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Unidade:
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V Ed. .b Luci Banks-Leite . Izabel Galvão (Orgs.)
Tombo/BC 6509 j lij;-
Tombo/IEL 9 Carlos R. Luis. Heloysa Dantas . Leandro de Lajonquiêre
Proc. ;)dA 't ~ .J1iJ7; Luciano Migliaccio . Regina Maria de Souza
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cionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

A Educação de um selvagem: as experiências pedagógicas de Jean


Itard / Luci Banks-Leite, Izabel Galvão (organizadoras.) - 2.
ed. - São Paulo: Cortez, 2001.
-
Vários autores.
ISBN 85-249-0765-7 A EDUCAÇAO
1. Crianças selvagens 2. Educação especial 3. Itard, Jean Marc DE UM SELVAGEM
Gaspard, 1775-18384. Menino Selvagem de Aveyron 5. Pedagogia
I. Banks-Leite, Luci. lI. Galvão, Izabel.
As experiências pedagógicas
de JEAN ITARD

00-4286 CDD-370 23 edição


índices para catálogo sistemático:
1.Itard,Jean: Experiênciaspedagógicas370

G!JJ!c.oRTEZ
~EDITORA
152 RELATÓRIOSDEJEANITARD

influência capital que têm sobre a mente da criança essas compla-


cências inesgotáveis, essas pequenas coisas atenciosas que a natu-
reza pôs no coração de uma mãe, que fazem desabrochar os pri-
meiros sorrisos e nascer as primeiras alegrias da vida.

IV

r>Quarta meta: levá-lo ao uso da fala, determinando o exercício


da imitação pela lei imperiosa da necessidade

Se eu quisesse produzir só resultados felizes, teria suprimi-


do desta obra esta quarta meta, os meios que usei para cumpri-Ia e
o pouco sucesso que obtive. Mas meu intento é bem menos apre-
sentar a história de meus cuidados do que a dos primeiros desen-
volvimentos morais do selvagem do Aveyron; e nada devo omitir
daquilo que pode ter a menor relação com eles. Serei mesmo obri-
gado a apresentar aqui algumas idéias teóricas e espero que me
perdoarão por isso ao ver a atenção que tive de só sustentá-Ias em
fatos, e reconhecendo a necessidade que tenho de responder a es-
tas eternas objeções:l!.~elvagem fala? Se não é surdo, por que
não fala?
É fácil imaginar que no meio das florestas e longe do conví-
vio com qualquer ser pensante,? sentido da audição de nosso sel-
vagem não experimentasse outras impressões senão as.guefaziam
nele Ulr(p~'lueno númer.Q(kruídüs_e, particularmente, aqueles
ligados às suas necessidades físicas. Nesse caso não era esse ór-
gão que aprecia os sons, a articulação e as combinações deles; era
apenas um simples meio de conservação individual, que avisava
da aproximação de um animal perigoso ou da queda de alguma
fruta silvestre. Aí está, por certo, a quais funções se limitava a

.
1r ""'"

154 RELATÓRIOSDEJEANITARD
RELATÓRIOI - DA EDUCAÇÃODEUMHOMEMSELVAGEMOUDOSPRIMEIROSDESENVOLVIMENTOS... 155

audição, se a julgamos pela pouca ou nula ação que tinham sobre


organizadose bem vivos, não apreendera articulaçãodaspala-
esse órgão, há um ano, todos os sons e os ruídos que não se refe-
riam às necessidades do indivíduo e pela sensibilidade delicada
vras. Encontramos entre os cretinos muitos mudos e que, entre-
tanto, não são surdos. Há entre os alunos do cidadão Sicard* duas
r
que esse sentido demonstrava para aqueles, ao contrário, que ti-
ou três crianças que ouvem perfeitamente o som do relógio, uma
nham alguma relação com elas. Quando se descascava, sem ele
batida de palmas, os mais baixos tons da flauta e do violino e que, I
I

