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Demiurgo - Construtor(es) do(s) Universo(s)

A palavra Demiurgo significa “Construtor, Artífice” e é habitualmente referida,


em termos cosmogônicos, relativamente ao surgimento e formação dos
Universos. Foi usada por antigos e notáveis filósofos gregos, nomeadamente
por Platão e, a partir daí, por diferentes escolas e autores, com maior ou menor
propriedade. Visto que Platão expôs, na medida do possível, e sob os
necessários véus, partes relevantes da Ciência Espiritual, é normal que, na
exposição da Cosmogonia Oculta, se recorra por vezes a essa palavra.

Poder-se-á imediatamente pensar que “Demiurgo” designa, então, o Deus-Pai


Criador de tudo quanto existe; porém, essa é uma formulação simplista e
incorreta, que não pode, sem mais, ser subscrita pela Sabedoria Esotérica. Há
imensas questões e vertentes a ponderar. Certamente, não poderíamos (ainda
que o soubéssemos) expô-las todas. No entanto, não vamos iludir algumas das
principais.

A dor e a imperfeição do mundo

Toda a Humanidade é digna de compaixão; contudo, individualmente


considerados, somos ainda, muitas vezes, mesquinhos. Grande parte dos
seres humanos assemelham-se assim a bonecos de corda. A imagem pode
parecer algo dura mas tenta ilustrar uma atitude muito vulgarizada: as pessoas
surgem neste mundo, mexem-se muito, fazem e dizem muitas coisas (um
considerável número das quais, talvez, completamente inúteis); entretanto,
nunca se questionaram por que e para que estão aqui; que é isso que nelas
palpita como vida, lhes permite movimentar-se, pensar, ter sentimentos; que
sentido real e profundo deve ter as suas existências. Quando o fazem, em
grande parte dos casos rapidamente se entregam nos braços de alguma
crença mais ou menos simplista ou, quando mais pertinazes, tornam-se
fanáticos desta ou daquela Igreja (ou de qualquer outro sucedâneo). É
infelizmente raro o genuíno investigador, que busca incessantemente a
verdade, que não tem medo de enfrentar as questões e ver o mundo tal qual
ele é, que exige respostas profundas, firmes e consistentes.

Não obstante, pensamos que não constitui nenhum exagero afirmar que,
decerto, cada um de nós, ao menos uma vez na vida, experimentou a
sensação de dor, de sofrimento, de vulnerabilidade ou de verdadeira tristeza.
Isto sucede particularmente em momentos mais críticos, quando somos
assaltados por uma doença, por um problema pessoal, pela morte
(desencarne) de algum ente querido; também, quando observamos os horrores
do mundo que nos cerca, especialmente no século que findou (e que também
já se indiciam no recém-iniciado), em que a humanidade vem realizando
grandes conquistas científicas e tecnológicas mas em que, com isso, construiu
meios de destruição autenticamente assombrosos, e em que, aqui e ali, se
cometeram iniquidades que nos fazem quase desfalecer de horror ao delas
tomarmos conhecimento; quando constatamos o oceano de dor e de loucura
em que a humanidade em geral está imersa; quando, enfim, “apenas” sentimos
aquela angústia, aquela insatisfação, aquele vazio fundamental que tantas
vezes nos acompanha no dia a dia…

Nessas ocasiões, em alguma fase da nossa vida, seguramente nos teremos


interrogado se não existe um Deus no “Céu” ou, se ele existe, por que permite
que tais coisas possam acontecer no mundo.

O problema do mal

Mais ainda, aliás: quando vemos que não apenas a nós, humanos, nos toca a
dor e a miséria, mas que o sofrimento pode ser tão cruento e brutal entre os
animais, na sua luta pela sobrevivência e não só; quando vemos que até no
reino vegetal há destruição; quando observamos que, na Natureza, há
tentativas falhadas, insucessos ou mesmo (aparentes?) aberrações; quando
constatamos que todo e qualquer ser que conheçamos é limitado e, portanto,
imperfeito; quando, enfim, nos confrontamos com o problema do mal (1) - da
existência evidente do mal no Universo, verificamos como têm plena razão de
ser as poéticas palavras do Buddha Gautama: “Não te iludas, Ananda, toda a
existência está plena de dor. Assim, chora a criança desde que nasce.”. E
acrescentava Ele, face a tudo o que tentámos aludir: “Se Deus permite tais
coisas, não pode ser bom; ou então, não tem o poder de evitá-las, e não pode
ser Deus” (2).

