de solo local em geral apresenta Com o objetivo de conhecer as
uma camada de concreção laterítica na características mecânicas do maciço realizou-se
profundiade média de 11 m. Nas regiões ensaios do tipo DPL (Dynamic Probe Light).
próximas dos talvegues o solo é composto em A Figura 5 apresenta um croqui com a
sua maioria por areias quartzozas por vezes locação dos pontos de coleta de material e
siltosas. execução do ensaio DPL.
Os aterros de acesso ao viaduto foram Nos pontos 1, 3 e 4 foram realizados ensaios
compactados com solo arenoso, típico da do tipo DPL e coleta de material para ensaios de
região. laboratório, enquanto que nos demais pontos
Foram observados recalques elevados por foram empreendidas escavações para coleta de
toda a extensão do maciço. Tais recalques amostras.
foram responsáveis por diversas fissuras
observadas no pavimento recém-executado.
A Figura 4 mostra o detalhe de uma
fissura observada no revestimento da pista de
rolamento localizada sobre o aterro de acesso.

Figura 4. Fissura observada no pavimento.


Figura 5 - Croqui de locação dos pontos de coleta de
dados.

Os recalques observados no revestimento


variam de acordo com a posição na secção 4.2 Ensaio DPL
transversal e no eixo longitudinal. Quanto mais
próximo do eixo longitudinal menor o recalque. Foram executadas 3 sondagens do tipo DPL,
Os valores medidos na secção mais próxima ao duas no maciço do viaduto e uma na lateral do
viaduto indicam recalques da ordem de 2 cm no mesmo.
centro da pista e de 0,89 m na borda do Para a execução do ensaio utilizou-se hastes
pavimento. Secções mais afastadas do viaduto metálicas de 1,0 m de comprimento cada uma
mostraram recalques variando entre 0,2 cm no que se interconectavam por meio de roscas. A
centro e 5 cm nas bordas. Assim, os recalques ponta cônica também metálica se conectava às
no centro da pista são sempre muito menores barras por meio de roscas.
que nas bordas. A Figura 7 mostra o ensaio em execução no
Este comportamento corrobora a hipótese de local da obra.
recalque devido à colapso do solo ainda não
consolidado pela pista original da BR 163.

4.1 Coleta de Amostras

Foram coletadas amostras em 4 pontos para


execução de ensaios de caracterização, peso
específico e umidade de campo.
As amostras foram coletadas de 50 em 50 cm
até a profundidade de 1,0 m e foram
identificadas e armazenadas em sacos plásticos
adequados para a conservação de umidade de
campo.
Teve-se o cuidado de preservar a integridade
da amostra, de modo que houvesse a mínima
interferência possível nas condições da mesma.
Para tanto as amostras foram coletadas em
anéis metálicos. Todas as amostras foram
acondicionadas em embalagens devidamente
protegidas contra impactos. Figura 7. Excecução de ensaio tipo DPL.
A Figura 6 apresenta ilustração de como se
deu a coleta de amostras. A ponta cônica do DPL tem 10 cm² de área.
O diâmetro do cone é de 36 mm. A ponta tem
ângulo de 45° com o eixo longitudinal, o que
leva a um ângulo interno de 90°. Este formato é
padronizado pelas normas DIN 4094.
A energia de cravação foi fornecida por um
peso de 10 kg caindo de uma altura de 50 cm
sobre a cabeça de bater. Esta cabeça de bater
recebe o esforço e transmite a energia às hastes
de maneira uniformizada.
O número de golpes para a penetração a cada
10 cm (N10) foi anotado. Os critérios de
paralização são: N10 maior que 50 e
profundidade máxima de 3 m.
Figura 6. Coleta de amostras para ensaios de laboratório.
5 RESULTADOS observado, os valores encontrados na secção
central são inferiores aos valores da lateral.
Neste item são apresentados os resultados Também foi observado que os valores
encontrados na campanha de ensaios e na aumentam juntamente com a profundidade.
avaliação da situação. Outra observação importante se dá em
relação à umidade do ponto 4, externa ao
talude). A umidade neste ponto é sensivelmente
5.1 Aterro de Acesso maior que nos demais pontos amostrados.

A escavação realizada no pavimento permitiu Tabela 1 – Valores de umidade (%) medidos no aterro de
acesso
verificar a composição estrutural do aterro de
acesso. Prof. Secção Secção Seção Pé do
A camada mais superficial deste maciço é (m) Lateral Central Lateral talude
constituída por material pedregulhoso cuja (N1) (N2) (N3) (N4)
espessura é da ordem de 40 cm, como mostra a 0,10 15,7 7,0 13,5 26,0
Figura 8. Esta é a camada de base do 0,50 - 10,40 - 27,3
pavimento. 1,0 15,9 11,1 - -