saber e o mais devagar possível, uma castanha, uma noz; quando


porém, nunca puderam imitar a pronunciação de uma palavra, III

somente se tocava na chave da porta que o mantinha cativo, ele


embora articulada muito alto e muito lentamente. Assim, podt~ría-
nunca deixava de se virar bruscamente e acorrer ao lugar de onde
Il1osdizer que a fala é uma espécie de músi~_a~ à C}!l'!l
certos ouvi:-
partia o ruído. S~Q..órgão @.au_diçãonãQQ~l1tQnstraYa a.mesma dos, embora bem constituídos aliás, podem ser insensíveis. Dar-
suscetibilidade para os sons da voz, nem sequer para a explosão
se-ia o mesmo com o menino em questão? Não o penso, conquan-
~as~as de fogo, é porqu~~le~_r<! n~cessariamente pouco sensí- to minhas esperanças repousem num pequeno número de fatos. É
vef e põuco atento a qualquer O!l!Taimpre~são q!}e_nãofQsse aque-
verda~~_~u~.minhastentativas a esse respeito não foram mais nu-
la côm que tivera um. longo e exclusivo há~i!9lO.Portanto, imagi-
meros(is e que,--muitotempo embaraçado sobre o partido que eu'
na-se por que o ouvido, muito apto para perceber certos ruídos,
tinha ~e tomar, limitei-me ao papel de observador. Eis, portanto, o
mesmo os mais leves, deve sê-Io muito pouco para apreciar a arti-
que notei.
culação dos sons. Aliás, não bast'h.Qara falar, perceber o som da
voz; c:.\!lIlpreainda apre~iar ~ articulação desse som; duas opera- Nos quatro ou cinco primeiros meses de sua permanência
ções bem distintas e que exigem, da parte do órgão, condições em Paris, o selvagem do Aveyron só se mostrou sensível aos di-
diferentes. Basta, para a primeira, certo grau de sensibilidade do ferentes ruídos que tinham com ele as relações por mim indicadas.
nervo acústico; é preciso, para a segunda, uma modificação espe- No correrde frimário**elepareceuouvira voz humana;e quan-
cial dessa mesma~ensibitidade. Logo, pode-se, com ouvidos bem do, no corredor vizinho de seu quarto, duas pessoas conversa-
vam em voz alta, acontecia-lhe muitas vezes aproximar-se da
porta para se assegurar de que estava bem fechada e empurrar
10. Observei, para dar mais força a esta asserção, que, à medida que o homem se nela uma meia-porta interior, com o cuidado de pôr o dedo no
afasta de sua infância, o exercício de seus sentidos fica dia a dia menos universal. Na ferrolho para garantir ainda melhor seu fechamento. Notei, al-
primeira idade de sua vida, ele quer ver tudo, tocar em tudo; leva à boca todos os corpos
que se lhe apresentam; o menor ruído o faz estremecer; seus sentidos se detêm em todos gum tempo depois, que ele distinguia a voz dos surdos-mudos,
os objetos, mesmo naqueles que não têm nenhuma relação com suas necessidades. À ou melhor, esse grito gutural que lhes escapa continuamente em
medida que se afasta dessa época, que é de certo modo a da aprendizagem dos sentidos, seus jogos. Ele parecia mesmo reconhecer o local de onde partia
os objetos só o impressionam na medida em que se reportam a seus apetites, a seus
hábitos ou a suas inclinações. Mesmo então costuma ocorrer que haja apenas um ou dois
o som. Pois, se o escutava ao descer a escada, nunca deixava de
de seus sentidos que lhe despertem a atenção. Como um músico experiente que, atento a subir de novo ou de descer mais precipitadamente, conforme o
tudo o que escuta, é indiferente a tudo o que vê. Como, também, um mineralogista e um
botânico exclusivos que, num campo fértil de objetos de suas pesquisas, vêem, o primei-
grito partisse de baixo ou de cima. Fiz, no começo do nivoso,
ro só minerais e o segundo só produções vegetais. Como um matemático sem ouvido, uma observação muito interessante. Um dia que ele estava na
que dirá ao sair de uma peça de Racine: "O que é que tudo isso prova?" Portanto, se, cozinha ocupado em cozinhar batatas, duas pessoas discutiam
após os primeiros anos da infância, a atenção só incide naturalmente sobre os objetos
que têm com nossos gostos relações conhecidas ou pressentidas, imagina-se por que o
nosso jovem selvagem, tendo apenas um pequeno número de necessidades, devia exerci-
* o padre Roch-Ambroise Cucurron, conhecido como Sicard, pedagogo francês
tar seus sentidos apenas num pequeno número de objetos. Aí está, se não estou engana-
nascido em 1742 e falecido em 1822. Autor de várias obras sobre a educação dos surdos-
do, a causa dessa desatenção absoluta que impressionava todos por ocasião de sua che-
mudos, Sicard era na época diretor do Instituto de Surdos-Mudos de Paris. (N. da T.)
gada a Paris, e que no momento atual desapareceu quase completamente porque o fize-
** Denominação criada durante a Revolução Francesa para o terceiro mês do ano.
ram sentir a ligação que têm com ele todos os novos objetos que o cercam.
(N. daT.)