De fato, se existe / se existisse um Deus simultaneamente Absoluto, Criador,


Todo-Poderoso e infinitamente Bom, como é que não quis ou não pôde fazer
um mundo muito mais perfeito (aliás, infinitamente perfeito) e feliz (aliás,
infinitamente feliz, bem-aventurado) do que este? (3).

Respostas incoerentes

A teologia das Igrejas Cristãs ufana-se, literalmente! (4) de ter uma resposta
para esse problema. Sintetizando, a sua posição é esta: Deus é uma Pessoa -
que é também três pessoas (5) distinta do mundo, que criou do nada
(concepção teísta), da mesma forma como cria as almas humanas (porque os
animais, por exemplo, não teriam alma) cada vez que é concebido um corpo a
que se vão associar. Deus criou o homem para ser feliz neste mundo, embora
sempre numa limitada condição. Demoniacamente tentados a serem idênticos
a Deus, para tanto comendo da Árvore do Conhecimento do bem e do mal,
remotos antepassados nossos teriam cometido o pecado original, motivo pelo
qual temos de sofrer, e muito! neste mundo (assim interpreta o primeiro livro da
Bíblia). Alguns milhões de anos depois, Deus enviou o seu Filho (que é Ele
mesmo?!) para redimir (os que não nele crerem) do pecado que assim entrou
no mundo e para os “conduzir à vida eterna”.

Dificilmente alguma vez se concebeu uma ideia tão incoerente, disparatada e


ofensiva do mínimo sentido de justiça e de lógica! Se não, vejamos:

1) Existindo um Deus pessoal, infinitamente justo, criador e governante moral


do Universo, onde intervém sempre que e como lhe parece conveniente (6) -
que é o que sustentam tais teologias, de que modo podemos entender e aceitar
que milhares e milhares de gerações de seres humanos, muitos e muitos
milhares de milhões de homens e mulheres continuem a sofrer as
consequências de um fato para o qual não contribuíram, visto não existirem no
momento em que esse fato foi, por outros, praticado (lembremos que as
Igrejas Cristãs não aceitam a ideia da preexistência das Almas, da
Reencarnação e, basicamente, do Karma)? Alguém acharia justo que um juiz
nos aplicasse uma pena de prisão e uma multa (com juros e correção
monetária, já agora.) por um delito cometido por um antepassado nosso que
viveu há - mero exemplo - 100 000 anos atrás? Se tal acontecesse, qualquer
cidadão no seu perfeito juízo sentiria a mais profunda revolta, indignação e
sentimento de estar a ser alvo de uma injustiça colossal. Decerto, consideraria
o juiz (ou, então, o legislador) iníquo, estúpido, monstruoso. Com grande
probabilidade, haveriam manifestações de protesto, desacatos, violência.
Como, então, admitir que o Legislador e Juiz divino, infinitamente justo e sábio,
pudesse ter tal iniquidade, insensatez e monstruosidade? E como se poderia,
ainda assim, dirigir-Se-lhe louvores (como os que, supostamente se fazem ou
deveriam fazer a um tal Deus)?

Muitas vezes nos interrogamos como é que tais “explicações” podem ser
concebidas e aceites, e só encontramos duas razões: o fanatismo retorcido e
mal informado de alguns (os inventores de tal história) e a indiferença real do
cidadão comum perante qualquer espiritualidade profunda, que de fato não
leva a sério e que por isso não questiona - como o faria se estivessem em
causa, por exemplo, valores monetários que o afetassem. Aí, e porque a
questão lhe importaria, logo vislumbrava a imensidão da injustiça…

2) Se Deus é onipotente e infinitamente bom e faz todas as criaturas como


quer, por que concebeu um ser limitado como o ser humano, mesmo no seu
estado original de graça? E por que cria seres, como os animais, condenados
também ao sofrimento e, segundo tal teologia, à extinção -, não obstante terem
sensibilidade à dor, emoções, sentimentos e até inteligência?