Os valores de umidade medidos no maciço


variam consideravelmente de acordo com a
posição de coleta da amostra e são divergentes
daqueles apontados pelo ensaio do tipo Proctor
normal, como mostram as Figuras 9 (a) e (b).
Observa-se que a umidade está acima da
ótima para pontos próximos à face do talude e
abaixo dela para o ponto central do maciço.
Tal fato indica que o maciço sofreu
acréscimo de água proveniente da chuva que
infiltrou pelas fissuras do revestimento e pela
área lateral não revestida.
Os teores de umidade ótima obtidos para o solo
Figura 8. Material constituinte da base do pavimento.
do ponto 4 apontam para a saturação do solo.
Tal fato, aliado com a inexistência de
Este material foi avaliado em laboratório e
compactação do solo de fundação do maciço
pode ser classificado como A-1-a, que
fornece subsídios para concluir que boa parte
compreende os solos formados por fragmentos
dos recalques observados se dá pelo seu
de rocha (pedra) ou pedregulho, com ou sem
colapso.
material fino bem graduado, funcionando como
aglutinante.
Sob a camada de base, foi encontrado um
material arenoso que pode ser classificado como
A-3, que compreende as areias finas sem
material siltoso ou argiloso, e as areias finas
com pouca quantidade de silte plástico, esta
camada é a sub base.
No que se refere à umidade, foram medidos
os valores de umidade em quatro pontos do
aterro de acesso. Estes pontos estão situados
conforme o croqui da Figura 5.
A Tabela 1 mostra os valores de umidade (a)
encontrados neste aterro. Como pode ser
ensaio ultrapassando a camada. Também é
possível observar que a resistência à penetração
aumenta conforme se distância da face do
talude.
Estes resultados de resistência à penetração
indicam que o desempenho do pavimento na
borda lateral (furo N1) é muito inferior ao ponto
localizado mais próximo ao centro da faixa de
rolamento (furo N2) que foi considerado
impenetrável pelo DPL. Uma possível
(b) explicação para isso está ligada ao maior teor de
Figura 9. Peso específico e umidade ótima Furo 1 com
0,1 m de profundidade (a) e com 0,4 m de profundidade umidade encontrado no furo N3. Conforme
(b) explicado por Fredlund et al (1993) a
resistência de um solo não saturado é tanto
A comparação entre os pesos específicos menor quanto maior o seu teor de umidade.
verificados em campo e os obtidos pela curva Outra possível explicação é a perda de
de compactação aponta para a hipótese de resistência desse material devido aos recalques
problemas durante a compactação do maciço, sofridos.
como mostra a Tabela 2.

Tabela 2. Peso específico seco obtido em campo e sua


comparação com a curva de compactação
Ponto Peso específico Peso específico
seco máximo seco verificado
(kN/m³) (kN/m³)
1 19,75 17,6
2 20,2 20,3

Observa-se que o peso específico obtido em


campo para o ponto 1 é sensivelmente inferior
ao verificado na curva de compactação o que
juntamente com os problemas verificados no
controle de umidade de compactação pode
justificar o aparecimento de fissuras no
pavimento, porém não os elevados recalques
observados e as fissuras no muro de proteção.
A avaliação da resistência do pavimento foi Figura 10. Perfil de resistência à penetração.
realizada nos pontos 1, 3 e 4. A mesma foi
realizada por meio dos dados obtidos no ensaio
dinâmico de penetração (DPL). 4 CONCLUSÕES
A Figura 10 mostra o perfil de resistência à
penetração medido (N10). Como pode ser Após os estudos de campo no complexo do
observado, os valores de N10 são muito menores viaduto verificou-se que há um processo intenso
na seção lateral das faixas de rolamento (furos de recalque do aterro que constitui o acesso ao
N1 e N3) e no pé do talude (furo N4) do que no viaduto. Este recalque foi causado pelo colapso
centro do pavimento (furo N2). do solo de fundação.
A camada de base no centro do pavimento Os recalques do aterro de acesso foram os
mostrou-se impenetrável ao DPL (furo N2). causadores das trincas longitudinais ao longo do
Contudo, na faixa lateral, embora os valores de pavimento. Por sua vez as trincas permitiram a
N10 sejam elevados foi possível conduzir o entrada de água no solo e causaram a redução
da resistência da estrutura do pavimento (base e
sub-base). REFERÊNCIAS
As fissuras observadas no muro de contenção
ocorreram devido à incompatibilidade de Fredlund, D.G., et al (1993). Soil Mechanics for
rigidezes entre as fundações do viaduto e do Unsaturated Soils. John-Wiley ans Sons,
maciço. New York, 486 p.
Essa incompatibilidade fez com que
ABNT– Associação Brasileira de Normas
houvesse um recalque muito maior do aterro Técnicas - NBR 7182 (1986) - Solos - Ensaio
que a estrutura de concreto, gerando acúmulo de de Compactação. 10 p.
tensões no muro de proteção. A energia gerada ABNT – Associação Brasileira de Normas
no processo se dissipou gerando as trincas Técnicas - NBR 6457 (1986) - Amostra de
observadas. solos - Preparação para ensaio de
Pode-se perceber a origem destas trincas ao caracterização e compactação. 9 p
se verificar que durante a construção do muro Hachich W., et al. (1998) Fundações, Teoria e
de proteção, parte dele foi apoiada nas Prática. Pini. 2 ed. São Paulo.
fundações do viaduto e o restante nas fundações
do maciço, como mostra a Figura 11.

Figura 11. Etapa inicial de execução do muro de


proteção.

Os dados obtidos em laboratório apontam que o


maior responsável pelas patologias observadas
foi o recalque sofrido pelas fundações do aterro
de acesso.
Estes recalques ocorreram devido à não
preparação do solo de fundação para receber as
cargas do aterro e não por condições de
drenagem adensamento.
Este entendimento permitiu inferir que a
quase totalidade dos recalques já ocorreram e
que a solução do problema é a correção da cota
dos aterros de acesso e a recomposição do muro
de proteção.