...
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RELATÓRIOI DA EDUCAÇÃODEUM HOMEMSELVAGEMOUDOSPRIMEIROSDESENVOL ...
VJMENTOS 157

vivamente atrás dele, sem que ele parecesse dar-Ihes a menor Essas considerações me levaram a pensar, 9!!'!.l!~0o ouvido
atenção. Sobreveio uma terceira que, metendo-se na discussão, começou a p~rceber alguns sons, queLse ayo.z não os repetia, não.
começava todas as suas réplicas com estas palavras: oh! é dife- se devia acusar uma lesão orgânica sua, mas as circunstância~..d~~-
rente. Observava que todas as vezes que essa pessoa deixava favoráveis. A falta total de exercício deixa nossos órgãos inaptos
escapar sua exclamação favorita: oh!, o selvagem do Aveyron para as suas funções; e, se aqueles já afeitos aos seus usos são tão
virava vivamente a cabeça. Fiz, à noite, na hora em que ele ia fortemente afetados por essa inação, o que será daqueles que cres-
FALA
deitar-se, algumas experiências sobre essa entonação, e obtive cem e se desenvolvem sem que nenhum agente tenda a pô-Ios em
quase os mesmos resultados. Passei em revista todas as outras funcionamento? São necessários dezoito meses pelo menos de uma
entonações simples, conhecidas sob o nome de vogais, sem ne- educação cuidadosa para que a criança balbucie algumas palavras;
nhum sucesso. Essa preferência pelo o conduziu-me a dar-lhe e vai-se querer que um duro habitante das florestas, que está na
um n.().lIleque terminasse com essa vogal.~scol~ do nome sociedade apenas há catorze ou quinze meses, tendo passado cin-
yictor. Esse nome ficou-lhe, e quando é pronunciado em voz alta, co ou seis deles entre surdos-mudos, já estivesse em condições de
ele raramente deixa de virar a cabeça ou de acorrer. Talvez seja falar! Não só isso não deve ser; mas cumprirá, para alcançar esse
ainda pela mesma razão que mais tarde ele compreendeu o signifi- ponto importante de sua educação, muito mais tempo, muito mais
cado da negação non*, que costumo utilizar para fazê-Io corrigir trabalho do que são precisos a menos precoce das crianças. Esta
seus erros, quando se engana em nossos pequenos exercícios. não sabe nada; mas possui num grau eminente a suscetibilidade de
I!I
Em meio a esses desenvolvimentos lentos, mas sensíveis, do aprender tudo; tendência inata à imitação; flexibilidade e sensibi-
órgão do ouvido, a voz continuava muda e recusava emitir os sons lidade excessivas de todos os órgãos; mobilidade incessante da
articulados que o ouvido parecia apreciar; entretanto, os órgãos língua; consistência quase gelatinosa da laringe; tudo, numa pala-
II vocais não apresentavam em sua conformação exterior nenhum vra, tudo concorre para produzir nela esse chilreio contínuo, apren-
dizado involuntário da voz também favorecida pela tosse, pelo
vestígio de imperfeição, e não havia motivo de imaginar alguma
em sua organização interior. É verdade que se vê na parte superior espirro, pelos gritos dessa idade e mesmo os choros, pelos choros
e anterior do pescoço uma cicatriz bastante extensa, que poderia que se devem considerar não só os indícios de uma viva excitabili-
lançar alguma dúvida sobre a integridade das partes subjacentes, dade.mas também um móbil poderoso, aplicado sem descanso e
se não se fosse tranqüilizado pelo aspecto da cicatriz. Ela anuncia, nas horas mais oportunas aos desenvolvimentos simultâneos dos
na verdade, uma ferida feita por um instrumento cortante; mas, ao órgãos da respiração, da voz e da fala. Que me concedam essas
ver sua aparência linear, é-se levado a crer que a ferida era apenas grandes vantagens e respondo por seu resultado. Se reconhecem
tegumentária e que se reuniu de uma só vez ou, como se diz, por comigo que já não se deve contar com isso na adolescência do
primeira indicação. É de presumir que uma mão, mais disposta do jovem Victor, que concordem também com os recursos fecun-
que acostumada ao crime, terá querido atentar contra os dias da- dos da Natureza, que sabe criar para si novos meios de educação
quele menino e que, deixado como morto nos bosques, ele terá quando causas acidentais vêm a privá-Ia daqueles que ela primi-
devido apenas aos socorros da natureza a pronta cura de sua feri- tivamente dispusera. Eis, pelo menos, alguns fatos que podem
da; o que não poderia ter-se efetuado de modo tão feliz se as par- fazer esperá-Io.
tes musculosas e cartilaginosas do órgão da voz tivessem sido di- Eu disse, no enunciado desta quarta meta, que me propu-
vididas. nha a conduzi-Io ao uso da fala, determinando o exercício da
imitação pela lei imperiosa da necessidade. Convencido, de fato,
* Não em francês. (N. da T.) pelas consideraçõesemitidas nestes dois últimos parágrafos e
6
li