3) A isto, acresce uma infinidade de questões, de que só suscitaremos


algumas, e, ainda assim, limitando-nos a deixar as perguntas sem mais
comentários: deveria o ser humano permanecer infantilmente sem
discernimento próprio, sem ciência (do bem e do mal)? O original do livro do
Gênesis (7) fala em um Deus ou em os Elohim (uma pluralidade, uma
hierarquia)? E por que, no mesmo livro, ora se fala nos Elohim ora em Jeová
(e, ainda, no meio, em Elohim-Jeová)? E a primeira palavra bíblica, ainda no
Genesis, palavra essa que é Berasit ou Berasheth significa no princípio (no
sentido de, no início, no começo) ou significa Sabedoria (na qual foram criados
os Céus e a Terra, etc.)? E como poderia ser Deus infinito e absoluto, se fez
surgir mundos e criaturas do nada, (o que quereria dizer) de algo que não Ele
próprio? E, por qual explicável e aceitável razão - visto que a Humanidade tem
já uma Idade tão longa - Deus não teria desencadeado imediatamente o Seu
plano de salvação, e só há apenas dois milénios (depois de incontáveis outros
terem decorrido), o Seu Filho veio à Terra (lembremos que os menos de 4000
anos de Judaísmo e os 2000 anos de Cristianismo são uma ínfima fração da
História da Humanidade)? Enfim, por que existem textos cosmogônicos e
antropogenéticos muito mais antigos do que o Genesis e de que este é um
simples resumo mais ou menos confuso?

O segundo Deus

O fato é que existe dor, limitação e falhanços no Universo. Por alguma boa
razão, os gnósticos cristãos de há cerca de dois milênios atrás - infelizmente
considerados como hereges pelo Cristianismo deturpado que depois triunfou -
consideravam Jeová como demiurgo de um mundo inferior, imperfeito,
recusando a sua identificação com o Pai Celestial referido por Jesus e, menos
ainda, com o Absoluto. Pretendiam, esses gnósticos - como Simão, Marcion,
Valentino, Basílides e, de algum modo, o próprio S. Paulo, cortar a ligação com
o Jeová ciumento e vingativo que aparece em tantas páginas do Antigo
Testamento. (Alguns gnósticos referiam-se a Ialdaboath como o criador do
nosso globo físico, e., a Terra, como se poder ver no Codex Nazareus - o
Evangelho dos Nazarenos e Ebionitas, e identificavam-no com Jeová. Ilda-
Baoth é o “filho das Trevas”, num péssimo sentido. Para mais
desenvolvimentos, (cfr. “Ísis sem Véu” e “Glossário Teosófico”, de Helena
Blavatsky). Por herético que este conceito hoje possa parecer, é difícil negar
que ele encontra acolhimento no Evangelho segundo S. João. Lembremos
partes do seu 1o Capítulo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de
Deus… Ele estava no princípio junto de Deus… Ninguém jamais viu a Deus”.
Ora, este Deus Supremo, que “ninguém jamais viu”, não pode ser o Jeová visto
e descrito no Velho Testamento.

“Pronunciou Jesus, alguma vez, o nome de Jeová? Alguma vez pôs ele em
confronto o seu Pai com esse Juiz severo e cruel; o seu Deus de misericórdia,
amor e justiça, com o gênio judeu da retaliação? Jamais! Desde o memorável
dia em que pregou o seu Sermão da Montanha, um imensurável vazio se abriu
entre o seu Deus e aquela outra divindade que fulminava os seus
mandamentos de uma outra montanha - o Sinai” (8) (9).
Em qualquer caso, sempre os filósofos mais ilustrados se recusaram a
identificar o Demiurgo com a Divindade Suprema, tendo ficado célebre a
denominação que lhe foi dada por Filon : o segundo Deus.

O problema do mal acima mencionado tem perturbado alguns dos mais


notáveis pensadores, veja-se, por exemplo, a preocupação de Leibniz (10) em
tentar demonstrar que Deus tudo fez da maneira mais desejável, não podendo
ter feito melhor.

Ainda o referido problema acabou por conduzir mesmo alguns honestos


buscadores da Verdade a uma posição de ateísmo (ou, pelo menos, de
agnosticismo).

A Ciência Oculta reconhece a incompatibilidade entre o fato de existir um


Universo sublime e extraordinariamente ordenado, mas imperfeito, e a ideia de
que tenha sido criado por um Deus Absoluto. Sustenta, aliás, que o Absoluto
não poderia conceber nem criar (pelo menos, diretamente) o relativo e
condicionado e, menos ainda, algo de externo a si; a Criação a partir do nada,
suporia acrescentar algo ao Absoluto, o que é insustentável. Não obstante, o
Ocultismo não é agnóstico (é por isso que é Ciência) e tão pouco é ateísta -
exceto no sentido de rejeitar as concepções antropomórficas do Divino.