RELATÓRIOI - DA EDUCAÇÃODEUMHOMEMSELVAGEMOUDOSPRIMEIROS ...


DESENVOLVIMENTOS
159
158 RELATÓRIOSDEJEANITARD

de sua boca antes da concessão da coisa desejada, estava tudo


por umaoutranãomenosconcludentequelogo exporei,quenão certo; o verdadeiro uso da fala fora apreendido por Victor; esta-
sedevia contar somentecom um trabalhotardio da parte da la- belecia-se um ponto de comunicação entre ele e eu, e os progres-
ringe, eu devia agir de tal modo que a ativassecom a isca dos sos mais rápidos decorreriam desse primeiro sucesso. Em vez de
objetosnecessáriosàssuasnecessidades. Eu tinha motivospara tudo isso, eu acabava de obter apenas uma expressão, insignifi-
crer que,como a vogal o foi a primeira ouvida,seriaa primeira
cante para ele e inútil para nós, do prazer que sentia. A rigor, era
pronunciada;e achei muito vantajosoparameu plano que essa mesmo um sinal vocal, o sinal da posse da coisa. Mas aquele,
mera pronunciaçãofosse,ao menosquanto ao som, o sinal de
repito, não estabelecia nenhuma relação entre nós; devia ser logo
uma das necessidadesmais comunsdessemenino. Entretanto,
posto de lado, pela própria razão de ser inútil às necessidades do
nãopudetirar nenhumpartidodessafavorávelcoincidência.Em indivíduo e sujeito a uma profusão de anomalias, como o senti-
vão,nosmomentosemquesuasedeeraardente,eu seguravana mento efêmero e variável de que se tomara o indício. Os resulta-
frente dele uma canecacheiade água,gritandofreqüentemente dos subseqüentes dessa direção errada foram tais como eu os
eau, eau*; dando a caneca a uma pessoa que pronunciava a mes- temia. O mais das vezes era apenas na alegria da coisa que a
ma palavra ao lado dele, e eu mesmo a reclamando por esse meio,
palavra Zaitse fazia ouvir. Algumas vezes ocorria-lhe pronunciá-
o infeliz se atormentava em todos os sentidos, agitava os braços Ia antes e outras vezes logo depois, mas sempre sem intenção.
ao redor da caneca de uma maneira quase convulsiva, soltava
Tampouco atriQuQj!!ll'_qrtânciaà repetição espont~~_ea~t? ele
uma espécie de assobio e não articulava som nenhum. Seria de-
fazia dela,-~ÇLu~j~]: aind~,_l!.~~~ da noite qu~n~o velI1_a
sumanidade insistir mais. Mudei de tema, sem contudo mudar de acordar.
método. Foi sobre a palavra lait** que incidiram minhas tentati-
vas. No quarto dia dessa segunda tentativa fui bem-sucedido na Depois desse primeiro resultado, renunciei totalmente ao
medida de meus desejos, e ouvi Victor pronunciar distintamen- método pelo qual o obtivera; esperando o momento em que as
te, de uma maneira um tanto rude na verdade, a palavra lait, que circunstâncias me permitirão substitui-Io por outro que julgo mui-
repetiu quase em seguida. Era a primeira vez que saía de sua to mais eficaz, abandonei o órgão da voz à influência da imitação
boca um somarticulado,enãoo ouvi sema maisviva satisfação. que, embora fraca, não está porém extinta, a julgar por alguns
Fiz, não obstante, uma reflexão que diminuiu muito, aos meus pequenos progressos posteriores e espontâneos.
olhos, a vantagem desse primeiro sucesso. Foi apenas no mo- A palavra laitfoi para Victora raiz de doisoutrosmonossílabos,
mento em que, perdendo a esperança de conseguir, eu acabava Zae li, aos quais certamente associa ainda menos sentido. Há pouco
de verter o leite na xícara que ele me apresentava, que a palavra modificou o último acrescentando-lhe um segundo I e pronuncian-
lait escapou-lhe com grandes demonstrações de prazer; e ainda do-osamboscomo o gli da línguaitaliana.Ouvem-nofreqüentemente
foi somente depois que eu lho tivesse vertido de novo como re- repetir Zhi,lhi, com uma inflexão de voz que não deixa de ser doce.
compensa, que a pronunciou pela segunda vez. Vê-se por que É impressionanteg~e~l'_alatiza~°1.q~-~~~ as crian_~suma elas
esse modo de resultado estava longe de Tealizar minhas inten- s-íla~s mais difíceis de pronunciar, seja uma das primeiras que ele 11

ções; a palavra pronunciada, em vez de ser o signo da necessida- tenha articulado. Eu não estaria longe de acreditar que há nesse 1I

de, era, relativamente ao tempo em que ela fora articulada, ape- penoso trabalho da língua um tipo de intenção em favor do nome II

nas uma vã exclamação de alegria. Se essa palavra tivesse saído Julie,jovemsenhoritade onzea doze anos,que vempassaros do- 1111111]

mingos na casa da Senhora Guérin, sua mãe. É certo que neste dia I[

as exclamaçõesZhi,lhi, ficammais freqüentese se fazematé, se- I1

* A pronúncia em francês para eau (água) é ô. (N. da T.)


** Leite em francês. cuja pronúncia é Zé. (N. da T.)
gundo sua govemanta, ouvir durante a noite, nos momentos em que
'I
IIII
JJ II