Várias acepções de divino ##

O Esoterismo associa a ideia de Divindade a três níveis fundamentais, que


indicamos em seguida, de forma sucinta:

I) Um Princípio Universal, Impessoal, Ilimitado, Inominado e Inefável, absoluto


Ser e não-Ser (bem como Consciência absoluta, e absoluta Inconsciência de
qualquer coisa limitada), porque o seu único atributo é Ele mesmo. É Causa
incausada, infinita e eterna; a Realidade Una e Absoluta, anterior e
transcendente a tudo o que é manifestado ou condicionado.

Estamos perante o Parabrahman (ou, ainda, o Brahman Supremo, o Brahman


Indiviso ou o Brahmam Nirguna, i.e., sem atributos) dos vedantinos, o Ain Soph
dos cabalistas, o Deus Supremo Ignoto dos antigos gregos, o Deus
Imanifestado ou Transcendente de uma teosofia cristã. Em última instância,
porém, o uso da palavra “Deus” (mais a mais, atendendo ao sentido que
vulgarmente lhe é dado) é equívoca. Aquilo a que se alude aqui não é a
(Deusa) ou a um Deus mas sim ao Espaço Infinito e Ilimitado, de onde tudo
desponta, o Grande “Contenedor”, o Arik-Anpin (o nome dado, neste sentido,
ao Universo pelos cabalistas) - aquilo que Sempre é, foi e será, ainda que
todos os mundos existentes desapareçam (11) (12).
II) A 2a proposição da Doutrina Secreta (11) refere-se aos “Universos
inumeráveis manifestando-se e desaparecendo… como o fluxo e o refluxo
periódico das marés”.

Temos, deste modo, os Logos Criadores que, emanando ou radiando da


Realidade Una e Imanifesta, se tornam a Divindade Manifestada e Imanente de
um Universo - desde o Ser Supremo do Cosmos total aos Logos Solares ou,
ainda, aos Logos Planetários. Cada um destes Seres pode ser considerado o
Deus, o Brahman Inferior ou o Brahman Saguna (i.e., com qualidades) ou
Ishvara do Seu próprio Universo, do qual é o mais elevado Espírito. Cada um
destes Seres é o Demiurgo na esfera do Seu próprio Cosmos.

Entretanto, a referência ao Logos ou Demiurgo é, também ela, uma


simplificação. O Logos é o mais elevado Hierarca de um Sistema ou Cosmos
(13), i.e., o vértice superior de uma Hierarquia, de uma Legião, de um vasto
conjunto de Criadores; o Demiurgo expressa uma coletividade abstrata de
Construtores.

A “Doutrina Secreta”, diz Helena P. Blavatsky, “admite um Logos, ou um


(Criador) coletivo do Universo; um Demiurgo, no mesmo sentido em que se fala
de um (Arquiteto) como Criador de um edifício; muito embora o Arquiteto nunca
houvesse tocado em uma pedra sequer, mas simplesmente elaborado o plano,
deixando todo o trabalho manual ao cuidado dos operários. No nosso caso foi,
o plano, traçado pela Ideação do Universo, e a obra de construção entregue às
Legiões de Forças e Potestades inteligentes. Mas aquele Demiurgo não é uma
Divindade pessoal, isto é, um Deus extra-cósmico imperfeito, e sim a
coletividade dos Dhyân-Chohans (Segundo a Teosofia, os Dhyan-Chohans
são, em certo sentido, os próprios homens, pois foram eles que forneceram a
Mônada, a Essência divina do Homem. Há sete classes de Dhyan-Chohans,
associados aos sete planetas sagrados do nosso sistema solar. e das demais
forças”.) (*Vide - A HIPOSTASE DOS ARCONTES exegese no Livro do
Gênesis do primeiro ao sexto capítulo e expressa uma mitologia gnóstica da
criação do cosmos e da humanidade. O texto foi encontrado na Biblioteca de
Nag Hammad (Codex II) em 1945). Esta era igualmente a concepção de
Platão. Ao referir-se ao Demiurgo, não pensava ele em um ou o Deus (ainda
que, por vezes, certas traduções e interpretações, incapazes de se apartar dos
preconceitos culturais e religiosos de hoje, pareçam fazer supor que sim). Com
efeito, “Há que sublinhar o caráter politeísta do conceito de divindade que
Platão nos apresenta no Timeu: a divindade é participada por vários deuses,
cada um dos quais tem uma função e domínio próprios, sendo o demiurgo tão
só o seu chefe hierárquico”; “Não há aqui qualquer sinal de monoteísmo: na
crença da divindade está a crença nos deuses: a divindade é participada
igualmente por um número indefinido de entes divinos, dos quais os mais
elevados têm nos astros os seus corpos visíveis (Leis, 899-a-b)” (14)