160 RELATÓRIOSDEJEANlTARD I
RELATÓRIO I - DAEDUCAÇÃODEUMHOMEMSELVAGEMOUDOSPRlMEIROSDESENVOLVIMENTOS... 161

I
há razões de se acreditarque ele dorme profundamente.Não se pod~ isso, é Oprimeiro a descer e puxa sozinho o cordão da porta. Ten-
I
determinar ao certo a causa e o valor deste último fato. Há que espe- do chegado ao Observatório, seu primeiro cuidado é pedir leite; o
rar que a puberdade mais avançada nos tenha fornecido, para que faz apresentandouma gamela de madeira, que nunca esquece,
classificá-l o e para explicá-Io, um maior número de observações. A ao sair, de pôr no bolso e da qual se muniu pela primeira vez no 1,,1
última aquisição do órgão da voz é um pouco mais considerável e dia seguinte àquele em que havia quebrado, na mesmacasae para I
composta de duas sílabas que valem bem três pela maneira que ele o mesmo uso, uma xícara de porcelana.
pronuncia a última. É exatamente oh Dieu!* que aprendeu com a Aí também, para tornar mais completos os prazeres de suas
Senhora Guérin e que deixa freqüentemente escapar em suas gran- tardes, tiveram, faz algum tempo, a bondade de transportá-Io num
des alegrias. Pronuncia-a suprimindo o u de Dieu e enfatizando o i carrinho de mão. Desde então, assim que é tomado pela vontade,
como se fosse duplo, de maneira que o ouvimos gritar distintamen- se ninguém se apresenta para satisfazê-Io, ele entra em casa, pega
te: oh Diie! oh Diie! O o que encontramos nessa última combinação alguém pelo braço, leva-o ao jardim e põe-lhe entre as mãos as
de som não era novo para ele, e eu havia conseguido algum tempo varas do carrinho, no qual se instala imediatamente; se resistem a
antes fazê-Io pronunciá-lo. esse primeiro convite, sai do assento, retoma às varas do carrinho,
Eis, quanto ao órgão da voz, o ponto em que estamos. Vê-se faz que dêem algumas voltas e vem instalar-se de novo, imaginan-
que todas as vogais, com exceção do u, já entram no pequeno nú- do decerto que, se seus desejos não são realizados, não é por falta
mero de sons que ele articula e que nele encontramos apenas três de tê-Ios manifestado claramente.
consoantes, I, d e I palatizado. Esses progressos sem dúvida são Trata-se de jantar? Suas intenções são ainda menos duvido-
~I,
muito fracos, se os comparamos aos exigidos pelo desenvolvimento sas. Ele mesmo põe a mesa e apresenta a Senhora Guérin as tra-
I"