A distinção entre o Divino Imanifestado e o surgimento do Demiurgo no plano


de transição do Manifestado/Manifestado (15), justificam a sua já referida
designação como “Segundo Deus”, que “é a Sabedoria do Deus Supremo”
(16).

O Demiurgo forma o Cosmos do Caos. É o vórtice que atua na Substância Pré-


Cósmica (na Raiz da Substância, ou Mulaprakriti, como a denominam os
vedantinos) e que a ativa, despertando-a para a existência Cósmica. O Eterno
Pensamento Divino Absoluto, no Imanifestado, volve-se em Ideação Cósmica,
com o Plano concreto para um Universo. A Mente Cósmica vem então à
existência - passa da potência ao ato, porque despertam os Ah-Hi (17), os
Dhyan-Chohans (18), os deuses, as Potências Criadoras, os Filhos Radiantes
da Aurora Manvantárica, as Estrelas que exsurgem das Trevas Primordiais e
que passam a ser a substância e o continente dessa Mente Cósmica (19) ou
Alma Universal (20) ou Sofia ou Ennoia-Ofis (21) ou Binah (22) …

Damos novamente a palavra a Helena Blavatsky, em dois excertos da sua obra


principal: “O Caos, segundo Platão e os pitagóricos, tornou-se a Alma do
Mundo (Anima Mundi). O Primogénito da Divindade Suprema nasceu do Caos
e da Luz Primordial, o Sol Central. Esse Primogénito não era, contudo, senão o
agregado da Legião dos Construtores, que as teogonias antigas chamavam de
Antepassados, nascidos do Abismo ou Caos e do primeiro Ponto”; “As
diferentes cosmogonias mostram que a Alma Universal era considerada por
todas as nações arcaicas como a Mente do Demiurgo criador; e que era
chamada a Mãe, Sofia ou a Sabedoria feminina, pelos gnósticos; Sephira pelos
Judeus e Sarasvati ou Vâch pelos hindus - sendo também o Espírito Santo um
princípio feminino.”

O Universo é construído de acordo com os modelos dos Eide ou Ideias a que


se referia Platão, e das quais o Demiurgo - a coletividade de Inteligências
Espirituais que o integram, se serve para ordenar a Substância e transformar o
Caos em Cosmos. Assim, o Demiurgo é o agente das Leis Divinas que regem o
Universo.

III) Cada um dos Dhyâni Chohans, Inteligências Divinas, Potências Criadoras


ou deuses, por outras palavras - que, como dissemos, integram coletivamente
o Demiurgo, o Logos, o Verbo Criador do Pensamento Divino, colaborando na
construção, sustentação e direção de todo o Universo objetivo, de cada uma
das suas formas, de cada um dos seus átomos. Assim, todas as Entidades, no
seu próprio plano de raiz divina - como deuses, integram uma das grandes
Hierarquias Criadoras, em que as Monadas Humanas, os Homens Divinos se
incluem. O Universo existe (ou é) trans-temporalmente no Pensamento Divino
mas vai-se executando num longo devir, através do concurso de todas as
unidades de vida divinas (as realidades íntimas de todas as existências) que
vão progredindo, em graus cada vez mais elevados, através da ativação da sua
inteligência criadora latente. E todos somos co-responsáveis em tornar o
Universo mais perfeito.

Os Dhyâni-Chohans ou Hierarquias Criadoras são mencionados nas tradições


mais ocidentais (e, sem muito rigor, chamadas, monoteístas”) como Filhos de
Deus, Homem Primordiais, Elohim, Anjos (diferentes dos lamentáveis e
abusivos tratamentos que lhes são dados em literatura recentemente muito
vulgarizada), Arcanjos, Tronos, Virtudes, Potestades, Dominações,
Principados, Querubins, Serafins, Potências, Degraus, Anuphaim, Sete
Espíritos diante do Trono, Anciãos, etc.

O Demiurgo e a Substância

O Ocultismo afirma a eternidade da Matéria, ou antes, da Substância, ou


melhor ainda, do Espaço que é a sua matriz e essência supersensível. “A
matéria é tão indestrutível e eterna como o próprio espírito imortal, mas (…)
não como formas organizadas”(11). Reproduzimos aqui perguntas
endereçadas a dois grandes Sábios e as respostas que estes deram:

“Qual é a única coisa eterna no universo, independente de outras coisas? O


Espaço. Que coisas são co-existentes com o espaço?

(I) A duração. (II) A matéria. (III) O movimento, porque este é a vida imperecível
(consciente ou inconsciente, conforme o caso) da matéria, mesmo durante o
Pralaya (24) (25). Deve salientar-se, pois, que, para o Ocultismo, não existe tal
coisa como Matéria morta. A Vida Una e Onipresente “… não só penetra mas é
a essência de cada átomo da Matéria; e, portanto, ela não apenas tem
correspondência com a Matéria mas possui também todas as suas
propriedades…” (Um no todo e todo no um) (25). Como também já referimos
inúmeras vezes, na concepção Esotérica, a Matéria não é apenas a Substância
física que os nossos sentidos apreendem e que as ciências experimentais
estudam, visto que existem níveis de substancialidade imensamente mais sutis,
numa hierarquia septenária de Planos. Existe, por exemplo, substância ou
matéria do Plano Mental… e de outros ainda mais elevados, habitualmente
ditos Espirituais (em todos os Planos existem os dois pólos, Espírito e Matéria,
inter-relacionados, embora em diferentes condições e peso relativo). O que,
afinal, a Ciência Oculta afirma é que nada é destituído de substância; que tudo
tem, necessariamente, um substratum ontológico; e que o Ser, no nível
primevo do Cosmos, é a Essência Una tanto do pólo Espírito, como do pólo
Matéria.

Assim, o Demiurgo forma o Universo a partir de uma matéria prima já existente,


porque eterna - a chamada criação ex nihil (a partir do nada) não faz sentido,
porque nada pode ser nada, porque o nada não pode existir, exceto se dermos
à palavra nada o sentido de “sem atributos”. Nos níveis inferiores da existência
universal a matéria é mais densa, e as Ideias, de acordo com as quais os
mundos são formados e evoluem, manifestam-se menos cristalinamente e
também são menos elevadas e perfeitas as Potências Criadoras operantes.
Como já referira Platão no “Timeu” (a sua principal obra cosmogónica), o
Demiurgo não é onipotente: produz o Cosmos tão bom “quanto possível” (30-b)
e tem de conformar-se com os efeitos contrários da “necessidade” (47e-48a) -
da necessidade da existência condicionada e da necessidade Kármica.

A importância da Cosmogênese Ocultista

Embora, haja quem possa entender árido e inútil abordar as questões mais
sutis e profundas da Cosmogênese, a sua compreensão tem implicações
incontornáveis nos paradigmas culturais, científicos, religiosos vigentes e que
condicionam o mundo.

Por exemplo: a clara noção de uma Ser-dade (Be-Ness, na expressão de H.


Blavatsky), como Princípio Absoluto, Incriado e Incriador (de qualquer coisa
relativa) e, distintamente, do Logos ou Demiurgo, como “agregado coletivo de
todas as inteligências espirituais criadoras” - mas não absolutas nem perfeitas,
por isso que se manifestam no espaço e no tempo relativos , evoluindo para
patamares cada vez mais amplos e elevados (26), permite encarar o já referido
- e dramático - “problema do mal”; torna evidente a realidade da justiça no
Universo, já que ele depende do querer coletivo de todos os Filhos do Divino;
responde satisfatória e plenamente à pergunta dos cientistas: “Se o Universo é
obra de um Deus perfeito e Onipotente, como é que a Natureza parece revelar
tentativa e erro, ou seja, tentativas falhadas?” (V., exemplificativamente,
“Cosmos”, de C. Sagan); põe termo às perguntas “Deus existe?”, “Crê em Deus
ou não?” e “Se Deus criou tudo, quem é que criou Deus?”, porque a resposta
seria evidente e as perguntas descabidas e sem sentido: O Ser (o Espaço no
sentido mais radical e profundo) é eterno e necessário.

José Manuel Anacleto

Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

(1) Seja o mal físico, metafísico ou moral.