completo da voz humana, mas pareceram-me suficientes para ga- vessas, que ela deve levar à cozinha para pegar seus alimentos. Se
rantir a possibilidade desse desenvolvimento. Expus acima as cau- é na cidade que ele janta comigo, todos os seus pedidos se dirigem
sas que devem necessariamente torná-Io longo e difícil. Há mais à pessoa que faz as honras da mesa; é sempre a ela que se apresen-
uma que não deixará de contribuir para isso e que não devo deixar ta para ser servido. Se fingem que não o entendem, ele coloca seu
passar em silêncio. ..!ta-Íag!i<tade..qlle .2_~ selYag~m tem de prato ao lado da comida, que devora com os olhos. Se isso não
expre~~~!:,de outr.2..!!!odo.9.!!.~I}ã.opelaJa1a,_Q.pequeno~ro..de resulta em nada, pega um garfo e bate-o duas ou três vezes na
~uas nec.essidadesl1. Cada uma de suas vontades se pla,nifesta..~ borda da travessa. Insistem ainda? Então já não mantém comedi-
~os mais expressivos sinais~QdQ...çomo os nos- mento; mergulha uma colher ou mesmo sua mão na travessa e,
sos, s_uasg!:~d~ções e sua sinonímia. Chegou a hora do passeio, num piscar de olhos, esvazia-a inteira em seu prato. Não é muito
~e[ese apresenta várias vezes diante da vidraça e diante da porta de m~nos expressivo n~.E1a~~irade demonstrar. as-,lf.~içQ.e~Qe_su~
seu quarto. Se então percebe que sua governanta não está pronta, <Y1!!a;sobr~o técUo.Inúmeros curiosos sabem
aimpaciêJ.1.c:.~flJ!Q
dispõe na frente dela todos os objetos necessários para sua toalete como, com mais franqueza natural do que polidez, ele os manda
e, em sua impaciência, chega mesmo a ajudá-Ia a vestir-se. Feito embora, quando, cansado com a duração de suas visitas, apresenta
a cada um deles, e sem equívoco, sua bengala, suas luvas e seu
chapéu, empurra-os suavemente para a porta, que fecha em segui-
* Ó Deus, cuja pronúncia é 6 Diê. (N. da T.)
da impetuosamente sobre elesl2.
11. Minhas observações confirmam ainda, sobre esse ponto importante, a opinião
de Condillac que diz, falando da origem da linguagem dos sentidos: "A linguagem de
ação, então tão natural, era um grande obstáculo para superar; poder-se-ia abandoná-Ia
por uma outra cujas vantagens não se previam e cuja dificuldade se fazia sentir tão 12. É digno de nota que essa linguagem de ação lhe é inteiramente natural e que, já
bem?".
nos primeiros dias de sua entrada na sociedade, empregava-a da maneira mais expressi-