(2) O Senhor Buddha Siddharta Gautama referia-se aqui, naturalmente, a uma


Divindade pessoal ou distinta do Universo, concepção que rejeitava. Porém,
tinha TAT - O Absoluto Incognoscível em si mesmo - como pressuposto
incontornável. O Budismo é às vezes considerado ateísta (somente) por
recusar a existência de um Deus mais ou menos antropomórfico; e, nesse
sentido, tal recusa é bem compreensível e louvável.
(3) Parte do que aqui escrevemos havia por nós sido expresso na série de
conferências que deu origem ao livro “Para um Mundo Melhor” (Centro
Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 1997).

(4) A título meramente exemplificativo, cfr. “História da Filosofia” de Humberto


Padovani e Luís Castagnola, obra com Nihil Obstat, Imprimi Potest e
Imprimatur.

(5) As três “Pessoas” da Santíssima Trindade. Confunde-nos muitíssimo a


frase muito repetida, nas Igrejas Cristãs, que Deus é uma Pessoa. Uma
Pessoa!!!…

(6) Se intervém, se precisa de intervir, é (seria) porque a Ordem que dispôs


não é perfeita…

(7) O primeiro da Bíblia.

(8) In “Ísis sem Véu”, de Helena Blavatsky (Ed. Pensamento, S. Paulo, 1990).

(9) Nem a autora destas palavras nem nós deixamos, entretanto, de ter
profundo respeito pelo conhecimento oculto - cabalístico - existente no seio do
Judaísmo.

(10) Cfr. “Discurso de Metafísica”. Leibniz (1646-1716) foi indiscutivelmente


uma das maiores inteligências da moderna civilização ocidental. Como faz
notar Helena Blavatsky, conciliando o seu sistema com o de Spinoza (e
abstraindo dos eufemismos a que a ditadura ideológica da época os obrigava),
têm-se muitas das noções fundamentais do Ocultismo.

(11) Cfr. “A Doutrina Secreta”, de Helena P. Blavatsky (Ed. Pensamento, S.


Paulo, 1973).

(12) Tratámos também desta temática, mais amplamente do que neste artigo,
no nosso livro “Transcendência e Imanência de Deus” (Centro Lusitano de
Unificação Cultural, Lisboa, 2001).

(13) No pequeno Cosmos que é o homem, o (seu) Logos é o 7o Princípio


(Atman; o Espírito, a Vontade Espiritual); Cfr. “Consciencia e Inmortalidad”, de
Subba Row (Ed. Kier, Buenos Aires, 1994).

(14) “História da Filosofia, Vol. I” de Nicola Abbagnano (Ed. Presença, Lisboa,


1976)

(15) Nível ou momento por vezes identificado com o 2o Logos. Cfr. “The Divine
Plan”, de Geoffrey Barborka (Theosophical Publishing House, Adyar, 1964) e
“Transactions of the Blavatsky Lodge” (The Theosophy Company, Los Angeles,
1987).

(16) Filon, “Quoest, et Solut”.


(17) Ah-Hi - Dragões da Sabedoria ; Dhyan-Cohans.

(18) Dhyan-Chohans - “Senores da Luz” ou “Senhores da Meditação Profunda”.


As Inteligências Divinas encarregues da construção e superintendência do
Cosmos.

(19) Mahat, em sânscrito.

(20) Ou Anima Mundi.

(21) Entre alguns Gnósticos, nomeadamente Basílides e os Ofitas.

(22) Binah - Uma das Três Supremas da Árvore da Vida. Entendimento,


Inteligência, Leis regentes do Universo. Chamada o Grande Mar e a Mãe
Suprema ou Grande Mãe e equivalente a Sofia.

(23) Quando São Paulo falava de Cristo como o “primogénito” referia-se ao


Logos, ao Cristo Cósmico. Há uma analogia precisa entre o Macro e o
Microcosmo. O Homem Espiritual vem a ser o Logos dos seus veículos.
Lembremos outra frase de Paulo: “Cristo em nós, esperança de glória”.

(24) Pralaya - um Período de noite ou repouso cósmico, total ou relativo. O


contrário de Manvantara (período de actividade cósmica).

(25) “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett” (Ed. Teosófica, Brasília, 2001)

(26) Sobre esta questão, cfr. o que escrevemos nos o 10 - artigo “Ordem e
Inteligência do Cosmos” - e 15 - artigo “A Matéria na Perspectiva do Ocultismo”
- da Biosofia.

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