...............
162 RELATÓRIOS DE JEANITARD RELATÓRIO 1- DA EDUCAÇÃO DE UM HOMEM SELVAGEM OU DOS PRlMElROS DESENVOLVIMENTOS '" 163

Para completar a história dessa linguagem com pantomimas, não a impedir. Ocorrerá talvez nem mais nem menos o que acon-
devo dizer ainda que Victor a entende com a mesma facilidade tece à criança que primeiro balbucia a palavra papai, sem lhe vin-
com que a fala. Basta a Senhora Guérin, para enviá-lo buscar água, cular nenhuma idéia, sai dizendo-a em todos os lugares e em qual-
mostrar-lhe a moringa e fazê-Io ver que está vazia dando ao reci- quer outra ocasião, a dá depois a todos os homens que vê e só
piente uma posição invertida. Um procedimento análogo basta- consegue depois de uma profusão de raciocínios e mesmo de abs-
me para incentivá-Io a servir-me de beber quando jantamos juntos trações dar-lhe uma única e exata aplicação.
etc. Mas o que há de mais espantoso na maneira pela qual se pres-
ta a esses meios de comunicação é que não há necessidade de ne-
nhuma lição preliminar, nem nenhuma convenção recíproca para
se fazer entender. Convenci-me disso um dia com uma experiên-
cia das mais concludentes. Escolhi, entre uma infinidade de ou-
tros, um objeto sobre o qual me assegurei de antemão que não
existia entre ele e sua govemanta nenhum sinal indicador. Era o
caso, por exemplo, do pente que utilizavam para ele e que eu quis
que me trouxesse. Eu estaria bem enganado se, eriçando meus ca-
belos em todas as direções e apresentando-lhe assim minha cabe-
11' ça em desordem, não tivesse sido compreendido. Fui, de fato, e
li!.
II logo tive entre as mãos o que eu pedia.
1i
Muitas pessoas vêem em todos esses procedimentos só o
'i; modo de agir de um animal; quanto a mim, confessarei, creio re-
conhecer aí, em toda a sua simplicidade, a linguagem de ação,
essa linguagem primitiva da espécie humana, originalmente em-
\j'
pregada na infância das primeiras sociedades, antes que o traba-
.< I Q lho de vários séculos tivesse coordenado o sistema da fala e fome-
'v \{
~ \_, i cido ao homem civilizado um fecundo e sublime meio de aperfei-
çoamento, que faz desabrochar-lhe o pensamento mesmo em seu
f berço, e que ele emprega toda a vida sem apreciar o que é para ele,
e o que ele seria sem esse meio se ficasse acidentalmente privado
dele, como no caso que nos ocupa. Decerto virá um dia em que
necessidades mais multiplicadas farão o jovem Victor sentir a ne-
cessidade de usar novos signos. O emprego defeituoso que ele faz
de seus primeiros sons poderá mesmo retardar essa época, mas

va, "Quando teve sede", disse o cidadão Constant-Saint-Esteve, que o viu no início des-
sa época interessante, "levou seu olhar à direita e à esquerda; tendo avistado uma moringa,
põe minha mão na sua e conduziu-me para a moringa, na qual bateu com a mão esquer-

.
da, para pedir-me de beber. Trouxeram vinho que ele desdenhou demonstrando impa-
ciência pela demora que eu mostrava em dar-lhe água",